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gosto chegou e trouxe consigo várias novidades, entre as quais a primeira edição gratuita da Ultraje. Deste mês em diante, esta revista, que é de todos nós, passará a ser disponibilizada gratuitamente em locais como lojas especializadas, alguns concertos e festivais, e ainda na nossa loja online, onde poderás continuar a receber a Ultraje comodamente na tua residência durante o período de um ano mediante o pagamento do valor dos portes de envio. A esta última opção demos o nome de Six-Pack e tem um custo de € 10,00. Nas próximas páginas encontrarás algumas das novidades musicais que marcam este Verão, como o novo álbum dos Sinsaenum. Este supergrupo, que tem nas suas fileiras músicos como Joey Jordison (Slipknot) e Frédéric Leclercq (DragonForce), tem em "Repulsion for Humanity" uma nova fornada de um death metal que combina o melhor do estilo old-school com o que de mais notável se tem feito em tempos recentes. Na estrada a promover "Firepower", os britânicos Judas Priest estiveram em Portugal juntamente com o lendário Ozzy Osbourne, mas foi em Madrid (Espanha) que nos sentámos com o baixista e fundador Ian Hill para dissecar o disco editado em Março e que deixa a banda comandada por Rob Halford mais perto da marca dos 20 lançamentos. Numa edição em que 'estatuto' é a palavra de ordem, a instituição de black metal que é Immortal está de volta aos discos com "Northern Chaos Gods", o primeiro desde 2009 e o primeiro também sem Abbath na voz. Demonaz resume os problemas que marcaram a banda nos últimos anos e fala-nos do processo desta nova proposta do agora duo norueguês. Isto e muito mais para descobrir na edição de Agosto/Setembro da Ultraje. Estaremos de volta em Outubro com mais novidades!

CONTEÚDOS

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SINSAENUM REPULSA PELA HUMANIDADE

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IMMORTAL Quase uma década depois, os Immortal estão de volta aos discos com "Northern Chaos Gods", o primeiro sem Abbath.

Editor 04 - ULTRAJE #17

JUDAS PRIEST Durante a edição deste ano do festival Download, em Madrid, falámos com Ian Hill, baixista dos britânicos.


ÍNDICE

ENTREVISTAS

12 Black Tusk 13 Lucifer 14 Madder Mortem 16 Rasgo 17 Van Canto 18 Decayed 19 Khôrada 20 Immortal 22 Sinsaenum 26 Judas Priest 28 Atrocity 29 Korpiklaani 30 Gwydion 31 Beyond Carnage 32 Ultraphonix

CONTEÚDOS

06 Kvlt Express 07 The Gentle Art Of Making Enemies 08 Vagos Metal Fest 10 Cena Metal Arménia 34 El Stoner Rodeo 35 Opinião 36 Reviews 41 Preto & Branco

FICHA TÉCNICA

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KORPIKLAANI Os Korpiklaani regressam com "Kulkija", o décimo álbum (e o mais longo) da carreira dos finlandeses.

Andreia Teixeira, Carlos Pinto, Cátia Cunha, Diogo Ferreira, Diogo Lourenço, Fernando Reis, Gonçalo L. Matias, Ivo Conceição, Jaime Ferreira, Joana Marçal Carriço, João Correia, Joel Costa, Jorge Almeida, José Branco, José Matos, Pedro Félix da Costa, Raquel Nunes Silva, Ricardo Rodrigues, Rui Vieira, Tiago Neves, Vânia Matos DESIGN

Joel Costa


CRONAXIA

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om uma história que remonta ao ano de 1997, os Cronaxia anunciam agora o lançamento do seu álbum de estreia, "Collapsing the Outer Structure", que chega ao público 10 anos após a primeira oferenda da banda de death metal, o EP “The Solution Above Continuity”. O álbum prepara-se para ver a luz do dia após uma dura batalha para encontrar os músicos certos que pudessem solidificar a sonoridade da banda e dar-lhe, ao mesmo tempo, uma formação consistente e, como tal, os Cronaxia convocaram os conhecidos e experientes músicos de sessão Rolando Barros (ex-The Firstborn, Neoplasmah, Grog) e Alex Ribeiro (Grog, Neoplasmah, Earth Electric) para ocuparem a posição de baterista e baixista, respectivamente. A banda, que começa por falar à Ultraje sobre as suas influências, assegura-nos que «em Cronaxia todos têm gostos bastante ecléticos, mas pode-se dizer que a certa altura da carreira, bandas como Cannibal Corpse, Nile, Morbid Angel, Immolation, Hate Eternal ou Emperor acabaram por influenciar e moldar a sonoridade». «Podem esperar um álbum de death metal com muito blast-beat, construído em torno de um conceito baseado num futuro não muito distante: uma espécie de minimalismo regenerador e pós-apocalíptico», comentam. «Os objectivos para este disco», prosseguem, «foram mesmo gravar o nosso primeiro 'grande registo' da melhor e mais empenhada forma que conseguíssemos.» Como ambição, a banda lisboeta fala em «crescer como músicos e compositores, criar uma entidade própria e chegar ao maior número de pessoas possível sem comprometer a identidade», assim como «promover o disco o máximo possível, tocar ao vivo e muito headbanging». [JC]

KRAKOW

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«O TEMA GERAL É ESTARMOS A PERSEGUIR UM SENTIMENTO.»

sta Cracóvia fica na Noruega. Esta Cracóvia, que é Krakow, regressa aos discos em “minus” com a pura intenção de nos provocar constantemente os sentidos – é pesado e subtil, melódico e dissonante, limpo e sujo, airoso e claustrofóbico. «Absolutamente, é tudo sobre combinar esses elementos», responde o vocalista e guitarrista René Misje quando questionado se concorda com a definição que elaborámos. «Para mim», continua, «é tudo sobre criar músicas nas quais me posso perder em mim mesmo. Tento sempre encontrar novas maneiras de provocar uma sensação de catarse ou, por outro lado, uma sensação de calma e paz. Isso pode ser encontrado tanto em paisagens avassaladoras como em sons agressivos, mas também na simplicidade de uma única nota a desvanecer para te deixar com nada além do silêncio e do ambiente da sala em que estás. Criar o longo instrumental de "minus" é isto: apenas quatro gajos em círculo, a tocar juntos, adaptando-se lentamente ao batimento cardíaco de uma música». Krakow e o seu novo álbum podem ser indicados para quem degusta malhas lamacentas de uns Alice In Chains, mas também ajuda a aguçar o apetite dos fãs de post-rock e noise, havendo ainda espaço para um sentido etéreo na onda de uns Junius. «Até hoje ainda não nos conseguimos rotular dentro de um género», confessa René sobre quão desafiante pode ser classificar a banda. Conseguindo encontrar o tal post-rock e noise, mas também metal, grunge e noise nos álbuns que tem vindo a lançar desde 2009, o norueguês assume o expectável ao referir que «rotular a música [de Krakow] com um género seria enganoso». «Tocamos música que atravessa todos esses estilos e expressões», remata. Aberto a qualquer tipo de interpretação – até classificámos “minus” como um encontro entre a vida urbana e a busca espiritual durante a entrevista –, René pretende que «o ouvinte crie o seu próprio significado», fazendo-nos chegar a mais um confronto de percepções: “minus” pode ser muito focado nas partes melódicas, mas também consegue ser insano na ala noise e experimental. Desorientados, ou não, emocionalmente para conseguirem produzir tais

06 - ULTRAJE #17

Editora: KARISMA Lançamento: 31 AGOSTO 2018

paisagens atonais e obscuras, René Misje afirma que, «musicalmente, o tema geral é estarmos a perseguir um sentimento» para se «tentar ter um momento especial em cada música». «Posso, com confiança, dizer que cada música tem o seu próprio timbre e expressão. E, na busca para captar isso, todas as paisagens sonoras estão na mesa.» Depois há claramente uma aptidão para o storytelling, o que para o desenrolar dos álbuns dos Krakow é muito importante por ser «tudo sobre narrativa – seja na combinação entre palavras e música, seja apenas na música sozinha». Crente de que conseguiu contar uma história sempre que alguém lhe aponta a importância da narrativa na sua banda, René sente que «isso é muito gratificante». Compensatório e satisfatório pode ser também aquilo que nutrimos por certos ícones da música, por pessoas como Lemmy que nos deu uma naipada com “Ace of Spades”, Dio que nos catapultou com uma “Holy Diver” ou Vinnie Paul que nos enche de groove sempre que Pantera soa. A faixa “black wandering sun”, presente em “minus”, é precisamente sobre isso: homenagear os nossos ídolos. «É sempre importante prestar tributo às pessoas que prepararam o caminho diante de nós e nos possibilitaram a fazer o que fazemos», repara o porta-voz de Krakow. Sabemos, pela lei da vida, que as pessoas não vivem eternamente, mas abalroa-nos sempre um grande choque quando as vemos partir, talvez por as termos tomado como garantidas. René não defende esta opinião: «Não acho que os tenhamos considerado como garantidos», referindo-se a Lemmy, Dio e Vinnie Paul, para finalizar: «Muitas das homenagens a esses músicos não são necessariamente sobre eles, mas sobre o que sua música significava para os fãs. Em consequência da morte, as tuas emoções e paixão pela música à qual eles faziam parte são ampliadas, todos esses sentimentos antigos emergem e cria-se um caminho para novos e mais poderosos significados. A música está enraizada em sentimentos e as pessoas que fazem essa música são extremamente importantes na forma como a percebemos. Penso, subconscientemente, que eles são imortais para nós porque a música deles é. Daí o grande choque.» [DF]


TUDO "FUCKING" MUDOU.

LELAHELL

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«FUI UM DOS FUNDADORES [DA CENA METAL ARGELINA] E SOU UM DOS ÚLTIMOS SOBREVIVENTES.»

odos os lançamentos dos Lelahell estão conceptualmente ligados à personagem Abderrahmane enquanto, ao mesmo tempo, foca-se em dar um passo evolucionário, ou seja, abrir outro capítulo no nosso próprio livro.» Os Lelahell falam-nos da sua discografia, mas mais precisamente de "Alif", o segundo trabalho do colectivo argelino de death metal. «Nas letras do nosso primeiro EP, "Al Intihar", Abderrahmane está cansado de uma vida cheia de constrangimentos, pelo que se suicida. O nosso álbum de estreia, "Al Insane... the (Re)Birth of Abderrahmane", lida com o seu renascimento. "Alif" está agora focado nos primeiros passos que Abderrahmane dá na sua nova vida, da mesma forma que uma criança aprende a falar, a andar e aprende sobre o mundo que o rodeia. Contudo, é um percurso repleto de medos e inimigos, pelo que a personagem precisa de se salvar a si mesma de todos estes perigos.» Ainda sobre o novo disco, o vocalista e guitarrista Redouane Aouameur explica que "Alif" «é a primeira letra do alfabeto árabe», e que na caligrafia é usado como «referência principal

para determinar o tamanho das letras seguintes». «Escolhemos este nome porque este álbum também será a principal referência musical para os trabalhos seguintes.» Musicalmente brutal e melódico ao mesmo tempo, os fãs podem esperar uma espécie de metamorfose do death metal, algo que numa cena onde dominam os múltiplos subgéneros, «poderá vir a ser conhecido como death metal argelino». Sobre a cena metal da Argélia, o músico refere que «não é tão recente quanto possam imaginar, uma vez que existe há quase três décadas». «Fui um dos fundadores da nossa cena metal e sou um dos últimos sobreviventes». Aouameur explica: «Quando começámos no início dos anos 90 era muito difícil, pois fomos os primeiros e não tínhamos modelos a seguir nem músicos experientes a quem pedir referências», mas a ambição e motivação da banda trouxe-os até 2018, em que, segundo o vocalista, «existem algumas bandas promissoras que lançaram discos interessantes, e já há mais concertos que são, ainda assim, insuficientes. Estamos a trabalhar com o governo para termos melhores condições.» [JC]

Kalashnikov, o regresso, 10 anos depois, no NOS Alive 2018. Em 2008 culminámos com uma actuação no palco principal do então Optimus Alive, naquela que foi a primeira parte do concerto dos Rage Against The Machine. Lembro-me bem de concertos no Coliseu de Lisboa, com Moonspell no Halloween, de concertos em Queimas das Fitas, festas das cidades, UK, Estados Unidos da América e tantos outros... Numa altura em que ainda estávamos a fazer o "Vai Tudo Abaixo", que depois deixámos para rumar aos Homens da Luta a full-time. Mudámos, mudou o país e o mundo, tudo e todos mudámos. É muito, muito bom, voltar a locais onde já estivemos e onde já fomos felizes. É bom conviver novamente com gentes, dinâmicas e rotinas de há 10 anos - "outros tempos", "velhos tempos". É enorme a energia que ficou conservada durante uma década, e é incrível ver que a música viaja pelo tempo. Cresci muito, amadureci, sou pai, e tenho o privilégio de poder voltar a este sítio. Os meus camaradas de banda continuam incríveis e ainda mais refinados naquilo que são bons. O Palco Comédia do NOS Alive abraçou-nos numa noite que vou ter dificuldade em assimilar. Foi impressionante ver toda aquela gente a encher a tenda, pessoas por fora, as reacções ao concerto e pensar que Kalashnikov começou por ser um sketch do "Vai Tudo Abaixo", do Jel. É caso para dizer que "escalou rápido", e que rápido! O próprio festival também cresceu tremendamente. A cidade de Lisboa (infelizmente), o panorama musical e até os Queens Of The Stone Age normalizaram o seu som e atitude. Estamos velhos? Sou saudosista sem dúvida, e acredito que é um erro cristalizar emoções ou sentimentos. Essa barreira foi quebrada há uma semana - o que vem a seguir? Vem a vida, vem tudo. "Brothers in África, killing in África, bringing to África, WAR!"

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P Orphaned Land (foto: cortesia de Century Media)

ara a edição de 2018, a organização do Vagos Metal Fest propõe-se a um júbilo metálico de quatro dias a começar logo a 9 de Agosto, numa espécie de prólogo com menos, mas boas, bandas do que nos restantes dias do alinhamento. O destaque vai consideravelmente para os israelitas Orphaned Land que em álbum ou em concerto unem metal, prog e folk do Médio Oriente, mas também crenças e comunidades separadas por dogmas que o comum mortal não controla. “Unsung Prophets & Dead Messiahs” (2018) é já considerado um dos melhores álbuns de uma carreira com pouco mais de 25 anos. Da Alemanha, os Dust Bolt trazem o seu thrash metal inovador e três discos alvo de críticas positivas. Com espaço maior para bandas portuguesas neste primeiro dia de festa, os Analepsy apresentam-se em Vagos como a montra do death metal nacional por toda a Europa e os Theriomorphic mostram por que são senhores do melodeath metal luso através de temas incluídos no importante “Enter the Mighty Theriomorphic” (2005), sem esquecer o EP “Of Fire and Light” (2018). Os Trinta E Um conduzem-nos à segunda metade da década de 1990 com punk rock / hardcore, os Booby Trap representam Aveiro com crossover nunca fora de moda e os conimbricenses Destroyers Of All, mais técnicos e progressivos, são o sangue novo no meio da velha-guarda.

O segundo dia de festividades contém os nortenhos In Vein que conseguiram presença em Vagos através de uma campanha humorística apoiada por fãs e posteriormente materializada pela organização. Segue-se o rock dos Blame Zeus e dos Dollar Llama, o black metal melódico dos Invoke e a party dos Serrabulho com um grindcore que já alcançou vários palcos europeus. Os germânicos Attic contam histórias do oculto através de um heavy metal negro inspirado em King Diamond e os compatriotas Masterplan dão lugar ao power metal com esperadas incursões a Helloween. A fasquia é elevada com os brasileiros Ratos de Porão, banda incontornável formada no início dos anos 80 caracterizada por uma mescla musculada de metal, punk e hardcore. Vagos espera ansiosamente por João Gordo & Cia.. O culto do hardcore maturado ao longo dos anos prossegue com os Converge de Jacob Bannon e Kurt Ballou, abrindo caminho para mais duas actuações provenientes de amigos de longa-data: por um lado, os Moonspell são o maior nome do metal nacional e têm em “1755” (2017) a mais recente proposta discográfica, mas decerto clássicos como “Alma Mater” e “Full Moon Madness” fazem parte do alinhamento; por outro, os ingleses Cradle Of Filth têm vindo a recuperar a forma com os álbuns “Hammer of the Witches” (2015) e “Cryptoriana - The Seductiveness of Decay” (2017), embora os fãs desejem sempre ouvir aquilo que a banda fez na década de 1990.

Moonspell (foto: Paulo Mendes)

Kamelot (foto: cortesia Napalm Records)

Suicidal Tendencies (foto: cortesia Suicidal Records)

Para o terceiro dia, os Lost in Pain vêm do Luxemburgo, mas com raízes na vila de Vagos, e os novatos espanhóis Wicked Inc estão prontos para um concerto de heavy metal. A intensidade sobe com os folkers lisboetas Gwydion, que têm em “Thirteen” (2018) o aguardado regresso aos álbuns após cinco anos de silêncio, e os Simbiose, do alto dos seus 27 anos de carreira, não deixam ninguém indiferente com um crust crítico. Como no dia anterior, volta a haver margem de manobra para o culto com Holocausto Canibal, a banda nacional mais bem-sucedida de sempre no campo do death/grindcore, e com os dissonantes e ritualistas suíços Bölzer. Os marselheses Dagoba oferecem groove moderno, mas o penúltimo dia do VMF tende a enegrecer com o regresso dos Carach Angren, que contam histórias de terror através de um black metal sinfónico e teatral, e com os veteranos pioneiros do viking metal Enslaved que souberam evoluir para campos mais maduros e progressivos, tendo “E” (2017) como o mais recente longa-duração. Todavia, o paradigma muda quando os Sonata Arctica subirem ao palco para executarem o seu power metal melódico e quando os Kamelot também continuarem nessa toada melodiosa, ainda que mais agressiva e muitas vezes técnica. “The Shadow Theory”, deste ano de 2018, é o mais recente esforço da banda norte-americana. O Vagos Metal Fest termina com o groove melódico dos portugueses Stonerust e com o doom metal dos espanhóis Dark Embrace. Os Rasgo, com membros que têm Tara Perdida e Shadowsphere no currículo, são uma das últimas bandas nacionais a actuar na Quinta do Ega e têm em “Ecos da Selva Urbana” (2017) o primeiro e único álbum até ao momento – estão na berra com a versão orquestral do emblemático tema “Homens Ao Mar”. Do sul inglês vêm os Feed The Rhino com um hardcore que se desenrola até ao metalcore. Mas antes de se partir para a apresentação do old-school, referir a presença dos Municipal Waste e do seu crossover violento que garante movimentação plena no recinto. Alvo de culto nas hordas do death metal, os holandeses Sinister são um dos grandes destaques deste derradeiro dia metálico com álbuns que começaram a ser lançados em 1992, sendo que “Syncretism” é o mais próximo com data de 2017. Da Finlândia, os Ensiferum retornam a Portugal como banda pioneira do folk metal e Ross the Boss, com carreira homónima desde 2006, não faz esquecer Manowar, banda icónica da qual fez parte na quase totalidade dos anos 80. Distintos na sonoridade, mas ligados pelo contributo que deram, e ainda dão, à História da Música, os Integrity transportam até Vagos uma mistura caótica de hardcore e death metal, os Memoriam (com ex-membros dos malogrados Bolt Thrower) projectam death metal bélico com clara inspiração nas suas bandas passadas e Suicidal Tendencies, com fundação em 1981, são a banda mais histórica de toda esta edição de 2018 com um crossover muito próprio que vai do hardcore, ao punk, ao groove e ao thrash metal. Texto: Diogo Ferreira

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Eternally Scarred

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Arménia é uma nação milenar e fortemente cristã que se localiza na chamada Eurásia. Pouco se ouve falar do país e as grandes cadeias noticiosas pouco ou nada cobriram os recentes protestos populares que obrigaram Serzh Sargsyan a demitir-se do cargo de primeiro-ministro, dando assim lugar ao líder da oposição Nikol Pashinyan, sendo que muitos de nós tomaram conhecimento desta convulsão sociopolítica através do activismo de Serj Tankian (System Of A Down), reconhecido artista multifacetado com origens arménias. Para perceber o estado actual do país e da cena metal, fomos à procura de bandas arménias – a quase 6000km de distância encontrámos Avarayr, Eternally Scarred e Arbor Mortis. A REVOLUÇÃO Sobre a Revolução de Veludo, Narek Avedyan, de Avarayr, é quem se mostra mais renitente em expressar opiniões, mas acaba por aceitar o pedido da Ultraje: «A razão pela qual não ouviram falar desta revolução nas grandes notícias tem a ver com o facto de a Arménia ser um país muito pequeno. Quanto à própria revolução, as pessoas saíram às ruas em protesto contra o monopólio de poder que durou mais de uma década. Conseguiram mudar o primeiro-ministro sem derramar sangue. O próprio facto de se conseguir fazer isso é um

impulso muito poderoso para os jovens – dá-lhes a vontade e a confiança de que precisam para remodelar o resto da História da Arménia. No entanto, acredito que as pessoas não devem mover-se rapidamente e devem calcular cada passo. Mudar o PM foi apenas o começo. Um longo caminho aguarda-nos – um que certamente será cheio de reviravoltas. Estou feliz que o meu povo saia vitorioso, mas num canto da minha mente não posso deixar de antecipar os possíveis perigos e só posso esperar o melhor para a Arménia.» Porém, os compatriotas em Eternally Scarred e Arbor Mortis são menos pragmáticos e mais aventureiros. Artak Karapetyan (Eternally Scarred) afirma que «os protestos mostraram que ninguém é intocável» e que «as pessoas são capazes de fazer muitas coisas quando o copo da paciência está cheio», ao passo que em Arbor Mortis pensam que esta acção «foi um grande passo em frente para uma democracia», havendo «a esperança de que o país consiga deixar cair a poeira da era soviética». O GENOCÍDIO Em Abril de 1915, centenas de intelectuais arménios foram presos e executados a mando das autoridades otomanas, e em Maio seguinte foi emitida uma lei que deslocou e adquiriu os bens de cerca de 1,5 milhões de arménios, levando-os à morte – tal totalitarismo ficou conhecido como o Genocídio Arménio às mãos do Império Otomano.

«Foi o primeiro genocídio sistemático do Séc. XX. A palavra genocídio foi inventada para descrever a extensão dessa brutalidade», comenta o mentor de Avarayr. Contudo, nenhuma destas três bandas escolhe essa temática para desenvolver a sua arte pelas mais variadas razões, sendo a de Avarayr a mais sentida: «Nunca escreverei sobre o Genocídio quando se tratar de Avarayr. Tomei a decisão pessoal de não usar o sangue de mais de 1,5 milhão de arménios para escrever uma música que certamente atrairia o arménio comum. Faço-o por respeito às vítimas. Em vez disso, escolho escrever sobre uma História diferente, que não é tão realçada – a História pré-cristã da Arménia, os nossos deuses pagãos e as nossas raízes pagãs.» Mesmo assim, avisa que «a luta por justiça ainda está em curso e não vai parar até que o actual governo da Turquia reconheça e peça desculpa pelo Genocídio, e devolva as terras históricas da Arménia Ocidental». Já os Arbor Mortis acentuam os seus trabalhos «nos problemas presentes na sociedade humana e os danos que ela causa num único indivíduo: o sofrimento, confrontos de almas esquecidas, ignoradas e abandonadas nos cantos escuros da indiferença humana», tentando «mostrar que todo o sentimento sombrio tem a sua beleza e não te deves afastar dele». Por seu turno, Artak fala em guerra no conceito de Eternally Scarred, mas uma «fictícia, que funciona como uma metáfora para a tensão interior, a ansiedade e a luta para passar por isso», não esque-

«OS PROTESTOS MOSTRARAM QUE NINGUÉM É INTOCÁVEL.» Artak Karapetyan (Eternally Scarred) 10 - ULTRAJE #17


cendo que o Genocídio representa uma das páginas mais sombrias da História do seu país. O METAL NA ARMÉNIA Situada entre a Europa e o mundo muçulmano, a Arménia tem de chegar a acordos diplomáticos com ambos os lados para prosperar e para viver em paz num local do globo tão efervescente. O que também tenta prosperar e evoluir é a cena metal que, surpreendentemente, apresenta bons esforços como “…of Wisdom” de Eternally Scarred. «O metal não sofre com a [nossa] localização entre a Europa e a Ásia», esclarece Artak, consentindo que «costumava haver muito mais metálicos em comparação aos nossos dias, mas certamente não tem nada a ver com a localização geográfica do país». Os Arbor Mortis falam em «equilíbrio» ao utilizarem as melhores partes de ambos os lados, mantendo as suas através de elementos folclóricos arménios misturados com as culturas ocidentais e orientais. «Qualquer cultura que consiga dar atmosfera ao tema da música será usada», rematam. No meio destas três conversas, Avarayr continua a ser o projecto mais ligado ao folclore com o seu black metal atmosférico e as várias incursões ao folk, e Narek volta a falar do seu país. «Sempre derramámos sangue e lutámos para manter a nossa cultura viva em tempos de turbulência. Fizemos isso quando os persas sassânidas nos atacaram em 451 DC, quando os otomanos nos massacraram em 1915, durante as conquistas árabes, sob o domínio soviético (mesmo que os soviéticos tenham conseguido arruinar muitas coisas que prefiro não discutir).» «O espírito arménio é forte como ferro», compara, mas quando se trata de metal, «o maior problema é conseguir bandas grandes para tocar na Arménia. Sendo um país pequeno, a cena é obviamente pequena e, devido à localização geográfica, trazer bandas do exterior pode ser um pouco incómodo, especialmente financeiramente. Mas o promotor local faz o seu melhor e tem sido capaz de trazer grandes bandas estrangeiras». De acordo com o website Metal Archives parece que é o death e black metal que reinam na cena arménia, mas Narek não confirma o que se aponta na Internet: «Não diria que esses dois géneros reinam na Arménia. Black metal é certamente muito popular e, indiscutivelmente, algumas das maiores bandas arménias são desses estilos, mas diria que a cena metal arménia está actualmente mais inclinada tanto para o progressivo como para o groove.» Já os eventos parecem também estar a passar por uma boa fase: «Recentemente fui a um evento de deathcore e a recepção foi de loucos! A promotora local, a Zhesht Events, organiza um festival de deathcore com bandas da Geórgia e da Arménia. A maioria dos fãs da cena actual é jovem, então tendem a inclinar-se para subgéneros mais activos. A cena geral agora está óptima. Alguns grandes nomes tocaram na Arménia pela primeira vez nos últimos anos, como Sepultura, System Of A Down, Napalm Death, Anathema e mais recentemente Rotting Christ. Diria que a cena está muito saudável.» Os Arbor Mortis corroboram ao dizer que as bandas com maior qualidade pertencem ao death e black metal, ainda que existam diferentes estilos em vigor, principalmente alternativos. «Há muitos fãs aqui, mas organizar concertos com bandas locais não é lucrativo. Portanto, é frequente que os promotores convidem algumas bandas famosas da Europa e de outros países», comentam. Por fim, o cérebro de Eternally Scarred também concorda com a existência de muito death e black metal, recordando seguidamente a década de 1990: «Tínhamos uma banda de grindcore nos anos 90! O que acho

porreiro de se tocar metal aqui é que, embora haja muitas limitações, muitos músicos ainda tentam procurar maneiras únicas de compor e tocar as suas músicas, para que haja sempre algo novo.» AS SONORIDADES Com uma abordagem sonora direccionada ao black metal, as influências de Arbor Mortis são óbvias: Burzum, Darkthrone, Dimmu Borgir ou Cradle of Filth, mas «cada banda oferece a sua emoção e estado de espírito». «Não se trata de ser sobre uma banda e o seu género, principalmente é o clima e a atmosfera que influenciam», concluem. Ouvindo “…of Wisdom”, de 2017, dos compatriotas Eternally Scarred, cedo se percebe que tem tudo a ver com death e doom metal, e isso é algo que Artak sempre quis fazer, «mas não sabia quando e como», admite. Para a concepção deste álbum de estreia, o músico conta que «estava num estado de espírito em que há muita tensão dentro e fora de ti, e a arte é a única maneira de expressar essa tensão», revelando que « “…of Wisdom” é a expressão dessa tensão em combinação com a música». Aceita que esse seja um disco de death/doom metal, mas, para si, «o mais importante é a visão que se tem e que se coloca na música de modo a fazê-la soar como aquilo que é». Como tem sido hábito no decorrer deste artigo, Narek, de Avarayr, é sempre o mais entusiasmado e detalhado, talvez um pouco à semelhança da música que cria algures entre o black metal atmosférico e o folk ancestral, como é evidente no EP lançado em 2014. «Sempre fui um ávido fã de música folclórica. Ao crescer, a minha avó cantava tranquilamente essas velhas canções folclóricas arménias enquanto cozinhava e limpava, e isso ficou-me na mente desde a infância. Mais tarde, quando cresci, perguntei-lhe sobre as músicas e o seu significado, e as coisas prosseguiram a partir daí. A música folclórica arménia é importante para mim por causa da minha herança arménia, mas adoro o folk de todos os países e acredito que a música folclórica é a melhor representante da cultura de uma nação. É a simplicidade e o minimalismo da música folclórica que me intrigam. Não a simplicidade em termos de musicalidade, mas em termos da clareza da fala e do pensamento. Há muita sabedoria entre as notas das canções folclóricas. Tento incorporar isso na minha própria música. Principalmente, incorporo música folclórica arménia e persa, mas nunca me esquivo de tentar diferentes sons e texturas. O black metal sempre aceitou muito o folclore e a música folclórica. Tento sempre manter o folclore como um tom para o black metal, em vez de apenas destacá-lo directamente. Não sou um grande fã de bandas folclóricas de black metal que usam instrumentos tradicionais como uma engenhoca. Sendo um fã de música atmosférica, que me põe em transe, também gosto de induzir atmosfera nos meus ouvintes. Faço isso ao usar estruturas repetitivas e pequenas melodias folclóricas para acompanhar o ouvinte enquanto elas se movem pela música. Às vezes todos desejamos poder apenas fechar os olhos e estar nas florestas, montanhas ou no passado. Black metal atmosférico é um meio perfeito para isso.»

