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LANDI: FAUNA E FLORA DA AMAZÔNIA BRASILEIRA O códice “Descrizione di varie piante, frutti, animali, passeri, pesci, biscie, rasine, e altre simili cose che si ritrovano in questa Cappitania del Gran Parà” de Antonio Giuseppe Landi (ca. 1772)


Museu Paraense Emílio Goeldi Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira

LANDI: FAUNA E FLORA DA AMAZÔNIA BRASILEIRA O códice “Descrizione di varie piante, frutti, animali, passeri, pesci, biscie, rasine, e altre simili cose che si ritrovano in questa Cappitania del Gran Parà” de Antonio Giuseppe Landi (ca. 1772)

Nelson Papavero Dante M. Teixeira Paulo B. Cavalcante Horácio Higuchi

Belém, Pará 2002


GOVERNO DO BRASIL Presidência da República Presidente Fernando Henrique Cardoso Ministério da Ciência e Tecnologia Ministro Ronaldo Mota Sardenberg Museu Paraense Emílio Goeldi Diretor Peter Mann de Toledo Coordenadora de Pesquisa e Pós-Graduação Ima Célia Guimarães Vieira Coordenador de Comunicação e Expansão Antonio Carlos Lobo Soares Comissão de Editoração Científica Presidente Lourdes Gonçalves Furtado Editora Chefe Iraneide Silva Editor Assistente Socorro Menezes Bolsista Andréa Pinheiro Editoração Eletrônica Andréa Pinheiro Capa Andréa Pinheiro e Nelson Papavero Editor Responsável Nelson Papavero Impressão Capa: Gráfica Supercores Miolo: Ministério da Ciência e Tecnologia/Serviço de Reprografia

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira/Nelson Papavero ... [et al.]. - Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2002. 261p. (Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira) ISBN 85-7098-097-3 1. Zoologia - Amazônia (Brasil). 2. Botânica - Amazônia (Brasil). 3. Landi, Antonio Giuseppe, 1713-1792. I. Papavero, Nelson. II. Teixeira, Dante M. III. Cavalcante, Paulo B. IV. Higuchi, Horácio. V. Série CDD 581.9811 591.9811 © Direito de Cópia/Copyright 2002 por/by MCT-Museu Paraense Emílio Goeldi


Ao eminente herpet贸logo e historiador das coisas amaz么nicas, Dr. Oswaldo Rodrigues Cunha, com a amizade dos autores.


Agradecimentos Agradecemos ao Prof. Dr. Márcio Meira, às bibliotecárias do Museu Paraense Emílio Goeldi, aos Profs. Drs. William L. Overal e Ricardo Secco, e ao pessoal da Editoração da mesma Instituição, pela indispensável colaboração e por todas as atenções recebidas. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela bolsa de Pesquisador-Visitante concedida ao primeiro autor, e pela Bolsa de Produtividade Científica concedida ao segundo autor.


Sumário

O Códice de História Natural de Antonio Giuseppe Landi .............................................................................. 11 A datação do Códice de Landi .................................................................. 12 Dados biográficos de Landi, principais eventos históricos desse período (1713-1792) e seus outros escritos ....................................................................................... 13 Transcrição do Códice e tradução .................................................................... 63 Notas ........................................................................................................................... 189 Índice dos nomes populares originais de animais e plantas contidos no Códice ...................................................... 249 Índice dos nomes populares de animais e plantas utilizados na tradução ................................................... 253 Referências ................................................................................................................. 257


O Códice de História Natural de Antônio Giuseppe Landi O primeiro autor a citar o manuscrito de Antonio Giuseppe Landi sobre a história natural da Amazônia (Códice 542, manuscrito, guardado na Seção de Manuscritos da Biblioteca Pública Municipal do Porto, em Portugal, proveniente da biblioteca do 2º visconde de Balsemão [cf. Mendonça, 2000: 7]), foi Francisco Marques de Souza Viterbo, numa série de biografias de arquitetos, cartógrafos, desenhadores, engenheiros, fortificadores e naturalistas, publicada em números sucessivos, e durante três anos, na Revista Militar (1893-1895). O mesmo historiador português citá-lo-ia também em seu Dicionário Histórico e Documental dos Arquitetos, vol. 2 (1904), na biografia de Landi. No Catálogo dos Manuscritos Ultramarinos da Biblioteca Pública Municipal do Porto, de A. de Magalhães Basto em 1938, o códice de Landi foi novamente citado e descrito (à p. 275). Seu título é Descrizione di varie Piante, Frutti, Animali,/ Passeri, Pesci, Biscie, rasine, e altre simili/ cose che si ritrovano in questa Cappitania del/ Gran Parà, le qualli tutte Antonio Landi de-/dica a sua Eccl:ca il Sig.e Luiggi Pinto de Souza/ Cavaglier di Malta, e Governatore del Matto Grosso/ il quale con soma fatica e diligenzza investigò/ moltissime cose appartenenti alla storia natura-/le, e delle quali si potrà formare un grosso/ uolume in vantaggio della Republica Letteraria, elaborado durante, ou posteriormente a, 1772 (segundo evidências internas do MS; ver abaixo). Compreende um volume manuscrito, em papel do século XVIII, medindo 225 x 185 mm. A encadernação é de carneira inteira, com dourados nas faces da capa e na lombada. Seu conteúdo abrange uma folha de rosto com o título, 187 páginas de texto, em que Landi descreve animais e plantas, e mais três de índice, e 67 desenhos a aquarela representativos da fauna e da flora, sendo que algumas folhas contêm mais de uma espécie ou variantes dela (neste livro não nos ocuparemos dos desenhos atribuídos a Landi, sobre os quais paira ainda grande controvérsia [cf. Adonias, 1986; Mendonça, 2000]). Há três páginas em branco no interior do álbum. Foi o ilustre historiador paraense Augusto Meira Filho quem, no ano de 1970, consultou e microfilmou pela primeira vez o precioso códice de Landi. Meira Filho divulgou a obra, inicialmente, nas edições dominicais do jornal A Província do Pará, em 1970 e 1971. Anos depois (1976), publicou um ensaio sobre Landi, intitulado Landi, esse desconhecido (o naturalista), sob o Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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patrocínio do Conselho Federal de Cultura e do Departamento de Assuntos Culturais. Os desenhos reproduzidos no livro de Meira Filho, os mesmos do códice original, representam 20 plantas (cerca de 31 espécies), 1 raia, 16 répteis (20 espécies) e 30 mamíferos (33 espécies); as plantas foram tratadas, nessa obra, por Paulo Bezerra Cavalcante, e os animais por Oswaldo Rodrigues da Cunha, ambos pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi. Não houve, nessa ocasião, possibilidade de transcrever o texto de Landi, nem de traduzi-lo, sendo apenas reproduzidas as fotografias das páginas do texto original (faltando, entretanto, as páginas 2 e 3). As fotografias, que já não eram muito boas (algumas páginas têm trechos de difícil leitura, outras trechos ilegíveis, particularmente as de número 172 a 174), perderam muito de sua qualidade, ao serem impressas. O valioso acervo reunido pelo Prof. Meira Filho foi depositado, após sua morte, na Biblioteca do Museu Paraense Emílio Goeldi. Graças à generosidade do Prof. Dr. Márcio Meira, que autorizou o acesso às fotografias do MS de Landi, o primeiro autor deste livro pôde lê-lo (tanto quanto permitiu a qualidade das fotos) e transcrevê-lo, com a respectiva tradução, aqui apresentada.

A datação do Códice de Landi Em seu trabalho “Para a história da história natural do Brasil”, incluído na revista Brasília (vol.1, 1942), da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Luís de Pina dedicou algumas páginas ao trabalho de Landi, datando sua composição do ano de 1770, equívoco depois repetido por Meira Filho (1976) e Adonias (1986). O problema é que provavelmente nenhum desses autores deve ter lido o MS de Landi. O Códice de Landi deve datar, no mínimo, de 1772, como se pode concluir de uma evidência interna; pois, à página 115 (erroneamente numerada 111 no MS), ao terminar de falar sobre a parreira, diz o autor, claramente, implicando tempo passado: “ In quanto alli altri frutti di Europpa non si uedono, e/ credo, che sia per il poco gusto di questa gente, mentre/ in 1771 piantai quatro castagne [ênfase nossa] datemi da un Capi-/tano di un Navio, e nacquero due, una pianta delle/ qualli tengo io, e già alta cinque Palmi...” (“Quanto aos outros frutos da Europa, não se vêm, e/ creio que seja pelo pouco gosto desta gente, pois/ em 12

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1771 plantei quatro castanheiras que me deu um Capi-/tão de um navio, e nasceram duas, uma das quais/ plantas tenho eu, já alta de cinco palmos...”). Mendonça (1999: 56) diz ter sido ele “escrito provavelmente em 1773”.

Dados biográficos de Landi, principais eventos históricos desse período (1713-1792) e seus outros escritos Dados sobre a época, a vida de Landi, suas atividades como arquiteto e naturalista estão nos trabalhos de Adonias (1986), Baena (1839, 1964), Barros (1948), Barata (1999), Del Brenna (1999), Matteucci (1999), Medde (1999), Meira Filho (1973, 1976, 1980), Mello Júnior (1973, incluindo bibliografia), Mendonça (1999a-d, 2000), Moreira & Araújo (1999), Oliveira (1999), Reis (1993), Roversi (1999), Salles (1968), Sousa (1999), Titarelli & Bondi (1999), Tocantins (1969) e Viterbo (1899-1922, 1962-1964), de onde compilamos os dados fornecidos na seqüência. 1713 - 30 de outubro. Data de nascimento de Antonio Giuseppe Landi, filho de Carlo Antonio Landi, doutor em Filosofia e Medicina, e de Antonia Maria Teresa Guglielmini, em Bolonha, Itália, na freguesia de S. Leonardo. [Na Itália aparece também referido como Giuseppe Antonio ou apenas como Antonio; em Portugal e no Brasil será conhecido sobretudo como Antônio José Landi]. Nada se sabe sobre seus primeiros estudos e sobre o início de sua atividade artística, depois de formar-se Mestre em Arquitetura e Perspectiva no Instituto de Ciências e Artes de Bolonha, que freqüentava desde a década de 30. Foi discípulo dileto de Fernando Galli de Bibiena, membro de uma família de artistas italianos dos séculos XVII-XVIII, que foram, principalmente, arquitetos e pintores. Algumas das gravuras feitas por Landi (fachadas de igrejas e palácios), produzidas poucos anos antes de deixar a sua terra natal para vir ao Brasil, foram publicadas por Roversi (1999). 1743 - Landi é eleito membro da Accademia Clementina de Bolonha. 1748 - Landi dirige a construção da igreja dos Agostinhos de Cesena. Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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Reinado de D. José I (1750-1777) 1750 - A 13 de janeiro de 1750 era celebrado o Tratado de Madri (cf. Reis, 1993; Papavero et al., 2000: 283-286), entre os representantes das duas monarquias ibéricas, visando dar expressão jurídica à posse efetiva de terras ocupadas há muito para além dos limites fixados pelo Tratado de Tordesilhas de 1494. Segundo Mendonça (1999: 41), “O padre jesuíta Giovanni Battista Carbone fora encarregado de fazer os primeiros contactos em Itália, com vista à contratação de astrónomos, geógrafos, engenheiros e desenhadores para a comissão que deveria passar ao Brasil, para aí, em conjunto com os técnicos escolhidos pelo Rei de Espanha, remarcarem a linha fronteiriça entre as terras de Portugal e Espanha”. Carbone morre a 5 de abril e é substituído nessa missão por João Álvares de Gusmão, padre carmelita calçado, que, a 11 de abril, recebe do Secretário de Estado Marco António de Azevedo Coutinho instruções para procurar, de preferência em Bolonha, os astrônomos, geógrafos e matemáticos necessários. Em junho, o Pe. Gusmão contrata em Bolonha Giovanni Angelo Brunelli. Landi (então com 37 anos) deve ter sido contratado pela mesma altura. A 18 de julho os técnicos contratados estavam em Gênova, aguardando a partida para Lisboa. “O grupo dos engenheiros, como era referido na Gazeta de Lisboa, comportava 16 elementos - cinco haviam sido recrutados em Itália (Brunelli e Landi em Bolonha, Cavagna em Milão, Galluzzi em Mântua e Sambucetti em Gênova), nove em Viena (entre os quais se contavam Sturm, Goetz, Groenfeld, Breuning e Schwebel), um em Basiléia, e um em Paris” (Mendonça, 1999: 43). Em agosto a comissão estava em Lisboa. Mas vários acontecimentos impediram sua partida para o Brasil. A 31 de julho havia morrido D. João V e assumira o trono português D. José I. Alexandre de Gusmão, secretário de D. João V e o genial ideólogo do Tratado de Madri, foi afastado. Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal, foi nomeado Secretário de Estado e encarregado da execução do tratado, escolhendo seu irmão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, para a sua aplicação no Norte do Brasil. Outros impecilhos fizeram com que a partida da comissão para Belém fosse postergada até junho de 1753. 14

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1751 - Francisco Xavier de Mendonça Furtado assume (24 de setembro) o cargo de (19º) Governador e Capitão-General do Estado do Maranhão e Grão-Pará. 1752 - O Tratado das Instruções dos Comissários da Parte do Norte, assinado em Aranjuez a 24 de junho de 1752, e ratificado por Sua Majestade Fidelíssima em 5 de julho do mesmo ano, dizia em seu artigo XX: “Nas ordenanças acima estabelecidas se incluirão as advertências seguintes: que os comissários, geógrafos, e mais pessoas inteligentes das três tropas, vão tomando por apontamentos os rumos, e distâncias das derrotas, as qualidades naturais dos países; os habitantes que neles vivem e os seus costumes; os animais, rios, lagoas, montes, e outras semelhanças, cousas dignas de se saberem, pondo nomes de comum acordo a todas as que o não tiverem para que sejam declaradas nos mapas e relações com toda a distinção, e procurando que as suas observações, e diligências sejam exatas, não só pelo que pertence a demarcação da raia e geografia do país, mas também no que pode servir para o adiantamento das ciências, o progresso que fizerem na História Natural, e observações físicas e astronômicas” (Adonias, 1986: 29-30). 1753 - Em carta dirigida por el-Rei a Francisco Xavier de Mendonça Furtado, datada de Lisboa, 30 de abril de 1753, recomendava o soberano que, além dos limites deviam ser consideradas “também a Geografia e História Natural desse país, e as observações físicas e astronômicas, que nele se podem fazer” (Adonias, 1986: 30). A 2 de junho parte finalmente a comissão de engenheiros, atrônomos, geógrafos, desenhadores e militares para o Norte do Brasil, com rumo a Belém do Pará, onde chega a 19 de agosto. “Chefiava a expedição o sargento-mor Sebastião José da Silva; participavam na qualidade de astrónomos e matemáticos o doutor João Ângelo Brunelli e o padre jesuíta Inácio Sanmartone [Meira Filho (1976: 24) grafa, mais corretamente, Stzentmartonyi]; como oficiais encontramos os capitães João André Schwebel, Gaspar Gerardo de Grönfeld e Gregório Rebelo Guerreiro Amaro, os ajudantes Henrique Antônio Galluzzi, Adão Leopoldo de Breuning e Filipe Sturm, o tenente Manuel Goetz; do grupo fazem parte dois cirurgiões, Daniel Panck e Antônio de Matos; Antônio José Landi integra a missão como desenhador, qualidade na qual fora contratado. O astrônomo Brunelli Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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é o membro melhor pago do grupo - 800.000 réis por ano - Landi recebe apenas 300.000 réis por ano. (...). A partida da comissão para o interior vai sofrer atrasos relacionados com dificuldades em obter índios para remarem as embarcações e os mantimentos necessários que a Corte atempadamente pedira aos superiores das várias missões, estabelecidas ao longo do percurso” (Mendonça, 1999: 47). É interessante examinar a lista do material (instrumental científico e material artístico) e da bibliografia levada pelas companhias da Comissão (Reis, 1993: 230-235): “EXPEDIÇÃO DO MARANHÃO Caixas q’ se hão-de entregar á primr.a Comp.a Caixa - Nº. 1.o - Contem dous pés de planchetas hum termometro. Caixa - Nº. 2.o - Contem quatro planchetas de pinho, de q’ os pés vão na Caixa No. 1.o duas pastas de papelão para desenhar. Caixa - Nº. 3.o e 4.o - Contem cada hûa dellas huma Camara escura p.a desenhar paizes composta de hûa Meza, 4 pés feitos de dous pedaços cada hum, hum assento, hum pé p.a o asento, hû espelho com capa de Oleado. Caixa - Nº. 5.o - Contem hûa peça de pé do quadrante gr.de inglez, q’ vai na Caixa N.o 11.º. Caixa - Nº. 6.o - Contem huma regoa de ferro batido, e burnido, em q’ vai marcada a medida da Tueza de Paris, e de hum pé dividido para por esta medida se regularem todas as q’ se fizerem. Caixa - Nº. 7.o - Contem seis cadernos de papel Real p.a tirar dezenhos em limpo: 30 cadernos de papel da menor marca pa. Dezenhos: hû resma de papel de escrever: 4 Cadernos de papel fino transparente p.a lucidar dezenhos: 7 Cadernos de papel pardo. Dous massos de penas: 5 tinteiros: 12 paus de Lapis, huma boceta com tinta da China com pinceis: hum papel com [gom]aravia: hûa caixa de diversas tintas pa. Illuminar: hûa Lata com azougue: 4 buris: hum estojo pequeno de Mathematica: 2 busolas pequenas de Latão: hum olivel: 4 regras de latão em sua caixa: hum oculo de 1 palmo, hûa bussola grande em caixa de Latão: hum relogio armilar: hûa Chave p.a o quadrante grande; hûa pedra de Sevar de Inglaterra em sua caixinha.. 16

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Caixa - Nº. 8.o - Contem hûa machadinha: hum Serrote: 12 ganchos de parafuzo: hum torno, hûa bigorna: 3 martelos: 2 tornos de mão: 2 alicates: hum escoapulo: 2 chaves de parafuzo: 6 Cabos p.a ellas: 5 pessas de arame: 2 pessas de fio de ferro, huma pessa de corda de viola: 17 pessas de varios cordeis de barbantes: 2 pessas de bezerro: 2 Covados de pano verde: 12 limas: huma cadeira de medir: 6 pinceis grandes p.a grude: hû arratel de grude de Inglaterra: 3 alenternas, hum taxinho. Caixa - Nº. 9.o - Contem o pé do Quadrante Inglês: hum Quadrante pequeno em sua caixa com suas pertenças: barometros: hum termometro: hû copo de vidro p.a meter os tubos dos barometros. Caixa - Nº. 10.o - Contem hum relogio de seg.dos de pendulo de Graham. Caixa - Nº. 11.o - Contem hum quadrante grande Inglez com todas as suas pertenças, q’ hé o triangulo do pé, o seu Olivel de Latão, e 2 regoas de páo para pôr os Oliveis, hum páo p.a dezatarraxar: hum Quadrante p.a observação do mar de...: hum Teodolete de Inglaterra em seu pé: hum Microscopio grande: hûa regoa de Latão de dous pés de comprimt.o graduada: hû estojo grande de Mathematica: huma plancheta, redonda de metal com sua regoa de asso: o pé do Quadrante grande Ingles assima vai na Caixa no. - o [sic]. Caixa - Nº. 12.o - Contem 5 Telescopios de differentes comprimt.os e hum delles tem Micrometro: hûa regoa de medir de páo: a chave do oculo de 15 palmos vai no cordel, em q’ vão atadas todas, e leva p.a sinal o n.o 9.o q’ tambem vai na Caixa do oculo. Caixa - Nº. 13.o - Contem hum Quadrante grande francez de 5 palmos de... com todas as suas pertenças, e tem hûa plancheta de Inglaterra, e o seu pé triangular vai na Caixa no.o 14.º. o Caixa - Nº. 14. - Contem o pé da plancheta q’ vai na Caixa no.o 13: hum graphometro em sua Caixa com seu pé q’ lhe pertence: hûa bussola Ingleza em seu estojo, hû nivel de espirito de Latão. Companhia 2.a Caixa - Nº. 1.o - Contem dous pés de planchetas: 2 barometros, 2 termometros. Caixa - Nº. 2.o - Contem hum quadrante pequeno de Latão com tudo o Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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q’ lhe pertence, excepto o seu pé q’ vai na Caixa n.o 10.o: hûa plancheta de latão com sua regoa de Asso. Caixa - N.º 3.o - Contem huma Camara escura p.a dezenhar Paizes composta de huma Meza: 4 pés de dous pedaços cada hum = hum assento, hû pé p.a o assento, hum espelho com capa de Oleado. Caixa - N.º 4.o - Contem 3 Telescopios = hum oculo de 4 palmos; huma regoa de latão graduada = hûa regoa comprida de páo. Caixa - N.º 5.o - Contem hû relogio de Seg.dos de pendula. Caixa - N.º 6.o - Contem hum Quadrante de páo guarnecido de Latão com seu pé = hum copo de vidro p.a meter os Tubos dos barometros. Caixa - N.º 7.o - Contem quatro planchetas de pinho, de q’ os seus pés vão na caixa n.o ... [sic]; 2 pastas de papelãp p.a dezenhar. o Caixa - N.º 8. - Contem seis cadernos de papel Real p.a tirar dezenhos em limpo = 30 cadernos de papel p.a tirar dezenhos = hûa resma de papel de escrever = 4 cadernos de papel fino pardo = 2 massos de penas = 25 páos de Lapis = hûa boceta de tintas da China com pinceis = hûa caixa de diversas tintas p.a illuminar = hûa lata com azougue = hum Olivel de espirito = 2 bussolas pequenas de Latão = hum estojo pequeno de Mathematica 4 regoas de Latão graduadas = hum papel com gomaravia. Caixa - N.º 9.o - Contem huma Machadinha: hum Serrote 12 ganchos de parafuzo = hum torno. Hûa bigorna = 2 martelos = 2 tornos de mão = 3 alicates = hûa crav.a de rosca; huma travadoura hûa chave de parafuso; verrumas = 3 cabos para ellas = huma pinsa = 5 pessas de arame amarelo = 3 pessas de fio de ferro = 17 pessas de varios barbantes = hum arratel de grade de Inglaterra = hum tachinho = ... limas = hûa cadea de ferro p.a medir; 2 Covados de pano verde, seis pinceis grandes. Caixa - N.º 10.o - Contem o pé do Quadrante q’ vai na Caixa N.o 2 hum Quadrante de ... p.a observação do mar; hum Microscopio grande. Companhia 3.a Caixa - N.º 1.o - Contem hum pé de plancheta = 2 barometros = 2 termometros. Caixa - N.º 2.o - Contem 2 planchetas de pinho, dq’ o pé vai na Caixa N.o 1.o = 2 pastas de papel p.a dezenhar = hum Quadrante de

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Inglaterra, do qual vai a bola, em q’ gira na Caixa n.o 3.º. Caixa - N.º 3. - Contem seis quadernos de papel Real p.a tirar dezenhos de Limpo = 30 cadernos de papel p.a tirar dezenhos = hûa resma de escrever = cadernos de papel fino p.a lucidar dezenhos = 6 cadernos de papel pardo = 2 massos de penas = 5 tintr.os = 15 páos de Lapis = hûa boceta de tinta da China com pinceis = hûa caixa de diversas tintas = 6 buris = hûa Lata com azougue = hum olivel com espiritos = 2 busolas de metal = hum estojo pequeno de Mathematica = hum relogio armilar = huma bola de bronze sobre a q.al anda o Quadrante q’ vai na Caixa N.o 2.o. = hum papel com gomaravia. o Caixa - N.º 4. - Contem huma Camara escura p.a dezenhar Paizes, composta de hûa Meza = 4 pés feitos de dous pedaços cada hum = hum assento = hû pé p.a o assento = hû espelho com capa de Oleado. Caixa - N.º 5.o - Contem hû relogio de pendulo de seg.dos. Caixa - N.º 6.o - Contem 3 Telescopios de varios comprim.tos = hum Oculo pequeno de 4 palmos - hû microscopío = hûa regoa de páo. Caixa = N.º 7.o - Contem hûa machadinha = hû serrote = 13 ganchos de parafuso = hum torno = dois martelos = hû torno de mão = 3 alicates = hûa craveira de rosca = hûa travadoura = hûa chave de parafuzo = 5 verrumas = 4 cabos para limas = hûa pinsa = 6 pessas de arame amarelo = hûa pessa de fio de ferro = hûa pessa de corda de viola = 17 pessas de varios barbantes = hum arratel de grade de Inglaterra = hum tachinho = 6 pinceis gr.des p.a elle = 13 limas pequenas, hûa tezoura de cortar arame = hum escoupulo = hûa cadea de ferro para medir = huma pelle de bezerro = hum serrote pequeno = 3 alanternas = 2 covados de pano verde. Numero 33 Caixas de Chaves = Comp.a G.al. N.º 30 = 31 = 32 Comp.a G.al são as Caixas dos Livros, em q’ se contem os seguintes: 7 Tomos do Tratado dos Limites da America entre as Coroas de Portugal, e Espanha. 3 Jogos de viagem, e observações de D. Ant.o Ulhoa e D. Jorge Juan no Rn.o do Quito e em outras p.tes da America, meridional: Cada jogo contem 4 tomos de viagem, e hû de observações Astronomicas [Trata-se da obra de J. J. Ulloa & A. de Ulloa, 1748. Relacion hstorica del viage a la America meridional, hecho o

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para medir algunos grados de meridiano terrestre, venir por ellos en conocimiento de la verdadera figura y magnitud de la Tierra, con otras varias observaciones astronomicas, em 5 tomos em 2 ou 3 volumes, publicada em Madri. Uma tradução francesa foi publicada em 1752]. Phisica Gravesandi 2 tom. [Trata-se da obra de s’Gravesande, W. J., 1720. Physices elementa mathematica experimentia confirmata, sive introductio ad philosophiam newtoniana, publicada em Haia, em 2 vols. Uma tradução francesa, por Joncourt, foi publicada em 1737]. Dechales cursos Mathematicus 4 tom. [Trata-se da obra de De Chales, Claude-François Milliet, 1694. Cursus mathematicus, seu mundus mathematicus, publicada em Lyon.. A primeira edição saiu em 1674, em 3 vols.]. 2 Tom de Figure de la Terre par Bouguer. [Trata-se da obra de Bouguer, Pierre, 1749. Figure de la Terre, déterminée par des observations de MM. Bouguer e de la Condamine... envoyés au Pérou pour observer aux environs de l’Equateur... Avec une relation abrégée de ce voyage, qui contient la description du pays, etc., publicada pela Academia de Ciências de Paris]. 2 Jogos do curso Mathematico de Wolfio athe o anno de 1753. [?]. 3 Jogos de Efemerides de Zanotti; contem cada jogo 2 tom. [Trata-se do livro de Zanotti, Eustachio, 1751. Ephemerides motuum caelestium ex anno 1751 ad annum 1786]. Elements de Mathematique de Dendier 2 tom. [?]. Oeuvres de Mariotte 2 tom. [Trata-se da obra de Mariotte, Edmé, 1717. Oeuvres, publicada em Leiden; outra edição foi feita em Haia em 1740]. 2 jogos de Traité des Fluxions de Maiclarin [sic]; contem cada jogo 2 tom. [Trata-se da obra de Maclaurin, Colin, 1742. A complete system of fluxions; with their application to the most considerable problems in geometry and natural philosophy, publicada em Edimburgo em 2 vols.]. 3 Tomos de Astronomie nautique de Maupertuis. [Trata-se da obra de Maupertuis, Pierre Louis Moreau de, 1743. Astronomie nautique]. 3 Tomos de Traité de Trigonometrie d’Oza[n]am avec les Tables des sciences. [Trata-se da obra de Ozanam, Jacques, 1698. Nouvelle trigonométrie]. 4 jogos de viagem, e observações de Condamine; contem cada jogo 2 tom. [Charles Marie de la Condamine publicou no ano de 1745 duas edições do resumo de suas viagens na

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América do Sul: uma em espanhol (Extracto del diario de observaciones hechas en el viage de la Provincia de Quito al Para, por el Río de las Amazonas: Y del Para a Cayana, Surinam y Amsterdam. Destinado para ser leydo en la Assemblea publica de la Academia Real de las Ciencias de Paris. Por Mons. de la Condamine, uno de los tres Embiados de la misma Academia a la Linea Equinoccial, para la medida de los Grados terrestres. Traducida del Francés en Castellano. En la Emprenta de Joan Catuffe, Amsterdam) e outra em francês (Rélation abrégée d’un voyage fait dans l’intérieur de l’Amérique méridionale depuis la côte de la Mer du Sud, jusqu’aux côtes du Brésil et de la Guiane, en descendant la rivière des Amazones, lûe à l’Assemblée publique de l’Académie des Sciences, le 28 avril 1745. Avec une carte du Maragnon, ou de la rivière des Amazones, levée par le même. Veuve Pissot, Paris]. Specula Parthenopda de Cianpriamo. [?]. Grammaire geographique de Gordon. [?]. Figure de la terre de Clairon [sic]. [Trata-se da obra de Clairaut, M., 1743. Théorie de la figure de la Terre, tirée des principes de l’hydrodostatique. David fils, Paris]. Philosophiae naturalis principia Mathematica... [Trata-se do famosíssimo livro de Isaac Newton Philosophiae naturalis principia mathematica, perpetuis commentariis illustrata, communis studio T. Le Seur et Fr. Jacquier, 4 partes em 3 vols., publicado em Genebra em 1739-1742]. ... des instruments de Mathematique de Bi... [?]. Essai de Phisique de Muschembroek 2 tom. [Trata-se da obra de Peter van Musschenbroeck Epitome elementorum physicomathematicorum in usus academicos, publicada pela primeira vez em Leiden em 1725; foi posteriormente publicada em Leiden, em 1762, sob o título Introductio ad philosophiam naturalem (2 vols.). Foi traduzida duas vezes para o francês, sob os títulos de Essais de physique (1739), obra esta incluída no rol de livros levados pela Comissão, e Cours de physique (1769)]. Decouvertes Philosophiques de Theuiton [sic] par Maclaurin [é a obra de Colin Maclaurin, Exposition des découvertes philosophiques de Newton, traduzida para o francês por Laverotte (ano ?); a primeira edição inglesa saiu em Londres em 1748). 3 jogos astronomia de Cassini [Trata-se do livro de Jacques Cassini, 1740. Eléments d’astronomie]. ... Taboas dos Signos Tangentes e Secantes de... 6 tomos. [?].” Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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1753 (11 de outubro) a 1754 (6 de abril) - Landi por várias vezes ajuda o astrônomo Brunelli nas medições que este realizava a partir da observação da lua. [Defectus lunae observatus die Sexta Aprilis apud Landi in Pará e Defectus lunae observatus die 30 Septembris 1754 in Pará apud Landi. Arquivo Histórico Ultramarino, Brasil, Pará, Cx. 14). 1754 - A 20 de setembro, Mendonça Furtado baixava a seguinte “Instrucção para os Astronomos, e Geographos, que hão de ir daqui para o Rio Negro” (cf. Reis, 1993: 272): “Enquanto no Rio Negro não participo a VM.ces as ordens que devem seguir na Demarcação dos Reaes Dominios de Sua Magestade, para poderem aproveitar o tempo na Viagem que fizerem daqui para aquelle Arrayal, observarão as ordens seguintes. Depois que sahirem dessa Cidade farão todo o possivel por hirem configurando os Rios perdonde navegarem, os rumos a que correm, os que acharem que nelles se metem, explicando todos pelos seus nomes, para cujo effeito levarão Praticos nas Canoas, e na hora do descanço conferirão as observaçoens que tiverem feito para soltarem alguma duvida que haja, e formarão hum Mappa exacto debaixo da escalla ou Petipé que no espáço de huma polegada de Pe del Rey de Pariz, comprehenda a vigesima parte de hum gráo de circulo do Equador, sem que de forma alguma se possa alterar o Methodo acima. Para que possa o sobredito Mappa ser formado com a exactidão possivel, os Astronomos, e Geographos tomarão ao meyo dia a altura do Sol, apontando a variação da Agulha e de noite, quando o tempo e as circunstancias o permittirem, farão as observações Astronomicas que são proprias para determinar as Longitudes. Tambem nesta viagem observarão as qualidades naturaes dos paizes e habitantes que nelles vivem, e os seus costumes; os Animaes, Aves, Plantas, Rios, Lagoas, Montes e outras similhantes couzas dignas de se saberem; fazendo todo o possivel porque as suas observações, e deligencias sejão exactas e para que possão tambem servir para o adiantamento das Sciencias e progresso que fizerem na Historia, e observaçoens Fizicas, e Astronomicas. Da forma porque excutarão essas ordens, me darão parte no Arrayal do Rio Negro, para fazer prezente a Sua Mag.e a actividade, zelo, e prestimo com que Vom.ces se empregão do Seu Real Serviço. Pará 20 de setembro de 1754 Francisco Xavier de Mendonça Furtado.”

A 2 de outubro de 1754, mais de um ano após a chegada a Belém do Pará, a Expedição, presidida pelo Governador e Comissário 22

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Francisco Xavier de Mendonça Furtado, parte finalmente para Mariuá, no rio Negro, a futura Vila de Barcelos, povoação onde tinha sido planejado o encontro com os membros da comissão espanhola, num total de 1025 pessoas, incluindo 511 índios. O Bispo do Pará, D. Frei Miguel de Bulhões, acompanhou a frota até a povoação de IgarapéMirim, regressando depois a Belém, onde substituiria o Governador durante a sua ausência. A frota compunha-se de 23 canoas, duas destinadas ao Governador, 11 aos astrônomos, engenheiros e oficiais, levando as dez restantes, que serviam de armazém, os soldados; integravam-na ainda várias canoas pequenas, destinadas à pesca [Essas embarcações denominavam-se: Nossa Senhora de Nazaré, Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Pilar, Nossa Senhora do Porto Salvo, São Joaquim, São José, São Miguel, Santana, Santa Bárbara, São Pedro, Nossa Senhora da Misericórdia, Nossa Senhora da Madre de Deus, São Francisco Xavier, São Rafael, Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora do Loreto, Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora do Livramento, Nossa Senhora da Lampadosa, Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Purificação. Três embarcações pequenas, sendo duas igarités, não tinham nome; Reis, 1993: 79, nota 54]. A viagem demorou 88 dias (chegaram a Barcelos em 28 de dezembro, às nove da manhã), pela dificuldade em encontrar remadores índios para substituir os que fugiam, pelo deficiente abastecimento de farinha e legumes e pela necessidade de conseguir alimentos alternativos. Desta viagem temos uma minuciosa relação (Mendonça, 1963 (II): 615-631; Reis, 1993: 276-290): “Diario de viagem q. O Illm.o e Exm.o Sñor Francisco Xavier de Mendonça Furtado Gov.or e Cap.m General do est.o do Maranhão fês para o Rio Negro na Expedição das Demarcações dos Reaes Dominios de S. Mag.e. A 2 de Outubro de 1754 sahio S. Exa. do seu Palacio acompanhado de todas as pessoas destintas, e foi a Igreja de N. Snra. das Mercês aonde ouvio Missa, e comungou, e depois de feita esta Pia, e Catholica deligencia, se embarcou com o Exm.o e Rem.o Snr. Bispo na sua canoa grande com geral sentimto e saud.e de todos os q’ o acompanharam a praya, e com elle se embarcarão as mais pessoas da Expedição nas canoas q’ lhes estavam destinadas, e logo se puzeram em marcha, dando a Infantr.a da Praça q’ estava formada na praya tres descargas de mosquetaria, as quaes se seguiram as Salvas de toda a Artelharia dos Fórtes. Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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Compunhasse toda á Tropa de 23 canoas grandes a saber duas de S. Exa. em q’ entrava hua mayor armada a maneira de Hiáte, com hûa camera bastantem.e espassoza forrada toda de Damasco cramezim com filetes dourados; era esta camera goarnecida de caxões em toda cubertos de cuxins do mesmo Demasco, e alem destes trazia mais seis tamboretes, e duas cadeiras extufadas do mesmo, com hûa meza grande e hûa papeleira de madeira amarella, e com o Retrato de El Rey no topo; tinha quatro janellas de cada lado, e duas no paynel da poupa, q’ todo estava goarnecido de talha primorozamente aberta, e no meyo as Armas Reais, tudo m.to bem dourado, e o resto da canoa era pintado de incarnado, e azul. Compunha-se a goarnição desta canoa de 26 Remeiros vestidos todos de camizas brancas, e calções azues e barretes de veludo azul, e seda côr de ouro, com xapas de prata das Armas de S. Exa. O Jacumauba, ou Piloto, levava a libré de caza de S. Exa. com hum Talabarte de veludo e sedas das mesmas cores, com hum bom xinfarotte e hûa grande xapa de prata com as Armas. A canoa piquena tambem era pintada como a grande; compunhase sua goarnição de 16 remeiros, e hum Pilouto, vestidos todos da mesma forma, q’ os outros. As mais canoas erão onze de todas as pessoas, tanto Officiaes da Fazenda, como Astronomos, e Engenheiros, e dês q’ serviam de Armazens, e de levarem parte da Infantr.a, alem de cinco canoas pequenas de pescaria, q’ pela viagem se foram augmentando de sorte q’ chegaram ao numero de 18. Saindo desta forma da Cid.e fomos pelo Rio acima buscando o Mujú, com um vento favoravel, e pela uniformid.e das canoas, e devertid.o dos vestidos dos Remejros dellas em q’ a maior parte das pesoas da Expediçam se empenharão, exedendo a todos o Secretario, do Est.o q’ era tãobem das conferencias João Antonio Pinto da Silva, o Ajudante da Salla João Fer.a Caldas, e o Prov.or da Faz.a Real Mathias da Costa e Souza, e foi, mais agradavel e hûa vista q’ nunca jamais vio o Pará, das quaes não faço menção, ou naração expecial, porq’ haverá quem com milhor estilo, e mais tempo dé conta da forma desta sahida. Fomos com esta marê ao Rio Mujú adonde se acha hûa Fabrica de madeiras, e canoas de S. Mag.e e neste lugar hospedou O Illm.o e Exm.o Snr. Gen.al ao Exm.o e Rm.o Snr. Bispo, com aquella grandeza, e decencia, que permittia o lugar, e com a mesma continuou athé a Freg.a de Santa Anna do Igarapémirim em que este Prelado se apartou de nôs. Nesta noute ficamos no d.o Cittio do Mujú, por cauza de hûas canoas, q’ foi precizo m.dar a Cid.e. No dia 3 pela manham a horas de marê seguimos a nossa viagem ao Eng.o de Antonio de Ornelles chamado o Guajarâ, adonde esperamos a marê, e nesta noute continuamos a nossa derrotta athê o Engenho de Francisco Xavier de Moraes na boca do Igarapê Mirim. Neste lugar estivemos no dia 4 áthé haver agoa para passarmos o seco do Igarapê Mirim, o qual sendo sumam.e enfadonho, por cauza dos muitos 24

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[ig?]apos, e matto, que embarassa as canoas, nesta occazião se passou com mt.a suavid.e, e pressa em razão do cuid.o q’ S. Exa. teve, em mandar limpar pr.o e com admiração de todos chegamos no mesmo dia, e marê a Freg.a de Santa Anna adonde ficamos o dia seguinte. Em o dia 5 celevrou ó Exm.o e Rm.o Bispo o Santo Sacrificio da Missa dando a comunham á S. Exa. e as mais pessoas q’ a quizerão receber das suas mãos. Neste mesmo Lugar estivemos, áthê q’ de tarde continuamos a nossa viagem em comp.a do mesmo Prellado, q’ a pouca distancia se apartou de nos, sendo salvádo com varias descargas de mosquetaria, q’ eram os sold.os das canoas e desta sorte fomos com a justissima saud.e, da sua estimavel comp.a e chegamos no dia seis de madrugada a espera da Bahia de Marapatá adonde estivemos este dia por não dar lugar o m.to vento, e marezia a atravessalla. No dia 7 pelas duas horas, e meya da madrugada se embarcou S. Exa. na canoa grande, e chamou p.a ella o Secretariio do Est.do e das comferencias, o Ajudante da Salla João Per.a Caldas, o d.or João Angelo Brunelli, os Capp.ts Engenheiros Gaspar João Gerardo Gronfeld, João André Schvvebel, e o Ajud.e Liopoldo de Breuning. e logo nos fizemos a vella com hum vento fresco, e bastante marezia. Porem com bom successo atravessamos as duas Bahias de Marapatá, e Limoeyro, de sorte q’ ao nascer do Sol, chegamos ao Eng.o de João Roiz Coelho, e pouco depois vierão todas as mais canoas, e emq.to esperamos occazião de marê, mandou S. Exa. comprar gado, q’ se mattou, e repartio pelas canoas p.a refresco dos officiaes delas e tanto neste Engenho, como em todas as mais partes em q’ portamos, observou S. Exa., a inimitavel virtude da izençam, e dezenteresse, não aceitando cousa algûa e com o seu exemplo, o fizerão tãobem as maix pessoas da Expedição, não sentindo os moradores o mais leve prejuizo, ou detrim.to. No mesmo dia depoiz de jantar, q’ foram horas de marê, sahimos deste cittio, e continuamos a nossa viagem pelo rio Japy, q’ hé bastanttem.te comprido, e largo, e pelas 8 horas da noute chegamos a boca da Bahia de Pedro Furtado adonde ficamos. No dia 8 pelas quatro horas da madrugada chamou S. Exa. p.a a Sua canoa grande as mesmas pessoas p.a passarmos a Bahia de Pedro Furtado, e por ella navegamos com m.ta filicid.e, e bom vento, athé q’ pelas outo horas da manhãm chegamos ao Eng.o deste homem, de q’ a Bahia toma nome. Nelle estivemos áthê depois de jantar, e mandou S. Exa. mattar mais rezes p.a toda a comitiva de officiaes, sold.os e Indios, e pelas tres horas da tarde sahimos deste Eng.o e fomos correndo á Costa de Joanes, athê a boca do rio Samánayé em que portamos. Em o dia 9 pela madrugada, seguimos a nossa viagem pela ditta costa ao rumo da Aldeya de Guaricurú, e ficamos no rio, q’ vay a boca da Bahia da d.a Aldeya. No dia 10 nos levamos do d.o rio pelas seis horas da manham a buscar a Aldeya, adonde chegamos pelas onze horas, e a achamos dezerta, Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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sendo das mais populosas do Certão, pois não estava nella mais q’ o P. Martinho Schuvari, q’ hê companheiro do P. Miss.o; tres Indios velhos, alguns rapazes, e poucas Indias mulheres de alguns remeiros, q’ vinhão na Tropa. Logo que ouvimos Missa mandou S. Exa. receber 285 panejros de farinha por conta da Derrama, q’ se tinha lançado nas Aldeyas, e p.a se porem promptos seis Indios p.a esquipação de algûas canoas, q’ hiam mal remadas; foi preciso hum excessivo trabalho, e vallerse S. Exa. de algûa força mandando soldados pelas rossas, e pelos mattos adonde todos estavão metidos, e os poucos, q’ aparecerão, confessaram que toda a gente tinha fugido, por pratica, e instrução q’ o P. lhes tinha feito. No dia 11 pelas doze horas, e meya da manham, partimos desta Aldeya, fazendo-nos a vella p.a a de Arucará com hum vento galerno, e pl.a hûa hora, e meya, chegamos nella adonde achamos o P. Miss.o Manoel Ribr.o com pouca mais gente q’ na passada, e sendo-nos precizos alguns Indios em hûas canoas, q’ hiam faltas delles, foi precizo mandallos buscar pelas rossas, por cuja cauza pernoutamos nesta Aldeya, e no outro dia pela manham, se juntara, com m.to trabalho dês Indios, e os Principaes, e algûas mulheres, trouxerão os seus prez.es costumados, a q’ chamão putavas, ao Exmo. Snr. Gen.al, as quaes lhe forão reçarcidas, e satisfeitas, com pano de algodão, fitas, sal, e outras drogas, q’ elles mt.o estimão. No seguinte dia, q’ foram doze, quando a marê deo lugar, que foi pela hûa hora da tarde nos fizemos a vella com hum vento favoravel, e depois de navegarmos por toda a Bahia desta Aldeya, entramos pelo Igarapêpuca, e por elle fomos com bom sucesso; porem por cauza da sua grande extenção, não podemos vencer neste dia, e pelas sette horas da noute paramos nelle. No dia 13 pelas quatro horas da madrugada, seguimos a nossa viagem pelo mesmo Igarapê, e pelas dês entramos no rio Tajupurú, e nelle portamos p.a se dizer Missa por ser Domingo, e jantando no mesmo lugar continuamos pelas duas horas da tarde a nossa viagem por este rio, pelo qual navegamos os dias 14, 15 e em 16 entramos pelo Igarapê chamado do Limão, q’ hé tão largo como o mesmo rio Tajupurú, e bastantemente comprido porq’ navegamos por elle todo este dia, e no de 17, em q’ pelas onze horas da manham chegamos a boca do grande rio das Amazonas, e neste lugar pernoutamos, não tendo em todos estes dias, mayor cuidado, que algûas trovoadas, as quaes não se fazia mt.o timiveis por serem em rio em q’ podiamos chegar mui faiclm.e ao matto. A 18 entramos a navegar pela margem do sul do rio das Amazonas em demanda da Fortaleza de Gurupá, porem não podendo vencer neste dia mais, q’ hûa grande Anciada, e pouca parte da outra, portamos na costa, ou margem do mesmo rio, em hûa Fejtoria q’ foi de cacao, e donde ficamos nesta noute, dormindo S. Exa. e algûas pessoas mais em terra em hum piqueno Tujupar, q’ tinha servido da tal Fejtoria, mas cõ bastante cuid.o, e sintinellas as Onças, porq’ havia poucos dias, q’ naquelle mesmo Lugar tinhão devorado dous Indios. 26

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No dia 19 de madrugada continuamos a nossa derotta, e refrescando-nos o vento, q’ era favoravel, chegamos pelas dês horas da manham a Fortaleza do Gurupá, vencendo nestas poucas horas, hûa viagem bastantem.e dilatada; nesta Fortaleza, foi S. Exa., recebido com hûa salva de Artilharia, e com as mais sirimonias, e politicas Militares, e logo mandou celebrar Missa, pelos Capelães da Expedição, recolhendo-se as cazas do Com.e da Fortalleza, por não servir-se do Hospicio dos Religiosos Capuchos da Prov.a da Pied.e pois não quis em parte algûa dar incommodo aos Regullares, nem tambem aos moradores. No dia 20 depois de se dizerem as Missas na Igreja Matriz da Villa de Santo Ant.o do Curupá em q’ se acha a Fortalleza, mandou S. Exa. destacar o Cap.ao Miguel de Siqr.a Chaves p.a o rio Xingú ativar alguns Indios daquellas Aldeyas, para suprirem o lugar de outros q’ tinhão dezertado levando este cap.ao ordem p.a se ir emcorporar com a Tropa nas Amazonas, na parajem em q’ nos encontrar. Neste dia deu S. Exa. de jantar a todos os Officiaes, q’ quizerão hir a sua meza, com toda a grandeza, q’ permittio a qualid.e do Pais, e a noute deu tambem de seyar da mesma maneyra. Vendo S. Exa. o pouco adiantam.to q’ tinha a Igreja q’ aqui se está fazendo p.a servir de Matriz, exortou o Vigr.o, e alguns Freguezes, q’ alli se achavão, p.a q’ com effeito concluissem aquella obra com se achavão logo. S. Exa. lhe mandou dar de Esmolla 50$000 rz. de sua Igreja, e não só recomendou ao Vigr.o os adiantamt.os desta obra, mas tambem se encarregou ao Ten.te q’ se acha destacado na Fortalleza, p.a q’ desse todo o adjutorio possivel. Na mesma Fortalleza ficamos no dia 21, repetindo S. Exa. a mesma grandeza, afabilid.e, e mandou dar aos sold.os da Guarnição hûa esmolla, q’ repartindo-se entre elles, e sempre foi sorte, q’ todos remediados, e contentes, e nestes dias se ocuparam os Engenheiros em tirar o desenho da Fortaleza, medir a Villa, e tirar o prospecto della da parte do rio, e ao mesmo tempo se receberem algûas farinhas da Derrama, e se comprou algum peixe seco para mantimt.o das m.tas pessoas de q’ a Tropa se cõpunha. Pelas 8 horas da manham do dia 22 embarcamos cõ menos 16 Indios, q’ fugirão das equipaçoens das canoas, não respeitando estes, nem a mesma de S. Exa., da qual lhe dezertarão sinco da Aldeya do Maracanã, e continuando a nossa viajem pelo rio das Amazonas acima da parte do Sul, chegamos pelas onze horas da manham ao Citio de Estevão Cardoso, adonde S. Exa. mandou parar as canoas p.a receber alguns mantimentos, e nesta noute ficamos em hûa Anciada abrigados de hûa Ilha, em q’ passamos sem cuid.o nem susto algû. No dia 23 pelas sette horas da manham, nos fizemos a vella com hum vento favoravel, e pelas onze chegamos a Aldeya de Arapijó, adonde S. Exa. saltou em terra com alguns Officiaes, e nesta Aldeya jantou, e ficou áthê o dia seguinte, recebendo 30 alqueires de farinha por conta da Derrama, e as Indias Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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trouxeram as suas costumadas putavas, q’ quase todas constavão de m.ta quantid.e de bananas, ou pacovas, e depois de S. Exa. as mandar recompensar com fitas, facas, panno, e sal, as mandou repartir pelos Officiaes da Espedição, e da Infantaria, na forma que praticou em todas as partes, comettendo esta dilig.a aos Officaes da Faz.da. Esta Aldeya hê piquena, e administrada pelos religiosos capuxos da Prov.a da Pied.e: fica em hû alto agradavel, está com suficiente asseyo p.a a pobreza della, porem tem bastante praga de carapanã, e muquins de sorte que de noute nos mortificavam bastante. No dia seguinte q’ foram 24 sahimos desta Aldeya pelas nove horas da manham com hum vento bastantem.te picado pela hûa hora da tarde chegamos á Aldeya de Caviana, q’ tambem hê pequena, e administrada pelos mesmos religiosos, e não tivemos mais demora, q’ emq.to S. Ex. mandou hum Official a terra, receber 25 alqueires de far.a por conta da Derrama, e chegamos pelas 5 ao Citio chamado do Taparâ, adonde estava aquartellada a Comp.a de Granadr.os do Mar.ma de q’ hê Cap.m João Telles de Menezes, e Mello, e aqui foi recebido com tres descargas de mosquetaria da mesma Comp.a, e pernoutamos no mesmo lugar, q’ não hé desagradavel. No dia 25 pelas outo horas da manham, depois de S. Exa. mandar dar hûa pataca de Esmolla a cada hum dos Sold.os da Comp.a continuamos com a nossa viagem levando daquelle quartel ao Ten.e de Granadeiros Luiz Alves por estar em dezordem com o Cap.m, e ao mesmo tempo da partida veyo encorporarse comnosco o P. Ignacio Samartone religioso da Comp.a e Astronomo da Expedição, q’ vinha de Macapá adonde S. Exa. o tinha man.o, e proseguindo a nossa viagem chegamos pelas duas horas da tarde a Aldeya de Maturú, q’ tambem hé administrada pelos religiosos capuxos da Prov.a da Pied.e adonde pernoutamos, e de tarde se fês hûa gr.de pescaria com as redes, q’ S. Exa. mandou repartir na forma ordinaria por todas as canoas, não só pelos Officiaes dellas, como tambem pelos sold.os, e Indios, q’ com esta providencia, a qual se repetia quaze todos os dias; forão as m.tas pessoas dque se compunha a Tropa, fartas, e satisfeitas, porque nos lugares, em q’ não era possivel lançar-se as redes, supriam as canoas de pescaria, e linhas, frechas, e arpõis. Hé esta Aldeia mayor q’ as duas antecedentes, e está cituada na Fôs do rio Xingú em hum citio bastantem.e agradavel; porem esta m.to damnificada e sem Igreja, por se ter deribado a que havia q’ se achava sûmam.e arruynada. As Indias comcorrerão com as suas costumadas putavas, q’ S. Exa. lhe mandou comrrespoder na forma das mais, e aqui tambem mandou receber 36 paneiyros de far.a por conta de Derrama. A 26 pela manham passando-se mostra aos Indios das canoas se achou terem dezertado na noute antecedente 36 sendo todos das Aldeyas, q’ administram os religiosos da Comp.a, e como algûas canoas vinhão já faltas de remejros, se vio S. Exa. precisando a tirar a esquipação da Canoa do Cap.m 28

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Miguel da Siq.a Chaves, q’ aqui se tinha juntado com a Tropa, repartindo os Indios della com mais seis, q’ tirou da Aldeya, pelas outras canoas, e mandou o d.o Cap.m em hum Botte pequeno as Aldeyas deste rio a buscar gente, ficando a sua canoa esperando athe que elle viesse com os remeyros, q’ hia buscar. Pelas dês horas da manham sahimos da Aldeya, e navegando pouco tempo pelo rio Xingú entramos p.lo rio Aquiqui, e pelo meyo dia paramos nele áthê q’ as tres horas da tarde continuamos a nossa viagem pelo mesmo rio em o qual dormimos esta noite com o incomodo de algûs carapanãs. No dia 27 fomos navegando pelo mesmo rio, q’ hé todo cheyo de campinas, e pelas quatro horas e meya, entramos pelo Guapará, que tambem tem muitas campinas, e navegando athé as outo horas da noute, portamos em hum citio tam cheyo de praga, q’ poucas, ou nenhûa pessoas poderam dormir. A 29 entramos novam.e no gr.e rio das Amazonas, e seguimos a Costa chamada de Maguary-jurapara, q’ hé bastantamente arriscada por hum gr.e baixio q’ tem, em q’ batem mt.o os ventos Lestes, porem com hûa felicid.e grande o passámos, e fomos prenoutar em hûa piquena Anciada entre Ilha adonde ficamos abrigados de algûa trovoada, q’ podesse vir. No dia 30 continuamos a nossa viagem com hum vento fresco, e pelas quatro horas da tarde portamos em hûa praya da mesma Costa do Sul, q’ estava sem abrigo por não haver citio melhor, e plas seis horas da tarde tivemos hûa intensissima trovoada de Oeste, q’ se não fosse o grande cuid.o, e trabalho com que os Indios seguravam as canoas, certam.e algûas poderiam perecer naquella Costa. Durou esta trovoada mais de meya hora, ficando depois a noute m.to serena, e em consequencia as canoas em tranquilid.e. Pelas quatro horas da manham do dia 31 nos levamos aquella praya com hum vento favoravel, más brando, de sorte q’ pelas três e meya da tarde portamos em hûa Anciada, ou lago, em q’ se fês hûa grande pescaria, q’ se repartio na forma ordinaria, e p.a q’ houvesse todos os dias peixe fresco, q’ satisfizesse a todas as pessoas da Expediçam, poriço portamos mais sedo do que custumam os homês, que andavam vadiando estes rios. Neste lugar passamos a noute com hum excessivo callor e algûa praga de sorte que poucas pessoas poderam dormir. No principio de Novembro pelas quatro horas de madrugada continuamos a nossa viagem, e pelas nove portamos no lugar chamado das Barreyras adonde disceram Missa os P.es Capelães: logo nos fizemos a vella athé a boca do rio Coroá adonde ficamos esta noute abrigados do tempo, ainda que com algûa praga. A (...) do d.o mês nos levamos deste Citio, e com pouco vento navegamos athé as quatro horas da tarde, e ficamos abrigados de hûa Ilha em q’ passamos a noute, e neste dia nos morreu hum Indio na canoa do Hospital. Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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No dia 3 seguimos a nossa rotta com m.to vagar por falta de vento, e pelas nove horas da manhãm portamos p.a se dizer Missa, e enterrar outro Indio, que tambem morreu no Hospital, e pouco mais nos avansamos por cauza de algûa xuva, q’ houve, e nenhum vento, e pelas cinco horas da tarde ficamos em hûa Costa, q’ ainda estava algûa couza abrigada de hûa Ilha, sempre nos daria algum cuidado se a noute não fosse tam serena. Na madrugada do dia 4 nos fizemos a vella, e refrescando o vento pelas sette horas da manham chegamos pelas nove e meya a Fortaleza dos Tapajos adonde S. Exa. foi recebido com salva de Artilharia, e três descargas da Comp.a de Granadeiros do Cap.m Josê da Silva Delgado: no que que S. Exa. saltou em terra, foi a Igreja fazer oraçam e depois se aquartelou nas cazas dos Officiaes da Fortaleza, não querendo sirvirse das do Pe. Missr.o por não dar em parte algûa este incommodo aos religiosos, hê esta Fortaleza situada na Fôs do Tapajôs e junto a ella estâ hûa populosa Aldeya da administração dos religiosos da Comp.a de que hê Missionario o P. Joaquim de Carvalho, a qual hê bastantem.e aprazivel por ser fundada em hûa formoza praya de areya, e tambem a achamos com pouca gente, de sorte, q’ sendo precizos Indios por fugirem aqui 18 foi necessario a S. Exa. mandallos buscar as Aldeyas de Cumaru, e Borary do mesmo rio. Por esta cauza, e por descançar a gente de tam dilatada viagem, se demorou S. Exa. neste lugar nos dias 5, 6, 7, 8 e 9 mandando matar algum gado, e dando meza a todos os Officiaes q’ quizerem hir a ella. Nesta povoação foi S. Exa. tambê vizitar logo a Igreja que se está fazendo p.a servir de Parochia, e vendo o pouco adiantamento, q’ tinha, remandou dar seis Indios p.a trabalharem nella, pagos a sua custa, como tambem deixou ordem p.a se comprarem por sua conta, todos os pregos, e mais ferragens, q’ fossem precizas, p.a se concluir a d.a Igreja, encarregando a construção desta obra ao Cap.m Miguel de Faria, q’ alli se achava destacado. Tambê aqui mandou S. Exa. repartir a mesma propina aos Sold.os, tanto da Guarnição da Fortaleza, como da Comp.a de Granadr.os que alli se achava quartellada, e juntamt.e mandou prover de novo todas as canoas dos Astronomos, e Engenhr.os de tudo o q’ lhe fosse precizo recommendando aos Officiaes da Faz.da a observancia da ordem, q’ lhe tinha dado na Cid.e, p.a q’ os socorressem de todos os mantimentos precizos, cuja deligencia repetio em todos os lugares em q’ tivemos algûa demora. Aqui chegou o Cap.m Miguel de Siq.a Chaves no dia 6 com os Indios, q’ S. Exa. lhe mandou buscar as Aldeyas do Xingú, e logo foi as de Vorary, e Comaru, reconduzir outros em lugar dos 22, que dezertavam nesta Fortaleza. Chegado, q’ foi o d.o Cap.m partimos no dia dês pelas sette da manham depois de ouvirmos Missa, e synamdonos [?] hum vento bastanteme fresco, chegamos pellas sette horas da noute ao Citio de Josê de Souza e S.a em Paricatuba adonde prenoutamos em hûa piquena praya, mâs abrigada ao tempo. 30

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No dia 11 pelas cinco horas da madrugada vento algum, ficamos no Igarapé Pixuna, ou boca do Lago, q’ vay ter a terra do Comarú adonde chegamos pelo meyo dia, e de noute tivemos algûa praga. Pelas quatro horas da madrugada do dia 12 nos fizemos a vella, com hum vento tam fresco, q’ a muitas canoas foi precizo arrear parte do pano, e com basta marezia, atravessamos a Fortaleza dos Paoxios adonde S. Exa. foi recebido com salva de pouca Artilharia della, e com as mais politicas Militares. Nesta Fortaleza q’ se acha em hum Citio eminente, e agradavel nos demoramos no dia 13 em q’ S. Exa. mandou matar duas rezes, q’ se repartiram pelos Officiaes, e deu meza a todos os q’ a quizerão como tambem mandou repartir pelos sold.os da goarnição a mesma propina q’ tinha dado aos Destacamentos antecedentes. No dia 14 ouvimos Missa, e pelas outo horas da manham, seguimos a nossa viagem com vento brando athé a boca do rio das Trombetas adonde chegamos pelo meyo dia, e nelle ficamos pr ser a espera certa das canoas q’ vão p.a o certam, e aqui encontramos hûa canoa com hum sargento, e quatro soldados, q’ o Tent.e Diogo Antonio de Castro mandou do Destacam.o do rio da Madr.a a escoltar huns Mineiros, q’ descerão das Minas de Mato Grosso dos quaes se tinhão apartado havia quatro dias, por cauza de hûa gr.e trovoada, q’ os separou e em q’ nunca mais se encontrassem. Pelas quatro horas da madrugada do dia 15 continuamos a nossa viagem pela margem do Norte do Rio das Amazonas por hûa costa bastantem.e dezabrida, e pelas nove horas encomtramos os Minejros, q’ se tinhão apartado dos soldad.os q’ os conduziam, e mandandolhe S. Exa. fazer aprehenção do ouro em pó, que eram quatro mil trezentos e quarenta e três outavas, e meya comforme as Ordens de S. Mag.e as mandou depositar em poder do Tezoureiro da Expedição, e representadolhe depois os homês o incomodo, q’ lhe rezultava de voltarem p.a o Rio Negro, lhes facilitou licença de poderem hir p.a o Pará, ficando sempre o ouro em poder do Tezoureiro, por não se arriscarem em hûa ubâ tam mal segura como a em q’ vinhão. Pelas sette horas da noute atravessamos o rio p.a a parte do Sul, e ficamos entre hûas Ilhas bastantem.te abrigadas de qualquer tempo. No dia 10 partimos pelas cinco horas da madrugada sem vento algum, e pelo meyo dia chegamos a hûa Ilha de areya, q’ neste lugar foi distinta, tanto na qualid.e como na quantid.e. A 17 pelas quatro horas da madrugada nos levantamos, e não tendo mais demora q’ em q.to se dice Missa por ser Domingo, continuamos a mesma margem, navegando com pouco vento, e por não termos abrigo algum nella, andamos áthê depois das nove horas da noute, em que chegamos a boca de hum pequeno rio chamado Paraná Mirim, adonde na madrugada tivemos hûa gr.e trovoada, q’ se não fora o Citio tam amparado, certam.e cauzaria mayor cuid.º Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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No dia 18 pelas seis horas da manham, seguimos o mesmo rumo tambem sem vento algum, e chegamos pl.o meyo dia a hûa Anciada em que ficamos, e não continuamos a viagem por ser mt.o distante a espera, q’ se seguia, de sorte q’ não se poderia vencer se não mt.o tarde. Nesta noute tivemos mt.as trovoadas de todas as partes, e estiverão as canoas em bastante dezasusego, e continuando-nos este trabalhozo tempo, no dia 19 não fizemos viagem, e nos metemos em hum Igarapé adonde ficamos. Na madrugada do dia 20, continuamos a nossa viagem, e refrescandonos o vento, chegamos com bom sucesso pelas quatro horas da tarde a hum Igarapê bastantem.e largo adonde passamos a noute com m.a tranquilid.e. Pelas quatro horas da madrugada do dia 21, nos levamos deste porto, e seguindo a nossa derrotta com hum vento galerno, navegamos áthê as tres horas e meya da tarde, em q’ portamos em hum Igarapê bastantem.e abrigado, tanto por nos acalmar o vento, como por ser o porto, q’ se seguia mt.o distante, o qual não se poderia vencer, sem andarmos mt.a parte da noute. A 22 de madrugada sahimos deste porto sem vento algum, porem com o dia bastantem.e carregado, de manejra, que atravessando as amazonas pelas onze horas da manham p.a a parte do Norte com hûa trovoada, q’ nos cauzou cuid.o e algûas canoas, q’ vinhão mais atrazadas lhes o portarão a mayor força. Estando nos já da parte do Norte abrigados a hûa grande Ilha, que forma das mesmas Amazonas, como hum diferente rio a q’ os Indios chamão Paraná Mirim, nos demoramos na boca athé as sette horas da noute emquanto se fés hûa gr.e pescaria, e pelas sette horas navegamos por elle asima athê a meya noute. No dia 23 pelas cinco horas da madrugada entramos a navegar, e neste dia tivemos algûas trovoadas, q’ não nos deram mt.o cuid.o por irmos abrigados da d.a Ilha, ao fim da qual chegamos pelas cinco horas da tarde adonde prenoutamos. Na madrugada do dia 24 continuamos a nossa viagem pela dita costa do Norte, e dezendo-se Missa em hûa piquena Anciada; fomos depois della passar as Correntezas de Cararáucú q’ sendo grandes, tanto na intenção, como na extençam, ficam em hûa Anciada sumam.e desabrida, e toda esta terra hê bastantem.e alta, e cheya de barreyras de q’ os Indios tiram tintas de varias cores. Neste dia fomos ameaçados de algûas trovoadas; porem tivemos a filicid.e de todas se desfazerem sem chegarem a nôs, e pelas quatro horas e meya da tarde, chegamos a hûa anciada, passada a ultima correnteza, donde ficamos bastantem.e abrigados a qualquer tempo. Pelas quatro horas da madrugada do dia 23 nos fizemos a vella com hum vento bastantem.e forte, por causa do qual, querendo os Jacumaubas aproveitalo porq’ durou áthê depois de noute, avançamos, e porto em que deveramos ficar, e passamos a noute em hûa bem piquena Anciada, e cheya 32

