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Até 2019!

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a Ultraje sempre se tentou fazer as coisas de maneira diferente e arrojada de modo a destoar, para melhor, de tudo o resto que existe neste meio. Tentamos a cada dois meses oferecer o melhor conteúdo com os melhores artigos escritos por pessoas que estão nisto pelo amor à música. Neste 2018 tivemos capas com Ghost, Black Label Society ou Behemoth, e é este o balanço: mais um ano difícil, tanto para a Ultraje como para a própria indústria, que se construiu com muito suor e paixão para que a chama se mantenha viva. O ano fez-se caminhando e é assim que o terminamos, a caminhar para 2019 em mais uma experimentação: o público-alvo das próximas edições será quem se desloca a concertos/festivais onde, em muitos desses locais, se poderá levantar a nossa/vossa revista, sem esquecer pontos de interesse para quem ainda compra discos/merch, como é o caso da Bunker Store ou da Unkind, duas entidades que nos têm dado apoio incondicional. Neste #19 contamos com uma capa de luxo encabeçada por Mikael Åkerfeldt, dos Opeth - uma das bandas mais influentes dos últimos 20 anos -, a propósito do recente DVD “Garden of the Titans” com imagens captadas no imponente Red Rocks Amphitheatre (EUA). O guitarrista Fredrik Åkesson conta-nos tudo. Igualmente históricos, os In The Woods…, com Kobro e Fogarty a responder à Ultraje, regressam às origens com “Cease the Day”. Numa espécie de dicotomia de eras e estilos, temos ainda o metal groovado dos Once Human e o industrial dos KMFDM, o que nos leva à inclusão ultrajante, mas boa, do synthwave dos The Sacrifice. A legião portuguesa alinha-se com os revigorantes Moonshade. Venha 2019!

diogo ferreira

CONTEÚDOS

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OPETH

REFLEXO SENSORIAL DAS ROCHAS VERMELHAS

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IN THE WOODS A banda fala-nos de "Cease The Day", o quinto e novo álbum composto num período algo conturbado.

Editor

04 - ULTRAJE #19

ONCE HUMAN Quisemos saber mais sobre "Stage of Evolution", o novo disco ao vivo dos Once Human.


ÍNDICE ENTREVISTAS

12 In The Woods... 14 Dodsferd 15 Moonshade 16 Dirge 17 Slegest 18 Jinjer 20 Opeth 24 Once Human 26 KMFDM 28 Anneke van G. 30 Rich Davis 32 The Sacrifice

CONTEÚDOS

06 Kvlt Express 08 Bloco Operatório 09 Uma Cena Ao Centro 10 Discografia: The Ocean 11 Cena Metal: Nepal 33 Studio Report: Destroyers Of All 34 El Stoner Rodeo 35 Opinião 36 Reviews 41 Preto & Branco

FICHA TÉCNICA CORRESPONDÊNCIA:

a/c Diogo Ferreira Apartado 527 EC Ovar 3880 Ovar Portugal WEBSITE:

www.ultraje.pt DIRECTOR/EDITOR DIOGO FERREIRA

diogoferreira@ultraje.pt DESIGN/MARKETING JOEL COSTA

joelcosta@ultraje.pt PROMOS & NOTÍCIAS

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carlospinto@ultraje.pt DESIGN & PAGINAÇÃO

Joel Costa Mariana Duarte COLABORADORES

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ANNEKE Fomos ao encontro de Anneke van Giersbergen, que nos falou sobre o seu novo trabalho ao vivo intitulado "Symphonized".

Andreia Teixeira, Carlos Pinto, Cátia Cunha, Diogo Ferreira, Diogo Lourenço, Fernando Reis, Gonçalo L. Matias, Ivo Conceição, Jaime Ferreira, João Correia, Joel Costa, José Branco, José Matos, Pedro Félix da Costa, Raquel Nunes Silva, Rui Vieira, Tiago Neves, Vânia Matos LÊ MAIS CONTEÚDOS EXCLUSIVOS EM WWW.ULTRAJE.PT


Fotografia: Giannis Antoniou

SECRET CHORD

SERPENT LORD (GR)

Álbum: TOWARDS THE DAMNED O tema "Nephilim" encontra-se disponível no CD deste mês da Ultraje

«APRENDEMOS MUITO SOBRE NÓS PRÓPRIOS E ESTAMOS MELHOR PREPARADOS PARA AS PRÓXIMAS GRAVAÇÕES.»

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epois da edição do EP "Dimensions of a Dream", em 2017, os nacionais Secret Chord presentearam-nos com o single "Wraith of Oblivion" um ano depois. A Ultraje falou com o guitarrista João Conceição acerca dos motivos que levaram a banda de Coimbra a editar o single que se fez acompanhar por um vídeo: «A oportunidade para realizar um videoclip surgiu na altura em que vencemos a primeira edição do concurso de bandas organizado pela Associação de Músicos e Técnicos (ASMUSITEC), sediada em Coimbra, em que o primeiro prémio era precisamente a gravação e produção de um vídeo para um tema da nossa autoria», começa por dizer. «Decidimos que era altura de a banda mostrar música fresca e escolhemos a “Wraith of Oblivion” para representar esse avanço do conjunto de temas que estamos a compor neste momento.» Considerando que já não faz sentido esperar pela edição de um álbum para lançar material novo pelo facto do «conceito de disco já estar ultrapassado», João Conceição assegura, no entanto, que "Wraith of Oblivion" é «certamente um aperitivo para aquilo que virá a ser o nosso álbum de estreia e com certeza que será parte integrante do mesmo». «Vamos continuar a explorar esta sonoridade mas não prometo que o álbum seja pleno de homogeneidade. Os membros da banda têm influências musicais extremamente variadas mas isso não é um dado original, como é lógico. O que pode acontecer connosco, em termos de composição, acontece com tantas outras bandas, que acabam por fazer uma aglutinação de todas as características particulares da sua maneira única de fazer música. Neste momento estamos em fase de criação mas a etapa seguinte é seguramente o lançamento de um longa-duração, talvez no próximo ano. Devido à exposição alargada que o vídeo de “Wraith of Oblivion” conferiu aos Secret Chord, estamos também a estabelecer contacto, a nível europeu, com algumas editoras que se mostraram interessadas em promover a nossa música. Nesta altura, será fundamental obter uma boa parceria nesta área para levar o nosso nome ainda mais longe.» [JC]

O

s gregos Serpent Lord (GR) estrearam-se em Setembro de 2018 com "Towards The Damned", um disco que para o guitarrista e fundador George Terzitanos teve como objectivo comunicar com o público: «A música é uma forma de comunicar e está presente em todo o lado, em todos os dias da nossa vida», começa por dizer. «Queríamos comunicar com outras pessoas que partilham do mesmo gosto musical, e quando começamos a compor este disco, assim como aconteceu quando formámos a banda, o nosso objectivo era podermos expressar-nos e tocar aquilo que gostamos. "Towards The Damned" foi a nossa primeira tentativa a sério de criar algo original e mostrar ao mundo as nossas ideias e preocupações; mostrar que em pleno 2018 ainda é possível compor heavy metal clássico com uma sonoridade original.» Para além disso, a banda procurou testar os seus limites, pois «quando o começámos a gravar nenhum de nós tinha experiência na gravação de um longa-duração». Com o disco de estreia cá fora, o guitarrista faz um primeiro balanço: «Estamos muito satisfeitos com o resultado final e com a opinião geral do público. Saber que há pessoas interessadas no nosso trabalho e que se revêem nas nossas letras é muito recompensador para nós, e aí posso dizer que fomos bem sucedidos e superámos as nossas expectativas. O nosso disco foi nomeado como a "Sugestão do mês de Outubro" na Metal Hammer grega e as pessoas têm-nos contactado para partilhar ideias, encomendar o álbum, etc.. Para além disso, aprendemos muito sobre nós próprios e estamos melhor preparados para as próximas gravações.»

06 - ULTRAJE #19

Comparativamente à demo editada em 2017, Terzitanos considera que os Serpent Lord (GR) passaram por uma transformação significativa: «Começámos a explorar conceitos da filosofia e da teosofia de uma forma que nunca havíamos feito. Tudo isto teve um grande impacto nas nossas letras no sentido em que tornaram-se mais sérias. A música conheceu igualmente uma evolução em todos os aspectos. Estudámos muito, ouvimos muita música diferente, e cada um de nós procurou evoluir e ser um músico melhor. Esta melhoria técnica foi um tremendo passo em frente que nos deu inúmeras oportunidades e abriu-nos vários caminhos.» Os temas presentes na demo fazem também parte do alinhamento do longa-duração de estreia da banda de heavy metal. George Terzitanos explica-nos o que poderemos encontrar de diferente nas duas versões: «A estrutura das músicas não foi muito alterada mas há que ter em conta que substituímos o nosso vocalista e só isso é uma grande mudança. Ainda que não tenhamos procedido a grandes alterações na estrutura desses temas, houve melhorias na parte da orquestração e dedicámo-nos a tentar com que soassem o mais poderosas possível. E, claro, a produção está muito melhor. Irão certamente perceber as diferenças.» Para prolongar o bom momento, a banda espera lançar um vídeo realizado por Bob Katsionis (Firewind, Outloud, Solo) logo no início de 2019. Depois disso segue-se uma agenda de concertos na Grécia e nos Balcãs. Em exclusivo à Ultraje, os Serpent Lord (GR) informam também que estão a preparar um novo EP com um par de covers e um tema original. [JC]


PERFIL: PAIN CITY Respostas por Stian Krog

NOVIDADES: «Acabámos de lançar o single

em vinil do tema “I shout it out loud/Never stop fighting”, que faz parte do alinhamento do nosso próximo disco, que sai em Janeiro de 2019. Brevemente sairá também um vídeo para este single e o nosso álbum de estreia foi editado no início de 2018. Como dá para perceber, estamos a ter um ano muito produtivo com muito trabalho à mistura. Neste disco poderão encontrar muito rock n' roll e solos rápidos com refrãos que convidam a que cantem connosco também.»

OBJECTIVOS: «Queremos levar a nossa

música o mais longe quanto possível. Sermos um trio tem os seus prós e contras mas conseguimos encontrar uma solução para soar bem. Também é mais fácil viajar quando somos apenas três e a cereja no topo do bolo é o facto de sermos grandes amigos.»

INFLUÊNCIAS: «Temos a dizer que amamos

IDLE HANDS

N

«NOS SPELLCASTER EU CRIAVA RIFFS E NOS IDLE HANDS COMPONHO MÚSICAS NA ÍNTEGRA.»

ascidos das cinzas dos Spellcaster, os norte-americanos Idle Hands mostraram-se capazes de criar toda uma nova identidade musical. Para nos falar do EP de estreia "Don't Waste Your Time", cuja edição está a cargo da alemã Eisenwald, contamos com as palavras do guitarrista e vocalista Gabriel Franco. «Não faço ideia do que as pessoas estariam à espera», comenta a respeito dos fãs que antecipavam uma sonoridade em tudo semelhante à dos Spellcaster. «Primeiro porque não sou eles e segundo porque quando a banda foi criada não acho que já tivéssemos fãs.» O músico prossegue: «A grande diferença entre as duas bandas é que nos Spellcaster eu criava riffs e nos Idle Hands eu componho músicas na íntegra. Tem sido divertido poder explorar esse aspecto e isso trouxe muito mais liberdade artística para esta banda.» Já a prepararem-se para a edição de um longa-duração em 2019, Franco revela à Ultraje que o EP "Don't Waste Your Time" foi uma forma de mostrar ao público que os membros da banda estavam vivos e de boa saúde: «Vamos iniciar as gravações da bateria amanhã [NR: dia seguinte à realização desta entrevista], a capa está a ser trabalhada e o disco deverá ser editado em Abril. Não houve uma estratégia propriamente definida para o EP. Como não tínhamos temas nossos, limitámo-nos a lançar algo para reunir interesse junto dos fãs e começar a trabalhar no próximo lançamento.» Sobre o longa-duração que se avizinha, o músico explica que será «uma versão maior do EP com algumas surpresas». «Fazemos aquilo que queremos e não há uma direcção planeada. Como dizia o Eddie Van Halen: se te parece bom, é porque é bom. Vivemos por estas palavras.» Se a direcção musical dos Idle Hands não tem qualquer tipo de planeamento, o mesmo se pode dizer da vida de Gabriel Franco,

que não corria como esperado aquando da composição dos temas presentes neste EP. «A vida não estava a correr como eu queria. Por vezes dás por ti a pensar para onde fugiram todos estes anos e isso aconteceu-me em 2017, quando a banda começou. Tive que começar tudo de novo e odiei isso. No entando, peguei em papel e caneta e simplesmente continuei, pois era tudo aquilo que podia fazer e que ainda faço. Não podemos desistir.» Com cinco temas muito próximos às baladas - o que pode ser algo estranho se tivermos em consideração que os Idle Hands assinaram com uma editora especializada em black metal -, Gabriel Franco fala-nos de algumas baladas que o motivaram a apostar nesta abordagem em "Don't Waste Yout Time": «Algumas das minhas músicas favoritas assim neste ritmo mais lento são "Dust In The Wind" dos Kansas e "I'll Be Alright Without You" dos Journey. Há um milhão de outras mas são estas que me vêm à cabeça assim de repente.» O vocalista aborda também as influências da NWOBHM (New Wave Of British Heavy Metal) que podem ser encontradas neste registo. «Parece haver algum interesse manifestado online, mas no que diz respeito ao retorno, pelo menos aqui nos Estados Unidos, não é lá muito bom para as bandas que acabam de aparecer. Quando os Night Demon [banda de heavy metal da Califórnia] começarem a esgotar salas com capacidade para duas mil pessoas aqui nos Estados Unidos, falamos.» Os Idle Hands preparam-se agora para uma tour a ter lugar em 2019, algo que o músico aguarda com algum nervosismo: «Vou dar o meu melhor para não fazer figura de parvo ou enganar-me nas minhas partes. Mas cantar vai ser divertido!» [JC] 07 - ULTRAJE #19

o metal dos anos 80, mas na nossa música encontrarão, de igual forma, influências mais progressivas. Queremos que a nossa música seja de fácil audição, mas ao mesmo tempo ter uma porção com partes mais técnicas. Então, a espinha dorsal é riffs baseados no rock/ metal com vozes melódicas e alguns solos para apimentar. As pessoas parecem gostar desta combinação.»

FUTURO: «Demos muitos concertos em toda

a Europa durante 2018 e queremos continuar neste ritmo assim que o novo disco sair. Vamos fechar o ano com mais alguns concertos em Berlim, Hamburgo, Londres e ainda na Noruega. Depois iremos descansar e planear a tour de 2019, onde contamos marcar presença em alguns festivais.»

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11 ACONTECIMENTOS QUE ABALARAM O MUNDO METÁLICO POR RUI VIEIRA

Há certos acontecimentos na música que, pela sua carga emocional, impacto e presença nos tempos que se seguem, podem ser considerados traumáticos. Quase que os poderíamos encaixar num novo ramo da psiquiatria, o PT(M)SD, "post traumatic metal stress disorder". São situações que - invariavelmente - todos comentam, com saudade, com tristeza ou irritação. Eis alguns factos marcantes a que ninguém fica indiferente neste mundo só nosso. 1. Morte de Lemmy (Motörhead) A morte do rei do rock n' roll (qual Elvis) será sempre o facto mais relevante da História da Música, na sua vertente mais pesada. Mas o curioso acerca do desaparecimento do senhor Ian Fraser Kilmister é que os seus admiradores e seguidores não guardam qualquer tristeza, rancor ou outro sentimento que não alegria, acompanhada - obviamente - por uma grande saudade. Lemmy viveu sempre à margem da sociedade, fez o que quis e gozou, de facto, a vida. E é essa coragem (mais do que propriamente a música) que todos nós invejamos, é o que o torna numa lenda e o eleva ao Olimpo! Lemmy, o outlaw, o rocker de serviço a sua Majestade! "We are Motörhead and we play rock n' roll!" 2. Saída de Max Cavalera dos Sepultura Uma das situações mais lamentadas da História do metal. A saída do fundador dos Sepultura em 1996, consequência de uma série de episódios mirabolantes envolvendo a sua mulher, Gloria, e o falecimento do seu enteado, Dana Wells, foi uma das maiores facadas no coração que um headbanger sofreu até hoje e tornou-se num dos casos mais falados e (principalmente) discutidos no mundo metálico. Parte de Max, morreu aí. É indiscutível. E também uma outra parte, aquela de quem o seguia e reconhece nos brasileiros uma das mais importantes bandas da História do thrash metal mundial, nomeadamente, entre 87 e 96, período em que lançaram os icónicos e seminais álbuns "Schizophrenia", "Beneath The Remains", "Arise", "Chaos A.D." e "Roots". Os Sepultura nunca mais foram os mesmos mas o metal mudou graças a eles. 3. St. Anger (Metallica) Indubitavelmente, o álbum mais polémico (e arrasado) da História do metal. Num claro lose-lose, para a banda e para os fãs, "St. Anger" será sempre o maior motivo de repulsa por parte da comunidade metálica em geral e haters de Metallica em particular. Reflexo de um período da banda completamente desconectado, que os levou à quase-separação, estas músicas reflectem um (novo) erguer mas muito torpe, lembrando uma espécie de aberração musical, qual Frankenstein. Até há boas músicas/ideias e nem é a ausência de solos o mal maior. Acima de tudo, foi a produção que arruinou este álbum no 'canto do cisne' da relação do produtor (e baixista em "St. Anger") Bob Rock com os Metallica. Ou então, a - simplesmente - intragável tarola (ou bidão?) que Lars Ulrich decidiu usar na gravação. 4. Assassínios e igrejas incendiadas durante a segunda vaga do black metal (norueguês) No início da década de 90 do século passado, o mundo foi abalado por uma série de acontecimentos dramáticos envolvendo a queima de igrejas e vários

assassinatos no so-called país perfeito, a Noruega. Entre outras, as figuras centrais foram Varg Vikernes (Burzum) e Oystën Arseth a.k.a. Euronymous (Mayhem). As disputas entre ambos e o fanatismo de Varg colocaram o black metal norueguês nas primeiras páginas de todo o mundo. Varg matou Euronymous com uma pequena faca de bolso e incendiou várias igrejas que, segundo ele, roubaram a identidade pagã dos noruegueses, tendo sido construídas em cima de solo onde, outrora, estavam símbolos da cultura popular norueguesa. Varg foi condenado a 21 anos de prisão, o black metal é hoje património nacional norueguês e os Mayhem tornaram-se na mais emblemática banda de black metal. 5. Assassinato de "Dimebag" Darrell (Pantera) Se nas quatro cordas fora o desaparecimento de Cliff Burton o mais marcante, nas seis foi Darrell Lance Abbot, mais conhecido como "Dimebag" Darrell. O icónico guitarrista dos norte-americanos Pantera perdeu a vida em palco quando, durante uma actuação da sua nova banda - Damageplan -, um fã, supostamente enfurecido (e desequilibrado) com a separação dos Pantera, disparou vários tiros à queima-roupa, vitimando "Dimebag" e outras três pessoas. O guitarrista texano e fundador do metal moderno perdia a vida de forma cruel, tudo isto assistido pelo seu irmão Vinnie Paul, baterista e, também ele, integrante dos Damageplan. "Dimebag", para além de excelente executante, criou toda uma nova escola de metal traduzida na sua forma de tocar, nos inovadores riffs em palm mute e efeitos que mudaram a face do metal. 6. Incêndio no clube "The Station" Cem pessoas morreram na fria noite de 20 de Fevereiro de 2003 no clube "The Station", em West Warwick, Rhode Island (EUA). E tudo por causa de algo que, infelizmente, ainda hoje se assiste: uso de pirotecnia em espaços fechados. Uma noite que se queria de bom hard n' heavy, convívio e cerveja, tornou-se no maior pesadelo qual Elm Street. O uso indevido de efeitos pirotécnicos para exteriores aliado a materiais insonorizadores altamente inflamáveis foi o cocktail perfeito para a tragédia, um incêndio implacável e de rápida deflagração (5 minutos). Inicialmente julgado como fazendo parte do show, o público rapidamente se apercebeu do que estava a acontecer e, para muitos, já foi tarde. Os Great White estavam em palco e também eles sofreram baixas. Para além das sequelas psicológicas perderam o seu guitarrista Ty Longley. 7. Morte de Cliff Burton (Metallica) Uma das perguntas mais frequentes entre a comunidade metálica global é: como seriam os Metallica se Cliff Burton estivesse vivo? Naquela fatídica e gelada noite de 27 de Setembro de 1986, os corações de todos os headbangers congelaram. O baixista de Metallica tinha falecido num acidente de viação, ficando debaixo do tour bus que transportava o quarteto da Bay Area - no seu topo de forma - da Suécia para a Dinamarca durante a tournée Damage Inc. de promoção ao lendário "Master Of Puppets". Um desaparecimento precoce do génio das quatro cordas, uma banda amputada de um músico que permanecerá... insubstituível. 8. Morte de Chuck Schuldiner (Death) Há músicos que marcam uma época porque são exímios executantes ou porque carregam uma criatividade de dimensões gigantescas. Chuck Schuldiner tinha tudo isto mais o facto de ter co-fundado (com Jeff Becerra, sejamos justos) um estilo único: o death metal. E é a Chuck 08 - ULTRAJE #19

que devemos todo o desenvolvimento posterior que vai muito para além da agressividade e voz gutural. Infelizmente, evil Chuck foi vítima de um sistema de saúde que não funcionou, uma falta de ajuda no chamado "país mais desenvolvido do mundo", os Estados Unidos. Por muito que honrem os seus heróis, no caso de Chuck, a falha de uns míseros dólares retirou a vida a um ícone que encheu de vida o coração de muitas pessoas. Hoje, com o seu legado, Chuck poderia pagar mil operações. 9. Morte de Quorthon (Bathory) Muitos chamam-lhe o (verdadeiro) pai do black metal mas podemos considerar Thomas Börje Forsberg apenas... um génio. Um músico capaz de criar/fundar dois estilos de metal quase independentes entre si: o black e o viking metal. Quorthon foi um self-made-man, sempre dono da sua arte e decisões (devidamente suportado pelo seu pai, manager de serviço) e à frente do seu tempo. Bathory é um dos primeiros (se não o primeiro) 'produtos' de peso da Suécia, um mercado que conta - hoje em dia - para o PIB do país nórdico. Quorthon marcou o panorama de uma forma tão profunda que ainda hoje é reverenciado por toda a gente no mundo metálico. Visitou Portugal durante a promoção ao álbum "Hammerheart" e a sua relação com os fãs pode ser vista num excelente vídeo disponível no YouTube. 10. Morte de Peter Steele (Type O Negative) O gigante amoroso. Fundou os Carnivore em 1982, banda que gravou dois álbuns seminais (e que, embora não creditado ou frequentemente lembrado, manda aqui os primeiros bafos do que viria a ser o death metal de Chuck Schuldiner ou Jeff Becerra), mas que se separou prematuramente, durando apenas cinco anos. Passando de assuntos de teor mais bélico e apocalíptico para uma abordagem mais sexual e pervertida, funda os Type O Negative. O músico nova-iorquino, que media 2.01m, tem no quarteto a sua amante e escape para a vida terrena. Aqui, Steele despejava também toda a sua angústia, niilismo e tragédias familiares. Um gigante derrotado pelas agruras da vida de rockstar também. Droga, álcool e uma espiral psicótica que terminou em 2010, ano em que o gigante adormeceu e alcançou - finalmente - a paz merecida. 11. Suicídio de Jon Nödtveidt (Dissection) Uma das figuras mais controversas e verdadeiras do black metal nórdico. Quem comete suicídio aos 31 anos com o argumento de que já viveu o suficiente e quer partir na plenitude da sua vida precisa de ter tomates! Ou então já está queimado da cabeça! Mas melhor que tudo isto é que o músico sueco deixou-nos um bom legado histórico, entre os quais se destaca - como é óbvio - o majestoso e influente álbum "Storm Of The Light's Bane", de 1995. Jon viu-se em polémicas relacionadas com o seu envolvimento e colaboração com grupos organizados de crime, nomeadamente, a Misanthropic Luciferian Order (depois renomeada como Temple Of The Black Light) e a Werewolf Legion, para além do seu envolvimento no assassinato de um homossexual. Apesar de toda esta folha criminosa (marca d'água do black metal nórdico nos 90s), Nödtveidt e Dissection mantêm um culto assinalável no underground mundial.


