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os últimos 27 anos, os Behemoth têm vindo a alargar as fronteiras, não só do black metal mas também da heresia, com a sua mensagem anti-cristã a servir de arma contra tudo aquilo que possa ameaçar a sua liberdade física. Com "I Loved You At Your Darkest", o trio composto por Nergal, Orion e Inferno oferece um disco em que o rock se junta à mistura imponente de black e death metal, tornando-o mais dinâmico do que os seus antecessores e dando assim um passo muito importante rumo ao objectivo de redefinir a sonoridade dos polacos. O vocalista e guitarrista Nergal fala à Ultraje acerca daquele que é já o 11º álbum da banda, da situação sociopolítica da Polónia e das recentes controvérsias com grupos antifascistas. Também a promover o seu 11º trabalho de longa-duração encontram-se os Soulfly, que acabados de ultrapassar a marca dos 20 anos de carreira dirigiram-se à Ultraje na voz de Max Cavalera para falar de "Ritual", um disco que vê a banda do ex-Sepultura combinar o que de melhor fez nas duas últimas décadas.

CONTEÚDOS

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BEHEMOTH O SAGRADO E O PROFANO

A nível interno, o destaque vai para os Moonspell. O vocalista Fernando Ribeiro teceu alguns comentários acerca do mais recente DVD da banda, "Lisboa Under The Spell", deixando ainda tempo para conhecermos melhor a sua Alma Mater Books & Records. Em Setembro demos início às Noites Ultraje, em parceria com o bar Casa Pina, de Aveiro. Agradecemos à gerência e a todos aqueles que por lá passaram para levantar gratuitamente uma cópia da Ultraje. Dia 13 de Outubro há nova Noite Ultraje e outras mais serão confirmadas através do nosso Facebook e do Instagram. A Ultraje regressa em Dezembro para a última edição de 2018!

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DEICIDE Glen Benton fala do recente “Overtures of Blasphemy” e recorda as suas picardias com o evangelista Bob Larson.

Editor 04 - ULTRAJE #18

SOULFLY Os Soulfly de Max Cavalera estão de volta com "Ritual", um disco que reúne o melhor do passado e do presente da banda.


ÍNDICE ENTREVISTAS

13 Iskandr 14 Windhand 15 Benighted 16 Deicide 17 Don't Disturb My Circles 18 Soulfly 22 Behemoth 26 Moonspell 30 Nashville Pussy 32 Black Paisley 33 Aeternus + Urban Tales

CONTEÚDOS

06 Kvlt Express 07 The Gentle Art Of Making Enemies 08 Mosher Fest 10 Bloco Operatório 12 Cena Metal Sri Lanka 34 El Stoner Rodeo 35 Opinião 36 Reviews 41 Preto & Branco

FICHA TÉCNICA CORRESPONDÊNCIA:

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Andreia Teixeira, Carlos Pinto, Cátia Cunha, Diogo Ferreira, Diogo Lourenço, Fernando Reis, Gonçalo L. Matias, Ivo Conceição, Jaime Ferreira, João Correia, Joel Costa, José Branco, José Matos, Pedro Félix da Costa, Raquel Nunes Silva, Rui Vieira, Tiago Neves, Vânia Matos

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DESIGN

MOONSPELL Fernando Ribeiro fala sobre o novo DVD da banda, "Lisboa Under The Spell" e sobre a sua Alma Mater Books & Records.

Joel Costa CAPA

Foto: Grzegorz Gołebiowski Edição: Joel Costa


MINDREAPER

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arcel Bangert, guitarrista dos alemães Mindreaper, falou à Ultraje acerca de "Mirror Construction (...a Disordered World)", o segundo longa-duração da banda de death metal melódico: «O disco reflecte as realidades do dia-a-dia. Tal como o seu antecessor, é um álbum que critica uma sociedade onde evitamos dizer às pessoas o que sentimos sobre aquilo que podiam fazer melhor. Cada ouvinte poderá formar a sua própria opinião mediante aquilo que apresentamos nos cenários líricos. Em termos de direcção musical, podem esperar aquilo que é conhecido por death metal melódico com uma mistura de thrash metal e de outro tipo de influências. Esperamos fazer chegar a nossa música a muita gente e construir uma boa impressão que dure por algum tempo. Claro que, com o número extenso de grandes bandas que existem por aí, somos muito modestos e realistas a esse respeito.» «Se tivéssemos que falar das nossas influências, teria que dizer que todos partilhamos um amor muito grande pelo death metal melódico dos anos 90. O Sebastian [Rehbein, vocalista] tem as suas raízes assentes no death e no thrash clássico, enquanto o Christian ['Ens', baixista] e o Manuel [Nozulak, baterista] estão mais ligados ao metal moderno. No que toca à guitarra, aprecio músicos como Randy Rhoads, Zakk Wylde ou Ritchie Blackmore. Tenho igualmente muito respeito por músicos como Andy James, Alex Laiho ou Dimebag Darrell, não só como guitarristas mas igualmente como compositores.»

HELLTRAIN

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«FOMOS ABALADOS POR UMA TRAGÉDIA.»

s suecos Helltrain voltam ao activo depois de uma pausa que sucedeu o lançamento do mais recente disco da banda (“Death Is Coming”, de 2012). Com 2018 a ter já em sua posse um par de singles novos que antevêem o possível lançamento de um quarto longa-duração, a banda de death n’ roll aproveitou a entrevista concedida à Ultraje para fazer um ponto de situação. «Algo que mudou a nível sonoro foi termos construído o nosso próprio estúdio», diz-nos o vocalista Pierre Törnkvist. «Agora podemos gravar sempre que queremos, mas tivemos também que aprender novas habilidades dentro da área da gravação, mistura e masterização para que as nossas músicas façam justiça à banda. Os dois singles são definitivamente um bom indicativo da direcção que estamos a tomar musicalmente. Ainda não decidimos se iremos continuar a editar singles de forma constante ou se vamos gravar um novo disco. A paisagem musical mudou – ou evoluiu, se preferirem esse termo – e as pessoas já não consomem música da mesma forma que consumíamos ao crescer.» Em 2016, a banda anunciava uma pausa que se viria a revelar curta. Sobre os motivos que motivaram o afastamento e consequente reagrupamento, o músico revela: «Estávamos prontos para começar a gravar um álbum no início desse ano quando fomos abalados por uma tragédia.» «O nosso baterista e amigo de infância Oscar

Para o futuro, Bangert revela que a banda está a planear uma tour no Leste da Europa, que os levará a países como a República Checa, Eslováquia e Polónia. «Vamos promover o nosso álbum ao vivo e aceitaremos de bom grado qualquer proposta que nos apareça. Estamos também a compor novos temas para um próximo álbum, o qual espero que não demore muito a ser editado.» [JC]

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Título: WOLFNIGHT [single] Disponível no CD deste mês da Ultraje

Karlsson faleceu subitamente devido a um problema cardíaco. Eu e o meu irmão Patrik [guitarra e teclas] decidimos que as músicas nas quais o Oscar estava a trabalhar deveriam ser bem gravadas para podermos honrar a sua memória. O single “On Your Knees” é uma delas e temos outra prestes a sair. Não sabíamos muito bem se iríamos manter os Helltrain como um projecto de estúdio ou arranjar novos membros para tocar connosco, pois entretanto o nosso baixista anunciou que iria afastar-se. Comecei o meu projecto a solo, chamado Devil’s Force, ao qual se juntou um baixista muito talentoso, chamado Marcus Parkkila, que é agora o baixista permanente dos Helltrain. Foi depois disso que sugeri ao meu irmão reactivarmos a banda e recrutámos o Fredrik Andersson para o lugar de baterista. Os novos membros são excelentes músicos e a nossa química tem estado a 100%.» Os Helltrain tinham agora uma segunda oportunidade: «Foi como se tivéssemos reiniciado. Esperemos conseguir ter exposição e dar o máximo possível de concertos. Queremos também ser criativos e compor novo material para os fãs ouvirem. Neste momento estamos a trabalhar em novos temas e só precisamos de gravar a voz para os poder lançar. O Oscar compôs uma destas músicas antes de ter falecido, pelo que para nós é muito especial estar a trabalhar nisto. Depois vamos decidir se editamos as restantes músicas no formato single ou se as juntamos para lançar um novo álbum.» [JC]


AENIGMA

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«O SOM DO DISCO PODE SER CARACTERIZADO PELA UNIÃO DOS NOSSOS GOSTOS MUSICAIS.»

colectivo italiano de metal gótico/sinfónico estreou-se este ano com "Into the Abyss", um disco «em que se decidiu não seguir uma história, mas falar de algumas temáticas que se vão cruzando em todas as músicas». «Alguns dos tópicos abordados dizem respeito à depressão, à procura pela vingança e à descoberta do 'eu', assim como o sacrifício e o abuso que o Homem provoca à Natureza e aos seres vivos.» A banda comenta as suas referências musicais e o impacto que tiveram na sua sonoridade: «O som do disco pode ser caracteri-

zado pela união dos nossos gostos musicais. Nos vocais podem encontrar influências celtas, as melodias orquestrais dizem respeito às grandes orquestras sinfónicas e nos riffs de guitarra residem as influências do metal moderno.» Os Aenigma referem ainda que os fãs podem esperar «um crescimento quando comparado com os trabalhos anteriores [uma demo e um EP] e muita energia». «Temos o objectivo de ser ouvidos em outros países e de passar a nossa mensagem ao público. Queremos levar a nossa música à volta do mundo, conhecer pessoas novas e tocar em festivais internacionais.» [JC]

MASSIMO CANFORA

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ctualmente, com a existência da Internet e a influência que exerce nos seus utilizadores, é difícil ser-se original, algo que não constituiu um obstáculo para o italiano Massimo Canfora, que tem em “Create Your Own Show” o seu disco de estreia: «Tudo depende se o teu 'show' vive ou não na tua imaginação. Acredito que todas as pessoas tenham um lado artístico ou um projecto enterrado algures nas suas mentes. É tudo uma questão de imaginação e criatividade, e ser capaz de tornar algo em realidade sem pensar se vai resultar ou não é o passo mais importante que pode ser dado. O resto acontece naturalmente.» O músico, que leva a cabo o seu projecto instrumental em que combina o melhor do rock e do metal, conta-nos: «Componho e gravo a minha própria música desde os anos 90. Tenho horas e horas de música guardada, pois nunca editei nada meu no passado.» Massimo aponta como razões o facto de «trabalhar noutros projectos e em outras coisas ligadas à música, mas

«TODAS AS PESSOAS TÊM UM LADO ARTÍSTICO.»

principalmente por nunca ter tido essa necessidade». «Só agora é que senti que era tempo de criar o meu próprio projecto e reunir as minhas melhores ideias para criar um conceito. Não consegui retirar nada dos meus arquivos a não ser pequenas ideias, pelo que decidi compor músicas novas para este trabalho.» «Não quero que o meu álbum seja apreciado só por guitarristas mas, sim, por toda a gente», refere. «É um objectivo comum a todos aqueles que fazem música instrumental, mas é algo muito difícil. Contudo, acredito que a minha música poderá agradar a algumas pessoas que não sintam nada de especial por este instrumento. Há muita melodia, até mesmo nas partes mais pesadas.» Para o futuro, o músico adianta que vai dar alguns concertos para promover o álbum juntamente com os MC Vision, «e depois vou gravar as guitarras para o novo álbum de uma banda de power metal de Roma, que será lançado em 2019.» [JC] 07 - ULTRAJE #18

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onheci o Nergal em 2001, em Mangualde, num festival em que toquei com Nephtys (acho) ou outra banda que não me recordo, lamento. Daí, então temos falado regularmente e trocado alguns discos, menos agora que ele se tornou uma super-estrela (e ainda bem, já lá vamos). Qual é a banda de metal (extremo) que se pode orgulhar de ter o 10º disco como o seu melhor? Como se faz isto? Como se atinge esta forma? O black metal arcaico (não muito bom) que praticavam deu origem a algo mais death metal que finalmente se transformou neste extreme metal, ou então em Behemoth se preferirem. Juntamente com os Watain, são a coisa mais excitante no metal extremo a nível mundial, nomeadamente do que conheço. A ver vamos como os Mayhem saem de uma tour do "De Mysteriis Dom Sathanas" e respectiva pausa. O Nergal é um exemplo para todos nós; é uma inspiração. Depois da doença gravíssima que teve - e da qual felizmente saiu ileso -, recuperou a forma, não perdeu o "comboio" ao trabalhar mais, melhor e mais afincadamente, a favor da maré e não contra ela. Está aqui a chave. Se repararem no seu Instagram, o estilo de vida é a chave. Desporto (muito yoga), comida saudável, bons hábitos, muito trabalho, muita música e uma barbearia pelo meio. Aguarda-se pelo projecto de black metal com Rob Halford e Ihsahn - do qual, pessoalmente, não tenho muita curiosidade - e pelo novo álbum de Behemoth que aquando da saída desta edição já deve rodar nos nossos "telefones espertos". Gostava de ter 20% da energia dos Behemoth. Longa vida Nergal, longa vida!

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TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: TOMÉ MELO

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ela primeira vez na história do festival, o Mosher Fest acontece durante dois dias seguidos, fugindo ao modelo de duas edições anuais que tinha sido adoptado até aqui. Em declarações à Ultraje, o fundador da Mosher, Rui Alexandre, explica: «Basicamente decidi ter o AVC todo de uma vez, em vez de ter stress duas vezes por ano.» «Em Coimbra, fazer um festival na mesma altura da Queima pode correr muito mal e foi uma experiência que decidi deixar de parte, para já.» Em jeito de retrospectiva, Rui Alexandre aponta a actuação dos germânicos Dew-Scented como um dos

momentos mais marcantes do Mosher Fest: «Ter a segunda edição do festival completamente cheia com Dew-Scented foi mesmo incrível. Trazer Angelus Apatrida, Dr. Living Dead… Para a dimensão do festival é surreal. Já me cantaram os parabéns em palco, de surpresa, e foi algo que nunca mais esquecerei porque foi um encapsular de tudo o que era bom do festival naquele preciso momento! Mas a melhor parte é mesmo ver que tenho dinheiro para pagar a toda a gente.» Tal como tem sido possível verificar ao longo destas sete edições do festival de Coimbra, o Mosher Fest terá vários subgéneros do metal representados no

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cartaz. Sobre a importância da diversidade musical, o promotor explica que «é fulcral» e que «é literalmente a espinha deste planeamento». «Aprendi com o Moita Metal Fest que temos de ir buscar público a todos as trincheiras sonoras, e temos conseguido.» Rui Alexandre fala ainda da cena metal em Coimbra que, apesar de ter agora um festival que aos poucos vai conquistando o seu espaço no panorama nacional, falha em assegurar a realização de concertos regulares: «Finalmente passou a existir um evento de metal anual em Coimbra. De resto, não evoluiu nada porque não há sítios para tocar de forma regular. É triste, mas é verdade.» A fechar a primeira noite teremos os veteranos Bizarra Locomotiva, em que o vocalista


e letrista Rui Sidónio corrobora a opinião de Rui Alexandre acerca da cidade dos estudantes: «Por estranho que pareça - por ser uma cidade com muita dinâmica cultural -, Coimbra é dos sítios onde teremos tocado duas vezes, que eu me recorde. Tocámos uma vez numa Queima e o segundo concerto teve a organização da RUC, onde tocámos com os Gazua», refere o músico. «Vamos cheios de vontade de marcar a nossa presença, já que não é assim tão pontual. Temos todo o gosto em pertencer ao Mosher Fest, a toda a

dinâmica que é a marca da Mosher e tudo aquilo que representa para o underground nacional.» Rui Alexandre, que é também guitarrista dos thrashers Terror Empire, revela que costuma dar início ao planeamento de uma nova edição «com um ou dois anos de antecedência», porque «há bandas que não consegues trazer num ou outro ano e fica logo apalavrado para uma edição posterior.» Como maior lição aponta o reconhecimento do valor da amizade: «Os amigos são

tudo; são eles que me ajudam a organizar sem me pedir nada em troca. São eles que aparecem e dão uma força, mesmo quando não apreciam o cartaz a 200%. Também aprendi que quem luta, consegue. Quem não quer, arranja uma desculpa.» O Mosher Fest decorre nos dias 16 e 17 de Novembro, no Massas Club, em Coimbra. Mais informações em mosherfest.com.

A Ultraje pediu a Rui Alexandre que enumerasse as razões que o levaram a escolher cada uma das bandas que integram o cartaz do Mosher Fest:

TEETHGRINDER (Holanda) «Vi-os no Butchery (e depois em Barroselas) e não tive dúvidas em relação à sua qualidade. Demolição garantida; queixos vão cair.»

GROG «Mas alguém imagina que o Mosher Fest iria deixar Grog de fora do seu cardápio sonoro? Lendas do grind nacional. Espero um concerto fenomenal.»

MIDNIGHT PRIEST «Bom, tenho de trazer sempre uma banda de Coimbra e estes rapazes estavam sempre a fugir-me! Finalmente, o padreco toca no festival da cidade.»

WEB «Uma banda que traz um tipo de thrash diferente e mais sofisticado que o 'tupá' tradicional. Autêntica instituição do metal nacional.»

CRUELIST «Como é que esta banda não é maior ou mais conhecida? O som deles é frenético, mas também intercala com um sentimento que te faz ponderar acerca das tuas opções de vida. Espero que as pessoas consigam chegar a tempo de os ver desde o início!»

PRAYERS OF SANITY «Outra banda que passava a vida a fugir do Mosher Fest. Dos melhores thrashers nacionais. Acredito que Tião & Cia. vão dar um concerto cheio de adrenalina e coros orelhudos para toda a gente.»

TOXIKULL «Mosher Records in the house! Se não metes as bandas que lanças a tocar no teu festival, que tipo de editora és? Venha daí o rock e o metal destes jovens cheios de ganas!»

REDEMPTUS «O Paulo Rui tem de destronar o Deris como o gajo que mais vezes tocou no Mosher Fest. Trazer Redemptus e o seu som cheio de ferrugem e peso é a oportunidade perfeita.»

GAEREA «Quando vi o concerto de apresentação deles, no Porto, não hesitei. Denso e maléfico, vão suar debaixo daquelas vestimentas.»

Fotografias: cortesia das bandas Midnight Priest: Ruben Santos Photography

BIZARRA LOCOMOTIVA «Desde o concerto no Ermal que fiquei hipnotizado por esta banda. Selo de qualidade musical e de performance garantidos. Contamos com a Escumalha?»

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POR RUI VIEIRA

1988 é um ano marcante no cenário metálico mundial. Para além de álbuns que estabeleceram - definitivamente - certas bandas, também foi um ano de excelentes álbuns por si só. Aliás, 1988 está no meio de um triénio de sonho para os amantes da música pesada: 1987, 1988 e 1989. 30 anos depois, estes 15 álbuns provam que envelheceram muito bem, não têm rivais à altura e continuam/devem ser as bases obrigatórias para muita coisa nova que se venha a fazer. Neste ano, vários acontecimentos marcavam o mundo, como o primeiro campeonato de F1 ganho pelo brasileiro e imortal Ayrton Senna ou a vitória da nossa Rosa Mota na maratona dos Jogos Olímpicos de Seul. Em Portugal, aprovava-se a Lei da Rádio, directrizes capitalistas para acabar com um dos maiores movimentos culturais que existiu no nosso país: a "rádio-pirata"! Metallica "... And Justice For All" O primeiro longa-duração com o novo baixista Jason Newsted (ex-Flotsam And Jetsam) é também o primeiro sem Jason Newsted! A eterna interrogação sobre o baixo inexistente no quarto disco dos Metallica é também o que torna este disco especial. Os bombos dominadores e as guitarras lancinantes, aliados a temas épicos de nove minutos, fazem do "Justice" o grande álbum de 1988. Com baixo talvez não tivesse sido tão perfeito. Crimson Glory "Transcendence" Midnight era a voz marcante deste quinteto norte-americano, pioneiro no power metal mais fantasioso. Mas não só. A banda tinha uma forte vertente política, como podemos constatar em "Red Sharks". Melodia e agressividade q.b., sintetizadores na dose certa, ambientes que nos transportam para uma viagem absolutamente transcendental. Podia ser exagero mas não, o título do segundo longa-duração corresponde a 100% ao que sentimos depois de o ouvir. Riot "Thundersteel" "Thundersteel" pode ser considerado speed metal, pelo menos para os cânones da altura. Os australianos, liderados pelo falecido guitarrista Mark Reale, têm aqui a sua obra-prima. Desde o tema-título até à derradeira nona faixa, estamos perante um disco sem falhas, com a duração certa e cheio de melodia, speed, vozes e coros implacáveis, e um apurado sentido de canção. Não conseguiriam repetir a fórmula, mas essa era também uma missão (quase) impossível! Helloween "Keeper Of The Seven Keys Part II" Parte 1 ou Parte 2? Os fãs viverão sempre nesta indecisão, se é que esta é uma questão para indecisão. Depois do sucesso da primeira parte, os alemães regressam com a sequela e fecham, com chave de ouro, uma escalada imparável no cenário metálico europeu. Este é o último álbum de originais com o genial guitarrista Kai Hansen e conta com o falecido baterista Ingo Schwichtenber. O quinteto mudaria e as saudades de Michael Kiske (vocalista) e Kai Hansen nunca deixaram os fãs mais acérrimos.

Bathory "Blood Fire Death" Em primeiro lugar, a introdução "Odens Ride Over Nordland" é a melhor de sempre num álbum do género. E essa introdução é o mote para o que vem a seguir: um cavalgar desenfreado de escuridão e vingança. Liderados pelo saudoso Quorthon, é o canto do cisne da sua fase seminal de black metal, o último antes de prosseguirem para mares nunca dantes navegados, lançando âncoras para a criação de um novo estilo: o viking metal! Death "Leprosy" facilmente considerado um dos álbuns mais brutais da História mas, ainda assim, "melódico" e acessível. Parece contraditório? Não, essa era a particularidade do seu fundador, Chuck "Midas" Schuldiner, a de transformar tudo em ouro, de tornar tudo o que compunha em puras obras de arte. Foi assim até ao seu último dia, numa cama, vítima de um sistema fraco na saúde: o da nação mais poderosa do mundo, E.U.A.! Chuck, sentimos a tua falta! É

Iron Maiden "Seventh Son Of A Seventh Son" O último grande capítulo da banda britânica com a sua formação clássica. Um álbum com uma mística especial, muito por causa do seu título. Assuntos sobrenaturais e esotéricos dominam este épico mas também a genialidade de composições que só os Iron Maiden nos podiam proporcionar. O tema-título pode muito bem ser considerado um dos 10 melhores de sempre, a par com "Painkiller", "Holy Diver" ou "Paranoid". Manowar "Kings Of Metal" Os auto-denominados reis do metal, neste álbum, têm razão nesse título metalo-monárquico. Desde o arranque "motard" (na verdade, a gravação é com carros dragster) a 200 à hora, passando pelo sanguinário "Hail And Kill" e terminando no épico "Blood Of The Kings" (com a mítica tirada "Grandfather, tell me a story!"), são hinos atrás de hinos com músicos de excepção, temas para tudo o que é gosto, mas nunca perdendo o power e... o anel! Megadeth "So Far, So Good... So What!" Este é o álbum mais "metalizado" de Megadeth, seja pela produção, seja pela composição. Nem antes, nem depois, Mustaine produziu algo assim. É mal-amado mas é o berço de "In My Darkest Hour", o tema de Megadeth mais conhecido a seguir, obviamente, a "Symphony Of Destruction". Segundo Mustaine, a música foi escrita após ter tomado conhecimento da morte de Cliff Burton. Nesta altura, já Mustaine andava na montanha-russa da droga e álcool, mas veio a reabilitar-se a tempo de escrever o seu trabalho mais emblemático: Rust In Peace! Running Wild "Port Royal" Port Royal era uma cidade-porto na Jamaica e que foi praticamente engolida por um sismo/ maremoto. Este é o ponto de partida para o líder Rock n' Rolf e sua equipa de corsários. Fundadores do pirate metal (na altura, englobavam-se no speed metal), este álbum é o seu pico de forma, um autêntico épico do 10 - ULTRAJE #18

início ao fim. Uma viagem por águas turbulentas mas nunca perdendo o norte. "Conquistadores" é o tema emblemático deste trabalho e da sua carreira. Sanctuary "Refuge Denied" Primeiro trabalho destes gigantes (física e artisticamente), marcado pela incrível voz de Warrel Dane, falecido em 2017. Nesta altura, só King Diamond se aproximava dos agudos de Warrel. Para além de todas as músicas originais perfeitas, podemos também ouvir uma magistral versão de "White Rabbit" dos Jefferson Airplane. O desmembramento dos Sanctuary daria origem aos Nevermore. Slayer "South Of Heaven" "South Of Heaven" marca um certo abrandamento nas composições do quarteto norte-americano em detrimento de temas mais compassados, agrovalhados e em que o prato ride é rei, cortesia da lenda cubana chamada Dave Lombardo! A entrada com o tema-título, "Behind The Crooked Cross" ou "Mandatory Suicide" marcam o nascimento de um novo standard para o thrash dos anos 90. Nunca esquecer que a sul do Céu fica o... Inferno! Testament "The New Order" Este álbum é um incrível compêndio de riffs, com as suas cavalgadas implacáveis (e solos majestosos), cortesia de Alex Skolnick e Eric Peterson. São malhas atrás de malhas ideais para o moshpit e para a biqueirada, como se dizia naquela altura. "Trial By Fire", "Disciples Of The Watch" ou "Into The Pit" marcam o compasso - sempre destruidor - neste segundo álbum do quinteto oriundo da Califórnia. Anthrax "State Of Euphoria" Depois da loucura que foi "Among The Living", álbum e respectivas digressões, superar era complicado. "State Of Euphoria" é o disco que estabelece os Anthrax (uma aposta na continuidade), mas dono de um peso e produção assinaláveis. Sempre entre o humor sarcástico e a seriedade, o quinteto ainda gravaria "Persistence Of Time" (com a formação clássica) antes de entrar num hiato criativo que duraria mais de 20 anos. Nuclear Assault "Survive" Segundo álbum para estes thrash-activistas norte-americanos, apresentado com o single "Good Times, Bad Times", numa versão genial do tema de Led Zeppelin. Thrash rápido, desenfreado e com a voz esganiçada de John Connelly a dar o mote, o quarteto nunca deixou de inovar e usar um certo humor desconstrutivo como nos temas "Got Another Quarter" ou "PSA". Mas sempre com uma grande mensagem pró-planeta e de self empowerment.

