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RICARDO BARBOSA DE SOUSA


A ESPIRITUALIDADE, O EVANGELHO E A IGREJA Categoria: Espiritualidade / Igreja / Vida cristã

Copyright © 2013, Ricardo Barbosa de Sousa Primeira edição: Abril de 2013 Coordenação editorial: Bernadete Ribeiro Revisão: Equipe de revisão Ultimato Diagramação: Bruno Menezes Capa: Ana Cláudia Nunes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Sousa, Ricardo Barbosa de A espiritualidade, o Evangelho e a Igreja / Ricardo Barbosa de Sousa. — Viçosa, MG : Editora Ultimato, 2013. ISBN 978-85-7779-091-3 1. Cristianismo 2. Espiritualidade 3. Palavra de Deus I. Título. 13-04497 Índices para catálogo sistemático: 1. Espiritualidade : Cristianismo

CDD-248.4 248.4

Publicado no Brasil com autorização e com todos os direitos reservados Editora Ultimato Ltda Caixa Postal 43 36570-000 Viçosa, MG Telefone: 31 3611-8500 Fax: 31 3891-1557 www.ultimato.com.br

A marca FSC é a garantia de que a madeira utilizada na fabricação do papel deste livro provém de florestas que foram gerenciadas de maneira ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável, além de outras fontes de origem controlada.


Sumário

Prefácio

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Introdução

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• 1 • A ESPIRITUALIDADE A cruz de Cristo e a espiritualidade cristã

13 .

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Espiritualidade, ética e moral

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A espiritualidade da vergonha

21

O espírito democrático e a espiritualidade cristã

24

Falácias da espiritualidade cristã

27

A espiritualidade cristã e a cultura narcisista

30

Intimidade e libertação

33

Os lugares celestiais e a espiritualidade cristã

36

Escravos modernos e o peso das escolhas

39

Hábitos que transformam

42

“Para mim o viver é…”

45

Não basta dizer, é preciso fazer

48

Crer é também viver

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• 2 • O EVANGELHO

55

O Rivotril e a oração

57

O pecado, a terapia e o Prozac

60

Perguntas que equilibram as emoções

63

Autoconfiança versus coração contrito

66

Tornar-se criança

69

Cristo e o anticristo: semelhanças sutis, diferenças vitais

72

A resposta cristã ao “mistério da iniquidade”

75

Adoração e missão

78

Participando do mundo de Deus por meio da oração

81

Soli Deo Gloria: o que é isso?

84

Olhando firmemente para Jesus

87

Quão verdadeiros somos?

90

O custo do não-discipulado

93

• 3 • A IGREJA A simplicidade do evangelho e a sofisticação da Igreja

97 99

Do exílio à libertação

102

A arte da comunhão

105

Tudo em comum

108

Tradicional, conservador e ortodoxo

111

Parece ser, mas não é

114

Simplicidade e permanência

117

O que vem depois da graça?

120

Suficiente graça

123

Honestamente falando

126

A oração e o retrato do caráter

129

“O pão nosso de cada dia…”

132


Prefácio

Tinha sido um logo inverno. Pela manhã enquanto eu olhava, através da janela, as árvores congeladas de meu jardim, vi um bloco de neve cair e surgir um pequeno galho com uma cor verde que brilhava no reflexo do sol. Fiquei completamente surpreso ao ver aquele broto de vida surgir debaixo de tanto gelo. Não acreditava que aquela árvore pudesse sobreviver a uma circunstância tão adversa. Observar aquele broto de vida crescer, tornar-se cada vez mais belo na intensidade de sua cor, robusto em sua estrutura e capaz e acolher os pássaros que nele encontraram abrigo na primavera, se tornou para mim uma disciplina diária, um complemento de meu tempo devocional e uma metáfora para a vida espiritual. Nas diversas estações da vida, vamos experimentando novas circunstâncias que nos oferecem desafios, crises e oportunidades. Às vezes há aspectos familiares, pois algo daquilo já vimos ou lemos na história, mas o contexto sempre traz algo de singular, elementos novos ou com uma formatação distinta das anteriores. Isso nos obriga ao exercício humilde


