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podeser


cleydemir santos

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1. o que falta em nosso relacionamento?

O sábio e a melancia Um homem caminhava em uma estrada quando deparou com um grupo de moradores de um vilarejo. Eles vinham aterrorizados em sua direção. Ele parou e perguntou o que estava acontecendo. Todos choravam e, cheios de medo, afirmavam que havia um monstro terrível nos campos de suas propriedades, apontando para ele. Quando o homem olhou na direção indicada tudo o que viu foi uma grande melancia. Voltando-se para os moradores, indignado, chamou-os de ignorantes, afirmando que aquilo não era um monstro, e sim, uma fruta. Os moradores insistiram que era um monstro. O homem, nervoso, acusou-os de estarem mentindo. Eles o mataram acusando-o de ser louco. Pouco tempo depois outro viajante, um homem mais sábio, veio na mesma direção. Como no primeiro caso, perguntou sobre o problema. Também viu uma melancia.


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No entanto, sua reação foi diferente: com a mão trêmula, tirou a faca da cintura e, com um movimento rápido, correu até o campo, avançou sobre a melancia e cortou-a em vários pedaços. Os moradores pularam de alegria ao ver seu inimigo destruído. Aclamaram o viajante como líder do vilarejo, posição que manteve até que lhe foi possível mostrar àquelas pessoas a diferença entre um monstro e uma melancia. — Autor desconhecido “Vamos nos separar, não dá para viver assim”

Estávamos indo para um encontro de casais quando ouvimos esta afirmação. Ela é muito comum para nós que trabalhamos com casais, que, por vezes, chegam até nós “depois do caldo entornado”. Chegamos tarde a um casal amigo de nosso pastor, por exemplo. Eles já haviam conversado e o marido resolveu sair de casa depois de 13 anos de convivência, dos quais sete foram muito bons, segundo ele. O que aconteceu nos seis anos seguintes? Foi a crise dos sete anos ou o número 13, que “dá azar”? Nem dava para acreditar que era o mesmo casal que tempos antes esperava ansiosamente pelo “enfim sós”. Quase nos sentimos culpados por não termos conseguido atender àquela solicitação antes de se separarem; depois veio a tristeza pelo fenômeno separação estar se tornando “normal”. Não se pode considerar normal o que acontece todo dia só porque acontece todo dia. Comum, sim; normal, não. Entretanto, a declaração “vamos nos separar, não dá para viver assim” chocou-nos naquele percurso, por se tratar de um senhor de 75 anos. Ele ia para o mesmo lugar que nós e estava sozinho. Perguntamos pela esposa com o carinho de quem pergunta por uma anciã de 70 anos e ouvimos quase com naturalidade:


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— Vamos nos separar, não dá para viver assim. — Assim como? — Perguntamos. Ele não sabia descrever o que havia de ruim no casamento. Porém tinha uma certeza: — Já passou tanto tempo... Não dá para mudar muita coisa. Não adianta esperar mais. Refletimos sobre aquele desabafo inesperado, pois a pergunta da noite seria exatamente esta: o que falta em nosso casamento? Concluímos que o casamento daqueles anciãos estava baseado em uma mentira: “não dá mais tempo, não adianta mais”. Algumas coisas continuavam faltando e percebemos que aquela conversa doeria muito no ouvinte. Porém, ele gostava de nos ouvir e, por isso, foi para o encontro de casais sem a esposa. Não sabemos se voltará outras vezes. Há um elemento que não falta no início de todo relacionamento: química! Muitas pessoas insistem que não pode faltar química e estão certas. Entretanto, é importante lembrar que só química não faz nenhum casal passar no vestibular do relacionamento. É preciso haver também matemática, para que haja soma de forças e multiplicação de investimento. Quando ela é usada de maneira equivocada, o resultado vem errado. Por exemplo, às vezes somamos as conversas dos amigos do nosso cônjuge e reagimos como se ele pensasse da mesma maneira. Ele nem ouviu a conversa que tanto nos assustou, mas aquilo fez ferver tanto ciúme em nós que o atacamos sem explicar a angústia que sentimos. Misturamos o conteúdo de nossa insegurança com a falta de respeito de algumas piadas que não deveriam ser contadas e projetamos tudo no nosso cônjuge. As frases “homem é tudo igual” ou “mulher é assim mesmo” são o resultado de somas erradas; sinais que, ao longo da vida, foram usados em fórmulas catastróficas.