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de paos cahidos, e exposta bastante ao tempo, de sorte que se chuvesse algûa trovoada (q’ esteve desposta) certam.e padeceriamos algum trabalho. A 26 pelas tres horas da madrugada continuamos a nossa viagem, e refrescandonos ao nascer do dia, hum vento sumam.te forte, q’ levantou bastante marezia chegamos pelo meyo dia a boca Occidental do Rio Saracá, ou Urubú, dedonde S. Exa. mandou as prayas mt.a parte das canoas da Tropa, carregar innumeraveis Tartarugas, q’ lá estavão viradas por Ordem do mesmo Snr. q’ se tinha anticipado a mandar a esta dilig.ca, q’ certam.e foi utilissima, porque fartou a todas as pessoas de q’ se compunha a Tropa, e hé sustento q’ dura mt.os dias. Para se fazer esta dilig.ca foi precizo demorar-nos no mesmo porto no dia 27. No dia 28 pelas sette horas da manham, sahimos do dito Rio Saracá, e navegando com pouco vento athé as cinco horas da tarde em que portamos ao abrigo de hûa Ilha. Na madrugada do dia 29, seguimos a nossa derrotta, tãobem com pouco vento, e bastantes signais de trovoadas, q’ não chegaram a descarregar, e pelas quatro horas e meya portamos na Anciada de Itaquatiara, nome q’ deram os Indios aquelle Citio, por ter hûa ponta de pedras cô alguns riscos a similhança de caracteres, q’ não dizem, nem significão couza algûa. Pelas quatro horas da madrugada do dia 30 nos levamos, e sem mais demora q’ emqt.o se dice Missa, chegamos pelas quatro da tarde a hûa boa praya amparada de hûa Ilha da qual tiravão os Indios grande quantid.e de ovos de Tartarugas, e se fes hûa grande pescaria, toda de excelentes pescados, que se repartirão na forma ordinaria. No prymeiro de Dezembro de madrugada entramos a navegar e por ser Domingo se dice Missa, em o lugar que se achou mais acomodado, estivemos este dia duas horas só de vento, e bastantes signais de trovoada athé as cinco horas e meya da tarde em q’ portamos em hûa Anciada pequena, de sorte que algûas canoas ficarão fora della. A 2 nos levamos pelas quatro horas da madrugada, e todo este dia navegamos, com pouco, ou nenhum vento, athé q’ pelas Ave Marias portamos em hûa Anciada, tambem com pouco abrigo. Pelas quatro horas da madrugada do dia 3 seguimos a nossa derotta sem vento algum, e de tarde tivemos bastantes trovoadas por Citio mt.o baixo, de sorte q’ a mayor parte das canoas foram tocando, áthê q’ pelas sette horas da noute portamos em hum rio bastantem.e abrigado, no qual ficamos no dia 4 por amanhecer mt.o carregado, e ameaçando bastãtes trovoadas, que houve. No dia 5 pelas três horas, e meya, sahimos deste rio continuando a nossa derrota, e refrescando-nos o vento pelas onze horas do dia, passamos algûas correntezas por lugares de bastantes pedras, athé que pelas sette horas da Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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noute portamos na costa sem amparo algum, junto a hûa correnteza grande de pedras, q’ fica pouco antes da de Puraquêquara, e nesta noute q’ foi tranquilla, veyo juntarse a Tropa o R. P. José da Gama, q’ tinha ficado nos Topajós, curandose de hûa indisposição que padeceo. No dia 6 ao nascer do sol principiamos a passar a correnteza em que houve algûa demora, por ser precizo hirem as canoas com distancia hûas das outras, e tãobem porq’ foi necessario puxarse a corda a canoa grande de S. Exa. e a do Cap.m João Baptista de Siq.a, e logo nos refrescou o vento, de manejra q’ passamos sem demora, ou trabalho algum, a corrêteza do Puraquéquára, e duas mais, q’ se lhe seguem, q’ taõbem são grandes. Nesta tarde tivemos hûa grande trovoada, q’ por ser de Leste corremos com ella ainda q’ com cuid.o e pelas cinco horas e meya da tarde, chegamos a correnteza de Itápéba, q’ hé na boca do Rio Negro adonde ficamos. Pelas seis horas da manham do dia 7 principiarão as canoas a passar a correnteza, q’ todas o fizeram a remo, menos a grande de S. Exa., e de João Bapt.a Siqr.a, q’ com bastante trabalho se puxarão a corda e logo entramos a navegar pelo rio Negro com vento fresco e pelo meyo dia chegámos a Fortalleza. Depois de ouvirmos Missa no dia 8 mandou S. Exa. repartir pelos sold.os desta Guarnição a mesma esmolla, q’ aos das outras, e fazendonos a vella pelas outo horas da manham com hum vento fresco, navegamos por hûa grande Anciada, passada a qual ficamos em hum excelente porto adonde chegamos pelas quatro horas, e meya da tarde, e passamos a noute com tudo o socego. A 9 partimos deste porto pelas seis horas da manham, por não permitir o rio Negro navegar-se de noute, e por termos pouco vento ficamos depois de hûa hora da tarde em hum Lago por ser m.to distante o outro porto, q’ se seguia, e nesta manham mandou S. Exa. adiantar a canoa do Sargr.o Marçal Cordejro, p.a comprar algûs viveres pelas Aldeyas. No dia 10 sahimos deste Lago pelas seis horas da manha, e navegando com pouco vento, tivemos de tarde algûas disposições de trovoada, q’ não chegarão a descarregar, athé q’ pelas Aves-Marias portamos em hûa excelente Anciada, q’ a natureza fês a maneira do mais abrigado Ilhote, junto ao Igarapê chamados das Anavilhanas. Na madrugada do dia 13 atravessamos a piquena parte, q’ nos restava do rio Negro, e navegando por elle asima da banda do sul, chegamos pelas quatro horas da tarde a hum bom igarapê adonde passamos a noute. A 14 continuamos a nossa viagem pela d.a costa q’ hé m.to cheya de pedras, e algûas lanção grandes pontas ao Largo, e por termos hum vento forte pela proa avanssamos pouco, e aportamos pelas duas horas em hum Igarapê bastantem.e abrigado. No dia 15 depois de se dizerem as Missas fizemos viagem pelas sette horas da manham, e presiguindo-nos o mesmo vento rijo, e contrario, por impertinentes e ariscadas pontas de pedras, tãobem não avansamos mt.o e ficamos em hum Igarapê bastantemêt.e deffendido do tempo. Pelas sete horas da manhã do dia 16 principiamos a navegar com vento favoravel, q’ 34

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durou pouco tempo, e passamos o Citio chamado das Igreginhas, q’ hé hûa ponta de pedras, junto de hûa roxa, na qual se acham algûas concavidades de diferentes grandezas, e continuando a nossa viagem em calmaria, ficamos pelas quatro horas em hûa Anciada em q’ passamos a noute. A 17 seguimos a nossa derotta, e pelas onze horas da manhaã chegamos a Aldeya do Saú, q’ se acha em hum citio alto, e agradavel, mas está quazi dezerta, e nella passamos o dia trazendo as Indias á S. Exa. as limitadas putavas, ou prezentes, q’ bem correspondiam a sua grande pobreza, e rusticidade. No dia 18 depois de ouvirmos Missa sahimos desta Aldeya, e deixando a terra firme fomos navegando entre Ilhas athé as cinco horas da tarde, e portamos em hum lugar em q’ hûa coroa de Areia, e terra com o matto, formam hûa Anciada como hum Ilhote, a qual nos foi sumam.e util, porq’ nesta noute tivemos hûa tormenta intensissima, q’ durou quatro horas, passadas as quaes se desfês em hûa copiosa xuva, e algûas canoas, q’ não entraram bem no d.o abrigo, padecerão grande trabalho e incómodo. Na madrugada do dia 19 continuamos a nossa viagem por entre Ilhas e quantid.e de pedras, e passando hum lugar, q’ verdadeiram.e era hûa caxoeyra, e pelas cinco horas da tarde portamos em hum lago com bastante abrigo, adonde nos veyo encontrar o sargento mor Gabriel de Souza Felgueiras, e o P. Fr. José da Magdallena comissr.o das Missões do Carmo. No dia 20 pelas seis horas da manham sahimos deste lugar, e navegando sem vento algum portamos pelas cinco horas da tarde em hûa boa praya de Areya. Pelas cinco horas da madrugada do dia 21 entramos a navegar, e favoreceu-nos hum vento brando, chegamos pelas dês horas a Aldeya da Pedreyra e incaminhandonos logo p.a a Igreja cantou Missa o P. Fr. José de Magdallena, e com as Indias da Aldeya bem. Nesta tarde concorreram as Indias com as suas custumadas putavas á S. Exa., e a noute o vieram lisonjear com musicas e bayles a porpuçam da sua rusticid.e. A 22 depois de ouvirmos Missa sahimos desta Aldeya, e navegando todo este dia com bastante calma, e por mt.as pedras, portamos pelas cinco horas da tarde em hûa Anciada em que passamos a noute com bastante xuva. No dia 23 pelas seis horas da manham continuamos a nossa viagem com hum vento galerno, que nos favoreceu athê a Aldeya de Aracarý, adonde chegamos pelas três horas da tarde e nella pernoutamos. No dia 24 pelas sette horas da manham depois de ouvirmos Missa sahimos desta Aldeya, e favoravelmente hum vento brando chegamos pelas cinco horas da tarde a hum lago em que nos recolhemos, por cauza de hûas trovoadas, que estavão armadas, e descarregaram depois de estarmos abrigados. No dia 25 pelas quatro horas da madrugada seguimos a nossa viagem, e pelas sette portamos em hûa boa praya de Areya em que diceram os Capelães as Missas do Natal, e depois nos levamos athé as sette da noute em q’ Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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ficamos em hûas Ilhas bastantem.e abrigadas a todo tempo. Pelas cinco horas da madrugada do dia 26 continuamos a nossa viagem sem mais demora q’ enqt.o ouvimos Missa e navegamos este dia sem vento algum athé q’ pelas quatro horas da tarde avançamos bastante caminho com hûa intença trovoada com que corremos por ser em poupa, e pelas onze horas da noute portamos em hûa boa praya de Areya. No dia 27 pelas quatro horas da madrugada seguimos a nossa derotta, e pelas outo chegamos a Aldeya de Cumarú adonde ouvimos Missa depois da qual recebeo S. Exa. as costumadas offertas, ou putavas das Indias as quaes mandou remunerar, e repartir na forma ordinaria, e depois de feita esta diligencia, que foi breve, sahimos por proa foi precizo chegarmo-nos ao matto enquanto passou afora, e ficando depois hûa noute mt.o serena e clara navegamos athé a meya noute em q’ ficamos em hûa praya para descançarem os Indios. Pelas quatro horas da madrugada do dia 28 entramos a navegar e pelas nove da manham chegamos á de Aldeya de Mariuá em que estava formado o Arrayal adonde S. Exa. foi recebido com muitas demonstrações de alegria, saltando da sua canoa em hûa boa escada goarnecida toda de Arcos, e flores athé chegar ao Citio da Aldeya, q’ hé iminente, no principio do qual estava formado hum Portico de madejra em forma de Arco de triunfo, e junto delle repetio hum Indio do Siminario hum soneto em português á S. Exa. felicitandolhe o bom sucesso da viagem, e logo entramos em hûa piquena Praça, em q’ estavão formd.os os soldad.os do Destacamento, q’ aqui se achava, os quais receveram á S. Exa. com três descargas de Mosquetaria, e ao mesmo tempo salvarão tambem duas Fortalezas formadas de madeira com Artilharia do mesmo. Logo S. Exa. se emcaminhou p.a a Igreja, adonde se cantou pelas Indias da Aldeya o Tê Deum laudamos com todo o primor e depois selebrou Missa com toda a solinid.e o Rm.o P. Comissario cantada pelas mesmas muzicas admirando-se todos de q’ em País tão remotto da comunicação e civilid.e das gentes, e tão faltos de proffessores podessem ser tão bem instruhidas. Acabado este catholico e santo exercicio subio S. Exa. p.a o Hospicio dos Padres, adonde lhe estava preparado hum quarto em que se acha acómodado com toda a decencia, e a sua familia acomodouse pelas Celas dos Religiosos, mudando-se estes p.a hûas cazas, q’ já tinhão prevenidas para o mesmo fim. Promptam.e mandou S. Exa. quartellar todos os Officiaes da Expedição nas cazas, q’ já lhe estavão preparadas, e logo depois vizitou o quartel de cada hum mand.o fazer a todos os cõmodos, que necessitavão p.a ficarem detrimento. Não procurou S. Exa. dar por alguns dias descanço ao corpo da dilatáda e perigosa viagem, q’ tinha feito, porq’ logo no dia segt.e principiou a dar providencias a expedir canoas a buscar mantimentos p.a este Arrayal não se esquecendo juntam.e de exercitar a virtude da carid.e, e grandeza, mandando 36

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vistir a sua custa quantid.e de Indias, que andavão nuas, e expedindo Ordens pelas Aldeyas, p.a q’ todas as que houvesse na mesma mizeria, e dezamparo as remettessem logo a este Arrayal para no serviço de S. Mag.e poderem ganhar com q’ se vestirem. Passados alguns dias foi S. Exa. por estar rio asima vizitar as Aldeyas delle, e juntam.e as rossas, q’ estavão feitas por conta de S. Mag.e em cujo trabalho gastou onze dias, e agora fica aplicando o seu inimitado disvello, e grandecissima activid.e em lavrar, e conduzir mantimentos p.a fornecer os Armazens de S. Mag.e, não só p.a sustentação da mt.a gente q’ se acha neste Arrayal más tambem p.a a q’ se espera na comitiva do Plenipotenciario de Castella. Compunhase toda esta Tropa de mil, e vince e cinco pessoas em que entrarão quinhentos e onze Indios, dos quaes nos fugiram cento secenta, e cinco; cujo numero todos os moradores do Pará julgavão impossivel, q’ podesse ser sustentado em viagem tão dilatada, e por certões tão faltos de providencias, porem a sua activid.e, grande disvello e imcomparavel trabalho do Ilm.o e Exm.o Snor. Gen.al poude superar a estas grandissimas dificuldades, fazendo que todos viessem satisfeitos, e contentes sem embarg.o de faltarem a mayor parte das Aldeyas, em socorrerem com as providencias, que havia dous annos lhes tinha recomendado”.

Como primeiros resultados dessa viagem, devemos citar o Mappa Geographico dos Rios por onde navegou o Ilm.o e Exm.o Snr. Francisco Xavier de Mendonça Furtado, sahindo da cidade do Pará para o Arraial do Rio Negro no dia 2 de Outubro de 1754, com a exata delineação da maior parte do Rio das Amazonas e Rio Negro por onde o mesmo Senhor continuou a viagem até a Aldeia do Mariuá; notando-se também a entrada dos mais Rios, que vem comunicar, ou confundir as suas aguas com os antecedentes, juntamente as Estações, ou lugares de repouso com o signal de uma estrelinha (hoje no Arquivo Militar), levantado por Sebastião José, João André Schwebel, Felipe Sturm, Adão Leopoldo de Breuning e Ignacio Stzentmartony, este último responsável pelas observações astronômicas, e a Colleçam dos Prospectos das Aldeas e Logares mais notaveis que se acham em o Mappa que tiraram os Engenheiros da Espediçam principiando da cidade do Pará athé a Aldeia de Mariuá no Rio Negro, onde se acha o Arraial, além dos prospectos de outras tres ultimas Aldeas chamadas Camará, Bararuá, Dari, situadas no mesmo Rio, feitos por ordem do Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Gov.or e Cap.m Gn.al do Estado, Plenipotenciario, e primeiro Comissario das demarcações dos Reaes Dominios de Sua Magestade Fidelissima, da parte do Norte (cujo original está na seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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feito por João André Schwebel, a aquarela (Reis, 1993: 82, 83; em Mendonça, 1963 (II), a folha de rosto da Colleçam e as vistas das vilas desenhadas por Schwebel encontram-se reproduzidas nas pranchas 614a, 616a, 616b, 616c, 616d, 618a, 618b, 620a, 620b, 622a, 622b, 626a, 628a, 628b e 630a). Diz Reis (1993: 83, nota 60), que, em Lisboa, na casa do Duque de Palmela, há um grande Atlas do Amazonas e Rio Negro, bem como uma coleção de prospectos dos lugares visitados pela expedição Mendonça Furtado, dado como da autoria de Schwebel, com a data de 1756, conjunto mais perfeito e mais completo que o da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A comissão espanhola, por sua vez, também fora constituída com uma aparatosidade espetacular. Seu chefe, na qualidade de primeiro comissário, era D. Joseph de Iturriaga, chefe de esquadra. Auxiliares imediatos, o coronel de infantaria D. Eugenio de Alvarado, Cavaleiro da Ordem de Calatrava, Marquês de Tabuleso, brigadeiro dos exércitos reais, posteriormente Tenente-General e Capitão-General das Canárias; o capitão de navio D. Antonio de Urrutia, Cavaleiro da Ordem de Santiago; o capitão de navio de fragata D. José Solano, primeiro astrônomo. Respectivamente, segundo, terceiro e quarto comissários. Compunha-se ainda, além dos técnicos de menor categoria, oficiais, religiosos e funcionários civis, dos seguintes nomes: primeiro secretário, D. Juan Ignacio Madariaga, Cavaleiro da Ordem de Santiago; primeiro geógrafo, D. Juan Sanchez Galan, tenente-coronel de artilharia; engenheiros, D. José Mourí Paizano e D. Joseph Vir; cosmógrafos, Padre Francisco Javier Haler, D. Joseph dos Santos Cabreira, D. Francisco Guillen, D. Apolinario Dias de la Fuente, D. Juan de Arias; agregados aos astrônomos, D. Ignacio Milhau, D. Vicente Dols, D. Nicolás Guerrero; botânicos, D. Pehr Loefling [discípulo de Linnaeus, que faleceria logo depois; cf. Papavero, 1971], D. Bento Palteú, D. Antonio Condol; cirurgiões, D. Francisco Rodrigues, D. Antonio Ramires, D. Antonio Alvarez e D. Matias Barcial. Fôra dividida em quatro grupos ou turmas, cada uma dirigida por um comissário e integrada por um astrônomo, um geógrafo, um desenhador, um capelão, um cirurgião, um almoxarife, um carpinteiro, um alfaiate, um sapateiro e o destacamento militar necessário (Reis, 1993: 102, 103). 1755 - Francisco Xavier de Mendonça Furtado queixa-se a seu irmão, Sebastião José de Carvalho e Melo, em carta de 8 de janeiro, de manobras dos padres jesuítas, que teriam levado os índios a não 38

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acatarem as ordens que a coroa lhes transmitia para cultivarem os gêneros necessários à expedição. “Em nenhuma das povoações deste certão se fes caso algum da ordem, que passey para fazerem cultivar aos indios generos com que me pudessem socorrer, e não produzio outro effeito do que haver mais esta ocazião de porem estes regulares em desprezo a ordem que lhes passey em nome de Sua Magestade na forma do seu inalteravel costume” (Arquivo Histórico Ultramarino, Brasil, Pará, Cx. 15).

Nessa mesma data de 8 de janeiro, em carta datada de Mariuá, Mendonça Furtado queixa-se do comportamento de Landi: “O Landi, ou por orgulho próprio ou por inspiração de seu amigo, foi atacar um par de vezes o Capitão Chuebel [sic; Schwebel] para que havia de conservar galinhas na sua capoeira, e não lhes dava consumo, fosse como fosse, porque o tê-las ali era fazer mal a todos eles”. Parece que a freqüentação forçada entre os membros da Comissão durante a penosíssima viagem de Belém a Mariuá, acrescida de todas as privações, noites mal dormidas, pragas de mosquitos, e outros incômodos, exaltara os ânimos dos expediionários, criara conluios e facções entre eles, levando-os a disputas por razões insignificantes, principalmente no tocante à comida. Isto chegou a exasperar o Governador-general, o qual, com os nervos à flor da pele, ainda na carta acima aludida, confidenciava a seu irmão, o futuro Marquês de Pombal, sem rebuços: “Finalmente, Exmo. Sr., isto é uma congregação de velhacos, e vil canalha de que nenhuma utilidade pode tirar o serviço de S. Maj., e que fôra melhor o dinheiro que eles levam empregá-lo em dotes de órfãos, que era uma obra de misericórdia, se seguia uma grande utilidade ao Reino, porque a desta turba de gente satisfazia eu com dois Pilotos principiantes, e com oficiais que executassem exatissimamente as minhas ordens” (cf. Mendonça, 1963 (II): 648). A Expedição, uma vez chegada a Mariuá, dá início às atividades de demarcação, apesar do não comparecimento da missão espanhola, detida por várias causas em Cumaná, principalmente pela oposição dos jesuítas. As comissões portuguesa e espanhola nunca chegaram a encontrar-se. A 15 de junho, escrevendo para seu irmão, Mendonça Furtado informa ter encarregado Landi de “alguma cousa de Historia Natural”, Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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pedindo-lhe que lhe compre o material necessário, incluindo um bom microscópio (“para examinar algumas plantas miudas, e as suas sementes”). Em anexo remetia a relação do material pedido, assinada por Landi, na qual, além de pigmentos vários e instrumentos (um microscópio, uma lente de aumento, uma pedra para moer as tintas, um pararelo e um estojo), pedia “hum exemplar de plantas americanas de bom autor, e de boa emprença”. Landi deve ter iniciado, portanto, por essa época, sua tarefa de naturalista, ao lado das obras de pintura, arquitetura e urbanismo, respondendo a solicitações do Governador. Constrói os altares para a Capela de Santana, em Barcelos. A 7 de julho, segundo se depreende de carta enviada a seu irmão, Mendonça Furtado ainda estava ressentido com alguns membros da expedição: “Devo ultimamente informar a V. Exa. que entre todos os oficiais que vieram, o ajudante Filipe Sturm se não meteu nunca em parcialidades, e que tem procedido na forma que em outra aviso a V. Exa. e que o Capitão [João André Schwebel] ainda que foi atacado para aquela reunião se retirou dela logo e veio dar parte e tem vivido neste arraial com quietação e servido com préstimo. O outro, Capitão Grönfeld, tem também préstimo e como não lidei com ele mais do que na jornada, porque logo que aqui chegou foi doente para o Pará, não sei se se emendaria da causa com que fez uma grande desordem no caminho. O padre Samartoni fica mais na razão e os italianos são os mais contumazes, sendo o desenhador [Landi] inteiramente protegido pela Companhia [de Jesus]” (cf. Mendonça, 1963 (II): 721). Seis dias depois (13 de julho), o Governador-general tece considerações sobre os préstimos e o caráter dos membros da Comissão (cf. Mendonça, 1963 (II): 764-766): “Meu irmão do meu coração: Quero dar-lhe uma idéia clara dos oficiais engenheiros e astrônomos que vieram para esta diligência das demarcações, e por ela conhecerá o verdadeiro caráter de cada um deles, e, principiando pelos eclesiásticos, referirei os mais por sua ordem. O Pe. Inácio Sanmartone tem bondade e simplicidade de coração; veio ao Pará sem mais idéia do que fazer a sua obrigação, e executar as ordens que lhe deu o seu Geral, qual foi a de que executasse integralmente as que recebesse minhas, como o mesmo padre me disse no segundo dia em que chegou àquela cidade. Nela, porém, foi integralmente corrompido pelo orgulho e malevolência do Pe. Aleixo Antônio que o revoltou inteiramente contra mim e contra a diligência em que devia empregar-se, e lhe introduziu idéias soberbas, 40

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avarentas e sediciosas, achando-lhe para a tal introdução a disposição de simplicidade de coração que na verdade tem, cujas idéias conservou na jornada e nos primeiros tempos que aqui chegou; hoje, porém, se acha quase como no princípio, e totalmente sossegado, cuidando nas suas observações. O Dr. João Ângelo Brunelli já veio de Lisboa com muito más idéias, introduzidas não sei por quem, mas é certo que quem fez esta obra nem amava os interesses do serviço de El-Rei, nem era grande meu amigo; e logo no princípio se deu a conhecer, como eu avisei V. Exa. naquela mesma frota; pela viagem fez uma quantidade de despropósitos que continuou aqui bastante tempo; hoje está em sossego. Deus queira que se não arrependa. É soberbíssimo e avarento em sumo grau e desconfiado. Dizem que sabe muito bem da sua profissão. O Sargento-mor Sebastião José da Silva é um miserável homem, que não sei por onde lhe pegaram para o mandarem a esta expedição; é totalmente ignorante da geografia, e tanto que, entre muitos desatinos que me tem dito querendo falar nela, lhe referirei só um, qual é o de, estando no Gurupá, perguntar-me mui seriamente se o Macapá ficava naquela costa, ainda muito mais acima daquela fortaleza; fiquei pasmado olhando para ele, e tive a caridade de lhe explicar a situação das duas praças; e semelhante a esta me tem dito outras iguais ignorâncias. Este pobre homem não tem coisa que boa seja; é tão ignorante como digo; sobre isso é aleivoso, infiel, embrulhador e, em conseqüência, mentiroso; não tem nem a mais leve aparência de honra; e, finalmente, este é o celebrado Sebastião das Candeias - de quem não sei se V. Exa. se lembra, e assaz bem nomeado no nosso tempo naquele bairro, porque sempre morou a S. Bento, e que, sendo mau aprendiz de pintor, largou o ofício e veio a parar em sargento-mor - tem feito uma quantidade de ridicularias, e se me pedir licença para se ir lha hei de dar com muito boa vontade, porque não serve aqui de nada nem o hei de encarregar de coisa alguma nesta diliogência, nem é capaz disso. O Capitão Gregório Rabelo Guerreiro Camacho, que é justamente em tudo irmão do acima, só tem a diferença de ser mais inconsiderado e de querer aqui fazer uma união, chamando a si dois rapazes tolos destes novos oficiais, e sair daquele conchavo histórias que pertubavam o sossego público e atacando oficiais de honra, até que os mandei separar deste arraial e dei licença a este capitão para ir para o Reino, que já lha houvera de ter dado no Pará quando ele me importunou por ela, um dia, na Secretaria, e dizendo-lhe eu que lha não deveria dar, porque era contra a sua honra, me respondeu que não tinha nada com a honra, senão com o desamparo da sua casa, e depois que ele me declarou que imaginava desta forma, logo assentei de não fiar dele diligência alguma que fosse de conseqüência ainda que leve. O Capitão João André Schwebel tem bondade e préstimo grande e não o vejo nunca ocioso. Quiseram metê-lo na conjuração que veio traçada do Pará, Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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porém ele conheceu aquele grande despropósito e no caminho me veio dizer que eram loucuras e que ele não tinha nada senão com a sua obrigação. O outro, Capitão Gaspar Gerardo de Grönfeld, não tive tanto tempo para tratar com ele como com o Schwebel; parece-me ter sinceridade. Tem préstimo grande e desembaraço de soldado. Chegou aqui doente e foi logo para o Pará convalescer. Teve no caminho uma infelicidade, querendo fazer um brinco na sua canoa, de marear-se com uma pouca de água ardente da terra, e produziu isto uns maus efeitos e uma desordem grande; porém, creio que reconheceu o erro, porque, sendo esta história ao princípio da viagem, até o fim não caiu em outra. O Tenente Manuel Götz, não sei se é bom ou mau. Tenho toda a probabilidade de que é um bom homem; é sumamente melancólico. Mete-se em sua casa, com pouco trato com todos os outros. Dizem os seus camaradas que é um homem bem nascido e que sabe muito bem. O Ajudante Filipe Sturm, já disse o conceito que fazia dele e não tenho visto coisa que me faça mudar de propósito. O outro Ajudante, Adão Leopoldo Breuning, escuso de lhe fazer o caráter, porque em Lisboa é muito bem conhecido e na mesma Corte creio que também é presente a sua conduta. O Ajudante Henrique Antônio Galluzi, que se acha hoje casado e estabelecido no Pará, como ainda não veio para este arraial, não tive ocasião de o conhecer inteiramente para lhe fazer o caráter; pareceu-me de gênio forte e nimiamente amigo de dinheiro. É bastantemente hábil, como mostrou em algumas diligências de que o encarreguei. O desenhador José Antônio Landi risca excelentemente e tem grande notícia da arquitetura; não lhe chega, porém, ao pensamento outra idéia mais do que o modo que há de descobrir de ajuntar dinheiro, e em consequência não pode ali haver imaginação que não seja vil e abominável, e assim o declarou um destes dias, dizendo aos camaradas que se lhe não oferecia dúvida o levar com um pau, se lhe dessem 20 moedas, e, contando-me esta história e não lhe podendo dar crédito, lhe perguntei a ele mesmo se era verdade ou se lhe levantavam aquele testemunho; me respondeu desembaraçadamente que assim o dissera e que era a verdade, porque a dor das pancadas passava e o dinheiro ficava na gaveta. Esta idéia é bem de italiano. Como porém ele não há de ter outra coisa que fazer do que copiar algum mapa, pouco importa que imagine como quiser. Eu lhe tenho encarregado alguma coisa de história natural e tem feito já uma boa coleção de plantas. Deus guarde a V. Exa. muitos anos. Arraial de Mariuá, em 13 de julho de 1755".

Essa opinião do Governador iria sofrer grandes mudanças, e surgiria uma grande amizade entre Mendonça Furtado e Landi. A 15 42

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de setembro Landi viaja com Mendonça Furtado e o capitão Henrique João Wilckens (que em 1785 escreveria o poema heróico “Muhraida”; cf. Papavero & Teixeira, 2000) para o rio Marié, afluente da margem esquerda do rio Negro, para o descimento de índios. Essa missão, malsucedida, levou à morte de alguns de seus membros. Mas provavelmente o comportamento de Landi foi tal, que parece ter alterado o juízo negativo que dele fizera Mendonça Furtado. Landi escreveu um diário dessa expedição, em italiano, do qual um “extracto” foi publicado, traduzido para o português, na Revista do Institruto Histórico e Geográfioco do Brazil, tomo 48 (Parte I), em 1885, como segue: “Extracto do diario de viagem ao rio Marié em setembro de 1755, para o descimento promettido e contratado pelos dous principaes Manacaçari e Aduana. Por Antonio José Landi, academico clementino, e professor publico de architectura e perspectiva no Instituto das Sciencias de Bolonha, architecto pensionario de S. M. Fidelissima, e um dos que forão testimunha ocular dos successos adiante expostos, a instancias do Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, naturalista empregado nos descobrimentos de historia natural do Rio-negro. 11 DE SETEMBRO. Fui chamado por S. Exa., o Sr. Francisco Xavier de Mendonça Furtado, então governador e capitão general deste Estado, o qual dice que tinha determinado mandar-me com o capitão Estevão José da Costa ao premeditado descimento, com o que mostrei-me muito satisfeito. Ordenou a Mathias da Costa, que era provedor da real fazenda, que me désse o mantimento por elle determinado, o qual em verdade foi excellente pela summa benignidade, que sempre teve para commigo este bondoso senhor. 12. No dia seguinte, depois de praticado o que convêm a um christão, preparei-me para o embarque, que effectuou-se no dia 13 do corrente Setembro. O capitão e eu embarcamos em um bote novo, de 6 remos por banda, com 6 soldados. Em outra canôa fôrão o alferes Manoel da Silva com o cabo de esquadra Henrique João Wilkens e o capellão, que era o padre Paganini, carmelita. Esta canôa era assás grande, e o mesmo cabo de esquadra Moniz reclamára contra isso, dizendo que muitas erão as correntezas, que tinhão de passar, como tambem os saltos e pedras que havião escondidas á flôr d’agua; mas esta representação não foi attendida. As outras canoas erão de quatro remos de cada lado: na primeira ia o Moniz com dous soldados, na outra Manacaçari e Aduana, os quaes no seu barco recebêrão de S. Ex. tanta cortezia, quanto receberia qualquer subdito de merito especial. Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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Os outros dous principaes, Mabé e Cacuhi, que não erão lá bons amigos, partirão nas suas respectivas canôas, tendo desenganado o Sr. general com dizer que elles e sua gente não erão sujeitos á pessoa alguma, e que não querião experimentar servidão alguma, e de facto os deixou ir sem mais falarlhes. Antes de partir de Caboquena, conferenciamos com Francisco Xavier Mendes, homem muito pratico d’estes certões, e deu-nos elle varios conselhos, que nos não fôrão inuteis, e sobretudo dice-nos, que andassemos com cautella, e não nos fiassemos muito de Manacaçarí, porque era muito inconstante: presenteou-me com frutas, e entregou-me um bilhete, para que em sua casa me dessem 3 paneiros de farinha com 6 gallinhas, pr que n’aquellas alturas era donarivo inestimavel. Aportamos nas 3 aldêas de Caboquena, Bararoá e Deri para comprar fruta e farinha. 23. Aportamos na Tapéra, propriedade de Portiljo, homem prepotente, que commerciava com os Indios. S. Ex. conversou com elle e conhecendo que não podia sugeitar-lhe a vida depravada, tendo contra si tão poderoso inimigo, deliberou ir demorar-se em Macapá com toda a sua gente. Pouco adiante aportamos na Tapéra do Braga, na qual ainda se vêm vestigios de algumas palhoças com arvores frutiferas. Este individuo, ainda peior do que o supradito Portilho, foi miseravelmente jazer nas prisões de Lisbôa. Depois de curto prazo proseguimos o nosso caminho lentamente, por que muitas vezes perdiamos de vista a canôa grande. Em uma d’estas vezes eu e o sr. Wilkens subimos ao alto d’essas terras; e porque achassemos caminho desembaraçado, penetramos n’elle por espaço de meia milha; mas como não levavamos armas, retrocedemos, receiosos de encontrar algum gentio, ou animaes nocivos. O terreno era arenoso, e ahi observamos uma planta curiosissima, a qual formava diversos globos, o maior dos quaes não passava do tamanho da cabeça de um homem; não tinha ramos, nem folhas de especie alguma, mas compunha-se de particulas tão delgadas, e de tal fórma entrelaçadas umas ás outras, que não sei bem descrevel-as. Sómente sei, que bastava tocal-as levemente para desfazerem-se em particulas diminutissimas, e não lhes descobri raizes; mas sustentavão-se não sei como; e nenhum dos indios presentes soube dizer-lhe o nome, por não terem jamais visto planta similhante. Chegada a canôa, seguimos a navegação, passando varias correntezas, que nos retardarão a marcha. N’este dia encontramos uma canôa com um principal chamado Ambrozio, ao qual mandamos dous soldados reconhecer; e porque mostrasse amplo passaporte de S. Ex., que lhe facultava inteira liberdade de andar por onde

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quizesse, quando sahirão os soldados, lhes dice, que dessem graças a Deus, que os deixava partir com vida. Os soldados contárão isto ao capitão, o qual fez diligencia para que o mesmo principal viesse á canôa, para castigal-o; mas elle escafedeo-se, e o perdemos de vista. 1 DE OUTUBRO. No dia 1 de Outubro nos conveio esperar para o dia seguinte por terem-se extraviado dous soldados, que fôrão depois achados por diligencia dos indios. N’este dia observei dous escolhos, um dos quaes era assás alto, e podia passar-se por baixo d’elle por ter sufficiente vão. Aqui foi-nos preciso atravessar uma caxoeira de 3 a 4 palmos de altura, e observei lindissima perspectiva. Sobre pedras, que estavão á flôr d’agua, e nos seus contornos nasce certa herva da altura de 1 palmo, algum tanto grossa, mas tenra e muito bem tecida e termina como um baculo pastoral [uma Pteridophyta]. Tanto os indios como os soldados dicerão que era optima para condimento dos manjares, e comião-na nos lugares, onde não abunda carne, nem peixe: tomamos bôa fartadella de salada, e por certo acido saboroso que tem, torna-se agradavel ao paladar. Sobre aquellas mesmas pedras celebrou-se o santo sacrificio da missa, durante o qual com grande prazer fui espectador dos contrastes, que fazião as orgulhosas e espumantes aguas com a força de tantos indios e soldados. Os dous principais Mabé e Cacuhi vierão á nossa canôa, dizendo que voltavão pelo seu caminho, e o capitão lhes dice, que dentro de pouco tempo eu iria vizitar aquellas terras por ordem de Sua Magestade, para fabricar uma fortaleza, e lhes mostrou o desenho de uma fortificação já entre nós combinada; ao que não respondêrão uma so palavra, e seguirão o seu destino. 5. Despedio-se de nós Manacaçari, dizendo que ia reunir a sua gente para fazer-nos alegre encontro, e partio pouco contente com os donativos a elle feitos, os quaes consistirão em 2 duzias de facas e de tesouras, 12 navalhas e 24 berimbáos, com alguns fios de contas de vidro; e o Moniz, que me ficava vizinho, dice: Começamos mal! Ás 2 horas da tarde entramos na boca do Marié, cuja largura não excede de um quarto de legua no decurso de quasi meia hora de marcha, e depois estreita até um tiro de espingarda. Aqui vêm-se os cumes de 5 montes, o maior dos quaes é de fórma conica. No dia seguinte navegamos por entre ilhotas deliciosas, matizadas de bellissimas flôres. Findo o jantar, proseguimos na navegação, com a cautella recommendada por Francisco Xavier Mendes. Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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Com tudo isso a nossa canôa ficou em perigo sobre uma lage. O capitão sahio, e foi para a canôa grande, isto é, para a do Moniz, que me entreteve com a exposição dos usos de tantos indios por elle conhecidos. De noite tivemos forte temporal com relampagos e trovões. 8. Chegamos ao lugar para nós destinado por Moniz; mas elle ficou suprehendido, não vendo ahi pessoa alguma; e julgou, que ainda não terião voltado da festa do irmão, que distava poucas horas da moradia de Manacaçari. Entrtetanto o Moniz fôra vêr a situação de Manacaçari, na qual não achou pessoa alguma, e então o Moniz mais suspeitou, porque além d’isto achou varios signaes, que indicavão abandono definitivo d’aquellas terras. Depois do jantar o capitão com o alferes e eu, acompanhados por 6 soldados, passamos o rio para vêr o lugar, onde Manacaçari habitava. Entramos por um furo estreito, que nenhum de nós certamente reconheceria como lugar transitavel, e o caminho era tão tortuoso, que ora tinhamos o sol pela frente ora pelas costas, e em muitos lugares passamos sobre um páo redondo ajudados por alguns dos nossos indios. Finalmente entramos uma planicie da extensão de 300 passos e de muito menor largura com 8 palhoças, as quaes erão fechadas com folhas entrançadas e para penetrar n’ellas preciso era inclinar a cabeça até o chão, sendo assim construidas essas palhoças, afim de estarem ahi mais livres os seus habitadores. A casa principal era redonda, e feita de taboinhas, como o são as capoeiras das gallinhas, e tambem tinha a porta baixa. Entramos n’estes tugurios, onde só achamos folhas de carajurú, de que fazem bellissima tinta, e deixárão uma linda canôa de 36 palmos de comprimento, feita de casca de madeira da grossura de sola. Entretanto mandámos vizitar Manacaçari pelo Moniz, e pelo principal da aldêa de Mariuá, os quaes, encontrando uma canôa alagada, e cheia de pedras, e quebrados varios ramos pelo caminho, voltárão desconfiados e mandárão em seu logar um indio conhecido, ao qual dicerão, que dentro de 8 dias ali apparecirião; e entretanto trabalhavão postos em logar optimo para qualquer surpreza, porque era uma ilhota no meio do rio, e adiante estava uma lingueta de terra de quasi 4 braças, que começava a levantar-se. Pelos indios e soldados foi derrubado o mato, e ahi se fizerão os quarteis; e como não viamos resolução nos indios, e começamos a duvidar da sua constancia, o capitão mandou cercar os quarteis com bôa palissada, e postar na entrada uma sentinella. Entretanto começou a escassear farinha; procurárãose as roças dos indios, e das que se achárão fizerão-se beijús, com que se remediasse a necessidade dos soldados, bem como da nossa mesa. 11. Mandámos nova embaixada pelo Moniz, acompanhado por 4 indios com 3 frascos de aguardente. Estavão 6 destinados para donativos; mas o 46

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judicioso alferes oppôz-se a isto, dizendo que bastavão 3, porque, mandando os 6, poderião nascer disturbios, embriagando-se os indios. Depois de meio dia sobreveio impetuoso vento, que derribou os quarteis dos soldados; mas em menos de 2 horas fôrão reparados. Á noite regressou o Moniz, dizendo que estavão fazendo farinha, e que sabião, que o capitão tinha avizado o general, e que esperavão resposta; mas o Moniz dice-me, que temia muito da inconstancia dos indios, pois tinha observado, que elles augmentavão em numero, e que, ao tempo em que tratavão do modo e occasião da partida, chegou outro principal com 20 indios armados de arco e flechas e mais 4 armados de arcabuz. Finalmente com esta embaixada nada dse concluio, e entretanto crescia a fome, e os soldados recorrêrão á maniçoba [sic; maniva]. 12. Chegou o pescador com uma grande pirahiba, que bastante nos alegrou; mas esta alegria depressa desvaneceu-se; porque, depois de tiradas as visceras, pondo-se ella n’agua para lavar-se, deu um salto, e não a vimos mais, não obstante fazerem os soldados toda a diligencia para recobral-a, tendo aliás a agua apenas 4 palmos de profundidade. 20. Mandámos vizitar Manacaçari e Aduana para saber da sua ultima determinação. A embaixada, que mandou o alferes Manoel da Silva, era um romance, porque tudo erão ternuras de amante para com sua amada. A resposta foi, que o capitão mandava ao porto uma canôa para carregar as mizeraveis alfaias dos indios e indias; mas fizerão o soldado, que estava na canôa, esperar durante 2 dias, e porque ninguem apparecia, e a fome o estimulava, regressou. Enttretanto preparou-se uma canôa para ir ao salto buscar Mabé, conforme tinha S. Ex. combinado comigo afim de vêr si o poderia tirar d’aquelle logar com algum artificio. Esta viagem porém não se realizou em consequencia da morte de Moniz e dos seus companheiros, como adiante direi. Parti pois de manhan cêdo, accompanhado por um sargento chamado Agostinho Franco, com 8 soldados, e novamente encostamos no porto dos indios, onde o Moniz preparou-se para a ultima embaixada. Então senti-me com disposição de ir vêr aquelle barbaro modo de vida; mas dispersuadiume elle, dizendo que não era viagem para mim, porquanto era preciso andar 3 horas por caminho cheio de incommodo, isto é, de pantanos e talvez passar lagos a nado; e como eu tinha deixado a minha rede no mato para esperal-o, n’aquelle logar dice, que passasse para o outro lado do rio, ou o esperasse no dia seguinte emquanto dava signal para ir embarcar; que aquelle logar, onde desembarcamos, não nos assegurava contra violencias do gentio. Partio elle accompanhado pelo principal Jananitari, e por um soldado com 6 indios; e eu com a minha escolta fomos pousar na ponte da dita ilha.

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26. Diverti-me em passear sobre lagedos tão planos e lizos, que parecião feitos com arte, e de espaço em espaço erão repartidos por uma materia vitrea disposta ao comprido, como si estivessem ligadas ou betumadas; e esta juntura teria a largura de um quarto de polegada. Depois de meio dia, e quando eu estava na minha canoo lendo o 6º livro da história de Salomão, percebi, que de outro lado nos chamavão; embarquei com o sargento, o qual bem admirado ficou por não vêr o Moniz, mas eu lhe dice, que provavelmente elle teria mandado aquelle indio adiante para não estar esperando a canôa para o embarque. Chegados porém á ribanceira do rio, de subito occorreu-me, que alguma desgraça teria acontecido, porque o dito sargento ficou como fóra de si, pondo as mãos na cabeça, e exclamando, que tinhão morto o Moniz com os demais que o acampanhárão. Tornamos a passar o rio, e consultando entre nós ambos o que deviamos fazer, resolvemos por fim partir, porque não tinhamos meios de defeza; o sargento, que era homem animoso, e bom soldado, queria esperar até o dia seguinte na supposição de poder chegar ali um ou outro ferido; mas vendonos privados de ferramenta para poder fortificar-nos com alguma estacada; não se tendo dado aos soldados sinão duas cargas de polvora, e havendo apenas 3 espingardas para fazer fogo, determinamos partir. Mas para não perder de todo a nossa historia, voltemos atrás, e não passemos em silencio o barbaro attentado d’estes impios homicidas. Chegando o Moniz com os seus companheiros no dia 25, como dice, foi recebido por Manacaçari e Aduana e pelos principaes, que estavão ali, com signaes de distincta amizade, excuzando-se da demora com enganos, e dicerão, que, terminadas aquellas antigas festas e suas beberronias, partirião. O Moniz ao vêl-os dispostos em apparencia, e sendo já noite, despedio-se para ir dormir na sua canôa; mas tantas forão as instancias empregadas paa que assistisse áquellas suas diabolicas festas, que, por desgraça sua, annuio ao convite, porém findas as dansas com as costumadas bebedeiras, retirarão-se para dormir. Como o Moniz tinha outr’ora vivido com Manacaçari, não desconfiou d’elle, e foi dormir no corredor da sua casa, e logo pela janella Manacaçari desfexou-lhe um tiro de espingarda, ferido pelo qual cahio o Moniz da rede morto, arquejando, e ao mesmo tempo matárão o principal Jananitari, o soldado, e dous indios; os outros fugirão. Depois d’este assassinio fizerão as suas dansas acompanhadas das costumadas vozerias, incendiarão as palhoças e partirão com os seus subditos. Depois mandárão alguns indios, que fôssem matar Tapuitinga, e trouxerão a sua canôa; e anoitecendo fôrão á ilha com muitas igarités, mas como a ninguem achassem, immediatamente se retirárão. 48

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Esta narração foi-nos feita pelo indio, que veio dar-nos aviso, o qual escondeu-se na densa folhagem de uma arvore; e pouco difere da outra que fez um indio fugido, que ao passar chamou-nos para o embarcarmos. Eis o fim desta expedição feita com pouca cautella; e ninguem acertou mais do que frei José de Magdalena, porque tinha feito a anatomia d’essa gente. Entretanto chegamos á boca do Marié na noite de 26, e nas margens d’elle tomamos porto para não ficarmos sobre as muitas pedras, que ali havia. Á meia noite presentimos vir para nós uma pequena canôa, e como não sabiamos quem vinha n’ella, o sargento e eu pozemo-nos em pé com a espingarda ao rosyo, até que o soldado, que n’ella estava, nos fez saber, que fôra mandado pelo capitão para trazer a noticia das mortes já descriptas, ao passo que erão tambem noticiadas por um dos indios fugitivos. 27. Amanhecendo o dia, alegramo-nos por ver-nos livres de todo o temor da noite passada, pois tão continuos erão os rumores n’aquellas selvas, que nos fazião crêr estarmos cercados pelos indios, embora nos assegurasse Jacumaúba ser antas que ali andavão: ás 11 horas da manhan a nossa alegria converteo-se em temor, porque ao longe avistamos algumas canôas, que desapparecêrão por de traz de uma lingua de terra, que avança para o rio. E como tinhamos por certo ser canôas de indios bravios, ficamos a principio amedrontados; mas, cobrando animo, sahimos das canôas armados e resolutos a defender-nos em logar tão favoravel, pois estavamos amparados por algumas pedras de desmezurada grandeza, quasi todas isoladas. Por fim, ao sahir d’aquella feliz ponta, se renovárão-se [sic] os animos de todos, porque era o capitão, que tinha abandonado os quarteis, e tal foi o temor, de que se apoderou, que deixou aos barbaros a real bandeira da canôa. Aqui ouvirão-se criticas contra o capitão por ter mostrado cobardia, não indo vingar os companheiros assassinados, e si isto tivesse feito, poderia ser castigado por desobediente; porquanto nos capitulos consignados pelo general, o 14.o diza, que, si nos apparecesse alguma alteração qualquer que ella fôsse, não tomassemos empenho algum e nos retirassemos, e daqui podemos julgar em que conceito cumpre ter as noticias de um povo, que julga sem fundamento aquillo que não entende. Seguimos então a nossa viagem depois de tantos motivo de alegria, pois correra fama, que tambem me tinhão matado, e esta fama funesta chegou até os ouvidos de S. Ex. Passados 8 dias encontramos o soldado, que fôra enviado pelo capitão, e escreveu S. Ex., que julgar-se-hia bem servido, recebendo as suas ordens, já tivesse partido, e que em melhores tempos o teria sabido castigar, como assim aconteceu, mandando-o vizitar pelo capitão Miguel de Siqueira, por ser muito Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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temido dos indios em todas aquellas partes, e de facto os destruio com a morte do mesmo Manacaçari, que servio de troféo ás glorias da gente luzitana. N’este dia recenbi do soldado um barrilinho de linguas defumadas, de Hollanda, com outro de biscoutos, dom assás estimavel na presente occasião, e muito mais ainda pela lembrança que de mim teve S. Ex. Assim terminou esse descimento, e eu deixei de andar procurando Mabé e Cacuhi, pois mui provavel era, que n’esses logares perdesse a vida. A 6 do corrente Novembro chegamos a Mariuá (hoje Barcellos) ao rufo de tambor, mas observei, que no acto de chegarmos partio de casa S. Ex. para o passeio, e embarcando nós fomos comprimental-o, e elle acolheu friamente ao capitão; o que não fez commigo, pois recebeu-me de braços abertos e convidou-me para cear com elle bom peixe fresco, e bebeu em saudação ao meu regresso, pelo que não deixei de dar graças a Deus, nosso senhor, por ter-me livrado das mãos d’aquelles ingratos indios”.

A 22 de novembro, em carta a seu irmão, Mendonça Furtado refere seu interesse em associar Landi ao povoamento da Vila de Borba a Nova. Pretendia casá-lo com uma das filhas de João Baptista de Oliveira, alferes de infantaria e capitão-mor da Vila de Gurupá, encarregado do governo e estabelecimento da nova vila de S. José de Macapá, e fixá-lo na recém criada povoação: “...ver se posso conseguir casar Antônio Landi com a filha que ainda está solteira de João Batista de Oliveira, e para concluir este negócio estou esperando que chegue esta família do Pará; e se se efetuar este negócio, parece-me que temos um bom morador para a vila de Borba. Eu lhe tenho falado a este respeito, e parece-me que, prometendo-lhe alguns pequenos meios em nome de S. Maj., se concluirá sem dúvida o negócio. Este homem tem as qualidades necessárias para se empregar naquele estabelecimento, porque é sumamente curioso de lavouras, bastantemente esperto e ativo, e em sumo grau ambicioso e amigo de juntar dinheiro, partes todas que eu desejava que tivessem todos os moradores destas terras. Por ocasião de conversação que temos tido a respeito das plantações, e creio que já com as suas vistas longas, me deu o rol que remeto a V. Exa. para que lhe mandasse vir estas sementes, e eu peço a V. Exa. me queira remeter algumas pequenas parcelas de todas elas para ver se produzem nestas terras, e devem vir em vidros lacrados ou em outras coisas que as defendam inteiramente do ar. O tal Landi é bolonhês, e não lhe vejo perigo algum em se por cá estabelecer...”. (Mendonça, 1963 (III)). 50

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Em dezembro, Mendonça Furtado dirige-se a Borba, acompanhado por Landi, a fim de institucionalizar a sua elevação a vila, mandando levantar o pelourinho e passando-lhe carta de foral a 1º de janeiro de 1756. Durante a estadia, o juiz e comandante da povoação faz-lhe entrega de casas para Landi e sua futura mulher. 1756 - Devidamente autorizado por D. José e “cansado das provações inevitáveis em lugar tão ermo, enfermo em razão delas e pelo efeito do clima”, Mendonça Firtado baixa para Belém a 23 de maio. 1757 - A 1º de março viu-se Landi envolvido em um incidente (graças ao qual ficamos sabendo que por essa época dedicava-se ele ao comércio das chamadas ‘drogas do sertão’, principalmente cacau). A tropa destacada na capitania do rio Negro, composta por 134 soldados, sublevou-se e fugiu para os domínios de Espanha, argumentando o não pagamento das fardas e das farinhas para seu sustento. Alguns desses soldados da guarnição de Mariuá roubaram 1400 e tantos mil réis dizendo que era um princípio de pagamento do soldo que se lhes devia, passando depois à casa do desenhador José Antonio Landi a roubar-lhe mais de 600$000 réis em gêneros, e dando-lhe em pagamento um escrito ou consignações para a Fazenda Real. Na mesma altura as canoas carregadas de cacau recolhido pelos índios, que Landi tinha a seu serviço, foram igualmente levadas pelos revoltosos. Embora acabando por não se fixar em Borba, Landi casa-se com a filha de João Baptista de Oliveira. A 25 de abril Mendonça Furtado lamenta não poder comparecer ao casamento de Landi, oferecendose, entretanto, por carta, para atuar como padrinho quando nascesse o primeiro filho [ver parágrafo seguinte]. O casamento não durou muito, pela morte da mulher. A carta de Mendonça Furtado, referida no parágrafo anterior, tem o seguinte conteúdo (cf. Viterbo, 1964: 8): “A Ant.o Landy - Quando desejo a v. m. as mayores fortunas, bem deve

v. m. crer o qto sentiria vellas interrompidas com o grande roubo q’ a v. m. fizerão esses levantados, porem como N.o S.r Nosso foy servido que lhe deixassem a vida, tudo o mais tem remedio e pode v. m. estar certo, q’ quanto couber dentro dos termos da pocebilid.e da justiça e da razão, hey de fazer por favorecer a v. m., e a sua caza, espero que v. m. recompense o beneficio q’ experimentar rendendo a S. Mag.e todo o serviço q’ puder, concorrendo para os sollidos Estabelecimentos do Estado a q’ estamos dando principio. Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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Pellas Reaes ordens q’ aqui chegaram de Lx.a [Lisboa] no principio de Fevr.º, me he precizo dilatarme algum tempo nesta Cidade, e o maez cedo, q’ poderei chegar a esse aquartelamento, será athe meado de Novembro; e como não ha razão que a sua função se dilate tanto tempo, mando ordem ao sarg.to mor Gabriel de Sousa, para q’ em meu nome asista a ella, e já q’ não tive o gosto de a prezenciar me convido daqui p.a o Baptisado do pr.o filho p.a contrahirmos parentesco mais conjuncto q’ o da prezença do matrimonio, cujo Padrinho não passa de hûa Test.ª. Pello P.e Commissario hirão já algûas providencias, que digão respeito a poder v. m. reparar em alguma parte a grande perda q’ teve, e irão continuando em forma a que v. m. se recobre della e fique melhorado. Sempre a v. m. me tem certo para lhe dar gosto com o mais fiel e sincero affecto. D.s G.de a v. m. m. m.tos annos. Pará 25 de Abril de 1857. Fr.co X.er de Mendonça Furtado. - S.or Ant.o Landy -.”

Outras três vezes Mendonça Furtado assegura a Landi o ressarcimento das perdas sofridas durante a sublevação da guarnição de Mariuá (cf. Viterbo, 1964: 8-9): “A Antonio José Landy - Ainda que sem hû instante de meu na occasião em que me acho de expedir huma embarcação para Lx.a; furto ás obrigações do officio o pouco tempo q’ basta para segurar a v. m. não só o quanto estimo que se lhe conserve uma perfeitissima saude mas repitirlhe o q.to sinto que v. m. tivesse o desgosto de o roubarem esses insolentes, e já sigurei a v. m.ce que podia estar certo q’ eu havia de concorrer quanto fosse possivel para v. m.ce se ressarzir daquella perda, e pode v. m.ce estar certo na m.a vontade, e q’ tudo o que não for perjudicar a terceiro heide fazer para que v. m.ce consiga aquelle fim. Por humas canoas q’ daqui hãode partir brevemente escreverei a v. m. com mais largueza, e sempre dezejo mostrar a v. m.ce o affecto com q’ dezejo darlhe gosto. D.s G.de a v. m.ce m.os m.s annos. Pará 15 de Mayo de 1757. Fr.co X.er de Mendonça Furtado - S.r Antonio José Landy.” “A José Antonio Landy. - Como me não esquece nunca concorrer p.r tudo que for reparar o damno que v. m.ce teve com a fugida dos soldados e da mesma sorte para tudo o q’ poder ser fortuna sua, vay a carta incluza p.a o Sargento mor comand.e dar a v. m.ce huma esquipação boa p.a mandar fazer o seu neg.o, e estimarei que seja nella bem succedido. A minha viagem já não poderá ser senão depois da partida da frotta, e se D.s me conservar a vida terei então o gosto de ver a v. m.ce, e como o susto que 52

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teve com a deserção dos d.os soldados fica mais distante, já o acharei então mais succegado. Estimarei que v. m.ce tenha huma completa saude e q’ me dê repitidas occasiões de lhe dar gosto, nas quaes me empregarei sempre com a mayor vontade. D.s g.de a v. m.ce. Pará 5 de julho de 1757. Fr.co X.er de M.ça Furtado S.r José Antonio Landy.” “A Jose Antonio Landi - Apenas tenho tempo na occasião em que me acho p.a dizer a v. m.ce que tenha tido as perdas que me diz, e como são bens da fortuna Deos os dá e os tira como he servido, e o q’ posso tornar a sigurar a v. m.ce hé q’ em tudo que couber no possivel heide concorrer para q’ v. m.ce restaure aquelle damno. Aqui tive a noticia de q’ a sua canoa viera a salvam.to com 500 e tantas arrobas de cacao, e na da Aloca dos Abacaxis lhe vieram tambem a v. m.ce 95 que me dizem que tudo se entregou ao Proc.or do Coll.o que tinha ordem de v. m.ce p.a o receber com q’ esta ajuda de custo já pode em alguma parte essarsir aquelle prejuizo. Como espero em D.s brevem.te ver a v. m. nesse Arrayal não tenho mais que dizerlhe de que sempre me hade achar para lhe dar gosto com a mayor vontade. D.s g.de a v. m.ce m.tos annos. Pará 2 de Agosto de 1757 - Fr.co X.er etc - S.r José Antonio Landi.”