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RESUMO DO FESTIVAL

ocalizado na pacata localidade do Louro, em Vila Nova de Famalicão, o Laurus Nobilis parece ter definido o seu rumo pelas sonoridades mais extremas. E desde já se pode dizer que se trata de uma aposta ganha uma vez que os números pareceram bem interessantes a nível de público para um festival que apenas conta com a sua quarta edição. Com três dias de alinhamento, o primeiro foi reservado para a recepção ao campista, criando um ambiente de boas-vindas para os festivaleiros. Os gregos SepticFlesh foram os escolhidos para encabeçar a noite de sexta-feira, envolvidos num clima de pesar decorrente da tragédia que assolou o país helénico (incêndios de Julho de 2018). "Prometheus" foi o tema escolhido por Spiros Antoniou para evocar as vidas que se perderam.

ÍNDICE NACIONAL A Ultraje recorda duas edições nacionais que falharam a entrada na secção de reviews do respectivo mês de lançamento.

Cremos que será seguro afirmar que o palco do Laurus tremeu com a actuação dos catalães Crisix. O seu thrash metal é comparável a um rolo compressor que não pára e já na segunda música um dos guitarristas andava junto da plateia no circle pit. Houve ainda tempo para covers de Pantera e Ozzy mas sem nunca perder o seu cunho próprio. No entanto, o grande nome estava reservado para os Dark Tranquility, que nas suas próprias palavras praticam o chamado death metal de Gotemburgo. Não se pode dizer que tenha sido um concerto abaixo do que estes suecos já nos habituaram, mas pareceu haver uma certa apatia por parte do público, talvez porque os vizinhos espanhóis esgotaram as forças dos presentes. Trata-se de um festival que reúne todas as condições para continuar a crescer e o resultado disso é que ao fim de quatro edições os números estão aí para o provar. TEXTO: JOSÉ MATOS / / FOTOGRAFIA: V.MATOS FOTOGRAFIA

Basalto "Doença" "Doença" é a continuação lógica do trabalho que o colectivo de doom/stoner de Viseu começou a desenvolver com o álbum homónimo de estreia, editado dois anos antes. Desta vez, o instrumental dos Basalto é acompanhado por um texto de Martim Sousa, o que acrescenta alguma obscuridade à identidade musical da banda. Crisix

Prison Born "Interdimensional Gateways" Editado em Junho de 2018 pela polaca Goressimo Records, "Interdimensional Gateways" é o resultado do trabalho entre os irmãos Ricardo e Rui Costa. Com uma sonoridade crua, os quatro temas deste mini-CD destacam-se pela intensidade dos riffs e por leads cheios de pujança. O futuro aparenta ser promissor para este duo de Mirandela.

SepticFlesh


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undialmente famoso pelo seu chá, especiarias e pedras preciosas, o Sri Lanka é uma ilha com menos um terço de área territorial que Portugal, mas com uma população de cerca de 23 milhões de habitantes. Separado da Índia por um braço de mar com sensivelmente 32 Km de comprimento, o Sri Lanka está intimamente ligado a Portugal devido aos mais de 150 anos de administração portuguesa daquele território. Assim, não é de estranhar que tanto a cultura como a língua do país sofressem profundas e inevitáveis alterações - palavras como agŌstu (Agosto), sēriyā (sereia) e madiriññā (madrinha) são apenas três das mais de cem palavras de origem lusa, e nomes como Cabral, Rosa, Gomes, Rodrigo, Salgado ou Pinto são bastante comuns na ilha. No entanto, como seria de esperar, o Sri Lanka não é um hotspot asiático em termos de heavy metal, quanto mais mundial. Este género musical chegou ao país no princípio dos 2000; logo, é compreensível que ainda não exista uma cena forte ou apelativa o suficiente para ter a expressão desejada. Claro que, como em qualquer outro país, por mais recôndito e exótico que seja, existem sempre as excepções à regra que perpetuam e suportam o movimento. Embora a Ultraje tenha contactado várias bandas no sentido de enriquecer este scene report, apenas duas responderam atempadamente ao convite realizado: os Plecto Aliquem Capite (PAC) e os A Village In Despair, duas bandas de metal extremo de Colombo, capital do Sri Lanka. Já tínhamos tecido anteriormente rasgados elogios ao noise/ black metal refrescante dos primeiros, formados em 2008 e que nos deixaram visivelmente impressionados com “The End”, um EP de 4 faixas e penúltimo trabalho disponível da banda; dos segundos, curiosamente formados em 2017, tínhamos poucas informações, ainda que contivessem dois membros dos PAC – tocam black metal atmosférico com os traços vocais surreais dos PAC e com a rendição dos restantes deveres vocais a cargo de Melani Gunathilaka, oscilando entre vozes limpas e os gritos típicos do black metal. Para sabermos mais sobre o movimento heavy metal do Sri Lanka na segunda pessoa, falámos com Buddhika Karunasekara, vocalista dos dois grupos. Embora pouco expressiva, Buddhika considera a cena unida. «A cena metal no Sri Lanka avançou muito em anos recentes. Por exemplo, existem actualmente muitos mais concertos e até alguns festivais com nomes maiores internacionais, caso de Rotting Christ, Rudra e Zardonic. Inversamente, não existem quaisquer publicações impressas sobre heavy metal, mas recordo-me de algumas fanzines, aquando da explosão da cena, que já não são publicadas. De forma breve, acho que existe uma cena metal bastante saudável no Sri Lanka. Algumas das melhores bandas do país são Old Castles Massacre, Siblings of Hatred, Dhishti, Genocide Shrines, Spleen Saint, Forsaken, Paranoid Earthling, Forlorn Hope, Funeral in Heaven e Konflict.» O país é governado por uma facção mais do que inclinada para a direita; ou seja, conservadora. Sabemos todos que, mesmo em países como os EUA, o conservadorismo sempre tentou boicotar e cortar as pernas a tudo o que fosse considerado “extravagante” ou de “mau tom” segundo os padrões conservadores; logo, num país que ao que tudo indica é mais severo em relação a expressões artísticas menos convencionais (como é o caso do heavy metal), ficámos na dúvida sobre as dificuldades que as bandas do Sri Lanka poderiam enfrentar. Buddhika desdramatiza

esse preconceito. «Por sorte, a cena metal ainda não é grande o suficiente para angariar a atenção dos grandes canais de media. Tudo o que fazemos é muito low profile e por isso nunca tivemos a infelicidade de responder ao governo pela nossa música e hábitos. No entanto, acredito que, quando descobrirem aquilo que se passa no nosso meio, imponham sanções de censura de uma forma ou de outra. Fora isso, o maior problema que temos é a disponibilidade dos membros das bandas. Maior parte de nós toca metal porque somos aficionados por ele, o que nos leva a ter de trabalhar e a envolvermo-nos em negócios e no comércio, o que por sua vez nos limita o tempo que passamos com as nossas bandas. Depois também temos o problema de viajar para o estrangeiro para dar concertos. O passaporte do Sri Lanka não é bem recebido em lado nenhum, o que faz com que as bandas possam ter vistos negados como resultado disso. Já aconteceu a algumas bandas e isso fá-las perder visibilidade. Por fim, existem os problemas dos custos dos equipamentos e de não teres sítios em condições para ensaiar.»

A Village In Despair

PAC

Como se não bastasse a orientação política do Sri Lanka, o país é extremamente religioso, com a religião budista a encabeçar a lista de diversos cultos espalhados pelas populações da ilha. Se com a política o heavy metal sempre passou momentos difíceis, com a religião, então, sempre existiu uma relação despótica e severa. Ao contrário do que ocorre nos países maioritariamente cristãos, o facto de o Budismo ser a principal religião no Sri Lanka ajuda a amenizar a relação milenar frágil entre o sagrado e as artes. «Na verdade, nunca tivemos problemas. Maior parte dos tópicos abordados pelas bandas do Sri Lanka centram-se no nosso folclore, na guerra civil, lutas pessoais. Mesmo as bandas de black metal não são importunadas, pois como a cena é mais anticristã do que outra coisa, passamos ao lado dos budistas. Estes são os motivos pelos quais nunca tivemos qualquer tipo de problema com a comunidade budista no nosso país.» Ainda assim, será fácil adivinhar que, para as pessoas fora do cena, o heavy metal seja visto com alguma perplexidade ou até incompreensão da parte delas. Afinal, já todos passámos pelo martírio que é tentar explicar a um não metaleiro o que é o metal, por que é que nos atrai, o que nos leva a ser fiéis ao movimento e, em última análise, ao sonho de quase todos nós querermos ter uma banda para nos expressarmos sobre quaisquer temas que nos interessem. É verdade que muita gente fora de cena costuma dizer que é uma fase ou que é algo passageiro quando somos mais novos mas, quando alguns de nós já entraram nos “entas” e continuamos a fazer do heavy metal o nosso modo de vida, então, os argumentos costumam ser muito mais depreciativos do que quando somos mais novos. No entanto, Buddhika acredita que se trata de um fenómeno global e não apenas de algo que é endémico ao Sri Lanka. «A maior parte das pessoas que estão fora da cena não têm um espírito aberto o suficiente para ouvir e/ou desfrutar do nosso género de música. As reacções dessas pessoas são muito idênticas às das outras pessoas

Buddhika

fora do metal espalhadas por todo o mundo. As perguntas que mais nos colocam passam por “Por que é que vocês ouvem este tipo de música? Nem dá para perceber as letras...”, “Por que é que vocês ouvem música composta por adoradores do Diabo?”, “Chamam música A ISTO? É que isto é barulho!”. Repetindo-me, acho que isto acontece em todo o mundo.»

«COMO A CENA É MAIS ANTICRISTÃ DO QUE OUTRA COISA, PASSAMOS AO LADO DOS BUDISTAS.» Buddhika Karunasekara 12 - ULTRAJE #18


Com a evolução da conversa, não seria nada despropositado se perguntássemos a O se pertence àquela vaga de pessoas que vai contra o mundo moderno ou se, com Iskandr, tem objectivos e perspectivas mais pessoas. «Na maioria dos casos, as pessoas que ouvem ou fazem black metal não parecem gostar muito do mundo moderno, inclusive eu», achando assim «que é mais produtivo diagnosticar correctamente os problemas de se viver na era moderna e tentar formular uma resposta apropriada». «Conseguirmos ser pessoas decentes neste contexto é uma questão premente, uma vez que as instituições tradicionais parecem não ter mais respostas para essas perguntas», assinala num misto de confiança pelo que pensa e insegurança pelo desconhecido. Já se falou em cavalheirismo medieval e mitologia grega, mas há também uma entoação pagã neste “Euprosopon”, especialmente na faixa “Heriwalt” que inclui guitarras acústicas e vocais ritualistas tão ancestralmente europeus. Em relação ao paganismo, estamos mais acostumados a países como Noruega, Suécia, Alemanha e um pouco da França, mas a Holanda terá certamente os seus resquícios ancestrais exibidos algures, tanto por via física como oral - o chamado folclore. «A nossa herança pagã não é muito conhecida ou celebrada, o que tem muito a ver com o nosso ambiente altamente modernizado e urbanizado»; contudo conta-nos que «existem pessoas a praticar sistemas de crença mais antigos, mas são definitivamente um grupo pequeno» e «muito disso é dominado por hippies folclóricos de um estilo Renascentista e fantasioso», algo que O nos assegura não estar, de todo, interessado. «A região dos Países Baixos de onde eu sou, Gelderland, no entanto, tem uma profundidade histórica muito interessante e muitas das histórias passadas e lendas estão bem preservadas em nomes de lugares e publicações antigas. Há mais bandas a explorar isso e com mais detalhe do que aquele que tenho em Iskandr, como Fluisteraars, em que M. Koops, que tocou bateria no “Euprosopon”, é guitarrista e baterista.» TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DA EISENWALD

A

penas se dá a conhecer como O e é, actualmente, o mais prolífico compositor de black metal com sede na Holanda, participando, além de Iskandr, noutros projectos em crescimento como Galg, Solar Temple (com review nesta edição), Lubbert Das e Turia, tendo já actuado em Portugal com estas duas últimas bandas. Com Iskandr, o holandês chega ao seu segundo álbum “Euprosopon”, que é lançado pela já estabelecida Eisenwald. Comparando os dois longas-duração, O afirma que «foi muito importante» desenvolver o som de Iskandr para algo musicalmente mais complexo e com uma produção esclarecida. «Para o primeiro disco queria criar um som denso e negro, e para o seguinte tentei torná-lo um pouco mais directo e agressivo, mantendo a maioria dos elementos atmosféricos majestosos.» Quanto a isso ser uma prova de maturidade, o músico não considera assim, pois pensa que «depende da música e do conceito se tal produção for necessária». «Sendo ambos lo-fi, os sons reverberantes ou mais directos e claros têm os seus méritos dependendo do contexto», refere no remate à comparação entre discos. O título “Euprosopon” expressa a impossibilidade da existência do homem ideal. Mas que homem ideal é esse e por que é que é impossível alcançá-lo ou mesmo criá-lo? «Dito assim soa um pouco a coisas de terapia de auto-ajuda ou a um tipo de super-herói de banda-desenhada», começa O, para esclarecer seguidamente que «o que queria formular, ao invés disso, é que tal ideia falta neste mundo: não sabemos como estar na nossa era actual, e uma resposta clara para isso é impossível». Em

relação à expressão que culmina numa aglutinação, explica que «a palavra deriva de utopia (eutopia), que é um lugar perfeito e inexistente ao mesmo tempo, e prosopon, que é uma personalidade ou papel (originalmente no teatro grego)». «É necessário formular tal ideia e lutar por ela. É a única resposta possível para proferir o niilismo debilitante, uma fenda em que me equilibrei muitas vezes no limite. A parte trágica é saber que tal estado é inatingível por definição, mas ainda assim empurrando a pedra de Sísifo.» [N.R.: Na mitologia grega é considerado o mais astuto dos mortais, mas também mestre da malícia e da felicidade, entrando assim na tradição como um dos maiores ofensores dos deuses. Foi condenado a, eternamente, rolar uma grande pedra de mármore com as mãos até o cume de uma montanha, sendo que, sempre que estava quase a alcançar o topo, a pedra rolava novamente pela montanha abaixo até ao ponto de partida.] Posto isto, e ao ouvir o álbum, sente-se um toque de heroísmo em todas as músicas e mais ainda se nos lembramos, por exemplo, da faixa "Regnum". «Não há feitos históricos em particular», aponta logo quando questionado sobre tal observação. «Seria melhor pensar nisso num sentido de heroísmo abstracto, como o cavalheirismo medieval ou o heroísmo mitológico grego. O verdadeiro heroísmo é algo que está a faltar ao nosso mundo, embora apareça de vez em quando. Fico feliz que tenham percebido esse elemento. É algo que tentei realmente articular a nível musical neste álbum, o que se provou bastante complicado porque há uma linha muito fina entre melodias majestosas e um kitsch melodramático.» 13 - ULTRAJE #18

A nota de imprensa que a Eisenwald fez chegar à Ultraje aponta que bandas como Enslaved e Aeternus são as principais influências para O em Iskandr. O holandês corrobora ao partilhar que «os álbuns antigos de Enslaved conseguem um equilíbrio perfeito entre triunfalismo majestoso, passagens sombrias e explosões de agressão primitiva». «A diversidade das suas interpretações e a combinação bem-sucedida desses diferentes elementos inspiraram-me a tentar expandir os limites sonoros do meu próprio trabalho de uma maneira muito profunda», conclui sobre Enslaved. Já sobre Aeternus recorda que «o primeiro EP, “Dark Sorcery” [1995], possui esse mesmo equilíbrio, assim como o imensamente óptimo álbum “… Again Shall Be” [1994] dos Hades». «Tenho muita inspiração musical em registos clássicos de tempos antigos, mas, para “Euprosopon”, esses estavam particularmente na minha cabeça.» Garantindo à Ultraje que não tentou copiar os supramencionados trabalhos, até porque «seria preguiçoso e provavelmente resultaria em música terrível», o compositor holandês encerra dizendo que, ainda assim, tentou «visar o mesmo sentimento que esses registos evocam». ISKANDR

Euprosopon EISENWALD

Dos Países-Baixos, a banda de um homem só que é Iskandr mostra como se floresce a maturidade de um artista neste segundo álbum. Mais definido e clarificado do que o debutante de 2016, tanto ao nível da música como da produção, “Euprosopon” glorifica heroísmo ancestral e expressa a impossibilidade de alcançarmos o homem ideal. Isto tudo é-nos transmitido através de black metal essencialmente melódico e atmosférico na veia de uns Enslaved mais antigos. De todos os projectos em que está envolvido além de Iskandr (sublinhe-se Turia e Lubbert Das), o holandês prova aqui que é dos criadores musicais mais interessantes do underground do seu país e este empreendimento é a sua mais refinada jóia sonora. Com o apoio da Eisenwald, Iskandr está em boas mãos. diogo ferreira 8/10


O

TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: JOEY WHARTON

riundos de Richmond, no Estado norte-americano da Virgínia, os Windhand têm em “Eternal Return” o seu quarto disco de originais. Com a sua identidade musical há muito encontrada, testada e aprovada, o quarteto liderado pela vocalista Dorthia Cottrell sentiu que se estava na altura perfeita para se reinventarem, contando novamente com o icónico Jack Endino para o cargo de produtor, que ajudou a banda de doom a evoluir uma sonoridade que já tinha o engenho de um Tony Iommi e que agora via ser acrescentada a espontaneidade de um Kurt Cobain. «Passou-se algum tempo desde o nosso último álbum [“Grief's Infernal Flower”, 2015] e este é também o primeiro que gravámos com apenas quatro membros, uma vez que agora só temos um guitarrista», comenta a vocalista acerca das principais diferenças que podemos encontrar na nova proposta. «Durante o processo de composição nunca tentamos que a nossa música soe de uma determinada forma. Simplesmente evolui de uma forma muito natural. Estamos numa altura diferente das nossas vidas e as coisas aconteceram assim. No entanto tivemos que aprender a compor temas com apenas um guitarrista e fazer com que mantivéssemos a nossa sonoridade.»

todos nós éramos grandes fãs de grunge quando andávamos no secundário», diz-nos Dorthia. «Não é que tenhamos feito de propósito para soar assim, mas a música que ouves e de que gostas acaba, de certa forma, por se manifestar na música que compões. Fomos nós quem gravámos os nossos dois primeiros discos e não houve interferência externa. No entanto, considerámos que seria bom ter alguém de fora que pudesse oferecer uma perspectiva diferente, que nos ouvisse enquanto compúnhamos. O Jack sugeriu-nos coisas das quais não nos lembrámos e manteve-nos focados no nosso trabalho.»

Ao longo da sua carreira, Jack Endino trabalhou com grandes nomes do grunge, como Nirvana ou Soundgarden, um estilo musical que não passou ao lado dos Windhand: «Penso que

No início de 2018, os Windhand juntavam-se aos seus conterrâneos Satan’s Satyrs para editar um split; um trabalho cujo objectivo assentou em não ganhar ferrugem e ver em que

Os temas de "Eternal Return" foram trabalhados durante o último Inverno, a estação do ano que melhor permite à banda materializar na música o seu lado mais reflexivo. Quando questionada acerca deste pormenor, Dorthia diz nunca ter reparado neste detalhe mas que «agora que penso nisso apercebo-me de que compomos mais durante o Inverno». Como razão para que tal aconteça, aponta o facto de «estarmos presos em casa e de não termos mais nada para fazer a não ser dar em malucos enquanto tocamos o mesmo riff uma e outra vez. [risos] É uma boa altura para te trancares e trabalhares em músicas novas.»

ponto estavam no campo da composição. «Nessa altura ainda não tínhamos feito grande coisa para o “Eternal Return”», transmite. «Não gravávamos nada desde “Grief’s Infernal Flower” e tínhamos o desejo de voltar ao trabalho e compor novos temas que servissem de transição para o novo disco. Não creio que os temas do split tenham influenciado os do novo álbum, de todo, mas, e ainda que sejam diferentes, vejo esses temas do split como dois dos melhores que já fizemos até aqui.» Antes de se despedir, Dorthia anunciou que espera gravar um novo álbum a solo assim que o calendário dos Windhand estiver menos preenchido. WINDHAND Eternal Return RELAPSE

já com dez anos de carreira C“lugarontam e rapidamente garantiram o seu ao sol” no que ao stoner/doom

metal diz respeito. Este é o quarto trabalho de estúdio do quarteto de Richmond, em que um dos principais destaques - tal como em álbuns anteriores - continua a ser a voz de Dorthia Cottrell. Boas passagens entre temas, secções onde é irresistível acompanhar refrãos e riffs mais catchy dão o mote para uma súbita ânsia em deixar o corpo sucumbir à cadência do baixo e restantes instrumentos. Ainda com fortes influências de bandas como Electric Wizard ou até Jex Thoth, voltamos a encontrar uma sonoridade equilibrada entre o doom, psych, stoner e blues, e a verdade é que a banda se tem tornado cada vez melhor a fazê-lo. andreia teixeira 7/10

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uma gravidez extra-abdominal, fazendo-os seus próprios filhos quando sente o calor da infecção e acha que eles estão vivos novamente». No entanto, o seu favoritismo por esse doente mental saído da sua imaginação vai para além dos versos e do álbum em si, como explica: «Também é o meu favorito porque fizemos dois videoclipes como episódios da sua história, e o actor que interpreta o papel é simplesmente fantástico e deu uma dimensão cinematográfica incrível ao personagem que eu tinha em mente! Foi simplesmente perfeito! Escrevo sempre conceitos a pensar nisso, como se fosse um cenário de filme, e estava mais do que feliz com o seu desempenho!»