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É imprescindível trabalhar a comunicação, pois precisamos falar a mesma língua e falar bem. O fenômeno iniciado na torre de Babel, das línguas dispersas, afeta toda a família ainda hoje. Os cônjuges falam línguas distintas. Pesquisas afirmam que com menos de 30 anos um casal não se compreende plenamente. A maioria de nós vive em casa como um imigrante brasileiro nos Estados Unidos. Depois de um tempo não morremos de fome, nos locomovemos, temos amigos, mas muito desta comunicação se dá por tentativa e erro. Ainda perdemos os prazos legais e muitas oportunidades de “bons empregos” por falar mal a língua que nos alimenta; sobrevivemos, competimos, “ganhamos dinheiro” mais por repetição do que por desenvolver a comunicação. Sem geografia, a família fica também sem espaço definido. Os limites entre um casal precisam ser claros. Quem reivindica liberdade total precisa entender que ela não existe em nenhum relacionamento duradouro, quer seja afetivo ou profissional. Toda boa relação implica limites que a definam e sustentem. Por outro lado, a privacidade de cada ser humano é solo sagrado que o casamento não pode erodir. Poucos cônjuges conseguem olhar para o seu par e respeitá-lo em sua individualidade. Ser uma só carne não mina a individualidade do outro sem aleijá-lo. No vestibular das relações interpessoais, a história de cada um, se esquecida, influencia mais do que quando conhecida e respeitada no preparo para uma nova etapa da vida. É preciso ler as fases da vida de nosso cônjuge no livro dele. Não adianta saber o “ciclo vital da família” só na teoria. Na prática, na vida do outro, como ele se dá? Qual a interpretação deste fato na cultura dele? Tenho amigos casados com cônjuges de outros países. A maioria deles perde nota em história. Olham para o cônjuge pelas lentes da própria dinâmica familiar e não leem a


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legenda do outro, na qual o papel do pai, do tio e do padrinho se confundem muito. Outras vezes esperam uma valorização de algo que nem existe na outra cultura e a frustração vira o pão de cada dia. Além de história, é preciso uma especialização em língua estrangeira! O que faltava para o casal junto há 13 anos e para o outro com 50 anos de relacionamento, que os levou ao mesmo caminho, pode estar faltando também em seu casamento. Algumas questões importantes estão em crise no mercado do relacionamento familiar por vários motivos comuns a muitos casais, levando-os ao mesmo destino: à separação e a tudo o que vem junto com ela. Pode ser que o primeiro casal, com 13 anos de casamento, tenha a coragem de assumir o que sente e se separe — sofrendo todo o ônus que só sabe quem está no processo — a maioria, se pudesse, voltaria atrás. O casal com 50 anos de vida em comum, talvez, continue esperando que o velho parceiro morra, já que ambos os cônjuges estão perto da viuvez. Arrependimento, liderança, fé, intimidade, fidelidade, alegria e diálogo são palavras fáceis de falar, mas difíceis de praticar. Entre outros elementos essenciais, discutimos com os casais naquela noite o valor dessas palavras e de seu significado na relação. Falta arrependimento nas relações

Ofendemos mais do que gostaríamos, mais do que entendemos. Magoamos sem a menor intenção de fazê-lo e ficamos confusos quando vemos o outro “beiçudo”, arredio, nos culpando de algo que nem sabemos o que é. Quando alguém nos propõe tomar a iniciativa da reconciliação, ficamos bravos. — Mas eu não fiz nada!