Schwebel regressa a Lisboa. 1758 - A 15 de janeiro Mendonça Furtado deixa Belém, outra vez rumo a Mariuá, desembarcando no arraial a 24 de abril. A 6 de maio graduava o arraial em condição de vila, com o nome de Barcelos. Abandona definitivamente essa vila, para chegar a Belém a 26 de dezembro. 1759 - Francisco Xavier de Mendonça Furtado parte para Lisboa, de Belém, a 7 de março. Manoel Bernardo de Mello e Castro assume o cargo de (20º) Governador do Grão-Pará. A 13 de outubro é dado início ao contrato de arrendamento da olaria instalada no antigo Hospício de S. José, que pertencera aos religiosos da Província da Piedade, em Belém. A criação dessa olaria pretendia suprir a falta de produtos essenciais aos habitantes do Pará, que até aí tinham apenas sido fabricados e comerciados pelos jesuítas nas suas olarias, a preços elevados. O contrato é realizado com o alferes João Manuel Rodrigues. 1760 - Chega ao Pará o 4º Bispo de Belém, D. Frei João de S. Joseph Queiroz (31 de agosto) (cf. Papavero et al., 2000: 273-280). Landi, de Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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volta a Belém; carrega em um navio destinado a Lisboa 221 arrobas de cacau. O alferes João Manuel Rodrigues oferece sociedade de sua olaria ao capitão Antônio Gonçalves e Antônio José Landi, e acaba por desistir a favor dos dois sócios. As dificuldades com a laboração da olaria, sobretudo associadas com a deserção dos índios contratados, que obrigou à sua substituição por negros, devem ter criado problemas difíceis de superar, que levaram Landi e o capitão Gonçalves a permanecerem à frente da olaria por mais um ano, e por especial pedido do Governador. 1761 - A 12 de fevereiro, José da Silva Pessanha, por parte de Portugal, e D. Ricardo Wall, em nome de Espanha, assinam na cidade do Pardo, devidamente autorizados pelos respectivos governos, um novo Tratado, de três artigos, pelo qual o de Madri ficava cancelado, cassado e anulado, com todos os mais ajustes e obrigações que dele decorriam, como se nunca houvesse existido ou tivesse sido executado, destarte regressandose, no Oriente e no Novo Mundo, à situação anterior de Madri, isto é, fronteiras indeterminadas. Suspensão dos trabalhos de demarcação, embora já antes desta data a comissão portuguesa tivesse interrompido a sua atividade. Mendonça Furtado, então Secretário de Estado adjunto, em carta dirigida a seu substituto no cargo de Governador, Manuel Bernardo de Mello e Castro, ordena o retorno de Brunelli e de Landi a Lisboa, onde se “poderão empregar mais utilmente no Real serviço”. 1762 - Landi dirige ao Rei um requerimento, pedindo autorização para estabelecer em Belém “huma fabrica de louça vidrada [...], officina bem preciza para a comodidade de todos os moradores, pois caressem muito deste genero de louça, e sera muito util o dito estabelecimento não so pelo interesse deste Estado, mas porque com este exemplo se animarão muitos a fazer outras similhantes obras com que tanto se ennobressem as cidades florescendo nellas as Artes Mecanicas”. Não se sabe se seu pedido foi deferido e se, em caso afirmativo, chegou a fabricar tal louça. 1763 - Fernando da Costa de Ataíde Teive, o 21º Governador do GrãoPará (14 de setembro). Brunelli regressa a Lisboa, onde permanece pelo menos até 1769, como professor de Geometria Elementar, no Colégio dos Nobres. Landi, a pedido do novo Governador, permanece em Belém, já que estava ocupado “...no Arsenal de Sua Magestade, e em actual incumbencia de fazer a igreja nova da Freguesia de Nossa Senhora de 54

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Campina, e necessario para a factura do Palacio da residencia dos Excelentissimos Senhores Generais do Estado, e da obra do Hospital Real”. Como argumento final é ainda mencionado o casamento de Landi, já ajustado, com a filha do Sargento-Mor Prático João de Sousa de Azevedo, proprietário de feitorias de cravo e cacau e de uma fábrica de anil. Mendonça Furtado aceita o pedido do Governador. A 27 de agosto, um ofício do Conselho Ultramarino ordena a suspensão do pagamento aos oficiais contratados para as Demarcações no Norte do Brasil, à exceção de Landi e de três outras pessoas. Landi continuará a receber o mesmo salário de 300.000 réis por ano, pagos mensalmente. 1766 - Por carta régia de 19 de abril, Landi recebe a patente de Capitão de Infantaria de Ordenança de um dos terços da cidade do Pará. Adquire a fazenda e o engenho de Murutucu, situado na margem esquerda do igarapé do mesmo nome, afluente da margem direita do rio Guamá, formado pela reunião dos igarapés Utinga e Boiacucuara, e pouco depois a fazenda de Utinga, ambos em Belém. Plantou inicialmente cana de açúcar e fabricou açúcar, no engenho, com mão-de-obra índia (70 pessoas no total); a produção chegou, em 1767, a 3500 arrobas, que enviou a Lisboa. 1768-1772 - Luís Pinto de Sousa Coutinho governador da Capitania de Mato Grosso e Cuiabá. 1769 - Brunelli deixa Portugal e regressa a Bolonha. 1771 - A 3 de julho D. José I designa Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres governador e capitão-geral da Capitania de Mato Grosso e Cuiabá. 1772 - João Pereira Caldas, o 22º Governador do Grão-Pará (21 de novembro). Data mínima provável em que Landi (então com 59 ou 60 anos) escreveu sua Descrizione di varie Piante, Frutti, Animali,/ Passeri, Pesci, Biscie, rasine, e altre simili/ cose che si ritrovano in questa Cappitania del/ Gran Parà, le qualli tutte Antonio Landi de-/dica a sua Eccl:ca il Sig.e Luiggi Pinto de Souza/ Cavaglier di Malta, e Governatore del Matto Grosso/ il quale con soma fatica e diligenzza investigò/ moltissime cose appartenenti alla storia natura/le, e delle quali si potrà formare un grosso/ uolume in vantaggio della Republica Letteraria. 1775 - Landi aparece no inventário realizado após a extinção da Companhia Geral do Grão Pará e Maranhão com uma dívida de 366$115. Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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Reinado de Dna. Maria I e Dom Pedro III (1777-1792) 1777 - Falecimento de D. José I. Início do reinado conjunto de D. Maria I e Dom Pedro III (24 de fevereiro). Tratado de Santo Ildefonso. 1778 - O “Mapa das Famílias da Capitania do Pará”, uma espécie de censo da população, fornece indicações interessantes sobre a composição da casa de Landi, o seu agregado, os serviçais e os escravos, além de informações sobre o emprego, o ofício e a situação econômica - “Freguesia de Santa Ana - No. 268 - Nome: Antônio José Lande [sic]. Qualidade: branco. Estado: viúvo. Emprego: capitão auxiliar. Ofício: desenhador. Pessoas do seu agregado: 1 fêmea menor. Pessoas efetivas de soldada: 1 macho adulto, 1 fêmea adulta. Escravos: machos - 8 menores, 23 adultos: fêmeas - 3 menores, 13 adultas. Totalidade da família: 51 pessoas. Nota da possibilidade e aplicação dos cabeças das famílias: remediado com aplicação”. Landi tinha, pois, nessa época, uma filha menor. Vivia nas proximidades da igreja paroquial de Santana, na atual rua Padre Prudêncio (que em 1783 era conhecida como rua do Landi). Essa sua única filha, Ana Teresa de Sousa de Azevedo Landi, viria a casar com João Antônio Rodrigues Martins, filho do capitão João Manuel Rodrigues, um abastado proprietário do Pará, que foi vereador da Câmara de Belém e que tivera sociedade com Landi na arrematação da olaria da cidade. Do casamento de Ana Teresa com João Antônio Rodrigues Martins nasceram três filhos - João Marcelino Rodrigues Martins, que viria ser coronel do 1º Regimento de Milícias do Pará, brigadeiro e intendente interino da Marinha, Ângela Joana Pereira Martins, que casou com o tenente-coronel Francisco Marques d’Elvas Portugal e uma terceira filha, que parece ter morrido jovem. A filha Ângela viria a herdar a fazenda do Murutucu (Salles, 1968: 19-21). 1779 - As finanças de Landi marcham bem, pois chega a enviar para a Casa da Moeda da cidade de Lisboa, a 23 de novembro, duas barras de ouro no valor de 179$568. 1780 - José de Nápoles Tello de Menezes, o 23º Governador do GrãoPará (4 de março). Dá posse ao ex-governador José Pereira Caldas do cargo de Governador e Capitão-General do Mato Grosso e Plenipotenciário e Comandante Geral da nova Expedição de Demarcações que, segundo o Tratado de 1777, deveria trabalhar no 56

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rio Negro e Mato Grosso, sobre os términos das possessões das monarquias portuguesa e espanhola na América Equinocial. Em carta dirigida à Corte, em 19 de novembro, Landi diz: “[...] e fui mandado tratar da plantação de cacao, caffé, e arros, e ainda da olaria, que tenho feito hum grande numero de tijolos, e alguma telha para as fabricas que se tem feito nesta cidade, o que he bem constante”. Sabemos então que em seu engenho de Murutucu tinha também, desde há certo tempo, uma olaria. Nessa mesma carta dirigida ao Conselho Ultramarino, tenta justificar a falta de produção de açúcar, pela dificuldade em encontrar mão-de-obra, disponibilizando-se, contudo, para o fabricar, desde que a Capitania lhe forrnecesse os meios necessáerios: “Os cobres e mais preparos, eu os tenho todos, e nada mais me falta, que a gente perciza para laborar, e formo tenção para o mês de Mayo do anno vindouro de 1781 fazer um canavial competente, para o fabrico do asucar, e para isso, espero se me concedão alguns indios, que bastarão athé vinte por tempo de 4 mezes somente para ajuda de roçar, e emcoivarar, que a planta com a minha gente a farey. E tãobem depois para a ocazião de moer então seram dês indios, e dês indias, só naquelle tempo de moer”. 1783 - Martinho de Souza e Albuquerque, o 24º Governador do Grão Pará (25 de outubro). Chegada em Belém de Alexandre Rodrigues Ferreira. Landi é juiz da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Paróquia de Santana. Nesse ano oferece àquela igreja um relicário em prata com uma partícula de um osso de Santana, que pertencera a Jacopo Landi e era acompanhado por documento de autenticação passado pelo arcebispo de Bolonha, e traduzido do latim pelo escrivão da Câmara de Belém. 1784-1788 - Com 70 anos Landi parte de novo para o rio Negro, onde chega a 24 de abril de 1784, para apoiar, como desenhador de mapas, a segunda Comissão de Demarcação de Fronteiras, nomeada a seguir ao Tratado de Santo Ildefonso, de 1777. A decisão de enviar Landi para o interior fora tomada a 31 de agosto de 1783, ordenando Martinho de Mello e Castro ao recém-empossado governador do Pará, Martinho de Sousa e Albuquerque, que logo que chegasse ao Pará, fizesse partir Landi. A 10 de setembro de 1786, provavelmente a instâncias de Alexandre Rodrigues Ferreira, Landi escreve, em italiano, uma Relacione Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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del principio, che ebbe la capella di Santa Anna, con li successi accaduti fino al presente. 10 Settemb. 1786 (“Relação do princípio que teve a capela de Santana, com os sucessos acontecidos até o presente”) (cf. Ferreira, s/ d: 317-322), cujo teor é o seguinte: “Nell’anno 1744 in circa, tempo nel quale governava questa Villa, allora ditta Mariuá, Frai Giuseppe Magdalena, Missionario Carmelitano, stando esso in città tratando delli suoi negocii, venero in contesa li due Principali Ouyana, e Gianauitary, e tanto da una, quanto dall’altra parte, vi ebbero alcune morti, e si non fossi accorso il Principale comandri [?], che qui era il piu rispettato, le cose sarebbero andate piu avanti: Con tutto cio, il principale Ouyana usci dalla Villa, e condussi con se tutta la sua gente. Arrivato che fu il Missionario Magdalena, molto senti li passati disturbi. Diede inconbenza al Principale comandri, per che fosse a praticarlo per parte sua; e in fatti fu felice nella sua Ambasciata, perche placò Ouyana, che condusse, con se, con tutti li suoi suditi, e fece pace con Gianauitary. Fratanto, nel tempo che si stava trattando lo aggiusto delle principali, il Missionario fece promessa a S. Anna di dedicarli una Capella á suo onore, e cosi fece dopo il ristabilimento del dito Principale. Finita che fu, si celebrò il Santo Sacrificio della Messa; e fu il tempo, che questo populo unito alli medesimi Indij, presero divoccione a questa Gloriosa Santa. Questa Capella, al dire di Francesco Xavier di Andrada, fu di poca durata; perche essendo stata edificata di ligname assai molle, era necessario avervi sempre le mani sopra; onde stanco il Missionario di vederla de continuo rato pare diede incombenza al sopraditto Andrada, perche la redificasse in maniera, che le ingiurie delli tempi non li potessero nuocere; e cosi fece; ma l’errore grande fu lasciarla nel medesimo luogo da prima, per essere molto vicina a questo fiume, non mai sacio di distrugere le inimiche sue sponde. Nell’anno 1755 dopo di averli fatto un sepolchro nella chiesa, che rapresentava un Tempio di Ordine Dorico, con colone striate, e fasciate di rose misturate con spine, tanto piacque al Magdalena, che il giorno venturo fu a ritrovarmi, e pregò a volerli dipingere la facciata esteriore, che introduce all’Altare di Santa Anna. Qui non ebbe molto che dire; perche sino dalla piu tenera mia età, mi gloriai di servire questa mia venerata Prottetrice. Di subito mandai a far li ponti, e diedi principio a dissegnare la sopraditta facciata, ma essendo io solo mi conveniva afaticare, piu del costumato. Poche settimane dopo, mi convene tralasciare per molto tempo il principiato lavoro, perche fui destinato da Sua Eccelenza, il signore Francesco Xavier Mendonça Furtado, di andare al descimento di Macanacassary; dopo

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di essersi perduto quasi due mesi, e al mio ritorno nulla potè fare, perche Sua Eccelenza mi condusse con se alla fondacione della Villa di Borba, posta nel Rio Madeira. Nel principio di Genaro de 1756 ritornassimo a Mariuà, e il giorno dopo intrapesi il lavoro, e finito che ebbi di dissegnare il Prospetto, mandai a fare li ponti allo intorno della capella, e senza altro dire al Magdalena, incominciai a dissegnare tutto allo intorno, perche li due Pittori Francesco Xavier de Andrada, e il Soldato Thomazo non sapevano mettere a suo luogo il chiaro-oscuro, e mi convene sbbozare io tutta l’opera, e ad essi lasciai li ornamenti, e li festoni di fiori, e frutta al naturale, che fecero assai piu che passabilmente, e davano molto rissalto al chiaro e oscuro. Si pensò poi a celebrare la Festa di detta Santa; e fra tanto, si prese Andrada sopra di se l’impegno di eseguire tutto quello, che pensato aveva, e vi riusci con molto suo onore e ricevè dalli divoti della Santa in dono tutte quelle cose, che erano necessarie all’abellimento della capella. Il primo fu Sua Eccellenza il Signore Francesco Xavier Mendonça Furtado, che allora si ritrovava in questa villa, per assistere come capo alle Demarcacioni fra Sua Maestà Fidellissima, e il re di Spagna. Questo lasciò in dono un calice di argento dorato, e da una pezza di Papagallo [?] fece tagliare quello, che era necessario per coprire il pavimento del Presbyterio. Altri divoti si unirono, e fecero le coltri di damasco cremesino alle quatro finestre, e alle due porte, che introducevano l’una alla Sagristia, e l’altra al corridore. Un altro poi vi fu, che preggiandosse di essere assai divoto di questa gloriosa Santa, e non contento di avere affaticato non poco per suo amore, chiamò a sua casa un Sartore, e da una pezza de settino di matizes [sic] che in Italia si chiama stoffa ricamata a fiori, fece il cortinato della nichia dove stava collocata la statua di Santa Anna, e dalla medesima pezza fece tagliare una pianeta, e per accompagnamento suo si fece ancora il frontale. E perche non li parve conveniente che detto ornamento avesse a servire li giorni feriali, d’altra pezza di rigato di varii colori di seta, e filo, fece ancora una seconda pianeta, per li sudetti giorni. Diedi ancora una croce di madreperla, con il crocefisso Signore di metallo dorato, e varie reliquie nel vacuo della croce, con dieci candelieri di mensa di stagno. Li altri Governatori, che seguitarono, diedero essi ancora li suoi doni: il Tinoco diede sei candellieri di stagno di tre palmi e mezo, lavorati a uso di argento, e vi lasciò le gagliete di argento, con tagliere, e altrro diede ancor esso sei candellieri di legno, ottimamente intagliati, e in parte dorati, e in fine nulla mancava a questa capella, che non potesse avere il merito di stare in una riguardevole Capitania. Arrivò finalmente il giorno di Santa Anna del anno 1756, che si celebrò con una magnificenza grandissima, perche qui si ritrovavano tutti Missionarij del Rio Negro e Solimões, che sembrava di avere qui un Monisterio di Religiosi. La notte della vigilia vi fu una particolare allegrezza, non solo per la vaga

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illuminacione di tutta questa Villa, mà molto piu per quella che si vedeva per acqua, ma ancora nella selva opposta. La grande Giangada di quatro piramidi nel mezo, e il torrione di mezo, richi di molti centanarie di lumi, che riflectevano nell’acqua, con assieme la grande canoua, che la governava con un concerto di sinfonie, diedero un piacere non ordinario; e le manobre, che fecero avanti dell’abitacione di Sua Eccelenza, con le salve date a tempo, fecero onore alli condotiere: la matina si celebrò la Messa solemne, e vi assistì Sua Eccelenza in gala, con il numeroso accompagnamento di tutta la Officialità e terminò con un lauto pranso dato dal Magdalena, nel quale intervene Sua Eccellenza, al dopo pranso vi fu la Processione con il sudetto accompagnamento. Dopo finita la Funcione, fu consegnata la capella a Francesco Xavier de Andrada, che con molta pacienza la conservò sino alla sua caduta, nell’essere, in cui li fu consegnata. Essendo io ativato sulla fine de Aprile dell1anno 1784, e accostandosse la Festa di Santa Anna, fui informato che, lamentandosse alcuni divoti della perduta capella, avevano già, ad instanza del Andrada, racolto alcun denaro, e che si erano dati diessi Indij a fine di rifabricare la capella, e il tutto ascendeva a dugento mile réis, mà che sino ad ora di nulla piu si era parlato, ne quasi si sapeva in quale mani fosse caduta il sopradetto denaro. In questo anno nacquero discordie fra li confratelli; si celebrò la Festa, mà non aparvi il Giudice. Non si fece la eleccione per la Mesa; e perche non andasse in disuso una si pia solemnità, la fece il Vicario Generale, e sicome si prese per Prottectore questo Eccellentissimo Signore Giovanni Pereira Caldas... conticueres omnes... In questa eleccione fui nominato Giudice: onde valendomi di questa occasione feci sucitare la reccione della Capella. Ad instanza di alcuni delli antichi divoti, ne parlai a Sua Eccellenza, e come questo Signore mai andò schivo delle cose appartenenti al culto Divino, non solo aprovò la meditata idea, ma promise aiuto, e socorso, e il primo fu di dodici Indij, che dipoi acrebbe sino a venti, e nel giorno, che su procurarono l’elemosine, offerce cinquanta mila reis: il Vicario Generale diede altre cinquanta mila; venti mila ne diede il commandante Dominico Franco, Sarg. Maggiore; dieci mila furonoofferti e dati da Antonio Giuseppe Siqueira. Antonio Giuseppe Landi diede otto mila reis, e dugento quaranta alquiere di calce di pietra del Regno, che mandò a venire in tre volte nella sua canoua, e promise li suoi due schiavi Maestri muratori, con li suoi aprendici, per un anno, e subito mandò ordine, che li fossero transmessi, ma il Potere Episcopale ebbe maggior potere che l’ordine del suo Signore. Sino al presente sta la capella terminata delli legnami, che abbisognava, e sarebbe coperta di tegole, si le due ollarie, che qui abbiamo, non stassero dormiliose, e senza lavoranti. Il dissegno era di fare una capella rotonda, di diametro di quaranta palmi; ma come mi avide, che con il concorso dell’elemosine non si sarebbe poputo condurla a fine, la ridussi in un parellelogramo di ... palmi in lungo, e 30 in

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largo, con altre tanto per la capella, che è per la metà del suo corpo. Questa dovrebbe essere assistita della Camera stessa, perche la chiesa Matrice, che stà con le parete torte, e già fatta la reggia del - cupim - non aurá molti anni di vita, e in tale caso potrà servire questa per Matrice”.

Em 1788 Landi foi vitimado por uma “grave e perigoza molestia de um estupor”, conforme é comunicado ao Governador do Pará por João Pereira Caldas, a 28 de abril, provavelmente um acidente vascular cerebral. Gozando Landi eventualmente de um período de leves melhoras, o comissário aproveitou o ensejo para fazê-lo recolher à cidade de Belém. 1788 - A 11 de fevereiro, Brunelli termina de escrever De Flumine Amazonum [Códice B-2730, Gabinetto Manoscritti, Biblioteca Comunale dell’Archiginnasio di Bologna], com notas sobre a fauna e a flora do Brasil, onde segue a classificação de Linnaeus. Não se sabe a data de sua morte. Segundo Viterbo (1962: 66), “Em 1818 a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro comprou ao arquitecto José da Costa e Silva a sua [de Brunelli] colecção de desenhos, pinturas, estampas, camafeus, moldes e livros, impressos e manuscritos. Entre estes, uns 20, quase todos em língua italiana, de letra de Brunelli. (Vide Annaes da Bibliotheca, vol. IV, fl. IX)”. 1790 - Francisco de Souza Coutinho, o 25º Governador do Grão-Pará (15 de junho). 1791 - Landi tornado membro da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco da Penitência, que tinha a sua sede na capela anexa ao Convento de São Francisco. Morre Landi, a 22 de junho, na sua fazenda de Murutucu, com quase 78 anos de idade. O seu funeral foi acompanhado por uma salva de “78 cartuxos sem balla e 60 pederneiras [...] honra devida pelo cargo de capitão auxiliar de artilharia”. Foi sepultado na igrega de Santana, em Belém, onde não existem mais evidências de seu túmulo. Como bem diz Meira Filho (1976: 26): “A ele e a seu gênio criador, Belém ficou a dever seus mais belos monumentos religiosos: a conclusão das obras da Catedral, a reconstrução quase total da Igreja do Carmo (ele deixaria o altar-mor da construção anterior - 1708/1721), a igreja das Mercês, o templo do Rosário dos Homens Pretos, a Igreja de Santana, a Capela de São João Batista, a Capela do Murutucu, o Palácio Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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dos Governadores, o Palacinho de Souza de Azevedo (sogro do artista, à esquina da Rua da Cadeia com a do Pacinho, hoje João Alfredo e Campos Sales, respectivamente [cf. também Cruz, s/d]), a residência de Alves da Cunha (esquina da rua da Cadeia com a rua do Laranjal, hoje João Alfredo com Frutuoso Guimarães, respectivamente [cf. também Cruz, s/d]) e outras. Muitos projetos e construções no interior, no rio Negro e em vários pontos onde sua arte foi chamada e proclamada”. 1792 - Dna. Maria I afastada do governo. Dom João III assume o poder. Através de um requerimento enviado à Corte, pedindo justiça contra as arbitrariedades do Juiz de Fora, o Dr. Joaquim Rodrigues Milagres, sabemos que a viúva de Landi (seu terceiro casamento, em data desconhecida) era Francisca Margarida Roza da Fonseca.

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Transcrição do Códice

Tradução

Descrizione di varie Piante, Frutti, Animali,/Passeri, Pesci, Biscie, rasine, e altre simili/ cose che si ritrovano in questa Cappitania del/Gran Parà, le qualli tutte Antonio Landi de-/dica a sua Eccl:ca il Sig.e Luiggi Pinto de Souza/Cavaglier di Malta, e Governatore del Matto Grosso/ il quale con soma fatica e diligenzza investigò/ moltissime cose appartenenti alla storia natura-/le, e delle quali si potrà formare un grosso/ uolume in vantaggio della Republica Letteraria.//

Descrição de várias Plantas, Frutas, Animais,/ Aves, Peixes, Cobras, raízes, e outras coisas/ semelhantes que se acham nesta Capitania do/ Grão Pará, as quais todas Antonio Landi de-/dica a sua Exclcia o Sr. Luiz Pinto de Souza,/ Cavaleiro de Malta, e Governador do Mato Grosso,/ o qual com muita fadiga e diligência investigou/ muitíssimas coisas pertencentes à história natural/ e das quais se poderia formar um grosso/ volume com vantagem para a República Literária.//

P. 1

P. 1 N. 1. Caggiù

N. 1. Caju

È arbore frutifera, e hà di due qualità:/ il primo cresce alla altezza delli Arbori/ comuni e il secondo è Arbusto e di ques/ti se ne ritrouano selue ripiene. li frutti/ sono ugualli senon che questi ultimi sono/ più picoli, e più dolci delli altri. Le foglie/ di queste piante sono lar ghe, e si acostano/ alla figura ouale, e nelle estremità, sono al-/cun poco diuise, e grosse. Li fiorellini, cres-/cono a mazzetti nelle estremità de’ rami -/ sono molti, picoli, e mischiati di uarj collori,/ a dove bianco, giallo, e rosso, mà non fano di/ se buona figura. il loro odore se non è gra-/to, non è disprezabile, quando allignano le/ frutta, lasciono prima uedere il suo seme che/ nel fondo sta pendente, e attaccato al frutto/ il qualle sarà lungo da due sino a tre po-//

É árvore frutífera, e tem duas qualidades: a primeira cresce da altura das árvores/ comuns e a segunda é arbusto e des-/tas encontram-se bosques repletos. Os frutos/ são iguais, a não ser que estes últimos são/ menores, e mais doces do que os outros. As folhas/destas plantas são largas, e aproximam-se/da forma oval, e nas extremidades são um/ pouco divididas, e grossas. As florzinhas cres-/cem em macinhos nas extremidades dos ramos; são muitas, pequenas, e matizadas de várias cores, branco, amarelo, e vermelho, mas não fazem em/ si boa figura; seu odor, se não é agradá-/vel, não é desprezível; quando produzem os/ frutos, fazem primeiro ver sua semente, que/ no fundo está pendente, e aderida ao fruto,/o qual será do comprimento de 2 a 3 po-//

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P. 2 [Falta na col. Meira Filho]

P. 2 [Falta na col. Meira Filho]

P. 3 [Ginipapo. Falta na col. Meira Filho]

P. 3 [Jenipapo. Falta na col. Meira Filho]

P. 4

P. 4

assai ingrato. con tutto ciò se ne seruono/ molti per conforto, e essendo alcuno debili/tato per alcuna malatia. lo ammassano con/ uino, e canella; dipoi lo mettono sopra il/ uentre dello Infermo, e dicono, che è un/ grande confortativo. Il suo legno è di ra-/za bianca come il figo, cresce alto e diritto/ e è quasi del colore del argento, mà molto fino./ il suo prestimo è per lauori fini, per inta-/gli, per imbutitture, e per Corrogne da Spingarde.//

assaz ingrato: com tudo isto, muitos [dele] se/ servem para [seu] conforto, e estando alguém debili-/tado por alguma moléstia, amassam-no com/ vinho e canela, metemno depois sobre o/ ventre do enfermo, e dizem que é um/ grande reconfortante. Seu lenho é de cor/ branca, como o do figo, cresce alto e reto/ e é quase da cor da prata, mas muito fino./ Seu préstimo é para trabalhos finos, para enta-/lhes, para aplicações, e coronhas de espingardas.//

N. 3. Caffè

N. 3. Café

Non è Arbore grande, ne molto dura, mà/ però fa bella pompa di sè stesso. Il suo/ tronco sarà per lo più della grossezza di un/ bracio umano, e non sorpassa li quindici/ palmi in altezza. È assai frondoso, e le fo-/glie sono poco differenti dal nostro Alloro//

Não é árvore grande nem muito dura, mas/ entretanto faz bela figura em si mesma. Seu/ tronco terá no máximo a grossura de um/ braço humano, e não ultrapassa uns quinze/ palmos de altura. É muito frondoso, e as fo-/lhas são pouco diferentes do nosso loureiro,//

P. 5

P. 5

ma di uerde più chiaro. Buttano li fiori di/ Marzo, e questi fra le foglie, che crescono a/ due a due, ma in grande copia, e solamente/ di Agosto si uedono finiti. La sua figura è si-/mile a’ nostri gelsomini seluatici, mà più pico-/lini e di più non tengono che quatro filla, le qua-/li le stano

mas de um verde mais claro. Deitam as flores em/ março, e estas entre as folhas, que crescem/ duas a duas, mas em grande número, e somente/ em agosto se vêm completas: o seu aspecto é se-/ melhante aos nossos jasmins silvestres, mais peque-/ ninas e além disso só têm quatro fileiras,

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nel mezo, onde fioriti che sieno, sembra/ che sparssi sieno di neue le foglie. Questi fio-/ri durano pochi giorni, e rendono poco odore./ Fra tanto che allignano li frutti, tornano da/ un Mese, o più a buttare nuoui fiori anche/ fra mezo alle crescenti frutta, onde ne aviene/ che sempre sono carichi, o di fiori o frutti, li/ qualli poi maturano con forza in Marzo,/ e la sua grossezza è come un grano di uua/ del colore chiamato Carmino, onde da uicino/ e da lontano, fano bellissima vista. Ogni uno/ di questi grani sta chiuso in una poca di/ massa di un dolce assai grato e resta di-//

que/ ficam no meio, onde, assim que estão floridos, as/ folhas parecem cobertas de neve. Estas flo-/res duram poucos dias, e emitem pouco odor./ Assim que medram os frutos, tornam em/ um mês, ou mais, a deitar novas flores, mesmo/ em meio aos frutos que crescem, de onde sucede/ que sempre estão carregados, ou de flores ou de frutos,/ os quais depois amadurecem com força em março,/ e seu tamanho é como o de um grão de uva/ da cor chamada carmim, e portanto de perto/ e de longe apresentam uma belíssima vista. Cada um/ destes grãos está encerrado em um pouco de/ uma massa de uma doçura muito grata e fica di-//

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P. 6

viso in due parti chiuse cadauna da un gus/cio assai sottile. A perfecionarlo, si racoglie/ a mano quando è assai incarnato, si mette/ in monte, ui si lascia stare alcun giorno,/ perchè marcisca la pelle, di poi si dimena/ con le mani e con li piedi, e questo fatto/ si uà lauando sino a tanto che sia neto dalla/ sopradetta pele. Dipoi si mete al Sole o ui/ si lascia sino a tanto che sia molto bene se-/cato, dipoi si custodisce ne’ sachi con il secondo/ guscio, e ad ogni Mese, buono è darli un poco/ di Sole perchè lo umido non lo faccia uenire/negro. Quando poi è tempo di caricarlo per/Lisbona, si mete a poco a poco in Pilloni di/legno e con bastoni si pesta tanto, che si/spezzi quel tenero guscio, che è quello, che lo/ costudise e così stà preparato. Il legno è/ molto fragile, e a nulla serue. Quando poi/ tiene dieci o dodici Anni, si recida uicino//

vidido em duas partes fechadas cada uma por cas-/ca muito fina. Para prepará-lo, colhese/ com a mão quando está bastante encarnado, põe-se/ num monte, e ali se deixa estar por um dia,/para que se desfaça a pele, depois se agita/com as mãos e com os pés, e isto feito/vai-se lavando até que fique limpo da/supradita pele. Depois põe-se ao sol ou deixa-/se estar até que esteja muito bem se/co, depois se guarda em sacos com a segunda/ pele, e a cada mês é bom dar-lhe um pouco/ de sol para que a umidade não o faça tornarse/ negro. Quando então vem o tempo de mandá-lo a/ Lisboa, põe-se pouco a pouco em pilões de/madeira e com uma mão de pilão se mói tanto, até que/se esmague aquela tenra pele, que é a que/o guarda, e assim está preparado. A madeira é/ muito frágil, e para nada serve. Quando então/ tem de dez a doze anos, corta-se-o próximo//

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P. 7 al Piede, e cosi rinuoua dando subito il fru-/tto ma’ seminandolo, da dentro al termine/ di tre Anni. E è Pianta che dà bene en/ ogni terreno asciuto.//

P. 7 ao pé, e assim ele se renova, logo dando o fru-/to sem jamais semeá-lo, dentro do termo/ de três anos. E é planta que dá bem em/ qualquer terreno seco.//

N. 4. Iggiò [+ Scipò-una]

N. 4. “Iggiò” [?] [+ Cipó-una]

Questa è Pianta che non la ritrouo col-/ tiuata, e la disegnai, perchè assaggian-/ done il frutto, non era disgustoso. L’/altra Pianta che stà nel detto foglio, è/ di un Scipò, chi le stava auitichiato/ allo intorno, e intendesi per nome di Scipò-/una, o uarie piante che noi chiamiamo Vi-/dalpa, o altre simile che si arrampicano.//

Esta é uma planta que não encontro cul-/ tivada, e desenhei-a, porque, experimen-/ tando o fruto, não era desagradável. A/ outra planta que está na mesma prancha, é/um cipó, que lhe estava grudado/em torno, e conhecido pelo nome de Cipó-/una, ou várias plantas que chamamos Vi-/talba, ou outras semelhantes que trepam.//

N. 5. Atta

N. 5. Ata

Questa non è di quelle Piante, che cres-/ chino molto in altezza o grossezza, ne tam/poco é fro[.. ]. Le sue foglie, sono assai//

Esta não é daquelas plantas que cres-/cem muito em altura ou largura, nem tam-/pouco é [frondosa?]. As suas folhas são bastante//

P. 8

P. 8

appuntate, e liscie, mà non aprono bene. Il/ fiore non è facile da intendersi ancor che fosse/ bene descrito, mentre nasce da un gambo un/ ochio con tre foglie assai grosse da formare/ un triangolo, e sono poco meno da di colore/ del Solfo, non rendono odore, e non hano gracia./ Il frutto è grande como una Cipola ordina/ria mà è diuiso quasi come le pigne, abbenchè/ la sua scorza vesti sempre uerde, e quando/ è maturo è assai tenera, e se dall’arbore/ non si lecca per tempo, si parte in più pa-/rti, e cade per terra.

aguçadas, e lisas, mas não se abrem bem. A/ flor não é fácil de entender, mesmo que fosse/ bem descrita, pois nasce de um pedúnculo um/ olho com três pétalas bastante grandes formando/ um triângulo, e têm mais ou menos a cor/ do enxofre, não emitem odor, e não têm graça./ O fruto tem o tamanho de uma cebola ordiná-/ria, mas é dividido quase como as pinhas, se bem que/ sua casca sempre se vista de verde, e quando/ está madura é muito tenra, e se das árvores/ não se o colhe em tempo, partese em várias par-/tes, e cai por terra. Seu

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il suo midolo è bianco/ come il fiore di Late, e ripieno di semi/ grandi come un pignuolo con il guscio; sono/ lustri, neri e duri. Il detto frutto si asciupa/ o si mangia col cuchiaio. È dolce, gustoso,/ e lascia di più un grato odore come di/ rosa, e sono di parere che questo frutto/ sarebbe assai preggieuole in Europa. Ho//

miolo é branco/ como a flor de copo-de-leite [?], e cheio de sementes/ do tamanho de um pinhão com a casca; são/ lustrosas, negras e duras. O dito fruto chupa-se/ ou come-se com colher. É doce, gostoso,/ e deixa além disso um grato odor como de/ rosa, e sou da opinião que esta fruta/ seria muito apreciada na Europa. Tenho//

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osservato, che nelle foglie di questa sola Pianta/ ui fano il nido certi picolissimi muschini, li quali/ ui formano un laberinto come di capeli bianchi-/ssimi, e talmente intrecciati, che é una merauiglia/ e stritolati con le deta, se riducono in minu/tissima polvere. Il legno non è atto ai lauori.//

observado que apenas nas folhas desta planta/fazem seu ninho certas pequeníssimas mosquinhas, que/ ali formam um labirinto como que de cabelos bran-/quíssimos, e de tal forma entrelaçados, que é uma maravilha/ e que esmagadas com os dedos, reduzem-se a dimi-/nutíssima poeira. A madeira não serve para obras.//

N. 6. Giniparana

N. 6. Jenipaparana

È questa una aruore assai grande, le sue/ foglie sono lunghe un palmo, e sono diuise/ in quatro parti per mezo di tre gamboncini, che/cominciano dal fondo della foglia, e si uniscono/nella estremità. Li fiori non ostante che si-/ano priui di odore sono assai belli e parti-/colari. Sono composti di sei foglie bianche, i/ qualli stano gallantemente roversiate nelle/loro estremità participando di alcun collore/giallastro. E ogni una delle sudette foglie//

Esta é uma árvore muito grande, suas/ folhas têm o comprimento de um palmo, e estão divididas/ em quatro partes por meio de três pedunculinhos, que/começam no fundo da folha, e se unem/ na extremidade. As flores, não obtante serem/privadas de odor, são bastante belas e parti-/culares. São compostas de seis pétalas brancas, as/ quais estão galantemente reviradas em/sua extremidade, participando de uma cor/ amarelada. E cada uma das supraditas pétalas//

P. 10

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tiene un pezzeto della medesima separato e/ come se fosse straciato, e lo rende

tem um pedacinho da mesma separado e/ como se fosse rasgado, tornando-a diferente/

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differente/ da tutti. Nel mezo poi tiene un circolo com-/posto di fini nodi a uso di fibre, e la una è/ colore giallo, e l’altra morello, e nel mezo resta/ uacuo per dare luogo ad altri fiorellini che es-/chino fuori e tutto il fiore sarà largo poco/ più di un Filipo. Il frutto non differisse mol-/to dalle Nespole, mà non si mangia. Il le-/gno è forte, e serue per molti lauori.//

de todas [as outras]. No meio tem então um círculo/ composto de finos nódulos, como fibras, e uma é/ de cor amarela, e outra murzela, e no meio fica/ vazio para dar lugar às outras florzinhas que/ saem para fora e a flor inteira terá de largura/ pouco mais de um filipe. O fruto não difere mui/to das nêsperas, mas não se come. O le-/ nho é forte, e serve para muitas obras.//

N. 7. Guiaua

N. 7. Goiaba

È uno dei frutti stimati in queste parti,/ mà è tanto abbondante, che si lascia per/ pasto a Buoui, e a Porci. Questa arbore/ è sgarbrita, perchè cresce quasi sempre torta./ Le sue foglie sono quasi ouali, non aprono/ anch’esse bene, e sono di uerde scuro, mà//

É um dos frutos apreciados nestas partes,/ mas é tão abundante que se deixa de/ pasto a bois e porcos. Esta árvore/ é grosseira, porque cresce quase sempre torta./ Suas folhas são quase ovais, não abrem/ bem também elas, e são de um verde escuro, mas//

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grosse, e assai aspre. La sua prima cortecia/ è sottilissima e del colore, che sono le carna-/ggioni scure. Sotto alla detta scorza una/ altra ui stà uerde, attacata alla terza bianca./ Li fiori poco differiscono da quelli de’ nostri/ spini. Il frutto è rottondo con scorza glo-/bosa mà assai fina, e la sua generale grosse-/zza è come di un aranzzo ordinario, mà/ nel fondo conserua quatro foglietine, che/ sono grosse, e li formano corona. Questi è/ tenero, quando maturo e si mangia a trauersso/ como li persici, o le bicoche. Al didentro, è/ bello, perchè di collore porpurino. In quanto/ al suo gusto è assai acido abbenchè altri non/ lo sieno tanto. Io però lo trouo fastidioso al/ mangiarlo, non tanto perchè

grossas, e bastante ásperas. Sua primeira casca/ é finíssima, e da cor que têm os cravos/ escuros. Sob a dita casca existe/ uma outra verde, pegada à terceira branca./ As flores pouco diferem daquelas das nossas/ sarças. O fruto é redondo com casca glo-/bosa, mas bastante fina, e sua espessura geral/ é como a de uma laranja ordinária, mas/ no fundo conserva quatro folhinhas, que/ são grossas, e que ali formam uma coroa. Estes/ são tenros, quando maduros, e se comem ás bocadas/ como os pêssegos, ou como o abricô. Dentro é/ belo, porque de cor púrpura. Quanto/ ao seu gosto, é bastante ácido, se bem que outros/ não sejam tanto. Porém eu acho aborrecido/ comê-los, não tanto porque faz

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


fa diguignire/ li denti, quanto per le loro sementi, che sono/ inumerabili, della grandezza di un grosso gra-/no di arrena, e duri come si fossero di pietra.//

embotar/ os dentes, quanto por suas sementes, que são/ inumeráveis, do tamanho de um grande/ grão de areia, e duras como se fossem de pedra.//

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onde ne aviene che mettendosi fra denti, ui/ si conseruano fastidiosi per molto tempo, e/ queste frutta sono assai uerminose. Dalle/ medesime poi si fà un dolce squisitissimo/ a uso di una sodda codognata, che sarebbe/ stimatissimo in qualunqe parte di Europa./ E in fine deuo dire, che il fiore non rende/ odore ma lo rende il frutto, e non disprezzabile./ Il suo legno dura molto, ma a poco serue/ per essere assai nodoso, e torto.//

Donde sucede que, metendo-se entre os dentes, ali/ se consevam importunas por muito tempo, e/ estas frutas são muito bichadas. Delas/ pode-se fazer um doce excelentíssimo/ para usar como geléia [goiabada], que seria/ estimadíssimo em qualquer parte da Europa./ Enfim, devo dizer que a flor não emite/ odor mas o fruto sim, e não desprezível./ Sua madeira dura muito, mas para pouco serve/ por ser muito nodosa e torta.//

N. 7 [bis] [Anon.]

N. 7 [bis] [Anon.]

Questa arvore non hà nome proprio, ne la/ ritrouo coltiuata; e anzi é la piu-/ma da mé osservata. Nel dissegno,/ non si uede il fiore perche non lo aue-/ua quando mandai a tirare le frutta,/ che dall’arbore pendeuano assai alte, ne/ il suo sapori lo ritrouai disgustoso.//

Esta árvore não tem nome próprio, nem a/ encontro cultivada, e nem a pai-/na por mim observada. No desenho/ não se vêem as flores porque não as ti-/nha quando mandei retirar os frutos,/ que pendiam da árvore, muito altos, e nem/ o seu sabor encontrei desagradável.//

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P. 13 N. 8. Cupuassú

N. 8. Cupuaçu

Tra li arbori, è uno di mediana grandezza, e hà/ le foglie lunghe un palmo, e mezo, e larghe/ la terza parte della lunghezza, nel dirito sono/ uerdi e dall’altra parte lanuginose, e di colore/ ciniricio. Nel fine

Entre as árvores, tem mediana altura, e/ as folhas de um palmo de comprimento, e de largura/ um terço do comprimento, na face superior são/ verdes e na outra parte lanuginosas e de cor/ cinzenta. No ápice

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terminano con punta assai ri-/uolta e acute; il fiore hà cinqe foglie, vialtre/ al basso assai picole, mà simili a quelle del Tulli-/ pano a segno, che accopiono il gambo nella par-/te doue stano attaccate. Le dete foglie sono bi-/anche nelle punte e rosse nel restante. Allo in-/torno delle descritte uissi [sic] uedono cinqe globini,/ al uso di Cuore non più grossi di un grano di/ miglio Casserino, e ogni uno nelle sue estremità/ fà uedere altra foglia convessa del colo-/re della viola mamola, e sopra si uedono al-/ tre cinqe foglietine, che si assomigliano nel colore/ e fattura ad un Giacinto, e tutto sarà lungo//

terminam com ponta bastante/ virada e aguda; a flor tem cinco pétalas, por vezes/ em baixo muito pequenas, mas semelhantes às da tulipa/ na forma, que se emparelham no pedúnculo na par-/te em que se prendem. As ditas pétalas são bran-/cas nas pontas e vermelhas no restante. Ao re/dor das descritas, vêem-se cinco glóbulos,/ em forma de coração, não maiores do que um grão de/ painço, e cada um deles, em sua extremidade,/ mostra outra pétala convexa da cor/ da violeta roxa, e acima vêm-se ou-/tras cinco petalazinhas, que se assemelham na cor/ à forma de um jacinto, e o todo terá o comprimento//

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una polegada. Il frutto è lungo un pa-/lmo e rottondo, e termina con punta. Il suo/ casco è tanto grosso, che per batterlo bisogna/ adoprare il martello, o batterlo in alcuna pi-/etra. Al didentro è composto di quatro or-/dini di sementi inuilupati nella sua massa/ e formano un quarto di circolo. La suddet-/ta massa è bianca, mole, e lagunosa, onde/ non si mangia, mà si asciupa, e da nulla/ seruono le sementi, che sono più grosse di una/ amendola. Da questo frutto se fà una be-/uanda, la quale si qui si potesse gellare al/ uso de sorbetti, sarebbe deliciosissima, mentre/ partecipa di un agro gustoso, il quale, cor-/retto con il zuchero riesce ottima, non os-/tante al acido odore che tramanda, e ent-/rando in una Casa doue alcuno ue ne sia,/ si sente da lontano, e per questo non poteua/ io tolerarlo di notte. Quando è maturo,//

de uma polegada. O fruto tem tamanho de um pal-/mo e é redondo, e termina em ponta. Sua/ casca é bastante grossa, tanto que para batê-la precisa-se/ adotar um martelo, ou batê-lo em uma pe-/dra. Dentro, é composto de quatro fi-/leiras de sementes envoltas em sua massa/ e formam um quarto de círculo. A supradi-/ta massa é branca, mole, e lacunosa, e por isto/ não se come, mas se chupa, e para nada/ servem as sementes, que são maiores do que uma/ amêndoa. Deste fruto faz-se uma be-/bida, que se aqui se pudesse gelar,/ como um sorvete, seria deliciosíssima, pois/ possui um azedo gostoso, que, corri-/gido com açúcar, torna-a ótima, não obs-/tante o odor ácido que emana, e entran-/do em uma casa onde se encontrem alguns,/ sente-se de longe, e por isto eu não os podia/ tolerar à noite. Quando está maduro,//

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cade da sè stesso, e allora incomincia a tra/mandare quel grato, e acuto odore, e non es-/sendo maturo, marcise, e non lo tramanda. Il/ legno non serue a cosa alcuna, dico, che al diffuori/ il frutto è coperto di una poluere minuta,/ che sembra ferugine, e sino a tanto che du-/ra, dura ancora il detto acuto odore.//

cai por si só, e então começa a ema-/nar aquele grato e agudo odor, e não es-/tando maduro, murcha, e não o emana. A/ madeira não serve para coisa alguma, digo, que por fora./ o fruto é coberto por um pó diminuto,/ que parece ferrugem, e tanto quanto du-/ra, dura ainda o dito odor agudo.//

N. 9. Biribas

N. 9. Biribá

Questa sorta di Arbore, in pochi/ Anni, cresce assai alta. La sua scor-/za tira al bianco, e il legno è assai/ fragile. Il fiore, è similissimo a quello/ dell’Atta descrita, come lo sono ancora/ le sementi. Il frutto, è però diuerso/ perche al diffuori è pieno di punte/ assai rileuate, è grande come una pigna.//

Esta espécie de árvore, em poucos/anos, cresce bastante alta. Sua cas-/ca tende ao branco, e a madeira é muito/ frágil. A flor é semelhantíssima à/da ata [já] descrita, como o são ainda/as sementes. O fruto, porém, é diferente,/porque por fora está cheio de pontas/ muito levantadas, é grande como uma pinha.//

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quando è maturo, si fà giallastro con/ machie nere, e stritolandosi con le de-/ta, si apre; tiene dentro molta mas-/sa lagunosa, che si mangia con il co-/chiaio, ma a dire il uero, mi nausea./ Il suo gusto è dolce insipido, e per/essere molto abbondante, non è stimato.//

Quando está maduro torna-se amarelado com/ manchas negras, e esmagando-se com os de-/dos se abre; tem dentro muita mas/sa lacunosa, que se come com uma co-/ lher, mas para dizer a verdade, nauseiame./ Seu gosto é doce insípido, e por/ser muito abundante, não é estimado.//

N. 10. Abbacati

N. 10. Abacate

Non è Arbore molto frondosa per/ auere li rami larghi, mà però cresce/ in altezza, e grossezza. Li fiori sono/ minuti, a segno che di basso poco si ue-/dono. Li frutti

Não é árvore muito frondosa para/ ter ramos grandes, mas cresce/ em altura e largura. As flores são/ diminutas, de modo que de baixo pouco se/ vêem. Os frutos exteriormente

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esteriormente sono si-/milissimi alle nostre pere, chiama-/te battochie, e il suo seme è grande/ come un uouo di gallina. Il mi-/ dolo, è poco meno che grande, e pare//

são se-/melhantíssimos às nossas peras, chama-/das ‘badalo’, e sua semente tem o tamanho/ de um ovo de galinha. A pol-/pa é pouco menos que grande, e parece//

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un buttiro ancora mangiandolo, tanto/ è buono, che li Gatti adoprano tutta/ la loro industria per rubarli. Amma-/ssando poi quella massa con zuccaro,/ e canella, riesce precioso, e [...]/ ogni uolta, che posso avverli, li mangio/ con buon gusto, ma tanto saziano,/che più di due non posso assagiarne,/ onde serue di molto utile alla po-/uera gente. Il legno di questa Pi-/ anta è molto fragile, e non tiene uso.//

manteiga, mesmo comendo-a, [e] de tal modo/ é boa, que os gatos empregam toda/ sua indústria para roubá-la. Amas-/sando pois aquela massa com açúcar/e canela, torna-se preciosa, e [...]/ cada vez que os possa ter, como-os/ com bom gosto, mas saciam tanto/ que não posso experimentar mais que dois,/ e por isto é muito útil para as pes-/soas pobres. A madeira desta plan/ta é muito frágil, e não tem utilidade.//

N. 11. Sabonetas

N. 11. Sabonete

Questa pianta, si annouera fra le/ maggiori e molto tonde le suoi ra-/mi douiciosi di foglie di ordinaria/ grandezza. Li suoi fiori non li hò/ ueduti, e per essere molto alti, non//

Esta planta situa-se entre as/ maiores e muito redondas, os seus ra-/mos copiosos de folhas de tamanho/ ordinário. Suas flores não as/ vi, e por estarem muito no alto, não//

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si distinguono. Il suo frutto non/ si mangia, e consiste in bache rotton-/de più grosse di una Auellana con/ il guscio, la sua pelle è come qu-/ella carta con la quale si legano li/ libri e fra questa, e il seme stà un/ sumo spumoso che inuischia molto./ Si aprono, e battute con acqua seruono/ ad uno di sapone. Doue stano attaca-/te si uedono rami che formano una/ lunga e accuta punta senza foglie./ Il seme, è negro,

se distinguem. Seu fruto não/ se come, e consiste em bagas redon-/das maiores que uma avelã com/ a casca; sua pele é como aque-/le cartão com o qual se encadernam/ livros, e entre esta e a semente existe um/ sumo espumante que é muito pegajoso./ Abertos e batidos em água servem/ como sabão. Onde estão pre-/sos vêem-se ramos que formam uma/ longa e aguda ponta sem folhas./ A semente é negra, dura e

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duro, e rotondo,/ e serue a fare Rosarj senza torno./ Il legno non tiene uso.//

redonda,/ e serve para fazer rosários sem torno./ A madeira não tem utilidade.//

N. 12. Pimenta saluatica, e/ cosi chiamata per assomigliarsi alle/ altre che qui nascono, ma questa/ non si mangia.

N. 12. Pimenta silvestre, e/ assim chamada por assemelhar-se às/ outras que aqui nascem, mas esta/ não se come.//

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P. 19 N. 13. Caragiurù

N. 13. Carajuru

Di questa Pianta, non hò ueduto il/ frutto; e se lo nutre[?], non é qui di alcun/ prestimo, come sono le foglie, le qua-/lli lasciano un colore, che saria molto/ stimabile in ogni parte di Europpa/ se non fosse trascurato dalla pigri-/cia di costoro, e se alcuna pianta/ si ritroua, è per acaso, ma niuno la/ coltiva. Il modo di farlo, è questi:/ lasciono, che le foglie sieno mature,/ e dopo di auerle leuate dall’arbore/ le lasciono secare al ombra, diuen-/tano di colore, come il lapis rosso./ Dipoi le lasciono un giorno, o meno/ inffusa in acqa, e le fano bolire/ nella medesima, onde ne auiene,/ che manda fuori il suo colore, che è//

Desta planta não vi o/ fruto, [....]; não tem neste caso nenhum/ préstimo, como têm as folhas, as quais/ largam uma cor que seria muito/ apreciada em qualquer parte da Europa/ se não fosse descurado pela pre/guiça dessas pessoas, e se alguma planta/ se acha, é por acaso, mas ninguém a/ cultiva. A maneira de proceder é esta:/ deixa-se que as folhas estejam maduras,/ e depois de tê-las arrancado da árvore/ deixam-se secar à sombra, [onde] se tor-/nam da cor do lápis vermelho./ Depois deixam-se por um dia, ou menos,/ em infusão em água, e fervem-se/ na mesma, de onde acontece/ que largam sua cor, que é//

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come una finissima terra, leuata che/ sia dal fuoco, e rafredata, si tirano le/ foglie, che si lauano assai bene nella/ medesima acqua, dipoi si lascia de-/pore, e quella deposizione è la dessi-/derata tinta. La qualle è di uiuissimo/ colore, e assai più scura del carmino, a/ dopo di questo, è certamente la più/ stimabile, e più volte la hò esperime-/ntata in tempra, e a olio, e mi riuscì/ belissima. Si

como uma finíssima terra, depois de levada/ ao fogo, e esfriada, retiram-se as/ folhas, que se lavam muito bem na/ mesma água, depois deixa-se de-/cantar, e essa decantação é a dese-/jada tinta. A qual é de uma cor vivíssi/ma, e muito mais escura que o carmim, e/ depois desta é certamente a mais/ estimável, e muitas vezes a experimen-/tei, com têmpera e com óleo, e resultou-me/ belíssima. Cuide-

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accerta però, che auanti di/ metterla in infusione, si deue lauare/ perchè non resti poluore, o terra nella/ deposizione. Li fiori che stano nella/ pianta disegnata, li feci della sua me-/desima tinta, che è la propria, e non/ la macinai per imitare il suo colore./ Si tira questa da arberi, e altra da’/ Scipò come si uede nel estesso foglio.//

se, porém que, antes de/ pô-las em infusão, devem-se lavar/ para que não reste pó, ou terra, na/ decantação. As flores que estão na/ planta desenhada foram feitas com sua mes-/ma tinta, que é a sua própria, e não/ a reduzi a pó para imitar sua cor./ Tira-sea das árvores, e outra dos/ cipós, como se vê na mesma estampa.//

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P. 21 N. 14. Cottone

N. 14. Algodão

Questa Pianta è qui abbondante, e molto/ più lo sarebbe, se dalla medesima se ne sapes/se ricauare maggiore Vantaggio mentre qui/ non si fabricano Pani grossissimi, che da noi a/ nulla altro servirebbero che a fare Sachi e Pa-/gliaci. Vero è, che alcun poco se ne tesse migli-/ore, mà non equiuale al pano lino più ordinario./ Io poi non sò se questa Pianta si deua mete-/re nel numero delli Arbori o de Arbusti, per-/ chè piantandosi le sementi in Genaio, di Agosto/ dano il frutto. Vero è che fano rami e li stendo-/no sino alla altezza di diccioto palmi, mà uero è/ ancora, che ad ogni due Anni, si taglia il suo tron-/co sino a terra, perchè dia con maggiore abbon/danza, mà ciò non si fa che due o tre uolte per-/chè poi si reputa vechio, e di niun conto. Il/ modo di coltiuarlo è questo: ad ogni otto o dieci//

Esta planta é aqui abundante, e muito/ mais seria, se da mesma se soubesse/ extrair maior vantagem, pois aqui/só se fabricam panos grosseiríssimos, que entre nós/para nada mais serviriam se não para fazer sacos e/ sacos para colchões de palha. É verdade que um pouco se tece me-/lhor, mas não equivale ao pano de linho mais ordinário./ Não sei ademais se esta planta se deve meter/ no número das árvores ou dos arbustos, por/que plantando-se as sementes em janeiro, em agosto/ dão fruto. É verdade que formam ramos e estendem-/nos até a altura de dezoito palmos, mas mais verdadeiro/é ainda, que a cada dois anos se corta seu tron-/co até o chão, para que dê com maior abun-/dância, mas isto se faz só duas ou três vezes, por-/que depois se o reputa velho, e de nenhum valor. O/ modo de cultivá-lo é este: a cada oito ou dez//

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palmi si apre un buco con un legno appuntato,/ con la Zappa, e non ui si

palmos abre-se um buraco com um pau aguçado,/ com a pá, e ali não se metem

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mettono più di qua-/tro sementi, le qualli sono similissime allo sterco/ delle Pecore; dopo due Mesi, che sarà cresciuto/ alla altezza di tre palmi incirca, si castra, o ui/ si tira il germeglio di mezo perchè lancij molti/ ramusselli. Quando é maturo, si apre il frutto,/ e ui si tirano tre inuoltini di cottoni, e ogni uno/ peserà meza ottaua compreseui le otto sementi/ che nel centro, giunte, stano collocate. La Causa/ ancora per la quale si taglia il suo tronco, è/ perchè estendendo i fiachi rami all’alto, più dif-/ ficile ne è la racolta, perchè ad ogni pianta/ forza si schianta, e non matura il frutto non sta-/gionato. Nel disegno si uedono con tutta la esa-/tezza le parti della pianta, che sono la foglia,/ il fiore non del tutto aperto, il calice, che dentro/ del medesimo forma il frutto segnato, il detto quando/ è seco, è uno delli inuoltini con li semi scoperti.//

mais de qua-/tro sementes, as quais são semelhantíssimas ao esterco/ das ovelhas; depois de dois meses, quando cresceu/ até a altura de aproximadamente três palmos, castra-se, ou se/ lhe tira o germe do meio para que lance muitos/ raminhos. Quando está maduro, abre-se o fruto,/ e retiramse três envoltórios de algodão, e cada um/ pesará meia oitava, compreendidas ali as oito sementes/ que juntas, no centro, estão colocadas. A causa/ainda pela qual se corta o tronco, é/ porque estendendo os fracos ramos para o alto, mais/ difícil é a colheita, porque cada planta/ [assim] se rompe, e não amadurece o fruto não/ sazonado. No desenho vêm-se com toda a exa-/ tidão as partes da planta, que são a folha,/ a flor não de todo aberta, o cálice, que dentro/ dele forma o fruto assinalado, o mesmo quando/seco, e um dos involucrozinhos com as sementes descobertas.//

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N. 15. Cottone detto di Pirichito

N. 15. O chamado algodão-de-periquito

Questa arbore è assai alta, e non sò che il suo/ Legno sia atto a cosa alcuna. Dal dissegno si/ uedono li fiori, le foglie, il frutto uerde, e seco,/ il quale in nisun conto si mangia. Si chiama/ Cottone di Piriquito, perchè aprendose il suo fru-/tto lascia cadere una finissima lanugine della/quale ogni più lieue aura la trasporta oue più/ li piace, e questa essendo piena di dure, ma pi-/cole sementi, ui concorono quantità di Pirichitos,/ Passeri belissimi, a mangiarla.//

Esta árvore é bastante alta, e não sei se seu/ lenho é útil para alguma coisa. No desenho/ vêm-se as flores, as folhas, o fruto verde, e o seco,/ o qual de maneira alguma se come. Chama-se/ algodão-de-periquito, porque abrindo-se seu fru-/to deixa cair uma finíssima lanugem a qual/ qualquer aura por mais leve transporta-a onde quer/ que queira, e esta, estando cheia de sementes/ duras, mas pequenas, atrai uma quantidade de periquitos, aves belíssimas, para comê-las.//

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N. 16. Puciris

N. 16. Puxiri

Dicono, che la aruore è grandi, mà non dà in qu-/este parti, mà nel Sertone, o sia Bosco del Rio Bian-/co che boca nel Rio Negro, luogo lungi da questa/ Città del Gran Parà più de quaranta giorni//

Dizem que a árvore é grande, mas não dá nes-/tas partes, mas no sertão, ou seja, na floresta do Rio Bran-/co que desemboca no Rio Negro, lugar distante desta/ cidade do Grão Pará mais de quarenta dias//

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di continua nauigazione. Io non potei uedere/ la Pianta da che non potei andare per terra/ fra quelle intricate Selue. Con tutto ciò, mi feci/ portare un ramicino che è lo stesso dissegnato./ Sò che questo frutto si può anouerare fra le/ ghiande, perchè tirato dal suo capucio, lascia la/ pelle che le cuopre, e resta diuiso come le dete./ Questi era una uolta ricercato, e particolarmente/ dalli Inglesi, li quali lo ralauano, e lo mescla/uano in certa beuanda detta Ponci, a loro co-/mune, mà al presente nulla si cura, osia per la/ grande abbondanza che li abbia fatti decadere del/ suo prezzo, o dal suo prestimo. Sò che si possono/ annouerare fra le speciarie, e poco differiscono dal-/la noce moscata, e anzi molti li riducino in/ poluere, e assaliti che sieno da punture, ne pren-/dono una porcione in Vino, o in acqa ardente,/ e asseriscono, che fa lo estesso effetto delle noci/ moscate, e lo prendono ancora per i Flati.//

de contínua navegação. Não pude ver/ essa planta porque não pude ir por terra/ ao meio daquelas intrincadas selvas. Apesar de tudo, fiz/ trazerem-me um raminho que é o mesmo desenhado./ Sei que este fruto se pode incluir entre as/ bolotas, porque tirado de seu capuz, larga a/ pele que o cobre, e fica dividido como as ditas./ Este era uma vez procurado, particularmente/ pelos ingleses, que o ralavam, e mistura-/vam em certa bebida chamada ponche, comum entre/ eles, mas no presente ninguém o procura, seja pela/ grande abundância, que o tenha feito cair de/ preço, ou de seu emprego. Sei que se podem/ incluir entre as especiarias, e pouco diferem da/ noz moscada, e muito os reduzem a/ pó, e se são assaltados por pontadas, tomam/ uma porção em vinho, ou em aguardente,/ e garantem que faz o mesmo efeito da noz/ moscada, e tomamno ainda para os flatos.//

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P. 25 N. 17. Giuà [?]

