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stávamos em 2015, a menos de um mês do lançamento de “Meliora”, e Tobias Forge dizia-nos que o seu maior receio era que o público descobrisse a identidade dos Ghost e perdesse assim todo o interesse pelo trabalho da banda. Depois de muita especulação em torno da identidade do nosso Papa favorito, já não é segredo nenhum que é Tobias Forge quem tem assumido as várias reincarnações do Papa Emeritus (agora Cardinal Copia) que passaram pelo fenómeno Ghost, tendo agora em “Prequelle” o derradeiro teste à sua preocupação: será que o público vai perder interesse somente devido ao facto do background musical do compositor sueco ter sido tornado público? Vamos descartar o trabalho que fez e a forma como - goste-se ou não - dominou a cena metal apenas por ter feito parte de bandas cuja personalidade visual (ou até musical) não vai ao encontro do que faz com os seus Nameless Ghouls? O tempo, como sempre, trará respostas a todas estas questões. Contudo, e independentemente do que possa estar reservado para os Ghost nos próximos tempos, Tobias Forge e os seus discípulos deixaram já uma forte marca na cena metal internacional e serão, com toda a certeza, tidos como um dos nomes que definiu esta geração do metal. O mês de Junho assinala o terceiro aniversário da Ultraje e também a estreia da Ultraje Brasil, uma nova publicação direccionada ao mercado brasileiro que, para já, estará disponível apenas no formato digital. A Ultraje Brasil irá beber muito do conteúdo que é apresentado aqui na revista, com os textos a serem adaptados ao Português do Brasil, e produzirá de igual forma conteúdos exclusivos. As brasileiras Nervosa são as primeiras a vestir a capa da Ultraje Brasil e a entrevista com a guitarrista Prika pode também ser lida nas páginas desta edição. Entre as várias novidades que temos anunciado, está também a renovação do design da revista, a inclusão de novos conteúdos e a exclusão das reportagens ao vivo que, de forma a manterem-se actuais, vão passar a residir no nosso website. Na Ultraje todas as edições são comemorativas e especiais, e gostamos de pensar que em momento algum atravessámos um fim de ciclo por estarmos sempre em constante renovação. Obrigado por estarem desse lado e cabe-nos assegurar-vos que continuaremos a trabalhar em diferentes formas de trazer o metal até vocês!

CONTEÚDOS

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GHOST

PREQUELA APOCALÍPTICA

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NERVOSA As brasileiras Nervosa têm em “Downfall of Mankind” a sua mais recente proposta, que tem como influência os direitos humanos.

Editor 06 - ULTRAJE #16

KATAKLYSM Estabelecidos em 1991, os canadianos Kataklysm continuam a reinventar-se com o novo “Meditations”.


ÍNDICE ENTREVISTAS

14 Powerized 16 Gaerea 17 The Konsortium 18 Nervosa 22 Ghost 26 Kataklysm 28 Uada 29 Orange Goblin 30 Yob 32 Filii Nigrantium Infernalium

CONTEÚDOS

08 Kvlt Express 10 Cena Metal Angola 11 Bloco Operatório 12 Bruce Dickinson 34 Lobos Que Foram Homens 35 Metal LGBT 36 El Stoner Rodeo 37 Tool "Lateralus": Do Chumbo ao Ouro 38 Reviews

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YOB O vocalista e guitarrista Mike Scheidt sobrevive a uma doença que lhe poderia ter custado a vida e traz a sua história à Ultraje.

Andreia Teixeira, Carlos Pinto, Cátia Cunha, Diogo Ferreira, Diogo Lourenço, Fernando Reis, Gonçalo L. Matias, Ivo Conceição, Jaime Ferreira, João Correia, Joel Costa, Jorge Almeida, José Branco, José Matos, Luís Lopes, Pedro Félix da Costa, Raquel Nunes Silva, Ricardo Rodrigues, Rui Vieira, Tiago Neves, Vânia Matos


STREAMBLEED

«”Enslave The World Forever” fala sobre resistir a um Estado de vigilância e questiona o caminho que a sociedade está a tomar». É este o tema central do álbum de estreia dos austríacos Streambleed, que têm como objectivo máximo trazer o groove metal de volta: «Somos influenciados maioritariamente por bandas de groove americanas como Lamb Of God, Pantera, Machine Head ou DevilDriver», dizem-nos. «A sonoridade da banda foi criada recorrendo a um largo espectro de influências, pois cada um dos membros tem gostos diferentes.» [JC]

BRUTAL KRAUT

Segundo o baterista Marlin Constantin, o mais importante para a banda germânica de death metal é «surpreender as pessoas com algo novo», pois «não há nada mais aborrecido do que ouvires uma dessas músicas genéricas em que já sabes onde vão aparecer os breaks e os hooks». O músico acrescenta: «Não somos uns desses tipos “trve metal”, que se isolam numa determinada direcção musical. Ouves o nosso álbum e percebes logo que as nossas influências vão desde o power metal ao black metal.» [JC]

CARRION

«AGORA TEMOS ALGO A QUE PODEMOS CHAMAR DE “NOSSO ESTILO”.»

“Time to Suffer”, dos belgas Carrion, chega às lojas dia 22 de Junho e o guitarrista Jan Van den Berghe dá-nos razões de sobra para não deixarmos que este lançamento nos passe ao lado: «É um disco mais coerente que o nosso álbum de estreia, “Revelations”. Agora temos algo a que podemos chamar de “nosso estilo”. É mais rápido, pesado, tem mais blastbeats, breaks e hooks, mas tudo isto sem esquecer a melodia e com riffs em doses suficientes para abanares a cabeça.» Os fãs podem, portanto, esperar um álbum enérgico: «Há uma interação entre as partes que são mais rápidas e os riffs que potenciam um headbanging mais lento. São temas rápidos que atraem o ouvinte, trazendo toda a sua energia à tona até que explode num grande, pesado e ligeiramente épico riff que deixa quem o ouve satisfeito. Também tentámos apresentar partes mais lentas ou até uma curta música instrumental apenas para captar a atenção do ouvinte e deixá-lo recuperar o fôlego entre as faixas.» Como ambição, a banda de death metal tem a esperança de «abrir novas portas e territórios com este novo álbum». «Tem sido complicado agendar concertos fora da Bélgica e gostávamos de tocar em palcos maiores. Talvez até uma tour europeia.» «O mais importante», considera, «é divertirmo-nos com o que fazemos». Berghe, que cita Lamb of God como uma das suas bandas favoritas, diz-nos que os norte-americanos «apresentam um estilo de metal muito moderno que todos podem apreciar». «Também temos como influência os Aborted, que são o orgulho da Bélgica. A forma como misturam brutalidade com riffs pesados e cheios de groove sempre foi uma influência para a nossa música.» Mas há mais: «Pessoalmente, o Ola Englund [Feared, The Haunted] é uma grande inspiração. A sua abordagem à composição, riffs, som de guitarra... É um músico do qual gosto muito no geral.» A banda prepara agora vídeos e merchandising para promover o novo lançamento. Os Carrion vão ainda marcar presença na edição deste ano do Antwerp Metal Fest. [JC]

BLUT

«”Inside My Mind Part II” foi a segunda parte de um álbum conceptual acerca de doenças mentais», diz-nos o fundador Alessandro Schümperlin a respeito da sua mais recente proposta. «O nosso objectivo era assinar com uma editora e acabámos por assinar com duas», revela, «e agora passa por levar a nossa música à Europa». O baixista Fabio Attacco acrescenta: «Todos nós vimos de cenas musicais diferentes: do industrial ao gothic, do power e sinfónico ao hardrock e psicadélico, passando até pelo punk rock.» [JC]

CROSSBONES

SCARLET

Os albaneses Crossbones têm em “WWIII” o seu mais recente trabalho, que surge duas décadas depois do álbum de estreia “Days of Rage”. Inspirado nos recentes eventos e conflitos globais, o carismático líder Olsi Ballta aprofunda sobre o conceito por detrás desta obra: «Fala sobre os horrores da guerra, mas também sobre a esperança que vem com ela», começa por dizer. «É um disco que combina o thrash metal americano com uma sonoridade mais negra e típica dos países do Leste da Europa.» Alcançado o objectivo de assinar um contrato que lhes permitisse editar o disco a nível mundial, os Crossbones elevavam desta forma a fasquia para as bandas de metal na Albânia: «Fomos os primeiros a atingir este feito no nosso país», confirma o músico, «e queremos promover o álbum ao nosso máximo para que as pessoas fiquem a conhecer não só os Crossbones mas também a Albânia.» Depois de uma extensa promoção a “WWIII”, os Crossbones preparam-se para gravar o seu sucessor: «Provavelmente vamos entrar em estúdio no final do ano e lançar o novo disco no início de 2019.» «O melhor ainda está para vir», assegura. [JC]

É da Polónia que nos chegam os Scarlet, que com o seu álbum de estreia homónimo trazem-nos a recordação das velhas glórias do hardrock e heavy metal: «A ideia com “Scarlet” é reviver a energia do heavy metal clássico dos anos 1980, mas de uma forma nova e fresca», explicam. «Cada um de nós tinha uma ideia de como haveria de soar, pelo que misturámos tudo e foi assim que chegámos a este resultado.» Aqui poderemos encontrar velocidade, groove, baladas e não só: «O mais importante para nós é a melodia, pelo que ao invés de tocarmos mil riffs que não fariam sentido nenhum na música, mantivemos a composição simples e ainda assim fora do normal. Estou certo de que todos os fãs de heavy metal com uma alma verdadeiramente rock n’ roll irão encontrar algo de interessante neste disco», remata. Sobre o futuro, os Scarlet confessam que querem «dar o maior número de concertos possível». «O objectivo da música é partilhar paixão e alegria com outros, e quantos mais melhor! O nosso foco está nos concertos ao vivo mas também queremos gravar um vídeo e gravar um novo disco.» [JC]

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ANGELIC DESOLATION

BLACK FOREST

A representar a cidade de Denver, do estado do Colorado, os norte-americanos Angelic Desolation apresentaram no final de Maio o longa-duração de estreia “Rumpus Time is Over”, um título que, de acordo com o guitarrista Matt Markle, vai ao encontro do estado em que a banda se encontrava naquele momento: «Tivemos alguns problemas com bateristas que nos atrasaram um pouco na composição deste material», relata. «O alinhamento actual da banda é sólido e foi o nosso primeiro disco com um segundo guitarrista. Essencialmente estamos aqui para ficar e este álbum está acima dos nossos trabalhos anteriores.» Encontrada a solidez de que necessitavam, o céu é o limite: «Abrimos algumas datas regionais para a SummerSlaughter Tour de 2016 [tour dos Cannibal Corpse, onde se fizeram acompanhar por nomes como Nile, After the Burial, Suffocation, Carnifex, Revocation e Krisiun] e para a Bloodletting XI Tour do ano seguinte [com Origin ou Archspire]», explica. «Este ano vamos abrir o Devastation On The Nation [Aborted como cabeças-de-cartaz] e também assinámos um contrato discográfico com a polaca Via Nocturna.» [JC]

«Ouvia muito death metal melódico e folk metal», diz-nos Thomas Reichhart, o guitarrista e responsável pela orquestração dos austríacos Black Forest. «Para além disso, tocava piano desde a escola primária e uma vez até dei um concerto com uma orquestra. Tive também a sorte de participar na promoção de “Moment of Glory”, dos Scorpions, onde toquei ao vivo com eles em Hannover, e cheguei a um ponto em que quis combinar tudo isto e compor uma espécie de “ópera metal” e convertê-la em álbum.» Era assim que “Dream”, o único disco do catálogo dos Black Forest, via a luz do dia. «”Dream” é como uma jornada através da tua mente», explica, «apresentando momentos felizes mas também horríficos, como se de um sonho se tratasse. O objectivo era criar um som denso mas que fosse agradável de se ouvir, incluindo também elementos psicadélicos. Passámos milhares de horas nos últimos anos a aprimorar cada nota de centenas de faixas orquestrais. Foi bem claro para nós que queríamos destacar-nos com o nosso álbum de estreia». Actualmente, os austríacos estão a desenvolver o merchandising da banda e resta-lhes «ensaiar, ensaiar e ensaiar». [JC]

DEAD INCEPTION

SANKTA KRUCO Sankta Kruco é a fusão entre o romancismo e uma sonoridade melancólica e sombria, com a particularidade de ser entoado em línguas arcanas, como nos revela o seu fundador: «Sempre senti fascínio pelo poder evocativo das línguas arcanas, como o aramaico ou o latim. Isso, aliado a um som poderoso, consegue envolver o ouvinte de uma forma muito especial.» Com ambas as línguas caídas em desuso, e sob o risco de não conseguir passar a sua mensagem, o rosto por detrás de Sankta Kruco encontrou uma solução: «No tema “Ultio Matris Terris”, por exemplo, disponibilizei a tradução da letra em inglês pois as minhas letras são fundamentais. Também escrevo romances e a mensagem é sempre importante para mim. Tudo farei pelas minhas músicas.» O romancista que dá nome ao seu projecto fala também sobre a transição dos romances para a música: «Muitas vezes sinto necessidade de escrever livros de forma a expressar os meus pensamentos num espaço menos limitado, como é o caso de uma letra de uma música», revela. «Ao mesmo tempo, as minhas mensagens estão sempre relacionadas com a defesa e o respeito pela Natureza, a importância da História, a minha visão da religião... Tudo isso precisa de uma banda-sonora poderosa. O metal é poder puro.» Recentemente, o músico lançou os singles “Sulfuran” e “Foresta Nigra”, dois temas que nos dão uma boa perspectiva do que nos poderá aguardar num futuro longa-duração: «Parafraseando o que uma das pessoas que me segue disse a respeito do meu trabalho, temas como “Sulfuran” e “Foresta Nigra” parecem arrastar o ouvinte para o inferno, enquanto que temas como “Serpenton” ou “Ultio Matris Terris” parecem vir do pai eterno. Digamos que será um disco profundo; em “Sulfuran” discute-se a dúvida sobre a religião, enquanto em “Foresta Nigra” falo sobre a prisão psicológica que às vezes sentimos. Já em “Vlad the Lord of Bran” falo da importância de uma figura controversa mas muito importante para os meus seguidores romenos. Será um disco focado na religião, na História e na Natureza, que vem-nos chamando à atenção devido à nossa falta de respeito.» [JC]

«Para “Constructs of Decay” fomos em força com goregrind death metal, a debitar guturais doentios e a pegarmos em tudo o que tínhamos composto até então para criar um álbum de 30 minutos com 25 músicas.» É desta maneira que Chad Hill começa por descrever a nova proposta dos Dead Inception. O vocalista, guitarrista e baixista prossegue: «Tínhamos tantas músicas quando entrámos em estúdio que correu tudo de forma tranquila. Gravámos todos os temas seguidos para que fluíssem o melhor possível e neste álbum os fãs poderão ouvir-nos na nossa forma mais crua.» [JC]

HAUNTED É Cristina Chimirri, vocalista dos doomsters italianos Haunted, quem tem a palavra para falar daquele que é o seu segundo álbum “Dayburner”: «É uma projecção da existência de outra dimensão; é um manto que separa mas que une inevitavelmente; é um espaço vazio; é a desintegração das geometrias.» «Desta vez», acrescenta, «trilhámos um caminho vertical e ascensional com as nossas próprias mãos: queríamos estar no ponto mais alto para vermos a negritude do abismo.» Tudo o que os Haunted querem é ser compreendidos: «Não temos ambições mas sim aspirações. Queremos atirar uma pedra o mais longe possível pelo mar que é os nossos ouvintes e vê-la a fazer ondas para depois afundar-se.» [JC]

09 - ULTRAJE #16

ACONTEÇA O QUE ACONTECER.

N

uma toada completamente diferente, hoje vamos falar de BOLA. Sim, de futebol. Sou Vitória Futebol Clube. Nascido e criado em Setúbal, fiz desporto no clube e pasmem-se: fui guarda-redes nos infantis e juvenis. Carreira "fulgorante" interrompida por uma ida para o Conservatório Regional de Música, para aprender piano e guitarra clássica, ou viola (como preferirem). Os meus pais não ligam a futebol, então um dos meus primos e padrinhos levaram-me a um célebre "Vitória x Benfica" para que eu me tornasse "Benfica". Infelizmente para ele, o Vitória ganhou 5-2, e desceu de divisão nesse mesmo ano... Pois a promessa seria "quem ganha ao Benfica, desce de divisão". Como a maior parte da nossa vida (aqui no Ocidente) é regida por dinheiro e interesses económicos, aprendi uma valente lição: "Quem mais tem, mais manda". Não tenho mais nenhum clube, e quando me perguntam "e dos grandes, és de quem?", "sou do Vitória" é, inevitavelmente, a resposta. Consigo ter simpatia por A, B ou C mas não quero saber de mais nenhum dos clubes sem ser o meu, o da minha cidade, onde cresci, onde aprendi a tocar e onde vivi ainda a maior parte da minha vida até hoje. Após os trágicos acontecimentos nos anos 1980 com os clubes "grandes", a tragédia no Jamor, o trágico atropelamento no Estádio da Luz, agora, com os recentes acontecimentos também por si trágicos, o Governo assobia para o lado e diz que é um problema "único" e do "Sporting". A decadência do futebol em Portugal não pode ser negada. A corrupção, o crime, a má fé e a violência já é em muito superior ao desporto, fairplay e Humanismo que deverá pautar a nossa vida sempre enquanto estivermos neste planeta. Sei que há clubes e adeptos diferentes, e a maior parte abomina este tipo de coisas, mas não estaremos todos (eu muito) a alimentar esta indústria destrutiva que já supera em tudo (de mau) a religião organizada em Portugal? Qual é a nossa quota nisto? Qual é a nossa culpa enquanto portugueses, adeptos e pessoas? Será que é só para "gozarmos" com o insucesso do clube alheio? Não existem valores mais altos? Não levarei o meu filho a um estádio de futebol ver um jogo seja de quem for, nem Vitória, nem de outra equipa qualquer, pois, para além do receio que tenho, não quero alimentar mais uma pessoa com tanta negatividade. Estaremos a mudar enquanto país?

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D

iz a História que em 1482 chegou à foz do rio Congo uma frota portuguesa comandada por Diogo Cão. Seguidamente realizou-se uma lenta cristianização e a introdução de elementos culturais europeus, até que em 1575 fundou-se uma feitoria em Luanda; por outras palavras, foi este ponto de partida para o domínio total do território que se viria a chamar Angola. O povo angolano reivindicaria a sua emancipação a partir de 1961 ao rebentar a Guerra de Independência de Angola, conflito que se estenderia até 1974, ano em que na metrópole Lisboa se dava a Revolução dos Cravos que punha fim ao regime ditatorial de Salazar/Caetano. A sublevação angolana atingiria os seus intentos em 1975 ao ser proclamada a independência de Angola através do Acordo do Alvor. Todavia, este processo acabou por não ser pacífico a nível interno, pois o país africano mergulhou numa Guerra Civil iniciada em 1975 e terminada apenas em 2002. Mais: o povo angolano não conhece outro regime que não o do MPLA, mas nesse ponto tocaremos mais à frente. Nação do kizomba e do kuduru, a verdade é que o rock n’ roll já proliferava em Angola nos anos 1960 como tem sido mostrado em vários documentários independentes e como afirma Yannick Merino, baterista da banda black metal Horde of Silence, quando questionado sobre como é que ele e os amigos descobriram o heavy metal: «O estilo rock já existe em Angola desde os anos 1960, sendo que a vertente metal apareceu nos anos 1990 através da televisão e de algumas pessoas que viveram fora de Angola e trouxeram músicas para mostrarem ao pessoal.» Por seu lado, Henriques Chitumba, baixista e vocalista dos thrashers Dor Fantasma, não foge muito à ideia do compatriota: «Em Angola, o rock/metal nunca foi e ainda não é um estilo totalmente aceitável e consumido por um número grande de pessoas. O género já esteve inserido no critério musical angolano antes da guerra civil através de músicos que misturavam blues com ritmos tradicionais angolanos, mas foi a partir da década de 1990 que surgiu uma maior abertura para o acesso a músicas extremas, e muitas delas foram abrindo o nosso horizonte musical até nos familiarizarmos com o metal e defender o conceito.» Yannick e os amigos descobriram o metal através de conhecidos, da televisão – «quando a MTV era realmente um canal de música [risos]» – e consequentemente com a Internet, recordando os tempos antes de Horde of Silence: «Todos começámos com outras bandas e ao longo do tempo começámos a apreciar cada vez mais estilos mais pesados; quando demos conta já estávamos a ouvir e a tocar metal extremo. Gostamos do estilo por se tratar de uma sonoridade agressiva, rápida e tecnicista – faz soltar o animal que há em nós que está aprisionado durante tanto tempo com o desejo de sair.» Se visitarmos o website Metal-Archives e pesquisarmos por Angola apenas são retornadas quatro bandas, o que nos leva a perceber que o estilo não está realmente impregnado nesse país, mas que também nos faz calcular a dificuldade que é gravar e lançar um disco de heavy metal. «Gravar um disco de metal em Angola é extremamente complicado, sendo que não existem produtores de rock», confirma Yannick, dizendo mesmo que «99,9% [dos produtores] estão virados para semba, kizomba, rebita, rap e hip-hop». «Quando vamos gravar temos ainda que ‘ensinar’ aos produtores o que devem fazer», atira. Chitumba não fala nas capacidades dos produtores, mas sim na dificuldade que é encontrar infra-estruturas aptas para a captação e desenvolvimento de música pesada: «A maior e principal dificuldade em ter um registo digital com qualidade tem sido o acesso ao estúdio que para nós tem melhores

condições técnicas para se fazer metal, que está a 700km da nossa cidade. E por causa dos nossos empregos tem sido complicado programar férias em conjunto para ir gravar, mas aos poucos vamos lá e registamos sempre alguma coisa até finalizar o nosso primeiro álbum.» Actualmente os seus Dor Fantasma apenas aparecem no split “You Failed… Now We Rule!!!” partilhado com Before Crush, Fiona, Eternal Return e Horde of Silence. Organizar concertos também não é pêra doce ao referir que é preciso efectuar um «trabalho mental nas pessoas que podem ir ver de perto as bandas, e muitas de borla, mas não vão aos concertos»; mesmo assim os Dor Fantasma fazem por não estar quietos ao assegurar que têm vindo a realizar muitos gigs. Para os Horde of Silence, que também têm apenas o mencionado split na sua discografia, organizar eventos é igualmente complicado, tendo em conta que, como diz o baterista, «quase ninguém patrocina o rock, especialmente na capital Luanda», problema que contornam ao praticar a actividade através dos próprios meios. Voltando ao regime governamental vigente em Angola, que é comandado pelo MPLA, chegam a Portugal relatos de censura e perseguição, sendo o caso de Luaty Beirão o mais gritante. Sublinhando que a Ultraje abordou ambas as bandas de Benguela com a premissa de que o heavy metal em geral sempre foi um modo de vida livre e interventivo, Yannick Merino explica que «censura vai haver sempre» e que eles próprios, enquanto músicos, estão sujeitos a isso, até porque «o rock ainda não é bem visto aos olhos da sociedade angolana». Porém congratula-se ao revelar que estão a esforçar-se para «transmitir que o rock não é só barulho», mas que é «paz, harmonia e amor». Mais uma vez, a visão da outra parte representada por Chitumba é semelhante ao corroborar que há-de «chegar o dia em que as pessoas irão acordar para a entrega ao amor ao próximo e respeito pela coisa alheia», lutando sempre pela «defesa da questão democrática como sendo um campo de batalha aberto» ao saber «que no mundo em que vivemos existe, e sempre existirá, um ‘sistema’ poluidor de mentes». Com todo este caminho ziguezagueante para percorrer, o membro dos Dor Fantasma pretende viver a sua música a cada segundo que é tocada, seja em palcos nacionais ou internacionais, pois, como diz alegremente, «os nossos dedos respiram essa viagem e liberdade musical». E continua poeticamente: «Queremos trazer para Angola uma variante do rock que nos liga e ao mesmo nos separa de tudo o que conhecemos, ser uma cicatriz dentro dos corações e mentes de qualquer pessoa que ouça e veja o que temos vindo a fazer.» A nível discográfico os planos estão voltados para o registo digital e audiovisual, bem como para a aprendizagem e ensinamento da educação musical de modo a criar-se «uma geração bem preparada para defender o conceito metal». «Estar em palco em Angola e pelo mundo fora será sempre uma experiência prazerosa», remata. Do lado dos Horde of Silence, Merino planeia a gravação de um EP e a realização de mais concertos, finalizando a conversa epicamente: «Em frente é o caminho, mesmo com obstáculos queremos quebrar todas as barreiras existentes.»

«EM ANGOLA, O ROCK/METAL NUNCA FOI E AINDA NÃO É UM ESTILO TOTALMENTE ACEITÁVEL E CONSUMIDO POR UM NÚMERO GRANDE DE PESSOAS.» Henriques Chitumba (Dor Fantasma) 10 - ULTRAJE #16

Horde of Silence

Dor Fantasma

Há muito mais por descobrir em Angola. Destacamos três exemplos: NEBLINA Innocence Falls in Decay [2006] O single “Os Filhos Da Pátria” é uma porta aberta para a situação que se vivia em Angola à época do lançamento do único álbum da banda de Luanda. Cantado em português, “Innocence Falls in Decay” é um heavy metal algo tímido mas verdadeiramente honesto. BEFORE CRUSH Idolos Ancorados [2010] De Benguela temos os Before Crush que com o EP “Idolos Ancorados” oferecem-nos um metalcore narrado por histórias de guerra, pela história de Angola, entre outros assuntos. O vídeo para o single “A Bruxa” está disponível no YouTube e serve como cartão-de-visita. NOTHING 2 LOSE Breaking My Way [2011] Desaparecidos do circuito angolano, dos Nothing 2 Lose conhece-se o vídeo e respectivo single “Breaking My Way” e pouco mais. Apesar das más condições de gravação, a banda de metalcore de Benguela mostrava aqui que tinha algum potencial para ser explorado.