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Explicamos detalhes do processo, nos defendemos de quem mais amamos e odiamos quem mais desejamos: nosso cônjuge. Afinal de contas, vamos nos arrepender de quê? Arrepender é mais do que pedir perdão. Trata-se de um processo que no relacionamento conjugal passa por três etapas: observar, refletir e discutir. Observamos nosso cônjuge: quem é ele, o que aprecia, do que gosta de falar, ou por que não gosta de falar, o que prefere fazer. A partir das informações que adquirimos pela observação, passamos a refletir sobre o nosso sentimento diante do que descobrimos. O que ele gosta que nos anima, revolta, estimula, faz sorrir, faz sonhar e, sobretudo, o que gosta que nos traz grande frustração. É justamente nesse ponto que nos magoamos, pois pouco do que o outro é nos agrada e isto é perceptível logo nos primeiros anos de casamento. Discutir a questão é importante e gera em nós a atitude de observar com mais empatia, refletir com menos egoísmo e agir com mais respeito. Isto é arrependimento em relação ao relacionamento — é sinal de maturidade. Engana-se quem acha que esse princípio só se aplica a grandes questões ou dramas familiares. O dia a dia está repleto de situações em que o arrependimento tem espaço. Gestos simples, como a maneira de comer, de usar os talheres, de fazer um carinho na hora do ato sexual comprovam isso. Falta fé em nosso relacionamento

A fé não é apenas uma palavra de duas letras, mas uma palavra que atrai outras: planejamento, responsabilidade, ação. Muitas pessoas se casam sem nenhum planejamento, simplesmente para fugir de um lugar ruim, da solidão, da escravidão,


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da pressão sexual, assim como o povo de Israel fugiu do Egito. Tais motivos levam muitos ao casamento, mas poucas vezes a um relacionamento agradável. Quem conhece a história da saída dos israelitas do Egito na narrativa bíblica sabe que sair de um lugar ruim não garante chegar a um lugar bom, a uma terra prometida; aliás, entre um e outro há um espaço chamado deserto. Entre a solidão e um bom relacionamento há um hiato em que existe uma responsabilidade indelegável chamada escolha; entre a escravidão e a liberdade existe um abismo chamado maturidade, que não deixa que a liberdade escravize a pessoa; entre o desejo sexual e a satisfação de um relacionamento existe a necessidade de duas pessoas se conhecerem e se aceitarem plenamente. Muitas casas de pais são como o Egito: um lugar de muita fartura onde os filhos não têm o direito de participar; um lugar em que o respeito e a ética não são desenvolvidos; um lugar repleto de lembranças de abuso e medo, discriminação e competição. Queremos, assim, fugir dele e acreditamos que um relacionamento a dois nos dará razão para viver. Uma moça, por exemplo, acredita que o casamento pode ser sua libertação. Quando estamos em uma “situação de Egito” — solidão, escravidão, pressão sexual —, fantasiamos e trocamos as promessas de Deus por uma projeção nossa. Porém, quando chegamos ao deserto, que é justamente o caminho para a terra prometida, nos frustramos. Achávamos que saltaríamos direto para um lugar que “mana leite e mel”. É impossível evitar o deserto. Ele nos prepara para o lugar a que aspiramos: a terra prometida. Quando saímos do Egito nos deparamos com o deserto, lugar de confrontação, de milagres, de conhecer a nós mesmos, nossos semelhantes e principalmente a Deus.