PRESENTE E FUTURO Fundados em 2013, os Arbor Mortis já lançaram dois álbuns, sendo o mais recente, “Prophet”, de 2015. Contam que neste momento estão a trabalhar no próximo longa-duração e que «a maior parte do trabalho já está terminada, havendo apenas algum trabalho menor por fazer». Pretendem ainda dar alguns concertos na Arménia e almejam participar no W.O.A. Metal Battle Caucasus que lhes poderá dar acesso ao Wacken Open Air, na Alemanha. Criado mais próximo da actualidade, a génese de Eternally Scarred tem a sua semente em 2017, mas nem a infância da carreira fez demorar o lançamento do já elogiado “…of Wisdom”, lançado no referido ano. Todavia, Artak Karapetyan não é um novato, como recorda: «Estive em algumas bandas locais de Yerevan [capital arménia], como Sacrament que era uma banda de covers das ‘nossas bandas favoritas de metal’ e depois começámos a tocar as nossas próprias músicas. Sem grandes planos, sem digressões, gravações ou qualquer coisa assim, apenas tocávamos localmente e com diversão! Também fui baixista de Perfect Legacy – uma banda de groove metal/metalcore com elementos de música étnica. Toquei ainda com algumas bandas como músico de sessão. Além disso, no ano passado, os meus amigos em Ildaruni convidaram-me para cantar – é uma banda de black metal pagão. Eternally Scarred e Ildaruni são as duas principais bandas em que estou a focar-me agora.» Quanto a Eternally Scarred, diz-nos que efectua experiências desde tenra idade e que havia muitas coisas gravadas que planeava lançar, «mas, para ser honesto, era uma confusão total». «Deixar tudo para trás e começar a escrever e a gravar algo novo foi como uma lufada de ar fresco. Na verdade, criar Eternally Scarred foi uma terapia enorme para mim!» Indo novamente cinco anos atrás, o projecto Avarayr apareceu em 2013 pela mão e mente de Narek Avedyan, e na sua discografia encontramos dois singles, o já mencionado EP de 2014 com 50 minutos de duração e um álbum ao vivo intitulado “Echoes From The Diaspora” (2017). «Há um longa-duração em perspectiva para um futuro próximo», revela Narek. «Está tudo gravado, mas o resultado final enfrenta um pequeno atraso, já que não posso dedicar todo o meu tempo a Avarayr por causa dos meus estudos.» E porque uma revelação é sempre melhor se acompanhada por outra, o músico arménio anuncia que «existe a possibilidade de uma próxima versão de Avarayr ser folclórica, semelhante a Wardruna, mas com elementos arménios e cantada em antigos dialectos arménios». Sem se mostrar um artista apressado, que prefere deixar tudo fluir naturalmente, é Narek quem encerra esta viagem até à Arménia: «Só preciso de estar no estado de espírito certo para fazer isto funcionar.»

«A LUTA POR JUSTIÇA AINDA ESTÁ EM CURSO E NÃO VAI PARAR ATÉ QUE O ACTUAL GOVERNO DA TURQUIA RECONHEÇA E PEÇA DESCULPA PELO GENOCÍDIO.» Narek Avedyan (Avarayr)

Avarayr 11 - ULTRAJE #17


TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: GEOFF L. JOHNSON

A

Season Of Mist é peremptória: “TCBT”, o novo álbum dos Black Tusk, ganhou forma através de sangue, algumas lágrimas e certamente muito suor. «É a vida», confere o baixista Corey Barhorst quando lhe dizemos que imaginamos o passado recente cheio de dificuldades. O principal alvo dessas complicações será a morte trágica do membro-fundador Jonathan Vincent Athon que em Novembro de 2014, enquanto guiava a sua Harley Davidson, fora abalroado por um condutor desorientado (ver caixa). Tinha 32 anos. “Pillars Of Ash”, de 2016, foi assim um álbum póstumo e as dores ainda subsistem passados quase quatro anos, mesmo com mais um novo álbum cá fora. «Há alguns aspectos [em “TCBT”] que definitivamente têm a ver com a morte do Athon e seguir em frente. Também tem a ver com o ano passado [2017], quando lidámos com a perda de outros amigos íntimos. Mas realmente o que interessa é tudo o que a banda sofreu desde o início até agora: seja estarmos lixados numa cidade estranha, sem nada, continuar sem nada ou ver como as vidas dos outros passam pela nossa. Apenas trabalhamos duro para estarmos ao nível em que estamos.» Se sangue, suor e lágrimas é um cliché, perguntar se tudo o que testemunharam tornou a banda ainda mais forte é outro, e Corey corrobora: «O facto de a banda ainda estar por cá é um testemunho de como nos tornámos mais fortes. Teria sido muito fácil desistir, e acho que ninguém nos culparia por isso. Mas isso não somos nós, não é o que queremos fazer. Certamente não é o que o Athon esperaria que fizéssemos.» Absolutamente, os vivos estão a cuidar de Black Tusk e continuar em frente é aquilo que o grupo defende como homenagem a Athon, até porque “TCBT” significa precisamente “Taking Care [of] Black Tusk”. Especialmente devido à introdução spoken-word em “A Perfect View of Absolutely Nothing”, somos instantaneamente capturados pelo álbum à conta daquilo que é dito ao longo dos seus cerca de 80 segundos de duração. Nessa intro há muita

procura pela verdade e alguma espiritualidade, mesmo que o álbum pareça muito furioso e de alguma forma violento – e lá isso é! Podemos até dizer que “TCBT” funciona como um expandir de Ajña, comummente chamado de terceiro olho, em todo o seu conceito com muitas críticas à mistura. Tomem, por exemplo, atenção às faixas “Lab Rat” e “Never Ending Daymare” quando tiverem o disco a rodar do vosso lado. Contudo, as possíveis críticas sociais transformam-se em algo mais próprio, como conta Corey Barhorst: «É óbvio que os temas deste álbum foram muito mais pessoais do que nos discos anteriores. Nós os três decidimos lidar com ideias que podiam ser águas novas para nós. Pensámos mais em temas pessoais, como vida, morte, fracasso, ansiedade e as nossas próprias lutas pessoais», continuando assim na senda da perda (Athon) e da luta pela existência (Black Tusk). O que a banda do Estado da Georgia (EUA) toca é naturalmente rotulado como sludge metal, mas o grupo é tão próprio que prefere chamar-lhe swamp metal, o que cá para nós, na Ultraje, é um rótulo apropriadíssimo para os Black Tusk. No entanto, o que não falta em “TCBT” é punk – aquele enraivecido e sujo. É um matrimónio entre sludge e punk que origina um filho diabólico chamado Black Tusk. «Há definitivamente uma enorme influência punk neste álbum, assim como nos álbuns anteriores», assume o norte-americano. «Quer dizer, tocamos um estilo pesado, mas todos nós viemos do mundo do punk rock e crescemos com isso; portanto, será sempre a principal influência desta banda.» Foi sobre os ombros de Corey Barhorst que caiu o peso de substituir o adorado Athon, mas as mudanças – ou no caso que se segue, adições – não ficaram por 2014. Agora, em 2018, os Black Tusk apresentaram-se em estúdio com um quarto elemento: o guitarrista Chris Adams. Amigo de longa data e com currículo colaborativo na banda em ocasiões anteriores, Adams não participou no processo de composição, mas tratou da mistura de “TCBT”, fazendo este disco um pouco dele também. «É claro que isso torna o álbum um pouco 12 - ULTRAJE #17

dele, por causa da sua participação na mistura e captação», consente Corey, explicando seguidamente que «a decisão de incluir o Chris ‘Scary’ na banda foi algo muito fácil»: «Depois de gravarmos o disco percebemos que queríamos um segundo guitarrista para preencher o som e aliviar um pouco a minha tensão e a do Andrew [Fidler]. É um guitarrista do caraças», remata sobre Chris Adams. Um álbum, um longa-duração, um LP – aquilo que lhe quiserem chamar – será sempre o pico máximo de uma banda no que à discografia diz respeito, mas os nichos que fogem à indústria e ao comércio mainstream adoram outros dois tipos de lançamentos: EPs e splits. No catálogo dos Black Tusk encontramos vários splits partilhados com bandas como ASG, Exhumed, Revocation, Tombs ou Royal Thunder, o que só faz com que queiramos mergulhar ainda mais no monte de edições do grupo. «Gosto obviamente da combinação de se poder lançar um disco com uma banda pela qual se sente alguma ligação», conta-nos, para concluir de forma convincente em direcção a todas e todos que têm o bichinho da colecção e da exclusividade: «Além disso, normalmente podemos ser nós mesmo a fazer isso, com um número de cópias mais baixo e vinis mais porreiros.» JONATHAN VINCENT ATHON (1982-2014) A 9 de Novembro de 2014, o baixista Jonathan Vincent Athon faleceu com apenas 32 anos. Na noite anterior, Jonathan, juntamente com a namorada Emily, saiu para dar uma volta na sua Harley Davidson pelas ruas de Savannah (Georgia, EUA) até que foi abalroado por um condutor que não parou num stop. O casal fora imediatamente levado para o hospital, mas a condição vital de Athon tinha sido considerada tão crítica que os médicos decidiram induzi-lo em coma. Conforme anunciado pela restante banda naquela altura, o músico e amigo sofrera danos cerebrais irreparáveis e o suporte de vida que o mantinha deste lado acabaria por ser desligado. Os órgãos de Athon foram doados e o seu corpo cremado após um memorial participado pela família e amigos.


TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: ESTER SEGARRA

«O

lá, é Lucifer quem fala!» É desta forma bem-disposta que Johanna Sadonis (ex-The Oath) e Nicke Andersson (Entombed) – vocalista e baterista dos Lucifer, respectivamente – se apresentam do outro lado da linha, preparados para promover “Lucifer II”, o segundo trabalho da banda de heavy rock e o primeiro através da alemã Century Media. Os músicos iniciam esta demanda ao falar da forma como conheceram o estilo que viriam a adoptar neste projecto em particular: «Comigo foi através dos meus pais», conta-nos Johanna, «só que enquanto criança achava que aquilo era a música que os velhos ouviam, pelo que acabei por me interessar mais por death metal, black metal e heavy metal no geral.» O interesse pelo heavy rock dos anos 70 ficaria então reservado para o futuro da alemã, mas para o baterista sueco a história seria bem diferente: «Cresci com os Kiss», revela Nicke, «e penso que a nossa colecção tem uns 80% de discos da década de 70. Diria que é uma preferência e as coisas eram muito melhores nesse tempo, infelizmente.» Então, afinal esta sonoridade não é só para os 'velhos', como dizia Johanna: «Exactamente... Ou se calhar até é!», reparam os dois em uníssono, explodindo numa gargalhada colectiva. «Quando és um verdadeiro amante de música, e independentemente da fase que atravessas enquanto adolescente revoltado, acabas por chegar a um ponto em que percebes que é aqui que reside a boa música», completa a vocalista. Comparativamente a “Lucifer I”, editado em 2015, “Lucifer II” oferece mais melodia e um ambiente mais ligado ao rock n’ roll, indo ao encontro da ideia original que os músicos tinham reservado para a banda e da qual se distanciaram um pouco aquando da edição do álbum de estreia. Com riffs clássicos e adornos psicadélicos, e ainda que consigam manter uma ligação ao trabalho que desenvolveram com “Lucifer I”, a sonoridade actual trilha agora novos caminhos, onde se juntam elementos da cena acid rock, blues e até do prog. Com esta nova proposta, a banda liderada por Johanna Sadonis encontra finalmente o seu equilíbrio: «Às vezes tens uma ideia para algo e quando finalmente a concretizas acabas por transitar para algo diferente», conta a vocalista. «Mas isso foi bom», prossegue, «e gosto bastante desse disco [de estreia]. Tínhamos esta ideia em que víamos os Lucifer como uma banda inspirada pela sonoridade heavy rock dos anos 70, e quando me juntei ao Gaz Jennings e iniciámos a composição desse álbum, acabou por soar mais doom.» Gaz Jennings foi guitarrista dos britânicos Cathedral desde a fundação até ao seu desfecho, em

2013, e enquanto Johanna vê esta mudança na sonoridade como um acontecimento positivo, reconhece que viu uma oportunidade de voltar ao plano original assim que o músico abandonou os Lucifer no final de 2016. Johanna Sadonis fala-nos das principais mudanças que podemos ouvir no novo lançamento: «A principal é talvez o facto de agora compor com o Nicke. Há uma química totalmente diferente e a fluidez com que compomos é muito natural. Este novo álbum soa desta forma pois foi como se tivéssemos chegado lá por intuição. Não é que nos tivéssemos sentado e dito que o álbum teria que soar desta ou daquela forma, apenas começámos a compor juntos e as nossas maiores influências provêm dos anos 70.» “Lucifer II” foi gravado durante o Verão de 2017 nos estúdios de Nicke, em Estocolmo, contudo o lançamento dá-se apenas um ano depois. Johanna culpa a 'papelada' pelo atraso: «Tivemos muita documentação para tratar devido à nossa mudança para a Century Media», explica, com Nike a acrescentar que «isso leva algum tempo». Nicke Andersson, até aqui mais reservado, tomava agora a palavra para nos falar da forma como o novo disco amadureceu durante este ano em que esteve fechado a sete chaves até que se concluísse a transição da Rise Above para a Century Media: «Estou muito satisfeito com o álbum, mas na minha cabeça já só tenho espaço para pensar no próximo. Comigo sempre foi assim desde que comecei a compor música, e a partir do momento em que um álbum está misturado e pronto, deixo de pensar nele.» Ambos os entrevistados admitem que à data da entrevista já fazia algum tempo desde a última vez que o tinham ouvido, mas confessam-se entusiasmados pela edição do disco pois não só os fãs terão agora o seu primeiro contacto com a nova proposta discográfica, como estão também desejosos por levar os novos temas ao palco: «É sempre divertido tocar ao vivo, pois os temas tornam-se numa espécie de criaturas velhas-novas», apressa-se a responder Johanna. Nicke acrescenta: «Quando um álbum é gravado acabou-se, mas depois chega a altura de tocar ao vivo e quanto mais tocarmos as nossas músicas, melhor elas ficam.» «E é mais divertido para nós», diz-nos agora Johanna, «pois é como se os temas se tornassem numa extensão do teu corpo, quase como quando conduzes um carro. Quando estás no processo de composição e vais ensaiar as músicas, tens que pensar um pouco nelas, mas depois com o tempo acabas por fazê-lo por instinto.» Nicke continua: «É nessa fase que os temas tornam-se na tua espinha dorsal e é assim que deveria ser antes de as incluíres num álbum. Num mundo perfeito, primeiro promovias as músicas na estrada durante um ano e só depois as gravavas, e isso

resultaria ainda melhor.» Johanna corrobora: «Era isso que acontecia dantes mas agora tem que ser ao contrário: gravámos primeiro e só depois as tocámos ao vivo. Gosto de tocar ao vivo, e pessoalmente até prefiro só tocar os temas novos, mas é claro que temos também que dar ao público algumas das músicas do primeiro álbum.» Lúcifer pode ser traduzido como “estrela da manhã”, “portador de luz” ou ser visto até como uma referência ao planeta Vénus. Enquanto entidade maligna da tradição cristã, Lúcifer não foi sempre a representação do mal e teria sido, em tempos, um querubim (anjo) expulso do mundo celestial. Perguntámos à banda se a sua música poderia ser vista como a entidade na qual se basearam para o nome: bonita, poderosa e enigmática. «Sim», responde rapidamente Nicke, dando a entender que a resposta ficar-se-ia por ali. Johanna ri-se e dá continuidade: «Lúcifer foi em tempos um rebelde, um marginal... Acho que a nossa música é sincera»; «e Lúcifer também era sincero», interrompe Nicke. «Seria de esperar que sim, afinal de contas era um anjo», retoma Johanna. Então e de que forma se manifesta esta entidade nas nossas vidas? «Como ele é o portador da luz, acho que todos nós precisamos de alguma luz nas nossas vidas, mas também é bom sermos os outsiders da sociedade e não andarmos com o resto das ovelhas.» É nesta fase que Johanna e Nicke mudam o rumo da conversa, adoptando um tom mais brincalhão que ia provocando gargalhadas gerais a cada pausa. Nicke: «Lúcifer está muito presente nas nossas vidas.» Johanna: «Ele visita-nos todas as noites.» Nicke: «Sim, aconchega-nos e dá-nos um beijo de boas noites.» Johanna: «Ele está aqui agora, diz-lhe olá!» Todos: «Olá!» Ultraje: «É como uma mãe que nos vem desejar boa noite, certo?» Johanna: «Sim, mas como uma mãe fixe. Acho que como tudo o que é espiritual, é algo metafórico. É um espírito...» Nicke: «Um espírito fixe!» Johanna e Nicke: «É a representação do fixe!» Nicke: «Desculpa-nos, mas a verdade é que eu nunca pensei muito nisto e fui apanhado desprevenido.» Johanna: «Mas eu pensei, e há uma razão que justifica o facto deste segundo álbum ser menos mágico do que o primeiro, ainda que possa ser visto na mesma como mágico e espiritual. Queria que tivesse outra abordagem, que fosse mais aberto e que se ligasse mais às pessoas, pois gosto bastante de ouvir músicas de rock com uma mensagem com a qual me possa associar.» Antes de se despedirem, os músicos confessaram ter material novo e estão a prever a saída de um novo álbum em Setembro do próximo ano. Até lá, “Lucifer II” será o responsável por nos trazer a luz... Uma luz psicadélica e dominada por ácidos!

«LÚCIFER ESTÁ AQUI AGORA, DIZ-LHE OLÁ!» 13 - ULTRAJE #17


«SÓ EXISTE UM 'EU'. ESTÁ MESMO AQUI E NÃO É PRECISO PROCURÁ-LO.»

TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: JANNE KIM GITMARK

S

ão precisos apenas alguns segundos para perceber o porquê de a Dark Essence Records descrever os Madder Mortem como uma das mais originais da Noruega, e tendo em conta o extenso e rico curriculum do país nórdico, no que ao metal e ao rock diz respeito, isso é dizer muito. Com o sétimo álbum “Marrow” na calha, a Ultraje falou com a vocalista Agnete M. Kirkevaag, que começou por descrever a forma como encontraram a sua autenticidade no meio: «Isto pode parecer muito arrogante mas não foi difícil de todo», confessa. «Diria que a singularidade e a autenticidade que temos surgiu de forma natural, resultante de onde vimos e de quem somos.» Naturais de uma pequena localidade com cerca de 5.000 habitantes, os Madder Mortem cresciam com a falta de uma cena musical e com a cultura que daí advém, e em que o resultado era todas as bandas partilharem uma cena comum, independentemente do estilo musical adoptado. «Todas as bandas ensaiavam, combinavam concertos e pediam material emprestado no mesmo sítio, em Nord-Odal. Então, as bandas de death metal, NWOBHM, southern rock, blues, pop e punk davam-se todas umas com as outras, já para não falar das formações incestuosas, uma vez que havia falta de músicos vindos de fora desta localidade.» Um exemplo disto era, como nos conta a vocalista, «um amigo meu que tinha uma banda de thrash mas era também o guitarrista principal de uma banda local de blues; às vezes ia desenrascar uma ou outra banda de punk e ainda tocava saxofone na banda de marcha. E isto era assim com a maioria dos músicos». Os Madder Mortem foram o resultado da fusão entre metade dos membros de uma banda de death metal com a metade da banda que acompanhava Agnete enquanto cantora/compositora, pelo que não é de estranhar esta sonoridade eclética: «Música é música, não importa o estilo. Importa apenas criar música da qual gostes com pessoas das quais gostes. Foi esta a atitude que ficou connosco.» “Marrow“ é um álbum complexo que regista uma série de estilos. Do folk ao prog, passando pelo avant-garde, o universo lírico dos noruegueses aborda a essência do 'eu', onde as nossas ideias, pensamentos e valores fazem de nós a pessoa que somos. A nossa 'medula' [marrow], portanto. «Como humanos, somos animais de carga», comenta Agnete. «Estamos geneticamente programados para nos conformarmos com os critérios de um determinado grupo,

pois a nossa sobrevivência depende se esse grupo trabalha em conjunto pelos mesmos objectivos. Pelo menos no Ocidente já não precisamos de lutar pela nossa sobrevivência dia após dia. Temos um monte de tempo livre e de recursos para pensarmos qual é o nosso propósito na vida e descobrir quem somos.» A vocalista, que admite odiar o processo de introspecção pessoal, diz-nos que «só existe um 'eu' - está mesmo aqui e não é preciso procurá-lo». «Tens que ser dono de ti próprio em vez de procurares por alguém que o seja. Mas somos bombardeados com imagens e palavras que nos dizem como nos comportarmos de forma aceitável dentro de um grupo e é aí que o nosso instinto animal aparece. Então, as pessoas iniciam estas jornadas para redefinirem-se e melhorar de forma a serem melhor aceites pelos outros, e a parte triste aqui é que isso não funciona. Terás muitos mais likes no Instagram mas as pessoas que interessam são aquelas que dão mais valor ao que é honesto e genuíno.» A vocalista acredita que é difícil certas pessoas manterem-se fiéis ao que verdadeiramente são pois «nunca souberam quem eram em primeiro lugar». «O primeiro passo é aceitar que não vais agradar a todos. Há pessoas que não vão gostar de ti ou da forma como vives, e não podes esperar que o façam. O segundo passo é tentares não ser falso contigo mesmo, deixar de imaginar a pessoa em que te vais tornar e começar a lidar contigo e com a vida que tens no presente. Isto é como um jardim: precisas de acrescentar um monte de estrume se queres ter coisas boas a florescer.» Ainda que a banda tenha escolhido trilhar o seu próprio caminho, dispondo dos recursos limitados que tinham, há algo em Madder Mortem que pode ser comparado com os seus pares noruegueses, vindos dos mais variados estilos musicais: a atmosfera. «Muito do sentimento que pus em “Marrow” veio do peso e do cheiro do solo, das árvores e da ligação que tenho à minha terra», explica Agnete. «Há algo também na mentalidade da classe trabalhadora, e o trabalho árduo e a resiliência das pessoas tem também peso [na atmosfera das bandas norueguesas]. A música que fazes tem muito a ver com a pessoa que és, e a pessoa que és está muito relacionada com o lugar de onde vieste.» E por falar do sítio de onde vieram, a nossa entrevistada recorda a cena black metal que colocou a Noruega no mapa: «Sofremos um pouco com o que aconteceu dentro da cena black metal e tivemos que dar longas explicações às pessoas 14 - ULTRAJE #17

para que percebessem que não éramos satânicos que incendiavam igrejas. Ao mesmo tempo, sempre fomos vistos como estranhos, como os miúdos que faziam coisas que a maioria não apreciava. Nesse tempo ouvíamos Emperor e Darkthrone, que foram bandas muito importantes em alguns aspectos da nossa sonoridade, mas os Sepultura, Metallica, Soundgarden ou até os Europe desempenharam igualmente um papel importante. Existem duas razões simples para justificar o nosso som. A primeira é que gostávamos de guitarras pesadas e distorcidas. A segunda é que gostávamos de riffs groovy e lentos, onde tudo explodia ao mesmo tempo. Tudo o resto aconteceu com base nesses factores e nas ideias que surgiram depois.» Os noruegueses visitaram recentemente o nosso país, à boleia dos Soen, também eles originários da Noruega e com quem já percorreram a Europa em duas ocasiões distintas. Agnete recorda a última tour que teve passagem por Portugal: «Estive doente durante grande parte das datas mas a minha voz cooperou comigo de forma incrível, pelo que consegui apreciar a tour. Acompanhar os Soen na estrada foi uma grande decisão para nós, musicalmente falando. O público dos Soen é incrível e está sempre receptivo a ouvir algo que não conhecem, sendo também muito responsivos ao que a música transmite.» Como consequência directa de tudo aquilo que estas tours trouxeram de positivo, Agnete diz-nos que «estamos novamente a encarrilhar e da melhor forma possível». «Já não tínhamos este curto intervalo de discos desde os nossos primeiros anos de actividade e vamos até dar início a uma campanha de crowdfunding. No próximo ano celebra-se o 20º aniversário do nosso álbum de estreia, “Mercury”, e queremos fazer algo de especial para os nossos fãs. Estamos a planear uma reedição, visto que é quase impossível encontrá-lo actualmente, e queremos incluir também novas versões das músicas para mostrar como é que esses temas soariam se estivéssemos a trabalhar neles agora.» Os planos não se ficam por aqui: «Queremos dar um concerto de aniversário e antes disso ainda queremos ter a nossa primeira tour como cabeças-de-cartaz.» Adivinha-se, portanto, um grande e excitante ano para os Madder Mortem e para os seus fãs.