O

TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: SVEN DE CALUWE

s franceses Benighted estão a celebrar 20 anos de carreira que se podiam resumir em breves apontamentos: death metal arrepiante, concertos brutais, oito álbuns de estúdio, um álbum ao vivo e acordos discográficos com nomes altos da cena europeia, como é a Osmose Productions e a Season Of Mist. Contudo, isso não chega. Com presença cada vez mais assídua na Ultraje (online ou em papel), do outro lado estava Julien Truchan para connosco conversar sobre estas duas décadas, sem esquecer o EP comemorativo “Dogs Always Bite Harder than Their Master”. «Diria que estou muito orgulhoso do longo caminho desde que começámos na garagem do meu pai, quando éramos apenas adolescentes», inicia o vocalista. «Neste momento nunca imaginei que [a banda] se tornaria em algo tão grande. Íamos ensaiar todos os fins-de-semana, conseguíamos alguns concertos e quando assinámos com a Adipocere Records para se lançar o nosso primeiro álbum pensámos que já tínhamos chegado ao topo e não iríamos mais longe…» Chegaram mais longe com o nome Benighted, são famosos e constituem o colectivo mais importante do death metal francês, mas nem tudo mudou para Julien. «Depois de nove álbuns, estou muito feliz por mantermos a mesma mentalidade – que é tocar a música que amamos, sem cometer o erro de seguir modas ou as grandes bandas que vendem muito. Sempre mantivemos essa direcção para tocar a nossa música, respeitando as pessoas que nos apoiam com os melhores álbuns que conseguimos, sendo sinceros com o nosso comportamento e também compartilhando ao máximo a nossa paixão com as pessoas que fazem parte da cena, dentro e fora do palco. Acho que os nossos fãs entendem esse espírito de família dos Benighted e sabemos que seremos sempre como somos, fazendo guerra no palco e no pit, sempre juntos a festejar depois de um concerto. É por isso que eles continuam a apoiar-nos. Acho que nunca traímos o nosso espírito desde o início.» De volta a 1998, «os ensaios eram sempre grandes festas a tocar na garagem do meu pai, a descansar para beber cerveja e a conversar sobre o que poderíamos fazer melhor, relaxar e curtir estarmos juntos». Porém, convém que uma banda saia da sala de ensaios e Julien relembra que «os primeiros concertos foram, claro, cheios de stress e cheios de memórias engraçadas», como recorda seguidamente: «Por exemplo, um dos nossos primeiros

foi numa festa de aldeia com um monte de “bandas normais”, e, quando chegámos, um tipo mais velho anunciou-nos ao microfone a dizer que tinha chegado a “orquestra de metal”… Após uma música, todos os idosos e pais com filhos foram embora para encontrar refúgio nas suas casas, mas, de qualquer maneira, não estavam sozinhos porque o concerto foi transmitido em toda a aldeia com altifalantes! [risos]» Todos os álbuns de Benighted obtiveram o seu devido elogio, mas – e sem ainda lhe revelarmos qual era a nossa escolha – perguntámos ao francês quando percebeu que tinha algo grande em mãos. Considerando que tal «aconteceu em passos diferentes», Julien vai até antes de 2000 para assinalar que «não havia muitas bandas que tocassem tantos blastbeats na sua música – estava-se apenas a começar – e o mesmo para os pig squeals». «Quando assinámos com nossa primeira editora, começámos a ver o nosso nome um pouco por toda parte nas revistas francesas, depois recebemos ofertas do resto da Europa e percebemos que era algo que poderia ser muito mais do que tudo o que esperávamos. Depois disso, assinámos com a Osmose Productions e finalmente com a Season of Mist. Acho que o álbum “Insane Cephalic Production” [2004] foi um grande passo porque foi com ele que fomos ao nosso primeiro grande festival em França, o Fury Fest que, dois anos depois, se tornou no Hellfest.» Foi então que depois se revisitou “Asylum Cave”, álbum de 2011 que a Ultraje aponta como o grande salto da banda de Saint-Étienne. «Absolutamente», exclama a olhos vistos. «“Asylum Cave” foi, para mim, o nosso maior passo em termos de composição de músicas, de sons e também de desenvolvimento de algo sólido considerando as letras que escrevo, que são sobre psiquiatria. Decidi fazer álbuns conceptuais e escrever toda uma história sobre alguém que sofre de doenças mentais, inspirando-me no meu trabalho como enfermeiro psiquiátrico. Esse álbum foi maravilhosamente bem-recebido e foi também o nosso primeiro com a Season of Mist, que nos propôs uma maior promoção e distribuição a nível internacional.» É de psicopatias, distúrbios e devaneios que vivem as letras e os álbuns de Benighted – de canibais a taxidermistas estranhos, há de tudo. Talvez auxiliado pela memória fresca e pelo sucesso obtido, a personagem favorita de Julien Truchan está presente em “Necrobreed” (2017) «por causa da história distorcida de um esquizofrénico que cose animais mortos na sua barriga como 14 - ULTRAJE #18

“Dogs Always Bite Harder than Their Master” é o título do EP comemorativo e contém três novas composições, uma cover da “Slaughter of the Soul” dos At The Gates e seis faixas captadas no concerto de celebração dado em Maio passado na cidade de Lyon. Por ser uma escolha tão específica para marcar duas décadas, perguntámos até que ponto eram os At The Gates significativos para Benighted. «Para nós, é uma banda de culto. Crescemos com o álbum "Slaughter of the Soul" e sabemo-lo de cor! Quando chega o momento de se fazerem algumas covers, prestamos sempre homenagem às bandas que realmente tiveram um profundo significado ou influência na nossa história. Estava no palco a ver At The Gates durante o Sylak Open Air e, caraças, foi uma chapadona na cara – adorei o espectáculo deles! Estou impaciente para ver as reacções sobre a nossa cover, porque fizemo-la à maneira dos Benighted! [risos]» Retornando, apenas em memória, a Maio último e a Lyon, Truchan assegura à Ultraje que «foi realmente um concerto de família» onde estiveram «muitos amigos que seguem [a banda] há anos, antigos membros de Benighted, familiares e também convidados de prestígio que subiram ao palco, como o irmão Sven de Aborted, o Niklas de Shining, o Arno de Black Bomb A e o Ben de Unfathomable Ruination». No EP encontram-se faixas como “Reptilian”, “Spit” ou “Necrobreed” e todas têm um convidado, dando assim relevo à intenção da banda: «É um mini-álbum de aniversário com material muito especial e com pessoas que significam alguma coisa na carreira de Benighted!» Brevemente segue-se mais estrada e Julien Truchan não tenciona parar, como exclama efusivamente na fase final da conversa: «Estamos ansiosos para começar a digressão com os nossos irmãos de Aborted, Cryptopsy e Cytotoxin para promover o EP e tocar as novas músicas!»

BENIGHTED

Dogs Always Bite Harder than Their Master SEASON OF MIST

Os EP mais generosos em extras costumam beirar as cinco faixas, mas quando os Benighted nos oferecem um EP com três novos temas e sete ao vivo para comemorarem os seus 20 anos, há que agradecer e dissecar. As três novas faixas (“Teeth and Hatred”, “Martyr” e a faixa-título) apontam agora para um conceito mais social (religião, ódio, traição) e menos psicológico do que o fantástico “Necrobreed”, o que prevê um novo registo mais maduro e (ainda) mais agressivo com uma componente musical de elite. Os temas ao vivo são um convite para assistir ao poder da banda, com um som nítido e convidados como Niklas Kvarforth (Shining) ou Sven (Aborted) a abrilhantarem o set. A nota, alta para um EP, reflecte o que poderão esperar dele. joão correia 7/10


à espera… [pausa] Isto já não é como era nos 90s», e é aqui que o norte-americano começa realmente a espingardear aquilo que lhe vai na alma, sem pudores nem restrições. «Mudou completamente. Já não há aquela importância de corrermos para o estúdio. Não há dinheiro a mudar de mãos em relação a vendas físicas. Não sou só eu, é toda a gente – já não há ninguém a correr para os estúdios. As editoras já não dão o dinheiro que davam para se gravarem álbuns. Basicamente, a gravação [de álbuns] não é mais do que um cartão-de-visita ou uma ferramenta de promoção. Já não há urgência. Pessoalmente não estou financeiramente preso a esta merda. Agora tens de gravar um álbum e andar em digressão durante dois ou três anos para ganhares dinheiro. Tudo mudou, meu. A face da indústria musical mudou. Se andares em digressão a cada três ou seis meses e se fores àqueles sítios normais, isso afecta as vendas, mas eu não gosto – são capazes de me ver uma vez em mil anos, portanto o melhor é irem aos concertos porque nunca saberão quando nos poderão ver novamente. É assim que gosto de gerir o meu negócio.» O compositor não vê nada de bom no futuro, seja próximo ou longínquo, porque «não há nada de bom em perder dinheiro. Não há nada de positivo quando te roubam a vida». «Não vejo nada de positivo quando pessoas roubam outras pessoas. É assim que me sinto. A Internet arruinou não só a minha indústria, mas também outras.» Muita coisa a acontecer? Muitas bandas e muitas editoras? Não, o problema de Benton não passa por aí, como nos explica: «Bem, as editoras estão a fechar as portas todos os dias. Quando algo é de borla, quem vai pagar? Como é que eu explico que devo 100.000 dólares a uma editora, por me terem pago a gravação de um álbum, se já nada se vende? Não há nada de positivo nisto. Se vou fazer o que faço, então tenho de o fazer nos meus termos e a meu tempo. Não sigo a norma, não quero saber se lançam bandas a cada três meses. É deixá-los safarem-se e que ganhem uns trocos, mas eu já não o faço. Não preciso disto, portanto vou fazer o que me apetece como fiz com a gravação [do novo álbum]. Não faço música em benefício de ninguém a não ser de mim mesmo, não faço isto para terem fé em mim. Faço o que faço porque é natural e quando é assim aparecem álbuns como o nosso novo trabalho – um clássico instantâneo, e não há clássicos instantâneos se os lançarem de nove em nove meses. Considero-me um artista como qualquer outro no mundo. Expresso-me através da minha arte e… [pausa] sou um maluco do caralho. [risos]» Pelo menos ganhámos uma gargalhada – a única – de Glen Benton.

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TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: TIM HUBBARD

len Benton, norte-americano, 51 anos, co-fundador da instituição do death metal Deicide. Após quase 30 anos de carreira, a banda continua a lançar álbuns, chegando a esta segunda metade de 2018 com o estupendo “Overtures of Blasphemy” que continua a propagar o cunho da banda com composições espessas, pesadas e a meio-tempo, como é exemplo a inaugural “One with Satan”, mas, e em contraste com a veia thrashy de “In the Minds of Evil” (2013), evidencia uma forte ligação ao death metal melódico como nos faz crer o fantástico tema “Crawled from the Shadows”. Do outro lado da linha ouvia-se uma voz grave e pausada – era Glen Benton a falar à Ultraje: «Comecei eu mesmo a escrever o álbum e tive uma conversa com toda a gente sobre a direcção musical que pretendia. Desisti de algumas das minhas músicas por apenas exemplos e não sei se isso os inspirou, mas pô-los na direcção que eu queria.» Esta resposta inicial só provou aquilo que a Ultraje já sabia: Benton voltou a compor – incluindo-se nesse grupo as faixas “One with Satan”, “Compliments of Christ” e “Consumed by Hatred” –, o que não acontecia desde 1992. Se foi um objectivo que tinha de acontecer agora ou se foi uma coisa que aconteceu sem predefinição, o músico não sabe e diz que «apenas precisava disso», querendo-se permitir a fazer a sua parte, como anotou. «É bom. Quis dar um exemplo a toda a gente [na banda] daquilo que procurava. Quis que as vozes fossem definidas. Com a minha voz consigo cantar praticamente qualquer estilo de música. Concentrei-me em fazer música cativante em vez de tentar a coisa mais rápida e feia de todo o planeta. Concentrei-me em criar músicas que as pessoas gostem de ouvir e que nós gostemos de tocar.»

Todavia, o conceito lírico de Deicide não se alterou a olho nu, pois Benton conserva intacta a sua contenda contra a religião, ainda que seja sabido que as letras actuais vão ao encontro da sua própria negritude pessoal. «Tudo o que acontece na minha vida e todos os meus pensamentos entram nas letras. Gosto de dar significados diferentes – pensam que estou a falar duma coisa, mas estou a falar doutra. Escrevo sempre dentro desse estilo», responde-nos sobre essa questão para depois chegarmos ao reconhecido cenário lírico da banda: «Quando ataco a religião, ataco todas, não apenas a cristã. A cristã é apenas a que mais odeio. O nosso país [EUA] está alicerçado em Leis baseadas numa religião com milhares de anos – acho que é fundamentalmente errado. Quando falo de deus, falo de todos, não apenas do cristão – religião organizada. Não tento converter ninguém a nada, não peço às pessoas que venham para o lado negro – nada disso. É a minha expressão, sou um expressionista. Amem ou odeiem, não peço que peguem no que digo – é entretenimento. Pessoalmente, o meu lado negro é divertido.» Portanto, aquela ideia de se querer suicidar aos 33 anos – idade com que Jesus Cristo supostamente morreu – deverá ter sido pura diversão. E nós entendemos isso perfeitamente porque há que gerar falatório, mas esse assunto deixa-se para um segmento mais à frente neste artigo. Ainda “Overtures of Blasphemy” está fresquinho e a banda já se encontra a trabalhar no seu sucessor, como confirma Glen Benton ao mencionar uma fase de demos, mas entretanto mete-se à discussão os tempos de espera – por exemplo, esperámos cinco anos por um herdeiro de “In the Minds of Evil”. «Quanto 16 - ULTRAJE #18

De volta à década de 1990, a rádio ainda era uma potência – que já perdia terreno velozmente para a televisão – e esses anos foram ricos em evangelistas que pregavam em ambas as plataformas. Um deles era Bob Larson que, com o membro de Deicide, protagonizou acesas discussões radiofónicas/telefónicas, envolvendo mesmo ameaças de pancada e morte. “Jesus swallows loads, kumbaya”, grunhia Glen a Bob – está tudo no YouTube. «Bob Larson é um homem do espectáculo, faz dinheiro a vender religião. Não falo com o Bob há anos, desde que me deu permissão para usar a sua voz no álbum “In Torment in Hell” [2001]», conta-nos. «O Bob é um entertainer», reflecte o agora iniciado à casa dos 50 anos, para concluir de forma tão madura como a sua idade: «Ele entretém por deus e eu entretenho pelo demónio, ele adora o que faz e eu adoro o que faço. Mas no final do dia têm de se lembrar que é entretenimento.»

"Overtures Of Blasphemy" Editora: Century Media Lançamento: 14 Setembro 2018


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xistem dois tipos de bandas: as que se descrevem como praticantes de um determinado género e que seguem fielmente uma fórmula sem procurar transpor as fronteiras de estilos musicais vizinhos, e as bandas como os Don't Disturb My Circles que, com uma sonoridade experimental e rebuscada, impedem-nos de antecipar os seus próximos movimentos. Depois de em 2015 terem editado o longa-duração de estreia "Lugubrious Cacophonous" pela Signal Rex, a formação de Torres Vedras apostou no lançamento de um novo EP de título "Lower Canopy" (Ring Leader / Regulator Records) que lhes permitisse mostrar a evolução pela qual passaram e que os fez crescer enquanto músicos e indivíduos. «Neste EP experimentámos como não o havíamos feito em "Lugubrious Cacophonous"», partilha o vocalista João Coelho. «O nosso som, agressivo ou não, foi sempre experimental, mas no primeiro álbum a experimentação foi sempre dentro de uma atmosfera e com o EP conseguimos expandi-la. É uma transição do experimentalismo anterior.» Para a banda de post-hardcore, o sítio de onde vêm é tudo aquilo de que precisam para criar uma boa atmosfera sonora. O vocalista assume que a ruralidade e a tranquilidade de que dispõem em Torres Vedras, assim como o contraste que faz com a cidade de Lisboa, dá-lhes «abertura para se mandar tudo cá para fora como uma espécie de escape», tendo aqui o catalisador para o tipo de música que fazem. «A nível de ambiente e atmosfera, aquilo de que precisámos e onde nos alimentámos mais é o ambiente entre nós. É estarmos um pouco alienados do que se passa por fora», acrescenta. Esta última afirmação vai muito ao encontro do próprio nome da banda, que sugere que estão isolados e não pretendem ser incomodados. Ainda que, como nos conta João Coelho, «na altura, quando escolhemos o nome, não foi com esse intuito», a banda acabou por chegar a essa mesma conclusão assim que fez uma retrospectiva da sua carreira. «Realmente, o nome encaixa muito bem pois sempre estivemos um pouco fechados de toda a realidade», assegurando que este afastamento não se dá «com malta que vai a concertos e festivais, até porque fazemos isso desde putos», mas sim ao

TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DA BANDA

facto de «nunca termos andado muito naquele meio das bandas». «Estivemos sempre nisto para fazer música para nós, mas não somos nenhuns misantropos nem nada que se pareça.» É quando a Ultraje questiona o grupo se a sonoridade dos Don’t Disturb My Circles poderia ser diferente na eventualidade de os seus membros virem de outro meio ambiente, que o guitarrista Henrique Reis se junta à conversa: «A sonoridade não tem a ver se vem deste ou daquele meio. Tem, sim, a ver com o nosso gosto pessoal e com aquilo que ouvimos», explica. «Temos um gosto musical muito vasto, mas o que é certo é que quando estamos a tocar são as coisas mais agressivas e com ambiente que puxam por nós. É óbvio que o ambiente onde se vive faz a pessoa, mas a maneira de pensar e aquela revolta que sentes e que depois vais controlando ao crescer, tanto me faz querer fazer um som agressivo como a

seguir faz-me criar um ambiente mais tranquilo, porque é assim que também levo a minha vida pessoal. O ambiente também mexe contigo, mas acima de tudo é uma cena muito pessoal. Onde quer que fosse, desde que estivesse acompanhado por estes músicos, acredito que a nossa música teria saído igual.» A banda, que na voz do vocalista se diz não ser «próspera a nível de edições», optava então por um lançamento mais curto e adiava os planos para um segundo longa-duração. «Não é por falta de material, mas por estarmos habituados a trabalhar ao nosso ritmo e por nós próprios», justifica. «A ideia inicial não era esta. Depois de termos gravado o primeiro álbum, queríamos fazer um novo; ou seja, continuar na onda do álbum de estreia. 17 - ULTRAJE #18

Começámos a compor na altura, só que acabámos por nos perder um bocado nas nossas coisas de banda e decidimos lançar um EP.» Os Don’t Disturb My Circles veriam no EP “Lower Canopy” uma estratégia para mudar a forma como haviam trabalhado até este ponto: «Queríamos fazer com que isto fosse uma viragem para a maneira como agilizamos as coisas no seio da banda», diz-nos João. «Falamos muito e andámos há alguns anos cheios de intenções, e depois o plano sai furado. Agora, nos 30, estamos a tentar fazer as coisas como deve de ser, com um ritmo mais constante. A escolha para ser um EP foi mesmo por sentirmos que ia dar lugar a uma viragem no som, pela forma como estamos a evoluir, e não faria sentido estarmos a adiar o lançamento.» O músico continua: «Estávamos insatisfeitos com a maneira como temos feito as coisas e queríamos tornar a banda mais produtiva. Se isso pode contribuir para a consagração da banda? Sem dúvida que poderia agilizar o processo mas, como sabes, a música que fazemos é para um nicho e não acredito que fosse pela insistência dos lançamentos que as pessoas começariam a gostar da nossa sonoridade. Queremos estar mais presentes. Queremos equiparar-nos a bandas que têm lançamentos mais frequentes, porque nós também crescemos com essas bandas que passavam a vida em tour e lançavam um álbum a cada dois anos.» Henrique Reis dá seguimento: «Não sentimos que precisamos disso para nos afirmarmos, mas, sim, num sentido de concretização de banda pois é isto que gostamos de fazer. Neste momento precisamos de o fazer para nos sentirmos realizados.» Para o futuro, Henrique diz-nos que o objectivo passa por «lançar um álbum no próximo ano» e promovê-lo através de «uma tour europeia». «Nos próximos tempos também queremos lançar muita mais música do que aquela que lançámos até hoje. Queremos trabalhar e tocar mais ao vivo.» João completa: «Queremos levar a nossa música pelo tal experimentalismo onde queremos estar. A internacionalização também nos apraz, pois gostaríamos de mostrar aquilo que fazemos fora de portas.»


TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CHAR TUPPER

PAIXÃO & OBSESSÃO

POINT BLANK

s Soulfly estão de volta aos discos com “Ritual”, que chega ao público três anos após a edição de “Archangel”. Vinte e um anos e 11 discos depois, os Soulfly de Max Cavalera sobreviveram às constantes mudanças na formação, ao declínio da Roadrunner (editora que os acompanhava desde a fundação da banda em 1998 - os Soulfly viriam a assinar pela Nuclear Blast em 2015) e a todos os obstáculos com que se depararam nestas mais de duas décadas de carreira que se seguiram depois de Max abandonar os Sepultura. A sonoridade do colectivo - outrora nu-metal - evoluiu, tornando-se cada vez mais agressiva e singular, acabando eventualmente por transpor as fronteiras do death e do thrash metal. «Acho que é a minha paixão pelo metal e pela música», refere Max Cavalera à Ultraje depois de perguntarmos quais as razões por detrás deste sucesso e de toda esta energia. «Eu sou muito obcecado pelo metal», prossegue, «tenho mesmo uma obsessão pela música e pelo trabalho, e temos muitas pessoas a trabalhar connosco, como é o caso da Gloria, que é uma empresária maravilhosa». Sobre Gloria Cavalera, esposa e manager de Max, o músico confirma que o sucesso dos Sepultura e dos Soulfly nunca teria sido o mesmo se não fosse pelo seu trabalho. «Ela sacrificou-se e esforçou-se bastante para construir tudo isto. Nos Sepultura fez coisas grandes: mudou o contrato que tínhamos com a Roadunner, que era muito mau e não estávamos a ganhar nada. Ela foi lá oferecer-lhes porrada para mudar o contrato e conseguiu. Trabalhou um ano de borla para nós, para nos mostrar que gostava do trabalho dela e coisas desse tipo. Às vezes vejo-a a trabalhar até às duas ou três da manhã sem parar, e nunca a ouço reclamar. É sempre assim. Gosta do que faz e acredita muito nas coisas que fazemos juntos. Tem muita fé nos Soulfly, nos Cavalera [Conspiracy] e nos Killer Be Killed. Não foi algo que eu tivesse conseguido sozinho. Tive muitas pessoas envolvidas no porquê do meu sucesso e uma dessas pessoas foi, logicamente, a Gloria.» Ainda que Max Cavalera não tenha conseguido todas estas vitórias sozinho, a forma como se atira de cabeça ao trabalho foi crucial para construir e manter uma carreira sólida que não tem fim à vista. «Neste momento temos uma banda muito boa, com o Zyon [filho de Max] na bateria, o Mike [Leon, baixo] e o Marc [Rizzo, guitarra], e estou muito feliz com este novo trabalho, “Ritual”», comenta. «Tenho ficado feliz com os meus últimos trabalhos, como “Psychosis” [Cavalera Conspiracy, 2017], “Archangel” [2015], Killer Be Killed [projecto de Max Cavalera com Troy Sanders, dos Mastodon, entre outros] e também com “Ritual”, que é mais um para a colecção de discos.» A paixão por aquilo que faz é tanta que o seu calendário não lhe permite reservar tempo para férias: «Adoro manter-me ocupado. Não tiro muito tempo para férias e prefiro fazer antes alguma coisa, daí que podíamos não fazer a tour de Novembro para ir de férias mas resolvi fazer alguma coisa, que foi a ideia de fazer uma tour com os álbuns “Beneath the Remains” e “Arise” [discos dos Sepultura editados em 1989 e 1991, respectivamente] onde vou tocar com o Iggor [Cavalera, irmão de Max e ex-baterista dos Sepultura] e com o Marc [Rizzo, guitarra]. Depois disso vamos planear também a tour do “Ritual”, que começa para o ano. Espero que seja uma tour mundial, que passe pelo mundo inteiro. Desta vez vamos criar um espectáculo mais elaborado, com estátuas no palco, algo bem ritualista. Vai ser uma tour bem poderosa.»

No final de 2016, Max e Iggor Cavalera colocavam um ponto final nas especulações que se reproduziam pela Internet acerca de uma possível reunião com a formação clássica dos Sepultura, ao embarcarem numa tour de celebração dos 20 anos do lançamento de “Roots”, o último álbum dos brasileiros com Max. Um ano antes, a Ultraje perguntava ao líder dos Soulfly se existiam planos para voltar a levar Nailbomb aos palcos, uma banda à qual se juntava Alex Newport (ex-Fudge Tunnel) e que, com “Point Blank”, de 1994, e o álbum ao vivo editado no ano seguinte, “Proud to Commit Commercial Suicide”, acabariam por se tornar numa banda de culto, deixando um vazio entre os fãs que tinham nos Nailbomb um menu musical recheado de thrash metal industrial, samples e muito punk rock. Aquando da nossa entrevista com Max em 2015, o músico inviabilizava igualmente esta reunião: «O Alex [Newport] não quer fazer nada, pelo que acho que os Nailbomb já acabaram, mesmo. Não vamos fazer nada com Nailbomb. Terminámos oficialmente com os dois discos mas a memória continua viva e é bom saber que se tornaram numa banda de culto, da qual muita gente gosta.» Dois anos após esta conversa, e para gáudio dos fãs que achavam que Nailbomb perder-se-ia para sempre, Max Cavalera anunciava uma tour com mais de 30 datas em território americano, onde far-se-ia acompanhar pelos Soulfly para levar “Point Blank” – o único trabalho de estúdio dos Nailbomb – aos palcos. A procura foi imensa e antes de os Soulfly partirem com os Nile para um novo compromisso na estrada, resolveram acrescentar mais de 20 datas à tour e seguir para norte, no Canadá, de forma a que nenhum fã perdesse a oportunidade de ver Max tocar “Point Blank” na íntegra. «A tour dos Nailbomb foi muito boa», disse Cavalera à Ultraje. «Fizemos duas, na verdade. Uma nos Estados Unidos e outra no Canadá, sendo que no Canadá demos 23 concertos. Foi muito bom, com o meu filho Igor a assumir os vocais do Alex e a ficar também responsável pelos teclados e samples.» Sobre o álbum, Cavalera recorda-o com alegria: «É um disco muito bom. O “Point Blank” é perfeito para tocar ao vivo. É bem poderoso, raivoso e cheio de agressividade. Gostamos muito do projecto e é sempre bom poder fazer estas coisas, como voltar atrás no tempo e pegar nestas coisas antigas.» Max parece gostar realmente de viajar no tempo e revisitar algumas das suas obras, uma vez que depois de “Roots” e “Point Blank”, o músico leva-nos um pouco mais atrás, aos anos de 1991 e 1989, validando assim a sua vontade de não avançar com a tão esperada reunião dos Sepultura e contar apenas com o seu irmão e os músicos que o acompanham nos Soulfly para relembrar trabalhos fundamentais da carreira dos brasileiros: «Eu e o Iggor [Cavalera, bateria] vamos tocar o “Arise” e o

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SOULFLY

1998, ROADRUNNER

“Beneath the Remains” na Rússia e na América do Sul. Espero que para o ano que vem dê para trazer Nailbomb à Europa. Gostava muito de mostrar Nailbomb ao público europeu.»

