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mês de junho assinala o terceiro aniversário da Ultraje e também a estreia da Ultraje Brasil, uma nova publicação direcionada ao mercado brasileiro que, por enquanto, estará disponível apenas no formato digital. A Ultraje Brasil irá absorver muito do conteúdo que é apresentado na versão original com os textos sendo adaptados ao Português do Brasil, e produzirá de igual forma conteúdos exclusivos. A banda brasileira Nervosa é a primeira a vestir a capa da Ultraje Brasil e a entrevista com a guitarrista Prika também pode ser lida nas páginas desta edição. Entre as várias novidades que temos anunciado, está também a renovação do design da revista, a inclusão de novos conteúdos e a exclusão das reportagens ao vivo que, de forma a manterem-se atuais, vão passar a residir no nosso website. Na Ultraje todas as edições são comemorativas e especiais, e gostamos de pensar que em momento algum atravessamos um fim de ciclo por estarmos sempre em constante renovação. Obrigado por estarem desse lado e nos cabe assegurar que continuaremos a trabalhar em diferentes formas de trazer o metal até vocês! Estávamos em 2015, a menos de um mês do lançamento de “Meliora”, e Tobias Forge nos dizia que o seu maior receio era que o público descobrisse a identidade dos Ghost e perdesse assim todo o interesse pelo trabalho da banda. Depois de muita especulação em torno da identidade do nosso Papa favorito, já não é segredo nenhum que é Tobias Forge quem tem assumido as várias reencarnações do Papa Emeritus (agora Cardinal Copia) que passaram pelo fenômeno Ghost, tendo agora em “Prequelle” o derradeiro teste à sua preocupação: será que o público vai perder interesse somente devido ao fato do background musical do compositor sueco ter sido tornado público? Vamos descartar o trabalho que fez e a forma como - goste-se ou não - dominou a cena metal apenas por ter feito parte de bandas cuja personalidade visual (ou até musical) não vai ao encontro do que faz com os seus Nameless Ghouls? O tempo, como sempre, trará respostas a todas estas questões. Contudo, e independente do que possa estar reservado para os Ghost nos próximos tempos, Tobias Forge e os seus discípulos deixaram já uma forte marca na cena metal internacional e serão, com toda a certeza, tidos como um dos nomes que definiu esta geração do metal.

CONTEÚDOS

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NERVOSA

HUMANIDADE EM DECLÍNIO

22

26

GHOST

Editor 06 - ULTRAJE BRASIL #01

KATAKLYSM


ÍNDICE ENTREVISTAS

14 Siriun 15 Imperious Malevolence 16 Gaerea 17 The Konsortium 18 Nervosa 22 Ghost 26 Kataklysm 28 Uada 29 Orange Goblin 30 Yob 32 Filii Nigrantium Infernalium 33 Powerized

CONTEÚDOS

08 Kvlt Express 10 Cena Metal Angola 11 Bloco Operatório 12 Bruce Dickinson 34 Lobos Que Foram Homens 35 Metal LGBT 37 Tool "Lateralus": Do Chumbo ao Ouro 38 Reviews

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Ultraje Apartado 527 EC Ovar 3880 Ovar Portugal WEBSITE:

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YOB

Almir Cutrim Costa Junior , Andreia Teixeira, Carlos Pinto, Cátia Cunha, Diogo Ferreira, Diogo Lourenço, Fernando Reis, Gonçalo L. Matias, Ivo Conceição, Jaime Ferreira, João Correia, Joel Costa, Jorge Almeida, José Branco, José Matos, Luís Lopes, Pedro Félix da Costa, Raquel Nunes Silva, Ricardo Rodrigues, Rui Vieira, Suzana de Oliveira, Tiago Neves, Vânia Matos


STREAMBLEED

«”Enslave The World Forever” fala sobre resistir a um Estado de vigilância e questiona o caminho que a sociedade está a tomar». É este o tema central do álbum de estreia dos austríacos Streambleed, que têm como objetivo máximo trazer o groove metal de volta: «Somos influenciados predominantemente por bandas de groove americanas como Lamb Of God, Pantera, Machine Head ou DevilDriver», dizem-nos. «A sonoridade da banda foi criada recorrendo a um largo espectro de influências, pois cada um dos membros tem gostos diferentes.» [JC]

BRUTAL KRAUT

Segundo o baterista Marlin Constantin, o mais importante para a banda germânica de death metal é «surpreender as pessoas com algo novo», pois «não há nada mais chato do que ouvir uma dessas músicas genéricas em que já sabes onde vão aparecer os breaks e os hooks». O músico acrescenta: «Não somos uns desses tipos “trve metal”, que se isolam numa determinada direção musical. Ouve o nosso álbum e percebe logo que as nossas influências vão desde o power metal ao black metal.» [JC]

CARRION

«AGORA TEMOS ALGO A QUE PODEMOS CHAMAR DE “NOSSO ESTILO”.»

“Time to Suffer”, dos belgas Carrion, chega às lojas dia 22 de Junho e o guitarrista Jan Van den Berghe dá-nos razões de sobra para não deixarmos que este lançamento nos passe ao lado: «É um disco mais coerente que o nosso álbum de estreia, “Revelations”. Agora temos algo a que podemos chamar de “nosso estilo”. É mais rápido, pesado, tem mais blastbeats, breaks e hooks, mas tudo isto sem esquecer a melodia e com riffs em doses suficientes para abanar a cabeça.» Os fãs podem, portanto, esperar um álbum enérgico: «Há uma interação entre as partes que são mais rápidas e os riffs que potenciam um headbanging mais lento. São temas rápidos que atraem o ouvinte, trazendo toda a sua energia à tona até que explode num grande, pesado e ligeiramente épico riff que deixa quem o ouve satisfeito. Também tentamos apresentar partes mais lentas ou até uma curta música instrumental apenas para captar a atenção do ouvinte e deixá-lo recuperar o fôlego entre as faixas.» Como ambição, a banda de death metal tem a esperança de «abrir novas portas e territórios com este novo álbum». «Tem sido complicado agendar shows fora da Bélgica e gostaríamos de tocar em palcos maiores. Talvez até uma tour europeia.» «O mais importante», considera, «é nos divertirmos com o que fazemos». Berghe, que cita Lamb of God como uma das suas bandas favoritas, diz-nos que os norte-americanos «apresentam um estilo de metal muito moderno que todos podem apreciar». «Também temos como influência os Aborted, que são o orgulho da Bélgica. A forma como misturam brutalidade com riffs pesados e cheios de groove sempre foi uma influência para a nossa música.» Mas há mais: «Pessoalmente, o Ola Englund [Feared, The Haunted] é uma grande inspiração. A sua abordagem à composição, riffs, som de guitarra... É um músico do qual gosto muito no geral.» A banda prepara agora vídeos e merchandising para promover o novo lançamento. Os Carrion vão ainda marcar presença na edição deste ano do Antwerp Metal Fest. [JC]

BLUT

«”Inside My Mind Part II” foi a segunda parte de um álbum conceitual sobre doenças mentais», diz-nos o fundador Alessandro Schümperlin a respeito da sua mais recente proposta. «O nosso objetivo era assinar com uma editora e acabamos por assinar com duas», revela, «e agora passa por levar a nossa música à Europa». O baixista Fabio Attacco acrescenta: «Todos nós vimos de cenas musicais diferentes: do industrial ao gothic, do power e sinfônico ao hardrock e psicadélico, passando até pelo punk rock.» [JC]

CROSSBONES

SCARLET

Os albaneses Crossbones têm em “WWIII” o seu mais recente trabalho, que surge duas décadas depois do álbum de estreia “Days of Rage”. Inspirado nos recentes eventos e conflitos globais, o carismático líder Olsi Ballta aprofunda sobre o conceito por trás desta obra: «Fala sobre os horrores da guerra, mas também sobre a esperança que vem com ela», começa por dizer. «É um disco que combina o thrash metal americano com uma sonoridade mais negra e típica dos países do Leste da Europa.» Alcançado o objetivo de assinar um contrato que lhes permitisse editar o disco a nível mundial, os Crossbones elevavam desta forma a fasquia para as bandas de metal na Albânia: «Fomos os primeiros a atingir este feito no nosso país», confirma o músico, «e queremos promover o álbum ao nosso máximo para que as pessoas fiquem conhecendo não só os Crossbones mas também a Albânia.» Depois de uma extensa promoção a “WWIII”, os Crossbones preparam-se para gravar o seu sucessor: «Provavelmente vamos entrar em estúdio no final do ano e lançar o novo disco no início de 2019.» «O melhor ainda está para vir», assegura. [JC]

É da Polónia que nos chegam os Scarlet, que com o seu álbum de estreia homônimo trazem-nos a recordação das velhas glórias do hardrock e heavy metal: «A ideia com “Scarlet” é reviver a energia do heavy metal clássico dos anos 1980, mas de uma forma nova e fresca», explicam. «Cada um de nós tinha uma ideia de como haveria de soar, pelo que misturamos tudo e foi assim que chegamos a este resultado.» Aqui poderemos encontrar velocidade, groove, baladas e não só: «O mais importante para nós é a melodia, pelo que ao invés de tocarmos mil riffs que não fariam sentido nenhum na música, mantivemos a composição simples e ainda assim fora do normal. Estou certo de que todos os fãs de heavy metal com uma alma verdadeiramente rock n’ roll irão encontrar algo de interessante neste disco», finaliza. Sobre o futuro, os Scarlet confessam que querem «dar o maior número de shows possível». «O objetivo da música é partilhar paixão e alegria com outros, e quantos mais melhor! O nosso foco está nos shows ao vivo mas também queremos gravar um vídeo e gravar um novo disco.» [JC]

08 - ULTRAJE BRASIL #01


ANGELIC DESOLATION

BLACK FOREST

Representando a cidade de Denver, do estado do Colorado, os norte-americanos Angelic Desolation apresentaram no final de Maio o longa-duração de estreia “Rumpus Time is Over”, um título que, de acordo com o guitarrista Matt Markle, vai ao encontro do estado em que a banda se encontrava naquele momento: «Tivemos alguns problemas com bateristas que nos atrasaram um pouco na composição deste material», relata. «O alinhamento atual da banda é sólido e foi o nosso primeiro disco com um segundo guitarrista. Essencialmente estamos aqui para ficar e este álbum está acima dos nossos trabalhos anteriores.» Encontrada a solidez de que necessitavam, o céu é o limite: «Abrimos algumas datas regionais para a SummerSlaughter Tour de 2016 [tour dos Cannibal Corpse, onde se fizeram acompanhar por nomes como Nile, After the Burial, Suffocation, Carnifex, Revocation e Krisiun] e para a Bloodletting XI Tour do ano seguinte [com Origin ou Archspire]», explica. «Este ano vamos abrir o Devastation On The Nation [Aborted como cabeças-de-cartaz] e também assinamos um contrato discográfico com a polaca Via Noturna.» [JC]

«Ouvia muito death metal melódico e folk metal», diz-nos Thomas Reichhart, o guitarrista e responsável pela orquestração dos austríacos Black Forest. «Para além disso, tocava piano desde a escola primária e uma vez até fiz um show com uma orquestra. Tive também a sorte de participar na promoção de “Moment of Glory”, do Scorpions, onde toquei ao vivo com eles em Hannover, e cheguei a um ponto em que quis combinar tudo isto e compor uma espécie de “ópera metal” e convertê-la em álbum.» Era assim que “Dream”, o único disco do catálogo dos Black Forest, via a luz do dia. «”Dream” é como uma jornada através da sua mente», explica, «apresentando momentos felizes mas também horríficos, como se de um sonho se tratasse. O objetivo era criar um som denso, mas que fosse agradável de se ouvir, incluindo também elementos psicodélicos. Passamos milhares de horas nos últimos anos a aprimorar cada nota de centenas de faixas orquestrais. Foi bem claro para nós que queríamos destacar-nos com o nosso álbum de estreia». Atualmente, os austríacos estão desenvolvendo o merchandising da banda e resta-lhes «ensaiar, ensaiar e ensaiar». [JC]

DEAD INCEPTION

SANKTA KRUCO Sankta Kruco é a fusão entre o romancismo e uma sonoridade melancólica e sombria, com a particularidade de ser entoado em línguas arcanas, como nos revela o seu fundador: «Sempre senti fascínio pelo poder evocativo das línguas arcanas, como o aramaico ou o latim. Isso, aliado a um som poderoso, consegue envolver o ouvinte de uma forma muito especial.» Com ambas as línguas caídas em desuso, e sob o risco de não conseguir passar a sua mensagem, o rosto por trás de Sankta Kruco encontrou uma solução: «No tema “Ultio Matris Terris”, por exemplo, disponibilizei a tradução da letra em inglês pois as minhas letras são fundamentais. Também escrevo romances e a mensagem é sempre importante para mim. Tudo farei pelas minhas músicas.» O romancista que dá nome ao seu projeto fala também sobre a transição dos romances para a música: «Muitas vezes sinto necessidade de escrever livros de forma a expressar os meus pensamentos num espaço menos limitado, como é o caso de uma letra de uma música», revela. «Ao mesmo tempo, as minhas mensagens estão sempre relacionadas com a defesa e o respeito pela Natureza, a importância da História, a minha visão da religião... Tudo isso precisa de uma banda-sonora poderosa. O metal é poder puro.» Recentemente, o músico lançou os singles “Sulfuran” e “Foresta Nigra”, dois temas que nos dão uma boa perspectiva do que nos poderá aguardar num futuro longa-duração: «Parafraseando o que uma das pessoas que me segue disse a respeito do meu trabalho, temas como “Sulfuran” e “Foresta Nigra” parecem arrastar o ouvinte para o inferno, enquanto que temas como “Serpenton” ou “Ultio Matris Terris” parecem vir do pai eterno. Digamos que será um disco profundo; em “Sulfuran” discute-se a dúvida sobre a religião, enquanto em “Foresta Nigra” falo sobre a prisão psicológica que às vezes sentimos. Já em “Vlad the Lord of Bran” falo da importância de uma figura controversa, mas muito importante para os meus seguidores romenos. Será um disco focado na religião, na História e na Natureza, que vem-nos chamando à atenção devido à nossa falta de respeito.» [JC]

«Para “Constructs of Decay” fomos em força com goregrind death metal, a debitar guturais doentios e a pegarmos em tudo o que tínhamos composto até então para criar um álbum de 30 minutos com 25 músicas.» É desta maneira que Chad Hill começa por descrever a nova proposta dos Dead Inception. O vocalista, guitarrista e baixista prossegue: «Tínhamos tantas músicas quando entramos em estúdio que correu tudo de forma tranquila. Gravamos todos os temas seguidos para que fluíssem o melhor possível e neste álbum os fãs poderão ouvir-nos na nossa forma mais crua.» [JC]

HAUNTED É Cristina Chimirri, vocalista dos doomsters italianos Haunted, quem tem a palavra para falar daquele que é o seu segundo álbum “Dayburner”: «É uma projeção da existência de outra dimensão; é um manto que separa, mas que une inevitavelmente; é um espaço vazio; é a desintegração das geometrias.» «Desta vez», acrescenta, «trilhamos um caminho vertical e ascensional com as nossas próprias mãos: queríamos estar no ponto mais alto para vermos a negritude do abismo.» Tudo o que os Haunted querem é ser compreendidos: «Não temos ambições, mas sim aspirações. Queremos atirar uma pedra o mais longe possível pelo mar que é os nossos ouvintes e vê-la a fazer ondas para depois afundar-se.» [JC]

09 - ULTRAJE BRASIL #01

ACONTEÇA O QUE ACONTECER.

N

um assunto completamente diferente, hoje vamos falar de BOLA. Sim, de futebol. Sou Vitória Futebol Clube. Nascido e criado em Setúbal, fiz esporte no clube e pasmem: fui goleiro nos infantis e juvenis. Carreira "brilhante" interrompida por uma ida para o Conservatório Regional de Música, para aprender piano e guitarra clássica, ou viola (como preferirem). Os meus pais não ligam para futebol, então um dos meus primos e padrinhos me levaram a um célebre "Vitória x Benfica" para que eu me tornasse "Benfica". Infelizmente para ele, o Vitória ganhou 5-2, e desceu de divisão nesse mesmo ano... Pois a promessa seria "quem ganha do Benfica, desce de divisão". Como a maior parte da nossa vida (aqui no Ocidente) é regida por dinheiro e interesses econômicos, aprendi uma valente lição: "Quem mais tem, mais manda". Não tenho mais nenhum clube, e quando me perguntam "e dos grandes, torce para quem?", "sou do Vitória" é, inevitavelmente, a resposta. Consigo ter simpatia por A, B ou C mas não quero saber de mais nenhum dos clubes sem ser o meu, o da minha cidade, onde cresci, onde aprendi a tocar e onde vivi ainda a maior parte da minha vida até hoje. Após os trágicos acontecimentos nos anos 1980 com os clubes "grandes", a tragédia no Jamor, o trágico atropelamento no Estádio da Luz, agora, com os recentes acontecimentos também por si trágicos, o Governo assobia para o lado e diz que é um problema "único" e do "Sporting". A decadência do futebol em Portugal não pode ser negada. A corrupção, o crime, a má fé e a violência já é em muito superior ao esporte, fairplay e Humanismo que deverá conduzir a nossa vida sempre enquanto estivermos neste planeta. Sei que há clubes e torcedores diferentes, e a maior parte abomina este tipo de coisas, mas não estaremos todos (eu muito) alimentando esta indústria destrutiva que já supera em tudo (de mau) a religião organizada em Portugal? Qual é a nossa cota nisto? Qual é a nossa culpa enquanto portugueses, torcedores e pessoas? Será que é só para "tirarmos sarro" com o insucesso do clube alheio? Não existem valores mais altos? Não levarei o meu filho a um estádio de futebol para ver um jogo seja de quem for, nem Vitória, nem de outra equipe qualquer, pois, além do receio que tenho, não quero alimentar mais uma pessoa com tanta negatividade. Estaremos mudando enquanto país?

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D

iz a História que em 1482 chegou à foz do rio Congo uma frota portuguesa comandada por Diogo Cão. Seguidamente, realizou-se uma lenta cristianização e a introdução de elementos culturais europeus, até que em 1575 fundou-se uma feitoria em Luanda; em outras palavras, foi este o ponto de partida para o domínio total do território que se viria a chamar Angola. O povo angolano reivindicaria a sua emancipação a partir de 1961 ao estourar a Guerra de Independência de Angola, conflito que se estenderia até 1974, ano em que na metrópole Lisboa se dava a Revolução dos Cravos, que punha fim ao regime ditatorial de Salazar/Caetano. A revolução angolana atingiria os seus intentos em 1975, ao ser proclamada a independência de Angola através do Acordo do Alvor. Todavia, este processo acabou por não ser pacífico a nível interno, pois o país africano mergulhou numa Guerra Civil iniciada em 1975 e terminada apenas em 2002. Mais: o povo angolano não conhece outro regime que não o do MPLA, mas nesse ponto tocaremos mais à frente. Nação do kizomba e do kuduru, a verdade é que o rock n’ roll já proliferava na Angola nos anos 1960 como tem sido mostrado em vários documentários independentes e como afirma Yannick Merino, baterista da banda black metal Horde of Silence, quando questionado sobre como é que ele e os amigos descobriram o heavy metal: «O estilo rock já existe na Angola desde os anos 1960, sendo que a vertente metal apareceu nos anos 1990 através da televisão e de algumas pessoas que viveram fora de Angola e trouxeram músicas para mostrarem ao pessoal.» Por seu lado, Henriques Chitumba, baixista e vocalista dos thrashers Dor Fantasma, não foge muito à ideia do compatriota: «Na Angola, o rock/metal nunca foi e ainda não é um estilo totalmente aceitável e consumido por um grande número de pessoas. O gênero já esteve inserido no critério musical angolano antes da guerra civil, através de músicos que misturavam blues com ritmos tradicionais angolanos, mas foi a partir da década de 1990 que surgiu uma maior abertura para o acesso a músicas extremas, e muitas delas foram abrindo o nosso horizonte musical até nos familiarizarmos com o metal e defender o conceito.» Yannick e os amigos descobriram o metal através de conhecidos, da televisão – «quando a MTV era realmente um canal de música [risos]» – e consequentemente com a Internet, recordando os tempos antes de Horde of Silence: «Todos começamos com outras bandas e, ao longo do tempo, começamos a apreciar cada vez mais estilos mais pesados; quando demos conta já estávamos a ouvir e a tocar metal extremo. Gostamos do estilo por se tratar de uma sonoridade agressiva, rápida e tecnicista – faz soltar o animal que há em nós que está aprisionado durante tanto tempo com o desejo de sair.» Se visitarmos o website Metal-Archives e pesquisarmos por Angola apenas são retornadas quatro bandas, o que nos leva a perceber que o estilo não está realmente impregnado nesse país, mas que também nos faz calcular a dificuldade que é gravar e lançar um disco de heavy metal. «Gravar um disco de metal na Angola é extremamente complicado, sendo que não existem produtores de rock», confirma Yannick, dizendo mesmo que «99,9% [dos produtores] estão voltados para semba, kizomba, rebita, rap e hip-hop». «Quando vamos gravar temos ainda que ‘ensinar’ aos produtores o que devem fazer», diz. Chitumba não fala nas capacidades dos produtores, mas sim na dificuldade que é encontrar infraestruturas aptas para a captação e desenvolvimento de música pesada: «A maior e principal dificuldade em ter um registro digital com qualidade tem sido o acesso ao estúdio que para nós tem

melhores condições técnicas para se fazer metal, que está a 700km da nossa cidade. E por causa dos nossos empregos tem sido complicado programar férias em conjunto para ir gravar, mas aos poucos vamos lá e registramos sempre alguma coisa até finalizar o nosso primeiro álbum.» Atualmente, os seus Dor Fantasma apenas aparecem no split “You Failed… Now We Rule!!!” partilhado com Before Crush, Fiona, Eternal Return e Horde of Silence. Organizar shows também não é fácil ao referir que é preciso efetuar um «trabalho mental nas pessoas que podem ir ver de perto as bandas, e muitas gratuitas, mas não vão aos shows», mesmo assim os Dor Fantasma fazem por não estar quietos ao assegurar que têm vindo a realizar muitas gigs. Para os Horde of Silence, que também têm apenas o mencionado split na sua discografia, organizar eventos é igualmente complicado, tendo em conta que, como diz o baterista, «quase ninguém patrocina o rock, especialmente na capital Luanda», problema que contornam ao praticar a atividade através dos próprios meios. Voltando ao regime governamental vigente em Angola, que é comandado pelo MPLA, chegam a Portugal relatos de censura e perseguição, sendo o caso de Luaty Beirão o mais gritante. Sublinhando que a Ultraje abordou ambas as bandas de Benguela com a premissa de que o heavy metal em geral sempre foi um modo de vida livre e interventivo, Yannick Merino explica que «censura vai haver sempre» e que eles próprios, enquanto músicos, estão sujeitos a isso, até porque «o rock ainda não é bem visto aos olhos da sociedade angolana». Porém congratula-se ao revelar que estão esforçando-se para «transmitir que o rock não é só barulho», mas que é «paz, harmonia e amor». Mais uma vez, a visão da outra parte representada por Chitumba é semelhante ao corroborar que há de «chegar o dia em que as pessoas irão acordar para a entrega ao amor ao próximo e respeito pela coisa alheia», lutando sempre pela «defesa da questão democrática como sendo um campo de batalha aberto» ao saber «que no mundo em que vivemos existe, e sempre existirá, um ‘sistema’ poluidor de mentes». Com todo este caminho ziguezagueante para percorrer, o membro dos Dor Fantasma pretende viver a sua música a cada segundo que é tocada, seja em palcos nacionais ou internacionais, pois, como diz alegremente, «os nossos dedos respiram essa viagem e liberdade musical». E continua poeticamente: «Queremos trazer para Angola uma variante do rock que nos liga e ao mesmo nos separa de tudo o que conhecemos, ser uma cicatriz dentro dos corações e mentes de qualquer pessoa que ouça e veja o que temos vindo a fazer.» A nível discográfico os planos estão voltados para o registro digital e audiovisual, bem como para a aprendizagem e ensinamento da educação musical de modo a criar-se «uma geração bem preparada para defender o conceito metal». «Estar no palco na Angola e pelo mundo afora sempre será uma experiência prazerosa», conclui. Do lado dos Horde of Silence, Merino planeia a gravação de um EP e a realização de mais shows, finalizando a conversa epicamente: «Em frente é o caminho, mesmo com obstáculos queremos quebrar todas as barreiras existentes.»

«NA ANGOLA, O ROCK/METAL NUNCA FOI E AINDA NÃO É UM ESTILO TOTALMENTE ACEITÁVEL E CONSUMIDO POR UM GRANDE NÚMERO DE PESSOAS.» Henriques Chitumba (Dor Fantasma) 10 - ULTRAJE BRASIL #01

Horde of Silence

Dor Fantasma

Há muito mais para se descobrir em Angola. Destacamos três exemplos: NEBLINA Innocence Falls in Decay [2006] O single “Os Filhos Da Pátria” é uma porta aberta para a situação que se vivia em Angola na época do lançamento do único álbum da banda de Luanda. Cantado em português, “Innocence Falls in Decay” é um heavy metal algo tímido mas verdadeiramente honesto. BEFORE CRUSH Idolos Ancorados [2010] De Benguela temos os Before Crush, que com o EP “Idolos Ancorados” oferecem-nos um metalcore narrado por histórias de guerra, pela história de Angola, entre outros assuntos. O vídeo para o single “A Bruxa” está disponível no YouTube e serve como cartão-de-visita. NOTHING 2 LOSE Breaking My Way [2011] Desaparecidos do circuito angolano, dos Nothing 2 Lose conhece-se o vídeo e respectivo single “Breaking My Way” e pouco mais. Apesar das más condições de gravação, a banda de metalcore de Benguela mostrava aqui que tinha algum potencial para ser explorado.