N. 17. Juá

Questa Pianta spinosa ne abbonda per

Esta planta espinhosa abunda em todo/

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ogni/ luogo, tanto nella Città, quanto fuori. Li suoi/ frutti, che sono bache incarnate, a nulla si consi-/derano. Pure non sono disprezabili, perchè il lo-/ro acido, è temperato da un dolce non nauseante.//

lugar, tanto na cidade quanto fora. Seus/ frutos, que são bagas incarnadas, não servem/ para nada. Entretanto não são desprezíveis, porque/ seu ácido é temperado por uma doçura não nauseante.//

N. 18. Cipola Braba, o sia Saluatica

N. 18. Cebola brava, ou seja, selvagem

Le Foglie di questa Arbore, sono differenti as-/sai dalle altre, como si uede dal dissegno./ Ma il loro frutto non è buono da nulla, me-/ntre non si mangia nepure da’ Passeri. Il fiore/ se non rende odore, è però bello da uedersi,/ e nisuno lo assomiglia, e pare a mè, che/ questa Pianta per essere assai ombrosa, e/ per la belezza de suoi fiori, farebbe grata co-/mpagnia alle Piante Europee.//

As folhas desta árvore são bastante diferentes/ das outras, como se vê no desenho./ Mas seu fruto não serve para nada, por-/que não é comido nem pelas aves. A flor,/ se não tem odor, é bela de ver-se,/ e nenhuma se lhe assemelha, e parece-me que/ esta planta, por ser bastante umbrosa, e/ pela beleza de suas flores, faria grata com-/panhia às plantas européias.//

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P. 26 N. 19. Continas [sic]

N. 19. Continhas

Questa Pianta é una erba, mà per la bellezza/ delle sue foglie, e per la uiuezza de’ suoi col-/lori meritarebbe di essere mesclata fra le Itali-/ane Piante: si chiama con il nome di Conti-/nas perchè essendo le sue sementi, negri, dure/ e rottonde, si fano rosarij, mà niuno però le/ semina, ma nascono al uso delle erbe saluatiche./ Non rendono odore, e per questo, sono neglete.//

Esta planta é uma erva, mas pela beleza/ de suas folhas, e pela vivacidade de suas co/res mereceria ser incluída entre as plantas/ italianas: é chamada pelo nome de conti-/nhas, porque sendo suas sementes negras, duras/ e redondas, delas se fazem rosários, mas ninguém entretanto/ as semeia, mas nascem como as ervas selvagens./ Não têm odor, e por isto, são desprezadas.//

N. 20. Cubbio

N. 20. Cubio

Anch’essa è Pianta Spinosa, e nelle foglie/ simile al Giuà, mà non nel fiore, e nel

Também esta é planta espinhosa, e nas folhas/ semelhante ao juá, mas não na flor

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frutto./ Questi abbonda di un summo assai acido,/ mà se ne fà un dolce siropato, che se non/ supera li altri tutti, almeno lo uguaglia, e/ non da pochi si dessidera a Lisbona.//

nem no fruto./ Abunda este de um sumo bastante ácido,/ mas dele se faz um doce xaroposo, que, se não/ supera todos os outros, pelo menos os iguala, e/ não por poucos é desejado em Lisboa.//

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N. 21. Sumauma Incarnata

N. 21. Sumaúma encarnada

In varij luoghi si ritroua questa Pianta, ma do-/ue abbonda, è sù le Spiaggie delle Amazoni./ Li arbori, che la producono, sono grandi e quando/ portano li frutti, fano di se bella comparsa per/ la loro abbondanza. Li fiori sono anch’essi curio/sissimi come si uede del dissegno, e oltre le cin-/que foglie incarnate, al difuori, e uerdi al didentro,/ sono pieni di certi ranoncini lunghi una polegada/ e meza del colore dello auorio vechio, e non più gr-/ossi di un vermicello ordinario, mà tanto bene as/setati che in un giro ne contai sopra trecento, e/ quando si aprono, sembrano fiochi; per dare la pol-/uere, dipoi si conuertono come si uede nel picolo/ frusto, de conseruar per alcun tempo quel gambo/ncino uerde. Quando è già maturo diuenta come/ si uede nel disegno, mà con rosso più scuro; di/ poi si apre da sè stesso, e lascia cadere una//

Em vários lugares se encontra esta planta, mas on-/de abunda é nas praias do Amazonas./ As árvores que a produzem são grandes e quando/ têm frutos têm bela presença por/ sua abundância. As flores são também elas curio-/síssimas como se vê no desenho, e além das cin-/co pétalas encarnadas por fora, e verdes por dentro,/ cheias de certos estames do comprimento de uma polegada/ e meia da cor de marfim velho, e não maiores/ do que um vermículo ordinário, mas tão bem or-/denados que em um círculo contei acima de trezentos, e/ quando se abrem, parecem flocos, para dar o pó,/ depois se convertem, como se vê, no pequeno/ bocado, de conservar por algum tempo aquele/ pedúnculo verde [?]. Quando já está maduro fica/ como no desenho, mas com vermelho mais escuro,/ depois abrese por si só, e deixa cair uma//

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lanugine, che tira anch’essa ad un rosso molto palido,/ mà, è ripiena di moltissimi, e minute sementi, le/ qualli non si ponno tirare per essere attacate a/ quella fina

lanugem, que puxa também ela a um vermelho muito pálido,/ mas que está repleta de muitíssimas e diminutas sementes, as/ quais não podem ser retiradas, por

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lanugine della quale ne empiono sachi/ o cesti, e serue per imbottire materazzi, e Cus-/sini tanto qui, quanto in Lisbona, mà tanto ris/-calda, che in Italia, e altri Paesi fredi sarebbe/ in grandissimo preggio.//

estarem presas/ àquela fina lanugem, com a qual se enchem sacos/ ou cestos, e serve para encher colchões e tra-/vesseiros, tanto aqui como em Lisboa, mas aquece/ tanto que na Itália e em outros países frios seria/ de grandíssimo valor.//

N. 22. Sumauma Bianca

N. 22. Sumaúma branca

Questa è in ogni parte differente dal altra./ L’Arbore di questa, è la Maggiore di tutte, tan-/to in altezza, quanto in grossezza. Li rami si esten-/dono anch’essi più di ogni altra pianta, e nella/ sua circonferenza ui si potrebbe fabricare sotto/ una Casa di sopra cento Palmi, e non è da/ meraviglarsi, perchè li rami principali, sono gr-/ossi quanto lo può essere il piede di qualunqe//

Esta é em todas suas partes diferente da outra./ A árvore desta é a maior de todas, tan-/to em altura quando em largura. Os ramos se esten-/ dem estes também mais do que em qualquer outra planta, e/ sob sua circunferência poder-se-ia fabricar/ uma casa de mais de cem palmos, e não é para/ maravilhar-se, porque os ramos principais são tão/ largos quanto pode ser o pé de qualquer//

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maggiore ancora. Questa poi per la sua altezza/ si fà distinguere fra tutte perchè oltre ad/ essere frondosa, o rotonda, sembra un cattino di/ un zimborio al difuori. La sua Sapupema, inco-/mincia da terra, e si alza trenta palmi, poco più/ meno. Questo nome de Sapupema altro non uo/le dire che una especie di radici le qualli in/ più diuisoni risaltono allo intorno dall’arbore, e/ si nascondono in terra, e questo non fano se non di-/poi alcuni Anni, che sono piantate, alcune di/ queste si allongano tanto, che si può tirare una/ tavola non molto lunga, mà larga dodici o quator/dici palmi. Mà il suo legno non è durabile, e/ forse perche molto crescono in pochi Anni,

uma ainda maior. Esta, portanto, por sua altura,/ faz-se distinguir de todas as outras, porque além de/ ser frondosa, ou redonda, parece a taça de/ um zimbório por fora. Sua sapopema come-/ça no solo e trepa por trinta palmos, pouco mais/ ou menos. Este nome de sapopema não significa/ outra coisa senão uma espécie de raízes que em/ várias divisões avultam em torno da árvore, e/se escondem na terra, e isto só sucede depois de/alguns anos depois de terem sido plantadas; algumas/ delas se prolongam tanto, que delas se pode tirar uma/ tábua não muito longa, mas da largura de doze ou ca-/torze palmos. Mas sua madeira não é durável, e/ talvez por que cresçam em poucos anos, e

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e fra/ le molti, che tengo di straordinaria grandezza,/ una ne tengo vicino a Casa che hà più di/ sei Anni, fà figura di un arbore de’ Maggiori./ Il suo tronco è cinzento, e sino alli quatro Anni/ resta di scorza uerde, ma ripieno di grossissimi//

entre/as várias que tenho, de extraordinária grandeza,/ há uma que tenho perto de casa, que tem mais de/ seis anos, e que tem o porte das maiores árvores./Seu tronco é cinzento, e até os quatro anos/fica com a casca verde, mas cheia de grandíssimos//

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spini, li qualli impediscono a qualunqe sia di tentare/ la salita sopra del medesimo. Le foglie sono uerdi/ mà chiaro, e di ordinaria grandezza. Il frutto/ è come si uede nel dissegno. Di uerde, si seca,/ dipoi si apre, e lascia uedere la Sumauma, che/ stà attacata come ad un groso filo sino a tanto/ che il uento se la porta doue uole. Questa/ è finissima, e bianca come la argento. Le sue/ semente sono nere e grosse come una nociuola/ senza guscio mà presto si separano per essere/ poche. La medesima sarebbe in grande stima/ nelle nostre parti, perchè oltre ad essere assai/ più fina della seta stessa, sarebbe ottima per/ imbuttire coperte, e uesti di seta, e un cesto/ assai grande, non peserà una ruba, che sono/ trantadue libre, e cosi poco meno si fano due/ materazzi. Quando per lungo tempo resta annodata/ assieme, si mete al Sole, e si apre da se stessa,/ ma se tira qualunqe aura leggiera, se la porta seco.//

espinhos, que impedem a quem quer que seja tentar/ subir nele. As folhas são verdes/ mas claras, e de tamanho ordinário. O fruto/ é tal como se vê no desenho. De verde, seca,/ depois se abre, e deixa ver a sumaúma, que/ está ligada como por um grande fio até quando/ o vento a transporte onde queira. Esta/ é finíssima e branca como a prata. Suas/ sementes são negras e grandes como uma avelã/ sem casca, mas rápido podem ser separadas por serem/ poucas. A sumaúma teria grande estima/ nas nossas partes, porque além de ser muito/ mais fina que a própria seda, seria ótima para/ forrar cobertas e vestes de seda, e um cesto/ muito grande não pesa uma arroba, que são/ trinta e duas libras, e assim com pouco menos fazem-se dois/ colchões. Quando por muito tempo fica enodada,/ mete-se-a ao sol, e abre-se por si mesma,/ mas se sopra qualquer brisa ligeira, leva-a consigo.//

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Il motiuo per il quale non ariua in nostre parti/ è perchè di questa poca si racoglie, mentre/ non si pianta, e nasce come li altri

O motivo pelo qual não chega em nossas partes/ é porque dela pouco se colhe, e ademais/ não se planta, e nasce como as

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arbori silues-/tri, e per tirarla, non bisogna solamente cercarla/ per quelle siluestre Selue, ora passando laghi, ora/ rompendo quelli acutti e intricati spini, ma bisogna/ poi tagliare quelle grosse Piante per racoglierla/ dopo cadere, mà se fosse colviuata, questa nazione/ ne riceuerebbe molto profitto, e ne’ luoghi fredi sa-/rebe assai ricercata.//

outras árvores silves-/tres, e para obtê-la é preciso não só buscá-la/ pelas selvas silvestres, ora passando lagos, ora/ rompendo agudos e intrincados espinhos, mas é preciso/ depois cortar essas grandes plantas para colhê-la/ depois de cair; mas se fosse cultivada, esta nação/ receberia muitos proveitos, e nos lugares frios se-/ ria muito procurada.//

N. 23. Cacao

N. 23. Cacau

Questa Pianta, non è delle Maggiori nel numero/ delle Arbori. Crescono por lo più imperfetti, cioè/ torti. La sua scorza è ruuida, e scura, e raspa-/ndola, è disotto incarnata. Dalla terra, alla/ cima buta fiorelini in grande copia mà allignano/ solamente quelli, che nel aprire del fiori lasciano/ uedere il frutticino, e li altri cadono tutti. Li fiori//

Esta planta não é das maiores entre o número/ das árvores. Crescem em sua maioria imperfeitas, isto é,/ tortas. A sua casca é áspera, e escura, e raspan-/do-a, é encarnada embaixo. Desde o solo até/ o cume deita florzinhas em grande número mas vingam/ somente aquelas que no abrir da flor deixam/ ver o frutinho, e as outras caem todas. As flores//

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si assomigliano molto alli fiori di/ buragine, ma sono picollini, e poco me-/no che bianchi. Il frutto per lo comune, è/ grande come un Cedro, mà tengono [sic] le diuisioni/ come li melloni, con la scorza ondeggiata, e questa/ è molto grossa, e bisogna baterla in terra, o in al-/cun legno per romperla. Li grani sono posti per/ordine in quatro file per lungo, chiedendosi tutte/ el centro del frutto. Questi stano inuilupati in una/ mole e bianchissima massa, che rinchiude il se-/me in forma di un quarto di circolo. La sudetta/ Massa, si asciupa e riesce gratissima, perche è/ composta di un dolce,

se assemelham muito às flores da/ borragem, mas são pequeníssimas, e pouco me-/nos que brancas. O fruto, comumente, é/ grande como uma cidra, mas têm [sic] as divisões/ como os melões, com a casca ondulada, e esta/ é muito grossa, e é preciso batê-la na terra, ou em/ alguma madeira para rompê-la. Os grãos estão postos em/ ordem em quatro fileiras de comprido, exigindo todos/ o centro do fruto. Estes estão embrulhados em uma/ massa mole e branquíssima, que encerra a se-/mente em forma de um quarto de círculo. A supradita/massa se chupa e sabe gratíssimo, porque é/ composta de uma doçura, e de um

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e di un acido assai gus-/toso. Le foglie di questa Pianta, sono lunghe/ un palmo e mezo, e terminano con una punta/ assai acuta, e sono ruuide. Il modo di lauorare/ il cacao, è il presente, si tira dalla Pianta qu-/ando comincia a diuentare Giallo, dipoi si aprono/ li frutti battendoli l’uno contro l’altro, o in pietre.//

ácido muito/ gostoso. As folhas desta planta têm um palmo e/ meio de comprimento, e terminam em uma ponta/ muito aguda, e são ásperas. O modo de trabalhar/ o cacau é o seguinte: tira-se-o da planta quan-/do começa a ficar amarelo, depois abrem-se/ os frutos batendo-os um contra o outro, ou em pedras.//

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si tirano fuori le sementi inuilupati in quella/ sua massa, e si lasciano in monte per otto/ giorni incirca, ne’ qualli tanto se riscalda, che/ non ui si possono sofrire le mani. Finito questo/ tempo, si ua mettendo al Sole sino a tanto che/ è secato, e cosi può ariuare nelle nostre parti/ di Europpa e farne la Ciocolata. La figura del/ Cacao è come una amendola, mà più rotonda,/ e negra. dal sudetto Cacao, si estrae ancora una/ bevanda molto buona nel seguente modo. Dopo/ di auere tirato dal guscio il Cacao lo amontano/ in cesti coperti allo intorno e nel fondo di foglie./ Con il peso, che da se stesso si fà, ne esce un/ sumo que trasmette quella massa. Dipoi si fà/ bolire, e rafredato, che sia, è in tutto simile al/ nostro mosto di Vua, ridoto, come noi diciamo/ in Lughi. Questa Pianta quando è ariuata alli/ cinquanta Anni, si tiene per Vechia, e pianta/ta che sia, non dà il frutto, che dopo sei Anni.//

Tiram-se fora as sementes envolvidas naquela/ sua massa, e se deixam num monte por cerca de/ oito dias, durante os quais se aquece tanto, que/ não se podem aguentar com as mãos. Terminado este/ tempo, vai-se metendo ao sol até que/ sequem, e assim podem chegar até nossas partes/ da Europa para fazer o chocolate. A forma do/ cacau é como a de uma amêndoa, mas mais redonda/ e negra. Do sobredito cacau se extrai ainda uma/ bebida muito boa do seguinte modo. Depois/ de haver tirado da casca o cacau, amontoase-o/ em cestos cobertos dentro e fora de folhas./ Com o peso que exerce por si só, sai um/ sumo que é transmitido por aquela massa. Faz-se depois/ ferver, e, assim que é resfriado, é em tudo semelhante ao/ nosso mosto de uva, reduzido, como dizemos nós/ em Lughi. Esta planta, quando chega aos/ cinquenta anos, é considerada velha, e mesmo que seja/ plantada, só dá frutos depois de seis anos.//

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Non voglio lasciare di dire che da questa Pian-/ta, e o sia dal frutto si estrae una

Não quero deixar de dizer desta plan-/ ta, que do fruto se extrai uma gordura,

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gordura, che/ qui si chiama butiro, che è buono per essere/ rinfrescante, e è molto ricercato per le Emeroidi.//

que/ se chama manteiga [de cacau], que é boa por ser/ refrescante, e que é muito procurada para as hemorróidas.//

N. 24. Ingas

N. 24. Ingás

Questa arbore, è abbondante nelle Selue, e/ non si coltiuano [sic], è bella da uedersi per-/chè assai frondosa perchè estende molto li/ suoi rami. Li fiori nascono a mazeti, e sembra-/no di filo. La notte particolarmente tramontano un/ odore tanto grato, e acuto, che ancora da lonta-/no si fà sentire, e non offende il Capo. Le/ foglie crescono a due a due, e dalle une alle/ altre per lungo de’ rami vengono altre foglie pr/ trauerso che tocano le altre, onde ne sono riues-/titi tutti i suoi ramicini senza che si ueda/ il legno e quando nascono le dette foglie, sono//

Esta árvore é abundante nas selvas, e/ não se cultivam [sic], é bela de ver-se por-/que assaz frondosa porque estende muito/ seus ramos. As flores nascem em macinhos, e pare/cem de linho. À noite particularmente rescendem/ um odor tão grato, e agudo, que ainda de lon-/ge se faz sentir, e não dá dor de cabeça. As/ folhas crescem duas a duas, e de umas às/ outras ao longo dos ramos existem outras folhas na/ transversal, que tocam as outras, de onde são reves-/tidos todos seus raminhos sem que se veja/ o lenho; e quando nascem, as ditas folhas são//

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incarnate. Li suoi frutti sono per cosi dire una/ faua, per essere lunghi sino a tre palmi, roton-/di e grossi più di un deto, mà fatti a coclea;/ si aprono torcendoli con le mani, e tengono le se-/menti con lo istesso ordine delle nostre faue/ e sono grossi al doppio, mà negri e lustri quan-/to lo ebano. Ciò che si asciupa è una massa,/ che tengono allo interno, che sembra una folta neue,/ di gusto, dolce, mà non nauseante, e questi Ameri-/cani sono affecionati a mangiarli, osia asciupandi-/ne ne sia di un altra sorte, le dicui foglie, sono/ picole, e le faue piane, mà ne’ fiori, e nello odo-/re pocho [sic] diuersse, e queste sono piú acuminate/ delle altre: la Scorza di questa pianta è bian-/

encarnadas. Seus frutos são, por assim dizer, uma/ fava, por serem do comprimento de três palmos, redon-/dos, e da grossura de um dedo, mas feitos parafuso;/ abrem-se torcendo-se com as mãos, e têm as se-/mentes com a mesma ordem de nossas favas/ e o dobro do tamanho, mas negras e lustrosas co-/mo o ébano. O que se chupa é uma massa/ que têm no interior, que parece uma neve compacta,/ de gosto doce mas não nauseante, e estes ameri-/canos são afeitos a comê-los, ou seja, chupando-/os, ou seja de outras sortes, cujas folhas são/ pequenas, e as favas chatas, mas nas flores e no/ odor pouco diversas, e estas são mais acuminadas/ que as outras. A casca desta planta é esbran-

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castra, e liscia, ma del suo legno non si fà/ nesun caso, fuori di tagliarlo per il fuoco pr/ essere fiaco, e per fenderssi, e quando ne/ tirano li frutti per lo più li gettano in/ terra, come qui fano di altre Piante più stimabili.//

/quiçada e lisa; mas de seu lenho não se faz/ nenhum caso, além de cortá-lo para o fogo por/ ser brando, e por rachar, e quando/ lhe retiram os frutos muitas vezes derrrubam-no por/ terra, como aqui se faz com outras plantas mais estimadas.//

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P. 36 N. 25. Gialappa

N. 25. Jalapa

Questi è un Sipò, che uà serpendo, e ocupando/ molta terra, e dalla medesima si estrae con/ facilità, perchè non profonda. Per alora,/ non è tenuta per buona, ne si fà caso della/ medesima, e la ritrouai nel Rio Negro.//

Este é um cipó, que vai serpeando e ocupando/ muita terra, e da mesma se extrai com/ facilidade, porque não se aprofunda. Até agora/ não é tido por útil, nem se faz caso/ do mesmo, e achei-o no Rio Negro.//

N. 26. Fava di Impicio

N. 26. Fava-de-impigem

L’arbore è anch’essa delle Maggiori e non/ tiene altra particolarità che quella del frutto,/ che si uede tagliato nel mezo tra guscio, e/ guscio, il quale è molto grosso; e lo chiama-/no Faua di Impicio, perchè raspandone la par-/te superiore la tengono per ottimo rimedio/ dos Impicios [sic]. E questi altro non sono che Vo-/latiche, le qualli sono comuni alla maggior par-/te di noi, e infastidiscono molto por la com-//

Esta árvore é também uma das maiores, e não/ tem outra paricularidade se não aquela do fruto,/ que se vê talhado no meio entre casca e/ casca, e que é muito grande; e chamam-/no fava-de-impigem porque raspando-se a par-/te superior têm-na por ótimo remédio/ das impigens. E estas não são senão as/ erupções cutâneas, que são comuns à maior parte/ de nós, e que importunam muito pela comi-//

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missione che fano. Mà questo rimedio non le dis-/truge affatto e per le mie non adopro altro che/ le Vnggie perchè rinserandossi, sono di Maggiore/ pregiudicio alla Salute, come le é da noi la Grogna.//

chão que causam. Mas este remédio não a destrói/ de fato e para as minhas não adoto outra coisa/ se não as unhas, porque fechando-se, são de maior/ dano à saúde, como entre nós a sarna.//

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N. 27. Cuia

N. 27. Cuia

È questa Arbore delle più imperfete di qu/ueste Americane Terre perchè cresce sempre/ torta nel Caude e ne’ rami. Di foglie non é/ tanto frondosa ne alta come le grandi, il suo/ legno è al difuori assai rugoso, e a nulla buono./ Li fiori sono come si uedono nel dissegno cioè/ nulla uistosi, e tristi. Il suo frutto non si/ mangia, e a uederlo, sembra una Cucumera rotonda/ di uerde chiaro, mesclato con moltissime punti-/ ne del istesso colore. Le dette frutta si lasci-/ ano nell’Arbore sino a tanto che il suo guscio/ non riceua la Impressione delle Vnggie. Dipoi//

Esta árvore é das mais imperfeitas destas/ terras americanas, porque cresce sempre/ torta no caule e nos ramos. Não é tão frondosa/ de folhas nem alta como as grandes, seu/ lenho é por fora assaz rugoso, e não serve para nada./ As flores são como se vê no desenho, isto é,/ nada vistosas, e tristes. Seu fruto não se/ come, e ao vê-lo, parece uma abóbora redonda/ de um verdeclaro, mesclado com muitíssimos ponti-/ nhos da mesma cor. As ditas frutas são deixadas/ na árvore até que sua casca/ não receba a impressão das unhas. Depois,//

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tirate dall’arbore si taglia in due parti uguali,/ si tira quella densa massa bianca, che sentendo/ l’aria diuenta negra, e rende un catiuo odore./ Tirata questa, si rapa bene, tanto al didentro,/ quanto al difuori, e poi si lascia secare all’om-/ bra; secata, che sia resta della grossezza di un/ sotile cartoncino. Dopo si tinge di negro e si liscia,/ dipoi si dipingono a colori secondo l’uso della/ terra, e dipinte che sieno, ui si dà una uernice/ chiamata Gomatí [sic], che le renda lustre come il/ marmo, e le migliori in ogni parte, sono quelle/ che si fabricano nella Villa di Gurupatuba. Qu-/ esto Gumatí altro non è que la scorza di un ar-/ bore, la quale fata in pezetti si infonde in ac-/qua, dipoi si fà bolire, e senza altra cerimo-/nia si replica sopra il dipinto e nulla più./ Alcune di queste si fano a uso

tiradas da árvore, são cortadas em duas partes iguais,/ tira-se aquela densa massa branca, que ao sentir/ o ar se torna negra, e emite um mau odor./ Tirada esta, raspase bem, tanto por dentro,/ como por fora, e depois se deixa secar à som-/bra; quando seca, fica da espessura de uma/ fina cartolina. Depois tinge-se de negro e lixase,/ depois pintam-se com cores segundo o uso da/ terra, e assim pintadas, passa-se um verniz/ chamado cumati, que as torne lustrosas como o/ mármore, e as melhores de todas as partes são aquelas/ que se fabricam na vila de Gurupatuba. Este/ cumati não é outra coisa senão a casca de uma/ árvore, a qual reduzida a pedacinhos se infunde em/ água, depois faz-se ferver, e sem mais cerimô-/nia se aplica sobre a pintura e nada mais./ Algumas destas são

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de conchiglie, e/ cosi le fano crescere nell’arbore a forza di/ legature, e sono le più stimabili, perchè le//

feitas em forma de conchas, e/ assim as fazem crescer na árvore a força de/ ligaduras, e são as mais estimadas, porque as//

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Femine se ne seruono per varij usi come per te-/nerui la loro poluere, i lauori, o altre simili cose,/ mà l’uso comune è di bere, acqua, Tacaca,/ Assaí, Garauas, e altre diuerse beuande. Dalle/ sudette Cuie, se ne mandono fuori assai, e/ molto più se ne manderebbero, se la pigricia di/ costoro non fosse molta.//

mulheres delas se sevem para vários usos como para/ guardar seu pó, seus trabalhos, ou outras coisas semelhantes,/ mas o uso comum é para beber água, tacacá,/ açaí, garapa, e outras diversas bebidas. As/ supraditas cuias são muito enviadas para fora,/ e muitas mais se enviariam, se a preguiça da-/quela gente não fosse tanta.//

N. 28. Siringa

N. 28. Seringa

Meravigliosa è in uero questa Pianta, che si/ deue annoverare fra le grandi. La meraviglia/ di questa Pianta consiste dalla abbondanza del/ suo latte, del quale se ne fano infiniti lauori,/ che resistono all’acqua, como Scarpe, Capelli,/ fiaschi, e altre gallanterie, che qui si chiamano/ [...] grandi e picole, e li dano figura di/ Fruti, cauallini, tartaruche, Passeri, o di ogni sor/ ta; alle qualli figura lasciano in fondo una//

É na verdade maravilhosa esta planta, que se/ deve incluir entre as grandes. A maravilha/ desta planta consiste na abundância de/ seu leite, do qual se fazem infinitos trabalhos,/ que resistem à água, como sapatos, chapéus,/ frascos, e outros mimos, que aqui se chamam/ [...] grandes e pequenas, e dão-lhes figuras/ de frutos, cavalinhos, tartarugas, aves, ou qualquer/ outro tipo, nas quais figuras deixam no fundo uma//

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apertura per poterui poi mettere un canudo, che/ poi serve per mettere lauatiui, e non hà Casa/ che non sia prouista. Il modo di fare ogni/ una delle sopradete figura, è il seguente: si fà/ prima un semplice molde di terra non cotta, di-/ poi si pica l’arbore, dalle cui ferite ne esce/ quel latte, con il

abertura para ali depois meter um canudo, que/ depois serve para meter clisteres, e não há casa/ que não esteja provida. O modo de fazer cada/ uma das supraditas figuras é o seguinte: faz-se/ primeiro um simples molde de terra não cozida, de-/ pois pica-se a árvore, de cujas feridas sai/

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qualle, si uà contornando la figu-/ra dessiderata, e sicome subito si conglutina; cosi/ ui si uà sopra sino a tanto, che la detta, si uede/ grossa. Allora poi si lascia secare, e si fumano/ al fuoco perchè non inuischijno le mani. Dipoi/ seche, si rompe il modello, e se tira per il detto/ bucco la terra, e nulla più si fà di queste; ne/ uano molte per il Regno, che poi seruono di/ spasso alla Gente nel Carnouale, e si spruzzano/ l’acqua li uni con li altri. Questo late esce/ ancora dalla Pianta senza ferirle, e io ne tengo in/ Casa un pezzo già conglutinato, e tremolente, che diffi-/cilmente si lascia tagliare, e arde come una candella.//

aquele leite, com o qual se vai contornando a figu-/ra desejada, e como rapidamente se aglutina, assim/ se vai fazendo até que a dita se veja/ grossa. Então depois deixase secar, e defuma-se/ ao fogo para que não melem as mãos. Depois de/ secas, rompe-se o modelo, e tira-se pelo dito/ buraco a terra, e nada mais se faz destas; vão/ muitas para o Reino, que depois servem de/ divertimento para a gente no carnaval, e se borrifam/ água uns nos outros. Este leite sai/ ainda da planta sem feri-las, e tenho em/ casa um pedaço já aglutinado, e trêmulo, que difi-/cilmente se deixa cortar, e que arde como uma vela.//

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P. 41 N. 29. Mamone Vrana

N. 29. Mamorana

È arbore Siluestre, che ama di stare/ ne’ luoghi umidi, e sù le riuiere/ de’ fiumi, e ancora nell’acqua stes-/ sa. Le foglie sono lunghe, e assai/ appuntate. Il fiore è gallante, ab-/benchè non renda nesun odore. Quando/ è chiuso è lungo poco più o poco me-/no di un Palmo, e il suo collore, è/ rosso scuro. La sua figura è come uno/ di quei chiodi che più uolte si rapre-/sentano nella Passione. Quando si apre/ mostra foglie lunghe politi/ e il suo colore è come lapis rosso, nel me-/zo tiene un mazetto di filla, che rapresentano/ un [...], e non sono meno di [...]/ e dal suo nascimento sino alla metà sono/ incarnati, e seguitando più minuti sino//

É árvore silvestre, que gosta de ficar/ nos lugares/úmidos, e nas margens/ dos rios, e ainda na própria água./ As folhas são longas, e assaz/ pontudas. A flor é galante, se/ bem que não emita nenhum odor. Quando/ está fechada tem o comprimento de pouco me-/ nos de um palmo, e sua cor é/ vermelho-escura. A sua forma é como um/ daqueles pregos que se apre-/sentam na Paixão. Quando se abre,/ mostra pétalas longas, polidas,/ e sua cor é como a do lápis vermelho, no meio/ tem um macinho de filetes, que representam/ um [...] e não são menos de [...]/ e desde sua origem até sua metade são/ encarnados, e continuando mais estreitos até//

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sino [sic] alla cima sono bianchi, e ogni uno/ di quei filli resta atrauerssato da un/ seme in tutto simile a quelli delle rose./ E il colore è di zafferano, onde aperto/ che sia fà una bellissima uista. Il fru-/tto è più lungo di mezo palmo, e la sua/ figura è di un Cuore, mà di colore feru-/ginoso, e a nulla seruono le sue grandi sem-/menti.//

sua ponta são brancos, e cada um/ destes filetes termina atravessado por uma/ semente [sic: antera] em tudo semelhante à das rosas,/ e a cor é de açafrão, de modo que, quando está/ aberta, faz uma belíssima visão. O fru-/to é mais comprido do que meio palmo, e sua/ forma é de um coração, mas de cor ferru-/ginosa, e para nada servem suas grandes se-/mentes.//

N. 30. Pichià

N. 30. Piquiá

Questa arbore, entra nel numero delle più/ alte e grosse, e poche la superano. Li sue/ foglie sono larghe, e quasi rottonde. Li fiori/ immitano quelli del gelsomino. Il frutto è/ grande come una cipola, ma ouale, e stà attaca-/to per trauerso al suo gamboncino. Il suo gu-/ scio, è molto grosso, e durissimo, onde bisogna/ aprirlo com una pietra, o con legno. Dentro stà//

Esta árvore entra no número das mais/ altas e grandes, e poucas a superam. Suas/ folhas são largas, e quase redondas. As flores/ imitam as do jasmim. O fruto é/ grande como uma cebola, mas oval, e está pre-/so transversalmente a seu pedúnculo. Sua cas-/ca é muito grossa e duríssima, e daí é preciso/ abri-lo com uma pedra, ou com um pau. Dentro está//

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diuiso in due parti di massa bianca, e du/ra, sichè per mangiarli, bisogna bullirli in/ acqua, mà per essere insipidi, e per auere/ un odore alquanto nauseante, non mi pia-/cquero, ne da molti sono ricercati. Ogni uno/ de’ detti due pezzi tiene un seme rotton-/ do della grossezza di quello di un persico, e/ tutto è pieno di acuttissimi spini, e tanto fi-/ni che penetrando nella carne, a stento si/ ponno tirare. Il suo legno è di inolta du-/rata, e atto ad ogni lauoro di Navi, di/ canoue, e tauole.//

dividido em duas partes de massa branca e du-/ra, de modo que, para comê-lo, precisase fervê-lo/ em água, mas por ser insípido, e por ter/ um odor um tanto nauseante, não me ape-/teceam, nem são por muitos procurados. Cada um/ dos dois pedaços ditos tem uma semente redon-/da da grossura daquela de um pêssego, e/ está todo cheio de agudíssimos espinhos, e tão fi-/nos que, penetrando na carne, com dificuldade se/ podem tirar. Seu lenho é de grande du/ração, e adaptado para qualquer obra de navios,/ canoas e tábuas.//

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N. 31. Guaranà

N. 31. Guaraná

Celebre e renomata è questa Pianta per/ l’uso, chi qui, o altroue, si fà. Non è ar-/ bore, mà un Sipò, e dal dissegno, si uede/ ciò che sia quando è matturo. Dipoi//

Célebre e renomada é esta planta, pelo/ uso que dela, aqui e alhures, se faz. Não é ár-/vore, mas um cipó, e, pelo desenho, vêse/ como é quando maduro. Depois//

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si mette a tosttare [sic] al fuoco, e ui si tira il/ guscio, che è sottile, dipoi si mette nel pillo-/ne a pestare sino a tanto che sia capace di/ passare spolverizato per giuripema, che è una/ specie de retaccio fatto di una finissima ra-/za di guruma [?], che a uederlo sembra una ca-/nna d’India. dipoi che è passato, si torna/ al pillone, e nel pestarlo, ui si aggiunge po-/ chisima acqua per ridurlo in pasta, e poi/ in pezzeti di sei oncie incirca, e si lascia/ indurire al sole, o si stuffa al fumo del/ fuoco. Quando poi si uole bere, se ne ra-/ pa poco più di due presa di tabaco, e si/ infonde in un bichiere di acqua, e si beue/ con alcun zucaro. dicono, che è molto diore/tico, e che fa orinare più del douere, mà/ sia la uerità o nò, sò [?] che si ricerca e se/ ne manda al Regno per essere ricercato./ e io ancora mi sono costumato, e ogni//

põe-se a torrar ao fogo, e daí se tira a/ casca, que é fina, depois põe-se no pi-/lão para socar até que seja capaz de/ passar pulverizado por uma jurupema, que é uma/ espécie de peneira feita de uma finíssima es-/pécie de [?], que à vista parece uma ca-/na da índia. Depois de ser passado, torna-se/ ao pilão, e ao socá-lo, acrescentase pou-/quíssima água, para reduzi-lo a uma pasta, e depois/ a pedacinhos de cerca de seis onças, e deixa-se/ endurecer ao sol, ou se aquece ao fumo do/ fogo. Quando então se o quer beber, ras-/pa-se um pouco mais que duas pitadas de tabaco, e/ se infunde em um copo d’água, e bebe-se/ com algum açúcar. Dizem que é muito diuré-/tico, e que faz urinar mais do que se deve, mas/ seja verdade ou não, sei [?] que se procura e que/ se manda ao Reino por ser desejado./ E eu agora acostumei-me, e todo//

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giorno lo beuo mà però non bisogna metter/ne nel bichiere inoltra quantità perchè tira/ il sonno e io lo sò per esperienza perchè/ non sapendo ciò ne presi buona parte, e ste-/ti un giorno e mezo senza dormire. Il modo/ di raparlo, o sia grattando è con una

dia o bebo, mas não se deve colo-/car no copo uma grande quantidade, porque tira/ o sono, e eu o sei por experiência, porque/ são sabendo isto, tomei uma boa porção, e fi-/quei um dia e meio sem dormir. O modo/ de raspá-lo, ou seja, ralá-lo, é com

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cartillagine/ che stà sotto alla lingua de un Pesce detto/ Pararirucú [sic], che è molto aspra. E questo gua-/ranà si uende dieci paoli la libra mà/ il buono è quello, che si fà degli Indij/ Gentilli di Magues, che stano lungi dal/ Parà un Mese, e mezo di camino, mà qu-/ello che si fà en queste parti à poca stima.//

uma cartilagem/ que existe sob a língua de um peixe dito/ pirarucu, que é muito áspera. E este gua-/raná se vende a dez paulos por uma libra, mas/ o bom é aquele feito pelos índios/ gentios de Maués, que estão distantes do/ Pará um mês e meio de caminho, mas aque-/le que se faz nestas partes tem pouca estima.//

N. 32. Cummandaassù

N. 32. Cumandá-açu

Ancor questa è arbore molto grande, e ab-/ bonda di quelle faue, che si uedono dissegna-/ te mà non tiene ueruno uso, nè si stima.//

Ainda esta é árvore muito grande, e abun-/ da daquelas favas que se vêm desenha-/das, mas não tem nenhum uso, nem se estima.//

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P. 46 N. 33. Aquittí

N. 33. Aquiti [?]

Quest’arbore si fà conoscere da lungi, per/ essere alto, e per portare le sue minute foglie/ sopra la cima, e forma come un corpo rotto/ndo. Il suo frutto è curiosissimo, come si uede/ nel mezo del suo dissegno, perchè tiene un/ ordine di sementi appuntate, che stano diritte/ come una sega, e li altri restano poi coperti/ per mezo di una pelle, che sembra come pe-/cora. E secato che sia si apre che pare una/ cassa da occhiali, essendo tutta sagrinata al/ difuori. Li frutti stano elleuati sopra la/ cima delle foglie, mà tanto questi quanto/ il suo legno non tiene uso.//

Esta árvore deixa-se reconhecer de longe, por/ ser alta, e por trazer suas diminutas folhas/ sobre o cimo, e forma como um corpo redon-/do. Seu fruto é curiosíssimo, como se vê/ no meio de seu desenho, porque tem uma/ série de sementes agudas, que ficam retas/ como uma serra, e as outras ficam então cobertas/ por meio de uma pele, que parece como de/ ovelha. E quando está seco, abre-se e parece uma/ caixa de óculos, sendo todo lixento por/ fora. Os frutos ficam elevados acima do/ ápice das folhas, mas tanto estes quanto/ seu lenho não têm utilidade.//

N. 34 [Anon.]

N. 34 [Anon.]

Di questa incognita Pianta, benchè sia gra/nde, e molto alta, nulla si può dire.//

Desta planta desconhecida, apesar de ser gran/de e muito alta, nada se pode dizer.//

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P. 47 N. 35 [Anon.]

N. 35 [Anon.]

Disegnai questa Pianta per la strauagan-/za della sua faua, la quale di uerde, si fà/ poi negra quando è seca. Il fiore è gallante/ e particolarmente quando si apre, e non sola-/mente per crescere a ramagliette, ma perchè/ sembrano tanti bottoni di rose. Con tutto/ questo si ignora il suo uallore, e il suo no-/me. Le fogliettine che le stanno apresso/ sono di un Scipò, che le staua avvitichiato.//

Desenhei esta planta pela estravangan/ça das suas favas, as quais de verdes se tornam/ então negras quando secas. A flor é galante e/ particularmente quando se abre, e não so-/mente por crescer em ramalhetes, mas porque/ parecem com botões de rosa. Com tudo/ isto, ignora-se seu valor, e seu nome;/ as folhinhas que lhe estão ao lado/ são de um cipó, que lhe estava grudado.//

N. 36 [Anon.]

N. 36 [Anon.]

È una Palma, che uidi nata nell’acqua, e non/ era più alta di cinq e Palmi mà a dire il uero,/ per la bellezza delle sue foglie, e per la uiuacità/ de’ suoi collori, tanto acerbi che matturi,/ mi parea degna di essere collocata a libro.//

É uma palmeira, que vi nascer na água, e não/ era mais alta de que cinco palmos, mas a dizer a verdade,/ pela beleza de suas folhas, e pela vivacidade de/ suas cores, tanto imaturas quanto maduras,/ parecia-me digna de ser colocada num livro.//

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P. 48 N. 37 [Anon.]

N. 37 [Anon.]

Il ueduto ramoscelo feci tirare da un arbore/ assai grande che poi abbonda de’ frutti che/ qui si uedono, li qualli quando sono matturi,/ escono del suo guscio come fagiuli, e stano at-/tacati alla metà del medesimo per un punto,/ o per dirito, o per trauersso, e non àno nome.//

Fiz tirar esse raminho que se vê de uma árvore/ assaz grande que ademais abunda de frutos que/ aqui se vêm, os quais, quando estão maduros, produzem/ na sua casca como que feijões, e estão pre/sos à metade do mesmo por um ponto,/ ou retos, ou atravessados, e não têm nome.//

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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N. 38 [Anon.]

N. 38 [Anon.]

È un Scipò con foglie fine, e frutto, mà/ fuor di modo abborrito per il suo fettore, il/ quale mi inturbidò la vista dopo di auerlo/ tagliato. Era pieno di una massa lagunosa, che/ subito si fece nera, e perciò lo butai fuori.//

É um cipó com folhas finas, mas/ detestável fora do comum por seu fedor, o/ qual me turvou a vista depois de havê-lo/ cortado. Estava repleto de uma massa lacunosa, que/ subitamente se tornou negra, e por isto joguei-o fora.//

N. 39 [Anon.]

N. 39 [Anon.]

Fiore di una erba di Campo, il dicui fiore/ è tanto uiuo, che non si può immitare.//

Flores de uma erva do campo, cuja flor/ é tão viva que não se a pode imitar.//

P. 49

P. 49 N. 40 [Anon.]

N. 40 [Anon.]

Il ueduto ramoscelo lo feci straiciare di certo/ arbore assai grande, e la ritrouai differente dal-/le già uedute piante, non solo per la frutta che/ il detto porta, per nascere tutte uicine del mede-/simo. Questo frutto, non si può mangiare, perchè è/ composto di fibre lignee, e niun Indio sapeua dir-/le nome.//

O raminho que se vê fi-lo podar de certa/ árvore assaz grande, e achei-a diferente das/ plantas já vistas, não só pelos frutos que a/ dita porta, por nascerem todos vizinhos do mes-/mo. Este fruto não se pode comer, porque é/ composto de fibras lenhosas, e nenhum índio sabia dizer-lhe o nome.//

N. 41 [Anon.]

N. 41 [Anon.]

Sono due Piante, l’una di un arbore anch’es/so siluestre, e l’altra di una erba barbuta, la/ quale a mio parere sarebbe stimata da’ Bottanici.//

São duas plantas, uma é uma árvore também es-/ta silvestre, e a outra uma erva barbuda, a/ qual me pareceu que seria apreciada pelos botânicos.//

N. 42 [Anon.]

N. 42 [Anon.]

È un Scipò con fiori, e frutti, e anch’esso per/ non seruire, non à nome.//

É um cipó com flores e frutos, e esse também, por/ não ser util, não tem nome.//

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


P. 50

P. 50 N. 43 [Anon.]

N. 43 [Anon.]

Questa Pianta è di una erba che nas-/ce all’ombra di queste Selue. Il fiore è/ gallante, mà tiene il diffetto, che quasi tut/ti àno in queste parti, che non rendono odo-/re , e quei globetti di mezo sono di un bel-/lissimo azuro celeste.//

Esta planta é uma erva que nas-/ce à sombra destas selvas. A flor é/ galante, mas tem o defeito que quase to-/das têm nestas partes – o de não emitir odor;/ e os globinhos no meio são de um belís-/simo azul celeste.//

N. 44 [Anon.]

N. 44 [Anon.]

Ritrouai in una Selua questa mostruosa/ Pianta, che partorisse faue cotanto grandi./ Il fiore altro non è che una superficie di/ una sola foglia come si uede. Le sementi/ della detta faua, sono poche mà assai/ dure. L’arbore è grande, e molto grosso/ con scorza più tosto liscia. Anch’esso, è/ siluestre, e niuno sà darle il nome.//

Achei numa selva esta monstruosa/ planta, que pare favas talmente grandes./ A flor não é senão uma superfície de/ uma só pétala como se vê. As sementes/ da dita fava são poucas, mas bastante,/ duras. A árvore é grande, e muito grossa,/ com casca antes lisa. Também esta é/ silvestre, e ninguém sabe dar-lhe nome.//

P. 51

P. 51 N. 45 [Anon.]

N. 45 [Anon.]

La presente é una erba, che produce ques/ta figura composta tutta di globetti rileuati/ come a punta di diamante, e poi ogni uno di/ questi si apre, e butta fuori quei fillettini giá/ disegnati.//

A presente erva, que produz esta/ forma toda composta de globinhos elevados/ como pontas de diamante, e então cada um des/tes se abre, e brota aqueles filetes já/ desenhados.//

N. 46 [Anon.]

N. 46 [Anon.]

La presente mostruosa faua é di uno Scipò/ che si arampica sopra qualunqe altezza, e anch’/essa é senza nome.//

A monstruosa fava presente é de um cipó/ que trepa a qualquer altura, e também/ esta não tem nome.//

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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N. 47 [Anon.]

N. 47 [Anon.]

Dissegnai il frutto di questa Pianta erborea/ perche mi parue curiosa. Aprij il frutto, e/ lo ritrouai pieno de caselle, e in ogni una/ di quelle staua nuotando nel suo summi il//

Desenhei o fruto desta planta erbácea/ porque pareceu-me curiosa. Abri o fruto, e/ achei-o cheio de caixinhas, e em cada uma/ daquelas estava nadando no seu sumo a//

P. 52

P. 52

seme. Il suo colore é ingrato, e molto uisco/so é il detto summo, e anch’essa è priua di/ virtù, e di nome proprio.//

sua semente. Sua cor é feia, e muito viscoso/ é o dito sumo, e esta também está privada de/ virtude e de nome próprio.//

N. 48 [Anon.]

N. 48 [Anon.]

Da un arbore siluestre, e sconosciuto, ne/ deriua questo frutto. Li fiori sono ordinarij/ e rugosa è la scorza dell’arbore.//

De uma árvore silvestre e desconhecida/ deriva este fruto. As flores são ordinárias/ e rugosa é a casca da árvore.//

N. 49 [Anon.]

N. 49 [Anon.]

Da certo arbore siluestre uengono erecti/ con abbondanza li presenti frutti, che/ a nulla seruono sino ad ora, má peró so-/no curiosi perche oltre ad essere corona-/ti, sono al disopra coperti con una du-/ra corteccia molto liscia a uso de tim-/balli. Li rami tengono ne’ nodi le barbe, che//

De certa árvore silvestre erguem-se/ com abundância os presentes frutos, que/ para nada servem até agora, mas fi-/quei curioso porque além de serem coroa-/dos, são na parte superior cobertos por uma du-/ra casca muito lisa em forma de tím-/balo. Os ramos têm nos nós as barbas que//

P. 53

P. 53

quí, si uedono, il tronco, e la cortecia, che/ non é rugosa, ma appuntata, e con quelle/ linee, che si uedono nel dissegno.//

aqui se vêm; o tronco e a casca, que/ não é rugosa, mas aguçada, e com aquelas/ linhas que se vêm no desenho.//

N. 50 [Anon.]

N. 50 [Anon.]

Strauagantissima in uero é questa

É em verdade estravagantíssima esta desco-

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


sconosci-/uta Pianta e in ogni sua parte. Nasce/ questa da un arbusto, che produce frutti/ tanto strauaganti, mentre tanto questi, qua-/nto le foglie, e li fiori sono uoltati uerso/ terra, perché li detti fiori sono uuoti, e/ come di carta pecora. Ad ogni picola aura/ di vento, si odono ciacagliare alquanto lungi,/ e sé aurano seme, sará una minutissima/ poluere, che tiene nella estremitá uicino al/ gambo doue stano attacati, e siccome niun/ Indio sá il nome, cosí mi conuince credere/ che altro non faccia, che ingombrare il terreno.//

/nhecida planta e em todas as suas partes. Nasce/ esta de um arbusto, que produz frutos/ muito estravagantes, pois tanto estes, quan-/to as folhas e as flores são voltados para/ a terra, e porque as ditas flores são vazias, e/ como de pergaminho. A cada pequena brisa/ de vento, ouvem-se chacoalhar mesmo ao longe,/ e se têm semente, deve ser um pó diminutíssimo/ que tem na extremidade vizinha ao/ ramo onde estão presas, e como nenhum/ índio sabe o nome, assim convenci-me crer/ que não faça outra coisa se não entulhar o terreno.//

P. 54

P. 54 N. 51 [Anon.]

N. 51 [Anon.]

Dissegnai questo incognito ramoscelo per ri-/trouare nelle foglie quelle pallotine, che/ sembrauano frutticini; mentre erano solidi,/ e aueuano nel mezo un grano assai picolo,/ e l’arbore nullo altro aueua, che foglie.//

Desenhei este raminho desconhecido por en-/contrar nas folhas algumas bolinhas, que/ pareciam frutinhos, que eram sólidos,/ e tinham no meio um grão assaz pequeno,/ e a árvore não tinha nada mais que folhas.//

N. 52 [Anon.]

N. 52 [Anon.]

Sono due Scipò, che si attacano alli tronchi/delli arbori, quello che stá con li fiori gialli/ é danoso alle Piante per le tante barbichie/ che penetrano la scorza, e forma come un limo./ L’altro cresce anch’esso sino alla estremi-/tá e non só di piú.

São dois cipós, que se prendiam nos troncos/ das árvores, aquele que está com flores amarelas/ é danoso às plantas pelas muitas radicelas/ que penetram na casca, e forma como um limo./ O outro também cresce até a extremi-/dade e não sei nada mais.//

N. 53 [Anon.]

N. 53 [Anon.]

É questo un altro Scipò, e bello fra li im-//

Este é um outro cipó, e belo entre os imen-//

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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P. 55

P. 55

mensi, che si ritrouano. Il fiore è parti-/ colare, e bello è il frutto, mà perchè non si/ mangia, ne è medicinale, nulla si stima. Qu-/esto Scipò è differente dalli altri perchè/ butta rami, e per auere ancora la scorza/ con le diuise tanto ugualli a quelle orechie/ che sono sparse per il tronco, sono come a/ dire funghi, e tengono il medesimo colore, mà/ sono come di cartone.//

sos que se encontram. A flor é parti-/cular, e belo é o fruto, mas como não se/ come, nem é medicinal, para nada se estima. Es/te cipó é diferente dos outros porque/ brota ramos, e por ter ainda a casca/ com as divisões tão iguais a aquelas orelhas/ que se espalham pelo tronco, são assim por/ dizer fungos e têm a mesma cor, mas/ são como de cartão.//

N. 54 [Anon.]

N. 54 [Anon.]

Per curiositá disegnai questo altro Scipò,/ il dicui fiore é de’ piú sgarbati che sino/ al presente abbia ueduto, má il frutto é poi/ diuerso da tanti giá dissegnati, e qualle de-/ ntature, che si uedono escono fuori del frutto/ sono come cartillaggini. Al didentro pieno/ di dure semente inuolte in una massa assai//

Por curiosidade desenhei este outro cipó,/ cuja flor é das mais grosseiras que até/ o presente haja visto, mas o fruto é muito/ diferente de tantos já desenhados, e aquelas den-/taduras, que se vêm sair fora do fruto/ são como cartilagens. Dentro [está] cheio/ de sementes duras envoltas em uma massa assaz//

P. 56

P. 56

spongosa e asciuta, che non sá di odore,/ non puzza, ne é buona da nulla.//

esponjosa e enxuta, que não tem cheiro,/ não fede, nem serve para coisa alguma.//

N. 55 [Anon.]

N. 55 [Anon.]

Questo Scipò quantunque inutile, e scono/sciuto, merita di essere anouerato fra le/ Piante, e grato sarebbe alle nostre parti an-/cora, tanto piu che il suo collore è assai/ più uiuo di quello che qui è. Li nodi cosi/ bene disposti con assieme le spine lo rendono piú/ amirabile, e sino le foglie, sono/ differenti assai dalle inoltre, che si uedono.//

Este cipó, apesar de inútil e desconhe-/ cido, merece ser incluído entre as/ plantas, e ainda seria apreciado em nossas partes/ principalmente porque sua cor é muito/ mais viva daquela que aqui está. Os nós tão/ bem dispostos conjuntamente com os espinhos tornam-no mais/ admirável, e até as folhas são/ assaz diferentes das outras que se vêm.//

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


N. 56 [Anon.]

N. 56 [Anon.]

Qui si uede un altro Scipò, non meno curio-/ so dell’altro, e se non é stimabile, per li fi-/ori sará per li frutti, e per li nodi del tronco.//

Aqui se vê um outro cipó, não menos curio-/ so do que o outro, e se é estimável pelas flo-/res, se-lo-á pelos frutos e pelos nós do tronco.//

P. 57

P. 57 N. 57 [Anon.]

N. 57 [Anon.]

Sono due Scipò auitichiate assieme, e le/ foglie nascenti del Maggiore, sono di colo-/ re assai piú uiuo dal presente.//

São dois cipós grudados juntos, e as/ folhas que nascem do maior são de cor/ muito mais viva do que a presente.//

N. 58 [Anon.]

N. 58 [Anon.]

Questa Arbore, é uguale a’ Maggiori. Il/ fiore é curioso, e le foglie sono simili a/ quelle della Cipolla braba: li frutti sono/ similli al Cacao, má niuno li conosce.//

Esta árvore é igual às maiores. A/ flor é curiosa, e as folhas são semelhantes às/ da cebola-brava. Os frutos são/ semelhantes ao cacau, mas ninguém os conhece.//

N. 59 [Taigià-de-cobras]

N. 59 [Tajá-de-cobra]

Questa Pianta é una erba. Non consis-/ te in altro che in un Piede alto cinq e in/ sei Palmi tutto sagrinato, e di uarij collori,/ che immitano alcune biscie, che qui si di-//

Esta planta é uma erva. Não consis-/te em outra coisa senão num pé alto de cinco ou/ seis palmos todo lixento, e de várias cores/ que imitam algumas serpentes, que aqui se di-//

P. 58

P. 58

cono Cobras, e per questo si chiama Taigiá/ de Cobras, il qual piede tiene tre foglie/ simili a quelle che qui si uede dissegnata,/ e sono orizontalli alla terra, e certamente/ sarebbe una bella Pianta per ornare Giar/dini. Il piede é spungoso come quello di/ un fongo, má quello che lo rende consiste-/

zem cobras, e por isto se chama tajá-/ de-cobra, cujo pé tem três folhas/ semelhantes àquelas que aqui se vêm desenhadas,/ e são horizontais à terra, e certamente/ seria uma bela planta para ornar jar-/dins. O pé é esponjoso como aquele de/ um fungo, mas o que o torna

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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nte é una scorza che tiene allo intorno gros/sa come un cartoncino.//

consisten-/te é uma casca que tem ao redor, gros-/sa como uma cartolina.//

N. 60 [Anon.]

N. 60 [Anon.]

Non mi ricordo il nome di questa Pianta,/ che staua in una Selua il dicui frutto/ lo assagiai perche uidi che li Indij lo/ mangiauano, e non era di ingrato sapore/ má non si coltiua. Abbenche qui abbon-/dano altri frutti assai piú inferiori a/ questo.//

Não me recordo o nome desta planta/ que estava em uma selva, e cujo fruto/ experimentei porque vi que os índios o/ comiam, e não era de sabor desagradável,/ mas não se cultiva. Se bem que aqui abun/dam outros frutos assaz inferiores a/ este.//

P. 59

P. 59

N. 61. Pimentas

N. 61. Pimentas

Pimentas sono quelle che noi chiamamo/ Peperoni, de’ qualli qui sono di uarie sorta,/ cioé di colore del carmino, giallo, morelli,/ negri, e di colore del uerde rame. Tutti sono/ forti, ma le piccolline che si chiamano ma-/lleghetas, sono fuor di modo picanti, e li nazi-/onali se ne seruono per condimento di ogni ui-/uanda. Le usano per uarie mallatie, e parti-/ colarmente per le correuizioni dandone a uno/ di lauatiui, e non pochi li dano a [...] ai/ schiavi per castigo. Questa Pianta si/ deue mettere nel numero delli arbusti/ non ostante di durare molti Anni, e in/ questi moltiplicare li intricati suoi ra-/li qualli però non passano in altezza/ di dodici Palmi incirca. Li frutti uari-/ano in grandezza , e ancora tengono uarie/ forme.//

Pimentas são aquelas que chamamos/ peperoni, dos quais aqui existem várias espécies,/ ou seja, de cor carmim, amarela, murzela,/ negras, e cor de verde-cobre. São todas/ fortes, mas as pequeninas que se chamam ma/laguetas são picantes fora do comum, e os nacio-/nais delas se servem como condimento de cada pra-/to. Usamnas para várias doenças, e parti-/ cular mente para os cor rimentos, dando-se a alguém/ como clister, e não poucos dão-nas como [...] aos/ escravos por castigo. Esta planta devese/ pôr no número dos arbustos,/ não obstante durar muitos anos, e nestes/ multiplicar seus intrincados ra-/mos. Os quais porém não passam da altura/ de cerca de doze palmos. Os frutos variam/ de tamanho, e têm ainda várias/ formas.//

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


P. 60

P. 60 N. 62 [Anon.]

N. 62 [Anon.]

Questo Scipò á figura di un fagiuolo, e/ cresce sino a tocare la cima degl’arbori/ piú alti, e perche non si mangia, nulla/ li stima. Il seme anch’esse é un faggiuolo/ con uene scure.//

Este cipó tem a forma de um feijão, e/ cresce até tocar o ápice das árvores/mais altas, e como não se come, ninguém/o aprecia. A semente também é um feijão/ com veias escuras.//

N. 63 [Anon.]

N. 63 [Anon.]

In questo luogo si uede un altro gagiuo-/lo seluatico, assai differente da ogni altro,/ per essere molto peloso, e particolare. Corre-/ ndo esso assai lontano, e serpeggiando.//

Neste lugar vê-se um outro [?]/ selvagem, assaz diferente de qualquer outro,/ por ser muito peludo, e particular. Corre/ muito longe e serpeando.//

N. 64. Giassitara

N. 64. Jacitara

Ancor questa Pianta é saluatica, má/ ancorché il frutto, non sia buono, sempre/ è bello de uederssi. Questo Scipò nasce//

Ainda esta planta é selvagem, mas/ apesar de que o fruto não seja bom, sempre/ é bela de ver-se. Este cipó [sic; é palmeira] nasce//

P. 61

P. 61

molto intricato, e uicino alle sponde di alcun/ [...]. non é del tutto in dizuso, perchè/ lo raspano, e ne fano picole uotte rittorte/ e serue per insegna de’ Ministri, li qualli poi/ lo portano arollate nel braccio sopra il ues/tito e os meirinhos [sic], che sono come li Messi/ da noi le portano attacate ad un bottone/ della sinistra bisaca, e non é piu grosso di/ una penna da scriuere.//

muito intrincado, e vizinho das margens de algum/ [...], e não está em desuso total, porque/ raspam-no, e fazem pequenos atilhos vazios/ que servem de insígnia aos ministros, os quais então/ os portam enrolados no braço sobre a roupa,/ e os meirinhos, que são como os mensageiros/ entre nós portam-nos presos a um botão/ da lapela esquerda, e não é mais grosso que/ uma pena de escrever.//

N. 65. Morrera Braba

N. 65. Amoreira-brava

Cosi é chiamata per buttare quei fiori,/ che qui li cadono alcun poco similli al-/le

É assim chamada por produzir flores/ que aqui acham um pouco semelhantes às/

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nostre more. L’Arbore è fra gran-/di, ma di niun uso.//

das nossas amoreiras. A árvore é algo grande,/ mas de nenhuma utilidade.//

N. 66 [Anon.]

N. 66 [Anon.]

Di questa incognita Pianta, dico, che//

Desta planta desconhecida, digo que//

P. 62

P. 62

curiosissimo è il suo frutto, perchè il di-/ ssegnato globo, oltre di essere uoto, è sotti-/le come la carta, e per conseguenza è tras-/ parente como un uetro, e di collore di solfo/ nel fondo. Poi ui ritrouai il suo frutto isso-/ lato per ogni parte una prugna seca, mà/ assai dura. Li fiorellini si uedono nel dissegno,/ e nulla più ò che dire di questa.//

é curiosíssimo o seu fruto, porque o/ globo desenhado, além de ser vazio, é fino/ como papel, e por conseguinte é trans-/parente como um vidro, e de cor de enxofre/ no fundo. Achei então seu fruto iso-/lado de todas as partes como uma ameixa seca, mas/ assaz dura. As florzinhas se vêm no desenho,/ e nada mais tenho a dizer desta.//

N. 67. Vrrapari

N. 67. Arapari [?]

Questa Pianta quantunqe non si coltiui, e/ si ritroui acaso, il suo frutto mi pia-/ que perche dolce, e non nauseante.//

Esta planta, apesar de não se cultivar, e/ de se achar por acaso, tem um fruto que me agra-/dou por ser doce e não nauseante.//

N. 68 [Anon.]

N. 68 [Anon.]

Tra li arbori, che di sé fanno bella vista, questi//

Entre as árvores que de si fazem boa figura, esta//

P. 63

P. 63

é certamente uno di quelli, e si conosce ancor da/ lontano per essere assai frondoso, alto, e di uerde/ assai chiaro, le foglie, sono minute, e allo intorno/ intagliate. Il fiore é belissimo, perché composto/ di moltiplicate filla, le une sopra le altre, e sem-/bra per lo apunto un fioco di seta, ma incarnato/ come lo é il

é certamente uma delas, e se conhece ainda de/ longe, por ser assaz frondosa, alta e de verde/ assaz claro, as folhas são diminutas, e ao redor/ entalhadas. A flor é belíssima, porque composta/ de fios multiplicados, uns sobre os outros, e pare-/ce por isso mesmo um floco de seda, mas encarnado/ como o

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carmino. Dopo secato si trasforma/ como si uede in uarie guise, poi si empi di mas-/ zetti di quelle faue, che sono del colore del lapis/ rosso. Questa Pianta, non á nome proprio, perché non/ é coltiuata, e solamente lo é ueduta nel Rio Negro,/ má se auessero luogo ne’ nostri Giardini, só che acre-/ scerébbero ornamento alli medesimi, e belli sarebbero/ per formare Vialli in luogo de’ olmi, perche i suoi/ rami formano un corpo quasi rottondo, e assai folto.//

carmim. Depois de seca se transforma,/ como se vê, em várias maneiras, depois de enche de mas-/sinhos daquelas favas que são da cor do lápis/ vermelho. Esta planta não tem nome próprio, porque não/ é cultivada e somente a vi no Rio Negro,/ mas se tivesse lugar em nossos jardins, sei que acres-/ centariam ornamento aos mesmos, e seriam belas/ para formar alamedas em lugar de olmos, porque/ seus ramos formam um corpo quase redondo e assaz espesso.//

N. 69 [Anon.]

N. 69 [Anon.]

Il fiore di questa Pianta colorea, lo ritrovai in//

Encontrei a flor desta planta colorida na//

P. 64

P. 64

tempo che staua nel Rio Negro, e la rit-/ rouai in un tronco di un arbore gia seco, e/ chi mai potrà indouinare fra Filosoffi come/ in qual deserto luogo si portasse la cipolla/ dalla quale nacque - in fine queste fiore,/ non rende alcuno odore, mà sempre sarà/ stimabile. Moltiplica al’uso delle angeli-/che e le sue foglie, sono assai più larghe,/ e alte di queste, e mi pare che si potrebbe/ portare con molta facilità in Europpa. De-/uo ancor dire che in tutti i luoghi non è dell’/istesso collore, perche poi ne ò ueduta altri di/ color pauarazzo, che qui si chiama rosso.//