A TRIBO Os rituais não são coisa do passado. Mesmo nos dias de hoje, a sociedade moderna recorre a todo o tipo de práticas no seu dia-a-dia - ainda que por vezes sejam tomadas por simples hábitos ou superstições -, e podemos ver inúmeros exemplos como o jogador de futebol que se benze antes de entrar em campo, a roupa interior que se usa na Passagem de Ano ou, como faz o pai deste vosso escriba sempre que participa num sorteio, insulta o bilhete porque da primeira vez que o fez ganhou uma Moto 4. Também o metal, a par com a religião imagine-se! -, vive de rituais, pois da mesma forma que os crentes veneram deuses e líderes religiosos, também os fãs de metal dirigem-se em massa às congregações para ouvirem os seus líderes berrar do cimo do altar através de colunas, sem se esquecerem - claro está - de comprar uma lembrança no final. Foi precisamente desta comparação que Max retirou as ideias para o novo disco: «Tentamos não deixar que isso nos suba à cabeça porque até acaba por ser negativo pensares que és deus ou que és assim tão grande. Logicamente que sinto uma ligação muito grande com os fãs, até porque os vemos como uma tribo, a tribo de Soulfly, e a maior tribo do mundo é a do metal. Quando damos um concerto, às vezes num festival gigante como agora na Polónia que tinha 700.00 pessoas ou até num espaço pequeno com 100 pessoas, se estiveres ligado com essas 100 pessoas o concerto torna-se maravilhoso. É incrível o que acontece com este tipo de música e é quase como uma experiência religiosa. Há pessoas que vão aos nossos concertos e que já acompanham a minha música desde o início. Às vezes fazem-se até acompanhar por outras gerações, como os filhos. Existem casos em que o pai é fã de Sepultura, o filho é fã de Soulfly e vão os dois ao concerto para curtir juntos. Acho que isso é uma coisa boa.» Em 1996, muitos fãs dos Sepultura revoltavam-se com o lançamento de “Roots” que, a par do que já havia acontecido em 1993 com “Chaos A.D.”, mostrava os brasileiros a seguir uma direcção musical muito diferente quando comparada com a sonoridade death/thrash metal que se ouvia em “Beneath the Remains” (1989) e “Arise” (1991). Tal não acontece com os Soulfly - pelo menos a esta dimensão -, uma banda que mostrou-se receptiva a todo o tipo de experiências e deu as boas-vindas à evolução sonora de braços abertos desde o começo. Max Cavalera considera que os fãs de Soulfly «são menos radicais do que alguns fãs de Sepultura, que queriam que gravássemos o “Arise” a vida inteira, sem evoluir e sem procurar coisas novas». Para o músico, a grande diferença reside no facto de a tribo dos Soulfly ter «uma mente mais aberta» e de «aceitar coisas diferentes, como jam sessions e colaborações com outros músicos». «Os fãs dos Soulfly são muito devotos», partilha. «Já vi muitas tatuagens dos Soulfly pelo mundo inteiro, inclusivamente em membros de outras bandas como Chimaira ou Hypocrisy. Fazer uma tatuagem dói; eu tenho bastantes e sei que dói p'ra caralho, então quando alguém faz uma tatuagem dos Soulfly, para mim é algo muito forte que me mostra realmente que eles são fãs da banda.» Para “Ritual”, Max decidiu que deveria aproximar-se ainda mais dos fãs e foi por isso que trabalhou com o produtor Josh Wilbur, vencedor de um Grammy e que é conhecido pelo seu trabalho com bandas como Lamb Of God, Trivium ou All That Remains. «O produtor Josh Wilbur é um fã dos Soulfly e veio produzir este disco como um fã. “Ritual” é o disco que eu fiz que está mais perto dos fãs até hoje, desde o primeiro.»

GROOVE, MOTÖRHEAD & MARC RIZZO “Ritual” apresenta também os elementos tribais e o groove que sempre caracterizaram a sonoridade de Max. «O groove está presente desde os tempos de “Inner Self” [“Beneath the Remains”, 1989], que é das músicas mais groove que eu já criei até hoje. Também há outra, a “Dead Embryonic Cells” [“Arise”, 1991], que tem aquela paragem a meio que é também muito groove. Eu adoro groove no metal. Slayer tem bastante groove, assim como Pantera, Biohazard, Fear Factory... Todas essas bandas tiveram sempre um groove bem porreiro, inclusivamente Black Sabbath. Então, para mim, foi sempre algo natural,

principalmente depois de vir de um disco como o “Roots” e em que me atirei de cabeça para o “Soulfly” [primeiro disco da banda, 1998]. O nosso primeiro álbum tinha elementos parecidos com os do “Roots” ou “Chaos A.D.”. E gosto de ver o que está a acontecer com “Ritual”, em que há pessoal a comparar o tema-título com “Ratamahatta” ["Roots", 1996] ou a vê-lo como uma mistura de “Ratamahatta” com “Prophecy” ["Prophecy", 2004]. Influenciámo-nos pelo nosso próprio trabalho mas temos também outras influências. Há músicas, como a “Under Rapture”, que retiram influências de bandas de death metal como os Immolation e os Suffocation, temos coisas mais black metal, como a “Blood On The Street”, pois tenho ouvido bastante Dark Funeral e Immortal... Adoro essas bandas. É um disco que tem influências de tudo: Gojira, Lamb Of God... Tudo aquilo que ouço no mundo do metal acaba por influenciar o trabalho que faço.» Já no final do disco podemos encontrar "Feedback!", um tema de homenagem a Lemmy e aos Motörhead: «Amamos Motörhead e amamos o Lemmy. O nome Sepultura veio de uma música dos Motörhead chamada “Dancing On Your Grave”. Quando compus o riff da “Feedback!” percebi que era muito semelhante ao da “Ace of Spades". Foi aí que começámos a fazer umas jams e a improvisar música que se parecesse com a “Ace of Spades” e disse ao resto da banda que queria experimentar uma letra que contasse a história da vida na estrada, em tour. É um tema muito diferente do restante álbum; é menos groove, uma mistura de Motörhead com um pouco de Iron Maiden. Mas gostei de a incluir no final do disco, para ficar com um clima diferente.» As rotações na formação dos Soulfly acontecem desde a sua fundação, em 1998, o que em muito justifica o facto de a banda se conseguir manter tão produtiva e sempre a apostar em novas visões sonoras. Quem sobreviveu a todas as mudanças que ditaram a entrada e a saída de companheiros de banda foi Marc Rizzo, que depois de se ter juntado ao brasileiro em 2003 para as gravações de "Prophecy", tornar-se-ia o músico mais resiliente de sempre a fazer parte do colectivo (à excepção de Cavalera, claro). A influência de Rizzo na sonoridade dos Soulfly é imensa e nem mesmo Max consegue imaginar a sua música sem a colaboração do guitarrista: «Eu nunca irei parar. Sou um guerreiro, pelo que se acontecer alguma coisa e tiver que chamar outra pessoa, é lógico que o vou fazer. Mas o Marc já é bastante integral no som dos Soulfly. Trabalhamos juntos desde 2003 e é o guitarrista com quem tenho tocado há mais tempo. Gostamos das mesmas coisas; adoramos thrash, hardcore, death metal, e o Marc dá 120% em todos os concertos. Está sempre a saltar, toca de caralho e é um guitarrista feroz. Estou muito feliz por o ter na banda, pois é alguém de quem gosto muito. Espero que não saia e que fique connosco por bastante tempo. O Marc é fiel e sinto que vai ficar na banda mais uns tempos. A lealdade dele é genuína, adora os Soulfly e acho que está feliz aqui.»

APOCALIPSE EM VAGOS Max Cavalera continua a tradição de se servir de uma palavra apenas para dar título a um álbum. Foi sempre assim à excepção de "Dark Ages", que ao ser editado em 2005 marcaria a abertura de um novo capítulo para a banda do Estado norte-americano do Arizona, pois seria depois de "Dark Ages" que davam os primeiros passos em direcção a uma sonoridade mais pesada e obscura, valendo-lhes a entrada no directório Metal Archives, que até então havia sido sempre negada pelos administradores por não os considerarem como uma banda de metal. Pedimos a Max que, da mesma forma que escolhe uma palavra para baptizar os seus discos, escolhesse igualmente uma para descrever o estado actual do mundo: «O mundo está apocalíptico. Acho que esta é a melhor palavra. Está tudo num estado de apocalipse, o que acaba por ser bom para a música. Quando o mundo está em crise, há muitas letras e músicas boas, há bastante atitude, e luta-se contra tudo o que está errado. O metal é a nossa salvação e hoje em dia precisamos do metal mais do que nunca. É por isso que eu estou aqui; vamos fazer a tour e levar a música ao povo. Espero também regressar a Portugal. Foi muito bom tocar em Vagos [2017]. Fiquei muito feliz com aquele concerto. Adoro tocar em Portugal pois o público é muito fiel e bem grande. Espero regressar para o ano.»

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O disco de estreia dos Soulfly é a continuação do trabalho que Max Cavalera havia desenvolvido em "Roots", dos Sepultura. Deste registo - que oferece muitas experiências sonoras tendo sempre o groove como base - saíram clássicos como "Eye For An Eye" e "Bleed". PRIMITIVE

2000, ROADRUNNER

Ainda em busca de uma identidade musical, "Primitive" é uma colecção de temas de nu-metal onde Max Cavalera extravasa toda a sua raiva e fúria ao lado de músicos convidados como Chino Moreno, Corey Taylor, Tom Araya ou Sean Lennon. Depois deste disco, os Soulfly começariam a privilegiar uma sonoridade mais pesada. PROPHECY

2004, ROADRUNNER

"Prophecy" foi o rasgo de criatividade de que Max Cavalera necessitava, mostrando ao mundo quem eram realmente os Soulfly e ao que vinham. De forma a levar a nova sonoridade a bom porto, o músico seleccionaria uma nova formação, com o destaque a recair na escolha de Marc Rizzo, então nos Ill Niño, para o lugar de guitarrista. A dupla de Rizzo e Cavalera, parceria que se mantém nos dias de hoje, continuaria a elevar a fasquia nos álbuns seguintes. ARCHANGEL

2015, NUCLEAR BLAST

"Archangel" marca o regresso do som de marca dos Soulfly, sem esquecer as influências de thrash e death metal de trabalhos anteriores.


TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: GRZEGORZ GOŁEBIOWSKI


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DEUS, HONRA, PÁTRIA

odos sabíamos que os Behemoth teriam que surgir com um disco que fosse arrebatador não só musicalmente mas cujo título transmitisse de igual forma o mesmo espírito ultrajante de “The Satanist”, o álbum de 2014 que, com a sua notável execução musical e tendo como alicerce uma produção electrizante, seria acolhido pelos fãs como um dos melhores registos discográficos do colectivo polaco. Tal era do conhecimento de Nergal (vocalista, guitarrista e compositor da banda) que viu em “I Loved You at Your Darkest” o derradeiro sacrilégio por ser uma expressão cuja autoria é atribuída a Jesus Cristo. À Ultraje, o músico conta que «depois de termos lançado “The Satanist” e de termos escolhido esse título para o disco, tinha consciência de que tínhamos que surgir com algo completamente diferente. Fizemo-lo pois a Bíblia foi sempre importante para a banda no sentido em que a leio muito para que possa encontrar lá algo que seja apelativo para a nossa a arte». Desta vez Nergal decidia ir um pouco mais longe e não se limitava apenas a encontrar um conceito que o inspirasse, como descreve à Ultraje. «Pensei: “Porque não roubar um verso da puta da Bíblia e, para além de usá-lo, distorcer também o seu significado?” Percebi que seria uma excelente ideia e pensei nela durante meses.» O tempo que Nergal dedicaria a alimentar esta opção traria igualmente uma série de dúvidas: «Não parava de pensar nisto e a dada altura perguntei-me se não seria melhor optar por algo mais tradicional, mas ainda bem que não o fiz», admite. «Sabia que era arriscado e que há pessoas que tendem a ser excessivamente conservadoras e não apreciam quando um artista abusa desta forma, algo que eu faço. Achei o título muito diferente, pelo que decidi avançar com ele.» Tal escolha criativa viria também a causar alguma confusão entre os fãs da banda, como explica: «É uma citação de Jesus Cristo e fez com que algumas pessoas ficassem confusas. Perguntavam-me: “O que é que aconteceu? Agora vão virar católicos?” [risos] Acho que resultou muito bem.» Para alguém que viva num país que defenda que a religião não deve ter influência nos assuntos do Estado, talvez possa não entender a necessidade de ofender e provocar os crentes, direccionando o seu ódio ou energia para outras temáticas. Este não é o caso dos Behemoth, que vendo na Polónia um país conservador dominado pela religião e por uma sociedade cristã, consideram que o sacrilégio tem muito mais impacto: «Na minha opinião, o governo polaco e o presidente da Polónia chupam a pila à Igreja todos os dias», diz Nergal, acusando a sua raiva perante o governo do seu país. «Eles interferem nas nossas vidas. Recentemente tivemos esta situação relacionada com o aborto, em que o consideraram oficialmente ilegal. Ou seja, se um médico realizar um aborto será preso. Para mim, tudo isto só faz a Polónia recuar décadas e, ao invés de progredirmos e evoluirmos, estamo-nos a dissolver e a regredir. É um país estagnado. É errado, não nos leva a lado nenhum e odeio isso. Tenho as minhas razões para me sentir frustrado e manifesto essa frustração e raiva através da minha música, daí o título deste novo disco.» Depois de o músico ter confessado que não se sente totalmente seguro no seu próprio país, assegurou que se não fosse pelo facto de a Polónia ser díspar a nível político e social e que se tivesse nascido num país como a Austrália ou a Holanda, que oferecem outro tipo de liberdade, «provavelmente não faria o que faço agora». «Ainda assim», continua, «se os Behemoth tivessem nascido na Jamaica provavelmente tocaríamos reggae, só que eu nasci na Polónia, que está longe de ser o país mais perfeito da Terra, e odeio reggae. Acredito que encontraria o meu caminho, sabes? Se nasces artista acabarás por encontrar o teu espírito artístico independentemente da situação em que te encontras. A Polónia é um país muito complexo e complicado com o qual tenho uma relação de amor-ódio, pois para além de conseguir perceber que existe muito amor e muito potencial, também vejo o seu lado negro.» A Polónia foi também palco de algumas controvérsias que afectaram o músico, senão vejamos: em 2010, Nergal enfrentava dois anos de prisão por rasgar uma Bíblia em palco e chamá-la de “livro de mentiras”, acabando por não ter de cumprir pena; em 2017,

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o governo polaco levava o compositor novamente aos tribunais devido ao design da t-shirt “The Republic Of The Unfaithful”, em que as autoridades legais tinham como base o desrespeito para com a Águia Branca presente no brasão de armas deste país, e que é visto como uma ofensa punida por Lei. Porém, do lado social nem tudo é mau: «Quando sou crítico para com o governo polaco, não tenho a intenção de criticar a sociedade», informa Nergal à Ultraje. «Há vantagens e desvantagens, lados bons e lados maus. Há muito boa gente na Polónia e recebo apoio da maior parte destas pessoas. Se eu tiver que caminhar pelas ruas de Varsóvia ou de outra cidade qualquer, o que vou encontrar na maior parte das vezes é simpatia e pessoas amigáveis, e raramente há reacções agressivas. De um ponto de vista geral, as coisas não são assim tão más mas estão longe de ser confortáveis.»

ROCK N’ ROLL «O mundo está a reagir de uma forma excessivamente sensível a tudo, como podes ver por aquilo que se passa dentro da cena metal.» As palavras de Nergal surgem depois de a Ultraje o questionar se as pessoas estariam a tornar-se demasiado complacentes no que à religião diz respeito. «Dentro do metal tens pessoas a fazer coisas realmente muito estúpidas e como deves saber nem todos os rock n’ rollers são inteligentes. Além disso, até mesmo um tipo esperto pode fazer a escolha errada e fazer algo de muito estúpido. É tão fácil para as pessoas hoje em dia julgarem os outros. Coisas como “aquele é drogado” ou “os membros desta banda são agressores sexuais”. Limitam-se a ler os títulos e não investigam. Não lêem mais do que isso e não aguentam os cavalos. Tudo o que fazem é colocar um rótulo nas pessoas, algo que acontece muito actualmente. Odeio isso.» Era óbvio que Nergal precisava de extravasar alguma raiva, pelo que não interferimos no seu discurso: «Sabes, acabei de ler um livro excelente intitulado “Please Kill Me: The Uncensored Oral History of Punk”. É uma espécie de biografia do punk rock, especialmente aquele que foi feito na década de 1970, que era algo fora de controlo. É mesmo bom. Está muito bem escrito e ao ler pensava cá para mim que se todas as pessoas que passam a vida a queixar-se de tudo e mais alguma coisa tivessem vivido nesses tempos, ou então se fossem actualmente confrontadas por uma nova onda de punk rock, seriam completamente esmagadas. Era uma coisa muito violenta e caótica. Tudo o que eu peço às pessoas é que se acalmem, respirem fundo e pensem duas vezes antes de agir.» A Ultraje não deixou de pensar que Nergal se referia aos seus compatriotas Decapitated quando lançou o exemplo da banda que é julgada pela opinião pública como nada mais do que um agrupamento de agressores sexuais. Para os que não se recordam, a banda fundada em 1996 seria formalmente acusada de rapto e violação pelas autoridades dos EUA aquando da sua passagem pelo continente norte-americano para promover “Anticult” (2017). Retiradas as acusações por terem surgido provas que sugeriam a inocência dos membros da banda, os Decapitated regressariam à Polónia após três meses de prisão. Entre os músicos que se juntaram ao debate online encontrava-se Nergal, que serviu-se das redes sociais para publicar uma declaração onde demonstrava o seu apoio à banda. Nergal recordava agora esses tempos conturbados: «Estou satisfeito pelos Decapitated estarem em casa e por terem reactivado a banda. Estão a tocar

novamente e a restaurar a sua posição», começa por dizer à Ultraje. «Por outro lado, estou muito chateado por constatar que o veredicto foi dado de forma a que a banda não possa regressar aos Estados Unidos e obter justiça junto da mulher que causou todos estes problemas. Eles deveriam receber milhões de dólares do governo norte-americano como reembolso por tudo aquilo o que aconteceu. Estão livres mas não podem fazer nada quanto a isso e deveriam poder ir lá e fazer justiça.» O músico admitiu também ter estado envolvido em situações em que fãs procuraram aproveitar-se do seu estatuto: «Nada a uma escala assim tão grande. As coisas correram melhor», explica. «Tivemos muita sorte em alguns casos, pois nos dias que correm vai tudo parar às redes sociais. Fazes alguma coisa e depois percebes que alguém filmou tudo. Nos anos 1990 e no início dos anos 2000, as coisas não eram assim e fazíamos um monte de merdas nos bastidores ou no autocarro de tour. Agora não podes fazer nada e já nem é possível sequer fazer uma piada sobre o Holocausto sem que tenhas logo os antifas atrás de ti.» Mencionar os antifas (grupos anti-fascistas) suscitou um novo surto de raiva em Nergal: «Estas pessoas são o exemplo perfeito de uma organização desmiolada», refere. «Vê lá tu que encontraram uma foto de quando participei num filme chamado “AmbaSSada” [2013], em que fui actor e vesti um uniforme nazi. Pegaram nisso e alegaram que eu era nazi. Eu fiquei tipo “vão-se foder seus cabrões, não sabem do que falam”. Limitaram-se a ver a fotografia e não quiseram saber o contexto. Então vão atrás de bandas como a nossa, ou como os Marduk ou os Watain, e alegam que somos nazis. Mas porque razão não fazem o mesmo com os Metallica? Existe uma fotografia no Google com o Lars [Ulrich] e o James [Hetfield] a fazer o Sieg Heil [saudação nazi], então porque não há um problema com isto?» Depois de um breve momento para se recompor, é Nergal quem dá resposta à sua própria pergunta: «O mundo está cheio de oportunistas e é tudo muito superficial e merdoso. Querem capitalizar a atenção ao perseguirem alvos fáceis. Não podem atingir os Metallica porque são demasiado grandes. Os advogados dos Metallica acabavam com os antifas se eles fossem por aí.» De volta à religião, quisemos saber se este sentimento anti-religioso de Nergal poderia ter o seu fim à vista e se o passar dos anos poderia, de alguma forma, desvanecê-lo. «Não sei o que vai acontecer nos próximos dez anos», responde calmamente. «Talvez fique mais sereno, talvez relaxe mais... Talvez me torne judeu. [risos] Todos os dias o mundo dá-me razões para ficar zangado e criar música. Talvez venha a ter filhos e eles acabem por me acalmar ou tornar-me ainda mais frágil.» Frágil? O Nergal? «Sim, sou muito frágil», confessa. «Mas tenho um escudo que utilizo para me proteger e não deixar que as pessoas vejam a minha fragilidade, pois isso seria perigoso. Talvez um dia desista. [pausa] Espero que não. [risos] O sentimento anti-religioso é um excelente combustível para a arte e preciso mesmo dessa centelha para me fazer seguir em frente.» Ainda que os Behemoth tenham as suas raízes no black metal, aquilo a que chamamos de direcção musical pouco ou nada significa para a banda, e para este disco, Nergal – na companhia do baixista Orion e do baterista Inferno – deixou as influências de Mayhem e Morbid Angel de lado e abriu caminho para o rock dos AC/DC, mostrando assim que os Behemoth não estão presos a géneros musicais. «Penso sempre da mesma forma e não foi

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diferente com este disco», refere à Ultraje. «Procuramos sempre redefinir o nosso som, procuramos sempre utilizar ferramentas diferentes e seguir outra direcção. Ainda que estejamos sempre dentro do mesmo subgénero e sob o domínio dos Behemoth, queremos expandir os nossos limites, e isso não foi diferente com “I Loved You at Your Darkest”. A diferença é que desta vez fomos mais aventureiros.» Nergal admite também reconhecer que a marca Behemoth é maior do que qualquer estilo musical que lhes possa ser atribuído e sente, como artista, liberdade suficiente para explorar diferentes paisagens sonoras. «Crio as minhas próprias regras, e se sou escravo de alguma coisa então será das minhas regras e não de fórmulas musicais. Se eu decidir manter-me dentro do género do heavy metal, isso significa que o amo e que quero manter-me fiel a ele, pelo que posso dizer que de certa forma sou livre», rematando: «É esta a minha vontade e foi isto que eu quis ser. Diria que isso faz de mim um artista livre.» Nergal estabelece também uma comparação entre as bandas do presente e as dificuldades que formações como a dos Behemoth enfrentaram no passado: «Lembro-me de ter recebido a minha primeira carta da Pagan Records, que dizia que queriam lançar as nossas cassetes e produzir o nosso primeiro CD», recorda. «Pensei: “Foda-se, isto é excelente!” Mas hoje em dia basta teres uns dois mil euros e já produzes o teu próprio CD. Está ao alcance de toda a gente. Nessa altura tínhamos 16 ou 17 anos e não tínhamos um cêntimo em nosso nome. Tudo o que tínhamos era o amor e a paixão pela música, e ter uma oportunidade como esta foi tudo para nós.» O compositor realça também a dificuldade que as novas bandas têm em afirmar-se e crescerem o suficiente para actuarem em estádios com lotação esgotada: «Talvez seja um sinal dos tempos», reflecte. «Contudo, acho que existem algumas bandas com potencial para crescerem ainda mais. Falo em nomes como Ghost, Gojira ou Mastodon, que crescem a um ritmo constante, e espero que os Behemoth estejam entre elas. É triste ver o afastamento dos Slayer mas alguém terá que ocupar o seu lugar, e trabalho arduamente para que um dia possa atingir esse nível, se tivermos a sorte e o tempo do nosso lado, pois o tempo passa muito rápido.» Nergal vê o futuro dos Behemoth com muito positivismo, realçando que ainda há espaço para crescer: «A nossa prioridade é criar coisas que nos motivem e que sejam inspiradoras para nós, ponto final. Tudo o resto, como entrar nos tops da Billboard, claro que seria porreiro mas não é para isso que continuamos com os Behemoth. Mas sim, a nível criativo e estético, há muito mais para explorar.» Antes de darmos lugar às despedidas, questionámos Nergal muito rapidamente acerca do seu estado de saúde (de recordar que o músico foi diagnosticado com leucemia em 2010). «Sinto-me excelente!», responde. «Estou em forma, saudável e pronto para partir tudo!» Esperemos que assim seja.