TEXTO: ALMIR CUTRIM COSTA JUNIOR

"A minha vida divide-se entre o meu amor pela música pesada e o meu amor por videogames. Foi o que me fez querer ter uma banda e, mais recentemente, foi o que me fez criar o meu canal de jogos no Youtube. Será que estes dois mundos são assim tão distantes? Ou será que são dois universos que podem andar em paralelo e que muitas vezes já se cruzaram?" TEXTO: MARCO FRESCO (MF GAMING/TALES FOR THE UNSPOKEN)

Em 1989 saiu “Holy Diver” para a NES, com o mesmo nome do álbum de 1983 do grande Dio. Apesar de nunca ter saído na Europa, por causa da conotação religiosa, é um jogo estilo Castlevania, com referências a bandas como Dio, Slayer, Zakk Wylde, etc.. Relembrando que nesta época os consoles eram de 8 bits e o som do jogo não dava para ser muito metal, pois a definição do som não permitia tal detalhe. Este foi, provavelmente, o primeiro jogo com referências ao heavy metal. Se falamos de jogos com referências metal, obviamente que não podíamos esquecer o “Doom”. Aclamado por muitos como um dos melhores jogos de sempre, a trilha-sonora feita por Robert Prince foi completamente baseada em nomes como Pantera e Alice In Chains. “Nuke Nuken 3D”, um jogo violento com um personagem cheio de carisma (um verdadeiro badass), sai em 1996. Obviamente que o acompanhou uma trilha-sonora cheia de clássicos do metal e até saiu deste jogo uma compilação em CD, que conta com temas de bandas como Megadeth, Slayer, Type O Negative ou Coal Chamber. E por falar em violência, quem não se lembra da trilha-sonora dos “Carmaggedon’s”? Logo o primeiro contava com Fear Factory mas, mesmo as sequelas, tiveram sempre heavy metal. Os lendários Iron Maiden soaram na sequela do jogo e o “TDR 2000” tem músicas do guitarrista John 5 (Rob Zombie/ex-Marilyn Manson). O Iron Maiden lançou “ED Hunter” em 1999. Os níveis enquadram-se de acordo com os álbuns da banda, e como exemplo refiro o nível do Egito para marcar "Powerslave". Este foi o jogo de uma banda com mais sucesso até então, mas os britânicos não ficariam por aqui e, em 2016, lançavam mais um jogo: “Iron Maiden: Legacy Of The Beast”. Entretanto houve quem lhes seguisse o exemplo: o Kiss, em 2000, com o jogo “Kiss: Psycho Circus, The Nightmare Child” ou o Metallica com o “Guitar Hero Metallica”. Em 1999 sai um dos melhores jogos de skates alguma vez feito: “Tony Hawk's Pro Skater”. Na trilha-sonora podemos encontrar nomes como Suicidal Tendencies, Motörhead, Anthrax e Rage Against The Machine. Para terminar, vou falar de mais dois jogos. O primeiro é “Guitar Hero” e os seus mais de 10 lançamentos, em que destaco dois: um deles é, claramente, o de Metallica. O outro é o “Guitar Hero 3” que tem em “Through The Fire and Flames”, do DragonForce, a música mais difícil do jogo e que apresenta ainda Megadeth e Kiss entre os temas disponíveis no repertório. Para último deixei o jogo mais metal de sempre: o “Brutal Legend”. Aqui jogamos com Jack Black, o famoso ator e vocalista/guitarrista de Tenacious D, e nós somos um roadie preso no mundo do heavy metal. Temos também de falar da trilha-sonora, que é muito rica: Judas Priest, Motörhead, Cradle Of Filth, Mastodon, Black Sabbath, e muitos mais! Depois, a cereja no topo do bolo é que neste jogo encontras como personagens algumas das mais icônicas figuras do heavy metal: Lemmy, Rob Halford ou até o próprio Ozzy! Todo este jogo respira o espírito do metal. Viajamos então dentro dos videogames mais metal de todos os tempos! Acredito que mais jogos do gênero irão aparecer, com melhores gráficos e mais qualidade, mas será que vão manter o espírito que o heavy metal transmite? É o que vamos descobrir dentro de alguns anos! MF GAMING @MFGAMINGPT

DESCUBRA MAIS CONTEÚDOS EXCLUSIVOS EM WWW.ULTRAJE.PT 11 - ULTRAJE BRASIL #01

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ascido em Belém/PA, à 01/06/1972, Mário Linhares passou a infância em Fortaleza/CE e radicou-se em Brasília/DF, ficando mundialmente conhecido como vocalista de bandas do calibre de Khallice, Heaven's Guardian, Harllequin e Dark Avenger. Cantor de voz potente e afinada, grande letrista, Mário Linhares alcançou sucesso rapidamente no cenário metálico brasileiro e mundial por seu imenso talento. Foram mais de vinte anos de uma carreira vitoriosa; grandes álbuns e shows inesquecíveis. Mário Linhares era um homem muito culto e extremamente humilde. Gostava de conversar com os fãs e instruir os novos cantores. Seu filho, Erick Rufino Linhares, fala à Ultraje sobre Mário Linhares: «Meu pai era uma pessoa dedicada a tudo o que fazia, não apenas no sentido profissional. Era um bom marido, bom pai, bom amigo. Um profissional exemplar, que conseguia extrair o melhor das pessoas ao seu redor. Quando descia do palco fazia o que muitos não fazem; era humano, gente feito a gente, falando com todo mundo, cumprimentando a todos. Como pessoa, era daquele tipo que chegava em sua casa e preferia algo simples, como arroz, feijão e ovo à algo rebuscado. Era esta pessoa simples que tanta falta nos faz. Nos acostumamos à sua presença tão especial ao nosso redor. Como filho, eu não poderia ter tido pai melhor. Esse era o "Marongas", Mário Linhares, Mário pai. Sentirei sempre a sua ausência física, mas terei sempre a sua presença espiritual. Te amo muito, pai.» O guitarrista Glauber Oliveira, seu parceiro musical, também relembra Mário Linhares: «Conheci o Mário em 2013, assim que cheguei à Brasília. À época, ele estava remontando a Harllequin e me juntei à ele. Logo começamos a trabalhar no novo álbum da banda e um ano depois ele me convidou a entrar para o Dark Avenger. Eramos muito parecidos e tinhamos grande admiração um pelo outro. Nos tornamos mais que amigos, eramos praticamente irmãos. Aquela irmandade da alma, sabe? Fico feliz por ter construído "The Beloved Bones: Hell" juntamente com ele. Houve muita energia mental empregada neste álbum, muitas noites em claro, compondo, arranjando, gravando. Não há nada colocado de forma leviana neste álbum. Tudo foi musicalmente construído para dar alicerce ao brilhante conceito que ele escreveu. Os ossos mais amados ("The Beloved Bones"). O Marongas deixou, além de um admirável legado musical, muitos ensinamentos; um deles, a gratidão, que carregarei comigo para sempre.» Cabe salientar que "The Beloved Bones: Hell" é um álbum realmente diferenciado, desde o conceito, criado por Mário, até a execução da obra, seja pela Dark Avenger em estúdio, quanto pela arte gráfica. Assim que foi lançado, o álbum recebeu intensa aceitação, recebendo rasgados elogios por parte de público e crítica, no Brasil e por todo o planeta. Mário estava radiante! Embarcou, ao lado da esposa Desirée Galeotti para a Europa, em turnê promocional de "The Beloved Bones: Hell", promovendo-o, assinando contratos, conhecendo à fundo a rica cultura do velho mundo, enchendo-se de inspiração artística e divertindo-se à valer. Mário Linhares não era apenas dono de grande talento artístico; era também um guerreiro. Dono de uma saúde não tão boa, Mário já havia vencido um câncer! Quem é mais abalizada para falar sobre nosso heroi é a viúva, Desirée: «Mário Linhares era um cara simples. Nascido em Belém e criado em Fortaleza, começou sua história na música em 1992, quando mudou-se para Brasília. Mário era repleto de empatia pelo próximo. Atencioso com seus fãs, aos quais chamava de amigos. Era extremamente apaixonado pela música e, em especial pelo seu último álbum, "The Beloved Bones: Hell", que julgava ter sido o maior desafio de sua carreira, tendo em vista que o disco traduzia os estágios mentais pelos quais passou ao vencer um câncer na medula em 2014. Além disso, Mário me dizia que este era o disco do Dark Avenger que ele mais gostava de ouvir. Quando se tratava de música e de Dark Avenger, Mário era sério, profissional e sempre buscou imprimir qualidade em seus trabalhos, por maior que fossem o tempo e dedicação que lhe custasse. Mário sempre preocupou-se em transmitir sua mensagem de maneira clara, tanto é que em "The Beloved Bones: Hell" fez questão de inserir no encarte uma explicação antes de cada música, referente ao estado mental ao qual se reportava, acompanhado da tradução em português. Mário era intenso, culto; falava inglês, alemão e francês, ainda arriscava-se em italiano, espanhol e russo! Adorava literatura, cinema, ópera. Ele me faz muita falta e foi um privilégio poder acompanhar de perto, durante os quase dez anos em que estivemos juntos, toda a construção e concretização de trabalhos como "Tales Of Avalon: The Lament" e "The Beloved Bones: Hell". Mário era certamente uma pessoa à frente do seu tempo; algumas vezes pouco compreendido, mas que deixará uma saudade eterna, pela pessoa que era e por sua contribuição ao cenário Heavy Metal.» Pois é, a vida sorria para Mário Linhares. De volta ao Brasil, o cantor e o Dark Avenger partiram para os shows de divulgação do novo álbum e estavam a ponto de realizar outro sonho; gravar o DVD ao vivo do Dark Avenger. Já havia equipe de filmagem contratada. Faltava apenas a oportunidade adequada; um grande show ou festival. Em Outubro de 2017 a oportunidade parecia avizinhar-se com um grande festival em Avaré, no interior do Estado de São Paulo. Porém, no mês seguinte, o organizador do evento sofreu um acidente que fez com que o festival fosse adiado. O organizador é justamente quem digita esta matéria; eu. Em Dezembro, às vésperas do Natal, no dia 22, chega a notícia que ninguém poderia sequer imaginar. Desirée, pelas redes sociais, pede ajuda, pois Mário passara mal e as pessoas que o socorreram levaram-no para um hospital particular de Brasília, mas Mário não possuía plano particular de assistência médica. Era necessária a transferência para um hospital público. Mário sofrera dissecção da aorta e necessitava de um cateterismo. Infelizmente Mário Linhares não resistiu e faleceu, deixando um grande legado musical para seus fãs e a eterna saudade em familiares e amigos.


SE QUERIA UMA ESCOLA, CONSEGUIU “Para Que Serve Este Botão?” é a nova autobiografia de Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden. Abaixo poderá encontrar alguns excertos do livro que surgem logo após a contextualização da Ultraje. Recuperando memórias da infância, Bruce Dickinson retorna a Birkdale para demonstrar que nem tudo na infância é inocente: ««(…) Estava a caminho de uma escola particular: a escola preparatória de Birkdale, alma mater de muito outros, como Michael Palin dos Monty Python. Foi uma das mais estranhas e excêntricas instituições educacionais que encontrei, mas no final acabei gostando. Digo no final, porque no início o bullying foi bastante intenso. Uso os termos "bastante intenso" em comparação com o que viria a seguir, no colégio interno» Ao que parece, aquela figura energética e imponente que corre palcos de um lado para o outro passou por situações complicadas no colégio interno que sucedeu Birkdale: «O bullying só acontece porque as pessoas fracas têm necessidade de sustentar o seu ego, batendo ou humilhando os outros. Claro que se você for um recém-chegado ou apenas diferente, será o alvo escolhido. Eu cumpria todos os requisitos. O pior era na hora do intervalo, quando eu era prensado contra os caixotes do lixo enquanto doze garotos me batiam à frente de uma professora que, imagino, devia sentir-se o máximo, para não interferir. Em memória dos meus avôs, eu recusava submeter-me. As minhas hipóteses eram ridículas, mas eu rebatia assim mesmo. Não desistiria.» Todavia, Dickinson encontrou um abrigo, uma defesa, para si: ««(…) Refugiei-me nos livros, na biblioteca, na escrita e no teatro. As asas angelicais de outrora voltaram para me assombrar, e vi o meu nome citado pela primeira vez numa crítica a uma peça da escola no jornal Sheffield Star, nem mais.» E foi isto que se escreveu sobre si na época: «"Personagem Toupeira, de cara enegrecida, interpretado por Paul Dickinson.” (Bruce, claro, é o meu nome do meio, mas isso já vocês sabiam.)» Ainda longe de ser a estrela em que se tornou, Bruce Dickinson queria mais do que aquela breve frase, recordando, ou não, ainda alguns episódios escolares com Sr. Quiney a propósito de JRR Tolkien: «Fiquei desapontado por eles não terem feito qualquer referência ao fato de eu ter conseguido arrancar algumas gargalhadas da plateia. (…) As aulas prosseguiam com normalidade. Por outras palavras, não me recordo de nada, exceto que as ovelhas Merino têm uma lã espetacular, e também de um resumo esplêndido que o meu professor de História, Sr. Quiney, fez de Tolkien: "Um raio de um banquete atrás de outro, uma caminhada interminável aborrecida, uma batalha e algumas canções bobas." Li o

“Hobbit” e “O Senhor dos Anéis” quando tinha 12 anos. Era divertido, mas o professor tinha alguma razão.» Noutros tempos – sem computadores, celulares e tablets –, a rua era igualmente um poço de aprendizagem, como o vocalista relembra: «(…) Contudo, a escola não era o único lugar onde adquirir educação. Aprendi a andar de bicicleta, e a toda a velocidade pela vizinhança. Tinha um kit de química, que se recusou a fazer qualquer coisa de divertido, e o meu pai ensinou-me a jogar xadrez. Jogávamos frequentemente até ao dia em que lhe ganhei, e então, paramos de jogar.» Talvez devido a resquícios que não desapareceram daquele período conturbado no colégio interno, o jovem Bruce nem sempre fora o adulto e extrovertido Bruce de Iron Maiden, como o próprio escreve sobre os seus fins-de-semana: «(…) Eu era razoavelmente solitário. Não me interessava por esporte. Passava longas tardes na biblioteca pública ao fim-de-semana, folheando livros e sonhando acordado. Tinha descoberto os jogos de estratégia militar e ocupava as minhas noites a pesquisar sobre a precisão do mosquete Brown Bess e as táticas do pelotão de infantaria e pintando os meus escoceses das Terras Altas de metal branco, que seguidamente iria lançar sobre um desprevenido Napoleão.» E o campo de batalha estava montado… No carpete da sala? Num desterro perto de casa? Num monte de areia de uma obra ali perto? Não. Numa mesa de pingue-pongue. «O meu tio Stewart, professor, tinha sido campeão local de tênis de mesa, por isso no Natal ganhamos uma fantástica mesa de pingue-pongue. O meu pai e os irmãos debatiam-se e discutiam sobre quem tinha ganho e depois iam para o pub. Eu me preparei de imediato para que, no dia seguinte, a Batalha de Waterloo fosse travada ali na mesa. Era verde e plana – perfeita. Foi uma, entre várias pequenas coisas, que levaram o meu pai a pensar que eu era um pouco estranho, como se subverter uma mesa de pingue-pongue não fosse, de alguma forma, coisa de homem.» A paixão por pilotagem surgiu logo em seguida: «(…) Antes de sair de casa, fui apresentado às corridas automobilísticas. (…)» Aparentemente, os amigos Tim e Nick, bem como o pai destes, tiveram um papel de iniciação à arte de conduzir: «O Tim, um amigo da escola, e o seu irmão Nick tinham um pai muito entusiasta. Conduzia um Cadillac e tinha uma pista enorme, onde estava em exposição uma equipe de corrida em miniatura para os filhos. Pelo que percebi, ele tinha uma discoteca e bebia muita cerveja.» 13 - ULTRAJE BRASIL #01

Como não foi logo atirado para um cockpit de avião, Bruce tinha que começar por algum lado. Foi parar nos karts, mas já com um vislumbrar aéreo pois estas corridas aconteciam numa antiga base da RAF. «Os karts eram de cem cilindradas, com válvulas rotativas, e muito rápidos. Eu nunca tinha tocado em nenhum volante, mas sentei-me e arranquei aos solavancos e saí disparado para a primeira curva, no fim da longa reta de Lindholme, a antiga base da RAF.» Na realidade, a experiência não foi totalmente magistral, mas foi, pelo menos, cômica: «Virei o volante, rodei a 360º e o motor parou. Fiz o mesmo em todas as curvas do circuito antes de voltar para a pista, seguido pelos dois irmãos muito suados e ofegantes, depois de terem me seguido por todo o circuito para fazerem o motor voltar a arrancar meia dúzia de vezes.» A razão e a inexperiência abateram-se sobre o jovem Bruce: «Debatemos o assunto. Eu, claramente, precisava aprender mais sobre aquilo.» O futuro risonho (como vocalista do Iron Maiden e como piloto de aviões) ainda estava longe, mas Bruce Dickinson já sonhava como sempre. Era apenas uma questão de crescer enquanto homem e não esquecer os sonhos de criança. «No final do dia, eu já pensava que estava voando: acelerava fundo nas retas, freando fundo o mais em cima da hora possível, com a adrenalina pulsando nas mãos e no coração. A verdade é que mal consegui completar a volta sem rodar, mas dane-se: maquinista, piloto de aviões, astronauta, e agora já podia acrescentar à lista, piloto de carros de corrida.» POR DIOGO FERREIRA

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TEXTO: ALMIR CUTRIM COSTA JUNIOR / FOTOGRAFIA: ALESSANDRA TOLC

osso repórter tupiniquim foi atendido pelo vocalista/ guitarrista Alexandre Castellani e o guitarrista Elvis Damigo. Trabalhando na divulgação do seu primeiro álbum, "In Chaos We Trust", um trabalho denso, pesado e brutal, que versa sobre a consciência humana, os músicos bateram o seguinte papo com a Ultraje: «A banda começou como um projeto», começa Alexandre. «Eu já tinha as músicas; as composições estavam bem avançadas e eu queria gravar um CD com elas, mas não tinha a banda. Precisava de um baterista que atendesse às necessidades das músicas, que não eram simples. Chamei o norte-americano Kevin Talley (Suffocation, DevilDriver, Six Feet Under) e pedi que as gravasse. Chamei, também, meu amigo de infância, Hugo, para gravar o baixo. Foi assim que a Siriun nasceu, com a gravação do CD. Depois o Hugo saiu da banda e o Kevin tem muitos projetos. Eu queria ter a banda completa, para fazer shows e dar continuidade ao trabalho e encontrei os integrantes que estão comigo agora; o Elvis na guitarra, o Ricardo Amorim no baixo e o Braulio Drummond (Unearthly) na bateria. Começamos a fazer shows, tocando ao lado de bandas como o Krisiun, The Black Dahlia Murder, Suffocation, Obituary e Nervosa, e fizemos o lançamento do CD pelo site norte-americano Metal Injection, além dos videoclipes das músicas "Mass Control" e "Intent". Tanto o álbum quanto os vídeos têm tido boa receptividade.» Elvis completa: «Essa parte inicial da banda foi feita só pelo Alexandre, que correu atrás de tudo. Eu, o Braulio e o Ricardo chegamos depois e estamos trabalhando na divulgação do álbum e nas novas composições.» A respeito de como as composições são trabalhadas, Alexandre diz que em "In Chaos We Trust" criou tudo, «mas nas novas composições eles já estão trabalhando muito». Elvis diz: «Quando entramos no grupo, Alexandre havia feito tudo e já tinha milhares de outras ideias.

Ele tem material para uns trinta álbuns, mas nos dá plena liberdade de expressão e nós, os novos integrantes, vamos colocando nossas personalidades nas músicas.»

investido muito dinheiro, que não temos, mas seguimos trabalhando. Temos contatado alguns bookers e escritórios de management. Esperamos conseguir algo para o fim deste ano».

Em face das respostas, nosso curioso repórter quer saber a respeito das novas composições e os músicos não se furtam a responder: Segundo Alexandre, «já estamos trabalhando no novo álbum. Já temos cerca de vinte novas composições em fase de pré-produção e temos muito material, mas este é um processo demorado, que será concluído no ano que vem, provavelmente. Temos vontade de conseguir um produtor estrangeiro, já que eu mesmo produzi "In Chaos We Trust", mas isto tem de ser devidamente estudado, devido aos altos custos. Teoricamente gravaremos aqui no Brasil, no estúdio da HR, que é referência em heavy metal aqui no Rio de Janeiro, além de meu home studio, mas caso haja condição financeira, a ideia é trazer um produtor estrangeiro que se encaixe em nosso som».

Realmente, para artistas independentes a vida não é fácil. Isso nos leva a perguntar aos músicos se atuam em trabalhos formais. Alexandre diz que é «funcionário público, um trabalho nada heavy metal, mas que paga as contas do mês e me ajuda a investir na banda. Já o Ricardo trabalha no mercado imobiliário». Elvis e o Braulio trabalham na HR, «uma das maiores empresas de aluguel de backline do Brasil, excursionando com artistas nacionais e internacionais. Inclusive, o Braulio não está participando desta entrevista porque está excursionando pelo País com Glenn Hughes. Aliás, o Braulio vive de música. Toca bateria em diversos projetos, dá aulas de bateria e possui estúdio em São Paulo. Eu ainda auxilio meu pai na transportadora que ele possui, ajudando no escritório, viajando, trocando pneu de caminhão, enfim, ajudando no que posso».

Os guitarristas são brasileiros mas já tiveram um baterista norte-americano e o baixista é português; será que esta mistura cultural influencia a música da banda? «Não. A questão cultural, não», responde Elvis. Alexandre acrescenta: «O Ricardo já vive aqui há muito tempo e nós gostamos de ouvir as mesmas coisas. Musicalmente ele é muito eficiente, mas nós gostamos do sotaque dele.» A curiosidade só aumenta e quero saber sobre a possibilidade da realização de turnês fora do Brasil. Os músicos são extremamente realistas, pois Elvis diz que «gostaríamos muito de fazer, sim, e estamos trabalhando por isto, mas os custos são muito altos. Não temos apoio financeiro, somos independentes, mas buscamos as oportunidades». Alexandre arremata: «Nossa ideia principal é esta; conseguir participar de turnês e festivais internacionais, mas não temos gravadora ou apoio financeiro, então direcionamos nossas energias para isto, tendo em mente que há de ser

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Vida dura a destes guerreiros do metal. Para desopilar o fígado, falamos um pouco sobre futebol. Alexandre: «Sou torcedor do Flamengo desde criança». Elvis: «Eu sou rival, torço para o Vasco da Gama. Braulio torce para o Botafogo e Ricardo para o FC Porto». Finalizando este agradável bate-papo, Alexandre deixa um agradecimento: «Quero agradecer à Ultraje pela entrevista e dizer ao público que nosso material está disponível em todas as plataformas digitais. Temos três videoclipes no YouTube e estamos nas redes sociais. Todos são bem-vindos.» Já Elvis faz suas as palavras de Alexandre e agradece «a todos que tem nos apoiado, às pessoas que compraram a ideia da Siriun, divulgando-a dentre amigos e familiares, nos deixando muito felizes, mostrando que nos valorizam. Em breve teremos novidades. Um grande abraço e muito obrigado.»


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TEXTO: ALMIR CUTRIM COSTA JUNIOR / FOTOGRAFIA: CORTESIA SANGUE FRIO PRODUÇÕES

xistem bandas que atravessam eras pela qualidade de seu trabalho. Com humildade, perseverança e muito trabalho, veem o número de fãs crescer, o número de lançamentos aumentar e não para por aí. Com quase vinte e cinco anos de estrada, Imperious Malevolence é um dos grandes nomes do metal extremo brasileiro. Em sua discografia constam o autointitulado álbum de estreia, de 1999, seguido por "Hatecrowded" (2003), "Where Demons Dwell" (2006), do EP "Priests Of Pestilence" (2011) e "Doomwitness" (2013). Estes trabalhos tornaram a banda popular no cenário death metal, levando a Imperious Malevolence a fazer muitos shows pelo Brasil e turnês pela Europa, sempre com boa aceitação do público ao brutal e bem tocado som dos paranaenses. Atualmente formada por Fernando Grommtt (b/v), Antonio Death (d) e Danmented (g), Imperious Malevolence acabou de lançar seu novo petardo, "Decades of Death" e a Ultraje teve o prazer de conversar sobre isto e mais com a nova voz da banda, Fernando Grommtt. Conte-nos sobre "Decades of Death"; quais as suas impressões sobre o álbum? É um álbum comemorativo aos mais de vinte anos de carreira da Imperious Malevolence, que se iniciou em 1995. É meu álbum de estreia na banda e conta dez músicas. Por ser comemorativo à carreira da Imperious Malevolence, possui quatro músicas inéditas e seis regravações, que contaram até com a colaboração dos fãs na escolha.

Como foram realizadas as gravações de "Decades Of Death"? Nas regravações focamos nos três primeiros álbuns, deixando o "Doomwitness" de lado por ser o lançamento mais recente e ainda fresco na memória dos fãs, apesar de ser um grande álbum. Trabalhamos bastante nas regravações, e dentre elas está presente a segunda música da banda com a letra cantada em português, "Perpetuação Da Ignorância". Escolhemos regravar de cada um dos primeiros álbuns, duas músicas. Como disse, o público pôde contribuir por meio de uma enquete realizada junto aos fãs. Eles escolheram "Arquiteto Da Destruição" e "Nocturnal", ambas do nosso segundo álbum, "Hatecrowded". O álbum foi gravado no Funds House Studio, de propriedade do nosso amigo Allyson (Motorbastards), que co-produziu "Decades of Death" e a arte gráfica ficou a cargo do Anderson (Natureza Morta), que trabalha conosco desde o primeiro álbum e acho que tudo ficou muito bom, mas quem tem de dizer é o público. Como é para você fazer parte agora de uma banda dona de tamanha importância no cenário? Tenho muito orgulho. Sempre gostei de death metal, sempre almejei fazer parte de uma banda deste nível e agora realizei este sonho. Espero poder inspirar outras pessoas a também conseguir realizar seus próprios sonhos. Como você analisa o atual cenário death metal? Sempre foi bom, mesmo com as dificuldades. As bandas sempre fizeram o melhor. E o que você tem escutado ultimamente? Eu sou fã de death metal e considero o brasileiro sensacional! 15 - ULTRAJE BRASIL #01

Gosto muito de Queyron, Bestial, de Krisiun que é o maior orgulho nacional, e gosto também de Cannibal Corpse, Deicide, Vader, Immolation, enfim, gosto de muitas bandas. Na Imperious Malevolence buscamos fazer um som de qualidade comparável ao destas bandas. Imperious Malevolence, já há algum tempo faz parte do cast da Sangue Frio, uma força no management do metal extremo brasileiro. Quais os atuais planos de banda e escritório para a divulgação de "Decades of Death"? Trabalhamos junto à Sangue Frio há cerca de três anos e só temos a agradecer ao Patrick por todo o apoio e pelo trabalho que fazem conosco. Planos há muitos. Acabamos de lançar o vídeo para "Ominous Ritual" e estamos marcando shows de divulgação para "Decades of Death". Queríamos ter feito uma turnê pela Europa, mas não foi possível, devido a problemas de ordem pessoal alheios à nossa vontade, mas temos planos de realizá-la no ano que vem. Aguardem surpresas para 2019! Infelizmente, muitas perguntas ainda seriam feitas, mas não houve disponibilidade de tempo por parte da Imperious Malevolence, ocupadíssima com o lançamento de "Decades of Death", por isso, aguardamos a oportunidade para realizar uma nova e mais abrangente entrevista. Álbum: DECADES OF DEATH Editora: SANGUE FRIO Lançamento: 25 MAIO 2018


seu trabalho nesse campo – daí ter-se um registro, principalmente vocal, mais pesado, mais meloso, orgânico e mais desesperado». «A captação destes momentos foi feita para que fosse uma espécie de ‘one-time-shot’, principalmente todo o tema “SVN” que é talvez a música mais contrastante de todo o registo e também a mais carregada de emoção. Funciona como a abertura deste novo ciclo – as boas-vindas e integração rápida, e um tanto brusca, do ouvinte à sociedade do vórtice de que tanto falamos.»

TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DA BANDA

S

em caras e sem nomes individuais, os Gaerea são só e apenas um corpo único, uma banda sinistra e enigmática que apareceu do nada por volta de 2016 com um EP homônimo que recebeu críticas muito positivas. Na promoção desse trabalho de estreia diziam que estavam aqui para trazer e apresentar aquilo que o sistema não resolve, emergiram das sombras para «denunciar claramente os cânones de beleza, para desafiar os alicerces da sociedade organizada e desmontá-la, apresentando-a no seu ponto mais cru» – quem o diz é um membro dos Gaerea que insiste em não se querer individualizar neste processo conjunto. «O sistema propriamente dito é a esfera pessoal, a bolha em que cada um se encontra», pois «apesar de ser criado pelas pessoas, não foi feito para essas mesmas pessoas», conclui. Decorridos cerca de dois anos, estes portugueses dão o passo óbvio com o lançamento do álbum “Unsettling Whispers” e nota-se uma evolução ao nível da abordagem ao black metal se tivermos em conta a sonoridade do EP. Por exemplo, se ouvirmos a faixa “Absent” sente-se uma inclinação ao hardcore como bandas alemãs – nomeadamente Ancst e King Apathy – têm feito. «Acho interessante ouvir essas observações de quem está de fora, principalmente quando veem nuances de hardcore na nossa música, coisa que me é estranha», confessa surpreendido. No entanto, estas percepções exteriores ao grupo de trabalho podem significar que os Gaerea não têm uma visão quadrada do que é black metal e não se enclausuram em regras dogmáticas. «Claramente», prontifica, pois para o entrevistado o black metal nunca foi e não crê que alguma vez será algo limitado, clarificando assim: «Deixamo-nos envolver por muito daquilo que ouvimos e vivenciamos no dia-a-dia», até porque «todo este novo trabalho no ponto de vista de composição musical prova isso mesmo, que não somos seres demasiado presos ao estilo que tocamos. A beleza da arte está nisso mesmo: o conseguires ir beber a outras fontes que à partida não estão ‘categorizadas’ ou rotuladas da mesma forma que a tua».

Continuando com a comparação entre os dois lançamentos, no EP sentia-se muito mais uma clara influência na escola polaca – com Mgła e Behemoth à cabeça – do que neste “Unsettling Whispers”. Todavia, isso não foi apagado do seio dos Gaerea e continua a ser audível especialmente na toada melódica que dão aos temas, assim como devido a alguns momentos ritualistas, como é exemplo a faixa “Whispers”. O músico concorda, voltando a salientar que «é impossível não nos deixarmos influenciar por dois dos grupos mais interessantes que o mundo do black metal tem para oferecer nos dias de hoje». «Essa toada melódica de que fala sempre fez parte da forma como componho os meus temas, tanto neste como noutros projetos do passado. Creio que faz parte de mim ou, digamos, de todo o passado de cada elemento que de alguma forma marcou este novo trabalho.» Confirma ainda que «é o transparecer daquilo que somos enquanto pessoas e daquilo que faz sentido para este trabalho mais conceptual que o anterior», fazendo pois «todo o sentido abrir essa janela para que a música certa encontrasse o seu respectivo tema, visto que o álbum é uma série de episódios contados na terceira pessoa, como que um observador ou narrador do que se passa à sua volta». «Acima de tudo é uma composição mais pessoal, mais interiorizada e por consequência mais emotiva», explica por fim. Pegando na questão da ala melódica do álbum, há um certo perfume de melancolia, mas, e tendo em conta que cada pessoa tem a sua interpretação, não soubemos à partida se também lhe podíamos chamar desespero. A entidade misteriosa de Gaerea ajuda-nos: «É todo o desespero que visualmente está mudo e apático na componente escrita e visual deste trabalho.» Nas suas palavras «decidiu-se dividir e escolher a maneira como se queria abordar e sentir cada peça do puzzle que compõe tudo isto», possibilitando que «por um lado se tenha uma narrativa totalmente interligada com o caos organizado de uma sociedade moldada sob os cânones de perfeccionismo do presente e por outro se tenham todas as consequências éticas, morais que advêm disso mesmo». Assim, isso habilita «a música a fazer o 16 - ULTRAJE BRASIL #01

Fato: ouvir Gaerea é estar perante algo refrescante no que diz respeito às nossas fronteiras nacionais. Musicalmente deverá ser muito difícil trazer alguma coisa inteiramente nova ao panorama europeu, que é muito vasto e prolífero, mas será que o porta-voz de Gaerea concorda se lhe dissermos que estão num patamar superior em relação ao que se tem feito em Portugal? Sabemos que é arrojado, possivelmente até injusto para com outros, colocar uma banda num pedestal, e os Gaerea não vão nessa: «Não pensamos em nada disso. Até porque existem nomes muito interessantes surgindo no panorama nacional e nunca nos iríamos comparar a nenhum deles. Cada um com o seu rumo e caminho a seguir. Infelizmente há bandas que muito dificilmente podem emergir, mas isso é também porque somos um país pequeno no que toca à falta de noção de como um artista se deve fazer ouvir.» E isso, caríssimos e caríssimas, é algo que na Ultraje tentamos esforçadamente mudar no seio do nosso movimento metálico – nem sempre eficazmente porque não podemos entrar na mente das pessoas, mas que mesmo assim tem vindo a dar os seus frutos. Não só os contratos com editoras estrangeiras e difusão internacional fazem provar o que acabamos de referir, mas também o fato de, internamente, os Gaerea terem sido incluídos na celebração dos 10 anos de “Póstumo”, o primeiro álbum de Inverno Eterno, banda de culto que decidiu cessar atividades em 2014 e que agora, em 2018, se reuniu pontualmente para um derradeiro show. Ao lado de Black Howling (banda de Lisboa igualmente presente na comemoração), o interlocutor admite terem ficado «satisfeitos» por alguém achar que se integram «num evento de um estilo tão reservado e tão característico como o de Inverno Eterno». «Pessoalmente comecei a minha jornada neste estilo a ver a banda e cheguei a vê-la num dos seus últimos shows», conta, afirmando que todos em Gaerea ficaram «ansiosos por esse show». «Acima de tudo fazemos o nosso trabalho, abrindo os portões daquilo que é certamente uma noite histórica», finaliza. Álbum: UNSETTLING WHISPERS Editora: TRANSCENDING OBSCURITY Lançamento: 22 JUNHO 2018


título e uma composição muito claros em relação a esses lugares.» Para Waldejer, «a música [dos The Konsortium] não é apenas inspirada pelo lugar, mas também pelo tempo», assegurando que «foi feito um grande esforço para se tentar recriar o que achamos ser inspirador sobre a nossa história local, tradições e, claro, também sobre as mudanças sazonais. Rogaland é, afinal de contas, quatro coisas muito diferentes, dependendo das estações do ano». Ao afastar-se do urbano e concentrando-se no atemporal, «tudo se resume a criar uma jornada através da identidade local que está fortemente ligada a esta parte da Noruega», remata. Para além desta abordagem folclórica, “Rogaland” mostra ainda outras diferenças em relação ao debutante homónimo de 2011, como é o caso do tecnismo musical. Após confirmar que a Ultraje está certa ao apontar que esse seria um dos pontos que o músico queria que se tornassem predominantes no novo trabalho, o guitarrista conta que «já perto de se finalizar o primeiro álbum, o material tornou-se mais técnico e constantemente mais rápido», mas «por outro lado isto não é sobre fazer música que seja apenas rápida e difícil de tocar, é sobre criar composições interessantes e complexas que ofereçam a quem ouve uma nova descoberta a cada audição». «Claro que todos na banda têm uma preferência por música desafiante e interessante de se tocar, e isso influencia cada direção que se toma», mas não descarta que «o principal objetivo sempre foi fazer música interessante de se ouvir e tocar», acabando mesmo por reforçar «um ponto importante»: não basta ser-se técnico, «também tem de se tocar bem e de uma forma que traga complexidade, detalhe e, acima de tudo, composição musical», porque «isso é sempre mais desafiante do que simplesmente fazer algo técnico». Um outro lembrete que também sempre foi relevante para os The Konsortium passa pelo fato de que «tudo o que entrar no álbum deve ser feito também num ambiente ao vivo, e da maneira que as coisas estão a ir estou confiante de que será o caso».

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pensa que, em última análise, «o tempo foi muito necessário para este álbum, pois muito do material e conceito precisava disso para se amadurecer e refinar».

Dentro do que parece ser uma banda rígida no que a cumprimento de regras diz respeito, também já deu para perceber que a diversidade tem o seu espaço, pois ao ouvir “Rogaland” depreende-se inclusão de segmentos afetos ao black metal, death metal e até thrash metal. Waldejer explica que «um dos principais princípios da gravação sempre foi dar espaço a cada elemento, e se não houvesse espaço para um elemento específico então seria retirado». «Há toda uma gama de diferentes elementos neste registro, mas todos e cada um obtiveram o seu lugar distinto e acho que isso teve muito a ver com a maturação do material ao longo do tempo.» Mas antes de dada a resposta já tínhamos perguntado como é que se encaixam todas as peças do puzzle na assinatura de The Konsortium – o músico conclui: «Não acho que sejamos particularmente guiados por géneros ou categorias, é sempre sobre servir um propósito musical e conceptual e ter cada elemento a complementar. Acho realmente que isso é o principal por detrás do que chamam “assinatura”.»

Com “Rogaland” tiraram as máscaras e alguma da teatralidade que ostentavam antigamente. Podemos olhar para o novo álbum como uma mudança de paradigma, mas Waldejer é pragmático: «Afirmar exatamente o que nos levou a essas mudanças é algo difícil de dizer em definitivo, porque muitos dos “porquês” foram alvo de um processo de reflexão. Acho que este álbum representa fortemente as nossas identidades locais e inspirações; acho que isso nos leva a pensar que não faria sentido nenhum se não incorporássemos a representação visual disso.» Aliás, e por mais reflexões que possam ter existido, o pensamento da banda foi até muito direto e cru: «Francamente acho que estávamos todos fartos das máscaras e do anonimato, e a certa altura começamos a pensar: “Que se foda, vamos numa direção nova.”» De fato, as ditas identidades locais e inspirações estão bem imbuídas neste disco, porque por todo ele há um sentido de folclore nórdico, devido a alguns refrãos ritualistas e porque também sabemos que parte de “Rogaland” foi composto na floresta. «Crescer num lugar como Rogaland nos deu uma forte apreciação pela geografia e história locais. E acho que este álbum reflete tudo o que gostamos neste lugar: as montanhas Caledonianas, os fiordes, as florestas e praias das terras baixas, sem esquecer o Mar do Norte. Acho que as músicas em si representam cada um desses lugares. Cada faixa no disco tem um

Sem capacidade técnica e imaginativa de uma banda a música simplesmente não poderá existir, mas muito do que ouvimos nos resultados finais provém de um produtor. Pois é, um álbum sem um excelente produtor pode ter o seu sucesso em risco por mais que os músicos sejam exímios. Para “Rogaland”, os The Konsortium chamaram o conceituado Jaime Gomez Arellano que, para quem anda desatento ao departamento de produção, já efetuou trabalhos excitantes com Paradise Lost, Fen, Ulver, entre outros. «Todos gostamos do que ele fez antes e, portanto, queríamos tentar trabalhar com ele. Na verdade, acho que tivemos muita sorte em tê-lo a bordo, pois sei que tem muitos projetos no currículo e uma agenda muito apertada.» E novamente, como já tinha feito no início desta conversa com o seu baterista, Waldejer não rouba os créditos a quem os merece: «[O Gomez] superou as nossas expectativas, foi muito superior ao que esperávamos», e assegura que «foi um prazer trabalhar com alguém com o seu nível de profissionalismo e habilidade». Por fim, relembra que colaborar com o produtor no estúdio foi sinônimo de divertimento «e não demorou muito para que todos concordassem que ele era claramente a melhor escolha pela qual se poderia ter optado». «Também já decidimos que em projetos futuros ele tem de ser aquele com quem trabalhamos», finaliza.

TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: KIM SØLVE

uando uma banda está há vários anos em silêncio, a primeira e simples pergunta que surge é: por quê? Muitas vezes, estamos à espera de grandes revelações, mas na maioria dos casos a resposta é tão simples como a interrogação: «Como alguém comentou num blog que li recentemente, “os músicos fazem planos e depois a vida os muda.”» Quem o diz é B. Waldejer, guitarrista dos The Konsortium, banda norueguesa que regressa aos álbuns, com “Rogaland”, sete anos depois. «Depois do primeiro álbum, estávamos prontos para avançar com o próximo e já tínhamos uma boa ideia da direção musical. Muito do material surgiu logo após o lançamento do primeiro álbum, mas têm acontecido muitas coisas nas nossas vidas nos últimos anos, o que infelizmente nos ocupou muito tempo. Combinado com o fato de termos que encontrar um novo baterista, isso nos forçou a adiar as coisas.» Esse novo baterista é Per Husebø, também conhecido por Dirge Rep, e tem dado cartas nos Orcustus – Waldejer não lhe poupa elogios: «Felizmente, conseguimos o Per para a bateria e depois as coisas seguiram-se rapidamente. Acho que não demorou mais do que um ano desde ele juntar-se até gravarmos o “Rogaland” todo. Tem sido um músico tremendo de se trabalhar e é muito inspirador para mim tocar com alguém deste calibre.» Afirmando que «estas são, de longe, as únicas razões pela demora», recordou também que «os outros membros tiveram coisas importantes a fazer noutros projetos e bandas», como é o caso do baixista Teloch que ocupa a posição de guitarrista em Mayhem. Contudo, o norueguês

Álbum: ROGALAND Editora: AGONIA Lançamento: 1 JUNHO 2018

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TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: RENAN FACCIOLO


PERSISTÊNCIA & SEPULTURA De dentes e punhos fechados, a brasileira Nervosa avança para novas conquistas com o seu novo e terceiro disco “Downfall Of Mankind”. Num registro igualmente cru e agressivo quando comparado com os seus antecessores, há uma novidade em destaque que passa pelo leque de influências de death metal que a nova baterista Luana Dametto trouxe com ela. Fazendo agora parte de um grupo restrito de bandas brasileiras que conseguiu alcançar sucesso na Europa e até mesmo na América do Norte, a guitarrista Prika Amaral começa por atribuir o êxito da banda à dedicação do trio feminino, estabelecendo também um ponto de comparação entre os tempos modernos e àquela altura em que o Sepultura de Max Cavalera dava os primeiros passos fora da América Latina: «Eu acredito que tudo gira em torno de você ser muito objetivo e focado naquilo que você busca. Insistir e buscar sempre o melhor faz a diferença. A gente sempre buscou o profissionalismo, sempre buscou viver de música, porque a diferença de algumas bandas, que às vezes não conseguem ir muito além é porque não deixam certas coisas para trás, como o trabalho, a família… O que é difícil, não julgo. Cada um tem os seus objetivos, mas às vezes isso ocupa o seu tempo e você não se pode dedicar a 100% à música e à estrada. As coisas fluem um pouco mais devagar e às vezes não fluem justamente por isso. Acredito que a diferença da gente ter conquistado o nosso próprio espaço, é pela persistência e disponibilidade em estar sempre na estrada.» Esta persistência joga ao lado de ferramentas modernas como a internet, algo que não estava disponível – pelo menos da forma que hoje está – no tempo do Sepultura: «Na época do Sepultura as coisas eram muito mais difíceis», comenta. «Hoje em dia existe a internet, que é uma ferramenta maravilhosa para divulgar a banda, mas ao mesmo tempo é difícil pois como é uma ferramenta de muito fácil acesso há um mundo inteiro de bandas e é difícil você se destacar. Na época do Sepultura a coisa era diferente. Tudo era por carta, não tinha internet – até tinha internet, mas era inacessível, era só para quem tinha muito dinheiro. Então acredito que a diferença seja essa.»

PRECONCEITO & INSPIRAÇÃO Estamos no meio de 2018 e ainda há quem veja uma banda como a Nervosa como uma moda e algo que não sobreviverá ao teste do tempo, apenas porque a sua formação é composta na íntegra por mulheres: «Na verdade, para tudo e para todos, todo o mundo sofre algum tipo de preconceito, mas pra gente ainda há bastante. Ainda tem muito para melhorar, mas já melhorou bastante. Como eu não dou muito foco para esse tipo de coisa, eu acabo não sentindo muito isso. Essas coisas muito

negativas assim eu não dou atenção mesmo e às vezes algumas coisas acabam passando despercebidas.» Mas nem tudo é mau, e como admite Prika, o fato da banda funcionar exclusivamente com mulheres deu-lhes um ligeiro avanço no marketing: «O lance de ter uma banda de mulheres, a diferença é que por um lado é mais fácil, porque para divulgar uma banda de mulheres é mais fácil. A gente é diferente e uma banda de mulheres chama a atenção. Só que para conquistar respeito é muito mais difícil pelo fato de sermos mulheres», lamenta. «As pessoas julgam a gente: “Ah, não sabe tocar, não sabe fazer isso e aquilo, não tem tanta força, não é agressivo”, não sei que, não sei que lá. Ou ao contrário, “É muito agressivo, não é feminino”. As pessoas inventam muitas regras pra gente. Mas a gente não se preocupa com isso e a gente faz o que a gente gosta independente se a gente está agradando essas pessoas que gostam de julgar. Acho que é importante a gente fazer o que gosta e é assim que você vai ser verdadeiro e conquistar o nosso público.» Por tudo isto, a Nervosa tem a responsabilidade acrescida de ser modelo para as gerações futuras e, quem sabe, potenciar um dia a inclusão de mais mulheres numa cena até aqui dominada pelo sexo masculino: «Acredito que a gente abriu certas portas e encoraja as meninas a fazerem o que elas sonham e querem. A gente sempre tenta passar essa mensagem para as meninas e elas sempre perguntam pra gente ou sempre pedem conselhos e coisas assim, e a gente super apoia todas. Independente se você toca bem ou mal, se é bom ou ruim… No começo tudo é ruim, na verdade, sabe? A banda está-se desenvolvendo, tem que ter paciência, tem que ter foco e objetivo mesmo, e não desistir.»

À TERCEIRA É DE VEZ As brasileiras passaram também por um processo de aperfeiçoamento de forma a transformarem as suas ideias no produto final que hoje ouvimos em "Downfall Of Mankind": «Eu acredito que desde o primeiro disco a gente já tinha bem claro o que é que a gente queria, só que a gente conseguiu desenvolver melhor no segundo e aprimorar nesse terceiro», revela a guitarrista. «O primeiro disco [“Victim of Yourself”, 2014] foi um pouco conturbado porque a gente perdeu a nossa baterista e a gente teve que chamar um outro músico para gravar o disco de última hora e então eu acho que prejudicou o nosso desenvolvimento como banda.» O sucessor "Agony", lançado dois anos depois, traria notícias melhores: «Mas o segundo disco, quando a gente trocou a baterista e formou realmente uma banda sólida, ali a gente determinou que queria fazer thrash metal com death metal, o tipo de riff e a maneira como a gente compõe se solidificou mais, porque a gente tem gostos em

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comum mas tem gostos diferentes e misturar isso deu trabalho.» À terceira oportunidade, a visão das Nervosa ficou bem mais clara: «Com o terceiro disco a gente aprimorou por dois motivos: uma porque a estrada nos traz experiência, então a gente tá melhor do que antes. Não é que esteja bem o suficiente», brinca, «mas a gente evoluiu». A baterista Luana Dametto viria a desempenhar um papel muito importante na evolução da Nervosa, conforme Prika explica: «A Luana levou a gente a chegar exatamente onde a gente queria. A gente trabalhou muito nesse disco e a Luana contribuiu pra caralho, porque ela trouxe toda a técnica. Apesar de ela ser uma baterista nova, de ser super jovem, ela traz uma bagagem muito grande porque ela começou bem cedo. Ela veio de uma banda de death metal, que é bem mais técnico do que o thrash, então pra ela foi mais fácil e por outro lado enriqueceu mais ela. A gente tá muito satisfeita com o resultado desse disco e a gente não vê a hora de começar a tocar ele.»

HUMANIDADE EM DECLÍNIO «Eu acho que na verdade a humanidade já está no seu fim há muito tempo», diz Prika sem grande surpresa. «A gente vive num limite, numa linha ali que há muitos conflitos no mundo, muita desigualdade, muito ódio, né? E a gente vê isso cada dia mais crescendo. O mundo, desde a sua história, ela diz assim: guerra, tempos de paz, guerra, tempos de paz… É uma montanha russa, certo? A gente sabe que uma terceira guerra mundial está muito próxima de chegar e está por um fio. Pela história, todo o mundo tenta se conter e todo o mundo sabe que isso é muito ruim, mas o ódio cega o ser humano e qualquer hora isso pode explodir, a gente sabe disso.» Aos olhos da guitarrista, o declínio da nossa espécie advém não só das guerras por nós fomentadas mas também da natureza humana, que está cada vez mais apática: «As pessoas estão ficando mais frias, cada vez se importando menos, cada vez mais egoístas, e isso também torna a humanidade cada vez mais caindo numa vala. A gente tá destruindo muito a Natureza, tá esgotando os recursos naturais, matando os bichos e muita coisa ruim ao mesmo tempo. Isso numa hora vai dar merda e então eu acredito que a decadência já começou faz tempo.» A causa desta decadência tem um motivo simples: egoísmo. «As pessoas não pensam muito nelas. Acham que porque têm dinheiro podem comprar tudo e dizem “Joga ali o lixo que depois o lixo vai-se reciclar sozinho” e não é bem assim, né? É mais um egoísmo: “Eu quero viver bem e foda-se tudo à volta”. É um pensamento muito egoísta. A gente não está fazendo o futuro, só está vivendo sem se preocupar com nada.»

BRASIL, PAÍS PORRADA Em “Raise Your Fist”, décima faixa do álbum, podemos ouvir trechos de discursos daqueles que ao longo dos tempos lutaram pelos direitos civis. Temas como a opressão, a desigualdade, o preconceito e a corrupção estão sempre vivos nos temas de Nervosa, que segundo a nossa entrevistada - apesar de esperar o contrário -, não acha que o ser humano alguma vez será capaz de ver para além da cor, do sexo ou até do ódio: «A gente espera, acredita e quer isso muito, mas é uma coisa que está muito longe de acontecer. Existem religiões muito radicais que parece que vivem num mundo muito separado do nosso. Acredito que há muitas coisas que cegam o ser humano que impossibilitam de evoluir e uma delas é a religião. O ódio e o preconceito fazem parte do ser humano e isso sempre vai existir.» Prika descreve-nos a situação atual do Brasil no que diz respeito ao preconceito: «O racismo existe no Brasil, como em qualquer outro lugar no mundo, mas eu acredito que o problema maior no Brasil em relação ao preconceito é a condição social. Aquela briga de quem tem dinheiro e quem não tem. O pobre, que é ignorante de conhecimento e educação, contra o rico que tem acesso à educação, então a briga no Brasil é mais social que racial. O Brasil é um país que tem pessoas do mundo inteiro, então você vê negros ricos donos de empresa, vê bastante isso, e o

Brasil é um país de negros. Tem bastante inclusão. Claro que ainda tem muito pra se caminhar, muito pra se destruir o preconceito, mas há isso e não há uma separação de negros e brancos como há nos Estados Unidos. A gente vê isso… A gente vê seriado só de negro, seriado só de branco, e já ouvi pessoas que me disseram que moraram nos Estados Unidos e que tem praia onde negro não entra, ou bairro só de negro, bairro só de branco… Essa separação no Brasil não existe. As pessoas convivem juntas. A separação no Brasil é de condição social: os pobres na favela e os ricos nos seus bairros.» O seu país natal desenvolve ainda um papel muito ativo não só nas letras, mas também no próprio instrumental, como explica Prika: «O ódio e a raiva têm muita influência porque o Brasil é um país corrupto, desigual e injusto. A justiça só existe para quem tem dinheiro e para quem não tem a justiça é muito cruel. Isso nos dá raiva e a gente acaba tocando uma música agressiva por conta do que a gente passa em nossas vidas, no dia-a-dia, do que a gente presencia no nosso país.» Apesar disso, a Nervosa partilha de uma visão que vai muito além do Brasil, tentando para isso adaptar as realidades que abordam nas suas músicas de forma a serem entendidas no mundo inteiro: «Como a gente é uma banda que canta em inglês e não em português, a gente queria uma coisa mais mundial do que uma coisa regional, então a gente procura falar sobre os assuntos que tocam todas as pessoas, então quando a gente fala de alguma coisa, a gente fala de corrupção mas de um modo geral porque a corrupção está presente no mundo inteiro. Mais nuns lugares do que em outros, mas a gente também foca bastante no ser humano e no seu comportamento, assim a gente consegue atingir todo o mundo.»

O VELHO CONHECE O NOVO As influências de Nervosa são evidentes e não seria de esperar o contrário. Nunca esconderam o seu fascínio pelas bandas que agitaram as décadas de 1980 e 1990, acabando por produzir uma fórmula cuja essência vem dos anos dourados do metal mas com um espírito todo ele jovem: «Todas as nossas influências vêm das bandas antigas, das bandas clássicas dos anos 80 e 90», admite Prika. «O lado moderno surge porque fazemos parte de uma geração mais nova e os equipamentos que usamos são diferentes. Então a sonoridade acaba ela própria por soar diferente. Usamos outro tipo de pedais, de amplificadores, de microfones, e tudo isso influencia o resultado final.» De salutar também neste disco está a forma fantástica com que o produtor lidou com o baixo da também vocalista Fernanda Lira. Prika explica as razões que motivaram a insistência da banda para que este instrumento, muitas vezes negligenciado, fosse perfeitamente audível: «Só pelo facto de sermos um trio, o baixo já aparece mais naturalmente, mas isso faz mais parte da personalidade da Fernanda. Ela sempre gostou do baixo mais agudo, inspirado no Steve Harris [Iron Maiden], então isso faz com que acabe por se destacar mais do que um baixo extremamente grave, pois o baixo normalmente em bandas de thrash metal - e principalmente death metal - é tão grave que nem percebes. Está mais ali para completar os graves e dar um fundo à música do que para perceberes as notas.» Terminadas as cortesias, Prika desligava do outro lado do Atlântico para aproveitar o que era suposto ser uma semana de férias antes de voltar ao rigoroso calendário que levam a cabo desde que o contrato com a austríaca Napalm Records se tornou uma realidade. As Nervosa vão andar em tour e fica manifestada a vontade de passar por Portugal. Álbum: DOWNFALL OF MANKIND Editora: NAPALM Lançamento: 1 JUNHO 2018

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"CULTURA DO ESTUPRO"

«O João Gordo é um amor de pessoa», responde-nos Prika de imediato quando questionada sobre a participação especial do líder dos Ratos de Porão na faixa "Cultura do Estupro". «Ele sempre apoiou muito a gente quando tinha uma época que a galera gostava de ofender a gente na internet. Ele sempre defendia a gente e aí ele chegou pra gente e disse “Meu, por que é que vocês não me deixam fazer uma participação no disco de vocês? Eu quero fazer uma letra meio que defendendo vocês.” Ficou meio aqui no ar e quando a gente começou a gravar, a gente chamou ele para participar e ele escreveu uma letra super foda, que se chama “Cultura do Estupro”, que tem tudo a ver com o que a gente fala, a gente passa e o que a gente vive, e foi maravilhoso estar com um cara que é extremamente importante para a cena metal e que é uma pessoa maravilhosa. Foi muito legal ter essa oportunidade de trabalhar com ele.»

CONVIDADOS DE LUXO

Para além do icónico vocalista dos Ratos de Porão, as Nervosa chamaram ao serviço outros convidados: «Tivemos outras pessoas que fizeram parte do disco e que são extremamente importantes, tais como o baterista dos Korzus, o Rodrigo Oliveira, que é uma das bandas mais importantes do metal brasileiro, e tivemos também a participação de Michael Gilbert, o guitarrista dos Floatsam & Jetsam, que é "um puta brother" e foi incrível tê-lo a participar numa parte do solo da nossa faixa-bónus. Foi uma honra enorme!»