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uitos de nós crescemos a ouvir Metallica e a saber que o metal tem uma ligação muito forte à música clássica se nos lembrarmos por exemplo de Yngwie Malmsteen, até que em 1999 é lançado “S&M”, o sonho molhado de nerds metálicos que junta (thrash) metal e clássico. O conceito cresceu, pegou e chegou inclusivamente ao black metal, com maior destaque para Cradle Of Filth e Dimmu Borgir. Em Portugal, país que está na vanguarda de tantos campos – do desporto à tecnologia –, demorou-se quase 20 anos a materializar uma jogada musical tão inebriante, mas mais vale tarde do que nunca. Em Outubro de 2017 sai o álbum “Ecos da Selva Urbana” dos Rasgo, um colectivo thrash metal que canta em português e que é composto por membros que têm no currículo bandas como Tara Perdida e Shadowsphere. Acto contínuo e o tema “Homens Ao Mar” tornou-se numa das músicas mais contagiantes dos últimos anos na cena metal nacional. Muitas coisas podiam-se fazer a seguir – como desfrutar, deixar a música ficar na História e arrepiar caminho para outras conquistas –, mas os Rasgo quiseram elevar a fasquia ainda no presente. E é aqui que entra a música clássica: “Homens Ao Mar”, com auxílio do maestro Pedro Teixeira Silva e da Orquestra Círculo de Música de Câmara, ganhou ainda mais um espaço no pedestal das melhores composições metal de sempre em Portugal. «Claro que o “S&M” é um marco na História e sou fã de Metallica, sem medos», diz-nos o guitarrista Rui ‘Ruka’ Costa, admitindo seguidamente que nunca sonhou fazer uma coisa destas, mas há sempre um ‘mas’, como remata na fase inicial da entrevista: «Já que o fiz, sinto um enorme orgulho.» Por seu turno, o também guitarrista Pedro ‘Sarrufo’ Ataíde consente que «tocar com uma orquestra é realmente algo muito especial», mas não classifica tal acontecimento como um sonho. Contudo, e por mais que este evento não seja considerado um sonho, ambos os músicos sentem grande brio nesta roupagem orquestral dada a “Homens Ao Mar”, porque sentiam que existia potencial nela para se ir mais longe, assegurando que «uma orquestra poderia acentuar decisivamente a dimensão que sempre se quis dar a este tema». Qualificada por Ruka como uma música «épica já por si» que contém uma «mensagem que transmite a força de um povo», a ideia foi torná-la ainda mais épica com a orquestra, assim pairando sobre nós a presença do maestro Pedro Teixeira Silva que efectuou um trabalho «espectacular» e que «elevou a qualidade do tema», segundo as palavras de Ruka. «Deixámos tudo nas mãos dele, sabíamos que nos surpreenderia», remata. Considerado por Sarrufo «a pessoa indicada» para ajudar os Rasgo a atingir os seus propósitos, o maestro contou à Ultraje que este «foi sem dúvida um dos mais ambiciosos e arrojados projectos» que lhe propuseram, achando nós que isso só poderia dar mais ânimo à equação; todavia, também sabemos que tal engrenagem não funciona apenas com uns meros pingos de óleo, como o próprio Teixeira Silva aponta: «Devido ao tema original já ser tão denso e preenchido musicalmente, encontrar espaços em que ambos (banda

TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DA BANDA

e orquestra) pudessem coabitar e igualmente ter o cuidado de fundir dois universos musicais tão diferentes não era tarefa simples.» Aliás, é «um verdadeiro desafio», mas «depois de uma análise cuidada ao tipo de arranjo que iria conceber e vendo o resultado final foi uma pura satisfação e um trabalho do qual muito prazer me deu em colaborar». De um lado o pessoal do punk e do metal, do outro os eruditos da música clássica, mas mais uma vez dois mundos aparentemente distintos não só não chocam como ainda se unem. «Clássico, metal, punk… No fundo somos todos músicos, e o que fazemos, trabalhamos, ensaiamos e estudamos é por amor à música independentemente do seu estilo ou origem. Partindo desta filosofia, tudo se torna mais envolvente, e a partilha musical e o nosso conhecimento crescem sempre a cada nova experiência», evidencia o maestro. Sarrufo, que é amigo pessoal de Teixeira Silva há muitos anos, revela que «a abordagem foi muito directa». «Após aceitar embarcar nesta aventura, explicámos o que pretendíamos, com a certeza de que ele iria fazer algo espectacular». Porém, e por mais elogios que sejam feitos aos arranjos magicados pelo maestro, Sarrufo relembra que «os Rasgo e o Pedro são apenas dois terços desta equação», faltando assim referir a Orquestra Círculo de Música de Câmara e o «trabalho magnífico que fizeram».

Depois de terem as pautas à frente e após terem começado a perceber o que dali sairia, tendo em conta o metal dos Rasgo, houve por certo um sentimento forte quando deram por si a fazer parte desta jornada quase cinematográfica. Mais: o corpo humano estava prestes a tornar-se uno com o violino alinhado com as guitarras eléctricas, com um berro ou com um blastbeat. «O sentimento é muito energético», exclama Sara Cruz. «Foi absolutamente incrível e inacreditável», exalta Susana Pais. Na perspectiva de Sara, encara-se o instrumento de uma nova forma, o que muda tudo: «A maneira de tocar, a energia, o espírito de toda a orquestra». «Se voltar a pensar na gravação, volto a sentir toda a energia que ali se criou», atestando esta união com os Rasgo como marcante, entusiasmante e uma experiência única. Já Susana Pais mostrou-se mais céptica numa instância inicial: «A primeira vez que ouvi a música original não acreditei que fosse possível um arranjo de orquestra fazer sentido, mas no primeiro ensaio em que nos colocaram as pautas à frente e tocámos pela primeira vez a parte de orquestra, percebi que algo mágico ia acontecer.» Incredulidades e descrenças ultrapassadas, a violinista sentiu algo novo quando gravou ao lado dos thrashers: «As cordas ganharam uma dimensão rude, às vezes até agressiva, que casou na perfeição com a batida dos Rasgo.»

Alberto Campos, violoncelista da orquestra e que inclui no seu percurso vários anos como músico profissional no Teatro São Carlos, conta com quase 50 anos de carreira, o que lhe facilita já ter testemunhado e feito parte de inúmeras abordagens musicais. «Esta experiência não foi surpresa para mim, porque já tinha ouvido e até participado em gravações e programas de fusão de géneros semelhantes»; porém, o melhor para Alberto «foi descobrir a alegria e o entusiasmo dos elementos do grupo que se entregam de alma e coração ao projecto». Não sendo um adepto de sonoridades metal, o músico já participou em concertos, gravações e espectáculos em que o poderio sonoro era também excessivo, «mas quando a música tem qualidade e transmite algo importante, nada nos pode perturbar», assegura com profissionalismo e dedicação. Nas entrevistas levadas a cabo conhecemos ainda as violinistas Sara Cruz e Susana Pais (responsável pela Orquestra) que, atraídas pelo processo, têm posições diferentes em relação a olhar para isto como um objectivo a alcançar forçosamente. Como Ruka e Sarrufo, Susana «não diria que era um sonho» apesar de a fascinar esta união do mundo clássico com o do rock ou metal. Ainda assim, acha «absolutamente incrível como se conseguem complementar e a forma como, sobretudo as cordas, acrescentam uma sonoridade que engrandece os temas e os torna quase épicos». Para Sara, poder oferecer os seus préstimos clássicos a um arranjo direccionado ao metal era de certa forma um sonho, como conta à Ultraje: «É sempre desafiante sair daquilo a que estamos acostumados, e quando o desafio se cruza com algo de que se gosta ainda mais interessante se torna. Sempre tive vontade de juntar os dois mundos e aqui tive essa possibilidade!»

Na verdade, todo este procedimento não pode ser feito de pé para a mão e envolve obviamente um lado pedagógico que tem origem em Pedro Teixeira Silva, não só maestro mas também responsável pelo arranjo orquestral, corroborando assim: «Envolver a orquestra num estilo e abordagem musical que sai da sua zona habitual de conforto requereu primeiramente da minha parte uma ‘palestra’ de conceitos estilísticos, até porque temos que ter a consciência da enorme variedade etária entre os seus membros. Depois disso, e antes mesmo de iniciar a leitura do arranjo, fiz questão que a orquestra ouvisse o tema na sua forma original com a finalidade de a familiarizar e introduzir ao estilo musical em que iriam participar.» Mas mais uma vez, o primeiro impacto de estranheza foi destituído: «O curioso é que, imediatamente após a audição do tema, os aplausos surgiram e estava criado o entusiamo e ambiente necessários para iniciar o ensaio que viria a dar na conclusão que todos se orgulham de ter participado.» E se a Orquestra Círculo de Música de Câmara está de parabéns aos olhos de Teixeira Silva, o quinteto metálico não fica atrás: «Trabalhar com os Rasgo foi simples. São superenergéticos e bem-dispostos, com uma vontade de fazer as coisas acontecerem, o que gera uma energia incrível.» A sensibilidade das palavras é recíproca: «Tivemos a sorte de ter um grupo enorme de profissionais à nossa volta, prontos para dar o seu melhor e ajudar-nos a fazer o impensável acontecer», salienta Sarrufo, para Ruka concluir: «Poder trabalhar com compositores como Pedro Teixeira Silva é para mim uma honra. E, sim, é sem dúvida um estupendo resultado final.»

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VÊ O VÍDEO DO TEMA "HOMENS AO MAR" NO YOUTUBE!


TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: TIM TRONCKOE

«”TRUST IN RUST” É UMA FORMA DE MOSTRAR QUE ESTAMOS A ENVELHECER.»

O

s Van Canto fizeram algo que muitos acharam impossível, pois não só conseguiram tornar o power metal compatível com o canto a capella (música vocal sem acompanhamento instrumental) como tiveram a audácia de o fazer durante os últimos 12 anos. Acompanhados por um baterista, as seis vozes de Van Canto regressam aos discos com “Trust In Rust”, o sétimo dos germânicos, e a origem do título é o primeiro assunto a ser descortinado por Stefan Schmidt, responsável pelos rakkatakka. «”Trust In Rust” é uma forma de mostrar que estamos a envelhecer», afirma Stefan entre gargalhadas. «Quando nos encontramos com outras bandas nos festivais, fazem questão de nos dizer que parecemos incrivelmente novos, mas honestamente já não nos sentimos assim há algum tempo. [risos] O "...Rust" faz alusão ao facto de já termos visto e experienciado várias coisas por termos feito tours à volta do mundo, das quais trouxemos histórias para contar. Também podes perceber que as nossas vozes deixam de parecer a voz de um jovem de 20 anos à medida que nos vamos aproximando dos 40.» Ainda assim, a palavra "Trust" já pode ser vista como um ponto bem mais positivo que o anterior: «Compor músicas no presente não pode ser comparado com o que fazia quando tinha 17 ou 18 anos», reflecte. «Foi uma idade muito especial, pois foi aí que comecei a compor pela primeira vez, e depois disso fui envelhecendo. Contudo, vejo isso como algo positivo pois ganhei mais experiência e tornei-me mais seguro daquilo que faço. Continuo a poder experimentar coisas malucas como, por exemplo, imitar a guitarra do Angus Young com a voz - algo que fazia aos 17 ou 18 anos - e é por isso que decidimos ter confiança na nossa ferrugem [tradução livre de "Trust In Rust"].» Criar música com uma vertente metálica sem recurso a guitarras e dependendo (quase) exclusivamente da voz pode ser um verdadeiro

BANDAS DE TRIBUTO

A

s redes sociais originam debates a toda a hora e uma das questões que tem sido mais levantada nos últimos tempos diz respeito à legitimidade e importância das bandas de tributo. Embora os Van Canto sejam uma banda de originais, ao longo dos anos prestaram homenagem a diversos companheiros de estrada, contando inclusivamente com um disco editado em 2011 e que recebeu como título "Metal A Capella", em que os germânicos gravaram covers de nomes como Metallica, Iron Maiden, Alice Cooper, Nightwish, Deep Purple, entre outros. Levamos esta questão dos tributos até Stefan Schmidt: «Imagino que tu vejas as covers

desafio. «É o desafio básico quando inicias os arranjos de uma música a capella», confirma o cantor. «Para nós deixou de ser um desafio assim tão grande há algum tempo, e quando decidimos gravar uma cover já temos 99% de certeza de que irá resultar bem. Não tenho memória de nenhuma música original ou de uma cover que tenhamos decidido gravar em que a nossa conclusão foi que a abordagem a capella afinal não resultava. Assim que iniciámos a composição de um tema ou escolhemos uma cover, já conseguimos perceber como vai soar.» Algumas bandas de a capella tornaram-se famosas muito graças a programas de talentos transmitidos na televisão, ou até ao YouTube. Falando de casos concretos, temos os mundialmente conhecidos Pentatonix, sendo também de realçar o programa da RTP "A Capella" que levou a concurso vários talentos do género nacionais. Quando questionado se a atenção que dão a Van Canto está num nível justo quando comparada com a que se dá ao tipo de concursos mencionados, Stefan diz não ser «daquelas pessoas que se queixa desse tipo de programas televisivos». «Não gosto mas também não vejo. Aparecemos uma vez na televisão com os Van Canto há oito ou nove anos e, apesar de ter sido uma boa experiência que serviu até como teste, percebemos que não era isso que queríamos e não o voltámos a repetir.» O músico refere ainda que apesar de não ser fã do formato, «nunca julgaria alguém que quer aparecer na televisão e que acha que é disso que a música se trata». «Acho que merecemos alguma atenção mas também sei que a recebemos, pelo que estou 100% bem com aquilo que os Van Canto conseguiram até aqui, como lançar álbuns e criar uma base de fãs muito sólida.» O músico recorda como algo de interessante, caso contrário não terias colocado questões acerca da cover que gravámos dos AC/DC logo no início da entrevista», diz-nos o músico, e bem! Figura no alinhamento do álbum actual o tema "Hells Bells", dos australianos AC/DC, e foi desde logo a primeira faixa a ser ouvida pela redacção da Ultraje. «Sempre tentámos manter a nossa identidade e não é que gravemos álbuns de covers em que a música bónus seja o único tema original. Gravamos, sim, nove temas originais e incluímos duas covers. Creio que se nos conseguimos manter na cena metal durante todos estes anos - com uma fanbase sólida e sete álbuns - foi devido ao trabalho que desenvolvemos com os originais e não com as covers. Acho que se pode dizer que temos uma boa mistura e somos capazes de proporcionar um bom momento de 17 - ULTRAJE #17

também o fim-de-semana anterior à nossa entrevista, em que os Van Canto davam o seu primeiro concerto após 26 meses de paragem: «Chegámos ao recinto e tínhamos 600 fãs à nossa espera, sem sequer termos promovido esse concerto ou sem músicas novas para mostrar. Foi um concerto sem qualquer tipo de promoção que nos permitiu ficar muito satisfeitos com o nosso trabalho.» Um grande obstáculo que os germânicos tiveram que enfrentar no início da sua carreira foi conseguir captar a atenção do público quando partilhavam um cartaz com bandas 'completas'. «Penso que já estamos bem estabelecidos na cena metal, pelo que isso já não é um problema. Claro que não seremos os headliners de um Wacken, mas já não somos a primeira ou a segunda banda a actuar. Estamos algures no meio! A cena metal tornou-se mais tolerante na última década e meia e já não há muito que possas fazer para chatear as pessoas. Não sentimos a pressão de convencer o público a gostar do que fazemos. Vai haver sempre quem não ache piada à ideia de substituir uma guitarra pela voz mas a maioria está confortável o suficiente para beber uma cerveja e esperar pela próxima banda.» festa nos festivais onde tocamos, ao incluir uma música de Metallica ou Iron Maiden na nossa setlist. Ao mesmo tempo temos os fãs que apreciam a forma como compomos os nossos temas. Estou habituado a ouvir as pessoas - tal como disseste também - a falar das covers que escolhemos gravar sempre que sai um álbum novo, e neste caso a "Hells Bells" não está aqui por acidente. As covers também fazem parte do nosso disco por questões de marketing, de forma a gerar interesse pela nossa banda e dar a conhecer também os nossos temas originais. O nosso segundo álbum ["Hero", 2008] foi o único que tinha tantas faixas originais como covers. Foi daí que começámos a deixar de ser vistos como uma banda de covers ou uma banda de tributo, mas ainda assim decidimos continuar a incluir entre duas a três covers em cada novo álbum.»


É

TEXTO: JOÃO CORREIA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DA LUSITANIAN MUSIC

obrigatório falar de Decayed quando fazemos uma súmula do melhor que o movimento heavy metal nacional nos ofereceu nos últimos 30 anos. Contrariando modas, tornaram-se numa referência de culto nacional e além-fronteiras por se manterem fiéis à sua forma de estar. Chegados a 2018, os Decayed comemoram os 25 anos do lançamento do seu disco de estreia – “The Conjuration Of The Southern Circle” – e entram pela porta da frente com “Of Fire And Evil”, o seu novo longa-duração. Este trabalho está mais incisivo do que a obra anterior “The Burning Of Heaven”: tem menos sintetizadores, menos momentos lentos e uma sensação de sermos atirados de cabeça para Bathory antigo e Beherit. Ainda que o som de Decayed sempre assentasse na crueza, o novo álbum presta-lhe culto e perguntámos a J. A., mentor do grupo, se o resultado final foi algo de consciente e propositado ou se a banda deixou as coisas fluírem para ver como resultaria. «Este disco está diferente porque fizemos algo que não fazíamos há muitos anos – compor o álbum juntos no nosso local de ensaio. Acho que saiu como saiu por causa disso, por nos termos reunido. Nos discos anteriores, eu compunha as coisas em casa, gravava-as e mandava-as pela Internet ao pessoal e era tudo gravado assim. Desta vez levei as músicas para os ensaios e acabámos por trabalhar nelas juntos. Acho que isso faz dele o que ele é.» União essa que deve ter afectado o som mais orgânico e natural do disco, parece-nos. «Sim, claro, ficou mais orgânico. Uma coisa é eu estar a compor sozinho em casa e outra é fazê-lo com os outros membros, que contribuem para o pote das ideias e tudo toma uma nova dinâmica, ficando o disco diferente.» O novo registo foi gravado no Rock n’ Raw, estúdio próximo da residência de alguns dos membros dos Decayed e que certamente pesou na decisão de onde o gravar. J. A. foi responsável pela mistura e masterização do novo registo, o que ajuda a explicar a ausência de delicadezas no som. «Pois, nunca gostei de som muito limpo, faz-me impressão nos ouvidos. E escolhemos o Rock n’ Raw porque é o sítio onde ensaiamos. [risos] Como já estamos habituados a ir lá e porque já tínhamos gravado lá outras coisas, foi a opção óbvia. Estamos muito satisfeitos com o estúdio e não faria sentido irmos bater a outra porta quando poderíamos fazer ali tudo. Já lá ensaiamos há um ano, já estamos familiarizados com o ambiente, e quando surgiu a possibilidade de lá gravar a bateria de forma profissional para este álbum, pensámos em gravar nele. Falámos nisso, acordámos as coisas e fomos lá gravar a bateria.»

“Of Fire And Evil” apresenta a marca d'água de Decayed e Irae. Como Vulturius (Irae) é vocalista e baixista em Decayed, a associação do som dos dois colectivos até poderia parecer clara, mas estes sempre tiveram uma sonoridade muito própria. No novo registo, a banda atinge um ponto mais alto do que antes na sua carreira. Isto é explicado por quase 30 anos de actividade, mas será apenas isso? «Como disse, a gravação da bateria num estúdio com som profissional fez logo uma enorme diferença. Depois são 28 anos a lançar e a produzir discos, é natural que fique cada vez melhor. De vez em quando não resulta tão bem - isso porque gosto de experimentar coisas diferentes -, mas é natural que o produto final tenha, cada vez mais, maior qualidade. Vinte e oito anos disto não são 28 meses.» Curiosamente, J. A. toca no ponto da bateria e isso traz recordações antigas. Os Decayed abriram para Cradle Of Filth em 1997 no Garage, onde o 'baterista' da banda foi uma caixa de ritmos. J. A. começa-se a rir antes de finalizada a pergunta, já a adivinhar o que aí vem. «Foram nove aninhos a usar uma caixa de ritmos, talvez porque nunca houvesse ninguém com tomates para tocar bateria nos Decayed.» Isso ajuda a explicar o porquê de os Decayed sofrerem tantas alterações de formação ao longo das décadas. «Era complicado tocarem aquilo que a gente queria. Na altura não havia tão bons bateristas como hoje em dia; hoje há bateristas muito melhores. Assim, tínhamos duas opções: acabarmos com a banda ou usarmos uma caixa de ritmos. Optámos pela caixa. Foi triste, mas foi assim. As alterações são coisas que acontecem, nada é eterno. Quando as pessoas têm disponibilidade para tocar em Decayed, tocam e estão. Quando deixam de ter, de aparecer nos ensaios e nos concertos, apertamos-lhes a mão, agradecemos e dizemos até à próxima, ficamos amigos e procuro outras soluções. O Gabrielle [actual baterista de Decayed] veio através do Vulturius, que tinha tocado com ele em Corpus Christii. Quando o Nocturnus Horrendus deixou de tocar bateria em Decayed, ele sugeriu marcarmos um ensaio para vermos se resultava. Ao início ele não percebia muito bem o que era suposto fazer na bateria [risos], mas ao fim de três ensaios, quando entendeu a dinâmica da coisa, enquadrou-se e é o baterista perfeito para Decayed - neste momento não queria lá mais ninguém. Ele está feliz em Decayed e nós estamos felizes com ele.» Questionámos recentemente Vulturius sobre a vitalidade do movimento nacional e o seu parecer foi positivo, pelo menos no 18 - ULTRAJE #17

que toca ao black metal. Seria difícil não perguntarmos o mesmo a J. A. para saber a sua opinião sobre o assunto, mesmo porque é uma das figuras mais emblemáticas do género em Portugal. «Estou completamente afastado do meio musical, quase não faço ideia do que se passa no meio», começa por declarar o guitarrista e vocalista do agrupamento da Parede. «De vez em quando vejo umas bandas quando toco com Decayed, mas não estou dentro da cena para poder formar uma opinião e poder dizer algo a esse respeito. Fui perdendo o interesse na cena musical devido a toda a merda, falsidade e porcaria que existe no mundo da música. Continuo a ouvir música constantemente, maioritariamente o que tenho, assim como algumas coisas novas que vou arranjando, mas o mundo musical decepcionou-me muito, não é algo que me interesse actualmente. Conforme fui entrando mais na cena e fui conhecendo mais as verdades e os podres todos que existem, fui perdendo um bocado o interesse na música. Fui ver Flageladör no outro dia ao RCA; para mim, foram a banda da noite e aconselho vivamente para quem gosta de thrash/speed antigo; foram espectaculares. Actualmente, com o YouTube e tudo o mais, só não conhece música quem não quer.» E disco novo significa digressão nova, apenas ficámos na dúvida sobre os planos internacionais dos Decayed em apoio a “Of Fire And Evil”. «Infelizmente já tivemos de cancelar um concerto em Espanha por motivos profissionais. Vamos tocar no dia 15 de Setembro em Viseu e uma semana depois no RCA em Lisboa. Para já, apenas estes dois, embora estejamos a tentar agendar mais concertos em Portugal. Temos um apalavrado para Março de 2019 na Incrível Almadense, mas ainda não é definitivo. O concerto de lançamento do disco será no RCA, o tal que referi.»

«O MUNDO MUSICAL DECEPCIONOU-ME MUITO. NÃO É ALGO QUE ME INTERESSE ACTUALMENTE.»


«”SALT” É UM ÁLBUM ANTI-TRUMP.»

melhantes – panorâmico, cinematográfico, colossal.» Afinal, o assunto Agalloch ainda não está encerrado – e agora nem foi culpa da Ultraje. «Queria mesmo continuar com essa abordagem musical, mantendo-a aberta para soar muito diferente de Agalloch e Giant Squid. Adoro camadas de diferentes guitarras, músicas longas, toneladas de riffs que te levem a uma jornada. Como muitos outros, quando era criança comprava álbuns baseado em quanto tempo as músicas tinham. Hoje em dia é mais comum ter músicas de 10 a 12 minutos de duração, mas nos anos 1980 não era tão comum. Então, um álbum como "Somewhere In Time" [dos Iron Maiden], que tinha uma capa incrível e um final e tema geral épicos, sempre foi muito atraente para mim e sempre foi o tipo de música que eu queria escrever.» Camadas de diferentes guitarras e toneladas de riffs são duas boas expressões para definir algumas passagens presentes neste álbum, como é o caso da aparentemente complexa faixa “Seasons Of Salt” que detém em si duas malhas de guitarra quase desiguais e distintas, mas que acabam por se encaixar uma na noutra. Abordámos o assunto utilizando o termo experimentação, mas isso não foi, de todo, um objectivo em Khôrada. «Na realidade não experimentámos com nada», confessa. «Escrevemos o que surgiu naturalmente e, felizmente, estávamos todos musicalmente na mesma página. "Salt" foi, na verdade, um disco bem fácil de compor. Não quero dizer que soar como soamos não tivesse sido desafiante – até porque definitivamente o foi e tínhamos que manter as mentes e ouvidos abertos –, mas a facilidade para gravar deveu-se ao quão perfeitamente os nossos objectivos musicais estavam unidos.»

TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DA PROPHECY PRODUCTIONS

F

oi em Maio de 2016 que, após pouco mais de 20 anos de existência, os norte-americanos Agalloch davam por terminada a sua jornada sob essa bandeira. John Haughm seguiu o seu caminho com Pillorian e os restantes membros também não perderam tempo – em Agosto do mesmo ano, o guitarrista Don Anderson & Cia. davam início a Khôrada, nova banda composta então por três ex-Agalloch e Aaron John Gregory (ex-Giant Squid). Demoraram quase dois anos para lançar o álbum de estreia, mas cá está ele: chama-se “Salt” e tem o apoio da Prophecy Productions. Na nossa opinião, este trabalho de estreia parece de alguma forma complexo e com um alto nível de honestidade, sendo essa busca por honestidade e o juntar das peças razões para tamanha espera. O guitarrista Don Anderson esclarece: «Gosto que sintam que a música é honesta. Consigo ser honesto comigo mesmo ao dizer que não cortámos caminho nenhum com este disco. Nada foi apressado. Demos as notícias o mais cedo que podíamos, porque, após o dramático colapso de Agalloch, queríamos que as pessoas soubessem que o Jason [baixo], o Aesop [bateria] e eu não estávamos acabados. Sentimos a necessidade de reivindicar isso o mais rápido possível. Mas depois disso começámos completamente do zero: sem nome, sem estilo, sem imagem, sem letras, sem filosofia – nada. Nem sequer tínhamos um quarto membro», que viria a ser Aaron John Gregory. «Construímos literalmente uma nova banda a partir do zero e sabíamos que tínhamos muito a provar. Então, sim, isso definitivamente levou muito tempo.»

indústria musical. Num nível prático, Anderson admite que «é difícil», porque tem que se «criar um nome, um conjunto de objectivos, um título de álbum, uma imagem», mas num nível maior conta-nos estar «bem ciente de que os fãs de Agalloch são das pessoas mais apaixonadas e dedicadas» que já conheceu, rematando: «Sei que vão ouvir [Khôrada] intensamente. Mas quando se trata de simplesmente escrever música apenas pego na minha guitarra e escrevo o que me sai do coração. É tão simples quanto isso.»

Agalloch já era, de facto, um nome estabelecido em todo o mundo com cinco álbuns lançados e várias digressões. Porém, e ainda que se carregue esse nome do passado, recomeçar uma banda do zero não deve ser tarefa fácil, mesmo para este quarteto tão experimentado na

E agora sim, podemos finalmente falar de “Salt”, um disco refrescante e panorâmico que tanto soa luminoso com interessantes leads como cabisbaixo com malhas e bateria arrastadas, sempre com uma voz solta de regras. «Descrevia frequentemente Agalloch com termos se-

Certo, esta entrevista é sobre Khôrada, mas o nome Don Anderson estará para sempre ligado a Agalloch, por isso a conversa continuou numa linha muito ténue entre as duas bandas, ainda que desta vez tenha sido para afirmar que a sonoridade do novo grupo está distante da do antigo. Anderson faz revelações: «Falando apenas por mim, tinha toda a intenção de compor, gravar e, eventualmente, fazer uma digressão de suporte a um sexto álbum de Agalloch. Estava mais do que preparado para começar a desenvolver o som de Agalloch com os restantes membros e continuar a crescer. Mas uma vez que isso não aconteceu, coloquei todo o meu esforço nesta nova banda e no meu outro projecto a solo, Sculptured. Não seria justo ou exacto dizer que “Salt” é o som do [suposto] sexto álbum de Agalloch. Já estava preparado para ajudar a desenvolver o som de Agalloch, porque depois de vinte anos temos que progredir. Portanto, quando tivemos de recomeçar completamente com uma nova banda, decidi que era uma óptima oportunidade para progredir ainda mais com zero limitações.»

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Cada vez mais, um álbum ouve-se fragmentado através de singles, clips e lyric-videos. Cada vez mais, um álbum de dez faixas passa a ser de quatro por causa da Internet. Os versos, tantas vezes tão bem pensados ao ponto de se tornarem em grandes poemas, são o alvo mais sofrível com esta evolução digital, mas os Khôrada seguem o seu caminho artístico à moda antiga: com palavras impactantes. Escrito numa época de convulsão sociopolítica nos EUA, “Salt” contém letras anticapitalistas e pró-ambiente – será que isso faz dele um trabalho anti-Trump? «Apenas num sentido geral. Acho que as letras são mais profundas do que isso», começa Don Anderson. «Certamente, Trump é uma parte daquilo que o ambiente enfrenta e da contínua acumulação de riqueza por uma quantidade muito pequena de pessoas ricas, mas ele também é uma consequência de questões muito maiores, como a negação das alterações climáticas ou o racismo na nossa cultura e sociedade americana. Mas como uma declaração provocativa: sim, é [um álbum] anti-Trump, mas apenas porque já somos profundamente anti-racistas, feministas, pró-LGBT, pró-ambiente e profundamente cépticos em relação ao capitalismo.» Há, portanto, um desejo de criar impacto, não só através dos sons que constroem as sete belíssimas músicas inseridas em “Salt” mas também a partir de palavras que a banda quer tornar intemporais. «Escrevemos música para causar impacto nas pessoas», termina Don Anderson.

AS LETRAS DE AARON JOHN GREGORY Como está descrito no artigo principal em que repercutimos a conversa com o guitarrista Don Anderson, “Salt” é um álbum composto por letras anticapitalistas e pró-ambiente da autoria de Aaron John Gregory. Logo na primeira faixa “Edeste”, o vocalista/letrista assume a animalidade que é comer ou ser comido e a percepção de se querer sempre mais sem olhar a meios para irmos parar à destruição da Terra. Em “Seasons Of Salt” enfrentamos um apocalipse sem alimentos e uma população rodeada por água salgada de modo a saltarmos para “Water Rights” em que, de caras, se admite que o lucro não conhece certo ou errado. E é nesta toada anticapitalista e pró-ambiental que chegamos à sétima e última “Ossify”, faixa que resume nitidamente a postura de Khôrada: “Cruelty of competition / The catastrophe of capitalism”.


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TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: ANNE SWALLOW

s 22h pontuais de Portugal estávamos a telefonar para Demonaz, que se encontra na Noruega, para falar do tão aguardado novo álbum de Immortal, que se intitula “Northern Chaos Gods”. Depois das habituais apresentações, o nosso entrevistado não perdeu tempo em começar a falar, fazendo apenas uma pausa inicial para se recordar de datas. «Depois do álbum “All Shall Fall”, de 2009, o Abbath, o Horgh e eu estávamos a trabalhar no próximo álbum de Immortal, e em 2014 tivemos um conflito – o mesmo que tivemos em 2003 –, acabando com o Abbath a sair da banda. O álbum não estava terminado, mas ele levou a maior parte do material e gravou-o como seu álbum a solo. Na realidade, aquilo era basicamente um álbum de Immortal. Depois da sua saída começámos a trabalhar num álbum de Immortal – que é este – e comecei a criar os primeiros riffs no final de 2015. Um ano depois, todas as músicas estavam compostas e entrámos em estúdio uns meses depois em 2017. Levou o seu tempo, não fomos preguiçosos. O álbum acabou por ser adiado pela Nuclear Blast – queríamos lançá-lo no final de 2017, mas o artwork ainda nem estava feito. Tivemos que esperar muito tempo, mas finalmente está cá fora.» Com “Northern Chaos Gods” podemos continuar a contar com a reconhecida tempestade de black metal gelado que faz tremer montanhas, mas Demonaz, através da Nuclear Blast, tem vindo a referir que se queriam definir novos padrões. «Quando falo em novos padrões, refiro-me à intensidade da música ou da fúria que implementámos desta vez, porque acho que perdemos um pouco disso nos outros álbuns», começa a explicar. «Quando demos início a este álbum tivemos uma abordagem mais furiosa e, de certa forma, soa mais às cenas antigas, porque fui eu o responsável por desenvolver as guitarras de Immortal nos primeiros álbuns. Quis que aquela intensidade e fúria voltassem à banda. Isto não define novos padrões para o black metal [risos], mas quisemos ter a certeza que soaria 100% a Immortal», confessando que isso era «algo que se foi perdendo ao longo do caminho». Outra coisa que tem vindo a discussão, e mais uma vez proferida pela Nuclear Blast, é que os Immortal tencionavam voltar às raízes com “Northern Chaos Gods”. De facto, o disco soa muito contemporâneo com uma produção atmosférica, mas aquela marca intemporal dos riffs de Demonaz está imensamente presente, mesmo que haja uma ou outra abordagem mais arrojada em relação ao habitual na banda. «Como não pude pegar nos riffs antigos, tive que criar novos», refere, soltando uma gargalhada ao mesmo tempo, «é a única diferença». «Desta vez senti-me muito inspirado. Foi a primeira vez em muitos anos que me pude focar na música em vez dos problemas. Fiz tudo sozinho no que diz respeito às malhas de guitarra e às letras, mas também é um grande peso ficar com toda a responsabilidade.» No fundo, e como admite, «quis mesmo captar aquela atmosfera que se tinha antes sem haver repetições – só quis fazer um álbum melhor do que os anteriores». Porém, as certezas e algum conforto não são para ser esquecidos: «Quis ter a certeza que era um pacote 110% Immortal – as letras, a assinatura do Horgh na bateria, os riffs. Acho que a produção é uma mistura de álbuns antigos com os mais recentes. Se isto fosse em 1992 ou 1993, tínhamos que ir para uma garagem e gravar mas não fizemos isso, [porque] queríamos o poder da produção e o antigo lo-fi das guitarras num só. Acho que esta foi a melhor produção que tivemos em vários anos.» Como tem sido observado no decorrer deste artigo, Demonaz vai referindo Horgh ao longo da conversa e isso tem a sua razão de ser para que não pensemos que “Northern Chaos Gods” é oriundo apenas da sua mente. «É claro que tive de escrever as letras, tocar as guitarras, cantar – é muita

coisa –, mas o álbum não surgiu só de mim porque trabalhei com o Horgh nas estruturas das músicas, portanto é um álbum de Immortal e não 100% meu», assenta com segurança. Os desacordos com Abbath são mais do que conhecidos, assim como a lesão que afastou Demonaz dos holofotes principais quando em 1997 lhe foi diagnosticada uma tendinite num braço. Ao que se apurou, o norueguês está recuperado dos problemas interpessoais – “Northern Chaos Gods” é prova disso – e também da lesão física, o que nos incita a perguntar se este é o álbum com mais fúria e intenção. «Sim, claro», responde sem hesitação, retomando as memórias menos boas mas sempre com positivismo no horizonte: «Ficámos numa situação que não podia ser resolvida doutra forma. É a mesma coisa que aconteceu em 2003 com aquele outro desentendimento com o Abbath. Eu queria a banda de volta e aconteceu em 2007, mas nunca mais foi a mesma coisa, nunca recuperámos a paixão. Para mim, isto tudo cinge-se a música e não a problemas – nunca quis desistir, queria ter um som de Immortal melhor do que nunca. Demos o nosso melhor. Quis um álbum honesto e sem teclados – não que os tenhamos usado muito anteriormente –, mas queria algo mais directo. Só espero que os fãs abanem a cabeça! [risos]» O que também tem sido muito exaltado pela forte promoção que chega à imprensa especializada passa pelo facto de o novo trabalho funcionar como uma homenagem ao legado de Immortal, o que mais uma vez leva a Ultraje a fazer uma pergunta directa: é “Northern Chaos Gods” a representação definitiva daquilo que é Blashyrkh, o reino de toda a escuridão e frio? «De certa forma sim, porque quando começámos a delinear o álbum seguinte de Immortal – após o Abbath ter saído –, uma das minhas intenções era voltar ao passado. Não queria fazer uma expansão que fosse larga para nós, só queria recuperar aquele poder. Só queria ter a certeza que voltávamos com o som certo e que nos podíamos focar nas músicas certas em vez de andar com experiências, como muitas outras bandas fazem. Estava um pouco céptico por recear que as pessoas não percebessem, porque hoje em dia tem de ser tudo moderno e experimental. Para mim, isso não representa as raízes.» Pois, nem mesmo os protagonistas do black metal são golems inanimados e feitos de pedra, nem mesmo Demonaz, com quase 50 anos e com muita rodagem nesta vida de artista, se desprende das opiniões. «Importante, claro», suspira quando questionado sobre a importância da lealdade dos seus fãs. «Faz parte da impulsão. Mesmo que não possas pensar em toda a gente – [porque] a música vem do interior, da inspiração própria e é aquela que tu queres ouvir –, os fãs fazem a sua diferença. Claro que penso como é que os fãs vão receber este álbum – é normal quando és músico, queres que as pessoas gostem –, mas não consegues agradar a toda a gente.» Já no derradeiro percurso da conversa telefónica, Demonaz teve ainda tempo para revelações sobre um álbum a solo: «Já tenho um completado, mas ainda não encontrei o momento certo para o lançar no meio disto tudo.» «De um ponto de vista exterior», defende-se, «as pessoas podem pensar que os Immortal não lançam nada desde 2009, mas já lancei “March of the Norse” [a solo, em 2011] e tinha o outro álbum que o Abbath… Já sabem a história... O que perfaz dois álbuns. Agora o “Northern Chaos Gods”. E vem aí um segundo álbum de Demonaz mas, como disse, ainda não tive tempo para o gravar.» Venha ele então, mas por agora desfrutemos da gloriosa reabertura dos portões de Blashyrkh com estes deuses do caos nórdico em marcha.

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TEXTO: JOÃO CORREIA / FOTOGRAFIA:

ANTHONY DUBOIS


“S

insaenum anunciam novo álbum, dizia o assunto do e-mail recebido da earMusic e que rapidamente captou a atenção. Attila Csihar e Joey Jordison no mesmo disco? Sim, obrigado. Ao clicar no link para streaming do novo disco “Repulsion For Humanity” e ouvida a primeira música, era claro que a banda tinha de ser entrevistada, desse por onde desse. De lá para cá, “Repulsion For Humanity” tem rodado com bastante frequência nos escritórios da Ultraje. Não se tratou de uma escolha aleatória, até porque discos novos é uma constante, mas foi com certeza uma escolha subconsciente, pois “Repulsion For Humanity” é um disco que entra tão bem à primeira que nos faz pensar em repeti-lo, seja porque nos lembrámos de um refrão marcante, seja porque nos ficou colado ao ouvido um solo memorável. Em menos palavras, é aquele tipo de trabalho que justifica ouvirmos heavy metal, algo tão raro hoje em dia. Apanhámos Frédéric Leclercq (Dragonforce, Loudblast, Carnival in Coal), criador deste superprojecto, na sede da earMusic e começámos por lhe dizer em off que a banda é uma feliz improbabilidade: contém músicos de power metal, industrial, groove, thrash, black, metalcore, death e drone, entre outros géneros, algo de inaudito na cena e que o multi-instrumentista reconheceu com um sorriso. Depois do álbum de estreia “Echoes Of The Tortured”, um disco de death metal moderno mais ou menos tradicional que serviu como primeiro manifesto para apalpar terreno, os Sinsaenum regressaram um ano após com o EP “Ashes”, que marcou uma diferença tremenda em termos de visceralidade e ímpeto - o death metal com algum groove do debut deu lugar aos contornos assíncronos do black metal de elite, às estruturas rítmicas melódicas do death metal nórdico e à clássica sensação de desconforto que o death metal conservador sempre proporcionou no EP que se lhe seguiu. Depois de ouvirmos o EP, constatámos que “Repulsion For Humanity” é o seu seguimento lógico, como um organismo em evolução e, como tal, os Sinsaenum

atingem com ele um novo nível artístico, tanto em termos musicais, como líricos. Geralmente, o processo de composição de um disco que consegue empalidecer os anteriores acarreta alterações de composição sistémicas, mas não foi esse o caso com “Repulsion For Humanity”. «Na verdade, nada mudou no processo... Bom, OK, o processo foi mais feroz, mais violento e passei mais tempo a descascar na guitarra [risos]», começa Frédéric. «A principal diferença entre “Repulsion For Humanity” e “Echoes Of The Tortured” foi que compus o primeiro para mim e apenas para mim. Quando comecei a compor os temas, não sabia sequer quem iria convidar para tocar comigo ou o que iria fazer com os temas; até essa altura, eram apenas músicas. Mas no “Ashes” e no “Repulsion For Humanity” já tinha ideia de quem iria fazer o quê: quem iria para as guitarras, para a bateria, para as vocais, etc.. Já sabia como queria que soasse com as pessoas que tinha escolhido. Não foi uma coisa pré-determinada, mas já andava a pensar nisso e acho que influenciou a minha forma de composição. Queria fazer algo muito mais agressivo e sujo do que o primeiro disco, que comparo com pedras basilares como “Blessed Are The Sick” ou “Testimony Of The Ancients”, que têm uma produção limpa e que são bastante engenhosos. Este “Repulsion For Humanity” é muito mais sujo: a capa é mais suja, o som é mais sujo, a intensidade das músicas é puro ódio... Acho que consegues sentir isso ao ouvir o disco, dá para perceber que é muito mais agressivo.» Sem pestanejar, diga-se de passagem. Aliás, as letras da faixa-título inicial revelam uma misantropia cristalizada e deixam as coisas bem claras: “It’s growing to my skin, the madness growing stronger. I can’t see, I can’t breathe, I’m slowly suffocating. Get away from me! Get away from me!” Vivemos numa época desconcertante: há pessoas que dizem que a Terra é plana, que o efeito de estufa não existe, que poluem os mares com milhares de toneladas de plástico, que cometem chacinas em escolas com armas de fogo, que assistem a touradas e lhe chamam 'desporto'... Tudo isto e outras coisas mais explicam fluentemente o porquê de os Sinsaenum nutrirem sentimentos de nojo e ódio pela humanidade. «É o que sinto, sim. Também tenho uma faceta mais positiva, até porque sou

boa gente, mas sinto isso. Essas letras exprimem a minha frustração em relação a vários cenários: quando vou às redes sociais, quando saio, quando passo tempo com outras pessoas... Acho que possuo uma dualidade no sentido de aceitação de novas pessoas na minha vida. Olhando para a humanidade no geral, e incluindo-me nesse grupo, odeio aquilo que ela é e não tenho qualquer tipo de respeito por ela, até porque mete nojo. Não suporto cenas do tipo... [pausa] Bom, essas letras foram escritas por mim e estou a falar muito a sério com o que digo... [pausa] Quando digo que sinto repulsa pela humanidade, não é um truque, não é fingimento, não é para vender discos. É exactamente o que eu sinto. Foi por isso que escolhi esse título e foi por isso que escolhi a faixa-título para primeira música do disco.» Pensando por outro ângulo, letras como esta podem influenciar a criação de uma natureza musical ainda mais extrema - quase parece que falamos de um efeito de bola de neve, de abismos a invocar abismos. «Sim, de certa forma penso que estas letras ajudaram a limar arestas no que toca à agressão do novo disco», concorda Frédéric. «Estão interligadas - as músicas saíram das letras e as letras saíram da forma como eu me sentia quando as escrevia. É um pitch furioso, como quem diz 'vão-se foder, blah!' [risos] Daí também vem a capa, que acabou por ficar tão suja e podre com aquele sorriso cínico - o sorriso é o meu e expressa o desprezo e ódio que sinto por toda a gente.» Já a parte musical é um delírio para os ouvidos, pois a influência premium de Morbid Angel da velha-guarda, tão patente nos solos esquizofrénicos de guitarra e nos arranjos de teclados (que criam uma atmosfera soturna e mórbida em temas como “Repulsion For Humanity”) quase parece ter sido feita por encomenda para que, depois, se lhe aplicasse uma produção esmagadora à boa e velha moda dos Pantera. «É interessante dizeres isso... Até teres tocado nesse ponto, diria que não é assim tão parecido com Morbid Angel, mas a referência a Pantera é perfeita - eu próprio credito sempre a produção ampla do “Repulsion For Humanity” aos Pantera, ao “The Great Southern Trendkill”. Isso é perfeitamente audível na faixa “Final Resolve”, por

exemplo. Na minha opinião, é um álbum muito agressivo e queria que as guitarras do nosso novo disco soassem mais ou menos às daquele. Mas, agora que falas nos Morbid Angel, eles também têm um som de guitarras de primeira linha no “Altars Of Madness”, que sempre foi uma enorme influência para mim. O que eu não queria para o nosso disco era fazer uma produção moderna com um som muito alto e potente, isso é o que todas as bandas de death metal andam a fazer e depois soam todas ao mesmo. Pegares num disco novo de death metal com esse tipo de produção é quase uma zona de conforto, antes de o ouvires já sabes o tipo de produção que ele tem. Claro que o nosso disco também está polido; afinal não o gravámos com um gravador de cassetes ou coisa do género, mas eu queria que ele tivesse uma vantagem em relação às produções actuais. Quando começámos a gravar, disse que não queria ter a produção típica das bandas actuais e isso já é audível no “Ashes”, que tem uma produção mais agressiva e pesadona do que os discos do costume. Disseste que os solos são parecidos com os de Morbid Angel - caóticos - e concordo com isso, pois gravei-os com muita fúria à mistura. Houve partes de guitarra que foram excluídas porque eram demasiado polidas. A sensação que eu quis transmitir com esta produção foi a de pregos a raspar na pele do ouvinte. Outro exemplo: na “Manifestation Of Ignorance” desafinei ligeiramente a guitarra para que os ouvintes ouvissem um zumbido permanente e tivessem uma sensação de desconforto. A juntar a estes truques, jogámos com uma produção constantemente agressiva e espero que tenhamos conseguido criar a sinestesia perfeita no sentido de que o nosso som consiga perturbar os ouvintes fisicamente, como se cada solo ou riff fizessem o ouvinte sentir um corte provocado por uma folha de papel.» Quando percebemos que a banda tem dois vocalistas e que um deles é Attila Csihar (Mayhem), outra coisa não seria de esperar que não violência e potência. No entanto, dois vocalistas principais na mesma banda é um conceito bastante out of the box num agrupamento de metal extremo. Embora não se trate de uma novidade (basta pensar nos Depressive Age, entre outras bandas), não deixa de ser invulgar no panorama do death metal. E já que as palavras de ordem são agressividade e diferenciação, haverá alguém que consiga imprimir uma palete de cores tão variada a um disco de metal extremo como Attila? «Na realidade, no primeiro

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disco eu queria apenas o Sean [Zatorsky, dos Dååth e Chimaira] na voz, mas depois o Joey recomendou-me vivamente o Attila, que é um grande amigo meu e que tem uma voz muito específica. O Attila é o Attila. Embora não fosse a minha ideia inicial, experimentei e a mistura das vozes soou tão bem que decidi manter os dois. Além disso, o Attila é um gajo fantástico, considero-o como um irmão. No “Ashes” continuámos e demos-lhe mais espaço. No entanto, quando gravámos o EP começámos a planear as linhas gerais do “Repulsion For Humanity” e da digressão de promoção do disco, pois queríamos ter promovido na estrada o “Echoes Of The Tortured” e isso não aconteceu devido a conflitos de tempo, outras bandas e tudo o resto. Foi nessa altura que o Attila veio falar comigo. Correu mais ou menos assim: «[com falsete grave e pesado a imitar a voz de Atilla Csihar] – "Hey, brro..." (não sei se já tiveste a oportunidade de falar com o Attila mas se já, então vais perceber o que quero dizer) [risos] – "Hey, brro... [retoma Frédéric tentando não se rir, com o mesmo falsete grave, pesado e a carregar no érre, tão típico de Attila Csihar] [risos], não vou poder participar no próximo disco por questões de tempo, mas entendo que vocês estão perante a altura certa, as pessoas começam a falar nos Sinsaenum e vocês devem partir em digressão imediatamente, têm de continuar sem mim." Perguntei se ele queria sair de Sinsaenum, mas ele disse que não, nada disso, apenas não poderia ir em digressão connosco e que não poderia colaborar tanto neste disco como no anterior, logo, não nos queria empatar. Assim, comecei a preparar o novo disco com isso em mente e expliquei aos fãs em Maio que a participação do Attila seria menor do que no disco de estreia, incluindo em vídeos, fotografias, etc.. Decidimos ser totalmente honestos para com os fãs e, como eles sabem que temos todos bandas distintas, penso que entenderam essa decisão da parte dele. Nem sempre é fácil estarmos todos juntos no mesmo sítio e devido a isso o Attila preferiu levar a coisa com mais calma neste novo registo.» Isso levou-nos à conclusão da nossa conversa com uma questão relevante e relacionada com o que Frédéric acabara de referir, bem como com as linhas iniciais desta entrevista: a multitude de bandas que se encontram hoje em dia na cena. Com uns dez mil trabalhos a serem lançados todos os meses, o movimento começa a sufocar lentamente devido à saturação a que está sujeito, para não dizer que é impossível acompanhar tanto trabalho em simultâneo. No caso dos Sinsaenum, os factores experiência e profissionalismo fazem toda a diferença, mas como é que seis músicos musicalmente descontextualizados conseguiram criar um disco contemporâneo tão relevante? Teria sido apenas a experiência e o profissionalismo a criarem a química necessária? Frédéric: «Lidarmos com pessoas que já conhecemos ajuda a estabelecer uma direcção, e essa modernidade não foi uma coisa planeada mas, sim, fruto de evolução natural. Como eu sou o compositor principal e não bato bem da cabeça, acho que isso ajudou a criar a agressividade que se ouve em “Repulsion For Humanity”. [risos] Depois, os outros elementos colaboraram com ideias que não soavam a Loudblast ou a Mayhem ou a Slipknot, pois toda a gente compreendeu que os Sinsaenum deveriam ter a sua própria identidade. Não quero parecer presunçoso e dizer que a banda tem um som e um estilo próprio mas, de certa forma, parece-me que temos, pois sabemos o que queremos e seguimos esse caminho. Assim, em Sinsaenum não vão ouvir a formação de metalcore do Joey, por exemplo. Há dez mil bandas a lançarem cenas todos os dias, mas parece-me que acabámos por criar algo de relevante e distinto devido à nossa vontade de criarmos uma cena agressiva e que vem de dentro.»


TEXTO & FOTOGRAFIA: JOÃO CORREIA


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assados três meses sobre o lançamento de “Firepower”, agendámos uma entrevista ao vivo com os Judas Priest no Download Festival Madrid. Depois de acertados os detalhes, passámos a dissecar o álbum com precisão e paciência para verificarmos que “Firepower” é um disco do mesmo calibre de “Painkiller". Poderá parecer imprudente tecer comparações com um trabalho cujo solo de bateria inicial revela automaticamente a banda, o álbum e a música em questão nos primeiros três segundos, mas, além das qualidades mencionadas, “Firepower” ainda consegue acrescentar momentos épicos que “Painkiller”, ou até outro LP prévio de Judas Priest, não possui a esta escala. Assim, era prioritário entrevistarmos os leões ingleses.

Bom, se o disco não fosse bom, nunca o teríamos lançado, pois não lançamos nada abaixo de bom. Quanto ao produto final, sei lá, eu não sei bem o que é que eles os três beberam quando o compuseram [risos], mas acabou por ficar um disco muito bom. Nele também tocamos imenso, já não o fazíamos desta forma há bastante tempo. Não houve qualquer decisão consciente, apenas fizemos o que sempre fazemos: compor, tocar e gravar – saiu tudo da forma mais natural possível, mas de facto sentimos que é um trabalho à velha maneira dos Judas Priest, muito variado. Das músicas mais lentas às mais pesadas, das mais rápidas às mais comerciais, investimos bastante no factor variação de “Firepower”. Resumidamente é uma colecção de temas vintage de Judas Priest.»