TEXTO: RUI VIEIRA

"A minha vida divide-se entre o meu amor pela música pesada e o meu amor por videojogos. Foi o que me fez querer ter uma banda e, mais recentemente, foi o que me fez criar o meu canal de jogos no Youtube. Será que estes dois mundos são assim tão distantes? Ou será que são dois universos que podem andar em paralelo e que muitas vezes já se cruzaram?" TEXTO: MARCO FRESCO (MF GAMING/TALES FOR THE UNSPOKEN)

Em 1989 saiu “Holy Diver” para a NES, com o mesmo nome do álbum de 1983 do grande Dio. Apesar de nunca ter saído na Europa, por causa da conotação religiosa, é um jogo estilo Castlevania, com referências a bandas como Dio, Slayer, Zakk Wylde, etc.. De relembrar que nesta altura as consolas eram de 8 bits e o som do jogo não dava para ser muito metal, pois a definição do som não permitia tal detalhe. Este foi, provavelmente, o primeiro jogo com referências ao heavy metal. Se falamos de jogos com referências metal, obviamente que não podíamos saltar o “Doom”. Aclamado por muitos como um dos melhores jogos de sempre, a banda-sonora feita por Robert Prince foi completamente baseada em nomes como Pantera e Alice In Chains. “Nuke Nuken 3D”, um jogo violento com um personagem cheio de carisma (um verdadeiro badass, sai em 1996. Obviamente que o acompanhou uma banda-sonora cheia de clássicos do metal e até saiu deste jogo uma compilação em CD, que conta com temas de bandas como Megadeth, Slayer, Type O Negative ou Coal Chamber. E por falar em violência, quem não se lembra da banda-sonora dos “Carmaggedon’s”? Logo o primeiro contava com Fear Factory mas, mesmo as sequelas, tiveram sempre heavy metal. Os lendários Iron Maiden soaram na sequela do jogo e o “TDR 2000” tem músicas do guitarrista John 5 (Rob Zombie/ex-Marilyn Manson). Os Iron Maiden lançaram “ED Hunter” em 1999. Os níveis enquadram-se de acordo com os álbuns da banda, e como exemplo refiro o nível do Egipto para marcar "Powerslave". Este foi o jogo de uma banda com mais sucesso até então, mas os britânicos não se ficariam por aqui e, em 2016, lançavam mais um jogo: “Iron Maiden: Legacy Of The Beast”. Entretanto houve quem lhes seguisse o exemplo: os Kiss, em 2000, com o jogo “Kiss: Psycho Circus, The Nightmare Child” ou os Metallica com o “Guitar Hero Metallica”. Em 1999 sai um dos melhores jogos de skates alguma vez feito: “Tony Hawk's Pro Skater”. Na banda-sonora podemos encontrar nomes como Suicidal Tendencies, Motörhead, Anthrax e Rage Against The Machine. Para terminar, vou falar de mais dois jogos. O primeiro é “Guitar Hero” e os seus mais de 10 lançamentos, em que destaco dois: um deles é, claramente, o de Metallica. O outro é o “Guitar Hero 3” que tem em “Through The Fire and Flames”, dos DragonForce, a música mais difícil do jogo e que apresenta ainda Megadeth e Kiss entre os temas disponíveis no repertório. Para último deixei o jogo mais metal de sempre: o “Brutal Legend”. Aqui jogamos com Jack Black, o famoso actor e vocalista/guitarrista de Tenacious D, e nós somos um roadie preso no mundo do heavy metal. Temos também de falar da banda-sonora, que é muito rica: Judas Priest, Motörhead, Cradle Of Filth, Mastodon, Black Sabbath, e muitos mais! Depois, a cereja no topo do bolo é que neste jogo encontras como personagens algumas das mais icónicas figuras do heavy metal: Lemmy, Rob Halford ou até o próprio Ozzy! Todo este jogo respira o espírito do metal. Viajámos então dentro dos videojogos mais metal de todos os tempos! Acredito que mais jogos do género irão aparecer, com melhores gráficos e mais qualidade, mas será que vão manter o espírito que o heavy metal transmite? É o que vamos descobrir dentro de alguns anos! MF GAMING @MFGAMINGPT

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1. "Lança-Chamas" (80s/90s) Programa da Rádio Comercial Talvez o momento mais importante do heavy metal em Portugal, pelo menos para a geração "velha-guarda" (nova na altura). O programa apresentado pelo malogrado António Sérgio – coadjuvado por Gustavo Vidal e Paulo "Scorp" Fernandes (e também António Freitas) – ia para o ar aos sábados à tarde na Rádio Comercial, estação que tinha uma cobertura nacional. E é aí que reside a sua extrema importância na educação dos jovens metálicos (como eu) portugueses. Numa altura fértil em rádios-pirata – que faziam um trabalho excepcional –, era ao sábado que nos reuníamos, preparávamos as cassetes e as colocávamos no modo "rec" mas em "pause". Depois, estas mix-tapes eram difundidas em larga escala através do tape-trading, o peer-to-peer do antigamente. 2. Edição da cassete "Last Seeds Of Mind" dos Procyon (1991) Na viragem da década, os trabalhos originais das bandas portuguesas eram ainda extremamente toscos no que concerne à gravação e à sua apresentação. Mas houve uma banda e respectivo agenciamento que mudaram o paradigma: a banda era Procyon e o agenciamento era a Contacto, gerida por Duarte Dionísio. A cassete vinha embalada em celofane, com capa a cores (mais letras e fotos) e portadora do selo legal DGEDA (Direcção-Geral de Espectáculos e do Direito de Autor). A gravação era profissional e definida. "Last Seeds Of Mind" marca a mudança de mentalidade no seio da comunidade metálica portuguesa que ganha uma nova consciência na apresentação do seu produto ao seu público, cada vez mais exigente. Para trás ficavam as fotocópias a preto e branco. 3. Aparecimento dos RAMP (1992) Os RAMP foram uma chapada na estética da altura. Tal como os Sepultura, o quinteto oriundo do Seixal apareceu "do nada" e veio refrescar o panorama com a sua imagem jovem, desportiva e coerente. Os RAMP foram a primeira banda a apresentar um visual onde todos tinham cabelo comprido, vestiam-se com "lógica" e eram portadores de um discurso fluente, principalmente na pessoa do seu vocalista, o Rui Duarte. Foram os criadores de um certo standard para bem "vender" o seu produto. Também tiveram um considerável airplay radiofónico e televisivo – para além das revistas –, o que os ajudou bastante e levou essa imagem a muita gente. Acresce o facto de assinarem o seu primeiro trabalho ("Thoughts") com a multinacional Polygram. 4. Riff Magazine (1995) Quando falamos em revistas de metal em Portugal nunca poderemos esquecer a mítica Riff, projecto liderado por António Freitas. Foi a pioneira, um sonho tornado realidade para os sedentos metálicos portugueses. Já tinha existido a Rock Power – mais comercial –, mas não era tão específica quanto a Riff. Tinha uma quantidade brutal de informação, tudo relacionado com metal e seus subgéneros. A periodicidade era mensal e quando terminou (a sua existência foi relativamente curta) deixou muitas saudades. Em plena explosão da Internet, aquele compêndio de informação ainda colmatava muitas lacunas por preencher, nomeadamente entrevistas, reviews, etc.. Mas... o digital preparava a sua grande investida e a consequente mudança de paradigma.

5. Fórum Metalunderground (2003) No virar do milénio, a Internet já tinha chegado e mudado o mundo. Os lendários modems 56k – ainda que lentos (mais tarde suprimidos pela ADSL) –, permitiam-nos entrar numa matrix à qual hoje estamos, indelevelmente, "presos". Novos espaços para comunicação virtual apareceram e os fóruns (ainda que residualmente sobreviventes hoje em dia) foram os mais impactantes. Em Portugal nascia o Metalunderground, uma iniciativa pioneira de Jó (dos Theriomorphic). Este fórum foi o espaço aglutinador da geração metálica pós-2000 e brilhou até à instalação dos novos meios de conectividade – primeiro o defunto Myspace, depois o "monstro" Facebook. Com uma actividade significativa ao longo de uma dezena de anos, no fórum encontrávamos (e ainda encontramos) a agenda de concertos, as notícias, as reviews e a divulgação de bandas nacionais e internacionais, tudo junto no mesmo espaço.


SE QUERIAS UMA ESCOLA, CONSEGUISTE A Publicações A Ferro & Aço traz até às livrarias nacionais “Para Que Serve Este Botão?”, a autobiografia do vocalista dos Iron Maiden, Bruce Dickinson. O livro, cuja pré-venda pode ser efectuada nos locais habituais a partir de 15 de Junho e chega ao público a partir de 17 de Julho, estará disponível em formato comercial e em edição limitada de capa dura. Abaixo poderás encontrar alguns excertos do livro que surgem logo após a contextualização da Ultraje. Recuperando memórias da infância, Bruce Dickinson retorna a Birkdale para demonstrar que nem tudo na criancice é inocente: «(…) Estava a caminho de uma escola particular: a escola preparatória de Birkdale, alma mater de muito outros, como Michael Palin dos Monty Python. Foi uma das mais estranhas e excêntricas instituições educacionais que encontrei, mas no final acabei por gostar. Digo no final, porque no início o bullying foi bastante intenso. Uso os termos “bastante intenso” em comparação com o que viria a seguir, no colégio interno.» Ao que parece, aquela figura energética e imponente que corre palcos de lés-a-lés passou mesmo por situações complicadas enquanto estudante, como se verifica a seguir: «O bullying só acontece porque as pessoas fracas têm necessidade de sustentar o seu ego, batendo ou humilhando os outros. Claro que se fores um recém-chegado ou apenas diferente serás o alvo escolhido. Eu cumpria todos os requisitos. O pior era na hora do intervalo, quando eu era prensado contra os caixotes do lixo enquanto doze miúdos me batiam à frente de uma professora que, imagino, devia sentir-se o máximo, para não interferir. Em memória dos meus avôs, eu recusava submeter-me. As minhas hipóteses eram ridículas, mas eu ripostava na mesma. Não desistiria.» Todavia, Dickinson encontrou um abrigo, uma defesa, para si: «(…) Refugiei-me nos livros, na biblioteca, na escrita e no teatro. As asas angelicais de outrora voltaram para me assombrar, e vi o meu nome citado pela primeira vez numa crítica a uma peça da escola no jornal Sheffield Star, nem mais.» E foi isto que se escrevera sobre si na altura: «“Personagem Toupeira, de cara enegrecida, interpretado por Paul Dickinson.” (Bruce, claro, é o meu nome do meio, mas isso já vocês sabiam.)» Ainda longe de ser a estrela em que se tornou, Bruce Dickinson queria mais do que aquela breve frase, recordando, ou não, ainda alguns episódios escolares com Sr. Quiney a propósito de JRR Tolkien: «Fiquei desapontado por eles não terem feito qualquer referência ao facto de eu ter conseguido arrancar algumas gargalhadas da plateia. (…) As aulas prosseguiam com normalidade. Por outras palavras, não me recordo de nada, excepto que as ovelhas Merino têm uma lã espectacular, e também de um resumo esplêndido que o meu professor de História, Sr. Quiney, fez de Tolkien: “Um raio de um banquete atrás de outro, uma caminhada interminável aborrecida, uma batalha e algumas canções parvas.” Li o

“Hobbit” e “O Senhor dos Anéis” quando tinha 12 anos. Era divertido, mas o professor tinha alguma razão.» Noutros tempos – sem computadores, telemóveis e tablets –, a rua era igualmente um poço de aprendizagem, como o vocalista relembra: «(…) Contudo, a escola não era o único sítio onde adquirir educação. Aprendi a andar de bicicleta, e a toda a velocidade pela vizinhança. Tinha um kit de química, que se recusou a fazer qualquer coisa de divertido, e o meu pai ensinou-me a jogar xadrez. Jogávamos frequentemente até ao dia em que lhe ganhei, e então, parámos de jogar.» Talvez devido a resquícios que não desapareceram daquele período conturbado na escola, o jovem Bruce nem sempre fora o adulto e extrovertido Bruce de Iron Maiden, como o próprio escreve sobre os seus fins-de-semana: «(…) Eu era razoavelmente solitário. Não me interessava por desporto. Passava longas tardes na biblioteca pública ao fim-de-semana, folheando livros e sonhando acordado. Tinha descoberto os jogos de estratégia militar e ocupava as minhas noites a pesquisar sobre a precisão do mosquete Brown Bess e as tácticas do pelotão de infantaria e a pintar os meus escoceses das Terras Altas de metal branco, que seguidamente iria lançar sobre um desprevenido Napoleão.» E o campo de batalha estava montado… Na carpete da sala? Num desterro perto de casa? Num monte de areia de uma obra ali perto? Não. Numa mesa de pingue-pongue. «O meu tio Stewart, professor, tinha sido campeão local de ténis de mesa, por isso no Natal ganhámos uma fantástica mesa de pingue-pongue. O meu pai e os irmãos debatiam-se e discutiam sobre quem tinha ganho e depois iam para o pub. Eu preparei-me de imediato para que, no dia seguinte, a Batalha de Waterloo fosse travada ali na mesa. Era verde e plana – perfeita. Foi uma, entre várias pequenas coisas, que levaram o meu pai a pensar que eu era um pouco estranho, como se subverter uma mesa de pingue-pongue não fosse, de alguma forma, coisa de homem.» A paixão pela pilotagem surgiu logo de seguida: «(…) Antes de sair de casa, fui apresentados às corridas automobilísticas. (…)» Aparentemente, os amigos Tim e Nick, bem como o pai destes, tiveram um papel de iniciação à arte de conduzir: «O Tim, um amigo da escola, e o seu irmão Nick tinham um pai muito entusiasta. Conduzia um Cadillac e tinha uma pista enorme, onde estava em exposição uma equipa de corrida em miniatura para os filhos. Pelo que percebi, ele tinha uma discoteca e bebia muita cerveja.» 13 - ULTRAJE #16

Como não foi logo atirado para um cockpit de avião, Bruce tinha de começar por algum lado. Foi parar aos karts, mas já com um vislumbrar aéreo pois estas corridas aconteciam numa antiga base da RAF. «Os karts eram de cem cilindradas, com válvulas rotativas, e muito rápidos. Eu nunca tinha tocado em nenhum volante, mas sentei-me e arranquei aos solavancos e saí disparado para a primeira curva, no fim da longa recta de Lindholme, a antiga base da RAF.» Na realidade, a experiência não foi de todo magistral, mas foi, pelo menos, cómica: «Virei o volante, rodei a 360º e o motor parou. Fiz o mesmo em todas as curvas do circuito antes de voltar para a pista, seguido pelos dois irmãos muito suados e a ofegarem, depois de me terem seguido por todo o circuito para fazerem o motor voltar a arrancar meia dúzia de vezes.» A razão e a inexperiência abateram-se sobre o jovem Bruce: «Debatemos o assunto. Eu, claramente, precisava de aprender mais sobre aquilo.» O futuro risonho (como vocalista de Iron Maiden e como piloto de aviões) ainda estava longe, mas Bruce Dickinson já sonhava como sempre. Era apenas uma questão de crescer enquanto homem e não esquecer os sonhos de criança. «No final do dia, eu já pensava que estava a voar: acelerava a fundo nas rectas, travando a fundo o mais em cima possível, com a adrenalina a pulsar nas mãos e no coração. A verdade é que mal consegui completar a volta sem fazer um peão, mas que se lixe: maquinista, piloto de aviões, astronauta, e agora já podia acrescentar à lista, piloto de carros de corrida.» POR DIOGO FERREIRA

www.aferroeaco.pt


O

TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DUTCH MUSIC

s Powerized contam-nos uma história envolta de canções bonitas e sinfonias épicas saídas da mente do vocalista e multi-instrumentista Nick Holleman. O músico começa por falar de "The Mirror's Eye", o longa-duração de estreia dos holandeses, dizendo-nos que pode ser visto como um álbum ambicioso: «Podemos vê-lo dessa forma, tendo em conta todo o trabalho envolvido. Todo este tempo à volta das composições, orquestrações, coros, gravações... Aqui temos muito sangue, suor, lágrimas e horas de trabalho, já para não falar da bateria, baixo, guitarras ou até dos vocais. O objectivo que tínhamos para com este disco era fazer aquilo que gostávamos sem que depois olhássemos para trás a pensar 'havíamos de ter feito isto'. Tudo aquilo que amamos e temos está ali; toda a nossa energia. Podes chamar ambicioso a isso, mas para mim é uma consequência lógica da forma como tratamos a nossa música e paixão. Só consegues fazer uma boa impressão uma vez, pelo que quisemos ter a certeza que as pessoas iriam saber o que esperar.» Para um colectivo que tem a melodia como cartão-de-visita, quisemos saber como Holleman via as bandas de metal extremo que carecem desta característica. O músico, que garante ser um grande fã do género, não acha que seja um problema: «Gosto dos mais variados estilos, desde o blues ao black metal», afirma. «Desde que seja bem executado e seja feito por uma razão, eu vou gostar. São muitas as bandas de black metal que criam excelentes atmosferas e ritmos muito interessantes, e quando uma banda escolhe não implementar muita melodia nos seus temas, então provavelmente vão compensar com o recurso a ritmos diferentes, mudanças de estilo e expressar assim algo distinto, como criar mais ambiente, por exemplo. Para mim não anda tudo à volta da melodia mas sim como os vários elementos se juntam.» Aquando da concepção dos Powerized, nunca passou pela cabeça de Holleman fazê-lo sem o apoio das orquestrações: «Só comecei a descobrir bandas de metal que usavam orquestras depois de tê-lo eu próprio tentado, pois algumas pessoas enviavam-me sugestões. A música pode ir a todo o lado desde que corresponda àquela energia. Gosto de diferentes dinâmicas, e o que seria melhor que uma orquestra para chegar aí? Gosto de um som amplo e uma orquestra pode conseguir fazer muita coisa. Desde momentos mais suaves e sensíveis até algo barulhento, épico e bombástico. Usar uma orquestra é criar toda uma energia, contar uma história através da tua música, e levar quem a ouve numa viagem.»

essa demo era colocar toda a nossa energia ali. Sem ofensa para com os antigos membros da banda, mas o nível de capacidade não era o mesmo que temos actualmente, e olhando para trás vejo que isso nos tirou algumas possibilidades. Com este "The Mirror's Eye" não houve limites. Tudo foi possível pois tirámos o tempo necessário para criar aquilo que queríamos. O mais divertido de tudo é que para além de criar, foi possível executar tudo. Na demo trabalhámos com teclados pois não tinha a possibilidade de recorrer a uma orquestra, mas ficou bem claro que as teclas nunca poderão substituir ou até chegar perto daquilo que uma orquestra consegue fazer.» Para o futuro, o domínio mundial! Mas alto aí! Será um domínio melódico, suave e agradável: «Queremos levar os Powerized ao mundo inteiro. As pessoas precisam de ver o que a nossa música consegue trazer com um concerto. O meu objectivo é ter alguém que chegue ao final de uma actução e diga 'estive num concerto dos Powerized' e não 'eles tocaram esta ou aquela música'. Claro que será inevitável, mas gostaria muito de fazer as pessoas esquecerem-se que estão num recinto e durante essa noite entram, sim, no nosso domínio. O público está todo junto, estás lá connosco e tornas-te parte disso, e como criamos música que se integra numa história, os nossos temas são diversificados, o que nos deixa margem para seguir qualquer direcção que desejemos, musical e visualmente, tanto agora como no futuro. A música não tem limites, gostamos de compor o que quer que combine com a atmosfera que se vive num momento em específico, pelo que as pessoas podem esperar lados diferentes de nós. Uns podem surgir em tons mais negros, outros mais claros... Mas o aspecto cinematográfico e teatral, assim como a energia e o entusiasmo que sentimos ao criar música, vai sempre manter-se.» Os Powerized encontram-se agora no processo de marcar tours de promoção ao novo disco, com o ano de 2019 já a fazer parte das contas. Para a banda, fica também o desejo de uma visita a Portugal: «Espero conseguirmos tocar aí, para que possamos agradecer-vos pessoalmente e dar-vos as boas-vindas ao nosso mundo. Deixem-nos converter-vos ao nosso credo!»

A preceder este "The Mirror's Eye" está a demo "My Creed", de 2013, lançada um ano após a formação da banda. Para o músico, essa primeira tentativa de fazer história na cena sinfónica trouxe-lhe uma lição valiosa: «O objectivo com 14 - ULTRAJE #16

POWERIZED

The Mirror's Eye PAINTED BASS

D

epois de algumas tours bem sucedidas, chega o momento dos Powerized mostrarem o seu valor em estúdio com este "The Mirror's Eye", e se há conclusão a que se pode chegar depois de uma primeira escuta, é que a banda comandada por Nick Holleman tem capacidade para um dia comandar as tropas do power metal e do metal sinfónico, tal é o profissionalismo e a veia criativa do colectivo holandês. A orquestra por detrás da base musical dos Powerized cria desde logo uma atmosfera profunda e mística, transformando temas sempre envoltos de melodia e riffs que combinam o power com o progressivo numa jornada intoxicante que nos recorda bandas como Kamelot ou até Edguy. Uma banda que merece um olhar bem atento sobre o seu desenvolvimento e que ainda nos poderá trazer algumas surpresas.

joel costa 8/10


seu trabalho nesse campo – daí ter-se um registo, principalmente vocal, mais pesado, mais meloso, orgânico e mais desesperado». «A captação destes momentos foi feita para que fosse uma espécie de ‘one-time-shot’, principalmente todo o tema “SVN” que é talvez a música mais contrastante de todo o registo e também a mais carregada de emoção. Funciona como a abertura deste novo ciclo – as boas-vindas e integração rápida, e um tanto brusca, do ouvinte à sociedade do vórtice de que tanto falamos.»

TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DA BANDA

S

em caras e sem nomes individuais, os Gaerea são só e apenas um corpo único, uma banda sinistra e enigmática que apareceu do nada por volta de 2016 com um EP homónimo que recebeu críticas muito positivas. Na promoção desse trabalho de estreia diziam que estavam cá para trazer e apresentar aquilo que o sistema não resolve, emergiram das sombras para «denunciar claramente os cânones de beleza, para desafiar os alicerces da sociedade organizada e desmontá-la, apresentando-a no seu ponto mais cru» – quem o diz é um membro dos Gaerea que insiste em não se querer individualizar neste processo conjunto. «O sistema propriamente dito é a esfera pessoal, a bolha em que cada um se encontra», pois «apesar de ser criado pelas pessoas, não foi feito para essas mesmas pessoas», conclui. Volvidos cerca de dois anos, estes portugueses dão o passo óbvio com o lançamento do álbum “Unsettling Whispers” e nota-se uma evolução ao nível da abordagem ao black metal se tivermos em conta a sonoridade do EP. Por exemplo, se ouvirmos a faixa “Absent” sente-se uma inclinação ao hardcore como bandas alemãs – nomeadamente Ancst e King Apathy – têm feito. «Acho interessante ouvir essas observações de quem está de fora, principalmente quando vêem nuances de hardcore na nossa música, coisa que me é estranha», confessa surpreendido. No entanto, estas percepções exteriores ao grupo de trabalho podem significar que os Gaerea não têm uma visão quadrada do que é black metal e não se enclausuram em regras dogmáticas. «Claramente», prontifica, pois para o entrevistado o black metal nunca foi e não crê que alguma vez será algo limitado, clarificando assim: «Deixamo-nos envolver por muito daquilo que ouvimos e vivenciamos no dia-a-dia», até porque «todo este novo trabalho no ponto de vista de composição musical prova isso mesmo, que não somos seres demasiado presos ao estilo que tocamos. A beleza da arte está nisso mesmo: o conseguires ir beber a outras fontes que à partida não estão ‘categorizadas’ ou rotuladas da mesma forma que a tua».

Continuando na berra da comparação entre os dois lançamentos, no EP sentia-se muito mais uma clara influência na escola polaca – com Mgła e Behemoth à cabeça – do que neste “Unsettling Whispers”. Todavia, isso não foi apagado do seio dos Gaerea e continua a ser audível especialmente na toada melódica que dão aos temas, assim como devido a alguns momentos ritualistas, como é exemplo a faixa “Whispers”. O músico concorda, voltando a salientar que «é impossível não nos deixarmos influenciar por dois dos grupos mais interessantes que o mundo do black metal tem para oferecer nos dias de hoje». «Essa toada melódica de que falas sempre fez parte da forma como componho os meus temas, tanto neste como noutros projectos do passado. Creio que faz parte de mim ou, digamos, de todo o passado de cada elemento que de alguma forma marcou este novo trabalho.» Confirma ainda que «é o transparecer daquilo que somos enquanto pessoas e daquilo que faz sentido para este trabalho mais conceptual que o anterior», fazendo pois «todo o sentido abrir essa janela para que a música certa encontrasse o seu respectivo tema, visto que o álbum é uma série de episódios contados na terceira pessoa, como que um observador ou narrador do que se passa à sua volta». «Acima de tudo é uma composição mais pessoal, mais interiorizada e por consequência mais emotiva», explica por fim. Pegando na questão da ala melódica do álbum, há um certo perfume de melancolia, mas, e tendo em conta que cada pessoa tem a sua interpretação, não soubemos à partida se também lhe podíamos chamar desespero. A entidade misteriosa de Gaerea ajuda-nos: «É todo o desespero que visualmente está mudo e apático na componente escrita e visual deste trabalho.» Nas suas palavras «decidiu-se dividir e escolher a maneira como se queria abordar e sentir cada peça do puzzle que compõe tudo isto», possibilitando que «por um lado se tenha uma narrativa totalmente interligada com o caos organizado de uma socieda0de moldada sob os cânones de perfeccionismo do presente e por outro se tenham todas as consequências éticas, morais que advêm disso mesmo». Assim, isso habilita «a música a fazer o 16 - ULTRAJE #16

Facto: ouvir Gaerea é estar perante algo refrescante no que às nossas fronteiras nacionais diz respeito. Musicalmente deverá ser muito difícil trazer alguma coisa inteiramente nova ao panorama europeu, que é muito vasto e prolífero, mas será que o porta-voz de Gaerea concorda se lhe dissermos que estão num patamar superior em relação ao que se tem feito em Portugal? Sabemos que é arrojado, possivelmente injusto para com outros até, colocar uma banda num pedestal, e os Gaerea não vão nessa: «Não pensamos em nada disso. Até porque existem nomes muito interessantes a surgir no panorama nacional e nunca nos iríamos comparar a nenhum deles. Cada um com o seu rumo e caminho a seguir. Infelizmente há bandas que muito dificilmente podem emergir, mas isso é também porque somos um país pequeno no que toca à falta de noção de como um artista se deve fazer ouvir.» E isso, caríssimos e caríssimas, é algo que na Ultraje tentamos esforçadamente mudar no seio do nosso movimento metálico – nem sempre eficazmente porque não podemos entrar na mente das pessoas, mas que mesmo assim tem vindo a dar os seus frutos. Não só os contractos com editoras estrangeiras e difusão internacional fazem provar o que acabámos de referir, mas também o facto de, internamente, os Gaerea terem sido incluídos na celebração dos 10 anos de “Póstumo”, o primeiro álbum de Inverno Eterno, banda de culto que decidiu cessar actividades em 2014 e que agora, em 2018, se reuniu pontualmente para um derradeiro concerto. Ao lado de Black Howling (banda de Lisboa igualmente presente na comemoração), o interlocutor admite terem ficado «satisfeitos» por alguém achar que se integram «num evento de um estilo tão reservado e tão característico como o de Inverno Eterno». «Pessoalmente comecei a minha jornada neste estilo a ver a banda e cheguei a vê-la num dos seus últimos concertos», conta, afirmando que todos em Gaerea ficaram «ansiosos por esse concerto». «Acima de tudo fazemos o nosso trabalho, abrindo os portões daquilo que é certamente uma noite histórica», finaliza. Álbum: UNSETTLING WHISPERS Editora: TRANSCENDING OBSCURITY Lançamento: 22 JUNHO 2018


esses lugares.» Para Waldejer, «a música [dos The Konsortium] não é apenas inspirada pelo lugar, mas também pelo tempo», assegurando que «foi feito um grande esforço para se tentar recriar o que achamos ser inspirador sobre a nossa história local, tradições e, claro, também sobre as mudanças sazonais. Rogaland é, afinal de contas, quatro coisas muito diferentes, dependendo das estações do ano». Ao afastar-se do urbano e concentrando-se no atemporal, «tudo se resume a criar uma jornada através da identidade local que está fortemente ligada a esta parte da Noruega», remata. Para além desta abordagem folclórica, “Rogaland” mostra ainda outras diferenças em relação ao debutante homónimo de 2011, como é o caso do tecnismo musical. Após confirmar que a Ultraje está certa ao apontar que esse seria um dos pontos que o músico queria que se tornassem predominantes no novo trabalho, o guitarrista conta que «já perto de se finalizar o primeiro álbum, o material tornou-se mais técnico e constantemente mais rápido», mas «por outro lado isto não é sobre fazer música que seja apenas rápida e difícil de tocar, é sobre criar composições interessantes e complexas que ofereçam a quem ouve uma nova descoberta a cada audição». «Claro que todos na banda têm uma preferência por música desafiante e interessante de se tocar, e isso influencia cada direcção que se toma», mas não descarta que «o principal objectivo sempre foi fazer música interessante de se ouvir e tocar», acabando mesmo por reforçar «um ponto importante»: não basta ser-se técnico, «também tem de se tocar bem e de uma forma que traga complexidade, detalhe e, acima de tudo, composição musical», porque «isso é sempre mais desafiante do que simplesmente fazer algo técnico». Um outro lembrete que também sempre foi relevante para os The Konsortium passa pelo facto de que «tudo o que entrar no álbum deve ser feito também num ambiente ao vivo, e da maneira que as coisas estão a ir estou confiante de que será o caso».

TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: KIM SØLVE

Q

uando uma banda está há vários anos em silêncio, a primeira e curta pergunta que surge é: porquê? Muitas vezes estamos à espera de grandes revelações, mas na maioria dos casos a resposta é tão simples como a interrogação: «Como alguém comentou num blog que li recentemente, “os músicos fazem planos e depois a vida muda-os.”» Quem o diz é B. Waldejer, guitarrista dos The Konsortium, banda norueguesa que regressa aos álbuns, com “Rogaland”, sete anos depois. «Depois do primeiro álbum estávamos prontos para avançar com o próximo e já tínhamos uma boa ideia da direcção musical. Muito do material surgiu logo após o lançamento do primeiro álbum, mas têm acontecido muitas coisas nas nossas vidas nos últimos anos, o que infelizmente nos ocupou muito tempo. Combinado com o facto de termos de encontrar um novo baterista, isso forçou-nos a adiar as coisas.» Esse novo baterista é Per Husebø, também conhecido por Dirge Rep, e tem dado cartas nos Orcustus – Waldejer não lhe poupa elogios: «Felizmente conseguimos o Per para a bateria e depois as coisas seguiram-se rapidamente. Acho que não demorou mais do que um ano desde ele juntar-se até gravarmos o “Rogaland” todo. Tem sido um músico tremendo de se trabalhar e é muito inspirador para mim tocar com alguém deste calibre.» Afirmando que «estas são, de longe, as únicas razões pela demora», recordou também que «os outros membros tiveram coisas importantes a fazer noutros projectos e bandas», como é o caso do baixista Teloch que ocupa a posição de guitarrista em Mayhem. Contudo, o norueguês pensa que, em última

análise, «o tempo foi muito necessário para este álbum, pois muito do material e conceito precisava disso para se maturar e refinar». Com “Rogaland” tiraram as máscaras e alguma da teatralidade que ostentavam antigamente. Podemos olhar para o novo álbum como uma mudança de paradigma, mas Waldejer é pragmático: «Afirmar exactamente o que nos levou a essas mudanças é algo difícil de dizer em definitivo, porque muitos dos “porquês” foram alvo de um processo de reflexão. Acho que este álbum representa fortemente as nossas identidades locais e inspirações; acho que isso nos leva a pensar que não faria sentido nenhum se não incorporássemos a representação visual disso.» Aliás, e por mais reflexões que possam ter existido, o pensamento da banda foi até muito directo e cru: «Francamente acho que estávamos todos fartos das máscaras e do anonimato, e a certa altura começámos a pensar: “Que se foda, vamos numa direcção nova.”» De facto, as ditas identidades locais e inspirações estão bem imbuídas neste disco, porque por todo ele há um sentido de folclore nórdico devido a alguns refrãos ritualistas e porque também sabemos que parte de “Rogaland” foi composto na floresta. «Crescer num lugar como Rogaland deu-nos uma forte apreciação pela geografia e história locais. E acho que este álbum reflecte tudo o que gostamos neste lugar: as montanhas Caledonianas, os fiordes, as florestas e praias das terras baixas, sem esquecer o Mar do Norte. Acho que as músicas em si representam cada um desses lugares. Cada faixa no disco tem um título e uma composição muito claros em relação a

Dentro do que parece ser uma banda rígida no que a cumprimento de regras diz respeito, também já deu para perceber que a diversidade tem o seu espaço, pois ao ouvir “Rogaland” depreende-se a inclusão de segmentos afectos ao black metal, death metal e até thrash metal. Waldejer explica que «um dos principais princípios da gravação sempre foi dar espaço a cada elemento, e se não houvesse espaço para um elemento específico então seria retirado». «Há toda uma gama de diferentes elementos neste registo, mas todos e cada um obtiveram o seu lugar distinto e acho que isso teve muito a ver com a maturação do material ao longo do tempo.» Mas antes de dada a resposta já tínhamos perguntado como é que se encaixam todas as peças do puzzle na assinatura de The Konsortium – o músico conclui: «Não acho que sejamos particularmente guiados por géneros ou categorias, é sempre sobre servir um propósito musical e conceptual e ter cada elemento a complementar. Acho realmente que isso é o principal por detrás do que chamam “assinatura”.» Sem a capacidade técnica e imaginativa de uma banda a música simplesmente não poderá existir, mas muito do que ouvimos nos resultados finais provém de um produtor. Pois é, um álbum sem um excelente produtor pode ter o seu sucesso em risco por mais que os músicos sejam exímios. Para “Rogaland”, os The Konsortium chamaram o conceituado Jaime Gomez Arellano que, para quem anda desatento ao departamento de produção, já efectuou trabalhos excitantes com Paradise Lost, Fen, Ulver, entre outros. «Todos gostamos do que ele fez antes e, portanto, queríamos tentar trabalhar com ele. Na verdade, acho que tivemos muita sorte em tê-lo a bordo, pois sei que tem muitos projectos no currículo e uma agenda muito apertada.» E novamente, como já tinha feito no início desta conversa com o seu baterista, Waldejer não rouba os créditos a quem os merece: «[O Gomez] superou as nossas expectativas, foi muito superior ao que esperávamos», e assegura que «foi um prazer trabalhar com alguém com o seu nível de profissionalismo e habilidade». Por fim, relembra que colaborar com o produtor no estúdio foi sinónimo de divertimento «e não demorou muito para que todos concordassem que ele era claramente a melhor escolha pela qual se poderia ter optado». «Também já decidimos que em projectos futuros ele tem de ser aquele com quem trabalhamos», finaliza.

Álbum: ROGALAND Editora: AGONIA Lançamento: 1 JUNHO 2018

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TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: RENAN FACCIOLO


PERSISTÊNCIA & SEPULTURA De dentes e punhos cerrados, as brasileiras Nervosa avançam para novas conquistas com o seu novo e terceiro disco “Downfall of Mankind”. Num registo igualmente cru e agressivo quando comparado com os seus antecessores, há uma novidade em grande plano que passa pelo leque de influências de death metal que a nova baterista Luana Dametto trouxe consigo. Fazendo agora parte de um grupo restrito de bandas brasileiras que conseguiu alcançar sucesso na Europa e até mesmo na América do Norte, a guitarrista Prika Amaral começa por atribuir o êxito da banda à dedicação do trio feminino, estabelecendo também um ponto de comparação entre os tempos modernos e aquela altura em que os Sepultura de Max Cavalera davam os primeiros passos fora da América Latina: «Acredito que tudo se reduz ao facto de seres objectivo e focado naquilo que procuras. Insistir e procurar sempre o melhor faz a diferença. Procurámos sempre o profissionalismo e viver da música, porque a diferença de algumas bandas - que às vezes não conseguem ir muito longe - é que não conseguem deixar certas coisas para trás, como o trabalho, a família… O que é difícil, não estou a julgar. Cada um tem os seus objectivos mas às vezes isso ocupa-te o tempo e não te podes dedicar a 100% à música e à estrada. As coisas fluem um pouco mais devagar e às vezes não fluem de todo justamente por isso. Acredito que a diferença de termos conquistado o nosso próprio espaço está na persistência e disponibilidade para estar sempre na estrada.» Esta persistência joga ao lado de ferramentas actuais como a Internet, algo que não estava disponível - pelo menos da forma que hoje conhecemos - no tempo dos Sepultura: «Na época dos Sepultura, as coisas eram muito mais difíceis», concorda. «Hoje em dia existe a Internet, que é uma ferramenta maravilhosa para divulgar a banda, mas ao mesmo tempo é difícil pois como é uma ferramenta de muito fácil acesso há um mundo inteiro de bandas e é difícil conseguires destacar-te. Na época dos Sepultura era diferente. Era tudo por carta e não tinham Internet - até havia Internet mas era inacessível. Era só para quem tinha muito dinheiro.»

PRECONCEITO & INSPIRAÇÃO Estamos a meio de 2018 e ainda há quem veja uma banda como as Nervosa como algo que não sobreviverá ao teste do tempo, apenas porque a sua formação é composta na íntegra por mulheres: «Na verdade toda a gente sofre algum tipo de preconceito, mas connosco ainda há muito, [e apesar] de já ter melhorado

bastante ainda há muito por melhorar. Como eu não presto muita atenção a esse tipo de coisas, acabo por não senti-lo muito. Não dou atenção a coisas negativas e acabam por me passar despercebidas.» Mas nem tudo é mau e, como admite Prika, o facto de a banda funcionar exclusivamente com mulheres deu-lhes um ligeiro avanço no marketing: «É mais fácil para promover a banda porque somos diferentes e uma banda de mulheres chama logo a atenção. Só que para conquistar respeito é muito mais difícil, pelo facto de sermos mulheres», lamenta. «As pessoas julgam-nos e dizem-nos coisas como 'não sabem tocar, não sabem fazer isto e aquilo, não têm tanta força, não é agressivo'... Ou então ao contrário: 'É muito agressivo, não é feminino'. Inventam-nos muitas regras mas não nos preocupámos com isso. Apenas fazemos aquilo de que gostamos, independentemente se agradamos ou não a essas pessoas que gostam de julgar. O importante é fazeres aquilo que gostas, pois só assim vais ser verdadeiro e conquistar o teu público.» Por tudo isto, as Nervosa têm a responsabilidade acrescida de serem modelos para as gerações vindouras e, quem sabe, potenciar um dia a inclusão de mais mulheres numa cena até aqui dominada pelo sexo masculino: «Acredito que abrimos certas portas e encorajámos as meninas a fazerem aquilo que querem e a concretizar os seus sonhos. Tentamos passar sempre essa mensagem às meninas, independentemente se tocam bem ou mal, se são boas ou más... Na verdade, no início é tudo mau, sabes? A banda está a desenvolver-se, há que ter paciência, permanecer focado e não desistir.»

À TERCEIRA É DE VEZ As brasileiras passaram também por um processo de aperfeiçoamento de forma a transformarem as suas ideias no produto final que hoje ouvimos em "Downfall of Mankind": «Sabíamos bem o que queríamos desde o primeiro disco, só que conseguimos desenvolver melhor no segundo e aprimorar neste terceiro», revela a guitarrista. «O primeiro álbum ["Victim of Yourself", 2014] foi um pouco conturbado porque perdemos a nossa baterista e tivemos que contratar um outro músico para gravar o disco à última da hora. Como tal, acho que isso prejudicou o nosso desenvolvimento como banda.» O sucessor "Agony", lançado dois anos depois, traria notícias melhores: «Quando trocámos de baterista e formámos realmente uma banda sólida, determinámos que queríamos misturar thrash metal com death metal, e o tipo de riffs e a maneira como compomos ficou mais solidificada porque temos gostos em comum

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mas também temos gostos diferentes, pelo que misturar isso tudo deu trabalho.» À terceira oportunidade, a visão das Nervosa ficou bem mais clara: «Com o terceiro disco aprimorámos o nosso som. Primeiro porque a estrada trouxe-nos experiência, então estamos melhor do que antes. Não é que esteja bem o suficiente», brinca, «mas evoluímos». A baterista Luana Dametto viria a desempenhar um papel muito importante na evolução das Nervosa, conforme Prika explica: «A Luana levou-nos a chegar exactamente onde queríamos. Trabalhámos muito neste disco e a Luana contribuiu p'ra caralho, pois trouxe toda a técnica. Apesar de ser uma baterista nova e de ser super jovem, traz uma bagagem muito grande porque começou a tocar muito cedo. Veio de uma banda de death metal, que é bem mais técnico do que o thrash, então para ela foi mais fácil. Estamos muito satisfeitas com o resultado deste disco e mal vemos a hora de começar a tocá-lo ao vivo!»

HUMANIDADE EM DECLÍNIO «Na realidade, a humanidade já está no seu fim há muito tempo», diz-nos Prika sem grande surpresa. «Vivemos no limite, com muitos conflitos mundiais, muita desigualdade e muito ódio, não é? E vemos isso a crescer diariamente. A história do mundo diz-nos o seguinte: guerra, tempos de paz, guerra, tempos de paz… É uma montanha russa. Sabemos que uma terceira guerra mundial está muito próxima de chegar e está por um fio. Todos nos tentamos conter e sabemos que isso seria mau para o mundo, mas o ódio cega o ser humano e uma guerra irá rebentar a qualquer hora.» Aos olhos da guitarrista, o declínio da nossa espécie advém não só das guerras por nós fomentadas mas também da natureza humana, que está cada vez mais apática: «As pessoas estão mais frias e egoístas, cada vez mais se preocupam menos e isso também faz com que a Humanidade se vá enterrando numa vala. Destruímos a Natureza, esgotamos os nossos recursos naturais, matamos animais... Qualquer dia isto vai dar merda.» A causa desta decadência tem um motivo simples: egoísmo. «As pessoas acham que só porque têm dinheiro podem comprar tudo e dizem 'atira o lixo para ali que depois o lixo vai-se reciclar sozinho', e não é bem assim, não é? É puro egoísmo: 'Eu quero viver bem e que se foda o resto.' É um pensamento muito egoísta.»

BRASIL, PAÍS PORRADA Em “Raise Your Fist”, décima faixa do álbum, podemos ouvir excertos de discursos daqueles que ao longo dos tempos lutaram pelos Direitos Civis. Temas como a opressão, a desigualdade, o preconceito e a corrupção estão sempre vivos nos temas de Nervosa que, e segundo a nossa entrevistada - apesar de esperar o contrário -, não acha que o ser humano alguma vez será capaz de ver para além da cor, do sexo ou até do ódio: «Espero, acredito e quero muito isso, mas é algo que está muito longe de se tornar realidade. Existem religiões muito radicais que parecem viver num mundo muito separado do nosso. Acredito que há muitas coisas que cegam o ser humano que nos impossibilitam de evoluir e uma delas é a religião. O ódio e o preconceito fazem parte do ser humano e isso vai sempre existir.» Prika descreve-nos a situação actual do Brasil no que ao preconceito diz respeito: «O racismo existe no Brasil, como em qualquer outro lugar do mundo, mas acredito que o problema maior no Brasil em relação ao preconceito é a condição social. Aquela discussão sobre quem tem dinheiro e quem não tem. O pobre, que é ignorante de conhecimento e educação, contra o rico, que tem acesso à educação; então a exclusão no Brasil é mais social do que racial. O Brasil é um país que tem pessoas do mundo inteiro, então vês negros ricos que são donos de empresas e, para além disso, o Brasil é um país de negros. Há bastante inclusão. Claro que ainda há muito para trabalhar, muita coisa terá que ser feita

para destruir o preconceito, mas aqui não há uma separação de negros e brancos como há nos Estados Unidos por exemplo, onde tens séries de televisão só de negros e séries só de brancos, e já ouvi pessoas que me disseram que moraram nos Estados Unidos e que têm praias e bairros onde os negros não podem entrar. A separação no Brasil é de condição social: os pobres na favela e os ricos nos seus bairros.» O seu país natal desenvolve ainda um papel muito activo não só nas letras mas também no próprio instrumental, como explica Prika: «O ódio e a raiva têm muita influência porque o Brasil é um país corrupto, desigual e injusto. A justiça só existe para quem tem dinheiro, e para quem não tem a justiça consegue ser muito cruel. Isso dá-nos raiva e o resultado é tocarmos um tipo de música agressiva devido a tudo aquilo por que passamos nas nossas vidas, no dia-a-dia... Devido ao que presenciamos no nosso país.» Apesar disso, as Nervosa partilham de uma visão que vai muito além do Brasil, tentando para isso adaptar as realidades que abordam nas suas músicas de forma a serem bem recebidas no restante globo: «Como somos uma banda que canta em inglês e não em português, queríamos uma coisa mais mundial ao invés de algo regional, pelo que quando falamos de corrupção, falamos de um modo geral pois é algo que está presente no mundo inteiro. Mais nuns lugares do que noutros, é certo, e também nos focamos bastante no ser humano e no seu comportamento, conseguindo assim atingir o mundo inteiro.»

O VELHO CONHECE O NOVO As influências de Nervosa são evidentes e não seria de esperar o contrário. Nunca esconderam o seu fascínio pelas bandas que agitaram as décadas de 1980 e 1990, acabando por produzir uma fórmula cuja essência vem dos anos dourados do metal mas com um espírito todo ele jovem: «Todas as nossas influências vêm das bandas antigas, das bandas clássicas dos anos 80 e 90», admite Prika. «O lado moderno surge porque fazemos parte de uma geração mais nova e os equipamentos que usamos são diferentes. Então a sonoridade acaba ela própria por soar diferente. Usamos outro tipo de pedais, de amplificadores, de microfones, e tudo isso influencia o resultado final.» De salutar também neste disco está a forma fantástica com que o produtor lidou com o baixo da também vocalista Fernanda Lira. Prika explica as razões que motivaram a insistência da banda para que este instrumento, muitas vezes negligenciado, fosse perfeitamente audível: «Só pelo facto de sermos um trio, o baixo já aparece mais naturalmente, mas isso faz mais parte da personalidade da Fernanda. Ela sempre gostou do baixo mais agudo, inspirado no Steve Harris [Iron Maiden], então isso faz com que acabe por se destacar mais do que um baixo extremamente grave, pois o baixo normalmente em bandas de thrash metal - e principalmente death metal - é tão grave que nem percebes. Está mais ali para completar os graves e dar um fundo à música do que para perceberes as notas.» Terminadas as cortesias, Prika desligava do outro lado do Atlântico para aproveitar o que era suposto ser uma semana de férias antes de voltar ao rigoroso calendário que levam a cabo desde que o contrato com a austríaca Napalm Records se tornou uma realidade. As Nervosa vão andar em tour e fica manifestada a vontade de passar por Portugal.

Álbum: DOWNFALL OF MANKIND Editora: NAPALM Lançamento: 1 JUNHO 2018

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"CULTURA DO ESTUPRO" «O João Gordo é um amor de pessoa», responde-nos Prika de imediato quando questionada acerca da participação especial do líder dos Ratos de Porão na faixa "Cultura do Estupro". «Apoiou-nos sempre muito numa fase em que as pessoas gostavam de nos ofender na Internet. Sempre nos defendeu e um dia disse-nos: 'Por que é que vocês não me deixam fazer uma participação no vosso disco? Quero fazer uma letra a defender-vos.' A ideia ficou no ar e quando começámos a gravar convidámo-lo para participar. Ele escreveu uma letra super foda que se chama “Cultura do Estupro”, que tem tudo a ver com aquilo que falamos, passamos e vivemos. Foi maravilhoso estar com alguém que é extremamente importante para a cena metal e que é uma pessoa maravilhosa. Foi muito bom ter a oportunidade de trabalhar com ele.»

CONVIDADOS DE LUXO Para além do icónico vocalista dos Ratos de Porão, as Nervosa chamaram ao serviço outros convidados: «Tivemos outras pessoas que fizeram parte do disco e que são extremamente importantes, tais como o baterista dos Korzus, o Rodrigo Oliveira, que é uma das bandas mais importantes do metal brasileiro, e tivemos também a participação de Michael Gilbert, o guitarrista dos Floatsam & Jetsam, que é "um puta brother" e foi incrível tê-lo a participar numa parte do solo da nossa faixa-bónus. Foi uma honra enorme!»


TEXTO: DIOGO FERREIRA / ENTREVISTA: MERLIN ALDERSLADE / FOTOGRAFIA: AMANDA DEMME & MIKAEL ERIKSSON

«O Cardeal é a personagem que tem potencial para se tornar Papa.» VENTOS DE MUDANÇA “Sou o Papa Emeritus 0. Acabou a festa e agora começa uma nova era. A Idade Média começa agora.” Foram estas as palavras, proferidas a 30 de Setembro de 2017, que mudariam o universo dos Ghost para sempre – mais uma vez. A meio da finalizadora “Monstrance Clock”, num concerto em Gotemburgo (Suécia), Papa Emeritus III, o frontman que liderou a fase da banda com maior sucesso, era abruptamente removido do palco enquanto os seus Nameless Ghouls observavam inanimadamente o corrupio instalado. Logo após emergia uma figura sombria e frágil composta por um corpsepaint zombie e paramentos papais. Era Papa 0. Ao dirigir-se à plateia perplexa com as frases atrás mencionadas, duas coisas tornar-se-iam claras: em primeiro, os Ghost estavam a ser alvo de mudança, e, em segundo, ninguém fazia ideia do que dali iria suceder. «Seria idiota da minha parte assumir que toda a gente à minha volta compreende o que me vai na cabeça», explica Tobias Forge com um sorriso malicioso. «É uma luta.» Cerca de um ano depois de Forge ter, a contragosto, deixado cair as máscaras e oficializar-se como o criador de tudo o que há em Ghost chegamos ao quarto álbum “Prequelle” e serve este artigo para dissecar o conceito, as novas personagens e boa parte da biografia desta ainda jovem carreira que já é um marco preponderante no panorama heavy metal e rock. Tobias Forge é um nato conhecedor de música e no meio desse conhecimento vive um metálico nerd que elevou esta banda ao mais alto nível da música alternativa como já não se via desde a emancipação de projectos como Marilyn Manson e Slipknot. Quando se fala de um novo álbum de Ghost a ideia generalizada vai para além disso – um novo disco de Ghost é um evento, é o viver na expectativa para se descobrir ansiosamente o que aí vem musical e imageticamente, e é o conviver com a evolução de cada capítulo iniciado em 2010. Utilizando expressões inglesas e relacionadas ao cinema, os Ghost tem um plot mas como em qualquer bom filme há um twist, e Forge tem sabido brincar com isso: «Tento sempre dificultar as coisas. Em vez de

fazer grandes e vazias declarações comerciais, tento fazer as coisas de uma forma mais cinemática. Se continuássemos com Papa atrás de Papa, isso tornar-se-ia enfadonho. Seria uma maneira unidimensional de se olhar para esta banda. Se tivesse feito isso, os Ghost já estariam em piloto automático e entrariam em estagnação rapidamente.»

CARDINAL COPIA: NOVO LÍDER DOS GHOST Por esta altura, a grande maioria já deve ter conhecimento que o líder dos Ghost tem envergado a configuração de (vários) Papa Emeritus: uma figura papal revestida por corpsepaint que declama odes à vida, amor, morte, sexo e Satanás em nome de um clero misterioso e que é apoiado por um rebanho de músicos encapuzados que dão pelo nome de Nameless Ghouls. Cada novidade discográfica significa um ‘novo Papa’ pronto a exibir um novo look e conceito, mas cedo se percebeu que Papa 0 (pronuncia-se ‘Nihil’) não estava para aí virado. No segundo de três capítulos que nos ajudaram a acompanhar o desenrolar do enredo foi-nos apresentado Cardinal Copia – isso mesmo, um Cardeal e não um Papa. Com o vídeo para “Rats” tudo foi ainda mais desmitificado. «Acho que o que mais quero escavar neste álbum faz parte de coisas que não eram muito claras anteriormente», responde Forge quando questionado como é que esta nova entidade se encaixará no mundo de Ghost. «Com este álbum estou ansioso por esclarecer o conceito de sénior versus júnior, mestre versus aprendiz, idoso versus jovem. Assim sendo, há um desapego com Papa 0. Ele é uma grande personagem, mas é demasiado velho para isto. Pode ser o líder mais velho da igreja, mas não consegue ser o artista que aparece no meio das massas. Portanto precisa de uma pessoa mais jovem e mais vibrante que possa ensinar. Será o Cardinal [Copia].» De batina negra, barrete eclesiástico, bigodinho e olhos côncavos, Copia apresenta-se energético, algo convencido e com maneirismos urbanos.