TEXTO: DIOGO FERREIRA / ENTREVISTA: MERLIN ALDERSLADE / FOTOGRAFIA: AMANDA DEMME & MIKAEL ERIKSSON

«O Cardeal é a personagem que tem potencial para se tornar Papa.» VENTOS DE MUDANÇA “Sou o Papa Emeritus 0. Acabou a festa e agora começa uma nova era. A Idade Média começa agora.” Foram estas as palavras proferidas em 30 de Setembro de 2017 que mudariam o universo dos Ghost para sempre – mais uma vez. A meio da finalizadora “Monstrance Clock”, num show em Gotemburgo (Suécia), Papa Emeritus III, o frontman que liderou a fase com mais sucesso da banda, foi abruptamente removido do palco enquanto os seus Nameless Ghouls observavam inanimadamente o corrupio instalado. Logo após emergia uma figura sombria e frágil composta por um corpsepaint zombie e paramentos papais. Era Papa 0. Ao dirigir-se à plateia perplexa com as frases atrás mencionadas, duas coisas se tornariam claras: primeiro, os Ghost estavam sendo alvo de mudança, e, segundo, ninguém fazia ideia do que dali iria suceder. «Seria idiota da minha parte assumir que toda mundo à minha volta compreende o que se passa na minha cabeça», explica Tobias Forge com um sorriso malicioso. «É uma luta.» Cerca de um ano depois de Forge ter, a contragosto, deixado cair as máscaras e oficializar-se como o criador de tudo o que há em Ghost chegamos ao quarto álbum “Prequelle” e serve este artigo para dissecar o conceito, as novas personagens e boa parte da biografia desta ainda jovem carreira que já é um marco preponderante no panorama heavy metal e rock. Tobias Forge é um nato conhecedor de música e no meio desse conhecimento vive um metálico nerd que elevou esta banda ao mais alto nível da música alternativa como já não se via desde a emancipação de projetos como Marilyn Manson e Slipknot. Quando se fala de um novo álbum de Ghost a ideia generalizada vai além disso – um novo disco de Ghost é um evento, é o viver na expectativa para se descobrir ansiosamente o que aí vem musical e imageticamente, e é o conviver com a evolução de cada capítulo iniciado em 2010. Utilizando expressões inglesas e relacionadas ao cinema, os Ghost tem um plot mas como em qualquer bom filme há um twist, e Forge tem sabido brincar com isso: «Tento sempre dificultar as coisas. Em vez de fazer

grandes e vazias declarações comerciais, tento fazer as coisas de uma forma mais cinemática. Se continuássemos com Papa atrás de Papa, isso se tornaria enfadonho. Seria uma maneira unidimensional de se olhar para esta banda. Se tivesse feito isso, os Ghost já estariam em piloto automático e entrariam em estagnação rapidamente.»

CARDINAL COPIA: NOVO LÍDER DOS GHOST Por esta altura, a grande maioria já deve ter conhecimento que o líder dos Ghost tem envergado a configuração de (vários) Papa Emeritus: uma figura papal revestida por corpsepaint que declama odes à vida, amor, morte, sexo e Satanás em nome de um clero misterioso e que é apoiado por um rebanho de músicos encapuzados que atendem pelo nome de Nameless Ghouls. Cada novidade discográfica significa um ‘novo Papa’ pronto a exibir um novo look e conceito, mas cedo se percebeu que Papa 0 (pronuncia-se ‘Nil’) não estava para aí virado. No segundo de três capítulos que nos ajudaram a acompanhar o desenrolar do enredo foi-nos apresentado Cardinal Copia – isso mesmo, um Cardeal e não um Papa. Com o vídeo para “Rats” tudo foi ainda mais desmitificado. «Acho que o que mais quero escavar neste álbum faz parte de coisas que não eram muito claras anteriormente», responde Forge quando questionado como é que esta nova entidade se encaixará no mundo de Ghost. «Com este álbum estou ansioso por esclarecer o conceito de sênior versus júnior, mestre versus aprendiz, idoso versus jovem. Assim sendo, há um desapego com Papa 0. Ele é uma grande personagem, mas é demasiado velho para isto. Pode ser o líder mais velho da igreja, mas não consegue ser o artista que aparece no meio das massas. Portanto precisa de uma pessoa mais jovem e mais vibrante que possa ensinar. Será o Cardinal [Copia].» De batina negra, barrete eclesiástico, bigodinho e olhos côncavos, Copia apresenta-se energético, um pouco convencido e com maneirismos

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DISCOGRAFIA OS GHOST EM DISCOS

“Opus Eponymous” [2010, Rise Above] Este primeiro álbum é tipo o embrião de tudo neste grupo clerical: a ideia está lá, só que ainda malformada. Com alguns riffs metal sinistros (e plagiados?), este disco também consegue ser melódico e catchy nos refrãos, mas em 2010 os misteriosos sacerdotes suecos ainda procuravam a receita certa. “Infestissumam” [2013, Loma Vista] Com a prova de fogo que é muitas vezes o segundo álbum, os Ghost deram o seu leap of faith de quase desconhecidos para ultraprofissionais com “Infestissumam”. Entre satanismo e sexo, temas como “Year Zero” e “Monstrance Clock” fizeram, e ainda fazem, as delícias de quem segue este profano conclave. “If You Have Ghost” EP [2013, Spinefarm] Foi com este EP que os Ghost recolocaram Roky Erickson sob a luz dos holofotes ao fazerem uma cover imensamente bem sacada do tema “If You Have Ghosts”. Para além de reinterpretarem Abba e Army of Lovers, destaque para “Waiting for the Night” (Depeche Mode). Dave Grohl foi o produtor. “Meliora” [2015, Spinefarm] Focados na sedução amorosa e na subida de estatuto social – sempre com Lúcifer no epicentro –, os Ghost fizeram de “Meliora” não só um excelente álbum com groove mas também uma experiência cinéfila. Com Papa Emeritus III, Tobias Forge tornou-se oficialmente a personagem reinante do panorama heavy metal / rock. “Popestar” EP [2016, Loma Vista] O cinema de “Meliora” continua com o único tema original deste EP, “Square Hammer”. Tobias Forge volta a evidenciar o seu gosto por música electrónica ao fazer covers de “I Believe” dos Simian Mobile Disco e “Missionary Man” dos Eurythmics. Foi praticamente a despedida de Papa Emeritus III. “Prequelle” [2018, Spinefarm] O quarto longa-duração dos Ghost debruça-se sobre pestes, eras negras e apocalipse. Sem ser propriamente superpesado, mas com mais groove do que “Meliora”, este trabalho não perde em nada a característica catchiness de refrãos que ficam no ouvido ou o memorável som dos teclados à classic/prog rock dos anos 1970. WWW.GHOST-OFFICIAL.COM

«Acho que tomamos pessoas como o Lemmy por garantidas.» urbanos. Resumidamente é a personificação de “Prequelle”: o álbum que trará a próxima evolução da visão de vida de Tobias. «O Cardeal é a personagem que, se jogar as cartas certas, tem potencial para se tornar Papa», revela o sueco. Estará, portanto, Papa 0 treinando um aprendiz? «Sim», afirma Forge, «mas a história decorrerá em paralelo ao ciclo do álbum». Apenas isto.

MORTE E PESTE Talvez não precisemos ficar tão surpreendidos com a relutância que Tobias Forge expressa em revelar detalhes, porque este é o homem que, desde que revelou o seu papel nos Ghost em 2017, tem de lidar com um maior nível de análise do que antes. Depois de se estabelecer como um nome importante do underground sueco com os Repugnant, foi com a fundação de Ghost que a criatividade de Forge explodiu. Quando single “Elizabeth” foi libertado, em Junho de 2010, faiscou instantaneamente uma maquinaria de questões e quando em Outubro seguinte saiu o primeiro álbum “Opus Eponymous” a locomotiva já estava em andamento. Cedo, fãs de todo o mundo irromperam pelos fóruns e redes sociais perguntando que banda era aquela que misturava nuances de King Diamond e Blue Öyster Cult com refrãos assimiláveis e quase pop; isto tudo com a cereja no topo do bolo que era o anonimato, o corpsepaint e a toada satânica. Seguiu-se o bombástico “Infestissumam” (2013) e o suntuoso “Meliora” (2015), este que valeu aos Ghost shows esgotados, um Grammy e quase meio milhão de vendas. Agora em 2018, “Prequelle” é um passo que Tobias Forge já vinha preparando há mais tempo do que imaginamos: «Tematicamente havia um claro esboço para este disco há alguns anos. Ao fazer o “Meliora” tinha duas pilhas de canções. Disse ao nosso produtor, Klas Åhlund, que tinha duas ideias. Uma era a de um disco mais futurístico, mais urbano. Depois tinha outra em mente que era mais… medieval. Decidimos seguir com a futurística em primeiro, que se tornou no “Meliora”. Agora é altura para a medieval. Que é o “Prequelle”.» Com pragas e pestilências no foco central deste disco, Papa 0 é o realizador sombrio e Cardinal Copia o seu narrador assustador. Os Ghost sempre foram mais do que apenas bons entertainers com conceitos bem delineados escondidos atrás de metáforas construídas à volta de Satanás. “Opus Eponymous” versava sobre a condenação da humanidade, “Infestissumam” descreveu o Anticristo de uma forma que nos afetasse o âmago e “Meliora” canalizou o humanismo através de um filtro de excessivo materialismo sem esquecer o amor. Tudo isto nos é transmitido através de planos carnais e espirituais que vão para além da nossa existência – Ghost nos fala de vida e de morte, da humanidade em si. Do pó viemos, ao pó voltaremos. «Há algumas coisas que queria incluir em “Prequelle” que não tinham sido explicadas antes», conta Tobias. E prossegue: «Este é um álbum temático sobre morte e o fim iminente, e nos últimos anos temos visto morrer alguns dos nossos ídolos mais velhos. Ronnie James Dio foi um, mas acho que isto me afetou muito, especialmente quando o Lemmy morreu. É como se os nossos pais morressem. Acho que tomamos pessoas como o Lemmy por garantidas. Ia sentar-se à nossa mesa para sempre, mas agora há uma cadeira vazia. Afetou-me mais do que imaginava que pudesse afetar. Fez-me querer ser um pouco mais atencioso quando chega o momento de ter a certeza que tirei o melhor partido de quando estou com os mais velhos. É algo que me afetou muito e ao disco. Portanto, Papa 0 representa a passagem de testemunho? Sim.» O método de utilizar temas e imagens históricas para projetar pro-

blemas contemporâneos está estampado no single/vídeo “Rats”. Enquanto musicalmente este pode ser um dos números mais agitados e energéticos de Ghost, as letras são influenciadas na Peste Negra, a praga mortífera que aniquilou meia Europa no Séc. XIV. Mais: como em qualquer coisa que a banda faz, esta canção pode ser tão relevante agora como em qualquer momento da História. «A peste atingiu a Europa nos 1340s através de barcos a serem rebocados até ao porto de Messina, e estavam cheios de mortos. A única coisa que saiu desses navios quando chegaram ao porto foram ratos negros. Foi assim que a praga chegou à Europa e daí se espalhou.» «Mas estes não são elementos aos quais possamos encolher os ombros como se tivessem acontecido apenas naquela época», esclarecendo que «isto é tudo muito contemporâneo». E continua: «Há milhões de pessoas que, nos últimos quatro anos, sentiram a mesma realidade apocalíptica sentida na Europa do Séc. XIV, quando o mundo estava literalmente a colapsar e quando se pensava que deus estava lançando a condenação à face da Terra. A morte está sempre presente.» Todavia, as comparações entre passado e atualidade não terminam aqui. Para Tobias Forge, os Ghost são uma reflexão da forma como a sociedade pode avançar com um passo, mas atrasar-se com outro. «Acho que andamos para trás quando se fala em sociedade moderna», teoriza. «Dizemos que crescemos através de certas imaturidades e superstições, mas os nossos ‘maneirismos online’, a forma como unimos forças e como nos tornamos amotinados para aniquilar pessoas são muito medievais. É básico. ‘É um bruxo! Apedrejem-no!’ É muito primitivo, e acho que estamos num tempo em que a versão idealística de nós mesmos está a encontrar-se com aquilo que os babuínos realmente são. É uma dinâmica estranha em que estamos pouco certos daquilo que somos. Os nossos papéis estão sendo redefinidos, significando que a nossa moral e o nosso estilo de querer viver não correspondem à maneira como realmente vivemos. Portanto sim, acho que muitas das coisas que abordo neste álbum são muito contemporâneas. Pinta-se uma imagem do que aconteceu no passado, mas muito disto é o agora.»

“PREQUELLE” – UMA ÓPERA-ROCK Conceitualmente, “Prequelle” é um álbum que certamente invoca vários níveis de interpretação e análise, e musicalmente a coisa não é muito diferente. Para além do pop-metal/rock de “Rats”, no alinhamento encontramos faixas bem hardrock e groovadas como “Dance Macabre”, power-ballads como “See the Light”, instrumentais espaciais em “Miasma” (que inclui um breve solo de saxofone), ambições de óperas do rock em “Pro Memoria” ou linhas de guitarra inspiradas em êxitos intemporais como “Beat It” de Michael Jackson. «Tentei fazer de Ghost mais Queen do que AC/DC», revela o interlocutor sobre a combinação da nova sonoridade. «Com Ghost cada canção tem de ter a sua própria ideia e estrutura. O que expandi em “Infestissumam” e em “Meliora” foi que uma canção de Ghost não começa necessariamente com uma grande intro de guitarra. Com Ghost você pode fazer qualquer coisa.» Acabando por confessar o que já desconfiávamos: «Sou um pouco de ópera-rock com a minha música.»

ACÇÃO JUDICIAL E O FUTURO Trazer à vida toda a grandiosa visão artística é o prato principal da

«Sou um pouco de ópera-rock com a minha música.» 24 - ULTRAJE BRASIL #01


refeição preparada por Tobias Forge, mas acontecimentos recentes têm desviado as suas, e as nossas, atenções. Há pouco mais de um ano, quatro antigos Nameless Ghouls entraram em luta judicial contra o vocalista, reivindicando que teria existido um acordo que firmava que Ghost era uma aventura colaborativa – um acordo que alegaram ter sido quebrado por Tobias Forge quando este começou a assumir mais controle da banda. O sueco respondeu dizendo que tal concordância nunca aconteceu e que os restantes papéis no grupo existiam puramente para atuar e executar as suas ideias. Para ele, ver esta ação judicial tomar proporções públicas – uma situação que acelerou a tomada de decisão para tirar as máscaras de Papa – foi algo que demorou o seu tempo até se habituar. «Acho que o que aconteceu foi o culminar de vários anos de confusão», começa diplomaticamente. «A razão para que isto se tenha tornado público é-me desconhecida, porque durante vários anos muito do que fiz e de como me comportei enquanto artista foi feito nos bastidores, e alegremente. No fim são dores de crescimento. Nada disto aconteceria se as coisas não corressem bem e se os Ghost fossem pelo ralo abaixo. Quer dizer, assim os Black Sabbath tinham andado em litigação eternamente! Vejo isto quase como um rito de iniciação. Não é um artista sério até que passe pelo primeiro processo judicial.» Quanto a revelar-se oficialmente como o homem por detrás de Ghost, o que aconteceu numa entrevista de rádio quatro meses após a ação se ter tornado pública, Forge admite que isso iria acontecer a qualquer momento. «A ideia de ser anônimo vai contra o estilo de vida moderno», argumenta. «É maravilhoso que ser anônimo funcionou durante seis anos! Não sou tão colorido como as personagens que ostento, e é por isso que as criei – são mais interessantes do que eu. E acho que isso vence em termos de perfil público. Nunca conseguirei ultrapassar as minhas personagens, e estou bem com isso. Estou

bastante contente por não ser o principal aspecto visual da criação. Gostaria de ter crédito por ser responsável por isto acontecer, mas não tenho de ser o ponto focal. É bom ter regalias, mas não tenho o desejo ardente de ser famoso.» Com um remate tão humilde, a postura mundana tem-nos ensinado que a fama é raramente controlada pela pessoa que a abraça, mas parece que Tobias Forge encontrou o papel perfeito na peça que é a sua vida. Acreditando que Ghost é o seu bebê, a história deste conclave teatral vai prosseguir procissão enquanto o seu desejo de criação se mantiver intacto, e novidades ao vivo já estão no adro da igreja, prontas a percorrer o mundo: «Vamos ter nove pessoas no palco fazendo barulho em uníssono», significando que os backing-tracks vocais fazem parte do passado e que os shows de Ghost serão muito mais orgânicos. «Os meus objetivos mantêm-se os mesmos. O plano sempre foi tornar Ghost no espetáculo que sempre quis que se tornasse. Quero ver isto a um nível onde possa, dia-a-dia, atuar perante o máximo número possível de pessoas.» A missa de “Prequelle” está estudada, os coros estão afinados, os acólitos já estão na sacristia prontos a fazer guarda-de-honra até ao altar e os fiéis por todo o mundo estão desejosos por serem abençoados durante as próximas eucaristias presididas por Cardinal Copia. As citações deste artigo foram traduzidas e reproduzidas através da Metal Hammer e os direitos de autor, assim como o seu licenciamento, pertencem à Future Publishing Limited [uma empresa do grupo Future plc, UK 2018]. Todos os direitos reservados.

Álbum: PREQUELLE Editora: SPINEFARM Lançamento: 1 JUNHO 2018

APRESENTAÇÃO DA

FAMÍLIA Nome: Papa Emeritus I Anos de serviço: 2010-2012 É o original e o mais arcaico de todos os Papas. Na atividade durante os anos de menor reconhecimento da banda, Papa Emeritus I ficou conhecido pelo seu ar decrépito e de morto-vivo, mas também pelo turíbulo incensado que ostentava. Nome: Papa Emeritus II Anos de serviço: 2013-2015 O segundo Papa manteve a feição medonha, mas de maneira mais trabalhada. É a personagem indicada para disseminar as pestes e já algum teor sexual proveniente de “Infestissumam”, álbum de 2013 que colocou os Ghost em evidência. Nome: Papa Emeritus III Anos de serviço: 2015-2017 Supostamente o mais novo e definitivamente o mais bon vivant. Bonito (dentro dos parâmetros de Ghost) e bem vestido (tanto com adornos como com um terno de gala do Séc. XVIII), exala sensualidade relacionada à temática de “Meliora” (2015). Nome: Cardinal Copia Anos de Serviço: 2018-? Não pertence à linhagem e como cardeal poderá vir a tornar-se Papa. Com um certo misticismo e maneirismos urbanos, o Cardeal tratará de acabar com a festança que o seu antecessor andou perpetuando durante os seus anos de serviço. Nome: Papa Emeritus 0 Anos de serviço: ? Sendo o mentor do escolhido que liderará os Ghost, apareceu pela primeira vez em 2017 para acabar abruptamente com o reinado de Papa Emeritus III. Rabugento, velhaco e old-school, esta será a entidade mais próxima de Satanás. Nome: Sister Imperator Anos de serviço: 2016-? É a intermediária assertiva e eficaz que acalma Papa 0 e orienta os seus pupilos em Ghost. Como mulher de palavras fortes, tem também um sentido de carinho ao fundo do túnel daquela que é a sua postura impetuosa. Nome: Nameless Ghouls Anos de serviço: 2010-? A banda, os músicos contratados, os executantes dos caprichos de todos os Papas. Obedecer e cumprir é o papel das entidades que, sendo várias, têm que funcionar como uma só. Não há espaço para individualismo entre os Nameless Ghouls.

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«D

esculpem as remarcações das últimas duas semanas. Às vezes nem é a tour, é mesmo a falta de Wi-Fi em condições... Houve momentos em que nem tínhamos sinal», começa por dizer-nos J. F. Dagenais, mentor primordial dos Kataklysm. Nós o entrevistamos em San Sebastián, Espanha, num dia de folga e com a energia recarregada, o que fez com que a entrevista corresse bem. Poucas bandas conseguiram o mesmo que os Kataklysm: além de serem um dos nomes principais da primeira vaga de death metal de primeira linha, com registros como “The Mystical Gate of Reincarnation” ou “Sorcery”, lograram evoluir de forma sustentada e entraram com o pé direito nos 2000, com títulos como “The Prophecy (Stigmata Of The Immaculate)” e “Shadows And Dust”. Hoje. Pouco mais de três anos passados sobre “Of Ghosts And Gods”, os Kataklysm voltam com “Meditations”, um disco perfeitamente adequado ao presente e, para não variar, com a marca genética dos veteranos canadenses. Na verdade, custa a crer que “Meditations” é provavelmente o melhor álbum da fase pós-“Shadows And Dust”, tanto em termos técnicos como em maturidade coletiva em todos os sentidos: produção imaculada, um piscar de olho a um death metal mais groovy e uma toada mais polida que, certamente, lhes ajudará a ganhar novos fãs de diversos espectros do metal. Outra característica incontornável do novo álbum é a duração substancialmente mais curta de cada faixa em relação a trabalhos anteriores, o que poderá ajudar esses novos fãs ou os desconhecedores da banda a melhor

TEXTO: JOÃO CORREIA / FOTOGRAFIA: CORTESIA NUCLEAR BLAST

sintetizarem o trabalho. «Parece-me que aconteceu de forma natural», começa por dizer o guitarrista. «Na verdade, com este disco tivemos uma abordagem diferente – gravamos com todos os membros na mesma sala, como uma banda. Isso teve um grande impacto na composição, até porque saiu tudo muito natural. Depois, houve muito feedback imediato. Se eu aparecia com uma ideia, os outros membros atacavam-na de imediato e levavam-na para outros caminhos. Divertimo-nos muito fazendo isto, foi bastante eficaz e nos sentimos de novo como uma banda a sério. Quanto à duração, aconteceu assim: umas ficaram mais curtas e soavam bem, outras menos curtas e soavam bem na mesma. Acho que ficou legal porque as diferentes durações acabaram por equilibrar bem o disco.» Mas não é só a relativamente curta duração dos temas que marca em “Meditations” – trata-se do álbum mais melódico de sempre dos Kataklysm. Ainda que as faixas curtas apontem para estruturas mais agressivas, a banda conseguiu permear as camadas de agressão com bastante melodia. Melodia e agressividade parecem azeite e água, mas resultam bem em “Meditations”, o que levanta a questão da naturalidade com que os temas foram criados. «Fluiu tudo de forma muito espontânea. O que reparamos – e que me assustou um pouco enquanto compúnhamos – foi a diferença de tema para tema, pois não sabia se todas as faixas iriam resultar bem no mesmo disco. Quando chegamos à parte da pré-produção e gravação, vimos o quadro todo e percebemos que tudo se encaixava perfeitamente, como num puzzle, e foi aí que entendemos que, felizmente, todas elas soavam bem; tipo, funcionou! [risos]» No entanto, embora o 26 - ULTRAJE BRASIL #01

som dos Kataklysm nunca fosse estático, nota-se sempre um ligeiro regresso às origens. «Sim. Não quero perder as minhas raízes. De vez em quando volto a tocar um disco antigo nosso por diversão e nostalgia dos tempos em que trabalhamos neles e dos tempos que vivemos nessas alturas. Somos uma banda há tanto tempo que... É estranho, pois parece que ainda não passou muito tempo, mas de repente estamos aqui há 25 anos! Fazemos o que fazemos, somos apaixonados pela música e pelo nosso estilo de vida. O tempo passou, foi isso. Às vezes olho para trás e não acredito que ainda andamos nesta vida. Uma coisa que me impressiona é que estamos todos no mesmo barco e queremos continuar a fazê-lo, pois divertimo-nos com isto. Desde que nos divirtamos e os nossos fãs continuem a apoiar-nos, andaremos aqui durante muitos anos.» Uma das principais características dos Kataklysm refere-se à originalidade do som da banda. Os canadenses sempre tiveram um som único, distinto de tanta banda de death metal, o que em parte é explicado em termos geográficos, pois o death metal canadense sempre esteve um passo à frente em termos de originalidade em relação ao norte-americano, sempre muito orgânico e diversificado. Na comemoração dos seus 25 anos de carreira, certamente que Dagenais deve sentir que, para os Kataklysm, a missão foi cumprida. «Sim, acho, de certa forma. Enquanto crescia, sentia que vivia a minha vida dentro da minha bolha. Na escola nunca me misturei com os outros, e o mesmo se passou com os Kataklysm – sempre nos esforçamos por seguir o nosso caminho e fazer a nossa cena. Sempre que tocávamos nunca tentávamos copiar ou imitar outras bandas. No novo disco tens


«NÃO QUERO PERDER AS MINHAS RAÍZES. DE VEZ EM QUANDO, VOLTO A TOCAR UM DISCO ANTIGO NOSSO POR DIVERSÃO E NOSTALGIA DOS TEMPOS EM QUE TRABALHAMOS NELES E DOS TEMPOS QUE VIVEMOS NESSAS ALTURAS.»

uma faixa chamada “Outsider” que fala precisamente disso: ser você mesmo, fechado dentro do seu mundo e fazendo a sua própria cena. Felizmente, para nós, sentimo-nos muito abençoados por as coisas sempre terem resultado, mas, por outro lado, adoramos o nosso som e o que fazemos, e achamos que é por isso que as pessoas se identificam com o nosso som. Assim como você disse, temos um som único e talvez seja por isso que as pessoas se interessam. Temos muito orgulho em sermos o que somos e no que nos tornamos.» Mas, depois, há o reverso da medalha: certamente que os Kataklysm têm uma opinião formada quando ouvem bandas novas de death metal que soam ao som de marca dos Kataklysm. «Sim, temos. Muitos músicos novos já se aproximaram e disseram que pegaram numa guitarra ou numa bateria devido aos Kataklysm, e isso é muito legal. Para mim, e voltando à pergunta anterior, fico com a sensação de missão cumprida. Mas quando ouço muitas bandas modernas... [risos] Sinto que existe por aí muito talento: guitarristas, vocalistas, bateristas, baixistas... Fico feliz com tanta evolução, até porque nós somos velha-guarda. No entanto, quando ouço certas músicas hoje em dia perco-me com tanta técnica e complexidade. Perco-me um bocado. [risos] É bom e fico agradecido por isso. Mas também fico triste com as novas bandas por não terem capacidade para criarem bons temas, pois faltam-lhes estruturas e arranjos sólidos, que era uma coisa que bandas old-school dos anos 90, como nós, tinham. Sinto que lhes falta isso hoje em dia, mas é uma opinião pessoal. Mesmo assim, o nível de talento está tão elevado que dá gosto de ver.» É compreensível que Dagenais diga isto. Afinal, os Kataklysm progrediram, mudaram e adaptaram-se imenso ao longo das décadas, o que de certa forma os faz parecer um pouco como David Bowie, sempre a lutar contra a corrente, a respeitar a contemporaneidade e a construir constantemente a sua assinatura musical. O Santo Graal dos tempos modernos é conceber algo fresco, original e bom, mas os Kataklysm continuam a apresentar resultados. Estará isto relacionado exclusivamente com os novos membros da banda ou será que é o núcleo duro dos Kataklysm que orienta cada novo disco? «Somos todos irmãos na banda. Não importa quem aparece com uma nova ideia. Desde que o resultado seja bom... Às vezes até o baterista tem novas ideias e eu as testo; porque não? Contribuímos igualmente, os Kataklysm são um esforço de grupo e as diferentes influências de cada um fazem a diferença, fazem com que a magia aconteça. Por sua vez, isso faz com que continuemos a lançar música fresca e original.»