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A passagem pelo deserto pode causar sofrimento, mas desviar-se dele pode significar nos perdermos pelo caminho. Seguir pela rota de fuga é uma atitude comum aos covardes e aos transgressores. Fugir do deserto é fugir de si mesmo, e isto é covardia. Evitar o deserto é fugir do outro, e isto é transgressão, pois nós fizemos promessas. Fugir do deserto é morrer de sede, por mais paradoxal que isso pareça. A água que sacia a sede dos casais é encontrada no deserto. Buscá-la juntos garantirá a saciedade mútua e multiplicada. Servirá como marca para outros viajantes que virão depois. Só nós podemos levar nosso casamento a uma terra prometida. Sabemos que poucos dos que saíram do Egito chegaram até ela, embora todos tivessem promessa e esperança. Assim também poucos casamentos chegam. Sinceramente espero que estejamos entre estes. Falta fé nos relacionamentos: planejamento, responsabilidade e ação. Uma ação planejada e perseverante em relação ao nosso alvo, além de maturidade para as etapas que temos a percorrer. Uma família feliz é uma questão de fé; é preciso crer, desejar e trabalhar em busca deste resultado, investir no relacionamento. A fé que sustenta relacionamentos não é abstrata nem aguarda simplesmente uma melhora futura; ela é dinâmica, responsável, viva e cuidadosa. Michael Aboub afirma que “a fé não é ato de emoção ou sentimento e sim de extrema razão”.1 Falta liderança em nosso relacionamento

Liderança é a habilidade de influenciar pessoas para trabalhar entusiasticamente visando atingir os objetivos identificados como bem comum.


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Se liderança é uma habilidade, ela precisa ser desenvolvida. Isso demanda investimento e tempo, já que aprender a lidar com a contrapartida, que é a submissão, é indispensável. Por falta de habilidade com a liderança, cônjuges e filhos têm dificuldade com a submissão. Submissão não é condicionamento mental ou emocional; não é obediência cega nem escravidão. Fazemos parte de uma cultura machista em meio a uma tentativa feminista e mal preparada de liderança tanto secular quanto familiar. Por isso nossos filhos são uma geração rebelde, com dificuldade de submeter-se à liderança de professores, à rotina estudantil ou profissional. Isso é algo fora de moda em nossa geração, pois desde cedo somos quase treinados a nos opor a todo tipo de autoridade, principalmente a paterna, ao mesmo tempo em que somos estimulados a gerenciar. Espera-se que sejamos administradores de grandes negócios sem nos ensinarem a liderar a nós mesmos e as pessoas ao nosso redor. Entramos para o casamento como se ele fosse um negócio, e os maridos querem gerenciar suas esposas e filhos do modo que aprenderam. Isso não funciona — liderança e gerência são funções distintas. Hunter trabalha de forma instigante estes conceitos e afirma que “gerenciamos coisas e situações; pessoas, nós lideramos”, e para isso temos que nos relacionar. Gerenciar é muito mais fácil, por isso as empresas hoje querem ótimos líderes e não apenas bons gerentes. Temos medo de liderar e nos expor. Marcos Borges (Coty), em seu livro Cura e Edificação do Líder, traz um capítulo especial sobre submissão e interdependência. Princípios que se aplicam à liderança eclesiástica são os mesmos que Deus aplica à família. Pais e mães devem correr o risco de liderar os filhos e não gerenciá-los; relacionar-se com eles e saber o que sentem é um desafio.

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Certo dia, um rapaz com a falsa ideia de que seria um bom marido, falou-me sobre o princípio em que baseava sua interpretação pouco inteligente: “Sabe-se como será o marido pelo filho que ele é. Então vou ser bom marido, afinal, minha mãe tem tudo comigo: cartão de crédito debitado na minha conta corrente; tudo o que ela sonha eu compro etc.”. A falta de liderança implica falta de submissão. A submissão pode ser traduzida como respeito pelo outro, pelo limite da habilidade que o outro já adquiriu. Um dos maiores problemas que surgem com a falta de liderança cuidadosa tem a ver com dívidas e mau gerenciamento financeiro. Muitas vezes, por não saber dizer não diversas famílias entram em colapso. Não existe liderança se só dizemos sim ao outro. Liderança de fato diz sim, mas também diz não. Liderança que dá segurança traça limites e gera cumplicidade mesmo que não seja fácil em algumas etapas da vida. Na direção contrária, quem nunca diz sim, pela mania de dizer não, por avareza ou limitação, corre o risco de fazer o outro encontrar uma estratégia de viver sem sua participação. Sim e não fazem parte de uma liderança consistente. Poder versus autoridade

