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Raimundo Angelim Vasconcelos Prefeito de Rio Branco

Francisco Eduardo Saraiva De Farias Vice-Prefeito

Marcos Vinícius Neves Diretor-Presidente da Fundação Municipal de Cultura Garibaldi Brasil


Sumário Prólogo Apresentação

2008 Das Nascentes... Grau Fundador: Manoel José da Silva Grau Comandante: Padre André Ficarelli Grau Chanceler: Jorge Viana

2009 Da Poesia... Do Espírito... Grau Fundador: Miriam Assis Felício Grau Comandante: Nilda Dantas Pires Grau Chanceler: Dom Moacyr Grechi

2010 Do Encontro... Grau Fundador: Raimundo Gomes de Oliveira Grau Comandante: Jorge Araken Faria da Silva Grau Chanceler: Francisco Augusto Vieira Nunes Conselho Consultivo Prêmios


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Prólogo

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ssa Comenda foi instituída por meio da Lei Nº. 1706, aprovada pela Câmara de Vereadores, em 16 de junho de 2008, com o objetivo de perpetuar as memórias de nossa trajetória como povo amazônico, valorizar nosso patrimônio sóciocultural e homenagear aqueles que se distinguiram por suas contribuições para o engrandecimento do município, nos mais diversos campos de atividades. O nome da Comenda é uma referência ao primeiro nome dado à cidade de Rio Branco, no período de sua transição de seringal à povoado e é constituída de três graus com distintos Patronos. A cada ano, essa comenda será concedida a uma pessoa, em cada um destes graus. O grau Fundador, cujo patrono é Neutel Newton Maia, destina-se a reconhecer os que se destacaram por sua significativa contribuição nos campos social, cultural, econômico, humanitário, desportivo, ou outros de notável importância para a cidade, bairro ou comunidade. O grau Comandante, com o patrono o Coronel José Plácido de Castro, destinase a homenagear os que contribuíram, através de atos extraordinários com a comunidade, promovendo a consolidação estadual ou regional da cidade. O grau Chanceler tem como patrono José Maria da Silva Paranhos Junior Barão do Rio Branco. Trata-se da mais alta distinção da Ordem, que se destina a homenagear aqueles que tenham reconhecidamente prestado relevantes serviços ao município, ou que, no exercício da sua atividade, tenham destacado o nome do município de Rio Branco nos cenários nacional ou internacional. Nesta revista trazemos os três primeiros anos de outorga da Comenda Volta da Empreza para que nossos homenageados sejam reconhecidos por sua importante contribuição ao desenvolvimento de Rio Branco como uma cidade mais fraterna e humana para todos os nossos cidadãos.

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Apresentação

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enhoras e senhores, Hoje é uma noite muito especial pra mim. Nos últimos seis anos tenho cumprido a missão, que me foi confiada pelo povo de Rio Branco, de administrar essa cidade tão complexa quanto repleta de encantos e potencialidades. Uma missão, por tantas vezes pesada e custosa. Mas outras tantas prazerosa e recompensadora. Afinal estamos falando da capital do Acre. Não só a maior cidade do estado, mas também a mais antiga e populosa e, portanto, com a maior quantidade de demandas e problemas acumulados nesses últimos 126 anos. Como todos vocês, que aqui vivem, bem sabem. Temos assistido, na última década, junto com a reconstrução do Estado do Acre, a uma significativa retomada de nossos símbolos e nossas tradições. O hino acreano, segundo as palavras do nosso Presidente Luis Inácio Lula da Silva, que é um grande e antigo amigo do Acre, é um hino de nação. Através dele cantamos nossa trajetória como povo amazônico e nos enchemos de um profundo sentimento de amor a essa terra. Nossa bandeira, “que foi tinta no sangue de heróis” conta a história de luta de nossos antepassados e a verdadeira saga empreendida na conquista dessa região internacionalmente cobiçada. É esse exemplo de amor e dedicação a nossa querida terra natal, expresso através de nossos símbolos cívicos, que perseguimos ao instituir essa Comenda. Algo que Rio Branco estava a muito precisando e merecendo. Afinal acumulamos no município um atraso de pelo menos seis anos em relação à reconstrução do Estado. E as novas gerações de cidadãos rio branquenses têm direito a uma cidade digna, honrada, bonita e feliz. O hino de nossa cidade ainda é um ilustre desconhecido da maioria da sociedade rio-branquense. Nossa bandeira, apesar de estar sendo hasteada todos os dias em frente a todas as repartições publicas, ainda não é carregada com o mesmo orgulho com que homens e mulheres exibem a bandeira acreana em seus automóveis, camisas e casas. Ao criar essa Comenda que carrega o primeiro nome de nossa cidade, Volta da Empreza, e estabelecer como patronos três dos principais personagens históricos responsáveis pela origem e pela construção de Rio Branco buscamos, portanto, fortalecer nossos símbolos, engrandecer nossa cidadania e encher de orgulho o coração dos filhos dessa cidade. Mas não só.

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Ao outorgar essa comenda às três personalidades agraciadas a cada ano, não estamos apenas premiando-os. Pelo contrário, estamos colocando sobre suas histórias de vida a enorme responsabilidade de servir como exemplos a serem seguidos por toda nossa população. Assim, cada homem e cada mulher dessa cidade poderão encontrar nos agraciados com a Comenda Ordem do Mérito Volta da Empreza, modelos, paradigmas de amor e de dedicação a essa terra e ao seu povo. Suas extraordinárias trajetórias, deixam claro nosso objetivo maior. Meus amigos e amigas. Sei que nossos desafios são imensos e temos plena consciência da quantidade de problemas que nossa cidade ainda apresenta. Mas, como preconiza o hino acreano, temos determinação para enfrentá-los “Sem recuar, sem cair, sem temer”. Além disso, temos uma população que é muito receptiva às ações do poder público, ordeira, bem-humorada e apaixonada por sua cidade. Por isso, acredito firmemente que temos hoje todas as condições de nos tornarmos a capital da Amazônia Ocidental e junto com outras grandes cidades dos nossos vizinhos Andinos, estabelecermos relações comerciais, políticas e culturais que nos abrirão as portas do mundo.

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Das Nascentes...