“Meditations” apresenta um som mais convencional muito devido à varinha mágica de Jay Ruston na produção do disco. Não é injusto dizer que a produção e a dinâmica sonora do novo registro são insólitas na longa carreira dos Kataklysm. Certamente que a banda está satisfeita com o resultado atingido com “Meditations”, mas Jay Ruston não é propriamente o tipo de produtor que costuma trabalhar com bandas de metal extremo. «Bom, quando ouvimos o trabalho do Jay Ruston há uns anos, estávamos fazendo o apoio aos In Flames nos Estados Unidos, ouvimos o novo disco dos Anthrax ou assim no ônibus da turnê e ficamos tipo 'foda-se, grande som!'. Fomos ao Google pesquisar pelo produtor e lhe telefonamos para saber se estava disponível. Acontece que ele é um produtor canadense vivendo em Hollywood e sabia quem nós éramos. Disse logo que estava interessado em trabalhar conosco e o timing foi perfeito desde o início. A princípio estávamos receosos, porque ele é um grande produtor de rock com algum currículo de heavy metal, mas raramente faz trabalhos com bandas de metal extremo como os Kataklysm. Nós temos noção de que é necessária uma certa técnica ou processo para obter o nosso som em estúdio, por isso não tínhamos a certeza se ele conseguiria fazer esse tipo de som. Mas quando ouvimos a mistura do primeiro tema nos surpreendemos com a potência da produção, enorme! Estamos principalmente satisfeitos com o resultado sonoro da bateria, que está tão natural e amplo, sem recurso a tecnologias e tudo o resto, pois queríamos obter o nosso som ainda assim. Aquilo que ouve no novo disco é tudo feito à moda antiga em estúdio, da bateria às guitarras. Ouve quatro rapazes tocando um som amplo e forte sem recurso a tecnologia para acabar com um som muito perfeito, muito como os álbuns do passado, pois queríamos afastar-nos desse conceito e obter um som mais orgânico e sujo, mas também muito agressivo. Outra vez: missão cumprida, estamos satisfeitíssimos.» Falando em passado, qualquer fã antigo de Kataklysm se lembrará para sempre de Sylvain Houde, o carismático vocalista que, quer se amasse ou odiasse, ficará para sempre na memória como a marca registada dos Kataklysm, da mesma forma que a voz de James Hetfield é no Metallica e a bateria de Dave Lombardo é no Slayer – foi assim tão determinante para o sucesso dos Kataklysm. Para uns, a gama vocal do homem, que variava entre o urro, o grito, a declamação quase falada com gravidade e que transmitia uma sensação geral de alucinação, fazia lembrar os rasgos de genialidade de um Syd Barrett de tão única que era, ao passo que, para outros, os fazia fugir da banda rapidamente quando o ouviam. Claro que tudo muda e as pessoas seguem as suas vidas, mas trata-se de uma das

glórias antigas dos Kataklysm. De repente, Sylvain saiu da banda e nunca mais se ouviu falar dele dentro do metal. «Para te ser sincero, já não vejo o Sylvain desde 1997. Nunca mais ouvi falar dele e não faço ideia do que estará fazendo neste momento. É um pouco triste, pois conseguimos tanto juntos! Para nós, foi o princípio de tudo – foi muito graças a ele que obtivemos um contrato de gravação, pois a sua voz era simplesmente única, era um excelente vocalista e letrista. Mas não sei o que lhe aconteceu. É certo que as bandas acabam e que as pessoas se separam, mas espero que esteja tudo bem com ele e que esteja a fazer aquilo que ele gosta. Nunca houve atrito pela sua saída e ele saiu porque assim decidiu, foi uma decisão pessoal dele. Continuamos o nosso caminho e descobrimos o nosso próprio som depois da saída dele, tanto com os membros da época como com os novos membros. Correu bem e gostamos do que fazemos atualmente. Não estou com isto dizendo que desrespeitamos os nossos primeiros dois discos, tipo 'ah e tal, são uma merda, só gostamos dos discos do presente!' [risos], longe disso – na verdade, foram bons tempos e valeram o que valeram. Já lá vão mais de 20 anos, é uma coisa do passado, mas não quero me esquecer das nossas origens.» A celebração dos 25 anos dos Kataklysm coincide com o lançamento de “Meditations” e, tendo em conta que é um disco tão distinto, presume-se que esteja alguma coisa preparada para celebrar os dois acontecimentos. «Sim, sem dúvida. Como disse, não nos esquecemos de onde viemos, por isso queremos incluir algumas músicas que raramente tocamos ao vivo no nosso set, por exemplo. É uma forma de variarmos e de introduzirmos novidades para os fãs. Obviamente, promoveremos o novo álbum também, achamos que temos um grande disco em mãos para promover. Mal posso esperar para tocar as novas faixas ao vivo nos festivais de Verão. Depois, a tour com Hypocrisy no Outono vai ser épica – na verdade, e para quem estiver mesmo interessado em aparecer, sugiro que reserve bilhetes o quanto antes, pois as promotoras já nos informaram que estão desaparecendo a um ritmo acelerado. Tanto a nossa agência como a Nuclear Blast estão muito contentes com o resultado, logo, também nós estamos. [risos]»

Álbum: MEDITATIONS Editora: NUCLEAR BLAST Lançamento: 1 JUNHO 2018

«AQUILO QUE OUVE NO NOVO DISCO É TUDO FEITO À MODA ANTIGA EM ESTÚDIO, DA BATERIA ÀS GUITARRAS.» 27 - ULTRAJE BRASIL #01


TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: PETER BESTE

“D

evoid of Light” apareceu em 2016 como primeiro álbum dos norte-americanos Uada e foi logo louvado pela imprensa como um bom e sólido álbum de black metal melódico. Cerca de dois anos depois, o quarteto está de volta com “Cult of a Dying Sun” e sem aparente pressão devido à prova de fogo que é um segundo disco, conforme nos faz querer parecer o guitarrista Jake Superchi: «Não posso dizer que tenhamos sentido pressão com o lançamento do segundo álbum, pelo menos não a pressão que poderia ser maior do que aquela que colocamos em nós mesmos. Sabíamos que o que estávamos fazendo era único e possivelmente inovador para o gênero. Não é inovador no sentido de que estamos a fazer algo completamente diferente, mas mais porque o álbum assume muitas faces e gêneros diferentes permanecendo fiel ao som que é Uada.» A assinatura do black metal melódico é assim mantida no novo álbum, mas notam-se incursões ao heavy metal em alguns solos de guitarra, o que faz deste disco um objeto ainda mais melódico do que o anterior. «Quando se formou Uada, o James [Sloan, guitarra] e eu conversámos muito sobre influência, o que continuou ainda mais neste álbum», conta Jake que relembra também existirem «muitas raízes semelhantes desde os primeiros dias do black metal», sem omitir «bandas clássicas de heavy metal que se podem ouvir no trabalho [de Uada]». «Como guitarristas sentimos que é importante honrar essas raízes em vez de negá-las», sublinhando com firmeza que «muitas bandas de black metal parecem esquecer-se que se não fosse por bandas como Black Sabbath, Judas Priest, Thin Lizzy, Mercyful Fate, Metallica inicial, Ozzy Osbourne na era do Randy Rhoads, Motörhead ou Iron Maiden, o black metal podia não existir ou não ser o que é hoje». Assim sendo, é esperado que Superchi coloque Uada neste raciocínio: «Não teríamos encontrado o nosso caminho para uma versão mais extrema e intensa de metal se não fosse por essas bandas. Uada é definitivamente uma banda de black metal, mas nós esforçamo-nos para não ser apenas mais um grupo que toma o caminho seguro para se encaixar no molde. Começamos com a tarefa em mente de ir naturalmente para além das regras e regulamentos que o black metal tem assumido.» Mesmo que se ache que o som de Uada é polido, uma atmosfera geral está presente em todo o álbum. Mais: sem tal coisa o black metal perde a sua essência. «Tentamos equilibrar a nossa produção entre um som cru e polido», avisa o norte-americano que admite que «tudo o que faz [nesta banda] tem um equilíbrio». «Sinto que o contraste é extremamente importante para o nosso trabalho e som, e com a

atmosfera não é diferente. A atmosfera e a energia que criamos ao vivo são o que estávamos tentando capturar na gravação. Não é uma tarefa fácil, a menos que a gravação seja ao vivo, mas sentimos que estamos um passo mais perto e também na direção certa.» Ainda bem que surgiu o assunto de se tocar ao vivo, até porque ouvindo o disco parece que James e Jake não tiveram dificuldades em incluir os dois novos membros Brent e Edward, baterista e baixista respectivamente que fizeram um ótimo trabalho neste “Cult of a Dying Sun”. Questionado sobre a coesão vivida no seio de Uada, Superchi realça que «a banda agora sente-se mais forte do que nunca» e que «a coesão é uma coisa muito importante para uma banda que faz digressões e que trabalha tanto». Continua: «Harmonizamo-nos no palco e precisamos harmonizar fora dele senão podemos colocar tudo em risco. Nada pode parar Uada e continuaremos a avançar sem importar o que o futuro reserva. Há uma fome insaciável por arte e criação. É uma forte ética de trabalho e determinação que nos levará onde queremos ir, e acreditamos que o que fizemos com base na nossa estreia é apenas uma pequena amostra dos frutos que estão por vir.» Dissecada que está a parte auditiva e de recursos humanos, falta tentar compreender o conceito por detrás do título “Cult of a Dying Sun”. “Uma lança afiada no coração da estrela mais brilhante” é uma frase que está no press-release e que captou a nossa atenção principalmente se conotada ao título do álbum. Sem grandes filosofias, o músico explica que «é uma analogia que vem do conceito geral de reflexão». Ao confessar que prefere usufruir da sua reclusão, Jake sabe que um compromisso teria de ser feito: o de conseguir coexistir com outras pessoas. «Para alcançar e levar esta banda tão alto quanto o sol temos que nos aventurar e somos forçados a lidar com as pessoas. Durante o processo de composição deste álbum até aos momentos finais da mistura estávamos lidando com quem nos rodeava por razões erradas e com pessoas exteriores que queriam sabotar o nosso sucesso da maneira que achavam que conseguiam. Mas não há como parar Uada, só nós próprios podemos parar.» E finaliza: «Olhando para esses cenários e para o título do álbum, “Cult” representa pessoas ou um grupo de pessoas e “Dying Sun” é a luz dentro de nós que está a ser morta lentamente pelas ações dos outros em nosso redor. É fácil encontrar a nossa luz e aproveitá-la em solidariedade. É muito mais um desafio fazer o mesmo, face à adversidade, e este álbum tem a ver com isso.»

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JAKE SUPERCHI SOBRE A PERSEGUIÇÃO AO BLACK METAL Bem justificada numas situações, mas mal em outras (não adianta agora mencionar quais e por que), nos EUA tem decorrido uma perseguição sem antecedentes ao black metal, especialmente por parte de movimentos antifa – os conservadores de direita e tementes a deus devem estar com inveja. Jake Superchi, que é um norte-americano natural do Massachusetts, deixou-nos a sua análise que aqui replicamos integralmente: «É um momento muito interessante aqui nos EUA, e novamente o conceito de reflexão surge na nossa sociedade. Vivemos tempos de gratificação instantânea, e se as pessoas não encontrarem satisfação em determinado lugar então vão procurar em outro. Parece que as pessoas se acostumaram tanto a conseguir o que querem que quando não conseguem não sabem lidar com isso. Acho que isso se tornou evidente com a eleição de Donald Trump como presidente. Temos visto uma quantidade ridícula de birras, culpa, vandalismo e drama que agora se transferiu para o ataque ao black metal. Infelizmente, as pessoas que estão tratando de cancelar os shows acham que estão fazendo algo positivo e certo, mas de um ponto de vista externo isso é algo mimado e extremamente autoproclamado. As pessoas são tão rápidas para apontar o dedo, mas são incrivelmente lentas a olharem-se ao espelho. A censura não é uma coisa positiva, especialmente para as artes. Houve um Projeto de Lei que acabou de ser aprovado aqui nos EUA que permite que a mulher ande de topless em público, ou pelo menos não será criminalizada por isso. Para mim, isso mostra que a luta pela censura é um mercado de nicho ou seletivo. De fato, são tempos estranhos quando a liberdade de expressão parece estar sob ataque. Quando não somos livres para nos expressar através da arte/música precisaremos de encontrar outro lugar para essa gratificação. Onde será isso? Acho que muitas pessoas atuam através de uma forma de arte violenta para que não tenham de ser violentas no seu cotidiano. Se lhes tirarmos isso, o que é que vão receber em troca? Acredito que estas são questões sérias que as pessoas não têm tempo para pensar; preferem simplesmente saltar para aquela gratificação instantânea e sentirem que alcançaram algo quando, na realidade, tudo o que realmente fizeram foi fortalecer aquilo a que se estão a opor. Mas, e como em todas as ações, uma experiência de aprendizagem provavelmente virá disso. Você só pode puxar a cauda do leão enquanto ele deixar.»


A

estatística não é o nosso forte, mas calculamos que mais de metade das bandas que tivessem passado pelo que os Orange Goblin passaram nos últimos anos, não teriam sobrevivido. Estamos falando de uma profissionalização falha, por volta de 2012, em que o quarteto inglês se viu obrigado a repensar a decisão de se dedicar apenas à música, voltar a procurar empregos a tempo integral e a reverter ao estatuto de weekend warriors no que diz respeito aos assuntos da banda. «Basicamente voltamos à situação em que a banda é um hobby. Juntamo-nos, ensaiamos, saímos em turnê quando podemos e aproveitamos o nosso tempo em Orange Goblin. É uma boa forma de nos afastarmos dos aborrecimentos dos nossos trabalhos a tempo inteiro», explica-nos o vocalista Ben Ward, ao telefone de Londres. Está ligando a jornalistas para cumprir mais uma coletiva de imprensa, relativa ao novo - e nono – álbum de originais da banda, “The Wolf Bites Back”. E continua, dizendo que a nova situação do coletivo lhes deu mais tempo para fazerem o disco. «Não tivemos muita pressa, ao contrário do último, “Back From The Abyss”, que foi meio apressado», começa. «Nessa altura a banda era profissional e tivemos de escrevê-lo na estrada porque tínhamos de entregar o álbum numa altura específica para que começássemos a promovê-lo. Este demorou quatro anos para fazer, fomos com calma, demoramos o tempo que foi preciso, preparamo-nos e certificamo-nos que tínhamos muito material escrito antes de começarmos a delinear o disco. Fomos juntando ideias aos poucos e acho que trabalhamos melhor assim. Houve um dia que a editora nos disse “Por que não pensam em começar a fazer um novo disco?” e respondemos “Sim, por que não? Temos muitas ideias” e acabou por encaixar tudo muito rapidamente no final.» No entanto, como nos explica o nosso interlocutor, mais tempo não significa necessariamente menos pressão. «De fato [a pressão] é ainda mais intensa, porque estão sempre nos perguntando quando vamos sair em turnê aqui ou ali. Mas o que se passa é que, com os nossos empregos, só temos tempo nos períodos de férias e ainda assim temos de passar algum tempo em férias com as nossas famílias também. Por isso não podemos fazer tantas turnês quanto as que fazíamos. Temos de explicar às pessoas que estão sempre perguntando que, se tivéssemos tempo para sair em turnê pelo mundo todo iríamos, mas hoje em dia temos de escolher cuidadosamente as coisas certas a fazer. Não temos falta de fãs; existem fãs

TEXTO: FERNANDO REIS / FOTOGRAFIA: PAUL HARRIES

em todo o mundo desesperados por nos verem lá e, por mais que gostássemos de fazê-lo, pura e simplesmente não podemos, a não ser que nos dessem uma quantidade ridícula de dinheiro que nos permitisse pagar as hipotecas e todo o tipo de despesas mensais que temos”. No entanto, e apesar de tudo, a motivação nas fileiras dos Orange Goblin permanece inalterada. E Ben dispara uma das frases lapidares desta entrevista, a propósito da pretensa “falta de inspiração” de bandas veteranas que andam na estrada demasiado tempo. «Se as pessoas acham que é um sacrifício ficarem afastadas da família quando vão em turnê ou que é chato estarem sempre ensaiando, então não o façam. Arranjem trabalho num armazém ou num escritório ou algo desse gênero. Afastem-se da música ou certifiquem-se que estão nela pelos motivos certos. De outro modo não faz sentido». Estar na linha de sucessão da realeza britânica de doom/stoner, que inclui nomes como Black Sabbath, Electric Wizard ou Cathedral, não parece assustar Ben nem os Orange Goblin que, apesar de todas as dificuldades, continuam a acreditar que a cena pode produzir nomes suficientemente consensuais para se falar em “sucesso”. «Ninguém pensava que os Queens Of The Stone Age iriam ter o sucesso comercial massivo que acabaram por ter. Mas acho que parte desse sucesso se deve à era digital e ao fato de ser mais fácil agora fazer a música chegar a um público mais vasto», diz-nos. «Nos velhos tempos tínhamos de concentrar-nos no tape trading, no passa-a-palavra e em pequenos fanzines que promoviam estas bandas. Quem sabe o que pode acontecer? Acho que existe muita apreciação por bandas que aparecem de repente com uma página de Facebook ou Bandcamp, carregam música para lá e ganham uma série de fãs. Mas ao mesmo tempo é tudo muito fácil e rápido. No nosso tempo tínhamos de entregar flyers em shows e coisas desse gênero, o que nos fazia ir aos shows e apoiar a cena. Há coisas melhores e coisas piores nesta era». Por outro lado existe uma enorme liberdade de composição que caracteriza “The Wolf Bites Back”, que faz dele o disco mais variado da história do quarteto, numa altura em que estão prestes a completar 24 anos de carreira. «Acho que simplesmente não tentamos agradar a um certo tipo de público ou encaixar num certo tipo de sonoridade», começa Ben. «Temos influências muito variadas e todos ouvimos coisas muito diferentes e isso transparece mais neste disco do que alguma vez no passado. Mas quando somos mais novos possivelmente tentamos

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mais encaixar-nos na cena. Mas já tenho 43 anos e percebi que os Orange Goblin nunca pertenceram realmente a cena nenhuma. Sempre estivemos um pouco fora de todas as ondas e estamos bem com isso. É, de fato, como gostamos de estar. Tentamos precisamente enfatizar esse fato. Dizer “Que se foda o core e os hipsters, vamos tocar o que tivermos vontade”.» Realmente, fazer o mesmo disco durante 24 anos seria “Só bobo”, como diz Ben. Mas mesmo assim a banda não se livra de momentos embaraçosos na composição, em que um riff soa demasiado familiar. «Sim, às vezes há algo que nos soa bem mas alguém diz “Epa, eu reconheço isso. Merda, é uma das nossas músicas”. [Risos] Mas só acontece porque só criamos a música que queremos ouvir».

“THE WOLF BITES BACK” COMO BANDA-SONORA Boa parte das letras de “The Wolf Bites Back”, o novo disco dos Orange Goblin, é composta pela fantasia negra e ficção científica que borbulham vividamente na cabeça de Ben Ward. Por isso, pedimos-lhe para nos indicar alguns filmes que podiam ter o álbum como banda sonora. Eis a lista que o vocalista nos passou. Hells Angels On Wheels (1967) Dirigido por Richard Rush e com um Jack Nicholson na flor da idade (30 anos), conta as aventuras e desventuras do mais famoso grupo de motociclistas fora-da-lei e de um transeunte (Nicholson) que é admitido na gang depois de um encontro numa bomba de gasolina. Werewolves On Wheels (1971) Realizado por Michel Levesque, “Werewolves on Wheels” é um filme que cruza os tradicionais filmes de terror com as gangues de motociclistas fora-da-lei populares nas décadas de 60 e 70. Envolve um grupo de motociclistas, um culto satânico, exploração, classe e muito sangue. Survival Zone (1983) No futuro “próximo” (de 1989) o mundo colapsa numa guerra nuclear e os poucos sobreviventes fazem tudo para não se aniquilarem. Uma gangue de motociclistas canibais, no entanto, assola as redondezas, comendo os homens e forçando as mulheres a reproduzirem-se. Filme sul-africano, realizado por Percival Rubens.


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stou me sentindo bem, mas ainda me recuperando. Estou descobrindo o meu novo normal e no que respeita aos meus altos e baixos, pelo menos os “baixos” não são tão baixos como costumavam ser. Fiz muitos progressos.» Mike Scheidt refere-se à recuperação que tem vindo fazendo desde que, no início de 2017, quase morreu devido a uma doença extremamente dolorosa conhecida como diverticulite. O vocalista e guitarrista dos Yob passou por uma cirurgia complicada e os prognósticos não eram nada favoráveis. Agora, com o susto fazendo parte do passado, mas tendo deixado fortes consequências no presente, Scheidt envolve-se numa conversa profunda e algo espiritual com a Ultraje, relatando algumas das experiências pelas quais passou no processo que fizeram do novo “Our Raw Heart” um álbum verdadeiramente mágico. «Todos os álbuns são pessoais e especiais, mas se houve algo de diferente neste disco, foi a forma como trabalhei nele. Não havia qualquer garantia de que iria viver tempo suficiente para vê-lo gravado ou até mesmo para mostrá-lo aos meus companheiros», partilha. «Trabalhei em muitas ideias e estruturas a partir do meu quarto, enquanto estava doente, e a minha cirurgia poderia trazer alguns cenários menos positivos que não me permitiriam voltar a cantar novamente ou até não cantar tão bem. Se esta cirurgia que fiz não tivesse corrido bem, teria sido o fim das tours para mim.» Um azar nunca vem só, e enquanto era submetido a esta intervenção cirúrgica, Mike Scheidt contraiu MRSA, uma infecção que geralmente ocorre em pacientes que possuem feridas abertas. «Foi outra ameaça potencialmente fatal e acho que passar por tudo isso e chegar a este ponto em que tenho um novo álbum, poder trabalhar e gravá-lo, faz-me sentir um sortudo. Dá um novo significado ao álbum... Não é que esteja orgulhoso, é mais agradecido.» Membros da banda e amigos uniram-se para criar uma campanha no GoFundMe de forma a cobrir as despesas relacionadas com a recuperação de Scheidt, algo que para o músico significou bastante: «Temos muitos bons amigos por aí e ao início ofereci muita resistência para pedir assistência, ou até ter alguém que pedisse por mim. Tenho seguro de saúde, mas não cobria tudo. Não quis pedir ajuda, mas tinha muitas pessoas perguntando de que forma que podiam contribuir, antes de haver algo pensado. Batalhei um

TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: JIMMY HUBBARD

pouco com isso, mas um bom amigo meu convenceu-me do contrário, utilizando um argumento muito convincente que não fui capaz de contrariar. Então, quando me decidi a fazê-lo, não fazia ideia de que iria ser apoiado de uma forma extraordinária! Atingimos o nosso objetivo em menos de 48 horas, foi incrível.» No entanto, o apoio transcendeu qualquer apoio monetário: «As pessoas mandavam-me mensagens, livros, música, downloads do Bandcamp... Foi arrebatador e aprendi muito com isto.» Desengane-se quem julga que esta montanha russa emocional ia ficar por aqui: «Estava numa cadeira-de-rodas e a enfermeira pediu-me para vestir a bata do hospital e me deitar. Foi aí que fui atingido por uma dor imensa e lembro-me de estar em pé e não me conseguir mover.» Desse momento em diante, tudo à volta do músico torna-se nebuloso: «Tiraram-me as roupas, deitaram-me na mesa, e a dada altura lembro-me... Não pairava sobre o meu corpo, era mais ao meu lado. Foi uma sensação estranha de estar no meu corpo, mas ao mesmo tempo à minha direita. Tudo o que vi foram vastos oceanos de cores, de diferentes tons de laranja, roxo, verde, azul, vermelho... Foi como olhar para o oceano e perdê-lo de vista. Foi como se os meus olhos vissem o que os meus sentidos disseram para ver, pelo que a nossa visão disto, apesar de parecer longínqua, é na realidade muito próxima. Está à distância do nosso globo ocular, dentro da nossa cabeça. E a sensação que me deu foi estar perante algo muito vasto mas que estava, na verdade, muito próximo. Quando regressei não tive qualquer sensação a meu respeito. Não me via como membro de uma banda ou como pai, não tinha nome, não tinha medo nem dores. Tudo tinha desaparecido e foi como se toda esta atmosfera e ambiente tivessem despertado.» Nesta altura, o nosso interlocutor interrompe a descrição da sua experiência com receio que do outro lado achemos que está a tomar um sentido religioso, acrescentando que embora não o considere religioso «é sem dúvida místico». «Toda a minha situação desapareceu por um breve período de tempo, em que eu não existia. Dizem-me que estava deitado fazendo ruídos, que a minha mãe e a minha namorada estavam tentando falar comigo, assim como os médicos, mas para mim nada disso existiu. Quando regressei ao meu corpo, e retomei a consciência, tudo em 30 - ULTRAJE BRASIL #01

mim era diferente.» Por tudo isto, “Our Raw Heart”, é um convite para entrarmos neste mundo ao qual o líder dos Yob teve acesso, em que podemos experienciar o referido vasto oceano de cores em cada uma das notas que compõem temas tão singulares como “Ablaze” ou “Beauty in Falling Leaves”. «Tenho uma natureza questionadora e, quando alguém como eu passa por estas situações, passamos a fazer perguntas sobre nós próprios e daquilo que nos rodeia. Isso aconteceu-me em 1990 quando começou a fazer parte da minha realidade, e agora com esta experiência pela qual passei, tornou-se óbvio que não entendia as coisas que achava que entendia, e outras coisas que achava que não entendia floresceram, tornando-se ainda mais verdadeiras para mim. Foi como um interruptor que liguei e passei a ver tudo com mais clareza. Não tenho nenhuma atitude de grandeza perante isto, mas quando nos tiram tudo da mente, todas as minhas coisas pessoais, dramas e medos, percebemos que há clareza sem nada dessas coisas no nosso caminho. Ganhei mais humildade; ganhei um propósito. Foi como se a morte me batesse à porta e me fizesse uma visita de cortesia para me dar um panfleto. Nunca sabemos quando será o nosso último dia bom e isso faz-nos questionar a forma como vivemos até aí.» A expressão “fui salvo pela música” não só se aplica ao músico como ganha todo um novo significado, pois, a dada altura do procedimento, os médicos de Scheidt fizeram soar temas de Yob na sala cirúrgica para dar ao vocalista uma razão para lutar: «Eu não soube disto até várias semanas depois da operação», diz-nos, acrescentando em tom de brincadeira: «É possível que até tenham posto Yob a tocar para dizer 'hey, vamos ver se esta banda é legal enquanto lhe mexemos nos intestinos', mas acho que não foi essa situação. Talvez tenha sido uma forma subliminar de chegar ao meu subconsciente por estarem preocupados com o meu estado. É o que faz mais sentido para mim.» Álbum: OUR RAW HEART Editora: RELAPSE Lançamento: 8 JUNHO 2018