UMA CENA AO CENTRO

MÚSICA MODERNA PORTUGUESA 1990-1999 POR DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA GIL ÁLVARO DE LEMOS

«Estão a ver aquele puto magrinho que ia ver os concertos e ficava sempre atrás a observar? É este autor.», lê-se numa das linhas de apresentação de Pedro Miguel durante a angariação de fundos para o livro “Uma Cena Ao Centro - Música Moderna Portuguesa - 1990-1999”. Nasceu em Viseu, mas assentou em Leiria desde muito pequeno. É jornalista freelance e trabalha em part-time numa livraria. Pelo meio é estudante de doutoramento em Coimbra na área de Discursos - História, Cultura e Sociedade e já escreveu livros de contos - porém, esta epopeia à procura do que melhor se fez ao Centro durante a década de 1990 será o seu magnum opus.

«REDESCOBRIR BANDAS QUE SIMPLESMENTE JÁ SE TINHAM VARRIDO DA MEMÓRIA FOI MUITO INTERESSANTE.» Para quem não conhece o livro, na tua perspectiva de autor, que tipo de narrativa vão as pessoas encontrar? Procurei dar-lhe um tom leve, não no sentido superficial, mas que seja de fácil leitura. Acho que a maneira como comunicamos tem de ser eficaz para chegar ao receptor sem falhas. Tendo a pesquisa para o livro partido da minha tese de mestrado, senti a necessidade de descomplicar a coisa. Acho que fui bem-sucedido nesse aspecto, pois já várias pessoas me confidenciaram que, mesmo não tendo grandes hábitos de leitura, leram tudo num instante. Isso deixa-me orgulhoso e ao mesmo tempo dá-me alento para continuar e contribuir para que os índices de leitura subam um pouco. Sentiste realmente a necessidade de documentar a música moderna dos anos 90 na região Centro só porque merecia ou, mais pessoalmente, achaste também que seria um óptimo meio para homenagear pessoas que te rodeiam ou rodearam e que tanto deram à música alternativa? É um bocado disso tudo e muito mais. Trabalho numa livraria e tenho alguma noção do panorama editorial. Edita-se muita coisa, por vezes pouco diversa. Não existe assim tanta coisa no mercado português sobre culturas underground, mas o que é certo é que, quando há, geralmente é bem recebido na generalidade. O meio literário ainda se pauta pelo conservadorismo e muitas das vezes anda desligado do mundo, na sua bolha. Pessoalmente não me posso queixar. Fiz um crowdfunding que correu muito bem e continuo a vender livros todas as semanas e em regime de edição de autor. Isso é sinal de interesse por parte do público. É claro que muitas das pessoas que compram o livro viveram aquelas histórias e também é um bocado da vida delas (e a minha) que vêem ali espelhado. Há uma empatia muito grande no que toca a estes temas e, sim, é uma sentida homenagem a todas as pessoas que fizeram parte da Cena. Há uma secção do livro que se foca muito em Silence 4 e David Fonseca. É óbvio que uma parte da história estaria directamente relacionada a isso, mas dirias que David Fonseca é, sem dúvida, uma das personalidades mais importantes da região Centro? Sim e não. Passo a explicar: a parte do sim é óbvia no sentido em que o David - que vem da cena alternativa indie -, juntamente com a sua banda da altura (o baterista Tó Zé vinha de uma banda punk mítica, os Jesus Morto da Cruz), se tornou nº 1 em Portugal e sem fazer concessões. As editoras queriam coisas em português e ele não cedeu. Essa parte é muito do-it-yourself, de confronto com o establishment, foi um enorme "vão-se foder" às capelinhas habituais do mundo da canção. Depois o sucesso aconteceu sem ninguém estar à espera, com a estrutura das canções muito ligadas aos movimentos alternativos, dos

Pixies aos Tindersticks, das sonoridades da 4AD à Mute. O início fez-se via rádios, como a XFM ou a RUC de Coimbra, com poucas ligações ao mainstream, portanto. Ele próprio fez rádio e o seu programa era excelente, mesmo! A parte do não resulta disso mesmo. A partir de certa altura, o David foi à vida dele e a região já não lhe chegava; foi quando tomou a consciência de que se quisesse singrar tinha de sair da zona de conforto. Correu bem e em poucos meses os Silence 4 eram ouvidos do Minho ao Algarve, da Madeira a Macau - deixou de ser local. Sem se querer ser injusto para o documento como um todo, serás capaz de destacar a parte que mais gozo te deu em escrever e pesquisar? Sobretudo as partes de que já não me lembrava. Redescobrir bandas que simplesmente já se tinham varrido da memória foi muito interessante. Os dias em que passei nos arquivos do Jornal de Leiria, com máscara e luvas por causa do pó, revelaram-se muito gratificantes. Claro que um dos objectivos deste livro será eternizar um período musical num determinado local do país, mas dirias que há também um sentimento de luta para o futuro orientado pela rebeldia de anos idos? Claro que sim. A frase escolhida para abrir o livro é precisamente: "Luta! Luta! Se não queres ser mais um filho da puta!" - de uma banda da Marinha Grande chamada Meninos Ruins. Continua a haver uma mentalidade muito fechada a tudo o que sai fora da norma. O Carlos Matos e a equipa que forma a Fade In, e que têm desenvolvido um trabalho notável ao longo de muitos anos, ainda este Verão foram censurados por causa da localização de um concerto que deveria ter acontecido numa igreja. De repente, e a reboque de politiquices que já vinham de trás, soaram os alarmes da moral e dos bons costumes numa clara falta de respeito para com a Fade In que sempre se pautou pelo equilíbrio entre o arrojo e o respeito perante todos. Aquilo foi uma filha da putice pegada e os velhos esqueletos saíram do armário com um cheiro a mofo que não se pode. Um pouco como a actualidade política internacional, diga-se. Cliché: como está a cena alternativa em Portugal? O que mais destacas pela positiva e pela negativa? Está bem e recomenda-se. Toca-se bem, a malta tem mais facilidade em viajar e em colocar o seu som noutras latitudes, dominam as tecnologias que lhes permite mais autonomia. Daí pode resultar também o ponto negativo ligado ao individualismo, ao alheamento de causas em detrimento do isolamento de cada um.

09 - ULTRAJE #19


DISCOGRAFIA

THE OCEAN

POR TIAGO NEVES INTRODUÇÃO DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA CORTESIA DE METAL BLADE

Com quase 20 anos de carreira, os The Ocean são hoje vistos como uma banda de culto que elevou ao mais alto nível a expressão post metal. Neste rápido olhar ao passado, revisitamos todos os oito álbuns da banda alemã com maior destaque para os conceitos líricos e para a capacidade que o grupo teve para se reinventar mesmo em momentos menos bons. "Precambrian" (2006) é para a Ultraje o pico de criatividade e perfeccionismo dos The Ocean.

FOGDIVER (2003) Os primeiros EPs e primeiro álbum do projecto de Robin Staps mostram uma banda bem diferente daquilo que se veio a tornar. “Fogdiver” é um disco instrumetal, bastante atmosférico, e dizer que se trata de um álbum de metal pode não corresponder à realidade da coisa. Apesar de difícil de rotular, é fácil de apreciar.

HELIOCENTRIC (2010) A partir daqui, a sonoridade dos The Ocean tanto se tornou mais límpida como se distanciou da densidade dos registos anteriores. Apesar de ter alguns temas fenomenais, como “Firmament” ou “The Origin of God”, o melodioso “Heliocentric” tem menos estaleca do que os restantes discos, chegando por vezes a tornar-se um pouco enfadonho.

FLUXION (2004) O reeditado “FluXion” pode também ser considerado como a impressão digital da banda, definindo a sua sonoridade até aos dias de hoje. Temas de excelência como “The Human Stain” e “Isla del Sol” ao lado de faixas mais curtas que ferozmente misturam thrash, sludge e hardcore fazem com que seja dificil aborrecer-se com este álbum.

ANTHROPOCENTRIC (2010) Apresentado como um irmão mais pesado de “Heliocentric”, a segunda parte do referido álbum é bem capaz de ter o peso e a melodia nas mesmas medidas, mas é muito mais dinâmico do que a primeira parte, estando recheado de excelentes temas que redimem a banda.

AEOLIAN (2005) Musculado e cheio de groove, “Aeolian” é o brutamontes nesta discografia. Os seus 50 e tal minutos estão preenchidos pela faceta mais pesada da banda, onde figura a participação de seis vocalistas convidados num registo rápido e violento com algumas excursões ao mid-tempo e uma abordagem in-your-face que dispensa melodias bonitas.

PELAGIAL (2013) A nível conceptual, a metáfora é a de descer às profundezas oceânicas e às da consciência. Também a nível musical, o grupo alemão inicia-se com temas mais ligeiros, avançando para uns mais arrastados e sombrios, mostrando a versatilidade da banda ao criar um álbum em que as bem distintas músicas que o compõem formam um único organismo.

PRECAMBRIAN (2007) A jóia da coroa da discografia dos The Ocean. Precambrian é um disco duplo, com um primeiro CD super carregado de agressividade e um segundo igualmente pesadão e com temas maravilhosamente bem compostos. Épico, abrasivo e intenso, com um cariz trágico e revoltado, “Precambrian” é o pico da criatividade e perfeccionismo dos The Ocean. 10 - ULTRAJE #19

PHANEROZOIC I: PALEOZOIC (2018) A sequela de “Precambrian” não se aproxima da potência musical do disco de 2006, nem ficará registado como um dos melhores álbuns da banda. No entanto, há senhores temas que certamente incluirão o repertório essencial da banda e um bom disco de The Ocean é sempre um excelente disco musical.


CENA METAL

nepal

METAL NA TERRA DE BUDA TEXTO DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA CORTESIA DAS BANDAS

D

as poucas vezes que se fala de um país como o Nepal, crê-se que as únicas coisas que, neste cantinho da Europa, sabemos sem grande dificuldade é que lá se ergue o Monte Evereste (o ponto mais alto do planeta com 8848m de altura) e que lá nasceu Siddhartha Gautama, comummente conhecido por Buda. O que não podemos pôr de parte é a possível existência de uma cena metal e é precisamente isso que, neste momento, interessa à Ultraje e a quem lê dedicadamente esta secção da revista. A resposta à pergunta que, na realidade, não foi feita é: sim, existe metal no Nepal. Como banda que actualmente representa melhor o seu país-natal, os Chepang tocam grindcore de uma forma tão entusiasmante que está a contagiar as várias cenas underground por todo o mundo. Fundada apenas em 2016 e já com o álbum “Dadhelo” na bagagem, a banda vive actualmente nos EUA. «Viver longe de casa é sempre difícil, mas fazemos o que tem de ser feito», conta o vocalista Bhotey Gore, assegurando ainda assim que «há muitas vantagens em viver num lugar como os EUA», porque «a quantidade de opções, não só para criar música mas para viver, são surreais». Porém, e por mais fincados que estejam em prosseguir com os seus sonhos, as adversidades são mais do que apenas residir a milhares de quilómetros de casa: «De vez em quando deparamo-nos com algum racismo, mas essa gente estúpida existe em todo o lado.» Chepang é mais do que o nome de uma banda, é também um grupo de indígenas nepaleses. Bhotey Gore explica: «A palavra Chepang em si é, na verdade, também um calão depreciativo por causa de como ‘retrógradas’ nós, como sociedade, consideramos essas tribos indígenas. Decidimos manter esse nome para alterar a opinião negativa das pessoas e substituí-la por poder e força. Para nós, é a representação de todos os grupos indígenas que são oprimidos, mas resilientes o suficiente para se adaptarem e sobreviverem nesta sociedade em constante mudança.» Quem também se direcciona à crítica social é Amokkshan, banda da capital Kathmandu que pratica um metalcore musculado que tanto busca influência no death e no thrash metal como no groove e no rock. Contudo, o conceito lírico nem sempre foi esse, como nos dizem o vocalista Aditya Chaudhary e o baterista Arjun Shrestha: «Quando começámos, o foco principal para as nossas letras não era a sociedade; éramos apenas cinco tipos normais a tentar compor metal. No entanto, acabámos por escrever músicas que criticavam a sociedade porque isto é o Nepal! As pessoas aqui são discriminadas pela sua aparência, etnia e estrato. As pessoas não conseguem ir atrás dos seus sonhos se isso for contra as normas sociais de se ser médico, engenheiro e advogado. Há liberdade democrática no país, mas não há liberdade social. A nossa música “Society the Rapist”, do nosso álbum de estreia [“Articulate”, 2017], é especialmente inspirada nisso tudo. Outras músicas, como “Faithless”, “Faces” e “Forsaken”, também condenam a sociedade. Diríamos que a crítica social é sempre pensada ao escrever letras.» Como se já não bastasse serem oriundos de um país incomum ao metal, os Chepang tornam também o grindcore em algo diferente do habitual com, por exemplo, o uso de dois bateristas. «A nossa personalidade é o que se reflecte na nossa música. Procuramos sempre criar algo novo e interessante, e explorar o máximo que conseguirmos. Adicionámos

um saxofone no nosso último set. Também já tocámos com três guitarristas. Estamos sempre a experimentar diferentes elementos para criar um som mais dinâmico. Adicionar outro baterista foi um dos primeiros passos que demos neste processo. Se houver acesso aos recursos adequados, por que não começar a pensar fora da caixa? Sendo uma banda DIY [do-it-yourself], não temos a pressão de continuar a compor músicas que são feitas com fórmulas e estruturas usadas em demasia. Temos total liberdade para nos aventurarmos e certificamo-nos de que estamos no caminho certo.» Do outro lado da barricada deste artigo, os Amokkshan são também uma banda DIY - aliás, para os dois membros entrevistados, «qualquer banda do Nepal que tenta fazer metal tem que abraçar a atitude DIY», uma postura que «surge por necessidade» devido às «poucas perspectivas e incentivos financeiros muito baixos». Afirmam ainda que «bandas que abraçam essa atitude sobrevivem e continuam a fazer o que amam», como eles próprios se sustentaram ao promover “Articulate” pelos próprios meios. A típica pergunta seria articulada de imediato: como é que o metal chega ao Nepal? «Naquela época dependíamos muito das cassetes e dos CDs que circulavam pela malta, mas depois, quando a Internet rebentou, ficou tudo muito mais fácil - Soulseek é para a vida», relembra o vocalista dos Chepang. As recordações dos músicos de Amokkshan, que ao contrário dos compatriotas não são emigrantes, não diferem em grande proporção, havendo também uma ligação à existência da World Wide Web: «Muita coisa mudou desde os velhos tempos da cena metal no Nepal. Nos primeiros tempos, as pessoas seguiam as bandas indo a concertos e trocando música com amigos. Houve um empolgamento para se encontrar novas bandas e ir a concertos. As pessoas estavam mais viradas para a música, independentemente dos subgéneros. Os espectáculos eram promovidos através de panfletos e de boca em boca, mas hoje em dia, com o advento da Internet e das redes sociais, os concertos atingem muito mais pessoas. Tem sido mais fácil a esse respeito, mas a emoção e a aventura para encontrar uma nova banda, como antes, não existem.» Com governantes afectos ao Partido Comunista e numa sociedade maioritariamente ligada ao hinduísmo enquanto religião, descobrimos anteriormente neste artigo que os problemas que podem existir em relação aos movimentos alternativos não passam pela política ou pela religião vigentes, mas sim devido às discrepâncias de estatuto social. «Felizmente, aqui no Nepal, não há pressão política ou religiosa contra as pessoas que gostam e tocam metal», clarificam Aditya e Arjun, «mas, socialmente, os metaleiros são estereotipados com base na sua aparência - são vistos como drogados e bandidos». Isso, segundo explanam à Ultraje, pode ser testemunhado em concertos de metal: «A polícia costuma aparecer à procura de qualquer substância ilícita. No entanto, na maioria dos casos, não encontram nada. A polícia nepalesa também não entende o mosh e vê isso como se uma cena de pancadaria tivesse começado. Por causa disso, o maior evento de metal, o Silence Festival,

«A POLÍCIA PEGAVA NAS PESSOAS COM CABELO COMPRIDO E RAPAVA-LHES A CABEÇA.» Bhotey Gore (Chepang) 11 - ULTRAJE #19

Amokkshan

Chepang

Chepang

termina sempre com a interrupção da polícia e os cabeças-de-cartaz têm de cortar o alinhamento.» A viver actualmente nos EUA, o porta-voz dos Chepang corrobora, em modo de encerramento, aquilo que os conterrâneos já tinham apontado enquanto maior problema: «Passámos por aquela fase em que ter tatuagens, cabelo comprido e ouvir esse tipo de música estava associado ao uso de drogas. A polícia pegava nas pessoas com cabelo comprido e rapava-lhes a cabeça. Mas a mudança está a chegar e esses estereótipos estão lentamente a desaparecer.»


DARK/PROGRESSIVE METAL

TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DEBEMUR MORTI


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efinando a sua sonoridade de álbum para álbum – do black/doom metal, passando por experiências mais góticas e terminando numa mescla dos dois primeiros estilos com rock progressivo –, os In The Woods… (ITW) não representam nem fornecem um único género musical em concreto. Prova disso é o novo longa-duração “Cease the Day” que, para Anders Kobro (bateria) e James Fogarty (voz/guitarras), «é provavelmente mais doom do que qualquer álbum anterior, mas também é o mais extremo / black metal desde o álbum de estreia [“Heart Of The Ages”, 1995]». «Adoramos tocar essas coisas ao vivo, e isso causa uma melhor reacção do que as cenas suaves. Algumas músicas são feitas para ouvir com auscultadores, mas “Cease the Day” é feito para a experiência ao vivo.» Ao nível musical, que se começou a delinear em 1991, os porta-vozes da banda explicam que «ITW é efectivamente uma colecção de estilos que nós, enquanto fãs de metal, gostamos de tocar e de criar». «Houve um impulso para romper com a sonoridade extrema no segundo e terceiro álbum [“Omnio” de 1997 e “Strange In Stereo” de 1999], mas todos nós, colectivamente, conseguimos explorar mais diversidade individualmente com diferentes projectos. Agora concentramo-nos em incorporar os estilos que acenderam o fogo da banda. Ainda incorporamos muitos elementos progressivos na nossa música, mas, mais uma vez, encontrámos a nossa zona de conforto no metal extremo.» De facto, esse conforto encontrado em práticas sonoras mais extremadas é referido no comunicado de imprensa enviado pela Debemur Morti Productions, e os dois músicos prosseguem o seu discurso corroborando a estratégia de apresentação da editora, mas, ao mesmo tempo, fazendo movimentações ao passado. «Juntamente

com Opeth, Katatonia e Anathema, os ITW estavam na vanguarda das bandas de metal extremo, quebrando os limites do prog nos meados dos anos 90. Era como se houvesse uma corrida para chegar o mais longe possível em relação às raízes. Enquanto Opeth e Katatonia retinham as suas raízes, os Anathema, e até certo ponto ITW, provavelmente ficaram muito longe do metal. Já não sentimos que temos de escapar às nossas raízes do metal extremo, e mais uma vez abraçamos esse lado da nossa sonoridade.» Algo que os ITW desenvolveram muito bem, e que tão bem é oferecido em “Cease the Day”, passa pela forma como a banda conta uma história sem ser preciso recorrer integralmente às letras, pois a narrativa nesta banda passa também por riffs melódicos ou segmentos agressivos que contrastam com uma parte anterior possivelmente mais calma e vice-versa. Isto é, a estrutura de uma canção também conta uma história. «As letras dos dois últimos álbuns foram escritas depois de a música ser composta», revelam à Ultraje. «Enquanto a música for expressiva, dinâmica e variada, então encaixa-se muito bem com letras mais emotivas e estruturadas. Nos anos 90, o elemento lírico de ITW começou a tornar-se dominante demais, e parecia que isso ditava um pouco demais a música - as letras do James são menos ambíguas e mais focadas do que as do Jan. [O James] é basicamente um compositor. O Jan era mais um ‘poeta’. Agora há um estilo mais ‘tradicional’ do que antes; há uma estrutura mais refinada e definida. Isso não faz as coisas serem melhores - é apenas diferente a esse respeito.» Com álbuns imensamente respeitados, lançados na década de 1990, os ITW cessaram actividades em 2000 para regressaram às lides apenas em 2014. Fortemente aplaudidos pela atitude rebelde que tiveram ao modificar a música extrema há cerca de 20 anos, e tendo

em conta a evolução do metal, quisemos perceber se olham para a cena actual como um avanço ou retrocesso. «Os ITW estiveram certamente inactivos durante 14 anos, mas o Anders (membro-fundador da banda) tocou com os Carpathian Forest durante todo esse tempo, o James tem gravado com os seus próprios projectos desde meados dos anos 90 e o Bernt toca metal desde os anos 80. Estamos totalmente conscientes das mudanças que têm ocorrido.» Factos biográficos esclarecidos, a verdadeira perspectiva dos dois músicos vem a seguir. «A cena é: o black metal foi realmente a última cena 'grande' a afectar o metal, e até estava praticamente acabado (artisticamente) desde o final dos anos 90. Principalmente, sentimos que a qualidade da produção musical aumentou, mas opõe-se directamente à originalidade da música; tudo hoje em dia é totalmente derivado. É a ‘Nuclear B(l)asterdização’ do metal.» Considerando que «obviamente as novas bandas de metal extremo descobrirão os seus próprios caminhos individuais, ignorando as tendências e concentrando-se em ser criativos», acreditam, por outro lado, que «infelizmente já tudo foi feito antes». «Muitas pessoas perseguem a fama e tentam ser outra pessoa», rematam. Vistos, hoje em dia, como uma banda de culto, especialmente devido aos tais 14 anos de inactividade e por causa da rica discografia, é comum ouvirmos bandas actuais altamente influenciadas pelos ITW. Como reagem homens normais a tais elogios e apreços? «É bom ouvir isso e ser-se apreciado», confessam, «mas enquanto artista não deves prestar muita atenção a essas coisas». «Apenas vamos em frente, sendo criativos e melhorando. Esperamos que "Cease the Day" acabe por ser visto, nos próximos anos, como o álbum mais forte desde a estreia. É o que sentimos sobre isso e estamos ansiosos por tocar as músicas em 2019.»

O PODER E A NOÇÃO DE MELANCOLIA NA MÚSICA DOS IN THE WOODS… «A melancolia é de longe a emoção mais poderosa que atrai todos nós para a música. Não é a miséria suicida de algumas das novas bandas de black metal dos últimos anos – por exemplo, Shining [da Suécia] -, é apenas uma visão cínica do mundo ao nosso redor. A solidão pode ser boa, mas cortar os pulsos em palco é para o mundo do black metal com corpse-paint, não para ITW. Preferimos filosofar o nosso caminho pelos fossos do desespero e encontrar a luz ao invés de deixar que a escuridão nos engula.»