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A espiritualidade, o evangelho e a igreja

da reflexão, de buscar discernir este novo momento, de rever conceitos estabelecidos, de renovar expectativas. Ao longo da história do povo de Deus, não é incomum perceber como o amor deste povo a Deus passou por períodos de “envelhecimento”, como foi necessário ouvir mais de uma vez a expressão “assim diz o Senhor”. Por meio de seus profetas, a mensagem do Senhor sacudia o seu povo, inclusive os profetas, provocando uma mudança de rumo, um jeito diferente de viver, em que o coração do povo de Deus pudesse estar em sintonia com aspectos do coração de Deus revelados ao povo. Esta nova realidade se expressaria pela forma de vida santa deste povo, que adora ao Deus cujo caráter é santo. Em A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja, Ricardo Barbosa nos convida a revisitar nossa jornada como povo de Deus, a identificar sinais de “envelhecimento de nosso amor” ao Senhor. Sugere olharmos de forma honesta para nossa espiritualidade, confrontá-la com o evangelho para que nossa vida como Igreja expresse, de forma constante, simples e suficiente, a graça que nos torna livres e nos faz ser uma comunidade libertadora. Pode ser que muitos ainda estejam como eu estava naquele pesado inverno, olhando pela janela o meu jardim já sem esperança de que houvesse vida possível debaixo de tanto gelo. Mas veio o dia em que a neve se foi e a vida brotou com um novo vigor. Esta vida que surgiu se fortaleceu, acolheu, multiplicou e trouxe muita alegria para quem ali encontrou sombra, para quem pode ouvir o canto dos pássaros, para os que brincaram ao redor celebrando a alegria de viver. Minha oração é que a leitura deste livro seja um recurso usado por Deus para renovar sua esperança. Que ela lhe permita ver nossas comunidades de fé como lugares de celebração da vida, de perdão, missão e festa. Ziel J. O. Machado


• Introdução •

Encontrar o caminho de volta para Deus é a grande aventura humana

Sabemos que existem três dimensões de relacionamento que constituem e fundamentam nossa existência – Deus, o próximo e nós mesmos. Jesus resumiu os mandamentos em um só: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e [...] amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12.30-31). Este grande mandamento integra esta realidade tridimensional da existência humana. Encontrar o caminho de volta para Deus, para mim mesmo e para o meu próximo é a grande aventura humana e a experiência de redenção. Integrar estas dimensões de relacionamento nos conduz à liberdade e à unidade da pessoa. Quero sugerir três princípios que podem nos ajudar a integrar estas dimensões, tantas vezes fragmentadas.


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A espiritualidade, o evangelho e a igreja

O primeiro princípio é o da revelação. A fé cristã nasce da revelação de Deus a nós. Não se trata de uma autodescoberta. Ao se revelar em Cristo, encontramos Deus nascendo, vivendo, morrendo e ressuscitando por nós. A graça nos é revelada e nos é dada. A fé é um presente de Deus para nós, não uma conquista nossa. O conhecimento de Deus, do próximo e de nós mesmos não tem seu princípio em nós, mas em Deus. Diante da beleza inefável e amorosa de Deus em sua identificação conosco por meio de Cristo, somos atraídos por seu amor e nos curvamos diante de seu poder e glória. Somos convertidos a ele. O nosso egoísmo é definitivamente vencido, a nossa rejeição e o nosso medo do outro são superados pela graça divina, que nos liberta e transforma. Por meio da revelação de Deus a nós, sua graça nos acolhe e infunde em nós o mesmo amor com que o Filho unigênito é eternamente amado pelo Pai. O segundo princípio é o do afeto. Deus se revela a nós como um grande e poderoso Deus. Temê-lo é uma atitude natural e necessária. Mas ele também se revela como um Deus cheio de misericórdia, amor e compaixão. Amá-lo e nos abrir para ele é também uma resposta natural e necessária. Esta tensão entre o temor e o amor cria em nós o que chamamos de reverência – distância e proximidade, respeito e intimidade. Porém, se o temor se transforma em medo, nos afastamos e nos escondemos. Mas quando o temor nos atrai a uma devoção reverente e amorosa, nos abrimos para Deus, para o próximo e para nós mesmos. Surge um novo afeto, um desejo que nos atrai para Deus, nos aproxima do outro e nos leva a olhar com compaixão para nós. Nasce a comunhão cristã. O terceiro princípio é o da disciplina espiritual. A prática das disciplinas espirituais é o processo por meio do qual