"I Loved You at Your Darkest" Editora: Nuclear Blast Lançamento: 5 Outubro 2018


TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: PAULO MENDES


F

LISBOA UNDER THE SPELL

ernando Ribeiro, denunciando desde logo a sua boa-disposição, atende a chamada da Ultraje ao primeiro toque. Ao longo dos próximos quarenta minutos, o músico falará de “Lisboa Under The Spell”, a mais recente edição dos Moonspell que contempla um DVD, um Blu-ray e três CDs ao vivo, com destaque ainda para a edição em triplo LP. Gravado ao vivo no Campo Pequeno no dia 4 de Fevereiro de 2017, “Lisboa Under The Spell” é uma comunhão entre o passado e o presente da banda, com os clássicos “Wolfheart” (1995) e “Irreligious” (1996) – assim como o mais recente “Extinct” (2015) – a serem tocados na íntegra. Às três horas de espectáculo ao vivo junta-se ainda um documentário realizado por Victor Castro, que assina de igual forma a direcção do DVD e que captura as semanas que antecederam a subida dos Moonspell a um dos palcos mais emblemáticos do nosso país. Dez anos antes, a primeira diligência da banda no campo das edições ao vivo era editada sob o título de “Lusitanian Metal”, um registo que para Fernando Ribeiro foi «um pouco remoto e muito problemático». «Lembro-me de termos tido problemas de direitos de autor com dois elementos da altura, de as coisas terem sido todas adiadas e de termos mudado de produção de DVD, mas no fim lá conseguimos fazer esse “Lusitanian Metal”», recorda à Ultraje. «Mas realmente, passados dez anos, houve uma aprendizagem grande.» O músico assume que desta vez tinham «um conceito muito mais definido» quando comparado com o primeiro DVD da banda, e que a primeira decisão foi a de «não gravar o DVD no estrangeiro, mas sim em Portugal, com tudo o que isso acarreta de bom e de mau, e também tocar um concerto que fosse só nosso». «Foram esses os grandes ensinamentos do “Lusitanian Metal”», refere, «mas para ser honesto não olhámos muito para esse DVD quando começámos a conceber o “Lisboa Under The Spell”. Sabíamos que ia ser uma altura completamente diferente da banda e que estaria sob o controlo criativo da banda, do Victor Castro e das pessoas que trabalharam no DVD. Tinha que ser algo especial e épico, pois de outra forma não valeria a pena estar a lançar mais uma coisa dos Moonspell.» Perguntámos a Fernando Ribeiro se achava que o público tenha estado à altura de um concerto desta envergadura: «Há quem diga que sim e quem diga que não», assinalou. «Já li muitas coisas acerca disso mas em retrospectiva acho que as pessoas ficaram um bocadinho espantadas com o concerto e isso tem a ver um pouco com aquilo que os Moonspell são em Portugal. Algumas pessoas que foram ver o concerto ainda se espantaram por termos uma coisa bem pensada e longa. Uma das opções técnicas/estéticas do Victor Castro foi capturar reacções individuais do público, que acho que são também mais especiais neste tipo de concertos e que não se vêem tanto. O público deu o máximo que tinha num espectáculo longo, mas também já me disseram que merecíamos ter as pessoas completamente doidas. Acabámos de vir do Vagos Metal Fest e o público de Vagos se calhar teria outro protagonismo num DVD, mas este registo também não é sobre alguém em especial, é sobre toda a gente.» Numa avaliação geral, o músico mostra-se satisfeito com o produto final e enaltece o trabalho do realizador, ao dizer que «isto foi como juntar peças, e se há coisa em que o Victor é bom é a juntar essas peças para os Moonspell». Da mesma forma que um atleta recorre a

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imagens em vídeo para estudar a sua prestação, também Fernando Ribeiro examinou atentamente a performance da banda: «Senti uma coisa muito importante [ao ver o DVD], que foi a união e a consciência de que apesar de estarmos rodeados de convidados, produtores, fãs e de toda a gente, nós os cinco mantivemo-nos mentalmente muito fortes.» Ainda que tivessem pela frente uma noite importante que ficaria perpetuamente registada na história da banda, Fernando Ribeiro diz-nos que «não deixava de ser um concerto onde as pessoas também pagaram bilhete e esse era um aspecto muito importante a considerar, pois não se podia estar só ali a posar para a fotografia». «Houve várias situações normais de concerto, como a tensão [que se verificava] de vez em quando entre as equipas, e temos este condão de ficarmos menos nervosos quando as coisas começam a acontecer porque também estamos a tocar ao vivo e vamos dominando o espaço cada vez mais.» O compositor ressalva a união do grupo e o seu contentamento por verificar que este havia sido «definitivamente um trabalho de equipa», onde tudo tinha tido a participação dos Moonspell: «Eu no conceito com o Victor, depois o Pedro Paixão [teclados, guitarra] nas misturas áudio... Não se perdeu o fio à meada, apesar da meada ter sido bastante complicada desta vez, com tudo o que envolve este tipo de produção, e conseguimos exactamente aquilo de que eu estava à espera.» Não seria só o público a reagir com espanto, pois também Fernando Ribeiro iria acusar alguma surpresa, «principalmente com a edição que a Napalm fez, que é uma coisa épica e não foi nossa ideia meter tudo assim num DVD». Para o músico, o trabalho da editora austríaca «veio beneficiar [a edição]», permitindo criar algo com «impacto visual, uma boa imagem e um bom som». «Acho que está aqui um lançamento muito forte», completa. Se os Moonspell são exigentes consigo próprios, procurando não alienar o público em nada daquilo que fazem, também os fãs são exigentes para com o trabalho da banda. «Isso acontece com todas as bandas», assegura. «As pessoas perderam um pouco o deslumbramento e provavelmente a culpa disso pode ser dividida pela imprensa, pela Internet, pelos fãs e pelos músicos. Não temos que ter ilusões nesse aspecto. Foram os fãs que fizeram a moldura humana do Campo Pequeno e são os fãs que vão, de alguma forma, ter nas mãos a decisão do papel ou do significado que terá este DVD nas suas prateleiras.» Com o advento da Alma Mater Books & Records, editora independente fundada em 2016 por Fernando Ribeiro e que conta com a parceria de Pedro Vindeirinho (Rastilho Records), a relação entre os Moonspell e os fãs complica-se: «Muitos dos fãs comportam-se um bocadinho como clientes e nós sabemos que em Portugal somos todos clientes zangados», comenta ao mesmo tempo que partilha uma história em que ligou para uma operadora de telecomunicações a reclamar da falta do serviço quando havia sido a sua empregada doméstica a desconectar os fios de ligação. «Há sempre esta questão do comercial, do marketing, etc., e que nós vamos gerindo como podemos. E o que podemos nós fazer? Podemos ouvir aquilo que as pessoas querem e isso é importante, especialmente num DVD. Houve coisas até mais técnicas que chamaram a minha atenção, como o facto de o DVD em teoria ser lido por todos os leitores do mundo, pois há interesse do outro lado do oceano, no Leste ou até na Ásia. Houve também quem nos tivesse pedido um Blu-Ray e hoje em dia é muito complicado de saber quem tem DVD ou Blu-Ray, pelo que a Napalm decidiu fazer os dois formatos, resolvendo-se assim


um grande problema.» Fernando Ribeiro partilha outro acontecimento recente: «Ainda no outro dia uma pessoa escreveu-me completamente irritada por estarmos a fazer spam, que é uma coisa que eu também odeio que façam, portanto fui verificar e estava na mailing list da Napalm, porque os Moonspell também são uma banda da Napalm, mas a forma como ela disse aquilo foi exactamente como um cliente completamente zangado e até um pouco arrogante, sem saber muito bem [de que falava]. Não temos muitas oportunidades de fazer o contraditório nas opiniões e debates iniciados pelos fãs, ou de debater também uma certa ética ou conduta dos fãs, portanto a única coisa que podemos fazer é lançamentos sólidos, fortes e que tenham poucos defeitos, pois esses serão logo colocados na Internet e espremidos ao máximo. É esta a dinâmica do nosso mundo e da nossa cena - e se calhar de outras cenas também -, e há muito pouco a fazer contra isso no campo da argumentação. No campo da acção é importante continuar a fazer cada vez melhor e ter sempre um compromisso connosco próprios e com as bandas que lançámos, que é o mesmo compromisso que a Napalm tem connosco. Tivemos uma pré-venda fantástica do DVD, quer na Napalm quer na Alma Mater. As pessoas receberam os DVDs mas havia quem se queixasse porque queriam recebê-lo sem o DVD ter saído da fábrica e de estar ainda pronto fisicamente. É preciso ter calma e ver que isto não depende só de nós. Há timings que precisam de ser cumpridos e um deles é o tempo necessário para fabricar um DVD.» Nos últimos anos cada vez mais bandas têm levado aos palcos performances de álbuns na íntegra, acabando por oferecer ao público presente uma atmosfera mais ritualista. Fernando Ribeiro diz gostar desta abordagem, revelando: «Já vi alguns [concertos assim] e quando correm bem é excitante.» Por outro lado, o músico aponta o perigo «de as bandas já não conseguirem reproduzir aquilo de uma maneira que seja digna». Sobre esta decisão de tocar “Wolfheart” e “Irreligious” integralmente, o líder da alcateia assume que «foi uma coisa nova» e que fizeram algumas experiências antes de gravarem o concerto para o DVD. A faísca deu-se «quando fomos tocar perto de Milão, numa tour nossa, e tivemos a sala cheia», revela. «Os italianos adoravam aquele tempo [dos álbuns “Wolfheart” e “Irreligious”], e o público era composto não só por pessoas daquela época mas também por jovens. O feeling foi mesmo ritualista, [algo que se sente] quando a música já não é só o presente mas está também ali algo nas pessoas que os relembra de um certo período agradável. Depois tivemos os ensaios que deram também lugar a descobertas, como por exemplo o tema “A Poisoned Gift” [“Irreligious”, 1996], que foi uma música à qual nunca ligámos muito e que era muito raro tocá-la ao vivo. Acho que é uma faixa que tem muito a ver com aquilo que nós fizemos no “Extinct”, com aqueles elementos mais hipnóticos e melódicos.» “Lisboa Under The Spell” foi também a oportunidade da banda realizar alguns sonhos cénicos e que haviam sido impossíveis de os concretizar no início de carreira: «Uma das coisas que fizemos neste DVD foi criar três cenários diferentes para cada um dos álbuns, e claro que foram coisas que nós na altura nunca imaginaríamos que íamos ter, porque não tínhamos praticamente nada ao vivo e éramos só nós a tocar. Era um bocadinho triste porque queríamos ter [elementos cénicos] em palco; pelo menos um backdrop, mas eventualmente começámos a ter também os nossos brinquedos.» Para o vocalista, esta componente gráfica «contribui para ver a passagem das épocas», achando que «a música não é assim tão diferente quando tocada por esta formação». Sobre as razões que motivaram os Moonspell a tocar “Extinct” na íntegra para além dos dois primeiros discos, Fernando Ribeiro diz à Ultraje que «[o álbum] está lá também para não perdermos o fio à meada». «Apesar do “1755” [2017] ser o nosso último álbum, acho que é evidente que vamos pegar naquilo que fizemos no “Extinct” para construir um novo disco dos Moonspell, e iremos começar a compor ou a gravar no ano que vem. Tratava-se também da última data da tour “Road To Extinction” e queríamos mostrar aquele disco, que o consideramos como um dos nossos melhores, pelo menos destes últimos anos.»

havia colaborado com a banda no álbum "1755"), Desire e Okkultist. Fernando Ribeiro referiu à Ultraje que o principal objectivo da sua editora é «ajudar as bandas a tomar decisões». «Sei perfeitamente disso e sou o primeiro a sabê-lo - não por vontade própria -, mas sei que sou uma figura muito polémica na cena portuguesa e que há várias teorias sobre mim. É um pouco impossível lidar com isso», comenta. «Tem a ver um pouco com a notoriedade que alcancei fora do metal, com outras coisas que fiz em Portugal. [Fruto] da minha experiência como músico de metal português - que pouca gente tem - e de falar com muitas bandas, verifiquei que elas acabam por nunca ter um plano. Podiam ter muita vontade e podiam trabalhar muito, mas não trabalhavam bem. A Alma Mater entra aqui para ajudar a trabalhar bem. Ajudamos no processo, a levar as bandas a perceber porque é que não se vai editar logo, mas sim daqui a uns tempos, e isso é importante. Claro que a Alma Mater nasce um pouco à volta dos Moonspell e do coleccionismo que existe à volta da banda, algo que me honra muito. Queremos fazer coisas com outras bandas que tenham alguma coisa a ver com a formação da editora, que é realmente o universo dos Moonspell, mas acho que uma editora que se preze tem de apostar em novos artistas.» Esta aposta surge com os Okkultist, banda de death metal liderada por Beatriz Mariano e que contava até aqui com um único EP de 2017 intitulado "Eye of the Beholder". «O plano com os Okkultist é o mesmo que vamos ter com todas as bandas: uma boa produção e um bom som - é fundamental termos coisas gravadas e misturadas por quem está na cena. Vamos aproveitar a rede de contactos que fui fazendo com os Moonspell para ter aquela coisa tripla que nós precisamos: um bom álbum bem produzido, uma promoção que vai ser à escala de cada banda sempre com a hipótese de crescer se elas também crescerem, e uma tour. No espaço máximo de um ano do lançamento do disco gostava que fizessem uma tour europeia, pois aí sim, estão os dados reunidos e a própria banda poderá decidir se é isso que querem para a vida deles. Há aqui uma filosofia do que resultou e que nós fomos limando com os Moonspell, e que agora é tempo de trazer para a cena. Se não trouxe antes foi porque não pude. Agora estamos numa altura com os Moonspell e com a minha vida em que dá para trazer, não diria uma nova esperança, mas pelo menos, uma maneira diferente de fazer as coisas, pois acho que o modelo em Portugal está um pouco esgotado.» A fechar a entrevista, a Ultraje quis conhecer um pouco melhor o trabalho de Fernando Ribeiro na Alma Mater. Afinal de contas, será o próprio músico a embalar e a proceder ao envio das encomendas? «Nós fazemos um pouco de tudo. É uma empresa pequena», começa por dizer, «por isso sou eu, o Pedro Vindeirinho e o João Diogo, que faz o design. Nós vamos fazendo [as coisas] conforme vão aparecendo. Como eu moro em Alcobaça e o Pedro em Leiria, temos que ir muitas vezes a Lisboa, e então os nossos carros pessoais andam sempre cheios de CDs, livros, etc.. Ainda no outro dia fui eu e o Pedro que carregámos todos os DVDs depois da pré-venda para ir para as lojas. Fazemos esse tipo de trabalho e arranjamos familiares para colar autocolantes. Procuramos trabalhar com as melhores fábricas e com os melhores materiais mas há muita coisa que fazemos em casa. A parte comercial, ou seja, o contacto com as lojas, editoras, distribuição e mail-order - eu não tenho vida para fazer isso mas esse é o trabalho do Pedro Vindeirinho. É o que ele faz todos os dias. Já fazia bastante com a Rastilho mas isto agora trouxe-lhe ainda mais trabalho. Acho que o recorde dele são oito horas nos correios a enviar as pré-vendas. Essa parte toda da gestão do armazém é tudo com o Pedro porque ele é óptimo a fazer isso e não podia ter escolhido parceiro melhor.»

OKKULTIST & DESIRE Pedimos a Fernando Ribeiro que nos falasse um pouco do trabalho que tem vindo a desempenhar com as bandas nacionais:

OKKULTIST «Reinventing Evil» [Brevemente]

Fernando Ribeiro: «São o nosso baby monster. Vi bastante potencial na banda porque me fez lembrar coisas do death metal que não são muito habituais em bandas novas. Lembra-me os Autopsy, as coisas de Grave... É assim um bocado cru, muito directo e não muito refinado. Conhecia a Beatriz – como calculo que toda a gente a conheça – do Instagram, e quando descobri que tinha esta banda juntei dois mais dois, o que também é muito importante e sem qualquer espécie de cinismos. O trabalho que a Beatriz faz e a popularidade que tem irá sem dúvida ajudar os Okkultist. Pu-los, com o Pedro Paixão, a fazer uma pré-produção, algo que nunca tinham feito. Estiveram 16 horas em estúdio durante vários dias e nós, já quarentões, rimo-nos do choque deles por estarem tanto tempo em estúdio. [risos] O facto é que o Pedro conseguiu polir algumas coisas daquele diamante em bruto e penso que virá aí um dos melhores álbuns do death metal português, porque apesar de ser um estilo já com tradição em Portugal, os Okkultist têm algo de diferente.»

DESIRE «Infinity​.​.​. A Timeless Journey Through An Emotional Dream»

ALMA MATER Em Agosto de 2016, Fernando Ribeiro criava a editora Alma Mater, estabelecendo parcerias importantes com Pedro Vindeirinho (Rastilho Records) e também com a editora alemã Century Media Records, com esta última a possibilitar as reedições em vinil dos primeiros discos da banda mas também de outros nomes de peso, como Tiamat e Paradise Lost. Para além de trabalhar directamente com os Moonspell, a Alma Mater viria a apostar de igual forma na música nacional, começando a trabalhar com nomes como Paulo Bragança (o fadista

[Reedição, 2018]

Fernando Ribeiro: «A experiência com os Desire foi fabulosa. Acho que será importante eles agora tentarem arranjar este contexto favorável para lançar música nova porque as pessoas de alguma forma já conhecem, e hoje em dia o doom tem um respeito que se calhar não tinha na altura deles.» 28 - ULTRAJE #18


TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: EVAN BARTLESON


Tem sido uma viagem e tanto para os Nashville Pussy que, com mais de 20 anos de estrada, regressam aos discos com "Pleased To Eat You". A Ultraje falou com a carismática e divertida Ruyter Suys (guitarrista) que, para além de nos dar a conhecer um pouco melhor a proposta do colectivo norte-americano, teceu elogios aos portugueses e à cidade do Porto, não esquecendo também o seu background musical.

O

lhando para trás, qual consideras ter sido o momento que definiu a carreira dos Nashville Pussy? Diria que foi o momento em que escolhemos o nosso nome. Quando decidimos ter Nashville Pussy como nome foi um desafio pessoal, não só para nós mas também para o público. Foi como se já soubéssemos aquilo que iríamos fazer desde o início. E então, desde essa altura que tem sido um processo de redefinir, redefinir, redefinir. Por exemplo, quando fomos nomeados para um Grammy sentimos que isso estava certo. Perder o Grammy já não pareceu tão certo. [risos] Que tipo de música é que ouvias ao crescer? Fui uma sortuda porque os meus pais eram os hippies malucos. Cresci em Vancouver, no Canadá, e os meus pais não tinham dinheiro algum. A casa onde vivíamos tinha duas divisões e era alugada por 35 dólares por mês. A parede do nosso apartamento estava encostada ao melhor bar de rock da cidade de Vancouver, pelo que antes sequer de eu saber o que era a música já ouvia este barulho que saía das paredes. Os The Doors tocaram lá, assim como o Jimi Hendrix, a Janis Joplin, o caralho dos Grateful Dead (não gosto de Grateful Dead)... Toda a gente tocou ali na porta ao lado. Os meus pais não tinham dinheiro para ir aos concertos mas tinham sempre erva à mão, pelo que ficavam ali nas traseiras do bar e ficavam pedrados com todos os músicos que aguardavam que fossem chamados ao palco. Então conheceram todas estas pessoas fantásticas com quem fumavam erva. Depois a nossa segunda casa era enorme e tínhamos sempre músicos a dormir no sofá. Os meus pais diziam-me: "Este é teu tio, agora vive aqui." [risos] Estive sempre rodeada por músicos. Comecei a aprender piano aos três anos e o meu pai tocava guitarra. Quando peguei na guitarra aos oito anos aprendi a tocar tudo aquilo que o meu pai tocava. Comecei a tocar The Beatles - sabia as músicas todas - e todas as outras músicas que achava que era o meu pai quem compunha. Eventualmente percebi: "Ah OK, isto é de Simon & Garfunkel." Mas antes disso, se algum desses temas passasse na rádio, eu ficava orgulhosa e dizia: "Yeah, é o meu pai!" Quando comecei a escolher a minha própria música, os Led Zeppelin foram a minha grande paixão. O Jimmy Page ainda é o meu maior ídolo. Era um guitarrista que corria muitos riscos e sempre quis ser tão errática quanto ele era em palco. Nessa altura a cena musical no Canadá era muito diferente da dos Estados Unidos? Sim, tínhamos mais influências britânicas. Ouvíamos muito Status Quo, que não existiam na América mas eram enormes no Canadá. No entanto, culpo mais os meus pais pelas minhas influências do que culpo o meu país. Eram uns hippies do caralho e davam-me a conhecer todo o tipo de música. Coisas como Devo, Neil Young... Outros miúdos da minha idade iam lá a casa e ficavam sempre espantados. "Meu Deus, tens o teu próprio gira-discos", e eu "sim", ou "uau, tens uma guitarra" e eu "sim, vem para aqui e vamos tirar as roupas!" [risos] No que à música diz respeito, e tendo em consideração que este é já o sétimo álbum da banda, o que achas que os Nashville Pussy estavam a precisar neste momento? Como foi a abordagem para com este novo disco? Não gostamos de trabalhar arduamente. Somos uma banda muito natural e orgânica que depende muito da personalidade das pessoas que a integram. O Ben [Thomas], que é o nosso novo baterista, é tipo uma versão mais nova do Blaine [Cartwright, vocalista/guitarrista e marido de Ruyter Suys]. Está sempre à procura de música ousada e é muito apaixonado por isso, às batidas e aos ritmos. Ele trouxe tanta coisa boa para este novo álbum... É um tipo que está sempre pronto para tudo e cujo entusiasmo e habilidades permitiram-nos explorar merdas que sempre quisemos fazer, pelo que diria que não conseguiríamos compor estas músicas com o Jeremy [Thompson], o nosso antigo baterista. Podemos comparar o Jeremy ao Phil Rudd dos AC/DC. É muito simples e imaculado. É um baterista fantástico mas não quer dar mais a uma música do que aquilo que ache necessário. Já o Ben é capaz de

experimentar tudo, o que nos permitiu gravar um álbum que se destacasse. É um músico excelente e foi esta a principal mudança neste álbum; ter o Ben a permitir-nos explorar um monte de merdas que já fazíamos, mas que acabava por não se conseguir ouvir pelo facto da bateria ser diferente. Dirias que há uma hora e um lugar para compor novos temas ou estão sempre a surgir com novas ideias? Estamos sempre a ouvir e a roubar coisas dos locais por onde passamos. Agora é possível gravar tudo com o telemóvel, pelo que podemos estar a andar pelas ruas do Porto e ouvir um músico de rua ou o sino de uma igreja e gravamos isso nos nossos telemóveis. Se acharmos que é um som inspirador, então é lá que vai parar. Finalmente, quando nos concentramos para compor novos temas, recorremos aos nossos ficheiros e ouvimos tudo aquilo que gravámos. Coleccionamos sons a toda a hora; é como se tivéssemos malas cheias de inspiração. Têm também a vossa quota-parte de álbuns ao vivo. Vês os Nashville Pussy como uma banda que consegue transmitir mais energia e mostrar ao público a sua verdadeira identidade no palco mais do que aquilo que conseguiria em estúdio? Não acho que seja possível criar aquilo que fazemos em palco num disco. Terias que estar lá para ver. Já editámos bons álbuns ao vivo, mas mesmo assim não traduz o que acontece de verdade num concerto dos Nashville Pussy, pois é uma dança que tem lugar entre o público e a banda, e onde todos se soltam. É como fazer amor. [risos] No final de um concerto nosso, estão todos a transpirar. A banda teve algumas datas em Portugal nos últimos anos. Tiveste a oportunidade de visitar a cidade do Porto? Os concertos em Portugal são loucos! É um pesadelo de suor. [risos] Tivemos tempo para visitar o Porto e é uma das razões pelas quais essa cidade está tão presente nas nossas memórias. Acho que estivemos por lá durante meio dia, talvez. O nosso engenheiro de som conhecia um chef na cidade e levou-nos a comer uma refeição. Foi uma das melhores que já tivemos e que entrou directamente para o nosso top 5. Também visitámos a Torre dos Clérigos e vimos a paisagem lá de cima, e fomos a algumas lojas de segunda-mão. Para nós, na estrada, o tempo passa muito rápido. É como se visses a vida a passar diante dos teus olhos. Então, no Porto, sabíamos onde ficava o café e onde ficava o local do concerto. Era tipo: "Meu Deus, sei onde ficam as coisas!" [risos] Foi como se o mundo se tivesse aberto de repente. É que normalmente vão-nos buscar, deixam-nos no local do concerto, depois somos levados embora, dormimos fora da cidade e estamos sempre na estrada, e nunca sabemos onde fica isto ou aquilo. Nunca fazemos nada, de todo. Por isso, agora que penso nisso, talvez tenhamos tido um dia de folga dessa vez, ou pelo menos foi isso que nos pareceu dado o tempo que tivemos para nós. Digo sempre que quero visitar Portugal mais vezes, e não é só pela comida ou pelas pessoas. É como se vocês tivessem um monte de merdas que ficou congelado no tempo; ficou congelado nos anos 70. São as mobílias, o design... Foi como se nada tivesse mudado. Digo-te: se esse tipo de coisas, como a mobília, estivessem em Los Angeles, pagaríamos um balúrdio para ficar num hotel assim, mas o hotel aí era assim desde os anos 70. Portugal é... Os portugueses nem sabem o quão fixes são. Vocês são o máximo! Não me parece que as bandas modernas se deixem guiar pelo velho lema do “Sexo, Drogas e Rock n’ Roll”. Sentes o mesmo? 31 - ULTRAJE #18

É impossível! Todos os heróis do rock estão mortos. Fazemos o que podemos, mas foda-se... Quando não estou em tour, a minha vida é comer “puffy dogs” e ir ao médico. [risos] Estou a tentar aprender com os meus heróis, sabes? Costumavam dizer ao Lemmy para beber água e a resposta dele era: “Água? Isso é onde os peixes fodem. Os peixes fodem na água. Acham que eles a bebem?” Há alguns anos, quando andávamos em tour com os Motörhead, eu pensava que isto era uma piada mas a verdade é que os peixes não bebem mesmo água. [risos] Tento aprender o máximo com eles e divertir-me ao máximo, mas também vou beber água, vou dormir e vou ao dentista de vez em quando. [risos]


TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DA BANDA

«T

ivemos em “Perennials” um grande desafio, uma vez que o nosso produtor e amigo Mats Lindfors – que estava também responsável pela masterização – deixou-nos de forma trágica quando íamos dar início às gravações.» As palavras são de Stefan Blomqvist, vocalista e guitarrista dos suecos Black Paisley, que via um dos parceiros da banda falecer em Março de 2017. «Foi necessário encontrar uma nova equipa para produzir este disco, equipa essa que surgiu com os nossos bons amigos Niklas Flyckt (vencedor de um Grammy) e Pelle Andersson.» Para a masterização, a banda contou ainda com os serviços de Svante Forsbäck, conhecido pelo seu trabalho com Rammstein. «Desta vez quisemos gravar um disco mais pesado e ter temas mais rápidos para integrarem o nosso alinhamento ao vivo», diz-nos o músico acerca da evolução que o novo disco sofreu quando comparado com “Late Bloomer”, editado um ano antes. «Tem uma sonoridade mais ampla, pois alargámos os limites em todas as direcções. Temas como “I Want Your Soul” ou “Mother” são dos mais pesados que já fizemos, mas ao mesmo tempo “Stronger” e “Sometimes” já são mais suaves.»