MASH-UP MUSICAL ENTRE BLACK METAL E ROCK PROGRESSIVO DE KOBRO E FOGARTY «Um grande conceito seria ter os Cradle of Filth cruzados com os Brainticket. Não melhoraria a música de nenhuma das bandas, mas seria hilariante ouvir.»

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BLACK METAL de Dødsferd não alterou muito a sua visão de jogo. A base ideológica da banda e, concretamente, de “Diseased Remnants of a Dying World” representam a capacidade de cometer actos desprezíveis - contudo, Wrath alerta: «Não estou doente, nem remanescente deste mundo morto», o que é certo é que, segundo o próprio, «este mundo deveria sufocar e afogar-se no sofrimento eterno». «Os meus álbuns e as minhas letras são mais como um despertar dos mais capazes» - são, por fim, «uma arma perigosa apontada às ‘ovelhas’ e a quem precisa de reunir-se em massa para sobreviver à custa dos outros».

ESTÁ TUDO FEITO?

BANQUETE PARA OS VERMES «A minha maior inspiração é a estupidez humana e o fracasso da humanidade.»

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TEXTO: DIOGO FERREIRA | FOTOGRAFIA: CORTESIA TRANSCENDING OBSCURITY

undados em 2001 por Nikos Spanakis, mais conhecido no meio como Wrath, os gregos Dødsferd chegam ao décimo álbum “Diseased Remnants of a Dying World” com uma discografia envolta em diversidade dentro de um só género – ao longo de dez longa-durações, Wrath, e quem o acompanhou, já enveredou pelo black metal cru, pelo mais apunkalhado e recentemente por incursões depressivas, como é o caso de “Wastes Of Life” (2015) e da novidade que nos fez procurar pelo grego para uma conversa sem filtros, sem pudores e sem névoas figurativas que dificultem a compreensão da sua opinião sobre a música e o mundo. «Dødsferd é o diário de toda a minha vida. A minha maior inspiração é a estupidez humana e o fracasso da humanidade. Com os dois últimos álbuns quis expressar novamente o meu ódio e nojo através de uma atmosfera mais depressiva.» Para o compositor é «como um funeral para o fim da humanidade» - «este mundo está morto para mim», afirma sem medo, pois «não há futuro e podemos ver todos os dias como é que esses parasitas corrompidos evoluíram». «Fico entediado quando ouço as teorias de adultos / crianças mimados sobre a vida e o black metal. Nunca desisto e luto sempre para ser o único a ficar de pé sem ser atingido pela queda do tempo! Nunca segui qualquer tipo de tendência, nem nunca vendi as minhas crenças para fazer parte das massas e ser apreciado por elas. Estes dois trabalhos são genuínos álbuns de Dødsferd - não pertencem a lugar nenhum, nem mesmo à tendência do DSBM. Os meus seguidores, os meus verdadeiros seguidores, sabem disso e respeitam.» Voltando a 2015, muito foi dito por Wrath sobre o sofrimento que foi trazer “Wastes Of Life” à vida – a ironia. Será que com “Diseased Remnants of a Dying World” foi igual? «Não há outra maneira quando faço álbuns tão emocionais e pessoais. Não faço isto por passatempo. Todos os meus álbuns e as minhas músicas são parte da minha alma. Crio e falo através da minha música. Não entro na sala de ensaio,

para me encontrar com as outras pessoas, e digo ‘olá, vamos compor um pouco de música para um novo álbum’, ou algo assim.» Para o grego trata-se de um procedimento que, quando está a trabalhar nele, pretende «exteriorizar com clareza os sentimentos por este mundo fodido e pelos germes que vivem nele». «Isso é algo que faço sozinho. Não transfiro pensamentos religiosos e escritos de livros, [mas] falo sobre poderes superiores. Para mim não existem poderes mais elevados do que o próprio humano, aquele que procurou profundamente dentro dele e encontrou as respostas sobre como alcançar a theosis [N.R.: união com deus] sem implorar pelo apoio de outros poderes. Ou pelo menos aquele que tem a coragem de não ter medo de ficar sozinho contra todos e nunca desistir da vontade própria de criar e evoluir. Não faço parte de nenhuma cena.» Composto por cinco longas faixas que perfazem pouco mais de 50 minutos de duração, o álbum dá destaque à repetição de vários riffs, sem esquecer bons leads aqui e acolá. «Essas repetições têm um significado para mim. Importo-me apenas se as usei correctamente, e a resposta para essa pergunta é, mais uma vez, sim.» Segundo o nosso entrevistado, «todos os riffs, e quantas vezes serão usados na música, têm uma razão», especialmente porque a música que compõe serve para «acalmar os demónios na minha cabeça». Wrath é, como se verá a seguir, um homem de pensamento recheado de confiança: «Se quiser fazer uma música de 20 minutos com apenas um riff, assim farei porque terei uma razão. Não ganho dinheiro com a minha banda. Nunca ganhei. Pelo contrário! Mas todas as vezes que ouço a minha música, sei que a fiz bem e estou muito orgulhoso disso. Felizmente, ou infelizmente, existem muitas bandas por aí com filosofia diferente e mais próximas das preferências das massas de modo a que as sigam e ouçam. Não estou interessado nisso. Permaneço puro e fiel ao meu juramento negro.» Conceptualmente, e prova disso são as citações anteriores, o mentor 14 - ULTRAJE #19

Black metal cru, apunkalhado e depressivo - é isso que encontramos ao longo dos dez álbuns de Dødsferd, mas haverá algo ainda por fazer? Algum elemento à solta que ainda não foi adicionado? Recorde-se que “Wastes Of Life” (2015) até incluiu guitarra acústica e violino, já a novidade em “Diseased Remnants of a Dying World” é mais ortodoxa. «Os álbuns estão totalmente concluídos», assenta Wrath. «Fiz o que queria fazer. Todos os meus pensamentos sobre a sua criação foram realizados da melhor maneira. Pensando agora, não há nada que pudesse ter incluído que não tenha feito.»

É O RESTANTE BLACK METAL UMA INFLUÊNCIA? Reconhecido pelo desapego às tendências, a mente de Dødsferd não nega «o respeito e o apoio» que deposita em muitas bandas que não aponta, «mas a parte da criação é completamente diferente». «Não escuto essas bandas e digo que quero gravar um álbum como aquele ou fazer o que é mais audível actualmente para que possa entrar nas preferências. É mais provável que faça o oposto. Não sigo uma receita específica, nunca o fiz.»

MISANTROPIA OU CAOS? Misantropia: Tédio ao género humano, aversão à convivência social, melancolia, tristeza. Caos: Confusão dos elementos antes da criação do universo, desordem, perturbação. Tendo em conta a direcção depressiva de “Diseased Remnants of a Dying World” em contraste com a fúria de, por exemplo, “The Parasitic Survival of the Human Race” (2015), depreendemos que Wrath se equilibre numa corda-bamba entre misantropia e caos total. Ainda que pretendamos que o músico grego tombe para um dos lados, também demos a hipótese de escolher que esses dois estados se podem vir a encontrar de alguma forma e em algum momento - assim foi: «À minha maneira estão relacionados.» Todavia, é sobre a desordem que recai a sua linha de pensamento para se chegar a um fim: «Através do caos, os capazes encontrarão o caminho para sobreviver e criar. Todos os outros desaparecerão e serão esquecidos.»


MELODIC DEATH METAL

VANGUARDA DO MELODEATH METAL PORTUGUÊS «O artista deve ser esteticamente hedonista por natureza, (…) não convém criar compromissos demasiado vincados com opções estéticas.»

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undados em 2010 - já lá vão oito anos -, podemos dizer que, finalmente, os portuenses Moonshade lançaram o primeiro álbum depois de EPs e singles - intitula-se “Sun Dethroned” e por esta altura já está a ser distribuído. O vocalista Ricardo Pereira sonhava com isso diariamente desde 2007 e, «religiosamente, todos os sábados apanhava uma seca de quase uma hora no autocarro para poder tocar covers de Misfits e Censurados com outros igualmente putos na velha Fábrica de Som ao lado do cemitério do Prado do Repouso». Uma década mais tarde é vocalista de uma banda de melodeath metal e afirma que «uma pessoa olha para trás e já nem se reconhece», tanto que as influências de punk nem se notam naquilo que escreve nem na maneira como canta, «estando lá apenas na atitude e no espírito». Por seu lado, o guitarrista Pedro Quelhas alimenta esta concretização desde 2004 e, neste momento, “Sun Dethroned” equivale a «um sentimento de realização enorme». Seguidamente, e questionados se esta espera se deveu a paciência ou busca pelo perfeccionismo, o vocalista conta que «o álbum está composto e pré-produzido desde inícios de 2017, mas infelizmente - ou felizmente - tentamos fazer tudo pelos nossos próprios meios», contribuindo para tal situação as «verbas reduzidas para investir num trabalho destes» e o «trabalho que se desenvolveu com a editora»; assim, para Ricardo, «foi mais inteligente preparar a promoção com pés e cabeça». Já o guitarrista «diria que foi uma mistura entre perfeccionismo e uma quantidade absurdamente cómica de azares - a Lei de Murphy em todo o seu esplendor». «Seja como for, podíamos ter feito o que muitos fazem e demorar um par de meses a amanhar algo mal produzido, mal tocado e com pouco ou nada a acrescentar, só mesmo para dizer que lançamos», comenta Quelhas, frisando depois: «A nossa única regra quando criamos é dedicação; portanto, opções estéticas à parte, não há riffs mal tocados nem letras com inglês de quarto ano. Por isso é que demorou três anos a ser feito. Temos as nossas limitações enquanto músicos, suplantá-las também leva tempo.» Quem por esta altura já ouviu “Sun Dethroned” saberá que se trata de death metal melódico épico e bélico q.b. equilibrado com uma dose bem audível de melancolia. Mais: a Ultraje coloca mesmo este álbum na primeira liga do melodeath metal mundial. «A nossa música é

TEXTO: DIOGO FERREIRA | FOTOGRAFIA: CORTESIA ART GATES

essencialmente um misto de todos nós e daquilo que nos sai na altura», refere o guitarrista. «Este género de som é, de momento, o que nos sai naturalmente, sendo que mais tarde estará sujeito a mudanças mediante o que estivermos a ouvir na altura. Fazemos música para os nossos ouvidos e para nosso prazer pessoal, e esse som cresce e evolui connosco. Como a diferença de idades entre membros de banda chega a duas décadas, acabamos por trabalhar com influências muito diferentes, sendo que cada indivíduo também demonstra gostos bastante eclécticos. Isso reflecte-se na música que fazemos.» Na sua vez, o frontman, ao tomar a palavra, assegura que «não se está propriamente a tentar fincar uma posição estética ou a tentar-se criar determinadas percepções associadas à banda», sendo que «trabalhar este tipo de sonoridade é algo que vai acontecer enquanto der pica», mas se algo mudar a banda irá, certamente, «explorar outras vertentes sonoras». Para Pereira, «o artista deve ser esteticamente hedonista por natureza, e para isso acontecer não convém criar compromissos demasiado vincados com opções estéticas»; por isso o que a banda nortenha lançar no futuro «pode ser algo dentro da sonoridade, pode ser algo completamente fora e pode até ser um pouco de ambos». “Sun Dethroned” pode até ser o álbum debutante, mas isso não obrigou o quinteto a procurar uma editora próxima e dentro das nossas fronteiras, decidindo-se assim pela espanhola Art Gates Records que tem «expressão no mercado internacional», como nos diz Ricardo Pereira. É crível se dissermos que Portugal está a passar uma boa fase no que toca a lançamentos, festivais e ao surgimento de várias editoras que têm feito de tudo para espalhar o que se faz no nosso país, mas Pereira faz notar que «as editoras portuguesas ligadas ao metal trabalham todas quase exclusivamente em território nacional, e nada contra isso», desejando até «toda a força do mundo para todos eles, mas quer-se mais para os Moonshade». «Não quer dizer que queira pôr Portugal de parte; aliás, se pudesse escolher, Portugal seria o primeiro sítio onde gostaria que os Moonshade fizessem sucesso, por ser a minha casa. No entanto, uma das melhores vantagens de ter uma identidade cultural é poder partilhá-la com outras culturas diferentes. Hoje em dia não fica por uma fortuna ir tocar a Madrid, a Paris ou a Amesterdão, e mesmo sair da Europa deixou de ser uma fantasia mirabolante para bandas 15 - ULTRAJE #19

portuguesas dentro do metal. Nos últimos 10 anos multiplicaram-se as bandas que estão a dar cartas lá fora, como Analepsy, Gaerea, Voynich Code, Sinistro, Dark Oath, Ominous Circle. Estamos em 2018, todas as bandas são, ou deviam ser, bandas do mundo.» Pedro Quelhas encerra ao corroborar as palavras do colega: «Acho honestamente que a promoção que precisamos não está representada cá. Desde o início que nunca nos focamos apenas no nosso mercado, tentamos sempre, e mais que tudo, chegar lá fora. Como tal, fazia todo o sentido trabalhar com uma editora que fosse abrangente nesse departamento. Não quer dizer necessariamente que vamos conseguir furar o mercado internacional, mas apenas que escolhemos uma editora que nos dá melhores ferramentas para tal acontecer.»

AMON AMARTH OU AMORPHIS? É nítido que as influências para a concepção de “Sun Dethroned” passam por uma mistura entre Amon Amarth e Amorphis, por isso pedimos a Ricardo Pereira (voz) e a Pedro Quelhas (guitarra) que deixassem a sua opinião perante tal observação lançada pela Ultraje. Ricardo Pereira: São duas bandas que admiro consideravelmente, sendo difícil escolher entre ambas. Convém salientar que há uma diferença muito grande entre aquilo que nos inspira enquanto fãs e o que nos inspira enquanto músicos. Comparando discografias é nítido que ambas as bandas possuem filosofias muito diferentes. Os Amon Amarth são consideravelmente menos experimentais, quer estejamos a falar em termos conceptuais ou mesmo a nível de composição musical, mas as músicas deles são absolutamente épicas e nunca me farto do som deles - é uma banda que me diz imenso. Já os Amorphis, apesar de os últimos lançamentos serem mais homogéneos em relação ao habitual, são uma banda que foi mudando imenso desde o “The Karelian Ishtmus” até ao “Queen of Time”, passando por outros lançamentos com uma identidade muito própria e quase diametralmente oposta como, por exemplo, o “Tales from the Thousand Lakes” e o “Skyforger”. Artisticamente, identifico-me mais com os Amorphis, sou uma pessoa que se aborrece facilmente e não gosto da ideia de passar várias décadas dentro da mesma paisagem sonora. No entanto, se falar exclusivamente enquanto fã, a minha preferência vai para Amon Amarth. Pedro Quelhas: Sou suspeito, visto que o álbum que me fez ouvir melodeath é precisamente “Tales from the Thousand Lakes”, por isso podemos dizer que Amorphis me influenciou muito mais enquanto músico em relação a Amon Amarth. No entanto gosto bastante de Amon Amarth e já colhi muito do estilo deles também.


ATMOSPHERIC SLUDGE METAL

MAR DE LUZ

«Se não estiveres no sítio certo na altura certa, estás acabado!»

U

m ano após o EP “Alma | Baltica”, os franceses Dirge despedem-se de 2018 com "Lost Empyrean", o sétimo longa-duração do colectivo francês de sludge metal atmosférico. «O EP “Alma | Baltica” é um projecto instrumental e ambiente para o qual já vínhamos a criar alguma antecipação mesmo antes de o editar.» As palavras são de Stéphane L., vocalista, guitarrista e responsável pelas samples, que antes de discutir a nova proposta explica à Ultraje as razões que os levaram a lançar um EP durante o período em que “Lost Empyrean” encontrava-se já a ser desenvolvido. «Junta peças de diferentes períodos em que [a nossa música] foi reformulada e reconstruída de uma forma homogénea e coerente. O trabalho de “Lost Empyrean” já ia avançado quando o EP saiu e o objectivo principal foi mostrar um aspecto diferente da música dos Dirge.» O músico explica que o facto de terem removido a sonoridade massiva das guitarras, dos vocais e da própria estrutura musical que vinham a apresentar desde 1994, permitiu-lhes concentrarem-se nas máquinas, nos sintetizadores, nos loops e nas samples, «de forma a enfatizar a abstracção, as texturas e as atmosferas». «Foi um projecto distinto que deve ser separado dos nossos álbuns anteriores, ainda que tenha o selo de Dirge.» O novo “Lost Empyrean” reúne uma colecção de sete temas atmosféricos, num confronto directo entre fúria e melodia, fazendo deste disco um marco muito importante na já longa carreira dos franceses. «Aprendemos que não devemos esperar muitas coisas de um álbum. De um ponto de vista pessoal, “Lost Empyrean” é um passo em frente no nosso percurso artístico. Fomos bem sucedidos ao lançar

TEXTO: JOEL COSTA | FOTOGRAFIA: STÉPHANE BURLOT

um trabalho que ficou tão próximo quanto nos foi possível daquilo que tínhamos em mente e estamos bastante orgulhosos do resultado final. Tudo o resto, como a forma como será recebido, o sucesso, as reviews e as vendas, está para além do nosso controlo. Se não estiveres no sítio certo na altura certa, estás acabado! [risos] Os Nirvana eram muito melhores do que os Mudhoney? Eram os Oasis mais fixes que os The La’s? Talvez não, mas estavam no sítio certo e à hora certa. São estas as regras do jogo e temos que as aceitar. De qualquer das formas, este disco teve um impacto óbvio naquilo que é suposto serem os Dirge e este é o cerne da questão.» Musicalmente, “Lost Empyrean” está à altura do universo lírico dos Dirge, conseguindo transcender os elementos terrestres e conduzindo-nos através de uma aventura por caminhos desconhecidos: «As forças telúricas, assim como a expressão poética, são pilares inseparáveis nos Dirge», diz-nos Stéphane. «Estes dois componentes primordiais estão fortemente ligados como as raízes entrelaçadas de uma única árvore. Não estamos interessados em criar apenas uma sonoridade monolítica como fazem a maioria das bandas de drone e doom, nem tão pouco estamos interessados em descrever espaços amplos ou montanhas massivas de uma forma passiva. Para além disso, não nos queremos afogar num lirismo romântico e frágil. Há um balanço subtil entre a escuridão e a luz, o nadir e o zénite, gritos e palavras, corpo e alma. O centro de gravidade dos Dirge reside neste equilíbrio entre o sónico e o coração.» Quando questionado se os fãs demonstram interesse em explorar as mensagens complexas que habitam as letras de bandas como os Dirge, o vocalista e guitarrista diz não 16 - ULTRAJE #19

saber. «Não tenho a certeza mas não é um problema para mim. Sabemos o que os Dirge têm que ser e sabemos quais são os elementos essenciais necessários para a sua construção. Contudo, o resultado final pertence a todos, seja qual for a sua perspectiva. Se as pessoas apreciam e entendem o nosso universo à sua própria maneira, sem que mergulhem nas letras e na componente visual, está óptimo para nós. A música não é um caminho único e obrigatório. Longe disso.» Cada um de nós sente a música de uma forma diferente e muitas vezes recorremos a mais do que um sentido para a experiênciar. Os sons que ouvimos despertam as nossas memórias mais profundas e invocam experiências do nosso passado... e do nosso futuro. «Gosto desta ideia de existirem várias linhas temporais e temos sempre esta impressão nostálgica tanto na nossa música como nas letras. A forma como as pessoas compreendem os Dirge pode variar não só de pessoa para pessoa mas também consoante o período de tempo. Talvez a melhor forma de chegar ao coração dos nossos trabalhos e capturar totalmente todos os seus detalhes é sentarem-se tranquilamente e focarem-se apenas naquilo que ouvem. Ou então ouvir a nossa música muito alto para sentirem todas as vibrações e oscilações. É uma sonoridade que pode exigir algum tempo e atenção. Pessoalmente necessito destes dois factores quando quero imergir totalmente em bandas especiais, como os Dead Can Dance, Lycia ou Current 93.» Para o futuro, a banda diz não ter nada em mente no que aos planos diz respeito. «Não sabemos. Nunca tivemos um plano durante a nossa carreira e as coisas são sempre muito imprevisíveis. Talvez daqui a três meses nos tenhamos matado uns aos outros. [risos]»


BLACKENED HEAVY ROCK

CÍRCULO DO MAL TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DARK ESSENCE

A

«NESTE MUNDO MODERNO E SUPERFICIAL, “INTROVERTIDO” TORNOU-SE UMA PALAVRA NEGATIVA.»

o terceiro disco, os noruegueses Slegest solidificam a sonoridade que vinham a desenvolver desde o EP homónimo de 2012, com a banda do vocalista e guitarrista Stig Ese a surpreender uma vez mais com a sua mistura peculiar de heavy rock e black metal. «Sólido como uma pedra», diz-nos o músico a respeito de “Introvert”, disco cuja edição dá-se pela norueguesa Dark Essence Records. «Não dispenso muito tempo a pensar se estou ou não a criar algo fresco pois procuro sempre seguir a honestidade das minhas intenções, que é continuar a criar a música que me soa bem e que eu aprovo. Cresci a ouvir Judas Priest, Black Sabbath e WASP. Posteriormente, os meus gostos ficaram mais brutais com Sepultura, Death e outras bandas do género. Na década de 90 descobri o black metal e o lado mais atmosférico deste estilo fascinou-me. Diria que os Slegest apresentam traços de todas estas bandas mas não é modelado de forma a caber numa caixa qualquer.» Com uma aura musical muito próxima dos anos 80, “Introvert” fala-nos de experiências pessoais saídas directamente do pensamento e do estilo de vida característico de alguém que é introvertido por natureza. Alimentando-se de humores, sentimentos, nostalgia e – claro está – do heavy rock, este novo trabalho dos noruegueses destaca-se também pela sua abordagem directa. «Pela primeira vez não fui o

único a contribuir criativamente», explica Ese, «o que já é algo diferente quando comparado com os álbuns anteriores. Gravámos algumas coisas no meu estúdio caseiro e a bateria e a guitarra no estúdio Conclave, em Bergen. Na mistura esteve Herbrand Larsen, que deixou a sua marca neste novo material.» «Escolhemos o título “Introvert” por uma razão. A introversão é uma característica de alguém que presta muita atenção a experiências internas. Neste mundo moderno e superficial, “introvertido” tornou-se uma palavra negativa, associada a alguém que é tímido ou disfuncional nas suas configurações sociais. Essa definição está errada pois alguém que seja introvertido pode dar-se muito bem em contextos sociais. Isso não quer dizer que a pessoa vá à festa, se é que me entendes. [risos] Queremos honrar e destacar este traço de personalidade que é, pelo menos para nós, uma fonte para criar música e expressar algo de valor.» Sem procurar atalhar, o músico prorroga a sua explicação: «A música tem esta habilidade mágica de transformar pensamentos e emoções em som. Algum black metal, por exemplo, entra na minha mente e cria toda uma experiência que gira à minha volta e à volta da música, pelo que talvez possamos dizer que o black metal é um género musical introvertido ou que pelo menos inspira a introversão.» Enquanto que para alguns músicos o facto de criarem temas tão reveladores e honestos é um desafio, o líder dos Slegest 17 - ULTRAJE #19

encara a honestidade como crucial «para conseguir criar algo bom». «Slegest é como um outlet de criatividade centrada no mundo do pensamento», revela, «e sinto que a música ganha força e poder ao relacionar-se com experiências da vida real». «Julgo ser isto que acontece com muitas outras formas de arte. Para escreveres um bom livro tens que ter passado por algumas experiências relacionadas com as coisas sobre as quais escreves, para que as tuas palavras possam ganhar vida.» “Introvert” é tido pelo músico como «o melhor disco que já fizemos até à data». Sem medo de não conseguir superar o trabalho desenvolvido com este terceiro longa-duração, Ese assume até que mal pode esperar para «começar a trabalhar num novo disco». «A música não é uma competição», explica, «e o objectivo é criar algo verdadeiro no qual eu acredite. Esta abordagem tem-me dado resultados, pelo que acredito que continue a dar no futuro.» Entre Outubro e Dezembro de 2018, os Slegest fizeram parte do alinhamento de três tours diferentes, onde acompanharam bandas como Taake, Bölzer, One Tail One Head, Vreid, Kalmah e Einherjer: «Andar em tour faz com que te aproximes de outros artistas, não só musicalmente mas também de uma forma mais pessoal», comenta. «Já fizemos digressões com bandas que têm mais experiência do que nós, como é o caso dos Taake. Foi um privilégio ter tido essa oportunidade e de aprender com eles.»