Quando a habilidade de liderar é comprometida opta-se pelo uso do poder, que, segundo Max Weber, é “a faculdade de forçar ou coagir alguém a fazer sua vontade, por causa de sua posição ou força, mesmo que a pessoa preferisse não o fazer”. Funciona, mas não é o que caracteriza uma boa liderança em relacionamentos. Autoridade é a faculdade de levar as pessoas a fazer de boa vontade o que você quer por causa de sua influência pessoal, habilidade desenvolvida com o tempo, amor e respeito que você


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tem pelo outro. Serviço e sacrifício, amor e vontade têm a ver com liderança. Neste aspecto, o amor é claramente caracterizado como um comportamento e não um sentimento. Amar a quem escolhi e não escolher para amar leva a uma matemática interessante, em que a boa vontade é muito pouco; porque, intenção – ação = nada; intenção + ação = vontade.2 No contexto da liderança, ter vontade já é um bom começo. Infelizmente esse começo tem faltado nos relacionamentos. Falta diálogo em nosso relacionamento

Platão acreditava que a linguagem é um pharmakon, palavra grega que significa ao mesmo tempo veneno, cosmético e remédio. Pode ser veneno se nos deixarmos seduzir pelo “canto das sereias” sem indagarmos sobre a falsidade ou a veracidade do que nos seduziu; verdade sem amor, falada em função de si mesmo e não do relacionamento. Pode ser cosmético se mascararmos, dissimularmos ou ocultarmos a verdade sob as palavras; amor sem verdade, falsidade, insegurança que leva à mentira ou omissão. Pode ser remédio, se por meio do diálogo desvelarmos nossa própria ignorância e aprendermos com os demais; verdade com amor. Muitas respostas psicossomáticas são formas de expressão de um relacionamento sem diálogo. Se uma pessoa não pode falar ou não é ouvida, a energia da relação aparece de outra maneira e pode matar. Lembremo-nos da história do início deste capítulo. Qual a diferença entre um e outro caminhante?

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O primeiro chega à cidade e desrespeita a crença dos nativos. Não desenvolveu o diálogo, não compreendeu, não respeitou; atacou as pessoas sem alterar o problema (a não ser aumentando-o). Não gosto de falar mal deste moço porque ele amou muito. Poderia ter ido embora assim que percebeu o quanto seria difícil relacionar-se com aquelas pessoas, mas ele insistiu. Poderia ter mandado todo mundo às favas e seguir adiante, como fazem muitos cônjuges, mas amou até o fim; só não foi sábio, não falou a língua do outro, não teve paciência. Não basta apenas ficar. O segundo olhou para o objeto sob a ótica dos nativos: escutou, valorizou, colocou-se no lugar do outro; passaria por bobo se alguém de fora estivesse observando-o sem atenção; esperou a informação se concretizar. Esperar o tempo que o outro precisa para elaborar uma questão é uma característica do diálogo maduro. Não sei se aquele sujeito amou profundamente, mas foi muito assertivo. Foi focado na intenção de se relacionar e dialogar com aquela aldeia, como um dia também fizemos em relação à família de nosso cônjuge. Ele não os amava antes, mas saiu em busca de uma oportunidade de amar; não escolheu porque amava, amou porque escolheu. A convicção de que devemos amar os que escolhemos e com os quais fizemos aliança e também os que geramos é fundamental para o diálogo, pois ouvir e respeitar são uma forma de amar. Falta intimidade em nosso relacionamento

O deserto é lugar de conhecer a si mesmo, e inevitavelmente o relacionamento nos leva para lá, onde encontramos o outro também se autoconhecendo. Um velho ditado diz que para se conhecer alguém é preciso comer com ele uma bacia de sal. O