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introducao i

readquirimos a autoridade sobre nós mesmos a partir do fortalecimento das convicções (revelação), do bom uso da razão e da resistência às paixões e seduções que há no mundo. O domínio próprio é uma das virtudes que mais desafiam o cristão moderno. Perdemos a integridade porque nosso corpo, nossas emoções, razão, vontade e sexualidade funcionam sem harmonia alguma. O pecado desestrutura e desorganiza a vida humana. Já as disciplinas espirituais da meditação bíblica e da oração, da quietude e do silêncio, da confissão e da adoração pública, do exercício zeloso dos deveres cristãos e do trabalho para o bem comum reordenam nossa vida interior, integrando as dimensões fundamentais do grande mandamento. A unidade interior – Deus, o próximo e nós, uma vez integrados pela graça por meio da revelação, dos afetos redimidos e das disciplinas espirituais – nos conduz a uma nova liberdade, fruto da harmonia e da paz que nos torna íntegros. Alcançar esta liberdade é a vocação e o chamado de todo cristão: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou [...]” (Gl 5.1). A meditação nas Escrituras, que nos revela Deus na pessoa de seu Filho encarnado, a vida de oração, que nos abre para Deus e para nós mesmos, e a comunhão fraterna com o povo de Deus, que, gradualmente, quebra o gelo que o medo criou em nós, nos levam a viver, integralmente, o grande mandamento do amor.

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• PARTE 1 •

A ESPIRITUALIDADE


A cruz de Cristo e a espiritualidade cristã

Nos últimos anos, tenho refletido sobre a espiritualidade cristã. Minha preocupação está voltada para a apatia espiritual, a falta de integridade e coerência entre nossas convicções e a vida, a distância entre a teologia e a oração, e o chamado de Cristo para amar a Deus com a mente e o coração. Embora este tema tenha tomado outros rumos e provocado outros interesses, nem sempre fundamentados na Bíblia ou na longa tradição cristã, ele segue sendo um grande desafio para os cristãos do século 21. Para manter o foco numa espiritualidade cristã e bíblica, é preciso reconhecer a centralidade da cruz. A cruz de Cristo foi única no sentido de que representou uma escolha, um caminho que Jesus decidiu trilhar: o caminho da obediência ao


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A espiritualidade, o evangelho e a igreja

Pai. A espiritualidade cristã requer obediência. Sabemos que no tempo de Jesus existiram muitas outras cruzes e muitos que foram crucificados nelas; alguns culpados, outros martirizados. No entanto, nenhuma delas pode ser comparada com a cruz de nosso Senhor em virtude daquilo que ela representou. Podemos considerar que a cruz de Cristo começa a ser carregada no episódio da tentação. Ali, o diabo propõe um caminho para Jesus ser o Messias. Um caminho que representou uma forma tentadora de ser o Messias. Transformar pedras em pães, saltar do alto do templo e ser amparado por anjos, e receber a autoridade política e financeira sobre os reinos e as nações. Se Jesus aceitasse a oferta do diabo, rapidamente teria uma multidão de admiradores, de gente faminta encontrando pão nas ruas e estradas, encantada com seu poder sobre os anjos e os seres celestiais e com seu governo mundial estabelecendo as novas regras políticas e econômicas. Seria o caminho mais rápido para implantar seu reino entre os homens. Porém, o caminho de Deus não era este. O reino que ele oferece precisa nascer primeiro dentro de cada um. As mudanças não acontecem de cima para baixo nem de fora para dentro. É um reino que vem como uma pequena semente e leva tempo para crescer. Não é imposto, é aceito. Não se estabelece pela força do poder, mas pelo coração e mente transformados. O rei deste reino não permanece assentado no seu trono, mas desce e se torna um servo. A cruz de Jesus não significou apenas o sofrimento final do seu ministério público. Ela representou uma escolha que o acompanhou por toda a sua vida e que culminou em seu sofrimento e morte. Quando Jesus nos chama para segui-lo, ele afirma que, se não tomarmos nossa cruz, não será possível ser