METALCORE

RUMO A VAGOS: JINJER

F

oi em meados de 2016 que os ucranianos Jinjer ascenderam decisivamente com o terceiro álbum “King of Everything” através de um lançamento suportado pela Napalm Records, umas das editoras metal mais versáteis do planeta. Aos poucos, o grupo começou a ser partilhado nas redes sociais, seguindo-se pedidos constantes para que alguém os trouxesse a Portugal – assim foi: em Outubro de 2016, o quarteto encabeçado pela vocalista Tatiana Shmailyuk estreava-se em Portugal para difundir a sua combinação de groove, metalcore, hardcore e tecnicismo. Em 2019, a banda do leste europeu regressa ao nosso país para fazer parte do cartaz do Vagos Metal Fest (Agosto) ao lado de bandas como Stratovarius, Napalm Death ou Candlemass. «Estamos ansiosos», diz-nos o baixista Eugene Abdukhanov. «Infelizmente tocámos em Portugal apenas uma vez, mas definitivamente apaixonámo-nos pelo vosso país e sabemos que há fãs de Jinjer por aí. Preparem-se para um concerto do caraças!» Fechado 2018, as lanternas apontam-se para o próximo ano com o EP “Micro” que chegará às estantes em Janeiro. Ainda que os Jinjer tivessem planeado fazer um álbum no Outono passado, o sucesso que obtiveram nos Estados Unidos, numa tour ao lado dos Cradle Of Filth, mudou-lhes os planos conforme Eugene relembra: «O nosso agente nos EUA convenceu-nos a voltar para a América para nos estabelecermos lá completamente como banda. Por outro lado, da nossa perspectiva, era impossível fazer uma digressão sem novas músicas, porque o nosso último lançamento é de 2016 e cansamo-nos bastante do material antigo. Então, a decisão foi fazer um lançamento intermédio para as coisas funcionarem bem.» Contudo, sabe-se que já estão a trabalhar num longa-duração, o que nos é confirmado pelo baixista ao agendar Fevereiro para se dar início à labuta. Porém, ninguém sabe como será o sucessor de “King of Everything”, nem mesmo o nosso entrevistado: «Antes de fazermos o “Micro” já tínhamos recortes para as músicas e muitas ideias musicais colectadas desde o último lançamento de 2016, por isso sabíamos mais ou menos como o EP soaria. Desta vez é absolutamente uma folha de papel em branco e ninguém consegue prever como é

TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: CORTESIA NAPALM

que o próximo álbum soará.» Entretanto, é na estrada que os Jinjer mais estão e onde melhor se sentem. «O que é que pode ser mais excitante do que os próprios concertos?», entoa retoricamente o porta-voz da banda. «Tocar ao vivo é a melhor parte das digressões - tocar em lugares diferentes, para pessoas diferentes.» Não pensando em qualquer resultado que daí possa advir, o ucraniano centra-se naquilo que são: «Somos músicos, é essa a nossa prioridade» e tal «deve estar em primeiro lugar para cada banda». Dos EUA à América Latina e da Europa à Ásia, os Jinjer já pisaram muitos palcos e visitaram muitas cidades, mas há um lugar especial para Eugene Abdukhanov. «O Japão destaca-se com certeza. Passei uma parte significativa da minha vida a fazer artes marciais japonesas e entrei nas suas tradições e História. Sinto-me muito feliz por ir lá em Abril.» Mas é na América Latina que o artista de leste sempre quis tocar para «viver o espírito dessa parte do mundo e, claro, fazer um pouco de turismo se houver tempo». «Desta vez, na digressão actual, conseguimos ver Teotihuacan no México! Um

«PREPAREM-SE PARA UM CONCERTO DO CARAÇAS!» EUGENE ABDUKHANOV lugar fantástico!» Da Ucrânia conhecemos a força do black metal atmosférico com Drudkh a comandar o rol de bandas que se expande para outros projectos como Khors ou Nokturnal Mortum, mas a realidade tem-nos mostrado que ainda nenhum empreendimento oriundo dessa nação angariou tantos seguidores como está a acontecer com Jinjer. «Bem, vamos falar abertamente: conhecem-se muitas bandas que estão fora da chamada civilização ocidental? Conhecem-se muitas bandas de qualquer lugar a leste da Polónia ou ao sul dos Balcãs? Da Ásia? Médio Oriente? A resposta é obviamente não. Mas há lá bandas 18 - ULTRAJE #19

com certeza. E algumas são muito boas.» O que o músico ucraniano realmente quer transmitir é que «uma vez que se está fora deste mercado primário, é muito difícil entrar-se nele - por muitas razões, começando pelos custos de transporte ou problemas de visto. Isso foi um grande problema quando começámos as digressões há cinco anos. E uma razão muito importante - preconceito! Um booker ou promotor que faz uma escolha entre uma banda ucraniana e outra americana, provavelmente escolheria a americana», rematando com sentido de humor: «O quê? Ucrânia? Eles ainda levam ovelhas a pastar num lugar qualquer perto da Rússia... Ah, é aí que está Chernobyl, devem ser radioactivos.» A Ucrânia saltou à vista do interesse internacional em 2013 quando se deu início aos protestos Euromaidan em que se exigia uma maior integração com a União Europeia. Daí para a frente, o país entrou em estado-de-sítio com confrontos urbanos, eleições de braço no ar em praça pública, desintegração ao serem assumidas independências unilaterais de várias regiões e com uma intervenção militar russa quase invisível. Eugene vai mais atrás. «Somos a geração que cresceu logo após o colapso da URSS. Passei a minha infância num país profundamente definido pela depressão e crise. Sem emprego, sem dinheiro para os meus pais. A minha família estava sempre com dívidas. Não conseguíamos ter uma alimentação adequada, apenas nos grandes feriados. Eu vestia as roupas velhas do meu irmão mais velho e coisas assim.» Todavia, o pior de tudo para o baixista era «as ruas cheias de gangues e hooligans» que geravam «uma cultura de violência em que, para muitos jovens, o maior sonho era juntar-se a um clã criminoso». «Essas condições difíceis tornaram-nos duros. Aprendemos a ganhar o que queremos. Aprendemos a perseguir os nossos sonhos e a esforçarmo-nos para seguir em frente, sem importar o que acontece. Aprendemos a não prestar atenção às adversidades e dificuldades.» Prova desse pensamento positivo e inconformado passa pelo sucesso que a banda de Horlivka tem atingido e que, mais uma vez, Portugal poderá testemunhar na Quinta do Ega quando, em Agosto de 2019, acontecer mais uma edição do Vagos Metal Fest.


PROG METAL/ROCK


Reflexo Sensorial das Rochas Vermelhas «FOI IMPRESSIONANTE TOCAR NAQUELE SÍTIO – É O MELHOR ANFITEATRO ONDE JÁ TOQUEI.»

TEXTO: DIOGO FERREIRA | FOTOGRAFIA: CORTESIA NUCLEAR BLAST

A

11 de Maio de 2017, os suecos Opeth davam mais um concerto que se transformaria em mais um DVD. Contudo, este não seria apenas mais um lançamento ao vivo a adicionar à discografia – este espectáculo foi captado no majestoso Red Rocks Amphitheatre, situado no Estado do Colorado (EUA), um anfiteatro natural que existe para fins de lazer desde 1906. Crê-se que os Opeth estão destinados a tocar e a gravar lives nos lugares mais significativos do mundo – Royal Albert Hall em 2010 e agora Red Rocks Amphiteathre – e se o local já é épico só por si, olhemos para as imagens e sons lá captados... Ficamos ainda mais espantados com aquilo que se consegue transmitir audiovisualmente neste Séc. XXI. «Diria que foi uma grande experiência», começa Fredrik Åkesson, guitarrista da banda desde 2007. «Estar naquele palco e olhar para os lugares onde as pessoas estavam e com os penhascos todos iluminados… [pausa] É um lugar especial. Não conhecíamos [o espaço] antes de termos a oportunidade de fazer este álbum ao vivo. Procurámos na Internet e lemos sobre a história do sítio... Algumas pessoas dizem que é uma espécie de fenómeno geológico, com pegadas de dinossauros e coisas assim. Foi impressionante tocar naquele sítio – é o melhor anfiteatro onde já toquei.» Hoje é do conhecimento geral para quem está neste meio musical que os Opeth são conhecidos mundialmente, mas nunca tinham, até agora, captado um concerto em solo fora da Europa. Será este DVD a prova definitiva de que os fãs fora do Velho Continente estão conscientes do poder musical de uma das bandas mais influentes das últimas duas décadas? «Ficámos contentes por muita gente ter ido ao concerto – estavam lá quase 7000 pessoas, o que é fantástico. Andamos muito pela América do Norte, por isso não é novidade sermos populares lá.» Se por um lado os Opeth estão destinados a dar concertos nos locais mais icónicos, por outro parece que o infortúnio persegue a banda constantemente quando chega o momento de imortalizar uma performance. Recorde-se que tiveram alguns problemas técnicos com as guitarras no Royal Albert Hall em 2010 e agora novamente durante a prestação do tema “Demon of the Fall”. Todavia, esses pormenores são sempre mantidos nas imagens que nos chegam no resultado final 21 - ULTRAJE #19


«CADA UM QUER DAR O SEU MELHOR PARA UMA CANÇÃO.» e constatamos que, enquanto colectivo unido, reagem permanentemente a essas peripécias com muita calma. Sobre a honestidade em Opeth, Åkesson garante que essa postura é «muito importante!» e que tais situações «podiam ser editadas», mas a verdade do momento é, assim, para ser preservada. «Desta vez foi o Mikael [Åkerfeldt, voz/guitarras] que levou com essa maldição [risos], na outra fui eu na “Lotus Eater”. Recordando tudo, foi um momento muito stressante, porque era uma parte calma que eu devia começar... Felizmente nada aconteceu no momento em que a banda estava toda a tocar – a falha torna-se mais fácil de resolver. Comigo demorou mais tempo [a resolver o problema]. Usamos duas saídas nas nossas guitarras – uma para o amplificador e outra para o PA – que simulam o som acústico. Usamos uma ou outra, por vezes combinamos as duas. Ele [o Mikael] devia começar um riff acústico antes de a banda entrar toda para se mudar para o tom pesado e distorcido, e apenas surgiu silêncio. Lembro-me de alguém dizer ao lado do palco: 'Não, outra vez não!' Felizmente resolvemos isso relativamente rápido.» Ainda assim, é o próprio guitarrista que retoca o uso da palavra maldição ao referir que «é aquela coisa típica de tocares várias noites e depois, quando tens apenas uma tentativa, isto acontece. É por isso que usei a palavra maldição». «Tens de ignorar e seguir em frente. Não é um daqueles erros que destrói o som, é apenas uma lacuna», suaviza ao explicar que estas situações incontroláveis à vontade humana são facilmente esquecidas – até porque há um concerto para continuar. No entanto, o nosso entrevistado assegura que «foi um concerto complicado de dar, porque de dia estava calor mas depois no palco estava muito frio». «Pode ver-se no DVD que o vento soprava com muita força. Depois do concerto ficámos um bocado ansiosos por termos tido aquele tempo áspero. Achávamos que não ia ficar tão bom como queríamos, mas ficámos surpresos por ter funcionado e assim pudemos lançar o DVD.» Escolhendo um caminho estritamente de rock progressivo desde pelo menos “Heritage” (2011), perguntámos a Fredrik Åkesson se vê a banda trazer de volta a agressividade sonora de um passado cada vez mais remoto. «Fazemos isso sempre que tocamos, continuamos a gostar de tocar o material antigo», como se pode ver pelo alinhamento ao serem incluídos temas como “Heir Apparent” e “Deliverance”. «Os berros [do Mikael Åkerfeldt] estão mais poderosos do que nunca, mas ele é o piloto da banda e escreve a maioria do material. Ele nunca gosta de andar para trás, tenta fazer sempre algo novo. Assim como toda a banda. Não posso falar muito do próximo álbum, mas vamos ver o que acontece...» Sem se insistir mais naquilo que a próxima sonoridade Opeth poderá vir a ser – percebeu-se que esse caminho estava bloqueado –, preferimos questionar se as direcções musicais e conceptuais dependem do conjunto ou unicamente da visão e estado de espírito de Åkerfeldt, sabendo de antemão que é ele, o mentor, quem, como Fredrik apontou, traz o grosso das ideias para o seio do grupo. Fredrik Åkesson «diria que sim», que é do seu colega e fundador que depende para onde vão os Opeth enquanto força sónica. «Tinha-se falado em fazer regressar os berros em “Pale Commu-

nion” [2014], mas não chegou a acontecer. Todavia, continuamos a ter 60% dos nossos concertos com músicas que têm esses elementos, e acho que o material antigo se dá bem com o novo, dando uma boa dinâmica ao espectáculo.» Numa fase tão avançada e tão madura no trajecto que se iniciou em 1990, do death/doom metal ao rock progressivo, será que faz sentido perguntar como é que funcionam as diferentes influências que cada membro traz aos Opeth? Fará sempre sentido, sim, porque a linha de pensamento e os objectivos a serem alcançados hoje podem ser muito diferentes dos de amanhã – basta ouvirmos “Orchid” (1995) e “Sorceress” (2016) para defender a opção da Ultraje durante a conversa com Fredrik Åkesson. Vejamos: Mikael Åkerfeldt é muito ecléctico e Méndez é uma besta – no bom sentido da palavra – a tocar baixo, mas depois há Åkesson, que vem de um passado ligado ao doom, e Axenrot (bateria) que, de todos, deverá ser quem apresenta um percurso mais agressivo com colaborações em Bloodbath, Witchery ou Nifelheim. «Focamo-nos na canção que queremos tocar e basicamente, de certa forma, cada um faz a sua cena. Felizmente toquei estilos diferentes dentro do metal – do hard rock ao death metal. Arch Enemy era mais rápido, Krux é mais doom, Talisman era melódico com solos e isso tudo. Também estive algum tempo com Tiamat, que era mais doom. Cada um quer dar o seu melhor para uma canção, dar o que melhor se enquadra nisso.»

MODERBOLAGET RECORDS Iniciada em Junho de 2016, a Moderbolaget Records anda hoje lado-a-lado com os Opeth. Fredrik Åkesson elucida-nos sobre a finalidade da editora da banda: «Continuamos ligados à Nuclear Blast com um acordo de licenciamento – eles é que fazem o trabalho todo no que toca a fabricar e a promover os álbuns. A Moderbolaget existe mais para ficarmos com os direitos daquilo que gravamos. Não temos ninguém a trabalhar ali, diria que é mais por formalidade. É bom termos poder sobre a música da banda. Mas tem sido muito bom trabalhar com a Nuclear Blast.»

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GROOVE METAL

ONCE HUMAN EVOLUÇÃO

TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA EARMUSIC

A década de 90 foi gentil com Logan Mader, guitarrista e produtor dos Once Human, banda encabeçada por Lauren Hart. Membro fundador dos Machine Head - banda onde esteve até 1998, o músico viria posteriormente a juntar-se à formação ao vivo dos Soulfly de Max Cavalera. Depois de algum tempo afastado dos palcos para se concentrar na sua carreira enquanto produtor, Logan Mader voltaria à estrada na companhia da sua nova equipa: os Once Human. A Ultraje falou com o guitarrista com os ruídos de uma estação de comboios como plano de fundo a respeito do novo trabalho ao vivo, "Stage Of Evolution".

E

ste é o vosso primeiro álbum ao vivo, e ainda que os Once Human sejam uma banda relativamente recente com dois álbuns de estúdio editados, têm vindo a evoluir a vossa sonoridade e a surgir com ideias frescas. Posto isto, o que vos levou a editar um disco ao vivo nesta fase? Percebo o quão incomum pode ser para uma banda recente como a nossa, principalmente se tivermos em consideração que nem sequer fomos cabeças-de-cartaz mas sim uma banda de apoio durante a tour na qual as gravações tiveram lugar. No entanto, a nossa editora considerou que seria uma boa ideia editar algo entre discos e quisemos fazê-lo pois com a tecnologia dos dias de hoje, onde é tudo tão compacto, conseguimos gravar pistas múltiplas de tudo aquilo que tocamos, o que não é nada do outro mundo. Aliás, até faz parte do nosso equipamento. Daí que o tenhamos feito. Gravámos quatro concertos e escolhemos as melhores performances para as compilar no CD. Qual seria o impacto dessa tecnologia se estivesse ao teu alcance durante os anos em que estiveste nos Machine Head, nos anos 90? Seria tudo muito diferente. Recordo-me de gravar ao vivo com os Machine Head, em Nova Iorque, a meio da década de 1990, e foram precisos à volta de 20 mil dólares e um camião que actuava como estúdio móvel, com os cabos a passar por todo o lado. Era um esforço enorme fazê-lo nesses tempos mas agora tudo aquilo de que precisas é um computador portátil com um bom interface e uma coisa chamada X32, que é um sistema fácil de transportar.

Passaram-se alguns anos desde que te juntaste a uma banda que tocasse ao vivo. Como foi regressar após todo este tempo? Adoro! Depois dos Soulfly passei quase 15 anos no estúdio a fazer trabalho de produção e não queria voltar a tocar ao vivo até que a Lauren [Hart, vocalista] me inspirou a fazê-lo. Fiquei muito satisfeito por ter ido em frente com essa ideia pois percebi que faz parte da minha alma e de quem sou. Foi bom voltar a tocar ao vivo. Nesta fase, trabalho com música porque é algo que amo e não por ser algo de que precise, e isso é bom. Nos últimos anos vivi com um ordenado retirado exclusivamente da cena musical, a trabalhar na produção, nas misturas, através dos royalties e tudo o mais. Contudo, agora tenho uma nova oportunidade para criar música e continuar com este fluxo, pois estamos em 2018 e a indústria musical já não dá o dinheiro que dava nos anos 90. Sinto-me um sortudo por estar nesta situação. Sim, vivemos numa era onde os streamings e as visualizações do Youtube têm um grande impacto na forma como consumimos música. O que pensas acerca disto? Faz parte da evolução tecnológica. É algo inevitável. A maioria das pessoas, como os jovens artistas por exemplo, fazem o seu dinheiro desta forma. Isto resulta muito bem com o hip hop e outros géneros, mas para o metal não tem o mesmo nível de lucro. É um modelo diferente. Não é fácil mas pode ser feito. Agora que trabalhas com músicos muito novos nos Once Human, vês-te como um veterano? [Risos] Bem...

Atenção que não te estou a chamar velho... [Risos] Mas eu sou velho, embora não me sinta, nem pareça um. Ainda! [Risos] Estou contente por estar envolvido com estes músicos, que são bons miúdos e procuram-me para conselhos, para os guiar e liderar, e dou o meu melhor para ser essa pessoa que procuram. Qual é o melhor conselho que podes dar a alguém que esteja a dar os primeiros passos na indústria musical? [Longa pausa] Não sei. Se acreditas em algo e isso te faz feliz, então deves fazê-lo. Acreditas que o processo é mais fácil para as bandas novas quando comparado com há algumas décadas? Não, hoje em dia as coisas não são nada fáceis. Com tudo o que aconteceu a nível tecnológico e a forma como consumimos música é muito diferente. Dantes as pessoas tinham que comprar música se a queriam ouvir e agora já não precisam de fazê-lo. Ou seja, enquanto anteriormente desenvolvíamos um produto que as pessoas compravam, agora esse produto não é mais do que uma ferramenta para promover e vender a banda no seu todo, gerando vendas de bilhetes para concertos ao vivo ou de merchandise. É a única forma de fazer dinheiro hoje em dia. Para além disso, a concorrência cresceu exponencialmente nos últimos 20 anos. Dantes não tínhamos tantas bandas a fazer aquilo que só as bandas de sucesso podiam alcançar. Nos dias de hoje é muito fácil para uma banda ser independente e chegar a todas as plataformas para se fazer ouvir.

«DANTES AS PESSOAS TINHAM QUE COMPRAR MÚSICA SE A QUERIAM OUVIR E AGORA JÁ NÃO PRECISAM DE FAZÊ-LO.» 24 - ULTRAJE #19


INDUSTRIAL

KMFDM

REBELDES AO PODER

E

TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA EARMUSIC

m 1984, o magnata Steve Jobs apresentava ao mundo o primeiro computador Macintosh. Na música, Madonna surgia vestida de noiva no topo de um adereço em forma de bolo e cantava "Like A Virgin" naquela que seria a primeira de muitas edições dos MTV Video Music Awards, com os diferentes prémios a serem distribuídos por bandas e artistas como Michael Jackson, ZZ Top, Cindy Lauper ou Eurythmics. Nesse mesmo ano, os alemães Sascha Konietzko e Udo Sturm davam os primeiros passos sob o nome de KMFDM, um projecto integrado no campo das Belas Artes cuja estreia deu-se numa exibição de jovens artistas no Grand Palais, em Paris, onde o então duo repercutia sonoridades saídas de sintetizadores, baixos e - imagine-se - aspiradores. Seguir-se-ia o álbum de estreia "Opium", onde Konietzko - agora sem Sturm - chamaria outros músicos para o acompanharem e, quase 35 anos depois, a história dos KMFDM continua a ser escrita. Foi precisamente com Sascha Konietzko - fundador e único membro sobrevivente da formação original - que a Ultraje falou, tendo como pretexto o novo trabalho ao vivo da banda, "Live In The USSA". O vocalista, que assume outras responsabilidades ao nível da programação e dos sintetizadores, adoptou sempre uma postura anti-comercial, postura essa que passou por rejeitar que os poucos vídeos que lançaram na década de 90 rodassem na MTV e conseguissem, com isso, sucesso comercial. Ainda que não tenham evitado alguns hits na forma de "Megalomaniac" ou de "Juke-Joint Jezebel" - sendo este último um tema que Konietzko admite odiar -, o músico começou por explicar que o caminho dos KMFDM é em frente e que o seu maior sucesso ainda está por vir. «Espero que o momento determinante dos KMFDM esteja no futuro», comenta seguido de uma gargalhada. «O caminho é o nosso alvo; é o objectivo. Aprendi isto com

uma filosofia chinesa.» O músico diz ter sido fã de glam rock e de artistas como David Bowie na pré-adolescência, e que «é difícil não ser influenciado pelo Bowie» por ter sido «um dos melhores artistas do nosso tempo». «Foi um artista prolífico que fez imensas coisas ao longo dos tempos e dificilmente conseguimos deixar que alguém assim não tenha um impacto em nós.» Para o lançamento de "Live In The USSA", Konietzko diz ter sido o momento ideal «para lançar um novo disco ao vivo» e também porque a editora earMUSIC desafiou-os «a gravar os concertos da tour norte-americana para estudar uma possível edição». «As gravações correram bem, o que nos fez perceber que seria algo que iria resultar. Um álbum ao vivo deve ser bom, caso contrário seria uma má ideia editá-lo! [risos]» «Dentro do espectro sónico, um álbum com temas gravados ao vivo está muito próximo daquilo que é um espectáculo dos KMFDM», aponta. «Tivemos um engenheiro de som muito bom a trabalhar connosco e isso ajudou bastante, pois no passado já tivemos algumas gravações ao vivo que não ficaram tão bem ou que foram exageradamente manipuladas, mas ao ouvir este disco soa exactamente igual ao que ouvirias se estivesses no meio do público.» A setlist escolhida foi, de acordo com Konietzko, tendo em consideração o facto de "Live In The USSA" ser «um álbum que funciona como companheiro do "Hell Yeah" [vigésimo longa-duração editado em 2017]. Captura tanto a essência dos temas vigentes em "Hell Yeah" como dos temas mais antigos. Para os fãs é algo positivo que os faz perceber que o material mais recente e o nosso material clássico consegue ser apresentado ao vivo de uma forma coerente e consistente.» Ao longo dos anos e desde a formação dos KMFDM, o mundo assistiu a inúmeros eventos como o incidente de Chernobyl,

a Guerra Fria, a ascensão de grupos terroristas, a queda do muro de Berlim, os motins em Los Angeles, o genocídio em Ruanda e muitos outros exemplos que marcaram a História da Humanidade de uma forma negativa. Actualmente, Konietzko diz-nos que vê o mundo com «antecipação e com algum receio e hesitação». «Na verdade, o panorama nunca muda muito. Basta ver isso pela forma como os nossos pais e avós viam o mundo quando eram novos. O positivo em envelhecer é que a determinada altura consegues olhar para as coisas e dizer que já viste pior. Contudo vivemos sempre com aquela sensação de estarmos a um passo do abismo, seja devido a algo como a Guerra Fria ou a Chernobyl. Devemos sentir-nos entusiasmados por estarmos vivos e penso que os artistas no geral têm uma espécie de espelho que reflecte a realidade e que depois a exibem à sua maneira ao público, sejam pintores, músicos ou artistas visuais. A responsabilidade de um artista é dar o seu próprio toque a essa reflexão da realidade, e é isso que tentamos fazer. Somos políticos mas não só; também somos românticos e muito positivos. Não sou uma pessoa pessimista que tenta transmitir esta mensagem ao público do fim dos dias. A minha mensagem é positiva, onde digo coisas como 'faz aquilo que podes, aquilo que queres e aquilo que tens que fazer' e para confiares nas tuas habilidades. É uma mensagem que te diz para acordares e para olhares para o mundo com os teus próprios olhos sem que te deixes influenciar por toda a merda que está à tua volta. Penso estarmos a conseguir fazer isto bem nos KMFDM, pois há muitas pessoas que me dizem que sem os KMFDM já estariam mortas por esta altura. Dizem que nós lhes damos esperança e inspiração, e isso é o maior elogio que podes receber enquanto artista.»