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deserto no relacionamento é este tempo; é o lugar de conhecer a Deus primeiramente. Entretanto, quem não se conhece tem pouca condição de gostar de si mesmo. Do mesmo modo, não pode conhecer o outro, nem entregar-se a ele, pois não se tem intimidade com estranhos. Não pode se entregar ao outro porque não gosta de si e nós só nos entregamos com intimidade ao que gostamos e a quem conhecemos. Esquivamo-nos da intimidade de uma maneira que considero covarde. Na fuga, vagamos no deserto mais tempo do que precisávamos. Quando fugimos da intimidade, erramos por omissão e, sem perceber, optamos por sentir culpa em vez de frustração pela tentativa que falhou. Quando erramos tentando acertar, temos frustração dobrada: erramos e perdemos tempo. Não alcançamos o objetivo e ainda fazemos inimigos. Isso erroneamente justifica nossa omissão e retorno ao deserto. Muitas vezes agimos como o primeiro homem da história da melancia. Ele se empenhou ao máximo para mudar a cabeça daquelas pessoas, até perder o controle. Insistiu, gritou, agrediu, mas não foi compreendido e desrespeitou. Nada conseguiremos se não partirmos do pressuposto de que estamos lidando com pessoas, que têm o direito de cometer erros, de falhar e de sofrer. Quando entendemos isso, começamos a sair do deserto no relacionamento e caminhamos para a intimidade. Os pais precisam respeitar as escolhas dos filhos, sejam eles crianças ou adultos. Porém, a intimidade dá trabalho e preferimos nos distanciar. Usando novamente a história da melancia, percebemos que o segundo sábio não amava os moradores do vilarejo antes. Não havia intimidade entre eles. Entretanto, ao escolher amar, teve que esperar o tempo da intimidade.

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Falta intimidade em nossos relacionamentos e ela será alcançada se aguardarmos o tempo de que nosso cônjuge precisa, se diminuirmos nosso ritmo em função dele, se descermos do nosso galope e oferecermos o lombo do nosso cavalo para ele descansar — o bom samaritano, na parábola contada por Jesus, é citado como exemplo de alguém que amou verdadeiramente. Isso depende de o outro confiar em nós, mas depende também de darmos todo o tempo e oportunidade a ele. Há espaço para a intimidade entre nós. Falta fidelidade em nosso relacionamento

A fidelidade é um desafio para um coração contaminado pelo pecado, e todo homem e toda mulher estão nesta situação. Mesmo que um casal nunca tenha permitido a entrada de outra pessoa no relacionamento deles, a fidelidade não está garantida. Portanto, é necessário atentar para o que chamamos de fidelidade. Muitos cônjuges se acham fiéis um ao outro pelo fato de o padeiro, o carteiro ou o leiteiro não terem tido oportunidade de entrar na casa da senhora quando estava sozinha; nem a secretária, a vizinha ou a colega de faculdade terem estado na cama com o senhor. Fidelidade é mais que isso. Muitos não tiveram relação sexual com outro parceiro senão seu cônjuge por medo de ser pego, de doença, de não conseguir mentir; outros, pelo motivo certo: inteligência. Não se afasta a opção do adultério apenas com fidelidade. Trata-se de uma questão de inteligência. Envolver-se em dois relacionamentos e achar que um ato sexual, por mais fortuito que seja, simplesmente passará em branco como se nada tivesse acontecido é estupidez. Para exemplificar, quero citar o casal Abraão, o pai da fé, e Sara. Todos conhecem a história. Por uma questão que pareceu