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a terminando o ano de 1882. O vapor Apihy subia o rio com esforço para suas maquinas e seus homens. Não havia paradeiro certo. O grupo de pioneiros estava entrando em território ainda indomado. Região de índios que há milênios percorriam praias e barrancos na difícil lida de sobreviver em meio à selva imensa. Tudo era novidade então, apesar da paisagem parecer sempre a mesma. Matas que se debruçavam sobre as margens do rio como que querendo invadir até mesmo o canal caudaloso de águas barrentas. Um combate colossal onde o rio reagia todos os anos, no tempo das águas abundantes do inverno amazônico, e cheio invadia as matas de suas margens, alargando seus domínios, destruindo barrancos e removendo enormes porções de terra que um dia seriam lançadas ao Oceano, muitas milhas dali distante. Os lideres da expedição tentavam vencer a monotonia das voltas do rio, para permanecer atentos e identificar sinais favoráveis à exploração. Procuravam, principalmente, sinais das arvores mais cobiçadas da Amazônia: as seringueiras que generosamente ofertavam seu leite branco para enriquecer a multidão de nordestinos que começava a perseguir um futuro melhor e mais farto. Identificar terras ricas em seringueiras era, portanto, o principal objetivo de todos ali embarcados. Havia apenas três dias que o vapor Apihy tinha ancorado nas margens daquele rio desconhecido para passar o dia de natal. Nesse mesmo local uma parte do grupo, chefiada pelos irmãos Leite, decidiu se estabelecer e abrir um Serin-

gal chamado Apihy, em referencia ao vapor que os havia trazido até ali, mas que depois se tornou conhecido como Bagaço. A bem da verdade, quase todas as terras cortadas pelo rio Acre eram muito ricas em seringueiras. Fazia tão pouca diferença estar aqui ou ali, que os sinais para a escolha de um lugar para se estabelecer podiam ser completamente lógicos ou mesmo bastante subjetivos. Como saber, então, o que atraiu a atenção de Neutel Maia e seus companheiros para aquela volta pronunciada do rio, apenas seis horas acima do Bagaço? Talvez tenha sido a presença de um bom porto para atracar os vapores. Talvez tenha sido o estirão que revelava terras baixas em sua margem direita e terras altas à sua esquerda numa excelente composição para o desenvolvimento de diferentes atividades econômicas. Ou talvez tenha sido mesmo a presença de uma grossa e ereta arvore bem a cavaleiro da curva do rio, perfeita para amarrar com segurança os cabos das embarcações e inexplicavelmente bela. Como saber?

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Pois foi ali, no dia 28 de dezembro de 1882, exatamente aos pés da imponente Gameleira que Neutel Maia resolveu fundar sua Empreza. Enquanto isso, o restante dos pioneiros embarcados no vapor Apihy e comandados por Raimundo Girão seguiu subindo o rio até a confluência do rio Xapuri onde acabaram por se estabelecer. Acompanhado de familiares - como Silvestre, seu irmão, Juvêncio, Anísio, Teófilo, Henrique - e outros companheiros, como o português

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Guilhermino Bastos, Neutel Maia construiu a sede do Seringal Volta da Empreza dando início a sua aventura. Uma Volta de rio que sob a proteção da cobra grande deu origem a um seringal, que deu origem a um povoado, que virou uma Villa, que deu origem a uma cidade, que se tornou a capital de todos os acreanos e hoje caminha para se tornar uma das principais metrópoles amazônicas.


Manoel José da Silva

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ilho dos nordestinos Sr. Henrique José de Carvalho (baiano) e D. Maria Mercedes Raulino (Cearense). Ele nasceu em Rio Branco, no dia 12/11/1938 e se orgulha de ter recebido como herança de seus pais a bravura e a coragem características dos sertanejos. Além de ser de uma família constituída por 12 irmãos, é casado há 46 anos com a Dona Aldenora, com quem tem 9 filhos, 23 netos e 2 bisnetos. Assim como o pai, aprendeu cedo o corte da seringa e até hoje sempre que lhe sobra um tempo, ainda extrai látex e cuida de sua lavoura. Mas, atualmente, a atividade que mais lhe ocupa é a de Presidente da COOPERACRE. Sua trajetória foi marcada pela dedicação às causas dos seringueiros. Uma luta que para ele teve início nos anos 80 quando se tornou monitor de trabalhos litúrgicos da Igreja Católica e liderança sindical, para pôr fim às explorações dos marreteiros e dos patrões. Logo se destacou por sua personalidade forte. Por isso, logo foi intitulado delegado, depois diretor, vice-presidente e conselheiro dentro dos sindicatos de que participou.

Em 1982, Manoel da Gameleira e mais alguns seringueiros da região de Capixaba fundaram a Associação Santa Fé que mais tarde tornou-se COPASFE e resultou na COOPERACRE, que é hoje a mais importante cooperativa de Rio Branco na área de produção sustentável. O uso inteligente da floresta e o espírito coletivo dos associados da COOPERACRE vem transformando, nos últimos dez anos, o cooperativismo acreano. Nosso homenageado carrega em seu nome a marca da colocação Gameleira em que trabalhou durante 35 anos.

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Padre André Ficarelli

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le nasceu em 12 de outubro de 1922 na cidade de Regemiliana, norte da Itália. Onde residiu com sua família até os treze anos de idade quando entrou para o Seminário dos Servos de Maria onde se formou. Foi ordenado padre em 26 de março de 1948, e desde então iniciou seu trabalho pastoral. Na cidade onde nasceu São Peregrino de Lácciore, ele teve sua primeira experiência como padre e pôde amadurecer sua vocação. E foi ali também que conheceu missionários que vinham para o Brasil e o convidaram para vir para o Acre. Depois de 15 dias viajando a bordo de um navio aportou no Rio de Janeiro, em 27 de dezembro de 1949 e, pouco depois, em janeiro de 1950, chegava ao Acre por via aérea. Nessa época, estava começando os trabalhos de construção da Catedral de Rio Branco que tinham sido programados por ocasião da Sagração do bispo Dom Julio Matiolli. Ao tomar conhecimento que ele tinha noções de arquitetura, Dom Júlio Matiolli lhe pediu que executasse as obras do novo templo. Mas ele sempre foi um homem a frente do sua época. Assim, ao ver a planta da Catedral que estava sendo executada, e pensando no que viria a ser a cidade de Rio Branco, propôs uma outra planta com o dobro do tamanho, re-

produzindo o estilo arquitetônico Romano Basilical, o que foi aceito pelo Bispo. Homem dedicado seguia de perto as obras da nova Cátedra, acompanhava os operários e também as doações e arrecadações para o prosseguimento da obra. Com isso, a primeira etapa de construção da Catedral ficou pronta em meados de 1958. E nosso homenageado desta noite foi um dos sacerdotes que participaram da benção inaugural da Catedral Nossa Senhora de Nazaré, além de ter sido agraciado com a responsabilidade de celebrar a primeira missa do novo templo. Ajudou também nas construções do Colégio Nossa Senhora das Dores (atual Meta), do qual foi o primeiro diretor; do Colégio São José, da Igreja Imaculada Conceição, da Igreja de Xapuri, de Brasiléia e de várias outras construções no mesmo período. Hoje, depois de 58 anos dedicados ao Acre, nosso homenageado revela que apesar de sua missão primordial ser a de sacerdote, é também a de um cidadão que sonhava e ainda sonha muito com um Acre próspero e bom para se viver. 15