«Não tirem fotos durante a entrevista, o cabelo dele fica estranho em fotografia devido ao flashs», começa por pedir Jean Hill, que acompanhou Ian Hill, baixista e membro fundador dos Judas Priest, até ao estúdio de televisão em que decorreu a entrevista para a Ultraje. Nesta liga dispomos de 10 curtos minutos para entrevistar cada banda, o que limita tanto as perguntas como as respostas. «Pois, cada um dos outros membros está noutra sala a dar entrevistas, tem sido sempre assim desde o lançamento de “Firepower”», confidencia o baixista. É compreensível – afinal, “Firepower” é indiscutivelmente o melhor disco dos ingleses desde o clássico de 1990: tem partes rápidas, bem como lentas, é anormalmente pesado para o género, possui as mesmas estruturas musicais, riffs insanos, os esforços vocais típicos de Halford, aquela sensação quase instantânea de neoclássico e, acima de tudo, é um trabalho repleto de pérolas que renovam a fé dos fãs das velhas lendas. Na verdade, “Firepower” estreou-se em número 5 na Billboard, posição mais alta alguma vez atingida por um disco dos Judas Priest, o que surpreendeu a própria banda. Os últimos 5 meses devem ter sido um corrupio e algo impressionantes mesmo para os Judas Priest. «Sim, foi uma surpresa, realmente! Eu sabia que o “Firepower” iria ser um álbum forte depois de ouvir o material inicial, que não eram mais do que demos em bruto agregadas pelo Richie, pelo Glenn e pelo Rob. Claro que o Tom Allen e o Andy Sneap [produtores de “Firepower”] fizeram também toda a diferença, bem como o espantoso trabalho de engenharia do Mark Exeter. Os três fizeram um trabalho tremendo. É claro que essa é a função deles, mas juntos são uma equipa de sonho, para não dizer que se deram muito bem em todo o processo – verdadeiros profissionais. Na verdade, costumamos ficar sempre meio reticentes quando trabalhamos com vários génios da produção, pois costuma haver sempre chatice – sabes como é, cada pessoa tem o seu feitio. Não ficaria nada surpreendido se, num futuro próximo, voltássemos a contar com os três ao comando do som de um disco nosso.»

Para além do factor musical, “Firepower” consegue acompanhar a modernidade graças a letras que se centram nos assuntos mundiais actuais, tais como política, guerra e até rebelião, como é possível ouvir em faixas como “No Surrender” ou “Never The Heroes”. Ian já tinha declarado que a parte da composição não tinha sido uma decisão consciente, mas e as letras? «Obviamente que o Rob seria a melhor pessoa para fazeres essa pergunta [risos], mas deixo-te a minha visão pessoal das letras que, dê por onde der, ele consegue sempre fazer um trabalho simplesmente tremendo com elas. Mas sim, recentemente tem havido problemas políticos, tanto no Reino unido como na América, com o Brexit e o Trump, etc.. É natural que ele se tenha influenciado nisso, tenha sido de forma consciente ou mesmo inconsciente. É um tema difícil de evitar – ligas a TV e há sempre uma crise ou um desastre a ocorrer, entendes? [risos]» Mas não é só no nosso mundo que as catástrofes acontecem. Ainda não fez muito tempo no mundo dos Judas Priest que Glenn Tipton veio a público declarar a intenção de abrandar o seu trabalho na banda devido a ser um paciente da Doença de Parkinson. Por uma questão de optimismo, costumamos tomar a vida eterna de quem mais admiramos por garantida e depois levamos com o choque da morte de Lemmy ou de Bowie ou de Cornell, para nomear apenas três. Mesmo assim, Tipton contrariou a doença e compôs um trabalho de guitarra memorável em “Firepower”, o que poderá indicar que não foi a última vez que ouvimos falar dele.

“Firepower” também não encontra precedentes em termos de exploração e novidade. Se é verdade que o disco proporciona momentos Priest clássicos, como “Necromancer”, “Firepower” e “Lightning Strike”, também não é mentira que a banda atinge os píncaros da grandiosidade em temas como “Rising From Ruins” e, principalmente, “Sea Of Red”. Esta conjugação faz com que o novo disco soe a um trabalho contemporâneo de uma banda que não tem mais nada a provar, mas que mesmo assim insiste em não se fiar na sua coroa de louros com décadas e ir para a estrada para tocar mais do mesmo. Bem vistas as coisas, só bandas que se esforçam em todos os álbuns, como se cada um fosse o mais importante, é que conseguem marcar cinco gerações e continuarem na linha da frente. «Sim, quero dizer... [pausa]

Ian tem a certeza disso. «Bom, o Glenn não deixou a banda, ele faz parte dos Judas Priest e ainda é capaz de compor e de tocar; o principal problema com ele neste momento é a sua falta de energia. Caso ele se sinta bem esta noite, é capaz de subir ao palco para tocar nos encores [N.R.: esta entrevista foi realizada uma hora antes do concerto da banda e Glenn acabou mesmo por subir ao palco para os encores], e nessa altura conseguirás ver que está tudo bem com ele – ele sente-se bem nos dias melhores. Costumamos tocar três encores e ele aguenta-se bem; mais do que isso e é capaz de lhe ser mais difícil. É uma doença terrível: não só te enfraquece a energia como te debilita fisicamente, e não me refiro apenas aos tremores, ele sente-se constantemente fraco. Na verdade, é o que ele nos tem andado a avisar ao longo dos anos. A mente dele está claríssima, é apenas um transtorno físico, mas acredita que ele faz um trabalho do caraças quando tem força para isso. Aliás, no novo disco fez um trabalho impressionante, até porque não gravou tudo seguido devido à sua condição, como podes calcular. Tocava durante alguns minutos de cada vez e, caso corresse mal, depois voltávamos a essas partes mais tarde. Mas toucou as partes todas de guitarra dele no novo disco. Infelizmente, ao vivo tudo muda, como é óbvio.»

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Para colmatarem a ausência de Tipton, a banda teve temporariamente de preencher o seu lugar em apenas três meses – uma catástrofe se pensarmos na quantidade de temas que os Priest têm em agenda. Sem problema – venha de lá Andy Sneap, o mestre da... produção. Sim, Sneap é amplamente reconhecido por ter produzido álbuns lendários dentro do género, mas menos conhecido por ter sido um mago da guitarra nos três trabalhos seminais dos eternos Sabbat, principalmente em “History Of A Time To Come”, uma obra-prima singular dentro do thrash metal da primeira linha. Mesmo assim, trata-se de uma situação bastante invulgar no movimento. «Eu diria mesma uma situação única», responde o baixista. «Ele fez um trabalho imaculado na produção do novo disco. Por outro lado, esteve intimamente associado a todas as faixas dele e conhece todas as estruturas de “Firepower”. Obviamente que, quando tentas aprender um novo tema de outra banda, se souberes a estrutura desse tema já é meio caminho andado, não tens de te preocupar com a parte seguinte da música quando a conheces de trás para a frente. Além disso, ele é um fã dos trabalhos mais antigos de Judas Priest, conhece bem as músicas; logo, não houve qualquer problema de adaptação. Portanto, foi uma escolha natural e até te digo que foi o Glenn que sugeriu experimentarmos tocar com ele. Depois de o Andy acabar de apanhar o queixo do chão [risos], aceitou o nosso convite. Fez mesmo um trabalho inacreditável em apenas duas semanas, do zero ao palco, porque foi uma situação imprevista. Ele nem sabia a lista que iríamos tocar, mas correu tudo bem e a confiança dele em palco tem escalado exponencialmente – está cada vez melhor e hoje em dia é um de nós. Ele não é o substituto do Glenn, mas vou pegar naquilo que disseste e repeti-lo – é a pessoa que está a preencher o lugar dele. Estamos todos a ajudar o Glenn e a medicina avança diariamente a um ritmo vertiginoso, com novas descobertas e procedimentos clínicos, por isso cremos que ele voltará a tocar connosco. Até lá, o Andy tomará o lugar dele. Tem feito um excelente trabalho.» Curiosamente, K.K. Downing, o histórico ex-membro dos Judas Priest, declarou recentemente ter ficado indignado por não ter sido convidado a fazer as partes de Tipton no disco depois de saber que este se encontrava impossibilitado de tocar como anteriormente. Isto criou algum mal-estar e desconforto no seio da banda, até porque Downing continua a ser um velho amigo comum dos restantes elementos, mas de onde teria saído essa indignação? «De facto, não entendo o motivo de ele ter dito o que disse, mesmo que o K. K. seja um grande amigo. Mas não percebemos por que é que ele se saiu com essa. Repara: se fosse o Richie que tivesse saído, entenderíamos que ele dissesse isso, pois o Richie já toca todas as partes do K. K. Agora, o K. K. querer tocar as partes do Glenn, quero dizer... [pausa] Não faria sentido. Se o Ken voltasse a entrar em Judas Priest, então teríamos de meter o Richie a aprender as partes do Glenn, teríamos de esperar que o Ken aprendesse a tocar os novos temas, etc.. Iria ser uma enorme confusão! O K. K. está sempre na nossa mente, é um amigalhaço nosso, mas não vamos substituir o Glenn pelo K. K.. Aliás, o lugar do K. K. era do K. K. e o lugar do Tipton é do Tipton. Nunca nos ocorreu que ele quisesse regressar, ele nunca se aproximou de nós nesse sentido, não é como se ele tivesse sugerido isso e nós o tivéssemos recusado – acontece que isso nunca se sucedeu, ele nunca expressou essa vontade. Entretanto, já passaram oito anos desde que o K. K. saiu e mudou muita coisa – águas passadas não movem moinhos. De qualquer maneira, eu amo o Ken de morte, mas não faço ideia de onde é que ele surgiu com essa. [risos]»


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inco anos depois de “Okkult I”, os veteranos Atrocity dão seguimento ao conceito com o novo “Okkult II”. Do outro lado da ligação estava o extrovertido Alexander Krull (voz) e o mais tímido, mas simpático, Thorsten Bauer (guitarra). «Na altura do “Atlantis” [2004] fiz muita pesquisa para essa grande temática», começa Alex Krull. «Estava tudo ligado ao mito da Atlântida, desde arqueólogos à procura da fonte ou do local onde Atlântida poderia ter estado até coisas esotéricas e ocultistas. Foi aí que comecei a perceber que a próxima cena depois do “Atlantis” poderia ser escrever sobre os mistérios do mundo, sobre o lado negro e ocultista da Humanidade», surgindo assim “Okkult I”. «Falamos de muitos locais negros, histórias estranhas que ninguém conhecia, enigmas por resolver e, claro, conspirações. Para nós é muito bom ter uma abordagem conceptual como esta de modo a combinar elementos atmosféricos muito negros com música pesada e brutal.» Sobre “Okkult II” conta que este «surge com novas histórias e é algo pelo qual se tem muita paixão – escrever sobre o lado negro da Humanidade é uma coisa, mas combinar isso tudo enquanto artista é muito divertido [risos]». Sem demora e sem interrupções, o vocalista descreve de imediato algumas abordagens conceptuais: «Temos a [faixa] “Shadowtaker” que combina histórias antigas do mundo eslavo com death metal, mas depois temos uma história completamente diferente com a [faixa] “Masters Of Darkness” sobre o ocultismo do III Reich. Passámos dois anos a trabalhar no álbum, mas já está feito e já o podemos apresentar aos nossos fãs como mais um grande trabalho dos Atrocity. [risos]» “Okkult I” é mais mitológico e mais sinfónico do que “Okkult II”, sendo este um álbum de puro death metal, mas ainda assim, e contendo histórias mais contemporâneas, continua a exibir muita bruxaria nas suas letras. «É verdade», confirma Krull. «Tens, por exemplo, a [faixa] “Infernal Sabbath” que surge do território Basco e fala do início brutal da Inquisição Espanhola, algo que está muito ligado à bruxaria e à visão que as pessoas tinham nessa altura. Havia rituais pagãos e provavelmente havia uma espécie de bruxas. Quando a Igreja ouviu falar destes rituais nem toda a gente quis confessar, por isso sofreram castigos brutais e morreram. Há uma história muito dramática que conta que queriam executar umas 12 pessoas, mas seis já estavam mortas antes de serem executadas por causa da tortura, portanto penduraram fantoches. Há coisas estranhas a acontecer [no álbum] – cada canção tem uma grande história por detrás e apenas tens de as comprimir para uma canção metal. É um espelho da Humanidade, do lado negro da Humanidade.»

As pessoas tendem a ficar mais moles à medida que envelhecem, mas não é o caso em Atrocity que até estão mais agressivos do que, recordemos, em 2004 com o belíssimo “Atlantis”. Portanto, e estando a maioria dos membros a chegar aos 50 anos de idade, vale a pena perceber o que os conduz a continuar a criar atmosferas tão fortes e sons tão violentos. Alex ri-se com vontade enquanto Thorsten toma a palavra pela primeira vez: «É óbvio que os Atrocity têm raízes no death metal, por isso não temos que nos esforçar para ter este tipo de som – está no nosso ADN. “Okkult II” está mais no ponto com a experiência ganha do “Okkult I”. É menos sinfónico e tornou-se num álbum mais besta.» Produzido no Mastersound Studio pelo próprio Alex Krull, “Okkult II” tem obviamente a marca d’água do alemão. Assim, os Atrocity têm maior liberdade de escolha, mas a ajuda e o input acabam aí – neles próprios –, o que pode ser um pau de dois bicos. «É essa a intenção», diz Alex, com uma gargalhada, sobre a questão de liberdade. «Tendo o Mastersound Studio para produzir todo o álbum, não precisamos de explicar a ideia da banda a mais ninguém. Falamos da produção, que tipo de som de guitarra e bateria queremos, e fazemos testes. É uma grande vantagem, também por ter experiência em produzir outras bandas. O bom de trabalhar com outros artistas e depois ter a minha banda é que posso afastar-me e ser um produtor em vez de apenas músico. Tenho de ter sempre esta visão de produtor. É uma grande vantagem porque todas as produções que fazemos significam um grande esforço. Também produzimos a nossa outra banda, Leaves’ Eyes, por isso não sei se conseguiríamos fazer grandes produções se não fossemos nós mesmos a fazê-las. [risos]» Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género – ambos os músicos se riem com esta observação –, mas tendo esses dois trabalhos na discografia temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. 28 - ULTRAJE #17

Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de retomar o seu discurso, Alex já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos] Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal». Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.»

«“OKKULT II” É UM ESPELHO DO LADO NEGRO DA HUMANIDADE.»


TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: PEERO LAKANEN

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stão 32 graus na Finlândia! Devemos estar no fim dos tempos.» É Jarkko Aaltonen, baixista dos Korpiklaani, o dono destas palavras. Três anos depois de “Noita”, os finlandeses trazem o seu folk de volta com “Kulkija”, o décimo e mais longo trabalho da banda de folk metal. Quando questionado se a abordagem a este trabalho teve um toque especial pelo facto de assinalar um marco importante na carreira dos Korpiklaani, Jarkko admite desconhecer que se tratava do décimo disco: «Não foi algo do qual falámos quando iniciámos as gravações, e para ser honesto só percebi que era realmente o nosso décimo disco quando comecei a dar entrevistas e os jornalistas me falavam disso. Não fazia mesmo ideia.» No fundo, é apenas um número, certo? «Não importa se é o álbum número dez, até porque o objectivo não é lançar muitos álbuns, mas sim bons álbuns, e foi nisso que estivemos concentrados.» E que belíssimo álbum é este “Kulkija”! Há uma atmosfera única que nos guia ao longo dos catorze temas, fazendo deste disco uma verdadeira e muito apreciada jornada. Com a temática festiva e alusiva à bebida deixada para trás, o novo registo da banda aposta numa abordagem mais emocional, algo que segundo Jurkka não foi intencional: «Foi acidental. Nunca falámos em criar um álbum assim, mas desta vez foram estas as músicas que escolhemos para o álbum. Os temas não são festivos e têm um tom mais sombrio, é verdade, mas sempre fizemos músicas como as deste novo disco. Isto não significa que a banda mudou, ou algo do género. Este álbum saiu assim e não sabemos como será o próximo.» Liricamente, o álbum fala-nos de Kulkija, um viajante que aparece em todos os temas presentes no disco, e em que cada um deles representa uma diferente situação. Há exemplos

concretos que nos levam a pensar se este lado emocional do disco foi mesmo acidental ou se esconde uma mensagem subliminar que nos leva a descobrir esta faceta mais pessoal da banda, como o facto de passarem muito tempo na estrada e sentirem saudades de casa. «Tudo o que fazes, incluindo a vida na estrada, tem um efeito e deixa uma marca em ti, principalmente à medida que vais envelhecendo.» Ainda assim, Jarkko insiste que não vê «uma mudança radical na banda», adiantando que «não se sabe como vai ser um disco até se chegar a uma fase tardia do processo de composição». O músico prossegue: «Escolhemos uma série de músicas que achamos que vão encaixar bem no disco e depois iniciamos as gravações. É então que, a dada altura, percebemos: ‘Ah! Então é assim que o disco vai soar.’ A temática e a sonoridade nunca é discutida antes.» Não deixa de ser estranho, no entanto, que o músico classifique o humor geral do novo álbum como acidental, pois estamos perante uma atmosfera tão envolvente que faz com que “Kulkija” pareça um álbum com apenas uma longa faixa: «As músicas falam de viagens e das saudades de casa, o que pode ser facilmente associado à vida de um músico na estrada. As letras são tratadas sob o ponto de vista de alguém exterior, que observa o que acontece, e não há um tema que faça de “Kulkija” um álbum conceptual, porque não é. As músicas são liricamente separadas, o que acontece é que o tema do viajante está quase sempre lá presente.» Gravado em Novembro de 2017, pela altura em que “Kulkija” for lançado (Setembro de 2018), perfaz quase um ano desde a sua concepção. «Tenho ouvido muito o novo disco», admite o baixista à Ultraje. «Temos que estar aptos para o tocar bem ao vivo, pelo que tenho ouvido o disco e tocado os temas para que 29 - ULTRAJE #17

me consiga lembrar, novamente, daquilo que é este novo álbum. No estúdio trabalhamos uma música de cada vez e depois, assim que fica tudo pronto, torna-se um monstro diferente, pelo que é essencial voltar a familiarizar-me.» A julgar pelos comentários e pelas reacções em vídeo, os fãs que já ouviram o single de avanço do novo álbum parecem concordar em uníssono que vem aí algo bem emotivo. Perguntámos a Jarkko se já se deu ao trabalho de ler o que se escreve sobre a banda de folk e a sua nova oferenda: «Não muito», confessa. «Costumo ler, especialmente quando nos juntamos e o nosso management lê alguns dos comentários e falamos daqueles que têm piada ou assim. É sempre bom ler elogios, claro, mas aprendi que sempre que lançamos um novo álbum, há sempre alguém que vai dizer que os Korpiklaani estão a lançar o mesmo disco há anos. Depois haverá quem diga que os Korpiklaani mudaram demasiado - portanto, o que se pode fazer? Só tens que fazer aquilo que queres sem te preocupares com o que as outras pessoas querem.» Jarkko diz-se ainda surpreso pelo facto de ter gravado "Kulkija": «Não quero dizer que estou surpreendido com o disco em si, mas gravar este álbum, depois de outros tantos, foi surpreendentemente fácil. Foi um processo simples. Estávamos melhor preparados e também trabalhámos com um produtor diferente. O álbum é muito bom e o resultado final - ou seja, a forma como as músicas ficaram no fim - surpreendeu-me. Em todos os álbuns tenho músicas favoritas e outras das quais não gosto tanto, como aconteceu, por exemplo, com as demos que gravámos. Então fiquei muito satisfeito por ver que aquela música da qual não gostava tanto acabaria por se tornar na melhor música do disco depois de finalizada.»


O

folk guerreiro dos Gwydion tem sido um dos bastiões de peso dentro do metal nacional, sendo uma banda calorosamente recebida nos palcos por aqueles que já a conhecem e acumulando cada vez mais novos seguidores a cada novo trabalho. Um hábito que dá sinais de continuar a perdurar com o lançamento do novo álbum “Thirteen”, um registo que, nas palavras do guitarrista João Paulo Bernardes, representa um violento choque entre os povos nórdicos e os árabes que, naquele tempo, ocupavam grande parte da Península Ibérica. «Quisemos trazer a cultura Viking mais perto da nossa costa, tanto através da composição musical como escrita. Tentámos representar os 13 dias que a zona de Lisboa esteve sob ataque Viking, contando um pouco da visão dos dois lados.» Narrando sempre batalhas épicas e contos heróicos, o guitarrista considera este “Thirteen” um trabalho distinto dos anteriores devido ao incremento de elementos death metal, acabando por seguir o mesmo caminho mais agressivo que o anterior “Veteran” começou por trilhar. «É um álbum mais pesado e forte, mas julgamos que representa a banda em todas as suas vertentes», sendo esta uma nota que se deve ter em atenção antes de se pensar que os Gwydion dispensaram os outros elementos sonoros que sempre fizeram parte da sua sonoridade pois, ao ouvir o novo disco, o já conhecido death/ folk com alguns trejeitos de black metal e com passagens sinfónicas está todo lá e bem equilibrado em faixas como a épica “King’s Last Breath” e a mais gwydionesca “Oh Land Of Ours – Al Andaluz”, fazendo assim jus às palavras de Bernardes quando o descreve como sendo «fundamentalmente um álbum de Gwydion em todas as suas expressões, não faltando os coros, os gritos de guerra, a festa, os heróis, a cerveja e o hidromel». No entanto, para que “Thirteen” pudesse chegar aos ouvidos de quem se cruza com ele, algumas batalhas tiveram que ser travadas. A mais inevitável de todas, transversal a muitas das bandas que já têm uma carreira longa e algum fundo de catálogo, é a de manter a fidelidade à sua identidade, manterem-se simultaneamente originais e não baixar o nível de qualidade. Relativamente a este ponto, Bernardes indica que o processo de composição passa por três fases: uma primeira em que «as ideias começam a fluir e parece que as músicas se constroem sozinhas», que acaba por dar lugar a um estado de análise e remodelação de cada tema após se tocar as músicas múltiplas vezes e que termina num trabalho de estúdio onde ideias

TEXTO: TIAGO NEVES / FOTOGRAFIA: CORTESIA DA BANDA

novas – acréscimo de passagens com instrumentos fora do vulgar, a inclusão ou a retirada de qualquer secção presente no tema – são acrescentadas aos temas para conseguir a sonoridade idealizada – «pormenores que fazem uma enorme diferença no fim.» Outra coisa que acabou por fazer uma enorme diferença no resultado final foi decidirem, tal como fizeram no anterior “Veteran”(2013), lançar “Thirteen” sem nenhum contrato editorial, não tendo sequer procurado uma editora para o lançamento do disco, ainda que haja um acordo de manufactura e distribuição com a Ultraje. «Decidimos optar por avançar sem editora por uma questão de controlo sobre o nosso trabalho e por acharmos que seria o melhor para este projecto

«QUISEMOS TRAZER A CULTURA VIKING MAIS PERTO DA NOSSA COSTA.» que foi “Thirteen”. Também o facto de não ser a primeira vez que o fizemos ajuda a tomar essa decisão, podendo assim avançar melhor onde não fomos tão felizes no passado», explica-nos o guitarrista, abraçando a preferência por uma total liberdade criativa em vez de se submeter a qualquer espécie de controlo por parte de terceiros. Por fim, na guerra para a conclusão deste novo trabalho, a banda optou por realizar uma campanha de crowdfunding de modo a alcançarem as verbas necessárias para a concretização do projecto,

(Gwydion ao vivo no RCA Club / Fotografia de Joana Marçal Carriço) 30 - ULTRAJE #17

uma aventura que, segundo o nosso entrevistado, não cumpriu com o objectivo procurado: «Sendo uma plataforma nova para nós, houve algumas nuances que nos escaparam e foi de facto uma batalha perdida em que não conseguimos o objectivo a que nos propusemos.» Felizmente, o crowdfunding «era somente uma das vertentes desta campanha», mas que ainda assim beneficiou do «apoio espectacular dos fãs, que apostaram na banda em grande», acabando por fazer com que “Thirteen” conseguisse surgir. Independentes, experientes e carregados de energia, os Gwydion já contam com mais de vinte anos de uma carreira de sucesso e inúmeras boas recordações vindas dos palcos lusitanos, onde nos foi referido o concerto de apresentação de “Veteran” como um desses momentos: «Uma noite simplesmente espectacular onde se fez uma enorme festa de metal; uma noite onde o doom, o grind e o folk – três irmãos muito distantes – foram a desculpa para a união entre pessoas do mesmo meio, em que se partilhou uma noite plena de respeito e camaradagem e que mostrou que metal é metal, independentemente do subgénero que lhe quisermos chamar.» Mas nem só em palcos nacionais têm os Gwydion actuado e vindo a dar que falar. «Em 2008 pusemos os pés firmemente fora de Portugal com a tour europeia Ragnarok Aaskereia», conta-nos João Paulo Bernardes, considerando este como um dos momentos mais importantes na vida da banda, em que conseguiram a muito desejada atenção internacional. «A partir dessa altura, os Gwydion foram apresentados ao mundo e desde então a aceitação tem sido espectacular e sempre em crescimento. O futuro de Gwydion passa sem dúvida pelos palcos lá fora.» Pegando nestas palavras de João Paulo, “Thirteen” – «um trabalho do qual nos orgulhamos bastante e que achamos que representa muito bem a banda neste momento» – é o projecto em que a banda depositou a esperança de dar o passo para um patamar mais elevado, pretendendo divulgá-lo especialmente além-fronteiras para fazer crescer o nome Gwydion e, assim como as hordas vikings que invadiram a costa lisbonense descritas no disco, invadirem palcos cada vez mais distantes para conquistarem mais e mais seguidores enquanto programam o sucessor deste recente trabalho. Esperando que consigam alcançar a popularidade para a qual justamente têm laborado, uma coisa mantém-se certa: os Gwydion vão continuar a marchar sem vacilar e a atacar em força com a sua música.