época em que estava no Rio Negro, e achei-/ a num tronco de árvore já seco, e/ quem jamais poderá adivinhar, entre os Filósofos,/ como naquele deserto foi levada a cebola/ da qual nasceu? Em fim, esta flor/ não lança odor algum, mas sempre será/ apreciável. Multiplica-se ao modo da angéli-/ca, e suas folhas são bastante mais largas/ e altas do que estas, e parece-me que se poderia/ levar com muita facilidade à Europa. De-/vo dizer ainda que em todos os lugares não tem/ a mesma cor, porque depois vi outras de cor/ [...], que aqui se chama roxo.//

N. 71, 72, 73 [sic: 70, 71, 72] [Pacoue-sororoche]

N. 71, 72, 73 [sic: 70, 71, 72] [Pacova-sororoca]

Sono piante erboree, mà crescono però sino a dodici/ palmi. Qui non tengono alcun

São plantas erbáceas, mas crescem até doze/ palmos. Aqui não têm nenhuma

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uso, senon è di ser-/uirsi tal uolta delle foglie della prima per al-/cun uso, e tutte si chiamano Pacoue Sororoche.//

utilidade, se não/ de servirem às vezes as folhas da primeira para al-/gum uso, e todas se chamam pacova-sororoca.//

P. 65

P. 65 N. 73. Maracugiá

N. 73. Maracujá

In questo medesimo foglio, si ritroua un altra/ Pianta detta Maracugiá, má questa non é di/ quelle, che si mangiano perché il suo frutto é le-/gerissimo, e al di dentro é tutto foffo, e non á che al-/cune poche sementine.//

Nesta mesma folha acha-se uma outra/ planta dita maracujá, mas esta não é/ das que se comem, porque seu fruto é le-/ víssimo, e por dentro todo fofo, e só tem al/gumas poucas sementinhas.//

N. 74 [Maracujá, outra espécie]

N. 74 [Maracujá, outra espécie]

É un altra sorte delle medesime, má saluatica, e/ che a nulla serue //

É uma outra espécie da mesma, mas selvagem, e/ que não serve para nada.//

N. 75 [Outra espécie de Maracujá]

N. 75 [Outra espécie de Maracujá]

Questa sorte de Maracugiá, la abbiamo ancor noi/ in Bologna, má dá solamente il fiore, e non il frutto,/ e é quella che chiamiamo Martirio. In questo fio-/re si uede di piú il suo calice dal qualle ne nasce//

Esta espécie de maracujá, temo-la nós ainda/ em Bolonha, mas dá somente a flor e não o fruto,/ e é a que chamamos martírio. Nesta flor/ se vê ademais seu cálice, do qual nasce//

P. 66

P. 66

il frutto, con una semente del medesimo a parte che/ é quella che il uolgo dice, ui sia impressa la corona/ di spine con le chiodi, e certo é, che non del tutto si/ inganna. Il fioretto é al difuori liscio, e se questo ti-/ene quelle prominenze é perche lo ritrouai unico fra/ le tante, che mi furono date; al didentro poi é ri-/pieno di semi, e ogni uno stá chiuso come in una ue-/sica formata d’una

o fruto, com uma semente do mesmo à parte que/ é aquela que o vulgo diz ser a impressão da coroa/ de espinhos com os cravos, e é certo que não de todo/ se engana. A florzinha é por fora lisa, e se esta tem/ aquela preeminência é porque a achei única entre/ tantas que me foram dadas; por dentro então é/ cheia de sementes, e cada uma está encerrada em uma/ bexiga

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


sottilissima pelle, che é ripiena di/ sumo. Tutte queste sementi nuotano poi anch’esse intor-/no alla sua massa che è quella che empie il frutto/ má é anch’essa separata dal guscio a segno che sen-/za fatica se staca e resta tutta intiera e cosi si/ mangia in anima, e in corpo, e le sementi per essere/ misturate in quella massa liquida si ingolano senza que-/dersene. Il gusto é soavissimo perche agro e dolce, ma tan-/to bene temperato, che a tutti piace, e le migliori furono/ quelli che si mangiano in Mariuuá nel Rio Negro e/ in altri luoghi sono più acide. Il detto frutto non nuo-/ce ad alcuno, e só che una uolta ne mangiai sopra//

formada de uma finíssma pele, que está cheia de/ sumo. Todas estas sementes nadam então também elas ao/ redor da sua massa, que é a que enche o fruto/ mas é também essa separada da casca de modo que/ sem esforço se destaca e fica toda inteira e assim se/ come de alma e de corpo, e as sementes, por estarem/ misturadas naquela massa líquida se engolem sem/que peçam. O gosto é suavíssimo pois é acre e doce, mas tão/ bem temperado, que a todos agrada, e as melhores foram/ as que se comem em Mariuá no Rio Negro e/ em outros lugares são mais ácidas. A dita fruta não/ causa dano a ninguém, e de uma só vez comi mais//

P. 67

P. 67

cinquanta, e non mi fecero pregiudicio. Una ue-/ne á poi fra le sauatiche che dá un fiore/ fatto a stella grande al doppio di un Narciso,/ má di collore tanto uiuo, che uguaglia il car-/ mino, e ouunque sia, si lascia uedere assai lon/tano. Il suo frutto é in tutto simile al giá/ descrito, ma resta sempre uerde, e talmente é ac-/ido, che non si puó tollerare.//

de cinquenta, e não me causaram prejuízo. Uma/ existe ainda entre as selvagens que dá uma flor/ feito uma estrela duplamente maior que um narciso,/ mas de cor tão viva que iguala o car-/mim, e onde quer que esteja, faz-se ver de muito/ longe. Seu fruto é em tudo semelhante ao descrito, mas fica sempre verde, e é de tal modo áci-/do, que não se pode tolerar.//

Fine delle descrizioni di quelle Piante/ che sono dissegnate nel Libro. Al pre-/sente seguirano le altre da me uiste,/ e con alcuna attenzione considerate.//

Fim das descrições daquelas plantas/ que estão desenhadas no livro. Seguirão/ agora as outras vistas por mim,/ e consideradas com alguma atenção.//

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[76] Bacurí

[76] Bacuri

É arbore assai grande e tali sono le sue fo/glie. Non posso formare idea del suo fiore/

É árvore bastante grande e tais são suas fo-/lhas. Não posso formar uma idéia da

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perche nisuno lo à considerato, mentre nas/cono nelle Selue, e quantunq e sieno stimabili/ le sue Piante, qui non si coltiuano in partico-/lare. Il frutto, è liscio, e solamente il gus-/cio, lascia uedere machie negre quando è più/ che matturo. Questi è grande come un Cotto-/gno ordinario, e dello stesso colore è quando/ si stà per mangiarlo. Il guscio è grosso co-/me il deto picolo di una mano, mà con tutto/ ciò si taglia facilmente, e con poco di forza,/ si apre battendolo. Aperto che sia resta di-/ uiso in due pezzi ogni uno de qualli tiene/ il seme inuilupato in certa massa grossa la/ quale si asciupa, mà la parte fibrosa resta/ sempre attacata al detto seme che sarà del//

sua flor/ porque ninguém a considerou, porque nas-/cem nas selvas, e apesar de serem apreciadas/ as suas plantas, aqui não se cultivam em particu-/lar. O fruto é liso, e somente a cas-/ca deixa ver manchas negras quando está mais/ que maduro. É grande como um marmelo/ ordinário, e da mesma cor é quando/ está para ser comido. A casca tem a grossura de/ um dedo mindinho da mão, mas com tudo/ isto se corta facilmente, e com pouca força,/ abre-se batendo-o. Uma vez aberto, fica di-/vidido em dois pedaços cada um dos quais tem/ a semente envolta em certa massa grossa, a/ qual se chupa, mas a parte fibrosa fica/ sempre ligada à dita semente, que terá o//

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uolume di una prugna ordinaria, e tagliandolo/ butta fuori inoltre e finissime lacrime uiscose./ Ogni uno de’ sudetti pezzi tiene a lato una/ porcione di massa separata da quella che rin-/chiude li semi, e quella è che si mangia con/ maggior gusto perchè non si sciupa, e si possono/ preparare Piatti intieri, le qualli poi essen-/do spoluerizati di zucaro, si rendono grati a/ qualunqe pallato per delicato che sia, perchè/ oltre al suo dolce misturato con un agro pi-/cante lascia in boca un gratissimo odore, che/ dura più ore. Il tempo che dà questo frutto,/ è in Marzo e Aprile, mà però non si può/ mangiare da mani delicate perchè qualu-/ nqe ferita che abbia nel guscio tramanda/ una rasina, che inuischia inoltro le mani. Il/ suo legno è buonissimo per ogni uso,

volume de uma ameixa ordinária, e cortandoa/ solta além disso finíssimas lácrimas viscosas./ Cada um dos supraditos pedaços tem ao lado uma/ porção de massa separada daquela que en-/cerra as sementes, e é essa que se come com/ maior gosto, porque não se chupa, e podem-se/ preparar pratos inteiros, que depois sendo/ pulverizados de açúcar tornam-se gratos a/ qualquer paladar por mais delicado que seja, porque/ além de seu doce misturado com acre pi-/ cante deixa na boca um gratíssimo odor que/ dura várias horas. O tempo em que dá este fruto/ é março e abril, mas não se pode/ comer com mãos delicadas, porque qual-/ quer ferida que tenha a casca transuda/ uma resina que mela portanto as mãos. Seu/ lenho é boníssimo para qualquer uso,

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perchè/ oltre ad essere forte resiste ai lauori di Cano-/ue e di Naui.//

porque/ além de ser forte resiste aos trabalhos de [fazer]/ canoas e naves.//

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P. 70 [77] Andirobba

[77] Andiroba

Questa é una Pianta che cresce assai alta,/ è frondosa, e pare che ami i luoghi umidi,/ perchè in quelli nasce, e si nutre. Li fiori/ non li ò ueduti, mà mi dicono che nascono as-/saissime uniti, che sono picoli, e di colore del solfo./ Le foglie, sono comunemente larghe tra polici/ e dodici lunghe, ma forti, e lustrose. Ogni/ ramoscello ne porta quatordici, e sono equi/distanti l’una dall’altra due polici. I loro/ frutti, si allimentano dentro di un guscio che/ é quadrato, e tanto é grosso che difficilmente/ si può impugnare con una mano. Ne’ quatro/ canti esteriori del guscio uiene fortificato da/ un cordone, che si uà a unire nel fondo con li/ altri, che poi formano una punta, e matturi, che/ sono, sono del colore che è la ferrugine. Dipoi/ si aprono da sè stessi, e lasciano cadere le//

Esta é planta que cresce bastante alta,/ é frondosa, e parece gostar de lugares úmidos,/ porque neles nasce e se nutre. As flores/ não as vi, mas dizem-me que nascem muitís-/simo unidas, que são pequenas e da cor do enxofre./ As folhas são comumente largas, entre uma polegada/ e [?] de comprimento, mas fortes e lustrosas. Cada/ raminho transporta catorze, e são equi-/distantes uma da outra duas polegadas. Seus/ frutos se alimentam [?] dentro de uma casca que/ é quadrada, e tão grandes que dificilmente/ se podem agarrar com uma mão. Nos quatro/ cantos exteriores da casca ela é fortalecida por/ um cordão, que se une no fundo com os/ outros, que depois formam uma ponta, e, quando maduros,/ são da cor da ferrugem. Depois/ abrem-se por si sós e deixam cair as//

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castagne, che rinchiuse, ritrouai essere noue o di-/eci unite in quatro colonne, e tanto bene, che dopo/ di essere coscite, a grande stento si tornerebbero ad/ unire nel estesso luogo, e pare che quella massa/ bianca, nella qualle staua collocate sia come cale, che/ le tenga unite, e sotto a quella massa ui stà una/ pellicola bianca, che sembra di

castanhas que encerram, e [que] achei serem nove ou/ dez unidas em quatro colunas, e tão bem, que depois/ de serem cozidas, com grande dificuldade voltariam/ a unir-se no mesmo lugar, e parece que essa massa/ branca na qual estão colocadas é como cal, que/ as tem unidas, e sob essa massa existe uma/ película branca, que parece aquela de

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quella, che si fanno li/ guanti fini. Le sudette castagne sono triangolari,/ e quella parte che toca il guscio, è circolare. Il/ guscio è forte e bisogna romperlo con pietra o con/ alcun legno. Il descritto frutto tutto assieme stà/ pendente da un gambo lungo un palmo. Le cas-/tagne non si mangiano, mà sono di grandissima ut-/tilità tanto nelle case, quanto nelle lampade/ della Chiesa. Questo olio cosi si fà, amassa-/te che sono le castagne, si feruono in acqua, di-/poi si mettono in monte coperte con foglie, e si/ lasciano marcire per il tempo di dodici giorni incirca//

que se/ fazem luvas finas. As supraditas castanhas são triangulares/ e a parte que toca a casca é circular. A/ casca é forte e é necessário rompê-la com pedra ou/ com algum ferro. O fruto descrito todo junto está/ pendente de um galho de um palmo de comprido. As cas-/tanhas não se comem, mas são de grandíssima uti-/lidade tanto nas casas, quanto nas lamparinas/ da igreja. Este óleo se faz assim: depois de/ amassadas as castanhas, são fervidas em água; de-/ pois põem-se num monte coberto com folhas, e se/ deixam putrefazer pelo tempo de cerca de doze dias;//

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P. 72

dipoi si rompono le medesime, e con un cochiarino/ di legno, si uà tirando, e aggiuntando quella massa/ la quale poi si dimena come la pasta, e poi si/ ua metendo in uarie tauole cavue esposte al so-/le il quale con il suo calore lo separa dalla mas-/sa e lo lascia cadere ne’ vasi che le stano sotto,/ auertendo, che le tauole deuono stare assai curve,/ e non orizontali. La notte poi si mette al coper-/to, e ogni notte che si mette fuori, bisogna di-/menarlo. Egli è certo che è trauaglioso, mà è/ perchè non se uogliono, o non sono servissi di/ machini, perchè si potrebbe fare come noi fa-/ciamo l’olio di noce. Dopo un Anno indu-/risse, ma non si perde, perche serue poi a fa-/re il sapone. Questa Pianta non si semina/ come si dovrebbe fare, e anzi ogni uno doue/ la ritroua ne toglie li arbori per fare legno, e/ per questo scarsseggia molte uolte abbenchè/ suplisca in due uece la manteca di Tartaruga.//

depois rompe-se-as, e com uma colherzinha/ de pau, vai-se tirando e juntando aquela massa/ a qual então se mexe como a pasta [do macarrão], e depois se/ vai pondo em várias mesas côncavas expostas ao/ sol, o qual, com seu calor, o separa da mas-/sa e fá-lo cair nos vasos que lhes estão debaixo,/ desde que as mesas estejam bastante curvas,/ e não horizontais. Depois à noite põe-se ao cober-/to, e cada noite que se põe para fora, é preciso/ mexê-lo. É certo que é trabalhoso, mas é/ porque não querem, ou não se servem, de/ máquinas, porque poder-se-ia fazer como nós fa-/zemos o óleo de nozes. Depois de um ano endu-/rece, mas não se perde, porque serve para fa-/zer sabão. Esta planta não se semeia/ como se deveria fazer, e pelo contrário, cada qual,/ onde a encontra, corta a árvore para fazer lenha, e/ por isto escasseia muitas vezes, se bem que/ supra dez vezes a manteiga de tartaruga.//

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P. 73 [78] Sorbas

[78] Sorvas

Di questa Pianta ne ò ueduto di due sorta,/ cioè l’una non più grossa di una albicoca, e/ l’altra come una laranggia. Mà la prima è mi-/gliore. Il frutto è rottondo come la noce uerde,/ ma il uerde di questa sorte, è oscuro, e pieno di/ machie nere, che lo fanno ingrato alla vista./Quando è maturo, si apre strittolandolo con due/ deta, e dentro ui si troua una massa di un bia-/nco che alcun poco tiene di giallo, e la detta mas/as è ripiena di sementi che sembrano grani di ar-/rena, mà non infastidiscono a mangiarla perchè/ più tosto si ingolle, e certo è che a parer mio, e/ di molti ancora, è il più grato frutto che abbi/ la America in questa parte. Il suo dolce, è gra-/ tissimo, e per maggior preggio rende un odore/ tanto soaue, che pare apunto somministrato per/ imbalsammare il respiro, e non si sa che faccia//

Desta planta, vi duas espécies,/ ou seja, uma não maior que um damasco, e/ a outra como uma laranja. Mas a primeira é me-/lhor. O fruto é redondo como as nozes verdes,/ mas o verde desta espécie é escuro, e cheio de/ manchas negras, que o tornam desagradável à vista./ Quando maduro, abre-se esmagando-o com dois/ dedos, e dentro encontra-se uma massa de um bran-/co que tem um pouco de amarelo, e a dita mas-/sa está cheia de sementes que parecem grãos de a-/reia, mas não atrapalham comê-la, porque/ se engolem facilmente, e é certo que a meu ver, e/ de muitos mais, é o mais agradável fruto que tem/ a América nesta parte. Sua doçura é agradabi-/líssima e para seu maior valor emite um odor/ tão suave que parece produzido de propósito para/ perfumar o hálito, e não se constatou que faça//

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P. 74

male ad alcuno. Questa Pianta non si uede/ in queste parti, mà bensi nel Rio Negro doue/ ne ò gustate assai, e non sò se sia perche qui/ non dà, o per la poca cura di questa mole gen-/te, che a tutto altro, penso, che alla cultura io/ sò bene, che se mandai a leuare alcune pian-/te, le qualli ariuate che furono, si secarono do-/po pochi Mesi, mà fù perche non stando io/ nella mia Chinta, e essendo picoline, e in uasi/ le lasciarono

mal a alguém. Esta planta não se vê/ nestas partes, mas sim no Rio Negro, onde/ a experimentei bastante, e não sei se é porque aqui/ não dá, ou pelo pouco cuidado desta gente mole,/ que por outra coisa, penso, que ao cultivo. Sei/ bem que, quando mandei trazer algumas plan-/tas, assim que chegaram, secaram de-/pois de poucos meses, mas foi porque não estando eu/ na minha quinta, e sendo pequeninas, e em vasos,/

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morire per mancanza d’acqua./ Le maggiori sono in tutto simili, mà alcune po/co insipide. Li suoi semi sono poi come quelli/ delle nostre sorbo. Nula dico delle foglie, de’/ fiori, ne del suo legno perche niuno mi sà dire/ ció, che sinno.//

deixaram-nas morrer por falta de água./ As maiores são em tudo semelhantes, mas algum pou-/co insípidas. Suas sementes são como as/ da nossa sorveira. Nada digo das folhas, das/ flores nem de seu lenho, porque ninguém sabe/ dizer-me como são.//

Ingas [cf. N. 24]

Ingá [cf. N. 24]

Ancor questa Pianta, è deuisa in uarie, e/ quella che molto è da ammirare, sono nell’//

Também esta planta está dividida em várias, e/ a que é muito de admirar, são [sic] no//

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esteriuore assai differenti, e benchè le abbia/ già descrite al N. 24: deuo dire che non os-/tante al grande diuario, que ui à nella forma/ de’ frutti, e delle foglie, il fiore, e il frutto/interiore con il gusto, sono sempre li medesimi.//

exterior assaz diferentes, e se bem que já as/ haja descrito no N. 24, devo dizer que não obs-/tante a grande variação que existe na forma/ dos frutos e das folhas, as flores e o fruto/ interiormente, com seu gosto, são sempre os mesmos.//

[79] Tapiribas

[79] Taperebá

L’arbore fra Maggiori, è nel numero de’ pri-/mi, e particolarmente nella estensione de’ rami./ Li fiorellini sono picollini, e sono del collore che/ è il gelsomino detto Gemè. Le foglie sono più/tosto picole, mà molto appuntate. Il frutto è/ oblungo, ma poco maggiore di una nostra sorba/ mà è tutto giallo. Molti ne fano caso, ma a/ dir uero è agro abbenche abbia anc’esso un/ certo odore non ingrato. Si asciupa, e non si man-/gia, perche è tutto ligneo. La scorza del arbore/ è talmente rugosa e apuntata, che niuno ne//

A árvore, entre as maiores, está no número das pri-/meiras, e particularmente na extensão dos ramos./ As florzinhas são pequeninas, e da cor que/ tem o jasmim dito “gemè”. As folhas são antes/ pequenas, mas muito agudas. O fruto é/ oblongo, mas pouco maior que nosso sorvo,/ mas é inteiramente amarelo. Muitos o apreciam, mas/ para dizer a verdade é acre, se bem tenha também um/ certo odor não desagradável. Chupa-se, e não se co-/ me, porque é inteiramente lenhoso. A casca da árvore/ é totalmente rugosa e aguda, tal que ninguém//

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tenta la salita per andarne sopra. Nel mese/ di Febraio lasciano cadere le frutte, le qualli/ sono tante, che ui si passa sotto calpestandoli./ Li Indij però, e ancora alcuni nazionali, ne fano/racogliere, le lasciano fermentare, e ne estragono/ una beuanda, che li ubriaca a perfetione.//

tenta subi-la para ir-lhe acima. No mês/ de fevereiro deixam cair os frutos, que/ são tantos, que se lhes passa por cima chutandoos./ Os índios, porém, e ainda alguns nacionais, fazem-nos/ colher, deixam-nos fermentar, e deles extraem/ uma bebida, que os embriaga à perfeição.//

[80] Cuttutirubà

[80] Cutitiribá

Questa arbore nasce alta, mà poi non impone/ molto, e la sua cortecia è rugosa e tende al scu-/ro, o sia negra, le foglie sono picole, e i frutti/ non sono maggiori di una galla, che noi diciamo/ Pancuca, mà sono totalmente rottondi, e uerdi quan-/do sono acerbi e matturi gialli. Tirata poi che/ sia la pelle, che é sottillissima, è in tutto/ simile ad una gema d’ouo cotta dura. Il suo/ dolce è alcun poco nauseante però mi piaciono./ Il seme è curioso fuor di modo, è più grande//

Esta árvore nasce alta, mas depois não se impõe/ muito, e sua casca é rugosa e tende ao es-/curo, ou seja, é negra, as folhas são pequenas, e os frutos/ não são maiores do que uma galha a que chamamos/ “pancuca”, mas são totalmente redondos, e verdes quan/do são imaturos e amarelos quando maduros. Tirada/então a pele, que é finíssima, é em tudo/ semelhante à gema de um ovo cozido duro. Sua/ doçura é um tanto nauseante, mas me agradam./ A semente é curiosa fora do comum, é maior//

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di un seme di olliua, e da una parte, è rugo-/so, mà dall’altra è tanto liscio e negro quanto/ lo è l’Ebano.//

do que um caroço de azeitona, e por um lado é/ rugosa, mas do outro é tão lisa e negra quanto/ o ébano.//

[81] Castagno [+ Assapucaia]

[81] Castanha[-do-pará & Sapucaia]

Quest’arbore in altezza garreggia con lo/ Angellino. Cresce diritto, e ariua com molti/ Anni ad una grossezza fuori del comune. Le/ foglie sono appuntate, e più tosto grandi. In/ luogo di fiori, butta [.....].

Esta árvore, em altura, compete com o/ angelim. Cresce reta, e chega depois de muitos/ anos a um tamanho fora do comum. As/ folhas são agudas, e antes grandes. Em/ lugar de flores, brota [...]. O fruto

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il frutto è/ grande come una grossa cipola, mà ancor/ più alto, e la cortecia di questi è tanto gro-/ssa, e dura, che si rompe con la manaia, e/ se uno de’ detti frutti cadesse ad alcuno nel/ capo, indubitatamente gli la fende al mezo,/ e quando ne racolgono la castagna, buttano l’/arbore nel suolo. Quando poi sono li guscij/ del tutto sechi, lasciano cadere un coperchino//

é/ grande como uma grande cebola, mas ainda/ mais alto, e a casca deles é tão gros/ sa e dura, que se quebra com um machado, e/ se um desses frutos caísse em alguém na/ cabeça, indubitavelmente lha fenderia ao meio,/ e quando se colhe a castanha, deitam a/ árvore ao solo. Quando então estão as cascas/ totalmente secas, deixam cair uma tampinha//

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che stà nel fondo, e da quello ne escono le/ castagne in numero di quindici sino a dicioto./ Sono queste triangolari, rugose e di guscio duro/ come quello delle nostre noci. La castagna é bianca, mà/ uiene circondata da una pelle collor di tabaco, la qua-/le difficilmente se li puole leuare senza coltello./ Il gusto della medesima è buono, mà abbonda di olio./ Della medesima si fanno buonissimi dolci, e in manca/nza di latte, si pestano, e se ne estrae il summo, che/ si chiama latte di castagna, e con questo si fanno/ torte. Il suo legno é molto buono per varij lauori, e/ [...] la sua scorza è di una grandissima uttilità/ in queste parti, mentre si tira tutta quella del tronco/ sia piede, e dopo di auerle tirato la scorza rugosa,/ ne fano pezzi della grandezza che uogliono, di poi/ la tattono, e lauano assai bene, fatto questo la espongo-/no al Sole per asciugarsi, e cosi ano la stoppa per/ callaffetare le Canoue, non auendone di altre sorte. Ui//

que têm no fundo, e daquele saem as/ castanhas em número de quinze até dezoito./ São estas triangulares, rugosas, e de casca dura/ como as de nossas nozes. A castanha é branca, mas/ vem envolta em uma pele cor de tabaco, a qual/ dificilmente se lhe pode tirar sem faca./ O gosto da mesma é bom, mas abunda em óleo./ Da mesma fazem-se boníssimos doces, e na fal-/ta de leite, são piladas, e delas se extrai o sumo, que/ se chama leite de castanha, e com este fazem-se/ bolos. Sua madeira é muito boa para várias obras,/ e [...] sua casca é de uma grandíssima utilidade/ nestas partes, porque se tira toda aquela do tronco/ até o pé, e depois de haver tirado a casca rugosa,/ fazem pedaços do tamanho que querem, depois/ a alisam e lavam muito bem, feito isto expõem-/na ao sol para secar, e assim têm a estopa para/ calafetar as canoas, não tendo de outro tipo.//

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a dipiù un altra castagna detta Assapucaia, nella/ quale non ritrouo altra

Há além disso outra castanha dita Sapucaia, na/ qual não encontro outra

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differenza, se non che li gus-/cij delle medesime sono assai maggiori dalle descritte./ E sono ricercati da Lisbona per fare sendelline, bi-/chiere, e altre simili cose. Il guscio d’una qu-/anto dal’altro è al difuori molto rugoso e rilleuato./ Le castagne sono della stessa fattura, mà più picole,/ e sono piè gustose delle altre.//

diferença se não que as cas-/cas da mesma são muito maiores do que as descritas./ E são buscadas em Lisboa para fazer [?], co-/pos e outras coisas semelhantes. A casca de uma/ e outra é por fora muito rugosa e saliente./ As castanhas são da mesma feitura, mas menores,/ e são mais gostosas que as outras.//

[82] Vmari

[82] Umari

È arbore bello quanto ogni altro di molte frondi/ ornato, perche oltre ad essere queste grandi, sono/ folte, perchè nascono a mazzetti. Li fiori non li/ ò veduti, mà bensi le frutta, che consistono, in poca/ parte che si mangi, perche non è altro che una su-/perficie, per cosi dire, che si asciupa, mà certo è che/ sembra una delicata manteca, o sia buttiro, che/ uiene ad essere più gustoso per il delicato odore che//

É árvore tão bela quanto qualquer outra, ornada/ de muitas frondes, porque além de serem estas grandes, são/ densas, porque nascem em macinhos. As flores não as/ vi, mas sim os frutos, que consistem em uma pouca/ parte comestível, porque nada mais é que uma su-/perfície, por assim dizer, que se chupa, mas é certo que/ parece uma delicada manteiga, que/ chega a ser mais gostosa pelo delicado odor que//

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lascia sulla boca. La sua grandezza è come una grossa/ prugna, mà uguale in ogni parte, e matturo che sta, res-/ta giallo. Il suo guscio è sottilissimo, e per questo non/ si monda. Il restante che forma la grandezza del fru-/tto, altro non è, che un masso di fibre condensate assie-/me che nepure li denti ui fanno empressione.//

deixa na boca. Seu tamanho é como o de uma grande/ ameixa, mas igual em cada parte, e quando está maduro, fi-/ca amarelo. A casca é finíssima, e por isto não/ se tira. O restante que forma o volume do fru-/to não é outra coisa se não um maço de fibras condensadas/ em que nem os dentes fazem uma impressão.//

[83] Anningas

[83] Aninga

Si puo considerare questa pianta fra/ le erbe acquatiche perche nele acque/ nasce, e si nutre. Consiste questa en un/ piede alto

Pode-se considerar esta planta entre/ as ervas aquáticas, porque nasce nas/ águas, e ali se nutre. Esta consiste em um/ pé de

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sino a dodici palmi, comuneme-/nte grosso in basso come il bracio di un uomo/ e assai più sottile, mà resta sempre uerde/ solamente nella sommita tiene otto o dieci/ foglie assai piu larghe di un foglio di carta/ imperiale, e sempre stano con la punta uolta/ allo insú, e le altre due in basso cuoprono//

até doze palmos de altura, comumen-/te grosso embaixo como o braço de um homem/ e muito mais delicado, mas fica sempre verde;/ somente no ápice tem oito ou dez/ folhas bastante mais largas que uma folha de papel/ almaço, e estão sempre com a ponta virada/ para cima, e as outras duas em baixo cobrem//

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una parte del gambo che è lungo un palmo./ Il frutto sembra una pigna delle maggiori, ma/ non serue a cosa alcuna. Il suo fiore è curio-/sissimo, mà trombuto, bianco e mesclato alcun/ poco con striscie incarnate allo intorno, mà non/ tiene gracia. Il detto piede è assai mole, e/ per quanto grosso sia, si taglia con un coltelo,/ in uno ò due colpi, mà tanto abbonda, che se/ ne formano Isolette, e non picole.//

uma parte do pedúnculo, que tem o comprimento de um palmo./ O fruto parece uma pinha das maiores, mas/ não serve para coisa alguma. Sua flor é curio-/síssima, mas trombuda, branca, e mesclada um/ pouco com estrias encarnadas em volta, mas não/ tem graça. O dito pé é assaz mole, e/ por mais grosso que seja, corta-se com uma faca,/ com um ou dois golpes, mas é tão abundante, que/ dele se formam ilhotas, e não pequenas.//

[84] Vmiri

[84] Umiri

L’arbore che fui osseruare com molto mio incomodo/ dentro una Selua era grossa fuori del commune. Il/ piede era perfettamente diritto, e tanto alto che/ non potei distinguere li frutti, e delle foglie/ cadute uidi che erano ordinarie nulla aueua/no di particolare. Dal Piede di questa ce-/lebratissima Pianta si tira il celebre olio deto//

A árvore que fui observar com muito desconforto meu,/ dentro de uma selva, era grande fora do comum. O/ pé era perfeitamente reto, e tão alto que/ não pude distinguir os frutos, e das folhas/ caídas vi que eram ordinárias e que nada tinham/ de particular. Do pé desta ce-/ lebradíssima planta tira-se o célebre óleo dito//

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di Vmiri; e si fà in questo modo. Si fende/ la cortecia, e nella ferita fatta ui si mete/

de umiri, e faz-se deste modo. Fende-se/ a casca, e na ferida feita mete-se/ um pouco

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alcun poco di Cottone, e questi deue uscire/ dalla detta ferita alcun poco, tanto che insci/upandosi del medesimo olio, incomincij a stil-/lare, e sotto ui si lascia raccomodato alcun/ uasaccio ui cada quel liquore, e al disopra/ della ferita ui si fà un piede coperto di/ foglie o altro, il quale stà bene accostato/ alla scorza dell’arbore, e allo intorno della/ cortecia si chiude assai bene la giuntura con/ terra assai bene battuta, e questo si fà perche/ la pioggia non si mescli con il cottone che/ conduce l’olio nel uaso, e fatto questo si las-/cia cosi per molto tempo perchè uà lacrima-/ndo a poco a poco e non dà continuamente,/ e credo che sarà questo allora quando le radi-/ci tirano a sè l’umore della Pianta. Questo/ a dir uero, è chiamato olio del insano Volgo,//

de algodão, e este deve ficar fora/ da ferida um pouco, de modo que embe-/bendo-se do mesmo óleo, comece a des-/tilá-lo, e por baixo deixa-se acomodado algum/ vasinho onde caia aquele licor, e por cima/ da ferida faz-se um pedestal coberto com/ folhas ou outra coisa, que deve ficar bem encostado/ à casca da árvore, e ao redor da/ casca fecha-se muito bem a juntura com/ terra muito bem batida, e isto faz-se para que/ a chuva não se misture com o algodão que/ conduz o óleo para o vaso, e feito isto dei-/ xa-se assim por muito tempo, para que vá lacri-/mejando pouco a pouco, pois não dá continuamente,/ e creio que isto acontece porque as raí-/zes puxam para si o humor da planta. Este,/ em verdade, é o chamado óleo, pelo insano vulgo,//

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mà è balsamo perfetissimo, e non galleggia/ nell’acqua, mà subito uà al fondo. Il suo/ collore è simile all’oro puro, e chiaro quanto/ può essere la ambra più perffetta. Il suo odo-/re è acutissimo, e doue sono le Piante, non/ si può ignorare, da che molto lungi si sen-/te il suo odore. La cortecia si fà in pezzetti,/ e in occasione di feste si abruggia, e spande/ per ogni parte il medesimo odore del balsa-/mo. Osservai che questa arbore aueua ua-/rie incisioni, e tutto allo intorno era unto./ Dicono, che abbia molte virtù, e che si assomi-/glie all ollio di oro, e certo è che li Inglesi/ lo procurauano. Mà sicome ui uuole molto/ tempo a tirarlo, e perche bisogna affaticare/ molto a ritrouarlo nelle selue nisuno al/ presente lo procura, e se

mas é bálsamo perfeitíssimo, e não flutua/ na água, mas depressa vai ao fundo. Sua/ cor é semelhante ao ouro puro, e clara tanto quanto/ pode ser a do âmbar mais perfeito. Seu odor/ é agudíssimo, e onde existem as plantas, não/ se o pode ignorar, pois desde muito longe sen-/te-se seu odor. A casca é reduzida a pedaços,/ e em ocasiões de festa se queima, e espalha/ por todas partes o mesmo odor de bálsa-/mo. Observei que esta árvore tinha vá-/rias incisões, e toda em volta estava untada./ Dizem que tem muitas virtudes, e que se asse-/melha ao óleo de ouro, e é certo que os ingleses/ o procuram. Mas como se exige muito/ tempo para tirá-lo, e como é preciso cansar-se/ muito para achá-lo nas selvas ninguém o/ procura atualmente, e se

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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alcuno lo porta/ a Lisbona è del Maragnone, doue lo tirano/ più facilmente.//

alguém o leva/ a Lisboa é do Maranhão, onde o extraem/ mais facilmente.//

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[85] Angellino [+ turru, angellino di coco, angellino di pietra]

[85] Angelim [-do-pará, + turu, angelim-coco, angelim-pedra]

Questa arbore è fra tutti la maggiore in/ altezza, e grossezza, e si chiama arbore Re-/ale perchè entra nel numero di qualle che in/ qualunque luogo sieno, sono del Reale Sourano/ abbisognandone. E non solo è maggiore nella/ grandezza, mà nel suo ualore ancora perche/ di questo legno si fano li fusti delle Canoue,/ che durano assai più di qualunqe altro legno,/ e alcune ne ò uedute di sopra cento Palmi/ di lunghezza, e dicciotto di larghezza. Mà/ pare questo stimabile legno, e più di ogni/ altro, sog getto ad essere perduto, e diuorato/ dal Turrú. Che cosa sia questo turrú, altro/ non è che un uerme poco più o meno lun-/go di un dito picolo, e più sottile mà tanto/ mole, e lagunoso come la lumaca, mà però/ tiene costui sopra li ochij una cartillagine//

Esta árvore é entre todas a maior em/ altura e largura, e se chama árvore re-/ al porque entra no número daquelas que em/ qualquer lugar que estejam, são do Real Soberano/ se for preciso. E não só é maior no/ tamanho, mas ainda em seu valor, porque/ desta madeira fazem os mastros das canoas,/ que duram muito mais do que qualquer outra madeira,/ e vi algumas com mais de cem palmos/ de altura e dezoito de largura. Mas/ parece que este estimável lenho, e mais do que qualquer/ outro, está sujeito a perder-se, devorado/ pelo turu. O que é esse turu? Nada/ mais que um verme longo pouco mais que um/ dedo mínimo, e mais fino, mas tão/ mole, e lagunoso como a lesma, mas/ tem este sobre os olhos uma cartilagem//

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cotanto dura, e aguzza, che della medesima/ si serue come di una triuella, e stando le/ Canoue in acqua, o nella matta entra dentro/ a poco a poco, e le distruge, mà quello che fà/ meravigliare, entra per un buco tanto sottile, che/ a occhij nudi difficilmente si può uede-/re. Entrato che sia, non fora dirito, ma atra-

tão dura e aguçada, que se serve dela/ como de uma verruma, e estando as/ canoas n’água, ou na mata, entra dentro/ pouco a pouco e as destrói, mas o que faz/ maravilha, é que entra por um buraco tão pequeno, que/ a olhos nus dificilmente se pode ver./ Uma vez entrado, não fura reto, mas atra-/vessado, furando em tantas

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/uerso i buchi in tante parti, che il legno ari-/ua ad essere come una sponga, e osseruando/ io minutamente le stragge, che fecero in/ una mia Canoua grande, restai sorpreso, e a/ nulla più serui. L’ùnico rimedio que si à/ ritrouato per guardarle da questo canaglia,/ é di tostarla col fuoco ad ogni due o tre/ mesi, mà questo però non si può fare ne’/ legni che stano fissi in acqua. Vi sono poi/ altri Angellini detti di Coco, e di Pietra,/ mà sono questi bastardi, e di poca dura/ta in acqua, e non durano più di quatr’anni.//

partes, que a madeira che-/ga a ficar como uma esponja, e observando/ eu minuciosamente os estragos que fizeram numa/ minha canoa grande, fiquei surpreso, e para/ nada mais ela serviu. O único remédio que se/ achou para poupála deste canalha,/ é tostá-la com fogo a cada dois ou três/ meses, mas isto porém não se pode fazer com/ as madeiras que estão fixas n’água. Existem ainda/ outros angelins, ditos angelim-coco, e angelimpedra,/ mas estes são bastardos, e de pouca dura-/ção na água, e não duram mais de quatro anos.//

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[86] Loiro [bianco e incarnato]

[86] Louro [branco e encarnado]

Di questa pianta ue ne à di due sorta./ Cioè bianco e incarnato, e il primo che/ altri lo chiamano giallo, perche parteci/pa del uno, e altro collore, è il più du/rabile. Questa sorta di legno è molto in/ uso per picole Canoue, e per tauolle, o sie-/no Asse, le qualli certamente sono durabili, mà però/ àno un diffetto, che è quello di non/ stare bene unite, e per quanto sieno seche/ di più anni, e diligentemente conggiunte, in/ pochi mesi si uedono allontanate le une del-/ le altre onde per lauori pulliti non sono de/ mettersi in opera. Il secondo che si chiama/ incarnato, è stimato meno durabile parti-/colarmente in acqua, ma per lauori toschi/ per armature, osia per cambottare fabriche/ è buonissimo.//

Desta planta há dois tipos./ Ou seja, branco e encarnado, e o primeiro, que/ outros chamam amarelo, porque parti-/ cipa de uma e outra cor, é o mais du-/ rável. Este tipo de madeira tem muito/ uso para pequenas canoas, e para tábuas, ou se-/jam [em italiano] asse, as quais certamente são duráveis, mas/ têm um defeito, que é o de não/ ficarem bem unidas, e por mais que estejam secas/ por vários anos, e diligentemente juntadas, em/ poucos meses se vêm afastadas umas das/ outras, e daí para trabalhos limpos não são de/ meter-se em obra. O segundo, que se chama/ encarnado, é estimado menos durável, parti-/cularmente na água, mas para trabalhos toscos/ para estruturas, ou seja, para andaimes de construções,/ é boníssimo.//

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P. 87

P. 87 [87] Accapù

[87] Acapu

Queste arbori, quantunque creschino alte diritte,/ e grosse, sempre esteriormente si conoscono, non sola-/mente per certe prominenze che tengono esteri-/ormente, mà ancora per la cortecia, che è liscia,/ e collor chiaro senza rughe. Egli è certo, che sono/ in questi parti di grandissima uttilità, sono di una/ natura pesanti, ma durabili, tanto in acqua quan-/to fuori. Li Tetti delle Case, le Porte, e le Fines-/tre sono tutte di questo legno, e in nissun luogo/ si uede corrette, o dalle tignolle diuorate, e allor/ da in queste circonuicine Terre, e in altre poi non/ si ritroua. Nella costruzione delle Case è di/ grandissima durata, mà però bisogna auertire di/ non lasciare cadere il riboco della parede a fiore/ di terra perchè scoperto che sia in pochi Anni/ marcise, mà quella parte che resta poi tanto nella/ parede, quanto l’altra, che stà sotto terra, restano//

Estas árvores, ainda que cresçam altas e retas,/ e grandes, sempre se reconhecem exteriormente, não só/ por certas proeminências que têm exte-/riormente, mas ainda pela casca, que é lisa,/ de cor clara, sem rugas. É certo que têm,/ nestas partes, grande utilidade, são de uma/ natureza pesada, mas durável, tanto em água quan/to fora. Os tetos das casas, as portas e as jane-/las são todos desta madeira, e em nenhum lugar/ se vêm emendados, ou devorados por traças, e então/ dá nestas terras circunvizinhas, e em outros entanto não/ se encontra. Na construção das casas é de/ grandíssima duração, mas é preciso advertir de/ não deixar cair o reboque das paredes à flor/ da terra, porque se estiver descoberto, mesmo em/ poucos anos, apodrece, mas a parte que fica no entanto na/ parede, quanto a outra, que fica sob a terra, permanecem//

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senza lesione, onde non sò io ritrouare la causa/ di questo fenomeno.//

ilesas, e não consigo achar a causa/ desse fenômeno.//

[88] Cedro [bianco e incarnato]

[88] Cedro [branco e encarnado]

Molto stimabile è questo legno per le telle pre-/rogatiue che in se tiene a beneficio de’ Popoli, me-/ntre del medesimo, si fano moltissimi lauori. E oltre/ ad essere chiaro, e di uera dirito è durabile, tanto/ in acqua

Muito estimada é esta madeira pelas prerrogati-/vas tais que tem em benefício dos povos, pois/ da mesma fazem-se muitíssimas obras. E além de/ ser claro, é verdadeiramente reto e durável, tanto/ em

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quanto fuori della medesima. Ancora/ nel lauorarlo è assai dolce, e per questa sua dol-/ cezza, si fano cornici, e ogni sorta di intagli tanto/ grossi, come fini. Questo Cedro è di due sorta./ L’uno si chiama bianco, l’altro incarnato, e questo/ è in maggiore stima, perche è più durabile per non/ dire eterno. L’uso migliore di questo legno è di/ ridurlo in tauole di qualunque lunghezza, e ne tengo/ in Casa alcune lunghe quatro Palmi. La sua radice/ è fortissima, e dura in acqua più di ogni altro legno.//

água quando fora da mesma. Mesmo/ para trabalhar-se é bastante doce, e por essa sua/ doçura fazem-se cornichos, e toda a sorte de entalhes, tanto/ grosseiros, como finos. Este cedro tem dois tipos./ Um chama-se branco, e o outro vermelho, e este/ tem mais estima, porque é mais durável, por não/ dizer eterno. O melhor uso desta madeira é/ reduzi-la a tábuas de qualquer comprimento, e tenho/ em casa algumas longas de quatro palmos. A sua raiz/ é fortíssima, e dura n’água mais do que qualquer outra madeira.//

P. 89

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e si fano Canoue le qualli per la loro leggerezza nuo-/tano sopra l’acqua ancorchè sieno allagate, e se non/ si costumano da tutti è perche non si pono assicu-/rare li chiodi, li qualli allargano i buchi per essere/ tenero. Egli è certo, che questo legno, non è di quelle/ specie, che nasce nel Libano, perchè le loro foglie e li/ loro frutti sono differenti da quelli, che des/criue il Sig. Salimon [?] nel sesto tomo a car-/te 220: e 221: Il tronco di questo cresce/ alto e per lo più diritto, e ò ueduto Canoue/ di ottanta palmi. La sua scorza è delle/ più rugose da mè osseruate, e li suoi ra-/mi non sono poi tanto intricati. Il suo fio-/re non ò potuto uederlo mà bensi il frutto/ che è alcun poco più lungo di una gianda [sic]/ mà non appuntato. Il suo fondo è color di/ tabaco scuro, sparso di puntine giallette./ Seco que sia, si apre, e forma come un fio-/re di quatro foglie, e dentro altro non uidi//

E fazem-se canoas, que por sua leveza na-/dam sobre a água mesmo que estejam alagadas, e se não são/ usadas por todos é porque não se podem manter/ os pregos, que alargam o buraco por ser/ tenro. É certo que esta madeira não é daquela/ espécie que nasce no Líbano, porque suas folhas e/ seus frutos são diferentes daquele, que o Sr./ Salimon [?] descreve no sexto tomo, às páginas/ 220 e 221. O tronco desta cresce/ alto e quase reto, e vi canoas/ de oitenta palmos. A sua casca é das/ mais rugosas por mim observadas, e seus ra-/mos não são tão intrincados. Sua flor/ não a pude ver, mas sim o fruto,/ que é um pouco mais longo que uma bolota,/ mas não acuminado. Seu fundo é de cor de/ tabaco escura, esparz ido de pontinhos amarelados./ Uma vez seco, abre-se, e forma como uma flor/ de quatro pétalas, e dentro não vi outra coisa//

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che una massa scura in croce, e non/ potei distinguere le semente. Li migliori Cedri/ sono quelli che nascono lungo il Rio di Ma/dera, li qualli poi quando le acque sono alte,/ uengono strassinati dalle medesime per il gra-/nde Rio dell Amazoni, e tutti si fermano/ in uarie riuolte lungi da questa Citta sei gi-/orni incirca di camino, onde chi li uuole se/ li uà a prendere. Qui allo intorno della/ Citta non mancano, mà bisogna procurarli/ alla cieca perche qui si tende solamente/ a buttarli in terra, e a non coltiuarli, come/ si usa di ogni pianta ancorche fruttifera.//

senão uma massa escura, em cruz, e não/ pude distinguir as sementes. Os melhores cedros/ são os que nascem ao longo do Rio Ma-/deira, os quais, quando as águas estão altas,/ são levados pelas mesmas até o gran-/de rio das Amazonas, e todos param/ em certas curvas, longe desta cidade cerca de seis/ dias de caminho, onde quem quer vai/ lá para pegá-los. Aqui pelos arredores da/ cidade não faltam, mas é preciso procurá-los/ às cegas, porque aqui tende-se somente/ a pô-los por terra, e não a cultivá-los, como/ se usa com todas as plantas, mesmo frutíferas.//

[89] Massaranduba

[89] Maçaranduba

Molto duro, e fino è questo legno, atto anch’/ esso a uarij lauori, mà particolarmente di/ ballaustrate, cornici, e altre similli cose. Il//

Muito dura e fina é esta madeira, apta também/ esta a várias obras, mais particularmente de/ balaustradas, cornichos, e outras coisas semelhantes.//

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suo collore è lionato, mà tinto che sia, pare/ ebano, perche riceue ottimamente il lustro./ Per tingirlo, lo sepoltano al fango, e dopo otto/ quindici giorni, lo tirano fuori, lo lauano, e/ asciuto che sia, li dano la cera, e poi lo lus-/trano, e già si deue intendere che si sepolta-/no le opere dopo che sono torniate e intagliate./ Ò però osseruato che esposto all’aria apre/ moltissime scissure come di capeli intersecati/ li uni come li altri, mà poi dopo alcuni pochi/ mesi spariscono, e tornano a unirsersi.//

Sua cor é leonada, mas se tingida parece/ ébano, porque recebe otimamente o lustro./ Para tingi-la, sepultam-na na lama, e depois de oito/ a quinze dias, tiram-na fora, lavamna, e/ assim que seca, passam-lhe cera, e depois lus-/tram-na, e deve-se já entender que se sepul-/tam as obras depois de estarem torneadas e entalhadas./ Mas observei que exposto ao ar abre/ muitíssimas fissuras, como cabelos entrecruzados/ uns com os outros, mas depos de alguns poucos/ meses desaparecem e tornam a unir-se.//

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[90] Marapautà

[90] Marapautá [?]

Questo legno si usa a fare tauole, o sieno/ Asse, le qualli seruendo per uolte, o per/ altri usi dura interiormente, mà esposto al-/le ingiurie de’ tempi, in pochissimo tempo/ marcise, il suo collore é bianchicio.//

Esta madeira se usa para fazer tábuas, ou seja [em italiano],/ asse, as quais servindo às vezes, ou para/ outros usos dura interiormente, mas exposta às/ injúrias dos tempos, em pouquíssimo tempo/ apodrece; sua cor é esbranquiçada.//

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P. 92 [91] Annanì

[91] Anani

É arbore, che serue per trauamenta, per re-/mi da uogare, e per molti altri lauori per-/che dura molto al coperto, mà esteriorme-/nte, e massimamente in luoghi umidi è di/ pochissima durata.//

É árvore que serve para vigamento, para re-/mos de navegar, e para muitas outras obras, por-/que dura muito ao coberto, mas exteriormen-/te, e especialmente em lugares úmidos, é de/ pouquíssima duração.//

[92] Pàu d’Arco

[92] Pau-d’arco

Fortissimo, e pesantissimo è questo legno, il/ quale è fino, ma stanca le bracia de’ maes-/tri, che lo trauagliano, e per ogni lauoro credo,/ che sia eterno. Cresce alto e grosso quanto/ ogni altro de’ maggiori. Di questo legno man-/daí a lauorare una collona Dorica, con Pie-/distallo, Canua, Freggio, et Architraue per il/ Pelleurino di questa Citta, e nel lauorarlo ui-/di che si rideua de’ ferri, mentre di continuo//

Fortíssima e pesadíssima é esta madeira,/ que é fina, mas cansa o braço dos mes-/ tres que a trabalham, e para qualquer obra, creio/ que seja eterna. Cresce alto e grande como/ qualquer outra das maiores. Desta madeira man-/dei trabalhar uma coluna dórica, com pe-/destal, friso, e arquetrave para o/ pelourinho desta cidade, e ao trabalhá-la vi/ que se ria dos ferros, e de contínuo//

P. 93

P. 93

bisognaua arrottarli. In quanto alla belleza/ di questa Pianta ui abbisognaua un Petrarca/ per descriuerla. Cresce dirita, e la cortecia è/ poco meno che bianca, e senza rughe. Le foglie/

precisava-se amolá-los. Quanto à beleza/ desta planta, seria preciso um Petrarca/ para descrevê-la. Cresce reta, e a casca é/ pouco menos que branca, e sem rugas. As folhas/

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stano tutte nella cima, e da lontano rapresentano/ agli occhij un corpo assai rottondo. In Genaro resta/ del tutto spogliato di sue foglie e in Aprile o/ in Maggio si ueste tutto di fiori gialli, che lo/ cuoprono nel istesso modo, che le foglie cuprono/ ogni altro arbore, e per questo si uedono tanto da/ lontano quanto puosi uedere a occhio nudo, e/ à dir uero senza adullare è questa una pi-/nta che in Europa sarebbe molto grata, e/ particolarmente perche dura cosi bella quasi due/ mesi, e in questo tempo non si uede nepure/ una foglia. Le stanghe delle Carrozze sono/ molto ricercate, se alcune ne portano a Lisbo-/na in occasione delle Naui, che sono di ritorno//

estão todas no cimo, e de longe apresentam/ à vista um corpo assaz redondo. Em Janeiro fica/ toda despojada de suas folhas e em abril ou/ maio veste-se toda de flores amarelas, que a/ cobrem da mesma maneira que as folhas cobrem/ qualquer outra árvore, e por isto se vêm tão de/ longe, tanto quanto se pode ver a olho nu, e/ para dizer a verdade sem adulação, esta é uma plan-/ta que na Europa seria muito apreciada, e/ particularmente porque dura assim bela quase dois/ meses, e neste tempo não se vê nem/ uma folha. Os varais de carruagens são/ muito procurados, se alguns são levados a Lisboa/ por ocasião das naves que estão de retorno.//

P. 94

P. 94 [93] Pau Rosa

[93] Pau-rosa

Questa sorte di legno si dessidera molto/ per foderare Cassete di commode, di men-/ se, e di armarij, perchè fuori di preseruar-/ ssi dalle tignuole comunica il suo grato od-/ ore a tutti quelle cose, che dentro ui si met-/ tono, e è trattabile per questi lauori.//

Esta espécie de madeira é muito desejada/ para forrar gavetas de cômodas, de me-/ sas e de armários, porque além de se preser/var das traças comunica seu grato odor/ a todas as coisas que lá dentro se põem,/ e é maleável para essas obras.//

[94] Maraquattiara

[94] Muiraquatiara

Molti lauori gentilli si fano di questo le-/ gno, como di Tamburetti, Commode, Scrittorij,/ Canterani, corniciamenti, e altretante simili cose/ e questo per essere di collore quasi bianco,/ mà poi ondeggiato com uaghe uene assai più/ curiose di qualle sieno le nostre di noce, e/ tanto crescono, che dano tauole di quatro palmi,/ mà non è poi tuto uguale, ne in ogni lugo [sic].//

Muitos trabalhos delicados são feitos com esta ma-/deira, como tamboretes, cômodas, escrivaninhas,/ camiseiros, cornijas, e outras tantas coisas semelhantes,/ e isto por ser de cor quase branca,/ mas ainda ondulada, com vagas veias bastante mais/ curiosas do que são as nossas de nogueira, e/ crescem tanto que dão tábuas de quatro palmos,/ mas não é de todo igual, nem em todo lugar.//

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P. 95

P. 95 [95] Mairagiuba [+ Parica]

[95] Muirajuba [+ Paricá]

Questi dal uolgo è conosciuto per Páu/ amarello, o siai Giallo. Questo legno è atto/ ai nostri lauori, mà per essere assai fino, e/ per imitare nel colore il burro, se ne serue/ per fare di esso ancora tamburetti, comode, in-/tagli, e in fine ogni sorta di lauori per ornare/ le Case. Fuori di questo ui à il Parica,/ quale anch’esso è giallo. Li arbori crescono ass/ai alti e grossi, e ne è ueduto più uolte ta-/uole di quatro Palmi.//

Estas, pelo vulgo, são conhecidas como pau/amarelo. Esta madeira é boa/ para nossas obras, mas por ser muito fina, e/ por imitar na cor a manteiga, serve-se dela/ para fazer ainda tamboretes, cômodas, en/ talhes, e enfim qualquer tipo de obras para ornar/ as casas. Além desta existe o Paricá,/ que também é amarelo. As árvores crescem bas-/tante altas e grandes, e vi muitas vezes tá-/buas de quatro palmos.//

[96] Pau Rosso

[96] Pau-roxo

Cosi è chiamato questo legno, il quale qu/ando si lauora, o che esce dalle mani del/ Maestro fabricante, è totalmente di colore/ Pauonazzo, e assai uiuo; mà in questo stato//

Assim é chamada esta madeira, a qual quan-/do se trabalha, ou quando sai das mãos do/ mestre fabricante, é totalmente de cor/ violácea, e muito viva, mas neste estado//

P. 96

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dura poco tempo, perche poi si uà sempre/ più oscurando, mà resta però sempre bello/ e riesce ancor più uago imbutito que sia/ nel giallo, come qui si costuma; è di na-/ tura assai fino e anch’esso à atto alli stes/si lauori del giallo.//

dura pouco tempo, porque depois vai sempre/ escurecendo, mas fica porém sempre bela/ e torna-se ainda mais gracioso se é imbutido/ no amarelo, como aqui se costuma, é de na/tureza muito fina e também serve para as mes-/mas obras do que o amarelo.//

[97] Pau Incarnato

[97] Pau-encarnado

Questo anch’esso à un bellissimo legno/ atto a qualunqe lauoro di Casa como hò/ detto del Pau amarelo, e del Rosso. Il/ fondo del

Também esta tem uma belíssima madeira que/ serve para qualquer obra de casa, como já/ disse do pau-amarelo e do roxo. O/ fundo

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deto Pau Rosso è giallo, e le ue-/ne sono rosse, e quando è lauorato di nuouo/ è tanto lustro, che sembra ui dia el Sole.//

do dito pau-roxo é amarelo, e as ve-/ias são roxas, e quando é trabalhado de novo/ é tão lustroso que parece que lhe bata o sol.//

[98] Mangas [sic], e Acapuranas

[98] Mangue e acapurana

Sono due Piante le dicui foglie seruono/ per curtire la Sola, e sono le più usate.//

São duas plantas cujas folhas servem/ para curtir o couro, e são as mais usadas.//

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P. 97 [99] Cumarù

[99] Cumaru

É anche esso legno Reale, e duro. Cresce/ moltissimo, e qui è di molta utilità, e fra/ le molte cose, che si fano, sono le moende/ per macinare la canna, che è segno certo/ della sua durabilità. Il frutto non si man-/gia e sembra una gianda, la quale matura/ che sia, si apre e resta mole, per essere/ assai oleoso, e il dicui olio resta poi di un/ odore tanto acuto, che a tal uno offende il/ capo. Dicono però che é medicinale, mà chi/ possa fare fede di ciò, non lo ritrouo.//

Também esta é madeira real, e dura. Cresce/ muitíssimo, e aqui é de muita utilidade, e entre/ as muitas coisas que se fazem, estão as moendas/ para moer as canas, o que é sinal certo/ de sua durabilidade. O fruto não se co-/me e parece uma bolota, o qual, quando amadurece,/ abre-se e fica mole, por ser/ muito oleoso,e cujo óleo fica com um/ odor tão agudo, que a alguns faz doer a/ cabeça. Dizem porém que é medicinal, mas não/ encontro ninguém que bote fé nisso.//

[100] Paricà

[100] Paricá

É un arbore diuerso del Paricà, che dà il/ legno amarelo. Questi è molto fronzuto,/ perche dilata molto li rami suoi e le sue//

É uma árvore diferente da do Paricá que dá a/ madeira amarela. Esta é muito frondosa,/ porque dilata muito seus ramos e as suas//

P. 98

P. 98

foglie sono picole, e ouali. Il suo frutto, è/ come una cornachia di luppini, qui detti/ Estremós [sic], mà sono più schiaciati. Li Indij ri-/ducono in poluere li detti frutti a

folhas são pequenas e ovais. Seu fruto é/ como a vagem dos lupinos, aqui chamados/ tremoços, mas são mais achatadas. Os Índios re-/duzem a pó os ditos frutos à

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forza di fuo-/co lento e poi portando con sè due ossa delle/ gambe di alcun passaro congiunte assieme,/ le empiono di quella poluere che resta co-/me un tabaco, e acostando le dette ossa con/ la punta alcun poco dentro i buchi della/ narici, li uni con li altri se la soffiano con/ tutta la forza che pono, e restano poi per/ alcun tempo come ubriachi, o conuulsi, come/ io uidi. Presi un poco di quella poluere/ a uso di tabaco, e in uero è assai irritante.//

força de fo-/go lento, e depois, trazendo consigo dois ossos das/ pernas de alguma ave, ligados juntos,/ enchem-nos desse pó, que fica co-/mo tabaco, e encostando os ditos ossos com/ a ponta um pouco dentro dos buracos do/ nariz, uns com os outros, sopram-no com/ toda a força que podem, e ficam depois por/ algum tempo como embriagados, o convulsionados,/ como vi. Tomei um pouco desse pó/ como se fosse tabaco, e deveras é muito irritante.//

[101] Suppupira

[101] Sucupira

Si anouera questo legno tra li Reali, per-/ chè è forte, e serue per le imbarcazzioni.//

Inclui-se esta madeira entre as reais, por-/ que é forte, e serve para as embarcações.//

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P. 99 [102] Cuppauba

[102] Copaíba

Questa Pianta cresce quanto le altre,/ che qui sono communi, e credo che abbasta-/ nza sia notta a tutto il Mondo, per il/ suo olio. Per tirarlo cosi si fà, fendessi/ il piede con una manaia sino al midolo,/ dipoi si empie la fenditura con qualunqe/ pano acciò cadendo l’olio per li suoi me-/ati si empiano li uasi che sotto ui si met-/tono, e quando l’arbore abbonda darà un/ sechio, e purgato che sia da alcuna fecia/ resta chiaro, e come il colore del’oro. Il suo/ odore è acutissimo, e a molti offende il Capo./ Qui se ne seruono per dare la uernice a/ Porte, e Finestre, e ancora per dipingere, mà/ non si adoperebbe da un mezano Pittore/ della nostra Ittalia, perche in progresso di/ pochi Anni, inscurisse le tinta, e di più si//

Esta planta cresce tanto quanto as outras,/ que aqui são comuns, e creio que bastan-/te conhecidas em todo o mundo, por/ seu óleo. Para tirá-lo faz-se assim: corta-se/ o pé com um machado até o miolo,/ depois enche-se a fenda com qualquer/ pano a fim de que, caindo o óleo por seus me-/andros se encham os vasos que se metem/ embaixo, e quando a árvore [dele] abunda, dá um/ balde, e se é purgado de alguma borra/ fica claro, e como da cor do ouro. Seu/ odor é agudíssimo, e a muitos faz doer a cabeça./ Aqui servemse dele para envernizar/ portas e janelas, e também para pintar, mas/ não seria adotado nem por um pintor medíocre/ na nossa Itália, porque no decorrer de/ poucos anos escurece a tinta, e além disso//

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disuniscono a segno che paiono crepate in/ moltissimi luoghi. Delle sue uirtù non pos-/ so auanzarmi a parlarne, da chè li medici/ lo àno già conosciuto da molto tempo, e so-/ lamente sò, che mio Padre lo riputasse per/ balsamo, e che più uolte se ne è seruito pr/ la cura di graui ferite. Il suo legno è/ assai fino, e ondeggiato, ma a nulla serue/ per essere lontano dalla Citta quasi un/ Mese di camino, e si ritroua dentro del/ Rio Cappino, Trombettas, Tucantins, e altri./ In questa sola parte di America abbonda/ a tanto che nel 1764 ne fù tanto in/ Lisbona, che sino al presente poco o nulla/ si è mandato, perche abbassò di prezzo./ Di più si deue sapere, che non si può/ tirare in tutto il tempo dell’Anno, mà/ solamente quando maggiori sono le piog-/gie, e questo è per Marzo, e Aprile.//

quebram-se de modo a parecer rachados em/ muitos lugares. Das suas virtudes não pos-/so abalançar-me a falar, pois os médicos/ já o conheceram há muito tempo, e só/ sei que meu pai o reputava como/ bálsamo, e que muitas vezes dele se serviu para/ a cura de graves feridas. Sua madeira é/ muito fina, e ondulada, mas para nada serve/ por achar-se distante da cidade quase um/ mês de caminho, e encontra-se nos/ Rios Capim, Trombetas, Tocantins, e outros./ Só nesta parte da América abunda/ tanto, que em 1764 dela tanto havia em/ Lisboa, que até o presente pouco ou nada/ se enviou, porque baixou de preço./ Ademais deve-se saber que não se pode/ extraí-la todo o tempo do ano, mas/ só quando as chuvas são maiores,/ e isto é em março e abril.//

