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Os olhares das crianças são constelações que atravessam a percepção consciente, desdobrando significações articuladas a traços do inconsciente, narrativas, imagens, experiências próprias da linguagem e seus vários campos. Quando as crianças do projeto Cidade das Crianças realizaram seus primeiros traçados em um desenho coletivo sobre o bairro Bom Fim, emergiram marcos significantes de sua história: o Parque da Redenção, o Monumento ao Expedicionário e o Instituto de Educação General Flores da Cunha. Um parque, um monumento e uma escola, em meio a vias que as levariam do centro da cidade até esses lugares. Elementos que fazem parte do cotidiano da infância, deslocamentos entre a educação e o brincar. O Parque da Redenção é originário dos antigos Campos da Várzea, utilizados como potreiro para gado (MENEGAT, 1998). A planta de Porto Alegre, desenhada por João Cândido Jacques, revela o Campo do Bom Fim, em 1888 (FRANCO, 2000). No início do século XIX, a região passou a ser denominada Campo da Redempção (PESAVENTO, 2001). Seu nome evoca a redenção dos escravos libertos que ocupavam esse espaço. Pesavento (1999) escreve sobre o parque, multifacetado em inúmeros acontecimentos: Os Campos da Redenção, oriundos dos antigos Campos da Várzea, transformaram-se em Parque da Redenção. Mas, apesar do velódromo, da praça de touros e de abrigar a grande exposição de 1901, a Redenção ainda mantinha trechos de interpenetração com o rural, como na área de paragens dos carreteiros (PESAVENTO, 1999, p. 58). O Monumento ao Expedicionário, marco do Parque da Redenção evocado pelas crianças, foi construído a partir de um concurso, promovido pelo jornal Correio do Povo após a segunda guerra mundial, que buscava homenagear os pracinhas que lutaram na Itália. Antonio Caringi, vencedor do concurso, projetou o monumento. Em 1997, o Parque da Redenção foi tombado como patrimônio histórico da cidade (MENEGAT, 1998). O Instituto de Educação foi construído a partir de projeto neoclássico do renomado arquiteto Fernando Corona (WEIMER, 2006). Essa tradicional escola estadual é hoje objeto de restauração. As lembranças de infância são testemunho da memória da cidade. Walter Benjamin (1993) apresenta em suas obras interessantes imagens sobre a cidade, entre essas, Infância em Berlim, em que escreve: Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução. Nesse caso, o nome das ruas deve soar para aquele que se perde como o estalar do graveto seco ao ser pisado e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro. Essa arte aprendi tardiamente; ela tornou real o sonho cujos labirintos nos mata-borrões de meus cadernos foram os primeiros vestígios (BENJAMIN, 1993, p. 73). Francisco Riopardense de Macedo (1999) escreveu muitos livros sobre Porto Alegre. Entre esses, recorto uma passagem que desvela a importância de mergulharmos na história da cidade que habitamos: “Quem não conhece a história de sua cidade, que é parte da sua própria, não é cidadão dela, é hóspede” (MACEDO, 1999, p.9). O convite para as crianças realizarem a mostra de fotografias sobre o bairro Bom Fim caminha na direção de produzir vias que configuram processos de transmissão. A partir da pergunta sobre um traço primordial do bairro, seu nome, e posteriormente nos trajetos escolhidos pelas crianças, histórias são recortadas. Histórias contadas por meio de imagens simbólicas que falam não só do bairro desconhecido ou reencontrado, mas também da infância que atravessa espelhos para olhar de forma singular algo que suporíamos já estabelecido, como um monumento.

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Bom Fim: um bairro, muitas histórias  
Bom Fim: um bairro, muitas histórias  

Catálogo da Exposição "Bom Fim: um bairro, muitas histórias".

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