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TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DE FIRECUM RECORDS

om um percurso ainda curto, mas pungente, os Beyond Carnage tomam a cena nacional de assalto com o EP de estreia “Profane Sounds of the Flesh”, uma proposta que apresenta cinco temas sólidos saídos directos da ainda fervente panela do death metal da velha-guarda. Tendo como objectivo a concepção de uma sonoridade pesada e apocalíptica, a identidade dos Beyond Carnage não sofreu com a inicial instabilidade da formação, como nos conta o vocalista João Colosso: «Quando entrei na banda eles foram extremamente claros naquilo que queriam, por isso acho que o objectivo foi sempre o de ter um old-school death metal sujo, pesado e ritmado.» Contudo, como nos explicará Colosso, as coisas nem sempre correm como queremos: «Lá porque estás a apontar com um binóculo para o sítio certo, não quer dizer que tenhas a lente certa. A meu ver, à medida que a banda foi mudando de membros, as ferramentas para criar aquilo que estava em mente foram sendo cada vez mais certas e, na minha opinião, excedemos as nossas próprias expectativas.» O músico vai mais longe e admite até que a banda surpreendia-se a si própria à medida que o trabalho avançava: «Estivemos constantemente a espantar-nos com o trabalho que cada um trazia para a banda. Da mesma forma que um bom escritor cria as personagens e deixa-as seguir o seu rumo na história, também se passou o mesmo com as nossas músicas, que ganharam uma maturidade própria.» Com o old-school death metal bem presente na identidade musical dos Beyond Carnage, João Colosso faz um ponto de situação da actual cena death metal em Portugal: «Em Portugal, acho que o death metal está um pouco rendido aos seus subgéneros mais agressivos, pelo menos do que eu vejo, visto que há muitas bandas que não conheço e não gosto de estar a falar num todo se não estudei bem a situação. Observo, no entanto, que existe uma forte e bem assente cultura de brutal death que anda de mãos dadas com o grind, e ainda bem que assim é! No final de contas estamos todos cá para o mesmo - músicos, público, ouvintes e fãs: andar atrás daquela sensação de êxtase que parece tocar no divino ao ouvirmos este género musical.» No que ao resto da Europa diz respeito, o músico conta não ser a pessoa mais indicada para falar disso, pois «não estou muito ciente do que se passa». Ainda assim, há algo óbvio que salta desde logo à vista: «As bandas portuguesas têm dificuldade em libertar-se para o resto da cena europeia por estarem aqui neste cantinho da Europa e ser preciso um nível de capital minimamente alto para conseguirem sair daqui e ir tocar lá, enquanto as bandas alemãs, por exemplo, têm quase a Europa toda a poucas horas de distância.» Do ponto de vista de Colosso, os portugueses fazem das tripas coração, e se lhes dão limões há que fazer limonada: «De certa forma isto tornou a cena metal portuguesa bastante unida e respeitada por quem está do lado de dentro, o que é algo extremamente bom. Sinto, e sempre senti ao longo do meu crescimento na cena, que bandas e público separam-se muito pouco ou quase nada. Não existe aí um fosso que nos separe.» Quatro anos volvidos sobre a formação da banda, João Colosso sente que “Profane Sounds of the Flesh” não resume de forma justa o trabalho que têm vindo a desenvolver desde então. «Acho que é um dos grandes dilemas de quem faz arte, seja de que

tipo for. Acha-se sempre que está aquém daquilo que é o seu potencial.» O vocalista prossegue: «Há um certo equilíbrio que tem que ser feito entre a necessidade de se saírem com as criações e a necessidade que, ao saírem, saiam perfeitas, e é engraçado como a dinâmica da banda, entre os seus membros, conseguiu até avaliar bem os recursos disponíveis para ter o melhor resultado possível, não nos deixando obcecar com os pormenores.» Com o EP cá fora, os Beyond Carnage trabalham agora naquele que poderá ser um possível longa-duração: «Não só ficámos com algumas ideias como já as estamos a tocar ao vivo. Ainda no dia 7 de Julho, na noite do lançamento do álbum dos Gwydion, tocámos duas músicas novas: “The Witch” e “Pazuzu”.» Antes sequer das gravações do EP de estreia terem tido lugar, a banda avançava já com a composição de novos temas, como nos conta o músico: «Começámos a criar novo material antes das gravações e honestamente estou desejoso de entrar novamente em estúdio para gravar os novos temas. A meu ver, a banda deu um passo bastante grande em direcção à definição do som e, como tal, estamos a criar temas bastante fortes com as fornalhas infernais de onde sacamos os metais líquidos mais requintados que usamos para moldar nas nossas bigornas.» Para finalizar, João Colosso confessa ser «bastante novo» dentro da cena metal, mas considera que os concertos são indispensáveis para uma banda se poder afirmar em Portugal. «Viu-se com o que se passou [no concerto de apresentação do novo álbum dos Gwydion], em que no dia seguinte entrei no Facebook e os 'gostos' na página não paravam de aumentar, comentários a circular, pessoas a falar sobre nós de forma positiva, encomendas de CDs e merch, e todo um feedback que eu nem de perto estava à espera. Por isso sim, acho crucial tentar-se enfiar em todo o tipo de eventos. Mesmo que tenhas que sacrificar um pouco de ti para o fazer, é bastante recompensador quando depois tens mais feedback do que alguma vez esperaste. Sabe bem à alma, alimenta o ego e recompensa o trabalho. Dito isto, acho em contraponto que a pressa de ir para fora da sala de ensaios e tocar em concertos é muitas vezes inimiga do 'fazer bem'.» O que podemos então esperar da banda para o resto de 2018? Colosso diz-nos: «Podem esperar de nós aquilo que sempre nos propusemos a dar: death metal, celebração com os nossos irmãos de palco e de plateia, um apoio inabalável aos mesmos e uma dedicação para ajudar a empurrar a cena nacional para a frente.» "Profane Sounds of the Flesh" está disponível através da nacional Firecum Records.

«BANDAS E PÚBLICO SEPARAM-SE MUITO POUCO OU QUASE NADA.»

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TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: KEVIN BALDES

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stão em Lisboa?», pergunta-nos George Lynch do outro lado da linha. Falamos-lhe do norte de Portugal e demos a cidade do Porto como referência, que mereceu um «Oh, maravilhoso!» como resposta. «Esta entrevista é sobre os Ultraphonix, certo?», questiona novamente o músico, conseguindo assim inverter os papéis de entrevistador e entrevistado. Sim, é sobre Ultraphonix, o novo supergrupo composto pelo guitarrista George Lynch (Dokken, Lynch Mob) e o vocalista Corey Glover, dos Living Colour, com Chris Moore e Pancho Tomaselli na secção rítmica. Com a edição do estreante “Original Human Music”, a ter lugar em Agosto pela earMusic, quisemos saber mais sobre esta proposta. «Gosto do título deste disco porque o acrónimo é OHM, que em termos filosóficos será o som original da criação, pelo que há aqui uma grande conotação associada», começa por dizer. «O título completo, “Original Human Music”, é relevante para nós porque esta banda surgiu connosco sentados a bater com paus em latas, por assim dizer. Éramos uma banda de improviso, com uma orientação rítmica, onde tentávamos tornar-nos mais primitivos.» Outrora conhecidos como The Infidels, George Lynch conta-nos que a banda iniciou actividade há cerca de seis anos: «Estávamos a trabalhar com o vocalista dos Cypress Hill e depois com o Angelo Moore, dos Fishbone, pelo que já passámos por algumas mudanças», explica. «Evoluímos muito mas o tema e a filosofia geral é sermos uma banda primitiva de improviso, sendo que temos até um álbum concluído em que somos apenas nós em estúdio a improvisar, sem termos sequer uma música previamente pensada. É composto apenas pelo que saiu das nossas cabeças na altura e deverá talvez ser editado em 2019.» Depois de conhecido o background musical dos envolvidos, é fácil perceber de onde vêm

«O

as influências de Ultraphonix no que ao rock ou ao funk diz respeito, mas, quando George Lynch começa a divagar sobre jazz, tivemos que perguntar de onde saiu este estilo musical que parece ter um grande impacto na forma como a banda conduz a sua música: «É uma influência que vem dos outros músicos com quem trabalho ou trabalhei, e havia sempre quem me dissesse algo como 'tens que ouvir esta banda, ou este tipo do Norte de África que tocava jazz nos anos 60, ou este artista obscuro do qual nunca ouvi falar', e comecei a interessar-me por isso. Também, ao iniciar o meu percurso musical, o meu pai tocava jazz e blues, e expôs-me a esse estilo ao dar-me muita música para ouvir e ao fazer com que a tocasse. Foi uma espécie de influência não-oficial.» Os Ultraphonix acabam por ser um lugar seguro onde George Lynch pode sentir-se confortável o suficiente para conduzir as suas experiências musicais, algo que já fez em Lynch Mob mas que não correu tão bem: «Houve uma altura da minha vida em que criei uma versão diferente dos Lynch Mob», relembra. «Foi em 1999, com o álbum "Smoke This". Promovi-o na estrada e tive reacções muito negativas.» O disco em questão adoptava uma sonoridade moderna à imagem do que acontecia durante a viragem de século, aproximando-se de bandas como Linkin Park ou Limp Bizkit. «Era uma espécie de rap metal e não correu lá muito bem. Na verdade nem queria lançá-lo sob o nome de Lynch Mob, mas a editora insistiu para que o fizesse, algo que infelizmente aceitei. Devia ter criado outra banda chamada Lynch Bizkit», brinca o guitarrista. «Lynch Mob é Lynch Mob e uma Coca-Cola é uma Coca-Cola, não mudem isso. As pessoas querem que o rap seja rap, que Van Halen seja Van Halen e que Judas Priest seja Judas Priest. Não querem ter os Judas Priest a tocar música funk, nem ver os Van Halen a tocar jazz.»

Na voz temos Corey Glover que, juntamente com os restantes membros dos Living Colour, atingiu o sucesso mundial com o single "Cult of Personality". A banda norte-americana venceria um Grammy, o grunge dos Nirvana explodia não muito depois e o fim chegaria em 1995. Nos Ultraphonix, o músico de Nova Iorque contribui com algumas letras profundas, fazendo-nos questionar se a maioria das bandas de rock da actualidade, ou até mesmo dentro do espectro do metal, estão a fazer algo de positivo com a sua componente lírica. «A música só por si não faz o trabalho todo, não é suficiente», assume Lynch. «Percebo que nem sempre se possa usar a música como um veículo para provocar mudanças na política ou na sociedade, mas historicamente o rock n' roll nasceu disso. O blues, o R&B... Tudo isso saiu da escravatura. Isto aconteceu devido a certas pessoas que tinham um certo tipo de expressão artística e que a usaram para fazer do mundo um lugar melhor. Conheço muitas bandas de metal que têm uma mensagem muito progressiva com a intenção de provocar uma mudança, mas o problema com as bandas de metal é que eu não consigo entender o que eles dizem. [risos]» E por falar em recorrer à música como veículo para mudar as políticas e a sociedade, adivinhem lá quem é que pertencia ao movimento hippie dos anos 60 e 70? «Nessa altura fizeram-se revoluções a nível global», conta-nos. «O rock desempenhou um papel muito importante naquilo que estava a acontecer a nível cultural e político, e posso citar como exemplos a guerra do Vietname, os Direitos Civis ou até as mudanças que se fizeram relativamente ao ambiente. Eu era uma espécie de animal político nesses tempos, era sempre muito activo, pelo que fico sempre muito contente quando vejo bandas novas a fazer o mesmo. O mundo precisa dos próximos Rage Against The Machine.»

MUNDO PRECISA DOS PRÓXIMOS RAGE AGAINST THE MACHINE.» 32 - ULTRAJE #17


S

em se saber como, ardeu tudo. O estúdio de gravação, a sala de ensaios e todos os instrumentos musicais dos Shrooms Circle uns dias após a nossa entrevista. Ficaram sem nada. Pouca sorte a deles e mau timing o meu. Esperam agora pelo resultado da investigação do incêndio. Todo o DSKNT Industry – estúdio de produção musical – ficou reduzido a cinzas. Mas pelo que percebi, os Shrooms Circle não são gajos de se ficar. Definem-se como «malucos, velhos, drogados, bêbedos e fodidos». Não lhes perguntei a idade, mas sei que são senhores de um doom bem arrastado, e que levaram cinco anos até deitarem cá para fora o primeiro registo discográfico. Os Shrooms Circle são naturais de Vevey, vila suíça localizada à beira do lago de Genebra, a mesma vila que me viu nascer. Não que a geografia importe para o caso, mas não deixa de ser agradável esta descoberta (para mim) e curioso (para vocês, leitores). Da banda fazem parte o Scorp na bateria, o Johann no baixo e o Kelen Ob na guitarra/ backing-vocals desde 2013, ainda a banda era um projecto de estúdio. Só em 2016 é que pensaram em criar um alinhamento à séria para finalmente terem concertos. Foi aí que entrou o Teckel para as teclas, o Asknt para a segunda guitarra e a Odile para o canto. Ainda pouco conhecidos do público helvético, a verdade é que os Shrooms Circle já começam a mexer com a comunidade stoner/doom metal um pouco por todo o lado. Em Março disponibilizaram um EP homónimo em formato cassete com um artwork capaz de ter provocado episódios de prurido aos mais atentos. Gosto requintado na escolha do grafismo e inspiração na escolha das mamas (quase visíveis a olho nu). No passado mês de Julho, lançaram o primeiro álbum “Asylum” por meio da editora chilena Golden Dawn Recordings. O guitarrista Kelen Ob explica como surgiu o convite: «Já andava a falar disso com o Vicente [Zamorano, da Golden Dawn Recordings] há algum tempo, e ele já me tinha proposto um acordo. Infelizmente tive de recusar numa primeira fase porque estava à espera da resposta de outra editora... Mas vale mais sermos a prioridade de uma pequena editora do que estar no fundo da gaveta de uma grande. A Golden Dawn Recordings tem feito um trabalho genial desde o

que ela possa escrever e ensaiar. A gravação do álbum foi feita em várias fases pois tive que mudar de estúdio duas vezes. A bateria, por exemplo, foi gravada numa enorme garagem, o que acabou por criar um som muito peculiar. Gravei as vozes antes da chegada da Odile, para depois as regravar na íntegra com ela».

início, a todos os níveis, e até aos dias de hoje continua com essa dinâmica. Comunicamos com frequência, o Vicente está sempre atento e aberto a novas propostas. Sou extremamente reconhecedor de todo o trabalho que a Golden Dawn Recordings tem feito». Os Shrooms Circle consideram-se amantes de música com M grande, e nem o jazz ou a música drone escapam. Acima de tudo, para Kelen Ob, o mais importante é a banda saber tirar partido do trabalho que vai fazendo: «Tento sempre encontrar novas sonoridades e experimentar coisas novas para evitar cair numa espécie de rotina». Quanto ao álbum, Kelen Ob garante tratar-se de uma história marada e delirante, embora sem uma mensagem em particular: «Não somos moralistas e muito menos pregadores. Divirtam-se e sejam estúpidos porque não existe amanhã. É isto, ponto final! Agora, claro que existem algumas metáforas presentes no álbum, mas não tenho de ser eu a desvendá-las aos ouvintes. Se eles não as perceberem, também não me importo. Não sentimos a necessidade de passar uma mensagem». Ideias e riffs para o processo de composição: aparentemente simples. Tudo começa por Kelen Ob: «Geralmente crio uns riffs e umas ideias de estrutura. Depois vemos com o Scorp a melhor maneira de tocar essas ideias e de escrever as canções. De seguida gravo umas maquetes que acabam por me ajudar a encontrar uns arranjos para o órgão, mellotron e solos. Depois disso passo as maquetes à Odile para 34 - ULTRAJE #17

Até chegar ao produto final – “Asylum” – os Shrooms Circle tiveram de resistir a uma série de instabilidades. Kelen Ob confidencia-nos um episódio ocorrido no ano passado, no Teatro de Montreux-Riviera, que o obrigara a cancelar a gravação de um videoclip. «Algumas pessoas não têm palavra. Não vêem o outro lado da moeda e são de uma mentalidade hipócrita. Tive que cancelar tudo o que estava previsto para gravar o nosso videoclip.» A banda tem plena consciência que o seu doom não é dos géneros mais presentes na região mas abordam o tema com humor. Será a Suíça um país que tende a limitar este género de música?, perguntei eu. Mas Kelen Ob não hesitou em refutar: «Acho um pouco forte dizer que a Suíça é um país que limita o nosso género de música. Além disso, temos o Up In Smoke Indoor Festival [em Pratteln, na Suíça Alemã] que vale mesmo a pena. Têm de experimentar, não hesitem!» Os Shrooms Circle são um dos tesouros escondidos da minha geração. Pela atitude, pela sonoridade e pelas suas origens. Resolveram saltar esta questão aquando da entrevista. Acabei por ser eu a responder-lhes com este artigo de opinião. Oh La Vache! Agradeço-lhes por isso.


N

a antiguidade acreditava-se que a inspiração se devia às musas – deusas que permitiam aos criadores realizar grandes obras em áreas tão variadas como literatura, ciência ou belas artes. Também no mundo da música, inúmeros artistas se socorrem destas divindades ou do seu equivalente mais próximo: as mulheres. Apesar de comum no rock e pop, a utilização de musas inspiradoras no metal é algo não muito usual – a condessa Bathory ou a rainha Nefertiti são talvez os exemplos mais imediatos de bandas a recorrerem a musas para auxílio do seu processo criativo; contudo, estas caem para segundo plano quando comparadas com a fonte de inspiração dominante no metal: a História. Desde as mais curiosas e doentias personagens às mais sangrentas e obscuras batalhas, passando pelos mais espectaculares e cataclísmicos eventos, a História tem servido de base a inúmeras obras, muitas delas marcos na própria História do metal. Com esta abundância de temas, é então de estranhar que uma tão grande quantidade de artistas recorra a músicas de outros artistas para inspiração… Estas ‘homenagens’ vêm já desde os anos 1970, em que o riff principal de “Wicked World” (Black Sabbath, 1970) era idêntico ao de “Wild Child” (The Doors, 1969) ou o icónico “Smoke on the Water” (Deep Purple, 1972) que não é nem mais nem menos do que o tema de abertura de “Maria Quiet” (Astrud Gilberto, 1966). Outra secção monumental, que foi recentemente discutida em tribunal, é a introdução de “Stairway to Heaven” (Led Zeppelin, 1971), cujo processo por plágio foi interposto pelos herdeiros do guitarrista Randy Wolfe onde afirmam que a música “Taurus” (Spirit, 1968) está a ser copiada. Apesar de esta semelhança ser sobejamente conhecida, Wolfe nunca accionou nenhum mecanismo legal para ser compensado, o que levantou protestos dos seus amigos e de outros membros dos Spirit, que afirmam que essa nunca foi a intenção do músico. Ainda nas salas de tribunal podemos encontrar também um caso curioso em que Joe Satriani processou os Coldplay pelo facto do milionário êxito internacional “Viva la Vida” (2008) fazer uso da melodia que o mago da guitarra havia já publicado em “If I Could Fly” (2004). Este processo não chegou ao fim,

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uma vez que os Coldplay aceitaram fazer um acordo (cujos detalhes não foram divulgados) com Satriani, que anulou então o processo. Um exemplo, que estranhamente nunca passou pelas mãos de um juiz, é o de uma das malhas mais copiadas do rock que podemos encontrar em inúmeras canções, mas que foi imortalizada em “2 Minutes to Midnight” (Iron Maiden, 1984). Foi, na realidade, inicialmente criada três anos antes pelos Riot (agora Riot V) na sua famosa “Swords & Tequila” (1981). À medida que avançamos no tempo, as semelhanças continuam. Mesmo um colosso como Dream Theater não escapa, com “In the Presence of Enemies” (2008) a servir-se de um riff de Jeff Kollman com 11 anos em “I.N.S. Conspiracy” (Cosmosquad, 1997). Em 2013, os Avenged Sevenfold foram alvo de duras críticas pelo facto do seu álbum “Hail to the King” estar alicerçado em sequências e riffs extremamente semelhantes a inúmeros hits dos Metallica, e em que a própria faixa que dá nome ao álbum nos fez recuar até “Thunderstruck” (AC/DC, 1990). Já este ano, os poderosos Machine Head lançaram “Beyond the Pale” que foi tirada a papel-químico de “Love” (Strapping Young Lad, 2005). Há ainda bandas que descaradamente profanam o cânone do metal, como os Aura Noir em “The One Who Smite” (1996) que usurpam provavelmente o breakdown mais famoso de sempre: “Angel of Death” (Slayer, 1986). Nesta categoria temos também os Suicidal Tendencies com “Trip at the Brain” (1998) em que não tiveram qualquer contemplação em se apropriar do riff principal de “Master of Puppets” (1986) dos seus amigos Metallica. Como se pode ver, a reciclagem de riffs encontra-se viva e de boa saúde! Há quem diga que hoje em dia é impossível criar música verdadeiramente original, que não seja uma colagem de trechos já existentes… O que é então a originalidade? Será que é assim tão importante? Ou será que simplesmente não reconhecemos os retalhos? Mais do que nunca, onde estão as musas?


s

Álbum d Mê o

DEICIDE

Overtures of Blasphemy CENTURY MEDIA DEATH METAL

N

ome alto do death metal e da provocação, nunca os Deicide estiveram tanto tempo em silêncio, demorando-se cinco anos para que “In the Minds of Evil” tivesse um sucessor – melhor ainda: um suces-

Se é a primeira vez que ouves falar de Deicide e Glen Benton – o que duvidamos –, aqui fica uma breve biografia. Por: Diogo Ferreira

sor de gabarito. “Overtures of Blasphemy” prova que, mesmo ao fim de 30 anos, muita coisa pode acontecer, como apresentar-se o novo guitarrista Mark English (Monstrosity), Glen Benton voltar a compor temas ao fim de cerca de 25 anos e existir uma inclinação ao melodic death metal, ainda que dentro dos parâmetros de Deicide. “One with Satan”, que é uma das três composições de Benton, é um habitué a mid-tempo de Deicide, mas seguidamente ficamos em sentido com “Crawled from the Shadows” que mostra uma banda sinónima de death metal da Florida a ir beber ao melodeath escandinavo – é a melhor faixa do disco. “All That Is Evil” é outro tema que se assume meló-

dico, mas mais timidamente. Depois há ainda uma direcção musical ao thrash metal – o que muito existiu no disco de 2013 – em faixas como “Compliments of Christ”, de Glen Benton e que contém um solo épico, e “Flesh, Power, Dominion”. E se musicalmente há diferenças em relação ao passado – como adição de texturas sonicamente suculentas –, a ala lírica mantém-se firme na raiva e hostilidade que os Deicide sempre demonstraram perante todas as religiões, especialmente a católica sediada no Vaticano.

Diogo Ferreira 9/10

Nasceu em 1967 e é frontman de uma das bandas mais ofensivas da História. Nos anos 1990 ganhou destaque pelos repetidos confrontos telefónicos com o evangelista Bob Larson. Esperava-se que se suicidasse aos 33 anos, como Cristo, mas mais tarde afirmou que «só cobardes e perdedores» tiram a sua própria vida. Voltou a compor com o novo “Overtures of Blasphemy”, o que não acontecia desde “Legion” (1992). A cicatriz do crucifixo invertido na testa é a sua imagem de marca.

ABHORRENCE

ABIGAIL

AMARTE

ATROCITY

SVART

HELLDPROD

SOUNDSPREAD

MASSACRE

DEATH METAL

BLACK/THRASH METAL

ROCK

DEATH METAL

Megalohydrothalassophobic

O Baile dos Teus Medos

Far East Black Metal Onslaught EP

B

H

Okkult II

D

E

anda de culto do underground finlandês, os Abhorrence formaram-se em 1989 e tiveram uma curta carreira, lançando apenas uma demo e um EP. Acontece que nas suas fileiras figurava - e figura - Tomi Koivusaari, que viria, posteriormente, a fundar os Amorphis. Posto um hiato superior a duas décadas, intercalado com esporádicas reuniões para concertos, eis que emerge um novo EP. Death metal clássico extremamente bem conseguido e primorosamente executado, recheado de riffs memoráveis cujas inevitáveis piscadelas de olho aos 90s furtam-se habilmente a revivalismos despropositados. Desde a soturna introdução que nos transporta para sufocantes profundezas subaquáticas até culminar de forma sublime com “The End Has Already Happened”, “Megalohydrothalassophobic” surpreende pela positiva a cada um dos seus parcos 23 minutos. Venha um álbum, quanto antes!

istóricos do underground nipónico, os Abigail – fundados em 1992 – já têm um praticamente incontável número de lançamentos na sua discografia, com especial foco nos splits. No quinto lançamento de 2018, os japoneses surgem com um vinil de 7” com quatro faixas orientadas ao black/thrash metal com o intuito de, como sempre, espalharem caos e profanação contra os castos e puros. Com malhas de ritmo orelhudas que têm de tudo o que é directo e honesto no seio do black/thrash metal, a banda perde-se um pouco nos solos que, por vezes, parecem desconexos em relação a tudo o que se passa à volta. Contudo, é um bom item de colecção que, e como é curto, pede para ser ouvido várias vezes. Abigail vive!

e Lisboa, mas actualmente sediados em Sintra, o primeiro disco dos Amarte até parece começar nos EUA com uma intro, de título “Prelúdio”, algures entre Mad Season e Kyuss, mas depois ataca-se-nos um rock moderno e urbano que tem tido alguma força no underground português nos últimos 20 anos. Mas o problema está também aí: estas bandas de rock a sério que ultrapassam a imposição dogmática de radio-friendly ficam-se pelo underground – todavia, lá persistem à sua maneira. Pesados quando têm de ser, mas também melódicos (como é exemplo a instrumental e post-rock “Vesúvio”), a música dos Amarte alicerça-se essencialmente na língua portuguesa com versos poéticos e nas guitarras cheias de efeitos que dão cor, inteligência e desenvolvimento a um sólido álbum de rock.

nraizados no death metal, os veteranos Atrocity também já passaram pelo gothic e industrial, mas voltam sempre à casa-mãe. Já o tinham feito com “Okkult I” (2013) e prosseguem com “Okkult II”, que é um disco de puro death metal, menos sinfónico do que o antecessor (ainda que ouçamos alguns coros) e com conteúdo lírico mais contemporâneo, ao invés de mitologia, com abordagens ao ocultismo do III Reich ou à suposta bruxaria que a Inquisição perseguiu. Com uma boa parte da banda a chegar aos 50 anos de idade, nenhum membro de Atrocity pretende abrandar e prova disso é a forte atmosfera e a violência sonora que se absorve das malhas intensas, da bateria e baixo nucleares e do reconhecido gutural/berro de Alex Krull.

jaime ferreira 9/10

diogo ferreira 7/10

Diogo Ferreira 7/10

diogo ferreira 7.5/10

BEYOND CARNAGE

BLACK TUSK

BONJOUR TRISTESSE

CARNATION

FIRECUM

SEASON OF MIST

LIFEFORCE

SEASON OF MIST

DEATH METAL

SWAMP METAL

POST BLACK METAL

DEATH METAL

Profane Sounds Of The Flesh EP

O

TCBT

Your Ultimate Urban Nightmare

H

S

Chapel of Abhorrence

N

movimento de bandas que faz ressurgir o som tradicional do death metal em Portugal, o chamado old-school, tem, lenta e progressivamente, ganho terreno. Sem, no entanto, recuarem até à origem, estes Beyond Carnage partem dessas bases e doseiam o seu som com mais modernidade. “Profane Sounds Of The Flesh” é, assim, uma incursão pelo lado negro do death, um caminhar nos limites do apocalipse, uma avalanche lenta do som esmagador e tenebroso do metal. Mantendo-se na linha mid-tempo, estes Beyond Carnage oferecem-nos um EP cheio de peso e intenção que exala brutalidade por todos os poros. Apesar de se sentirem, aqui e ali, alguns sintomas da juventude da banda, é inegável o potencial demonstrado, sendo de esperar propostas bem interessantes no futuro.

ouve sangue, lágrimas e suor, mas o sexto álbum de Black Tusk existe e vive! Serve esta introdução para assinalar que este é o primeiro disco dos norte-americanos sem Athon (baixo) que perdeu a vida num acidente de viação em 2014, fazendo de “Pillars Of Ash” (2016) um álbum póstumo no que ao baixista se refere. “TCBT” significa “Taking Care (of) Black Tusk” e é isso que os vivos estão a fazer através de um sludge metal (eles preferem swamp metal) composto por uma energia inquietante e distorções lamacentas que conseguem transmitir tudo o que se está a passar nestas 12 faixas revoltadas e fortemente inspiradas em punk daquele à séria. No meio de todo este in-your-face há ainda um cantinho para abordagens espirituais.

ete anos depois de “Par un sourire”, o alemão Nathanael faz ressurgir o seu projecto a solo após um período de foco em Heretoir e King Apathy. Se o primeiro álbum continha a típica sonoridade do black metal depressivo, agora o músico vira-se para uma abordagem mais post metal e atmosférica. Se a estreia lidava essencialmente com depressão e isolamento no seio da vida urbana, este regresso debruça-se nas realidades opressivas do quotidiano questionando sociedades industriais e a civilização no geral. Em 2018, Bonjour Tristesse apresenta-se um empreendimento menos cru, mais maduro, mais atmosférico e projectado em mais camadas ao nível das guitarras. Ainda que haja alguma homogeneidade aqui e ali, esta percepção artística e destrutiva sobre a vida urbana é bem conseguida.