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P. 101 [103] Crauo

[103] Cravo

Benedetta sarà sempre per tutte le età qu/esta Pianta per essere un arromato tanto/ dessiderato per la Europpa tutta. Da qu/esta medesima si tira tanto il grosso qua/ nto il fino, e è quella che in nostre parti/ si chiama Canella garoffanata. Il modo/ di tirarla è facile. Aprono la scorza per/ lungo del piede, e la fendono ancora allo/ interno alla altezza dos canudos [sic] che uogliono/ fare, dipoi la stacano, la sfregano con le mani,/ li lasciano secare all’ombra, e cosi è fatto./ La scorza delli arbori che

Bendita seja por todos os tempos es-/ta planta, por ser um aroma tão/ desejado em toda a Europa. Des-/ta mesma tirase tanto o grosso co-/mo o fino, e é aquela que nas nossas partes/ se chama canela condimentada. O modo/ de tirá-la é fácil. Abrem a casca ao/ longo do pé, e cortamna ainda no/ interior do comprimento dos canudos que querem/ fazer, depois destacam-na, esfregam-na com as mãos, / deixam-na secar à sombra, e assim está feito./ A casca das árvores que dão a

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dano la cannella/ garoffanata non sono più grossi del colo di/ un uomo magro. Qualli che dano la cannella/ garoffanata fina sarano come il polsso della/ mano, e nelle selue sono abbondantissime le/ Piante, mà non in tutti i luoghi.//

canela/ condimentada não são mais grossas que o pescoço/ de um homem magro. As que dão a canela/ condimentada fina são como o pulso da/ mão, e nas selvas são abundantíssimas essas/ plantas, mas não em todos os lugares.//

P. 102

P. 102 [104] Mangani

[104] Mangues

A mio credere è questa una pianta delle più/ strauaganti del Brasile, e non ostante, che sia sil-/uestre e di niun conto, sempre è particolare fra tu-/te le Piante. Cresce questa a non ordinaria altezza/ e perche folte e grandi sono le sue foglie, fa molta/ ombra. Dalla sommita de’ suoi rami, lascia cadere a/ poco a poco certe bacchette a uso di corde, e queste per-/pendicolari, le qualli auanti di ariuare a terra, e alla al-/tezza di dodici Palmi, e sai più o meno, buttano altri ra-/mi li qualli poi si uano moltiplicando sino a profondar-/si nel piano, e ne auiene, che nella parte di basso del/ tronco formano un laberinto de radici le qualli bastano/ a tenere per sospeso l’arbore quantunque aggitta o sia/ dalle acque di qualunque Rio doue nasce, e non è in/ ogni parte. Li fiori... [texto incompleto no original].//

A meu ver, esta é uma planta das mais/ estravagantes do Brasil, e não obstante ser sil-/vestre e de nenhuma utilidade, sempre é particular entre to-/das as plantas. Cresce até altura não ordinária/ e como suas folhas são densas e grandes, fazem muita/ sombra. Do ápice de seus ramos, deixa cair/ pouco a pouco certas varetas como cordas, e estas per-/pendiculares, as quais antes de chegar à terra, e na al-/tura de doze palmos, mais ou menos, produzem outros ra-/mos os quais se vão multiplicando até aprofundar-/se no plano, e sucede que na parte de baixo do/ tronco formam um labirinto de raízes, as quais/ bastam para manter suspensa a árvore por mais agitada que/ seja pelas águas de qualquer rio onde nasça, e não existe em/ qualquer parte. As flores.... [texto incompleto no original].//

P. 103

P. 103 [105] Giuttaì

[105] Jutaí

Il legno di questa arbore, è de primiera altezza, e/ grossezza, e oltre a questo, è

O lenho desta árvore é de primeira altura e/ grossura, e além disto, serve para

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atto ad ogni lauoro di/ molta durata. Di più è degno da farne memoria pr/ la abbondante sua goma, la quale nasce sotto serra, e/ fra le radici in pezzi grossi, e sottili, e tragono sem-/pre con sè una certa crosta di terra, la quale poi si/ tira picandola col coltello. La detta goma, é dura/ e de varij gradi di collori, cioè chiara come il uetro,/ o pure, oppaca; altra è gialla, ma anch’essa, come/ la prima, e io ne ebbi un pezzo lungo sei pollegate/ e grosso come una mano chiusa, ma tanto giallo, e/ risplendente, che non lo inuidiaua alla più fina/ ambra, e questa si lauora, e si tornia ancora e uidi/ una lente di quatro polici, ma poi non faceua l’effetto,/ che fà il uetro. Questa cinque anni adietro ad al/ro non seruiua, che a inueruicare alcuni piatti, mà/ al presente si ricerca per mandarla a Lisbona, e//

qualquer obra de/ muita duração. Além disto, é digno de memória pela/ sua abundante resina, que nasce quando se serra, e/ entre as raízes em pedaços grossos e finos, e trazem sem-/pre consigo uma certa crosta de terra, a qual se/ tira picando-a com um facão. A dita resina é dura/ e de vários graus de cor, isto é, clara como o vidro,/ ou então opaca; outra é amarela, mas esta também, como/ a primeira, e eu tive um pedaço longo de seis polegadas/ e grosso como uma mão fechada, mas tão amarelo,/ e resplandescente, que fazia inveja ao mais fino/ âmbar, e esta se trabalha, e ainda se torneia, e vi/ uma lente de quadro polegadas, mas não fazia o efeito/ que faz o vidro. Esta, faz cinco anos, para nada/ servia, se não para envernizar alguns pratos, mas/ atualmente se busca para enviar a Lisboa, e//

P. 104

P. 104

sento dire, che ne faciano molto uso. Sò che met-/tendola al fuoco con olio si liquefà, e cosi sola abru-/ggia come la cera. E certo è che ella è una delle/ belle gome, che possano uederssi sino al giorno pre-/sente. Li pratici di queste terre dicono che ridotta/ in poluere, é buona per i sbochi di sangue.//

ouço dizer que dela fazem muito uso. Sei que pon-/do-a ao fogo com óleo se liquefaz, e assim só quei-/ma como a cera. É certo que é uma das/ belas resinas que se podem ver até o dia pre-/sente. Os práticos destas terras dizem que reduzida/ a pó, é boa para os jorros de sangue.//

Cagiu [Cf. N. 1]

Caju [Cf. N. 1]

Hò scritto di questa pianta, má poi non mi/ ricordai di fare menzione della sua go-/ma, la quale è assai migliore di quelle di/ Europpa per inquadernare i libri, e per al-/tri simili cose, perche ariuati che

Já escrevi sobre esta planta, mas não me/ lembrei de fazer menção da sua re-/sina, a qual é muito melhor do que as da / Europa para encadernar os livros, e para ou-/tras coisas semelhantes, porque assim

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sieno i lib-/ri in questa parte, le tignuole, e la umidità li/ mandano in totale ruina, onde bisogna legarli/ un altra uolta, e con questa ottima goma du-/rano, e restano diffesi delle tignuole, e ciò posso/ dire anch’io, perche mi conuene fare lo stesso de’ miei/ libri.//

que chegam/ os livros a estas partes, as traças e a umidade/ reduzem-nos à total ruína, e daí é preciso encaderná-los/ uma outra vez, e com esta ótima resina du-/ ram e ficam defendidos das traças, e isto posso/ dizer também eu, porque me conviu fazer o mesmo com meus/ livros.//

P. 105

P. 105 [106] Vaniglia

[106] Baunilha

É un scipó grosso un deto incirca con/ le foglie lunghe e appuntate, ma grosse come qu-/elle della faua grossa, nel suo gambo non si incon-/trano le une con le altre, e sono distanti quasi me-/zo palmo. Il fiore non lo ò ueduto, ma bensi il fr-/utto, che sono cornachie quase simili alle nostre fa-/ ue, e crescono a mazzetti, cioè a cinque, e sei, o più/ o meno, e stano pendenti, per il suo gambo. Il piede/ si auitichia sopra li arbori, e per mezo di barbichi/ ne sta attacato alla scorza. Quando le faue sono/ gialle, si tirano, e si pendono a filli, che si tirano den-/tro in casa. Dipoi ogni giorno si uano delicatamente ti-/rando a quella guisa, che da una Vaca, si tira il late,/ e questo per leuarli un certo amido amaro che a poco/ a poco trasmettono, quando poi sono del tutto seche, le/ assettano in alcuna cassettina, o barillino, e a piano per/ piano le spoluerizano di zucaro, e cosi si lasciano sino//

É um cipó com cerca de um dedo de grossura com/ as folhas longas e pontudas, mas grandes como as/ da fava grande, no seu ramo não se encon-/tram umas com as outras, e estão distantes quase me-/io palmo. A flor não a vi, mas sim o fruto,/ que são favas quase semelhantes às nossas fa-/vas, e crescem em massos, isto é, a cinco ou seis, ou mais,/ ou menos, e estão pendentes de seu ramo. O pé/ se engavinha sobre as árvores, e por meio de radicelas/ está preso à casca. Quando as favas estão/ amarelas são retiradas, dependuradas em fios estendidos den-/tro de casa. Depois, a cada dia se vão delicadamente/ mungindo, do modo com que das vacas se tira leite,/ e isto para tirarlhes um certo amido amargo que pouco/ a pouco produzem; quando estão de todo secas,/ assentam-nas numa caixinha, ou barrilzinho, e pouco/ a pouco se as polvilha com açúcar, e assim se deixam até//

P. 106

P. 106

a tanto, che se ne uuole fare uso. Le dette faue al /di dentro tengono una massa

que se queira fazer uso. As ditas favas, por/ dentro, têm uma massa consistente e

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consistente, e mellata, mà è/ piena di un numero grandissimo di sementi non più grosse/ di un grano di poluere da spingarda fina, e tutto è del/ colore del tabaco. Ne gustai alcune, mà si conosce che/ non furono create ad altro che per acrescere il gusto/ alla ciocolata con quel suo gratissimo odore. Questo/ frutto tanto stimato qui non si coltiua, mà si ritroua/ acaso nelle Selue, come io stesso in più luoghi lo hò/ ueduto e questa è la raggione per la quale pochissi/ma se ne estraccia, e al presente, quasi si à perduto la/ memoria di essa.//

melada, mas que está/ cheia de um grandíssimo número de sementes não maiores/ do que um grão de pólvora fina de espingarda, e o todo é da/ cor do tabaco. Experimentei algumas, mas sabe-se que/ foram criadas apenas para aumentar o gosto/ do chocolate com aquele seu gratíssimo odor. Este/ fruto tão estimado aqui não se cultiva, mas acha-se/ por acaso nas selvas, como eu mesmo em vários lugares o/ vi, e é esta a razão pela qual pouquís/simo se extrai, e, no presente, quase se perdeu a/ sua memória.//

[107] Murapenim

[107] Muirapinima

É quel legno assai fino, che noi Euro-/pei chiamiamo Gattiado, e del qualle/ poco ne è portato in Italia, oltre ad/ essere finissimo, tiene certe machie negre//

É aquela madeira bastante fina, que nós Euro-/peus chamamos gateado, e do qual/ pouco se levou para a Itália; além de/ ser finíssima, tem certas manchas negras//

P. 107

P. 107

che in alcuna parte sono assai minute, e in al-/tre larghe, ma non è cosi per tutto, perche qu-/anto più si alza uà perdendo le machie, mà però/ resta sempre fino, mà quello non lo curano, e lasciano/ marcirlo. Li arbori di questo legno non sono molto grossi,/ e il maggiore che uidi era della grossezza di una testa/ di uomo, e di questo, ne tengo un pezzo.//

que em algumas partes são bastante diminutas, e em ou-/tras grandes, mas não é assim no todo, porque/ quanto mais se alça vai perdendo as manchas, mas/ sempre fica fina, mas não cuidam dela, e deixamna/ apodrecer. As árvores desta madeira não são muito grandes,/ e a maior que vi tinha a grossura da cabeça/ de um homem, e desta tenho um pedaço.//

[108] Pau Ferro

[108] Pau-ferro

Durissimo è questo legno, e fà rompere molte manaie/ e perciò non à molto uso, perche stanca ancora le/ mani dalli artefici. La

É duríssima esta madeira, e faz romper muitos machados/ e por isso não tem muito uso, porque cansa ainda as/ mãos dos

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sua scorza è sottilissima/ molto liscia, e colore sbianchiciato. Si chiama ancora/ mullatto, perche il suo negro è molto inferiore all’/ebano, ma non nel lustro. È poi particolare per/ alcune parti doue stà uicino alla scorza, perchè/ è machiato di giallo, mà che molto non profonda, e/ si ponno fare cornici, casse da tabaco, e altre gal-/ lanterie.//

artífices. Sua casca é finíssima,/ muito lisa, e de cor esbranquiçada. Chama-se ainda/ mulato, porque seu negro é muito inferior ao/ do ébano, mas não no brilho. É ainda particular por/ algumas partes que estão vizinhas à casca, porque/ é manchado de amarelo, porém que não se aprofunda muito,/ e podem-se fazer cornijas, bocetas de tabaco, e outros mi-/mos.//

P. 108

P. 108

lanterie. Una di questo legno la tengo assai cara, perchè/ sò, che in ogni tempo, e in ogni parte sarà rara.//

lanterias [sic]. Tenho um deste lenho muito caro, porque/ sei que a qualquer tempo e em qualquer lugar será raro.//

[109] Quacingùa [sic]

[109] Guaxinguba [sic]

Quest’arbore spande molto i grossi suoi/ rami. É siluestre, e non ui si conosce ua-/ lore alcuno. Però è particolare nelle sue/ radici che per più parti serpeggiano fuori/ di terra, nel loro principio sono grosse come/ una Piopa delle nostre, ma ordinarie, e io/ caminai sopra di una di questi radici ses-/ santa sei passi.//

Esta árvore expande muito seus grandes/ ramos. É silvestre, e não se lhe conhece va/lor algum. Mas é particular por suas/ raízes, que por muitas partes serpenteiam fora/ da terra, e em seu começo são grossas como/ uma raiz dos nossos choupos, mas ordinárias, e eu/ caminhei sobre uma destas raízes ses-/senta e seis passos.//

[110] Quaxinga [?] [sic]

[110] Guaxinga [sic; i. e., guaxinguba]

Sono due arbori cosi chiamati, l’uno/ cresce assai grande, e a nulla serue. Dal’/altro che poco cresce, ne picano la scorza//

São duas árvores assim chamadas, uma/ cresce muito grande, e para nada serve. Da/ outra que pouco cresce, picam a casca//

P. 109

P. 109

ne racogliono quel latte, e lo dano in picola/ proporcione per uccidere i uermi, e dicono/ che fa maggior effetto della triaca, mà/se

e recolhem um leite, e dão-no em pequena/ proporção para matar os vermes, e dizem/ que faz maior efeito que a triaga, mas/ se

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si dasse fuori di misura farebbe uuomitare/ lo interiore.//

se der além da medida, faria vomitar/ as tripas.//

[111] Appui [+ Massarandubba, Gianauua]

[111] Apuí [+ Maçaranduba, e Janaúba]

É questi un curiosissimo Scipò il quale/ si congiunge cosi fortemente, e si strana-/mente con li arbori, che li sono uicini, che/ non si può dare una uera idea se non col/ disegno, mentre tanto si inalza, che confonde/ le sue foglie con li altre, onde paiono/ due arbori insertati in uno. Da questo sci-/pò si tira un late, che aplicato alle rottu-/re dell’ossa, o sia alla parte offesa an-/cora da alcuna percossa, le consolida mi-/ rabilmente. Si ensciupa il cottone nel//

É este um curiosíssimo cipó, que/se junta tão fortemente, e tão estranha-/mente com as árvores que lhe estão vizinhas, que/ não se pode dar uma idéia verdadeira se não com/o desenho, e tanto se alça, que confunde/ suas folhas com as outras, e daí parecem/ duas árvores inseridas em uma. Deste ci-/ pó extrai-se um leite, que aplicado nas fra/turas ósseas, ou seja, na parte ofendida ou ain-/da em alguma batida, consolida-a ad-/ miravelmente. Embebe-se um algodão no//

P. 110

P. 110

medesimo latti, si mette sopra la parte offesa,/ ui si lascia stare sino che cade il cottone e/ questo rimedio è aprouato da ogni medico/ che qui assiste. Il latte di Massarandubba/ tiene la medesima proprieta, e quello/ di un altra Pianta detta Gianauua, fà/ uenire a soporazione le posteme esteriori/ con prestezza.//

mesmo leite, mete-se sobre a parte ofendida,/ e ali se deixa ficar até que caia o algodão, e/ este remédio é aprovado por todos os médicos/ que aqui trabalham. O leite da Maçaranduba/ tem a mesma propriedade, e o/ de uma outra planta chamada Janaúba faz/ vir à supuração os apostemas exteriores/ com presteza.//

[112] Gingias

[112] Ginja

Non è arbore che molto creschi, è spinoso, e le/ sue foglie sono assai minute, e li fiori picolini./ Sono bianchi, mà sparssi di colore di rosa. Li frutti/ sono similissimi a’ nostri lazarioli, come lo sono ancora/ nelle sementi. Nel gusto però sono diuersi, alorche/ questi ancora non sono gustosi per essere con acido/

Não é árvore que cresça muito, é espinhosa, e as/ suas folhas são assaz diminutas, e as flores pequeninas./ São brancas, mas esparzidas de cor de rosa. Os frutos/ são semelhantíssimos às nossas acerolas, como também são/ nas sementes. No gosto, porém, são diferentes, pois/ estes não são gostosos por

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più aspro de’ nostri. L’arbore è però bello con li/ fiori, e ancora con le frutte delle qualli fano dolci.//

ter uma acidez/ mais áspera que as nossas. A árvore é porém bela com as/ flores, e ainda com os frutos, dos quais fazem doces.//

P. 111 [sic] [A página de no. 111 do MS de Landi está fora de ordem e é na realidade a página 115, q. v.]

P. 111 [sic] [A página de no. 111 do MS de Landi está fora de ordem e é na realidade a página 115, q. v.]

P. 112 [sic] [A página de no. 112 do MS de Landi está fora de ordem e é na realidade a página 116, q. v.]

P. 112 [sic] [A página de no. 112 do MS de Landi está fora de ordem e é na realidade a página 116, q. v.]

P. 113

P. 113 [113] Fichi

[113] Figos

Questa é l’unica Pianta di Arbore, che qui dà/ frutti di Europpa, e quello che é stimabile, dà tutto/ l’Anno, e quelli che si tirano dall’arbore dal Mese/ di Giugno sino a Ottobre sono assai dolci, quelli poi/ che si mangiano di Genaro, e Febraro sono insipidi qu-/ando in questa staggione abbondano le acque. Egli é/ pero uero, che non uengono tanto grossi come li nostri,/ e pochissimi ne ho ueduto de’ bianchi, mà questo è/ per la poca curiosità di costoro, che non si diletano/ di coltiuare le frutta, e di queste Piante ne ò già/ trenta, quando li altri si gloriano per ancore due.//

Esta é a única planta das árvores que aqui dá/ frutos da Europa, e o que melhor, dá todo/ o ano, e os que tiram das árvores no mês/ de junho, até outubro, são assaz doces, os que depois/ se comem, de janeiro a fevereiro, são insípidos, pois/ nesta estação abundam as águas. É/ verdade porém, que não crescem tão grandes como os nossos,/ e vi pouquísssimos dos brancos, mas isto é/ pela pouca curiosidade das pessoas, que não se deleitam/ em cultivar as frutas, e destas plantas já tenho/ trinta, enquanto que os outros se gloriam por ter duas.//

[114] Parera, osia Vite [+ moscatello]

[114] Parreira, ou seja, Videira [+ moscatel]

Io sono di opinione, che qui si potrebbero mangiare/ uua quanto in altri luoghi perche

Sou da opinião que aqui poder-se-iam comer/ uvas como em quaisquer outros

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dano tre uolte/ all’Anno, mà pochissimi sono che si diletino di//

lugares porque dão três vezes/ ao ano, mas pouquíssimos são os que se deleitam em//

P. 116 [sic; 114]

P. 116 [sic; 114]

piantarle, opure ne piantavano sei, o otto piedi, e ciò/ li basta. Li Padri della Mercede sono quelli , che sino/ ad’ora ne abbiano coltivate in Maragios, e non ostante/ che di queste ne facciano molti presenti e alle Persone/ anche più illustri, a mè ancora come Persona che più/ oltre li à seruito, mi è tocato un canestro assai basta-/nte per gustarla a mio piacere. Dico poi que l’Vua/ non è da uguagliarssi alle pregiadissime di Lisbona,/ ma sono tollerabili, e migliori sarebbero ancora se si/ procurasse terra, che abraciase questa generosa pianta./ Di più non la lasciono matturare bene perche uengo-/no perseguite da passeri, delle formiche, e altri inse-/tti, e per questo restano uerdi, e sono priue di quel/ bel”ollore, che inuita noi Europei a mangiarle. Di più/ pochi sono che sappiano pottarle, perchè in questa reg-/gione, non bisogna lasciarli molte cattene, e ò notato,/ che in ogni luogo doue tengono nodi, buttano fuori certe/ radici, che da noi non si uedono, e questo è per tutte/ le cattene sparsse sopra de’ [...]. Il moscatello, si//

plantá-las, ou então plantavam seis, ou oito pés, e isto/ lhes basta. Os Padres Mercedários são os que até/ agora as cultivaram em Marajó, e não obstante/ delas fazerem muitos presentes, e para as pessoas/ ainda mais ilustres, a mim, como pessoa que mais/ que qualquer outra os serviu, tocoume um canastro suficiente-/mente grande para degustá-las a meu bel-prazer. Digo que as/ uvas não se igualam às apreciadíssimas de Lisboa, /mas são toleráveis, e seriam melhores ainda se se/ obtivesse terra que favorecesse esta generosa planta./ Além disto, não as deixam amadurecer bem, porque são/ atacadas pelas aves, pelas formigas, e outros inse-/ tos, e por isto ficam verdes, e privadas daquele/ odor que a nós, Europeus, nos convida a comê-las. E/ poucos são ainda os que sabem podá-las, porque nesta re-/gião não se podem deixar-lhes muitas cadeias, e notei/ que em cada lugar onde têm nós, emitem certas/ raízes, que entre nós não se vêm, e isto por causa de/ todas as cadeias esparsas sobre os [?]. A moscatel//

P. 111 [sic; 115]

P. 111 [sic, 115]

é qui mangiato, ma degenera poi, e non è altro che/ uua. Li ceppi delle Vitti crescono grossi come da noi./ In quanto alli altri frutti di Europpa non si uedono, e/ credo, che sia per il poco gusto di questa gente, mentre/ in

é aqui comida, mas depois degenera, e nada é se não/ uva. Os cepos das videiras crescem tão grandes como entre nós./ Quanto aos outros frutos da Europa, não se vêm, e/ creio que seja pelo pouco gosto desta gente,

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1771 piantai quatro castagne datemi da un Capi-/tano di un Navio, e nacquero due, una pianta delle/ qualli tengo io, e già alta cinque Palmi, e si aureb-/bero altre se si usase diligenza a procurare li mezi/ per piantarli, mentre qui abbiamo una stagione del/ tutto diuersa da quella della nostra terra. Solamente/ dubito di quelle Piante, che abbisognano di molto freddo.//

pois/ em 1771 plantei quatro castanheiras que me deu um Capi-/tão de um navio, e nasceram duas, uma das quais/ plantas tenho eu, já alta de cinco palmos, e ter-se/iam outras se se usasse diligência em buscar os meios/ de plantá-las, pois aqui temos uma estação/ totalmente diferente da nossa terra. Somente/ duvido daquelas plantas que necessitam de muito frio.//

[115] [Erbaggi; sem subtítulo no original]

[115] [Hortaliças; sem subtítulo no original]

Li erbaggi di Europpa, che qui dano al presente, so-/no la Cicoria bianca, e trinciata, e l’altra in Cespi, che/ noi chiamiamo Indiuia, e l’altra cicoria, che noi chia-/miamo radechij, le Tomate, i Pomi d’oro, li Coui ap-/perti, e alcuni ancora col cappucio, o siano chiusi. Da-/no ancora li brocoli, ma con pochissimi fiori, e li/ altri chiamati brocoli Gemani [?], dano le foglie, e non il fiore.//

As hortaliças da Europa, que aqui dão no presente, /são a chicória branca, e a trinchada, e a outra em céspedes, que/ nós chamamos endívia, e uma outra chicória, que nós cha-/mamos ‘radechi’, os tomates, as couves aber-/tas, e outras ainda com capuz [repolho], ou seja, fechadas. Dão/ ainda os brócolos, mas com pouquíssimas flores, e os/ outros chamados brócolos [?] dão as folhas, mas não as flores.//

P. 112 [sic; 116]

P. 112 [sic; 116]

dano ancora li Cardi, ma non di quella grandezza che/ dano nelle nostre parti, e potrebbe essere che seminandoli/ in Marzo dassero migliore. E io fui che mandai a lasciare/ la semente, e niuno sapeua chè qui dassero. Il peterzemo-/lo dà bene, come anche il rosmarino, mà questo a dir uero/ resta picolo, e non ò ueduto che dà fiori. Le cipolle, e/ li agli se dano è solo per schiribicio, mà assai picolini/ qui però ui à una cipola chiamata della terra che non/ cresce più di una grossa noce, mà è buona e forte./ La

Dão ainda os cardos, mas não do tamanho que/ dão nas nossas partes, e pode ser que semeando-os/ em março dessem melhor. Fui eu que mandei deixar-lhes/ as sementes, e ninguém sabia que dessem aqui. A salsa/ dá bem, como também o alecrim, mas este, a dizer a verdade,/ fica pequeno, e não o vi dando flor. As cebolas e/ os alhos, se dão, é só por capricho, mas muito pequeninos./ Aqui porém existe uma cebola chamada da terra, que não/ cresce mais do que uma grande noz, mas que é boa e forte./ A hortelã

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ortollana, e la mustarda dano come la gramigna,/ e non sò come di questa ultima se ne porti da Lisbona/ quando qui si potria mandare con quantità in quelle/ parti. La latuca, che noi chiamiamo porcuollana, e l’erba/ di San Gaetano, che da noi sirue per ornamento de’ giardi-/ni con il nome di Caranzzi, sono qui tanto abbondanti,/ che cuoprono lungo tratto di terreno, e di queste se ne seruo-/no per lauare la biancheria. Li faggiuoli dano bene, mà/ non già di tutte le sorti. Le aruiglie dano erba, e alcu-/na baca, o sia cornachia, mà sono rare. Le faue, le//

e a mostarda dão como a grama,/ e não sei como esta última tem que ser trazida de Lisboa/ quando daqui se poderia enviar em quantidade para aquelas/ partes. A alface, que nós chamamos “porcuollana”, e a erva/de-são-caetano, que entre nós serve para ornamento dos jar-/dins com o nome de “caranza”, são aqui tão abundantes,/ que cobrem grandes porções de terreno, e destas servem-se/ para lavar a roupa. Os feijões dão bem, mas/ nem de todos os tipos. As ervilhas dão folhagem, e algu-/mas bagas, ou seja, vagens, mas são raras. As favas,//

P. 117

P. 117

seminai in più tempi, e solamente diedero li fiori. Del/ frumento feci l’istesso, diede molta erba, e non uidi/ le spiche, e questo deriuerà forse del clima sempre/ uguale nel calore. Però quando fui mandato a certo/ descimento de Indij dodici giorni sopra Mariuuà ariuai/ a certo luogo assai freddo, e di falta nebbia coperto,/ onde in quelle terre dourebbe dare perche sappiamo,/ che questa pianta ama il freddo a suo tempo. Ui/ sono qui altre piante di fiori Europei che fano lo stes-/so, come la uiola, e li garoffani, li quali crescono, mà/ inganano, perchè non dano fiore. Mà per ora basta, e/ torniamo ad alcune Piante, che ci siammo scordate di/ mettere a suo luogo, e giunte alle altre.//

semeei-as várias vezes, e somente deram as flores. Com/ o trigo fiz o mesmo, deu muita folhagem, mas não vi/ as espigas, e isto decorre talvez do clima sempre/ igual no calor. Mas quando fui mandado a uma certa/ descida de Índios doze dias acima de Mariuá cheguei/ a certo lugar assaz frio, e coberto de densa neblina,/ e onde nessas terras deveria dar, porque sabemos/ que esta planta ama o frio a seu tempo. Existem/ aqui outras plantas de flores européias que fazem o mes-/mo, como a violeta, e os cravos, os quais crescem, mas/ enganam, porque não dão flor. Mas basta por ora, e/ volvamos a algumas plantas, das quais nos esquecemos/ de pôr no lugar, junto às outras.//

[116] Sponggiettas

[116] Esponjeira

Questi sono quei fiori, che noi teniamo con tanto riguar-/do nei uasi per ornare

Estas são aquelas flores que nós temos com tanto cui-/dado nos vasos para ornar

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i nostri Giardini, e li chiamiamo/ Gagie. Qui sono arbori assai spinose, e grandi di minute//

nossos jardins, e chamamo-las /gagie. Aqui são árvores assaz espinhosas, grandes, de diminutas//

P. 118

P. 118

foglie assai bene ritagliate. Quando sono ripieni di fiori, fa-/no la loro bella comparsa, e pare incredibile, e strauagante,/ che un fiorellino tanto delicato per dare il suo seme,/ dia una faua più grossa di una di arviglie quando sono/ seche. L’odore di questi fiori, é acuto, e disagradabile./ La sudetta faua, quando è uerde, è rasinosa tanto, che/ con quella uidi incolare un piatto di maiolica. In/ Lisbona crescono assai queste Piante. Altri fiori in/ tutto simili alle Gaggie si uedono sparssi per questi Spi-/netti, e ancora più belli, perchè di colore Pauonazzo, e/ ogni fillettino tiene nella estremità una punta bianca.//

folhas muito bem retalhadas. Quando estão cheias de flores fa-/zem bela figura, e parece incrível, e estravagante,/ que uma florzinha tão delicada ao dar sua semente,/ dê uma fava maior que uma de ervilhas, quando estão/ secas. O odor destas flores é agudo e desagradável./ A sobredita fava, quando verde, é tão resinosa, que/ com esta vi colar um prato de louça esmaltada. Em/ Lisboa crescem muito estas plantas. Outras flores em/ tudo semelhantes à esponjeira vêm-se esparsas por estes/ espinheirais, e ainda mais belas, porque de cor violácea, e/ cada filetinho tem na extremidade uma ponta branca.//

[117] Mamone

[117] Mamão

Se fosse uiuo il Mattioli, o l’Aldrouandi, non sò in/ quale numero mettessero questa bella Pianta, se fra li/ arbori, o pure fra li arbusti, perchè uero è che cre-/sce alla altezza di trenta, e più Palmi, ma è poi/ tanto mole il suo Caude, che si taglia con un semp-/lice//

Se fossem vivos Mattioli ou Aldrovandi, não sei em/ que classe poriam esta bela planta, se entre as/ árvores, ou antes entre os arbustos, porque se é verdade que/ cresce à altura de trinta e mais palmos, é entretanto/ tão mole o seu caule, que se corta com um sim- ples//

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coltello. Le foglie sono delle più uaghe che abbia ueduto./ Il suo gambo è lungo cinque Palmi, e grosso come un/ deto picolo della mano, e il suo uerde è più chiaro della/

facão. As folhas são das mais estranhas que tenha visto./ Seu pedúnculo tem cinco palmos de comprido, e a grossura do/ dedo mínimo da mão, e seu verde é mais claro do que o

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foglia, la quale è diuisa in sete punte mà tanto bene/ frapate, che sono fuori dell’ordinario, e uengono a formare/ come una stella, che da ogni parte uiene a essere larga/ quatro Palmi. Li fiori crescono nella estremità fra li gam-/bi nascenti delle foglie, e allo intorno più basso restano/ li frutti molto giunti, e li uni alli altri si soprapongono, mà/ in roda della pianta, e dal primo Anno che dano li fru-/tti sino a quando muore, nepure un sol giorno resta senza/ frutti, e fiori, e questi sono grandi, e si potrebbero assomigli-/are a quelli delli aranzi, mà le sue foglie che sono/ e di colore [espaço em branco] sempre stano molto arriciate sotto alli/ fiori, si uedono in circolo li mamoncini non più grandi di/ una noce, sotto a quelli si uedono come una larangia,/ dipoi come un cedro, e li ultimi, che stano sotto a/ tutti sono li primi a matturarssi, e la causa di ques-/to ordine è, perchè ad ogni mese dano la sua porcione.//

da/ folha, a qual é dividida em sete pontas, mas tão bem/ recortadas, que são fora do comum, e chegam a formar/ como uma estrela, que de cada parte vem a ter quatro/ palmos de largura. As flores crescem na extremidade entre os/ pedúnculos que nascem das folhas, e ao redor mais embaixo/ ficam os frutos muito juntos, sobrepondo-se uns aos outros, mas/ em volta da planta, e desde o primeiro ano que dá frutos/ até quando morre, nem um só dia fica sem/ frutos e flores, e estes são grandes, e poderiam parecer/ com os das laranjas, mas suas folhas, que são/ de cor [espaço em branco] sempre estão muito eriçadas sob as/ flores, vêm-se em círculo os mamõezinhos não maiores do que/ uma noz, sob estes vêm-se como uma laranja,/ depois como um cedro, e os últimos, que estão sob/ todos, são os primeiros a amadurecer, e a causa des-/ ta ordem é porque a cada mês dão sua porção.//

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i detti frutti sono più, o meno grandi, e più belli li/ dano doue le terre sono buone, ma li maggiori tal uol-/ta sembrano melloni, e li più ordinarij come un cotto-/gno grande, auanti che ariuino alla loro matturità, so/no di color uerde rame, di poi si fano gialli. Nel /principio sono alquanto sottili, di poi si allargano/ con molta gracia, e sicome vengono cinque cana-/lletti come e’ melloni, e tutte se uniscono in parte/ riescono belli, e differenti da ogni altro fru-/tto. La sua pelle resta mole quantunque/ grossa più di un cartone e tiene adentro una/

Os ditos frutos são mais ou menos grandes, e mais /belos onde as terras são boas, mas os maiores às ve-/zes parecem melões, e os mais ordinários como um mar-/melo grande, antes que cheguem à sua maturidade são/ são de cor verde cobre, depois tornam-se amarelos. No/ princípio são um tanto esguios, mas depois se alargam/ com muita graça, e como surgem cinco cana-/lículos como nos melões, e todos se unem em parte/ tornam-se belos, e diferentes de qualquer outro fru-/to. Sua pele fica mole apesar de/ mais grossa que

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massa totalmente gialla, che si mangia con /il cuchiaro, e questa è dolce, e nulla nau/seante, anzi mangiandola, è freschissima,/ mà sicome sono abbondantissimi non si fà/ caso di queste belle frutta. Nel mezo ten-/ gono moltissime sementi negre, e rugose, le/ qualli masticandole picigano, e le dette so/no più piccole di un grano di pimenta di//

um cartão e tem dentro uma/ massa totalmente amarela, que se come com/ a colher, e é doce, e nada nau-/seante, ao contrário, comendo-se-a, é fresquíssima,/ mas como são abundantíssimas, não se faz/ caso destas belas frutas. No meio têm/ muitíssimas sementes negras e rugosas, as/ quais, mastingando-se, picam, e as ditas são/ menores do que um grão de pimenta da//

P. 121

P. 121

India, e ciò che ritrouo di particolare in questo/ frutto é che ogni uno stà chiuso dentro di un/ sachettino di una finissima pele, e tutti questi/ riceuono il loro nutrimento da un filettino che/ stà attacato a quella midola che stà al mezo quasi/ simile a quella de’ melloni. L’uso maggiore che à/ questo frutto, è di farne dolci, canditi, e siropati,/ quando sono uerdi. Abbondano molto di latte, e perciò/ auanti di mangiarli si picano al diffuori, si la-/uano, e si mangiano.//

Índia, e o que acho de particular neste/ fruto é que cada um está fechado dentro de um/ saquinho de uma finissima pele, e todos eles/ recebem seu alimento de um filetinho que/ está preso àquela medula que está no meio quase/ semelhante àquela dos melões. O maior uso que tem/ este fruto é para fazer doces, confeitos e compotas,/ quando estão verdes. Abundam muito de leite, e porisso/ antes de comê-los picam-se por fora, la-/vam-se e comem-se.//

P. 122

P. 122 De’ Passeri

P. 123

Das Aves P. 123

[118] Tuccano

[118] Tucano

Il corpo di questo Passero é grande quanto un be-/ca finngo [sic], má é gallante, le pene sono negre. Li pie-/di partecipano di bianco, e turchino. La testa é tutta/ la sua bellezza, perche nella metà di quella nasce il/ bico incuruato assai largo, e lungo un

O corpo desta ave é tão grande quanto o de um/ papa-figo, mas é galante, as penas como negras. Os pés/ participam do branco e do azul-turquesa. A cabeça é toda/ sua beleza, porque em seu meio nasce o/ bico curvo bastante largo, comprido de um palmo, /e

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Palmo, che altre-/tanto non sará lungo il Passero; alcuni lo àno incar-/nato con striscie negre allo intorno fatte come un/ spaghetto di seta, alcuni lo áno negro con alcune stris/cie gialle, e altri lo tengono bianco con striscie negre./ E pare che questo Passero non dovette uollare con/ tanta velocità per la sproporcione di quel gran-/dioso bico. La sua lingua é torta, e lunga, má da ogni/ parte é fatta a sega come lo é ancora il bico nella/ parte che si congiunge, e a dir uero la sudetta lingua/ per essere sottilissima pare piu tosto una cartilagine/ sotto al collo tiene un papo di pene finissime, con/ due giri di altre pene collorite, le qualli si tirano//

outro tanto terá a ave; alguns têm-no encar/nado com faixas negras em torno feitas como um/ barbante de seda, alguns têm-no negro com algumas fai-/xas amarelas, e outros têm-no branco com faixas negras./ Parece que esta ave não deve voar com/ tanta velocidade pela desproporção daquele gran/dioso bico. Sua língua é torta, e comprida, mas em todas as/ partes é feita como uma serra, como é ainda o bico na/ parte que se une, e em verdade a dita língua,/ por ser delgadíssima, mais parece uma cartilagem./ Sob o pescoço tem um papo de penas finíssimas, com/ duas voltas de outras penas coloridas, que se tiram//

P. 124

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per mandarle a Lisbona dove sono ricercate/ per fare ornamenti da Donne come a dire/ Pallatine, fiori e altri similli ornamenti. Questo/ Passaro si adomestica facilmente e uà a salti. Qu-/ando poi stá fermo guarda uoltando sempre la testa/ ora a destra e ora a sinistra, e mangia di tutto/ mà ingollendo, e dicono che digerisse tutto con faci-/lità e alcuni lo mangiano, mà à poca carne, e non è/ come delli altri animali, mà negra.//

para enviar a Lisboa, onde são procuradas/ para fazer ornatos para mulheres, como sejam/ [?], flores e outros ornamentos semelhantes. Esta/ ave domestica-se facilmente a anda aos pulinhos./ Quando fica parada, olha virando sempre a cabeça/ ora à direita, e ora à esquerda, e come de tudo,/ mas engulindo, e dizem que digere tudo com faci-/lidade e alguns a comem, mas tem pouca carne, e não é/ como a dos outros animais, mas negra.//

[119] Pauone

[119] Pavão [Pavãozinho-do-pará]

Non sò perche diano tal nome a questo/ Passero da che nulla hà di similitudine con/ il Pauone. È Passero grande come un po-/ llastro, à il collo lungo con testa picola, mà ga-/lante. Le sue penne sono scure tanto bene salpi-/cate di bianco, che di più non

Não sei por que dão tal nome a esta/ ave que nada tem de semelhante com/ o pavão. É uma ave do tamanho de um /frango, tem o pescoço comprido com cabeça pequena, mas ga-/lante. Suas penas são escuras, e tão bem salpi-/cadas de branco, que nunca

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si farebbero belle/ da un Pittore. Non si mangia, e serue per bellezza./ Il suo cibo é di pigliare moschini pr aria.//

seriam feitas mais belas/ por um pintor. Não se come, e serve só pela beleza./ Sua comida é pegar mosquitos pelo ar.//

P. 125

P. 125 [120] Pica Flore

[120] Beija-flor

Questo Passero è cosi chiamato perchè come frenetico si/ ragira sempre intorno ai fiori per estrarre da’ medesimi/ il nutrimento in quella guisa che fano le ingegnose Api./ Non è questi maggiore di una borboletta da Seta, mà il/ suo bico è sproporcionato perchè è più lungo che non è il cor-/po, e stà riuolto alla terra. Di penna è uariabile, perchè/ alcuni sembrano di oro, alcuni le ano dello stesso co-/lore dello smeraldo, e altri color di rosso, e sono gallantis-/simi, mà con molta difficoltà si ponno adomesticare/ per non auere con che nutrirli. Io poi non hò ueduto nas-/cere alcuno, mà mi dicono per cosa certa, che deriuano/ da una borboleta, e certo Canonico Giuseppe do Bras, mi/ assicurò che del roverscio di una foglia grande aueua/ ueduto il suo nascimento, e sù di questo mi rimetto alla/ storia. Solamente dico, che fra li Passeri, questo è/ senza dubio il più picolo, e che in Europpa questo è/ molto agradito da ogni genere di Perssone.//

Esta ave é assim chamada porque como frenética/ gira sempre em torno às flores, para extrair das mesmas/ seu nutrimento da maneira que fazem as engenhosas abelhas./ Não é maior que uma mariposa da seda, mas o/ seu bico é desproporcional porque é mais longo que o/ corpo, e está virado para a terra. É variável nas suas penas, pois/ alguns parecem de ouro, alguns têm-nas da mesma cor/ da esmeralda, e outros de cor vermelha, e são galantís-/ simos, mas só com muita dificuldade podemse domesticar/ por não se ter com que nutrilos. Além disto, nunca vi nas-/cer nenhum, mas dizem-me como coisa certa, que derivam/ de uma borboleta, e um certo cônego José de Braz,/ assegurou-me que por trás de uma folha grande havia/ visto seu nascimento, e nele baseio minha/ história. Só digo que, entre as aves, esta é/ sem dúvida a menor, e que na Europa é/ muito apreciada por todos os tipos de pessoas.//

P. 126

P. 126 [121] Tein Tein

[121] Tem-tem

Di due sorta ui à di questi Passeri, l’uno è quasi/ grande come un merlo, e di pene

Há duas espécies destas aves, uma quase tão/ grande quanto um melro, e de penas

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nere con li incontri/ delle alli gialli, e nel canto, se non supera l’Vsign-/uolo, lo eguaglia almeno. Il secondo è anche più picolo/ del gardellino [sic], le sue penne sono parimenti nere con/ le alli e parte della testa gialle, mà io certamente lo/ ritrouo del tutto nuouo a cantare, e sicome dalle ar-/moniose, e sue delicate uoci interrotte da più trilli,/ non lascia mai di fare il basso, ogni uno che lo senti-/sse cantare a occhij chiusi, direbbe che sono due.//

negras com os encontros/ das asas amarelos, e no canto, se não supera o rou-/xinol, pelo menos o iguala. A segunda é também menor/ que o pintassilgo, suas penas são igualmente negras com/ as asas e parte da cabeça amarelas, mas eu certamente/ achoo totalmente original no cantar, e como entre suas har-/moniosas e delicadas vozes interrompidas por muitos trilados/ nunca deixa de cantar como baixo, todos os que o ouvem/ cantar com olhos fechados diriam que são dois.//

[122] Passeri detti dello Spirito Santo

[122] Aves ditas do Espírito Santo

Questi sono di molte sorta, e cosi si chiamano per-/chè si lasciano uedere in tale tempo, non già per mira-/colo, mà perchè circa a questi tempi ritrouano il loro/ allimento in certe fruttine di arbori, che non le dano//

Estas são de muitas espécies, e assim se chamam por-/que deixam-se ver nesse tempo, não já por mila-/gre, mas porque nessas épocas encontram seu/ alimento em certas frutinhas de árvores, que não dão//

P. 127

P. 127

tutto l’Anno. In quanto alla sua belezza, più si do-/ueria credere uedendoli, che descriuendoli. Quelli che/ io uidi un giorno che andai a caciarli furono li pre-/senti. Alcuni erano negri con le alle, e la coda bianche./ Altri erano negri, ma coperti tutti di pichie rottonde, e bi-/anche. Fra questi uno era di un belissimo azzuro salpi/cato con punte nere. Due ne presi tanto azzuri e ris-/plendenti come se tutto fosse stato una gema, e sotto/ al collo aueua alcune penne morelle. Altri erano/ uerdi com striscie pauonazze nella testa e nel petto, e/ altri del colore del carmino. Non

todo o ano. Enquanto à sua beleza, mais se cre-/ria vendo-as que descrevendo-as. As que/ vi um dia que fui caçar foram as se/guintes. Algumas eram negras, com as asas e a cauda brancas./ Outras eram negras, mas todas cobertas de salpicos/ redondos e brancos. Entre estas existia uma de um belíssimo/ azul salpicado com pontos negros. Capturei duas tão azuis e/ resplandescentes como se o todo fosse uma gema, e sob/ o pescoço tinham algumas penas murzelas. Outras /eram verdes com listras violáceas na cabeça e no peito/ e outras da cor do carmim. Não são todas

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sono tutti della medesi-/ma grandezza, mentre li maggiori sono come un tordo,/ e le più picoli come un cannarino. Mà certamente chi lo-/dasse Iddio per auere formato, o lasciato formare alla/ natura si bei Passeri, non lo lodarebbe inda uno, abben-/che non alletano con il suo canto. Ui sono poi altri/ picolli passeri del tutto negri con il bico bianco,/ li qualli solamente ò ueduto saltellare, mà non cantano,/ e di questi qui ne abbiamo molti.//

do mes-/mo tamanho, mas as maiores são como um tordo,/ e as menores como um canário. Mas certamente quem/ louvasse a Deus por havê-las formado, ou deixado/ que a natureza formasse tão belas aves, não o louvaria/ ainda suficientemente, se bem que não alegrem com seu canto./ Há ainda outras pequenas aves todas negras com o bico/ branco, que só vi saltitar, mas não cantam,/ e destas aqui temos muitas.//

P. 128

P. 128 [123] Cinganá

[123] Cigana

Detto Passero, è maggiore alcuna cosa di una galli-/na per auere poca carne, e quella non si mangia/ mà quando tiene le alli aperte, è largo sete palmi/ da punta a punta. Le penne sono del collore che é il/ tabaco, osia la cannella, e tutto è strisciato di bianco.//

A dita ave é alguma coisa maior que uma gali-/nha por ter pouca carne, e esta não se come/ mas quando tem as asas abertas, tem o tamanho de sete palmos/ de ponta a ponta. As penas são da cor que tem o/ tabaco, ou seja, canela, e tudo é listrado de branco.//

[124] Muttù

[124] Mutum [Mutum-pinima e mutum-cavalo]

Belissimo Passero è questo. La sua grandezza è/ come un Perù, che noi chiamiamo Tachino, il maschio/ è di penne nere quanto essere possono, dalla metà del/ collo le dette penne, sono come felpa, il bico è grosso, e/ giallo sopra. Alla testa tiene un ciuffo gallante di pene/ assai bene composte, e molto arriciate, le qualli si procu-/rano dalle donne per ornare il capo in uece di piume/ posticie; e certamente è bello, e gallante. la femina non/ tiene altra differenza, che le sue penne sono del colore//

Esta é uma belíssima ave. Seu tamanho é/ como o de um peru, que chamamos “tacchino”. O macho/ tem penas negras tanto quanto podem ser, na metade do/ pescoço as ditas penas são como felpa, o bico é grosso, e/ amarelo em cima. Na cabeça tem um tufo galante de penas/ muito bem compostas e muito frisadas, muito busca-/ das pelas senhoras para ornar sua cabeça em lugar de plumas/ postiças, e certamente é belo, e galante. A fêmea não/ tem outra diferença senão que suas penas têm a cor//

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P. 129

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di certo tabaco scuro, e salpicate di bianco. La sua/ carne non è tanto gustosa come quella del Perù, mà/ si puole mangiare da qualunque Perssona di bu-/on gusto. Vn altro Muttù si uede grande co-/me li altri, e non differisce in altro, che di auere/ in luogo del ciuffo una cartillagine, che si estende/ una pollegada per la testa e al disopra termina/ acuta, e è del collore che è l’oro fosco, mà non/ apare cosi bello, e superbo quanto il già descritto./ Questi Passeri tutti si addomesticano come le/ galline, e mangiano di tutto.//

de um certo tabaco escuro, e salpicadas de branco. Sua/ carne não é tão gostosa como a do peru, mas/ pode ser comida por qualquer pessoa de bom/ gosto. Um outro mutum pode ser visto, tão grande/ como os outros, e não difere em outra coisa, senão em ter/ em lugar do tufo uma cartilagem, que se estende por/ uma polegada sobre a cabeça que em cima/ termina aguda, e tem a cor de ouro fosco, mas não/ parece tão belo e soberbo quanto o já descrito./ Estas aves todas se domesticam como as/ galinhas, e comem de tudo.//

[125] Garza

[125] Garça

Questo Passero è come una cicogna, cioè po-/co corpo, cattiua carne, e tutto collo con bico/ lungo. Il suo cibo è Pesce, e perciò ama di sta-/re sù le sponde di qualche Rio, le sue penne/ sono del più perfetto bianco, che immaginare/ si possa, onde fra bei Passeri, si può agregare.//

Esta ave é como uma cegonha, isto é, pou/co corpo, carne ruim, e toda pescoço com bico/ longo. Seu alimento é peixe, e por isso gosta de/ ficar nas margens de algum rio, suas penas/ são do mais perfeito branco que se possa/ imaginar, de onde se pode incluir entre as aves belas.//

P. 130

P. 130 [126] Maguari

[126] Maguari

Detto Pasero è grande. Le sue penne sono cenericie/ e più chiare sono quelle del petto, con le qualli si fa-/rebbero belle manizze, bei fiori, e gallantirie simili. Qu-/esto Passero à il collo assai lungo, e quando à tese le/ alli, è largo otto palmi. Nel mezo della testa, tiene/ un bel ciuffo di penne, e assai rileuato. Il

A dita ave é grande. Suas penas são cinzentas/ e mais claras são as do peito, com as quais far-se-/iam belos abafos, belas flores, e semelhantes/ mimos. Es-/ta ave tem o pescoço muito longo, e quando tem estendidas/ as asas, tem o comprimento de oito palmos. No meio da cabeça/ tem um belo tufo de penas e bastante alteado. O

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bico nel/ suo principio è molto grosso, e duro, di lunghezza à un/ palmo, e credo, che auendo egli forza, può dare morte/ ad un Pesce. La sua carne non è buona, e ne tiene ta-/nto poca, che tocandolo, quasi non si sente. Si adomestica/ come tanti altri Passeri, e dura in Casa, se uicino a qu-/ella, ui à qualche fiume, perchè si ciba di Pesce.//

bico, no seu/ princípio, é muito grosso e duro, com o comprimento de um/ palmo, e creio que tendo ele força, possa dar a morte/ a um peixe. Sua carne não é boa, e tem tão/ pouca, que tocando-se-o, quase não se a sente. Domestica-se/ como muitas outras aves, e dura em casa, se/ vizinho a esta existe algum rio, porque se alimenta de peixe.//

[127] Marecas [sic]

[127] Marrecas

È una specie di Pattos, o sieno Anitre, mà più gracio-/se, perchè assai bene machiate di bianco, negro.//

É uma espécie de patos, ou [em ital.] “anitre”, mas mais/ graciosas, porque muito bem manchadas de branco e negro.//

P. 131

P. 131

di queste se ne ritrouano di due sorta. Cioè le une più/ grandi di una Anitra, e le altre grandi per la metà, e/ queste sono le più gallanti. La sua carne è ottima, e può/ apparire in qualunque pranzo. Più uolte si uedono queste/ passare de una Isola all’altra, e uano a branchi di molte/ centinaia.//

Destas acham-se duas espécies. Isto é, uma/ maior que um pato, e as outras com a metade do tamanho, e/ estas são as mais galantes. A sua carne é ótima, e pode/ comparecer em qualquer refeição. Muitas vezes vêem-se estas/ aves de uma ilha a outra, e andam em bandos de muitas/ centenas.//

[128] Vnacuaù [?]

[128] Unacuaú

È Passaro da rapina, e quasi simile al Barbaggiani./ Li suoi occhij sono grandi e rottondi, mà alli intorno mol-/to incauati. Sopra alla testa tiene anch’esso un ciuffo/ di penne strette, e il bico assai riuoltato allo inggiù. Le/ sue penne sono bianche, e machiate con bell’ordine, e di/ colore pardo. Li piedi sono grossi con lunghi artigli. Qua-/ndo si fà sentire non disgusta

É ave de rapina, quase semelhante à corujabranca./ Seus olhos são grandes e redondos, mas ao redor mui-/encavados. Sobre a cabeça tem ele também um tufo/ de penas estreitas, e o bico é muito voltado para baixo./ Suas penas são brancas e manchadas com bela ordem, e/ de cor parda. Os pés são grandes com longos artelhos./ Quando se faz ouvir não desagrada com seu

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con il suo canto. Dicono che/ la sua carne è buona, e che serue da contrauelleno. Mà a/ dire il uero poco credo a questa gente piena di oppinio-/oni [sic], e sfornita di conoscimento, e di ualide esperienze.//

canto. Dizem que/ sua carne é boa, e que serve como contraveneno. Mas, para/ dizer a verdade, não creio nessa gente cheia de opiniões/ e privada de conhecimentos e de válidas experiências.//

P. 132

P. 132 [129] Cujubin

[129] Cujubim

È Passero grande come un Faggiano, con collo lungo,/e la testa uiperina. Le pene sono di color pardo, e tutti/ nel mezo del capo tengono una linea di penne bianche, e/sotto alla golla due brizi del colore del zaferanno, che li/ cadono al basso. La sua carne è buonissima per imban-/dire qualunqe mensa.//

É ave do tamanho de um faisão, com pescoço longo/ e cabeça viperina. As penas têm cor parda, e todas/ no meio da cebeça têm uma linha de penas brancas, e/ sob a garganta duas barbelas cor de açafrão, que ficam/ pendentes. Sua carne é bonísima para ser posta/ em qualquer mesa.//

[130] Nambù

[130] Nhambu

Di questi ne à due sorta, l’uno è picolo co-/ me una pernice, l’altro è grande come una gal-/lina. Tutti due sono stimati perchè ottimi per man-/giare. La sua carne è bianca, e tenera, e tutta consis-/te nel petto, che à assai rileuato, e rottondo. Più uolte/ ne ò assagiato questa carne, e la ritrouo alcun poco/ asciuta, mà lardata che sia, può compettere con il/ nostro Faggiano. É animale, che si adomestica nelle Case.//

Destes há duas espécies, uma é pequena co/mo uma perdiz, a outra é grande como uma ga-/linha. Todas as duas são estimadas porque ótimas para co-/mer. A sua carne é branca, e tenra, e consiste toda/ em peito, que é bastante alçado e redondo. Muitas/ vezes experimentei esta carne, e acho-a um pouco/ seca, mas uma vez lardeada, pode competir com/ nosso faisão. É animal que se domestica nas casas.//

P. 133

P. 133 [131] Saracura

[131] Saracura

Assai bello è questo Passero, grande come un Colombo/ e le penne di uarij colori cioè la schiena e le alli quasi/ del colore della

Muito bela é esta ave, do tamanho de um pombo/ e as penas de várias cores, isto é, as costas e as asas quase/ da cor da canela,

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canella, tanto chiaro quanto scuro, il/ collo sino alla golla è parte di color cinzento, e parte/ argentino. Li piedi sono incarnati, li ochij anch’essi talli,/ e allo intorno àno un giro azuro, e il bico uerdicio, onde/ fra Passeri fa una bella comparsa. Nelle Case si addo-/mestica facilmente, e domestico che sia pare che non/ sapia uollare. Intorno al gusto della sua carne non/ ò sentito dire che sia stimabile. Dipiù è particolare nel/ suo idioma perchè ripette quatro uolte una cantillena/ in un tuono, e la ripete altre tante in altro più alto/ e questo è particularmente sul fin del giorno.//

tanto clara como escura, o/ pescoço até a garganta é parte de cor cinzenta e parte/ argêntea. Os pés são encarnados, os olhos também esses assim,/ e ao redor têm um círculo azul, e o bico esverdeado, tal/ que entre as aves tem bela presença. Nas casas do-/mestica-se facilmente, e uma vez domesticada parece que não/ sabe voar. Quanto ao gosto da sua carne não/ ouvi dizer que seja estimada. Além disso é particular em/ sua línguagem porque repete quatro vezes uma cantilena/ em um tom, e repete-a outras tantas em outro mais alto/ e isto particularmente no fim do dia.//

[132] Annaunà

[132] Anu-una

È un Passero negro con coda più lunga del usato//

É um pássaro negro com cauda mais longa que o usual//

P. 134

P. 134

e bico incuruato, è grande come un merlo, ma/ non si mangia perchè la sua carne rende forte/ odore come quella del Coruo; il suo istinto è di/ accompagnare li Buoui quando pascono, e più uol-/te ò ueduto li detti Passeri tocarli il grugno, qua-/ndo mouendosi, uano pascendo.//

e bico curvo, do tamanho de um melro, mas/ não se come porque sua carne exala um forte/ odor como a do corvo. Seu instinto é de/ acompanhar os bois quando pastam, e muitas ve-/zes vi os ditos pássaros tocar-lhes o focinho, quan-/do, movendo-se, vão pastando.//

[133]Ciapin

[133] Japiim

Mi pare di auere letto alcuna cosa nelle istorie di/ questo Passero, e quello è che forma il suo nido nelli/ arbori, e questo è una borssa lunga un palmo e mezo, la/ quale stà pendente da un ramo in modo che il Vento non/ può con la sua forza leuarli, perchè

Parece-me haver lido alguma coisa nas histórias/ sobre este pássaro; é aquele que forma seu ninho nas/ árvores, e este é uma bolsa do tamanho de palmo e meio, a/ qual está pendente de um ramo de modo que o vento não/ pode, com sua força, levá-lo, porque

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cedono al medesimo/ per ogni parte che uenga. Le dette borse sono assai bene/ construite, e non sò come le possino tessere cosi intricate,/ e sembrano fatte di cauechia, e la sua entrata è sem-/pre fatta da quella parte, che meno è esposta alle in-/giurie de’ tempi. Il Passero è grande come lo è da noi//

cedem ao mesmo/ por todas as partes que venha. As ditas bolsas são muito bem/ construídas, e não sei como podem tecê-las tão intrincadas,/ e parecem feitas de cavacos, e a sua entrada é sem-/pre feita na parte menos exposta às in-/tempéries dos tempos. O pássaro tem o tamanho da nossa//

P. 135

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la Gazza. Le penne sono negre, li incontri delle alle,/ e la coda sono come un bellissimo giallo, e di queste/ si mandano al Regno per fare fiori, il bico del mede-/ simo è bianco, onde cosi essendo posso dire che è bello/ e felice, perchè non è perseguitato da Caciatori perchè/ la sua Carne, puzza. Uano a branchi, e in quella arbore/ doue fano le borse, se ne contano alle uolte sopra cinqu-/anta, non cantano, ma pare che siano inclinati a parlare.//

pega. As penas são negras, os encontros das asas/ e a cauda são de como um belíssimo amarelo, e estas/ são enviadas ao reino para fazer flores; o bico do mes-/ mo é branco, e por assim ser posso dizer que é belo/ e feliz, porque não é perseguido por caçadores porque/ sua carne fede. Ficam em bandos, e na árvore/ onde fazem as bolsas, contam-se às vezes mais de cin-/ quenta; não cantam, mas parece que são inclinados a falar.//

[134] Guarà

[134] Guará

Il Guarà è Passero forse non più uisto/ che in queste parti. Cresce quanto una/ becacia, e a questa è simile il suo bico. Stà/ un Anno incirca con le penne bianche, di/poi le trasmuta in parde mesclate con/ altre negre. E in due Anni transforma le/ sue pene nel colore del carmino, e allora, è/ assai bello da uedersi. Aleuato da picolino//

O guará é uma ave que talvez não seja vista/ senão nestas partes. Cresce tanto quanto uma/ narceja, e é semelhante a esta no bico. Fica/ quase um ano com as penas brancas, de-/pois transmuda-as a pardas mescladas com/ outras negras e em dois anos transforma as/ suas penas na cor de carmim, e então é/ muito bela de ver-se. Criada de pequenina,//

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si fa domestico, mà si è osseruato che quelli/ che si alleuano nelle Case non

torna-se doméstica, mas observou-se que as/ que se criam nas casas não conseguem

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riescono/ di collore cotanto focoso quanto quelli che/ si cibano di pesce, e soggiornano uicino al/ Mare, uollendo molti, che quelle acque salse/ li contribuiscono a formare quel belissimo, e/ focosissimo colore. Di questo passero, si tirano/ le pelli intiere per mandarle a Lisbona, per/ ridurle in fiori.//

ter/ uma cor tão fogosa quanto a dos que/ se alimentam de peixe e vivem vizinhos do/ mar, querendo muitos que aquelas águas salgadas/ contribuam para formar-lhe aquela belíssima e/ fogosíssima cor. Desta ave se retiram/ as peles inteiras para mandá-las a Lisboa, para/ reduzi-las a flores.//

[135] Cugliarera

[135] Colhereiro

Ancor questo Passero, è della medesima/ grandezza del Guarà. Il suo bico sarebbe/ lo stesso in lunghezza, mà in luogo di boca/ tiene una grossa cartillaggine, che forma/ una rodella, che lo rende in uero curioso. Le/ sue penne sono del collore chiamato rosa/ pallida, e anch’esse si ciba di Pesce.//