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DISCOGRAFIA OS GHOST EM DISCOS

“Opus Eponymous” [2010, Rise Above] Este primeiro álbum é tipo o embrião de tudo neste grupo clerical: a ideia está lá, só que ainda mal formada. Com alguns riffs metal sinistros (e plagiados?), este disco também consegue ser melódico e catchy nos refrãos, mas em 2010 os misteriosos sacerdotes suecos ainda procuravam a receita certa. “Infestissumam” [2013, Loma Vista] Com a prova de fogo que é muitas vezes o segundo álbum, os Ghost deram o seu leap of faith de quase desconhecidos para ultraprofissionais com “Infestissumam”. Entre satanismo e sexo, temas como “Year Zero” e “Monstrance Clock” fizeram, e ainda fazem, as delícias de quem segue este profano conclave. “If You Have Ghost” EP [2013, Spinefarm] Foi com este EP que os Ghost recolocaram Roky Erickson sob a luz dos holofotes ao fazerem uma cover imensamente bem sacada do tema “If You Have Ghosts”. Para além de reinterpretarem Abba e Army of Lovers, destaque para “Waiting for the Night” (Depeche Mode). Dave Grohl foi o produtor. “Meliora” [2015, Spinefarm] Focados na sedução amorosa e na subida de estatuto social – sempre com Lúcifer no epicentro –, os Ghost fizeram de “Meliora” não só um excelente álbum com groove mas também uma experiência cinéfila. Com Papa Emeritus III, Tobias Forge tornou-se oficialmente a personagem reinante do panorama heavy metal / rock. “Popestar” EP [2016, Loma Vista] O cinema de “Meliora” continua com o único tema original deste EP, “Square Hammer”. Tobias Forge volta a evidenciar o seu gosto por música electrónica ao fazer covers de “I Believe” dos Simian Mobile Disco e “Missionary Man” dos Eurythmics. Foi praticamente a despedida de Papa Emeritus III. “Prequelle” [2018, Spinefarm] O quarto longa-duração dos Ghost debruça-se sobre pestes, eras negras e apocalipse. Sem ser propriamente superpesado, mas com mais groove do que “Meliora”, este trabalho não perde em nada a característica catchiness de refrãos que ficam no ouvido ou o memorável som dos teclados à classic/prog rock dos anos 1970. WWW.GHOST-OFFICIAL.COM

«Acho que tomámos pessoas como o Lemmy por garantidas.» Resumidamente é a personificação de “Prequelle”: o álbum que trará a próxima evolução da visão de vida de Tobias. «O Cardeal é a personagem que, se jogar as cartas certas, tem potencial para se tornar Papa», revela o sueco. Estará, portanto, Papa 0 a treinar um aprendiz? «Sim», afirma Forge, «mas a história decorrerá em paralelo ao ciclo do álbum». Apenas isto.

MORTE E PESTE Talvez não precisemos de ficar tão surpreendidos com a relutância que Tobias Forge expressa em revelar detalhes, porque este é o homem que, desde que revelou o seu papel nos Ghost em 2017, tem de lidar com um maior nível de escrutínio do que antes. Depois de se estabelecer como um nome importante do underground sueco com os Repugnant, foi com a fundação de Ghost que a criatividade de Forge explodiu. Quando o single “Elizabeth” foi libertado, em Junho de 2010, faiscou instantaneamente uma maquinaria de questões e quando em Outubro seguinte saiu o primeiro álbum “Opus Eponymous” já a locomotiva estava em andamento. Cedo, fãs de todo o mundo irromperam pelos fóruns e redes sociais a perguntar que banda era aquela que misturava malhas de King Diamond e Blue Öyster Cult com refrãos orelhudos e quase pop; isto tudo com a cereja no topo do bolo que era o anonimato, o corpsepaint e a toada satânica. Seguiu-se o bombástico “Infestissumam” (2013) e o sumptuoso “Meliora” (2015), este que valeu aos Ghost concertos esgotados, um Grammy e quase meio milhão de vendas. Agora em 2018, “Prequelle” é um passo que Tobias Forge já vinha preparando há mais tempo do que imaginamos: «Tematicamente havia um claro esboço para este disco há alguns anos. Ao fazer o “Meliora” tinha duas pilhas de canções. Disse ao nosso produtor, Klas Åhlund, que tinha duas ideias. Uma era a de um disco mais futurístico, mais urbano. Depois tinha outra em mente que era mais… medieval. Decidimos seguir com a futurística em primeiro, que se tornou no “Meliora”. Agora é altura para a medieval. Que é o “Prequelle”.» Com pragas e pestilências no foco central deste disco, Papa 0 é o realizador sombrio e Cardinal Copia o seu narrador assustador. Os Ghost sempre foram mais do que apenas bons entertainers com conceitos bem delineados escondidos atrás de metáforas construídas à volta de Satanás. “Opus Eponymous” versava sobre a condenação da humanidade, “Infestissumam” descreveu o Anticristo de uma forma que nos afectasse o âmago e “Meliora” canalizou o humanismo através de um filtro de excessivo materialismo sem esquecer o amor. Tudo isto é-nos transmitido através de planos carnais e espirituais que vão para além da nossa existência – Ghost fala-nos de vida e de morte, da humanidade em si. Do pó viemos, ao pó voltaremos. «Há algumas coisas que queria incluir em “Prequelle” que não tinham sido explicadas antes», conta Tobias. E prossegue: «Este é um álbum temático sobre morte e o fim iminente, e nos últimos anos temos visto morrer alguns dos nossos ídolos mais velhos. Ronnie James Dio foi um, mas acho que isto me afectou muito especialmente quando o Lemmy morreu. É como se os nossos pais morressem. Acho que tomámos pessoas como o Lemmy por garantidas. Ia sentar-se à nossa mesa para sempre, mas agora há uma cadeira vazia. Afectou-me mais do que imaginava que pudesse afectar. Fez-me querer ser um pouco mais atencioso quando chega o momento de ter a certeza que tirei o melhor partido de quando estou com os mais velhos. É algo que me afectou muito e ao disco. Portanto, Papa 0 representa a passagem de testemunho? Sim.»

O método de utilizar temas e imagens históricas para projectar problemas contemporâneos está estampado no single/vídeo “Rats”. Enquanto musicalmente este pode ser um dos números mais agitados e energéticos de Ghost, as letras são influenciadas na Peste Negra, a praga mortífera que aniquilou meia Europa no Séc. XIV. Mais: como em qualquer coisa que a banda faz, esta canção pode ser tão relevante agora como em qualquer momento da História. «A peste atingiu a Europa nos 1340s através de barcos a serem rebocados até ao porto de Messina, e estavam cheios de mortos. A única coisa que saiu desses navios quando chegaram ao porto foram ratos negros. Foi assim que a praga chegou à Europa e daí se espalhou.» «Mas estes não são elementos aos quais possamos encolher os ombros como se tivessem acontecido apenas naquele tempo», esclarecendo que «isto é tudo muito contemporâneo». E continua: «Há milhões de pessoas que, nos últimos quatro anos, sentiram a mesma realidade apocalíptica sentida na Europa do Séc. XIV, quando o mundo estava literalmente a colapsar e quando se pensava que deus estava a lançar a condenação à face da Terra. A morte está sempre presente.» Todavia, as comparações entre passado e actualidade não terminam aqui. Para Tobias Forge, os Ghost são uma reflexão da forma como a sociedade pode avançar com um passo mas atrasar-se com outro. «Acho que andámos para trás quando se fala em sociedade moderna», teoriza. «Dizemos que crescemos através de certas imaturidades e superstições, mas os nossos ‘maneirismos online’, a forma como unimos forças e como nos tornamos amotinados para aniquilar pessoas são muito medievais. É básico. ‘É um bruxo! Apedrejem-no!’ É muito primitivo, e acho que estamos num tempo em que a versão idealística de nós mesmos está a encontrar-se com aquilo que os babuínos realmente são. É uma dinâmica estranha em que estamos pouco certos daquilo que somos. Os nossos papéis estão a ser redefinidos, significando que a nossa moral e o nosso estilo de querer viver não correspondem à maneira como realmente vivemos. Portanto sim, acho que muitas das coisas que abordo neste álbum são muito contemporâneas. Pinta-se uma imagem do que aconteceu no passado, mas muito disto é o agora.»

“PREQUELLE” – UMA ÓPERA-ROCK Conceptualmente, “Prequelle” é um álbum que certamente invoca vários níveis de interpretação e análise, e musicalmente a coisa não é muito diferente. Para além do pop-metal/rock de “Rats”, no alinhamento encontramos faixas bem hardrock e groovadas como “Dance Macabre”, power-ballads como “See the Light”, instrumentais espaciais em “Miasma” (que inclui um breve solo de saxofone), ambições de óperas do rock em “Pro Memoria” ou linhas de guitarra inspiradas em êxitos intemporais como “Beat It” de Michael Jackson. «Tentei fazer de Ghost mais Queen do que AC/DC», revela o interlocutor sobre a combinação da nova sonoridade. «Com Ghost cada canção tem de ter a sua própria ideia e estrutura. O que expandi em “Infestissumam” e em “Meliora” foi que uma canção de Ghost não começa necessariamente com uma grande intro de guitarra. Com Ghost podes fazer qualquer coisa.» Acabando por confessar o que já desconfiávamos: «Sou um pouco de ópera-rock com a minha música.»

«Sou um pouco de ópera-rock com a minha música.» 24 - ULTRAJE #16


ACÇÃO JUDICIAL E O FUTURO Trazer à vida toda a grandiosa visão artística é o prato principal da comezaina confeccionada por Tobias Forge, mas acontecimentos recentes têm desviado as suas, e as nossas, atenções. Há pouco mais de um ano, quatro antigos Nameless Ghouls entraram em luta judicial contra o vocalista, reivindicando que teria existido um acordo que firmava que Ghost era um aventura colaborativa – um acordo que alegaram ter sido quebrado por Tobias Forge quando este começou a assumir mais controlo da banda. O sueco respondeu dizendo que tal concordância nunca aconteceu e que os restantes papéis no grupo existiam puramente para actuar e executar as suas ideias. Para ele, ver esta acção judicial tomar proporções públicas – uma situação que acelerou a tomada de decisão para tirar as máscaras de Papa – foi algo que demorou o seu tempo a contrair habituação. «Acho que o que aconteceu foi o culminar de vários anos de confusão», começa diplomaticamente. «A razão para que isto se tenha tornado público é-me desconhecida, porque durante vários anos muito do que fiz e de como me comportei enquanto artista foi feito nos bastidores, e alegremente. No fim são dores de crescimento. Nada disto aconteceria se as coisas não corressem bem e se os Ghost fossem pelo ralo abaixo. Quer dizer, assim os Black Sabbath tinham andado em litigação eternamente! Vejo isto quase como um rito de iniciação. Não és um artista a sério até que passes pelo primeiro processo judicial.» Quanto a revelar-se oficialmente como o homem por detrás de Ghost, o que aconteceu numa entrevista de rádio quatro meses após a acção se ter tornado pública, Forge admite que isso iria acontecer a qualquer momento. «A ideia de ser anónimo vai contra o estilo de vida moderno», argumenta. «É maravilhoso que ser anónimo tenha funcionado durante seis anos! Não sou tão colorido como as personagens que ostento, e é por isso que as criei – são mais interessantes do que eu. E acho que isso vence em termos de perfil públi-

co. Nunca conseguirei ultrapassar as minhas personagens, e estou de bem com isso. Estou bastante contente por não ser o principal aspecto visual da criação. Gostaria de ter crédito por ser responsável por isto acontecer, mas não tenho de ser o ponto focal. É bom ter regalias, mas não tenho o desejo ardente de ser famoso.» Com um remate tão humilde, a postura mundana tem-nos ensinado que a fama é raramente controlada pela pessoa que a abraça, mas parece que Tobias Forge encontrou o papel perfeito na peça que é a sua vida. Acreditando que Ghost é o seu bebé, a história deste conclave teatral vai prosseguir procissão enquanto o seu desejo de criação se mantiver intacto, e novidades ao vivo já estão no adro da igreja prontas a percorrer o mundo: «Vamos ter nove pessoas em palco a fazer barulho em uníssono», significando que os backing-tracks vocais fazem parte do passado e que os concertos de Ghost serão muito mais orgânicos. «Os meus objectivos mantêm-se os mesmos. O plano sempre foi tornar Ghost no espectáculo que sempre quis que se tornasse. Quero ver isto a um nível onde possa, dia-a-dia, actuar perante o máximo número possível de pessoas.» A missa de “Prequelle” está estudada, os coros estão afinados, os acólitos já estão na sacristia prontos a fazer guarda-de-honra até ao altar e os fiéis por todo o mundo estão desejosos por serem abençoados durante as próximas eucaristias presididas por Cardinal Copia. As citações deste artigo foram traduzidas e reproduzidas através da Metal Hammer e os direitos de autor, assim como o seu licenciamento, pertencem à Future Publishing Limited [uma empresa do grupo Future plc, UK 2018]. Todos os direitos reservados.

Álbum: PREQUELLE Editora: SPINEFARM Lançamento: 1 JUNHO 2018

APRESENTAÇÃO DA

FAMÍLIA Nome: Papa Emeritus I Anos de serviço: 2010-2012 É o original e o mais arcaico de todos os Papas. No activo durante os anos de menor reconhecimento da banda, Papa Emeritus I ficou conhecido pelo seu ar decrépito e de morto-vivo, mas também pelo turíbulo incensado que ostentava. Nome: Papa Emeritus II Anos de serviço: 2013-2015 O segundo Papa manteve a feição medonha, mas de maneira mais trabalhada. É a personagem indicada para disseminar o Anticristo e já algum cariz sexual proveniente de “Infestissumam”, álbum de 2013 que colocou os Ghost na ribalta. Nome: Papa Emeritus III Anos de serviço: 2015-2017 Supostamente o mais novo e definitivamente o mais bon vivant. Bonito (dentro dos parâmetros de Ghost) e bem vestido (tanto com paramentos como com um fato de gala do Séc. XVIII), exala sensualidade relacionada à temática de “Meliora” (2015). Nome: Cardinal Copia Anos de Serviço: 2018-? Não pertence à linhagem e como cardeal poderá vir a tornar-se Papa. Com um certo misticismo e maneirismos urbanos, o Cardeal tratará de acabar com a festança que o seu antecessor andou a perpetuar durante os seus anos de sacerdócio. Nome: Papa Emeritus 0 Anos de serviço: ? Sendo o mentor do escolhido que liderará os Ghost, apareceu pela primeira vez em 2017 para acabar abruptamente com o reinado de Papa Emeritus III. Rabugento, velhaco e old-school, esta será a entidade mais próxima de Satanás. Nome: Sister Imperator Anos de serviço: 2016-? É a intermediária assertiva e eficaz que acalma Papa 0 e orienta os seus pupilos em Ghost. Como mulher de palavras fortes, tem também um sentido de carinho ao fundo do túnel daquela que é a sua postura impetuosa. Nome: Nameless Ghouls Anos de serviço: 2010-? A banda, a carne para canhão, os executantes dos caprichos de todos os Papas. Obedecer e cumprir é o papel das entidades que, sendo várias, têm de funcionar como uma só. Não há espaço para individualismo entre os Nameless Ghouls.

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esculpem as remarcações das últimas duas semanas. Às vezes nem é a tour, é mesmo a falta de Wi-Fi em condições... Houve alturas em que nem tínhamos sinal», começa por dizer-nos J. F. Dagenais, mentor primordial dos Kataklysm. Apanhámo-lo em San Sebastián, Espanha, num dia de folga e com a energia recarregada, o que fez com que a entrevista corresse sobre rodas. Poucas bandas conseguiram o mesmo que os Kataklysm: além de serem um dos nomes principais da primeira vaga de death metal de primeira linha, com registos como “The Mystical Gate of Reincarnation” ou “Sorcery”, lograram evoluir de forma sustentada e entraram com o pé direito nos 2000, com títulos como “The Prophecy (Stigmata Of The Immaculate)” e “Shadows And Dust”. Hoje. Pouco mais de três anos passados sobre “Of Ghosts And Gods”, os Kataklysm regressam com “Meditations”, um disco perfeitamente adequado ao presente e, para não variar, com a marca genética dos veteranos canadianos. Na verdade, custa a crer que “Meditations” é provavelmente o melhor álbum da fase pós-“Shadows And Dust”, tanto em termos técnicos como em maturidade colectiva em todos os sentidos: produção imaculada, um piscar de olho a um death metal mais groovy e uma toada mais polida que, certamente, lhes ajudará a granjear novos fãs de diversos espectros do metal. Outra característica incontornável do novo álbum é a duração substancialmente mais curta de cada faixa em relação a trabalhos anteriores, o que poderá ajudar esses novos fãs ou os desconhecedores da banda a melhor

TEXTO: JOÃO CORREIA / FOTOGRAFIA: CORTESIA NUCLEAR BLAST

sintetizarem o trabalho. «Parece-me que aconteceu de forma natural», começa por dizer o guitarrista. «Na verdade, com este disco tivemos uma abordagem diferente – gravámo-lo com todos os membros na mesma sala, como uma banda. Isso teve um grande impacto na composição, até porque saiu tudo muito natural. Depois, houve muito feedback imediato. Se eu aparecia com uma ideia, os outros membros atacavam-na de imediato e levavam-na para outros caminhos. Divertimo-nos imenso a fazer isto, foi bastante eficaz e sentimo-nos de novo como uma banda a sério. Quanto à duração, aconteceu assim: umas ficaram mais curtas e soavam bem, outras menos curtas e soavam bem na mesma. Acho que ficou fixe porque as diferentes durações acabaram por equilibrar bem o disco.» Mas não é só a relativamente curta duração dos temas que marca em “Meditations” – trata-se do álbum mais melódico de sempre dos Kataklysm. Ainda que as faixas curtas apontem para estruturas mais agressivas, a banda conseguiu permear as camadas de agressão com bastante melodia. Melodia e agressividade parecem azeite e água, mas resultam bem em “Meditations”, o que levanta a questão da naturalidade com que os temas foram criados. «Fluiu tudo de forma muito espontânea. O que reparámos – e que me assustou um pouco enquanto compúnhamos – foi a diferença de tema para tema, pois não sabia se todas as faixas iriam resultar bem no mesmo disco. Quando chegámos à parte da pré-produção e gravação, vimos o quadro todo e percebemos que tudo se encaixava perfeitamente, como num puzzle, e foi aí que entendemos que, felizmente, todas elas soavam bem; tipo, funcionou! [risos]» No entanto, embora o 26 - ULTRAJE #16

som dos Kataklysm nunca fosse estático, nota-se sempre um ligeiro regresso às origens. «Sim. Não quero perder as minhas raízes. De vez em quando volto a tocar um disco antigo nosso por diversão e nostalgia dos tempos em que trabalhámos neles e dos tempos que vivemos nessas alturas. Somos uma banda há tanto tempo que... É estranho, pois parece que ainda não passou muito tempo, mas de repente andamos aqui há 25 anos! Fazemos o que fazemos, somos apaixonados pela música e pelo nosso estilo de vida. O tempo passou, foi isso. Às vezes olho para trás e não acredito que ainda andamos nesta vida. Uma coisa que me impressiona é que estamos todos no mesmo barco e queremos continuar a fazê-lo, pois divertimo-nos com isto. Desde que nos divirtamos e os nossos fãs continuem a apoiar-nos, andaremos cá durante muitos anos.» Uma das principais características dos Kataklysm refere-se à originalidade do som da banda. Os canadianos sempre tiveram um som único, distinto de tanta banda de death metal, o que em parte é explicado em termos geográficos, pois o death metal canadiano sempre esteve um passo à frente em termos de originalidade em relação ao norte-americano, sempre muito orgânico e diversificado. Na comemoração dos seus 25 anos de carreira, certamente que Dagenais deve sentir que, para os Kataklysm, a missão foi cumprida. «Sim, acho, de certa forma. Enquanto crescia, sentia que vivia a minha vida dentro da minha bolha. Na escola nunca me misturei com os outros, e o mesmo se passou com os Kataklysm – sempre nos esforçámos por seguir o nosso caminho e fazer a nossa cena. Sempre que tocávamos nunca tentávamos copiar ou imitar outras bandas. No novo disco tens


«NÃO QUERO PERDER AS MINHAS RAÍZES. DE VEZ EM QUANDO, VOLTO A TOCAR UM DISCO ANTIGO NOSSO POR DIVERSÃO E NOSTALGIA DOS TEMPOS EM QUE TRABALHÁMOS NELES E DOS TEMPOS QUE VIVEMOS NESSAS ALTURAS.»

uma faixa chamada “Outsider” que fala precisamente disso: seres tu mesmo, fechado dentro do teu mundo e a fazeres a tua própria cena. Felizmente, para nós, sentimo-nos muito abençoados por as coisas sempre terem resultado, mas, por outro lado, adoramos o nosso som e o que fazemos, e achamos que é por isso que as pessoas se identificam com o nosso som. Assim como disseste, temos um som único e talvez seja por isso que as pessoas se interessam. Temos muito orgulho em sermos o que somos e no que nos tornámos.» Mas, depois, há o reverso da medalha: certamente que os Kataklysm têm uma opinião formada quando ouvem bandas novas de death metal que soam ao som de marca dos Kataklysm. «Sim, temos. Muitos músicos novos já se aproximaram e disseram que pegaram numa guitarra ou numa bateria devido aos Kataklysm, e isso é muito fixe. Para mim, e voltando à pergunta anterior, fico com a sensação de missão cumprida. Mas quando ouço muitas bandas modernas... [risos] Sinto que existe por aí muito talento: guitarristas, vocalistas, bateristas, baixistas... Fico feliz com tanta evolução, até porque nós somos velha-guarda. No entanto, quando ouço certas músicas hoje em dia perco-me com tanta técnica e complexidade. Perco-me um bocado. [risos] É bom e fico agradecido por isso. Mas também fico triste com as novas bandas por não terem capacidade para criarem bons temas, pois faltam-lhes estruturas e arranjos sólidos, que era uma coisa que bandas old-school dos anos 90, como nós, tinham. Sinto que lhes falta isso hoje em dia, mas é uma opinião pessoal. Mesmo assim, o nível de talento está tão elevado que dá gosto de ver.» É compreensível que Dagenais diga isto. Afinal, os Kataklysm progrediram, mudaram e adaptaram-se imenso ao longo das décadas, o que de certa forma os faz parecer um pouco como David Bowie, sempre a lutar contra a corrente, a respeitar a contemporaneidade e a construir constantemente a sua assinatura musical. O Santo Graal dos tempos modernos é conceber algo fresco, original e bom, mas os Kataklysm continuam a apresentar resultados. Estará isto relacionado exclusivamente com os novos membros da banda ou será que é o núcleo duro dos Kataklysm que orienta cada novo disco? «Somos todos irmãos na banda. Não importa quem aparece com uma nova ideia. Desde que o resultado seja bom... Às vezes até o baterista tem novas ideias e eu testo-as; porque não? Contribuímos igualmente, os Kataklysm são um esforço de grupo e as diferentes influências de cada um fazem a diferença, fazem com que a magia aconteça. Por sua vez, isso faz com que continuemos a lançar música fresca e original.»