«O POSITIVO EM ENVELHECER É QUE A DETERMINADA ALTURA CONSEGUES OLHAR PARA AS COISAS E DIZER QUE JÁ VISTE PIOR.» 26 - ULTRAJE #19


ALTERNATIVE ROCK

BELEZA CLÁSSICA TEXTO: FERNANDO REIS / FOTOGRAFIA: CORTESIA INSIDEOUT MUSIC


«SINTO PRESSÃO PARA FAZER ALGO BOM E COM QUALIDADE.»

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esde que abandonou os The Gathering há pouco mais de uma década, Anneke van Giersbergen tem aproveitado de forma efusiva a liberdade, editando quatro discos em nome próprio, iniciando dois novos projectos – Gentle Storm e Vuur – e com inúmeras colaborações em disco, destacando-se as feitas com Devin Townsend, Ayreon e Danny Cavanagh (Anathema). Basicamente, toda a gente quer a voz bela, forte e sensual de Anneke no seu registo. Por isso, não admira que a Residentie Orkest The Hague, uma das mais respeitadas e antigas orquestras sinfónicas da Holanda, tenha convidado a senhora para um concerto em que apresentaria as principais músicas da sua carreira rearranjadas para serem acompanhadas por uma ensemble clássica. «De vez em quando conheço pessoas que tocam em orquestras clássicas e já actuei com orquestras uma vez ou outra. Por isso, no passado, já o fiz algumas vezes em doses pequenas. Mas nunca tinha feito algo como agora: gravar e actuar com uma orquestra sinfónica com a minha própria música. É algo diferente», explica a cantora, ao telefone da sua casa. A nova barragem de entrevistas a que Anneke se está a submeter visa promover “Symphonized”, o disco que resultou da gravação do espectáculo que, afinal, foram dois. «Para ser sincera, nem sequer tinha planeado fazer um álbum. Foi uma coisa que aconteceu de forma muito espontânea. A orquestra tem muitas noites em que convida um músico de outro género para cantar ou tocar com eles, e fazem um espectáculo em conjunto. E pediram-me para fazer o mesmo. Faríamos uma fusão de música rock e metal com clássica e a combinação devia ser interessante. Aceitei, e o que é normal é escolhermos uma lista de temas, fazer um espectáculo e pronto. Mas depois pensei: 'Isto é algo realmente especial. Estou prestes a celebrar 25 anos de carreira profissional e esta é uma oportunidade única de fazer algo deste género.' Por isso, decidi escolher algumas canções desses 25 anos. Acabámos por fazer dois concertos porque as pessoas estavam muito interessadas neles e depois pensámos: 'Se fizermos isto vai ficar muito bonito. Por que não gravamos e fazemos um álbum?' E foi o que fizemos. Cada passo que demos neste projecto foi muito especial. E aqui estamos. Há um ano não sabia que ia celebrar o meu vigésimo quinto aniversário de carreira desta maneira tão especial.» Quando chega a altura de escolher entre temas de duas décadas e meia de carreira – ainda por cima uma carreira como a de Anneke –, a tarefa pode ser épica. Ainda para mais quando há o lado sinfónico a ter em conta. «Queria escolher uma música – ou várias – de cada era: The Gathering, Vuur, The Gentle Storm, Lorrainville e os meus álbuns a solo», explica-nos. «Por isso fiz uma lista extensa no Spotify das minhas canções preferidas dessas eras e pedi ao director artístico da orquestra para me ajudar a encurtar a lista. Ele não conhece todas as minhas músicas e por isso tinha um ouvido imparcial. E para além disso podia escolher as que melhor se adaptavam a arranjos sinfónicos. Mesmo assim, havia umas canções que queria mesmo que entrassem. Fizemos a lista de temas juntos... Havia muitos entre os quais escolher. [risos]» Quanto ao lado mais sinfónico em si, não é novo para Anneke. A colaboração neoclássica com os islandeses Árstíðir, em 2016, iniciou a vocalista nesse mundo, mas as influências já vêm de trás. «Cresci a ouvir música clássica», refere. «Os meus pais tinham uma colecção muito grande de The Beatles, The Rolling Stones e outras coisas fixes, mas também alguma música clássica. Assim, cresci muito consciente do que havia à minha volta e comecei a eleger os meus favoritos. Adoro Mozart e alguns

outros compositores que fui conhecendo quando já era mais velha também. Nesse sentido, também me pareceu muito natural cantar um estilo mais clássico com uma orquestra sinfónica.» Com uma voz etérea, quase ao ponto do místico, Giersbergen tem no dom natural o seu instrumento de trabalho. O que, numa altura em que os artistas têm de tocar intensivamente ao vivo se querem fazer algum dinheiro com a música, pode significar uma sobrecarga de concertos e, naturalmente, da sua voz. A holandesa diz que o equilíbrio surge de forma natural. «Adoro andar em digressão e tocar ao vivo... Se dependesse só de mim tocaria ao vivo a maior parte do ano», começa. «Mas como referido, o meu instrumento está no meu corpo, por isso preciso de me manter saudável e ter cuidado com o meu modo de vida. Fazer muitas digressões pode ser esgotante para o nosso nível de energia e para o corpo, mas adoro actuar ao vivo. Por isso o que faço é tentar manter-me em forma e dormir o suficiente, o que nem sempre acontece. Mas é isso que tento fazer. E não faço assim tantas digressões... Não sou como algumas bandas que passam todo o ano na estrada. Faço digressões de duas ou três semanas de cada vez, depois passo uma temporada em casa, dou alguns espectáculos pontuais na Holanda e depois vou para a estrada mais duas ou três semanas. Também porque tenho a minha família e não quero ser uma perfeita estranha para eles. E quando fazemos demasiadas digressões é isso que acaba por acontecer.» Quase três décadas de carreira, vários discos marcantes, entradas em tabelas oficiais de vendas e um estatuto de culto depois, Anneke faz um balanço extremamente positivo do seu percurso musical. E refere que não sente qualquer peso adicional nos ombros por ter chegado onde chegou. «Sinto a responsabilidade de fazer algo muito bom, honesto e bonito. É principalmente nisso que penso», diz. «Sinto pressão para fazer algo bom e com qualidade. Tenho muita sorte em ter pessoas que seguem a minha música e acho sinceramente que se fizermos música honesta temos um público honesto. Quem gosta da minha música são geralmente pessoas com a mente muito aberta. Quando lhes digo que o meu próximo álbum vai ser acústico a solo, a reacção costuma ser: 'OK. Vamos ouvir e ver como é.' Se lhes disser que o próximo disco vai ser com uma banda de metal, como Vuur, eles vão dizer: 'OK, vou ouvir isso também.' [risos] Isso é muito bom e faz-me sentir uma grande liberdade para escolher

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a direcção musical que vou tomar a seguir. Por outro lado, as pessoas confiam em mim para fazer algo bom. E é isso que tento fazer.» E o que será que Anneke faria hoje se não tivesse enveredado pelo caminho da música? «Quando era miúda queria ser cantora, pintora ou professora de inglês. Não sou muito boa a desenhar e a pintar, por isso daria um bom hobby mas não mais que isso. Talvez fosse algo como professora de inglês, mas de qualquer forma gosto muito de artes. Por isso talvez estivesse envolvida na indústria cinematográfica ou noutra arte qualquer... Não sei, não penso muito nisso porque sou tão feliz com o que faço na vida. Quando era mais nova sempre soube que era música que queria seguir. Por isso mentalizei-me e nunca quis mais nada. É o meu chamamento.» A simpatia de Anneke van Gierbergen é quase tão famosa quanto ela própria. No final dos concertos, não é incomum vê-la em amena cavaqueira com os fãs como se estivesse ali para sempre e fosse um deles. No entanto, com o aumento de popularidade que tem experimentado pode tornar inviável este tipo de relacionamento num futuro bem próximo. Anneke corrobora e diz que «por vezes penso nisso». E continua: «Se eu fosse uma artista enorme como o Bon Jovi [risos] seria obviamente muito difícil ir para o meio das pessoas depois dos concertos e falar com toda a gente, porque seria atropelada e engolida. Por vezes quando tocamos em salas mais pequenas torna-se mais fácil ir lá para fora falar com toda a gente – e eu gosto muito disso. Mantém as coisas a um nível muito pessoal e permite-me saber o que o nosso público pensa... Sei o que querem, o que sentem e gosto muito disso. Estou algures no meio entre um artista muito conhecido e um nada conhecido. Toco em todo o lado e aparece sempre gente para me ver, mas ainda é praticável dizer olá às pessoas depois do espectáculo. Por outro lado, consigo compreender a filosofia que tem feito com que ultimamente cada vez mais bandas grandes façam Meet & Greets por dinheiro. E penso sempre: 'Como posso evitar isso?' Porque as pessoas já não compram discos mas compram Meet & Greets. O panorama está a mudar. E às vezes não tenho a certeza onde estou neste espectro, o que devo fazer para me manter em contacto com as pessoas que nos vêm ver tocar a nossa música, enquanto ao mesmo tempo vivo disto e tento sobreviver. Acho que um artista deve ser criativo e arranjar maneiras fixes de contactar o público... Mas não tenho certeza de nada disto”.


METAL

RICH DAVIS DEMOLIDOR

TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA RICH DAVIS

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guitarrista norte-americano Rich Davis regressa com "Not Dead Yet", aquilo que considera ser o maior feito da sua carreira musical. O músico de Baltimore teceu algumas considerações sobre este registo à Ultraje. «Depois de ter estado envolvido na cena metal por quase 30 anos, onde integrei nomes como Mystic-Force e Shift, achei que esta seria a melhor altura para experimentar algo diferente e fazer tudo sozinho», refere. «Toquei todos os instrumentos, tratei das gravações e filmei os meus próprios vídeos. Os novos temas e os vídeos têm um lado negro mas tentei igualmente manter as músicas pesadas. Tenho-me divertido bastante com este projecto.» Sem acusar a pressão de ter um conjunto de responsabilidades nas suas mãos, Rich Davis mostra-se confiante e ambicioso: «Estou a pôr tudo aquilo que posso em cima da mesa. Estou a ir a jogo com tudo. Lanço singles e vídeos a cada dois ou três meses e assim que fica pronto segue para todo o lado. Anuncio em três ou quatro revistas de cada vez que edito um novo single e mantenho-me neste ritmo acelerado. Tenho que me manter activo. Estou a trabalhar num novo vídeo e assim que estejam todos prontos irei editar um CD/DVD.» Para o músico, a sua carreira a solo só irá terminar quando deixar de conseguir pegar na guitarra e antevê já uma tour de promoção: «Vai ser até não conseguir tocar mais. Estou a divertir-me demasiado para conseguir parar. Estamos agora a pensar em formas de ir em tour e de como poderei ultrapassar a barreira da logística. Contrato uma banda de apoio? Crio um complemento audiovisual que passe vídeos e toco guitarra e canto utilizando instrumentais? Ainda não tenho a certeza.» Rich Davis diz ter crescido ao som de bandas como Iron Maiden, Judas Priest, Black Sabbath e Dio - «foram esses os meus deuses.» «Vi cada uma destas bandas ao vivo inúmeras vezes. Não houve melhor altura para se ser um metalhead. Dito isto, sempre me rodeei de amigos que, tal como eu, gostam de acompanhar as novas tendências musicais. Neste preciso momento, as bandas que fazem parte do meu dia-a-dia musical são os Conquering Dystopia, Soilwork, Five Finger Death Punch e os Hellyeah, embora a minha música não seja nada parecida com as bandas que mencionei. [risos]» Para o futuro, Rich Davis promete continuar a lançar novos temas e vídeos.

«ESTOU A POR TUDO AQUILO QUE POSSO EM CIMA DA MESA. ESTOU A IR A JOGO COM TUDO.» 30 - ULTRAJE #19


SYNTHWAVE outras eras; adicionámos vocais, guitarras, caixas de ritmos esquecidas. Tudo se tornou cada vez mais divertido e cada vez mais pessoal.»

A GRANDE DESORDEM «Todos os tópicos abordados nas nossas letras, todas as criações, existem realmente nas nossas cabeças.»

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s The Sacrifice apresentam-se ao mundo como uma banda synthwave que não só busca influência na cena electrónica dos anos 80 e 90 mas também no movimento metal. Com membros oriundos da banda electro/pop Panzer Flower, este novo trio enceta, com o seu álbum homónimo, uma viagem espacial pelo mundo da onda synth dançante com solos de guitarra à mistura. Para o contexto histórico actual que se segue, o movimento e a sonoridade da synthwave que vêm directamente dos anos 80 não estavam completamente mortos, mas sim inactivos durante muitos anos. Nos últimos tempos temos testemunhado o seu renascimento com projectos contemporâneos como Priest, Carpenter Brut, Gost ou Perturbator, para citar apenas alguns. Por outro lado, as editoras metal estão a abrir as suas mentes ao deixarem que a electrónica se intrometa neste meio - da Season Of Mist vêm, por exemplo, os The Lion’s Daughter que misturam sludge com arranjos electrónicos espaciais, e agora estes The Sacrifice que aqui apresentamos. «Acho que as pessoas são nostálgicas. Muitos dos artistas da synthwave eram crianças nos anos 80 - crescemos com esse tipo de música, que estava em todo o lado: em bandas-sonoras de filmes, na rádio, em videojogos...», responde-nos Rel (voz/sintetizadores/guitarras) quando perguntamos a

TEXTO: DIOGO FERREIRA | FOTOGRAFIA: CORTESIA SEASON OF MIST

que se deve esta onda revivalista em relação à synthwave. Para o francês, «música, assim como a moda, é repetição eterna, nós apenas a actualizamos adicionando um toque mais, digamos, moderno». «Artistas e criadores em geral estão a reproduzir o que os tocou na sua infância, sendo que cada década vem com um renascimento específico. Agora estamos nesta revitalização dos anos 80 e 90, e é claro que gostamos disto - os sintetizadores, as baterias electrónicas, os sons, a mistura e os efeitos dessas épocas são realmente distintos e definitivamente comoventes.» Numa opinião pessoal, e ainda sobre a reaparição do género musical, Rel acha que «a synthwave chamou a atenção novamente, substancialmente, por causa do filme “Drive”» e que «muitas bandas de synthwave surgiram depois do lançamento do filme». «Agora vemos anúncios na TV com synthwave e os gráficos típicos dos anos 80. Acho que está a ficar cada vez mais mainstream, o que definitivamente não é uma coisa má.» Sobre a percepção da música que fez os The Sacrifice assinarem pela gigante editora francesa, o artista adianta: «Não diria que temos uma visão musical. Quando começámos a compor, as primeiras músicas, que não mantivemos no final, eram apenas músicas synthwave, era synthwave instrumental. É claro que gostamos do som deste género, mas não queríamos fazer um álbum puramente synthwave, por isso começámos a brincar com elementos de outros géneros, de 32 - ULTRAJE #19

Neste álbum de estreia, a banda conta histórias de um esmagado e incomparável universo oracular existente na véspera da Grande Desordem, uma «reacção selvagem aos tempos perniciosos pelos quais estamos a passar». Rel sublinha seguidamente que «repetimos ciclos», porque «nada é estável, nem eterno», e «o próximo ciclo é o que chamamos de Le Monde Nouveau [N.d.R.: O Mundo Novo] - é uma nova era, uma era destrutiva mas criativa e empolgante, a Ordem da Desordem». Melhor do que tudo isto acabado de ser dito só mesmo os cenários criados pelo trio onde se incluem gatos decapitados que comem croquetes cósmicos, triângulos invertidos que se encaixam em quadraturas do círculo, sapos fofos vestidos como seres humanos e cãezinhos intergalácticos que mastigam lâminas de barbear. «Não pretendemos soar engraçados, embora gostemos de contar e escrever histórias que moldam imagens para nós e para as pessoas», avisa de imediato o multi-instrumentista. Do seu ponto-de-vista, todas aquelas loucas representações são «algo de outro lugar, imagens fantásticas, teatrais, animadas e sedadas que constroem um mundo pelo qual gostaríamos de viajar. Algo invisível que já vimos». «Não é humor. Todos os tópicos abordados nas nossas letras, todas essas criações, existem realmente nas nossas cabeças.»

O SOM DOS THE SACRIFICE Entre estradas de alta velocidade com carros em perseguição e viagens espaciais para se descobrirem amigos e inimigos, Rel prefere classificar a sonoridade do projecto em que está inserido através de «viagens anti-cósmicas num zepelim indestrutível de grande velocidade».

DEPECHE MODE, THE HUMAN LEAGUE OU MODERN TALKING? «Depeche Mode a dar uma queca com Billy Idol na cama de Vangelis e toda a cena pintada por Pink Floyd, como imaginado por Giorgio Moroder. É inspirador.»


STUDIO REPORT POR JOÃO CORREIA / FOTOGRAFIA CORTESIA DA BANDA

«UMA BANDA DO NOSSO NÍVEL TEM DE SER RELEVANTE.»

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oimbra, Agosto de 2018. A Ultraje foi até ao estúdio Golden Jack, de João Dourado, para ouvir em primeira mão os temas de sucessão a “Bleak Fragments”, lançado em 2016. Pareceu-nos relativamente rápida a edição de um disco novo passado pouco mais de 2 anos. Guilherme Busato (guitarra) explica o motivo. «Estou sempre em casa a compor. Comecei a trazer coisas para o estúdio e tudo surgiu daí. Tínhamos tempo disponível, disse ao pessoal para se juntar e começámos a tratar do novo disco. Mas foi um processo longo, demorou uns dois anos a compor.» Quase que parece que o novo disco foi iniciado mal a banda terminou o anterior. «Foi um pouco isso», retoma Guilherme. «Promovemos o disco anterior na estrada e começámos a pensar em novos temas. Parece que foi rápido, mas na verdade até foi demorado, cerca de dois anos». João Mateus (voz) acrescenta outros factores. «É algo que está enraizado na banda, pois não fugimos muito do EP “Into The Fire” para o “Bleak Fragments”. Divulgámos esses trabalhos em força ao vivo durante o primeiro ano e, no segundo, misturámos as apresentações ao vivo e voltámos ao estúdio. Não paramos só para compor: estamos sempre em movimento, não abrandamos os concertos para criar novos temas, fazemos os dois processos em simultâneo. Com “The Vile Manifesto” será idêntico, vamos para a estrada em 2019 e em 2020 intercalaremos concertos com criação de novos temas. Uma banda do nosso nível tem de ser relevante – se passamos três ou quatro anos sem dizer 'estamos aqui!', as pessoas esquecem-se, a banda desvanece.» A audição inicial dos temas de “The Vile Manifesto” revela um upgrade considerável ao som da banda – mais agressivo, muito mais negro e também muito mais directo. No entanto, depressa começam os paradigmas: ouvem-se passagens nitidamente similares a Megadeth, riffs e estruturas bastante complexas a lembrar Atheist de vários períodos, solos magníficos na linha dos clássicos thrash dos anos 80... Ou seja, uma fórmula bastante distinta de “Bleak Fragments”, um disco repleto de experimentação e progresso. Busato começa por dizer que «continua progressivo, mas muito mais pesado,

até obscuro, uma coisa do mal. Não foi planeado, mas já tínhamos em mente um som mais agressivo e negro. Adoramos o disco anterior, mas não queríamos repetir essa fórmula. Talvez o próximo seja outra coisa. Como cada um dos cinco membros gosta de coisas tão distintas... o Alex (guitarra) adora o glam dos anos 80, o Bruno é mais virado para o technical death metal...» No entanto, “The Vile Manifesto” parece ser um disco mais directo e pesado em detrimento de menos progressivo. Busato contraria essa ideia e afirma que existem bastantes elementos progressivos no novo disco. Mateus aprofunda: «Não foi planeado, mas olhámos uns para os outros e pensámos que tanto o EP como o “Bleak Fragments” já eram tão ricos em termos de variedade que experimentámos um som mais directo. Em resumo, decidimos cortar muito do que ouves no “Bleak Fragments” para fazer este disco, embora consigas perceber que há muitos elementos desse disco neste novo. Não largamos o nosso experimentalismo, cada música tem um pormenor que identifica os Destroyers. O “The Vile Manifesto” está principalmente baseado em death metal, mas consegues perceber que tem a assinatura Destroyers Of All.» Ao ouvir “The Vile Manifesto” é fácil de perceber que ocorreu uma evolução tremenda em termos de maturidade e foco musical. Sendo que os Destroyers Of All foram um dia considerados Banda do Dia pela revista Terrorizer, com o novo disco prestes a sair certamente que houve alguma proposta de uma ou outra editora mais conhecida interessada em representar a banda. O trabalho de sapa (promoção, contactos com editoras, etc.) é fundamental. A banda está actualmente assinada com a Mosher Records, uma conhecida editora nacional de Coimbra. Ficou no ar a questão de uma maior expressão numa editora estrangeira. Guilherme e João respondem. «Temos tido contacto com algumas editoras interessadas. Algumas deram retorno, mas as propostas apresentadas não foram satisfatórias, principalmente em questão de dinheiros envolvidos. Claro que gostaríamos de assinar um contrato com uma major, mas estamos muito felizes com o trabalho da Mosher Records – o Rui [N.R.: proprietário da Mosher Records] está do nosso lado, apoia-nos, é da nossa 33 - ULTRAJE #19

cidade. Isso significa imenso para nós, principalmente termos controlo sobre as nossas criações.» Também nas gravações não se mexeu na equipa, com João Dourado a tomar conta de todos os aspectos de estúdio de “The Vile Manifesto”. A banda nem pensou noutra opção por vários motivos, como explicam Guilherme e João. «Passamos a vida a dizer que o Dourado é o sexto elemento dos Destroyers Of All. Ele conhece-nos desde a nossa génese, quando ainda nem tinha estúdio, e fomos o primeiro trabalho profissional dele. É um amigo, sabe o que faz, é da nossa cidade, está próximo... Tudo vantagens.» Claro que a mesa de bilhar que ele tem no estúdio deve ter sido outra mais-valia. «Não só a mesa, como a associação de bilhar da AAC mesmo ao lado da casa dele! [risos] Com o Dourado sentimo-nos à vontade – se for para beber e apanharmos uma bebedeira, apanhamos; se for para trabalhar, trabalhamos. Ele conhece o nosso som, o que queremos, a nossa maneira de trabalhar... Ele entende tudo isso muito facilmente, conhece-nos bem e tem uma visão muito avançada do que é para fazer. As gravações demoraram três meses; o resto foram detalhes: orquestrações, etc.. Aliás, nem o Dourado nos queria lá dentro mais tempo do que isso! [risos]» Para o final ficaram os planos de promoção do álbum, a sair em Fevereiro de 2019. A banda já tem algumas datas confirmadas, mas João Mateus prefere ser cauteloso sobre a divulgação de concertos. «Este concerto é definitivo: dia 2 de Fevereiro é a apresentação do disco no Massas Club, em Coimbra, com os Serrabulho, Terror Empire e Dallian como bandas de apoio. Estamos a preparar o lançamento, preparámos o lyric-video... Agora é que estamos a fechar datas. Mas sim, para 2019 vamos andar muito na estrada, tanto em Portugal como no estrangeiro, tocamos onde surgirem oportunidades. O processo de lançar um disco novo inclui sempre tocar ao vivo. Felizmente, já nos convidam para eventos maiores, como o Vagos deste ano. Gostávamos de tocar em todas as cidades de Portugal, mas nem todas têm festivais. Para já, o público já tem acesso ao lyric-video que foi promovido em primeira mão na Ultraje e que tem tido um bom número de visualizações.»