Também esta ave é do mesmo/ tamanho do guará. Seu bico tem/ o mesmo comprimento, mas em lugar de boca/ tem uma grande cartilagem, que forma/ uma rodela, que o torna verdadeiramente curioso. As/ suas penas são da cor chamada rosa/ pálida, e esse também se alimenta de peixe.//

P. 137

P. 137 [136] Giachamin

[136] Jacamim

Curioso è questo Passero. Di corpo è gra/nde come un capone, mà è più rottondo./ Le sue penne sono perfettamente negre, mà/ frapate come quelle dello struzzo, quelle/ poi del collo, e della testa sono tante fine,/ che sembra un uelluto. Li piedi sono più/ tosto alvi, e quando stà fermo, o che dorme,/ sempre riponsa sopra di uno. Non canta/ mà lascia uscire una certa uoce seguita,/ che dura un minuto incirca, e quella si sen-/te nel uentro di detto animale. Costuma di/ dormire in alto, sopra di un legno, e nel coperto/ delle case. È molto domestico,

É curiosa esta ave, que de corpo tem o ta-/manho de um capão, mas mais redondo./ Suas penas são perfeitamente negras, mas/ franjadas como as do avestruz, e as/ do pescoço e da cabeça são tão finas,/ que parece um veludo. Os pés são quase/ brancos, e quando está parado, ou quando dorme,/ sempre repousa sobre um só. Não canta,/ mas deixa sair uma certa voz seguida,/ que dura cerca de um minuto, e esta ou-/vese de dentro do ventre do dito animal. Costuma/ dormir no alto, em um tronco, ou no telhado/ das casas. É muito

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si lascia toccare,/ e tiene dietro, o per meglio dire acompagna/ coloro, che li fano più caresse. Mà la curio-/sità di questa gente è tanto poca, che al presente/ non sò se uno se ne ritrouerà in Cibbo [?], e non dà [...].//

doméstico, deixa-se tocar,/ e vive atrás, ou melhor dito, acompanha/ aqueles que lhes fazem mais carícias. Mas a curio-/ sidade desta gente é tão pouca, que no presente/ não sei se se achará um em [?] e não dá [...].//

P. 138

P. 138 [137] Annacan

[137] Anacã

Da questo Passero al Pappagallo non ui à altra/ differenza se non le sue penne. Sono anch’es-/se verdi, ma nelle estremità tengono tutte un orlo/ di collore rosso scuro, e non parla. Quando poi se/ li accosta alcuno non conosciuto, o che mostra di/ uolerli dare, oricia tutte le pene del collo e della/ testa, e fà li occhij incarnati come se si uolesse uen-/dicare, o diffendere. Per altro è Passero domesti-/co, e chi si tiene per bellezza. Dicono che/ le sue penne abruggiate, sono buone per il male di/ ochij, e che perdendo egli questi per alcuna disgracia/ li torna a ricuperare, mà tal cosa non si uoleua da/ me credere quantunque detta da soggetto degno di/ stima, e assai noticioso delle cose di questa terra. Pu-/re fui disinganato, e mi si conceda di uscire fuori del/ mio camino, per racontare questo mio disingano con qu/uella//

Desta ave ao papagaio não existe outra/ diferença senão suas penas. São também es-/tas verdes, mas nas extremidades têm todas uma orla/ de cor vermelho escura, e não fala. Quando/ algum desconhecido se acerca dela, ou que demonstra/ querer bater-lhe, eriça todas as penas do pescoço e da/ cabeça e fica com os olhos encarnados, como se quisesse vin-/ garse, ou defender-se. De resto é uma ave domésti-/ca, que se mantém pela beleza. Dizem que/ suas penas queimadas servem para o mal dos/ olhos, e que perdendo-os por alguma desgraça/ torna a recuperá-los, mas nunca quis acreditar/ nisso, apesar de dito por pessoa digna de/ toda estima e muito conhecedora das coisas desta terra. Mas/ fui desengado, e que se me conceda desviar-me/ do caminho para contar esse meu desengano com/ aquela//

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uella sincerità, che deue essere adoprata da ogni scrittore/ benchè fiaco, come io lo sono. Uno di questi Passeri as-/sai domestico,

Aquela sinceridade que deve ser adotada por todo escritor/ apesar de fraco, como sou. Uma destas aves, bas-/tante

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mi fu donato, e in tempo che teneua, in mia/ casa un cuandù, o sia Porco Spino anch’esso adomestica-/to il qualle tentó di leuarli un pezzo di pacoua che sta-/ua mangiando onde il detto Annacan li diede un morsso./ Mà scuottendossi il Cuandù, li lanciò otto dalle sue/ spine, una delle qualli andò a piantarssi nella/ pupila di un ochio a segno che dentro pochi/ giorni si putrefece, e a poco a poco se li pre-/ meua fuori quella putredine bianca, e restò con/ diforme con una Caua, e perchè sentiua di/ questo mansso animale, andai a ritrouare quello, che/ aueua detto, che ricuperauono li ochij, e mi assicurò/ che il detto passero non sarebbe restato cosi; onde per/ finirlo, in termine di quaranta giorni si ritrouò l’/ochio intiero, e altro non aueua che una picola nube/ atrauerssata per la mettà del ochio. E se questa si/ dileguasse, non sò da che in quel tempo mi conuene//

doméstica, foi-me doada, e numa época em que tinha em minha/ casa um cuandu, ou seja, um porco-espinho, também do-/ mesticado, o qual tentou roubar-lhe um pedaço de pacova que/ estava comendo. Daí o dito anacã deu-lhe uma mordida./ Mas agitando-se o cuandu, lançou-lhe oito de seus/ espinhos, um dos quais foi plantarse na/ pupila de um olho, de maneira que dentro de poucos/ dias se putrefez, e pouco a pouco se lhe/ expremia fora aquela podridão branca, e ficou/ disforme com um buraco, e como tinha pena des-/te manso animal, fui procurar aquela pessoa, que/ tinha dito que recuperavam os olhos, e ela assegurou-me/ que a dita ave não ficaria assim, e daí, para/ terminar, no termo de quarenta dias achou-se o/ olho inteiro, e só tinha uma pequena nuvem/ atravessada na metade do olho, e se esta se/ desvaneceu não sei, porque nessa época tive que//

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partire per il Rio Negro con il nostro aman/tissimo e lodeuolissimo Plenipotenciaro che era lo/ Ecmo. Sig. Francisco Xavier Mendoça Furtado,/ [fratello] di quel Maestro di Politica, e di Scienza il/ Marchese di Pombal Sebastiano José de Carualho./ E quanto ò detto di questo Passero, è pura ue-/rità, e non sò si li Sig. Medici presterano fe-/de a ciò chi forsse li sembrerà impossibile.//

partir para o Rio Negro, com nosso aman-/ tísimo e louvadíssimo Plenitotenciário, que era o/ Exmo. Sr. Francisco Xavier Mendoça Furtado, /[irmão] daquele Mestre de Política e Ciência, o/ Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho./ E tudo o que disse desta ave é pura ver-/dade, e não sei se os srs. médicos prestarão fé/ naquilo que talvez lhes parecerá impossível.//

[138] Pappagalli

[138] Papagaios

Ancor di questi uoglio dire qualche cose da’/ che sono conosciuti in Europpa, mà però

Ainda destes quero dizer alguma coisa, dos/ que são conhecidos na Europa, mas

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non/ ho ueduto quelle tutti che qui si ritrouano./ Ogni Pappagallo è di una istessa specie, mà/ differiscono nelle pene, quantunque tutte siano/ uerdi. Alcuni pero sono differenti, perchè nella/ loro frente tengono alcuna penna incarnata/ che restano sempre pochissimo rileuate, altri//

não/ vi todos aqueles que aqui se acham./ Cada papagaio é de uma espécie própria, mas/ diferem nas penas, apesar de todos serem/ verdes. Alguns, porém, são diferentes, porque em/ sua fronte têm alguma pena encarnada,/ que ficam sempre pouquíssimo elevadas; outros//

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àno la testa gialla con li encontri delle alli/ colore di carmino e questi sono i più stimati./ Altri poi àno la testa, e le incontre delle alli/ con parte del uentre del’istesso collore dal de-/to carmino, mà sono rari perchè si ritrouano/ solamente in certo luogo dentro del Rio Soli-/mois doue non passano che acaso alcune di/ quelle Canoue che uano a negociare salssa o/ Cacao. Vno di questi lo ebbi in dono e perchè/ mi fù chiesto da un soggetto degno di ogni/ merito, glie lo diedi. Un altro poi comprai/ a Borba ancora per sei scudi, e mi fù neces-/sario adoprare il Vicario mio Amico perchè/ non fosse dato ad altro che aueua offerto/ più di me, ma oltre di essere bellissimo,/ parlaua distintamente, tanto la lingua Por/toghese quanto la Tapuia, e perchè assaissi/mo lo stimaua, ebbi la mala sorte di uederlo/ affogato nella Baÿa di Marapatà.//

têm a cabeça amarela com os encontros das asas/ cor de carmim, e estes são os mais estimados./ Outros ainda têm a cabeça e os encontros das asas/ com parte do ventre da mesma cor do di-/to carmim, mas são raros porque se encontram/ somente num certo lugar do Rio Soli-/mões onde não passam, senão por acaso, algumas/ das canoas que vão negociar salsaparrilha ou/ cacau. Um destes tive como presente e como/ me foi pedido por uma pessoa digna de todo/ mérito, dei-o para ela. Um outro comprei depois/ em Borba, ainda por seis escudos, e foi-me neces-/sário invocar o vigário meu amigo para que/ não fosse dado a outra para que tinha oferecido/ mais que eu; mas além de ser belíssimo,/ falava distintamente, tanto a língua por-/ tuguesa quanto a tapuia, e como muitíssi/mo o estimava, tive a má sorte de vê-lo/ afogado na Baía de Marapatá.//

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P. 142

[139] ARare [sic] [+ Mulleiro]

[139] Araras [+ Moleiro]

Sono Passeri anch’essi conosciuti nelle nostre/ parti, e se ritrouano di due sorta, cioè delle/

São aves também estas conhecidas em nossas/ partes, e encontram-se duas espécies, isto é,

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dipinte perchè àno le penne mischiate di colore/ del carmino, di giallo perfetto, e di rosicio,/ le altre sono tutte azure, con il Petto gialas-/tro. Questi passeri si adomesticano, mà biso-/gna tenerli alla cattena, perchè dandoli liber-/tà sono dannosi alle moldure, alle comode, e/ in fine a tutto quanto è di legno. Nel/ bico àno tutta la loro forza, e spezano sino/ una semente di Tucuma che è durissima, mà/ ciò che è da considerare non la possono/ spezare cosi nuda come la ritrouano, mà/ dandoli una piccola paglia glie la anoda-/no in certo modo, che subito la fano in pe-/zzi, e da che auenga questo, si potrebbe far-/se razon’ [?] da alcuna disertazione Filosofica.//

as/ pintadas porque têm as penas riscadas de cor/ de carmim, de um perfeito amarelo e de avermelhado,/ as outras são inteiramente azuis, com o peito amarela-/do. Estas aves se domesticam, mas é pre-/ciso tê-las acorrentadas, porque, dando-lhes liber-/dade, são danosas às molduras, às cômodas, e/ em fim a tudo quanto seja de madeira. No/ bico têm toda a sua força, e partem até/ uma semente de tucumã, que é duríssima, mas/ o que se deve considerar é que não a podem/ quebrar assim nua como a encontram, mas/ dando-se-lhes uma pequena palha atam-/na de certo modo que logo a fazem em pe-/daços, e sobre como isto acontecesse poder-se-ia/ fazer o assunto de alguma dissertação filosófica.//

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P. 143

àno la testa del tutto gialla e li incontri delle al-/li son di carmino; altri àno la medesima testa del detto/ collore di carmino con intorno, e lo incontro delle alli si-/mile, e sono li più belli, mà di questi se ne uedono pochi/ e per compagno uno mi comprai per sei scudi, ma par-/laua assai bene. Un’altro o uisto chiamato Mulleiro/ e è il più grande de tutti. Allo intorno delli occhij à/ un colore bianco, mà il uerde delle sue penne non/ è tanto uiuo come quello delli altri e non parla.//

Têm a cabeça totalmente amarela e o encontro das/ asas são de carmim; outras têm a mesma cabeça da/ dita cor de carmim com a volta e o encontro das asas se-/melhante, e são as mais belas, mas destas vêem-se poucas/ e como companhia comprei uma por seis escudos, mas fa-/lava muito bem. Vi uma outra chamada moleiro/ e é a maior de todas. Em volta dos olhos tem/ uma cor branca, mas o verde de suas penas não/ é tão vivo como o das outras e não fala.//

[140] Periquitos

[140] Periquitos

Di questi se ne trouano di moltissime sorta. Di/ [...] sono similissimi al Papagallo, li più comuni/ sono grandi come una delle nostre [...], mà sono/ tanto gallanti, che da ogni sorta di gente si dourebbero/ amàre. Alcuni

Destes acham-se muitíssimas espécies./ De [...] são semelhantíssimos ao papagaio, os mais comuns/ têm o tamanho de uma das nossas [...], mas são/tão galantes, que qualquer tipo de pessoa deve/ amá-los.

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àno la testa color di zafferano, al-/tri incarnata con assieme li incontri delli alli. Come/ li Papagalli quando uolano, si uedono a branchi di più//

Alguns têm a cabeça cor de açafrão, ou-/ tros encarnada como também o encontro das asas. Como/ os papagaios, quando voam vêem-se em bandos de muitas//

P. 144

P. 144

centinaia, e fano un cicalamento, che stordisce. Ui è un/ altra sorte di questi Passeri, al doppio maggiori, e so-/no differenti di penne, cioè negre, rosse, color di argento/ e di cannella, li quali tutti uniti lo fano apparire bello./ Vno di questi, mi fù donato, tutto affatto color di oro,/ con li occhij incarnati, e mai più si è ueduto il simi-/le má non uisse che pochi mesi.//

centenas, e fazem uma taramelagem que ensurdece. Há uma/ outra espécie destas aves, de dobro de tamanho, e/ diferentes nas penas, que são negras, vermelhas, cor de prata/ e de canela, as quais todas juntas fazem-na parecer bela./ Uma destas foi-me dada, completamente cor de ouro,/ com os olhos encarnados, e nunca mais se viu uma seme-/ lhante, mas não viveu senão poucos meses.//

[141] Colombi

[141] Pombas

Di questi ancora è abbondante la terra, mà non/ sono tanto grandi come li nostri. Li maggiori sono/ belli di penna. Li minori sono quasi tutti pardi./ Di più ui à un altra sorte non maggiori di un stor-/no, e tutti sono siluestri. Anzi pochi si curano di/ auerli per mangiare. Per altro sono assai buoni, e/ àno il medesimo gusto de’ nostri.//

Destas ainda é abundante a terra, mas não/ são tão grandes como as nossas. As maiores são/ belas de penas. As menores são quase todas pardas./ Há ainda uma outra espécie não maior que um estor-/ ninho, e todas são silvestres. Poucos cuidam/ de tê-las para comer. São ademais muito boas, e/ têm o mesmo gosto das nossas.//

[Aqui principia Landi a tratar dos mamíferos, sem intercalar um subcapítulo]

[Aqui principia Landi a tratar dos mamíferos, sem intercalar um subcapítulo] P. 145

P. 145 [142] Anta

[142] Anta

Una riceuei in dono e sopra di questa feci il seguen-/te esame non ostante che fosse

Recebi doação de uma e dela fiz o seguin-/ te exame, não obstante fosse do tamanho

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grande come una Capra./ La pelle era color di tabaco con striscie bianche per lun/go, e queste si perdono quando ella cresce in Anni. Aueua/ la testa grossollana con li occhij piccollini di collore azu-/ro, mà fosco. Il grugno era assai più lungo, e sottile di que-/lo di un Ceruo, e sempre lo dimana da una parte, o dall’/altra. Li denti sono similli a quelli del Cauallo, e le orechi/ sono larghi, e quasi rottonde. Li piede sono più tosto corti/ mà grossollani, e le unggie erano ripartite come quelle/ delle Capre, due sono triangolari, e una rottonda. La coda/ è corta, e senza crine, e corte sono quelli ancora del collo./ Quando è delle maggiori, sarà della mole di un Asino, mà/ assai più grossa. Queste abitano nelle selue, e quando/ passano, si fano sentire perchè rompono i rami delle pi-/ante per farsi luogo. Ne uide nuotare una che passaua/ il Rio Negro, e era delle maggiori. La sua carne molti//

de uma cabra./ A pele era de cor de tabaco, com faixas brancas de compri-/ do e estas se perdem quando ela cresce em anos. Tinha/ a cabeça grandota com olhos pequeninos de cor azul,/ mas fosco. O focinho era bastane mais longo e fino do que/ o de um cervo, e sempre o agita de um lado e do/ outro. Os dentes são semelhantes aos do cavalo, e as orelhas/ são grandes, e quase redondas. Os pés são bastante curtos/ mas grandotes, e as unhas são partidas como as/ das cabras, duas são triangulares e uma redonda. A cauda/ é curta e sem crina, e curtas são ainda aquelas do pescoço./ Quando é das maiores, tem o porte de um asno, mas/ muito mais gorda. Estas habitam a selva, e quando/ passam deixam-se ouvir, porque rompem os ramos das plan-/tas para fazer-se espaço. Vi nadar uma que passava/ o Rio Negro, e era das maiores. Sua carne muitos//

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la mangiano, mà è dura, indigesta, e d’un odore ingrato,/ e cosi la ritrouai io, assaggiandone in occasione, che mi/ sopragiunse la notte, doue presi alloggio.//

a comem, mas é dura, indigesta e de um odor desagradável,/e assim a achei, experimentandoa numa ocasião em que/ me sobreveio a noite onde fizera acampamento.//

[143] Tamandua

[143] Tamanduá [+ tamanduaí]

Questo quadrupede animale, è de’ più strauaganti che/ sia al Mondo. Il corpo di questo è maggiore di un gatto/ mà è mostruoso. Il collo è lungo e sproporcionato, la testa/ sottile e incuruata, e di tale forma, che a niuno animale/ sò paragonarla. Li

Este animal quadrúpede é dos mais estravagantes que/ exista no mundo. O corpo dele é maior que o de um gato/ mas é monstruoso. O pescoço é comprido e desproporcionado; a/ cabeça é curvada e de tal forma que não pode ser comparada/

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occhij sono picollini e tale è la sua/ sua boca tagliata nel grugno rottondo. Il pello é irssuto, ne-/gro, e mescolato di grisaglia. Allo intorno del lungo collo, tie-/ne una capigliatura composta di crine larghe,/ e non rottonde, mà lunghe mezo palmo, e ques-/ta caminando sopra il dorso si unisce alla coda/ che sembra per lo apunto quella fronte che forma/ un berrettone da granatiere, perchè composta tutta/ di spesissimi peli lunghi due polici, e con quelle//

com nenhum animal. Os olhos são pequeninos e tal é a sua/ boca, talhada no focinho redondo. O pelo é hirsuto, ne-/gro, e mesclado de grisalho. Ao redor do longo pescoço tem/ uma cabeleira composta de crinas largas,/ e não redondas, mas do comprimento de meio palmo, e es-/ta, continuando pelo dorso, unese com a cauda,/ que parece justamente aquela frente que forma/ um barrete de granadeiro, porque é toda composta/ de espessíssimos pelos de duas polegadas de comprimento, e com eles//

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si cuoprono quando dormono. Li piedi sono carnosi e/ serpentini, cioè fatti carnosi e senza gracia. Le sue armi/ per le qualli si diffende, sono le ungie lunghe più di un/ police, ridote, e assai acute, e quando la Tigre uole uci-/derlo, si uolge con il uentre allo insù, e abraciandola con/ tutta la forza, muore si, ma quelle però stano fisse nel-/la feroce bestia. Il suo cibo sono le formiche e più uolte/ lo ò ueduto mangiare quando uno di questi mi fù man/dato dal Exmo. Sig. Gouernatore perchè lo uedesi, e dise-/gnassi. Si stende in terra come morto, di poi cacia fuori/ quella stretta, e lunga lingua, e la tiene in terra senza/ muouerla, intanto si uà caricando di formiche, e quando/ è piena la tira dentro, e cosi si nutre. Nell’andare, è/ pigro, e sempre pare stolido, e il suo grido, è simile a que-/llo di un Bue doloso. Ui à un’altra sorte di questi/ mà tanto picolo, che senza coda non passa cinque, o sei/ pollegade. La

se cobrem quando dormem. Os pés são carnosos e/ serpentinos, isto é, feitos carnosos e sem graça. Suas armas,/ com as quais se defende, são as unhas, com mais de uma/ polegada, reduzidas e muito agudas, e quando a onça quer ma-/tá-lo, vira-se com o ventre para cima, e abraçando-a com/ toda a força, morre sim, mas aquelas porém fixas na/ feroz besta. Seu alimento são as formigas e muitas vezes/ vi-o comer quando um deles me foi man-/dado pelo Exmo. Sr. Governador para que o visse, e dese-/ nhasse. Estende-se por terra como morto, depois põe fora/ aquela estreita e longa língua, e deixa-a na terra sem/ movê-la, enquanto se vai enchendo de formigas, e quando/ está cheia põe-na dentro, e assim se nutre. No andar é/ preguiçoso, e sempre parece parvo, e seu grito é semelhante ao/ de um boi dolente. Há uma outra espécie destes,/ mas menor, que, sem a cauda, não passa de cinco ou seis/ polegadas. Sua

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


sua pelle è colore d’Isabella, o sia più tos/to biondo, il pelo é fisso mà delicato, e se di questi si/ uendessero, se ne farebbe stima come di altre meno belle.//

pele é de cor isabelina, ou seja, qua-/se loira, o pelo é firme mas delicado, e se se os/ vendessem, seriam estimados como outros que são menos belos.//

P. 148

P. 148 [144] Cuttia

[144] Cutia

Questo animale tiene alcuna apparenza con il coniglio,/ ma i pelli sono lunghi a uso di settole, e molto chiari, e/ di colore biondo scuro, o per dire meglio di colore di una/ castagna non del tutto mattura, e la testa, è simile a qu-/ella di un coniglio, mà è più lunga. Nel numero de’ denti/ ne à due curui, e molto più lunghi delli altri. Le zam-/pe sono alte più del solito delli altri animalli. Quando man-/gia stà come a sedere, bate molto li denti, e sostenta con/ le zampe anteriori ciò chi mangia, e con eso riesce molto/ gracioso, mà poi è timido, e ad ogni picolo motto fuge, e/ se nasconde, e per questo quantunque si adomestichi, sem-/pre fuge nelle selue, se ritroua la Porta aperta. L’istin-/to di questo animale è di cauare una buca doue puole,/ e dentro ui nasconde ciò che li auanza; lo cuopre e/ quando sente la fame, ua a dissotterare ciò, che à nas-/ costo. La sua pele non si perde perchè serue in queste/ terre a fare le scarpe.//

Este animal tem alguma semelhança com o coelho,/ mas os pêlos são longos, como setinhas, e muito claros, e/ de cor loira escura, ou melhor dizendo da cor de uma/ castanha não de todo madura, e a cabeça é semelhante à/ de um coelho, mas mais longa. No número de dentes/ tem dois curvos, e muito mais longos que os outros. As per-/nas são muito mais altas do que é comum nos outros animais. Quando/ come fica como sentado, bate muito os dentes, e segura com/ as pernas anteriores o que come, e com isto resulta muito/ gracioso, mas é tímido, e a cada pequeno movimento foge, e/ se esconde, e por isto, apesar de domesticar-se, sem-/pre foge para as selvas, se acha a porta aberta. O instin-/to deste animal é de cavar um buraco onde pode,/ e dentro esconde aquilo que alcança, cobre-o, e/ quando sente fome, vai desenterrar o que es-/condeu. Sua pele não se perde porque serve nestas/ terras para fazer sapatos.//

P. 149

P. 149 [145] Guariba

[145] Guariba

Sono una specie di Macachi, che noi chiamiamo/ Simie [sic], mà con lunga

São uma espécie de macacos, que nós chamamos/ símios, mas com longa cauda,

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coda, e molto disformi di facia./ La loro pelle è perfettamente negra con pelli assai/ folti, e lunghi, e ottime sarebbero per berrettoni da gon-/tieri, non essendo le dette pelli inferiori a quelle del/ Orsso. Costoro uniti, e particolarmente di notte fano una/ griteria che stordisse. Ne ò più uolte ueduto molte/ giunte, e bello è uederle sopra le frondi delli arbori salta-/re dal’uno all’altro senza tocare terra, e particolar-/ mente le femine con li suoi figliuoli abraciati. Di qu-/esta sorte si adomesticano, e sono ridicole.//

e muito disformes de cara./ Sua pele é perfeitamente negra com pelos muito/ densos e longos, e seriam ótimos para gorros de al-/feres, não sendo as ditas peles inferiores àquela do/ urso. Estes, unidos, e particularmente de noite, fazem uma/ gritaria que atordoa. Muitas vezes vi muitos/ juntos, e é belo vê-los sobre as copas das árvores sal-/tar de uma a outra sem tocar o chão, e particular-/mente as fêmeas com seus filhinhos abraçados. Esta/ espécie domestica-se, e são ridículos.//

[146] Macachi

[147] Macacos

Di queste se ne ritrouono di uarie specie, alcuni gr-/andi, altri mezani, e non pochi picolini. Li comuni sono/ scimie con coda, e di colore quasi negro. Altri sono più//

Destes acham-se várias espécies, algumas gran-/des, outras medianas, e não poucas pequeninas. Os comuns são/ símios com cauda e de cor quase negra. Outros são//

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picoli, mà più chiari, e con barba, altri sono ancor più/ picoli, ma di colore loiro, o sia biondo con la boca negra./ molti altri sono rottondi con pelle grisia, e la testa è/ simile a quella di un Negro, e questi sono gallanti, e/ pulliti. In fine ui à qui un altra sorte, ma sono pico-/lissimi, e del tutto negro, mà in ogni parte sono gallantissi-/mi, e adomesticati che sono, stano nelle spalle, e nel colo di/ un uomo, o di una donna, se uole sofrirli. Si portano a/ Lisbona doue sono stimati, e con raggione; mà subito muoiono,/ perchè sono delicatissimi.//

menores, mas mais claros, e com barba; outros são ainda/ menores, mas de cor loira, ou seja [em italiano], ‘biondo’, com a boca negra/ muitos outros são redondos, com pele cinza, e a cabeça é/ semelhante à de um negro, e estes são galantes, e/ limpos. Enfim há aqui uma outra espécie, mas são peque-/níssimos e inteiramente negros, mas em todas as partes são galantíssimos, e,/ uma vez domesticados, ficam nos ombros e no/ pescoço de/ um homem, ou de uma mulher, se se quiser suportá-los. Le-/vam-se a Lisboa, onde são estimados, e com razão, mas morrem logo/ porque são delicadíssimos.//

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[147] Coàtti

[147] Quati

È un animale, che tiene molta simillianza con la/ Fuina, senon chi tiene il grugno più lungo. La coda/ è assai lunga e felpuda con circoli molto bene for-/mati, a uso di annelli l’uno negro, e l’altro giallastro./ È animale seluatico, mà però si adomestica./

É um animal que tem muita semelhança com a/ fuinha, apesar de ter o focinho mais longo. A cauda/ é muito longa e felpuda, com círculos mui bem for-/mados, à moda de anéis, um negro e o outro amarelado./ É animal silvestre, mas se domestica.//

P. 151

P. 151

[148] Cuandù

[148] Cuandu

È un Porco spino con lunga coda anch’essa spinosa,/ e quando questi è offesso, si uendica, lanciando con un/ scuottimento alcune spine con le qualli ferisse chi lo/ offende, e questo uidi in un Anacàn, che staua mang-/iando Pacoua, e udendo egli leuargliela, il detto A-/nacàn li diede di bico, e egli li uibrò otto spini con/ uno de’ qualli li leuò un ochio. Questo animale noi an-/cora lo abbiamo, e le chiamiamo Rizzo di Porcellino, ma/mi pare che sia senza coda.//

É um porco-espinho com longa cauda, também ela espinhosa,/ e quando este se ofende, vingase, lançando com uma/ sacudidela alguns espinhos com os quais fere quem o/ ofende, e isto vi com um anacã, que estava co-/mendo pacova, e ouvindo-o levá-la, o dito a-/nacã bicouo, e ele lhe vibrou oito espinhos com/ um dos quais levou-lhe um olho. Este animal temo-/lo ainda, e chamamo-lo ‘arroz de porquinho’, mas/ parece-me que está sem cauda.//

[149] Capiuuara

[149] Capivara

Vno di questi animali, mi fù dato in dono, e non essen-/do de’ maggiori, era come un Cane ordinario. La testa è/ goffa, e li occhij sono foschi, osia torbidi, li pelli sono irsuti/ e il colore è come quello della Volpe, e ancor più chiaro./ Questo animale è molto nociuo alla mandioca, a’ faggiuoli,//

Um destes animais foi-me dado de presente, e não sen-/do dos maiores, era como um cão ordinário. A cabeça é/ pesada, e os olhos são foscos, ou seja, turvos. Os pêlos são hirsutos/ e a cor como a da raposa, e ainda mais claro./ Este animal é muito nocivo à mandioca, aos feijões,//

P. 152

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alla Canna, e in fine a tutto quanto si pianta, perchè tu-/tto rode, e particolarmente in

à cana, e enfim a tudo quanto se planta, porque tu-/do rói, e particularmente em

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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Maragios tanto abbondano/ che uano a numerose truppe, e non ostante che li abi-/ tanti di quella grandissima Isola, ne facciano stragge/ caciandoli, con tutto questo non possono distrugerli./ La sua carne si mangia, mà dalli miserabili lauoratori/ per essere dura e de ingrato odore. Quando grita, pare/ più tosto un Passero, che un Quadrupede.//

Marajó abundam tanto/ que andam em numerosas tropas, e não obstante os habi/tantes daquela grandíssima Ilha fazerem matanças/ caçando-os, com tudo isto não os podem destruir./ Sua carne come-se, mas só pelos miseráveis trabalhadores,/ por ser dura e de desagradável odor. Quando grita, parece/ mais uma ave que um quadrúpede.//

[150] Mucura – ou [sic] Sariguèia

[150] Mucura ou Sarigüéia

Non è bello da uedersi questo animale, che non è mag-/giore di un Gatto, ma le testa è simile a quella di/ un lupo, e porta due denti fuori delle labra, il pelo/ è scuro, la coda è lunga, e scarmigliata. Il suo ufficio/ è di rubare le galline, e per questo di souente si trouano/ nascoste sotto ad alcuno legno. La femina tiene nel uentre/ una diuisione, nella qualle tiene nascosti li suoi figli, e co/perti, la qual cosa, non si uede in altro animale, che questo.//

Não é belo de ver-se este animal, que não é maior/ que um gato, mas a cabeça é semelhante à de/ um lobo, e traz dois dentes fora dos lábios, o pêlo/ é escuro, a cauda longa e arrufada. Seu ofício/ é roubar galinhas, e por isto freqüentemente se acham/ escondidos sob algum tronco. As fêmeas têm no ventre/ uma divisão, na qual têm escondidos os seus filhos, e co-/ bertos, coisa que não se vê em outro animal, senão neste.//

P. 153

P. 153 [151] Tattù

[151] Tatu

Questo animale siluestro lo esaminai a mio commodo,/ e di grandezza era come un grosso gatto, abbenchè mi dis-/sero, che altri erano al doppio maggiore. La sua testa/ è galante, e a uederla mi ricordai quella del Cauallo, se/ non che li occhij erano piccolini, e foschi. Le orechie le/ portano sempre drite, e appuntate. La lingua era gra-/nde fuor del commune. La schiena era cinta con una/ dura cartillagine composta di noue pezzi, li

Este animal silvestre examinei-o a meu belprazer,/ e de tamanho era como um grande gato, se bem que me dis-/seram que outros eram duplamente maiores. Sua cabeça/ é galante, e ao vê-la recordei-me da do cavalo, se/ bem que os olhos eram pequeninos e foscos. As orelhas/ trazem-nas sempre em pé, e pontudas. A língua era gran-/de, fora do comum. As costas eram cintadas com uma/ dura cartilagem composta de novas peças, as

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


qualli ter-/ minauano nel suo uentre riuolti nelle punte allo insù./ E sembraua per lo apunto che auesse una sella da Caua-/llo, e tutti quei pezzi si moueuano ugualmente quando l’/animale facesse qualunqe motto, e allo intorno di quei/ pezzi, o sia nelle giunture delli medesimi aueua alcuni/ lunghi peli, fini, e rari, e il collore di quei detti pezzi/ erano machiati di scuro e biancastro come il rospo. La/ coda era ueramente artificiosa, perchè formata di qu-/indice annelli della medesima specie già detta, o con//

quais ter-/minavam em seu ventre, elevadas nas pontas em baixo./ E parecia juntamente que tivesse uma sela de cava-/lo, e todos esses pedaços se moviam igualmente quando o/ animal fazia qualquer movimento, e ao redor destes/ pedaços, ou seja, nas juntas dos mesmos, havia alguns/ longos pêlos, finos e raros, e a cor desses ditos pedaços/ era manchada de escuro e esbranquiçado como o sapo. A/ cauda era verdadeiramente artificiosa, formada de quin-/ze anéis da mesma espécie já dita, ou com//

P. 154

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li stessi peli, e era lunga un palmo. Le zampe/ non erano sproporcionate, quelle d’auanti aueuano quatro/ detta, e cinque le posteriori, e tanto questa quanto il ca-/ po appariuano negre, e del tutto sagrinate; e sicome era/ femina aueua quatro mamelle, due erano in diritura delle/ due zampe, e le altri due poco distanti. Questo animale/ sta sempre nascosto in buchi che egli stesso si fà, e corre/ uelocissimamente. Dicono che la carne è di ottimo gusto.//

os mesmos pêlos, e o comprimento de um palmo. As/ pernas não eram desproporcionais, as da frente tinham quatro/ dedos, e cinco as posteriores, e tanto esta quanto a ca-/beça pareciam negras, e inteiramente chagrinadas, e como era/ fêmea, tinha quatro mamas, duas em direção às/ duas pernas, e as outras duas pouco distantes. Este animal/ fica sempre escondido em buracos que ele mesmo faz, e corre/ velocíssimamente. Dizem que a carne é de ótimo sabor.//

[152] Pacha

[152] Paca

È questo animale maggiore di un gatto, e anch’esso/ stà nascosto in coue, la sua pele è quasi del colo-/re, che è il Tabaco, mà è strisciata a lungo di bianco,/ e sarebbe anch’essa seruibile perchè non è di peli/ irsutti. Qui è riputata la miglior carne fra li qu-/ adrupedi, e non si inganano, perchè oltre ad essere/ bianca, e tenera, è gustosissima, e lo sarebbe ancora,/ tra noi Europei.//

Este animal é maior que um gato, e também ele/ se esconde em covas. Sua pele é quase da cor/ que tem o tabaco, mas é listrada ao comprido de branco/ e também ela seria útil porque não tem pêlos/ hirsutos. Aqui é reputada a melhor carne entre os/ quadrúpedes, e não se enganam, porque além de ser/ branca e tenra é gostosíssima, e seria mesmo/ para nós europeus.//

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P. 155

P. 155 [153] Veado

[153] Veado

Questo animale non è che un Capricorno [sic], e non/ à Corna. Di questi animali ui à abbondanza, e si mangia/ la sua carne, che non è delle ordinarie. La sua pele/ serue per uarij lauori. Li Viadi di Maragios si pono/ tenere per cerui come lo sono [...] delle loro [...]/ si conosce. Di più ui ne à una sorte che tengono le/ dete corna picoline, e due mi furono mostrate, che non era-/no più alte di un Palmo, e ripiene di rami.//

Este animal não é senão um capréolo e não/ tem cornos. Destes animais há muita abundância, e come-se/ sua carne, que não é das ordinárias. Sua pele/ serve para vários lavores. Os veados de Marajó podem/ ser tidos por cervos, como são [...] de sua [...]/ se conhece. Além disso há uma espécie que tem/ os ditos cornos pequeninos, e mostraramme dois que não ti-/nham altura de mais de um palmo, e cheios de galhadas.//

[154] Porcos – Taitetù

[154] Porcos - Taitetu [+porco doméstico]

la sua carne è ottima quantunque sieno sil-/uestri, non sono molto grandi, li suoi peli sono negri/ con le punte bianche, e nulla di più. Li Porci do-/mestici crescono quanto in Europpa, mà il clima/ non permete, che si faciano salami, Presciuti, e sal-/ciza perchè non durano, ancorchè salati, molto tempo.//

A sua carne é otima, apesar de serem sil/vestres, mas são muito grandes, os seus pêlos são negros/ com as pontas brancas, e nada mais. Os porcos do-/mésticos crescem tanto como na Europa, mas o clima/ não permite que se façam salames, presuntos e sal-/chichas porque não duram, apesar de salgados, por muito tempo.//

P. 156

P. 156 [155] Onza, osia Tigre [machiate, rosse e negre]

[155] Onça, ou seja, Tigre [pintada, preta + suçuarana]

Questi fieri animali abbondano, e se ne ritrouano/ in tutte queste selue, e sono tanto pettulanti, che si/ uengono sino alle Porte delle Chinte a leuarsi li/ Cani de’ qualli sono faminti, mà con tutto questo fugono/ li uomini, e in certi Anni che qui stò, non ò sentito/ pericolare nisuno; anzi le caciano, e

Estes feros animais abundam, e acham-se/ em todas estas selvas, e são tão petulantes, que/ chegam até as portas das quintas para levar os/ cães, de que são famintos, mas com tudo isto fogem/ dos homens, e durante os anos que aqui estou, nunca ouvi/ alguém perigar; pelo contrário, caçam-na, e muitos/

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


molte ne uado-/no per uenderne le pelli che si mandano a Lisbona. Di/ queste Tigri, ue ne à di tre sorta, cioè delle machiate/ come le Africane, delle rosse, che sono più insolenti/ delle prime, e delle negre, che sono le più temute, e/ nela pele ano le machie delli stessi collori, e per dis-/tinguerle bene, bisogna uederli da uicino, o in proffilo./ Io ne ò ueduto una non molto lungi da mè, mà quando/ la auistai fugì, e l’Indio che staua con mè si auan-/zò con la spingarda, mà subito la perdì di uista./ Un’altra grande uidi morta, e in quanto a me mi/ parue il più bello animale del Mondo.//

vão vender as peles, que se mandam a Lisboa. Des-/tes tigres há três espécies, isto é, as manchadas/ como as africanas, as vermelhas, que são mais insolentes/ que as primeiras, e as negras, que são as mais temidas, e/ na pele têm manchas das mesmas cores, e para dis-/tingui-las bem, é preciso vê-las de perto, ou de perfil./ Vi uma destas não muito longe de mim, mas quando/ a avistei, fugiu, e o índio que estava comigo avan-/çou com a espingarda, mas de repente a perdi de vista./ Vi uma outra grande morta; e para mim pa-/receu-me o mais belo animal do mundo.//

P. 157

P. 157 [156] Maracagià

[156] Maracajá

È un’altra sorte di Onza in tutto simile alle prime/ e alle altre ancora, auendone io uiste diuerse adomes-/ticate. E non mi passa altra differenza senon che ques-/te non crescono più di un gatto, e non ostante che si/ facciano domestiche, se uedono galline, ne dano fine.//

É uma outra espécie de onça, em tudo semelhante às primeiras/ e ainda às outras, tendo eu visto diversas domes-/ticadas. E não me ocorre outra diferença senão que/ estas não crescem mais que um gato, e não obstante faze-/rem-se domésticas, se vêem galinhas, dão-lhes fim.//

[157] Iuarà – ou [sic] jràra

[157] Irara

Questa sorte di animali è grande come un Cane ordi-/nario, la sua pele è negra, e si arrampica negli arbori/ per cibarssi dal mele. Di questa sorte pochi se ne/ uedono.//

Esta espécie de animais é grande como um cão ordi-/nário, sua pele é negra, e trepa nas árvores/ para alimentar-se de mel. Desta espécie vêem-se/ poucos.//

[158] Auarà – ou [sic] jaguácambeba

[158] Aguará – ou jaguacambeba

Costui è di pele bianchicinta, o sia color di cenere./ À le gambe corte e pare che si

Este tem pele brancacenta, ou seja, cor de cinza./ Tem as pernas curtas e parece que

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uada arrastando per/ terra come la Lontra. Di rado si uede uscire delle/ selue, e procura altri animallucij o [...] da mangiare.//

vai se arrastando pela/ terra como a lontra. De raro vê-se sair das/ selvas, e busca outros animaizinhos e [...] para comer.//

P. 158

P. 158 [159] Pigricia

[159] Preguiça

Fra tutti li animali quadrupedi, il Tamandua, e/ questo sono li più defformi. La sua pele è griggia e/ nella schiena tiene in mezo una striscia che é diffe-/rente dal restante, per essere giallastra. Il restante poi/ del pelo alle intorno della schiena è tanto rileuato,/ che un Frate si potrebbe fare un girello, se non que-/ste capeli e non ostante a questo, una pele di questa/ sorte sarebbe ricercata per molti usi. La sua testa, è/ schiaciata con ochij picoli, e pare che non abbia collo. Li/ piedi anch’essi sono difformi, e tiene le medesime ungie/ del tamanduà. Il suo cibo sono foglie e stà sempre/ abraciato ad alcun ramo di aruore, nel muouersi/ è particolarissimo, e fà ridere, perchè alza a poco/ a poco una zampa per uolta, e ad ogni una che al-/za, si potrebbe recitare un Pater Noster, e in ogni sua/ azione sembra stolido. Onde se un Ciarlatano lo potesse/ mostrare, credo che farebbe fortuna. E per la sua pigricia//

Entre todos os animais quadrúpedes, o tamanduá e/ este são os mais disformes. A sua pele é cinza e/ nas costas tem no meio uma faixa que é dife-/rente do restante por ser amarelada. O restante/ do pêlo em torno das costas é tão elevado,/ que um frade poderia fazer um aro, se não ti-/vesse cabelos, e não obstante isto, uma pele desta/ espécie seria procurada para muitos usos. Sua cabeça é/ achatada, com olhos pequenos, e parece não ter pescoço. Os/ pés também eles são disformes e tem as mesmas unhas/ do tamanduá. Seu alimento são folhas e está sempre/ abraçada a algum ramo de árvore; no mover-se/ é particularíssimo, e faz rir, porque alça pouco a/ pouco uma perna de cada vez, e para cada uma que/ levante, poder-se-ia recidar um Pai Nosso, e em cada sua/ ação parece lerdo; daí se um charlatão pudesse/ mostrá-la, creio que faria fortuna. E por sua própria//

P. 159

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medesima non poteuano ritrouare nome che più se/ gli competesse di questo. Io non sò che sia inclinato/ a fare male mà però se

preguiça, não poderiam achar nome que melhor/ lhe conviesse do que este. Não sei se é inclinado/ a fazer mal, mas se chegasse

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ariuasse a mettere qu-/elle delicate unggie nella carne di alcuno, quasi/ passerebbe un braccio da parte a parte.//

a meter aque-/las delicadas unhas na carne de alguém, quase/ passaria um braço de uma parte a outra.//

[160] Savià

[160] Sauiá

Questi animali sono della grandezza di/ un toppo, e stano nascosti sotto terra. la sua/ pelle è finissima e tira al rosso. Questi a/ me sembrano ueri toppi, pure li Indij li man-/giano, e dicono, che la loro carne é buona. Mà/ certo è che di questa sorte non appariscono nel-/le Case, ma sempre uiuono alla Campagna.//

Estes animais têm o tamanho de/ um rato, e ficam escondidos debaixo da terra. Sua/ pele é finíssima e puxa para o vermelho. Estes/ parecem-me verdadeiros ratos, mas os índios os co-/mem, e dizem que sua carne é boa, mas/ é certo que esta espécie não aparece nas/ casas, mas sempre vivem no campo.//

[Répteis - Sem subtítulo]

[Répteis - Sem subtítulo] P. 160

P. 160 [161] Giararaca

[161] Jararaca

La maggiore da me ueduta poteua essere/ lunga dieci Palmi, e grossa come una laran/gia. Di pele oscura con machie negre. Questa/ è uelenosissima, e pochi scapano dal suo mor-/so, e particolarmente se subito non si cura. Cos-/tui altro ad essere velenosa, è quasi l’unica/ che inueste chi la segue. Però l’ardore delli/ Indij, e de’ Negri è tanto grande, che credendole/ qualunqe sieno le ucidono.//

A maior por mim vista podia ter de/ comprido dez palmos, e larga como uma laran-/ja. De pele escura com manchas negras. Esta/ é venenosíssima, e poucos escapam de sua mor-/dida, e particularmente se não se trata logo. Es-/ta, além de ser venenosa, é quase a única/ que investe a quem a persegue. Mas a ousadia dos/ índios e negros é tão grande que, crendo-lhes,/ qualquer uma que seja, matam-na.//

[162] Corallo

[162] Coral

È biscia bella da uedere perchè la sua pelle/ per la maggior parte è del medesimo colore del/ detto corallo. Non cresce molto in lunghezza, e/ larghezza, mà il suo morso

É cobra bela de ver-se, porque sua pele/ na maior parte é da mesma cor do/ dito coral. Não cresce muito em comprimento e/ largura, mas sua picada é mortalíssima,

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è mortalissimo, e/ dicono che da quel maligno dente percosso, nisuno//

e/ dizem que daquele maligno dente atingido, ninguém//

P. 161

P. 161

scapa. So que ferì in una mano il mio Maestro/ del’Ingegno e per quanto si fece non uise che/ mezo giorno senza mai profferire parola alcuna,/ e dentro a due ore di più della mosicatura si/ fece tutto il corpo conuulsiuo, e cosi morì.//

escapa. Sei que feriu numa mão meu mestre/ de engenho e por mais que se fizesse não viveu senão/ meio dia, sem jamais proferir alguma palavra,/ e dentro de duas horas depois da mordida/ seu corpo tornou-se todo convulso, e assim morreu.//

[163] Surucucù

[163] Surucucu

Costui si può anouerare fra le biscie/ maggiori, auendone io ueduto assai da uicino/ uno lungo dieci palmi per lo meno, e tanto/ grosso quanto il mio braccio. Questi staua/ in una ruota, non so se dormendo, e non più/ lungi di due palmi dalli miei piedi, non auen-/dolo osseruato a caggione delle molte foglie e/ legni sechi, che stauano per il terreno, fui aui-/sato da due ragazzi che conduceua con me,/ e non ostante il maggiore non passasse li/ dodici anni, presero un legno e lo ucisero.//

Esta pode-se situar entre as cobras/ maiores, tendo eu visto uma bastante perto/ com dez palmos de comprido pelo menos, e tão/ grossa quanto meu braço. Esta estava/ enrodilhada, não sei se dormindo, e não mais/ distante que dois palmos de meus pés; não a haven-/do observado por causa das muitas folhas e/ gravetos secos que estavam no terreno, fui avi-/sado por dois rapazes que conduzia comigo,/ e não obstante o maior não passasse de/ doze anos, tomaram um pau e mataram-na.//

P. 162

P. 162

[164] Biscia detta di due teste

[164] Cobra dita de duas cabeças

Ancor di queste abbondano. Quelle da me/ uedute non erano maggiori di quatro palmi/ e grosse come una anguilla ordinaria, e so-/no anch’esse da abborrire, perchè uelenose,/ e mortale è il suo morsso. La pelle nulla/ diferisce da quella delle biscie comuni. Si/ chiama biscia da due

Ainda estas abundam. As por mim/ vistas não tinham mais de quatro palmos/ e grossas como uma enguia ordinária, e são/ estas também aborrecidas, porque são venenosas,/ e mortal sua picada. A pele nada/ difere daquela das cobras comuns. Chama-/se cobra de duas cabeças

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teste, perche in/ luogo della coda, pare che abbia un altra/ testa simile alla sua medesima, e questa/ si conosce solamente quando camina, e ciò/ che è più da arriuare, è che quella parte,/ che pare testa, à due machie che sembrano/ li occhij medesimi della uera testa, e per/ questa osseruazione, che molti non ano fato/ uogliono far credere, che la detta biscia ab/bia due teste, e questo osseruai bene com una/ lente dopo che una fù morta.//

porque em/ lugar de cauda parece ter uma outra/ cabeça semelhante à sua própria, e esta/ só se conhece quando caminha, e o/ que acontece é que aquela parte/ que parece cabeça tem duas manchas que parecem/ os próprios olhos da cabeça verdadeira, e é por/ esta observação, que muitos não fizeram,/ que querem fazer crer que a dita cobra te-/nha duas cabeças, e isto observei bem com uma/ lente depois que uma foi morta.//

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[165] Saccaimboÿa – ou Sipò

[165] Sacaimbóia – ou Cipó

È cobra, o biscia, molto fina, o sia sottille, e lunga tre/ palmi incirca, e costuma stare nelli arbori ancor pen-/dente, e auendo alcuni Indij creduto che fosse alcun/ scipò, incontrarono la morte nel velenoso suo morso.//

É cobra muito fina, ou seja, delgada, e comprida de cerca de/ três palmos, e costuma ficar nas árvores pen-/dente, e havendo alguns índios crido que fosse algum/ cipó, encontraram a morte na sua venenosa picada.//

[166] Coattimboÿa

[166] Quatimbóia

È altra sorta più grande, e più grossa la qua-/le per essere alquanto uerde, non si distingue mol-/to bene, uà a cacia di zappi [sic], o sieno rospi, il suo mor-/so arde solamente, mà non è uelenoso.//

É outra espécie maior e mais grossa, a qual/ por ser bastante verde, não se distingue mui-/to bem. Vai à caça de sapos, ou seja [em italiano], ‘rospi’. Sua pi-/ cada só arde, mas não é venenosa.//

[167] Giboia

[167] Jibóia

È una cobra das maÿores [sic], e aurá 25: palmi di/ lunghezza, e sarà grossa come un Cane. Costui auilu-/pa la coda ad alcun tronco di arbore, e stà aspettando//

É uma cobra das maiores, e terá 25 palmos de/ comprimento, e será grossa como um cão. Esta enro-/la a cauda em algum tronco de árvore, e fica esperando//

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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che passino li animali, e particolarmente li Viadi, su-/bito se li lancia sopra, li stringe, e cosi li ucide e/ dopo li uà ingollendo. Li cacciatori, e altri Indij le/ ucidono a bastonate, e procurano il loro sterco, il/ quale misturano con le carne, e altro, e dano a/ mangiare a’ cani che deuono seruire per cacia. Dicono/ che con questa cura, si fano espertissimi, e si allon-/tano da ogni Cobra. Con tutto questo non è ue-/lenosa, ne morde.//

que passem os animais, e particularmente os veados, de/ repente se lança sobre eles, envolve-os e assim os mata e/ depois os vai engolindo. Os caçadores e outros índios/ matam-nas a cacetadas, e buscam seu esterco, o/ qual misturado com a carne, e outras coisas, dão a/ comer aos cães que devem servir para a caça. Dizem/ que com essa cura tornam-se espertíssimos e se afas-/tam de todas as cobras. Com tudo isto, não é ve-/nenosa, nem morde.//

[168] Accutinboia

[168] Acutimbóia

È cobra grande otto palmi incirca, e grossa po-/co meno di un braccio, di colore anch’essa scura/ con machie più chiare, mà non è uelenosa, e sola-/mente quando può, e che si affronta staffila con/ la coda, è costui esperta a mangiare le galline,/ e le uova. E doue sono monti di pietre o legni/ bisogna stare con cautella, non ostante che non daneggi.//

É cobra grande, com cerca de oito palmos, e pouco me-/nos grossa que um braço, também ela de cor escura/ com manchas mais claras, mas não é venenosa, e so-/mente quando pode, e quando afronta, açoita com/ a cauda, é esta esperta em comer galinhas/ e ovos, e onde existem montes de pedras ou paus/ deve-se ter cautela, não obstante não cause dano.//

P. 165

P. 165 [169] Camalleonte

[169] Camaleão

Vno ne uidi lungo sei Palmi, e questo secondo il suo/ mouimento sembraua ora azuro, ora giallo o pure di/ collore del oro. Al disotto il petto era liscio o bianco,/ che sembraua Auorio. Osseruai di più che andaua pren-/dendo moschiti nel atto che uolauano, onde non uiueua di/ sola aria, come uogliono li antichi Filosoffi. Questo anima-/le non offende nisuno, e con esso

Vi um com o comprimento de seis palmos e este, segundo seu/ movimento, parecia ora azul, ora amarelo ou então/ cor de ouro. Por baixo o peito era liso ou branco,/ que parecia marfim. Observei ainda que andava pe-/gando mosquitos no ato de voar, e que daí não vivia só/ de ar, como querem os antigos filósofos. Este ani-mal/ não ofende ninguém, e com ele estava

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staua scherzando un/ fanciulo, che lo teneua legato con un filo.//

brincando um/ garoto, que o tinha preso com uma corda.//

[170] Giacarè, osia Cocodrilo

[170] Jacaré, ou seja, Crocodilo

Costui è già conosciuto abastanza, mà in queste parti so-/no abbondantissimi, e tanti ne uidi, per il Rio delle Amazo-/ni, che niuno ne faceua caso, e fermati che fossimo in cer-/to luogo doue era un lago, li Indij ui entrarono dentro, bate-/rono l’acqua con schiassazzi, e uno legarono per li piedi,/ e obligarono l’altro a uscire, che ucisero con un tiro. Il//

Este já é bastante conhecido, mas nestas partes são/ abundantíssimos, e vi tantos no Rio das Amazo-/nas, que ninguém fazia caso, e assim que paramos num cer/to lugar onde existia um lago, os Índios ali entraram, bate-/ram a água com estardalhaço, e amarraram um pelos pés,/ e obrigaram outro a sair, que mataram com um tiro. O//

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maggiore da me ueduto era largo dieci otto Palmi. In al-/tra occasione ne contai dodici e costumano di tenere il solo/ capo fuori, senza fare alcun moto, e sembrano per lo apu-/nto pezzi di legni posti in acqua. Il suo grido é la lette-/ra r proferita con uoce rauca, o sia nella golla. Questo/ animale è anfibio, perchè più uolte ne ò uisto stesi sù/ l’arena al Sole. Quando nuota sempre stà uicino alla/ superficie, e non fonda. Quando incontra Cani li diuora, e/ lo stesso fà degli uomini quando puole, e perciò bisogna/ stare con cautella.//

maior por mim visto tinha dezoito palmos. Em ou-/tra ocasião contei doze e costumam ficar só com/ a cabeça fora, sem fazer movimento algum, e parecem por/ isso mesmo pedaços de madeira postos n’água. Seu grito é a le-/tra ‘r’ proferida com voz rouca, ou seja, na garganta. Este/ animal é anfíbio, porque muitas vezes vi-os estendidos na/ areia ao sol. Quando nada sempre fica próximo da/ superfície, e não afunda. Quando encontra cães, devora-os, e/ o mesmo faz com os homens, quando pode, e porisso é preciso/ ter cautela.//

[Vertebrados e conchas de água doce - Sem subtítulo]

[Vertebrados e conchas de água doce - Sem subtítulo]

[171] Lontra

[171] Lontra

Questo animale, o Pesce che sia, e da noi non conosciu-/to, è anfibio, la sua

Este animal, ou peixe que seja, e por nós não conheci-/do, é anfíbio, e seu tamanho

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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grandezza era come di un cane/ ordinario, ma non era delle maggiori. Osseruai che teneua/ il corpo assai basso, per auere le zampe assai corte, e nelle/ estremità non differiscono da quelle de’ Cani, con differen/za che aprendo le deta, per mezo di una pelle, restauano/ conggiunte come quelle delle Anitre. La testa è difforme,//

era como o de um cão/ ordinário, mas não era dos maiores. Observei que tinha/ o corpo bastante baixo, por ter as pernas curtas, e nas/ extremidades não difere daquelas dos cães, com a diferen-/ça que, abrindo os dedos, por meio de uma pele, ficavam/ ligados como aqueles dos patos. A cabeça é disforme,//

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cioè schiaciata con boca assai larga e il collo grosso. Quan-/do uà per terra ser peg gia, e forse sarà per auere le zampe/ corte. La coda, è larga, grossa, e corta, ma termina come/ un dardo. La pele è più scura di quella de’ toppi, mà di pelo/ tanto cuanto corto, e lucido, che a uerselo, e a maneggiarlo pa-/re un uelluto. Qui però non fano caso di questa, ne pure/ ano l’arte di pescarle, o caciarle, e se lo conosessero, ne/ ritrarebbero assai lucro, mentre sarebbero riceuute nelle/ nostre parti come si fa di tante che ci uengono da Suesia,/ Moscouia, e altri luoghi. Questo animale è anch’esso an-/ fibio, e una ne uidi domestica data a sua Ecclza il Sig e / Francisco Xavier Mendonsa Furtado, che qui ressideua come/ Gouernatore e Plenipotenciario di sua Maestà, il quale me ne/ fece dono e tanto era domestica, che mi si arampicaua nelle/ gambe, e la conseruai nel mio orto sino al tempo che fui/ mandato ad una spedizione, e la conseruai dandole tripe di/ tartaruche, o di Pesce, quando le aueua. Un altra molto più/ grande uedi in terra nel’atto che disimbarcai, mà

isto é, achatada, com boca muito larga e o pescoço grosso./ Quando anda na terra serpeia, e talvez seja por ter as pernas/ curtas. A cauda é larga e curta, mas termina como/ um dardo. A pele é mais escura que a dos ratos, mas de pêlo/ um tanto quanto curto, e brilhante, que, ao vê-lo, e ao manejá-/lo, parece veludo. Aqui porém não fazem caso dela. Nem tampouco/ têm a arte de pescá-la, ou caçála; se soubessem,/ retirariam algum lucro, porquanto seriam recebidas em/ nossas partes como se faz com tantas outras que vêm da Suécia,/ da Moscóvia e de outros lugares. Este animal é ele também an-/ fíbio, e vi uma domesticada dada a Sua Excia. o Sr./ Francisco Xavier Mendonça Furtado, que aqui residia como/ Governador e Plenipotenciário de Sua Majestade, que mo/ deu de presente e era tão doméstica que me trepava pelas/ pernas, e conservei-o em meu horto até a época em que fui/ mandado em uma expedição, e conservei-o dando-lhe tripas/ de tartarugas ou de peixe, quando tinha. Uma outra muito/ maior vi em terra no ato de desembarcar, mas de repente/ se lançou

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subito/ si lanciò in acqua, e molte oltre uidi nuotare in Guamà.//

n’água, e muitas outras vi nadar no Guamá.//

P. 168

P. 168 [172] Pirarrara

[172] Pirarara

Questo Pesce era della altezza di un uomo non/ compressoui la sua coda, il suo corpo era coperto/ di machie scure et incerte, la testa era diforme/ e uicino alla boca aueua le baffij come il Gatto,/ mà più lunghi, e la testa pare coperta d’arrena/ grossa, e è forte come un legno. Per lo più si man-/gia dalli Indij che sano digerirlo.//

Este peixe tinha a altura de um homem, não/ compreendida sua cauda, seu corpo era coberto/ de manchas escuras e incertas, a cabeça era disforme/ e perto da boca tinha bigodes como de gato,/ mas mais longos, e a cabeça parece coberta de areia/ grossa, e é dura como um pau. Ademais, é comi-/do pelos índios, que sabem digerilo.//

[173] Gurugiuba

[173] Gurijuba

È anch’esso buon Pesce, e da taglio, per essere lungo/ sei a otto palmi. Si sala, si seca, e si manda a uendere./ Dentro di sè tiene due pezzi grossi, che sembrano gras/so, mà sono moscolosi. Questi si appartano, e battuti che/ sino, si mettono al fuoco, e quando è ridotto in spuma/ si ingruda, o si incolla qualunque legno; e riesce assai miglio-/re di quello di Europpa perchè le cose incollate che qui/ ariuano si disuniscono per la molta umidità, ma questo ressiste.//

É também este um bom peixe, e de corte, por ter o comprimento/ de seis a oito palmos. Salga-se, seca-se, e manda-se a vender./ Dentro de si tem dois grossos pedaços, que parecem gor-/dura, mas que são musculosos. Estes são/ apartados, e uma vez batidos, são postos ao fogo, e quando reduzidos a espuma/ grudam ou colam qualquer madeira, e resultam muito me-/lhor que a [cola] da Europa, porque as coisas coladas que aqui/ chegam se separam pela muita umidade, mas esta resiste.//

P. 169

P. 169 [174] Purarucù [sic]

[174] Pirarucu

Vno di questi Pesci lo uidi dopo pescato, e era lungo/ quanto è alto un Vomo, e mi

Vi um destes peixes depois de pescado, e era longo/ quanto a altura de um homem,

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disero, che non era de’ mag-/giori, mà la sua carne senon è buona per tutti, lo è per/ li Indij, che lo sano digerire. Il Pesce per sè stesso è/ bello quanto le può essere. À le squame grosse, e longhe/ come una pattaca, e le dette squame sono del colore che/ è il sangue fresco, e nel suo mezzo sembrano di oro, mà dopo/ una ora che fù morto si fecero scuri. La sua lingua/ possa sopra un osso che è quasi della medesima grande-/zza di detta lingua, e quella parte que stà uolta al/ pallato, è tutta seminata di minutissimi denti che sembrano/ di auorio, e questa serue per rapare il guaranà,/ il puciri, la noce moscata, e altre simili cose.//

e disseram-me que não/ era dos maiores, e sua carne, se não é boa para todos, é-o para/ os índios, que o sabem digerir. O peixe em si mesmo é/ tão belo quanto pode ser. Tem as escamas grandes e longas/ como uma pataca, e em seu meio parecem de ouro, mas/ uma hora depois de morto, tornaram-se escuras. Sua língua/ pousa sobre um osso que é quase do mesmo tama/nho da dita língua, e a parte que está voltada para/ o palato é toda semeada de diminutíssimos dentes,/ que parecem de marfim, e esta serve para raspar/ o guaraná, o puxiri, a noz moscada e outras coisas/ semelhantes.//

[175] Pirauiua

[175] Pirajuba

Essendo queste Pesce uno de’ maggiori, due/ uomini nerbouiti sentono la carica. Qui è co-/mune//

Sendo este peixe um dos maiores, dois/ homens musculosos sentem a carga. Aqui é co-/ mum//