“Meditations” apresenta um som mais mainstream muito devido à varinha mágica de Jay Ruston na produção do disco. Não é injusto dizer que a produção e a dinâmica sonora do novo registo são insólitas na longa carreira dos Kataklysm. Certamente que a banda está satisfeita com o resultado atingido com “Meditations”, mas Jay Ruston não é propriamente o tipo de produtor que costuma trabalhar com bandas de metal extremo. «Bom, quando ouvimos o trabalho do Jay Ruston há uns anos, estávamos a fazer o apoio aos In Flames nos Estados Unidos, ouvimos o novo disco dos Anthrax ou assim no tour bus e ficámos tipo 'foda-se, grande som!'. Fomos ao Google pesquisar pelo produtor e telefonámos-lhe para saber se estava disponível. Acontece que ele é um produtor canadiano a viver em Hollywood e sabia quem nós éramos. Disse logo que estava interessado em trabalhar connosco e o timing foi perfeito desde o início. A princípio estávamos receosos, porque ele é um grande produtor de rock com algum currículo de heavy metal, mas raramente faz trabalhos com bandas de metal extremo como os Kataklysm. Nós temos noção de que é necessária uma certa técnica ou processo para obter o nosso som em estúdio, por isso não tínhamos a certeza se ele conseguiria fazer esse tipo de som. Mas quando ouvimos a mistura do primeiro tema passámo-nos com a potência da produção, enorme! Estamos principalmente satisfeitos com o resultado sonoro da bateria, que está tão natural e amplo, sem recurso a tecnologias e tudo o resto, pois queríamos obter o nosso som ainda assim. Aquilo que ouves no novo disco é tudo feito à moda antiga em estúdio, da bateria às guitarras. Ouves quatro gajos a tocar um som amplo e forte sem recurso a tecnologia para acabar com um som demasiado perfeito, muito como os álbuns do passado, pois queríamos afastar-nos desse conceito e obter um som mais orgânico e sujo, mas também muito agressivo. Outra vez: missão cumprida, estamos satisfeitíssimos.» Falando em passado, qualquer fã antigo de Kataklysm se lembrará para sempre de Sylvain Houde, o carismático vocalista que, quer se amasse ou odiasse, ficará para sempre na memória como a marca registada dos Kataklysm, da mesma forma que a voz de James Hetfield a é em Metallica e a bateria de Dave Lombardo a é nos Slayer – foi assim tão determinante para o sucesso dos Kataklysm. Para uns, a gama vocal do homem, que variava entre o urro, o grito, a declamação quase falada com gravidade e que transmitia uma sensação geral de alucinação, fazia lembrar os rasgos de genialidade de um Syd Barrett de tão única que era, ao passo que, para outros, os fazia fugir da banda a sete pés quando o ouviam. Claro que tudo muda e as pessoas seguem as suas vidas, mas trata-se de uma das

glórias antigas dos Kataklysm. De repente, Sylvain saiu da banda e nunca mais se ouviu falar dele dentro do metal. «Para te ser sincero, já não vejo o Sylvain desde 1997. Nunca mais ouvi falar dele e não faço ideia do que estará a fazer neste momento. É um pouco triste, pois conseguimos tanto juntos! Para nós, foi o princípio de tudo – foi muito graças a ele que obtivemos um contrato de gravação, pois a sua voz era simplesmente única, era um excelente vocalista e letrista. Mas não sei o que lhe aconteceu. É certo que as bandas acabam e que as pessoas se separam, mas espero que esteja tudo bem com ele e que esteja a fazer aquilo que ele gosta. Nunca houve atrito pela sua saída e ele saiu porque assim decidiu, foi uma decisão pessoal dele. Continuámos o nosso caminho e descobrimos o nosso próprio som depois da saída dele, tanto com os membros da altura como com os novos membros. Correu-nos bem e gostamos do que fazemos actualmente. Não estou com isto a dizer que desrespeitamos os nossos primeiros dois discos, tipo 'ah e tal, são uma merda, só gostamos dos discos do presente!' [risos], longe disso – na verdade, foram bons tempos e valeram o que valeram. Já lá vão mais de 20 anos, é uma coisa do passado, mas não me quero esquecer das nossas origens.» A celebração dos 25 anos dos Kataklysm coincide com o lançamento de “Meditations” e, tendo em conta que é um disco tão distinto, presume-se que esteja alguma coisa preparada para celebrar os dois acontecimentos. «Sim, sem dúvida. Como disse, não nos esquecemos de onde viemos, por isso queremos incluir algumas músicas que raramente tocamos ao vivo no nosso set, por exemplo. É uma forma de variarmos e de introduzirmos novidades para os fãs. Obviamente, promoveremos o novo álbum também, achamos que temos um grande disco em mãos para promover. Mal posso esperar para tocar as novas faixas ao vivo nos festivais de Verão. Depois, a tour com Hypocrisy no Outono vai ser épica – na verdade, e para quem estiver mesmo interessado em aparecer, sugiro que reserve bilhetes o quanto antes, pois as promotoras já nos informaram que estão a desaparecer a um ritmo vertiginoso. Tanto a nossa agência como a Nuclear Blast estão muito contentes com o resultado, logo, também nós estamos. [risos]»

Álbum: MEDITATIONS Editora: NUCLEAR BLAST Lançamento: 1 JUNHO 2018

«AQUILO QUE OUVES NO NOVO DISCO É TUDO FEITO À MODA ANTIGA EM ESTÚDIO, DA BATERIA ÀS GUITARRAS.» 27 - ULTRAJE #16


“D

TEXTO: DIOGO FERREIRA / FOTOGRAFIA: PETER BESTE

evoid of Light” apareceu em 2016 como primeiro álbum dos norte-americanos Uada e foi logo louvado pela imprensa como um bom e sólido álbum de black metal melódico. Cerca de dois anos depois, o quarteto está de volta com “Cult of a Dying Sun” e sem a aparente pressão devido à prova de fogo que é um segundo disco, conforme nos faz crer o guitarrista Jake Superchi: «Não posso dizer que tenhamos sentido pressão com o lançamento do segundo álbum, pelo menos não a pressão que poderia ser maior do que aquela que colocamos em nós mesmos. Sabíamos que o que estávamos a fazer era único e possivelmente inovador para o género. Não é inovador no sentido de que estamos a fazer algo completamente diferente, mas mais porque o álbum assume muitas faces e géneros diferentes permanecendo fiel ao som que é Uada.» A assinatura do black metal melódico é assim mantida no novo álbum, mas notam-se incursões ao heavy metal em alguns leads de guitarra, o que faz deste disco um objecto ainda mais melódico do que o anterior. «Quando se formou Uada, o James [Sloan, guitarra] e eu conversámos muito sobre influência, o que continuou ainda mais neste álbum», conta Jake que relembra também existirem «muitas raízes semelhantes desde os primeiros dias do black metal», sem omitir «bandas clássicas de heavy metal que se podem ouvir no trabalho [de Uada]». «Como guitarristas sentimos que é importante honrar essas raízes em vez de negá-las», sublinhando com firmeza que «muitas bandas de black metal parecem esquecer-se que se não fosse por bandas como Black Sabbath, Judas Priest, Thin Lizzy, Mercyful Fate, Metallica inicial, Ozzy Osbourne na era de Randy Rhoads, Motörhead ou Iron Maiden, o black metal podia não existir ou não ser o que é hoje». Assim sendo, é expectável que Superchi coloque Uada neste raciocínio: «Não teríamos encontrado o nosso caminho para uma versão mais extrema e intensa de metal se não fosse por essas bandas. Uada é definitivamente uma banda de black metal, mas esforçamo-nos para não ser apenas mais um grupo que toma a rota segura para se encaixar no molde. Começámos com a tarefa em mente de ir naturalmente para além das regras e regulamentos que o black metal tem assumido.» Mesmo que se ache que o som de Uada é polido, uma atmosfera geral está presente em todo o álbum. Mais: sem tal coisa o black metal perde a sua essência. «Tentamos equilibrar a nossa produção entre um som cru e polido», avisa o norte-americano que admite que «tudo o que faz [nesta banda] tem um equilíbrio». «Sinto que o contraste

é extremamente importante para o nosso trabalho e som, e com a atmosfera não é diferente. A atmosfera e a energia que criamos ao vivo são o que estávamos a tentar capturar na gravação. Não é uma tarefa fácil, a menos que a gravação seja ao vivo, mas sentimos que estamos um passo mais perto e também na direcção certa.» Ainda bem que se roçou no assunto de se tocar ao vivo, até porque ouvindo o disco parece que James e Jake não tiveram dificuldades em incluir os dois novos membros Brent e Edward, baterista e baixista respectivamente, que fizeram um óptimo trabalho neste “Cult of a Dying Sun”. Questionado sobre a coesão vivida no seio de Uada, Superchi realça que «a banda agora sente-se mais forte do que nunca» e que «a coesão é uma coisa muito importante para uma banda que faz digressões e que trabalha tanto». Continua: «Harmonizamo-nos no palco e precisamos de harmonizar fora dele senão podemos colocar tudo em risco. Nada pode parar Uada e continuaremos a avançar sem importar o que o futuro reserva. Há uma fome insaciável por arte e criação. É uma forte ética de trabalho e determinação que nos levará onde queremos ir, e acreditamos que o que fizemos com base na nossa estreia é apenas uma pequena amostra dos frutos que estão por vir.» Dissecada que está a parte auditiva e de recursos humanos, falta tentar compreender o conceito por detrás do título “Cult of a Dying Sun”. “Uma lança afiada no coração da estrela mais brilhante” é uma frase que está no press-release e que captou a nossa atenção principalmente se conotada ao título do álbum. Sem grandes filosofias, o músico explica que «é uma analogia que vem do conceito geral de reflexão». Ao confessar que prefere usufruir da sua reclusão, Jake sabe que um compromisso teria de ser feito: o de conseguir coexistir com outras pessoas. «Para alcançar e levar esta banda tão alto quanto o sol temos que nos aventurar e somos forçados a lidar com as pessoas. Durante o processo de composição deste álbum até aos momentos finais da mistura estávamos a lidar com quem nos rodeava por razões erradas e com pessoas exteriores que queriam sabotar o nosso sucesso da maneira que achavam que conseguiam. Mas não há como parar Uada, só nós próprios podemos parar.» E finaliza: «Olhando para esses cenários e para o título do álbum, “Cult” representa pessoas ou um grupo de pessoas e “Dying Sun” é a luz dentro de nós que está a ser morta lentamente pelas acções dos outros em nosso redor. É fácil encontrar a nossa luz e aproveitá-la em solidariedade. É muito mais um desafio fazer o mesmo face à adversidade, e este álbum tem a ver com isso.»

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JAKE SUPERCHI SOBRE A PERSEGUIÇÃO AO BLACK METAL Bem justificada numas situações mas mal noutras (não adianta agora mencionar quais e porquê), nos EUA tem decorrido uma perseguição sem antecedentes ao black metal, especialmente por parte de movimentos antifa – os conservadores de direita e tementes a deus devem estar com inveja. Jake Superchi, que é um norte-americano natural do Massachusetts, deixou-nos a sua análise que aqui replicamos integralmente: «É um momento muito interessante aqui nos EUA, e novamente o conceito de reflexão surge na nossa sociedade. Vivemos tempos de gratificação instantânea, e se as pessoas não encontrarem satisfação em determinado lugar então vão procurar noutro. Parece que as pessoas se acostumaram tanto a conseguir o que querem que quando não conseguem não sabem lidar com isso. Acho que isso se tornou evidente com a eleição de Donald Trump como presidente. Temos visto uma quantidade ridícula de birras, culpa, vandalismo e drama que agora se transferiu para o ataque ao black metal. Infelizmente, as pessoas que estão a tratar de cancelar concertos acham que estão a fazer algo positivo e certo, mas de um ponto de vista externo isso é algo mimado e extremamente autoproclamado. As pessoas são tão rápidas a apontar o dedo, mas são incrivelmente lentas a olharem-se ao espelho. A censura não é uma coisa positiva, especialmente para as artes. Houve um Projecto de Lei que acabou de ser aprovado aqui nos EUA que permite que a mulher ande em topless em público, ou pelo menos não será criminalizada por isso. Para mim, isso mostra que a luta pela censura é um mercado de nicho ou selectivo. De facto, são tempos estranhos quando a liberdade de expressão parece estar sob ataque. Quando não somos livres para nos expressarmos através da arte/música precisaremos de encontrar outro lugar para essa gratificação. Onde será isso? Acho que muitas pessoas actuam através de uma forma de arte violenta para que não tenham de ser violentas no seu quotidiano. Se lhes tirarmos isso, o que é que vão receber em troca? Acredito que estas são questões sérias que as pessoas não têm tempo para pensar; preferem simplesmente saltar para aquela gratificação instantânea e sentirem que alcançaram algo quando, na realidade, tudo o que realmente fizeram foi fortalecer aquilo a que se estão a opor. Mas, e como em todas as acções, uma experiência de aprendizagem provavelmente virá disso. Só podes puxar a cauda do leão enquanto ele deixar.»


A

estatística não é o nosso forte, mas calculamos que mais de metade das bandas que tivessem passado pelo que os Orange Goblin passaram nos últimos anos, não teriam sobrevivido. Estamos a falar de uma profissionalização falhada, por volta de 2012, em que o quarteto inglês se viu obrigado a repensar a decisão de se dedicar apenas à música, voltar a procurar empregos a tempo inteiro e a reverter ao estatuto de weekend warriors no que aos assuntos da banda diz respeito. «Basicamente regressámos à situação em que a banda é um hobby. Juntamo-nos, ensaiamos, vamos em digressão quando podemos e gozamos o nosso tempo em Orange Goblin. É uma boa forma de nos afastarmos dos aborrecimentos dos nossos trabalhos a tempo inteiro», explica-nos o vocalista Ben Ward, ao telefone de Londres. Está a ligar a jornalistas para cumprir mais uma ronda de imprensa, relativa ao novo – e nono – álbum de originais da banda, “The Wolf Bites Back”. E continua, dizendo que a nova situação do colectivo lhes deu mais tempo para fazerem o disco. «Não tivemos muita pressa, ao contrário do último “Back From The Abyss”, que foi meio apressado», começa. «Nessa altura a banda era profissional e tivemos de escrevê-lo na estrada porque tínhamos de entregar o álbum numa altura específica para que começássemos a promovê-lo. Este demorou quatro anos a fazer, fomos com calma, demorámos o tempo que foi preciso, preparámo-nos e certificámo-nos que tínhamos mesmo muito material escrito antes de começarmos a delinear o disco. Fomos juntando ideias aos poucos e acho que trabalhamos melhor assim. Houve um dia que a editora nos disse “porque não pensam em começar a fazer um novo disco?”, e respondemos: “Sim, porque não? Temos muitas ideias”, e acabou por encaixar tudo muito rapidamente no final.» No entanto, como nos explica o nosso interlocutor, mais tempo não significa necessariamente menos pressão. «De facto [a pressão] é ainda mais intensa, porque estão sempre a perguntar-nos quando vamos em digressão para aqui ou para ali. Mas o que se passa é que, com os nossos empregos, só temos tempo nos períodos de férias e ainda assim temos de passar algum tempo em férias com as nossas famílias também. Por isso não podemos fazer tantas digressões quanto as que fazíamos. Temos de explicar às pessoas que estão sempre a perguntar que, se tivéssemos tempo para ir em digressão pelo mundo todo iríamos, mas hoje em dia temos de escolher cuidadosamente as coisas certas a fazer. Não temos falta de fãs; existem fãs em todo o mundo desesperados por nos verem

TEXTO: FERNANDO REIS / FOTOGRAFIA: PAUL HARRIES

lá e, por mais que gostássemos de fazê-lo, pura e simplesmente não podemos, a não ser que nos dessem uma quantidade ridícula de dinheiro que nos permitisse pagar as hipotecas e todo o tipo de despesas mensais que temos». Todavia, e apesar de tudo, a motivação nas fileiras dos Orange Goblin permanece inalterada. E Ben dispara uma das frases lapidares desta entrevista, a propósito da pretensa “falta de inspiração” de bandas veteranas que andam na estrada demasiado tempo: «Se as pessoas acham que é um sacrifício ficarem afastadas da família quando vão em digressão ou que é chato estarem sempre a ensaiar, então não o façam. Arranjem trabalho num armazém ou num escritório ou algo desse género. Afastem-se da música ou certifiquem-se que estão nela pelos motivos certos. De outro modo não faz sentido». Estar na linha de sucessão da realeza britânica do doom/stoner, que inclui nomes como Black Sabbath, Electric Wizard ou Cathedral, não parece assustar Ben nem os Orange Goblin que, apesar de todas as dificuldades, continuam a acreditar que a cena pode produzir nomes suficientemente consensuais para se falar em “sucesso”. «Ninguém pensava que os Queens Of The Stone Age iriam ter o sucesso comercial massivo que acabaram por ter. Mas acho que parte desse sucesso se deve à era digital e ao facto de ser mais fácil agora fazer a música chegar a um público mais vasto», diz-nos. «Nos velhos tempos tínhamos de concentrar-nos no tape trading, no passa-a-palavra e em pequenas fanzines que promoviam estas bandas. Quem sabe o que pode acontecer? Acho que existe muita apreciação por bandas que aparecem de repente com uma página de Facebook ou Bandcamp, carregam música para lá e ganham uma série de fãs. Mas ao mesmo tempo é tudo muito fácil e rápido. No nosso tempo tínhamos de entregar flyers em concertos e coisas desse género, o que nos fazia ir aos concertos e apoiar a cena. Há coisas melhores e coisas piores nesta era». Por outro lado existe uma enorme liberdade de composição que caracteriza “The Wolf Bites Back”, que faz dele o disco mais variado da história do quarteto, numa altura em que estão prestes a completar 24 anos de carreira. «Acho que simplesmente não tentámos agradar a um certo tipo de público ou encaixar num certo tipo de sonoridade», começa Ben. «Temos influências muito variadas e todos ouvimos coisas muito diferentes, e isso transparece mais neste disco do que alguma vez no passado. Mas quando somos mais novos possivelmente tentamos mais encaixar-nos na cena. Mas já tenho 43 anos e

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percebi que os Orange Goblin nunca pertenceram realmente a cena nenhuma. Sempre estivemos um pouco fora de todas as ondas e estamos bem com isso. É, de facto, como gostamos de estar. Tentámos precisamente enfatizar esse facto. Dizer “que se foda o core e os hipsters, vamos tocar o que nos apetecer”.» Realmente, fazer o mesmo disco durante 24 anos seria «só parvo», como diz Ben. Mas mesmo assim a banda não se livra de momentos embaraçosos na composição em que um riff soa demasiado familiar. «Sim, às vezes há algo que nos soa bem mas alguém diz: “Epá, eu reconheço isso. Merda, é uma das nossas canções”. [risos] Mas só acontece porque criamos a música que queremos ouvir».

“THE WOLF BITES BACK” COMO BANDA-SONORA Boa parte das letras de “The Wolf Bites Back”, o novo disco dos Orange Goblin, é composta pela fantasia negra e ficção científica que borbulham vividamente na cabeça de Ben Ward. Por isso, pedimos-lhe para nos indicar alguns filmes que podiam ter o álbum como banda-sonora. Eis a lista que o vocalista nos passou. Hells Angels On Wheels (1967) Dirigido por Richard Rush, e com um Jack Nicholson na flor da idade (30 anos), conta as aventuras e desventuras do mais famoso grupo de motards fora-da-lei e de um transeunte (Nicholson) que é admitido no gang depois de um encontro numa bomba de gasolina. Werewolves On Wheels (1971) Realizado por Michel Levesque, “Werewolves on Wheels” é uma peça de cinema que cruza os tradicionais filmes de terror com as películas de motards fora-da-lei populares nas décadas de 60 e 70. Envolve um grupo de motards, um culto satânico, exploitation, classe e muito sangue. Survival Zone (1983) No futuro “próximo” (de 1989) o mundo colapsa numa guerra nuclear e os poucos sobreviventes fazem tudo para não soçobrarem. Um gang de motociclistas canibais, no entanto, assola as redondezas, comendo os homens e forçando as mulheres a reproduzirem-se. Filme sul-africano, realizado por Percival Rubens.


«E

stou a sentir-me bem mas ainda a recuperar. Estou a descobrir o meu novo normal e no que respeita aos meus altos e baixos, pelo menos os “baixos” não são tão baixos como costumavam ser. Fiz muitos progressos.» Mike Scheidt refere-se à recuperação que tem vindo a fazer desde que, no início de 2017, quase pereceu devido a uma doença extremamente dolorosa conhecida como diverticulite. O vocalista e guitarrista dos Yob passou por uma cirurgia complicada e os prognósticos não eram nada favoráveis. Agora, com o susto a fazer parte do passado mas a deixar fortes consequências no presente, Scheidt envolve-se numa conversa profunda e algo espiritual com a Ultraje, relatando algumas das experiências pelas quais passou no processo que fizeram do novo “Our Raw Heart” um álbum verdadeiramente mágico. «Todos os álbuns são pessoais e especiais, mas se houve algo de diferente neste disco, foi a forma como trabalhei nele. Não havia qualquer garantia de que iria viver tempo suficiente para vê-lo gravado ou até mesmo para mostrá-lo aos meus companheiros», partilha. «Trabalhei em muitas ideias e estruturas a partir do meu quarto, enquanto estava doente, e a minha cirurgia poderia trazer alguns cenários menos positivos que não me permitiriam voltar a cantar novamente ou até não cantar tão bem. Se esta cirurgia que fiz não tivesse corrido bem, teria sido o fim das tours para mim.» Um azar nunca vem só, e enquanto era submetido a esta intervenção cirúrgica, Mike Scheidt contraiu MRSA, uma infecção que geralmente ocorre em pacientes que possuem feridas abertas. «Foi outra ameaça potencialmente fatal e acho que passar por tudo isso e chegar a este ponto em que tenho um novo álbum, poder trabalhar e gravá-lo, faz-me sentir um sortudo. Dá um novo significado ao álbum... Não é que esteja orgulhoso, é mais agradecido.» Membros da banda e amigos uniram-se para criar uma campanha no GoFundMe de forma a cobrir as despesas relacionadas com a recuperação de Scheidt, algo que para o músico significou bastante: «Temos muitos bons amigos por aí e ao início ofereci muita resistência para pedir assistência, ou até ter alguém que pedisse por mim. Tenho seguro de saúde mas não cobria tudo. Não quis pedir ajuda mas tinha muitas pessoas a perguntar de que forma é que podiam contribuir, antes de haver algo pensado. Batalhei um pouco com isso mas um bom amigo

TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: JIMMY HUBBARD

meu convenceu-me do contrário, utilizando um argumento muito convincente que não fui capaz de contrariar. Então, quando me decidi a fazê-lo, não fazia ideia de que iria ser apoiado de uma forma extraordinária! Atingimos o nosso objectivo em menos de 48 horas, foi incrível.» No entanto, o apoio transcendeu qualquer apoio monetário: «As pessoas mandavam-me mensagens, livros, música, downloads do Bandcamp... Foi arrebatador e aprendi muito com isto.» Desengane-se quem julga que esta montanha russa emocional ficar-se-ia por aqui: «Estava numa cadeira-de-rodas e a enfermeira pediu-me para vestir a bata do hospital e deitar-me. Foi aí que fui atingido por uma dor imensa e lembro-me de estar em pé e não me conseguir mover.» Desse momento em diante, tudo à volta do músico torna-se nebuloso: «Tiraram-me as roupas, deitaram-me na mesa, e a dada altura lembro-me... Não pairava sobre o meu corpo, era mais ao meu lado. Foi uma sensação estranha de estar no meu corpo mas ao mesmo tempo à minha direita. Tudo o que vi foram vastos oceanos de cores, de diferentes tons de laranja, roxo, verde, azul, vermelho... Foi como olhar para o oceano e perdê-lo de vista. Foi como se os meus olhos vissem o que os meus sentidos disseram para ver, pelo que a nossa visão disto, apesar de parecer longínqua, é na realidade muito próxima. Está à distância do nosso globo ocular, dentro da nossa cabeça. E a sensação que me deu foi estar perante algo muito vasto mas que estava, na verdade, muito próximo. Quando regressei não tive qualquer sensação a meu respeito. Não me via como membro de uma banda ou como pai, não tinha nome, não tinha medo nem dores. Tudo tinha desaparecido e foi como se toda esta atmosfera e ambiente tivessem despertado.» Nesta altura, o nosso interlocutor interrompe a descrição da sua experiência com receio que do outro lado achemos que está a tomar um sentido religioso, acrescentando que embora não o considere religioso «é sem dúvida místico». «Toda a minha situação desapareceu por um breve período de tempo, em que eu não existia. Dizem-me que estava deitado a fazer ruídos, que a minha mãe e a minha namorada estavam a tentar falar comigo, assim como os médicos, mas para mim nada disso existiu. Quando regressei ao meu corpo, e retomei a consciência, tudo em mim era diferente.» Por tudo isto, “Our Raw Heart”, é um convite para 30 - ULTRAJE #16

entrarmos neste mundo ao qual o líder dos Yob teve acesso, em que podemos experienciar o referido vasto oceano de cores em cada uma das notas que compõem temas tão singulares como “Ablaze” ou “Beauty in Falling Leaves”. «Tenho uma natureza questionadora e, quando alguém como eu passa por estas situações, passamos a fazer perguntas acerca de nós próprios e daquilo que nos rodeia. Isso aconteceu-me em 1990 quando começou a fazer parte da minha realidade, e agora com esta experiência pela qual passei, tornou-se óbvio que não entendia as coisas que achava que entendia, e outras coisas que achava que não entendia floresceram, tornando-se ainda mais verdadeiras para mim. Foi como um interruptor que liguei e passei a ver tudo com mais clareza. Não tenho nenhuma atitude de grandeza perante isto, mas quando nos tiram tudo da mente, todas as minhas coisas pessoais, dramas e medos, percebemos que há clareza sem nada dessas coisas no nosso caminho. Ganhei mais humildade; ganhei um propósito. Foi como se a morte me batesse à porta e me fizesse uma visita de cortesia para me dar um panfleto. Nunca sabemos quando será o nosso último dia bom e isso faz-nos questionar a forma como vivemos até aí.» A expressão “fui salvo pela música” não só se aplica ao músico como ganha todo um novo significado, pois, a dada altura do procedimento, os médicos de Scheidt fizeram soar temas de Yob na sala cirúrgica para dar ao vocalista uma razão para lutar: «Eu não soube disto até várias semanas depois da operação», diz-nos, acrescentando em tom de brincadeira: «É possível que até tenham posto Yob a tocar para dizer 'hey, vamos lá ver se esta banda é fixe enquanto lhe mexemos nos intestinos', mas acho que não foi essa situação de todo. Talvez tenha sido uma forma subliminar de chegar ao meu subconsciente por estarem preocupados com o meu estado. É o que faz mais sentido para mim.» Álbum: OUR RAW HEART Editora: RELAPSE Lançamento: 8 JUNHO 2018


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odemos dar as mãos e responder os três às perguntas em coro?», pergunta Pedro 'Iron Fist' Pita. «No ano passado demos um concerto na Dinamarca onde tocámos de mãos dadas com o público. Foi um concerto incrível! No fim, um gajo dinamarquês, que não conhecia uma palavra de português, gritou “NECROPACHACHA!”. Pensámos: como nos podemos negar perante isto?», diz Belathauzer. Rick Thor acrescenta mais erudição: «Tecnicamente, ele conhece meia palavra em português, pachacha, pois necro é de origem grega. [risos]» Conheçam os Filii Nigrantium Infernalium (FNI). Em 1995, no auge do underground e da música extrema, “A Era do Abutre” via a luz do dia. A energia dos anos 80 e a atitude “Fuck you!” do EP eram inéditas em Portugal, numa época em que toda a gente queria tocar death metal melódico ou black metal sinfónico. Nessa altura, três tipos estrearam-se em CD apresentando uma mistura incontida de black, heavy, speed e algum thrash metal. Vinte e três anos passados, os FNI deram um passo de gigante com “Hóstia”, lançado em Maio do corrente ano pela Osmose Productions, que muito agradou à banda por ter sido uma das suas editoras de referência durante décadas. É tudo muito bonito, mas a atitude dos FNI parece não ter mudado, parece que só querem é continuar a debitar o seu som de marca. Será que a entrada dos FNI na Osmose não mudou um pouco as coisas? Belathauzer responde. «Desde que a Osmose entrou em Filii, tem corrido tudo muito bem! Isto vai ser uma entrevista muito boa! [risos] Tem sido do caralho! Entrevistas do Japão até à Califórnia! ‘Tou a gozar, hã? [risos] Gozando dizemos verdades.» Rick toma a palavra. «Tem corrido bem. Para nós é um grande prazer assinar com uma editora que significa tanto para a banda desde muito cedo. Muitas das coisas que a Osmose deu à luz foram fundamentais no início da banda. É um prazer especial por causa disso.» Os FNI não conseguem disfarçar a sua genuinidade e isso nota-se na música, que soa espontaneamente aos anos 80 e 90. Resta saber se foi a fidelidade a esses tempos que conquistou os fãs ou se foi uma questão de os vencer pelo cansaço. Belathauzer percebeu a pergunta. «Pelo cansaço... Gostei. [risos] Sempre fiéis ao mesmo som, sim, mas mudámos e evoluímos de álbum para álbum. Nunca tivemos um objectivo definido de editar pela gravadora A, B ou C. O que mais