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odemos dar as mãos e responder os três às perguntas em coro?», pergunta Pedro 'Iron Fist' Pita. «No ano passado fizemos um show na Dinamarca onde tocamos de mãos dadas com o público. Foi um show incrível! No fim, um rapaz dinamarquês, que não conhecia uma palavra de português, gritou “NECROPACHACHA!”. Pensamos: como nos podemos negar perante isto?», diz Belathauzer. Rick Thor acrescenta mais erudição: «Tecnicamente, ele conhece meia palavra em português, pachacha, pois necro é de origem grega. [risos]» Conheçam os Filii Nigrantium Infernalium (FNI). Em 1995, no auge do underground e da música extrema, “A Era do Abutre” via a luz do dia. A energia dos anos 80 e a atitude “Fuck you!” do EP eram inéditas em Portugal, numa época em que toda a gente queria tocar death metal melódico ou black metal sinfônico. Nessa altura, três tipos estrearam-se em CD apresentando uma mistura incontida de black, heavy, speed e algum thrash metal. Vinte e três anos passados, os FNI deram um passo de gigante com “Hóstia”, lançado em Maio do corrente ano pela Osmose Productions, que muito agradou à banda por ter sido uma das suas editoras de referência durante décadas. É tudo muito bonito, mas a atitude dos FNI parece não ter mudado, parece que só querem continuar a debitar o seu som de marca. Será que a entrada dos FNI na Osmose não mudou um pouco as coisas? Belathauzer responde. «Desde que a Osmose entrou em Filii, tem corrido tudo muito bem! Isto vai ser uma entrevista muito boa! [risos] Tem sido do caralho! Entrevistas do Japão até à Califórnia! ‘Tou brincando, hã? [risos] Brincando dizemos verdades.» Rick toma a palavra. «Tem corrido bem. Para nós é um grande prazer assinar com uma editora que significa tanto para a banda desde muito cedo. Muitas das coisas que a Osmose deu à luz foram fundamentais no início da banda. É um prazer especial por causa disso.» Os FNI não conseguem disfarçar a sua genuinidade e isso nota-se na música, que soa espontaneamente aos anos 80 e 90. Resta saber se foi a fidelidade a esses tempos que conquistou os fãs ou se foi uma questão de os vencer pelo cansaço. Belathauzer percebeu a pergunta. «Pelo cansaço... Gostei. [risos] Sempre fiéis ao mesmo som, sim, mas mudamos e evoluímos de álbum para álbum. Nunca tivemos um objetivo definido de editar pela gravadora A, B ou C. O que mais

TEXTO: JOÃO CORREIA / FOTOGRAFIA: CORTESIA OSMOSE

gostamos de fazer, além de tocar em Barroselas, é ensaiar e compor temas para gravar. Faríamos isso mesmo que não estivéssemos assinados por editora alguma. Isto é o espírito antigo e moderno de bandas sérias, do underground.» Rick Thor acrescenta mais: «Embora cada álbum de Filii tenha um som e atmosfera próprios, este novo tem um dos sons mais espontâneos de sempre da banda. Foi composto e gravado mais rapidamente do que qualquer anterior e só com três membros. No fundo, o único objetivo destes lançamentos é ter prazer com o que fazemos. Depois, o Hervé [dono da Osmose] só pega em bandas de que gosta. O 'novo' “Fellatrix” foi ideia dele, por exemplo.» A nossa primeira reação ao ouvir “Hóstia” foi dar umas boas risadas com a intro “Prece”, que lembra um discurso da Igreja Universal proferido pelo Manuel João Vieira. Mas “Hóstia” tem momentos bastante sérios de bom metal da velha-guarda, mesmo que Belathauzer diga constantemente que os FNI são a pior banda portuguesa de todos os tempos. Este tipo de junção de humor com metal de qualidade é a forma de estar dos FNI perante a música. «O black metal não tem de ser mal-humorado e profundamente deprimente, isso é um mal-entendido. Isso é próprio de quem não conhece Venom. Mas depois há quem toque “trve black metal” e nem conheça e nem queira conhecer o “Welcome to Hell”. O pior surdo é o que não quer ouvir. A atitude mais religiosa e fundamentalista possível é proibir o riso. Não existe contradição em fazer humor numa banda de black metal. Nós fazemos humor. Às vezes até temos graça. [risos] Irmãos Catita e Ena Pá 2000 são duas ótimas referências. Comunicamos rindo-nos do mundo.» Isto atira para um niilismo clássico. Parece, aliás, que os FNI têm predileção por um niilismo específico. Mas não. «São vários niilismos específicos: o niilismo de segunda-feira, o de terça-feira... Depois há o vespertino, o noturno... [risos]» «Negar o riso é ser niilista em geral», conclui. Rick Thor tem uma visão própria sobre o estilo: «O black metal deve substituir o elitismo pelo etilismo. [risos]» “Hóstia” apresenta um som mais cuidado do que trabalhos anteriores e temas como “Virtudes da Prostração” ou “Autos de Fé” colam-se insistentemente ao ouvido. Isto indica que a banda teve mais tempo e melhores meios para concluir o novo disco, o que explica o excelente trabalho apresentado. Iron Fist não tem dúvidas do porquê de o ser: «Eles tiveram acesso às masters perdidas do “Welcome To Hell”, 32 - ULTRAJE BRASIL #01

dos Venom.» Belathauzer dá uma gargalhada: «Muito boa, essa.» E insiste: «Eles pegaram nos trechos perdidos e fizeram o “Hóstia”.» «O “Welcome To Hell” tem um som de merda, punk e javardão, mas acabou por servir de plataforma para a produção do black metal. Ainda assim, olha para a “In The Name of Satan” – é um tema com alguma melodia. Nós tocamos pan-metal, é um pouco de tudo o que nos influencia: Kiss, Venom, Priest... A produção não pode ser tão podre que foda o álbum. O mau som dos Venom foi involuntário, mas ainda bem que aconteceu, tornou-se num standard», diz Belathauzer. Rick Thor torna-se mais sério quando o tema da conversa muda para a situação atual da cena black lusa. «A verdade é que as nossas referências de black metal são diferentes, anteriores às referências que geraram a maior parte das bandas de black metal nacional com mais nome e que foram influenciadas por bandas da segunda vaga como Darkthrone. Grande parte dessas bandas inscreveram-se num cenário que não é o nosso. Para nós, o black assenta em bandas influenciadas por Venom e afins.» Belathauzer revela uma conversa que teve com Mantas, dos Venom: «Apanhei o Mantas no mesmo voo. Como eu sabia que ele não podia fugir do avião, levou comigo durante duas horas. [risos] Bom, in extremis, ele podia ter fugido do avião, mas era complicado. Pobre Mantas. [risos] A certa altura, ele riu-se dessas bandas trves mais recentes que dizem ter criado o black metal. Para mim, bandas como Corpus Christii e Irae são grindcore com referências satânicas.» Mas chamar a uma banda fundamentalista quando o som dos FNI se centra num certo período e num estilo é incoerente – afinal, esse também é um caminho fundamentalista. Thor explica: «Uma coisa é a evolução de um conceito; outra é virá-lo de pernas para o ar renegando a sua origem. Esse black metal tornou-se algo dogmático. Fiquei até contente que se tivesse tornado num movimento externo, pois aborda assuntos externos como política.»

Álbum: HÓSTIA Editora: OSMOSE Lançamento: 25 MAIO 2018


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TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DUTCH MUSIC

s Powerized contam-nos uma história envolta de canções bonitas e sinfonias épicas saídas da mente do vocalista e multi-instrumentista Nick Holleman. O músico começa por falar de "The Mirror's Eye", o longa-duração de estreia dos holandeses, dizendo-nos que pode ser visto como um álbum ambicioso: «Podemos vê-lo dessa forma, tendo em conta todo o trabalho envolvido. Todo este tempo à volta das composições, orquestrações, coros, gravações... Aqui temos muito sangue, suor, lágrimas e horas de trabalho, já para não falar da bateria, baixo, guitarras ou até dos vocais. O objetivo que tínhamos para com este disco era fazer aquilo que gostávamos sem que depois olhássemos para trás pensando 'tínhamos que ter feito isto'. Tudo aquilo que amamos e temos está ali; toda a nossa energia. Pode chamar isso de ambicioso, mas para mim é uma consequência lógica da forma como tratamos a nossa música e paixão. Só consegue fazer uma boa impressão uma vez, pelo que quisemos ter a certeza que as pessoas iriam saber o que esperar.» Para um coletivo que tem a melodia como cartão-de-visita, quisemos saber como Holleman via as bandas de metal extremo que carecem desta característica. O músico, que garante ser um grande fã do gênero, não acha que seja um problema: «Gosto dos mais variados estilos, desde o blues ao black metal», afirma. «Desde que seja bem executado e seja feito por uma razão, eu vou gostar. São muitas as bandas de black metal que criam excelentes atmosferas e ritmos muito interessantes, e quando uma banda escolhe não implementar muita melodia nos seus temas, então provavelmente vão compensar com o recurso a ritmos diferentes, mudanças de estilo e expressar assim algo distinto, como criar mais ambiente, por exemplo. Para mim não anda tudo à volta da melodia, mas sim como os vários elementos se juntam.» Durante a concepção dos Powerized, nunca passou pela cabeça de Holleman fazer sem o apoio das orquestras: «Só comecei a descobrir bandas de metal que usavam orquestras depois de eu próprio ter tentado, pois algumas pessoas enviavam-me sugestões. A música pode ir a todo o lugar desde que corresponda àquela energia. Gosto de diferentes dinâmicas, e o que seria melhor que uma orquestra para chegar aí? Gosto de um som amplo e uma orquestra pode conseguir fazer muita coisa. Desde momentos mais suaves e sensíveis até algo barulhento, épico e bombástico. Usar uma orquestra é criar toda uma energia, contar uma história através da sua música, e levar quem a ouve numa viagem.»

história na cena sinfônica trouxe-lhe uma lição valiosa: «O objetivo com essa demo era colocar toda a nossa energia ali. Sem ofensa para com os antigos membros da banda, mas o nível de capacidade não era o mesmo que temos atualmente, e olhando para trás vejo que isso nos tirou algumas possibilidades. Com este "The Mirror's Eye" não houve limites. Tudo foi possível pois tiramos o tempo necessário para criar aquilo que queríamos. O mais divertido de tudo é que para além de criar, foi possível executar tudo. Na demo trabalhamos com teclados pois não tinha a possibilidade de recorrer a uma orquestra, mas ficou bem claro que as teclas nunca poderão substituir ou até chegar perto daquilo que uma orquestra consegue fazer.» Para o futuro, o domínio mundial! Mas alto aí! Será um domínio melódico, suave e agradável: «Queremos levar os Powerized ao mundo inteiro. As pessoas precisam de ver o que a nossa música consegue trazer com um show. O meu objetivo é ter alguém que chegue ao final de uma atuação e diga 'estive num show dos Powerized' e não 'eles tocaram esta ou aquela música'. Claro que será inevitável, mas gostaria muito de fazer as pessoas esquecerem-se que estão num recinto e durante essa noite entram, sim, no nosso domínio. O público está todo junto, estás lá conosco e você se torna parte disso, e como criamos música que se integra numa história, os nossos temas são diversificados, o que nos deixa margem para seguir qualquer direção que desejemos, musical e visualmente, tanto agora como no futuro. A música não tem limites, gostamos de compor o que quer que combine com a atmosfera que se vive num momento em específico, pelo que as pessoas podem esperar lados diferentes de nós. Uns podem surgir em tons mais negros, outros mais claros... Mas o aspecto cinematográfico e teatral, assim como a energia e o entusiasmo que sentimos ao criar música, vai sempre manter-se.» Os Powerized encontram-se agora no processo de marcar tours de promoção ao novo disco, com o ano de 2019 já a fazer parte das contas. Para a banda, fica também o desejo de visitar o Brasil: «Espero conseguirmos tocar aí, para que possamos agradecer-vos pessoalmente e dar-vos as boas-vindas ao nosso mundo. Deixem-nos converter-vos ao nosso credo!»

A preceder este "The Mirror's Eye" está a demo "My Creed", de 2013, lançada um ano após a formação da banda. Para o músico, essa primeira tentativa de fazer 33 - ULTRAJE BRASIL #01

POWERIZED

The Mirror's Eye PAINTED BASS

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epois de algumas tours bem sucedidas, chega o momento dos Powerized mostrarem o seu valor em estúdio com este "The Mirror's Eye", e se há conclusão a que se pode chegar depois de uma primeira escuta, é que a banda comandada por Nick Holleman tem capacidade para um dia comandar as tropas do power metal e do metal sinfônico, tal é o profissionalismo e a veia criativa do coletivo holandês. A orquestra por detrás da base musical dos Powerized cria desde logo uma atmosfera profunda e mística, transformando temas sempre envoltos de melodia e riffs que combinam o power com o progressivo numa jornada intoxicante que nos recorda bandas como Kamelot ou até Edguy. Uma banda que merece um olhar bem atento sobre o seu desenvolvimento e que ainda nos poderá trazer algumas surpresas.

joel costa 8/10


TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DE RICARDO S. AMORIM

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banda de metal portuguesa mais internacional de todos os tempos volta às manchetes com “Lobos Que Foram Homens”, uma coleção de depoimentos dos membros atuais e antigos, assim como de colaboradores ou membros de outras bandas que são uma referência no meio. Contada pelas palavras de Ricardo S. Amorim, esta é a história dos Moonspell num retrato que explora as conquistas e as adversidades enfrentadas pela banda enquanto Lobos, sem nunca esquecer o lado pessoal e humano enquanto homens. O autor (não confundir com o guitarrista da banda), que passou por revistas como a Underworld, Riff e Loud!, aceita esta empreitada depois de estendido o convite por parte dos Moonspell, indo de fã a amigo e até a uma figura com presença assídua no círculo da banda. Em exclusivo à Ultraje, Ricardo S. Amorim tece alguns comentários em relação ao que pode ser encontrado na biografia. DE FÃ A MEMBRO DA ALCATEIA «Comecei a ouvir Moonspell logo no início, talvez em 94/95, e era fã mesmo. Depois, ao longo dos anos também, não por eles terem mudado, mas eu próprio fui-me desligando. Não na fase em que a maior parte das pessoas se ligou com, por exemplo, quando foi o “Sin/Pecado” [1998] ou o “The Butterfly Effect” [1999], que até são álbuns dos quais gosto muito mas, por exemplo, o disco seguinte, “Darkness and Hope” [2001], não me disse nada e eu próprio comecei também a variar bastante o meu leque de gostos e de interesses. Comecei a gostar de explorar mais coisas e durante muito tempo acompanhava sempre o que eles faziam mas não era aquele fã como muitos que eu hoje em dia conheço - conheço muitos agora depois desta fase e não sou um desses fãs, e acho que isso também ajudou-me a escrever este livro, a ter uma maior imparcialidade e não estar naquela do fã a escrever sobre as cenas que quer saber, as histórias que quer descobrir, etc.. Mas ao longo do período em que fui estando com eles foi-se criando também uma amizade muito forte e genuína, porque às tantas já não era visto como alguém que estava ali com eles só para escrever um livro, mas alguém cuja presença até era desejada, curtiam que eu aparecesse.» A ORIGEM DE “LOBOS QUE FORAM HOMENS” «A ideia deste livro já surgiu há uns anos. Quando foram os 20 anos da banda saiu a foto biografia e, na altura, o editor, o Luís Corte Real da Saída de Emergência, disse ao Fernando: 'O que era legal era um livro, mesmo. Contarem a história toda, a biografia da banda.' E o Fernando disse que um dia podia acontecer. Volta e meia, o Luís enviava-lhe um e-mail a perguntar quando é que iniciavam esse na expectativa que o Fernando fosse escrever a biografia dos Moonspell, e o Fernando não só não tinha tempo como também não ia contar a história dos Moonspell. Ele ia contar a história da visão que ele tem, que são duas coisas distintas. Portanto, também achou que era importante ter alguém de fora a contar a história, incluindo todos os intervenientes, atuais e antigos, e também outras bandas, pessoal das editoras, que trabalhou com eles, etc., para ter essa visão global e com todos os pontos de vista da história dos Moonspell.» A TROPA DOS MOONSPELL «A primeira tour que os Moonspell fizeram com os Morbid Angel na

Europa, depois de sair o “Wolfheart” [1995], o primeiro disco, foi a ida à tropa, basicamente. Foi aí que eles se fizeram homens e que viram: 'Ok, isto agora é sério. Agora estamos aqui em Dortmund, dão-nos uma chave de uma van, tem um mapa só da Alemanha mas tem que ir para a Escócia. Tem de estar na Escócia daqui a dois dias para o primeiro show e depois desenrascas-te. Tem que ir atrás deles para correres os shows todos.' Eles já tinham perdido um dos guitarristas que tinha gravado o álbum, o J.M. Tanngrisnir. Entrou o Ricardo [Amorim] e, de repente, o Duarte [Mantus] decide que não ia fazer parte dessa tour, pois não tinha condições por motivos pessoais dele que não quis explorar muito na conversa que tive com ele. Então, de repente, os Moonspell ficaram cinco apenas (eram seis e sem os dois guitarristas que gravaram o primeiro álbum), o que para muitas bandas teria sido logo pretexto para desistir. Na altura, quando lia ou ouvia entrevistas, as bandas todas pareciam uma cassete: queixavam-se das oportunidades, da falta de apoios, tem de haver mais isto e mais aquilo, todos se queixavam do mesmo. Mas não foram só os Moonspell que tiveram oportunidades, pois houve mais bandas que as tiveram só que, quando se chegou à hora da verdade, não deram aquele passo que eles deram, e não é fácil andar 60 dias numa van comendo atum em lata, quando havia, atrás do tour bus dos Morbid Angel pela Europa fora, e foram esses acontecimentos, esses e os sucessivos que foram acontecendo, que fizeram a banda, que a solidificaram digamos assim, porque a dada altura já eles eram bastante conhecidos e não tinham dinheiro no bolso para ir jantar, por exemplo, e isso é que forma o caralho de uma banda.» O ESPÍRITO «Quando o Ricardo [Amorim, guitarra] entra na banda - e o Ricardo já era amigo do Pedro Paixão há muitos anos… Dentro da banda, tirando o Fernando [Ribeiro, voz] e o Aires [baixo], que eram amigos de infância, se calhar era a relação mais antiga, e o Pedro Paixão [guitarra, teclados] adorava o Ricardo, achava que ele era, além de excelente pessoa, um excelente guitarrista, mas achava que ele não ia aguentar, que não ia ter aquele espírito de resiliência que é necessário para estar numa banda, para se fazer à estrada, etc. - e logo nessa primeira tour, nos primeiros dias, o Paixão mudou completamente de opinião ao perceber que este gajo tem aquilo que é preciso, mas se calhar foi preciso estar sujeito a isso para que ele decidisse: 'Isto vai ser assim durante algum tempo, vou ter que sofrer, vamos todos ter que sofrer para conseguirmos algo.' O próprio Fernando, eles na altura até lhe chamavam “O Maluco” porque diziam que foi muito duro para ele. Em primeiro lugar, o Fernando é muito alto e deu-se muito mal com a van, depois estar sempre com aquelas pessoas todas 24 sobre 24 horas e não conseguir ter tempo para se isolar um pouco, começou a pensar: 'Isto não é como eu pensei... Não foi para isto que eu me alistei, por isto se calhar não vai dar...' Mas as sucessivas provas e sucessivas superações que eles foram tendo foi levando isso. Por exemplo, o Mike [Gaspar, bateria] se fosse preciso ia de Renault 5 em tour. Além de ter nascido nos Estados Unidos e ter outra cultura, sempre foi isto que ele quis fazer, não havia um plano B: era ter uma banda e ir para a estrada curtir e tocar. É o espírito dele. Os outros não, tiveram de se adaptar até se tornarem no que são hoje.» 34 - ULTRAJE BRASIL #01

RICARDO S. A

MORIM (AUTO

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AIRES «O Aires era o único que eu não conhecia antes de começar isto. Acho que tinha trocado duas ou três palavras com ele uma vez, mas só o conheci agora, e é um tipo excepcional com um carisma brutal, muito simpático, e ele a falar é muito engraçado porque tem aquele sotaque venezuelano e tem um senso de humor muito legal, sempre bem-disposto! E essas histórias [aquela em que o Aires, por exemplo, vai socorrer alguém que está a ser vítima de violência e só depois percebe que é encenado e estão ocorrendo gravações cinematográficas] acho que ajudam a perceber um bocado o espírito do Aires, que é rock n’ roll a 100%, e quando entrou na banda, de fato, a banda mudou também… Perceberam isso logo no primeiro show.» O PAPEL DE PEDRO PAIXÃO «Se calhar será uma surpresa para muita gente a importância do Pedro Paixão nos Moonspell, não só em termos de composição, mas em termos de estratégia e de estrutura de banda até. Todos eles são peças fundamentais, não quero estar a hierarquizar, mas normalmente os teclistas nas bandas têm um papel muito secundário e nos Moonspell é um papel muito importante, não só em termos de composição, mas também na gestão da banda, toda a estética.» RICARDO AMORIM: O AUTOR OU O GUITARRISTA? «Ainda na semana passada o Paixão mandou-me um SMS que era para o outro Ricardo Amorim. Conheci melhor o Fernando quando estava na Underworld. Mantivemos o contato e trocávamos e-mails e telefonemas às vezes, assim como mensagens, e às vezes ele enganava-se e mandava-me e-mails que eram para o outro Ricardo. Isto tanto aconteceu com letras de músicas que ainda não tinham sido editadas, como com contas de banda com marcações do estilo: 'Vamos a este festival, temos de estar à hora tal no aeroporto.' E eu: 'Pá, se calhar passa isto ao Ricardo porque é importante ele saber as horas.' Houve coisas confidenciais que me chegaram ao e-mail durante um período conturbado da banda. Tinham problemas legais a resolver que também estão explicados no livro, e eu sempre disse: 'Fiquem perfeitamente à vontade, o e-mail está apagado, não sai daqui.' Isto também criou logo uma relação de confiança com o Fernando, fundamentalmente, e fomos mantendo o contato até que ele depois se lembrou de me convidar para isto. No entanto continuam a acontecer os erros, desde receber convites para churrascos na Argentina… São as minhas confusões preferidas! Também já aconteceu pensarem que era o Ricardo que escrevia na Loud!, etc.. Eles já me disseram que na Alemanha abordaram o Ricardo e perguntaram-lhe: 'Então escreveu um livro?'»

Título: LOBOS QUE FORAM HOMENS Editora: SAÍDA DE EMERGÊNCIA ASSINE A ULTRAJE E RECEBA ESTE LIVRO GRÁTIS! +INFO EM SHOP.ULTRAJE.PT


Ao longo dos últimos anos, vários músicos da cena metal assumiram a sua orientação sexual ou identidade de gênero. A britânica Kat "Shevil" Gillham (Winds Of Genocide / Uncoffined) partilha a sua história com a Ultraje e diz-nos o que mudou desde 2001, altura em que tornou pública a sua transição. TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DE KAT GILLHAM

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metal sempre foi, para nós, um gênero de igualdade e aceitação. Uma espécie de tribo onde acolhemos as “ovelhas negras” da sociedade que a dada altura das suas vidas percebem que a sua identidade musical pede mais do que aquilo que a cultura convencional tem para oferecer. Onde podemos ser nós próprios e sentir que fazemos parte de uma grande comunidade, onde acabam-se os julgamentos e a segregação musical. Concordam? Discussões. A verdade é que bem gostaríamos de acreditar em tudo isso, contudo não podíamos estar mais distantes da realidade. Há uma divisão crescente entre os fãs do estilo que se acham puros por serem devotos a um determinado gênero ou subgênero do metal e falam dos restantes como Hitler falava de todos aqueles que foram parar a campos de concentração. De fato, a cena metal de hoje em dia quase parece a Europa das décadas de 1930 e 1940, por muito que se faça parecer o contrário. A homofobia ainda vive entre muitos daqueles que parecem saídos de uma qualquer fotografia promocional dos Manowar (ou então das memórias dos bares gays que davam cor à noite de San Francisco, nos Estados Unidos). Perguntamo-nos por que motivo o metal não é visto de uma forma mais positiva perante a sociedade, até porque muitos de nós têm cursos superiores, empregos, mantêm-se sóbrios durante a semana, tomam banho regularmente e nunca incendiaram uma única igreja. Mas Ghost, Myrkur e Metallica? Tudo merda! É como se esta linha de pensamento fosse tão pesada que aos poucos vai afundando uma comunidade e ideologia que tudo tem para funcionar de forma única. A britânica Kat "Shevil" Gillham, que se tornou conhecida pela sua incursão em bandas como Winds Of Genocide, Uncoffined, Lucifer's Chalice, Thronehammer ou Enshroudment, e por ser redatora da revista britânica Terrorizer, é apenas uma entre muitas daquelas pessoas que olhou a comunidade metal nos olhos e não viu a união e o lado familiar que muitos apregoam. Outrora conhecida por Steve Gillham, Kat assumiria a sua transição em 2001, numa altura em que a identidade trans não tinha grande visibilidade neste meio musical: «O heavy metal e a comunidade LGBT estão mais ligados que nunca, havendo cada vez mais músicos a tornarem-se visíveis como sendo gays ou transgêneros dentro da cena do metal extremo», explica. «Quando dei a conhecer que era transgênero, não havia grande visibilidade dentro da cena death ou doom metal, por exemplo, pelo que durante algum tempo senti que estava por minha conta. Na época, quase não se conhecia ninguém da cena extrema que tivesse tornado pública a sua identidade de gênero mas sabia que haveria outros como eu algures nas sombras.»