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justificável na época, uma terceira pessoa, empregada da família, entrou na relação, Depois Abraão se arrependeu. No entanto, com ela teve um filho a quem chamou Ismael. Se pudéssemos estar com Abraão meia hora, ele nos diria três coisas: 1. “Seja inteligente, nunca arranje um Ismael na sua vida.” 2. “Seja fiel ao seu cônjuge. Não falo apenas de não dormir com a empregada, mas de não deixar o cônjuge com a sensação de que ele não é importante para você. Isto soa como infidelidade, e é infidelidade. Fui pouco inteligente quando dormi com a empregada, mesmo que amparado pela lei e com a aprovação de minha esposa”— diria ele. “Entretanto, fui infiel também quando não a honrei em duas situações e ainda a usei para me proteger. Escondi-me atrás dela, de sua beleza, e a expus a riscos que nenhum ser humano merece viver. Tratei-a como objeto, ao dizer com meus atos que não estava disposto a morrer por ela. A aliança entre nós foi quebrada muito antes de eu dormir com outra pessoa. Por isso foi tão fácil para ela me sugerir ter um filho com a empregada.” 3. “Seja inteligente, nunca arranje um Ismael na sua vida” — ele repetiria para não esquecermos. Vale a pena observar esta história sob esta ótica. A fidelidade entre Abraão e Sara não foi quebrada quando Hagar, a empregada, foi trazida como opção para eles terem um filho; o problema aconteceu antes, quando Abraão deixou a esposa à mercê da sorte, sob os olhares dos egípcios e dos filisteus. Deus interveio em favor deles e Sara foi salva graças a um sonho de Faraó, que perturbou todo o reino. Entretanto, esta intervenção não era para ser assim. Ela foi fruto da infidelidade de Abraão.

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Deus interviria de maneira especial se Abraão tivesse agido com fidelidade, se propondo a morrer para não ver a esposa maculada. Guardadas as devidas proporções, temos visto homens e mulheres agindo de modo semelhante: baixando a guarda e deixando de renovar a fidelidade. Depois disto, atos de pouca inteligência, como dormir com outra pessoa, são simples consequência. Falta fidelidade em nossos relacionamentos; uma fidelidade que se traduza em comprometimento, uma ação pelo outro e não para o próprio umbigo (ou pouco abaixo dele!). Filhos de casais que são fiéis nestes termos têm mais maturidade e confiança em si mesmos. Filhos de casais infiéis, mesmo sem adultério explícito, vivem inseguros, pois seus pais não foram suficientemente estultos para colocarem uma terceira pessoa na relação, mas também não foram inteligentes o bastante para serem felizes juntos. Chega uma época em que o pai deixa de ser herói aos olhos dos filhos e eles o reconhecem como um ser humanos passível de erros. As mães também deixam de ser princesas encantadas, como nas histórias infantis. O fato de deixarmos de ser heróis não nos transforma em vilões, a menos que vivamos mais em função de sustentar uma reputação que não é coerente com nosso caráter. Isto é infidelidade. Quando os filhos perdem o encanto das fantasias da infância sobre os pais e os percebem vivendo o que falam, com um caráter confiável, eles os tiram do papel de heróis para vê-los como pessoas que amam, com suas limitações e dificuldades. Se não há coerência entre o que falam e o que vivem — o que é infidelidade — a maturidade dos filhos não chega e os pais passam de heróis a vilões. Há espaço e motivo para a fidelidade em nossa relação.


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Falta alegria em nosso casamento