TEXTO: JOÃO CORREIA / FOTOGRAFIA: CORTESIA OSMOSE

gostamos de fazer, além de tocar em Barroselas, é ensaiar e compor temas para gravar. Faríamos isso mesmo que não estivéssemos assinados por editora alguma. Isto é o espírito antigo e moderno de bandas a sério, do underground.» Rick Thor acrescenta mais: «Embora cada álbum de Filii tenha um som e atmosfera próprios, este novo tem um dos sons mais espontâneos de sempre da banda. Foi composto e gravado mais rapidamente do que qualquer anterior e só com três membros. No fundo, o único objectivo destes lançamentos é ter prazer com o que fazemos. Depois, o Hervé [dono da Osmose] só pega em bandas de que gosta. O 'novo' “Fellatrix” foi ideia dele, por exemplo.» A nossa primeira reacção ao ouvir “Hóstia” foi mandar umas valentes gargalhadas com a intro “Prece”, que lembra um discurso da Igreja Universal proferido pelo Manuel João Vieira. Mas “Hóstia” tem momentos bastante sérios de bom metal da velha-guarda, mesmo que Belathauzer diga constantemente que os FNI são a pior banda portuguesa de sempre. Este tipo de junção de humor com metal de qualidade é a forma de estar dos FNI perante a música. «O black metal não tem de ser mal-humorado e profundamente deprimente, isso é um mal-entendido. Isso é próprio de quem não conhece Venom. Mas depois há quem toque “trve black metal” e nem conheça e nem queira conhecer o “Welcome to Hell”. O pior surdo é o que não quer ouvir. A atitude mais religiosa e fundamentalista possível é proibir o riso. Não existe contradição em fazer humor numa banda de black metal. Nós fazemos humor. Às vezes até temos piada. [risos] Irmãos Catita e Ena Pá 2000 são duas óptimas referências. Comunicamos rindo-nos do mundo.» Isto atira para um niilismo clássico. Parece, aliás, que os FNI têm predilecção por um niilismo específico. Mas não. «São vários niilismos específicos: o niilismo de segunda-feira, o de terça-feira... Depois há o vespertino, o noturno... [risos]» «Negar o riso é ser niilista em geral», conclui. Rick Thor tem uma visão própria sobre o estilo: «O black metal deve substituir o elitismo pelo etilismo. [risos]» “Hóstia” apresenta um som mais cuidado do que trabalhos anteriores e temas como “Virtudes da Prostração” ou “Autos de Fé” colam-se insistentemente ao ouvido. Isto indica que a banda teve mais tempo e melhores meios para concluir o novo disco, o que explica o excelente trabalho apresentado. Iron Fist não tem dúvidas do porquê de o ser: 32 - ULTRAJE #16

«Eles tiveram acesso às masters perdidas do “Welcome To Hell”, dos Venom.» Belathauzer atira uma gargalhada: «Muito boa, essa.» E insiste: «Eles pegaram nas malhas perdidas e fizeram o “Hóstia”.» «O “Welcome To Hell” tem um som de merda, punk e javardão, mas acabou por servir de plataforma para a produção do black metal. Ainda assim, olha para a “In The Name of Satan” – é um tema com alguma melodia. Nós tocamos pan-metal, é um pouco de tudo o que nos influencia: Kiss, Venom, Priest... A produção não pode ser tão podre que foda o álbum. O mau som dos Venom foi involuntário, mas ainda bem que aconteceu, tornou-se num standard», diz Belathauzer. Rick Thor torna-se mais sério quando o tema da conversa muda para a situação actual da cena black lusa. «A verdade é que as nossas referências de black metal são diferentes, anteriores às referências que geraram a maior parte das bandas de black metal nacional com mais nome e que foram influenciadas por bandas da segunda vaga como Darkthrone. Grande parte dessas bandas inscreveram-se num cenário que não é o nosso. Para nós, o black assenta em bandas influenciadas por Venom e afins.» Belathauzer revela uma conversa que teve com Mantas, dos Venom: «Apanhei o Mantas no mesmo vôo. Como eu sabia que ele não podia fugir do avião, levou comigo durante duas horas. [risos] Bom, in extremis, ele podia ter fugido do avião, mas era complicado. Pobre Mantas. [risos] A certa altura, ele riu-se dessas bandas trves mais recentes que dizem ter criado o black metal. Para mim, bandas como Corpus Christii e Irae são grindcore com referências satânicas.» Mas chamar a uma banda fundamentalista quando o som dos FNI se centra num certo período e num estilo é incoerente – afinal, esse também é um caminho fundamentalista. Thor explica: «Uma coisa é a evolução de um conceito; outra é virá-lo de pernas para o ar renegando a sua origem. Esse black metal tornou-se em algo dogmático. Fiquei até contente que se tivesse tornado num movimento externo, pois aborda assuntos externos como política.»

Álbum: HÓSTIA Editora: OSMOSE Lançamento: 25 MAIO 2018


TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DE RICARDO S. AMORIM

A

banda de metal portuguesa mais internacional de sempre volta às manchetes com “Lobos Que Foram Homens”, uma colecção de depoimentos dos membros actuais e antigos, assim como de colaboradores ou membros de outras bandas que são uma referência no meio. Contada pelas palavras de Ricardo S. Amorim, esta é a história dos Moonspell num retrato que explora as conquistas e as adversidades enfrentadas pela banda enquanto Lobos, sem nunca esquecer o lado pessoal e humano enquanto Homens. O autor (não confundir com o guitarrista da banda), que passou por revistas como a Underworld, Riff e Loud!, aceita esta empreitada depois de estendido o convite por parte dos Moonspell, indo de fã a amigo e até a uma figura com presença assídua no círculo da banda. Em exclusivo à Ultraje, Ricardo S. Amorim tece alguns comentários em relação ao que pode ser encontrado na biografia. DE FÃ A MEMBRO DA ALCATEIA «Comecei a ouvir Moonspell logo no início, talvez em 94/95, e era fã mesmo. Depois, ao longo dos anos também, não por eles terem mudado, mas eu próprio fui-me desligando. Não na fase em que a maior parte das pessoas se ligou com, por exemplo, quando foi o “Sin/Pecado” [1998] ou o “The Butterfly Effect” [1999], que até são álbuns dos quais gosto muito mas, por exemplo, o disco seguinte, “Darkness and Hope” [2001], não me disse nada e eu próprio comecei também a variar bastante o meu leque de gostos e de interesses. Comecei a gostar de explorar mais coisas e durante muito tempo acompanhava sempre o que eles faziam mas não era aquele fã como muitos que eu hoje em dia conheço - conheço muitos agora depois desta fase e não sou um desses fãs, e acho que isso também ajudou-me a escrever este livro, a ter uma maior imparcialidade e não estar naquela do fã a escrever sobre as cenas que quer saber, as histórias que quer descobrir, etc.. Mas ao longo do período em que fui estando com eles foi-se criando também uma amizade muito forte e genuína, porque às tantas já não era visto como alguém que estava ali com eles só para escrever um livro, mas alguém cuja presença até era desejada, curtiam que eu aparecesse.» A ORIGEM DE “LOBOS QUE FORAM HOMENS” «A ideia deste livro já surgiu há uns anos. Quando foram os 20 anos da banda saiu a fotobiografia e, na altura, o editor, o Luís Corte Real da Saída de Emergência, disse ao Fernando: 'O que era fixe era um livro, mesmo. Contarem a história toda, a biografia da banda.' E o Fernando disse que um dia podia acontecer. Volta e meia, o Luís enviava-lhe um e-mail a perguntar quando é que iniciavam esse na expectativa que o Fernando fosse escrever a biografia dos Moonspell, e o Fernando não só não tinha tempo como também não ia contar a história dos Moonspell. Ele ia contar a história da visão que ele tem, que são duas coisas distintas. Portanto, também achou que era importante ter alguém de fora a contar a história, incluindo todos os intervenientes, actuais e antigos, e também outras bandas, pessoal das editoras, que trabalhou com eles, etc., para ter essa visão global e com todos os pontos de vista da história dos Moonspell.» A TROPA DOS MOONSPELL «A primeira tour que os Moonspell fizeram com os Morbid Angel na

Europa, depois de sair o “Wolfheart” [1995], o primeiro disco, foi a ida à tropa, basicamente. Foi aí que eles se fizeram homens e que viram: 'Ok, isto agora é a sério. Agora estamos aqui em Dortmund, dão-nos uma chave de uma carrinha, tens um mapa só da Alemanha mas tens que ir para a Escócia. Tens de estar na Escócia daqui a dois dias para o primeiro concerto e depois desenrascas-te. Tens que ir atrás deles para correres os concertos todos.' Eles já tinham perdido um dos guitarristas que tinha gravado o álbum, o J.M. Tanngrisnir. Entrou o Ricardo [Amorim] e, de repente, o Duarte [Mantus] decide que não ia fazer parte dessa tour, pois não tinha condições por motivos pessoais dele que não quis explorar muito na conversa que tive com ele. Então, de repente, os Moonspell ficaram cinco apenas (eram seis e sem os dois guitarristas que gravaram o primeiro álbum), o que para muitas bandas teria sido logo pretexto para desistir. Na altura, quando lia ou ouvia entrevistas, as bandas todas pareciam uma cassete: queixavam-se das oportunidades, da falta de apoios, tem de haver mais isto e mais aquilo, todos se queixavam do mesmo. Mas não foram só os Moonspell que tiveram oportunidades, pois houve mais bandas que as tiveram só que, quando se chegou à hora da verdade, não deram aquele passo que eles deram, e não é fácil andar 60 dias numa carrinha a comer atum em lata, quando havia, atrás do tour bus dos Morbid Angel pela Europa fora, e foram esses acontecimentos, esses e os sucessivos que foram acontecendo, que fizeram a banda, que a solidificaram digamos assim, porque a dada altura já eles eram bastante conhecidos e não tinham dinheiro no bolso para ir jantar, por exemplo, e isso é que forma o caralho de uma banda.» O ESPÍRITO «Quando o Ricardo [Amorim, guitarra] entra na banda - e o Ricardo já era amigo do Pedro Paixão há muitos anos… Dentro da banda, tirando o Fernando [Ribeiro, voz] e o Aires [baixo], que eram amigos de infância, se calhar era a relação mais antiga, e o Pedro Paixão [guitarra, teclados] adorava o Ricardo, achava que ele era, além de excelente pessoa, um excelente guitarrista, mas achava que ele não ia aguentar, que não ia ter aquele espírito de resiliência que é necessário para estar numa banda, para se fazer à estrada, etc. - e logo nessa primeira tour, nos primeiros dias, o Paixão mudou completamente de opinião ao perceber que este gajo tem aquilo que é preciso, mas se calhar foi preciso estar sujeito a isso para que ele decidisse: 'Isto vai ser assim durante algum tempo, vou ter que sofrer, vamos todos ter que sofrer para conseguirmos algo.' O próprio Fernando, eles na altura até lhe chamavam “O Maluco” porque diziam que foi muito duro para ele. Em primeiro lugar, o Fernando é muito alto e deu-se muito mal com a carrinha, depois estar sempre com aquelas pessoas todas 24 sobre 24 horas e não conseguir ter tempo para se isolar um pouco, começou a pensar: 'Isto não é como eu pensei... Não foi para isto que eu me alistei, por isto se calhar não vai dar...' Mas as sucessivas provas e sucessivas superações que eles foram tendo foi levando isso. Por exemplo, o Mike [Gaspar, bateria] se fosse preciso ia de Renault 5 em tour. Além de ter nascido nos Estados Unidos e ter outra cultura, sempre foi isto que ele quis fazer, não havia um plano B: era ter uma banda e ir para a estrada curtir e tocar. É o espírito dele. Os outros não, tiveram de se adaptar até se tornarem no que são hoje.» 34 - ULTRAJE #16

RICARDO S. A

MORIM (AUTO

R)

AIRES «O Aires era o único que eu não conhecia antes de começar isto. Acho que tinha trocado duas ou três palavras com ele uma vez, mas só o conheci agora, e é um tipo excepcional com um carisma brutal, muito simpático, e ele a falar é muito engraçado porque tem aquele sotaque venezuelano e tem um sentido de humor muito fixe, sempre bem-disposto! E essas histórias [aquela em que o Aires, por exemplo, vai socorrer alguém que está a ser vítima de violência e só depois se apercebe que é encenado e estão a decorrer gravações cinematográficas] acho que ajudam a perceber um bocado o espírito do Aires, que é rock n’ roll a 100%, e quando entrou na banda, de facto, a banda mudou também… Perceberam isso logo no primeiro concerto.» O PAPEL DE PEDRO PAIXÃO «Se calhar será uma surpresa para muita gente a importância do Pedro Paixão nos Moonspell, não só em termos de composição mas em termos de estratégia e de estrutura de banda até. Todos eles são peças fundamentais, não quero estar a hierarquizar, mas normalmente os teclistas nas bandas têm um papel muito secundário e nos Moonspell é um papel muito importante, não só em termos de composição mas também na gestão da banda, toda a estética.» RICARDO AMORIM: O AUTOR OU O GUITARRISTA? «Ainda na semana passada o Paixão mandou-me um SMS que era para o outro Ricardo Amorim. Conheci melhor o Fernando quando estava na Underworld. Mantivemos o contacto e trocávamos e-mails e telefonemas às vezes, assim como mensagens, e às vezes ele enganava-se e mandava-me e-mails que eram para o outro Ricardo. Isto tanto aconteceu com letras de músicas que ainda não tinham sido editadas, como com contas de banda com marcações do estilo: 'Vamos a este festival, temos de estar à hora tal no aeroporto.' E eu: 'Pá, se calhar passa isto ao Ricardo porque é importante ele saber as horas.' Houve coisas confidenciais que me chegaram ao e-mail durante um período conturbado da banda. Tinham problemas legais a resolver que também estão explicados no livro, e eu sempre disse: 'Fiquem perfeitamente à vontade, o e-mail está apagado, não sai daqui.' Isto também criou logo uma relação de confiança com o Fernando, fundamentalmente, e fomos mantendo o contacto até que ele depois se lembrou de me convidar para isto. No entanto continuam a acontecer os erros, desde receber convites para churrascos na Argentina… São as minhas confusões preferidas! Também já aconteceu pensarem que era o Ricardo que escrevia na Loud!, etc.. Eles já me disseram que na Alemanha abordaram o Ricardo e perguntaram-lhe: 'Então escreveste um livro?'»

Título: LOBOS QUE FORAM HOMENS Editora: SAÍDA DE EMERGÊNCIA ASSINA A ULTRAJE E RECEBE ESTE LIVRO GRÁTIS! +INFO EM SHOP.ULTRAJE.PT


Ao longo dos últimos anos, vários músicos da cena metal assumiram a sua orientação sexual ou identidade de género. A britânica Kat "Shevil" Gillham (Winds Of Genocide / Uncoffined) partilha a sua história com a Ultraje e diz-nos o que mudou desde 2001, altura em que tornou pública a sua transição. TEXTO: JOEL COSTA / FOTOGRAFIA: CORTESIA DE KAT GILLHAM

O

metal sempre foi, para nós, um género de igualdade e aceitação. Uma espécie de tribo onde acolhemos as “ovelhas negras” da sociedade que a dada altura das suas vidas percebem que a sua identidade musical pede mais do que aquilo que a cultura mainstream tem para oferecer. Onde podemos ser nós próprios e sentir que fazemos parte de uma grande comunidade, onde acabam-se os julgamentos e a segregação musical. Concordam? Tretas. A verdade é que bem gostávamos de acreditar em tudo isso, contudo não podíamos estar mais distantes da realidade. Há uma divisão crescente entre os fãs do estilo que acham-se puros por serem devotos a um determinado género ou subgénero do metal e falam dos restantes como Hitler falava de todos aqueles que foram parar a campos de concentração. De facto, a cena metal de hoje em dia quase parece a Europa das décadas de 1930 e 1940, por muito que se faça parecer o contrário. A homofobia ainda vive entre muitos daqueles que parecem saídos de uma qualquer fotografia promocional dos Manowar (ou então das memórias dos bares gays que davam cor à noite de San Francisco, nos Estados Unidos). Perguntámo-nos por que razão o metal não é visto de uma forma mais positiva perante a sociedade, até porque muitos de nós têm cursos superiores, empregos, mantêm-se sóbrios à semana, tomam banho regularmente e nunca incendiaram uma única igreja. Mas Ghost, Myrkur e Metallica? Tudo merda! É como se esta linha de pensamento fosse tão pesada que aos poucos vai afundando uma comunidade e ideologia que tudo tem para funcionar de forma única. A britânica Kat "Shevil" Gillham, que tornou-se conhecida pela sua incursão em bandas como Winds Of Genocide, Uncoffined, Lucifer's Chalice, Thronehammer ou Enshroudment, e por ser redactora da revista britânica Terrorizer, é apenas uma entre muitas daquelas pessoas que olhou a comunidade metal nos olhos e não viu a união e o lado familiar que muitos apregoam. Outrora conhecida por Steve Gillham, Kat assumiria a sua transição em 2001, numa altura em que a identidade trans não tinha grande visibilidade neste meio musical: «O heavy metal e a comunidade LGBT estão mais ligados que nunca, havendo cada vez mais músicos a tornarem-se visíveis como sendo gays ou transgéneros dentro da cena do metal extremo», explica. «Quando dei a conhecer que era transgénero, não havia grande visibilidade dentro da cena death ou doom metal, por exemplo, pelo que durante algum tempo senti que estava por minha conta. À data quase não se conhecia ninguém da cena extrema que tivesse tornado pública a sua identidade de género mas sabia que haveria outros como eu algures nas sombras.»

Segundo relata, foi apenas em 2009, com o aumento do uso das redes sociais, que Kat descobriu a existência de outros metalheads transgénero, mas para trás ficava uma vida de medos e preconceito: «Quando comecei a tocar em algumas bandas, no início da década de 90, ser publicamente gay ou transgénero era um tabu. Não me consigo imaginar a assumir-me em 1993. Já em 2001 foi demasiado difícil e apesar de ter recebido apoio, também fui alvo de preconceito. Isto causou o fim da minha banda pois as pessoas à minha volta não percebiam.» Felizmente, a então vocalista dos Blessed Realm ultrapassaria todos os obstáculos que se colocavam diante de si para que pudesse ver o mundo à sua volta a fazer a sua própria transição. «Dentro do metal extremo há uma maior sensibilização em torno desta questão, o que fez com que mais pessoas entendessem os problemas inerentes à identidade de género e à sexualidade. Diria que tanto o mundo como a cena musical está mais receptiva agora do que estaria há 15-25 anos.» É importante realçar que no ano central desta narrativa, a presença de mulheres dentro do metal extremo era quase nula, pelo que Kat “Shevil” esteve na linha de fogo a dobrar: «Houve muito preconceito e discriminação mas também recebi muito apoio e aceitação. Ainda há um grande problema de discriminação, preconceito e intolerância no seio do metal extremo mas quer-me parecer que esse tipo de pessoas vão, aos poucos, ficando mais isoladas e tornando-se uma minoria. Ser trans não impediu as bandas de assinar contratos com editoras, dar concertos ou lançar álbuns. A sociedade, no geral, mudou, assim como a maneira de pensar das pessoas e a própria cena musical. Há mais diversidade, tanto na música como na sociedade, do que alguma vez houve e isso fez com que as coisas ficassem mais fáceis para que as pessoas LGBT assumissem a sua identidade e continuassem a tocar em bandas de death, doom, grind, crust punk, etc..» Dito isto, o reverso da moeda surge desta forma: «Tenho a certeza que há por aí pessoas que se vão recusar a ouvir as minhas bandas e a apoiá-las pelo facto de eu ser trans, ou que até nos dariam apoio se não fosse pelo facto de terem medo de serem ridicularizados pelos seus pares por gostarem de uma banda que é liderada por uma transgénero. Muitas pessoas nem sequer vão ver a questão da identidade de género ao ouvir Winds Of Genocide ou Uncoffined, por exemplo, e vão focar-se apenas na música.» O vocalista dos Judas Priest, Rob Halford, foi o primeiro vocalista de metal com maior exposição a confirmar a sua homossexualidade há algumas décadas. Um pequeno mas importantíssimo passo que, como Kat recorda, contribuiu para a criação de um elo entre a comunidade LGBT e o metal: «Foi 15 - ULTRAJE #16 #15 35

um momento muito importante. Tens que te lembrar que estávamos em 1998 e havia muito mais preconceito nessa altura. Ainda assim, abriu as comportas e quebrou mais uma barreira para outros músicos e fãs de metal da comunidade LGBT que viriam a seguir os passos do Rob Halford.» O facto da identidade de género desempenhar um papel muito grande na vida de Kat, a sua música, pelo contrário, não se deixa definir por esta questão: «Sou uma artista que é publicamente aberta quanto ao facto de ser trans, mas nunca compus uma música sobre isso. No entanto, já libertei muita raiva e frustrações através da minha música, que resultam das batalhas que tenho travado enquanto trans.» «Poder estar numa banda sendo eu própria foi uma grande vitória pois era algo com o qual podia apenas sonhar quando era mais nova e durante os primeiros momentos da minha transição. Preocupava-me o facto de não saber se conseguiria encontrar músicos que me aceitassem por aquilo que era. Felizmente encontrei algumas pessoas de mentalidade aberta com as quais pude formar os Winds Of Genocide e tornar esse sonho de liderar uma banda como transgénero realidade.» Depois do final abrupto dos Blessed Realm, o tempo curou velhas feridas e marcava um reencontro entre Kat e alguns dos seus velhos companheiros de estrada: «Levou algum tempo mas eventualmente recuperei algumas destas amizades e alguns dos membros de Blessed Realm juntaram-se a mim para dar início aos Uncoffined [banda na qual Kat “Shevil” Gillham assume os papéis de vocalista e baterista]. As atitudes mudam… As pessoas crescem como indivíduos e desenvolvem maneiras diferentes de pensar.» Kat, que diz ganhar força com os intolerantes e que isso só a faz querer confrontá-los ainda mais, gostava que «as pessoas fossem mais tolerantes e aceitassem as pessoas independentemente da sua identidade de género, sexualidade, etnia, cor da pele, etc.», adicionando que espera ver artigos como este da Ultraje a «contribuir para educar e consciencializar que as pessoas LGBT são pessoas». «Somos seres humanos com sentimentos, emoções e famílias. Não vimos de nenhum planeta distante e todos nós iremos sangrar da mesma cor se nos cortarem.»

«O HEAVY METAL E A COMUNIDADE LGBT ESTÃO MAIS LIGADOS QUE NUNCA.»


"Jupiter" EP

D

esta vez, a coisa é especial. Escrever sobre os Low Torque é sempre um risco. Temo colocar nas palavras a emoção em demasia. Mas acima de tudo porque tenho para mim que os Low Torque são das melhores bandas de stoner metal da actualidade no panorama da música nacional. Carregam na sua história a turbulência de quem viu repentinamente entrar e sair colegas de banda, ao longo destes oito anos de estrada. Começaram, em 2010, por ser uma banda de instrumentais e assim se mantiveram durante um ano. Já com voz, em 2012, estrearam-se com um álbum homónimo e cedo se fizeram remarcar. Em 2015 lançaram “Croatoan” e talvez este tenha sido o álbum que mais marcou o rock sulista dos Low Torque com as suas histórias de mistério e horror. Pura ficção é certo. Arrisco a escrever que talvez tenha sido o álbum que mais pus a rodar na altura. Escolho a mudança, a resiliência e a redefinição para melhor descrever em palavras a vida dos Low Torque. Só assim poderia surgir um “Chapter III: Songs From The Vault” em Novembro do ano passado. Um álbum mais pesado que os anteriores e bem mais diversificado, que a crítica teima em chamar de rock musculado. Não gosto da designação. É essencialmente um álbum que marca oficialmente o David Pais na voz enquanto frontman da banda e João Arroja na segunda guitarra. Juntando-se assim a André Teixeira, Miguel Rita e Arlindo Cardoso. É a prova de que os Low Torque vieram para ficar, fazer e arriscar. Em conversa com o André Teixeira – guitarrista e membro-fundador dos Low Torque – ficou-se a saber que a banda já está a preparar o lançamento de um novo trabalho numa espécie de extensão ao “Chapter III: Songs From The Vault”. O EP irá chamar-se “Júpiter” e a sua apresentação está prevista ocorrer ainda este ano. Mas desengane-se quem achar que ficaram coisas por dizer. Segundo André Teixeira, o curto espaço de tempo entre os dois trabalhos discográficos é uma aposta da banda em manter o público interessado: «Estamos com um ritmo e fluxo de trabalho bastante bom, muito graças ao facto de termos a possibilidade de gravar e produzir os nossos discos nos nossos estúdios. É mais económico, e muito mais libertador fazer as coisas sem depender de horários nem

coisa que simplesmente acontece. Começamos por tocar uns riffs e a partir daí construímos as músicas e os arranjos. O género musical ou o tipo de músicas que criamos ganham vida por si mesmas à medida que as vamos fazendo. Claro que aquilo que ouvimos e as bandas que gostamos tem um papel importante na criação das músicas, mas não é um acto deliberado e pensado para ser assim.»

de honorários. Temos agora um colectivo mais competente, mais criativo e mais proactivo, o que facilita bastante as coisas. Temos mais ideias e mais músicas que queremos mostrar ao público e não queríamos fazer um disco com 20 malhas… Decidimos então fazer um EP como continuação ao "Chapter III".» Achou por bem não desvendar muito sobre o que será o EP, mantendo algum secretismo em torno do seu conceito. Mas ainda assim, André acrescenta: «O "Chapter III" é um disco que fala de um cenário fictício mas bastante possível num futuro próximo, de guerra e de caos. O "Júpiter" é um conceito em que vamos abordar temas mais introspectivos e espirituais. Vamos tentar fazer um álbum mais 'lento'. Para se poder ouvir em casa com um bom par de colunas ou headphones. Serão temas possíveis de tocar ao vivo com certeza, mas mais virados para o consumo caseiro. É esse o nosso desejo e objectivo… Mas não nos vamos castrar ou impedir de fazer outra coisa se assim suceder. É apenas um objectivo.» Estaremos diante de uma nova mudança? Mais peso? Menos stoner? André responde: «A construção das músicas e o processo criativo de Low Torque em geral não passa por pensar muito naquilo que queremos fazer ou tocar. É uma 36 - ULTRAJE #16

Os Low Torque são essencialmente uma banda de palco. Pedi ao André que me chutasse três riffs de toda a discografia de Low Torque. Um de cada álbum, foi a resposta. Acho justo! "Karmageddon", "Storm Hag" e "Dust Mojo", recebido assim por ordem decrescente de longevidade. Dizem eles (lá na banda) que o André é o rei dos solos. Comprou a sua ESP na Alemanha sem a experimentar. Diz ele que de forma arriscada. Escolheu-a por já ter uma LTD, gostar da qualidade da marca japonesa e dos designs das guitarras Eclipse. «Quando comprei a guitarra, a ESP estava numa disputa legal com a Gibson pelo design Les Paul que acabou por perder, pois foi a Gibson que criou o design original. Eu ainda consegui comprar o modelo original da ESP Eclipse. Não penso em trocar de guitarra… Só se for por outra ESP igual!» Agora é aguardar pela chegada de “Júpiter”. Se este seguir a órbita do “Chapter III: Songs From The Vault” não se admirem com possíveis mudanças na sonoridade. E neste sentido, André defende: «As bandas que mostram mais do mesmo também se tornam chatas e repetitivas e podem até agradar aos fãs que já os conhecem. Mas as bandas que arriscam e mudam podem perder alguns seguidores e fãs que já os conhecem, mas ganham novos. Qual é a melhor solução? Jogar pelo seguro ou arriscar? Não sabemos. Nós vamos fazendo a nossa cena sem grandes expectativas. Quem gostar, gosta. Quem não gostar e gostar mais dos álbuns antigos nós respeitamos. O género stoner, no entanto, tem sempre um lugar especial no nosso coração e na nossa base sonora.» Beijolei-os muito?! Não creio. Mas felizmente que o El Stoner Rodeo é um espaço de autor.