Segundo relata, foi apenas em 2009, com o aumento do uso das redes sociais, que Kat descobriu a existência de outros metalheads transgênero, mas para trás ficava uma vida de medos e preconceito: «Quando comecei a tocar em algumas bandas, no início da década de 90, ser publicamente gay ou transgênero era um tabu. Não me consigo imaginar a assumir-me em 1993. Já em 2001 foi demasiado difícil e apesar de ter recebido apoio, também fui alvo de preconceito. Isto causou o fim da minha banda pois as pessoas à minha volta não percebiam.» Felizmente, a então vocalista dos Blessed Realm ultrapassaria todos os obstáculos que se colocavam diante de si para que pudesse ver o mundo à sua volta a fazer a sua própria transição. «Dentro do metal extremo há uma maior sensibilização em torno desta questão, o que fez com que mais pessoas entendessem os problemas inerentes à identidade de gênero e à sexualidade. Diria que tanto o mundo como a cena musical estão mais receptivos agora do que estariam há 15-25 anos.» É importante realçar que no ano central desta narrativa, a presença de mulheres dentro do metal extremo era quase nula, pelo que Kat “Shevil” esteve na linha de fogo a dobrar: «Houve muito preconceito e discriminação, mas também recebi muito apoio e aceitação. Ainda há um grande problema de discriminação, preconceito e intolerância no seio do metal extremo, mas quer-me parecer que esse tipo de pessoas vão, aos poucos, ficando mais isoladas e tornando-se uma minoria. Ser trans não impediu as bandas de assinar contratos com editoras, fazer shows ou lançar álbuns. A sociedade, no geral, mudou, assim como a maneira de pensar das pessoas e a própria cena musical. Há mais diversidade, tanto na música como na sociedade, do que alguma vez houve e isso fez com que as coisas ficassem mais fáceis para que as pessoas LGBT assumissem a sua identidade e continuassem a tocar em bandas de death, doom, grind, crust punk, etc..» Dito isto, o reverso da moeda surge desta forma: «Tenho a certeza que há por aí pessoas que se vão recusar a ouvir as minhas bandas e a apoiá-las pelo fato de eu ser trans, ou que até nos dariam apoio se não fosse pelo fato de terem medo de serem ridicularizados pelos seus pares por gostarem de uma banda que é liderada por uma transgênero. Muitas pessoas nem sequer vão ver a questão da identidade de gênero ao ouvir Winds Of Genocide ou Uncoffined, por exemplo, e vão focar apenas na música.» O vocalista dos Judas Priest, Rob Halford, foi o primeiro vocalista de metal com maior exposição a confirmar a sua homossexualidade há algumas décadas. Um pequeno, mas importantíssimo passo que, como Kat recorda, contribuiu para a criação de um elo entre a comunidade LGBT e o metal: «Foi - ULTRAJE #15#01 35 15 - ULTRAJE BRASIL

um momento muito importante. Tem que se lembrar que estávamos em 1998 e havia muito mais preconceito nessa época. Ainda assim, abriu as comportas e quebrou mais uma barreira para outros músicos e fãs de metal da comunidade LGBT que viriam a seguir os passos do Rob Halford.» O fato da identidade de gênero desempenhar um papel muito grande na vida de Kat, a sua música, pelo contrário, não se deixa definir por esta questão: «Sou uma artista que é publicamente aberta quanto ao fato de ser trans, mas nunca compus uma música sobre isso. No entanto, já libertei muita raiva e frustrações através da minha música, que resultam das batalhas que tenho travado enquanto trans.» «Poder estar numa banda sendo eu própria foi uma grande vitória pois era algo com o qual podia apenas sonhar quando era mais nova e durante os primeiros momentos da minha transição. Preocupava-me o fato de não saber se conseguiria encontrar músicos que me aceitassem por aquilo que era. Felizmente encontrei algumas pessoas de mentalidade aberta com as quais pude formar os Winds Of Genocide e tornar esse sonho de liderar uma banda como transgênero realidade.» Depois do final abrupto dos Blessed Realm, o tempo curou velhas feridas e marcava um reencontro entre Kat e alguns dos seus velhos companheiros de estrada: «Levou algum tempo, mas eventualmente recuperei algumas destas amizades e alguns dos membros de Blessed Realm juntaram-se a mim para dar início aos Uncoffined [banda na qual Kat “Shevil” Gillham assume os papéis de vocalista e baterista]. As atitudes mudam… As pessoas crescem como indivíduos e desenvolvem maneiras diferentes de pensar.» Kat, que diz ganhar força com os intolerantes e que isso só a faz querer confrontá-los ainda mais, gostava que «as pessoas fossem mais tolerantes e aceitassem as pessoas independentemente da sua identidade de gênero, sexualidade, etnia, cor da pele, etc.», adicionando que espera ver artigos como este da Ultraje a «contribuir para educar e consciencializar que as pessoas LGBT são pessoas». «Somos seres humanos com sentimentos, emoções e famílias. Não vimos de nenhum planeta distante e todos nós iremos sangrar da mesma cor se nos cortarem.»

«O HEAVY METAL E A COMUNIDADE LGBT ESTÃO MAIS LIGADOS QUE NUNCA.»


TOOL "Lateralus" DO CHUMBO AO OURO POR GONÇALO L. MATIAS

hipnotizado vários curiosos de vários campos, desde arqueólogos a cientistas, passando por teólogos ou artistas.

4394 dias passaram desde "10000 Days", o último álbum de músicas originais dos californianos Tool – período de hibernação normalmente suficiente para confinar ao esquecimento o mais notório dos artistas. Contudo, para este grupo de músicos de grande calibre, o processo criativo não está sujeito a prazos, e dessa forma manter-se na ativa, por meio de shows ao vivo, foi a estratégia escolhida para deixar a inspiração ditar as datas e não o contrário. A sua recente entrada em estúdio leva-nos então a exumar "Lateralus" – momento de superior afirmação com que Maynard & Cia. arrombaram os portões do panteão da música progressiva. Esta música encerra uma verdadeira jardineira de códigos e labirintos – um produto de laboratório, meticulosamente arquitetado, minuciosamente montado e deliberadamente intrincado. Alicerçada nos conceitos da existência humana, da procura do conhecimento e da transcendência, o centro gravitacional de "Lateralus", tanto rítmica como liricamente, é sem dúvida a sequência de Fibonacci:

Este fascínio centra-se no fato de, na natureza, esta proporcionalidade se encontrar em praticamente todo lugar; desde o número de pétalas numa flor, crescimento de ramos numa árvore, geometria em furacões, búzios ou galáxias, proporção do número de machos e fêmeas numa colmeia de abelhas, etc.. A primeira utilização deste conceito remonta ao século V A.C., na Grécia, nos célebres mármores de Elgin esculpidos por Phidias para adornar o Partenon. Em 1202, o matemático italiano Leonardo Pisano publica "Liber Abaci", onde a aplica ao crescimento de uma população de coelhos – Fibonacci era o apelido pelo qual era conhecido e que curiosamente acabou por criar esta sequência. Leonardo da Vinci popularizou-a, aplicando-a extensivamente, em obras como "O Homem Vitruviano" ou a "Monalisa".

0-1-1-2-3-5-8-13-21-34-55-89-144-233-377-610-987-1596-…

Em 1923, o compositor húngaro Béla Bartók completa "Dance Suite", onde é clara a sua presença tanto a nível rítmico como melódico, existindo, contudo, análises que encontram evidências em seções de obras de Bach, Beethoven ou Debussy. Muitos músicos recorreram desde então a este artifício, mas nunca com tanta intencionalidade.

Como se pode observar, qualquer número da sequência é igual à soma dos dois números que o antecedem e a razão entre dois números consecutivos tende para o valor 1.618 – o mítico número de ouro (ou proporção divina) que tem, ao longo dos tempos,

"Lateralus" é um portento da sequência de Fibonacci e da proporção divina: a introdução é composta por 34 compassos e a voz entra após 97 segundos (aproximadamente 1,618 minutos). A introdução é a 112 batidas por minuto e o verso aproximadamente 181 (varia ligeiramente ao longo da músicas) – aumento segundo a proporção divina. E muitas outras ocorrências!

O baterista Danny Carey revelou que inicialmente a banda se referia a "Lateralus" como 9-8-7 por esta incluir uma seção com os compassos 9⁄8 ,8⁄8 e 7⁄8. Só mais tarde perceberam que este número 987 também faz parte da sequência, algo que Carey considerou «bem legal». A métrica de diversas seções apresenta valores da sequência: 1 Black 1 Then 2 White are 3 All I see 5 In my infancy 8 Red and yellow then came to be 5 Reaching out to me 3 Lets me see

2 There is 1 So 1 Much 2 More and 3 Beckons me 5 To look through to these 8 Infinite possibilities

13 As bellow so above I imagine 8 Drawn beyond the lines of reason 5 Push the envelope 3 Watch it bend

A progressão de cores representa a individuação: os quatro estágios (preto-branco-vermelho-amarelo) da evolução de um alquimista segundo Carl Jung (de que Maynard é admirador) – onde se dá a transmutação do chumbo (consciência não-realizada) em ouro (consciência plena). Este é o conceito central: o alcançar da iluminação por meio de pensamento lateral, eliminar as fronteiras da mente e expandir horizontes. A ideia de espirais e a sua conotação expansiva de afastamento do centro, personifica então a postura ideal, na procura de evolução. Maynard sublinha ainda que este processo não pode ser muito cerebral, pois conduz à cautela excessiva e detalhe obsessivo, castradores sanguinários do processo criativo; ou a sobre utilização de energia mental/emocional, associada ao desalinhamento do corpo/mente e impeditiva da realização individual e do desfrutar do momento e do agora. 8+1 minutos de puro ouro!


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Álbum d Mê

Todo o conceito lírico dos Amorphis assenta na Kalevala, que resumidamente aqui a detalhamos. Por: Diogo Ferreira

Fotografia: Lars Johnson

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AMORPHIS Queen of Time

NUCLEAR BLAST MELODIC METAL

A

abelha é um elemento importantíssimo para a nossa manutenção neste planeta. Sem água e terra para cultivar estaríamos acabados, mas antes de chegarmos aí já teríamos passado por um

apocalipse longo e doloroso, um processo em que as abelhas há muito teriam desaparecido. Em todo este “Queen Of Time” há referências às abelhas e isso é flagrante logo na faixa inaugural “The Bee”, o primeiro single do disco, que é também a faixa mais assimilável de todas. Ainda que com os típicos elementos melódicos de Amorphis – incluindo a voz berrada e limpa de Tomi Joutsen, os leads de guitarra de Esa Holopainen ou as teclas de Santeri Kallio –, este grande regresso aos discos destaca-se pela diversidade e cinematografia constante: em “Daughter Of Hate” temos o breve saxofone de Jørgen Munkeby (dos noruegueses Shining), em “Amongst Stars” temos um belo duelo vocal com

Anneke van Giersbergen e em “The Golden Elk” somos levados às areias do Oriente Médio com uma movimentação musical característica dessa região. Já quarentões (Koivusaari e Holopainen têm, por exemplo, 45 anos), os Amorphis não aparentam querer abrandar e é por isso que ao fim de 30 anos ainda têm a capacidade para lançar um álbum como este, que nos fará regressar no tempo até “Tales from the Thousand Lakes” (1994), mas que nos manterá sempre nos trilhos do presente em direção ao futuro infinito.

Diogo Ferreira 9/10

O que é? Kalevala é o nome da epopeia nacional da Finlândia. Descreve as façanhas de vários heróis míticos finlandeses. Quem a escreveu e quando? Foi composta por Elias Lönnrot no Séc. XIX. Como? Lönnrot reuniu uma extensa coleção de antigas canções populares que permaneceram vivas na tradição oral das populações finlandesas, sobretudo na região da Carélia. Qual é o grande feito de Lönnrot? Conseguiu adaptar todas as canções reunidas numa única narrativa épica de considerável consistência.

11TH DIMENSION

AGRESSOR

ANCIENT LIGHTS

ANGELIC DESOLATION

INDEPENDENTE

SEASON OF MIST

RITUAL PRODUCTIONS

VIA NOCTURNA

PROG ROCK/METAL

DEATH/THRASH METAL

STONER/PSYCHEDELIC ROCK

DEATH/THRASH METAL

Paramnesia

Ancient Lights

Rebirth

N

P

Rumpus Time Is Over

R

O

ada desconhecidos dos palcos nacionais, os 11th Dimension lançam finalmente o primeiro álbum. Logo após a intro não vamos parar de balançar a cabeça, de tão boa que é a dose de metal e rock que se ouve neste “Paramnesia”. As linhas de guitarra (Orge / Marques) são atraentes e detalhadas (ponto mais positivo do disco), a bateria (Filipa Simões) evidencia – a título de exemplo – breaks inteligentes, o baixo (Costa) conquista o seu espaço com groove e a voz é Diana Rosa – e sobre o departamento vocal é dito assim porque não adianta procurar por pares semelhantes, tendo a portuguesa uma voz e forma de cantar muito próprias. Sólido e orientado a uma junção de rock/metal progressivo, “Paramnesia” é um esforço levado a bom resultado.

assados tantos anos, é bom saber que os inspiradores Agressor estão de volta, mesmo que com um truque na forma de um CD duplo que apresenta “Symposium Of Rebirth” remasterizado e imensos extras e curiosidades como jingles promocionais, faixas MIDI, remixes, versões demo, etc.. A boa produção faz agora jus a um álbum para muitos clássico e bastante à frente do seu tempo, como provam as vozes operáticas que os death/thrashers franceses utilizaram na época. Por outro lado, isto é a garantia de que os Agressor vão voltar à estrada em breve. Nostálgico para os mais velhos e a descobrir com urgência para os mais novos. Bônus: colaboração de Barney Greenway em “The World of Dog”. Nada de novo, mas sempre obrigatório.

esultado de três anos de composição, os Ancient Lights (com Adam Ricardson, dos 11 Paranoias, na formação do grupo) chegam ao primeiro álbum. Ou melhor: desenham um roteiro pelo deserto, que não tem estradas, à procura de um oásis que nos alimente e tire a sede. Entre faixas curtas (3 minutos) e longas (17 minutos), o trio executa a sua música dentro do plano do stoner rock e do psicodélico através de acordes/notas repetitivas (mas assimiláveis) e efeitos de eco que criam envolvência. Sem serem chatos, apesar da repetição, nota-se também um crescimento de intensidade nas composições maiores, o que nos capacita a sentir mais excitação à medida que os minutos correm. Há também uma abordagem monástica a partir das elaborações vocais de Richardson. Interessante.

riundos dos EUA, os Angelic Desolation são uma caixinha de surpresas por um lado e uma pequena desilusão por outro. Praticam death metal técnico na linha de Beyond Creation e Archspire, com a devida subtração da insanidade técnica dessas, mas apresentam boas ideias e a atitude certa para um dia virem a ter o seu som individual. Há faixas que estimulam (“The Seven Hells Of A Weed Thief”, “Shadow Slasher 666”), bem como uma produção de segunda categoria e uma capa de terceira (ou mesmo décima). Um pouco mais de prática e um maior investimento no produto em geral e os Angelic Desolation seriam o motivo de a Ultraje apostar a 101% no underground. Ainda assim, e muito graças à gama vocal de Jay, merecem uma audição.

diogo ferreira 7/10

João Correia 7.5/10

Diogo Ferreira 7/10

joão correia 7/10

ANGELUS APATRIDA

ÁRSTÍÐIR

ASG

AXIA

CENTURY MEDIA

SEASON OF MIST

RELAPSE

SELFMADEGOD

THRASH METAL

POP/ATMOSPHERIC ROCK

SLUDGE / ROCK

GRINDCORE

Cabaret de la Guillotine

Nivalis

Q

Survive Sunrise

P

Pulverizer

S

O

uando pegamos nas características dos grandes do thrash mundial, como Megadeth, Testament, Exodus ou Overkill, as colocamos numa Thermomix, juntamos umas nuances de heavy e power, e temperamos com muita alma e técnica, o resultado tende a ser algo muito bom. Isso é o que acontece com nuestros hermanos Angelus Apatrida, que, neste seu sexto álbum de estúdio, continuam a manter o padrão bastante elevado e debitar um thrash poderoso e melódico a gosto que consegue sempre surpreender. Contrariamente à corrente de bandas thrash atuais, que se limitam a ficar num registro, estes espanhóis provam que o thrash é um estilo complexo, rico e versátil, onde a agressividade, a qualidade técnica e a melodia dão forma a música poderosa, mas rica em sentimento.

rimeiro: não confundir com Árstíðir lífsins. Segundo: por que não cantam em islandês do princípio ao fim? Poderíamos não entender nada, mas este som pede tanto a língua-mãe deste trio. Dificilmente inseridos num único estilo, os Árstíðir criaram 13 novas faixas edificadas por elementos de pop e rock atmosférico que têm uma única missão, que é também um clichê – pretendem, e diga-se que com bastante facilidade, pegar em nós e envolver-nos num mundo à parte que tem tudo para se poder construir um terno novo lar. Suaves e melancólicos a gosto, mas sem aquela tristeza que nos faz sentir o mundo ruindo, os islandeses Árstíðir são indicados para fãs de Björk, Sigur Rós, Radiohead e Simon & Garfunkel.

abia que para escrever sobre ASG tinha que ser num dia com tempo bom enquanto se dividia uma garrafa de vinho verde com um amigo no almoço – e assim foi. O rock pesado e por vezes sludge dos ASG é de Verão e de boas vibes. “Survive Sunrise”, com toda a sua onda eletrificadora que vai dos riffs melódicos às vocalizações hooky, é para se ouvir na praia enquanto se bebe umas valentes cervejas ou no carro enquanto se faz uma road trip pelo litoral em direção à Ubatuba. Após cinco anos sem lançarem um álbum, o quarteto da Carolina do Norte (EUA) precisava de algo com valor e que firmasse a sua posição enquanto banda de rock renovadora de costumes – conseguiram!

show de lançamento de “Pulverizer” no último SWR deixou o público apanhando do ar com a descarga que Zé Pedro (Holocausto Canibal, Grunt), Alexandre Moreira (Grunt) e restantes membros dos Axia debitaram em cerca de 45 minutos. Sem delicadezas, “Pulverizer” é um excelente exemplo do estado do grindcore em 2018 – longe vão os tempos de produções manhosas que justificassem a palavra 'culto'. A palavra de ordem em “Pulverizer” é 'matemático': desempenho musical e vocal matemático, produção matemática e uma sensação geral de espancamento auditivo. Também ele matemático. São 21 temas que, do inicial “Mass Suicide” ao final “Self-Inflicted Obsolescence”, teimam em esgotar o pouco ar que temos para respirar. Indicado para quem pensava que um disco de grindcore não cresce. Porque cresce.

Pedro Félix da Costa 8.5/10

Diogo Ferreira 7.5/10

Diogo Ferreira 7.5/10

João Correia 8.5/10

ANGELUS APATRIDA: “Provam que o thrash é um estilo complexo, rico e versátil.” 38 - ULTRAJE BRASIL #01


em

destaque Fotografia: Cortesia Osmose

Será que remexer o passado é boa opção? Os Filii Nigrantium Infernalium e o Gorgoroth já o fizeram... Por: Diogo Ferreira

FILII NIGRANTIUM INFERNALIUM Hóstia

OSMOSE BLACK/THRASH METAL

T

êm o slogan de se acharem a pior banda que existe, mas os álbuns que lançam dizem que essa afirmação é mentira. “Fellatrix Discordia Pantokrator” (2005) é facilmente considerado um dos melhores

álbuns black/thrash metal já feitos em Portugal, “Pornokrates: Deo Gratias” (2013) não fica muito abaixo e “Hóstia” é a prova de que os FNI sabem o que fazem. Com uma Nossa Senhora empalada, de três cabeças e uma bunda descomunal, este disco começa ao bom estilo FNI com “Prece”: uma subversão cômica e pornográfica do Pai Nosso, e com sotaque brasileiro. Ser provocativo, grosseiro, ofensivo e profano não implica fazer música ordinária e suja, portanto dos FNI esperamos os quatro primeiros adjetivos mais uma noção musical excepcional com nuances rápidas, rasgadas e melódicas que unem black e thrash metal a todo o vapor. Neste disco há ainda uma ideia heavy metal que não

é desconhecida à banda e aos seus fãs, mas convenhamos que está mais presente agora em 2018. Todavia, e apesar de ser um álbum que nos preenche as medidas, temos de apontar uma possível quebra de inspiração ou prisão ao passado devido a alguns lances de guitarra ou versos líricos que parecem ser reaproveitados de outros tempos – mas isso acaba por ser irrelevante se tivermos em conta o poderio musical, conceitual e histórico que esta banda tem em Portugal. Bem-vindos de volta!

Diogo Ferreira 7.5/10

FNI "Fellatrix" "Fellatrix Discordia Pantokrator" em 2005, simplesmente "Fellatrix" em 2018. Com a ideia a partir do dono da Osmose Productions, os FNI regravaram o seu importantíssimo primeiro álbum, dando-lhe uma roupagem mais moderna e nítida, mas nem tudo é um grande feito... A inaugural "Calypso" perdeu um de seus trechos lead chicletes e a belíssima quase-balada "Cães de Guerra" transformou-se na menos memorável "Vermes de Guerra: Cona Nuclear". Gorgoroth "Under the Sign of Hell" Em 2011, os fanáticos do black metal ficaram desolados com a regravação do magistral disco de 1997. A principal crítica assentou na perda de toda aquela ambiência nevoeirenta e obscura que fedia a morte a milhas.

BLOODBARK

CANDLEMASS

CARRION

COLLAPSE OF LIGHT

NORTHERN SILENCE

NAPALM

MIGHTY MUSIC

RAIN WITHOUT END

ATMOSPHERIC BLACK METAL

DOOM METAL

DEATH METAL

ATMOSPHERIC DOOM/DEATH METAL

Bonebranches

Time to Suffer

House of Doom EP

A

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Each Failing Step

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e musicalmente Efãs,mocional denso, mesmo para os o funeral doom pode

nônimo em relação à identidade humana e geográfica, o projeto Bloodbark tenta desligar-se dessas amarras para em cerca de 40 minutos protagonizar uma jornada que conecte música e Natureza, individualismo e convergência. Entrelaçado por palavras e emoções que têm de trabalhar conjuntamente e em harmonia, estas três longas faixas pertencem ao cânone do black metal atmosférico contemporâneo que pode ser furioso na base mas que tem melodia nostálgica, sonhadora e mágica no pináculo. Não é que sejam composições inovadoras – e não são, de fato –, mas são bem executadas, com uma produção dentro do muito aceitável e com uma direção estética de quem sabe o que está a fazer mesmo que não evidencie preferir quebrar regras – nem sempre é preciso complicar para fazer bem.

ouse of Doom" é o EP que serve de aperitivo ao futuro álbum a ser lançado no próximo Outono pelas lendas vivas do metal que são os Candlemass. O tema-título abre este grupo de quatro músicas, deixando o ouvinte completamente rendido aos riffs vagarosos e pegajosos, à sombria melodia e ao malicioso órgão que acompanha o tema – uma pérola que mostra o calibre que categoriza a banda de Estocolmo. É pena que os outros três não acompanhem o nível: a balada "Fortuneteller" precisava de um pouco mais de substância (está muito longe de ser uma nova “Solitude”) e os outros dois, se bem que têm garra, são facilmente descartáveis perante aquilo que a banda consegue fazer. No seu todo, um belo convite para o 12º álbum.

ime to Suffer" exibe uns Carrion em excelente forma, deixando a impressão de que se trata de uma banda madura e com vários anos de experiência acumulada, apesar deste ser apenas o segundo disco dos belgas. Com temas bem trabalhados e produzidos, os Carrion vencem-nos com o seu death metal veloz, expressando uma sonoridade frenética através de guitarras que dançam entre melodias encantadoras e riffs de cariz brutal. Ao segundo longa-duração, os Carrion asseguram que o death metal não precisa de ser técnico para agradar, criando uma proposta que não só agrada ao paladar como é também de fácil digestão. O tema "Defiled Sanity" é uma boa amostra da monstruosidade presente neste disco.

dividir-se entre bandas de que se gosta muito e outras muitas de que, simplesmente, não se gosta. Capaz de abranger uma maior quantidade de fãs dentro do gênero, este novo projeto nacional, que reúne membros das bandas Shape Of Despair e Before The Rain, traz-nos uma excelente combinação das tão típicas escuridão e melancolia do doom com componentes atmosféricas, onde um toque de folk e uma particular dinâmica entre vozes limpas, masculina e feminina, com um ocasional uso de guturais, também contribui para marcar a sua sonoridade. Ao longo destes 43 minutos, separados em quatro temas, reúnem-se então todos os ingredientes necessários para viajar entre memórias menos felizes e alguns sentimentos de perda.

diogo ferreira 7/10

Tiago Neves 7.5/10

joel costa 8.5/10

Andreia Teixeira 8/10

CRAFT

CRURIFRAGIUM

DEAD INCEPTION

DON AIREY

SEASON OF MIST

LARVAL

INDEPENDENTE

EARMUSIC

BLACK METAL

BLACK/DEATH METAL

BRUTAL DEATH METAL

HARDROCK

White Noise and Black Metal

Black Seed of Bestiality

R

Constructs of Decay

P

One Of A Kind

E

D

uído branco significa um sinal aleatório com intensidade igual em frequências diferentes – é basicamente o que se passa com Craft: as faixas avançam com os seus versos e nuances, mas a linha é sempre a mesma, é sempre black metal. Sete anos depois de “Void”, os suecos regressam com o quinto disco num exercício de black metal bem produzido e arcaico, ao mesmo tempo, tamanha é a intensidade dissonante e furiosa de anos passados. Rápido na batida e com um vocal rasgado, este trabalho evoca ainda alguma depressão e passagens de black n’ roll que acabam por cair muito bem, já que melodia (aquela revigorante e épica) não existe. Mesmo que bem executado não se pode ter certeza que este retorno vá causar arrepios…

ara uma banda que começou em 2015, tem no currículo uma demo e um álbum, uma compilação como esta numa fase tão inicial de carreira só pode ser um cartão de visita para se apreciar o trabalho destes senhores. E que se pode escrever do mesmo? Não muito: os Crurifragium são daquelas bandas que apostam forte e feio na brutalidade, mas não a moldam da maneira indicada para obter um resultado final entusiasmante e que não se tenha ouvido bem melhor por outros artistas do gênero. Que não se entenda isto como um rótulo de “fraco”, mas não esperem mais do que aquilo que realmente está aqui reunido: black/ death furioso mas que não fica para rodar novamente.

ste projeto pode ser comparado a várias situações ilustrativas: um parto no buraco mais séptico do Casal Ventoso; fogo posto num orfanato; sexo com animais mortos; comer cão cozido; colocar um ouriço dentro dos boxers; ir a uma festa de kizomba. Pouco mais há a acrescentar do que isto: “Constructs of Decay” é uma anomalia cuja inspiração principal é o crack e cuja relevância musical se situa entre um “vai-se foder” e uma fratura exposta. Não chega a ser primitivo – o termo correto é procarionte, até porque, no final, aquilo que sentimos é um flagelo. Se a ideia era parodiar o death metal, correu mal. Se a ideia era fazer um trabalho a sério, começam a faltar as palavras para descrever o catedralesco falhanço que é “Constructs of Decay”.

on Airey é um mito com pernas. O tecladista tem o seu lugar cativo no Deep Purple (de que faz parte há uma década e meia) com um currículo que inclui gravações com nomes como Ozzy Osbourne, Rainbow ou Jethro Tull e uma carreira solo de que “One Of A Kind” é o quinto álbum de originais. Com a ajuda de uma banda que inclui o vocalista Carl Sentance (Nazareth) e o guitarrista Simon McBride (ex-Sweet Grace), o músico gravou um conjunto de músicas de hard rock clássico cheio de soul, onde os óbvios teclados sobressaem. Ainda assim, “One Of A Kind” não é um disco feito para Don Airey e o músico sabe onde parar para que as músicas funcionem. E, aos 70 anos, é um perfeito conhecedor do que funciona e não funciona quando compõe temas de rock.

diogo ferreira 6.5/10

Tiago Neves 5/10

joão correia 1/10

Fernando Reis 7.5/10

CANDLEMASS: “Uma pérola que mostra o calibre que categoriza a banda de Estocolmo.” 39 - ULTRAJE BRASIL #01


em

destaque Fotografia: Mikael Eriksson

Tobias Forge nem sempre foi o Papa ou o agora Cardeal, e o seu legado começou a se formar bem antes dos Ghost existirem.

GHOST

Prequelle SPINEFARM HARDROCK

“A

festa acabou e agora começa uma nova era” foram as palavras de Papa Zero quando, a 30.09.2017, Papa Emeritus III foi abruptamente removido do seu sacerdócio num show em

Gotemburgo (Suécia). A custo, Sister Imperator convenceu Papa Zero de que Cardinal Copia era o sucessor ideal para liderar Ghost mesmo sem pertencer à linhagem de sangue. Ainda que com maneirismos urbanos desviantes, Cardinal Copia terá que esquecer a postura/teor sexual do seu antecessor, começando já por “Prequelle”, o novo álbum que fala sobre pestes, eras negras e o apocalipse. Sem ser exatamente superpesado, mas com mais groove do que “Meliora” (2015), este quarto álbum não perde em nada – até ganha – a característica cativante de refrãos que ficam no ouvido ou o memorável som dos teclados a classic/prog rock dos anos 1970. De fato, é isso que mais se mostra evidente

em “Prequelle”: a inclinação a sonoridades que correram o mundo do rock há 40-50 anos, o que se pode verificar na instrumental “Miasma” que traz cinco minutos de rock n’ roll espacial. Depois, há ainda a esperada balada (“See the Light”) que apesar de bem executada não é tão forte como “He Is” (2015) e uma ambição direcionada a uma ópera rock em “Pro Memoria”. De resto, os Ghost continuam confiando no seu hard rock em faixas significativas como “Rats”, “Dance Macabre” e “Witch Image”.

diogo ferreira 7.5/10

Repugnant Com o pseudônimo Mary Goore, o sueco exerceu funções de vocalista e guitarrista nesta banda de death metal com inclinações a temáticas de terror. Formaram-se em 1998 e entre demos, EPs e splits há o álbum "Epitome of Darkness" (2006). Subvision Banda que troca flâmulas entre o alt-rock e o indie-rock. "So Far So Noir", de 2006, já evidenciava alguns riffs de base para Ghost. Magna Carta Cartel Projeto prog/rock de Martin Persner (ex-Ghost) com participação vocal de Forge. A banda foi reativada após Tobias Forge ficar definitivamente ao comando dos Ghost. Por: Diogo Ferreira

DORIAN SORRIAUX

DRUG CULT

GAEREA

GRAVEYARD

SOULSELLER

RITUAL

TRANSCENDING OBSCURITY

NUCLEAR BLAST

FOLK/PSYCHEDELICA

PSYCHEDELIC ROCK

BLACK METAL

CLASSIC ROCK

Hungry Ghost EP

Unsettling Whispers

Drug Cult

A

H

Peace

S

D

tingiu o estrelato com os Blues Pills e agora avança a solo com um EP de título inspirado num livro de Gabor Maté. Numa mistura entre folk e psicodélico – sendo a guitarra acústica brilhante, a bonita voz (até então praticamente desconhecida) e os teclados sóbrios que dão cor de fundo o epicentro do trabalho –, o músico usa também o título para falar do fantasma interior que vive em nós e que não nos deixa achar que somos bons o suficiente, levando-nos a padrões autodestrutivos. Com tamanha, mas cativante, simplicidade sonora é bem-visto que quatro faixas seja a quantidade razoável para absorvermos o que Dorian Sorriaux tem para contar e cantar – mais do que isso talvez aborrecesse. Indicado para, por exemplo, fãs de Neil Diamond.

á que gostar de um álbum que emerge com o peso e lentidão de um kaiju prestes a terraplanar Tokyo. Épico é um termo usado a torto e a direito, mas o álbum homônimo dos Drug Cult é épico, da mesma maneira que descreveríamos um trailer de cinema. A voz tão suja como sem sonoridade é o guia desta experiência ritualística sempre em direção às mais baixas ondas hertzianas. Claro que é o baixo que dá textura ao som dos australianos a que se juntam as guitarradas que deixariam os Kyuss orgulhosos. É tudo muito doom, mas em vez de aborrecimento cria antecipação. Enquanto cantam sobre rituais, sangue e feitiços os Drug Cult soam sujos e malévolos. Vamos nos benzer para ouvir mais.

e em 2016 dissemos que estes portugueses estavam muito colados a Mgła e Behemoth, agora em 2018 temos de afirmar que estão encontrando o seu caminho pessoal. Dificilmente trazem algo de inteiramente novo ao panorama europeu – que é muitíssimo largo –, mas ao português… Lá isso trazem! O black metal mantém-se como tema principal, mas o grupo deve andar a ouvir o que passa na Alemanha, com bandas como Ancst e King Apathy, e assim implementam uma abordagem hardcore versus black metal em faixas como “Absent”. Contudo, a escola polaca ressurge logo a seguir em “Whispers”, num exercício que inclui ritualismo e peso compassado. Com este “Unsettling Whispers”, os Gaerea tornam-se, sem sombra de dúvidas, na banda mais refrescante do nosso país.

epois de um hiato de apenas quatro meses, os Graveyard anunciaram o seu regresso com a entrada de um novo baterista e um novo álbum na manga. “Peace” bem pode ser interpretado literalmente como o novo estado de espírito da banda, mas que fiquem enganados os que acham que é um disco mais suave, pois os suecos retornam à forma com temas bem fortes, como “The Fox” e “It Ain’t Over Yet”, havendo também espaço para umas baladas em “See The Day” ou “Bird of Paradise”, e ainda espaço para as ocasionais excursões psicodélicas a meio de alguns temas. No entanto, a polpa deste fruto é mesmo rock n’ roll clássico, do que bate com força. Um disco difícil de se ficar quieto ao ouvir.

diogo ferreira 6.5/10

jorge almeida 8/10

Diogo ferreira 8/10

tiago neves 8/10

GRUESOME

HEGEMONE

JYOTISAVEDANGA

KHEMMIS

RELAPSE

DEBEMUR MORTI

LARVAL

NUCLEAR BLAST

DEATH METAL

POST BLACK METAL

BLACK/DEATH METAL/NOISE

DOOM METAL

Twisted Prayers

We Disappear

O

Thermogravimetry Warp Continuum

C

É

Desolation

D

s Gruesome são uma banda californiana onde figuram membros que estão ou já passaram por projetos de nomes conhecidos como Possessed, Exhumed e Malevolent Creation. E, assim como estas bandas, os Gruesome fazem death metal da velha guarda mas com toda a categoria que seria de esperar e menos não seria aceitável pois estamos falando de um projeto criado inicialmente como uma banda de tributo aos míticos Death e o legado de Chuck Schuldiner é bem louvado neste “Twisted Prayers”, sendo quase impensável não pensar nos Death ao ouvir temas como “Fate” ou “Fatal Illusions”, especialmente na era “Human” – “Symbolic”. Altamente recomendado não só para os fãs de Death, mas como para qualquer apreciador de Death Metal.

om o segundo álbum, estes polacos fazem uso de uma interpretação pessoal daquilo que para eles é post-metal embebido em orientações black metal. Não que sejam os primeiros a fazê-lo – nem serão os últimos –, mas com “We Disappear” estamos perante um cataclismo musical de excelência. À densidade própria dos estilos já mencionados, os Hegemone incluem ainda uma ou outra aproximação a um hardcore muitíssimo obscuro e ainda abordagens místicas/folclóricas, até porque versam sobre a beleza (apocalíptica) da constante mudança do mundo. “We Disappear” é um álbum repleto de walls of sound, repetições hipnóticas, desespero, introspecção e melancolia esmagadoramente pesada. É um disco de enorme calibre e é indicado para fãs de Downfall Of Gaia e Der Weg einer Freiheit.

com uma excelente introdução a oscilar entre o noise, o low-fi e o space ambient que se abre a porta para o álbum de estreia dos Jyotisavedanga, um obscuro trio com elementos oriundos da Índia e da Rússia, e cujo bizarro nome deriva de um dos mais antigos textos astrológicos indianos, o Vedanga Jyotisha, que descreve o solstício de Inverno no século XIV a.C. Tristemente, não só de conceitos originais vive um projeto, e a expectativa criada pela dita introdução não é correspondida no decorrer do disco. Os restantes cinco temas do curto trabalho consistem num death metal desinspirado a beirar o grindcore, no qual a presença esporádica de apontamentos ambientais não é suficiente para lhe conferir mais que um interesse superficial.

epois do segundo álbum “Hunted” (2016), era claro como água que os norte-americanos Khemmis iam dar o salto. Pois bem, se nos EUA continuam com a 20 Buck Spin, na Europa já estão à guarda da poderosa Nuclear Blast. Com seis faixas entre os 5 e os 10 minutos, a banda de Denver executa um doom metal exemplar que tanto busca o antigo como se coloca para a frente com uma atitude jovem – sangue novo! Mesmo com algumas faixas pesadonas e alguns berros (agora menos do que antes), os Khemmis são predominantemente melódicos, e isso tanto se testemunha pelas vozes limpas como pelos solos de guitarra memoráveis. O futuro do doom metal está assegurado enquanto houver bandas como Khemmis. Ponham o ouvido nestes rapazes!

Tiago Neves 9/10

diogo ferreira 8/10

Jaime Ferreira 4/10

Diogo ferreira 8.5/10

HEGEMONE: “Um disco de enorme calibre.” 40 - ULTRAJE BRASIL #01


em

KATAKLYSM Meditations

NUCLEAR BLAST DEATH METAL

25

anos de carreira comemorados com um disco como “Meditations” é 2-em-1 – não só os Kataklysm estão de parabéns pela longevidade atingida, como ainda gravaram um disco digno

Há mais além de Kataklysm e do Canadá no seio deste quarteto. Vamos recordar o projeto paralelo da banda.

Fotografia: Cortesia Nuclear Blast

destaque

de nota. “Meditations” é inequivocamente o álbum mais acessível de toda a carreira dos Kataklysm, muito por culpa da produção de Jay Ruston (Anthrax, Stone Sour, Armored Saint), que eleva o registo a um grau de nitidez e perfeição inéditos na carreira da banda. O tema inicial, “Guillotine”, é tudo o que se espera e muito mais – uma banda focada no sucesso e em apresentar o resultado do que melhor sabe fazer: death metal técnico e melódico, com blastbeats q.b. e aquelas estruturas que só os Kataklysm sabem criar. Com faixas curtas e (por conseguinte) bastante agressivas, nota-se uma maturidade ainda em desenvolvimento, tal é a obsessão dos canadianos com a perfeição.

“Outsider” continua na mesma linha, rápido e sem piedade, e é aqui que notamos uma costela de groove metal que se perpetuará ao longo do disco; costela essa que deixaria os Pantera orgulhosos. Em termos de faixas, é um trabalho bem conseguido, com temas viciantes e uma revitalização do gênero sem cair num som muito comercial ou insosso. Estamos doidos para que chegue Outubro para os ver ao lado dos Hypocrisy por toda a Europa. "Meditations” é um dos discos dignos de nota de 2018.

joão correia 9/10

Ex Deo O vocalista Maurizio Iacono tem sangue italiano e por isso pegou nos seus companheiros de Kataklysm para trazer à vida um capricho seu, e não no mau sentido da palavra. Ex Deo pode ser visto como uma espécie de resposta à vaga de metal viking, por sua vez utilizando a História de Roma para criar discos de death metal épico. Falou-se do estreante "Romulus" (2009), mas foi com "Caligvla" (2012) que o projeto ganhou real fama. "The Immortal Wars" é o terceiro álbum e saiu no recente ano de 2017, tendo menor impacto do que o seu antecessor. Por: Diogo Ferreira

KONTINUUM

MADBALL

MIDNATTSOL

MIST

SEASON OF MIST

NUCLEAR BLAST

NAPALM

SOULSELLER

ROCK

HARDCORE

SYMPHONIC/FOLK METAL

DOOM METAL

No Need to Reason

The Aftermath

For The Cause

N

“O

Free Me Of The Sun

O

“F

ão são raras as bandas que, tendo começado por tocar black metal, com o passar dos anos abraçaram outros estilos. É precisamente o caso dos Kontinuum que, a par de nomes como Ulver, Alcest, ou dos seus conterrâneos Sólstafir, optaram por abandonar a rispidez dos primórdios, em prol de sonoridades mais acessíveis e, neste caso específico, notoriamente mais comerciais. Descrito como rock ambiental islandês, o terceiro álbum do quinteto engloba, quase igualmente, elementos pop, rock, e até góticos, com pontuais incursões metal. A produção é cristalina e a composição competente, sem bem que algo contida. Não sendo um mau disco, “No Need to Reason” nada perderia em ser mais arrojado pois, pela falta de passagens marcantes e diferenciadoras, facilmente se arrisca a cair no esquecimento.

que começou por ser uma lenda urbana tornou-se numa banalidade” – esta poderia ser a linha de abertura de um noticiário qualquer a apresentar “For The Cause”, o novo esforço de Cricien/Guerra/Justian. Se antes um CD dos Madball cheirava a Meatpacking District, a Coney Island e a Brooklyn, hoje, ao abrir o novo CD, sentimos o odor contra natura do Upper East Side, de Greenwhich Village e do Soho. A banda decidiu trilhar o caminho com que coletivos como Biohazard ou Stuck Mojo abanaram a cena em meados dos 90s, se bem que com muito menos entusiasmo ou até genialidade, abandonando a preciosa confusão clássica de “Set It Off” ou “Demonstrating My Style”. (Nem todos) Os fãs implacáveis irão gostar. Os outros dirão “meh”. Talvez nem isso.

sobrenome Espenæs é mais do que conhecido no panorama metal e 2018 nos traz as irmãs Carmen Elise e Liv Kristine (ex-Leaves’ Eyes) lado-a-lado na mesma carruagem sonora. Para quebrar um silêncio de sete anos, “The Aftermath” junta as duas vocalistas num álbum que nem é puramente power metal, nem folk metal, nem symphonic metal. Na verdade, este trabalho é um misto desses subgêneros regidos pelas vozes femininas e guitarras solo melódicas que se sentem ao longo das 10 faixas. Todavia há um lado folclórico e melancólico a la anos 1990 que se realça praticamente a si mesmo sem grande dificuldade e será essa ala a mais memorável deste regresso discográfico. Apesar de prazeroso, o geral podia soar mais atmosférico – é o ponto menos positivo.

ree Me Of The Sun” é um retorno à sonoridade, agora clássica, dos primórdios do metal. Este é um disco de doom metal puro e duro, melodias obscuras, muita distorção, solos macabros e um quase-fetichismo pelo oculto. No entanto, não é propriamente pelo instrumental que a banda ficou conhecida – a sua maior e mais única característica é a voz de Nina Spruk, que junto da restante instrumentalização emitem uma aura de misticismo e dão uma força tremenda às composições ajudando a criar este ambiente de bruxaria matriarcal. O fato do lançamento ser tão straight-forward pode ser um detrimento: como a produção é tão simples, algumas das faixas sofrem de falta de identidade e tornam-se bastante esquecíveis. Felizmente isso não acontece assim com tanta frequência.

Jaime Ferreira 6/10

joão correia 6/10

DIOGO FERREIRA 7.5/10

DIOGO LOURENÇO 7/10

OBSCURA

ORANGE GOBLIN

RIBSPREADER

THE KONSORTIUM

RELAPSE

CANDLELIGHT/SPINEFARM

XTREEM MUSIC

AGONIA

DEATH METAL

STONER METAL

DEATH METAL

BLACK METAL

Diluvium

The Wolf Bites Back

“D

The Van Murders - Part 2

O

C

Rogaland

gora sem máscaras e Aadjacente sem grande teatralidade à música, estes

iluvium”, o novo álbum de originais dos Obscura, ainda nem teve bem tempo de começar e já mostrou ao que veio: mais uma surra de death metal técnico. Não se pense, no entanto, que o guitarrista, vocalista e mentor Steffen Kummerer já esgotou todos os truques nos quatro discos anteriores. Há Cynic e jazz de fusão no tema “Emergent Evolution”, há puro metal progressivo em “Ethereal Skies” e há death metal épico à Cattle Decapitation em “The Conjuration”. Pelo meio, os Obscura sabem segurar as pontas da qualidade, oferecem um trabalho exemplar do (fretless) baixista Linus Klausenitzer (Alkaloid) e dão muito pouco descanso ao nosso cérebro. Ou seja, esta força da técnica tem alma e tem inspiração. É obra.

s últimos anos de hype dentro do stoner metal podem ter escondido os Orange Goblin num sem número de propostas aparentemente semelhantes em forma e conteúdo, mas quem está por dentro do estilo sabe que os britânicos são especiais. Sobretudo num disco como “The Wolf Bites Back” em que o grupo carrega bem fundo no pedal da variedade e, entre temas de quase-hardcore-punk, outros de blues negro e momentos em que puxam mais pelo groove, nunca perdem a identidade nem a personalidade musical. Quando este rock dos infernos se faz acompanhar de letras de gangs de motociclistas zumbis, bruxas de Salem e guerreiros budistas, temos uma combinação vencedora.

onforme o nome indica, “The Van Murders – Part 2” traz-nos mais histórias dos dois personagens apresentados no álbum de 2011, “The Van Murders”, conhecidos como The Cleaner e Mr. Filth. A sonoridade desta banda acusa bem as suas raízes suecas, não fosse Rogga Johansson dos Paganizer um dos seus fundadores, mas elementos de death metal americano, na veia de Massacre, também se encontram presentes. A banda mantém o seu estilo de death metal, alicerçado em riffs assimiláveis, grandes solos e excelente trabalho vocal, mas consegue-se afastar do seu trabalho anterior, “Suicide Gate – A Bridge To Death”. Menos intensidade, mais proximidade ao old-school, sem blasts, como no anterior, e uma excelente produção, fazem deste “The Van Murders – Part 2” um trabalho sólido e repleto de qualidade.

noruegueses regressam aos álbuns sete anos depois do debutante homônimo. Com Teloch (Mayhem) e Dirge Rep (Orcustus) nas fileiras, os The Konsortium tanto fornecem uma onda raivosa de black/ death metal como incorrem por solos velozes e esgalhados conotados ao thrash metal, isto tudo elaborado com um tecnicismo mais predominante do que anteriormente. Parcialmente composto em locais florestais, há assim uma percepção folclórica, com refrãos ritualistas, oriunda do Norte, algo que se pode encontrar em bandas como Helheim. Maioritariamente violento, martelado e técnico q.b., “Rogaland” tem o seu pico épico na penúltima “Havet” que ao longo dos seus mais de 10 minutos apresenta uns The Konsortium muito maduros. É um regresso sólido.

Fernando reis 8/10

Fernando reis 8/10

Pedro Félix da Costa 8/10

diogo ferreira 7/10

OBSCURA: “Tem alma e inspiração.” 41 - ULTRAJE BRASIL #01


em

NERVOSA

Downfall of Mankind NAPALM THRASH/DEATH METAL

A

É a banda Nervosa que está na moda no que diz respeito ao metal feminino, mas a História da Música inclui mais bandas assim... Por: Diogo Ferreira

Fotografia: Cortesia Napalm Records

destaque

o terceiro disco, a brasileira Nervosa têm já uma identidade musical bem definida que se expande agora aos reinos caóticos do death metal, muito graças à entrada da nova baterista Luana Dametto. Sen-

do o melhor desempenho do trio sul-americano até à data, “Downfall of Mankind” continua a explorar a sonoridade thrash alemã da década de 1980 que demarcou a banda desde 2012, altura em que era editada a primeira demo e que a conduzia à Napalm Records, afastando-se agora um pouco mais do thrash associado aos Big 4. Excluída a intro e a faixa-bônus “Selfish Battle” (onde trilham os caminhos tradicionais do heavy metal), “Downfall of Mankind” é um disco implacável, dotado de uma crueza desenfreada que nos leva para um ambiente de show, mostrando que funcionará muito bem ao vivo, como aliás já vem sendo hábito. Temas como o single "Kill the Silence" ou a arrebatadora "Never

Forget Never Repeat" transmitem esta fusão de estilos que é mencionada no início da review, enquanto faixas como "Raise Your Fist!", de teor político, concedem uma dose considerável de groove, fazendo lembrar o que os Sepultura exploraram em "Chaos A.D.". Com riffs que evocam Kreator e um baixo perfeitamente audível que lhe confere uma natureza visceral e agressiva, este é um disco que assumirá um papel muito importante na carreira das Nervosa e que lhes assegurará um futuro prometedor e uma presença vitalícia nas ligas mais importantes do thrash metal.

joel costa 8.5/10

Kittie Não é uma banda inglesa ou norte-americana, como se podia esperar, mas sim canadense. As Kittie foram, e ainda são, a banda formada apenas por mulheres que mais reconhecimento obteve numa fase em que o metal estava se reconfigurando no final dos 90 / início dos 00. Jenner De Belgrado, Sérvia, o quarteto feminino elabora um speed/thrash metal bem tocado e cativante. "To Live Is To Suffer" é o primeiro e único álbum até ao momento, lançado em 2017. Black Widows Num cantinho da vasta História há ainda lugar para este quarteto gótico e português. "Sweet... The Hell" é o único álbum, de 2002.

THE LION'S DAUGHTER

THE NIGHT FLIGHT ORCHESTRA

THERIOMORPHIC

UADA

SEASON OF MIST

NUCLEAR BLAST

DETHSTAR DIGITAL

EISENWALD

BLACKENED SLUDGE METAL

CLASSIC ROCK

MELODIC DEATH METAL

BLACK METAL

Future Cult

O

The World Ain't Enough

Q

Of Fire And Light

Cult of a Dying Sun

D

F

fim dos tempos está próximo e o futuro será enigmaticamente revestido de ouro. Deus quererá vingança, mas se vingará de quem se já estivermos todos mortos? E a culpa será sempre nossa, dos detestáveis humanos. Tudo isto é musicalmente perpetuado por uns The Lion’s Daughter evolutivos de álbum para álbum que agora incluem uma ala electrônica no seu blackened sludge metal apocalíptico e furioso. Os sons electro podem personificar um ambiente espacial (um mal que vem de fora) mas também acabam por ser hipnotizantes, o que se enquadra com as guitarras densas que criam uma parede de som aterrorizante. Com faixas curtas (pouco passam dos 4 minutos), a capacidade para se atingir um trance pode ser pobre, mas conseguiram ainda assim provar a sua perspectiva.

uando está cansado de: 1) compor/tocar death metal; 2) ouvir Kiss, Yes, Toto e por aí fora… Faz o quê? Larga o death metal e inspira-se nos teus ídolos do hardrock e classic rock. Foi o que fez Björn Strid e David Andersson, ambos de Soilwork, quando há 10 anos criaram os The Night Flight Orchestra (TNFO). Depois, a bordo deste avião revivalista subiu ainda Sharlee D’Angelo (Arch Enemy, Spiritual Beggars). O que este supergrupo oferece é plena diversão musical aliada ao profissionalismo que ostentam há décadas no meio death metal; assim sendo, por um lado é para levar TNFO numa boa, por outro a seriedade dos músicos está em jogo e fazendo hardrock / classic rock serão ridicularizados. Divirtam-se!

ez anos depois do último álbum, eis que os lisboetas Theriomorphic colocam mais lenha na fogueira lançando um novo EP 4x4, constituído por 4 temas e 4 interlúdios. Após profundas mudanças na sua formação, o (agora) trio oficial volta com 24 minutos do seu death metal típico – ora com partes rápidas/blast, ora com solos melódicos (seu apanágio) – alternando com súbitas e bonitas paradas acústicas. Não sei se Jó & Cª se inspiraram nas tragédias incendiárias do triste Verão de 2017 mas, independentemente desse fato, até pode servir como espécie de homenagem. A aura fatalista e a vingança de um Deus ausente por via do fogo está sempre presente nas fortíssimas letras e parece o desfecho merecido de uma raça que às cinzas voltará.

oi em 2016 que estrearam em grande estilo com “Devoid of Light” e sem tirar o pé do acelerador prosseguem com o óbvio sucessor sob o título “Cult of a Dying Sun”. Com novo baixista e novo baterista, o quarteto continua a sua jornada musical adepta ao black metal melódico, mas expandem a sua gama de abordagens com solos mais relacionados ao heavy metal, exponenciando ainda mais a ala melodiosa, e a diversidade vocal de Jake Superchi também aumentou. “Cult of a Dying Sun” é feito de riffs cativantes que se conjugam com uma atmosfera geral que tanto pode ser épica, mortal ou melancólica em alguns segmentos. Com uma curta carreira, estes norte-americanos são já uma banda a levar muito em conta.

diogo ferreira 7/10

diogo ferreira 7/10

Rui vieira 8/10

diogo ferreira 8/10

VANHELGA

WØMB

WOMBBATH

YOB

OSMOSE

PURODIUM

SOULSELLER

RELAPSE

DEPRESSIVE BLACK METAL

BLACK METAL

DEATH METAL

DOOM METAL/STONER

Fredagsmys

Taciturn

M

The Great Desolation

O

Our Raw Heart

I

E

ais antigos do que Lifelover mas sem terem atingido o hype nos primeiros anos, os suecos Vanhelga chegam ao quinto álbum numa demonstração de atitude, maturidade e profissionalismo, mesmo no meio daquela vida niilista e psicótica que já levou alguns dos membros a internamentos psiquiátricos. Com base no black metal, o grupo não se prende a isso e elabora algumas incursões ao rock alternativo e ao dream rock, tudo num tom de falsa segurança com assobios melodiosos ou guitarras acústicas que, afinal de contas, representam depressão no seu estado puro. “Música positiva para pessoas positivas”, eles sempre disseram, e com papas e bolos se enganam os tolos. Com Vanhelga não há salvação – nem para o corpo, nem para a mente. Descendamos então…

projeto nacional Wømb é proficiente em criar black metal do mais cáustico e pulverizador em doses que raramente ultrapassam os dois minutos e o seu primeiro EP não foge à regra. Não se limitando a ser apenas uma amálgama de caos enraivecido, os riffs são fortes e a estrutura da música mais coesa do que aquilo que soa de início, despertando um interesse maior por parte do ouvinte que não quer apenas ouvir uma descarga bruta. Porém, quando esse interesse surge o tema termina abruptamente, dando que pensar se em temas como “Nychthemeral” ou “Ritual Union Through Sex Magick” os Wømb não teriam a beneficiar se aumentassem a duração além do limite de dois minutos.

mpulsionadores da época de platina do death metal sueco (1990-93), os Wombbath nunca obtiveram o reconhecimento merecido que bandas como Dismember, Entombed ou Unleashed lograram. Injustamente, diga-se, principalmente se atentarmos à qualidade de “The Great Desolation”, a sua última oferta. Não há espaço para manobras: é um disco de death metal clássico na linha de “Left Hand Path” ou “Like An Ever Flowing Stream” – as guitarras poderiam ter saído de um desses registros, tal é o purismo que a banda louva, mesmo que os solos de “Cold Steel Salvation” os metam em segundo plano sem dificuldade. Produção perfeita para o gênero e algumas amêndoas como sintetizadores discretos que enriquecem algumas faixas. Uma pena que continuem à sombra. Indicado para amantes de bom death metal sueco.

m "Our Raw Heart", os Yob carimbam-nos o passaporte para uma realidade alternativa de contornos épicos, fruto da vivência assustadora pela qual o vocalista e guitarrista Mike Scheidt passou, que poderia ter resultado na sua morte [ler entrevista na página 30]. O doom dos Yob pode ser caracterizado como intenso, com rasgos de death a auferir-lhe algum peso adicional e com passagens tão doces quanto melódicas. Em temas como “Ablaze” ou “Beauty In Falling Leaves”, a voz de Scheidt assombra-nos e gela-nos os ossos de tão arrepiante que é, com esta última a ver os Yob explorar uma abordagem mais limpa que deixa todo o caos para trás. "Our Raw Heart" ficará para os anais da História como um álbum verdadeiramente honesto e demasiado belo para este mundo.

diogo ferreira 8/10

Tiago Neves 7/10

João Correia 8/10

Joel Costa 9/10

VANHELGA: “Uma demonstração de atitude, maturidade e profissionalismo.” 42 - ULTRAJE BRASIL #01


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Ultraje Brasil #01 (Junho/Julho 2018)  

Edição #01 da Ultraje Brasil em formato digital.

Ultraje Brasil #01 (Junho/Julho 2018)  

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