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om A. Travo. Não fossem vocês parar a Lisboa com a troca de vogais, caso lessem isto na diagonal. De Lisboa são os Trevo, com E. Nada têm de psych ou de stoner rock. Portanto, não se percam. Voltemos ao ponto de partida. Os Travo são de Braga e dizem ter nascido numa garagem em meados de 2015. Após algumas reestruturações, a banda chegou até à formação actual com um percurso carregado de partilhas. As suficientes para termos tomado a liberdade de as esquematizar numa espécie de árvore genealógica de sonoridades. O trombone deu lugar a um rock que se funde agora numa ambiência psych / stoner / post. Em 2016, o lançamento do EP "Santa Casa" ditou a estreia dos Travo. Apresentaram-se ao público com uma sonoridade um tanto ou quanto diferente daquela que viriam a mostrar daí em diante. Em 2017, a participação da banda nas batalhas rurais (consagrada vencedora com acesso a tocar no Festival Rodellus) serviu de trampolim para o lançamento daquele que viria a ser o ponto de viragem na história da banda – o EP "n´O Silo". Gravado no estúdio homónimo sediado na cidade do Porto, ao vivo e numa sessão apenas. Por esta altura, já se devem ter questionado o que terá de tão especial a vila italiana Travo para a banda lhe ter usado o nome. Fizemos a mesma questão. «A verdade é que não

Castelo Branco e acabou por se tornar amigo da banda. No início deste ano, juntamente com outras pessoas, decidiu começar a promotora Mad Medusa com o fim de promover o melhor do stoner, doom, hard rock, sludge e rock psicadélico em Portugal. Até agora tem tudo corrido muito bem.»

sabemos. No início usávamos essa desculpa para o porquê de termos escolhido este nome. Parecia-nos bem mais interessante do que dizer que o nome tinha surgido num brainstorming a meio de uma aula de secundário.» Há uns meses, o agenciamento dos Travo ficou a cargo da promotora Mad Medusa. A banda juntou-se assim a nomes conhecidos do panorama stoner rock nacional, como os Her Name Was Fire, It Was The Elf, NU e Sun Mammuth. A banda conta como surgiu o convite. «O Zé Calheiros acompanhou-nos na gravação do nosso primeiro EP em

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Nunca sentiram vontade de passar uma mensagem com a música que foram fazendo. E mesmo com a ligeira oscilação sonora que foram sofrendo ao longo do tempo, os Travo explicam: «Preocupamo-nos mais em fazer música que expanda a consciência de quem a ouve. Não é nosso objectivo que tenha o mesmo efeito sobre todas as pessoas. Aliás, quantas mais experiências diferentes a nossa música causar nas pessoas, melhor. Achamos que o rock não escolhe géneros nem idades. Se por um lado já tivemos pessoas mais velhas a elogiarem a nossa música, por outro já nos chegou um vídeo de uma criança com os seus quatro ou cinco anos a dançar num concerto nosso.» Para 2019 não esperem menos que um abanão de sensações e uma fusão de musicalidade, já que os próprios apontaram a trilogia do "Senhor dos Anéis" como uma das bandas-sonoras que mais influenciou 2018. Aliando isto à ambição de quererem lançar o tão esperado primeiro álbum... Há-de ter influenciado qualquer coisa, não vos parece? É esperar para ver e ouvir.


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om a revolução digital e toda a inércia da indústria da música, o negócio de venda de gravações físicas foi violentamente esquartejado, o que obrigou a uma mudança de mentalidades e a uma reformulação de toda a estratégia de investimento e geração de lucro. A aposta em novos artistas tornou-se meticulosa e ponderada; os adiantamentos são mínimos, os gastos em produção esfumaram-se. Os lucros com os formatos digitais, apesar do seu crescimento, são irregulares e é difícil estabelecer relações de causa-efeito entre o investimento e as vendas/subscrições/streams. Não é de estranhar que as editoras se virassem para outra área do ciclo de vida do artista; um que continua a funcionar da mesma forma como nos anos dourados, em que os dividendos são proporcionais aos investimentos, em que o jogo de influências e manipulação de opinião ainda funcionam e em que as modas têm um poder avassalador: os espetáculos ao vivo. O negócio da venda de bilhetes é uma das singularidades bizarras do mundo dos negócios uma vez que o preço não é ditado pela procura/oferta, mas fixado artificialmente pelos promotores e pelos artistas. O promotor quer encaixar o maior lucro possível, porém o artista não quer criar nos fãs a sensação de exploração e segregação daqueles com menores recursos financeiros; o que conduz a valores mais baixos do que os que o mercado estaria disposto a pagar – uma anomalia que criou enormes oportunidades de negócio. Inicialmente, apenas pessoas individuais se aproveitavam desta situação comprando o número máximo de bilhetes, usando moradas de familiares e múltiplas contas/cartões bancários, contornando os limites por comprador. Não demorou muito até que alguns destes indivíduos ampliassem a sua operação, contratando mais pessoas, abrindo mais contas e introduzindo processos de automação potenciados por aplicações web. Com o escoamento dos bilhetes, os fãs são obrigados a desembolsar valores substancialmente superiores: 30 e 50 por cento são aumentos revoltantes, mas valores como 100, 200 ou 300 por cento são escandalosos, mesmo assim pálidos quando comparados com eventos da moda, como “rolling stones” onde foram registados markups extraterrestres. O negócio requer também um comprador e uma plataforma que permita uma suave transação. Logo surgiram inúmeros sites onde

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o processo de venda é trivializado e o de compra assegurado, exterminando os operadores individuais. Foram então criados algoritmos para aplicar teoria de jogos aos processos de compra, manipulação do preço e da disponibilidade de bilhetes de acordo com o tempo até ao espetáculo, localização e identidade do comprador. O próximo passo foi criar acordos com os promotores de concertos, que emitem os bilhetes, para lhes serem alocados lotes ao mesmo tempo que aos agentes vendedores de bilhetes. Ou seja, percentagens significativas do total de bilhetes já nem chegam a estar disponíveis ao público ao preço acordado com o artista. Agora sim, o mercado estava reduzido a cinzas, às custas dos fãs que tinham de inchar valores incomportáveis ou então ficar à porta, excluídos. Simultaneamente, estas empresas encaixavam lucros comparáveis aos das editoras, sem qualquer criação de valor ou movimentação na economia (através do aluguer de recintos, pessoal, equipamento, etc.), servindo-se somente de todo o esforço alheio para enriquecer à custa da paixão dos fãs. E não é por falta de escrutínio que a situação se mantém. Desde denúncias anónimas, reportagens com câmara oculta, coligações de ética e até mesmo investigações por comissões parlamentares; tudo é branqueado e aceite sob o pretexto de agilizar o mercado e aumentar a confiança na transação de bilhetes entre consumidores. Alguns artistas insurgiram-se contra esta prática, exigindo rigorosos controlos de identidade à entrada dos espetáculos, obrigando o comprador a estar presente, mas na prática estas medidas não são aplicadas. Outros canalizaram os seus bilhetes para plataformas que apenas permitem a transação de bilhetes por valor igual ou inferior ao original. Estes mecanismos trazem alguma luz a um universo que se encontra quebrado e putrefacto. Existem inúmeras situações no nosso dia-a-dia onde este circo não é permitido, e que deveriam pautar as regras a aplicar aos espetáculos musicais... Alguém consegue imaginar vender uma reserva num hotel a outra pessoa? Um lugar num avião? O direito de voto numa eleição? Todas estas situações estão alicerçadas em mecanismos de identificação que nos são naturais e transparentes. Porquê então continuar a alimentar esta corja?


em

destaque

KMFDM LIVE IN THE USSA EARMUSIC INDUSTRIAL

S

e ouvirmos "Live In The USSA" - o novo álbum ao vivo dos KMFDM - num bom sistema de som e fecharmos os olhos, quase poderemos acreditar de

que estamos mesmo num espectáculo deste colectivo internacional, tal é a qualidade da gravação e da produção. Com um alinhamento de 12 temas onde metade foram escolhidas para promover o trabalho de estúdio mais recente da banda ("Hell Yeah", 2017) e as restantes seis faixas incidiram em temas mais antigos, com os destaques a recair em clássicos como "Godlike" ou "Virus". Abrindo com o hino "Freak Flag" - ao contrário da icónica "D.I.Y.", de 1999, que durante muito tempo teve a responsabilidade de abrir os concertos da banda -, percebemos de imediato o quão fieis ao trabalho original de estúdio estes temas conseguem ser, acrescentando uma rica e preenchida atmosfera que só se consegue numa captação ao

vivo e todo o groove que lhe é inerente. Para além disso, quando faixas mais electrónicas ganham toda uma nova identidade, devido à roupagem que lhes é dada, devido ao recurso das guitarras eléctricas e da bateria que acompanha este colectivo ao vivo, a sonoridade dos KMFDM ganha imediatamente todo um novo peso e dimensão. De facto, não é só o ouvinte que pode ficar impressionado, pois também o mentor Sascha Konietzko ficou, acabando por integrar Andee Blacksugar - um dos membros ao vivo - na formação da banda. Um grande disco para ser apreciado por todos os amantes do género.

Joel Costa 8/10

Tim Skold e Sascha Konietzko

Fotografia: Cortesia earMUSIC

Foram muitos os músicos que deixaram a sua marca nos KMFDM. Um deles trata-se de Tim Skold, que substituiu Twiggy Ramirez na formação de Marilyn Manson. Por: Joel Costa

Tim Skold (na foto, à esquerda) fez parte de uma das formações clássicas dos KMFDM, tornando-se uma peça fulcral em álbuns como "Symbols", "Adios" e "Attak". Quando a banda acabou, em 1999, Skold juntou-se aos actuais membros Sascha Konietzko e Lucia Cifarelli para criar os MDFMK. Em 2002 reformavam juntos os KMFDM para a edição de "Attak", para logo depois integrar a formação de Marilyn Manson. Tim Skold viria a juntar-se novamente a Konietzko para o álbum "Blitz", de 2009, e para o projecto Skold vs. KMFDM.

ADAESTUO

ALKIMISTA

ANNORKOTH

ARTILLERY

KREW ZA KREW

ENTRE A RAZÃO E A EMOÇÃO

THE LAST DAYS

THE FACE OF FEAR

WTC

INDEPENDENTE

NORTHERN SILENCE

METAL BLADE

AVANT-GARDE BLACK METAL

DOOM METAL/ROCK

ATMOSPHERIC METAL

THRASH METAL

A

P

A

S

daestuo é um triunvirato dividido entre Finlândia, Polónia e EUA que tem o black metal como idioma de base, mas o seu conceito não termina aí. Intenso, denso e veloz, o primeiro álbum do trio não se esgota na distorção clássica do género, desintegrando-se por excursões ambientais altamente ritualistas, medonhas e expansivas ao mesmo tempo. Se o black metal actua como o objecto carnal do mundo que conhecemos, os rituais vocalizados e pintados por ondas sónicas esotéricas representam o Outro Lado que a banda deseja explorar para trazer de volta experiências sobrenaturais que não são palpáveis pelo tacto mas pela mente. Numa ordenação para se abrir mentalidades e quebrar dogmas, “Krew Za Krew” é como se fosse um cruzamento entre Nightbringer e Shibalba.

edro Serpa é autor de banda-desenhada, designer gráfico e, conforme confessa, também músico amador. Dá uma perninha aqui e ali enquanto guitarrista e baixista, mas é com Alkimista que se dá a conhecer à Ultraje - e nós fazemos o obséquio de retribuir. Fortemente direccionado ao doom metal - a certa altura até se pensa em Desire -, este disco, que anda a ser magicado desde 2003, também se vira para o rock alternativo sempre numa vertente melancólica com referências a Katatonia, algumas abordagens instrumentais não deixam de se influenciar em Moonspell da viragem do século e a aplicação vocal consegue exibir alguns resquícios breves de Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta), até porque as letras sobre existencialismo estão escritas e cantadas em português.

nnorkoth acabou em 2013, mas o músico russo não encerrou definitivamente a sua actividade e prosseguiu as suas ideias com Skyforest. “The Last Days” (2013), como um prenúncio do que ia acontecer, foi o último álbum e vê-se agora reeditado pela Northern Silence Productions. Com uma sonoridade atmosférica que combina black metal e shoegaze, este álbum roça o depressivo por um lado e o sonhador por outro com as suas paisagens sonoras épicas e etéreas uma dicotomia tão típica do género e do conceito que, por mais batida que possa ser, continua a despertar o interesse dos artistas para se explorar tal condição. Ainda que russo, Annorkoth é indicado para fãs de projectos austrais como Austere e Woods of Desolation.

ão precisos apenas alguns segundos para se activar a máquina do tempo e irmos parar à década de 80, ao período que muitos consideram a era de ouro do thrash. A produção é moderna e cortante; o conteúdo é exactamente aquilo que esperamos de uma banda old-school como os Artillery: à base de riffs e com leads de guitarra incendiários. Não há aqui qualquer ambição de modernidade (como down tunings extremos ou growls cavernosos) - o plano é simples: uma impiedosa avalanche de riffs! Temas como “Sworn Utopia” ou “Crossroads to Conspiracy” vão fazer os fãs de Testament sentirem-se em casa, num álbum onde até as faixas mais lentas transpiram groove. Uma lufada de ar fresco, com toques de mofo nostálgico.

DIOGO FERREIRA 7/10

diogo ferreira 8/10

diogo ferreira 7.5/10

GONÇALO l. MATIAS 8.5/10

ASHES REBORN

BILLYBIO

CANTIQUE LÉPREUX

CARRION MOTHER

CONTAMINATION

FEED THE FIRE

PAYSAGES POLAIRES

NOTHING REMAINS

FIRECUM

AFM

EISENWALD

ORDO MCM

DEATH/THRASH METAL

HARDCORE

MELODIC BLACK METAL

SLUDGE/DOOM METAL

T

C

S

C

hrash/death mid-tempo e semi-técnico é o que estes vimaranenses nos oferecem neste seu segundo longa-duração. Um trabalho coeso instrumentalmente, bem produzido e com enfoque lírico em assuntos que nos interessam, mas... à terceira faixa percebemos qual será o busílis deste álbum: falta de momentos que marquem, seja um refrão ou um determinado riff/gancho, já para não falar de uma qualquer música que memorizemos, que sobressaia. O trio está permanentemente no mesmo registo e, por exemplo, partes mais rápidas para quebrar o andamento - que se torna repetitivo - seriam bem-vindas. Apesar de ter alguma identidade tímbrica, a voz é monocórdica e sem os rasgos de raiva necessários para dar a estes nove temas outro élan. São 41 minutos 'competentes', mas devem arriscar (muito) mais num próximo trabalho.

om o background e underground punk nova-iorquinos como base, o vocalista/guitarrista dos seminais Biohazard, Billy Graziadei, estreia-se a solo com estes 38 minutos repletos de refrãos para gritar a plenos pulmões e, de seguida, entrar numa violenta roda de mosh. Não há aqui nada de propriamente revolucionário, apenas uma fórmula actualizada e bem conseguida do típico hardcore made in Nova Iorque. À margem disso, há temas mais extremos - quase thrash - (“No Apologies, No Regrets”) ou surf punk-rock (“Generation Z”). Mas a memória que nos fica é da influência clara de Hatebreed, pelo seu tom metálico predominante e guitarras iguais. Um disco diverso que agradará a seguidores de Hatebreed, Biohazard ou Sick Of It All. Não descobriram a pólvora mas mantêm a chama bem viva e intensa!

onicamente mais canadianos do que escandinavos neste segundo esforço discográfico - ainda que se ouçam coisas de Mayhem, por exemplo na faixa “Paysages Polaires III” -, os Cantique Lépreux oferecem sete novas faixas adequadas ao título do álbum. De facto, a sonoridade e a produção de “Paysages Polaires” são geladas, hipotérmicas até, o que origina uma atmosfera singular. Continuando a sugar inspiração directamente da região de onde é oriundo - Québec -, o trio ganha na faceta veloz e melódica protagonizada pelas guitarras lead, mas perde um pouco nos momentos mais lentos que não chegam a ser dissonantes, mas algo enfadonhos. Não deixa, no entanto, de ser um segundo longa-duração bem conseguido e maioritariamente sólido - pelo menos soam mais a si próprios nesta fase.

onfesso que quando visualizo, no contador, 54 minutos pela frente, fico logo de pé atrás. Usualmente, das duas uma: ou é um álbum incrível ou uma seca tremenda transformada em sofrimento atroz! No caso destes alemães, e para sua sorte (cuidado com o termo sorte aqui), é um misto de ambos. O quinteto bávaro regressa, seis anos depois da estreia, com quatro loooongas faixas, carregadas de niilismo, fatalismo e outros ismos pertinentes. Doom vs sludge e uma voz em espiral de sofrimento constante são os condimentos desta viagem negra ao fim das coisas, ao fim de tudo. É preciso mood para entrar neste trabalho (como nos seus congéneres), mas após estarmos lá verificamos que o fim está, de facto, próximo e é irreversível.

rUI VIEIRA 6.5/10

RUI VIEIRA 8/10

DIOGO FERREIRA 7/10

rui vieira 7/10

ARTILLERY: “Uma lufada de ar fresco, com toques de mofo nostálgico.” 36 - ULTRAJE #19


em

destaque mos perceber tudo o que nos transmite. Recorrendo a uma interpretação de um versículo da “Epístola aos Romanos” para título (ainda que não seja original se recordarmos o álbum “Rom 5:12” dos Marduk), logo se percebe que esta oferta discográfica é uma missa satânica do princípio ao fim, e é óptimo percebermos, enquanto ouvintes, que existe uma METAL CHURCH ténue segurança e luminosidade em algumas orações DAMNED IF YOU DO que depressa se transformam numa ferocidade NUCLEAR BLAST black/death metal tão habitual no som dos polacos, HEAVY METAL/HARD ROCK ainda que encontremos novos pormenores para além ergal sempre evidenciou extrema inteligência e os daquilo que já esperamos num álbum de Behemoth, seus conceitos são cada vez mais elitistas ao ponto como por exemplo um solo mais rock em “Sabbath de requerem um certo estudo/conhecimento se quiser- Master”. Interessante é também a subversão do Pai

N

Nosso em “Havohej Pantocrator” que, para além disso, apresenta uma guitarra acústica por cima de toda a distorção numa canção bem conseguida a nível melódico e que representa muito bem a tal sensação de eucaristia negra. Por mais que as guitarras sejam o centro das atenções - tanto em relação à melodia como à dissonância -, o baixo é promovido com muita presença e groove, havendo espaço ainda para um clímax atmosférico em “We Are The Next 1000 Years”. Os mais atentos encontrarão pedacinhos de música que se podiam ouvir facilmente em álbuns de Morbid Angel e Mayhem.

Diogo Ferreira 8/10

Fotografia: Melissa Castro

Fotografia: Melissa Castro

Fundados em 1980, com algumas interrupções pelo meio, os Metal Church contam com 12 álbuns. Por: Diogo Ferreira

Com quase 40 anos de carreira, os norte-americanos Metal Church são, há já muitos anos, creditados coma uma força empreendedora da música pesada que influenciou gigantes como Metallica. Em 2012, a Allmusic escrevia que a banda mostra uma «musicalidade incrivelmente coesa», enquanto a Entertainment Weekly, também no mesmo ano, classificava os vocais como «penetrantemente berrados».

CHROME DIVISION

DÉCEMBRE NOIR

DEGREDO

DEMONBREED

ONE LAST RIDE

AUTUMN KINGS

A NOITE DOS TEMPOS

HUNTING HERETICS

NUCLEAR BLAST

LIFEFORCE

HARVEST OF DEATH

TESTIMONY

HEAVY METAL/HARD ROCK

MELODIC DEATH/DOOM METAL

BLACK METAL/AMBIENT

DEATH METAL

V

O

P

O

er Shagrath a elogiar Beyoncé não parece muito normal. Vem isso a propósito de Missela, a voz pop escolhida para o tema “Walk Away In Shame”, música que faz parte deste que é – segundo o próprio – o último álbum de Chrome Division. O side-project do líder dos lendários noruegueses Dimmu Borgir despede-se com este quinto capítulo de hard n’ heavy descomprometido mas que se tornou um caso sério de popularidade. “One Last Ride” é uma última viagem que deixará algumas saudades mas, ao mesmo tempo, poderá ser a melhor coisa a fazer com um projecto destes que corre o risco de se esgotar (se já não aconteceu). Foi uma viagem agradável, sempre no caminho do rock alegre para contrapor às trevas do seu outro eu.

s dias longos de Verão já lá vão. O Outono já vai alto e o Inverno aproxima-se, a escuridão toma conta de tudo. Homem e Natureza são alvo de mudança. As depressões sazonais são uma realidade. “Autumn Kings” é a banda-sonora ideal. Da Turíngia (Alemanha), os Décembre Noir pautam a aflição da época com composições emocionais (doom metal melódico) e pesadas (death metal) que tanto nos oferecem um sentimento de poder sobre os nossos medos como um receio repentino sobre a nossa existência. Atmosférico e bem produzido, neste disco reina a maturidade de uma malha de guitarra melodiosa combinada com arranjos de fundo, sem esquecer o omnipresente e forte growl de Lars Dotzauer. Indicado para fãs de October Tide e My Dying Bride.

ertencentes ao Aldebaran Circle, onde também estão bandas como Ordem Satânica ou Trono Além Morte, os Degredo, com o seu primeiro álbum após várias demos desde 2012, proporcionam uma viagem florestal indicada estritamente para conhecedores do lançamento “Das Tor”, do projecto suíço Paysage d’Hiver. Neste “A Noite dos Tempos” ouvimos um black metal tão denso e arcaico (tanto na execução como na captação) que se confunde com o vento a roçar a neve da Serra da Estrela, ao ponto de ficarmos completamente embrenhados num corrupio delirante – um trance autêntico. Na segunda parte, com mais duas faixas a tocar quase os 20 minutos de duração, os Degredo enveredam por uma sonoridade ambiente que pode muito ser caracterizada como drone rural. Ritualista e intenso.

s germânicos Demonbreed são relativamente recentes (2015) e desde então que as suas edições têm sido frequentes. Depois de um split e um álbum de estreia, chega-nos agora um novo EP de cinco temas onde o agrupamento oriundo de Marburg não dá mole por um único segundo. Death metal pejado de groove, com garra e solto, é a fórmula eficaz e que mantém o interesse ao longo destes 19 minutos, onde podemos ouvir Suécia e Holanda. Com o 'tempo metálico' cada vez mais rápido, muitas bandas optam por mini-álbuns ou EPs, e essa pode revelar-se uma óptima opção. Não cansa (um estilo já saturado), satisfaz q.b. e deixa-nos com água na boca para um próximo lançamento. Os tempos e os métodos estão a mudar...