A espiritualidade

seu discípulo. A razão para isto é clara. Se o caminho dele é o caminho do servo obediente, o nosso não pode ser diferente. Por isto, precisamos tomar nossa cruz, e ela deve representar também nossa escolha, que é a mesma que ele fez – uma escolha pela renúncia e pela obediência ao Pai. O apóstolo Paulo entende o chamado de Jesus para tomar a cruz e segui-lo quando afirma: “Eu estou crucificado para o mundo e o mundo está crucificado para mim”. O caminho do mundo ensina: “Ame seus amigos e seja indiferente com os outros”. O caminho de Jesus diz: “Ame os inimigos e ore por eles”. No caminho do mundo ser o maior e o melhor é o mais importante. No caminho de Jesus o melhor é ser o menor e o servo de todos. Podemos achar que o caminho de Cristo é muito difícil, que amar os inimigos, orar pelos caluniadores, ser manso num mundo competitivo, humilde numa sociedade ambiciosa, não é só difícil – é impossível. Concordo, por isto o chamado é para tomar a cruz. A cruz significa renúncia, sofrimento e morte. As opções estão diante de nós diariamente. Todos os dias somos levados ao monte da tentação. Todos os dias o diabo nos oferece suas ofertas e seu caminho, e Deus, pela sua Palavra, nos revela seu caminho. Todos os dias temos de fazer nossas escolhas. Tomar nossa cruz é aceitar o caminho de Cristo, e neste caminho experimentamos uma espiritualidade verdadeira.

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Espiritualidade, ética e moral

De uns tempos para cá, temos sido atropelados por uma infinidade de temas sérios que atingem e comprometem toda a sociedade, e que se agravam a cada dia apesar das tentativas de contê-los. Corrupção, violência, imoralidade, miséria e pobreza, prostituição infantil e abusos sexuais, drogas e alcoolismo, são alguns destes temas. Sempre que surge um novo escândalo em qualquer uma dessas áreas, educadores protestam contra a falta de investimento na educação, psicólogos analisam o comportamento das pessoas, sociólogos estudam o efeito das mudanças na civilização, políticos nomeiam comissões e jornalistas noticiam, cada um buscando alternativas para uma realidade que cresce e perturba os mais acomodados. A civilização ocidental foi moldada pela tradição cristã, que tem nos mandamentos divinos sua base ética e moral. Durante


A espiritualidade

séculos, o temor a Deus e a consciência de dever para com seus mandamentos moldaram o caráter não só dos cristãos, mas de toda a sociedade. Porém, vivemos hoje uma rejeição a qualquer norma ou princípio que venha de fora. Toda a possibilidade de se estabelecer fronteiras, limites, bem como a ideia de “autoridade”, perturbam as mentes mais pacíficas. Cada um – e não Deus – elabora suas próprias normas e define a forma como irá viver. A rejeição moderna aos mandamentos de Deus tem suas raízes no secularismo materialista e narcisista. A intensificação do individualismo, a busca pela autorrealização, tem levado muitos, inclusive cristãos, a criarem um mundo exclusivo onde o sentir-se bem é o valor supremo, e, neste mundo, os mandamentos e o temor a Deus têm de desaparecer. Em nome da liberdade vamos nos tornando mais tolerantes, uma vez que os interesses pessoais se sobrepõem aos mandamentos divinos. A tendência moderna de rejeição aos mandamentos seria percebida de forma insuficiente se não considerássemos o conflito que se encontra por trás dela: a negação de Deus e a assumida autonomia humana. É assim que o salmista descreve esta realidade: “Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os laços e sacudamos de nós as suas algemas” (Sl 2.2-3). Este é o horizonte maior sobre o qual nossos olhos devem se concentrar. Se olharmos a Palavra de Deus com este tema em mente, ficaremos surpresos ao perceber sua relevância e importância tanto para a espiritualidade pessoal como para a moral e ética de uma sociedade. Os mandamentos revelam o amor e cuidado de Deus por suas criaturas; eles foram dados depois que Deus os libertou da escravidão – “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei

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A espiritualidade, o evangelho e a igreja


A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja