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Tijolos para

a educação Com 83 novas obras, UFPR reforma e ganha 61 mil metros quadrados em novos espaços Página 16

UFPR define as novas regras do Provar pág. 7

Guerra do Paraguai completa 140 anos pág. 10

Em entrevista, Pedro Bodê analisa a violência pág. 21


Abril Editorial 2010

Opinião

Zaki Akel

Reitor da UFPR

Portal da Universidade Federal do Paraná

O movimento é nacional. A expansão de vagas no ensino superior público atingiu 63% nos últimos quatro anos. Isso foi feito com a criação de novas universidades, como a Unila, mas também com novos investimentos em instituições já existentes, como a nossa quase centenária UFPR. Esta edição mostra como em 2010 nossos diversos campi estarão crescendo. São 83 obras de reforma ou de ampliação, que deverão resultar em uma recuperação de espaços, mas também no acréscimo de 63 mil m2 à nossa área útil. Além disso, os investimentos em material permanente, como livros, mesas, cadeiras e projetores, por exemplo, são crescentes, além da assistência estudantil, cujos recursos dobraram em um ano. Tudo isso tem o objetivo maior de ampliar o acesso à educação superior pública e gratuita, o que tem sido viabilizado nos últimos anos. Também visa estimular a produção acadêmica, estratégica para o país, e prover condições para melhorar a qualidade do ensino de graduação e pós-graduação, mantendo a excelência acadêmica. Pelo papel indutor no desenvolvimento econômico, social e cultural de um país e de um estado como o Paraná, é um orgulho fazer parte e estar vivendo esta universidade neste momento tão especial da nossa história, quando estamos rumo a completar 100 anos, preservando o passado e projetando o futuro.

www.ufpr.br

UFPR em expansão

Cotas e democracia Edson Santos

Ministro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial

Em sintonia com o espírito democrático de nosso tempo, o STF convocou audiência pública para ouvir a sociedade sobre as políticas de ação afirmativa e as cotas raciais nas universidades públicas. Através do diálogo profundo e transparente, o Supremo aponta o caminho que vai seguir para julgar as ações que contestam a promoção da igualdade racial no ensino superior. O atual governo ampliou de forma generalizada o acesso à educação. E as instituições públicas de ensino superior, a partir de sua autonomia, aplicam há quase uma década as políticas de cotas raciais. Medida que aumentou o número de alunos negros nos cursos de graduação e vem democratizando o sistema público de educação brasileiro, que sempre reservou o melhor de seus recursos materiais e imateriais para o segmento hegemônico da população em termos econômicos e políticos. As cotas se inserem num contexto de reparação. Após a Abolição, os negros não receberam terras nas quais pudessem produzir e não tiveram acesso a serviços fundamentais como saúde e educação, fatores fundamentais para a conquista da cidadania. Desta forma, continuaram cativos da ignorância, sem perspectiva de ascensão econômica e social. Eis a origem do imenso abismo que segrega a população negra do restante da sociedade em termos de oportunidades. O princípio da igualdade perante a lei foi durante muito tempo considerado a garantia da liberdade. Sua importância é inquestionável. No entanto, não é suficiente que o Estado se abstenha de praticar a discriminação. Pois cabe a ele criar condições que permitam a todos a igualdade de oportunidades. Para tanto, é preciso elevar os desfavorecidos ao mesmo patamar de partida dos demais, tratando de forma desigual os desiguais, como defendia o filósofo Aristóteles. Esta tese pode ser comprovada em números. Mesmo a melhora generalizada no ensino superior brasileiro nas últimas décadas não foi suficiente para acabar com a desigualdade educacional histórica. Atualmente, há mais brasileiros frequentando as escolas e houve um aumento nos anos de escolaridade de todos os segmentos. Ainda assim, de acordo com dados do MEC, a distância de dois anos na média de escolaridade entre negros e brancos permanece intocada nos últimos 20 anos. Neste sentido, não resta dúvida de que a adoção do sistema de cotas contribuirá para uma sociedade mais igualitária. Os resultados até agora alcançados pelas cotas são animadores. Estudo realizado junto às instituições que adotaram o sistema demonstra que o coeficiente de rendimento médio dos alunos cotistas é tão bom quanto o dos demais. Uma explicação é o fato dos cotistas serem, na maioria dos casos, os primeiros de suas famílias ou comunidades a conseguir ingressar na universidade. Motivados, agarram a oportunidade com força e vontade. As cotas funcionam como um mecanismo de equalização de oportunidades, proporcionando a abertura das portas das universidades para um contingente expressivo de alunos que, de outra forma, não teria acesso ao ensino superior. Nos últimos oito anos, 52 mil alunos negros foram beneficiados. Este exemplo positivo se dissemina entre as principais universidades do país, o que possibilitará a ampliação das oportunidades para um grupo ainda maior de estudantes, sinalizando que, apesar do esperneio de setores minoritários, a caravana da igualdade racial avança.

O jornal Notícias da UFPR é uma publicação da Assessoria de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná. Rua Dr. Faivre, 405 - CEP: 80060-140 Fones: 41 3360-5007 e 41 3360-5008 Fax: 41 3360-5087 E-mail: acs@ufpr.br

Reitor Zaki Akel Sobrinho | Vice-Reitor Rogério Mulinari | Pró-Reitor de Administração Paulo Roberto Rocha Kruger | Pró-Reitora de Extensão e Cultura Elenice Mara de Matos Novak | Pró-Reitora de Gestão de Pessoas Larissa Martins Born | Pró-Reitora de Graduação Maria Amélia Sabbag Zainko Pró-Reitora de Planejamento, Orçamento e Finanças Lúcia Regina Assumpção Montanhini | Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Sérgio Scheer Pró-Reitora de Assuntos Estudantis Rita de Cássia Lopes | Chefe de Gabinete Ana Lúcia Jansen de Mello Santana. Assessor de Comunicação Social e Jornalista Responsável Mário Messagi Júnior - Reg. Prof.: 2963 | Edição geral Maria de Lurdes Pereira| Editores Simone Meirelles (Ensino), Fernando César Oliveira (C&T), Mário Messagi Júnior (Gestão) e Letícia Hoshiguti (Cultura e Extensão) | Projeto Gráfico Iasa Monique Ribeiro | Diagramação Juliana Karpinski| Foto da Capa Rodrigo Juste Duarte| Impressão Imprensa Universitária Revisão Edison Saldanha | Tiragem 10 mil exemplares

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Ensino: Cidadania

Campanha convida estudante a viver a

UFPR

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Ideia, que iria inicialmente conscientizar universitários a cuidar do patrimônio, visa estimular o vínculo da comunidade interna com a UFPR Phillipe Trindade

phillipe.trindade@gmail.com

Mário Messagi Júnior messagi@ufpr.br

tem que devolver isso fazendo seu papel”, explica Akel. Guilherme Gomes Glir, copresidente do Cacos, complementa: “Uma formação completa pede que o estudante faça uma integração com a Federal que foge da sala de aula. É importante ser aprovado nas disciplinas? Sim, mas é igualmente importante construir junto do Centro Acadêmico, do Diretório Central dos Estudantes, participar de órgãos colegiados da Universidade e assim por diante. Quando percebe que entrou na UFPR não só para atender à demanda do mercado e começa a se articular para contribuir com a sociedade é que o universitário deixa de ser apenas mais um aluno passivo, quieto, para se tornar um estudante. É isso que queremos transmitir com essa campanha”.

serão distribuídos para que os estudantes não precisem esperar até o último ano na Universidade para entender certos aspectos dela”, conta Puzzilli. O reitor ainda enfatiza a participação dos estudantes em projetos da administração: “A JR. Consultoria, do Setor de Ci-

ências Sociais Aplicadas, já havia feito pesquisas de satisfação dos frequentadores da Feira de Cursos e Profissões e a Jr. Design foi acionada para trabalhar na Grife da UFPR. Nossa ideia é valorizar os talentos da casa. Tudo o que der pra fazer em casa nós não vamos terceirizar”, garante.

EU VIVO ESTA UNIVERSIDADE As peças publicitárias são desenvolvidas pela Fábrica de Comunicação, em conjunto com o Centro Acadêmico. Para Rafael Puzzilli, da Agência Jr., a experiência é marcante: “Logo depois da primeira reunião com a Prae, ACS e Cacos, sentamos para pensar em conceitos. Dois dias depois já estávamos apresentando-os”. E a campanha não se resume às intervenções do dia 28. “É de longo prazo, que visa ter efeitos duradouros. Materiais com mais informação

Reitor Zaki Akel participa da construção do mural com imagem do Prédio Histórico

Rodrigo Juste Duarte

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UFPR lançou, durante a festa de Recepção aos Calouros 2010, no dia 28 de fevereiro, a campanha “Eu vivo esta universidade”. Parceria entre a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae), a Assessoria de Comunicação Social (ACS), a Agência Jr. Fábrica de Comunicação e o Centro Acadêmico de Comunicação Social (Cacos), a campanha tem por objetivo estimular o vínculo da comunidade interna com a UFPR. Inicialmente, a ideia era apenas conscientizar a comunidade universitária de que ela mesma é proprietária dos recursos de uma universidade pública como a Federal do Paraná – tanto quanto os demais cidadãos – e que todos perdem quando não são bem utilizados e mantidos. Durante o período de combate à gripe suína, o reitor Zaki Akel Sobrinho solicitou à Fábrica uma campanha para estimular o cuidado com o patrimônio da universidade, sobretudo banheiros e dispensadores de álcool, fundamentais no combate à epidemia. “Os banheiros da Universidade, por exemplo, estavam com condições heterogêneas”, explica Zaki. Com a maturação da campanha, o zelo pelo patrimônio ganhou a companhia de outros temas. “Também envolve a questão do estudante se engajar, ser um agente de transformação social. Ele está aqui financiado pela sociedade, então também

Peças publicitárias desenvolvidas pela Fábrica de Comunicação e Centro Acadêmico

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Ensino: Projetos Pedagógicos

Desafios de uma n

Dois setores da UFPR apostam em políti e priorizam um público antes não

Mário Messagi Júnior messagi@ufpr.br Sandoval Matheus sandovalmatheus@ufpr.br Simone Meirelles simonerm@ufpr.br

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elo menos dois setores da UFPR têm trabalhado nos últimos tempos com políticas pedagógicas que diferem das teorias de ensino tradicionalmente mais enraizadas na universidade brasileira. O Setor Litoral e o Setor de Educação Profissional, antiga Escola Técnica, embora por caminhos distintos, mudaram o foco de atuação da Universidade. “Talvez a principal semelhança dos dois projetos seja o fato deles seguirem uma política pública diferente. Pessoas que não eram prioridade da Universidade agora passam a ser”, resume a professora Cláudia Madruga Cunha, coordenadora pedagógica, ligada a Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), que complementa: “Historicamente, as universidades formaram elites, mesmo que seja uma elite de classe-média. O que tentamos agora é propiciar uma formação além do mercado, abrindo espaços, com cursos diferenciados”.