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Jorge Viana

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ascido em Rio Branco, em 20 de setembro de 1959, nosso terceiro homenageado desta noite é engenheiro florestal, formado pela Universidade de Brasília, e iniciou sua atividade profissional na Fundação de Tecnologia do Estado do Acre – FUNTAC, que ajudou a criar, atuando como seu primeiro Diretor de Estudos e Pesquisas. Em 1990 foi candidato ao Governo do Acre, na primeira vez que o Partido dos Trabalhadores disputou o 2º turno. Pouco tempo depois, em 1992, foi eleito prefeito de Rio Branco pelo PT. Por suas ações inovadoras à frente do Município, teve sua administração premiada pela Fundação Ford e pela Fundação Getúlio Vargas, concluindo o mandato com uma das melhores avaliações de prefeitos das capitais brasileiras, somando 75% de ótimo e bom pela avaliação IBOPE. Em 1998 foi eleito, no 1º turno, governador do Acre, pelo PT, com a proposta de viabilizar um novo modelo de desenvolvimento regional, pautado pela valorização das populações tradicionais e baseado na utilização racional e sustentável da Floresta. Uma administração que transformou o Acre e ficou conhecida como o Governo da Floresta. Em 2002 foi reeleito governador do Acre com o maior percentual de votos do Brasil. E neste segundo mandato, entre os anos de 2003 e 2006, seu

Governo ficou em 1º lugar, entre os 27 Estados da Federação, na avaliação dos governadores brasileiros realizada pelo Instituto Ibope em 2006, somando 80% de ótimo e bom na avaliação IBOPE. Graças à sua atuação à frente do governo acreano recebeu a medalha da Ordem dos Palmares e da Inconfidência Mineira. Recebeu também as mais elevadas distinções das Forças Armadas do Brasil: do Exército - a Ordem do Mérito Militar, da Marinha - a Ordem do Mérito Naval e da Aeronáutica - a Ordem do Mérito Aeronáutico. Foi distinguido ainda pela Justiça acreana com a Medalha do Mérito do Judiciário, e também pelo Ministério Público e pela Assembléia Legislativa com suas mais elevadas condecorações. Em 2007, recebeu o prêmio Chico Mendes de Florestania concedido pelo Governo do Acre. Recebeu o prêmio de Líder para o Novo Milênio, concedido pela Revista Times e TV CNN. E foi também agraciado com as mais altas condecorações da Bolívia e do Peru. É membro da Ordem do Rio Branco, no Itamaraty, com o Grau de Grã-Cruz, dentre outras homenagens e condecorações que merecem igual distinção.

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Da poesia... Cidade estranha é Rio Branco. Metade do ano chove, Na outra metade quase não...

Cidade bela é Rio Branco Atravessada por um outro rio Que não é o mesmo que lhe deu o nome. Um rio que não é Branco, mas Acre E é nome de todo esse lugar...

Cidade improvável é Rio Branco, já que cidade e rio às vezes se confundem e viram uma coisa só, tornando campos em lagos, ruas em portos, e terras altas em ilhas, Sem deixar de ser cidade, e sem conseguir esquecer que também é o mesmo rio que não lhe dá o nome...

Rio Branco de todas as cores... Rio Acre de todos os gostos... Cidade de todos d’aqui... Desse antigo Aquiry!

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Do Espírito...

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...! É preciso admitir, Rio Branco tem mesmo umas coisas muito estranhas e diferentes...! Vocês não acham? Não estão entendendo? Eu explico... Afinal como entender que uma cidade que tem três homens tão fortes em sua origem, tenha como protetora um espírito feminino tão terno? Não estão entendendo ainda..., né??? Tá bom. Eu explico melhor... Neutel Maia, cearense legítimo, Plácido de Castro, gaúcho dos pampas, Barão do Rio Branco, nobre por herança. Três homens completamente diferentes, unidos pelo destino de uma cidade. Um fundou, o outro conquistou e o último legitimou... Mas, como a vida costuma dar mais voltas que o próprio rio Acre, é bom que se diga, que isso tudo de fato aconteceu, mas não sem problemas... A vida de Neutel Maia, por exemplo, daria um ótimo romance de aventuras. Talvez ainda melhor que o do Galvez. Vejam só... Ele veio para o Acre quando não existia nada por aqui ainda além da floresta e de tribos indígenas muito valentes. Aqui trabalhou, aqui ganhou e perdeu fortunas, aqui foi feliz e fez muitos inimigos, aqui fundou seringal, porto, comércio, cidade. Tinha sina de pioneiro Neutel Maia, e o foi... Era mesmo uma figura esse Neutel! Muitas de suas histórias, daquelas que se conta por aí, eu nem poderia contar aqui..., numa solenidade... Vai ter que ficar pra outra oportunidade... Já Plácido de Castro dispensa maiores apresentações... Todo mundo aqui já ouviu por demais as histórias do grande comandante da Revolução Acreana. Mas é importante lembrar que foi aqui na Volta da Empreza que Plácido enfrentou seu primeiro combate de verdade, já que em Xapuri não havia sido preciso dar nem um tiro. Pois não é que, ali, bem ali perto da velha Gameleira, pegar-

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am Plácido numa emboscada, logo no seu primeiro combate à frente das tropas acreanas e ele perdeu!!! Rapaz! Quase que a vaca vai pro brejo ali mesmo. Espalharam até o boato de que Plácido tinha morrido. Mas o bravo gaúcho não se deu por vencido e menos de vinte dias depois voltava a atacar os bolivianos agora a frente de centenas de homens organizados e motivados para a vitória. Mas como cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, Plácido teve o cuidado de começar o segundo combate da Volta da Empreza no dia 05 de outubro, dia consagrado à... São Plácido. Pois, não deu outra, com dez dias de luta, Plácido vencia e tomava definitivamente a Volta da Empreza, como venceria todos os outros combates daí para frente, conquistando o Acre para o Brasil, definitivamente. Quanto ao famoso Barão do Rio Branco... Esse, na verdade, nunca esteve aqui... Não conheceu pessoalmente o lugar que se tornou sua primeira grande missão à frente da diplomacia brasileira. Porque vocês não fazem idéia do trabalho que o Acre deu pro Barão. Noites inteiras sem dormir em cima de tratados, mapas, leis e enfadonhos relatórios de comissões demarcatórias de limites. Noites inteiras, intermináveis, até achar solução pra ru-


morosa “Questão do Acre”. Quanta trabalheira, quanta dor de cabeça... Teve então que mandar Assis Brasil subornar os capitalistas ingleses e norte-americanos do Bolivian Sindycate. Teve que prometer construir uma ferrovia onde parecia impossível e onde os ingleses já haviam fracassado poucos anos antes. Teve que entregar algumas poucas e ralas terras da fronteira do Mato Grosso pra sofrida Bolívia, enfrentando a opinião pública brasileira que o condenava por isso... ainda que estivesse anexando assim uma área cem vezes maior no Acre... O Barão teve até que sumir com o famoso Mapa da Linha Verde, pra evitar que os bolivianos conseguissem provar o que todo mundo tava cansado de saber... que o Acre era de fato deles... Pois é! Isso tudo o Barão teve que fazer... Mas valeu a pena... Mesmo sem nunca ter pisado aqui... O Acre fez a fama do Barão... E de quebra... ainda deu seu nome àquela que seria, pra sempre, a principal cidade daquele território que ele ajudou a tornar brasileiro, pra sempre... E vocês haverão de perguntar. Mas e o espírito feminino que você falou no início...??? E eu explico... Acontece que ali mesmo, onde dizem que mora a cobra grande; onde o rio Acre faz a curva que deu nome à Volta da Empreza; onde, ainda resiste à voragem do tempo, nossa velha e secular Gameleira... emergiu a fé dessa cidade. Porque, vocês sabem...! Foi mesmo ali, no final do estirão, bem onde o rio faz a volta, que o povpo de Rio Branco se reuniu e, em adjunto, construiu uma capela pra Nossa Senhora da Conceição, protetora da pequena Villa Rio Branco... Bem que tentaram, depois, tira-la de lá... e trouxeram pra cá. Mas o povo a veio buscar... De-

pois fizeram procissões em barcos e ela passou a ser proclamada como Padroeira de todos os acreanos e, por isso, passou a ser chamada de Nossa Senhora do Acre. Depois surgiu num quadro de origem misteriosa, segurando um ramo de seringa e foi chamada de Nossa Senhora da Seringueira. Depois foi vista pelo espírito caboclo dessa gente singela e foi chamada de Rainha da Floresta. Depois teve erguida uma catedral à sua fé e foi chamada Nossa Senhora de Nazaré... É!!! Não tem jeito mesmo...! Do mesmo jeito que o alto Acre (Xapuri, Epitaciolandia, Brasiléia) é de São Sebastião... Não importa o que façamos... Rio Branco foi e continuará sendo eternamente desse espírito feminino que protege, ilumina e rege este pequeno pedaço da grande floresta. É como eu disse antes... Rio Branco é uma cidade singular, diferente..., e até, sob certos aspectos, estranha... Do que serão feitas mesmo as cidades, enfim? Certamente de um pedacinho do espírito de cada um de seus habitantes, pessoas simples, comuns; gente que nasceu, cresceu e morreu aqui, gente que chegou, ficou um pedacinho e se foi, gente de todos os jeitos e trejeitos. Todos compondo o imenso espírito coletivo que pressentimos nas ruas, nas praças e esquinas dessa cidade. Quando a Prefeitura criou esta Comenda, queria exatamente isso, buscar os signos que compõe nossa alma coletiva. Alma expressa pela vida de pessoas tão distintas quanto os nossos três homenageados dessa noite, cada um com seu percurso, seus dramas e suas alegrias, mas com algo em comum: todos os três tiveram e têm uma imensa participação na construção do destino da mais importante cidade acreana, a nossa querida Rio Branco.

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Miriam Assis Felício

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iriam Assis Felício, nasceu no dia 22 de dezembro de 1928, na cidade de Brasiléia – Acre. Filha de Miguel Ibrahim Assis e Rosa Assis, com 09 anos de idade, foi para Belém morar com sua avó materna. Fez sua formação na escola Gentil Bintencourt em Belém, onde concluiu o colegial, tendo se destacado como aluna exemplar. Casou com, o então comerciante, Abrahão Felício no dia 21 de outubro de 1950. Após o casamento, foi morar em Xapurí - formando sua família, com três (03) filhos - Abrahão, Sarah e José Luiz. Em Xapurí desenvolveu diversas obras sociais e religiosas, principalmente na construção da igreja de São Sebastião, Padroeiro da cidade. Mudou-se para Rio Branco em 1962, onde continuou suas atividades sociais ajudando os filhos dos portadores de

hanseníase, que eram separados dos pais e criados pelas freiras no Preventório. Tratava a todos com igual importância. Para ajudar aos menos favorecidos que precisavam de tratamento fora do estado realizava diversos eventos e angariava fundos. Por muitos anos presidiu a “Associação dos Amigos de Brasiléia”, que promovia o natal das crianças carentes daquele município. Tornou-se empresária juntamente com o seu esposo Abrahão Felício, em 1967, no ramo de massas alimentícias, com a fundação da indústria de biscoito Miragina, empresa que se tornou referência no estado como pioneira da indústria e parte das quatro empresas que formam o Grupo Miragina, que geram 130 empregos diretos. Dona Miriam foi homenageada pela Federação das Indústrias como “Industrial do Ano” em 1995. Também foi homenageada pelo Governo do Estado por sua contribuição a causa acreana e com os ideais da florestania, em 17/11/2003, durante as comemorações dos 100 anos da Revolução Acreana e 100 anos do Tratado de Petrópolis.

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Nilda Dantas Pires

ilda Dantas Pires, nasceu em 20 de maio de 1950, na cidade de Rio Branco. Filha da auxiliar de enfermagem aposentada, Raimunda Dantas Pires, e do já falecido carpinteiro e marceneiro, Emídio de Brito Pires. Teve sua formação na escola Presidente Dutra e no tradicional Colégio Acreano. Tem formação em espanhol, e é acadêmica do curso de letras da UNOPAR, mas foi através do jornalismo nas ondas do rádio e da televisão que ficou conhecida. Trabalhou com locução, apresentação e rádio repórter pelas rádios: Novo Andirá, Rádio Difusora Acreana, Rádio Rodoviária, Rádio Mercado, Rádio Capital, Rádio Alvorada. Já como repórter e apresentadora de telejornalismo trabalhou nas tvs: Acre e União. Mas Nilda nunca se limitou aos Quem, Onde e Quando do jornalismo. Sua experiência cultural vai muito além... Desde o teatro até a poesia. “Saltimbancos”, “Guerra Mais ou Menos Santa”, “Tor-

turas de um Coração” e “A Sementinha” foram algumas das peças teatrais das quais participou. Também fez parte do filme “A praça é do povo”. A música também faz parte de sua vida. Tanto como apresentadora de festivais, quanto como intérprete de músicas carnavalescas. Além de participação no Festival Acreano de Música Popular – os FAMPs - de 1981 até 1994 e nos shows “Penélopes Urbanas”, “Mariris”, “Córporis”, “Quase Nua”, “Fronteiras” e “Boca de Mulher”. Foi produtora e diretora do grupo de espetáculo e dança “Cuíra”, entre 96 e 97, também teve experiência nas artes cênicas com “A dança dos bumbas” e “Retorno da Cobra Grande”. Além de ter ficado conhecida nas ondas do rádio, a nossa querida Voz das Selvas, Nilda Dantas destaca-se também na poesia. Escreveu e publicou os livros: “Quase Nua” e “Devora-me”. Atualmente é Conselheira da área de jornalismo cultural no CONCULTURA - Conselho Estadual de Cultura e Conselheira do CMPC - Conselho Municipal de Políticas Culturais de Rio Branco na Câmara Temática de Literatura.

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Dom Moacyr Grechi

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om Moacyr Grechi nasceu em Turvo, Santa Catarina, em 19 de janeiro de 1936. Filho de Urivaldo e Eufemia Pescador. Realizou os estudos de filosofia em São Paulo e São José dos Campos/SP (1954-1958) e

Dom Moacir veio para o Acre substituir o Bispo Dom Giocondo da Prelazia do Acre e Purus, que faleceu num trágico acidente aéreo em Sena Madureira. E quis o destino que ele chegasse a Rio Branco justo no momento em que no Acre

de teologia na Pontifícia Faculdade de Teologia Marianum de Roma/Itália (1958-1961). Possui também especialização em Mariologia pela mesma Faculdade. Foi ordenado sacerdote em 29 de junho de 1961. Foi diretor do Seminário Menor e Prior da Comunidade em Turvo entre 1963 e 1970; Prior Provincial da Ordem dos Servos de Maria em São Paulo de 1970 a 1972. Foi eleito bispo de Rio Branco em 20 de julho de 1973, sendo sagrado em 21 de outubro do mesmo ano. Durante seu episcopado, que se estendeu até 1998, foi membro da Comissão Episcopal de Pastoral da CNBB (1975-1978); Presidente da CPT (durante oito anos); Presidente do Regional Norte 1 (dois períodos); Membro do Conselho Permanente da CNBB; Membro da Comissão Episcopal de Doutrina da CNBB (19952003). Em 29 de julho de 1998, foi promovido Arcebispo de Porto Velho, função na qual permanece até hoje.

começava a reação dos seringueiros e posseiros para ficar em suas terras diante do processo de pecuarização do Acre promovido pela Ditadura Militar brasileira. Logo o Dom Moacir deu apoio aos movimentos populares organizando as Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs, que “eram células de evangelização, de oração e de fraternidade, mas eram também onde se formava a consciência para a organização sindical e, um pouco mais tarde, para a formação de partidos políticos que representassem os trabalhadores. Foram as CEBs que prepararam as bases do movimento social para a construção dos sindicatos e associações, seja nas áreas rurais, seja nas áreas urbanas. Com isso, nosso querido Bispo Dom Moacir se tornou o esteio fundamental para a sustentação de todos os oprimidos e perseguidos daqueles tempos tão difíceis. Tornando-se cada vez mais considerado e amado pelo povo acreano. Afinal, é como ele mesmo costuma dizer: “O povo do Acre me ensinou a ser cristão, a ser bispo, a me comprometer com o lado justo”.

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Do Encontro...

Há 100 anos atrás, no já longínquo ano de 1908, um inusitado encontro aconteceu na Rua do Ouvidor, mais especificamente na Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro. Dois homens chegam e encontram um terceiro que já está sentado na pequena mesa. Cabe ao mais jovem dos três, fazer as apresentações.

Plácido - Boa tarde Senhor Barão. Tenho o prazer de lhe apresentar Neutel Maia, um importante comerciante lá do Acre. Neutel este é o Barão do Rio Branco, o grande negociador do Tratado de Petrópolis que fechou com chave de ouro nossa gloriosa Revolução Acreana. Neutel - Mas claro, quem é que não conhece o Barão do Rio Branco, eminente Ministro das Relações Exteriores de nossa Republica. É um grande prazer senhor Barão.

crescimento que essa cidade, a primeira do Acre, experimentou ainda durante o período em que pertencíamos formalmente à Bolívia. Entretanto, é bom chamar a atenção para o fato de que se não fosse por mim, provavelmente ao invés de se chamar Rio Branco ela se chamaria Villa Melgarejo ou Villa Pando. Afinal de contas fui eu que tomei a cidade do Cel. Rojas.

Neutel – Mais ou menos não é Plácido. Não se esqueça que antes de sua vitória no segundo Combate da Volta da Empreza, você perdeu o primeiro Barão – O prazer é todo meu. Aliás, se não me combate, quando inclusive circulou o boato que falha a memória eu já ouvi muito falar do Senhor você havia morrido. Neutel Maia. Não foi o senhor que fundou a nossa querida Villa Rio Branco? Barão – Nesse ponto vou defender o Cel. Plácido, Senhor Neutel. O primeiro combate da Volta da Neutel – Na verdade fundei o seringal Volta da Empreza foi uma emboscada, o que contou mesEmpreza, mas como eu não gostava do trabalho mo foi o segundo combate quando o exército bode exploração da seringa preferi transformar meu liviano já estava fortemente entrincheirado e as seringal em um porto comercial. E ai foi apenas forças acreanas tiveram que lutar durante dez dias questão de tempo para que outros comerciantes pra conseguir desaloja-los de Rio Branco. – Nesse se juntassem a mim e quando abri os olhos, meu moomento o Barão faz uma pausa e acena para o seringal tinha virado um povoado. - E acrescenta garçom, dizendo em seguida – Uma xícara de chá cheio de orgulho - Assim, acho que o senhor pode preto inglês e algumas torradas, por gentileza. Os mesmo dizer que fundei a Volta da Empreza, at- senhores me acompanham no chá? ualmente conhecida como Villa Rio Branco. Neutel e Plácido acenam com a cabeça concordando com a pedida do Barão. Plácido – É verdade. Neutel, além de fundador Plácido – Está vendo Neutel, até o Barão do Rio da Volta da Empreza foi o grande responsável pelo Branco um dos homens mais poderosos de nossa

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Republica reconhece meu papel à frente do exército revolucionário acreano. Aliás, ainda não tinha tido a chance de agradecer ao Senhor pelo apoio que me deu no período final da Revolução, quando aquele General Olympio da Silveira quase colocou todo meu trabalho e o seu a perder negociando diretamente com os bolivianos.

rearam e combinaram que no dia seguinte todos abandonariam as armas de fogo e atacariam o acampamento boliviano usando apenas armas brancas. E como é proverbial o temor que os bolivianos tem de nossas facas, ao tomarem conhecimento do boato que circulava nas trincheiras, decidiram se render ao amanhecer do dia seguinte.

Barão – Não precisa agradecer. Na verdade, essa é a velha síndrome de nossas forças armadas, meu caro Cel. Plácido, historicamente pensam que só eles sabem o que é melhor para nosso país, foi as-

Plácido – Que conversa Neutel! – Plácido fala rindo, tirando por menos - Você bem sabe que isso não aconteceu. Não liga não Barão é que Neutel tem ciúme porque se ele foi o fundador de Rio Branco,

sim com a proclamação da Republica e temo que venha a ser assim novamente no futuro.

eu fui o seu verdadeiro conquistador e sem mim, sua glória não faria parte de nossa história, mas sim da história da Bolívia. Ou nem isso, já que os patrícios dificilmente iriam registrar e transmitir a história de um cearense fundando a principal cidade do Acre. Provavelmente iriam contar tão somente a história do domínio boliviano e ponto final.

Neutel – Nunca se sabe senhor Barão, mas o senhor está defendendo o Cel Plácido porque não sabe o que o povo conta sobre a vitória da Volta da Empreza lá pelas ruas de Rio Branco. Barão – Do que o senhor está falando Senhor Neutel? - Fazendo expressão de surpresa. Neutel – É que o povo diz que não foi a estratégia do Cel Plácido a responsável pela vitória na Empreza, mas sim o medo boliviano das peixeiras nordestinas... - Com cara de ironia. Plácido – Besteira Neutel... Barão – Como é que é isso?? – Se mostrando vivamente interessado no assunto. Neutel – É que no penúltimo dia do combate da Volta da Empreza, que já estava se arrastando demasiadamente, os soldados de Plácido se aper-

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Barão – Senhores, por favor, não briguem. Ambos possuem imenso valor para a construção do Acre brasileiro e mais especialmente ainda para a formação dessa cidade que, não tenho nenhuma dúvida, se consolidará como a mais importante de todo o Acre e provavelmente deverá ser sua futura capital. - E rindo completa – Além do que, com todo respeito que devo ao fundador e também ao conquistador da nossa querida Villa Rio Branco, não posso deixar de lembrar aos senhores que é o meu nome que essa alvissareira cidade haverá de carregar para todo o sempre, o que é motivo de imenso orgulho para mim. Assim, não briguemos mais e vamos ao nosso chá que é excepcionalmente saboroso...


Raimundo Gomes de Oliveira

B

oa parte das recordações que carregamos quando tinha apenas dois anos de idade, e lá ao longo da vida são relativas a aconteci- viveu boa parte de sua infância.

mentos de nossas infâncias. Na verdade, o período em que nos tornamos gente grande são determinantes para a configuração do que cada um de nós será como cidadão. Por isso, é fácil compreender o carinho e o respeito que todos os riobranquenses tem por nosso primeiro homenageado dessa noite. Nem poderia ser diferente porque o trabalho que ele desenvolveu ao longo de boa parte da sua vida está diretamente relacionado à formação de várias gerações de bons acreanos. Estamos falando do Sr. Raimundo Gomes de Oliveira, que se tornou muito mais conhecido pelo nome que ganhou dos muitos alunos que passaram pelo Colégio Acreano nos últimos 40 anos: Estamos falando do Prof. Raimundo Louro. Este extraordinário homem nasceu em 24 de maio de 1924, na cidade de Capanema no Pará, filho de José Vicente de Oliveira e de Vandira Gomes de Oliveira. Mas, ainda menino, veio com a família para Sena Madureira,

Desde criança o pequeno Raimundo demonstrava gosto especial pelos estudos, revelando uma natural aptidão para a educação tendo passado pelo Grupo Escolar 7 de Setembro; pelo Colégio Acreano e pela Escola Normal Lourenço Filho, sempre como aluno exemplar. Mais tarde, em uma campanha memorável, na qual houve envolvimento de todas as classes estudantis, Raimundo Louro participou, como um de seus principais articuladores, da fundação da Casa do Estudante Acreano, quando foi eleito seu primeiro presidente, lá permanecendo entre 1951 e 1954. Uma instituição extremamente importante para o desenvolvimento da educação acreana, a resistência política e propulsor da criação do ensino universitário no Acre. Mas seu grande sacerdócio, o ensino, teve início em 1950, ainda no Governo de Guiomard Santos e se estendeu até 1999. Período no qual exerceu o magistério nas disciplinas de Português e Francês, na Escola Nor-

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mal Lourenço Filho, Escola Técnica de Comercio Acreano, Ginásio Nossa Senhora das Dores, Colégio Acreano, Instituto Divina Providência (em Xapuri, entre 1955 e 1958) e Diretor do Grupo Escolar João Ribeiro (Tarauacá, entre 1959 e1963). Apesar de seus belos olhos azuis que embalavam e destruíam os jovens corações das moças residentes em Brasiléia, Tarauacá, Rio Branco e Xapuri, ainda em 1955, durante o período em que esteve em Xapuri, conheceu e casou com a musa e dona de seu coração: Dona Edite Abreu de Oliveira. Em 1965 assumiu o cargo de Vice-diretor do Colégio Acreano e pouco tempo depois, no dia 16 de maio de 1966 passou a diretor do Colégio Acreano, função que o notabilizou como

região Norte, no qual foram formados brilhantes acreanos, que se tornaram mais tarde professores, funcionários públicos, promotores, desembargadores e governadores, enfim, várias gerações de acreanos de bem. Sua atuação à frente do Colégio Acreano foi tão marcante que o Prof. Raimundo Louro já recebeu diversas homenagens tais como: ter sido tema do enredo desenvolvido pela Escola de Samba da Cadeia Velha no desfile de 1990, ter tido sua importância reconhecida pelo Senado Federal, como Educador do Acre, dentre muitas outras homenagens e medalhas. Mas, por conta de sua extrema importância na formação de tantos acreanos, nunca será demais homenagear esse homem que dedicou toda sua vida ao Acre e à Rio Branco, motivo pelo

um dos maiores educadores acreanos de todos os tempos. Pois, graças a sua firme e carinhosa atuação, o Colégio Acreano se transformou numa das principais instituições de ensino do Acre e da

qual nossa cidade hoje manifesta ao querido Professor Raimundo Louro nossa profunda gratidão concedendo-lhe a Comenda Volta da Empreza no grau Fundador Neutel Maia.