ão é apenas a capa, tudo neste disco transpira death metal dos anos 90. As guitarras cheias de groove, os guturais cavernosos, os solos selvagens e intensos - tudo bem amassado numa dose de shredding que já é conhecida de qualquer apreciador do death metal original. Pode parecer pouco original, mas a originalidade num registo deste género está na forma como é dissecada a estrutura desta sonoridade e moldada em temas excelentes que provam que não é preciso reinventar a roda, mas sim aperfeiçoá-la, permitindo o aparecimento de temas como “Hellfire” e “Plaguebreeder” que dão tanto gozo ouvir hoje em dia como há trinta anos. Que não se entenda mais do mesmo, mas, sim, mais do bom.

Pedro Félix da Costa 7/10

Diogo Ferreira 7/10

Diogo Ferreira 7/10

tiago neves 8.5/10

ABHORRENCE: “Death metal clássico extremamente bem conseguido e primorosamente executado.” 36 - ULTRAJE #17


em

destaque Fotografia: Anne Swallow

Em 2011, Demonaz (guitarrista e vocalista dos Immortal) lançava o seu primeiro álbum a solo. A Ultraje recorda "March Of The Norse".

IMMORTAL

Northern Chaos Gods NUCLEAR BLAST BLACK METAL

O

s portões de Blashyrkh reabriram-se e de lá saem em marcha Demonaz (guitarra / voz), Horgh (bateria) e Peter Tägtgren (baixista de sessão / produtor) para mostrar ao resto do universo

que Immortal vive para além dos recorrentes e intensos problemas com Abbath. Com “Northern Chaos Gods” podemos continuar a contar com a reconhecida tempestade de gelo que se transforma em música e faz tremer as montanhas cobertas de neve e enrijece os lagos congelados. Frio até ao osso, é Demonaz quem ouvimos cantar asperamente sobre Blashyrkh e também é dele que absorvemos riffs gloriosos, corridos e tantas vezes melódicos numa intenção de homenagear o próprio legado dos Immortal. É também sobre isso que trata “Northern Chaos Gods”: homenagear, relembrar e prosseguir a propagação de uma das bandas mais importantes da História do

black metal. Furiosos e enrijecidos pelas longas caminhadas a levar com severas brisas, e sempre obcecados por uma Lua de Inverno, o duo – que aqui é trio – prova ainda que é possível abordar novos padrões de composição sem relegar o passado para o esquecimento e permitiram-se a si próprios enveredar por uma produção atmosférica que está bem longínqua do cru, o que só faz com que esta novidade ganhe mais pontos. Os dados estão lançados, as palavras ditas e transformadas em acções – Blashyrkh reergueu-se e Immortal é aquilo que é: lenda viva.

Diogo Ferreira 8.5/10

DEMONAZ March Of The Norse [Nuclear Blast, 2011] Quem esperou que "March Of The Norse" fosse uma imitação barata de Immortal, deve ter sido apanhado completamente desprevenido ao perceber que o longa-duração de estreia de Demonaz apresentava-se como um trabalho louvável e consistente. Com um feeling viking, "March Of The Norse" é o resultado saído das mãos de um grande compositor, que oferece refrãos catchy e uma estrutura musical extremamente fácil de se acompanhar que, aliada à suave produção, faz com que os temas possam ouvir-se repetidamente sem provocar qualquer cansaço. O álbum que faltava na cena viking metal. Por: Joel Costa

CAST THE STONE

CIRCLES

COLDBOUND

CRIPPLED BLACK PHOENIX

AGONIA

SEASON OF MIST

MOONLIGHT PRODUCTIONS

SEASON OF MIST

MELODIC DEATH METAL

PROG METAL

MELODIC DOOM/DEATH METAL

DARK ROCK

Empyrean Atrophy EP

The Gale

The Last One

C

A

Great Escape

C

e quatro EPs Tformarêsem álbuns três anos. É desta que Justin Greaves

om membros de Cattle Decapitation, Scour e Misery Index, os Cast the Stone não lançavam nada há 13 anos! “Empyrean Atrophy” é um EP de 5 originais + 1 cover (“Jesusatan”, dos Infestdead) que os traz de volta às lides do death metal menos in-your-face e mais sentido. Com um baixo bastante audível de Derek Engemann (mal seria se assim não fosse!), é o guitarrista Mark Kloeppel que maior montra tem neste trabalho devido às suas inspirações técnicas e musicais em bandas icónicas da cena sueca – de Edge Of Sanity e At The Gates até Opeth (como na faixa “The Burning Desire”) ouve-se de tudo um pouco relacionado ao death metal melódico. Escusado será dizer que a produção ficou ao cargo do emblemático Dan Swanö.

s fronteiras do metal, do progressivo e do que é isto ou aquilo são sempre muito difíceis de definir. Por isso, um fanático de algum género específico dificilmente se identificará com este jovem quarteto australiano que aqui se aventura com o seu segundo longa-duração depois da estreia auspiciosa em 2013 com “Infinitas”. Se já conheces esse trabalho, sabes o que esperar: riffs técnicos, requintados apontamentos electrónicos e ritmos intrincados. Numa paleta de cores com muitos espectros, há espaço para o djent, o balanço do metalcore, muitas passagens progressivas e melodias enleantes. Um álbum convidativo que vale a pena descobrir devido à competência técnica e ao excelente equilíbrio de forças, mas que não vai deixar ninguém aturdido pela originalidade.

riado a pensar em todos aqueles que se sentem sozinhos, são dominados por pensamentos suicidas ou vivem num estado depressivo, "The Gale" é atmosférico, criando ao nosso redor um ambiente nostálgico com a combinação entre doom e death metal a fazer de "The Gale" um disco igualmente rígido e pesado. De facto, a componente atmosférica é mesmo o ponto forte do quarto longa-duração do colectivo liderado por Pauli Souka, ficando o restante disco marcado por um duelo entre guitarras que ora providenciam riffs típicos de doom metal, ora choram melodias que se fundem perfeitamente com a toada atmosférica, mas que nem sempre acertam na concretização. Um disco mediano com pontos positivos suficientes para merecer uma escuta atenta.

justifica a recuperação do direito ao nome da banda: criatividade desenfreada! Em “Great Escape”, Greaves revisita os temas de depressão que já haviam marcado “Bronze”, recorrendo a sonoridades ainda mais negras, tanto lírica como melodicamente. Belinda Kordic, mais presente, abraça a fantasmagoria proeminente nas vocalizações. A densidade de texturas é acentuada com sintetizadores que comunicam tensão a lembrar ambientes de “Welcome to the Machine” em que Pink Floyd também denunciavam o apodrecimento da sociedade. A revolta é o tema central de um LP bem orquestrado e ritmicamente rico em que se presta uma homenagem soturna aos clássicos com os pés assentes no presente. Um álbum espesso que melhora a cada repetição!

diogo ferreira 7/10

josé branco 7.5/10

joel costa 6/10

gonçalo l. matias 8/10

DARK MILLENNIUM

DECAYED

DECLINE OF THE I

DEE SNIDER

MASSACRE

LUSITANIAN MUSIC

AGONIA

NAPALM

PROG METAL

BLACK METAL

POST BLACK METAL

HEAVY METAL

Where Oceans Collide

Of Fire And Evil

O

Escape

N

For The Love Of Metal

S

D

s mais velhos e conhecedores recordar-se-ão com nostalgia dos singulares Dark Millenium, banda alemã de doom/death metal progressivo do final dos anos 80. De regresso com “Where Oceans Collide”, logo na faixa inicial há motivos para sorrir, pois “Vampire’s Empire” é Dark Millennium clássico, com aquela cadência de bateria e voz única que seria copiada até à exaustão por bandas como Pestilence. O álbum apoia-se quase totalmente no conservadorismo, sem grande destaque para experimentação ou progresso, que foram os dois factores que meteram o nome da banda no panteão das melhores bandas clássicas. Fará lembrar nitidamente “Ashore The Celestial Burden”, mas nunca “Diana Read Peace”. Ainda assim, é um disco acima de bom que fará as novas gerações pesquisar pelos verdadeiros diamantes que os Dark Millennium lançaram nos anos 90.

uma época em que o movimento black metal nacional se aprimora a cada ano que passa, os Decayed voltam a levantar a fasquia da solidez. “Of Fire And Evil” consegue ser um dos discos mais agressivos da banda, mesmo contando com “The Burning Of Heaven” que, em comparação, mais parece um trabalho de doom metal. Apostando menos em arranjos sinfónicos e outras subtilezas, mas muito em velocidade e numa produção inaudita na carreira dos Decayed, “Of Fire And Evil” regurgita 11 temas de black metal/thrash/speed metal acutilante e mais podre do que antes, a começar com “Firestorm”, que denota tiques clássicos de Bathory e Beherit. Trata-se de um trabalho individualista, que não entra com facilidade e que é totalmente desfasado do panorama nacional – ou seja, o mínimo que poderíamos esperar de Decayed.

eis anos depois de terem iniciado uma trilogia baseada nos estudos do cirurgião e filósofo Henri Laborit com “Inhibition”, e passando pelo estrondoso “Rebellion” (2015), os franceses Decline Of The I dão por terminada esta caminhada com “Escape”. Um pouco menos excitante do que “Rebellion” e mais ortodoxo em relação ao que é black metal mesmo na actualidade, o grupo desenrola a sua música com malhas atmosféricas que se encontram no limbo entre a dissonância e a melodia, sem esquecer breves segmentos de piano ou de música electrónica que agora em 2018 está um pouco menos presente, mas que continua a ter o seu spotlight aqui e ali. Nem sempre os finais podem ser épicos e gloriosos, também podem ser sufocantes e enegrecidos.

ee Snider é uma das lendas do rock, sendo maioritariamente reconhecido por ser a voz de Twisted Sister, e quando Jamey Jasta (Hatebreed) o desafia para compor/gravar um álbum de rock contemporâneo… Dee Snider faz um álbum de heavy metal. Heavy metal mesmo! Com 12 faixas curtas (a rondar os 3 minutos), o ícone multifacetado tem aqui tudo o que é necessário num disco de heavy metal: todos temas são catchy, têm um kick muito sugestivo e são musculados através de malhas pesadonas e esgalhadas com pozinhos de thrash metal. Já a voz é dinâmica e poderosa que em nada faz prever os 63 anos do vocalista. “For The Love Of Metal” é uma lição de como se fazer heavy metal. Obrigado, professor Snider.

joão correia 7.5/10

joão correia 7.5/10

diogo ferreira 7/10

diogo ferreira 8/10

DEE SNIDER: "É uma lição de como se fazer heavy metal." 37 - ULTRAJE #17


em

destaque Fotografia: Peero Lakanen

Cada faixa em “Kulkija” representa uma emoção específica sobre o que é estar longe de casa. Destacamos os dois singles.

KORPIKLAANI Kulkija

NUCLEAR BLAST FOLK METAL

S

em contar com bandas formadas desde pelo menos 1993, estes folkers finlandeses já nos dão música como Korpiklaani há uns 15 anos. Folclore, cerveja, festa, rebaldaria – foi sempre o que a banda

de Lahti nos proporcionou, mas às vezes temos de acalmar. “Kulkija” – que significa andarilho, viajante – é precisamente sobre as emoções da banda enquanto anda na estrada, longe de casa, com saudades de casa. Mesmo que o disco abra com duas faixas típicas (“Neito” e “Korpikuusen kyynel”), cedo se torna evidente que o novo registo da banda é diferente: menos metal (ainda que com as devidas guitarradas), menos veloz e espampanante, mais melódico, mais adulto e mais negro (como é exemplo a doomy “Sillanrakentaja”). Alguma melancolia, que pode não ser assim tão evidente, absorve-se com a melodiosa “Aallon Alla” e sentimos realmente saudades de algo que já passou com

a belíssima balada acústica “Harmaja”, mas ainda assim podemos contar com aquela toada festiva e energética através de “Kotikonnut”, um dos temas lançados anteriormente como single. Menos metal, como referido, as guitarras têm outro tipo de função neste “Kulkija”, aparecendo mais à retaguarda e de forma a preencher um fundo musical que se transporta para a frente através dos omnipresentes Järvelä (voz), Rounakari (violiono) e Perttula (acordeão). Quanto à produção, os Korpiklaani decidiram tornar as coisas um pouco mais cruas ao preferirem mostrar como podem soar ao vivo.

“Harmaja” Descreve ansiedade e perda de memória através da metáfora de uma toutinegra que não consegue migrar por causa de uma asa partida. Segundo a banda, este tema também pode significar a vida cinzenta que nos assola quando o nosso parceiro romântico morre. “Kotikonnut” Fala de um viajante que, mesmo adorando a vida na estrada, sente saudades dos tempos em que corria pelos prados com a sua amada, julgando que isso duraria para sempre. Acaba por aceitar que tudo se desvanecerá com o tempo. Por: Diogo Ferreira

diogo ferreira 7.5/10

DORO

EPICA

FOSCOR

GWYDION

NUCLEAR BLAST

NUCLEAR BLAST

SEASON OF MIST

ULTRAJE

HEAVY METAL

SYMPHONIC METAL

DARK PROG METAL

FOLK METAL

Forever Warriors / Forever United

A

Les Irreals Versions

Attack On Titan EP

O

Thirteen

N

S

rainha do heavy metal assinala o seu regresso aos discos com um duplo álbum muito especial. Contendo 25 faixas novas, "Forever Warriors, Forever United" é uma delícia para os ouvidos que vê a cantora alemã assumir um verdadeiro papel de guerreira ao tomar-nos de assalto com temas como "All For Metal" ou "We Are The Metalheads", enquanto nos deixa recuperar o fôlego com contribuições mais ligeiras, como é o caso da balada "Lift Me Up". É um álbum duplo com momentos divertidos e energéticos, apresentando uma série de temas que servem como hinos ao heavy metal e que são bem capazes de agitar a setlist da cantora nas suas apresentações ao vivo. Um duplo disco cheio de atitude e refrãos efusivos que presta a devida homenagem ao estilo musical invulnerável que é o heavy metal.

mítico colectivo holandês interpreta a banda-sonora da popular série de anime ”Attack On Titan” neste EP composto por quatro faixas acompanhadas pelas respectivas versões instrumentais. O metal sinfónico/ progressivo que tem sido desenvolvido pela banda há mais de 15 anos é o perfeito veículo para as composições obscuras e épicas da série, com as nuances de peso, terror, grandiosidade, beleza e poder que Mark Jansen & Cia. exploram com domínio absoluto. A cada lançamento, a banda traz consigo elementos que revitalizam um som e género que estão em grande parte mortos e, embora seja numa escala menor, isso é ainda visível neste EP. O resultado final é uma interpretação bastante interessante e explosiva de uma banda-sonora intensa e icónica.

um reimaginar da sua própria música, os catalães Foscor pegam em cinco temas do álbum anterior, “Les irreals visions”, e um de “Those Horrors Wither” para os reconstruírem e regravarem, agora com uma toada muito mais atmosférica e lenta. Abandonando totalmente os poucos elementos que ainda mantinham relacionados ao black metal, criam uma atmosfera muito mais etérea e intimista, onde temas já conhecidos renascem e reinventam-se, mas sem nunca perderem a sua alma original. Um álbum para apreciar na sua plenitude sonora, este “Les irreals versions” mostra-nos que esta banda do país vizinho é capaz de uma versatilidade invejável. A lentidão plácida de contemplação que nos infunde a música transporta-nos a planícies etéreas, guiados pela voz suave de Fiar, numa experiência quase mística.

ucedendo “Veteran” (2013), “Thirteen” é o quarto álbum dos portugueses e representa uma maturação musical e conceptual, mesmo que se trate de uma banda com mais de 20 anos de carreira. Com “Thirteen”, começa-se lá no Norte com “793”, ano que representa o início da Era Viking, e segue-se até ao Sul em faixas como “Oh Land Of Ours – Al Andaluz”. Faremos parte de batalhas, cercos, confrontos de aço e últimos suspiros – tudo composto por malhas de guitarra bem detalhadas que bebem de muito death metal melódico, uma bateria bélica que marca o passo da marcha dos batalhões, vozes diversificadas entre o berro e o imperativo da ode cantada, sem esquecer os elementos folk que dão cor e energia a toda a discografia dos Gwydion.

joel costa 7.5/10

ricardo rodrigues 6.5/10

pedro félix da costa 8.5/10

diogo ferreira 8/10

HALCYON WAY

INTEGRITY & KRIEG

ISKALD

KHÔRADA

AGONIA

RELAPSE

INDIE RECORDINGS

PROPHECY

PROG METAL

BLACK METAL/PUNK HARDCORE

BLACK METAL

METAL/ROCK

Bloody But Unbowed

D

Split

Innhøstinga

H

Salt

“I

E

escrever o som de Halcyon Way é, ao mesmo tempo, fácil e desafiante. Compartimentar a banda segue o mesmo caminho. Com elementos de heavy metal e um pouco de power como alicerces, podíamos assumir que seriam mais uma banda nessa categoria, mas a coisa complica com o passar das audições. Elemento a elemento, o som vai-se revelando simples mas complexo, estanque mas diversificado. Guitarras a debitar riffs poderosos, que trilham caminhos progressivos, vozes melódicas enriquecidas com coros que se cruzam com vocalizações guturais, os Halcyon Way pegam no heavy/power e enriquecem-no com elementos mais típicos de outros estilos. Aquilo que, à uma primeira vista, parece uma manta de retalhos, torna-se um excelente puzzle onde todas as peças encaixam. Imprevisíveis num estilo previsível.

á muitas coisas que não testemunhámos nem vamos testemunhar por não fazermos parte dum período temporal, e ainda há outras que não se concretizam simplesmente – os Pantera já não se reunirão e dificilmente teremos um combate entre Undertaker e Sting. No entanto, vivemos o suficiente para termos um split de Integrity e Krieg. Por um lado ouvimos a mistura explosiva de punk, hardcore e algum death metal dos Integrity que de velhos só mesmo a idade, por outro assistimos audivelmente ao black metal norte-americano dos Krieg que aqui parece aproximar-se um pouco da sonoridade dos primeiros para que este split faça realmente sentido, ainda que menos veloz mas igualmente furioso e robusto. Em suma, é essencialmente de culto que trata este lançamento.

nnhøstinga” é um disco que nos leva de volta àquela atmosfera fria e bruta do black metal; no entanto, as composições contêm um forte elemento melódico e a qualidade de produção é (relativamente) alta. Neste lançamento, a banda canta metade das músicas em inglês e a outra metade em norueguês, o que cria uma mudança interessante, mas subtil, na estrutura geral do álbum. Os instrumentais são dinâmicos e as diferentes mudanças de textura, ambiente ou intensidade são compostas de forma admirável, dando ao disco uma grande coesão. Apesar de tudo isto, este lançamento continua a ser bastante seguro. A sua competência é admirável, mas podia ser levada um passo à frente. Os Iskald são bons, mas sente-se que ainda não chegaram ao seu verdadeiro potencial.

m Maio de 2016 desapareciam os Agalloch. Em Agosto do mesmo ano surgiam os Khôrada com Anderson, Walton, Dekker (três ex-Agalloch) e Aaron John Gregory (ex-Giant Squid). A premissa era simples: continuar com um som panorâmico que fosse diferente do que já tinham feito antes. Missão cumprida. “Salt” é um álbum que pode ser luminoso através de leads interessantes, negro devido a passagens arrastadas ou rápidas – um paradoxo que se encontra na negritude –, complexo com malhas distintas que se encaixam e, sobretudo, solto de regras. Há rock, metal, momentos muito cativantes e até instrumentos de sopro. Mas há, acima de tudo, uma inclinação conceptual anticapitalista e pró-ambiente que se define na convulsão sociopolítica vivida não só nos EUA mas em todo o mundo.

pedro félix da costa 8/10

diogo ferreira 7/10

diogo lourenço 7/10

Diogo ferreira 9/10

KHÔRADA: “[Um álbum] solto de regras.” 38 - ULTRAJE #17


em

POWERWOLF

The Sacrament Of Sin NAPALM POWER METAL

M

Muitas vezes é importante sabermos de onde vimos para percebermos quem somos – com Powerwolf acontece o mesmo.

Fotografia: Cortesia Napalm Records

destaque

ais uma ficha, mais uma volta. Os Powerwolf regressam com a sua fórmula musical cativante que ainda não se mostrou estagnada. Aliás, ao fim de sete álbuns estes lobos sacros, que mantêm o conceito

lírico religioso, até evoluíram nalgumas abordagens musicais. Há uma melhoria exponencial nas orquestrações com mais elementos perceptíveis, nomeadamente instrumentos de sopro graves, que proporcionam mais músculo a essa ala muito importante nesta banda. O mesmo aplica-se a algumas malhas de guitarra mais trabalhadas do que habitualmente em Powerwolf, o que ao fim de tantos anos parece querer mostrar que já era tempo de Charles e Matthew (guitarras) deixarem de se esconder correntemente atrás dos teclados e orquestrações de Falk Maria Schlegel. Contudo, o primeiro grande choque – se é que lhe podemos chamar assim – acontece na terceira “Killers with the Cross” que facilmente

faria parte de um álbum de Sabaton devido à passada e ao uso de orquestrações em suporte àquelas passagens sem guitarras, apenas com baixo e bateria. Já na quarta “Incense and Iron” parece haver uma certa confusão temática: começa por parecer sonoramente relacionada à Escócia, mas depois ouvem-se uns ‘UÁ!’ bem espartanos – algo nos escapou… Ou a eles. Há ainda espaço para uma power-ballad em “Where the Wild Wolves Have Gone” e língua alemã em “Stossgebet”. Mesmo com os desenvolvimentos atrás explanados, “The Sacrament of Sin” é um álbum à Powerwolf, disso não há dúvida.

Os guitarristas e fundadores Charles Greywolf (David Vogt) e Matthew Greywolf (Benjamin Buss) tocavam juntos há tantos anos que decidiram criar uma banda para além de Flowing Tears. Depois de incluírem Stéfane Funèbre na bateria (substituído por Roel van Helden em 2011) e uma das almas da banda que é o teclista Falk Maria Schlegel, faltava um vocalista. Foi então, numas férias na Roménia, que conheceram Attila Dorn que, na altura, estudava ópera em Bucareste. Seguiram-se sete álbuns de grande sucesso. Por: Diogo Ferreira

diogo ferreira 8/10

KRAKOW

LORD OF THE LOST

MADDER MORTEM

MANIMAL

KARISMA

NAPALM

DARK ESSENCE

AFM

POST ROCK

MODERN METAL

PROG METAL

HEAVY/POWER METAL

minus

Marrow

Thornstar

A

Á

Purgatorio

S

T

nova proposta dos Krakow é um trabalho que desafia qualquer um a chegar-se à frente com um rótulo. Tanto é indicado para adeptos de malhas lamacentas de uns Alice In Chains, como aguça o apetite aos fãs de post rock e noise, como ainda nos remete para um sentido etéreo na onda de uns Junius. Focado nuns momentos e desorientado noutros, à custa de uma veia experimentalista muito forte, “minus” é uma provocação constante aos sentidos: pesado e subtil, melódico e dissonante, limpo e sujo, airoso e claustrofóbico. Os Krakow, através de “minus”, provam que são um distúrbio mental em movimento que com música bem feita têm a capacidade de nos agarrar e fazer ouvi-los mais do que uma vez.

lbum após álbum, a arte sonora dos Lord Of The Lost tem vindo a florescer. Com uma base metal que se desenvolve para campos industriais e electrónicos, mas sempre com aquela inclinação negra, os germânicos fazem esquecer que este subgénero pode estar estagnado. Melodioso e cativante em toda a sua duração (destaque para as faixas “Loreley” e “Morgana”), Chris Harms apresenta-se um vocalista totalmente versátil com uma voz que vai do grave ao suave, sem esquecer o berro. Já os restantes colegas têm de ser congratulados pela coesão que os seus instrumentos evidenciam, bem como pela experimentação ao gravarem samples de percussão das mais variadas maneiras, como, por exemplo, com caixas de cartão ou furando peles de tambores. Ao sexto álbum já estão bem adultos.

e por esta altura ainda não têm os Madder Mortem como uma das bandas mais únicas da Noruega e do resto do mundo, então “Marrow” – o sétimo disco do colectivo nórdico – será aquilo que precisam para se deixarem convencer por tal proposição. Agnete desperta-nos com a sua hipnotizante harmonia vocal, enquanto as guitarras e a atmosfera geral da sonoridade apresentada pelos noruegueses aposta numa infusão de elementos jazz e progressivos, aliados a uma incursão de guitarras pesadas que relembram o doom atmosférico com que a banda nos surpreendia num passado não muito distante. "Marrow" tem as doses certas de melodia e melancolia, mostrando que os Madder Mortem não perderam nenhum dos atributos especiais com que nos nos têm deliciado desde o final do século passado.

erceiro trabalho para estes suecos. Para quem já os conhece de registos anteriores, este não trará novidades. É verdade que os Manimal cedo encontraram a fórmula certa para o seu som e mantêm-se fiéis a isso. Bandas como Brainstorm já fizeram o mesmo no passado, com relativo sucesso. Com um heavy metal musculado que bebe as suas influências nos grandes do género - como Judas Priest, entre outros -, agregando-lhe um encorpar de guitarras com origem no power, os Manimal apresentam-nos nove excelentes temas onde a melodia de qualidade, suportada por uma elevada capacidade técnica e uma produção em ponto de rebuçado aliada à soberba voz de Samuel Nyman, nos deliciam de início ao fim.