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“Aqui no litoral, temos um projeto diferente para dar conta de nos comprometermos com o desenvolvimento da região, uma das mais carentes do Estado, que é o nosso ponto de partida”, defende o professor Valdo Cavallet, diretor da UFPR Litoral. No Setor Litoral, os estudantes passam por uma rotina que difere muito daquela enfrentada por muitos estudantes da capital, por exemplo. Lá, o modelo do projeto pedagógico transformou os currículos, que passaram a ser organizados em etapas. Não há disciplinas propriamente ditas, mas módulos interdisciplinares com projetos a serem desenvolvidos. A avaliação dos estudantes não é feita por nota, mas pela observação dos objetivos que eles conseguem atingir. Tudo isso para integrar os estudantes à política do Setor, que pretende ser uma alavanca de desenvolvimento da região litorânea, com a formação de profissionais preparados e engajados nessa proposta. “É um projeto inédito

no Brasil e, acredito, no mundo, desenhado com o envolvimento dos três níveis de governo: municipal, estadual e federal”, explica Cavallet. “Queremos desenvolver o litoral e dignificar o indivíduo”, continua ele, salientando que o litoral é uma região carente justamente porque precisa viver o ano todo com o que consegue arrecadar nos três meses de verão, já que a “temporada” é de longe a principal atividade econômica da região. O Setor de Educação Profissional parte também da realidade para fundamentar o projeto político e pedagógico dos seus cursos. Pela sua caraterística, vincula-se fortemente ao mercado de trabalho. O processo de acompanhamento dos egresso, em vias de ser implantado, é um dos instrumentos para medir se o objetivo está sendo alcançado. Segundo o diretor interino do Setor, Sávio Moreira da Silva, o acompanhamento vai permitir mensurar o quanto os alunos formados estão sendo absorvidos pelo mercado. “Isso

vai ajudar na criação de cursos e para verificar quando uma formação está perdendo sua razão de ser”, diz. A flexibilidade do quadro docente permite, com uma mesma equipe, oferecer formações diferenciadas. Com uma forte formação crítica e humanística, Sávio explica que o objetivo não é formar só para o mercado, mas, com certeza, “também para isso”. Multidisciplinaridade Outra característica do Setor de Educação Profissional é a multidisciplinaridade. São seis cursos tecnólogos de graduação que oferecem a possibilidade de movimentação para os alunos. “Um exemplo seria um aluno de Gestão Pública achar que está com dificuldades de oratória. Ele pode fazer algumas disciplinas do curso de Produção Cênica, para sanar isso”, atesta Sávio. “Mas essa multidisciplinaridade exige uma postura, uma atenção, exige que a equipe se reúna de maneira periódica. Se não, a natureza dos cursos os levam a


a nova pedagogia

Rodrigo Juste Duarte

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políticas pedagógicas multidisciplinares es não atingido pela Universidade

se desenvolver de forma autônoma”, continua ele. A maleabilidade do Setor também transparece no sistema de módulos. Na concepção adotada pelos cursos de formação profissional, o aluno não precisa necessariamente cumprir os três anos normais para estar apto a exercer funções específicas de sua formação, ao contrário do que acontece em cursos tradicionais. A cada seis meses, os estudantes passam por uma “avaliação de habilidades” e recebem o Certificado de Qualificação de Nível Tecnológico, que já os autoriza a bater à porta do mundo do trabalho. Ou seja: não é necessário completar todo curso e os alunos podem optar por ter uma formação parcial. “Embora essa não seja nossa realidade e no geral os alunos fiquem conosco o curso todo”, salienta o professor Sávio. Mesmo distintos, os dois projetos têm pontos em comum. Nos dois lugares, por exemplo, não há uma divisão por departamentos, como no

restante da Universidade, e a coordenação dos trabalhos se orienta de forma conjunta, por professores oriundos de diversas áreas do conhecimento. “Isso facilita muito, porque dá ao corpo interno unidade e bastante conhecimento da proposta, do que estamos perseguindo”, argumenta Sávio. A prática como fonte das ideias Da mesma forma, os dois projetos valorizam a prática como essência da formação e teorizam a partir dela. O exemplo do Setor Litoral é enfático. Lá, o aprendizado se aplica através da problematização da realidade, já que o objetivo da Universidade é alavancar o desenvolvimento local. Assim, inicialmente os estudantes participam de diversas atividades a fim de vivenciar a realidade e os problemas da região. Nesta primeira etapa, o estudante também começa a conhecer o seu curso e profissão, iniciando as reflexões que servem como base para o que virá depois.

Posteriormente, a meta é fazer com que os estudantes compreendam a realidade e passem a propor soluções. Dessa forma, os estudantes precisam se aprofundar em conhecimentos específicos de sua área. Professores e acadêmicos realizam atividades teórico-práticas tanto em sala de aula quanto em laboratórios e visitas técnicas. Ao final dessa etapa, os alunos já apresentam conhecimentos que lhes permitem pensar e propor ações e projetos de diferentes naturezas. Por fim, a terceira etapa instiga os alunos a agirem. Nesse momento, os estudantes desenvolvem o exercício responsável da profissão, propondo alternativas e atuando em projetos e atividades que permitam aplicar os conhecimentos, técnicas e valores aprendidos anteriormente. O professor Valentim da Silva ilustra o processo citando um estudo sobre a ocorrência de alagamentos no centro da cidade de Matinhos, feito pelos alunos da turma de Ciências,

em 2008. Depois de avaliarem vários aspectos da região, passando pelo plano-diretor da cidade, vegetação, clima e solos, os alunos chegaram à conclusão de que o principal problema era a existência, nos pontos de alagamento, de um tipo de solo pouco permeável. “Ou seja, eles concluíram que esses locais alagavam porque tinham que alagar mesmo. Mas antes precisaram testar várias hipóteses e aprenderam muito no processo todo. Antes, muitos nem sabiam o que era um plano diretor. O processo é o mais importante”, salienta o professor. Nilton da Silva Cruz, aluno do curso técnico em Orientação Comunitária, lembra de quando participou de um projeto junto a postos de saúde com infraestrutura precária. Nesse caso, a alternativa encontrada pelos estudantes foi a conscientização da população sobre diversas doenças e como preveni-las. “O que eu mais gosto é que você é induzido a encontrar problemas e propor soluções. No caso, o que tentamos fazer foi impedir

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O que eu mais gosto é que você é induzido a encontrar problemas e propor soluções. No caso, o que tentamos fazer foi impedir que as pessoas precisassem chegar àquela precariedade.” Nilton da Silva Cruz, Aluno de Orientação Comunitária.

O conhecimento é muito mais que um curso. O conhecimento é um todo.”

Maurício Fagundes, Professor da UFPR Litoral

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Riscos Naturalmente, projetos com tamanho ineditismo também assumem riscos. Para minimizá-los, são frequentes as reuniões de professores, técnicos e alunos para avaliar os resultados do que está sendo feito. Foi o que aconteceu durante toda a última semana do mês de fevereiro, às vésperas do início do ano letivo de 2010, no Litoral. A comunidade acadêmica ia resolver se continuava ou não, por exemplo, com o modelo de turmas híbridas adotado com os estudantes que entraram em 2009. Durante esse período, dois dias por semana os estudantes tiveram aulas em turmas mistas, formada por alunos dos 11 cursos do Setor. As aulas também eram mediadas por um rodízio de professores, na tentativa de oferecer aos alunos múltiplos olhares sobre a realidade. “O conhecimento é muito mais que um curso. O conhecimento é um todo”, justifica o professor Maurício Fagundes. Assim, posteriormente, os alunos levavam o que haviam aprendido em grupo para trabalhar dentro de seus conteúdos específicos, com um maior alargamento de visão. Sávio também encontra desafios no projeto do Setor de Educação Profissional. “Às vezes, o resultado não é o esperado”. Mas o maior desafio é também a maior virtude. O setor está se constituindo, praticamente do zero. Docentes e técnicos estão sendo contratados, um novo espaço físico está nascendo, tudo é muito novo e traz dificuldades. Por outro lado, com uma equipe nova, é mais fácil ousar. “Estamos em construção. Isso permite que todos estejam afinados ou se afinando”, explica. Como ser humano Outro espaço curricular obrigatório do Setor Litoral são as interações culturais humanísticas, que acontecem uma vez por semana. Nelas, um grupo de alunos, que podem ser de

diferentes cursos, decidem algo em comum que querem estudar, na maioria das vezes temas ligados à arte e através de uma oficina. O objetivo, segundo o professor Breno Bellintani, é contribuir com a formação humana dos futuros profissionais. “A gente nasce ser humano, mas não sabe o que é ser humano. Queremos elevar o estado de espírito da pessoa para uma compreensão diferente. Fazer com que os alunos não percam o contato com sua identidade humana, com a capacidade de se sensibilizar com a realidade”, diz ele. Valentim da Silva completa: “Eu sou químico, mas não sou só químico. Também sou um ser humano. Adoro música e me interesso por religião, por exemplo. Vou além da química, simplesmente”. “Existe o mundo do trabalho, mas também existe o mundo das pessoas, que transcende isso. As pessoas não são só o que fazem profissionalmente”, concorda Breno. Resistência Existe certa resistência a essas novas propostas. Ao chegar no curso, os estudantes esperam um modelo tradicional de ensino. “O primeiro semestre sempre é de mudança, de superação das formatações educacionais. Começamos desconstruindo para depois construir o novo. E a cada turma, é preciso recomeçar”, resume Cavallet. A ideia é principalmente investir no diálogo, numa espécie de parceria entre alunos e professores, liberando os estudantes de cargas horárias opressivas e fazendo com que ele seja o principal elemento de sua formação. “Aqui o aluno tem que ser protagonista e o professor, o mediador”, finaliza Cavallet. Sávio aposta em professores com um novo perfil para enfrentar as mudanças. “Precisamos de um professor diferenciado, que transite por vários cursos e reflita sobre vários projetos politíco e pedagógicos e sobre o projeto pedagógico do próprio setor”, finaliza.

Eu sou químico, mas não sou só químico. Também sou um ser humano. Adoro música e me interesso por religião, por exemplo. Vou além da química, simplesmente.” Valentim da Silva, Professor da UFPR Litoral.

Arquivo

que as pessoas precisassem chegar àquela precariedade”, diz.

Fotos:Rodrigo Juste Duarte

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Mas essa multidisciplinaridade exige uma costura, uma atenção, exige que a equipe se reúna de maneira periódica.” Sávio Moreira da Silva, Diretor interino do Setor.


Ensino: Provar

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Critérios mais rigorosos darão outra dinâmica à ocupação das vagas ociosas na UFPR Novas regras foram definidas na Resolução 99/09 aprovada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. Coordenações terão maior autonomia para decidir quantitativo de vagas e modalidades a serem ofertadas.

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ébora Ferreira Pontes ingressou na UFPR para cursar Economia. Havia entrado meio indecisa e, menos de um ano depois, já tinha a certeza de que não era o curso que queria. Teria de desistir. Gleisson Alisson Pereira já estava formado em Educação Física e tinha feito inclusive uma especialização na área. Mas queria ganhar conhecimentos e já atuando como professor, pretendia ampliar também os horizontes, no caminho da docência. Viní-

cius de Souza Correa frequentava Engenharia Mecânica em uma outra instituição e já pensava que dificilmente conseguiria se formar, dada a dificuldade de arcar com a mensalidade do curso. As três histórias são absolutamente distintas, de pessoas com necessidades diferentes mas que nos levam a uma única questão: a importância da ocupação de vagas remanescentes na universidade. No final de dezembro passado, a ocupação de vagas ociosas, que foi suspensa durante o ano de 2009, teve regras novas

regulamentadas pela Resolução 99/09 do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. No lugar de cinco etapas, agora serão duas fases. O calendário de todas as modalidades deverá ser divulgado até maio. A primeira fase ofertará as modalidades de mudança de turno, de habilitação e de campus. A segunda fase, que será realizada no segundo semestre, ofertará as modalidades de reopção de curso, transferência, reintegração de ex-alunos, complementação de estudos e aproveitamento de curso superior.

Uma série de pormenores tornou o novo Provar um processo mais criterioso (veja no quadro “Antes e Agora” as principais mudanças). A nova resolução traz como ingrediente central uma maior autonomia das coordenações em aspectos considerados fundamentais para muitos coordenadores: eles poderão decidir pela oferta parcial ou até pela não oferta das vagas remanescentes de seus respectivos cursos, caso tenham sucesso na taxa de conclusão de curso, dentro dos moldes do Progra-

Rodrigo Juste Duarte

Leticia Hoshiguti

leticiah@ufpr.br

Gleisson Alisson Pereira de Brito está cursando Ciências Biológicas. Ele já é professor e, formado em Educação Física pela própria UFPR, voltou pela modalidade Aproveitamento de Curso Superior. “O Provar facilitou muito o caminho”, diz, ponderando que depois de tantos anos seria difícil enfrentar um vestibular com os conteúdos de “cursinho” distantes. “É uma política importante da universidade ofertar essas vagas remanescentes, num processo justo que dá oportunidade a quem já se formou”, diz ele, elogiando a etapa que priorizou quem já era formado pela UFPR e quem tinha a maior parte possível de disciplinas cumpridas e que buscava outra habilitação ou, tendo feito bacharelado, uma licenciatura e viceversa. “A universidade cumpre com um papel social”, pondera Gleisson, por abrigar novos alunos às vagas que estariam ociosas. Gleisson é professor em uma faculdade particular e com o curso de Ciências Biológicas ampliou seus horizontes como professor. Desde que se formou em Educação Física, trabalhou como professor em Academia e fez especialização na área. Agora, no quinto período e dentro do cronograma do curso, sabe que estará formado em 2012. Nos planos futuros, já pensa no mestrado que fará e nas futuras aulas no Ensino Superior.

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ma Reuni; decidirão dentro de percentuais estabelecidos pela resolução quantas vagas ofertar em cada modalidade, respeitando as peculiaridades da formação. Mais: poderão também utilizar até 50% de suas vagas ociosas para chamar classificados no vestibular que não foram convocados nas chamadas complementares, desde que não transcorridos mais de 25% do período letivo. Podendo decidir em que modalidade alocar as vagas, os cursos terão condições de receber mais alunos exatamente no qual veem melhor aproveitamento. Na Geologia, por exemplo, modalidades como “Aproveitamento de Curso Superior” e “Reintegração” não vinham sendo bem aceitas. “Recebíamos alunos com 40, 50 anos de idade que desistiam com menos de um mês de curso”, afirma o coordenador Rubens Nadalin, comentando que aulas de campo de 20 a 30 dias assustam esse tipo de aluno. A reportagem do Notícias da UFPR procurou uma dezena de alunos que haviam ingressado por essa modalidade e constatou alguns tipos de dificuldades que as tornam mais complicada: em geral, os estudantes que optam pelo Aproveitamento de Curso Superior já estão em idade madura, têm família, filhos, trabalho, situação que os impede muitas vezes de levar o curso devidamente periodizados. 8

A situação familiar também os impede de uma maior dedicação aos estudos. Deuselis Santiago, 48 anos, é um exemplo: cursou Artes Plásticas, trabalha com decoração e projetos e tem agora o sonho de tornar-se engenheiro. Por isso ingressou em Engenharia Industrial Madeireira. Entrou via Provar 2007 e, com três filhos e esposa e muito trabalho, só conseguiu fazer em torno de 10% da carga horária do curso até agora. Neste semestre, com a possibilidade de cursar algumas disciplinas à noite, está otimista e quer retomar o curso. A reintegração de ex-aluno também tem avaliação negativa por muitos. “Até hoje 100% dos reintegrados desistiram”, afirma o coordenador Nadalin, que defende a Reopção e Transferência como as mais apropriadas para o seu curso. Uma porque atende ao aluno que possivelmente já analisou o perfil do novo curso que pleiteia; estando descontente com o curso atual o estudante passa a procurar outras possibilidades que realmente encaixem naquilo que busca. Já experimentou o que efetivamente não gosta e parte desse parâmetro. E na modalidade da Transferência, é alta a chance do curso receber o aluno que já “acertou” no curso, mas que em muitos casos não pode pagar as mensalidades cobradas por outras instituições não públicas.

Curso muito caro, difícil de pagar. Para Vinícius de Souza Correa, o primeiro ano de Engenharia Mecânica na universidade paga foi muito difícil. Era um curso bom e ele, um estudante aplicado, um dos melhores alunos da turma, mas por questões financeiras tinha que mudar. E mudou, fazendo prova e concorrendo às 11 vagas ofertadas pelo Provar da UFPR. Disputou com muitos outros candidatos, colegas de turma da sua própria faculdade e de outras instituições. “Se não tivesse mudado, provavelmente não estaria mais estudando. Teria desistido, estaria trabalhando para tentar novamente numa universidade pública”, diz ele. A experiência lhe deu maturidade, expressada na comparação dos dois cursos: “São dois cursos muito bons, mas são dois mundos muito diferentes, os focos são distintos”, explica, resumindo sua vida agora na UFPR: “Estou me adaptando. Na Federal você tem que ser esperto, buscar as oportunidades, os contatos são muito importantes. Tem que estar antenado com as matérias, os projetos”, diz, e completa: “É desafiador”.

Apostamos mais na qualidade da ocupação, visando um melhor resultado na ocupação efetiva da vaga.”

Robson Bolzon, Coordenador COPAP/PROGRAD.

Vagas da segunda fase serão ofertadas simultaneamente Diferentemente dos processos anteriores, quando uma etapa só iniciava após o término da anterior (se ainda existissem vagas remanescentes), após a primeira fase todas as outras modalidades agora serão ofertadas ao mesmo tempo, com as vagas pré-definidas em cada modalidade. Na segunda fase, todo curso que apresente mais de dez vagas deverá, obrigatoriamente, alocar vagas em três das seis modalidades estabelecidas (veja o quadro de modalidades). Em razão da suspensão do processo no ano passado, o ano de 2009 não será considerado para contagem de tempo em nenhuma das modalidades. Assim, o processo deste ano permitirá a modalidade de Reopção não apenas para quem ingressou em 2008 mas também, excepcionalmente, para os que ingressaram em 2007, uma vez que o processo ficou suspenso no ano passado. Todos os aprovados neste Provar ingressarão nas turmas a partir de 2011. Critérios priorizam qualidade para vagas ofertadas “Apostamos mais na qualidade da ocupação, visando um melhor resultado na ocupação efetiva da vaga”, diz Robson Bolzon, coordenador de Políticas de Acesso e Permanência na Graduação


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Ensino 2010

Adriana Cristina Wasuaski Riechter, responsável pela Unidade do Provar no NAA, comenta que a partir do momento que o aluno se integra na instituição via Provar, ele receberá um novo número de registro, o GRR (Graduação Regular). Será determinante para controlar uma outra situação: o benefício da ocupação de vaga remanescente será concedido a qualquer pessoa uma única vez, independentemente da forma de ingresso na UFPR. “Isso significa que os ingressantes de qualquer modalidade não poderão participar novamente de nenhuma outra modalidade”, explica Adriana. Essa medida foi tomada em razão de alguns abusos de certos estudantes que já ingressaram mais de uma vez pelo processo e não frequentaram os cursos que os acolheram. Outro parâmetro que põe

mais “ordem na casa” é o estabelecimento de nota mínima igual para todos os cursos nas provas e o critério de carga horária mínima e máxima para ingresso através da modalidade de transferência. Já na primeira fase, só pode mudar de turno, habilitação ou campus aquele aluno que tenha integralizado no mínimo 20% ou, no máximo, 80% da carga horária. A grande mudança dentre todas as estabelecidas foi na Reopção. Os critérios de seleção serão determinados pela coordenação do curso. “Esta mudança vem atender a solicitação dos cursos para poderem gerenciar melhor a entrada dos alunos e fazer que os próprios alunos pensem melhor na hora da escolha do curso, tanto na hora de fazer reopção quanto na primeira escolha que é o vestibular”, explica Bolzon.

Ao prestar Vestibular, Debora Ferreira Pontes chegou a pensar em tentar Engenharia Civil, mas preocupada com as disciplinas de Exatas, desistiu. Resolveu tentar Ciências Econômicas e passou. Transcorrido o primeiro ano, no entanto, viu que havia feito a opção errada. “Não sabia bem o que queria, tinha dúvidas quanto a conseguir fazer matérias mais puxadas como matemática e física, mas depois vi que o curso de Engenharia Civil era o que eu queria, sempre gostei de construções”, expõe. Hoje, no segundo ano de Engenharia Civil, ela está feliz: entrou pela Modalidade Reopção, na época a segunda etapa, que aceitava o aluno de outro curso que tivesse escore suficiente para ingressar no curso. Apesar de ter que “começar do zero”, tendo de cursar novamente todo um primeiro ano, ela avalia positivamente: “Não precisei fazer novo vestibular e a decisão de mudança foi acertada, estou gostando bastante do curso”, resume.

Arte: Leonardo Bettinelli

(Copap/Prograd) e um dos responsáveis pela construção das novas regras. Nessa ótica de qualidade, foram estabelecidos critérios mais rígidos em várias situações. Quando houver empate entre dois alunos por uma mesma vaga, o critério de desempate será o menor número de reprovação nas disciplinas. O segundo critério é idade mais avançada. Se o estudante vem por Transferência, terá lançada no seu histórico escolar a equivalência das disciplinas, no modo “Dispensa sem nota”. Evitará, porém, que a Universidade chancele notas que na verdade podem não ter o mesmo peso e/ou critério da UFPR. Também não poderá concorrer ao Provar o estudante que estiver jubilado pela universidade. Nessa linha, também será desclassificado o candidato que não tenha prazo para integralizar a carga horária considerando o tempo já utilizado na instituição de origem. Outra novidade é que o candidato não poderá possuir trancamento na instituição de origem maior que três anos ou seis semestres, consecutivos ou não. Da mesma forma, na modalidade de Reintegração de Ex-aluno, também foi estabelecido que o mesmo só pode retornar se evadido há menos de cinco anos letivos ou, se mais de cinco anos, com integralização de no mínimo 50% da carga horária total do curso.

Aumentam as vagas nas universidades federais A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) divulgou relatório do programa de Reestruturação das Universidades (Reuni), mostrando que as instituições federais de ensino superior criaram nos últimos quatro anos aproximadamente 77 mil novas. Destaca também que, a exemplo da Universidade Federal do Paraná, as universidades brasileiras investiram no desenvolvimento dos cursos noturnos. Aqui, a UFPR ofereceu um total de 5.334 vagas em seu vestibular, das quais nada menos do que 1.808 estão em 30 cursos exclusivamente noturnos.

Desenvolvimento Sustentável e Educação serão debatidos Serão realizados em Curitiba, de 18 a 20 de maio, a 1ª Conferência Internacional de Educação para o Desenvolvimento Sustentável e o 5º Encontro Regional dos Centros Regionais de Expertise, vinculados à Unesco e às Nações Unidas. Os eventos ocorrem simultaneamente e são organizados pela UFPR e instituições parceiras. As discussões serão norteadas por temáticas como o papel da educação para a sustentabilidade; inovação e sustentabilidade; energias renováveis; e educação e cultura para conservação. A conferência e o encontro são direcionados para docentes de todos os níveis, técnicos da educação profissional, profissionais ligados à educação ambiental informal e estudantes do nível superior. As atividades serão no Centro Integrado dos Empresários e Trabalhadores do Estado do Paraná (Cietep), localizado na Avenida Comendador Franco, 1341, Jardim Botânico. Mais informações podem ser obtidas nos sites http://www. eds2010.com.br e http://www. crie-curitiba-parana.org.br.

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Ciência e Tecnologia: Paraguai “Batalha Naval do Riachuelo” Victor Meirelles.

Guerra do Paraguai Maior conflito bélico do século XIX completa 140 anos Juliana Karpinski

julianakarpinski@gmail.com

Sônia Loyola

Sonial@ufpr.br

“Nessa guerra não há vencedores, todos perderam. A vitória alcançada pelo Império do Brasil foi uma meia vitória, visto o alto custo em vidas humanas e pela proporção do estrago financeiro que representou ao governo monárquico, já abalado”, afirma o professor da Universidade de Brasília e historiador Francisco Doratioto na obra “Maldita Guerra”. Após 140 anos, a Guerra do Paraguai ainda gera discussões sobre o número de mortos e sobre quem, realmente, foram os vencedores desse conflito que envolveu Argentina, Brasil, Uruguai – a Tríplice Aliança – e Paraguai. Considerada o segundo mais cruel conflito do continente americano, a guerra teve início em 1864, com a 10

invasão brasileira do Uruguai, e durou aproximadamente cinco anos. O presidente paraguaio Solano López contava com um exército bem mais numeroso que o brasileiro e, aproveitando o pretexto da intervenção brasileira no Uruguai, rompeu relações com o Brasil. “O Paraguai interferiu em questões eleitorais no Uruguai, usando o pretexto de impedir que Brasil e Argentina interviessem no país, mas, ao mesmo tempo, isto foi visto por brasileiros e argentinos como uma intervenção paraguaia”, explica o professor e chefe do Departamento de História da UFPR, Carlos Lima. Motivos Até metade do século XX, a Guerra do Paraguai foi considerada um conflito imperialista, mas recentemente passou-se

Os povos saíram perdendo pelo grande custo humano que a guerra teve, mas a guerra teve vencedores também.” Carlos Lima, Professor de História

a analisar a questão da turbulência política pela qual a Bacia Platina passava na época. A partir de 1810, um processo de independência na Argentina começa a ganhar forma e a desestabilizar o país. Enquanto isso, o Brasil vivia o apogeu da monarquia no Segundo Reinado. “Era o auge do Império brasileiro e a Argentina, na época ainda organizada em províncias, viu como um fator positivo para a estabilização do país entrar numa guerra que ela iria ganhar”, comenta Lima. De acordo com o professor, o Paraguai era uma país rural, cheio de fragilidade, com um crescimento econômico atrasado e uma estrutura social marcada pela elite mercantil, que comerciava o pouco excedente produzido pelo campesinato. A Argentina se mobilizando num processo de independência, em um ambiente militarizado,


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O Conflito Após romper relações com o Brasil, López ordenou o aprisionamento do vapor brasileiro Marquês de Olinda. Entre seus tripulantes estava o presidente da província do Mato Grosso, Carneiro de Campos. Mantendo-se na ofensiva, o Paraguai invade o Mato Grosso. Este foi o ponto-chave para o Brasil declarar guerra ao Paraguai. Para impor seus interesses, Assunção contava com uma ampla superioridade militar, eram cerca de 80 mil homens e 28 navios. Juntos, as forças da Tríplice Aliança não chegavam a um terço das paraguaias. Para aumentar o número de soldados, o Brasil teve uma grande capacidade de mobilização. Com a população do Império estimada em cerca de 20 milhões de habitantes, enquanto no Paraguai, não passava de meio milhão, houve o recrutamento em massa. Os chamados “voluntários da pátria”, principalmente escravos que receberiam liberdade por se apresentar para lutar na

guerra, foram decisivos para a vitória dos aliados. Foram convocados 140 mil soldados brasileiros. Desse total, 50 mil teriam morrido nos combates ou vitimados por ferimentos e doenças. O custo do enorme esforço militar comprometeu por mais de dez anos as frágeis finanças brasileiras. Segundo Leandro Narloch, no livro “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, o dinheiro gasto no conflito foi onze vezes maior que o orçamento para um ano inteiro de administração pública. “Grande parte da fortuna brasileira gasta na guerra foi parar nas mãos dos fazendeiros argentinos que forneceram cavalos, carvão para os navios e carne para as tropas”, comenta Narloch sobre o lucro que a Argentina teve com a guerra. Segundo um dos conteúdos da revista Espaço Acadêmico, de janeiro de 2003, “Guerra contra o Paraguai: da instauração à restauração historiográfica”, o conflito foi o “acontecimento central” da história brasileira da segunda metade do século XIX . A guerra terminou em 1870 com cerca de 300 mil paraguaios mortos e aproximadamente 70 mil vítimas do lado da Tríplice Aliança. Segundo Francisco Doratioto, a Guerra do Paraguai acabou um processo de consolidação dos Estados nacionais na região. A Argentina foi unificada e o poder centralizado em Buenos Aires. No Brasil, o conflito ajudou a derrubar a escravidão e a monarquia. Uruguai e Paraguai se firmaram como satélites das duas potências regionais. Leituras Na década de 30, a historiografia paraguaia alimentou-se, em parte, das narrativas das nações vencedoras revendo também seus próprios sucessos num sentido patriótico nacionalista. Já nas décadas de 60 e 70 as narrativas históricas latino-americanas propuseram nova ótica de análise. Chegando então

a obra de Doratioto, fruto de sua tese de doutoramento, este propõe uma clara releitura dos fatos. Doratioto atribui a origem e a evolução do conflito a personalidade de Solano López, sobre quem lança a responsabilidade total da guerra. Apresenta o confronto como tendencialmente inevitável devido a procura de maior espaço regional na nação Guarani e as negativas dos governos brasileiro e argentino de concedê-lo. Segundo o historiador Mário Maestri, a personalização da história da guerra resulta, em muito, do elogio das lideranças que participaram da Tríplice Aliança, Pedro II, Mitre, Caxias, Osório e outros, e na diabolização de Solano López, identificado como um Hitler da época. Diferentes visões Segundo Francisco Doratioto, a Guerra do Paraguai foi o maior conflito bélico internacional realizado no ocidente durante o século XIX. Terminou em 1870, com a morte de Francisco Solano López em Cerro Corá, no interior do Paraguai e todos os envolvidos sairam perdendo. “Nessa guerra não há vencedores, todos perderam”, concluiu o professor Doratioto em sua famosa obra. Já para o professor Lima, a guerra foi a consagração da consolidação política do Brasil, além de fortalecer e institucionalizar o exército, e possibilitou a estabilização Argentina. Fatores que levam a considerar que a guerra teve grandes vencedores. “Os povos saíram perdendo pelo grande custo humano que a guerra teve, mas a guerra teve vencedores também”, afirma. *Fontes usadas na matéria: Maldita Guerra, Francisco Doratioto; Guia politicamente incorreto da história do Brasil, Leandro Narloch; Revista; Espaço Acadêmico, Ano II, nº 20, Mário Maestri “Da instauração à restauração historiográfica”; Revista Espaço Acadêmico nº 62 de julho/2006; Jornal O Estado de São Paulo, de 3 de janeiro de 2010, “A Guerra do Paraguai sob nova visão”, Moacir Assunção.

Arte: Leonardo Bettinelli

e a consolidação do Império no Brasil acabou causando pressão para que o Paraguai também se estabilizasse. Segundo o artigo “A Guerra do Paraguai sob nova visão”, publicado no jornal “O Estado de S. Paulo” (3/01/2010), a causa mais direta do conflito foi a ascensão do Paraguai e seu interesse estratégico em manter o Uruguai independente, sem as influências brasileira e argentina, garantindo assim a livre navegação do Rio da Prata – fundamental para o comércio daquele país na época. Há quem diga que os interesses da Inglaterra também tiveram forte influência no conflito. Mas os ingleses tentaram pacificar os paraguaios, até mesmo por questões econômicas. Os ingleses investiam em vários projetos de infraestrutura na região e mantinham relações com os países sul-americanos baseadas no comércio.

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Cultura e Extensão:Vivendo a UFPR

2010

Mesmo com domingo chuvoso, cerca de 1,5 mil pessoas vão à festa de

recepção dos calouros

Iniciativa inédita da Universidade foi vista pelos músicos convidados como um importante meio de fomentar a cena local Sandoval Matheus

sandovalmatheus@ufpr.br

A

chuva que caiu na tarde de domingo, 28 de fevereiro, não atrapalhou a festa de recepção dos calouros da UFPR no Centro Politécnico. Cerca de 1,5 mil pessoas, entre novos estudantes, veteranos, amigos e familiares, passaram pelo local durante a festa, que se estendeu das 16 às 21 horas. Foi a primeira vez que a UFPR recebeu seus novos alunos com uma celebração musical. O evento contou com shows das bandas curitibanas Regra 4, Real Coletivo Dub, Gentileza e Copacabana Club,

que no ano passado foi indicada ao prêmio VMB de “Banda Revelação”. O mestre de cerimônia foi o multi-instrumentista e ator André Abujamra. “É uma iniciativa muito bacana, receber as pessoas novas com música e música boa”, avaliou Abujamra. “Com a festa, quisemos integrar os novos estudantes e também trazer as famílias para dentro da Universidade”, justificou Arlete Ceccatto, coordenadora de Políticas de Acompanhamento Acadêmico da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) da UFPR. A festa de recepção, de

Zaki akel e alunos da Fábrica de Comunicação

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Viver uma universidade é também comemorar, confraternizar, além de participar de todas as atividades de ensino, curtir professores, técnicos, colegas e amigos.” Zaki Akel Sobrinho, Reitor da UFPR.

acordo com ela, começou a ser pensada em dezembro do ano passado. Por isso, contou com uma ampla infraestrutura, que incluiu um palco e nove metros por seis, banheiros químicos, três ambulâncias, camarim para as bandas e cerca de cem seguranças, entre os contratados de uma empresa privada e funcionários da própria Universidade. “As pessoas ligadas à universidade têm experiência. Já estão acostumadas a lidar com os alunos e com eventos como este”, disse Ceccatto. “Com certeza, estivemos preparados para qualquer eventualidade”, completou ela.

Pró-Reitores Rita Lopes (Assuntos Estudantis) e Paulo Kruger (Administração) ao lado do reitor


Em discurso no palco, no intervalo entre uma banda e outra, o reitor Zaki Akel, disse que a festa de recepção, apesar de inédita, deve entrar para o calendário da UFPR. “Viver uma universidade é também comemorar, confraternizar, além de participar de todas as atividades de ensino, curtir professores, técnicos, colegas e amigos”, aconselhou o reitor, vestido com uma camiseta que trazia os dizeres “eu vivo esta universidade”,

que também foi distribuída entre os calouros que compareceram ao local. Para Heitor Humberto, vocalista da banda Gentileza, a iniciativa da universidade foi, além de tudo, um esforço para divulgar a cena musical curitibana. Ele se referiu principalmente à iniciativa da UFPR de distribuir, no momento do registro acadêmico, um CD com três músicas de cada uma das bandas que iriam se apresentar no Centro Politécnico.

Mestre de cerimônia André Abujamra e banda Regra 4

“Foram 5,4 mil CDs. Nós estamos atingindo um público que de outra forma não conheceria a gente. Atingimos 5,4 mil pessoas de uma hora para outra”, assevera ele, que completa: “Seria muito mais fácil trazer aqui uma grande banda de fora, mas a UFPR optou pelo caminho mais ‘difícil’, de valorizar a cena local. Então, para nossa banda, que passou quase inteira pela UFPR, é uma honra”. Guilherme Messis, calouro de Biologia, é um exemplo. Das

Fotos:Rodrigo Juste Duarte

Ciência e Tecnologia: Descoberta

Fotos: Agência Petrobras

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quatro bandas que se apresentaram, ele conhecia apenas a Copacabana Club. “Mas agora também gosto bastante da Gentileza”, observou. Os mais de mil quilos de alimentos não perecíveis arrecadados pela Universidade na troca por ingressos para a festa, foram doados para a Fundação da Ação Social de Curitiba. As aulas na UFPR começaram na segunda-feira, 1º de março, sem nenhum incidente registrado.

chuva não impediu que calouros participassem da festa

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Arquivo

Gestão: Rehuf

Programa prevê reestruturação de hospitais universitários O Rehuf é conhecido como o Reuni dos hospitais. Reestruturação vai abranger ações de recuperação da infraestrutura física e de recursos humanos dos hospitais universitários Simone Meirelles simonerm@ufpr.br

A

gestão dos hospitais universitários vai poder ser melhor planejada a partir deste ano. Foi assinado no dia 27 de janeiro pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva o Decreto nº 7.082, que institui o Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (Rehuf). Esse Programa prevê uma série de ações de recuperação da infraestrutura física e do quadro de recursos humanos dos hospitais universitários. A meta é proporcionar um funcionamento pleno, tanto nos aspectos de educação quanto da assistência à saúde. Uma das principais mudanças é que os hospitais passarão a ter um orçamento anual definido e garantido. Diagnósticos de cada unidade estão sendo elaborados e definirão as necessidades dos 14

hospitais no âmbito financeiro, tecnológico, estrutural e de recursos humanos. “Pela primeira vez, os hospitais universitários são vistos como unidades que precisam ser financiadas. Houve anos em que tivemos situações absurdas, de não termos nenhuma verba prevista para o ano todo”, observa Heda Amarante, diretora geral do Hospital de Clínicas da UFPR. Agora ela espera poder ter autonomia para planejar tanto o dia a dia quanto os investimentos futuros do hospital. “Com certeza, a gestão ficará mais tranquila. Poderemos focar na nossa missão e ter um ambiente de trabalho mais produtivo”, afirma Heda. DÍVIDAS Sem dotação orçamentária suficiente e com um grande déficit de pessoal, o Hospital de

Clínicas da UFPR acumula dívidas de cerca de R$6 milhões ao ano. A maior parte é de compromissos com empresas que prestam serviços nas áreas de alimentação, segurança e manutenção do hospital. O Decreto 7.082 define que o financiamento dos hospitais universitários federais seja dividido igualmente entre os Ministérios da Educação (MEC) e da Saúde. O valor a ser custeado pelos dois ministérios inclui o total das despesas correntes alocadas para esses hospitais e os in-

vestimentos necessários à sua reestruturação e modernização, excluindo-se os gastos com inativos e pensionistas. Até então, o MEC arcava com cerca de 70% dos custos e a maior parte das verbas era utilizada com pagamento de pessoal. Hoje, dos 550 leitos do HC, cerca de 130 estão desativados, principalmente por falta de pessoal. “Precisamos resolver a situação dos 1.100 funcionários da Funpar, que deverão ser substituídos ou recontratados segundo a lei, e ainda contratar mais 600 servidores para substituir os que se aposentaram, faleceram ou foram exonerados. Isso será possível agora com o Rehuf”, explica a diretora do HC. Destaca ainda que os hospitais universitários federais têm importante papel social na área de saúde. Atuam de forma significativa na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), pois de um universo de 3.200 hospitais cadastrados, os 46 HU’s respondem por parte significativa da formação e capacitação de profissionais e da produção de conhecimento em saúde em âmbito nacional. Além disso, 70% deles, como é o caso do Hospital de Clínicas da UFPR, se caracterizam por serem hospitais de grande porte com perfil de alta complexidade, sendo muitas vezes, a unidade hospital mais importante do serviço público do Estado. “O HC poderá a partir de agora assumir de forma completa seu papel de centro de excelência, atuando de forma integrada com o SUS para garantir o acesso à saúde para a fatia mais ampla da comunidade”, conclui Heda Amarante.

Arte: Leonardo Bettinelli

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Gestão: Saúde

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Farmácia Amiga vai cuidar da

saúde dos servidores Projeto utiliza o conceito de “atenção farmacêutica” e pretende previnir e acompanhar problemas de saúde relacionados com o uso de medicamentos simonerm@ufpr.br

A

hipertensão arterial é uma das doenças crônicas mais comuns no Brasil, podendo causar danos no coração, cérebro, olhos e rins. Na maioria das vezes, é herdada dos pais, mas há vários fatores que a influenciam, como o fumo, obesidade, estresse, consumo de sal, níveis altos de colesterol, falta de atividade física, entre outros. Para controlá-la é fundamental o acompanhamento e uso correto de medicamentos. Por isso, a hipertensão é a primeira doença direcionada pelo projeto “Farmácia Amiga”, implantado inicialmente entre servidores do campus Reitoria da UFPR, com metas de ampliação para outros campi ao longo deste ano. O Projeto trabalha com atenção farmacêutica visando a prevenção de doenças, acompanhamento de tratamentos e detecção de problemas relacionados ao uso de medicamentos. “Aplicamos um questionário amplo entre 150 servidores do campus, em abril do ano passado, verificando questões ligadas à alimentação, medicamentos e saúde em geral. Detectamos vários problemas crônicos e o mais comum foi a hipertensão. Fizemos então o convite formal aos portadores da doença para um acompanhamento farmacêutico regular”, explica a professora Camila Klocker Costa, coordenadora do projeto.

Assim, desde a metade do ano passado cerca de dez servidores vêm sendo acompanhados por farmacêuticos e estagiários do projeto. O número ainda é pequeno mas aos poucos mais pessoas estão procurando o serviço. A contadora Helena Sakae é uma das pacientes. Ela comparece quase diariamente à farmáciaescola para medir a pressão. “Recebi muitas orientações importantes. Por exemplo, quais remédios não podem ser tomados juntos, quais necessitam de um período de jejum e os melhores horários para ingerir cada um deles”, conta ela. Esse tipo de informação está entre as dúvidas mais comuns dos pacientes, revelam as estudantes Lívia Alonso Lopes e Liana de Oliveira Gomes, bolsistas do projeto. O revisor de textos Edison Saldanha também mede a pressão todos os dias na Farmácia Escola. Como já teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral), ele precisa estar ainda mais atento. “Esta é a primeira vez que faço um acompanhamento. Antes, só media a pressão quando o médico mandava”, diz ele. Na sua opinião, o benefício não é apenas do paciente. “Ao mesmo tempo que damos mais atenção à saúde, podemos colaborar com a formação dos profissionais”, continua. A professora Camila salienta que todas as orientações são feitas seguindo metodologias científicas e sem interferir no diagnóstico do médico. “As pessoas che-

gam com falhas na orientação ou com dúvidas, pois ficam inibidas para perguntar ou mesmo não comunicam seus médicos sobre todos os medicamentos que tomam e que podem gerar interações. Por isso, nosso acompanhamento visa o uso racional dos remédios, evitando também a automedicação”, reforça. Se for necessário e autorizado pelo servidor, os integrantes do projeto podem entrar em contato com o médico ou nutricionista, sempre visando a saúde do paciente.

Neste ano, além de atender servidores de outros campi, a intenção é ampliar as doenças que estão em evidências. Outro plano é convidar novos cursos para integrar o projeto, como por exemplo, o de Nutrição. Para ter acesso ao projeto “Farmácia Amiga” basta entrar em contato com a Farmácia-Escola da UFPR, pelo fone 3360-5111. Recentemente reformada, a unidade atende das 8 às 18 horas e funciona no térreo do Edifício D. Pedro II, Rua Dr. Faivre, 405. Arquivo

Simone Meirelles

automedicação é um dos problemas que o projeto pretende acompanhar

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Gestão: Ampliação

Espaço atual é de 370 mil metros quadrados. Novas edificações representam crescimento de 17 %

Com 83 novas obras,

UFPR terá 61 mil metros quadrados

a mais

Maria de Lurdes Pereira lurdes@ufpr.br

N

ão é exagero afirmar que a UFPR virou um canteiro de obras neste começo de ano. Há nada menos do que 83 novas construções, reformas e outras adaptações em praticamente todos os campi. Só de obras novas, projetadas para salas de aulas, laboratórios, auditórios e gabinetes de professores são mais de 61 mil metros de construção, o que significa um crescimento de 17% na estrutura física. (A UFPR tem hoje 370 mil metros de edificações.) É o recorde de obras simultâneas, diz José Clóvis Pereira Borges, assessor da Pró-Reitoria de Administração e que acompanha a expansão física da UFPR há 12 anos. Algumas construções já 16

estão adiantadas, como a ampliação do Setor de Educação Profissional e Tecnológica, que terá um novo prédio e um ginásio de esportes, a antiga Escola Técnica e o prédio da Terapia Ocupacional, no campus Jardim Botânico. Há também diversos projetos que acabaram de passar pela licitação. As reformas que abrangem quase 50 mil metros quadrados tiveram prioridade neste começo de ano para que os consertos menores, como a instalação de divisórias nos setores, trocas de forro e de piso, instalação de ar condicionado em laboratórios, melhorias nos banheiros e na rede de esgoto ficassem prontos para o começo das aulas. Obras como a reforma do RU central

e o 12º andar do Edifício Dom Pedro I, onde ficam os laboratórios do curso de Design ainda vão demorar alguns meses. Tudo o que havia no espaço da marcenaria e dos fornos de cerâmica foi demolido e agora será reconstruído dentro das normas de segurança e das necessidades dos alunos, explica a chefe do Departamento de Design, Dulce Fernandes. Segundo ela, no andar tudo era muito precário. Não havia ventilação adequada e nem água porque o sistema hidráulico estava entupido e quando chovia era goteira por toda parte. Agora, de acordo com a professora, há uma nova perspectiva. Além dos laboratórios em melhores condições, haverá quatro espaços que poderão ser

transformados em salas de aulas conforme a necessidade. A obra fica pronta na metade do ano. Outra reforma que ainda vai levar pelo menos quatro meses é a do RU central. A sala de refeições já foi concluída, mas ainda falta a cozinha. Estão sendo refeitos os sistemas elétrico e hidráulico e também haverá a troca de piso, azulejos e serão comprados fogões, exaustores, pias e balcões novos, destaca o diretor dos restaurantes, Lineu Dall Lago. Neste primeiro semestre as 1.800 refeições (almoço e jantar) são feitas por um restaurante industrial, mas servidas no RU. Será a mais ampla reforma já realizada. Além da segurança e qualidade no preparo dos alimentos, o


Abril

INVESTIMENTO Grande parte dos recursos para essas reformas e novas construções vem do Programa

Nossa ideia é que a estrutura renovada venha alavancar o crescimento para as próximas décadas.”

Fotos:Rodrigo Juste Duarte

novo restaurante será bonito e moderno, explica Lineu. Para dar conta de tanto trabalho, os dez fiscais da Prefeitura da Cidade Universitária fazem revezamento. Segundo o Prefeito da Cidade Universitária, Ernesto Sperandio, o ideal é que fizessem a vistoria todos os dias em cada uma das obras, mas eles só conseguem voltar a cada três dias. Cada profissional deveria ter no máximo três obras para acompanhar, mas atualmente são responsáveis por até nove obras. Entre as obras que acabaram de ser licitadas e começam nos próximos meses, estão a construção do prédio do Programa de Pós-Graduação em Processos Biotecnológicos, novas salas de aulas para o campus de Palotina, recapeamento do asfalto do Setor de Ciências Agrárias , reformas das Usinas Piloto e a terceira etapa do Laboratório Neotropical de Controle de Plantas. Também está na previsão para 2010, a finalização dos projetos arquitetônico, estrutural, hidrosanitário, elétrico, telefônico e de rede de dados do Edifício Teixeira Soares, o antigo prédio da Rede Ferroviária Federal, doado para a UFPR e que precisa de uma revitalização.

2010

Zaki Akel Sobrinho, Reitor da UFPR.

de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Entre 2008 e 2009 a UFPR recebeu R$ 21 milhões por conta do programa e a previsão para 2010, incluindo a compra de novos equipamentos é de mais R$10 milhões. As obras de melhoria e de expansão consumirão aproximadamente R$42,8 milhões, mas nesse montante há recursos também do orçamento da UFPR e de emendas parlamentares. Para o reitor Zaki Akel Sobrinho, este momento histórico que está permitindo o aumento da capacidade física, vai modernizar a instituição e desafogar demandas antigas. São salas de aula, gabinetes de professores, laboratórios e novos espaços para bibliotecas, que permitirão a realização de inúmeras atividades inéditas. “Nossa ideia é que a estrutura renovada venha alavancar o crescimento para as próximas décadas”, destacou.

Escriturar o patrimônio Cerca de R$ 850 mil serão gastos na regularização de diversos imóveis da UFPR. O Prédio Histórico na Praça Santos Andrade e os Edifícios Dom Pedro I e II estão entre os que não têm escritura. “Se algum dia tiveram, esses documentos foram extraviados porque não encontramos nenhum registro deles”, disse o próreitor de Administração Paulo Kruger. Agora, a PRA começou o levantamento para saber a área exata de cada imóvel e depois entrar com o pedido de regularização nos cartórios e na Prefeitura. A falta de documentos oficiais causa problemas nos órgãos oficiais, como Prefeituras, Corpo de Bombeiros e Vigilância Sanitária. A PRA fez licitação e contratou uma empresa que fará os levantamentos em cada unidade e dará início ao trâmite para a obtenção das documentações necessárias. Quanto à segurança , a Pró-Reitoria de Administração esclarece que hidrantes e extintores de incêndio estão dentro das normas do Corpo de Bombeiros.

Reformas do campus Botânico, Agrárias e Restaurante Universitário Central

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Cultura e Extensão: Aprendizado Lúdico

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2010

Ludicidade auxilia

no tratamento de crianças com neoplasia Papel, gravuras para pintar, cola colorida, tinta guache, bolinhas de isopor, massinha para modelar, pincéis, e muita criatividade. Tudo à disposição para que as crianças se concentrem no mundo delas, um universo em que não existe dor, sofrimento, paredes frias e pessoas que vestem sempre roupas brancas. Sônia Loyola

sonial@ufpr.br

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aqueline Vicentin Patel e Nádia Gritte integram o grupo de cinco bosistas que trabalham há cerca de nove meses no projeto “A Ludicidade no cuidado da Criança Portadora de Neoplasia”, vinculado ao Departamento de Enfermagem. “Levamos sempre uma lição de vida a cada dia de trabalho”, concordam as estagiárias. Juntas, lembram sobre um menino de nove anos que, após saber da sua doença, entrou em choque: não falava com ninguém,

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não bincava mais, estava sempre distante e apático. Com a participação no projeto, por meio das atividades lúdicas, o pequeno assumiu um novo comportamento, voltou a ser criança e interagir com os demais e com a família. “Experiências gratificantes como essa é o que vivenciamos aqui em contato com as crianças, ao mesmo tempo, ganhamos motivação para continuar”, refletem as alunas. Vamos brincar? Ana Paula Andrade Azevedo, 10 anos, Samuel Vieira, 11, Elen Cristina de Paiva,

sete, além de Guilherme Pinheiro de Melo, de dois anos, são algumas das crianças em tratamento no Ambulatório de Hemato-Oncologia-Pediátrica Menino Jesus. Lá, são realizados vários procedimentos como exames laboratoriais, consultas, quimioterapia e outros. Ansiosos, estão reunidos em torno da mesa preparada para as atividades lúdicas. A pauta do dia, passada pelas estagiárias, é colorir gravuras com tinta e pincel. Cada um escolhe o seu desenho e a cor de preferência e a pintura inicia com entusiasmo. Ana Paula gosta

de estudar, mas para pintar prefere o giz de cera; Samuel quer treinar desde já porque quer ser pintor e Ellen diz que “ama desenhar pessoas, flores, bonecas e tudo”. Guilherme, muito pequeno, escolheu dar forma às massinhas. A preparação da festa de encerramento das atividades de 2009 do projeto foi outro evento que marcou bastante para Jaqueline e Nádia. “Na ocasião, as crianças curtiram tudo, desde a preparação da árvore de natal até a presença dos familiares e amigos e mais a marca registrada dos


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Fotos: Leonardo Bettinelli

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palhaços que dançaram e brincaram muito... Linguagem “O lúdico, as brincadeiras, fazem parte do universo dos pequenos, são as linguagens deles, e essas mesmas ferramentas são utilizadas para explicar o tratamento complexo e muitas vezes doloroso a que são submetidos”, diz a coordenadora da iniciativa, professora Magda Ribas Pinto. Nessa perspectiva, vale lembrar de uma experiência marcante, recorda a professora Magda. Foi quando a equi-

pe de enfermagem fez um apelo especial aos “doutores” palhaços. Nesse dia, eles acompanharam uma criança que necessitou fazer uma punção venosa. Pronto. Foi a receita certa para dar segurança, diminuir a ansiedade e o medo do pequeno paciente, transformando assim o procedimento num episódio menos traumatizante. Neoplasia A neoplasia é uma doença complexa, varia de acordo com o tipo, localização do tumor, sexo, idade e etnia do paciente. O tratamento exi-

ge um longo tempo de hospitalização que interfere no desenvolvimento normal das crianças, estas são frequentemente submetidas a procedimentos invasivos e dolorosos que, geralmente, têm efeitos colaterais. Nesse sentido, o projeto pode ser definido como uma estratégia criativa, utilizada para minimizar os efeitos nocivos da permanência no hospital e das diversas formas de atendimento, explica a professora. “Brincando, as crianças podem modificar o ambiente onde estão e trabalhar as emoções difíceis experimen-

tadas nesses momentos. Os brinquedos ajudam a liberar o medo, a ansiedade e a frustração decorrentes da doença”, complementa Magda. O projeto integra o “Programa Licenciar”da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd). Proporciona também o desenvolvimento de ações que possibilitam a interação entre a teoria e a prática na formação dos licenciados através de procedimentos formais e não-formais. O “Licenciar” foi criado em 1994 por meio do envolvimento da UFPR no Programa das Licenciaturas da SESu/MEC (Prolicen).

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Cultura e Extensão: Parceria

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2010

Reprodução

Universidade Sem Fronteiras incrementa projetos de extensão da UFPR Seis projetos da UFPR, no litoral e na Região do Vale do Ribeira, são beneficiados pelo programa Universidade Sem Fronteiras, do governo do estado

A

lunos e professores de instituições públicas de ensino superior do Paraná têm colaborado para modificar a realidade social do Estado. Por meio do programa Universidade Sem Fronteiras, que financia trabalhos de extensão desde 2007, ações multidisciplinares são realizadas em municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Atualmente, estão em execução 601 projetos, em aproximadamente 280 cidades. A previsão é de que até 2010, sejam investidos R$45 milhões, recurso oriundo do Fundo Paraná de Ciência e Tecnologia, da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (Seti). O programa Universidade Sem Fronteiras é considerado, pela Seti, a maior ação de extensão universitária no Brasil. Os projetos estão divididos em seis subprogramas, cujos temas foram definidos para contribuir no conhecimento da realidade das comunidades paranaenses. “Aprofundamos o compromisso das universidades com o desenvolvimento regional das populações paranaenses, geralmente inseridas em contextos sociais marcadas por vários desafios e problemas”, afirma a Secretária da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná, Lygia Pupatto. 20

A UFPR também participa do programa. Desde 2007, a instituição foi contemplada com cerca de R$3,1 milhões, pelos editais do Universidade Sem Fronteiras. “Estamos trabalhando com a Seti para que possamos, de forma articulada, potencializar os projetos”, afirma o coordenador de extensão da Proec, professor José Manoel Gonçalves Gândara. Segundo ele, a UFPR recebeu R$30 mil de suplementação no último edital, porque foram aprovados mais de cinco projetos. “A Seti nos orientou que se reunirmos todas as propostas do Universidade Sem Fronteiras em um único programa poderemos receber mais verba”, alerta. No ano passado, a UFPR assinou seis projetos com a Seti e Funpar. Três pertencem ao subprograma Apoio à Agricultura Familiar: “Sabores, Memórias e Identidades das Comunidades de Agricultores Familiares do Litoral Paranaense”, “Agricultura Familiar no Quilombo Areia Branca” e “Qualidade do Leite Bovino no Vale do Ribeira”. Dois estão inseridos no subprograma Diálogos Culturais: “Comunicação Comunitária na Escola” e “Dança de São Gonçalo”. E o sexto projeto selecionado está incluído no subprograma Produção Agroecológica Familiar, que será realizado no assentamento da reforma agrária Nhundiaquara Gleba Pantanal, no Município de Morretes.

A gerência administrativa dos seis programas ficou a cargo da Funpar. “Nossa flexibilidade é compatível com a dinâmica da produção do conhecimento científico e tecnológico”, garante a Gerente de Captação e Gestão de Projetos da Fundação, Aderlene Inês de Lara. Para a gestão financeira,

cada projeto tem sua própria conta corrente e um gestor responsável pelo acompanhamento e prestação de contas do recurso. “Gerenciamos estes e outros programas com responsabilidade, pois é por meio dessas ações que colaboramos para aproximar a UFPR da sociedade”, finaliza Aderlene.

Seti

Jackson Gomes Júnior

jackson@funpar.ufpr.br

Projeto para melhorias da qualidade do leite no Vale do Ribeira, uma das regiões mais pobres do Paraná


Entrevista: Pedro Bodê

Abril

“A população acha que a saída é mais polícia, prender mais, penas mais duras. É preciso mudar essa mentalidade.”

(In)segurança pública Fernando César Oliveira

fernando.oliveira@ufpr.br

“N

o Brasil, o suspeito é culpado até que prove o contrário.” A afirmação é do cientista social Pedro Bodê, coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da UFPR. Em entrevista ao “Notícias da UFPR”, Bodê – doutor em sociologia pelo Iuperj e mestre em antropologia social pela UFRJ – fala sobre violência, mídia, sistema penitenciário e polícia, entre outros assuntos. Ele critica tanto as polícias militar (“Submetidos a um regime autoritário, os policiais militares são formados autoritariamente e reproduzem isso nas ruas”) quanto à civil (“As

delegacias ora funcionam como cartório, ora como feudos”). Além de defender a reformulação da estrutura policial, Bodê propõe um judiciário “mais ágil e menos punitivo”. “A população acha que a saída é mais polícia, prender mais, penas mais duras”, avalia o pesquisador. “É preciso mudar essa mentalidade.” A seguir, os principais trechos da entrevista [leia a íntegra em www.ufpr.br]. Notícias da UFPR – Quais têm sido as abordagens do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da UFPR em relação ao tema da violência? Pedro Bodê – Temos abordado três grandes questões.

A primeira delas é relativa ao sistema penitenciário. Outra é a polícia, tanto a estrutura da organização quanto à construção de identidade dos policiais, principalmente os policiais da base. E, finalmente, as questões relativas à criminalização da criança e do adolescente, como a transformação de problemas de disciplina escolar em problemas de polícia, caso da Patrulha Escolar no Paraná, e o processo de encarceramento de crianças e adolescentes. Essa incrível mágica que transforma um dos grupos mais vulneráveis, inclusive alvos principais dos homicídios, em vitimizadores. Notícias – Na cobertura da mídia, em casos como o da morte

21

Bebel Ritzmann

2010


Abril

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Marcello Casal Jr / ABr

“A

prisão não

consegue cumprir sua promessa que é ressocializar.”

pobres, dos atos cometidos pelos pobres, na periferia e nãobrancos, que são grupos alvos preferenciais desses processos. Qualquer evento que ocorra é usado como uma espécie de caso paradigmático, para exigir mais punição, mais criminalização. Você nunca vê matérias da mídia dizendo que “adultos cometeram tais crimes”. Você vê “menores”, que, aliás, é uma denominação profundamente preconceituosa. “Menor de idade” é uma coisa. “Menor”, outra. “Menor” é como se fosse um adulto pequeno, menor. E, portanto, passivo das mesmas penas que o adulto, ainda que os processos de punição das crianças e adolescentes, dos jovens, sejam permeados por um conjunto de eufemismos. Eles são “apreendidos”, entram em “medida privativa de liberdade”, sofrem medidas “socioeducativas”...

em seu quadro e gerencia mais de 400 projetos”

Notícias – A mídia estimula o desrespeito aos direitos humanos, quando, por exemplo, expõe pessoas suspeitas como culpadas? Bodê – Direitos humanos são o direito à vida, ao respeito e ao cumprimento das leis. Valem para todos. No caso da exposição, do sensacionalismo midiático, dessas pessoas que são suspeitas, há previsão legal para que isso não aconteça. Fico me indagando como convivemos com uma situação dessa, que viola princípios básicos. No Brasil, o sus22

com a exposição de quem, até aquele momento, é suspeito. Isso é degradante, sensacionalista. Notícias – A terceira edição do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH), divulgada em 2009, prevê uma série de ações relacionadas à segurança pública, acesso à justiça e combate à violência. Desde 1996, quando foi editada a primeira versão do plano, houve avanços nessa área no país? Bodê – O Estado é uma estrutura complexa, composta de diferentes atores. Há um Estado que protege, e outro que viola sistematicamente os direitos daqueles que a outra banda tenta proteger. O plano revela uma preocupação. Desde o fim da ditadura, houve um conjunto de avanços. Uma vez que se entende por direitos humanos o direito à saúde, à justiça, à educação, criou-se uma espécie de chave de inclusão de um conjunto de direitos, que são sociais e que reforçam os direitos humanos. Talvez existam algumas questões bastante polêmicas e, claro, devem ser pautadas para serem debatidas, como o aborto, um grande tabu. O plano reuniu setores mais conservadores das Forças Armadas, rurais, eclesiais – se bem que a igreja fechou muito, quase toda ela, não apenas os setores mais conservadores – cada um pegando seu pedaço da questão. É uma absoluta falta de sentido tentar dizer, por exemplo, “vamos apurar os crimes dos supostos terroristas e os crimes

das Forças Armadas”. É pura retórica. Não tem o menor sentido dizer que houve algo semelhante ou nas mesmas proporções que a ação terrorista do Estado brasileiro naquele período. Era o Estado que estava lidando contra um grupo de jovens que se rebelavam contra a cassação da legalidade. O Brasil torturou muito. E tenta-se dizer que esses dois grupos têm o mesmo peso. Não têm. Por outro lado, foi interessante porque permitiu que o debate viesse à tona, e que esses grupos se revelassem. Esses grupos já há um bom tempo não tinham uma grande causa que os unificasse. Repito: Há casos como a questão do aborto, que envolve, sim, um debate. A gente não pode dizer, na questão específica do aborto, que há questões apenas de cunho conservador. Há questões morais, éticas, religiosas. O que unificou as Forças Armadas foi a retórica e a tentativa de dizer “nós somos vítimas”, o que é absolutamente ridículo. Em relação aos ruralistas, o que os uniu foi a manutenção do que já existe. Mas a questão talvez seja: isso tudo entra na pauta dos direitos humanos? Ora, é claro que sim, se olharmos os direitos humanos de forma mais ampla, como o direito de acesso à justiça, à saúde, ao bem-estar social. Esses temas não poderiam deixar de ser debatidos. Eu estaria sendo leviano se dissesse que não ocorreram avanços, mas eles ainda são muito aquém daqueles que precisamos.

significa que tenham deixado de ter uma estética militar. Não estamos dizendo que não se deve ter hierarquia. Não existe instituição humana que não tenha disciplina e hierarquia. E nas instituições cujos atores estão armados, têm poder de polícia, o controle deve ser maior. Alega-se que o militarismo seria necessário porque controlaria, por intermédio da cadeia de comando, o que acontece na ponta. Se isto é verdade, por que os comandos costumam dizer que as polícias não devem ser violentas, que não devem ser corruptas e, na ponta, há muitos casos de violência e corrupção? E não estou falando de tapinhas, falo de homicídios, como agora no caso dos treze policiais presos por assassinar um grupo de cinco jovens. Esse processo de militarização é atrasado. Se serve para organizar as Forças Armadas, que têm que combater o inimigo externo, não serve para lidar com questões típicas da polícia. “Polícia” vem do mesmo prefixo de “política”, vem de “pólis”. Essa polícia tem de lidar com um conjunto de conflitos, inclusive criminosos, só que cometidos por cidadãos. Tem que ser nitidamente capaz de mediar conflitos. Não existe no mundo moderno nenhuma polícia militar como a nossa. Ainda que tenham uma estrutura hierárquica rígida, o comando é civil. Não há, como no caso do Brasil, essa repetição de soldado a coronel, a entrada por uma academia militar, exatamente

“As delegacias ora funcionam como cartório, ora

funcionam como feudos.”