Jorge Araken Faria da Silva

E

sta apresentação será um pouco diferente das demais. A grandiosa personalidade e a importância da obra do segundo agraciado com a Comenda Volta da Empreza desta noite, nos obriga a fazer uma apresentação multivocal, compartilhada entre nós, nosso próprio homenageado e também por um de seus muitos amigos. E para começar, nada melhor do que recorrermos ao próprio estilo de falar e de escrever de nosso homenageado. Um estilo que lhe é tão característico e que se tornou tão conhecido e admirado por todos os acreanos. “Eu nasci aos 16 dias do mês de dezembro de 1936, no que era então Distrito Federal, por ser a capital do país, mais tarde Estado da Guanabara

cional Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. E, novamente, é ele próprio quem nos conta, através de um pequeno trecho de entrevista concedida a um jornal local: “A minha história é muito simples, ela começa realmente com o Estado do Acre. Sou cidadão acreano. Eu era apenas um modesto bacharel em ciências jurídicas sociais. Fui trazido pelo Dr. Lourival Marques, um acreano, que me convidou. Nós fomos colegas de turma. E o Lourival d i s s e ao governador José Augusto que eu era daqueles estudantes que só estudava, filho de família pobre. O governador José

e que, mais recentemente, passou a ser conhecido como o Estado do Rio de Janeiro.” Já deu pra reconhecer? É claro que estamos falando de Jorge Araken Faria da Silva, ou simplesmente Dr. Araken. Filho de Anacleto Rodrigues da Silva Júnior e Anna Faria da Silva, o jovem Jorge Araken, apesar da origem humilde, sempre foi um dos melhores alunos de todos os colégios por onde passou. Logo se formou em Direito pela tradi-

Augusto de Araújo me nomeou juiz temporário em Cruzeiro do Sul e em Feijó, ainda em 1963”. Seguindo seu reto caminho, já em 1968, Dr. Araken tornou-se desembargador e, no ano seguinte, se

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tornou professor concursado da Universidade Federal do Acre. Como sintoma de sua imensa paixão pelos livros e pelas letras, possui dezenas de trabalhos publicados, além do que recebeu diversas homenagens e condecorações ao longo de sua profícua carreira. Encontrando tempo ainda para se tornar pai de Jorge Araken Faria da Silva Filho, Ricardo Jorge Faria da Silva e Tainá Pontes Faria da Silva e querido avô de duas netinhas. Mas, como o currículo de nosso homenageado só não é maior do que a importância de seu trabalho e de sua dedicação às causas acreanas, nada melhor que concluir esta apresentação

também renascia, para se tornar Acre em definitivo. Seu nome é Jorge Araken, uma inteligência sem medo do novo, um espírito justo que aceitou uma nomeação de juiz para os confins da floresta amazônica, sendo depois concursado, ainda num tempo em que juiz e padre eram as maiores autoridades das pequenas cidades e mandavam mais que o prefeito. E ele se juntou aos padres de Cruzeiros do Sul e Feijó, para ajudar as crianças sem professores, para dar educação para nossa gente, para levar a justiça onde o povo estava. Para muitos, é o mestre da faculdade de Direito, para outros o juiz social, para alguns o desembargador exemplar

com o belo texto escrito pelo Jornalista Antonio Stélio, um acreano do pé rachado, que traduziu, como poucos, o que todos nós sentimos em relação ao Dr. Araken. “Ao mestre com carinho Um homem chegou por aqui, pelas terras de Aquiry, há quase meio século. Trouxe consigo a alma ética e um cérebro privilegiado, a disposição para muito trabalho, uma vontade inconteste para vencer desafios e para superar intempéries. Ao chegar ao Acre, nasceu de novo e renasceu acreano. Ele chegou num tempo em que o Acre vivia seus primeiros anos de estado e assim como ele, o Acre

e ainda para outros um exemplo de que é possível militar na magistratura com o imprescindível tino humano. Seu escudo sempre foi a lei, sua arma a eloqüência, sua estratégia o argumento, seu deleite a cátedra, seus parceiros os códigos, seu lazer a leitura, seu descanso o trabalho, sua casa o tribunal e sua luz a justiça. Ele nunca buscou a riqueza, nunca se beneficiou dos cargos que ocupou para acumular propriedades. Sempre morou numa casa modesta, num bairro distante do centro, num bairro de classe média. Assim é Jorge Araken, simplesmente um juiz, mas um juiz que deixa um legado para a justiça acreana: sem ética e amor pela justiça não se faz justiça.” Antonio Stélio


Francisco Augusto Vieira Nunes

É

curioso como um destino de dor e sofrimento pode ser, às vezes, revelador da grandeza do ser humano. Esta parece ter sido a sina de nosso terceiro homenageado desta

de seu pai, a polícia sanitária voltou e levaram à força, por engano, seu irmão Pedro, que nunca mais foi encontrado. Depois de passar um tempo internado no

noite. Um homem que soube tornar as vicissitudes da vida em superação e vitórias. Estamos falando de Francisco Augusto Vieira Nunes, o nosso querido “Bacurau”. Nascido em Manicoré, no Estado do Amazonas, em 09 de dezembro de 1939, filho de João Monteiro Nunes e Elvira Vieira. Bacurau era o oitavo de onze irmãos. E teve uma infância saudável até os cinco anos de idade, quando apresentou os sintomas da hanseníase. Iniciou-se aí o drama que marcaria toda sua família. A mão esquerda inchada do menino Augusto denunciava a hanseníase na forma virchowiana, a mais grave, pois é contagiosa e apresenta sinais visíveis, como inchaços, bolhas e feridas. Naquele tempo, o preconceito e a ignorância da sociedade eram tremendos e causaram inúmeros problemas para Bacurau e sua família. Ainda em Manicoré, autoridades locais invadiram a casa de Bacurau atrás dele. Mas seu pai de facão na mão enfrentou a todos e não permitiu que o levassem. Algum tempo depois, aproveitando-se da ausência