Ao segundo disco, os Black Paisley acreditam ter encontrado a sua identidade musical: «Diria que sim, tanto a nível sonoro como de estilo. Levámos a cabo uma espécie de cruzamento dentro do rock melódico, pelo que é difícil encaixarem-nos num determinado estilo. Contudo, diria que quem conhece a banda e ouvir um dos novos temas saberá identificar que pertence aos Black Paisley.» Blomqvist diz ser difícil «dar seguimento a um álbum de estreia», pois enquanto teve «uma vida inteira para compor as músicas do primeiro disco», “Perennials” precisou de ver o trabalho concretizado «em apenas 18 meses». «Sentimo-nos muito inspirados pelas críticas que obtivemos com o primeiro disco e isso permitiu-nos crescer enquanto compositores.» A banda, cujo nome provém da guitarra personalizada de Richie Sambora, admite ser fã do trabalho a solo do guitarrista dos Bon Jovi. «”Stranger In This Town” e “Undiscovered Soul” são dois grandes álbuns. Gosto da onda blues presente nestes discos e sou de opinião de que a voz do Richie tem mais alma do que a do Jon Bon Jovi. Dito isto, aprecio também os primeiros trabalhos dos Bon Jovi, quando eles ainda compunham as próprias músicas.» 32 - ULTRAJE #18

BLACK PAISLEY Perennials

INDEPENDENTE / ULTRAJE

ais diversificado do que o M disco anterior, "Perennials" continua o trajecto que os Black

Paisley apresentavam em "Late Bloomer", misturando o hard rock com elementos clássicos e melódicos, uma sonoridade que encaixa perfeitamente na personalidade da banda. Há espaço para influências de Led Zeppelin, Deep Purple e, imagine-se, Bon Jovi, ou não fosse o nome da banda uma homenagem ao guitarrista destes últimos. Com "Perennials", os Black Paisley mostram que a inspiração está no topo e que reúnem todas as condições para continuarem a presentear os fãs com nova música editada em intervalos regulares. Ainda que seja uma edição de autor, a distribuição do disco em continente europeu ficará a cargo da Ultraje. joel costa 7.5/10


tem vários temas anti-religiosos que se baseiam apenas no facto de não apreciarmos a sua existência e como faz tantas pessoas ficarem doentes, perigosas e estúpidas. Não é importante para os Aeternus abordar esta temática mas foi algo que quisemos fazer com este disco.»

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TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DE DARK ESSENCE

e regresso para aquele que é o seu oitavo longa-duração, os veteranos noruegueses Aeternus têm em “Heathen” um registo muito aguardado pelos fãs e que chega cinco anos após “...and the Seventh His Soul Detesteth” (2013). Ares (vocalista e guitarrista) fala um pouco à Ultraje acerca da nova proposta das lendas da cena metal de Bergen. «Se me perguntares se o novo álbum se baseia no anterior, a resposta correcta é sim e não», começa por dizer o fundador. «Criámos com sucesso um álbum cuja sonoridade foi transportada até à década de 90 e trouxemos de volta a velha atmosfera dos Aeternus. Isto pode sentir-se na maioria dos temas e tudo foi concebido propositadamente. Se tinha o material do último álbum em

mente quando criei os temas para “Heathen”? Em certa medida. “... and the Seventh” é um bom álbum; sabíamos de antemão que teríamos que nos esforçar para o superar e dar aos ouvintes uma experiência que tivesse algo de bom e novo mas também o velho sentimento da banda, e nesse campo diria que fomos bem sucedidos.» “Heathen” viu a gordura removida para deixar apenas o que interessava: sete temas sem rodeios e muito directos. O músico, que diz terem criado músicas «até sentirmos que tínhamos as suficientes para um novo álbum», tem como tema principal das suas letras o anti-cristianismo. No seu entender, «nenhum acto horrendo praticado em nome da religião deve de ser perdoado ou esquecido». «A religião há muito que tem destruído a mente humana», prossegue. «”Heathen”

S

Bergen é tida por muitos como a capital do black metal, pois de lá saíram nomes como Burzum, Borknagar, Gorgoroth, Immortal, Taake, entre outros. Para Ares, enquanto as paisagens da sua terra natal são aquilo de que necessita para «obter inspiração com umas caminhadas», não são, como refere, «importantes para o processo de composição». O que é certo é que os Aeternus - ao formarem-se em 1993 e por terem em Ares uma figura que a dada altura fez parte dos Gorgoroth ou que incorporou a formação ao vivo dos Immortal - contribuíram de certa forma para o enriquecimento do legado musical de Bergen, sendo facilmente capazes de criar uma atmosfera negra que permite que sonoridades mais calmas e belas penetrem nos tons obscuros que comandam este registo. Sobre a sua incursão por bandas influentes dentro da cena de metal extremo, o músico explica à Ultraje que ainda que tal não aconteça actualmente, «em tempos encontrava-me dentro dessa neblina inspiradora». «Sempre fui um fã de Immortal», confessa, «e foi uma banda que me influenciou bastante. Fui baixista dos Gorgoroth durante dois anos, pelo que retirei daí alguma inspiração, pelo menos na altura. Mas no futuro dos Aeternus não está reservado qualquer tipo de influência destas duas bandas de elite.» Vinte e cinco anos depois da fundação dos Aeternus, o principal compositor diz sentir-se realizado: «Quando comecei com isto, tudo o que queria era ter uma banda e talvez lançar um álbum. Fiz tudo aquilo que queria e mais, até!»

TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DA BANDA

ete anos após “Loneliness Still Is the Friend”, os nacionais Urban Tales apostam em “Reborn”, um disco que procura mostrar o quanto a banda evoluiu durante todo este tempo. «Este projecto evoluiu de uma forma [que nos possibilitou] encontrar um novo equilíbrio para fazer música», revela o vocalista Marcos César. «O título do álbum pretende mostrar isso mesmo, que os Urban Tales renasceram, não só porque estiveram muito tempo parados mas também porque recriaram o seu próprio som.» Com este álbum, o músico acredita que se vão abrir novas portas, trazendo todo um leque de possibilidades para a banda, uma vez que «percorremos diversos estilos de música, desde o metal ao pop, entre outros.» “Reborn” assiste também à junção das línguas portuguesa e inglesa, com vista a criar um universo muito próprio dos Urban Tales: «Já tinha essa ideia desde o último álbum mas só agora se proporcionou. Gosto de música portuguesa cantada de qualquer maneira, desde que seja boa. Além disso era mais um desafio, já que os Urban Tales nunca tinham tentado nada assim.» Marcos César acrescenta ainda que «sendo este trabalho um álbum conceptual, e desta forma estar a contar uma

[história] do princípio ao fim», utilizar o português foi algo que fez sentido «para reforçar a ideia». Depois de 15 anos de actividade, o músico sentia que os Urban Tales precisavam de uma mudança: «[Essa mudança] fez-se no som original. Não mudámos a essência dos Urban Tales; mudámos, sim, as possibilidades de nos mostrarmos como contadores de histórias. Renascemos no som e basicamente foi o que se queria.» Os lisboetas procuram agora promover o novo disco de todas as formas possíveis, deixando à Ultraje uma última consideração: «Não sei se acrescentamos algo mais do que já existe [na cena nacional]. Talvez marquemos uma presença de inconformidade e de auto-renovação. Os Urban Tales, mais do que tudo, estão felizes por pertencer a este meio musical, onde a cada dia que passa se faz mais e melhor música.»

33 - ULTRAJE #18


A

ideia inicial seria criar música na onda do stoner rock, quando se juntaram em 2016. Disseram-me eles. O Rocha, o Romão, o Nogueira e o Claúdio – os quatro amigos lisboetas que se juntaram para formar os Desert Smoke. Estrearam-se no início deste ano ao lançarem "Hidden Mirage" – primeira demo – que tanto nos envolve numa ambiência instrumental mais atmosférica como nos exporta para cenários mais desérticos. Num discurso um tanto ou quanto fluente, devo confessar, os Desert Smoke falam de "Hidden Mirage" como se de uma viagem se tratasse. Uma travessia pelo deserto numa tentativa de relacionar a realidade com a imaginação. Foram das bandas mais partilhadas nas redes sociais durante o primeiro dia do festival Sonic Blast em Moledo, no passado mês de Agosto. Dizem que o seu rock é influenciado por sonoridades magrebinas que pelos vistos não passaram despercebidas aos festivaleiros. Os Desert Smoke garantem que ainda hoje continuam a receber feedback desse dia. O palco piscina soa a quê?! «Soa-nos a objectivo cumprido. Foi uma das metas que estabelecemos para nós e alcançá-la tão rapidamente dá-nos uma satisfação enorme e uma sensação de dever cumprido. E porquê estabelecer esta meta? Porque adoramos a vibe do Sonic Blast. Todos nós já fomos pelo menos duas vezes ao festival enquanto público, sabemos da qualidade musical que consegue reunir todos os anos e fazermos parte deste cartaz é uma espécie de sonho tornado realidade. Até ao dia de hoje recebemos mensagens de pessoal que ouviu a nossa set na piscina». É nos Nirvana Studios, em Barcarena, que passam grande parte do tempo. É lá que se sentem em casa, dizem eles. Entre uma ou outra Epiphone Les Paul, uma BC Rich Mockingbird e um Baixo RBX 170Y da Yamaha libertam criatividade e ensaiam com gosto sem perder muito tempo a pensar no processo de criação. «São horas e horas todos juntos no estúdio a improvisar e a tentar surpreender o próximo. Nisto saem algumas boas ideias e outras menos boas, e com o que temos começamos a moldar as músicas para onde as queremos levar. É mais um processo instintivo do que propriamente um exercício mental.»

Desde Janeiro, aquando do lançamento do EP, dizem ter sido bem recebidos pela crítica nacional e internacional. Se para algumas bandas os rótulos incomodam, para os Desert Smoke é um mal necessário: «Todos os dias há tanta música a sair cá para fora que é preciso rotular para as pessoas poderem saber o que procurar e onde procurar. O mal dos rótulos é que geralmente dão azo a discussões que pouco interessam.»

Gravaram o "Hidden Mirage" em Dezembro de 2017, na Lemon Drops Media (Montijo). Uma sessão tranquila em contra-relógio?! «Fomos apressados pelo Eusébio [André], que estava atrasado para ir jantar com os pais da namorada, visto ser véspera de Natal.» Explicam ainda que «a Lemon Drops Media estava com uns preços bem acessíveis para gravação em take directo e nós aproveitámos. Tínhamos direito a uma série de horas de gravação nos estúdios, tínhamos também uns temas no bolso bem ensaiados, e então foi tocá-los as vezes necessárias até ficarmos satisfeitos. Estávamos todos na mesma sala, como se fosse um concerto privado para o técnico que estava na régie, o André Eusébio». Ainda com poucos quilómetros de estrada, os Desert Smoke tiveram a sorte de assinar o seu primeiro trabalho pela Raging Planet, editora conhecida por ter trabalhado com inúmeras bandas de referência no panorama da música mais alternativa e pesada. «Quando terminámos o processo de gravação das faixas, começámos à procura de editoras portuguesas que pudessem estar interessadas em colaborar connosco. A Raging Planet é uma editora que está cá há uns bons anos, já editou muita música boa. Foi então a primeira editora à qual decidimos enviar um e-mail. A resposta do Makosh [Daniel] foi super rápida. Conhecemo-nos, gostámos da maneira dele de pensar, ele gostou das nossas ideias e então decidimos editar e lançar em formato físico a "Hidden Mirage”.» 34 - ULTRAJE #18

Não colocam de parte a hipótese de fazerem uma espécie de Generator Party numa praia da Costa Vicentina, embora nos seus bolsos não conste nenhum álbum de Kyuss. Alternam entre Sleep, My Sleeping Karma ou Samsara Blues Experiment. Preparam-se agora para o concerto do próximo dia 13 Novembro no RCA Club em Lisboa, onde vão abrir para os americanos Elder. E planos parecem não faltar para os Desert Smoke: «Só agora começámos, por isso os planos são muitos e a vontade de os concretizar também. Mas principalmente é continuar a compor e a dar concertos. Começamos aqui por Portugal e continuamos além-fronteiras. Onde quer que haja curiosidade para nos ouvir ao vivo.» (Ver campo lexical de stoner. Desert + Smoke incluídos, claramente).


H Fotografia: Herring & Herring

á quem diga que a indústria da música morreu, que a Internet é a responsável pelo assassinato e que todos nós somos cúmplices por termos abraçado uma cultura de preguiça e conveniência. Poder-se-á dizer que a década de 1990 foi a de maior sucesso, do ponto de vista de uma indústria que tinha fundos para poder apostar em muitas bandas desconhecidas, na esperança de encontrar a próxima grande estrela e com isso encaixar milhões através da venda dos seus álbuns - sim, nesta altura era possível obter rendimentos avultados somente com recurso ao negócio das gravações em formato físico - recuperando o investimento e cobrindo por completo todas as apostas falhadas. Um dos contra-argumentos mais em voga nos dias que correm é o da democratização do processo de criação de música. O acesso a instrumentos foi facilitado, pela explosão do mercado de fabricantes, que deixou de ser monopólio de um grupo restrito que controlava os segmentos de qualidade existentes e consequentemente excluía pessoas com menos recursos. O contacto inicial com um instrumento ditava se havia talento para a música, ou não - hoje em dia qualquer pessoa pode facilmente aceder a gamas baixas de instrumentos, apurando a sua paixão. A interação entre músicos também se alterou fundamentalmente, com as redes sociais a permitirem uma fácil descoberta, comunicação e colaboração - plataformas como Facebook ou Auddly potenciam a partilha de ideias e construção de músicas em paralelo, substituindo os processos tradicionais: de forma presencial ou através de correspondência em jornais, revistas ou placards de anúncios. A escassez de músicos era também uma forte motivação para a tolerância e respeito entre membros de bandas, ao contrário dos dias que correm em que os músicos têm inúmeros projectos paralelos e qualquer ondulação é suficiente para os afundar. O que nos leva à questão da qualidade: como destilar um conjunto coerente de músicas de excelência quando se repartem os esforços criativos por diversos projectos? O processo de gravação ficou mais fácil e os exemplos de superêxitos globais criados isoladamente numa qualquer cave são agora comuns e banais. Instrumentos virtuais, frases pré-gravadas ou até

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mesmo a automatismos de produção; uma boa ideia e dois dedos de conhecimento (facilmente acessível em blogs ou vídeos de instrução), qualquer pessoa pode construir a sua canção com um nível aceitável de qualidade. Os grandes álbuns da História são, contudo, um caso diferente: desde a sala de estúdio com as características certas e instrumentos de qualidade até ao produtor experiente e toda a equipa envolvida na gravação e masterização, o custo de um álbum era inteiramente suportado pela editora, e alguns honorários eram concretizados sobre a forma de royalties. O famoso "Black Album" continua a ser um excelente exemplo da utilização de royalties, movimentando consistentemente cerca de 5000 cópias por semana, aforrando assim o produtor Bob Rock e todos os que partilham deste importante mecanismo. Hoje em dia, os baixos volumes de vendas obrigam a que todos os custos sejam pagos directamente, limitando o acesso a estes recursos. Os custos de distribuição encolheram tremendamente, uma vez que a necessidade de criar, distribuir e armazenar itens físicos foi substituída por um modelo on demand e toda a infra-estrutura digital é reutilizável e incomparavelmente mais económica. A Internet veio também libertar os ouvintes da ditadura de alguns agentes da indústria e das suas preferências (quem não se lembra do corporate rock), que assim assistiram à explosão de inúmeros subgéneros, impossíveis no passado, como o djent ou o post rock, entre outros. Esta dispersão é a explicação encontrada por alguns para não se verificarem os números de vendas da época dourada; contudo, estas ainda arrecadam cerca de 60% do valor no seu auge, em 1999. A isto há que acrescentar todo o negócio de imagem, promoção e espetáculos ao vivo, que anteriormente não faziam parte dos acordos com as editoras e agora são incontornáveis - que a deixam viva e de boa saúde. Há quem acredite que apenas não mais foram lançados grandes álbuns… A revolução na indústria da música veio assim eliminar uma série de margens gordas (a que ela própria já se ajustou) e democratizar a criação de música, o que poderá ter afectado a qualidade do produto preço baixo, quando comparado com tudo aquilo que nos deu.


em

Nergal é vocalista, guitarrista e compositor de Behemoth e Me and That Man, mas também já deu uma perninha no cinema. Por: Diogo Ferreira

Fotografia: Grzegorz Gołebiowski

destaque

BEHEMOTH

I Loved You At Your Darkest NUCLEAR BLAST BLACK METAL

N

ergal sempre evidenciou extrema inteligência e os seus conceitos são cada vez mais elitistas ao ponto de requerem um certo estudo/conhecimento se quisermos perceber tudo o que nos transmite. Re-

correndo a uma interpretação de um versículo da “Epístola aos Romanos” para título (ainda que não seja original se recordarmos o álbum “Rom 5:12” dos Marduk), logo se percebe que esta oferta discográfica é uma missa satânica do princípio ao fim, e é óptimo percebermos, enquanto ouvintes, que existe uma ténue segurança e luminosidade em algumas orações que depressa se transformam numa ferocidade black/death metal tão habitual no som dos polacos, ainda que encontremos novos pormenores para além daquilo que já esperamos num álbum de Behemoth, como por exemplo um solo mais rock em “Sabbath Master”. Interessante é também a subversão do Pai

Nosso em “Havohej Pantocrator” que, para além disso, apresenta uma guitarra acústica por cima de toda a distorção numa canção bem conseguida a nível melódico e que representa muito bem a tal sensação de eucaristia negra. Por mais que as guitarras sejam o centro das atenções - tanto em relação à melodia como à dissonância -, o baixo é promovido com muita presença e groove, havendo espaço ainda para um clímax atmosférico em “We Are The Next 1000 Years”. Os mais atentos encontrarão pedacinhos de música que se podiam ouvir facilmente em álbuns de Morbid Angel e Mayhem.

Diogo Ferreira 8/10

O filme intitula-se "AmbaSSada" e, realizado por Juliusz Machulski, saiu em 2013. Adam 'Nergal' Darski veste a pele do nazi Joachim von Ribbentrop num filme em que os novos moradores de um prédio em Varsóvia descobrem que o elevador tem a capacidade de os fazer viajar no tempo até 1939 e onde todo aquele sítio é uma embaixada alemã. Nergal viria a ser injustamente acusado de perpetuar o nazismo ao ser fotografado com o uniforme da personagem, mas tudo foi prontamente desmentido.

A FOREST OF STARS

A STORM OF LIGHT

AETERNUS

AMARANTHE

PROPHECY

CONSOULING SOUNDS

DARK ESSENCE

SPINEFARM

AVANT-GARDE BLACK METAL

DOOM/STONER METAL

DARK METAL

POP METAL

Grave Mounds and Grave Mistakes

Heathen

Anthroscene

O

I

Helix

'A

O

ano é 1898 e a Era Vitoriana deste álbum é pintada por decadência e destruição. Para a banda inglesa, essa época tem em si um conflito que leva a contar histórias de morte, perda e inevitabilidade através de um black metal vanguardista. Ao longo de pouco mais de uma hora, este disco oscila entre a fúria de uma paisagem sonora negra e melódica ao mesmo tempo, que é protagonizada por malhas de guitarra e vozes gritantes, e arranjos sonoros de fundo que criam uma atmosfera adequada, seja através de electrónica, piano ou violinos. Há por todo o álbum um sentimento fatalista, especialmente nos versos spoken-word que fazem lembrar Andrew King ou Sol Invictus actual. Regresso esperado com expectativa que se revela compensador. Muito bom.

maginem um cão a girar sobre si próprio a tentar morder o rabo. É um bocado como ouvir o novo álbum dos A Storm Of Light. Não que isso seja novidade se ouvirmos álbuns anteriores, mas fica provado, com “Anthroscene”, que é essa a receita dos nova-iorquinos fundados em 2007. Num híbrido de doom com rasgos de stoner e post-grunge, esta nova proposta oferece-nos oito faixas que giram dentro de si mesmas sem nos levar a lado nenhum, vivendo essencialmente de muitos drumming rolls, de algumas boas malhas e da voz omnipresente que discorre sobre o desastre das políticas norte-americanas, ganância, racismo, guerra e alterações climáticas. Salva-se a produção e um clímax que nos agarra – finalmente! – na quinta “Slow Motion Apocalypse”.

penas' uma das bandas norueguesas mais relevantes do panorama do death metal atmosférico, os Aeternus regressam com “Heathen” e dão continuidade ao seu som de marca ao longo de sete compridos temas onde guitarra, viola-baixo e bateria se entrelaçam de forma perfeita. Ora praticando um death metal mais lento e melódico (“Hedning”), ora aproximando-se mais do black metal de qualidade com toques de rock destas paragens (“The Significance of Iblis”), ora cavalgando o blackened death metal de qualidade (“How Opaque The Disguise Of The Adversary”, “`Illa Mayyit”), o trio apresenta um trabalho épico acima de sólido, mas sabemos que os noruegueses são capazes de muito mais (lembram-se de “... And Then The Night Became”?). Um pouco mais de arrojo criativo faria deste disco uma raridade moderna.

s Amaranthe constituem milhões de visualizações no YouTube e ainda mais milhões nos serviços de streaming, o que não é nada habitual se de metal falarmos, se bem que estes suecos vão para lá da música extrema. Encontraram uma fórmula vencedora nas fronteiras além metal e têm vencido com o seu pop metal repartido em riffs robustos, bateria forte e três vozes distintas (feminina pop, masculina limpa e masculina berrada). Tirem-lhe as malhas metal e deixem a electrónica/arranjos – o resultado é um álbum de pura pop contemporânea. Mas tirem-lhe a ala pop e, provavelmente, nada fará sentido. Com uma produção espectacular, por mais que queiramos sentir irritação, o mais certo é darmos por nós a bater o pé ao ritmo dos Amaranthe.

diogo ferreira 8.5/10

diogo ferreira 6.5/10

joão correia 8/10

diogo ferreira 6.5/10

ANAAL NATHRAKH

ANOMALIE

ARCHGOAT

AUTHOR & PUNISHER

METAL BLADE

AOP

DEBEMUR MORTI

RELAPSE

DEATH/BLACK/INDUSTRIAL METAL

POST BLACK METAL

DEATH/BLACK METAL

INDUSTRIAL

A New Kind Of Horror

Integra

É

The Luciferian Crown

C

Beastland

A

I

através de um conceito lírico baseado nos horrores da Primeira Guerra Mundial, nas cartas de D.H. Lawrence e na política contemporânea que os Anaal Nathrakh começam por exibir mais um álbum híbrido de black, death, grind, industrial e sinfónico que apresenta uma sonoridade obsessiva, maníaca e tresloucada na sua violência auditiva, mas também gloriosa e cativante na percepção melódica que o duo faz crescer através de malhas corridas e ziguezagueantes. Obviamente não faltam os arranjos desumanos de maquinarias infernais, nem a modulação de sons, adicionando-se ainda mais sinfonia do que em álbuns anteriores. Está tudo compactado em dez faixas que nem aos quatro minutos chegam, fazendo isso com que nos inteiremos dignamente daquilo que os Anaal Nathrakh querem oferecer neste 2018.

onhecido não só pelo seu projecto a solo, de nome Anomalie, mas também por ser membro ao vivo dos Harakiri For The Sky, o austríaco Marrok dá mais uns passos no seu caminho pela descoberta do black metal perfeito. Em quatro faixas, Marrok apresenta um EP muitíssimo bem produzido – atmosfera incrível, baixo altamente audível, todos os instrumentos com o seu devido holofote – e cheio de dinamismo, especialmente entre bateria e guitarras, que abre espaço para se incluir segmentos de piano. Enquanto muitas bandas black metal teimam em repercutir os anos 1990s, Marrok, com Anomalie, olha para o futuro, para um black metal liberto de dogmas, afectuoso a novas ideias e que até ajuda a expandir a nossa mente. Muito bom esforço.

pareceram no longínquo ano de 1989 e numa primeira fase, que durou até 1993, não lançaram nenhum longa-duração. Voltaram a reunir-se em 2004 e depois, sim, seguiram-se quatro álbuns, em que se inclui a novidade “The Luciferian Crown”. Após tantos anos, os Archgoat são já uma banda de culto que oferece o seu death/black metal pestilento e grave através de doses sonoras e conceptuais cheias de imoralidade e horror. A corrupção infernal está nitidamente instalada em 10 faixas quase lo-fi que prezam o primitivo e o básico, mas sempre com o intuito de agarrar quem ouve e não apenas despejar old-school sem nexo. Poderá eventualmente ser apresentado algum doom em faixas mais lentas e atmosfera com a inclusão de escassos teclados.

magina-te a rodar numa máquina de lavar com parafusos, porcas, pequenos bocados de chapa e até umas chaves-de-fendas para temperar melhor a coisa. É esta a sensação que se pode ter ao ouvir Author & Punisher, projecto robótico de Tristan Shone que para este sexto álbum construiu novas máquinas. Trata-se, portanto, de metal industrial real que pode ser claustrofóbico e agressivo como o cenário apontado acima, mas também consegue ser dinâmico e cativante. É, acima de tudo, arrojado e perspicaz – o que podia muito bem ser nomes do meio de Tristan Shone. Mesmo que seja algo ímpar a nível musical, não deixamos de apontar semelhanças a um Marilyn Manson mais industrial nas faixas “Ode to Bedlam” e “The Speaker is Systematically Blown”.

diogo ferreira 8.5/10

Diogo Ferreira 8/10

Diogo Ferreira 7/10

diogo ferreira 7/10

A FOREST OF STARS: “Regresso esperado com expectativa que se revela compensador.” 36 - ULTRAJE #18


em

destaque

HATE ETERNAL

Upon Desolate Sands SEASON OF MIST DEATH METAL

M

antendo o ritmo, apenas interrompido no lançamento de “Infernus”, de três anos de intervalo entre lançamentos, desde que “Conquering The Throne” chegou aos escaparates, Erik Rutan e

J.J. Hrubovcak regressam, agora acompanhados pelo novo baterista Hannes Grossmann, para nos avassalar com mais uma descarga de pura brutalidade com classe. O primeiro impacto, em comparação ao trabalho anterior vem pela mão da produção. O som mais baixo, mais limpo e definido, quase aveludado, dá aos riffs mais corpo e potência, amplificando de forma irrepreensível o poder sonoro apresentado, mas não só na forma como está trabalhado se nota diferença com o passado. Com a qualidade que já nos acostumaram, os Hate Eternal refinam o seu som e elevam, mais uma vez, a fasquia. Desde “The Violent Fury”, faixa de abertura que faz jus ao seu nome, até ao instrumental em

tom melancólico de encerramento, “For Whom We Have Lost”, somos brindados com nove sólidos temas em que uma atmosfera esmagadora e asfixiante nos envolve, muito por força de uma composição mais diversificada, complexa q.b. e pejada de excelentes solos. Sacrificando um pouco a velocidade, mas carregando no poder, este trabalho não perde nada em brutalidade em comparação aos anteriores, mas ganha em maturidade, revelando-se não só como provavelmente o melhor trabalho da banda até à data, mas também como um dos melhores deste ano no género.

pedro félix da costa 8.5/10

Fotografia: Christian Martin Weiss

Fotografia: Alex Morgan

Para "Upon Desolate Sands", os norte-americanos Hate Eternal contam com um novo baterista chamado Hannes Grossmann. O músico integra também os Alkaloid que aqui recordamos.

Formados em 2014, a banda de death metal progressivo conta com dois discos em carteira, o último dos quais recebe como título "Liquid Anatomy" e foi editado no início de 2018 pela francesa Season Of Mist. Para além do baterista, integram o supergrupo alemão nomes como Linus Klausenitzer (Obscura), Christian Münzner (ex-Obscura, ex-Necrophagist), Danny Tunker (Abhorrent, ex-Aborted) e Morean (Dark Fortress, Nader Sadek). Por: Joel Costa

AVAST

BEYOND CREATION

BRANT BJORK

CONAN

DARK ESSENCE

SEASON OF MIST

HEAVY PSYCH

NAPALM

POST-BLACK METAL

DEATH METAL

DESERT ROCK

DOOM METAL

Mother Culture

Mankind Woman

Algorythm

A

A

Existential Void Guardian

O

D

ssumindo a estética sonora do blackgaze e do post black metal, a base lírica dos Avast foge completamente desse estrato, indo assim ao encontro de poéticas sociais e ambientalistas provenientes de facções relacionadas ao punk e ao hardcore, mas também influenciada por “Ishmael”, romance filosófico de Daniel Quinn. A estreia em álbuns dos Avast é post black metal de primeira categoria que usa todos os condimentos para um resultado final prazeroso no que a este subgénero diz respeito – há partes velozes e agressivas que bebem da herança black metal da Noruega, mas também segmentos calmos, ligados ao doom e ao shoegaze, que se transfiguram em notas que se enfeitam por adornos cintilantes e nostálgicos, quase depressivos, mas com uma pontinha de luz lá ao fundo.

o terceiro álbum de originais, os canadianos (mais concretamente oriundos da zona do Québec) são a prova que o death metal técnico está de boa saúde. Valeu a pena esperar quatro anos para ouvir este portento progressivo de velocidade, técnica e peso. Os atributos deste quarteto já eram conhecidos de registos anteriores, e foram agora reforçados pela maturidade das composições e pela preciosa inclusão do novo baixista Hugo-Doyron Karout que acrescenta enormes texturas com o seu baixo fretless a um som bastante diversificado, pejado de ritmos intrincados, leads imprevisíveis e melódicos, a que se juntam vocalizações brutais e letras muito lúcidas num feeling geral muito jazzístico e inovador. A fusão de vários universos musicais torna este registo simplesmente obrigatório!

rock dos desertos americanos solarengos e escaldantes que o Sr. Björk tem elaborado desde os seus tempos nos míticos Kyuss regressa sobre a forma deste “Mankind Woman”. E que esperar dos acordes tantalizantes do seu novo registo? “Pisces”, “Brand New Old Times” e “Pretty Hairy” mostram que a fibra do veterano mantém-se intacta, bem fiel ao que os seus seguidores esperam dele, existindo ainda um espaço para a abordagem mais contemplativa mostrada em temas como “Somebody”. Pode não introduzir nada de novo, nem no género musical nem mesmo para aquilo que o Brant já fez na sua carreira a solo, mas isso não faz com que “Mankind Woman” seja medíocre e que não tenha muita rodagem a fazer.

oze anos de carreira e não restam dúvidas sobre qual a banda sonora capaz de inspirar qualquer homem das cavernas. Este trio de Liverpool cunhou o termo cave battle doom, apresenta já uma robusta discografia, em que colaborou com Bongripper e Slomatics, e o seu quarto trabalho de estúdio volta a garantir-lhes destaque dentro do género. Para os fãs, uma das surpresas poderá ser a voz mais melódica de Jon Davis, mas nem por isso se dissipa o nevoeiro denso e o tom absolutamente esmagador do início ao fim. Faixas mais curtas e tímidas incursões pelo grind, nos curtos 54 segundos de “Paincantation”, relembram que a banda ainda tem cartas na manga. Um álbum arrastado e impiedoso em que a fórmula se mantém sem nunca se repetir.

diogo ferreira 8/10

josé branco 8/10

tiago neves 7/10

andreia teixeira 8.5/10

DRAGONLORD

ESBEN AND THE WITCH

FITACOLA

HAMMER KING

SPINEFARM

SEASON OF MIST

INDEPENDENTE

CRUZ DEL SUR

SYMPHONIC BLACK/THRASH METAL

DOOM METAL

PUNK ROCK

HEAVY METAL

Dominion

Nowhere

E

Contratempo

E

Poseidon Will Carry Us Home

"C

ois anos após o viciante Dgrandiosos “King is Rising”, coros e um ritmo de

ric Peterson é guitarrista dos Testament desde a sua fundação em 1986, e para os mais distraídos tem um projecto paralelo chamado Dragonlord desde o ano 2000. Nesta banda, o norte-americano dá aso ao seu lado mais negro ao envolver-se em paisagens sonoras relacionadas ao black metal sinfónico. Treze anos depois do segundo álbum, Peterson volta a enegrecer com um disco polido e extremamente bem executado que ganha luminosidade através das orquestrações de Lyle Livingston (Psypheria). É indicado para fãs de Dimmu Borgir – especialmente devido aos riffs e sinfonias –, mas não nos escapamos de ouvir uma power-ballad, nem de identificar uma ou outra malha thrashy da escola que tem em Testament. Será porventura uma nova descoberta para alguns dos fãs deste thrasher.

xpansive primal goth-punk. Não sabemos o que é isso, mas podemos esquartejar o termo e analisá-lo. Esben and the Witch de goth não tem nada e de punk idem; quanto ao primário/primordial, apresenta uma ideia construtiva musical que é, de facto, como a expressão define. Expansivo será o adjectivo mais adequado no autoproclamado rótulo, pois cada faixa aparenta ser um trance, por vezes um choro, uma evocação a Janis Joplin. Atrás há uma bateria balofa, um baixo linear e umas guitarras densas e distorcidas que mais espaço têm quando Rachel Davies não canta. Pelo meio de alguma homogeneidade – principalmente nas faixas calmas –, fica a sensação que nenhuma composição nos leva a algum lado, porque crescem e crescem mas não rebentam definitivamente.

ontratempo" assinala os 15 anos de carreira da banda de Coimbra. Cantado em português, este é um álbum cuja sonoridade pode ser equiparada a uns Sum 41 ou Rise Against, oferecendo uma linha vocal sempre muito melódica e que com o seu tom simples e quase intimista - que conta-nos histórias onde o quarteto ora sai vitorioso ora derrotado, mostrando que há sempre algo a aprender com cada obstáculo e consequente conquista -, ajuda a dar forma a um disco variado em que sobressaem os riffs frenéticos e a energia que grita a plenos pulmões que o punk rock em Portugal está vivo. Com refrãos capazes de tocar os corações mais moles, os Fitacola têm em "Contratempo" um disco sólido que abre todo um novo capítulo para a banda.

cavalgada quase constante continuam a pautar a sonoridade do épico quarteto alemão, cujos intentos não deixam margem para dúvidas. Original? Nem por isso. Repleto de clichés? Seguramente. Para os que fogem a sete pés de tudo quanto envolva as palavras “metal”, “power” e “sword” na mesma música, definitivamente que não será “Poseidon Will Carry Us Home” a fazê-los mudar. Pelo contrário, para quem a ideia de um compêndio de metal tradicional que combine com sucesso elementos de Running Wild, Manowar e Iron Maiden é atractiva, o objectivo foi atingido. Uma merecida consagração, ao terceiro álbum os Hammer King assumem-se, sem preconceitos, como timoneiros desta nova vaga de heavy metal.

diogo ferreira 7.5/10

diogo ferreira 6/10

joão santos 7.5/10

jaime ferreira 8/10

CONAN: "Um álbum arrastado e impiedoso." 37 - ULTRAJE #18


em

Em 2017, os Krisiun foram detidos no aeroporto de Bangladesh, onde foram acusados de Blasfémia. O vocalista Alex Camargo recorda esse momento.

Fotografia: Cortesia Century Media

destaque

KRISIUN

Scourge Of The Enthroned CENTURY MEDIA DEATH METAL

É

difícil esperar inovações de uma banda de death metal ao 11º disco de estúdio, mas, quando nos referimos a um dos pesos-pesados mundiais da cena, inovação e diferenciação não só são possíveis

como definitivas. Os momentos iniciais de “Scourge Of The Enthroned” revelam tudo o que precisamos de saber sobre o novo disco dos Krisiun. O som da bateria de Max Kolesne é natural mas cristalino, sem triggers, com todos os pormenores perfeitamente audíveis, o mesmo acontecendo com a guitarra e o baixo; a música, então, é um assalto implacável de death metal da velha-guarda: rapidíssimo (com “A Thousand Graves” a nortear o ataque) e caótico, mas também muito complexo. Ainda que totalmente afastados da fórmula americana, cuja produção plástica retira aquela sensação de real deal, os Krisiun imprimem algumas influências dos seus primos norte-

-americanos, tanto na secção dos solos como na secção rítmica, ambas a fazerem lembrar Morbid Angel/Nile. Embora seja difícil possuir uma identidade sonora, o som bruto, forte e feio deste power trio vem com uma assinatura personalizada, coisa que assiste a muito poucas bandas. O mais impressionante de tudo é que 38 minutos passam a voar. Com uma piscadela de olho a “Black Force Domain”, mas com uma produção geral de luxo, “Scourge Of The Enthroned” é a definição perfeita de death metal de elite.

«O que aconteceu foi que os oficiais que estavam a trabalhar naquele momento não foram com a nossa cara. Tiraram-nos os passaportes e deixaram-nos sentados numa sala. Foi uma situação complicadíssima, algo pelo qual nunca havíamos passado. Cheguei a temer pelo pior porque os guardas passavam com as metralhadoras e ficavam a olhar para nós, e acontecem muitas loucuras naquele local. Entrámos em contacto com a Embaixada Brasileira e foi aí que as coisas começaram a mudar. O Brasil tem uma relação comercial com o Bangladesh e quando o cônsul interveio começaram a tratar-nos bem. Até café nos vieram trazer depois de 15 horas detidos.»

joão correia 8.5/10

Por: Joel Costa

HATESPHERE

HELRUNAR

KARG

LUCIFER'S CHILD

SCARLET

PROPHECY

AOP

AGONIA

DEATH/THRASH METAL

BLACK METAL

POST-BLACK METAL

BLACK METAL

Reduced To Flesh

Dornenvögel

Vanitas Vanitatvm

A

C

The Order

C

primeira nota vai logo para a produção equilibrada e potente, cortesia de Tue Madsen. A maturidade é a segunda nota de relevo para os dinamarqueses e para este que é o seu 10.º trabalho de originais. São 10 faixas em 42 minutos daquilo que se poderá – realmente – intitular de verdadeiro thrash metal moderno. Sem ser uma cópia descarada das velhas glórias (vulgo nu-thrash), o quinteto debita riffs atrás de riffs com personalidade e sem ligar o complicómetro – objectivo e directo, como a soberba capa. Há ambientes com teclas, uma dose certa de death metal, groove q.b., coros eficazes e um alinhamento fluido, juntando o melhor de dois mundos. Frenético headbang é o extra que este trabalho traz e diz que é de borla!

om um título que faz referência à famosa ode do Séc. XVII escrita pela mão do poeta Andreas Gryphius, os Helrunar pegam nessa expressão em latim e transportam-na à actualidade, resultando num dos discos mais misantropos que alguma vez elaboraram. As origens e as consequências da vaidade e do narcisismo estão por todo o álbum, desde a “Odisseia” de Homero à Peste Negra, através de pouco mais de 60 minutos de black metal desolador e por vezes dissonante, mas que também incorre por caminhos mais velozes, espessos e brevemente melódicos (“Als die Welt zur Nacht sich wandt”). Como tem sido hábito em trabalhos recentes, a banda de Münster evoca alguns andamentos relacionados ao doom metal e a técnica spoken-word também é utilizada (“Nachzehrer”).

ada vez mais parecido com Harakiri For The Sky, JJ lá vai empreendendo a solo com este seu projecto que criou em 2006. Para além de cantado em alemão, com uma produção mais evoluída e com um processo criativo mais maturado, este trabalho conta com a participação de vocalistas afectos a bandas como Downfall Of Gaia, Ancst ou Lunar Aurora, entre outros. É através de um post black metal extremamente melódico que JJ recita histericamente toda a sua angústia e desespero em oito faixas de pura melancolia que, por vezes, evocam um sentido de segurança e alegria falsas devido aos leads de guitarra cintilantes tão característicos nesta banda. Drama após drama, “Dornenvögel” torna-se o melhor álbum de Karg sem qualquer dificuldade.

Formado por músicos batidos na cena grega, nomeadamente no underground black metal, “The Order” é o segundo registo deste quarteto ateniense. O início dá-se com a pena capital: “Viva Morte” abre de forma avassaladora este conjunto de oito músicas que cumpre com elevada distinção a prova de acesso à primeira divisão do black metal europeu. Num campeonato dominado por algumas das suas influências (os suecos Watain ou os compatriotas Rotting Christ, que contribuem com George Emmanuel), os helénicos demonstram ser um autêntico Cavalo de Troia, de onde sai uma série de influências que vão do clássico black até ao d-beat. São 44 minutos cortantes e determinados; basicamente, o que deve ser uma boa banda, seja de black ou de outro género qualquer.

rui vieira 9/10

diogo ferreira 7/10

diogo ferreira 9/10

rui vieira 8.5/10

MAYAN

MONSTROSITY

MOONSHADE

ORKAN

NUCLEAR BLAST

METAL BLADE

ART GATES

DARK ESSENCE

SYMPHONIC DEATH METAL

DEATH METAL

MELODIC DEATH METAL

BLACK METAL

Dhyana

The Passage Of Existence

S

Sun Dethroned

A

Element

D

sem ouvir uma única Aumindanota, a capa merece 10 de caras! Inóspita

e há coisa que o rótulo “symphonic” denuncia é a tendência para a música apontar naturalmente para a grandiosidade e cada tema entrar majestosamente pelos ouvidos dentro de quem o ouve. Os MaYaN não têm qualquer vergonha ou intenção de se desviar desta ideia, não fosse esta banda um projecto idealizado por Mark Jansen (Epica) e Jack Driessen (ex-After Forever), que bebe essencialmente de influências da banda mais mediática de Jansen. Ao terceiro lançamento, os MaYaN apresentam um álbum longo e bastante equilibrado, desde os orquestrais bombásticos, a velocidade e agressividade do death metal, a panóplia de estilos diferentes de vocalização, as orelhudas melodias e ainda os riffs que, por vezes, crescem até solos de boa categoria. Um disco que tem um bocadinho de tudo para todos.

ctualmente, um bom disco equivale a um disco abaixo da média dos anos 90, tal é a competição que as bandas enfrentam, mesmo quando falamos de lendas como os Monstrosity. The “Passage Of Existence” é isso mesmo, um bom disco: tem uma produção esmerada, bons músicos, ferocidade e uma sensação geral de anos 90 que, em conjunto, costumam ser um carimbo de qualidade inquestionável. Mas estes são os Monstrosity, aquela banda que lançou uma cena chamada “Imperial Doom”, o que faz com que 'bom' seja uns poucos furos abaixo do esperado. Longe de mau, o disco falha precisamente na falta de identidade que os Monstrosity já deveriam ter domado há décadas. Longe vão os tempos em que o death metal old-school norte-americano dava cartas.

o Porto, os Moonshade provam que por cá também se faz death metal melódico de liga mundial. Obviamente influenciado pelo som de Gotemburgo, o quinteto lança-se para cenários mais épicos de uns Amon Amarth e Amorphis através de preenchimentos/arranjos de teclado e, obviamente, através de uma dose muitíssimo presente de leads de guitarra bem executados e bem engendrados que são mais do que suficientes para classificar este álbum como uma oferta muito orelhuda. E quando aquilo que ouvimos não é energético ou épico, é por sua vez melancólico sem ser tristonho, mas ainda assim com uma proporção interessante de fatalismo bélico e ancestral. Ao primeiro longa-duração, o salto está mais do que dado. Agora é manter o foco e evoluir com os olhos postos no futuro.

mas ao mesmo tempo serena, esta paisagem serve de portal para a experiência dos próximos 47 minutos. Tal como este vossa escriba, também os membros de Orkan passaram um mau bocado recentemente, afectados por várias maleitas do foro físico. O quarteto, oriundo da Ilha de Stord (Noruega), agarra-se a isso e produz um manifesto de raiva, musculado e anti-cancer. Liderados pelo guitarrista de Taake - Gjermund Fredheim -, esta terceira investida longa-duração é composta por sete hinos 'ta(a)ke no prisioners', não inventando ou adicionando algo ao género (mais ortodoxo) norueguês. Ora somos castigados com severos blastbeats ou 'as costas folgam' quando entram em ritmo mais compassado e contemplativo. Mas de uma tareia não nos livramos.

tiago neves 8/10

joão correia 7/10

diogo ferreira 8/10

rui vieira 8/10

MOONSHADE: “Ao primeiro longa-duração, o salto está mais do que dado.” 38 - ULTRAJE #18


em

destaque Fotografia: Evan Bartleson

Entusiasmada com as gravações dos novos vídeos da banda, Ruyter Suys pediu-nos que fizéssemos de tudo para o promover. A Ultraje fez-lhe a vontade.