Ora, tendo Isaque permanecido ali por muito tempo, Abimeleque, rei dos filisteus, olhando pela janela, viu que Isaque brincava com Rebeca, sua mulher. Gênesis 26.8 Falta brincar mais. Falta um pouco de bom humor inclusive no ato sexual. Isaque e Rebeca tinham os mesmos problemas que temos, os riscos internos e externos, mas brincavam. Eles se tocavam, se estimulavam, se curtiam. Era um casal de anos e anos de deserto, frustração, cobrança, mas brincavam. Não houve assédio sexual e intervenção de Abimeleque naquele casamento porque eles brincavam, se acariciavam. Devemos cultivar um pouco mais de bom humor (e boa vontade) no contato físico, que é uma necessidade do ser humano, inclusive dos mais turrões e fechados. Alguém me disse que queria dar ao filho tudo o que não teve. Mostrei a ele que a estratégia estava errada, pois estaria repetindo os erros de seu pai. Bens materiais não suprem a necessidade de um filho, porque não fazem muita diferença. Aliás, costumam estragar as crianças quando em excesso. O que lhe faltou foi um pai que protegesse, amasse e desse à sua mãe um lugar seguro, de tal maneira que muito cedo ele teve que ficar no lugar do pai, cuidando da mãe e ajudando a pagar as contas. Não teve o direito de ser criança e agora como pai, na expectativa de dar tudo ao filho, não está oferecendo o principal. Não proporciona alegria e confiança à esposa e certamente desconta no filho o que o pai lhe negou. As mulheres têm agido da mesma maneira. Os filhos têm o direito de crescer com um pai e uma mãe que se amam e expressam alegria nesta relação. Assim, eles deduzem

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que, como fruto desta relação, são importantes e desenvolvem um perfil em que a alegria é mais comum que a depressão e a amargura. Isto é autoestima. Ah, se entendêssemos que um pouco mais de alegria entre nós, além de nos trazer mais saúde, resolveria problemas de três ou quatro gerações futuras! Só não houve assédio sexual e intervenção de terceiros entre Isaque e Rebeca porque eles brincavam e se acariciavam. Na realidade, no casamento não falta nada. Deus o idealizou perfeito. A falta existe em nós. Não participamos, não conversamos, não arriscamos, não nos entregamos. Ficamos paralisados em velhos paradigmas. Não nos arrependemos, não perdemos uma oportunidade de vingança, somos pirracentos e agressivos e nutrimos autocomiseração. Tudo isso nos faz ficar plantados no deserto quarenta anos. E nossos filhos, que nem escolheram isso, passam a duvidar que exista um lugar onde mane leite e mel. É tempo de abrir espaço para a alegria. Ela vem quando buscamos o que nos falta. Cabe muita alegria em nossa vida. Encontre-a mesmo que custe muito. Exercitando a mudança

Se eu sei que da parte de Deus nada falta no nosso relacionamento, então preciso assumir: Nosso casamento tem jeito! Nosso casamento pode melhorar muito. Vou participar. Vou exigir menos e me relacionar mais com você. Vou pedir ao Espírito Santo Para trazer a dose certa para nosso diálogo. Vou arriscar a me entregar a você, desenvolver fidelidade, Quebrar os paradigmas e complexos da minha vida. Quero viver com alegria.


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Arrependo-me de toda tendência depressiva, agressiva, de toda tendência de me afastar de você. Perdoe-me por insistir em ficar tanto tempo no deserto. Vamos atravessar? *** Tomem posse do que falta no relacionamento de vocês. Arrependam-se por não crerem mais. Arrependam-se por não terem liderado, se relacionado e por terem exigido tanto. Arrependam-se de diálogos fora da medida de cura, das conversas envenenadas, ou apenas de estética, aparência, mas de pouca confiança. Arrependam-se de não conhecerem a vocês mesmos e nunca terem se entregado para valer um ao outro. Arrependam-se por não terem paciência de conhecer um ao outro. Arrependam-se por não terem sido um canal de alegria no lar. Arrependam-se por terem deixado Satanás roubar a alegria de vocês. Para orar

Quero lembrá-los de uma frase sobre um homem que mudou a história de sua família e de sua geração: “Neemias não fazia nada sem orar, mas não orava sem fazer nada”. Convido vocês a fazerem as duas coisas: orar e agir. Quem sabe vocês possam orar juntos: “Senhor, já estamos há tanto tempo no deserto. Arrependemo-nos da dureza do nosso coração. Permita-nos entrar e conquistar juntos a terra que o Senhor declarou para nós no casamento. Que nossos filhos usufruam de nossa certeza e de nossa dependência do Senhor. Em nome de Jesus, amém.”

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