Hospital Colônia de Porto Velho onde recebeu o apelido que carregaria por toda a vida, Bacurau veio, em 1957, para Rio Branco morar com o irmão e a partir de 1960 se internou voluntariamente na Colônia Souza Araújo. Começava ai a trajetória de lutas e trabalhos sociais que revelaram a extraordinária capacidade deste homem tão especial. Foi prefeito, durante cinco anos, da Colônia Souza Araújo. Neste período se formou pelo Projeto Minerva e logo se tornou professor contratado pela Secretaria Estadual de Educação. Entregou-se intensamente, então, aos trabalhos de evangelização e de conscientização social propostos pela Teologia da Libertação. Em 1980, Bacurau escreve uma Carta-programa para a criação do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, o Morhan, cuja fundação se dá no dia 06 de julho de 1981. E depois de criar 39


um núcleo do Morhan em Rio Branco, em 1982, passa a viajar por todo o Brasil para divulgar o movimento. Seu trabalho tem tal impacto que, já em 1983, é convidado a ser membro permanente do Conselho nacional de Saúde. Ainda no início da década de 80, filiou-se ao recém criado Partido dos Trabalhadores. Foi candidato a deputado constituinte pelo partido em 1986, e a vereador de Rio Branco em 1988. Entre 1992 e 1996, trabalhou como coordenador da dermatologia da Secretaria Municipal de Saúde, durante a gestão de Jorge Viana na Prefeitura de Rio Branco. Mas José Augusto Nunes Vieira, Bacurau, era também compositor e escritor, tendo várias músicas cantadas em celebrações e missas. Uma de suas músicas: “Lapinha na Mata”, virou um cântico muito conhecido na Igreja Católica. No auge dos conflitos entre fazendeiros e seringueiros no Acre, em1988, mesmo ano da morte de Chico Mendes, sua composição “João Seringueiro”, venceu o Festival Acreano de Musica Popular – FAMP. Em 1978, lançou o livro “À Margem da vida: num Leprosário do Acre”. Mais tarde participou da coleção “Prosadores do Mobral”, que resultou no seu segundo livro “Chico do Boi”. Para lançá-lo voltou a sua cidade natal, Manicoré, que havia sido palco dos maiores preconceitos que sofreu em toda sua vida. E nesta ocasião foi recebido com honras e comícios. Bacurau, tornava, assim,

sua própria vida o maior e a melhor exemplo de que a verdadeira e mais cruel doença não era a hanseníase em si e sim o preconceito e a violência com que, durante milhares de anos, desde tempos bíblicos, foram tratados injustamente os hansenianos. O trabalho, a força e os ideais de Bacurau foram vistos e ouvidos no Brasil e no mundo. Por isso recebeu inúmeras homenagens. Percorreu mais de 30 cidades italianas proferindo palestras; recebeu o Prêmio Nacional Raoul Follereau; foi recebido pelo Partido Comunista Italiano e pelo Papa João Paulo II; apresentou artigo crítico no Congresso Internacional de Hanseníase, ocorrido em Orlando, nos Estados Unidos, em 1993; viajou à China, a convite do governo; e viveu um dos mais importantes momentos de sua vida com a fundação da IDEA – Integration Dignity and Economic Advancement, organização que ajudou a criar. Dias antes da sua morte, em janeiro de 1997, Bacurau pediu à sua extraordinária companheira de todas as horas, D. Tereza Prudêncio, e à sua família, que colocassem um papel com a frase ”Aqui viveu um homem feliz” na sala de sua casa. Definitivamente, Bacurau foi um homem raro, um daqueles poucos seres iluminados que ousam transformar as dores mais atrozes que a carne e a consciência humana são capazes de suportar, em felicidade. Por isso não podemos nunca deixar de lembrar de sua vida e de seu exemplo.


Conselho Consultivo 2008 João Francisco Salomão Raimunda Bezerra da Silva Klein Representantes de Conselhos Municipais

Mário Jorge da Silva Fadell Representante da Secretaria Municipal de Agricultura e Floresta

Marcos Vinicius Neves Representante da Fundação Municipal de Cultura Garibaldi Brasil

José Fernandes do Rêgo Representante da Secretaria Municipal de Governo

Zelí Isabel Ambrós Representante do Gabinete do Prefeito

João Valdiro dos Santos Representante dos Servidores da Prefeitura Municipal, mais antigo, que esteja na ativa

Leoneide Coelho do Amaral Representante do Poder Legislativo do Município Mário Jorge da Silva Fadell Representante da Secretaria Municipal de Agricultura e Floresta José Fernandes do Rêgo Representante da Secretaria Municipal de Governo João Valdiro dos Santos Representante dos Servidores da Prefeitura Municipal, mais antigo, que esteja na ativa 2009 João Francisco Salomão Raimunda Bezerra da Silva Klein Representantes de Conselhos Municipais Marcos Vinicius Neves Representante da Fundação Municipal de Cultura Garibaldi Brasil Zelí Isabel Ambrós Representante do Gabinete do Prefeito Leoneide Coelho do Amaral Representante do Poder Legislativo do Município

2010 Carlos Takashi Sasai Raimunda Bezerra da Silva Klein Representantes de Conselhos Municipais Marcos Vinicius Neves Representante da Fundação Municipal de Cultura Garibaldi Brasil Zelí Isabel Ambrós Representante do Gabinete do Prefeito Leoneide Coelho do Amaral Representante do Poder Legislativo do Município Jorge Souza Rebouças Costa Representante da Secretaria Municipal de Agricultura e Floresta José Fernandes do Rêgo Representante da Secretaria Municipal de Governo João Valdiro dos Santos Representante dos Servidores da Prefeitura Municipal, mais antigo, que esteja na ativa 41


Prêmios Diploma em Madeira

Diploma confeccionado em madeiras nativas: Amanitê e Sucupira Preta.

Gameleira em Bronze

Este troféu foi produzido em bronze e

simboliza a Gameleira, Marco de Fundação de Rio Branco.

Foi confeccionado pela artista plástica

Christina Motta, autora de várias esculturas que atualmente caracterizam as cidades acreanas, como as estátuas de Luíz Galvez, Juvenal Antunes e de Chico Mendes

Cada escultura se caracteriza por ser

uma peça única, exclusiva e certificado de autenticidade que acompanha a obra.

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Ficha Técnica: Organização: Marcos Vinícius Neves Zelí Isabel Ambrós Cely Melo de Almeida Maria Leudes de Souza Diagramação: Ulisses Lima Guimarães Fotos: Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Rio Branco Acervo histórico da Fundação Garibaldi Brasil

Rio Branco - Acre - Dezembro de 2010


Revista Comenda Volta da Empreza  

Fundação Garibaldi Brasil

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