RUI VIEIRA 7.5/10

DIOGO FERREIRA 7/10

DIOGO FERREIRA 7.5/10

rui vieira 7.5/10

DIRGE

DØDSFERD

EINHERJER

GOATHAMMER

LOST EMPYREAN

DISEASED REMNANTS OF A DYING WORLD

NORRONE SPOR

CEREMONY OF MORBID DESTRUCTION

DEBEMUR MORTI

TRANSCENDING OBSCURITY

INDIE RECORDINGS

HELLS HEADBANGERS

SLUDGE METAL

BLACK METAL

VIKING METAL

BLACK/DEATH METAL

O

D

s veteranos parisienses Dirge voltam a dar que ouvir com “Lost Empyrean”, um disco na melhor tradição francesa de música extrema, mas emotiva, respeitando sempre o som de marca da banda desde 1994. “Wingless Multitudes” é o ponto de partida de uma viagem pelas estradas do doom, do sludge, do post-metal e do industrial facilmente nos apercebemos que o som dos Dirge é algo meio universal, meio urbi et orbi, mas sem cair em previsibilidades. Ouvem-se traços de Godflesh, de Paradise Lost mais antigo, do assincronismo de uns Neurosis... Enfim, nada a que o elitismo musical da Debemur Morti já não nos tenha habituado. “Algid Troy” e “The Burden Of Almost” são canções portentosas. Produção perfeita. Venham lá tocar a Portugal, pessoal.

o black metal mais cru ao mais punkish e ao mais depressivo, a paisagem sonora dos gregos Dødsferd é assim avassaladora. Continuando aquilo que foi feito sonicamente em “Wastes of Life” (2015), o trio prossegue uma caminhada depressiva entre cidades desoladas pelo caos e apartamentos ocos de vontade de viver. Com cinco longas faixas (uma até chega aos 16 minutos de duração), este novo álbum dá aso à utilização de repetição em relação a malhas de guitarra que, desta feita, proporcionam uma espécie de anzol aos sentidos de quem ouve – agarra e não solta. Contudo tem que se anotar a existência de leads bem sacados aqui e ali, bem como uma produção polida q.b. que não trai a estética auditiva do black metal.

joão correia 7.5/10

DIOGO FERREIRA 7.5/10

F

undados na primeira metade dos 90s, por altura da explosão artística e criminal do black metal norueguês, os Einherjer direccionaram o seu conceito à propagação da herança nórdica. Passados 25 anos, o quarteto continua a sua demanda histórica e musical com um sexto álbum que junta em si mesmo a sonoridade de um black metal polido e do rock n’ roll. Com algumas letras em inglês 15 anos depois da última opção tomada nesse sentido, a actualidade sonora da banda também nos oferece um sentido de folclore viking através de faixas a mid-tempo e com um teor épico como é sentido na penúltima “Av Djupare Røtter”. A energia da segunda “Mine Våpen Mine Ord” é outro momento a ter em conta.

DEGREDO: “Ritualista e intenso.” 37 - ULTRAJE #19

DIOGO FERREIRA 7/10

A

pesar do título deste álbum de estreia, os canadianos Goathammer não são de cerimónias no que toca a apresentar o seu black metal visceral e porcalhão. Apesar de estar constantemente envolvido numa cápsula de raiva (aparentemente) descontrolada, em que não são permitidos quaisquer artifícios de estúdio, este “Ceremony of Morbid Destruction” até se mostra mais interessante do que o habitual lançamento de underground que só o mais die hard dos fãs do género consegue ouvir. Os elementos thrash e death dão a agressividade e os ganchos aliam-se à derrocada de black metal que dá carácter a temas como “Invoking the Sadistic Spirits” e complexidade a outros maiores como “Astral Crucifixion” e “Perverted Blasphemy”. Uma bela cerimónia de apresentação. tiago neves 7/10


em

destaque

OPETH GARDEN OF THE TITANS NUCLEAR BLAST PROG METAL/ROCK

N

unca uma banda aborrecida ao vivo - algo que se confirma com este registo em terras do Tio Sam. O primeiro da formação actual e de Joakim Svalberg,

que enriquece com grande classe a devastação libertada no icónico anfiteatro de Red Rocks, no Colorado. Centrada na última proposta da banda, "Sorceress", esta missiva inclui ainda clássicos como "Demon of the Fall" ou "Deliverance", que gracejaram as setlists dos últimos anos. A única surpresa é a inclusão de "Era" que, apesar de não ser um dos galardões da banda, foi escolhida como single, do qual resultou um bizarro videoclip. Apesar de musicalmente reproduzir impecavelmente o que podemos encontrar nos álbuns, os pontos fortes são a produção, ambiências e a claridade. Em estúdio, os Opeth caracterizam-se por uma exigente figura de estilo, principalmente no que toca aos timbres das guitarras, arranjos e

orquestrações, nomeadamente nos últimos registos, alicerçados em sons menos saturados e mais escuros. Neste espectáculo, os sons são mais acutilantes e directos, com a voz de Mikael, cristalina, a liderar. Existe ainda uma "The Devil’s Orchard" como nunca a ouvimos antes e a monstruosa "Heir Apparent" (uma das melhores composições dos últimos anos) com uma força avassaladora. A conclusão dá-se com a majestosa coda de "Deliverance", que fecha com chave de ouro uma noite de qualidade invulgar no reino do metal. Um álbum bastante fluído e extremamente revelador.

GONÇALO MATIAS 9/10

Steven Wilson & Mikael Akerfeldt

Fotografia: Steve Thrasher

Ainda que Opeth seja um animal que tem de ser alimentado dignamente, há mais para além desta banda. Por: Diogo Ferreira

O death metal e o art-rock cruzaram-se na viragem do século quando Mikael Akerfeldt decidiu incluir Steven Wilson (Porcupine Tree) nas colaborações do visionário "Blackwater Park" (2001). Muitos anos mais tarde, sem que os dois músicos tenham alguma vez cessado contacto, surgiram os Storm Corrosion, projecto em que se misturou a obscuridade de Opeth e o experimentalismo de Steven Wilson. O álbum de título homónimo saiu em 2012.

GOATS OF DOOM

GODVLAD

GROZA

IDLE HANDS

RUKOUS

DELUSIONAL DIMENSIONS

UNIFIED IN VOID

DON'T WASTE YOUR TIME

PRIMITIVE REACTION

INDEPENDENTE

AOP

EISENWALD

BLACK METAL

GROOVE/INDUSTRIAL METAL

BLACK METAL

NWOBHM

D

C

G

H

a Finlândia podemos esperar sempre duas coisas certas: metal demasiado sinfónico ou algum do melhor black metal cru que se encontra no planeta. Os Goats of Doom não são carne nem peixe, mas um híbrido entre o black metal tradicional com os riffs de marca noruegueses e partes melódicas com muito boas ideias. Quando a banda embarca por caminhos menos previsíveis com ideias do rock de vanguarda dos anos 80 (“Tuhkasta Valettu”), conseguem agradar com facilidade. Em menos palavras, “Rukous” é um trabalho de black metal ora polido, ora a fugir para o negrume norueguês/finlandês, sem nunca meter os pés nem num país, nem no outro. Ah – é um trabalho que vai crescendo e que não deve ser ignorado. Deixar maturar e consumir aos poucos.

oisa que os portugueses Godvlad nunca fizeram foi deixar a sua sonoridade estagnar. Ao terceiro álbum que surge quatro anos depois de “Bipolar” -, o grupo, que até já incluiu uma voz feminina e optou, por momentos, por direcções mais góticas, regressa aos discos com máxima força. Com uma produção arrojada, que é capaz de incutir alguma atmosfera aqui e ali, “Delusional Dimensions” manda-se por campos musicais relacionados ao groove metal com riffs cativantes que também se desenrolam em solos e, mais audivelmente, há uma abordagem clara ao industrial com arranjos electrónicos muito bem inseridos que dão uma cor revigorante a nível sónico, o que é preponderante à forma como iremos usufruir deste trabalho. Demorou, mas parece-nos que foi tudo bem pensado.

roza é a novidade mais fresca do black metal germânico com o debutante “Unified in Void”. Ao longo de cinco faixas, o quarteto sem cara - mais um! - emite uma sonoridade atmosférica repleta de rapidez flamejante e melodia comovente a roçar um épico gelado com vislumbres de luz no meio de uma floresta toda ela negra e áspera. Na realidade, esta banda sediada na Baviera não exercita nada de novo e o que oferecem já foi desmistificado por Mgła e, recentemente, por Uada; no entanto, o que aqui se ouve é de um calibre de louvar e, se bem promovido, fará com certeza o underground retumbar de regozijo por termos mais um colectivo digno do nosso tempo e dos nossos ouvidos. Aconselhável!

eavy metal tradicional, rock sujo e uma toada soft é o que os Idle Hands nos propõem com “Don’t Waste Your Time”, um EP que de certa forma nos confunde quando ouvimos ares de Duran Duran ou The Cure, uma bateria com a pedalada dos Maiden e um jogo de guitarras na melhor tradição do rock FM. “Blade And The Will” parece um one-hit wonder dos anos 80 e “By Way Of Kingdom” dá-lhe seguimento com a voz a soar a Robert Smith de forma nada disfarçada. As guitarras e a bateria são o que separam este EP de pop para o metal, o que é curioso e até bem-vindo num panorama saturado de marasmo criativo. “Don’t Waste Your Time” poderá bem ser uma das últimas surpresas de 2018.

joão correia 7.5/10

diogo ferreira 7/10

DIOGO FERREIRA 8/10

joão correia 8/10

IN THE WOODS...

MALIST

MISOTHEIST

NEFASTU

CEASE THE DAY

IN THE CATACOMBS OF TIME

MISOTHEIST

OBSCURA TRANSCENDÊNCIA

DEBEMUR MORTI

NORTHERN SILENCE

TERRATUR POSSESSIONS

PURODIUM

DARK/PROGRESSIVE METAL

BLACK METAL

BLACK METAL

BLACK METAL

I

n The Woods… não é black, não é death, não é doom, não é prog – é de tudo um pouco e sabemos, com firmeza, que é uma banda de culto. Neste segundo álbum desde que voltaram ao activo em 2014, a banda norueguesa aperfeiçoa a sua sonoridade através de melodias estrondosas que nos enriquecem os sentidos e que nos remetem ao doom melancólico, mas também por incursões mais agressivas que nos mandam de volta à década de 1990, sem esquecer os teclados à anos 70 que proporcionam uma ambiência prog, ainda que sóbria. “Cease the Day” é uma viagem sonora com um fluxo fácil de assimilar e que certamente satisfará tanto antigos como novos fãs. Indicado para apreciadores de Opeth e Woods Of Ypres. diogo ferreira 8/10

C

omo grande parte dos projectos musicais da actualidade, muito por causa da facilidade em chegar-se às tecnologias digitais e por o individualismo estar cada vez mais em voga, o artista russo por detrás de Malist começou a brincar em casa. Depois de uma demo, assinou pela Northern Silence Productions, editora que distribui este álbum de estreia. Ainda que seja um projecto de um homem só, este “In the Catacombs of Time” está longe de uma produção áspera, soando tudo deveras orgânico. Liricamente inspirado na pura hostilidade da própria vida que um dia há-de acabar e sonicamente norteado por riffs algo simples, mas cativantes, deambulamos entre a melancolia e o desespero com muita velocidade rítmica, melodia e decrepitude vocal. Há espaço para evoluir.

O

S

s noruegueses Misotheist praticam um black/death metal puro e sem rodeios e, como os próprios indicam, muito afastados de bandas que trajam 'capa e batina' dos pés à cabeça, preferindo apostar totalmente no som em vez de também na imagem. Não obstante, os Misotheist soam bastante a essas mesmas bandas que vão beber originalmente aos Portal - acresce o facto de o som em “Misotheist” ter o frio e a precisão nítida da Noruega, bem como a selvageria com que os nativos dos fiordes nos costumam cumprimentar. Três temas chegam para perceber que os Misotheist não andam aí para brincadeiras e que facilmente se poderão juntar ao rol dos nomes mais imundos do género, de Portal a The Ominous Circle. Dificilmente assimilável, “Misotheist” fará sentido para quem entender o género.

ediados na prolífica cena black metal portuense, os Nefastu até começaram bem com duas demos lançadas na viragem da primeira década do Séc. XXI e deram alguns concertos, incluindo um, datado de 2011, para abertura aos, até ver, caídos em desgraça Inquisition. Passaram seis anos desde o último lançamento e é com alguma surpresa positiva que surgem com um 7” em que se inclui três faixas de black metal doentio envolvido por uma crueza sonora típica que, apesar disso, permite-nos absorver tudo o que neste “Obscura Transcendência” acontece. Todavia, e por mais desdenhosos e desprezíveis que possam querer ser, acabam por adicionar algum sentido melódico que tão bem contrasta com o conceito nebuloso e nocturno que pretendem transmitir neste lançamento limitado a 150 cópias.

joão correia 7/10

diogo ferreira 7/10

diogo ferreira 7/10

IN THE WOODS...: “Uma viagem sonora.” 38 - ULTRAJE #19


em

destaque

Vampillia

Japão é mais do que cinema e comida. Relembramos três 'estranhas' bandas nipónicas. Por: Diogo Ferreira

por uma letra do nome da banda; por exemplo: “Scenes From Hell” (2010), “In Somniphobia” (2012), “Graveward” (2015) e agora “Heir To Despair”. Fundados em 1990, estes japoneses são das bandas mais mencionadas por colegas de profissão, especialmente por músicos do ciclo black metal norueguês e inglês, no que a influências diz SIGH respeito – a vasta discografia e óptimas análises HEIR TO DESPAIR críticas aos seus trabalhos não enganam, é como o CANDLELIGHT algodão versus sujidade. Visto pela editora como o AVANT-GARDE METAL primeiro álbum de Sigh que intencionalmente opta por usar muito do tacto musical nipónico, refira-se om o novo álbum, os Sigh fecham mais um ciclo - repare-se que cada grupo de quatro álbuns (e um que Mirai Kawashima utiliza técnicas de canto locais e o instrumento tradicional shamisen, tocado por EP, de 1997, para chatear) tem títulos começados

C

Kevin Kmetz (ex-Estradasphere), vai tendo o seu destaque ao longo do álbum. Por outro lado, desta vez, as incursões sinfónicas não fazem parte da jornada. Actualmente já quase nem conseguimos separar prog de avant-garde e de experimentalismo, portanto os Sigh podem muito bem ser isso tudo com aditivos de black metal, porque o estatuto de quase 30 anos de carreira dá-lhes essa permissão. Ao longo das contagiantes nove faixas vamos ouvir melodias orientais, riffs orelhudos que se transformam em solos de shredding frenético, breve saxofone, ritualismo e loucura sonora que nos põe em sentido.

Diogo Ferreira 8/10

Estavámos em 1992 e ainda o termo post não era falado quando os Envy, banda emocional e singular na forma como aborda sentimentos, já criavam sonoridades atmosféricas que hoje em dia podem ser consideradas como post-hardcore / post-metal. Mais extremos e experimentais, os Vampillia têm dado que falar na Europa com concertos ao lado de Alcest. Num campo virado ao heavy metal, os Versailles sobem ao palco com vestimentas relacionadas à anime e projectam um metal neoclássico cativante.

OHHMS

OPEN SURGERY

ORDER OF THE NAMELESS ONES

PSYCROPTIC

EXIST

AFTER BIRTH ABORTION

UTTER TO ME THE WORD OF WRATH

AS THE KINGDOM DROWNS

HOLY ROAR

BVR

IRON BONEHEAD

PROSTHETIC RECORDS

STONER/DOOM METAL

DEATH METAL

BLACK/DEATH METAL

TECHNICAL DEATH METAL

D

epois de terem arrebatado a imprensa especializada com “The Fool” (2017), este quarteto britânico volta à carga com o seu post-metal pejado de stoner e doom metal com toques de prog e hardcore (ainda que, desta vez, haja mesmo muito pouco deste último). Sempre a abanar a bandeira da defesa do animais e da conservação da natureza, os OHHMS são também conhecidos pelos seus longos temas. O primeiro, e mais longo de todos com 23 minutos, é um bom exemplo daquilo que a banda é capaz: os riffs bebem da cena stoner, a passada alimenta-se na lentidão mid-tempo do doom e as estruturas dinâmicas orientam-se ao prog. Mais directos e menos experimentais do que anteriormente, a carreira dos OHHMS continua sólida.

P

roduzido inteiramente pela banda, este EP de 21 minutos é o terceiro registo original dos suecos Open Surgery. Death metal na veia de Cannibal Corpse (talvez a principal influência) ou Morbid Angel – com as devidas referências suecas como Grave ou Vomitory –, é o que nos é apresentado por este quarteto oriundo de Finspång. São seis temas straight to the point com as variações típicas das bandas referidas (blasts vs mid-tempos); portanto, nada de desconhecido ou novo. Um trabalho consistente e sem floreados mas que é apenas isso, um EP competente de death metal mas que se dilui rapidamente no meio de tanta oferta, nomeadamente, dos clássicos já referidos. De qualquer maneira, é de salientar a forma determinada com que atacam o seu material.

DIOGO FERREIRA 7.5/10

O

Q

disco de estreia deste misterioso trio norte-americano é uma verdadeira injeção de brutal death metal, no melhor sentido, claro! Além da temática devastadora e dos riffs brutais dos oito temas (em apenas 29 minutos) deste registo, que seguem todos cânones do death metal mais clássico tipicamente vindo dos EUA, a abordagem dos Order of the Nameless Ones - sim, o nome da banda é mesmo para levar à letra... - é conjugada de forma cirúrgica com a atmosfera mórbida do black metal. Vozes cavernosas, riffs bárbaros e uma secção rítmica de bateria/baixo simplesmente avassaladora, contribuem para uma atmosfera cavernosa capaz de transportar o ouvinte para um abismo sem fim ao melhor estilo dos filmes de terror e gore. Uma boa surpresa.

uase a completar duas décadas de existência, o quarteto oriundo da Tasmânia (Austrália) volta à carga com mais um manifesto pejado de riffs. O que estes diabos (piada fácil, mas obrigatória) nos oferecem nestes nove temas é algo que pode ser descrito como death metal moderno tecnicista q.b.. Soa a muitas congéneres norte-americanas e esse é o principal defeito deste trabalho. Uma voz (sussurrada) feminina acompanha muitos destes temas – um pormenor genial –, mas não chega para destacar este álbum de tantas bandas e propostas como The Black Dahlia Murder. Jason Peppiatt também não ajuda ao quadro final. Outro tipo de voz e respectiva diversidade elevaria este disco a obrigatório. Assim, é só um disco razoável, com técnica e power mas em lume brando.

JOSÉ BRANCO 6/10

Rui Vieira 7/10

rui vieira 7/10

REVENGE

SARAH LONGFIELD

SLEGEST

SÖNAMBULA

DECEIVER.DISEASED.MIASMIC [EP]

DISPARITY

INTROVERT

BICÉFALO

SEASON OF MIST

SEASON OF MIST

DARK ESSENCE

XTREEM MUSIC

DEATH/BLACK METAL

PROG

BLACK/DOOM METAL

DEATH/DOOM METAL

A

guerrear no underground desde 2001, os canadianos Revenge já têm cinco álbuns e vários EPs no currículo. O novo lançamento de duas faixas é distribuído pela Season Of Mist, mostrando que a editora de renome não se rege apenas por uma distribuição polida. Se temos, por exemplo, Thy Catafalque ou Carach Angren no catálogo, também há espaço para uns Revenge imergidos numa sonoridade mucosa com guitarras crusty, solos dissonantes, bateria grindcore e gritos desprezíveis. Em suma, o que podemos retirar destes quase nove minutos de pestilência sónica é que o duo de Edmonton não pretende ser acessível ou afável, e a Season Of Mist dá-lhes a mão nisso. Sabe a pouco, mas também não passará muito disto. Um concerto será muito mais apelativo. diogo ferreira 6/10

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S

M

ianista, violinista, cantora e guitarrista. Sarah Longfield começou a dar nas vistas com a sua banda The Fine Constant, mas foi o YouTube quem lhe deu o estrelato enquanto influencer e artista musical. Neste seu álbum a solo, a guitarrista norte-americana não aprofunda a sua visão em grandes complexidades - as nove faixas perfazem, pasme-se, 29 minutos e 37 segundos -, oferecendo assim temas prog directos. Por aqui existem engraçados arranjos electrónicos em background, diferentes estruturas em faixas de apenas três minutos e até instrumentos de sopro, mas, tristemente, falta algo arrojado a este “Disparity”. Os leads e solos não representam aquele arrepio de pele e há uma tremenda falta de clímax. Há talento, mas as direcções têm de ser reavaliadas.

legest é o projecto que saiu da cabeça de Stig Ese, ex-membro de Vreid, que resolveu pegar nas suas influências de heavy metal e black metal e fundi-las num único projecto musical. Claro que isto não é nenhuma novidade (Satyricon e Kvelertak são uma realidade há já muito tempo), mas Slegest não deixa de ter o seu carisma próprio, um hard rock muito harmonioso e clássico que parece que estamos a ouvir AC/DC com vocalizações de black metal. Sendo este o terceiro disco, o grupo norueguês continua a apostar nas melodias das guitarras com força, em temas curtos que seguem a tradicional estrutura de verso-refrão-verso-refrão-solo-refrão e onde o espírito do hard n’ heavy mostra-se bem vivo.

isturar doom/sludge com death metal é um bom teaser, sem dúvida. Mas corresponderá à verdade? As guitarras são downtuned e sujas, a voz é gutural e o som alterna entre partes lentas e rápidas. Agora, a minha estupefacção é que disto há aos montes por aí e, nomeadamente, por cá. Se resolveram atribuir este rótulo a um som básico (nem vou para a parte da bateria, mal captada (?) e respectiva execução) de uma banda em início de carreira e auto-repetitiva, vou ali e já venho. Mas têm o seu mérito de conseguirem assinar com a Xtreem. Das duas uma: ou sou eu que estou completamente fora ou estes três espanhóis conseguiram vender gato por lebre à editora. Ouçam e tirem as vossas conclusões!

diogo ferreira 6/10

TIAGO NEVES 7/10

Rui vieira 5/10

OHHMS: “A carreira dos OHHMS continua sólida.” 39 - ULTRAJE #19


em

Os fãs dividem-se entre dois álbuns de The Ocean. Nós ajudamos numa breve observação.