TOOL "Lateralus" DO CHUMBO AO OURO POR GONÇALO L. MATIAS

sem número de curiosos de vários campos, desde arqueólogos a cientistas, passando por teólogos ou artistas.

4394 dias passaram desde "10000 Days", o último álbum de originais dos californianos Tool – período de hibernação normalmente suficiente para confinar ao esquecimento o mais notório dos artistas. Contudo, para este grupo de músicos de grande calibre, o processo criativo não está sujeito a prazos, e dessa forma manter-se no activo, por meio de actuações ao vivo, foi a estratégia escolhida para deixar a inspiração ditar as datas e não o contrário. A sua recente entrada em estúdio leva-nos então a exumar "Lateralus" – momento de superior afirmação com que Maynard & Cia. arrombaram os portões do panteão da música progressiva. Esta canção encerra uma verdadeira jardineira de códigos e labirintos – um produto de laboratório, meticulosamente arquitectado, minuciosamente montado e deliberadamente intrincado. Alicerçada nos conceitos da existência humana, da procura do conhecimento e da transcendência, o centro gravítico de "Lateralus", tanto rítmica como liricamente, é sem dúvida a sequência de Fibonacci:

Este fascínio centra-se no facto de, na natureza, esta proporcionalidade se encontrar embebida em praticamente todo o lado; desde o número de pétalas numa flor, crescimento de ramos numa árvore, geometria em furacões, búzios ou galáxias, proporção do número de machos e fêmeas numa colmeia de abelhas, etc.. A primeira utilização deste conceito remonta ao século V A.C., na Grécia, nos célebres mármores de Elgin esculpidos por Phidias para adornar o Partenon. Em 1202, o matemático italiano Leonardo Pisano publica "Liber Abaci", onde a aplica ao crescimento de uma população de coelhos – Fibonacci era a alcunha pela qual era conhecido e que curiosamente acabou por cunhar esta sequência. Leonardo da Vinci popularizou-a, aplicando-a extensivamente, em obras como "O Homem Vitruviano" ou a "Mona Lisa".

0-1-1-2-3-5-8-13-21-34-55-89-144-233-377-610-987-1596-…

Em 1923, o compositor húngaro Béla Bartók completa "Dance Suite", onde é clara a sua presença tanto a nível rítmico como melódico, existindo, contudo, análises que encontram evidências em secções de obras de Bach, Beethoven ou Debussy. Muitos músicos recorreram desde então a este artifício, mas nunca com tanta intencionalidade.

Como se pode observar, qualquer número da sequência é igual à soma dos dois números que o antecedem e a razão entre dois números consecutivos tende para o valor 1.618 – o mítico número de ouro (ou proporção divina) que tem, ao longo dos tempos, hipnotizado um

"Lateralus" é um portento da sequência de Fibonacci e da proporção divina: a introdução é composta por 34 compassos e a voz entra após 97 segundos (aproximadamente 1,618 minutos). A introdução é a 112 batidas por minuto e o verso aproximadamente 181 (varia ligeiramente ao longo da canção) – aumento segundo a proporção divina. E muitas outras ocorrências!

O baterista Danny Carey revelou que inicialmente a banda se referia a "Lateralus" como 9-8-7 por esta incluir uma secção com os compassos 9 ⁄8 ,8⁄8 e 7⁄8. Só mais tarde se aperceberam que este número 987 faz também parte da sequência, algo que Carey considerou «bastante fixe». A métrica de diversas secções apresenta valores da sequência: 1 Black 1 Then 2 White are 3 All I see 5 In my infancy 8 Red and yellow then came to be 5 Reaching out to me 3 Lets me see

2 There is 1 So 1 Much 2 More and 3 Beckons me 5 To look through to these 8 Infinite possibilities

13 As bellow so above I imagine 8 Drawn beyond the lines of reason 5 Push the envelope 3 Watch it bend

A progressão de cores representa a individuação: os quatro estágios (preto-branco-vermelho-amarelo) da evolução de um alquimista segundo Carl Jung (de que Maynard é admirador) – onde se dá a transmutação do chumbo (consciência não-realizada) em ouro (consciência plena). Este é o conceito central: o alcançar da iluminação por meio de pensamento lateral, eliminar as fronteiras da mente e expandir horizontes. A ideia de espirais e a sua conotação expansiva de afastamento do centro, personifica então a postura ideal, na procura de evolução. Maynard sublinha ainda que este processo não pode ser demasiado cerebral dado que conduz à cautela excessiva e detalhe obsessivo, castradores sanguinários do processo criativo; ou a sobreutilização de energia mental/emocional, associada ao desalinhamento do corpo/mente e impeditiva da realização individual e do desfrutar do momento e do agora. 8+1 minutos de puro ouro!


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Álbum d Mê

Todo o conceito lírico dos Amorphis assenta na Kalevala, que resumidamente aqui a detalhamos. Por: Diogo Ferreira

Fotografia: Lars Johnson

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AMORPHIS Queen of Time

NUCLEAR BLAST MELODIC METAL

A

abelha é um constituinte importantíssimo para a nossa manutenção neste planeta. Sem água e terra para lavrar estaríamos terminados, mas antes de aí chegarmos já tínhamos passado por um apocalipse

longo e doloroso, um processo em que as abelhas há muito teriam desaparecido. Por todo este “Queen of Time” há referências às abelhas e isso é flagrante logo na inaugural “The Bee”, o primeiro single do disco que é também a faixa mais orelhuda de todas. Ainda que com os típicos elementos melódicos de Amorphis – incluindo a voz berrada e limpa de Tomi Joutsen, os leads de guitarra de Esa Holopainen ou as teclas de Santeri Kallio –, este grande regresso aos discos destaca-se pela diversidade e cinematografia constante: em “Daughter of Hate” temos o breve saxofone de Jørgen Munkeby (dos noruegueses Shining), em “Amongst Stars” temos um belo duelo vocal com Anneke van Giersbergen e em

“The Golden Elk” somos levados às areias do Médio Oriente com uma movimentação musical característica dessa região. Já quarentões (Koivusaari e Holopainen têm, por exemplo, 45 anos), os Amorphis não aparentam querer abrandar e é por isso que ao fim de 30 anos ainda têm a capacidade para lançar um álbum como este, que nos fará regressar no tempo até “Tales from the Thousand Lakes” (1994), mas que nos manterá sempre nos carris do presente em direcção ao futuro infinito.

Diogo Ferreira 9/10

O que é? Kalevala é o nome da epopeia nacional da Finlândia. Descreve as façanhas de vários heróis míticos finlandeses. Quem a escreveu e quando? Foi composta por Elias Lönnrot no Séc. XIX. Como? Lönnrot reuniu uma extensa colecção de antigas canções populares que permaneceram vivas na tradição oral das populações finlandesas, sobretudo na região da Carélia. Qual é o grande feito de Lönnrot? Conseguiu adaptar todas as canções reunidas numa única narrativa épica de considerável consistência.

11TH DIMENSION

AGRESSOR

ANCIENT LIGHTS

ANGELIC DESOLATION

INDEPENDENTE

SEASON OF MIST

RITUAL PRODUCTIONS

VIA NOCTURNA

PROG ROCK/METAL

DEATH/THRASH METAL

STONER/PSYCHEDELIC ROCK

DEATH/THRASH METAL

Paramnesia

Ancient Lights

Rebirth

N

P

Rumpus Time Is Over

R

O

ada desconhecidos dos palcos nacionais, os 11th Dimension lançam finalmente o primeiro álbum. Logo após a intro nunca mais iremos parar de abanar a cabeça, tal é a boa dose de metal e rock que se ouve neste “Paramnesia”. As malhas de guitarra (Orge / Marques) são atraentes e detalhadas (ponto mais positivo do disco), a bateria (Filipa Simões) evidencia – a título de exemplo – breaks inteligentes, o baixo (Costa) conquista o seu espaço com groove e a voz é Diana Rosa – e sobre o departamento vocal é dito assim porque não adianta procurar por pares semelhantes, tendo a portuguesa uma voz e forma de cantar muito próprias. Sólido e orientado a uma mescla de rock/metal progressivo, “Paramnesia” é um esforço levado a bom porto.

assados tantos anos, é bom saber que os seminais Agressor estão de volta, mesmo que com um truque na forma de um CD duplo que apresenta “Symposium Of Rebirth” remasterizado e imensos extras e curiosidades como jingles promocionais, faixas MIDI, remixes, versões demo, etc.. A boa produção faz agora jus a um álbum para muitos clássico e bastante à frente do seu tempo, como provam as vozes operáticas que os death/thrashers franceses utilizaram à época. Por outro lado, isto é a garantia de que os Agressor vão regressar à estrada em breve. Nostálgico para os mais velhos e a descobrir com urgência para os mais novos. Bónus: colaboração de Barney Greenway em “The World of Dog”. Nada de novo, mas sempre obrigatório.

esultado de três anos de jamming, os Ancient Lights (com Adam Ricardson, dos 11 Paranoias, na formação do grupo) chegam ao primeiro álbum. Ou melhor: desenham um roteiro pelo deserto, que não tem estradas, à procura de um oásis que nos alimente e tire a sede. Entre faixas curtas (3 minutos) e longas (17 minutos), o trio exerce a sua música dentro do plano do stoner rock e do psicadélico através de acordes/ notas repetitivas (mas catchy) e efeitos de eco que criam envolvência. Sem serem chatos, apesar da repetição, nota-se também um crescimento de intensidade nas composições maiores, o que nos capacita a sentir mais excitação à medida que os minutos correm. Há também uma abordagem monástica a partir das elaborações vocais de Richardson. Interessante.

riundos dos EUA, os Angelic Desolation são uma caixinha de surpresas por um lado e uma pequena desilusão por outro. Praticam death metal técnico na linha de Beyond Creation e Archspire, com a devida subtracção da insanidade técnica dessas, mas apresentam boas ideias e a atitude certa para um dia virem a ter o seu som individual. Há faixas que estimulam (“The Seven Hells Of A Weed Thief”, “Shadow Slasher 666”), bem como uma produção de segunda categoria e uma capa de terceira (ou mesmo décima). Um pouco mais de prática e um maior investimento no produto em geral e os Angelic Desolation seriam o motivo de a Ultraje apostar a 101% no underground. Ainda assim, e muito graças à gama vocal de Jay, merecem uma audição.

diogo ferreira 7/10

João Correia 7.5/10

Diogo Ferreira 7/10

joão correia 7/10

ANGELUS APATRIDA

ÁRSTÍÐIR

ASG

AXIA

CENTURY MEDIA

SEASON OF MIST

RELAPSE

SELFMADEGOD

THRASH METAL

POP/ATMOSPHERIC ROCK

SLUDGE / ROCK

GRINDCORE

Cabaret de la Guillotine

Nivalis

Q

Survive Sunrise

P

Pulverizer

S

O

uando pegamos nas características dos grandes do thrash mundial (Megadeth, Testament, Exodus ou Overkill), as pomos numa Bimbi, juntamos umas pitadas de heavy e power, e temperamos com muita alma e técnica, o resultado tende a ser algo de muito bom. Isso é o que sucede com nuestros hermanos Angelus Apatrida, que, neste seu sexto álbum de estúdio, continuam a manter a fasquia bastante elevada e a debitar um thrash poderoso e melódico q.b. que consegue sempre surpreender. Contrariamente à corrente de bandas thrash actuais, que se limitam a ficar num registo, estes espanhóis provam que o thrash é um estilo complexo, rico e versátil, onde a agressividade, a qualidade técnica e a melodia dão forma a música poderosa mas rica em sentimento.

rimeiro: não confundir com Árstíðir lífsins. Segundo: por que é que não cantam em islandês do princípio ao fim? Podíamos não perceber nada, mas este som pede tanto a língua-mãe do trio. Dificilmente inseridos num único estilo, os Árstíðir criaram 13 novas faixas edificadas por elementos de pop e rock atmosférico que têm uma única missão, que é também um cliché – pretendem, e diga-se que com bastante facilidade, pegar em nós e envolver-nos num mundo à parte que tem tudo para se poder construir um terno novo lar. Suaves e melancólicos q.b., mas sem aquela tristeza que nos faz sentir o mundo a ruir, os islandeses Árstíðir são indicados para fãs de Björk, Sigur Rós, Radiohead e Simon & Garfunkel.

abia que para escrever sobre ASG tinha de ser num dia com bom tempo enquanto se partilhava uma garrafa de vinho verde com um amigo ao almoço – e assim foi. O rock pesado e por vezes sludgy dos ASG é de Verão e de boas vibes. “Survive Sunrise”, com toda a sua onda electrificadora que vai dos riffs melódicos às vocalizações hooky, é para se ouvir na praia enquanto se bebem umas valentes cervejas ou no carro enquanto se faz uma road trip pelo litoral português em direcção ao Alentejo. Após cinco anos sem lançarem um álbum, o quarteto da Carolina do Norte (EUA) precisava de algo com valor e que firmasse a sua posição enquanto banda de rock renovadora de costumes – conseguiram!

concerto de lançamento de “Pulverizer” no último SWR deixou o público a apanhar do ar com a descarga que Zé Pedro (Holocausto Canibal, Grunt), Alexandre Moreira (Grunt) e restantes membros dos Axia debitaram em cerca de 45 minutos. Sem delicadezas, “Pulverizer” é um excelente exemplo do estado do grindcore em 2018 – longe vão os tempos de produções manhosas que justificassem a palavra 'culto'. A palavra de ordem em “Pulverizer” é 'matemático': desempenho musical e vocal matemático, produção matemática e uma sensação geral de espancamento auditivo. Também ele matemático. São 21 temas que, do inicial “Mass Suicide” ao final “Self-Inflicted Obsolescence”, teimam em esgotar o pouco ar que temos para respirar. Indicado para quem pensava que um disco de grindcore não cresce. Porque cresce.

Pedro Félix da Costa 8.5/10

Diogo Ferreira 7.5/10

Diogo Ferreira 7.5/10

João Correia 8.5/10

ANGELUS APATRIDA: “Provam que o thrash é um estilo complexo, rico e versátil.” 38 - ULTRAJE #16


em

destaque Fotografia: Cortesia Osmose

Será que remexer o passado é boa opção? Os Filii Nigrantium Infernalium e os Gorgoroth já o fizeram... Por: Diogo Ferreira

FILII NIGRANTIUM INFERNALIUM Hóstia

OSMOSE BLACK/THRASH METAL

T

êm o slogan de se acharem a pior banda que existe, mas os álbuns que lançam dizem que essa afirmação é mentira. “Fellatrix Discordia Pantokrator” (2005) é facilmente considerado um dos melhores

álbuns black/thrash metal alguma vez feitos em Portugal, “Pornokrates: Deo Gratias” (2013) não fica muitos furos abaixo e “Hóstia” é a prova de que os FNI sabem o que fazem. Com uma Nossa Senhora empalada, de três cabeças e um cu descomunal, este disco começa à boa maneira FNI com “Prece”: uma subversão cómica e pornográfica do Pai Nosso, e com sotaque brasileiro. Ser-se provocativo, javardo, ofensivo e profano não implica fazer-se música reles e suja, portanto dos FNI esperamos os quatro primeiros adjectivos mais uma noção musical excepcional com malhas rápidas, rasgadas e melódicas que cruzam black e thrash metal a toda a brita. Neste disco há ainda uma ideia heavy metal que

não é desconhecida à banda e aos seus fãs, mas convenhamos que está mais presente agora em 2018. Todavia, e apesar de ser um álbum que nos preenche as medidas, temos de apontar uma possível quebra de inspiração ou prisão ao passado devido a alguns lances de guitarra ou versos líricos que parecem ser recauchutados de outros tempos – mas isso acaba por ser peanuts se tivermos em conta o poderio musical, conceptual e histórico que esta banda tem em Portugal. Bem-vindos de volta!

Diogo Ferreira 7.5/10

FNI "Fellatrix" "Fellatrix Discordia Pantokrator" em 2005, simplesmente "Fellatrix" em 2018. Com a ideia a partir do dono da Osmose Productions, os FNI regravaram o seu importantíssimo primeiro álbum, dando-lhe uma roupagem mais moderna e nítida, mas nem tudo é um grande feito... A inaugural "Calypso" perdeu uma das suas malhas lead orelhudas e a belíssima quase-balada "Cães de Guerra" transformou-se na menos memorável "Vermes de Guerra: Cona Nuclear". Gorgoroth "Under the Sign of Hell" Em 2011, os fanáticos do black metal ficaram desolados com a regravação do magistral disco de 1997. A principal crítica assentou na perda de toda aquela ambiência nevoeirenta e obscura que fedia a morte a milhas.

BLOODBARK

CANDLEMASS

CARRION

COLLAPSE OF LIGHT

NORTHERN SILENCE

NAPALM

MIGHTY MUSIC

RAIN WITHOUT END

ATMOSPHERIC BLACK METAL

DOOM METAL

DEATH METAL

ATMOSPHERIC DOOM/DEATH METAL

Bonebranches

Time to Suffer

House of Doom EP

A

"H

Each Failing Step

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mocional e musicalmente Eaficionados, denso, mesmo para os o funeral doom

nónimo em relação à identidade humana e geográfica, o projecto Bloodbark tenta desligar-se dessas amarradas para em cerca de 40 minutos protagonizar uma jornada que conecte música e Natureza, individualismo e convergência. Entrelaçado por palavras e emoções que têm de trabalhar conjuntamente e em harmonia, estas três longas faixas pertencem ao cânone do black metal atmosférico contemporâneo que pode ser furioso na base mas que tem melodia nostálgica, sonhadora e mágica no pináculo. Não é que sejam composições inovadoras – e não são, de facto –, mas são bem executadas, com uma produção dentro do muito aceitável e com uma direcção estética de quem sabe o que está a fazer mesmo que não evidencie preferir quebrar regras – nem sempre é preciso complicar para fazer bem.

ouse of Doom" é o EP que serve de aperitivo ao futuro álbum a ser lançado no próximo Outono pelas lendas vivas do metal que são os Candlemass. O tema-título abre este grupo de quatro músicas, deixando o ouvinte completamente rendido aos riffs vagarosos e catchy, à sombria melodia e ao malicioso órgão que acompanha o tema – uma pérola que mostra o calibre que categoriza a banda de Estocolmo. É pena que os outros três não acompanhem o nível: a balada "Fortuneteller" precisava de um pouco mais de substância (está muito longe de ser uma nova “Solitude”) e os outros dois, se bem que têm garra, são facilmente descartáveis perante aquilo que a banda consegue fazer. No seu todo, um belo convite para o 12º álbum.

ime to Suffer" exibe uns Carrion em excelente forma, deixando a impressão de que se trata de uma banda madura e com vários anos de experiência acumulada, apesar deste ser apenas o segundo disco dos belgas. Com temas bem trabalhados e produzidos, os Carrion vencem-nos com o seu death metal veloz, expressando uma sonoridade frenética através de guitarras que dançam entre melodias encantadoras e riffs de cariz brutal. Ao segundo longa-duração, os Carrion asseguram que o death metal não precisa de ser técnico para agradar, criando uma proposta que não só agrada ao paladar como é também de fácil digestão. O tema "Defiled Sanity" é uma boa amostra da monstruosidade presente neste disco.

pode dividir-se entre bandas de que se gosta muito e outras tantas de que, simplesmente, não se gosta. Capaz de abranger um maior espectro de fãs dentro do género, este novo projecto nacional, que reúne membros das bandas Shape Of Despair e Before The Rain, traz-nos uma excelente combinação das tão típicas negritude e melancolia do doom com componentes atmosféricas, onde um toque de folk e uma particular dinâmica entre vozes limpas, masculina e feminina, com um ocasional uso de growls, também contribui para marcar a sua sonoridade. Ao longo destes 43 minutos, separados em quatro temas, reúnem-se então todos os ingredientes necessários para viajar entre memórias menos felizes e alguns sentimentos de perda.

diogo ferreira 7/10

Tiago Neves 7.5/10

joel costa 8.5/10

Andreia Teixeira 8/10

CRAFT

CRURIFRAGIUM

DEAD INCEPTION

DON AIREY

SEASON OF MIST

LARVAL

INDEPENDENTE

EARMUSIC

BLACK METAL

BLACK/DEATH METAL

BRUTAL DEATH METAL

HARDROCK

White Noise and Black Metal

Black Seed of Bestiality

R

Constructs of Decay

P

One Of A Kind

E

D

uído branco denota um sinal aleatório com intensidade igual em frequências diferentes – é basicamente o que se passa com Craft: as faixas avançam com os seus versos e malhas, mas a estirada é sempre a mesma, é sempre black metal. Sete anos depois de “Void”, os suecos regressam com o quinto disco num exercício de black metal bem produzido e arcaico ao mesmo tempo, tamanha é a intensidade dissonante e furiosa de anos idos. Rápido na batida e bastante áspero nas vozes, este trabalho evoca ainda alguma depressão e passagens de black n’ roll que acabam por calhar mesmo bem já que melodia (aquela revigorante e épica) não existe. Mesmo que bem executado não é certo que este retorno arrepie a peles…

ara uma banda que começou em 2015, tem como fundo de catálogo uma demo e um álbum, uma compilação como esta numa fase tão inicial de carreira só pode ser um cartão-de-visita para se apreciar o trabalho destes senhores. E que se pode escrever do mesmo? Não muito. Os Crurifragium são daquelas bandas que apostam forte e feio na brutalidade, mas não a moldam da maneira indicada para obter um resultado final entusiasmante e que não se tenha ouvido bem melhor por outros artistas do género. Que não se entenda isto como um rótulo de fraco, mas não esperem mais do que aquilo que realmente está aqui reunido: black/death furioso mas que não fica para rodar novamente.

ste projecto pode ser comparado a várias situações ilustrativas: um parto no buraco mais séptico do Casal Ventoso; fogo posto num orfanato; sexo com animais mortos; comer cão cozido; meter um ouriço dentro dos boxers; ir a uma festa de kizomba. Pouco mais há a acrescentar do que isto: “Constructs of Decay” é uma anomalia cuja inspiração principal é o crack e cuja relevância musical se situa entre um “vai-te foder” e uma fractura exposta. Não chega a ser primitivo – o termo correcto é procarionte, até porque, no final, aquilo que sentimos é um flagelo. Se a ideia era parodiar o death metal, correu mal. Se a ideia era fazer um trabalho a sério, começam a faltar as palavras para descrever o catedralesco falhanço que é “Constructs of Decay”.

on Airey é um mito com pernas. O teclista acumula o seu lugar cativo nos Deep Purple (de que faz parte há 15 anos) com um currículo que inclui gravações com nomes como Ozzy Osbourne, Rainbow ou Jethro Tull, e uma carreira em nome próprio de que “One Of A Kind” é o quinto álbum de originais. Com a ajuda de uma banda, que inclui o vocalista Carl Sentance (Nazareth) e o guitarrista Simon McBride (ex-Sweet Grace), o músico gravou um conjunto de canções de hardrock clássico cheio de soul, onde os óbvios teclados sobressaem. Ainda assim, “One Of A Kind” não é um disco feito para Don Airey e o músico sabe onde parar para que as músicas funcionem. E, aos 70 anos, é um perfeito conhecedor do que funciona e não funciona quando precisa de pôr temas a rockar.

diogo ferreira 6.5/10

Tiago Neves 5/10

joão correia 1/10

Fernando Reis 7.5/10

CANDLEMASS: “Uma pérola que mostra o calibre que categoriza a banda de Estocolmo.” 39 - ULTRAJE #16


em

destaque Fotografia: Mikael Eriksson

Tobias Forge nem sempre foi o Papa ou o agora Cardeal, e o seu legado começou a formar-se bem antes dos Ghost existirem.

GHOST

Prequelle SPINEFARM HARDROCK

“A

festa acabou e agora começa uma nova era.” Foram estas as palavras de Papa Nihil quando, a 30.09.2017, Papa Emeritus III era abruptamente removido do seu sacerdócio num espectáculo em

Gotemburgo (Suécia). A custo, Sister Imperator convenceu Papa Nihil de que Cardinal Copia era o sucessor ideal para liderar Ghost mesmo sem pertencer à linhagem de sangue. Ainda que com maneirismos urbanos desviantes, Cardinal Copia terá que fazer esquecer a postura/ conceito sexual do seu antecessor, começando já por “Prequelle”, o novo álbum que se debruça sobre pestes, eras negras e o apocalipse. Sem ser propriamente superpesado, mas com mais groove do que “Meliora” (2015), este quarto longa-duração não perde em nada a característica catchiness de refrãos que ficam no ouvido ou o memorável som dos teclados à classic/prog rock dos anos 1970. De facto, é isso que mais

se mostra evidente em “Prequelle”: a inclinação a sonoridades que correram o mundo do rock há 40-50 anos – o que se pode verificar na instrumental “Miasma” que perfaz cinco minutos de rock n’ roll espacial. Depois há ainda a esperada balada (“See the Light”), que apesar de bem executada não é tão forte como “He Is” (2015), e uma ambição direccionada a uma ópera rock em “Pro Memoria”. De resto, os Ghost continuam a confiar no seu hardrock em faixas significativas como “Rats”, “Dance Macabre” e “Witch Image”.

diogo ferreira 7.5/10

Repugnant Com o pseudónimo Mary Goore, o sueco exerceu funções de vocalista e guitarrista nesta banda de death metal com inclinações a temáticas de terror. Formaram-se em 1998 e entre demos, EPs e splits há o álbum "Epitome of Darkness" (2006). Subvision Banda que troca galhardetes entre o alt-rock e o indie-rock. "So Far So Noir", de 2006, já evidenciava alguns riffs de base para Ghost. Magna Carta Cartel Projecto prog/rock de Martin Persner (ex-Ghost) com participação vocal de Forge. A banda foi reactivada após Tobias Forge ficar definitivamente ao comando dos Ghost. Por: Diogo Ferreira

DORIAN SORRIAUX

DRUG CULT

GAEREA

GRAVEYARD

SOULSELLER

RITUAL

TRANSCENDING OBSCURITY

NUCLEAR BLAST

FOLK/PSYCHEDELICA

PSYCHEDELIC ROCK

BLACK METAL

CLASSIC ROCK

Hungry Ghost EP

Unsettling Whispers

Drug Cult

A

H

Peace

S

D

tingiu o estrelato com os Blues Pills e agora avança a solo com um EP de título inspirado num livro de Gabor Maté. Numa mistura entre folk e psicadélico – sendo a guitarra acústica brilhante, a bonita voz (até então praticamente desconhecida) e os teclados sóbrios que dão cor de fundo o epicentro do trabalho –, o músico usa também o título para falar do fantasma interior que vive em nós e que não nos deixa achar que somos bons o suficiente, levando-nos a padrões autodestrutivos. Com tamanha, mas cativante, simplicidade sonora é bem-visto que quatro faixas seja a quantidade razoável para absorvermos o que Dorian Sorriaux tem para contar e cantar – mais do que isso talvez aborrecesse. Indicado para, por exemplo, fãs de Neil Diamond.

á que gostar de um álbum que emerge com o peso e lentidão de um kaiju prestes a terraplanar Tokyo. Épico é um termo atirado a pontapé por tudo e por nada, mas o álbum homónimo dos Drug Cult é-o da mesma maneira que descreveríamos um trailer de cinema. A voz tão suja como velada é o guia desta experiência ritualística sempre em direcção às mais baixas ondas hertzianas. Claro que é o baixo que dá textura ao som dos australianos a que se juntam as guitarradas que deixariam os Kyuss orgulhosos. É tudo muito doom, mas em vez de aborrecimento cria antecipação. Enquanto cantam sobre rituais, sangue e feitiços, os Drug Cult soam sujos e malévolos. Benzamo-nos para ouvir mais.

e em 2016 dissemos que estes portugueses estavam muito colados a Mgła e Behemoth, agora em 2018 temos de afirmar que estão a encontrar o seu caminho pessoal. Dificilmente trazem algo de inteiramente novo ao panorama europeu – que é muitíssimo largo –, mas ao português… Lá isso trazem! O black metal mantém-se como mote principal, mas o grupo deve andar a ouvir o que passa na Alemanha, com bandas como Ancst e King Apathy, e assim implementam uma abordagem hardcore versus black metal em faixas como “Absent”. Contudo, a escola polaca ressurge logo a seguir em “Whispers”, num exercício que inclui ritualismo e peso compassado. Com este “Unsettling Whispers”, os Gaerea tornam-se, sem sombra de dúvidas, na banda mais refrescante do nosso país.

epois de um hiato de apenas quatro meses, os Graveyard anunciaram o seu regresso com a entrada de um novo baterista e um novo álbum na algibeira. “Peace” bem pode ser interpretado literalmente como o novo estado de espírito da banda, mas que fiquem enganados os que acham que é um disco mais suave, pois os suecos retornam à forma com temas bem pujantes, como “The Fox” e “It Ain’t Over Yet”, havendo também espaço para umas baladas em “See The Day” ou “Bird of Paradise”, e ainda espaço para as ocasionais excursões psicadélicas a meio de alguns temas. No entanto, a polpa deste fruto é mesmo rock n’ roll clássico, do que bate com força. Um disco difícil de se ficar quieto ao ouvir.

diogo ferreira 6.5/10

jorge almeida 8/10

Diogo ferreira 8/10

tiago neves 8/10

GRUESOME

HEGEMONE

JYOTISAVEDANGA

KHEMMIS

RELAPSE

DEBEMUR MORTI

LARVAL

NUCLEAR BLAST

DEATH METAL

POST BLACK METAL

BLACK/DEATH METAL/NOISE

DOOM METAL

Twisted Prayers

We Disappear

O

Thermogravimetry Warp Continuum

C

É

Desolation

D

s Gruesome são uma banda californiana onde figuram membros que estão ou já passaram por projectos de nomes sonantes como Possessed, Exhumed e Malevolent Creation. E, assim como estas bandas, os Gruesome fazem death metal da velha-guarda, mas com toda a categoria que seria de esperar e menos não seria aceitável pois estamos a falar de um projecto criado inicialmente como uma banda de tributo aos míticos Death e o legado de Chuck Schuldiner é bem louvado neste “Twisted Prayers”, sendo quase impensável não pensar nos Death ao ouvir temas como “Fate” ou “Fatal Illusions”, especialmente na era “Human” – “Symbolic”. Altamente recomendado não só para os fãs de Death mas como para qualquer apreciador de death metal.

om o segundo longa-duração, estes polacos fazem uso de uma interpretação pessoal daquilo que para eles é post-metal embebido em orientações black metal. Não é que sejam os primeiros a fazê-lo – nem serão os últimos –, mas com “We Disappear” estamos perante um cataclismo musical de excelência. À densidade própria dos estilos já mencionados, os Hegemone incluem ainda uma ou outra aproximação a um hardcore muitíssimo obscuro e ainda abordagens místicas/folclóricas, até porque versam sobre a beleza (apocalíptica) da constante mudança do mundo. “We Disappear” é um álbum repleto de walls of sound, repetições hipnóticas, desespero, introspecção e melancolia esmagadoramente pesada. É um disco de enorme calibre e é indicado para fãs de Downfall Of Gaia e Der Weg einer Freiheit.

com uma excelente introdução a oscilar entre o noise, o lo-fi e o space ambient que se abre a porta para o álbum de estreia dos Jyotisavedanga, um obscuro trio com elementos oriundos da Índia e da Rússia, e cujo bizarro nome deriva de um dos mais antigos textos astrológicos indianos, o Vedanga Jyotisha, que descreve o solstício de Inverno no Séc. XIV A.C.. Tristemente, não só de conceitos originais vive um projecto, e a expectativa criada pela dita introdução não é correspondida no remanescente do disco. Os restantes cinco temas do curto trabalho consistem num death metal desinspirado a roçar o grindcore, no qual a presença esporádica de apontamentos ambientais não é suficiente para lhe conferir mais que um interesse superficial.

epois do segundo álbum “Hunted” (2016), era claro como água que os norte-americanos Khemmis iam dar o salto. Pois bem, se nos EUA continuam com a 20 Buck Spin, na Europa já estão à guarda da poderosa Nuclear Blast. Com seis faixas entre os 5 e os 10 minutos, a banda de Denver executa um doom metal exemplar que tanto busca o antigo como se manda para a frente com uma atitude jovem – sangue novo! Mesmo com algumas malhas pesadonas e alguns berros (agora menos do que antes), os Khemmis são maioritariamente melódicos, e isso tanto se testemunha pelas vozes limpas como pelos leads de guitarra memoráveis. O futuro do doom metal está assegurado enquanto houver bandas como Khemmis. Ponham o ouvido nestes rapazes!

Tiago Neves 9/10

diogo ferreira 8/10

Jaime Ferreira 4/10

Diogo ferreira 8.5/10

HEGEMONE: “Um disco de enorme calibre.” 40 - ULTRAJE #16


em

KATAKLYSM Meditations

NUCLEAR BLAST DEATH METAL

25

anos de carreira comemorados com um disco como “Meditations” é 2-em-1 – não só os Kataklysm estão de parabéns pela longevidade atingida, como ainda gravaram um disco digno

Há mais para além de Kataklysm e do Canadá no seio deste quarteto. Recordemos o projecto paralelo da banda.

Fotografia: Cortesia Nuclear Blast

destaque

de nota. “Meditations” é inequivocamente o álbum mais acessível de toda a carreira dos Kataklysm, muito por culpa da produção de Jay Ruston (Anthrax, Stone Sour, Armored Saint), que eleva o registo a um grau de nitidez e perfeição inéditos na carreira da banda. O tema inicial, “Guillotine”, é tudo o que se espera e muito mais – uma banda focada no sucesso e em apresentar o resultado do que melhor sabe fazer: death metal técnico e melódico, com blastbeats q.b. e aquelas estruturas que só os Kataklysm sabem criar. Com faixas curtas e (por conseguinte) bastante agressivas, nota-se uma maturidade ainda em desenvolvimento, tal é a obsessão dos canadianos com a perfeição.

“Outsider” continua na mesma linha, rápido e sem piedade, e é aqui que notamos uma costela de groove metal que se perpetuará ao longo do disco; costela essa que deixaria os Pantera orgulhosos. Em termos de malhas, é um trabalho bem conseguido, com temas viciantes e uma revitalização do género sem cair num som demasiado comercial ou insípido. Estamos doidos para que chegue Outubro para os ver ao lado dos Hypocrisy por toda a Europa. "Meditations” é um dos discos dignos de nota de 2018.

Ex Deo O vocalista Maurizio Iacono tem sangue italiano e por isso pegou nos seus companheiros de Kataklysm para trazer à vida um capricho seu, e não no mau sentido da palavra. Ex Deo pode ser visto como uma espécie de resposta à vaga de metal viking, por sua vez utilizando a História de Roma para criar discos de death metal épico. Falou-se do estreante "Romulus" (2009), mas foi com "Caligvla" (2012) que o projecto ganhou real fama. "The Immortal Wars" é o terceiro álbum e saiu no recente ano de 2017, tendo menor impacto do que o seu antecessor.

joão correia 9/10

Por: Diogo Ferreira

KONTINUUM

MADBALL

MIDNATTSOL

MIST

SEASON OF MIST

NUCLEAR BLAST

NAPALM

SOULSELLER

ROCK

HARDCORE

SYMPHONIC/FOLK METAL

DOOM METAL

No Need to Reason

The Aftermath

For The Cause

N

“O

Free Me Of The Sun

O

“F

ão são raras as bandas que, tendo começado por praticar black metal, com o passar dos anos abraçaram outros estilos. É precisamente o caso dos Kontinuum que, a par de nomes como Ulver, Alcest ou dos seus conterrâneos Sólstafir, optaram por abandonar a rispidez dos primórdios em prol de sonoridades mais acessíveis, e neste caso específico notoriamente mais comerciais. Descrito como rock ambiental islandês, o terceiro álbum do quinteto engloba, quase equitativamente, elementos pop, rock e até góticos, com pontuais incursões metal. A produção é cristalina e a composição competente, se bem que algo contida. Não sendo um mau disco, “No Need to Reason” nada perderia em ser mais arrojado, pois, pela falta de passagens marcantes e diferenciadoras, facilmente se arrisca a cair no esquecimento.

que começou por ser uma lenda urbana tornou-se numa banalidade” – esta poderia ser a linha de abertura de um noticiário qualquer a apresentar “For The Cause”, o novo esforço de Cricien/Guerra/Justian. Se antes um CD dos Madball cheirava a Meatpacking District, a Coney Island e a Brooklyn, hoje, ao abrir o novo CD, sentimos o odor contranatura do Upper East Side, de Greenwhich Village e do Soho. A banda decidiu trilhar o caminho com que colectivos como Biohazard ou Stuck Mojo abanaram a cena em meados dos 90s, se bem que com muito menos entusiasmo ou até genialidade, abandonando a preciosa javardice clássica de “Set It Off” ou “Demonstrating My Style”. (Nem todos) Os fãs acérrimos irão gostar. Os outros dirão “meh”. Talvez nem isso.

sobrenome Espenæs é mais do que conhecido no panorama metal e 2018 traz-nos as irmãs Carmen Elise e Liv Kristine (ex-Leaves’ Eyes) lado-a-lado na mesma carruagem sonora. Para quebrar um silêncio de sete anos, “The Aftermath” junta as duas vocalistas num álbum que nem é puramente power metal, nem folk metal, nem symphonic metal. Na verdade, este trabalho é um misto desses subgéneros regidos pelas vozes femininas e guitarras lead melódicas que se sentem ao longo das 10 faixas. Todavia há um lado folclórico e melancólico a la anos 1990 que se realça praticamente a si mesmo sem grande dificuldade, e será essa ala a mais memorável deste regresso discográfico. Apesar de prazeroso, o geral podia soar mais atmosférico – é o ponto menos positivo.

ree Me Of The Sun” é um retorno à sonoridade, agora clássica, dos primórdios do metal. Este é um disco de doom metal puro e duro, melodias obscuras, muita distorção, solos macabros e um quase-fetichismo pelo oculto. No entanto, não é propriamente pelo instrumental que a banda ficou conhecida – a sua maior e mais única característica é a voz de Nina Spruk, que junto da restante instrumentalização emitem uma aura de misticismo e dão uma força tremenda às composições ajudando a criar este ambiente de bruxaria matriarcal. O facto do lançamento ser tão straight-forward pode ser um detrimento: como a produção é tão simples, algumas das faixas sofrem de falta de identidade e tornam-se bastante esquecíveis. Felizmente isso não acontece assim com tanta frequência.

Jaime Ferreira 6/10

joão correia 6/10

DIOGO FERREIRA 7.5/10

DIOGO LOURENÇO 7/10

OBSCURA

ORANGE GOBLIN

RIBSPREADER

THE KONSORTIUM

RELAPSE

CANDLELIGHT/SPINEFARM

XTREEM MUSIC

AGONIA

DEATH METAL

STONER METAL

DEATH METAL

BLACK METAL

Diluvium

The Wolf Bites Back

“D

The Van Murders - Part 2

O

C

Rogaland

gora sem máscaras e Aadjacente sem grande teatralidade à música, estes

iluvium”, o novo álbum de originais dos Obscura, ainda nem teve bem tempo de começar e já mostrou ao que veio: mais uma tareia de death metal técnico. Não se pense, no entanto, que o guitarrista, vocalista e mentor Steffen Kummerer já esgotou todos os truques nos quatro discos anteriores. Há Cynic e jazz de fusão no tema “Emergent Evolution”, há puro metal progressivo em “Ethereal Skies” e há death metal épico à Cattle Decapitation em “The Conjuration”. Pelo meio, os Obscura sabem segurar as pontas da qualidade, oferecem um trabalho exemplar do (fretless) baixista Linus Klausenitzer (Alkaloid) e dão muito pouco descanso ao nosso cérebro. Ou seja, esta força da técnica tem alma e tem inspiração. É obra.

s últimos anos de hype dentro do stoner metal podem ter escondido os Orange Goblin num sem número de propostas aparentemente semelhantes em forma e conteúdo, mas quem está por dentro do estilo sabe que os britânicos são especiais. Sobretudo num disco como “The Wolf Bites Back” em que o grupo carrega bem fundo no pedal da variedade e, entre temas de quase-hardcore-punk, outros de blues negro e momentos em que puxam mais pelo groove, nunca perdem a identidade nem a personalidade musical. Quando este rock dos infernos se faz acompanhar de letras de gangs de motards zombies, bruxas de Salem e guerreiros budistas, temos uma combinação vencedora.

onforme o nome indica, “The Van Murders – Part 2” traz-nos mais histórias dos dois personagens apresentados no álbum de 2011, “The Van Murders”, conhecidos como The Cleaner e Mr. Filth. A sonoridade desta banda acusa bem as suas raízes suecas, não fosse Rogga Johansson, dos Paganizer, um dos seus fundadores, mas elementos de death metal americano, na veia de Massacre, também se encontram presentes. A banda mantém o seu estilo de death metal, alicerçado em riffs orelhudos, grandes solos e excelente trabalho vocal, mas consegue-se afastar do seu trabalho anterior, “Suicide Gate – A Bridge To Death”. Menos intensidade, mais proximidade ao old-school, sem blasts (como no anterior) e uma excelente produção fazem deste “The Van Murders – Part 2” um trabalho sólido e repleto de qualidade.

noruegueses regressam aos álbuns sete anos depois do debutante homónimo. Com Teloch (Mayhem) e Dirge Rep (Orcustus) nas fileiras, os The Konsortium tanto fornecem uma onda raivosa de black/ death metal como incorrem por solos velozes e esgalhados conotados ao thrash metal, isto tudo elaborado com um tecnicismo mais predominante do que anteriormente. Parcialmente composto em locais florestais, há assim uma percepção folclórica, com refrãos ritualistas, oriunda do Norte, algo que se pode encontrar em bandas como Helheim. Maioritariamente violento, martelado e técnico q.b., “Rogaland” tem o seu pico épico na penúltima “Havet” que ao longo dos seus mais de 10 minutos apresenta uns The Konsortium muito maduros. É um regresso sólido.

Fernando reis 8/10

Fernando reis 8/10

Pedro Félix da Costa 8/10

diogo ferreira 7/10

OBSCURA: “Tem alma e inspiração.” 41 - ULTRAJE #16


em

NERVOSA

Downfall of Mankind NAPALM THRASH/DEATH METAL

A

São as Nervosa que estão na berra no que ao feminino no metal diz respeito, mas a História da Música inclui mais bandas assim... Por: Diogo Ferreira

Fotografia: Cortesia Napalm Records

destaque

o terceiro disco, as brasileiras Nervosa têm já uma identidade musical bem definida que expande-se agora aos reinos caóticos do death metal, muito graças à entrada da nova baterista Luana Dametto. Sen-

do o melhor desempenho do trio sul-americano até à data, “Downfall of Mankind” continua a explorar a sonoridade thrash alemã da década de 1980 que demarcou a banda desde 2012, altura em que era editada a primeira demo e que a conduzia à Napalm Records, afastando-se agora um pouco mais do thrash associado aos Big 4. Excluída a intro e a faixa-bónus “Selfish Battle” (onde trilham os caminhos tradicionais do heavy metal), “Downfall of Mankind” é um disco implacável, dotado de uma crueza desenfreada que nos leva para um ambiente de concerto, mostrando que funcionará muito bem ao vivo, como aliás já vem sendo hábito. Temas como o single "Kill the Silence" ou a arrebatadora "Never

Forget Never Repeat" transmitem esta fusão de estilos que é mencionada no início da review, enquanto faixas como "Raise Your Fist!", de cariz político, concedem uma dose considerável de groove, fazendo lembrar o que os Sepultura exploraram em "Chaos A.D.". Com riffs que evocam Kreator e um baixo perfeitamente audível que lhe confere uma natureza visceral e agressiva, este é um disco que assumirá um papel muito importante na carreira das Nervosa e que lhes assegurará um futuro prometedor e uma presença vitalícia nas ligas mais importantes do thrash metal.

joel costa 8.5/10

Kittie Não é uma banda inglesa ou norte-americana, como se podia esperar, mas sim canadiana. As Kittie foram, e ainda são, a banda formada apenas por mulheres que mais reconhecimento obteve numa fase em que o metal se estava a reconfigurar no final dos 90 / início dos 00. Jenner De Belgrado, Sérvia, o quarteto feminino elabora um speed/thrash metal bem tocado e cativante. "To Live Is To Suffer" é o primeiro e único álbum até ao momento, lançado em 2017. Black Widows Num cantinho da vasta História há ainda lugar para este quarteto gótico e português. "Sweet... The Hell" é o único álbum, de 2002.

THE LION'S DAUGHTER

THE NIGHT FLIGHT ORCHESTRA

THERIOMORPHIC

UADA

SEASON OF MIST

NUCLEAR BLAST

DETHSTAR DIGITAL

EISENWALD

BLACKENED SLUDGE METAL

CLASSIC ROCK

MELODIC DEATH METAL

BLACK METAL

Future Cult

O

Of Fire And Light

The World Ain't Enough

Q

Cult of a Dying Sun

D

F

fim dos tempos está próximo e o futuro será enigmaticamente revestido de ouro. Deus quererá vingança, mas vingar-se-á de quem se já estivermos todos mortos? E a culpa será sempre nossa, dos detestáveis humanos. Tudo isto é musicalmente perpetuado por uns The Lion’s Daughter evolutivos de álbum para álbum que agora incluem uma ala electrónica no seu blackened sludge metal apocalíptico e furioso. Os sons electro podem personificar um ambiente espacial (uma malevolência que vem de fora) mas também acabam por ser hipnotizantes, o que se enquadra com as guitarras densas que criam uma parede de som terrorífica. Com faixas curtas (pouco passam dos 4 minutos), a capacidade para se atingir um trance pode ser pobre, mas conseguiram ainda assim provar a sua perspectiva.

uando estás farto de: 1) compor/tocar death metal; 2) ouvir Kiss, Yes, Toto e por aí fora… Fazes o quê? Largas o death metal e inspiras-te nos teus ídolos do hardrock e classic rock. Foi o que fez Björn Strid e David Andersson, ambos de Soilwork, quando há 10 anos criaram os The Night Flight Orchestra (TNFO). Depois, a bordo deste avião revivalista subiu ainda Sharlee D’Angelo (Arch Enemy, Spiritual Beggars). O que este supergrupo oferece é plena diversão musical aliada ao profissionalismo que ostentam há décadas no meio death metal; assim sendo, por um lado é para levar TNFO numa boa, por outro a seriedade dos músicos está em jogo e nem a fazer hardrock / classic rock serão achincalhados. Divirtam-se!

ez anos depois do último álbum, eis que os lisboetas Theriomorphic lançam mais uma acha para a fogueira, um novo EP 4x4, constituído por 4 temas e 4 interlúdios. Após profundas mudanças na sua formação, o (agora) trio oficial volta com 24 minutos do seu death metal típico – ora com partes rápidas/blast, ora com solos melódicos (seu apanágio) – alternando com súbitas e bonitas paragens acústicas. Não sei se Jó & Cia. se inspiraram nas tragédias incendiárias do triste Verão de 2017 mas, independentemente desse facto, até pode servir como espécie de homenagem. A aura fatalista e a vingança de um deus absento por via do fogo está sempre presente nas fortíssimas letras e parece o desfecho merecido de uma raça que às cinzas voltará.

oi em 2016 que se estrearam em grande com “Devoid of Light” e sem tirar o pé do acelerador prosseguem com o óbvio sucessor sob o título “Cult of a Dying Sun”. Com novo baixista e novo baterista, o quarteto continua a sua jornada musical afecta ao black metal melódico, mas expandem a sua gama de abordagens com leads mais relacionados ao heavy metal, exponenciando ainda mais a ala melodiosa, e a diversidade vocal de Jake Superchi também aumentou. “Cult of a Dying Sun” é feito de riffs cativantes que se conjugam com uma atmosfera geral que tanto pode ser épica, mortal ou melancólica em alguns segmentos. Com uma curta carreira, estes norte-americanos são já uma banda a ter muito em conta.

diogo ferreira 7/10

diogo ferreira 7/10

Rui vieira 8/10

diogo ferreira 8/10

VANHELGA

WØMB

WOMBBATH

YOB

OSMOSE

PURODIUM

SOULSELLER

RELAPSE

DEPRESSIVE BLACK METAL

BLACK METAL

DEATH METAL

DOOM METAL/STONER

Fredagsmys

Taciturn

M

The Great Desolation

O

Our Raw Heart

I

E

ais antigos do que Lifelover mas sem terem atingido o hype nos primeiros anos, os suecos Vanhelga chegam ao quinto álbum numa demonstração de atitude, maturação e profissionalismo, mesmo no meio daquela vida niilista e psicótica que já levou alguns dos membros a internamentos psiquiátricos. Com base no black metal, o grupo não se prende a isso e elabora algumas incursões ao rock alternativo e ao dream rock, tudo numa toada de falsa segurança com assobios melodiosos ou guitarras acústicas que, afinal de contas, representam depressão no seu estado puro. “Música positiva para pessoas positivas”, sempre disseram eles, e com papas e bolos se enganam os tolos. Com Vanhelga não há salvação – nem para o corpo, nem para a mente. Descendamos então…

projecto nacional Wømb é proficiente em criar black metal do mais cáustico e pulverizador em doses que raramente ultrapassam os dois minutos, e o seu primeiro EP não foge à regra. Não se limitando a ser apenas uma amálgama de caos enraivecido, os riffs são fortes e a estrutura da música mais coesa do que aquilo que soa à primeira, despertando um interesse maior por parte do ouvinte que não quer apenas ouvir uma descarga em bruto. Porém, quando esse interesse surge o tema termina abruptamente, dando que pensar se, em faixas como “Nychthemeral” ou “Ritual Union Through Sex Magick”, os Wømb não teriam a beneficiar se alargassem a duração para lá do limite de dois minutos.

mpulsionadores da época de platina do death metal sueco (1990-93), os Wombbath nunca obtiveram o reconhecimento merecido que bandas como Dismember, Entombed ou Unleashed lograram. Injustamente, diga-se, principalmente se atentarmos à qualidade de “The Great Desolation”, a sua última oferta. Não há espaço para manobras: é um disco de death metal clássico na linha de “Left Hand Path” ou “Like An Ever Flowing Stream” – as guitarras poderiam ter saído de um desses registos, tal é o purismo que a banda louva, mesmo que os solos de “Cold Steel Salvation” os metam em segundo plano sem dificuldade. Produção perfeita para o género e algumas amêndoas como sintetizadores discretos que enriquecem algumas faixas. Uma pena que continuem à sombra. Indicado para amantes de bom death metal sueco.

m "Our Raw Heart", os Yob carimbam-nos o passaporte para uma realidade alternativa de contornos épicos, fruto da vivência assustadora pela qual o vocalista e guitarrista Mike Scheidt passou, que poderia ter resultado na sua morte [ler entrevista na página 30]. O doom dos Yob pode ser caracterizado como intenso, com rasgos de death a auferir-lhe algum peso adicional e com passagens tão doces quanto melódicas. Em temas como “Ablaze” ou “Beauty In Falling Leaves”, a voz de Scheidt assombra-nos e gela-nos os ossos de tão arrepiante que é, com esta última a ver os Yob explorar uma abordagem mais limpa que deixa todo o caos para trás. "Our Raw Heart" ficará para os anais da História como um álbum verdadeiramente honesto e demasiado belo para este mundo.

diogo ferreira 8/10

Tiago Neves 7/10

João Correia 8/10

Joel Costa 9/10

VANHELGA: “Uma demonstração de atitude, maturação e profissionalismo.” 42 - ULTRAJE #16


Ultraje 16 (Junho/Julho 2018)  

Edição #16 da Ultraje em formato digital.

Ultraje 16 (Junho/Julho 2018)  

Edição #16 da Ultraje em formato digital.

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