NASHVILLE PUSSY Pleased To Eat You EARMUSIC ROCK N' ROLL

A

o sétimo álbum, os Nashville Pussy continuam a providenciar tudo aquilo que esperamos deste colectivo norte-americano. Com a entrada de um novo e talentoso baterista, a banda viu-se à vontade para

explorar novas ideias e com isso redefinir uma sonoridade que, mais uma vez, não desilude. A guitarrista Ruyter Suys - que não poupa nas influências que bebeu de Angus Young, dos AC/DC - provoca-nos arrepios com os seus riffs e leads carregados de energia, fazendo-nos um convite imediato para bater com o pé e logo entrar numa dança desenfreada comandada por ritmos rock n' roll, com a baixista Bonnie “Bon” Buitrago sempre no encalço da intensidade da sua companheira. Já a voz rouca de Blaine Cartwright é a cereja no topo do bolo, debitando letras muito sugestivas e estabelecendo assim o tom mais humorístico e divertido deste registo (e de todos os outros) dos Nashville Pussy. Num disco onde

há igualmente espaço para o hard rock e para o rockabilly, a banda de Atlanta consegue evocar também o espírito dos Motörhead, mostrando que não têm qualquer receio de saltarem de estilo em estilo e desafiar os limites de um género musical ainda com muito para oferecer. "Pleased To Eat You" é um grande trabalho que se destaca pela honestidade sonora do colectivo que mostra aqui um grande dedo do meio à indústria musical e ao resto do mundo; a prova de que o velho lema do "Sexo, Drogas e Rock n' Roll" ainda persiste. Deixem que estes rebeldes vos mostrem o que é uma festa a sério!

joel costa 8/10

«Temos dois vídeos que já foram lançados e temos outros dois por estrear», dizia-nos a guitarrista. «Nunca tivemos vídeos profissionais e isto era algo que já devia ter acontecido há 20 anos mas não foi possível. Estamos muito orgulhosos e surpresos por tal ter acontecido. Tivemos um fã que nos fez um autocarro de tour, com o nosso nome na lateral e a capa do álbum... Gravámos um vídeo em cima do autocarro e foi muito porreiro! Foi inacreditável; como ter os Motörhead a gravar a "God Save The Queen"!» Por: Joel Costa

REVOCATION

SHINING (NOR)

SJUKDOM

SLÆGT

METAL BLADE

SPINEFARM

OSMOSE

VÁN

TECHINCAL DEATH/THRASH METAL

MODERN METAL

BLACK METAL

BLACK/HEAVY METAL

The Outer Ones

Stridshymner Og Dodssalmer

Animal

P

G

H

The Wheel

N

egando na entidade cósmica que é H.P. Lovecraft, o quarteto norte-americano parte numa viagem death/progressiva que dura 46 minutos, distribuídos por nove experiências espaço-terrenas. O objectivo foi uma composição final semi-complexa, tal como refere o vocalista/guitarrista Dave Davidson, com um adicional técnico q.b. mas sem perder a agressividade e o lado selvagem que o metal deve ter. Com grandes parecenças à fase mais técnica de Death / Control Denied (sem ser cópia chapada) – Chuck gostaria desta banda –, neste trabalho a dissonância é rainha e o cheiro (ainda que disfarçado) a jazz deambula por aqui. Como qualquer álbum a atirar para o progressivo, o gosto não é imediato. Vai-se conquistando, sendo que o prémio desse namoro é muitas vezes o mais saboroso.

roove ímpar a rodos? Fúria incomensurável? Saxofone? Lances jazzísticos? Esquece. Esse comboio já partiu. A nova roupagem sonora dos noruegueses Shining transformou-se numa abordagem pop que não descura alguns riffs fortes ou uns berros aqui e acolá, mas ainda assim pop e bastante cheesy se tivermos em conta álbuns como o não muito antigo “International Blackjazz Society”. É como se uns Muse antigos do rock tivessem encontrado a pedra filosofal do sucesso. Há uma sensibilidade melódica por todo o álbum – o que é bom – e até um sentimento retro no uso de certos elementos electrónicos e estruturas musicais que nos mandam para os 80s. O problema aqui nem é bem a música que se ouve, mas sim serem os Shining a fazer isto…

á cinco anos que não se ouvia falar destes noruegueses, mas em boa hora entraram no cardápio da Osmose Productions, que foi rainha na década de 1990 e que está agora a recuperar muito do seu poder. É dos anos 90 que trata também a sonoridade deste quarteto que não precisa de ter não-sei-quantos membros de não-sei-quantas bandas para vingar. O black metal dos Sjukdom cheira a velho, mas é executado e produzido à maneira moderna. Reina uma voz sardónica, uma bateria dinâmica e muita melodia que rasga a pele. Com este trabalho tão cativante do princípio ao fim, os Sjukdom têm tudo para se estabelecerem como uma das bandas mais interessantes do black metal directo actual. Indicado para fãs de Sargeist.

ada como virarmo-nos para a Dinamarca quando a cena começa a ficar saturada das mesmas coisas do costume. Com "The Wheel", os Slaegt voltam a fazer das suas ao misturarem black metal melódico (“Being Born (Is Going Blind)”), death metal escandinavo (“V.W.A.”), speed metal (“Perfume and Steel”) e algum do melhor heavy metal dos anos 80, sem cair em 'revivalismos' ou dar uma de 'banda de tributo'. Ouvem-se os Helloween do seu período áureo bem como os Dissection, nunca esquecendo os Maiden de antigamente. Muito boa produção, músicas que entram nos ouvidos facilmente e uma toada muito própria fazem de "The Wheel" uma das melhores ofertas de metal extremo de 2018, pois é fresca, original e com uma marca proprietária cada vez mais distinta.

rui vieira 8/10

DIOGO FERREIRA 6/10

diogo ferreira 8/10

joão correia 8/10

SOLAR TEMPLE

STONED JESUS

SYLVAINE

TERRORIZER

EISENWALD

NAPALM

SEASON OF MIST

THE END

BLACK METAL

STONER METAL

ATMOSPHERIC/POST METAL

GRINDCORE

Fertile Descent

Pilgrims

O

Atoms Aligned, Coming Undone

A

É

Caustic Attack

austic Attack” começa “C onde “Hordes Of Zombies” terminou, apenas

rientados àquela vaga de black metal atmosférico repetitivo e cativante, o primeiro álbum de Solar Temple promove rodopios incessantes protagonizados por malhas de guitarra orelhudas e memoráveis que tanto nos podem mandar numa viagem cósmica dentro da nossa mente como também serão capazes de originar headbanging a meio-tempo – depende das pessoas. Depois há ainda um departamento ritualista comandado por uma voz grave que surge pouco ao longo do disco ou preenchido por um órgão eucarístico muito bem inserido. O factor mais interessante deste “Fertile Descent” assenta na forma como todos os instrumentos se interlaçam entre si de uma forma aparentemente tão fácil e simples para formarem uma intensidade feroz, fria e hipnotizante que nunca provoca náuseas ou tonturas. Indicado para fãs de Cepheide.

pós três anos e milhares de quilómetros na promoção de "The Harvest", 2018 marca o regresso de Stoned Jesus com "Pilgrims", uma proposta refrescante e variada com raízes bem agarradas à década de 1970. Estruturas complexas e riffs intricados são características a que a banda ucraniana já nos habitou em lançamentos anteriores. Contudo, neste álbum, para além das inescapáveis referências a uns Black Sabbath juvenis (tão populares no stoner rock), somos conduzidos por devaneios assanhados, em formato longo, a que fomos habituados por bandas como King Crimson. O groove de "Distant Light" é hipnótico e "Feel" serpenteia de uma forma inovadora e obscura num álbum musculado que exibe em "Water Me" a mais forte e vincada afirmação de rebeldia (homenageando Metallica, "The Outlaw Torn").

a versão feminina dos Alcest, mas isso em nada achincalha o processo criativo de Sylvaine, até porque trava amizade próxima com o francês Neige, incluindo-o até nos seus discos como baterista de sessão. Ao longo de seis novas faixas extremamente atmosféricas devido às potentes paredes de som, a norueguesa volta a perguntar-se a si própria a que sítio pertence neste mundo. Mais uma vez, e num limbo emocional, Sylvaine desbrava caminho por uma dicotomia auditiva que se elabora entre o canto suave e o berro agonizante, entre abordagens ao shoegaze mais amigável e blackgaze estrondoso. Beleza e aspereza, serenidade e caos, carne e espírito – tudo num só álbum indicado para fãs de Alcest, Harakiri For The Sky ou Deafhaven.

apresentando melhor produção. O álbum caracteriza-se por uma velocidade alucinante que nos fustiga constantemente, entrecortada por partes mais lentas onde nos é dado espaço para respirar. Como o seu antecessor, este trabalho tem uma alma mais de death do que grind, apesar da velocidade alucinante com que nos cilindra. De pedal a fundo chegamos ao quarto tema, “Devastate”, o primeiro a destacar-se pelos seus riffs entrecortados. “Crisis” acalma e mostra-nos que Slayer também influencia Terrorizer, assim como “Infiltration” que nos traz riffs orelhudos. Este padrão mantém-se até final. Apesar de todos os bons momentos, o álbum não se consegue impor, empalidecendo quando comparado com bandas como Lock Up. Bom, mas não tanto como devia.

diogo ferreira 8/10

gonçalo l. matias 8/10

diogo ferreira 7.5/10

Pedro Félix da Costa 7/10

SOLAR TEMPLE: “Feroz, frio e hipnotizante.” 39 - ULTRAJE #18


em

destaque Fotografia: Char Tupper

Max Cavalera emprestou o seu contributo a outras bandas ou projectos. A Ultraje dá-te a conhecer algumas. Por: Joel Costa

SOULFLY Ritual

NUCLEAR BLAST DEATH/GROOVE METAL

O

s primeiros segundos de "Ritual" - tema-título que abre o 11º disco dos Soulfly de Max Cavalera - recordam-nos a introdução de "Prophecy", faixa de abertura do álbum de 2004

com o mesmo nome, mostrando que a banda está de volta à velha sonoridade groove e tribal que já praticava até então, mas que se tornava apenas numa identidade bem definida com esse registo. Gravado, produzido e misturado por Josh Wilbur, e com participações especiais de Randy Blythe (Lamb of God) e Ross Dolan (Immolation), este é um disco que rebenta qual trovão no céu e que junta o melhor que a banda fez nos últimos anos - quando passaram a adoptar uma sonoridade mais thrash e death metal - ao experimentalismo tribal de um "Roots" (Sepultura, 1996). Com uma produção tão sólida quanto o desempenho dos restantes músicos, "Ritual" é a prova de que Max Cavale-

ra diz a verdade quando assegura que está aqui para ficar e não quer sair de cena. Temas como "Dead Behind The Eyes" conseguem levar-nos aos tempos de "Schizophrenia" (Sepultura, 1987), "Under Rapture" traz o death metal nórdico até ao nosso sistema de som, "Blood On The Street" soa a uma música perdida de "Chaos A.D." (Sepultura, 1993) e "Feedback!" é a homenagem merecida a Lemmy, dos Motörhead. "Ritual" poderia muito bem ser um best of de Max Cavalera mas é apenas mais um disco dos Soulfly. Um muito bom, por sinal.

joel costa 8/10

Deftones O nome Soulfly deriva da faixa "Headup", dos Deftones. Depois da sua saída abrupta dos Sepultura em 1996, Max Cavalera anunciava a formação dos Soulfly, depois de interpretar o tema juntamente com os Deftones num canal de televisão francês. Probot Cavalera contribuiu com o tema "Red War" neste projecto de Dave Grohl (Foo Fighters, Nirvana). Entre os convidados encontravam-se nomes como Lemmy, Scott Weinrich, Tom G. Warrior, King Diamond, entre outros.

THE EXPLODING EYES ORCHESTRA

THE ORDER OF APOLLYON

VANHELGD

VISIONS OF THE NIGHT

SVART

AGONIA

PULVERISED

INDEPENDENTE

ROCK

BLACK/DEATH METAL

DEATH METAL

BLACK/DEATH METAL

II

O

Deimos Sanktuarium

Moriah

S

Supreme Act of War

O

A

projeto The Exploding Eyes Orchestra foi a forma que Thomas Corpse encontrou para recuperar a sua sanidade mental durante um período turbulento de inactividade da sua banda Jess and the Ancient Ones. Desta destilagem resultou uma colecção bastante diversa, de onde um grupo mais coeso havia já sido extraído sob a forma do álbum "I"(2015), caracterizado por tonalidades mais psicadélicas e dreamy. Em "II", a psychedelia derrete-se, expondo contornos góticos com fortes toques de pop (a fazer lembrar Placebo em álbuns recentes). Algumas músicas transportam-nos para ambientes difusos, dignos de um filme de David Lynch mas, ao contrário das obras do grande mestre, sempre por caminhos rectilíneos, nunca desafiando o ouvinte. Um álbum que entretém, mas não perdura.

ão uma das coqueluches do metal francês e são compostos por membros e/ ou ex-membros de bandas como Aborted, Aosoth, VI, Hell Milita, Temple Of Baal, Decline of the I ou Merrimack. Tudo nomes interessantes, portanto. Ao terceiro LP, os The Order Of Apollyon, quarteto liderado por BST, pesca com um bom isco as sonoridades de uns Behemoth e Mgła, mas dão também muito espaço àquela junção entre death e black metal que é tão francesa e tão impregnada em bandas supracitadas, como Aosoth. “The Lies Of Moriah” ou “Rites Of The Immolator” são duas faixas a ter em conta mas surpreendem com “The Cradle” e “Trident Of Flesh” ao inserirem leads melódicos que dão uma cor imensa a este disco de gabarito.

s que viajam pelo underground do death metal sabem que podem sempre contar com um bom momento vindo desta banda sueca. Os Vanhelgd já andam há pouco mais de uma década a difundir o seu death metal granítico e obscuro, e neste seu quinto registo de originais mantêm toda a qualidade, mantendo-se bem fiéis ao espírito original dos anos 1990. “Deimos Sanktuarium” vem adicionar ao catálogo dos Vanhelgd malhas como “Så Förgås Världens Härlighet” - cujo nome pode ser difícil de decorar para os lusos, mas cujo som será fácil de lembrar -, o ritual que é “Profaned Is the Blood of the Covenant” ou os momentos mais doom em “The Ashes of Our Defeat.” Com um lançamento destes, o difícil é desiludir.

capa deste trabalho não augura nada de bom. Básica até ao osso, como o próprio nome da banda. Mas quando carregamos no play, a conversa muda logo e, para nossa grande surpresa, pressentimos que vamos estar perante uma bomba! VOTN é um one-man-project criado pelo canadiano Wolvesblood em 1999 (!!!) e este é o seu quarto acto longa-duração. São 38 minutos de intenso bombardeamento que vai de brutal death a thrash, com flashes de “Morbid Visions” à mistura. “Supreme Act of War” é um bom trabalho e até poderia ser fantástico se o seu alinhamento não fosse tão confuso, handicap que lhe retira aquela centelha mágica dos excelentes álbuns. A diversidade é razoável e a criatividade está lá, excepto na capa feita às três pancadas.

gonçalo l. matias 6/10

diogo ferreira 8.5/10

tiago neves 8.5/10

rui vieira 7/10

VOIVOD

VREID

WITCHTHROAT SERPENT

WOLFHEART

CENTURY MEDIA

SEASON OF MIST

SVART

NAPALM

HEAVY METAL

BLACK METAL

STONER/DOOM METAL

MELODIC DEATH/DOOM METAL

The Wake

Lifehunger

H

Original Human Music

Q

Constellation Of The Black Light

P

P

á críticas difíceis de iniciar, mas tentemos com objectividade: “The Wake” é o pináculo dos Voivod desde “Angel Rat”, que é tanto um disco que foi incompreendido há 27 anos como venerado actualmente pela sua visão longínqua. “Obsolete Beings” diz-nos que Piggy não morreu graças ao solo transcendente de Chewy, “The End Of Dormancy” traz-nos o militarismo renovado dos Voivod, “Event Horizon” relembra-nos “Nothingface” e “Killing Technology”. Com uma produção perfeita, o que os Voivod podem conseguir com “The Wake” é o galardão de melhor álbum do ano devido a dois factores: se a alguns ouvintes os fará regressar ao passado, a outros empurrá-los-á directamente para o futuro. “The Wake” não tem um tema mau, um solo mau, um momento mau – quanto muito, terá ouvintes maus. Essencial.

uando o passado é bom, é difícil desligarmo-nos dele. Ao fim de quase 15 anos e de oito álbuns depois, os noruegueses Vreid ainda nos lançam resquícios de Windir (1994-2004), como é exemplo o duelo melódico de guitarras na segunda “One Hundred Years”, sem esquecer uma diversão mais prog em relação a estruturas e inclusão de vozes limpas. Depois, o resto do álbum já é um exercício musical mais pessoal e mais virado para o presente, sempre com uma combinação própria de heavy, black, folk e prog metal. Espaço ainda para uma espécie de balada em “Hello Darkness” (com Aðalbjörn 'Addi' Tryggvason dos Sólstafir) que constitui mais um duelo de ritmo distorcido contra lead limpo, havendo ainda cowbell pelo meio.

arada no tempo durante um longo período, França acordou agora e a quantidade de bandas vindas do país dos irredutíveis gauleses é considerável. Este terceiro LP começa com um ambiente que parece retirado de “Karelia Visa” dos Hedningarna. Após este momento sui generis, entramos num poço de doom e/ou stoner (uma dúvida que assola os reviewers), cheio de águas turvas e lamacentas e que tornam tudo em câmera-lenta. A qualidade é evidente, mas a receita é relativamente igual (pena não terem mais momentos como a intro) a muitas outras bandas do seu género. Tal como o progressivo, grande parte do doom é algo que se ama ou odeia. Neste quadrante, uns Dawnrider conseguem cumprir mais eficazmente a tarefa, pois têm doom para dar e vender mas catchy as hell.

ouco mais de um ano depois do terceiro “Tyhjyys”, Tuomas Saukkonen está de volta com o seu melodeath metal salpicado por toques de doom metal. A promoção chama-lhe winter metal, e nós também o podemos fazer. “Constellation Of The Black Light” – que abraça a pura força da natureza finlandesa – é, todo ele, melódico, abrasivo, frio, dramático e épico. Entre todos aqueles riffs típicos da cena nórdica, e que tão bem representam o som dos Wolfheart, encontram-se arranjos orquestrais que oferecem a atmosfera necessária ao colosso sónico do álbum e guitarras acústicas como na inaugural e progressiva “Everlasting Fall”. Ao quarto álbum, os Wolfheart continuam a provar que não desapontam e que, pelo meio do som esperado que propagam desde 2013, há espaço para adições criativas.

joão correia 9.5/10

diogo ferreira 7/10

rui vieira 7/10

diogo ferreira 8/10

VOIVOD: “Essencial.” 40 - ULTRAJE #18


AD MORTEM

Supreme Pestilence

CHAOS DOCTRINE

WORSHIP TAPES

INDEPENDENTE

BLACK METAL

DEATH/GROOVE METAL

om black metal com a Bmasterização particularidade de ter uma decente quando

DROWNED

Chaos Doctrine

ELMESIAS

7th

pode esperar de OsinglesqueumadesebandaMotörhead que editou ou

Elmesias

COGUMELO/GREYHAZE

INDEPENDENTE

HEAVY/THRASH/DEATH METAL

DEATH METAL

ormados em 1994 e Fossaídos de Minas Gerais, brasileiros Drowned

s espanhóis Osegundo Elmesias chegam ao disco com uma

comparada com o que é habitual neste tipo de demos gravadas no formato tape. "Supreme Pestilence" apresenta bons riffs e um espírito que evoca os anos 90. Peca apenas pela ausência do baixo, fazendo com que a bateria acabe por soar um pouco descompensada. Em suma, um bom registo que não deve passar ao lado dos amantes do género. [JC]

Sepultura? Precisamente isso! Oriundos da África do Sul, os Chaos Doctrine oferecem-nos o groove de "Chaos A.D." e a atitude de "Ace Of Spades", resultando numa sonoridade que ao implementar teclados em algumas ocasiões transporta-nos para o universo de uns Winds Of Plague. A banda parece ter encontrado a sua fórmula e agora só tem que a seguir. [JC]

têm em "7th" um trabalho sólido e convidativo ao headbanging, fazendo um bom trabalho, não só ao combinar o heavy metal com death, groove e thrash mas também a conduzir o ouvinte através dos 11 temas do disco, mantendo-nos despertos e suficientemente interessados para descobrir o que nos reserva de seguida. [JC]

sonoridade bem vincada e o primeiro aspecto que salta à vista é o potencial que têm à sua disposição, fazendo-nos pensar no que poderiam ser os Elmesias se tivessem outro tipo de produção. Num disco onde existe até espaço para um solo de baixo, os espanhóis mostram que o underground do país vizinho respira saúde. [JC]

HELLTRAIN

HOLLOW

IMPERIAL DOMAIN

INHUMANE EXISTENCE

Death is Coming

Downfall

METALISM

ETERNAL HATRED

DEATH N' ROLL

THRASH METAL

eath is Coming" "D data de 2012 e, para além de ser o

The Deluge

m certos momentos Eex-Sepultura de "Downfall", o e líder dos

Pierced and Confined

INVERSE

INDEPENDENTE

MELODIC DEATH METAL

DEATH METAL

inda que a história dos Acomeçado Imperial Domain tenha a ser escrita

o EP estreante "PierCsuíçosomced Inhumane and Confined", os Existence

longa-duração mais recente dos suecos, foi também o último disco que contou com o contributo do falecido baterista Oskar Karlsson. Com a energia que se espera de uma banda adepta do death n' roll, a sonoridade mostra-se veloz, melódica e com solos à esquerda e à direita, qual comboio que percorre uma linha sinuosa. Uma viagem que não vão querer perder! [JC]

Soulfly Max Cavalera vem-nos à memória, tal é a influência que exerce nos vocais dos brasileiros. O próprio baixo e até os leads de guitarra gritam "Chaos A.D.", mas não julguem que os Hollow são uma imitação barata dos seus compatriotas; pelo contrário. A banda consegue criar a sua própria receita e tem em "Downfall" um disco sólido cheio de groove. [JC]

em 1994, oferece-nos capítulos muito reduzidos no que às propostas discográficas diz respeito, com "The Deluge" a ser apenas o terceiro longa-duração dos suecos. Porém, a qualidade está acima da quantidade, e o que temos aqui é um trabalho muito melódico, extremamente bem executado e com uma produção a condizer. Altamente recomendável! [JC]

conduzem-nos por uma sonoridade death metal algo técnica e com algum grind à mistura. Numa audição fácil - o EP tem apenas três músicas e uma duração total de dez minutos -, "Pierced and Confined" tem peso e violência em doses necessárias para proporcionar uma experiência à altura do que se espera deste estilo e de uma banda desta dimensão. [JC]

KOMATSU

LOWEN

MINDREAPER

ROTTING BEETROOT

A New Horizon

A Crypt in the Stars

ARGONAUTA

INDEPENDENTE

STONER

DOOM METAL

da Holanda que nos Écolectivo chegam os Komatsu, de stoner

Mirror Construction (...a Disordered World)

Crypt in the Stars" "A delicia-nos com um doom progressivo enfei-

...and his sister

BLACK SUNSET/MDD RECORDS

INDEPENDENTE

THRASH/DEATH METAL

DOOM/SLUDGE

disco dos Oper segundo germânicos Mindreacombina o melhor

V

metal que tem em "A New Horizon" o seu terceiro álbum de originais. O disco é um passo em frente em relação às propostas anteriores do grupo, apresentando uma sonoridade mais atrevida que preenche o stoner/sludge com tonalidades mais obscuras e que nos recordam de Lee Dorrian e dos seus Cathedral, assim como de Saint Vitus ou The Obsessed. [JC]

tiçado pela encantadora voz de Nina Saeidi. Ao jovem colectivo britânico falta apenas alguma cumplicidade entre os seus membros, algo facilmente perdoado até porque este é apenas o seu primeiro registo discográfico. No geral, as músicas são bem trabalhadas e os Lowen mostram-se à altura do desafio de criar bons temas. [JC]

do thrash e do death metal alemão, saltando de paisagens sonoras rápidas e agressivas, que nos hipnotizam com o seu groove, para momentos onde a guitarra assume um papel mais melódico apenas para nos deixar congelados logo de seguida com o regresso do death metal e de solos bem thrashy. Uma banda a seguir! [JC]

indos directamente da capital checa, os Rotting Beetroot causam um primeiro impacto com os títulos dos temas que são, na sua maioria, sempre muito esquisitos. As faixas mais compridas tendem a tornar-se um pouco repetitivas e parece existir alguma descoordenação na bateria. Contudo, há elementos, como os solos fantasmagóricos, que chegam mesmo a assombrar o disco, tornando-o mais sério do que aquilo que pode parecer num primeiro contacto. [JC]

SANCTRUM

SINNRS

SLAAMASKIN

VENOMOUS

Walk With Vermin

Profound

BIG BALLS

INDEPENDENTE

DEATH/THRASH/BLACK/HARDCORE

BLACK/DEATH METAL

A

descrição do estilo musical adoptado pelos Sanctrum, e que é disposta na caixa acima, não poderia estar mais perto da verdade. Mostrando ao que vêm assim que o primeiro tema do EP arranca, "Walk With Vermin" é um trabalho energético onde o metal extremo e o hardcore criam um balanço único, unindo-se na perfeição. Com esta proposta, os suecos deixarão os seus fãs ansiosos por um novo longa-duração. [JC]

M

O

s Sinnrs são um daqueles casos que nos prova que uma banda está muito acima do género musical que pratica. O colectivo dinamarquês não só teve boas ideias como teve a habilidade de as materializar nos temas de "Profound" com eficácia. Como destaque, ouça-se "Et Sic Incipit", tema presente na compilação que acompanha o número da Ultraje deste mês. Um grande trabalho! [JC]

Defiant

A PRODUCTION

INDEPENDENTE

HARD ROCK/METAL

MELODIC DEATH METAL

O

s noruegueses Slaamaskin deixaram os longa-durações de lado e prioritizaram a edição de EPs, contando já com três lançamentos neste formato. "M" presta homenagem ao tipo de metal que ganhou mais expressão na década de 90, aquando da expansão do grunge. A isso junta-se um pouco de hard rock e ficamos com os elementos necessários para um momento musical em que não falta groove e boa disposição. [JC]

41 - ULTRAJE #18

imaginaram um Jvisãoáinferno verde? É esta a que nos propõem os

brasileiros Venomous em "Defiant", adoptando uma sonoridade death metal muito influenciada por ritmos brasileiros alegres e que se assemelha a algumas das experiências realizadas por bandas como Sepultura ou Claustrofobia. Se são fãs da experimentação e gostam de uma banda que saiba arriscar, então os Venomous serão a companhia ideal. [JC]


Ultraje #18 (Outubro/Novembro 2018)  

DOWNLOAD: http://ultraje.pt/digital/ultraje18.pdf

Ultraje #18 (Outubro/Novembro 2018)  

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