Fotografia: Cortesia Metal Blade

destaque

a diferença entre estes dois é como do dia para a noite. Se bem que só depois dos The Ocean lançarem a segunda parte de “Phanerozoic” em 2020 poderemos dizer se o projecto de Robin Staps consegue fazer a ponte; para já podemos dizer que as notas finais de “Precambrian” ecoam pela intro deste novo disco, prosseguindo pela estrondosa “Cambrian II: THE OCEAN Eternal Recurrence” que mostra que os The Ocean PHANEROZOIC I: PALAEZOIC nunca brincam em serviço no que toca a oferecer-nos METAL BLADE música de elevada intensidade e qualidade. E se POST METAL os queremos ouvir no seu auge, “Silurian: Age of Scorpions” é um tema que cresce e se apodera do " hanerozoic" será uma dupla de álbuns que constituirão o elo de ligação entre “Precambrian” e ouvinte e “Permian: The Great Dying” é mais que o seu sucessor “Heliocentric”, já que, musicalmente, um encerramento em beleza, mas sim um monstro

de tema que demole quaisquer dúvidas de que os The Ocean pudessem perder o seu talento para criar música emblemática e inspiradora. Apesar da excelência, não se pode dizer que “Phenerozoic I” possa estar ao lado de outros trabalhos da banda, como o já referido “Precambrian” ou o recente “Pelagial”. Apesar de não haver um único tema que não tenha a sua própria identidade, o resultado final soa pouco coeso com alguns temas pouco memoráveis - o que vale é que os bons são melhores que bom.

P

TIAGO NEVES 8.5/10

"Precambrian" saiu em 2007 e é classificado pela Ultraje como um álbum épico, abrasivo e intenso, com um cariz trágico e revoltado. Mesmo podendo ser considerado como o pico da criatividade e perfeccionismo da banda alemã, em 2013 era lançado "Pelagial", que mostra a versatilidade da banda ao ter-se criado um álbum composto por músicas distintas que formam um único organismo. Ambos os discos foram lançados pela Metal Blade Records. Por: Diogo Ferreira

STILLA

SUIDAKRA

SVARTIDAUÐI

SVOID

SYNVILJOR

CIMBRIC YARNS

REVELATIONS OF THE RED SWORD

SPIRAL DANCE EP

NORDVIS

AFM

VÁN

SUN & MOON

BLACK METAL

CELTIC METAL

BLACK METAL

ALTERNATIVE ROCK

S

A

S

D

empre influenciados pela crueza da natureza nórdica, os suecos Stilla continuam sonicamente amargos e gélidos em mais um álbum que morderá os sentidos dos mais sensíveis. Cru q.b., “Synviljor” rege-se essencialmente por riffs velozes e cortantes naquela onda black metal dos 90s, mas com a adição de elementos exteriores (como por exemplo, teclados esporádicos) que dão um toque avant-garde muito breve. Este trabalho é, assim, algo como Enslaved meet qualquer-coisa-atmosférica-avant-garde. As estruturas são complexas, como um puzzle, e por vezes desconectadas entre si, o que exige uma atenção redobrada para não se perder o fio à meada - e se isso pode ser uma tarefa desafiante para quem cria, também pode ser um quebra-cabeças de se acompanhar e tirar total proveito.

rkadius Antonik não é só conhecido por ser mentor dos folkers SuidAkrA, mas também por ser um académico da música. A banda alemã e o seu metal celta dispensam apresentações. Depois de uma excursão por paisagens neoclássicas e épicas (“Realms Of Odoric”, 2016), Antonik & Cia. deixam novamente a explosão do metal para trás ao abordarem a herança celta através de um álbum puramente neofolk que dá, em certa conta e medida, seguimento ao disco anterior. Pode nem haver a utilização de instrumentos locais, mas a guitarra acústica e quente (assim como a produção) é presença assídua neste “Cimbric Yarns”, bem como a voz limpa envolvente e arranjos orquestrais que têm tido um lugar central na vida estudiosa e até lúdica do artista germânico.

eis anos depois do debutante “Flesh Cathedral” - ainda que tenham lançado três EPs pelo meio -, estes islandeses regressam aos álbuns através de um black metal de assinatura desapegado de tendências. O que melhor caracteriza este “Revelations of the Red Sword” é simplesmente o contraste entre o fundo sonoro lo-fi e lo-tuned, que tão bem representa a escuridão e a loucura, e a frente mais polida que é maioritariamente preenchida por uma guitarra lead melódica que se destaca principalmente na última “Aureum Lux”. Resumidamente, e por palavras mais directas, temos aqui a dicotomia entre desarmonia e harmonia numa só banda e, tantas vezes, numa só faixa. O hipnotismo deste disco é inquietante, obscuro e quase ritualista, sentindo-se até toda uma toada de licantropia.

o black metal ao rock, este duo húngaro não olha a estéticas sonoras dogmáticas para atingir o seu propósito na indústria. Prova disso é este novo EP de quatro faixas que, sendo essencialmente um trabalho de rock alternativo, tanto bebe de atmosferas à The Cure logo na inaugural “Stand In Awe” como se vira ao indie rock corrido na última “The Velvet Cell”. Pelo meio, o post-punk também dá ar de si nalguns ritmos e o piano ganha o seu espaço em “Long I’ve Gone”. O menos bem-conseguido será porventura a voz limpa que percorre todo o EP de forma não muito exigente. Poderá eventualmente ser uma experiência e um reviver arcaico do género, mas não foi algo ganho de todo.

DIOGO FERREIRA 7/10

diogo ferreira 7/10

DIOGO FERREIRA 7/10

diogo ferreira 6.5/10

THE SACRIFICE

UNREQVITED

VEILBURNER

VETALA

THE SACRIFICE

MOSAIC I: I'AMOUR ET L'ARDEUR

A SIRE TO THE GHOULS OF LUNACY

RETARDED NECRO DEMENTIAL HOLE

SEASON OF MIST

NORTHERN SILENCE

TRANSCENDING OBSCURITY

HARVEST OF DEATH

SYNTHWAVE

POST-ROCK/ATMOSPHERIC METAL

BLACK/DEATH METAL

BLACK METAL

É

É

O

D

cada vez mais comum a electrónica intrometer-se no metal, seja através de misturas de estilos - como é o caso do último álbum dos The Lion’s Daughter -, seja mesmo através de assinaturas de contractos com bandas plenamente electrónicas. Neste caso, a Season Of Mist pegou nos The Sacrifice e aqui temos uma synthwave com batida dançante e sintetizadores dinâmicos que bebem dos 80s, mas que, ao mesmo tempo, se coadunam à cena actual europeia. Longe de serem agressivos, como a slasherwave nos tem habituado com projectos como Gost, os The Sacrifice primam pela catchiness, pela inclusão de solos de guitarra e pelo entretenimento sonoro que entrará sem dificuldade nos sets dos passadores de música em festas góticas do underground parisiense e berlinense.

num cruzamento entre Mono e Ghost Bath que este projecto canadiano conduz o novo álbum. Se por um lado temos as incursões ao post-rock épico e sonhadoramente estimulante, por outro descemos à aflição com segmentos mais depressivos, especialmente devido à utilização de uma voz relacionada ao DSBM. O blakgaze não é posto de parte e tal aplicação deve-se essencialmente às guitarras densas que pintam o fundo de uma tela musical repleta de arranjos orquestrais que guiam o conceito da música para planos mais positivos e esperançosos ao invés das antigas influências directamente provenientes do black metal. Majestoso e, por vezes, angelical, este álbum é para se ouvir com um espírito sonhador e tentar largar sentimentos negativos mesmo que os vocais teimem em não deixar.

s americanos Veilburner entram de mansinho nos primeiros segundos mas com “Introvertovoid” logo desembocam em “Grand Declaration Of War” de Mayhem, uma das grandes referências deste duo auto-subsistente no seu quarto longa-duração. Para nossa felicidade, estes 53 minutos não se esgotam aí. Há algumas particularidades ao longo das oito faixas de black/death experimental, industrial e bastante psycho de Mephisto Deleterio e Chrisom Infernium, dupla que quer adicionar algo à cena e consegue. Por exemplo, “Panoramic Phantoms” tem um inesperado refrão catchy as hell. “Agony On Repeat” volta a “G.D.O.W.” e a Maniac, mas “Abattoir Noir” parece música de baile. Um trabalho de excepção para ouvidos exigentes feito por músicos exigentes e, sobretudo, inteligentes.

istorcidos, ressonantes e sem pudor pelo primor à estética, os Vetala são dos projectos black metal mais ‘vai-te foder’ que há em Portugal. Como o título tão bem indica, o novo trabalho deste duo é um distúrbio mórbido que se transporta ao som. Se por um lado há uma certa tentativa em fazer-se black metal dissonante mas com algum seguimento dito normal, por outro seremos engolidos por espasmos criativos que revelam o tal retardamento depravado sem qualquer rigor. É assim que os Vetala funcionam: cospem sons, ruídos e loucuras perversas sem olhar a meios ou normas. Em última análise, este álbum não é para ti, nem devia existir sequer, mas não deixamos de pensar que dava uma boa banda-sonora na hora da morte total.

diogo ferreira 7/10

diogo ferreira 7.5/10

rui vieira 8.5/10

diogo ferreira 3/10

VEILBURNER: “Um trabalho de excepção para ouvidos exigentes.” 40 - ULTRAJE #19


ÆOLIAN

BANE

BESRA

BLACK LOTUS

SNOW WAVE

BLACK MARKET METAL

TEMPLE OF TORTUROUS

INVERSE

MELODIC DEATH METAL

BLACKENED DEATH METAL

AVANT-GARDE METAL

DOOM METAL

SILENT WITNESS

ESOTERIC FORMULAE

A

ANHEDONIA

A

SONS OF SATURN

D

O

estrearem-se com "Silent Witness", a sonoridade dos espanhóis Æolian assenta no death metal melódico, deixando que as suas melodias floresçam apenas para dar lugar ao peso que categoriza a identidade nórdica do estilo. Recordando-nos uns In Flames ou até mesmo uns Sylosis, os Æolian conseguem impressionar com este seu primeiro disco.

o terceiro disco, os sérvios Bane dão continuidade à devastação iniciada aquando da sua estreia em 2010, e devastação não é uma palavra escolhida ao acaso, pois a bateria e a distorção presentes em "Esoteric Formulae" assemelham-se em muito a um cenário de guerra, dando-nos a sensação de estarmos a ser bombardeados por uma sonoridade opaca e frenética.

ividido em quatro temas, "Anhedonia" marca a estreia discográfica dos finlandeses Besra. Preenchido por tons melancólicos, vocais death metal e riffs graves, os músicos saltam do sludge para um jazz sombrio, que logo começa a abrir caminho para um shoegaze melódico e limpo apenas para culminar novamente num sludge devastador. Altamente recomendável.

s catalães Black Lotus sabiam que não podiam entrar com o pé errado e o que nos oferecem com o estreante "Sons Of Saturn" é um doom bem executado e calibrado, onde a melodia da voz contrasta maravilhosamente bem com o instrumental catastrófico que nos leva de arrastão rumo ao Juízo Final. "Sons Of Saturn" é tão bonito quanto o doom metal o pode ser.

BLOOD OAK

CROWHILL TALES

DEDPOOL

DEVCORD

INDEPENDENTE

INDEPENDENTE

BOERSMA

LONELYROOM

GROOVE METAL

THRASH/DEATH/DOOM/ATMOSPHERIC

GROOVE METAL

DEATH METAL

BORGE

IF I WERE A CROW

D

LIFECIRCLE

F

DYSTHYMIA

C

A

efinem-se como uma banda de groove metal e groove é, realmente, a melhor palavra para descrever o colectivo do Colorado, nos Estados Unidos. Semelhantes a uns Lamb Of God em início de carreira, o trabalho no EP "Borge" destaca-se pelos elementos atmosféricos e algo fantasmagóricos que ligam-se muito bem à proposta musical dos norte-americanos.

undados em 2005 e com um par de lançamentos de menor expressão pelo caminho, os húngaros Crowhill Tales têm em "If I Were A Crow" uma espécie de conto de fadas que logo se transforma numa lenda de terror. Assim se pode descrever a dualidade com que os sons deste disco se dão a conhecer, misturando doom com death e até black metal.

om "Lifecircle", os gerânicos Dedpool decidiram percorrer os conhecidos caminhos do thrash alemão mas procurando não esquecer deixar a sua marca presente. Com as guitarras a arranhar momentos melódicos sem que a voz e os restantes instrumentos baixem a guarda no lado mais extremo, "Lifecircle" é um disco competente, repleto de boas ideias e capaz de surpreender!

arrancar com " The Mortician" - uma faixa que presta homenagem ao historial clássico do país de onde vêm -, "Dysthymia", dos austríacos Devcord, é um disco revestido de elementos progressivos que utilizam o death metal como base para criarem músicas bem executadas e bonitas, numa dança de Bela e o Monstro. Destaque para o trabalho de guitarra e teclados.

DYSPHOTIC

FEEL NO PAIN

FINAL BREATH

FRAYLE

INDEPENDENTE

INDEPENDENTE

METALVILLE

LAY BARE / SEEING RED

DEATH METAL

THRASH METAL

DEATH/THRASH METAL

DOOM METAL

THE ETERNAL THRONE

I

INTO THE CHAOS

OF DEATH AND SIN

O

"O

THE WHITE WITCH

S

deal para quem procura a sua dose diária de metal extremo, "The Eternal Throne" combina o melhor do black com o death metal num estado de crueza pura que acorda os nossos instintos mais primordiais. Com uma melhor produção que saiba manter o aspecto cru mas dar-lhe outro tipo de contornos, os norte-americanos poderão vir a tornar-se como um nome a ter em conta.

EP "Into The Chaos" peca por alguma falta de rigor no que à velocidade da bateria em relação aos outros instrumentos diz respeito, notando-se algumas falhas no decurso do disco. Fora isso, os madrilenos Feel No Pain mostram-se capazes de combinar elementos de thrash, heavy e até de sonoridades mais esotéricas num só, com os leads frenéticos e os riffs variados a serem o destaque.

f Death And Sin" é o quarto disco do quarteto alemão formado em 1993 e o primeiro desde 2004. Com uma abordagem que combina o thrash old-school com o moderno, este é um álbum veloz, intenso e de uma ferocidade implacável, onde os leads são inspirados no movimento thrash do século passado e que se fazem ouvir ao ritmo frenético da bateria. Para os fãs de thrash!

e procuram algo capaz de marcar pela diferença, então "The White Witch", dos norte-americanos Frayle, é para vocês. Com um registo vocal que denota a vulnerabilidade de uma Chelsea Wolfe, os Frayle apresentam um conjunto de temas hipnóticos, arrastados e com a dose certa de obscuridade, em muito sustentada graças à atmosfera e elementos drone presentes em algumas passagens.

HARDVERNE

INIRA

LYNCHPIN

MNEMOCIDE

INDEPENDENTE

ANOTHER SIDE / METAL SCRAP

INDEPENDENTE

INDEPENDENTE

DEATH METAL

MODERN/MELODIC DEATH

DEATH/PROG/GROOVE

DEATH METAL

O

s franceses Hardverne estreiam-se com o EP "Death Comes From The Stars". Com uma produção algo amadora, a primeira coisa que salta à vista é o baixo, que de quando em vez tenta assumir um papel de maior destaque. E já que falamos em destaques, de salientar também os leads rock n' roll que acrescentam muito a uma sonoridade marcada pelo death e pelo thrash metal.

GRAY PAINTED GARDEN

S

MILLENNIAL HOLOCAUST

e há coisa de que não podemos acusar os Inira é de falta de energia! Saltando do death metal para o metalcore, e de momentos agressivos e cheios de breakdowns para mais melódicos, "Gray Painted Garden" irá agradar certamente aos adeptos da fase mais moderna do metal, não deixando, ainda assim, de conter algumas surpresas que deixarão os fãs de metal em geral convencidos.

É

das Caraíbas que nos chegam os Lynchpin, que têm em "Millennial Holocaust" um registo de death metal com resquícios de metal progressivo, fazendo-nos, por vezes, imaginar que talvez seria assim que soaria uma fusão entre Krisiun e Cradle Of Filth. "Millennial Holocaust" é apenas a estreia do colectivo de Trinidad E Tobago e com ele mostram que ainda há muito trabalho a ser feito.

por joel costa

DEATH COMES FROM THE STARS

41 - ULTRAJE #19

DEBRIS

U

ma boa estreia, este "Debris" dos suíços Mnemocide. Um death metal maioritariamente em passo lento, ainda que pesado como chumbo, melódico e altamente contagiante. Com esta abordagem curiosa à sua sonoridade, os Mnemocide deixam-nos a aguardar com expectativa sobre como irá o futuro da banda desenhar-se daqui para a frente.


MOON DWELLER

OBSCENE ILLUSION

PYCAYA

RETROFAITH

INDEPENDENTE

INDEPENDENTE

ROCK CD

INDEPENDENTE

ATMOSPHERIC BLACK METAL

MELODIC DEATH METAL

GROOVE METAL

THRASH METAL

MERIDIAN

É

BEDLAM

BRUTÁLIZANDOLO TODO

C

G

XIII

E

da Tasmânia que nos chegam os Moon Dweller, duo composto por Callum Williams e Bianca Birt e que tem em "Meridian"o seu álbum de estreia. A atmosfera presente em Moon Dweller não é densa, fazendo sentir-se de uma forma muito simples, quase vazia, o que de certa forma faz redobrar a atenção do ouvinte. Um grupo que poderá tornar-se numa grande surpresa no futuro.

om o EP de estreia, os suecos Obscene Illusion procuram vincar a sua identidade, rica em influências de death metal melódico, muito comum do seu país de origem. A produção não é das melhores e há alguma descoordenação entre a percussão e os restantes instrumentos; no entanto não deixam de debitar boas ideias que, com alguma experiência, resultarão muito melhor.

roove metal da Catalunha que nos faz lembrar de imediato do poderio de uns Down. Cantado em espanhol, "Brutalizándolo todo", de 2018, continua o trabalho iniciado três anos antes, com o estreante "On". Instrumentalmente, temos perante nós um álbum muito apelativo. A linguagem poderá assumir-se como uma interferência para os ouvidos menos habituados a línguas que não o inglês.

m "XIII", o novo EP dos madrilenos Retrofaith, a base thrash/death metal sofre investidas inesperadas de metal sinfónico, assumindo desta forma uma identidade progressiva que transmite alguma inquietude. Isto porque passa-se muita coisa na sonoridade dos Retrofaith, o que resulta numa surpresa abrupta. Há muito para explorar em "XIII". De que estão à espera?

SÅGVERK

SERPENT LORD (GR)

SEVERED HEADSHOP

SHILDRAIN

INDEPENDENTE

ALCYONE

INDEPENDENTE

NATIVE BLOOD

DEATH 'N' ROLL

HEAVY METAL

DEATH METAL

GROOVE/THRASH METAL

LIKE ROYALTY

TOWARDS THE DAMNED

C

IT'S ABOUT FUCKING TIME

D

A

SUICIDAL

O

om o segundo disco, os finlandeses Sågverk apostam numa abordagem completamente in your face, sem direito a intervalo para descansar. Num compasso acelerado, o crust e a mistura entre death e black n' roll ditam as regras, com uns vocais bem executados a preencher o restante espaço. Tem groove, é violento, enérgico e recomendável para quem precisar de explodir!

epois de alguns momentos menos positivos na carreira dos Serpent Lord (GR), o colectivo grego regressa com toda a ambição que lhes é possível almejar e aposta neste "Towards the Damned", um disco bem conseguido que vê o heavy metal clássico sofrer uma modernização. Em "Towards the Damned" há riffs e leads para todos os gostos. A não perder.

banda de grindcore do Indiana tem na demo "It's About Fucking Time" a sua primeira amostra e contributo para a cena de metal extremo. Tendo em consideração que trata-se de uma demo, a produção é aquilo que se pode esperar de um registo do género. Contudo, é possível perceber as ideias que se manifestam no meio de um caos sonoro agradável.

s brasileiros Shildrain contam com dois singles em carteira, sendo este "Suicidal" o mais recente. Musicalmente bem estruturado, "Suicidal" serve de antevisão para o disco de estreia da banda, que ora mostra-nos breakdowns poderosos, ora efectua igualmente paragens em territórios mais sombrios e inquietantes. Sem dúvida uma banda a seguir.

SONS OF NODE

STORM DRAGON

UNFAIR FATE

VALENTINO FRANCAVILLA

INDEPENDENTE

INDEPENDENTE

INDEPENDENTE

INDEPENDENTE

SLUDGE

HEAVY METAL

THRASH/DEATH METAL

HEAVY METAL

MANICURE

O

STRIKE AT DAWN

SEND US TO OUR GRAVES

Q

stoner/sludge dos holandeses Sons Of Node lembra-nos por vezes das bandas de punk rock das décadas de 70 e 80 que deram origem ao movimento grunge. É um rock bem-disposto, distorcido e rouco. Muito rouco! Destaque para o equilíbrio entre os momentos mais acelerados e aqueles que nos fazem dizer que os Sons Of Node são uma banda de doom.

uando soam os primeiros acordes de "Strike at Dawn", poderíamos esquecer que estamos em pleno ano de 2018 e viajar até aos tempos em que o heavy metal tradicional apoderou-se do mundo. Com tudo aquilo que se pode esperar de uma banda que viva e respire heavy metal clássico, os Storm Dragon conseguem criar um disco bastante completo.

VIKINGS

WANTED INC.

A-STEREO-ID

ALL AGAINST ALL

MELODIC METAL

THRASH/DEATH METAL

O

nome e a imagética dos germânicos Vikings transmite algo completamente diferente daquilo que à partida podemos esperar. Praticam um heavy metal tradicional, muito melancólico e viciante. "Far Beyond My Dream" é o muito aguardado regresso de uma banda que deu os primeiros passos na cena musical ainda na década de 80. Sejam bem-vindos de volta!

EMBARRASSMENT TO THE ESTABLISHMENT

É

o thrash da década de 80 quem comanda a sonoridade dos alemães Wanted Inc., que ao terceiro disco têm a sua identidade bem vincada, disparando influências do thrash/ death metal alemão com toques suaves de uns Mercyful Fate. "Embarrassment to the Establishment" é um bom trabalho onde todos os músicos parecem contribuir da mesma forma para que o resultado seja o que aqui se ouve. por joel costa

FAR BEYOND MY DREAM

D

epois de um primeiro longa-duração editado em 2015, a banda de Estocolmo regressa em 2018 com o EP "Send Us To Our Graves". Numa batalha entre thrash e death metal, onde a vertente melódica conquista terreno em ambos os géneros, "Send Us To Our Graves" mostra-nos o quanto os suecos cresceram nestes últimos anos. Um bom disco.

42 - ULTRAJE #19

HEAVY CHAINS

E

ste herói da guitarra italiano estreia-se com "Heavy Chains", um longa-duração onde há espaço para o heavy, o hard rock ou até para o glam. Tecnicamente imaculado, "Heavy Chains" é um disco recomendado para todos aqueles que ainda vêem a chama e a glória do heavy metal de outros tempos. Há dois temas instrumentais e nos restantes cinco somos agraciados por uma voz competente.


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Ultraje #19 (Dezembro'18/Janeiro'19)  

Edição 19 da revista Ultraje, disponível nos formatos físico e digital. Mais info em www.ultraje.pt

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