DIOGO FERREIRA 7.5/10

DIOGO FERREIRA 7.5/10

joel costa 8/10

pedro félix da costa 8/10

MONGREL'S CROSS

OMNIUM GATHERUM

PIG DESTROYER

RAVENS CREED

HELLS HEADBANGERS

CENTURY MEDIA

RELAPSE

XTREEM

THRASH/BLACK METAL

MELODIC DEATH METAL

GRINDCORE/DEATH METAL

DEATH METAL

Psalter of the Royal Dragon Court

D

The Burning Cold

Head Cage

A

Get Killed or Try Dying

A

“G

o mesmo país dos Deströyer 666 também vem o trio Mongrel’s Cross, que partilham algumas semelhanças sonoras com a banda mais antiga e mais conhecida, especialmente em relação ao black/thrash metal selvático. Que não se fique a pensar que estamos a falar de alguns monges copistas de riffs, bem longe disso - os Mongrel’s Cross injectam no seu negro e porco disco muitas influências de death metal e até bastantes linhas melódicas que não estragam em nada a agressividade central deste segundo álbum de originais, mas até, em comparação ao disco de estreia, enriquecem a audição e revelam a versatilidade destes australianos. Bom e auspicioso.

grande virtude do death metal melódico é a capacidade de misturar elevados níveis de melodia e harmonia com a agressividade característica do death metal, assim como com as poderosas vocalizações que caracterizam este mesmo estilo. Mas esta conciliação é algo que anda no fio da navalha devido à combinação de extremos que representa. Não cair na melodia fácil é uma virtude ao alcance de poucos, pois é precisamente neste ponto que os Omnium Gatherum encontram a sua força. Capazes de conciliar marcadas melodias de guitarras e teclas com a força bruta do death, muito por força do elevado nível técnico dos seus elementos, os temas aqui apresentados tanto depressa nos envolvem em veludo como nos arrasam com o poder dos seus riffs.

o fim de 21 anos de carreira, os americanos Pig Destroyer atingem a maioridade e editam o primeiro álbum a incluir a presença do baixo. Este facto, junto com a excelente produção, dão o primeiro passo de gigante, em termos sonoros, quando comparado com o trabalho anterior “Book Burner”. Mas não é só um som mais limpo e definido que destaca este “Head Cage”; a qualidade do grind apresentado também evoluiu, podendo mesmo dizer-se que amadureceu, ou seja, também atingiu a maioridade. Desde a violência da inaugural “Dark Train” até ao encerramento com “House Of Snakes”, tema este impregnado de sludge, a par da característica agressividade do estilo, temos riffs mais acessíveis, que diversificam os temas, numa combinação equilibrada e recheada de qualidade.

et Killed Or Try Dying” é uma chapada de música crua e sem preconceitos. Elaboremos: após 10 anos de carreia, os Raven’s Creed lançam este que é o seu quarto álbum de originais. Uma dúzia de temas, que não se mostram fáceis de catalogar, enchem esta proposta de música directa e sem floreados. Catalogados como death metal, a sonoridade destes britânicos vai muito mais além, mas fica muito antes que isso. Complicado? Nem tanto. Se, por um lado, temos death, por outro temos thrash de influência americana, sem falar no hardcore ou no punk. Solos? Nem vê-los… Riffs? Sempre a rasgar. “Get Killed Or Try Dying” não pára para ninguém, não faz compromissos, é puro e cru… E é aí que reside a sua beleza.

TIAGO NEVES 7.5/10

pedro félix da costa 8/10

Pedro Félix da Costa 8/10

Pedro Félix da Costa 7.5/10

PIG DESTROYER: “Combinação equilibrada e recheada de qualidade.” 39 - ULTRAJE #17


em

destaque Fotografia: Anthony Dubois

No alinhamento dos Sinsaenum constam nomes saídos de bandas como Slipknot, DragonForce ou Mayhem. Por: Joel Costa

SINSAENUM

Repulsion For Humanity EARMUSIC DEATH METAL

G

randes coisas acontecem quando indivíduos com reputações intocáveis decidem partilhar esforços. "Repulsion For Humanity" é um disco complexo que trilha os caminhos sombrios do death metal, do

black metal, do grindcore e do groove metal, fruto da genialidade de seis dos mais relevantes intervenientes da cena metal mundial. A inicial "Repulsion For Humanity" engana - equilibra-se entre o death e o grindcore, com o trabalho rítmico de Joey Jordison (ex-Slipknot) a parecer um TGV e com as dissonâncias vocais de Attila Csihar (Mayhem) a lembrarem-nos por que é que o húngaro esteve presente em todos os trabalhos de proa do género desde há 25 anos. De seguida, "Final Resolve" faz-nos lembrar amiúde Pantera, uma influência inequívoca, com todos aquele riffs de marca infestados de groove e muito peso, mas é "I Stand Alone" que reforça essa presença e até cujo nome

da faixa poderia ter sido criada por Anselmo. Ouvem-se toques de Dissection ("Sworn To Hell"), bem como de black metal de vanguarda ("Nuite Noire") e uma sensação de Morbid Angel ao longo de todo o disco (em "Insects" é por demais nítida). Por fim, "Forsaken" é um momento épico de quase 10 minutos com que a banda explora teclados, um ambiente muito sinistro e conjuga todas as faixas anteriores com uma mestria rara, sempre sem aborrecer. "Repulsion For Humanity" será facilmente um dos melhores discos extremos de 2018.

João correia 8/10

Joey Jordison (Slipknot) Jordison emprestou as baquetas a uma série de bandas mas foi nos Slipknot que o seu trabalho se tornou mundialmente reconhecido. A par com o guitarrista e fundador Frédéric Leclercq, o baterista é uma das forças motrizes deste projecto. Frédéric Leclercq (DragonForce) Quem diria que o baixista dos DragonForce nos iria dar uma lição de death metal? Com Sinsaenum, o músico mostra até onde pode ir a sua elasticidade musical. Attila Csihar (Mayhem) A contribuição vocal de Attila Csihar foi mais evidente no primeiro trabalho da banda, ainda assim a sua presença na formação dos Sinsaenum confirma o poderio do colectivo.

TANTARA

TARJA

THE SECRET

THE SPIRIT

INDIE RECORDINGS

EARMUSIC

SOUTHERN LORD

NUCLEAR BLAST

THRASH METAL

SYMPHONIC ROCK

POST BLACK METAL

MELODIC BLACK/DEATH METAL

Sum Of Forces

Lux Tenebris EP

Act II

Q

D

Sounds From The Vortex

N

N

uando se aprecia thrash, dificilmente algo que um determinado álbum/grupo que se mova na variante que te agrada lance te irá desagradar. Aqui reside o problema de Tantara. A sonoridade apresentada por estes noruegueses é thrash e vai buscar as suas raízes à sonoridade americana dos 90, em bandas como Anthrax, Nuclear Assault ou Exodus, mas não se podem considerar old-school. Para além deste facto, são tecnicamente muito evoluídos e presenteiam-nos solos magistrais, bem como riffs tecnicamente perfeitos e de um excelente trabalho do baixo. O que deixa algo a desejar é a voz. No entanto, tudo isto não compensa a falta de carisma da música que não nos consegue prender como devia. Muito bom, é verdade, mas podia ser excelente.

ando continuidade ao sucesso de “Act I”, a finlandesa Tarja faz-nos chegar “Act II”. Gravado durante a tour mundial “The Shadow Shows”, a influente cantora finlandesa apresenta um contraste entre o concerto intimista gravado em Londres e ao qual assistiram duas dezenas de pessoas, e um concerto bem mais preenchido gravado em Milão. Dotado de um excelente trabalho de mistura, a qualidade de áudio faz com que nenhum detalhe fique perdido, dando a sensação de estarmos a ouvir o concerto ao vivo, no meio do público, mas num lugar privilegiado. É um registo fluido em que os temas se tornam um só, criando de forma exímia a atmosfera que se espera de um álbum do género. "Act II" tem tudo para deixar qualquer fã de Tarja a salivar.

ão se falaram durante três anos até que reuniram sob o mesmo tecto em 2015 para agora, mais três anos depois, emitirem as primeiras composições desde “Agnus Dei” (2012). Uma coisa é certa: a sonoridade de The Secret continua visceral e confrontadora, mas dão agora lugar a uma percepção moral esquecendo tempo e decadência. Com o novo EP, os italianos abandonam abordagens minimalistas e debruçam-se sobre composições com mais textura e camadas, especialmente evidenciadas pelo trabalho das guitarradas exponenciado, por exemplo, na faixa “Cupio Dissolvi” que encerra esta proposta de três temas. Saberá a pouco – até porque estamos perante menos de 20 minutos de duração –, mas “Lux Tenebris” deixará os fãs em regozijo. Talvez venha aí um novo longa-duração…

esta estreia, originalmente lançada em 2017 e reeditada agora pela NB, o quarteto germânico usa todos e quaisquer artefactos já projectados pelos Dissection, mas se nos conformarmos com o clone vamos usufruir deste disco na sua plenitude. Furioso mas melódico, extremo mas detalhado, energético, com sangue novo e boa execução – vamos sempre dizer que é bom, ainda que com aquela pulga atrás da orelha pois o que se ouve aqui está mais do que feito… Só que é bom! E assim entramos nesta espiral de repetição: por um lado quer-se destruir os The Spirit e mandá-los fazer música com mais identidade, mas por outro lado temos de dar a mão à palmatória e consentir que se trata de black/death metal melódico de qualidade.

pedro félix da costa 7/10

joel costa 7/10

diogo ferreira 7.5/10

diogo ferreira 7/10

THROAT

TRAPPIST

ULTRAPHONIX

WITCHFYRE

SVART

RELAPSE

EARMUSIC

FIGHTER

NOISE ROCK

HARDCORE

HARD ROCK

HEAVY METAL

Bareback

Ancient Brewing Tactics

P

Original Human Music

H

Grimorium Verum

"O

"G

assados cinco anos, chega-nos o segundo álbum de uma banda que cedo se tornara uma referência no noise rock finlandês. Revela-se então uma curiosa quimera, onde facilmente se identificam rastos de Godflesh, Melvins e Helmet. Com o novo line-up introduzem-se novas influências, perfeitamente colocadas entre o indie rock e o post hardcore, sem desleixar um tom sludgy. Desde logo se sente o build-up de um álbum bem estruturado, onde um compasso ritmado se torna quase sufocante, sem perder a sua dose de tensão e agressão. A tonalidade obscura é reforçada pela dinâmica vocal e dissonância criada entre melodia e sons mecanizados, inspirados numa veia industrial. Um álbum que, mesmo sem particular destaque entre temas, nos garante uma abordagem fresca e renovada a cada audição.

ardcore, crust, d-beat e powerviolence já quase nem se distinguem nos dias que correm. Da Califórnia, os conhecedores de cerveja, que dão pelo bem aplicado nome de Trappist, oferecem um disco com 21 faixas que se bebem em cerca de 30 minutos. Mais: a banda promete dar-nos uma coça (auditiva) a cada faixa que passa mais depressa do que se bebe uma Russian Imperial Stout de penalti. Vamos ser o mais simples possível e dizer que Trappist é sobre cerveja e hardcore, porque a temática representa a primeira e a condução musical tem tudo a ver, pelo menos de base, com a segunda. É óbvio que vamos ouvir vocais furiosos, bateria frenética e riffs que roçam o thrash metal, fazendo disto também crossover.

riginal Human Music" é o disco de estreia dos Ultraphonix, um empreendimento levado a cabo por George Lynch (Lynch Mob) e Corey Glover (Living Colour). O álbum, que se distingue por um hard rock sólido, recorda-nos também o grunge dos Alice In Chains, como é o caso do tema de abertura "Baptism", enquanto "Another Day", por exemplo, serve de contrapeso com a sua abordagem melódica onde, e como é possível testemunhar ao longo de toda a duração do álbum, sobressai a parede de som criada pela guitarra de George Lynch e os seus magníficos solos. Há ainda tempo para evocar uns King Crimson ou até os primeiros álbuns de Red Hot Chili Peppers, como acontece com a última faixa "Power Trip". Um trabalho consistente, bem funky, e que agradará certamente aos fãs de Lynch.

rimorium Verum" é o longa-duração de estreia dos Witchfyre. Apresentando uma sonoridade em muito influenciada por King Diamond e os seus Mercyful Fate, os espanhóis proporcionam uma audição prazerosa onde dominam os licks de guitarra típicos do heavy metal clássico e riffs emprestados dos Iron Maiden. Ainda que à primeira audição os Witchfyre possam parecer uma cópia dos nomes supramencionados, a verdade é que isso está longe da realidade. Os solos partilhados entre os guitarristas e as constantes mudanças rítmicas, que dão por vezes lugar a uma espécie de doom executado a alta velocidade (como é o caso do tema "No Rest For The Witched"), serão motivos suficientemente fortes para vos convencer a explorar um disco sólido mas algo trapalhão.

andreia teixeira 8.5/10

diogo ferreira 7/10

joel costa 7/10

Joel costa 6.5/10

THROAT: “Um álbum que nos garante uma abordagem fresca e renovada.” 40 - ULTRAJE #17


Bandas obscuras, que entrem na nossa compilação ou cujas promos cheguem após o fecho das reviews? É aqui! Por Joel Costa CLUNGE DESTROYER Grind & Prejudice

COSMOGYRAL Behold

INDEPENDENTE

MY SOL CARGO PUBLISHING

GRINDCORE/CRUST

MELODIC DEATH METAL

O

"B

uvindo o tema "Chaos Is My Life", não é difícil perceber o quanto a sério os Clunge Destroyer carregam esse lema, e não seria de esperar outra coisa desta banda de grindcore/ crust. Influenciados por bandas do género da década de 1980, "Grind & Prejudice" contém temas simples, brutos, velozes e revestidos de uma sonoridade suja. Destaque para o tema-título do disco, que a par do que acontece com o restante alinhamento, faz lembrar uns Ratos de Porão em início de carreira.

ehold" é o álbum de estreia dos norte-americanos Cosmogyral. Com uma produção decente, os temas aqui presentes viajam por entre os mais variados estilos, fazendo com que "Behold" não seja um disco aborrecido mas que seja necessária, ainda assim, alguma atenção para não deixar fugir nenhum pormenor. O vocalista recorre predominantemente a growls, com alguns momentos mais melódicos a tomarem-lhe a vez esporadicamente e com alguma timidez. Um trabalho sólido!

CRONAXIA

HEREDITARY

Collapsing the Outer Structure

Sin

LUSITANIAN MUSIC

INDEPENDENTE

DEATH METAL

DEATH METAL

E

O

ste ano de 2018 assinala o muito aguardado álbum de estreia dos portugueses Cronaxia. Com o experiente Rolando Barros (Grog) na bateria, “Collapsing the Outer Structure” é uma demonstração de agressividade crua que não cairá bem aos fracos de estômago. Com uma bateria dominante e que fala mais alto que os restantes instrumentos, este é um disco que, apesar de caótico, apresenta uma produção que não deixa nenhum pormenor de lado, ouvindo-se perfeitamente todas as cordas que nele participam.

s alemães Hereditary mostram que não está nos seus planos fazer reféns! Abertas as hostilidades com "Prophecy Of Fear", o nível de intensidade de "Sin" vai subindo faixa após faixa, até sensivelmente a meio do disco onde incorrem alguns momentos acústicos e melódicos, preparando-nos desta forma para uma nova colheita de temas brutais. "Sin" mantém sempre a sua solidez sem procurar fugir muito da sua zona de conforto. Há leads para todos os gostos, havendo inclusivamente espaço para wha-whas.

LACKTOR

LELAHELL

Hambruna

Alif

VIA NOCTURNA / BARBARTE

METAL AGE PRODUCTIONS

OLD-SCHOOL DEATH METAL/THRASH/CRUST PUNK

DEATH METAL

O

riundos do Chile e com edição em CD, cassete e vinil, "Hambruna" mostra-nos uns Lacktor em excelente forma. A produção é o que seria de esperar de uma banda que aposta no crust punk ou no death metal da velha-guarda. É ruidoso, veloz e suficientemente bem executado para carregar no play e deixar que o headbanging tome conta do resto. Os temas de "Hambruna" estão ainda disponíveis no formato demo, no Bandcamp da banda, e é uma agradável surpresa até para acompanhar a evolução do produto final.

41 - ULTRAJE #17

É

do norte de África, mais precisamente da Argélia, que nos chegam os Lelahell. Com "Alif" ainda bem fresco na discografia do trio, este é um disco energético, bem produzido, com leads vibrantes e que bebe influências dos anos 90 protagonizado por Morbid Angel ou Cannibal Corpse. A banda, que se prepara para uma tour Europeia no final do ano, será certamente bem-recebida pelos entusiastas do género, que poderão encontrar em "Alif" motivos de sobra para esbarrar com a cabeça numa parede e pedir por mais.


LIMBO

Harbinger of Tempest

MALKAVIAN

INDEPENDENTE

FINISTERIAN DEAD END

DEATH/THRASH METAL

THRASH METAL

V

MARROWLANDS

Annihilating the Shades

At Age's End

N

MOTÖR MILITIA World in Flames

INDEPENDENTE

FINISTERIAN DEAD END

DOOM METAL

THRASH METAL

O

A

erdade seja dita, o tema introdutório não abona a favor dos Limbo, uma banda da Bélgica que tem neste "Harbinger of Tempest" o seu longa-duração de estreia. Felizmente, ultrapassada a introdução, as coisas começam a correr melhor. A produção não é das melhores, o que afecta principalmente a bateria, mas há bons riffs que, encaixados na composição decente com que os Limbo nos apresentam, mostram-nos a verdadeira essência da banda. Destaque para a faixa "Nation of Scars".

uma primeira conversa, os Malkavian levaram-nos a crer que a sua sonoridade deambulava entre o power e o thrash metal, mas ao ouvir "Annihilating the Shades" é que percebemos o quão errado estávamos, uma vez que o power fazia alusão ao poderio que têm no seu thrash/ groove metal! O segundo disco dos franceses será uma agradável surpresa para quem se quiser arriscar a ouvir um thrash metal ao quadrado! A banda deixa-nos, sem dúvida, expectantes para um próximo disco.

doom contido em "At Age's End", o primeiro EP dos Marrowlands de Jo Ruysen, tem a habilidade de nos conseguir convencer logo nos primeiros momentos. Com cinco temas instrumentais, a ausência de voz é perfeitamente compensada pela atmosfera criada neste disco, que une-se a uma sonoridade que por vezes atinge contornos épicos e deixa-nos espreitar este mundo que é só do belga Jo Ruysen. Para primeira audição, ouça-se o tema de abertura "Stolen Years".

ssim que a guitarra assume o controlo com "Zul", esquecemos tudo o resto para que a nossa mente fique concentrada a tentar antecipar o próximo movimento da banda. Oriundos do Bahrain, os Motör Militia conseguem ao terceiro disco chegar a uma identidade musical bem definida que, com alguma ajuda exterior, talvez venham a competir um dia em ligas maiores. "World in Flames" é senhor de um thrash metal agressivo, com leads decentes e firme no seu todo.

ORDOS

OVERSENSE

PLAGUE

RAVENSKÜL

House of the Dead

The Storyteller

MOVING AIR MUSIC

DR. MUSIC RECORDS

ROCK/STONER METAL

MELODIC POWER METAL

T

Order of the Scythe

E

Of the Minds of Madmen

DEADBANGERS

KRAKRABIT PRODUCTIONS

BLACK/DEATH/THRASH METAL

METAL

C

N

alvez tenha sido apenas impressão nossa, mas há momentos neste segundo disco dos suecos Ordos que fazem recordar uns Tool ou uns A Perfect Circle, e tão depressa o fazem como desfazem, levando-nos para o terreno de uns Windhand, por exemplo. Apresentando um rock com cheirinho a stoner metal, os Ordos têm em "House of the Dead" uma excelente proposta musical que tornará os nossos dias mais sombrios. Ainda precisam de provas? Ouçam "The Infernal God" ou o tema-título do disco!

ditado no passado ano, a descrição de power metal melódico assenta que nem uma luva na sonoridade dos germânicos Oversense. "The Storyteller" é melódico, meloso e transforma baladas em ritmos mais acelerados como quem estala um dedo. Com uma boa execução, este é um disco que interessará aos fãs devotos do power metal e que apreciem melodias no geral. Faixas como "Wild Hunt" ou "Purgatory" são bons exemplos do que vos reserva este "The Storysteller".

om uma edição em cassete limitada a 150 unidades, os Plague são a típica banda underground de metal extremo. Mas atenção, não pensem que isso é mau! A produção não é muito boa, tal como seria de imaginar depois de obtida a informação anterior, mas é perfeitamente audível e perceptível, tendo em conta os parâmetros do género, claro! Com uma mistura dos principais géneros do extreme metal, os Plague levam-nos para terrenos minados onde em cada riff há o risco de explosão.

ão faltam ideias a Andy "RavenSkül" Venaas, o homem por detrás do projecto Ravenskül, ou não tivesse o músico britânico editado mais de meia dúzia de álbuns só em 2018! Sob uma espécie de aura tribal, o artista conduz algumas experiências dentro do largo espectro do metal, mas com o thrash metal a servir de principal referência. Para quem é mais receptivo a ouvir o produto saído de quem pensa fora da caixa, então talvez encontre uma boa surpresa no trabalho de RavenSkül.

SCORIA

SHIZUMUNAMARI

SKYGLOW

THE LIGHTBRINGER

Inmortal

Demo2017

NO WASTED

INDEPENDENTE

THRASH METAL/CROSSOVER

DOOM METAL/STONER/SLUDGE

N

Thousand Years of Terror

É

Heptanity

INVERSE/GROTESQUE SOUNDS

INDEPENDENTE

PROGRESSIVE DEATH METAL

MELODIC BLACK/POWER METAL

C

S

aturais de La Paz, Bolívia, a história deste quarteto remonta a 1992, tendo em "Inmortal" o quarto longa-duração e primeiro desde 2004. Com o thrash metal a servir de base, a sonoridade dos Scoria por vezes até reflecte bem o local de onde são oriundos, ao trabalharem temas mais melódicos e que fogem à velocidade e fúria que pode ser encontrada em faixas como "Dias de furia" ou o tema-título. Um disco decente para quem quiser explorar o que se faz na América Latina.

do Japão que nos chega a demo gravada em 2017 pelos Shizumunamari. Sem recurso a guitarras eléctricas, este duo é apenas composto por um baixista/vocalista e por uma baterista, o que dá a esta demo as razões de que precisava para não a deixarmos passar ao lado e dar-lhe a merecida atenção. Tendo em conta que não estamos a falar de um trabalho de estúdio, torna-se desnecessário falar da produção ou da voz desafinada, até porque, pela atitude com que se entregaram a este registo, o que interessa é o sludge!

lassificados como banda de estúdio, o duo que compõe Skyglow aposta numa sonoridade progressiva servindo-se do death metal como base. Com "Thousand Years of Terror", os russos arranjam espaço para tudo: guitarras clássicas, pianos, sons atmosféricos e, como não podia deixar de ser, um death metal bem estruturado onde os músicos deram largas à imaginação para fazer deste estilo algo único e inimitável. Cada tema é peculiar à sua maneira, pelo que o disco requer várias audições para se dar a conhecer.

ão do Canadá mas afirmam ser originários de planetas longínquos, já mortos ou esquecidos. Com uma temática que gira em torno de energia e de éons, a voz em The Lightbringer é partilhada pelo búlgaro Stan Stefanovski e a canadiana Fanny Grenier, que ora trazem até nós um registo black metal, ora deliciam-nos com os tons melódicos do power metal. Um grande disco de uma banda que mostra ser cheia de revelações. Espera-se apenas que não voltem a demorar sete anos para um novo lançamento.

TROLL MOTHER

TSAR STANGRA

VERMILIA

VOLCANO CALCULATOR

Forest Child

Celestial Forger

SKELETON EYES

EASTERN HAMMER

STONER/SLUDGE METAL

PAGAN BLACK/FOLK METAL

R

eais ou imaginários, os trolls trouxeram pelo menos uma coisa de positivo: as bandas que nessas criaturas míticas se inspiraram, e o EP "Forest Child", dos britânicos Troll Mother, é o resultado disso mesmo. Composto por três faixas onde está incluído um prólogo, "Forest Child" conta-nos velhas histórias de quando os trolls caminharam na Terra. Tudo isto é acompanhado por um stoner/ sludge metal de vocais frenéticos e um ritmo esquizofrénico, e onde somos servidos por uma produção pobre mas que vale pela autenticidade.

A

Kätkyt

residir no Canadá mas de origens eslavas, os Tsar Stangra dão-se a conhecer com "Celestial Forger", um disco que combina black metal com folk da Bulgária. De digestão fácil, este trabalho passa a correr, não deixando, no entanto, de nos presentear com belos momentos de folk metal e com uma atmosfera bem conseguida. Por vezes confuso, os Tsar Stangra mostram em "Celestial Forger" que terão as capacidades necessárias para criar outras propostas musicais que venham a servir de referência para o que se faz, por exemplo, no Leste Europeu.

Volcano Calculator

INDEPENDENTE

ULUSULU MUSIC

PAGAN METAL/BLACK METAL/ATMOSPHERIC

SLUDGE TECH METAL

V

ermilia é a expressão artística da finlandesa que dá nome ao projecto. Com uma receita onde podemos encontrar referências pagãs da Escandinávia e uma voz que é tão doce como crua, que ecoa melodias melancólicas, não podemos deixar de pensar em Myrkur quando ouvimos o estreante "Kätkyt". Cantado na sua língua-mãe, o disco tem na sua génese bons momentos de folk metal que nos fazem querer ouvir mais, mais e mais! As portas para Valhala foram abertas, deixem-nos entrar!

42 - ULTRAJE #17

C

om o seu EP homónimo, os canadianos Volcano Calculator investem numa sonoridade progressiva executada por uma guitarra de oito cordas e um baixo de seis, portanto já podem adivinhar o quão downtuned são os temas aqui presentes. "Volcano Calculator" é pesado e esquisito, mas quem foi que disse que isso pode ser mau? Há aqui material suficiente para que sludge tech metal seja universalmente aceite como um género musical, se é que ainda não o é!


Ultraje #17 (Agosto/Setembro 2018)  

Edição de Agosto/Setembro de 2018 da revista Ultraje www.ultraje.pt

Ultraje #17 (Agosto/Setembro 2018)  

Edição de Agosto/Setembro de 2018 da revista Ultraje www.ultraje.pt

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