Notícias – Desmilitarizar a polícia militar seria uma medida positiva? Bodê – Absolutamente necessária. No mundo inteiro, quando as polícias se tornaram profissionais, deixaram de ser vinculadas às Forças Armadas. O que não

AEN

“A Funpar possui 120 funcionários

peito é culpado. Se a suspeição implica presunção de inocência, as pessoas são inocentes até que se prove o contrário. No caso brasileiro, principalmente em função de ter uma população pobre, sem acesso à justiça, o suspeito é o culpado até que prove o contrário. Fecha-se o círculo perverso

Marcello Casal Jr / ABr

de João Hélio no Rio de Janeiro, é comum vir à tona a defesa da redução da maioridade penal. Há projetos no Congresso com tal objetivo. Como o senhor avalia esse movimento? Bodê – Não é novo. Faz parte dos processos de intensificação da criminalização dos

como no Exército, e a entrada dos soldados por baixo. Quem tem mais condições entra pelo vestibular da Federal para a Academia do Guatupê, e a soldadesca toda entra pela base. Isso deveria acabar. Não há, como no Brasil, um tribunal militar que julga crimes


Abril

2010

militares. Ora, isso só teria sentido nos crimes cometidos entre militares, no interior de quartéis. Mas eles julgam todos os crimes cometidos por militares, inclusive todos aqueles cometidos contra civis, à exceção de um, o homicídio, que é investigado pelos próprios policiais, para dizer se é um

escola do crime”. E é mesmo. A prisão deveria ser usada de forma muito cuidadosa, somente para os casos mais graves. E isso não acontece. O que enche as cadeias hoje? O pequeno furto, o roubo, o tráfico. E uma parte grande desses delitos não é cometida com violência. Se o cara enquadrado

AEN

“Esse processo de militarização é atrasado. Se serve para organizar as Forças Armadas, que têm que combater o inimigo externo, não serve para lidar com questões típicas da polícia.” homicídio intencional ou se não é. A estrutura militar não é moderna e não serve para lidar com conflitos cotidianos, de mediação e que são a maior parte dos problemas que os policiais enfrentam. Esses policiais acabam submetidos a um regime autoritário, são formados autoritariamente e reproduzem isso nas ruas. Esses militares não podem fazer greve, trabalham muito acima da carga horária de qualquer outro trabalhador e não podem reclamar por isso. Há uma sujeição da tropa que produz um grau de insatisfação que se reflete na maneira como a tropa trata a população. Que comportamento esperar do policial, na ponta? O que nós vemos. E aí não adianta dizer que melhorou, que tem polícia comunitária aqui, ali. Tem é muita maquiagem.

Marcello Casal Jr / ABr

se forma nas escolas de polícia, como alguém que tem uma equipe com capacidade de investigar, muito diferente do nosso caso, no qual o delegado é um advogado, que às vezes entende um pouco mais de criminologia. Mas ele não tem à sua disposição uma polícia científica capaz de resolver os

Notícias – Ao procurar uma delegacia para fazer um boletim de ocorrência, o cidadão tem a sensação de fazer um mero registro em papel, sem efeito prático. Que capacidade de investigação tem a polícia civil brasileira? Os distritos viraram cartórios? Bodê – As delegacias ora funcionam como cartório, ora funcionam como feudos. Temos uma polícia que é ostensiva, a polícia militar, e a polícia civil, que é a polícia judiciária. Com relação à civil, temos uma posição brasileira em que os delegados são bacharéis em Direito. Em muitas partes do mundo, o delegado

problemas, capaz de assessorar a investigação. E como se dá a investigação aqui? Basicamente em cima de “eu suspeito de alguém, vou lá e o cara me conta”. Agora que, muito timidamente, usam-se questões da polícia técnica, balística, exames de DNA, impressões digitais. Basicamente, pega-se o suspeito e, em muitos casos, não existem provas consistentes. Um amigo meu, advogado, me diz o seguinte: “Bodê, eu boto a maior parte dos meus clientes na rua aplicando dois princípios, o amplo direito de defesa, associado à ideia de que quem acusa tem o ônus da prova”. Na maioria das vezes as provas são superficiais, não têm suporte científico de polícia técnica. Esse é o quadro. A polícia tem servido desde sempre, no caso brasileiro, com raras exceções, para fazer controle das chamadas supostas classes perigosas: os pobres, as populações periféricas. Notícias – Dos presidiários brasileiros condenados por tráfico de drogas, cerca de 90% são pequenos traficantes. A implantação de penas diferenciadas para esse tipo de crime seria uma boa ideia? Bodê – Claro. A prisão não consegue cumprir sua promessa que é ressocializar. As pessoas são socializadas, nós sabemos, no mundo da prisão e no mundo do crime, que habita a prisão. Então, o cara entra na prisão, e é aquilo que o senso comum diz: “a

como traficante é pego com três pedras de crack no bolso, e outro é pego com um caminhão, ambos entram na lei dos crimes hediondos. Os dois são postos, do ponto de vista criminal, no mesmo nível. Isso é uma aberração. Seria preciso usar muito mais as penas alternativas à prisão, descriminalizar um conjunto de condutas, de forma com que fossem tratadas em outras esferas que não a criminal, como, por exemplo, o uso de drogas, ou o próprio furto. Não há nenhuma prova, por exemplo, de que o furto seja a entrada no mundo do crime. Mas a ideia é essa: o cara furtou, se não puni-lo agora, ele amanhã roubará. Não há nenhuma prova de que isso aconteça. Mas há demonstrações de que o cara que furtou, entra na prisão e sai de lá membro do PCC. O Marcola é um caso assim. Usar a prisão só para os casos mais graves, usando penas alternativas à prisão, é a saída. Não podemos pedir para a prisão aquilo que ela já demonstrou, em todos os seus séculos de existência, que não consegue cumprir, que é melhorar as pessoas. Notícias – Da mesma forma, o consumo de drogas em si não está diretamente ligado a altos índices de violência? Bodê – Não. No caso do Brasil, insiste-se em dizer que a droga é a mãe de todos os males. E que 90% dos homicídios esta-

riam ligados ao tráfico de drogas. Por que outras capitais do mundo que consomem tanto ou mais drogas do que as grandes capitais brasileiras não têm o grau de violência que nós temos e não têm o índice de homicídios que temos? Notícias – Em relação aos presos que saem do sistema penitenciário, existem programas de reinserção deles na sociedade? Bodê – No Paraná, façamos justiça, há um programa de assistência ao egresso que é modelo, referência para o resto do país, o que não significa que não existam problemas. Ainda assim, o programa deveria ser maior. Como ele sai da cadeia? Carimbado como um ex-preso. A população penitenciária, acompanhando uma espécie de ideologia norte-americana de encarceramento, tem aumentado muito no Brasil. O país deve fechar este ano com meio milhão de presos no país. Isso é muito curioso, por ser um momento de suposta maior democracia, de assistência social. E temos dados aterradores, de que a polícia nunca matou tanto e de que nunca houve taxas de encarceramento como neste momento. Notícias – Um Poder Judiciário lento e por vezes inacessível, um sistema penitenciário que não reeduca, uma polícia na qual a maioria das pessoas não confia. Como mudar todo esse quadro? Bodê – Primeiro, nunca desvincular qualquer programa, qualquer processo de produção de segurança dos clássicos processos de proteção social, de dar acesso às pessoas à saúde, justiça, educação, enfim, como uma espécie de pano de fundo. Segundo, modernizar as estruturas. Precisamos ter um judiciário mais ágil, menos punitivo. Mas aí entramos numa outra questão, a população acha que a saída é mais polícia, prender mais, penas mais duras. É preciso mudar essa mentalidade, que pauta as políticas dos governos. É preciso fazer ainda uma reformulação das polícias e diminuir a voracidade do sistema penitenciário, para que ele seja usado apenas nos casos mais graves. 23


Abril

Perfil: Guilherme Cardoso de Souza Rodrigo Juste Duarte

2010

Vida acadêmica a partir dos

13 anos

Rodrigo Juste Duarte

rodrigojduarte@gmail.com

S

eu nome está no RankBrasil, o livro dos recordes brasileiros. Guilherme Cardoso de Souza é o mais jovem universitário em uma Federal. No final do ano passado ele foi aprovado no vestibular da UFPR, em 1º lugar no curso de Química. O detalhe é que ele tinha apenas 13 anos. Superdotado, Guilherme sempre foi um aluno precoce, que aprende muito rápido. Aos sete foi matriculado na Escola Municipal Dona Lulu, no bairro Sítio Cercado, concluindo a 1.ª e 2.ª séries em um só ano. Repetiu o desempenho no ano seguinte, cursando de uma só vez a 3.ª e a 4.ª séries. Quando tinha nove anos, estudou no Centro de Atenção Integral à Criança (Caic) onde fez a 5ª, 6ª e 7ª séries em um ano. Passou em seguida para o Colégio Bom Jesus, em 24

que cursou a 8ª série e o ensino médio dentro do período regulamentar. Entrar para a vida acadêmica aos 13 não foi tão complicado para Guilherme. “Já venci um ano. Foi tranquilo, mas sei que neste segundo a coisa vai dificultar”, prevê o aluno, que completa 15 anos em 28 de março. Na transição do colégio para a universidade, sentiu a mudança. “Aqui a autonomia é maior, você é mais independente. No colégio os alunos têm mais supervisão, a universidade é um pouco mais livre”, comenta. Ver um aluno tão novo pelos corredores e salas de aula do prédio de Química causou surpresa entre a comunidade do curso. “No começo fiquei um pouco preocupado quanto à adaptação dele. Em alguns casos especiais entram alunos com 16 anos, mas nunca havia passado pela minha cabeça a possibilidade de termos um

aluno tão novo”, comenta o professor Claudio Tonegutti, coordenador do curso de Química. “Os alunos se acostumaram à ideia de ter um colega bem mais novo, e o Guilherme também se integrou rapidamente com o pessoal”, relata. Se os professores estavam apreensivos no começo, o que dizer da mãe de Guilherme? “ Fiquei preocupada quanto ao trote, à aceitação entre os colegas, e o fato dele nunca ter andado de ônibus sozinho”, relata a mãe Edina Lopes Cardoso. Guilherme tem uma boa relação com os colegas. “Minha convivência com eles é normal. Continua do mesmo jeito que antigamente. A diferença é que eles são mais velhos do que eu. Mas não há conflito de gerações”, comenta. Edina sempre acompanhou o filho no longo trajeto de ônibus até a universidade, de sua casa no bairro Sítio Cercado, até o

campus Politécnico, que tem cerca de uma hora e meia de percurso. “Eu ficava fazendo crochê do lado de fora, enquanto esperava ele sair da aula”, lembra a mãe. Guilherme amadureceu bastante neste período. “Ele entrou na adolescência e está com comportamentos típicos desta fase. Está mais independente, pois entre setembro ou outubro começou a ir para casa sozinho, sem precisar me esperar sair do trabalho”, cita. A notícia do aluno que entrou para uma universidade aos 13 anos chamou a atenção da imprensa, mas isso não chegou a ser uma novidade. “Guilherme aprendeu a ler e escrever quando tinha apenas dois anos. Naquela época ele já aparecia bastante em programas de TV. E desde aqueles tempos eu guardo em uma pasta todas as matérias que saem sobre ele”, recorda a zelosa mãe.

Notícias da UFPR  

Ano 9 | Março de 2010 | Número 47

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