P. 170

P. 170

mune. Non è Pesce da squama, e è assai buono,/ e massimamente quando è picolo.//

mum. Não é peixe de escama e é muito bom,/ maximamente quando é pequeno.//

[176] Mamiacù

[176] Mamaiacu

È Pesce picolo, e non maggiore di una Saraca. La sua/ pelle è machiata di bianco, negro, e pardo a uso di cerch-/ietti con spessi porri eleuati a uso di spini, tiene/ quatro denti come le nostri. A questo Pesce, si stringono le/ orechie leggermente con due deta, e si torna in acqua./ Subito si muoue [...]nte, e per alcuni minuti altro non si uede che essa perfetta/ balla spinosa, e poi

É peixe pequeno, e não maior que uma sardinha. Sua/ pele é manchada de branco, negro e pardo na forma de cir-/culozinhos com muitos poros elevados como/ espinhos, tem quatro dentes como os nossos./ Apertam-se ligeiramente as orelhas deste peixe com dois dedos, e devolve-se-o à água. De/ repente move-se [...]nte, e por alguns minutos só se vê uma perfeita/ bola

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torna nell’essere di prima, non si mangia/ da tutti, perchè bisogna tirarli certa pelle che muoue a nausea./ Io suppongo che questo possa essere quel Pesce gonffiato-/re di cui parla il Salmone [?] nella sua Istoria.//

espinhosa, e depois torna a ser como antes. Nem/ todos o comem, porque é preciso tirar-lhe certa pele que leva à náusea./ Suponho que este deve ser o peixe inchador/ do qual fala Salmone [?] em sua História.//

[177] Aguglia, osia Agochia

[177] Agulha

Il detto Pesce, non è più lungo di un palmo, e grosso/ come il deto picolo di una mano, e è totalmente rottondo,//

O dito Peixe não tem mais que um palmo e a grossura/ do dedo mínimo de uma mão, e é totalmente redondo,//

P. 171

P. 171

sembra di puro argento, e è trasparente come un cris-/tallo, e perchè è tanto bello pare che sia stato destinato/ a non essere gustoso per non darli la morte. Il suo bico pa-/re più tosto di passero, che di Pesce, e è lungo.//

parece de pura prata, e é transparente como um cris-/tal, e como é tão belo parece estar destinado/ a não ser gostoso, para que não se lhe dê morte. Seu bico pa-/ rece mais de ave do que de peixe, e é longo.//

[178] Rodella

[178] Rodela

Questo Pesce è grande come una aringa, mà più stretto./ Cosi si chiama perchè in luogo della boca tiene una/ porzione di circolo assai maggiore della metà del detto,/ e formata da una cartillaggine, che in uero lo rende/ differente da tutti li altri pesci. Si mangia e à buon sapore.//

Este peixe é grande como um arenque, mas mais estreito./ Assim se chama porque em lugar de boca tem uma/ porção de um círculo bastante maior que a metade de um dedo,/ e formada por uma cartilagem, que em verdade torna-o/ diferente de todos os outros peixes. Come-se e tem bom sabor.//

[179] Pesce Bue

[179] Peixe-boi

Vno di questi Pesci, mi fù mostrato poco dopo di essere/ stato preso. Mi disero che non era de’ maggiori, mà aueua/ noue palmi di lunghezza senza coda, e era più grosso di

Um destes peixes foi-me mostrado pouco depois de ter/ sido pego. Disseram-me que não era dos maiores, mas tinha/ nove palmos de comprimento sem a cauda e era

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un/ buon Porco. Li ochij di questo smisurato Pesce sono picoli/ il focinho, osia grugno, la lingua, sono del tutto si-/milli a quelli de’ Buoui, e credo che da questa//

maior que um/ bom porco. Os olhos deste desmesurado peixe são pequenos;/ o focinho, a língua, são inteiramente se-/ melhantes aos do boi, e creio que destas//

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P. 172

ta [sic] parte possa auere tirato la denominazione./ In uederlo pare che non abbia orechie, má in luogo/ di quelle à due piccolissimi buchi, che appena si/ uedono, e morto che è, ne tirano da ogni bucco un pi-/ colo ossetino, che lo portano molti nel collo, o infillato/ tra corralli attribuendoli molte immaginate uirtù. Non/ à piedi mà in luogo di quelli à due pina rotonde/ e assai grosse, le quali unite alla coda pare/ un remo, li seruono, per maneggiare in acqua/ quel grande corpacione [...] del/ tutto simili a quella delli [...], e sono [...]/ [...] alle dette P[...]. la sua pelle è grossisima,/ scura, e tanto lucida quanto l’ebano, e più è [...]/ [...] de peli alquanto lunghi,[...]/rili, che bisogna [...]. Questo Pes-/ce è fuora di dubio il maggiore, che uiua in qu-/este parti, e [...] nostre, e ciò che farebbe mera[...] /per [...]//

tas [sic] partes possa haver tirado sua denominação./ Ao vê-lo, parece que não tem orelhas, mas no lugar/ destas tem dois pequeníssimos furos, que apenas se/ vêem, e uma vez morto, retiram de cada furo um pe/queno ossinho, que trazem muitos ao pescoço, ou enfiado/ entre corais, atribuindo-se-lhe muitas virtudes imaginárias. Não/ tem pés, mas em lugar destes tem duas nadadeiras redondas/ e muito grandes, as quais [...] parece/ um remo, servem-lhe para manejar n’água/ aquele grande corpanzil. [...] to-/ talmente semelhane à dos [...], e são [...]/ [...] aos ditos P[...]. Sua pele é grossíssima,/ escura e brilha tanto quanto o ébano, e ademais é [...]/ [...] de pêlos algo longos,/[...] relos, que é preciso [...]. Este pei-/xe é fora de dúvida o maior que vive nes-/tas partes, e [...]/ nossas, e o que faria maravilhas/ para [...]//

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P. 173

mpagnato da un Ragazzo; lo pescano, lo pescano [sic], lo/ caricano, e lo conducono oue li piace. A pescarlo,/ cosi fano – il destro Indio Pescatore, stà in aguanto/ quando, per la più corsa di uscire dall’acqua per/ andare a pascere certe canerie che nascono sù le spon-/de del Rio Sollimòs. Allora lo esperto Pescatore [...]/ [...] legato ad uno funicolare,/ alza il ditto si porta con sè,

mpanhado de um rapaz, pescam-no, pescamno sic],/ carregam-no, e conduzem-no onde lhes apraz. Para pescá-lo,/ fazem assim – o destro índio pescador espera-o/ quando tem pressa de sair da água para/ ir pastar certas canas que nascem nas mar-/gens do Rio Solimões. Então o esperto pescador [...]/ [...] preso a um funicular,/ levanta o dito se traz com ele, para que não escape o dito/

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perchè non scapi il ditto/ Pesce [...]/ [...] assicurare. Il secondo/ [...] gallegiare in acqua,/ [...] non fonda per es-/sere di [...]/ [...] da una/ [...]/ [...] allora, poi en-/ [...]/ [...]/ [...] e è fuor di//

peixe [...] ferido [...]/ [...] assegurar-se. O segundo/ [...] boiar na água,/ [...] não afunda por ser/ de [...]/ [...] de uma/ [...]/ [...] então, [...]/ [...]/ [...]/ [...] e é fora de//

P. 174

P. 174

dubio che uno di quei Pesci peserá comunemente/ quatrocento libre delle nostre, e a bene considerare/ la mecanica di questa pesca, si deue stimare, en/ molto più perchè ritrouata [...]/ mai a saputo cosa sia [...].La carne di qu-/esto pesce è assai desiderata, e [...] da questi nazionali. A dir uero è di molto utile perchè oltre/ a mangiarsi arrostita, si riduce ancora in pezzi/ fritti, li qualli si conservano un anno nel suo grasso/ liquefatto, e lo chiamano miscira [...]/ cizze, che sarebbero [...]/ nostra, mà perchè [...]/ e si conseruano anch’esse [...]/ grasso di questo Pesce, [...]/ no per cogliere [...]/ chiama manteca di pesce Bue, che dicono essere/ migliore di quella delle tartaruche/ quale la Carne [...]/ in uero è tenera, [...]//

dúvida que um destes peixes deve pesar comumente/ quatrocentas libras das nossas, e considerando/ bem a mecânica desta pesca, deve-se estimar, em/ muito mais, porque achada [...]/ mais sabido que coisa seja [...]. A carne des-/te peixe é muito procurada, e [...] pelos/ nativos. Para dizer a verdade é muito útil, porque além/ de ser comida assada, reduz-se-a ainda em pedaços/ fritos, os quais se conservam por um ano em sua gordura/ liquefeita, e chamam-na mixira [...]/ [...], que seriam [...]/ nossa, mas como [...]/ e se conservam também [...]/ gordura deste peixe [...]/ não para colher [...]/ chama manteiga de peixe-boi, que dizem ser/ melhor do que a das tartarugas/ como a carne [...]/ em verdade é tenra [...]//

P. 175

P. 175

non solo, per essere freda, mà ancora per auere un / certo odore, che non può piacere a tutti abbenchè non/ sia [...] nauseante.//

não só por ser fria, mais ainda por ter um/ certo odor, que não pode agradar a todos, se bem que não/ seja [...] nauseante.//

[180] Tucunarè

[180] Tucunaré

Questo è pesce, che se ritroua nelle acque/ del Rio Negro; e la sua grandezza si as-/somiglia a quella di un Luzzo, abbenchè ve/ ne abbia

Este é um peixe que se encontra nas águas/ do Rio Negro, e seu tamanho se asse-/ melha ao de um lúcio, se bem que os/ haja

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de’ maggiori. À buon sapore, mà/ la sua carne è di un collore, che sembra/ ranza.//

maiores. Tem bom sabor, mas/ a sua carne tem uma tal cor que parece/ rançosa.//

[181] Piranga [sic; Piragna]

[181] Piranha

Ancor questa sorte de Pesce, nasce, o per/ dire meglio, si pesca nel Rio Negro, è simile/ alle nostre Vrate, à molte spine, mà gusto/sissima è la sua carne.//

Ainda esta espécie de peixe nasce, ou, para/ melhor dizer, se pesca no Rio Negro, é semelhante/ às nossas douradas, tem muitas espinhas, mas é gosto-/síssima a sua carne.//

P. 176

P. 176 [182] Mappara

[182] Mapará

Questo ancora è abbondante nel Rio/ Negro. È lungo un palmo e mezo, ma stre/tto, e sottile. Il gusto di questo Pesce/ è delicatissimo, e nelle nostre parti pot-/rebbe pretendere uno de’ primi luoghi fra/Pesci squisiti, e particolarmente nella pa-/nela dopo di auere tocato il sale poco/ più di un quarto di ora.//

Ainda este é abundante no Rio/ Negro. Tem o comprimento de um palmo e meio, mas é estrei-/to e fino. O gosto deste peixe/ é delicadíssimo, e nas nossas partes po-/deria pretender um dos primeiros lugares entre/ os peixes esquisitos, e particularmente na pa-/nela depois de haver tocado o sal pouco/ mais de um quarto de hora.//

[183] Sardine

[183] Sardinhas

Alcune sono maggiore di due palmi, mà/ che importa che la sua carne sia/ gustosissima, quando non si abbia una/ pacienza tanto grande da separare le/ moltissime e finissime spine delle qu-/alli è ripiena per tutto il corpo.//

Algumas são maiores que dois palmos, mas/ que importa que sua carne seja/ gostosíssima, quando não se tem uma/ paciência tão grande para separar as/ muitíssimas e finíssimas espinhas de que/ tem cheio todo o corpo?//

P. 177

P. 177 [184] Piramutaua

[184] Piramutaba

È un pesce comune, che si ritroua in ogni/ Rio uicino alla Città, e lungo un palmo/

É um peixe comum, que se encontra em cada/ rio vizinho da cidade, de um palmo

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sino a due mezzo, à due bigodi [sic] lunghi, e/ la sua carne è ottima.//

de comprido/ até dois e meio; tem dois bigodes longos, e/ sua carne é ótima.//

[185] Pescada

[185] Pescada

Di questa ue ne à di due sorta, cioè/ che stano in acqua dolce, et altre in acqua/ salata, le prime sono bianche, e più in-/ sipide delle salate, e non dano ancora qu/ella massa che si tira dal Pesce già descritto/ Guragiubba come queste ultime. Qu-/esto Pesce è ottimo, mà per mangiarlo buo-/no, non bisogna che stia molto tempo fuori/ di acqua, perchè presto prende male odore/ e anch’esso è come la nostra Vrata.//

Desta existem duas espécies, isto é,/ as que existem na água doce, e as outras em água/ salgada; as primeiras são brancas, e mais in-/sípidas de que as salgadas, e tampouco têm aque-/la massa que se tira do peixe já descrito/ gurijuba, assim como estas últimas. Es-/te peixe é ótimo, mas para comê-lo ainda bom,/ é preciso que não tenha estado muito tempo fora/ d’água, porque logo toma um mau odor/ e também este é como a nossa dourada.//

P. 178

P. 178 [186] Bacù

[186] Bacu

Questo Pesce in queste parti è molto ab-/ bondante, mà alli miei ochij non è mai pia/ciuto. Comunemente sono lunghi da due si-/no a tre palmi, la schiena al difuori, è/ addentata. Il uentre è assai grosso a segno/ che sembra grauido; è squamoso, e al difu-/ori pare sempre insanguentato. Molti lo man-/giano, e molti altri lo abboriscono. Sò che ul-/timamente mi fù dato a mangiare senza cono-/scerlo, e mi piacque assai.//

Este peixe, nestas partes, é muito abun-/ dante, mas aos meus olhos nunca agra-/ dou. Comumente tem o comprimento de dois a/ três palmos, as costas por fora são/ denteadas. O ventre é tão gordo que faz com/ que pareça grávido; é escamoso, e por fora/ parece sempre ensanguentado. Muitos o co-/mem, e muitos outros o aborrecem. Sei que ul-/timamente foi-me dado a comer sem conhe-/cê-lo, e agradoume muito.//

[187] Raia

[187] Raia

È simile alle nostre se non che la sua/ pele sembra tutta coperta di grossa arrena./ La sua coda tiene nel fondo una durissi-/ma

É semelhante às nossas, exceto que sua/ pele parece toda coberta de areia grossa./ Sua cauda tem no ápice uma durís-/sima ponta

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punta lunga poco meno di un deto, e [texto incompleto no original].//

comprida pouco menos de um dedo, e [texto incompleto no original].//

P. 179

P. 179 [188] Dourado

[188] Dourado

Non è pesce di squama, mà è assai buo-/ no, e si conssidera fra Pesci grandi. Nel/ fondo della sua coda si uede una machia/ che sembra un ochio, e allo interno ui pare/ mesclato oro.//

Não é peixe de escama, mas é muito bom,/ e se considera entre os peixes grandes. No/ fim de sua cauda vê-se uma mancha/ que parece um olho, e dentro parece/ que se misturou ouro.//

[189] Pirauna

[189] Piraúna

Non o ueduto questo Pesce di squama,/ che dicono lungo più di otto palmi, an-/ cor questo si mangia mà non è de’ migli-/ ori, e qui non abbonda.//

Não vi este peixe de escama,/ que dizem ser do comprimento de oito palmos, ain-/ da este come-se, mas não é dos melho-/res, e aqui não abunda.//

[190] Mandue

[190] Mandubé

È grande come una truta di una libra,/ tiene la testa schiaciata, e non è bello/ da uedersi, mà quando è grosso è delicioso//

É grande como uma truta de uma libra,/ tem a cabeça achatada, e não é belo/ de ver-se, mas quando é grande é delicioso//

P. 180

P. 180

e non pochi lo antepongono ad ogni sorta/ di Pesci sino ad ora descriti, e secondo il/ mio gusto, mi pare di mangiare uentre di Ton-/nina.//

e não poucos o antepõem a todas as espécies/ de peixes até agora descritos, e segundo o/ meu gosto, parece-me estar comendo ventrecha de atum.//

[191] Purachi

[191] Poraquê

Ancor questo è un Pesce simile alla an-/guila e alcuni sono maggiori di sei palmi,/ e grossi come un bracio. Questo è quel Pesce/ che

Ainda este é um peixe semelhante à en-/ guia e alguns são maiores de seis palmos,/ e grossos como um braço. Este é aquele peixe/

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toccandolo fa il medesimo effetto che fà lo el-/ litrizare, e il dolore è ancor più forte. Alcuni lo/ mangiano, e dicono che è buono.//

que, tocado, tem o mesmo efeito que faz o ele-/trizar, e a dor é ainda mais forte. Alguns o/ comem e dizem que é bom.//

[192] Ostras, o sieno Ostrie

[192] Ostras, ou seja [em italiano] ostrie

Di queste se ne pescariano abbondamente, mà non/ ano l’arte de’ Veneciani, che le prendono con legni/ ancorati, ma qui li Indij si legano al piede un cesto [falta “pieno di” no original]//

Destas pescar-se-ia abundantemente, mas não/ têm a arte dos venezianos, que as pegam com madeiras/ ancoradas, mas aqui os Índios atam ao pé um cesto [falta “cheio de” no original]//

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pietre per andare presto al fondo, e là le cercano, e le/ tirano fuori, il che è assai pericoloso. Non ostante che/ sieno ualentissimi nuotatori. Di queste ostre [sic] ne ò più/ uolte mangiato, e alcune erano assai più grandi delle/ nostre, e assai polpute, mà poi non ano quel gusto delle/ nostre di Europpa e sarà forse a caggione dell’ac-/qua che à quel luogo doue si pescano, non sono salu-/ bri, o si lo sono, sarà assai poco. Ò osseruato, che in tut-/ti li terreni, e in mezzo a queste selue si ritrouano/ guscij di ostre, e alcuni assai grandi, onde non sò/ come possano essere sparssi per tanti luoghi.//

pedras para logo descer ao fundo, e lá as buscam, e as/ tiram fora, o que é muito perigoso, não obstante serem/ valentíssimos nadadores. Destas ostras comi/ muitas vezes, e algumas eram muito maiores do que/ as nossas, e bastante polpudas, mas não têm o gosto das/ nossas da Europa, e será talvez por causa das á-/guas, que nesse lugar onde se as pescam, não são salu/bres, ou, se são, são muito pouco. Observei que em to-/dos os terrenos, e no meio destas selvas acham-se/ cascas de ostras, e algumas muito grandes, e não sei/ como se puderam espalhar por tantos lugares.//

[193] Tartarughe

[193] Tartarugas

Queste le conssidero nel numero de’ Pesci, perchè/ quasi sempre stiano in acqua, e altri non sò se li/ metterano in questo numero la che uiuono in terra, e/ fano in questa le loro uoua, mà lasciamo questa/ disputa alli Teòloghi, e passiamo a dire ciò che più//

Estas considero-as no numero dos peixes, porque/ quase sempre estão n’água, e as outras não sei se as/ meterão nesse número, pois vivem na terra e/ nesta põem seus ovos, mas deixemos esta/ disputa aos teólogos, e passemos a falar do que muitas//

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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uolte abbiamo presenciato per nostra curiosità. Le tar-/tarughe adunque àno la loro resssidenza in più luoghi/ mà abbondano maggiormente nel Rio delle Amazoni,/ in Solimons, e nel Rio di Madera, per auere questi/ grandissimi Praie di arrena per poterui fare le sue/ uoua. In tempo che le acque sono basse, che per lo/ più è ne’ Mesi di Ottobre, e Novembre, escono dal-/le acque, e si portano sù l’arrena doue cauano l’arre/na con le zampe d’auanti, e sino a doue ariuano, di-/poi fatta la caua, ui scaricano le sue uoua, che comu-/nemente sono da cinquanta sino a ottanta, e tutte sono/ grosse come un uovo di gallina, ma affatto rottonde, e/ con il guscio molle, come è quello della detta gallina quando/ fà l’uouo. Scaricata che à le sue uova le copre di ar-/rena e torna a buscare le acque se puole, mentre li/ Indij le stano in aguato, e le uoltano con la schiena/ alla terra perchè cosi non ne forza di manegiarssi. In/ questo ancora bisogna essere esperto perchè oltre che cor-/rono con uelocità sono tante, che facilmente ponno offendere//

vezes temos presenciado com nossa curiosidade. As tar-/tarugas, portanto, têm sua residência em muitos lugares,/ mas abundam maiormente no Rio das Amazonas,/ no Solimões, e Rio da Madeira, por terem estes/ grandíssimas praias de areia para ali poderem pôr seus/ ovos. Na época em que as águas estão baixas, que é por/ volta dos meses de outubro e novembro, saem da/ água e caminham sobre a areia onde cavam a areia/ com as patas anteriores, e até onde chegam, de-/pois de feita a cova, ali descarregam seus ovos, que comu-/ mente vão de cinquenta até oitenta, e todos são/ grandes como um ovo de galinha, mas mais redondos, e/ com a casca mole, como é o da galinha assim que faz/ o ovo. Uma vez descarregados seus ovos, cobre-os com/ areia e torna a buscar as águas, se pode, enquanto os/ índios as estão esperando, e viram-nas com as costas/ para a terra, por que assim não consegue deslocar-se. // Nisto precisa-se ser esperto, porque além de correrem com velocidade,/ são tantas, que facilmente podem machucar//

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gambe come più uolte è suceduto, mentre una di quella/ è la carica di un uomo forte. L’interesse degli Indij,/ non è solamente quello della carne mà bensi delle/ uova delle qualli ne fano la manteca, che è la reden-/zione di questa

as pernas, como muitas vezes sucedeu, e desde que uma delas/ é a carga de um homem forte. O interesse dos índios/ não é somente pela carne, mas também pelos/ ovos, dos quais fazem manteiga, que é a reden-/ção desta terra, porquanto serve

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terra, mentre serue per il condimento/ delle uiuande, e molto più per illuminare le Case, men-/tre fà bel lume e non rende odore ingrato, come l’/olio di Andiroba. Passeggiano adunq e li Indij, e altri/ Paesani per quelle Praie e doue ritrouano che la/ arrena tiene alguna parte bassa, in quello cauano e/ ne aggiuntano le uoua in Monte, dipoi di auerle as-/sai bene pestate in alcuno fondo di Canoua, le mettono/ a bullire, le spumano, e cotte che sono le mettono/ in uasi di terra cotta, ogni uno de’ qualli è una carica/ di un uomo e di queste cariche se ne metterano ottocento/ in una Canoua le qualli, ariuate che sono le uen-/dono comunemente a dieci tostoni, e le tartaruche a/ sei, qualli per essere qui stimate si uendono subito,/ e in fatti la sua carne è disprezabile. Mà poi//

de condimento/ das viandas, e muito mais para iluminar as casas, pois/ dá um belo lume e não solta um cheiro ingrato, como o/ óleo de andiroba. Passeiam portanto os índios e outros/ caboclos por essas praias, e onde acham que a/ areia tem alguma parte baixa, nessa cavam e/ juntam os ovos em montes; depois de havêlos mui-/ to bem batido em um fundo de canoa, põem-nos/ a ferver, espumam-nos, e assim que cozidos põem-nos/ em vasos de cerâmica, cada um dos quais é a carga/ de um homem, e destas cargas meter-se-ão oitocentas/ em uma canoa, as quais, assim que chegam, são/ vendidas comumente a dez tostões, e as tartarugas a/ seis, as quais por serem aqui estimadas se vendem logo;/ de fato, a sua carne é desprezível, mas no entanto//

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le trippe e il lombo delle medesime, maneggiate da/ una ualente cuciniera, non fano inuidia a quelle di/ uittella.//

as tripas e o lombo das mesmas, preparados por/ uma boa cozinheira, não fazem inveja aos de/ vitela.//

[194] Tracaggiàs

[194] Tracajás [+ tartaruga-de-pente]

È questa una especie di tartaruga, ma son/ più grande di un palmo e assai più schia-/ciata della sopradetta, mà pone/ anch’esso le uoue nella sopra acenata ma/niera. Sono anch’esse molli di guscio, e tanto/ queste quanto quelle della tartaruca [sic] non/ ostante che si mettono a bullire in acqua/ non indurisce la clara. Si mangia quella/

Esta é uma espécie de tartaruga, mas são/ maiores de um palmo e muito mais acha-/tadas que as sobreditas, mas põem/ também estas ovos da supramencionada ma-/neira. São também estes moles na casca, e tanto/ estes como os da tartaruga, não/ obstante serem postos a ferver em água,/ não endurecem a clara. Come-se aquela/

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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gema che è assai buona con farina e zuchero che/ riesce molto gustosa. Le tartaruchei [sic], che si/ pescano nel Maragnone, che sono di acqua sal-/sa, non ostante che non si mangino, sono preciose,/ perchè dano quella nobilissima Casca della quale//

gema que é muito boa com farinha e açúcar, que/ fica muito gostosa. As tartarugas que se/ pescam no Maranhão, que são de água sal-/gada, não obstante não serem comidas, são preciosas,/ porque fornecem aquela nobilíssima casca da qual//

P. 185

P. 185

si fano tante belle gallantarie, e si uende da/ quindici sino a uenti paoli la libra. Di questa/ si lauorano al torno belissimi rosarij de’ quali/ si farebbe stima in qualunqe nostra Città, e si/ fano di quei pezzi, che si congiungono con il/ uentre. A tirarla perfettamente cosi si fà./ Dopo di auerle prese nel1’istesso modo delle/ altre le ucidono, le sotterano, e quando sono/ del tutto consumate, ne aggiuntano li pez/zi, e li uendono a peso.//

se fazem tão belas galantezas, e vende-se por/ quinze até vinte paulos a libra. Destas/ trabalham-se ao torno belíssimos rosários que/ seriam estimados em qualquer de nossas cidades, e/ fazem-se aqueles pedaços que se juntam com o/ ventre. Para tirá-la perfeitamente, faz-se assim./ Depois de havê-las capturado do mesmo modo que/ as outras, matam-se, enterram-se, e quando estão/ de todo consumidas, juntam os peda/ços, e vendem-nos a peso.//

P. 186

P. 186 [195] Buiuna

[195] Boiúna

Cobra di acqua, che è delle maggiori, particolar-/mente in grossezza, e se li esperti Indij non la fu-/gono non è facile uscire di pericolo, perchè rover-/sinno una di quelle piccole canoue con li qualli/ detti Indij costumano andare uno, o due a pescare/ ne’ laghi. di pele è negra senza machie, non è/ di quelle che mordino, mà ingolisse come la Gi-/ bboia. Non serpeggia molto per terra, e quando esce/ è sul’arrena per godere del Sole.//

Cobra d’água, que é das maiores, particular-/mente de grossura, e se os espertos índios não a/ afugentam, não é fácil escapar do perigo, porque/ viram uma daquelas pequenas canoas com as quais/ os ditos índios costumam andar, um ou dois, a pescar/ nos lagos. È negra de pele, sem manchas, não é/ daquelas que picam, mas engolem como a ji-/bóia. Não repta muito por terra, e quando sai/ é para a areia, para gozar do sol.//

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[Serpentes, incluindo a jaquiranambóia - sem subtítulo]

[Serpentes, incluindo a jaquiranambóia - sem subtítulo]

[196] Tariramboia

[196] Tarirambóia

È cobra uerde, e stà quasi sempre sopra li arbori/ in qualli dormono ancora. Non sono delle maggiori,/ e aurano quatro o cinqe palmi di lunghezza, il suo/ morso è mortale; tiene due denti al di sopra incurua/ti, e uno al disotto, e ciò che prende non lo lascia.//

È cobra verde, e fica sempre em cima de árvores,/nas quais também dormem. Não são das maiores,/ e terão quatro ou cinco palmos de comprido. Sua/ picada é mortal; tem dois dentes em cima, curva/dos, e um em baixo, e o que morde não larga.//

P. 187

P. 187 [197] Arraramboia

[197] Ararambóia

É cosi chiamata perche non sibila, ma gritta come/ la Arrara. Anch’essa é di cinque in sei palmi, e gros-/sa come una buona anguila. La sua pele é incar-/ nata e il uentre é all’uso delle altre, cioé bianco./ Di questa ancora si deue fugire il morso.//

É assim chamada porque não silva, mas grita como/ a arara. Esta também tem cinco ou seis palmos, e a/ grossura de uma boa enguia. Sua pele é encar-/nada e o ventre é como o das outras, isto é, branco./ Desta também se deve evitar a picada.//

[198] Giachiranamboia

[198] Jaquiranambóia

Costui é la piu micidiale di tutte, e buono é/ che non abiti in questi circonuicini luoghi, pe-/rche ama anch’essa di stare ne’ rami delli/ arbori. Non é più lunga di un palmo, e sot-/tile, ma tiene due pine che le seruono come/ alli, e si lancia da un luogo all’altro, e mi/ dicono, che essendone una in un arbore doue/ si trouauano molti macachi come costumano, ne/ morse varij, e che al primo morso cadeuano morti.//

Esta é a mais mortífera de todas, e é bom/ que não habite nestes lugares circunvizinhos, por-/que também ela gosta de ficar nos ramos das/ árvores. Não é maior que um palmo, e é del-/gada, mas tem duas barbatanas que lhe servem de/ asas, e joga-se de um lugar a outro, e/ dizem-me que estando uma numa árvore onde/ se encontravam muitos macacos, como costumam,/ mordeu vários e que à primeira mordida caíam mortos.//

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[P. 188; em dupla coluna no original]

[P. 188; em dupla coluna no original]

Indice di quanto contiene il presente libro

Índice de quanto contém o presente livro

Atta pag. .............................................. 7 Abbacatti pag. ..................................... 16 Aquitti pag. ......................................... 46 Andiroba pag. ...................................... 70 Anningas pag. ...................................... 80 Angellino pag. ....................................... 84 Accapú pag. .......................................... 87 Annanì pag. ......................................... 92 Accapurana pag. .................................. 96 Appui pag. ......................................... 109 Annuunà pag. ................................... 133 Arrara pg. ......................................... 142 Agochia pg. ........................................ 170 Accutimboia........................................ 164

Ata pág. ............................................... 7 Abacate ................................................ 16 Aquiti [?] ............................................. 46 Andiroba .............................................. 70 Aninga .................................................. 80 Angelim ................................................ 94 Acapu ................................................... 87 Anani ................................................... 92 Acapurana ........................................... 96 Apuí ................................................... 109 Anum ................................................. 133 Arara ................................................. 142 Agulha ............................................... 170 Acutimbóia ......................................... 164

Biribas pag. .......................................... 15 Bacuri pag. ........................................... 68 Biscia deta di due teste ........................ 162 Bacù pag. ............................................ 178 Buiuna pag. ....................................... 186

Biribá .................................................... 15 Bacuri .................................................... 69 Cobra-de-duas-cabeças ....................... 162 Bacu .................................................... 178 Boiúna ................................................ 186

Caggiù pag. .................................. 1,[104] Caffè pag. .............................................. 4 Cuppuassù pag. .................................... 13 Carragiurù pag. ................................... 19 Cottone pag. ......................................... 21 Cottone Perichito .................................. 23 Cipola braba pg. .................................. 25 Continas pag. ........................................ 26 Cubbio pag. .......................................... 26 Cacào pag. ............................................ 31 Cuia pag. .............................................. 37

Caju ............................................ 1, [104] Café ....................................................... 4 Cupuaçu ............................................... 13 Carajuru ............................................... 19 Algodão ................................................ 21 Algodão-de-periquito ............................. 23 Cebola brava ........................................ 25 Continhas ............................................. 26 Cubio ..................................................... 26 Cacau .................................................... 31 Cuia ...................................................... 37

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Cummandaassù .................................... 45 Cuttutirubá pag. .................................. 76

Cumandá-açu ........................................ 45 Cutitiribá .............................................. 76

[P. 189; em dupla coluna no original]

[P. 189; em dupla coluna no original]

Castagno pag. ..................................... 77 Cedro pag. ............................................ 88 Cumarù pag. ........................................ 97 Cuppauba pag. ..................................... 99 Cravo pag. .......................................... 101 Cingana pag. ..................................... 128 Cuggiubim pag. .................................. 132 Ciapim pag. ........................................ 134 Cugliarera pag. ................................. 136 Collombi pag. ...................................... 144 Cuttia pag. ......................................... 148 Coatti pag. ........................................ 150 Cuandù pag. ...................................... 151 Cappiuuara pag. ................................ 151 Corrallo pag. ....................................... 160 Coattimboia pag. ................................ 163 Cammaleonte pag. .............................. 165 Cocodrilo pag. ..................................... 165

Castanha[-do-pará] ............................. 77 Cedro ..................................................... 88 Cumaru ................................................ 97 Copaíba ................................................ 99 Cravo ................................................. 101 Cigana ................................................ 128 Cujubim ............................................. 132 Japiim .................................................. 134 Colhereiro ........................................... 136 Pombos ............................................... 144 Cutia ................................................... 148 Quati .................................................. 150 Cuandu ............................................... 151 Capivara ............................................. 151 Coral ................................................... 160 Coatimbóia ......................................... 163 Camaleão ............................................ 165 Crocodilo {Jacaré] .............................. 165

Birribas pag. [riscado] ........................ 15 Dourado pag. .................................... 179

Biribas pag. [riscado] .......................... 15 Dourado pag. .................................... 179

Erbaggi pag. ..................................... 115

Hortaliças .......................................... 115

Fauas seluaticas pg. ............................. 35 Fauas d’Impicios ................................... 36 Figos ................................................... 113

Favas silvestres ...................................... 35 Favas-de-impigem ................................. 36 Figos ................................................... 113

Ginipapo pag. ....................................... 3 Giniparana pag. ................................... 9 Guiava pag. .......................................... 10 Giuà pag. ........................................... 25

Jenipapo ................................................. 3 Jenipaparana ......................................... 9 Goiaba .................................................. 10 Juá ......................................................... 25

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Gialappa pag. ...................................... 36 Guaranà pag. ...................................... 43 Giassitara pag. ..................................... 60 Giuttai pag. ....................................... 103 Ginggias pag. ...................................... 110 [Garza] ............................................. 129 Guarà pag. ......................................... 135 Giacamin pag. ................................... 137 Guaribà pag. ..................................... 149

Jalapa .................................................... 36 Guaraná ............................................... 43 Jacitara .................................................. 60 Jutaí .................................................... 103 Ginjas ................................................ 110 [Garça] ............................................. 129 Guará ................................................ 137 Jacamim .............................................. 137 Guariba ............................................. 149

[P. 190; em dupla coluna no original]

[P. 190; em dupla coluna no original]

Giararaca pag. .................................. 160 Giboia pag. ......................................... 163 Guruggiubba pag. .............................. 168 Giachiraramboÿa pg. ......................... 187

Jararaca .............................................. 160 Jibóia ................................................... 163 Gurijuba ............................................. 168 Jaquiranambóia .................................. 187

Iggiò pag. .............................................. 7 Ingas pag. ...................................... 34: 74 [Iuarà] ............................................... 157 Irará pag. ........................................... 157

Iggiò ....................................................... 7 Ingás .............................................. 34, 74 Iuará ................................................... 157 Irara ................................................... 157

Loiro pag. ............................................. 86 Lontra pag. ........................................ 166

Louro .................................................... 86 Lontra ................................................ 166

Mamone Vrrana ................................. 41 Morrera braba .................................... 61 Maracuggià .......................................... 65 Massaranduba ..................................... 90 Marapautà ........................................... 91 Maraquitara ........................................ 94 Mairaggiuba ........................................ 95 Mangani ............................................ 102 Murapenim ........................................ 106 Mamone .............................................. 118 Muttù .................................................. 128 Maguari ............................................. 130

Mamorana ............................................ 41 Amoreira-brava ................................... 61 Maracujá .............................................. 65 Maçaranduba ...................................... 90 Marapautá [?] ..................................... 91 Muiraquatiara ...................................... 94 Muirajuba ............................................ 95 Mangues ............................................. 102 Muirapinima ...................................... 106 Mamão ............................................... 118 Mutum ............................................... 128 Maguari ............................................. 130

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Marecas .............................................. 130 Macacos .............................................. 149 Mucura ............................................... 152 Maracaggià ....................................... 157 Mamiacù ............................................ 170 Mapparas............................................ 176

Marrecas ............................................ 130 Macacos .............................................. 149 Mucura ............................................... 152 Maracajá ............................................ 157 Mamaiacu ........................................... 170 Maparás ............................................ 176

Nambù ............................................... 132

Nhambu ............................................. 132

Onza .................................................. 156 Ostras [Ostrie] .................................. 180

Onça ................................................... 156 Ostras [Ostrie] .................................. 180

[P. 191; em dupla coluna no original]

[P. 191; em dupla coluna no original]

Pimenta seluatica .................................. 18 Pucirì ..................................................... 23 Pichià .................................................... 42 Paù d’Arco............................................. 92 Paù Rosa .............................................. 94 Paù Rosso ............................................. 95 Pau Incarnato ...................................... 96 Paricà .................................................... 97 Paù Ferro ........................................... 107 Pauone ................................................ 124 Pica flore ............................................. 125 Passeri del Spirito Santo ................... 126 Pappagalli ........................................... 140 Piriquitos ............................................ 143 Paca .................................................... 154 Porcos .................................................. 155 Pigricia ................................................ 158 Pirrarara .............................................. 18 Pirarucù .............................................. 169 Pirauiua .............................................. 169 Pesce Boi ............................................. 171 Piragna .............................................. 175 Piramutaua ....................................... 177

Pimenta silvestre ................................... 18 Puxiri ................................................... 23 Piquiá .................................................... 42 Pau-d’arco ............................................ 92 Pau-rosa ................................................ 94 Pau-roxo ............................................... 95 Pau-encarnado ...................................... 96 Paricá .................................................... 97 Pau-ferro ........................................... 107 Pavão .................................................. 124 Beija-flor ............................................. 125 Aves-do-espírito-santo ........................ 126 Papagaios ............................................ 140 Periquitos ............................................ 143 Paca .................................................... 154 Porcos .................................................. 155 Preguiça .............................................. 158 Pirarara ............................................. 168 Pirarucu .............................................. 169 Pirajuba .............................................. 169 Peixe-boi ............................................. 171 Piranha .............................................. 175 Piramutaba ....................................... 177

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Pescadas .............................................. 177 Pirauna .............................................. 179 Purachi ............................................... 180 Paruamboÿa [Não consta do manuscrito] .......................................................... [187]

Pescadas .............................................. 177 Piraúna .............................................. 179 Poraquê .............................................. 180 Paruambóia.[Não consta do manuscrito] .......................................................... [187]

Quacingùa .......................................... 108 Quaxinga [?] ..................................... 108

Guaxinguba ...................................... 108 Quaxinga [?] ..................................... 108

Raia ...................................................... 18 Rodella ............................................... 171

Raia .................................................... 178 Rodela ................................................ 171

Sabbonettas .......................................... 17 Summauma incarnata ......................... 27 Sumauma bianca ................................. 28 Siringa .................................................. 39 Sorbas ................................................... 73

Sabonetes .............................................. 17 Sumaúma encarnada .......................... 27 Sumaúma branca ................................ 28 Seringa ................................................. 39 Sorvas ................................................... 73

[P. 192; em dupla coluna no original]

[P. 192; em dupla coluna no original]

Suppupira ............................................. 98 Sabbonettas [sic; Spongiettas] ........... 117 Saracura ............................................. 133 Savià ................................................... 159 Surucucù ............................................. 161 Saccamboia ......................................... 163 Sardine ............................................... 176

Sucupira ................................................ 98 Esponjeiras ......................................... 117 Saracura ............................................. 113 Sauiá .................................................. 159 Surucucu ............................................. 161 Sacaimbóia .......................................... 163 Sardinhas ........................................... 176

Tappiribas ............................................. 75 Tuccano .............................................. 123 Tein Tein ............................................. 126 Tamanduà .......................................... 146 Tattù .................................................. 153 Tuccunarè ........................................... 175 Tartarughe ......................................... 181 Tracaggias .......................................... 184

Taperebás ............................................. 75 Tucano ................................................ 123 Tem-tem .............................................. 126 Tamanduá ........................................... 146 Tatu .................................................... 153 Tucunaré .............................................. 175 Tartarugas ......................................... 181 Tracajás .............................................. 184

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


Vrrapari .............................................. 62 Vmarì ................................................... 79 Vmiri ................................................... 81 Vainiglia ............................................ 105 Vnacuaù ............................................ 131 Viado ................................................. 155

Arapari [?] ........................................ 62 Umari ................................................... 79 Umiri .................................................... 81 Baunilha ............................................. 105 Unacuau [?] ...................................... 131 Veado ................................................. 155

Fine

Fim

Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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Notas P. 1 (n. 1) e p. 104 . Caju – “Anacardium occidentale, Anacardiácea. O cajueiro é um arbusto ou pequena árvore de 3-8 m de altura e, quando adulto, o tronco tornase inclinado, tortuoso, com os ramos irregularmente orientados, alguns chegando mesmo a rastejar e enraizar no solo e assim ocupando extensa área, cujo exemplo típico é o célebre cajueiro de Pirangi, no R. G. do Norte. Esse exemplar, sozinho, ocupa uma área de mais de 7000 m2, sendo hoje ponto turístico obrigatório naquele Estado. As folhas são alternas, raro opostas, simples, coriáceas, em geral obovadas, de 6-25 cm de comprimento e 5-15 cm de largura, com o ápice arredondado e a base cuneada; nervuras laterais bem distintas, paralelas, formando ângulo em torno de 60º com a nervura central. A inflorescência é uma panícula pouco ramificada e os ramos formam ângulo de 90º com o eixo principal; flores hermafroditas e flores unissexuadas masculinas na mesma inflorescência; cálice com 5 pétalas triangulares, corola de 5-6 pétalas livres, linear-lanceoladas, reflexas e brancacentas na antese, depois avermelhadas, com estrias purpúreas longitudinais; estames 7-10, conatos na base e de comprimentos desiguais, tendo um bastante desenvolvido e exserto; ovário oblíquoobovado, unicarpelado, com um estilete robusto, subulado. O fruto (castanha) é um aquênio reniforme de 3-5 cm, com mesocarpo resinoso, preso a um pedúnculo espessado e carnoso (pseudofruto) de cor amarela ou vermelha e tamanho variado” (Cavalcante, 1988: 69). Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

P. 2. Falta na coleção de fotos do MS de Landi feita por Meira Filho, depositada no Museu Paraense Emílio Goeldi. Nela consta o fim da descrição do cajueiro. P. 3 (n. 2). Jenipapo – Nas fotos do MS de Landi da coleção Meira Filho, no Museu Paraense Emílio Goeldi, falta a página 3, com o início da descrição; essa página tampouco consta do livro de Meira Filho de 1976. Sousa (1999: 262) cita uma parte desse texto, da seguinte maneira: “Ginipapo É arbore che cresce assai alta. Le sue foglie si conoscono da lontano, per essere lunghe, appuntate, e di verde chiaro. Li fiore sono picole e da niuna apparenza. Li frutte, sono come un grosso limone, ma liscie, e terminano in punta. Abbonda di molto, e solamente si mangiano quando cadono... il suo gusto non mi piace nulla, e tiene un odore...”. Em tradução: “Jenipapo É árvore que cresce bastante alto. Suas folhas conhecem-se de longe, por serem longas, pontudas, e verde-claras. As flores são pequenas e de aparência medíocre. Os frutos são como um pequeno limão, mas lisos, e terminam em ponta. É muito abundante, e só se comem quando caem... seu gosto não me agrada de maneira alguma, e tem um odor...”. Landi trata aqui da “Genipa americana, Rubiácea. Pequena árvore, cerca 189


de 5-15 m, às vezes até 20 m de altura, sendo mais comum o porte entre 8-12 m; tronco geralmente reto, casca pouco espessa, lisa, verde-acinzentada; ramificação verticilada, abundante, ramos inferiores geralmente horizontais. Folhas simples, opostas, decussadas, adensadas na extremidade dos ramos, com estípulas interpeciolares largamente triangulares; limbo cartáceo, obovado ou oblongo-obovado, 10-35 cm de comprimento, base cuneada, face superior verde-escura e brilhosa. Flores dispostas em pequenas inflorescências subcimosas, terminais ou subterminais; cálice tubuloso-campanulado, minutodentado; corola branca ou amarelada, ligeiramente perfumada, cerca de 2-4 cm de altura, com 5 pétalas soldadas na metade basal; estames 5, com filetes curtos inseridos no tubo da corola, anteras lineares biloculares. Fruto, uma baga subglobosa ou ovóidea cerca de 1012 cm por 7-9 cm, pesando entre 200400 g, conservando, no ápice, restos do tubo do cálice; pericarpo pardoamarelado, esponjoso, cerca de 1,5 cm de espessura, polpa sucosa, ácida porém doce, envolvendo numerosas sementes achatadas; o pericarpo e a polpa exalam um cheiro ativo, bastante característico. (...). O fruto do jenipapeiro só deve ser consumido bem maduro, quando o pericarpo apresenta-se amolecido e deformando-se com o manuseio. Para o consumo in natura deve-se adicionar açúcar à polpa para suavizar a acidez. Mas o consumo tradicional do jenipapo é sobretudo na forma de licor, muito apreciado, e da famosa jenipapada do Nordeste, prestando-se ainda para refrescos, vinhos, xarope e doces

cristalizados. O fruto ainda verde fornece um suco amarelado que vai gradativamente escurecendo, até tornarse azul-escuro ou quase preto, muito usado pelos índios para as suas pinturas. A madeira, de cor branco-marfim, embora não sendo ‘de lei’, é das melhores e de múltiplas utilidades e fácil de ser trabalhada, servindo para a fabricação de formas para sapato, raquetes, colheresde-pau, tamancos, cabo de ferramentas, coronha de espingarda, para gravuras, entalhes e muitos outros objetos de uso doméstico” (Cavalcante, 1988: 146-147).

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

Pp. 4-7 (n. 3). Café – Coffea arabica L., da fam. das Rubiáceas. Sobre a introdução do café no Pará por Francisco de Melo Palheta, ver Papavero, Teixeira & Overal (2002). P. 7 (n. 4). Iggiò [e Cipó-una] – Não conseguimos atinar a qual planta Landi se refere sob “iggiò”. Quanto ao “cipóuna”, só conseguimos descobrir uma referência em Le Cointe (1947: 149), que coligiu esse nome na zona de Óbidos, no Pará, dado a uma planta não identificada, cuja “raiz é um tubérculo alongado; serve para preparar uma tinta preta”. A “vidalpa” citada por Landi, em italiano moderno “vitalba”, é a Clematis vitalba, em português “clêmatis” ou “clematite”; o gênero Clematis inclui plantas ornamentais da fam. das Ranunculáceas, por vezes trepadeiras, de folhas opostas, pecíolos rígidos, caniculados e violáceos na base, com grandes e numerosíssimas flores asteróides, de tom róseo ou violáceo (Ferreira, 1999: 485).


Pp. 7-9 (n. 5). Ata – A espécie foi identificada por Cavalcante (in Meira, 1976: 194) como Anona densicoma, Anonácea. Sobre esta espécie diz Cavalcante (1988: 45, sob “araticum-domato”): “Arbusto de tronco fino, 2-6 m de altura, às vezes chegando a 10 m. Folhas cartáceas, nervuras laterais delicadas contendo domácias (pequenas bolsas) no ângulo com a nervura central. Flores isoladas, de cor ferrugínea (...). Fruto ovóide, cerca de 10 cm por 6 cm, polpa doce, de sabor regular, porém perfeitamente comestível. (...). De acordo com registros de herbário floresce e frutifica entre os meses de setembro e março”. A observação de Landi (p. 9) de que “Tenho observado que nas folhas desta planta fazem seu ninho certas pequeníssimas mosquinhas, que ali formam um labirinto como que cabelos branquíssimos e de tal forma entrelaçados que é uma maravilha e que esmagadas com os dedos, reduzem-se a diminutíssima poeira” (“Ho osservato, che nelle foglie di questa Pianta ui fano il nido certi picolissimi muschini, li quali ui formano un laberinto come di capelli bianchissimi, e totalmente intrecciati, che è una merauiglia e stritolati con le deta, se riducono in minutissima polvere”) é interessantíssima, pois parece tratar-se da mais antiga referência conhecida no Brasil às minas causadas por lar vas de moscas da fam. Agromyzidae, que comem o parênquima das folhas entre as duas cutículas (superior e inferior), ocasionando justamente os desenhos capilariformes intrincados descritos por Landi.

Pp. 10-12 (n. 7). Goiaba –. “Psidium guajava, Mirtácea. Pequena árvore atingindo 10-12 m na fase adulta quando estabiliza o crescimento em altura; caule irregular, tortuoso, esgalhando-se a baixa altura e muito ramificado; ramos jovens verde-claros, quadrangulares, copa relativamente rala; casca fina, lisa, marrom-esverdeada, freqüentemente se esfoliando. Folhas simples, opostas, curtamente pecioladas; limbo subcoriáceo, elíptico, 5-15 cm de comprimento, 4-6 cm de largura, ápice obtuso, agudo ou subacuminado, base obtuso-arredondada; nervuras laterais conspícuas, retas e regularmente paralelas. Flores axilares, solitárias; hipanto (base da flor, formada pelo receptáculo com o ovário incluso) tubuloso-intumescido, prolongado no alto pelas sépalas, espessas e branco-esverdeadas; pétalas 45, brancas, arredondadas e caducíssimas;

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P. 8. “fiori di Late” - traduzimos tentativamente por “copo-de-leite”. P. 9 (n. 6). Jenipaparana – “Árvore da família das lecitidáceas (Gustavia augusta). De flor grande, alva e rósea, e cuja madeira, branca e flexível, é us. em marcenaria” (Ferreira, 1999: 1159). Ferreira (l. c.) também menciona a “jenipaparanada-mata”, “ár vore da família das lecitidáceas (Gustavia brasiliana), da região amazônica, de madeira dura, útil para vários fins, folhas oblongas, acuminadas, coriáceas e serrilhadas, flores vistosas, alvas, com estames soldados, e cujo fruto é um pixídio globoso e crasso”. P. 10 (n. 6) - Filipo (em ital. mod. filippo): filipe - Antiga moeda de prata.


estames numerosos, delicados e brancos; ovário ínfero, com 4-5 lóculos multiovulados. Fruto, uma baga arredondada, ovóidea ou piriforme de tamanho variável, casca esverdeada ou amarela e mesocarpo também variável conforme o cultivar; sementes numerosas, cremes, tegumento ósseo, envolvidas pela placenta, carnosa e também comestível. (...). A goiaba é muito apreciada ao natural, e quando bem madura tem polpa doce, aromática, com regular quantidade de ácidos, açúcares e pectinas. É uma das mais ricas fontes de vitamina A, B e C. Seu principal emprego é na indústria de doces, compotas, geléias, sucos, sorvetes, etc. A casca da planta, as folhas e principalmente os brotos, são ricos em tanino, tendo emprego na medicina caseira como antidiarréico e contra a hemoptise. A frutificação da goiabeira ocorre em dois períodos do ano: de abril a junho ou julho e de novembro a janeiro ou fevereiro, e neste período a produção é menor; nos intervalos desses períodos podem ocorrer pequenas frutificações” (Cavalcante, 1988: 108-109). Nesta passagem (p. 12), Landi referese aos “bichos-de-goiaba” (“queste frutta sono assai uerminose”), sendo esta também a mais antiga referência conhecida no Brasil às larvas de dípteros da fam. Tephritidae (principalmente do gênero Anastrepha), que “bicham” as goiabas e muitas outras frutas.

Pp. 13-15 (n. 8). Cupuaçu – “Theobroma grandiflorum, Esterculiácea. Pequena

árvore de 4-8 m (nos indivíduos cultivados), ou até 18 m de altura (nos indivíduos silvestres, na mata alta); tronco geralmente reto com a casca marromescura, fissurada, ramificação tricotômica, ramos superiores ascendentes, os inferiores horizontais, ambos com ritidoma esfoliando. Folhas simples, inteiras, subcoriáceas, 25-35 cm de comprimento por 6-10 cm de largura, com maior amplitude de variação entre 15-60 cm por 5-16 cm respectivamente (...); lâmina oblonga ou oblongoobovada, atenuada, ápice abruptoacuminado, base obtusa ou arredondada, glabra, verde e sub-brilhosa na face superior e verde-glauco ou róseo-pálido na face inferior, com um delicado revestimento de pêlos entrelaçados; nervuras laterais 9-10 pares, acentuadamente dirigidos para o ápice do limbo, o par inferior em ângulo mais agudo; nervuras terciárias transversais e subparalelas. Inflorescências cimulosas de 3-5 flores ou mais; pedúnculos curtos, espessos, com 3 bractéolas estreitolineares; cálice com 5 pétalas espessas, triangulares, livres ou parcialmente unidas; corola, 5 pétalas, cada uma com sua base em forma de cógula e a parte superior laminar, subtrapezoidal ou suborbicular, de cor roxo-escura, ligada à cógula por uma porção estreitada em forma de calha, estaminódios 5, petalóides, triangular-linguiformes, vermelho-escuros; estames 5, localizados no interior da cógula com três anteras biloculares; ovário pentagonal, obovado, com 5 lóculos multiovulados. Fruto drupáceo ou bacáceo (tipo não definido morfologicamente), de forma elipsóidea ou oblonga, com as extemidades obtusas

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P. 12 (n. 7[bis]). Anon. [P. 13]. Impossível de identificar.


ou arredondadas, variando de 12-25 cm de comprimento e 10-12 cm de diâmetro, pesando ate 1500 g; epicarpo rígido, lenhoso, com epiderme verde, recoberta por um indumento ferrugíneo, pulverulento, que se vai desprendendo com o manuseio do fruto; mesoendocarpo branco-amarelado cerca de 7 mm de espessura; sementes em número de 20-50, superpostas em 5 fileiras verticais, cada semente envolvida por copiosa polpa delicadamente fibrosa branco-amarelada, de sabor acidulado e cheiro característico, agradável. Na maturação os frutos caem sem o pedúnculo, ocasião em que exalam o cheiro característico, o que indica a perfeita maturação dos mesmos. (...). Come-se o cupuaçu de várias maneiras, sendo a menos preferida o consumo da polpa, diretamente in natura. O uso mais popular é em forma de refresco, que algumas pessoas preferem misturado com farinha de mandioca. Existem ainda muitas outras formas de utilizar o cupuaçu, como o saboroso sorvete [profetizado pelo guloso Landi...], de grande preferência local, bem como o picolé, e mais: doce em pasta, doce sólido tipo salame, balas com recheio de cupuaçu, bolos e tortas com sabor de cupuaçu, pudim, creme nevado, suco concentrado, licor e geléia” (Cavalcante, 1988: 80-91). Pp. 15-16 (n. 9). Biribá – “Rollinia mucosa, Anonácea. Pequena árvore de 6-10 m, com os ramos alongados, os mais finos nodulosos na região das cicatrizes foliares. Folhas alternas, dísticas, em forma de calha, elíptico-oblongas, cerca de 12-15 cm (maiores nos indivíduos

jovens), ápice acuminado e base obtusoarredondada; nervuras laterais uniformes paralelas, arqueadas para o ápice. Flores solitárias ou aos pares, extra-axilares, de cor verde-claro e de um cheiro muito característico; pedúnculo, cerca de 2 cm, engrossado do meio para cima; cálice plano, triangular, formado de 3 sépalas soldadas na extrema base; corola com 6 pétalas, 3 externas espesso-carnosas e comprimidas lateralmente ligadas na base onde formam um reduzido tubo anular, alternando-se com outras 3, internas, rudimentares e subtriangulares; estames numerosos, cerca de 1 mm de altura, conectivo peltado acima da antera; carpelos numerosos, uniloculares e uniovulados, aderentes uns aos outros por um líquido viscoso; estilete densopiloso, com o estigma volumoso, capitado. Fruto, um sincarpo bacáceo, ovóide ou globoso, formado pelos vários carpelos que se tornaram carnosos e se soldaram durante o desenvolvimento do fruto; casca espessa, amarela, munida de saliências carnosas e escamiformes; polpa branca, abundante e sucosa; sementes numerosas, pardo-oliváceas, oblongoobovadas, com uma carúncula na base. O peso de um fruto alcança até 1.300 g e as dimensões a 14 cm de altura e 16 cm de diâmetro na parte mais larga. (...). O biribá é uma das fruteiras mais populares e mais cultivadas nos pomares domésticos de toda a região. Isto deve-se à facilidade com que suas sementes germinam espontaneamente desenvolvendo plantas vigorosas, principalmente nos quintais onde é depositado o lixo doméstico, o qual se transforma em excelente adubo orgânico, o que proporciona ao biribazeiro um crescimento rápido,

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passando a frutificar por volta dos 4 anos. A polpa do biribá é de sabor suave e adocicado, sendo consumida essencialmente no estado natural, embora, ocasionalmente, seja utilizada na fabricação de sorvete e sucos. (...). Floração: de julho a setembro. Frutificação: de novembro a maio. Mudança das folhas: ocorre entre julho e setembro. Em Belém os frutos podem aparecer esporadicamente nas feiras ao longo do ano, porém a safra normal é de janeiro a maio” (Cavalcante, 1988: 57-58). Pp. 16-17 (n. 10). Abacate – “Persea americana var. americana, Laurácea. O abacateiro é uma árvore de porte médio ou pequeno, geralmente de 10-20 metros nos indivíduos espontâneos produzidos de sementes, porém bem menores nas variedades selecionadas por enxertia. Tronco fino, casca áspera e copa relativamente pequena. As folhas são alternas, pecioladas, de formas variadas e dimensões entre 10 a 30 cm de comprimento, geralmente largo ou estreito-elípticas, cartáceas ou subcoriáceas, glabras, com 6 a 9 pares de nervuras laterais. Flores pequenas, até 8 mm de altura, dispostas em panículas terminais ou subterminais, fulvoamareladas, cálice e corola amareloesverdeados, indiferenciados, referidos como um perianto duplo de flor homoclamídia; estames em número de 9 dispostos em quatro verticilos denominados, de fora para dentro, de séries I, II, III e IV, sendo esta última formada de estaminóides largamente sagitados; anteras quadriloculares, de deiscência valvar; ovário pubescente, subloboso ou ovóide, unilocular, com 194

um óvulo pêndulo. O fruto é uma baga monospérmica ovóide ou piriforme, solitário e pendente na ponta dos ramos devido ao seu considerável peso, e muito variável no tamanho e na cor, podendo alcançar 15 a 20 cm de comprimento e pesar até 1500 gramas. O tipo regional mais comum, de plantas não selecionadas, ou de pé franco, é o chamado ‘abacate de pescoço’, de casca verde, às vezes roxa. A polpa do fruto maduro é de cor amarelo-esverdeada, ou creme, de consistência butirosa e envolve uma única semente oviforme ou globosa com dois cotilédones espessos e hemisféricos. (...). Parece que o Brasil é o único país do mundo onde o abacate é consumido essencialmente como sobremesa, à base de açúcar e leite, na forma de sorvetes, vitaminas, creme, etc. Em outros países essa fruta é consumida como um alimento (e não como sobremesa) temperado com sal e outros ingredientes.” (Cavalcante, 1988: 14-15). P. 16.”Battochie” - em italiano moderno “battaglio” - badalo (de sino). P. 17 (n. 11). Sabonete – [Pp. 17-18]. “Saboeiro”: “Planta da família das sapindáceas (Sapindus saponaria), de ampla distribuição, com folhas penadas, flores alvas, pequenas, frutos e casca ricos em saponinas e que espumam intensamente em água, e sementes que contêm 20 a 30% de óleo; sabão-de-macaco, sabãode-soldado, saboneteiro, sabãozinho, salta-martim, jequitiguaçu”” (Ferreira, 1999: 1793). Também chamada “sabão”, “saboneta”, “saboneteiro” ou “saboaeiro” (A. J. de Sampaio, 1934: 57). Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


Corrêa (1984(V): 2) assim se refere a esta mesma espécie: “Árvore pequena. Até 8 m de altura; folhas compostas, pinadas, folíolos oblongos, lanceolados, agudos, inteiros, membranáceos, glabros; flores brancas, dispostas em panículas; fruto contendo sementes esféricas, pretas, duras. América intertropical. - Árvore elegante e decorativa, de crescimento rápido. (...). A madeira é boa e bonita. Os frutos servem para lavar roupa, por conterem saponina. As sementes são empregadas na indústria caseira, na confecção de rosários, colares, suportes para pratos, etc. Além disso as crianças usam-nas em substituição às bolinhas de vidro, no chamado ‘jogo de gude’. As sementes encerram uma amêndoa oleaginosa, com sabor semelhante ao da avelã. Sin.: saboeiro, sabão-de-macaco, sabão-de-soldado, saboneteira, saponária, pau-de-sabão, jequitinguaçu (no Rio Grande do Sul), jequiriti (no Pará), fruta-de-sabão (em Minas Gerais).” Le Cointe (1947: 424) acrescenta ser vegetal que medra na várzea argilosa do baixo Amazonas, ou na argila fértil da terras altas (rio Branco de Óbidos, Alenquer); que a casca e a polpa dos frutos contém saponina e são ictiotóxicas; a proporção das saponinas contidas nos frutos é de 66,25% do peso da polpa seca, ou 31,13 % do peso do fruto seco inteiro; as sementes são oleaginosas: 23-30% do óleo próprio para saponificação; a casca (fruto, haste, raiz), em infusão, é usada contra leucorréias e uretrites; cita também guiti como sinônimo. P. 18 (n. 12). Pimenta silvestre – Não identicável.

Pp. 19-20 (n. 13). Carajuru - Arrabidea chica (Bignoniáceas). Segundo Corrêa (1984(II): 31-32), é “Trepadeira de ramos cylindricos e glabros emquanto jovens, depois tetragonos, lenticelladoverrucosos e estriados; folhas pecioladas, compostas de 2 ou 3 foliolos com um cirrho intermedio simples e terminal; foliolos peciolados, oblongos, oblongolanceolados ou ovado-lanceolados, raramente ovados e quasi sempre curtoagudo-acuminados, obtusos na base, glabros nas duas paginas, coriaceos, reticulado-venosos, discolores ou concolores; calice densamente pulverulento; flores campanuladoinfundibuliformes, roseas ou violaceas ou purpureo-brancacentas com fauce branca, avelludadas, dispostas em panicula terminal, pyramidal, frouxa, até 22 cm de comprimento; fructo capsula linear, alongada, aguda dos dous lados e com uma nervura média saliente nas valvas, glabra, castaneo-ferruginea; sementes ovoides. - As folhas, submettidas a fermentação e manipuladas como as da anileira, fornecem materia corante vermelhoescuro ou vermelho-tijolo (‘vermelho carajuru’, ‘vermelho de chica’, ‘vermelhão americano’), isomero do acido anisico, insoluvel na agua e soluvel no alcool e no oleo, desde tempos immemoriaes usada pelos aborigenes para se pintarem e adornarem, assim como para tingirem seus enfeites, utensilios e vestuarios, bem como para a tatuagem; durante longos anos acreditou-se que os indios a misturavam à casca de uma planta chamada arayana, até hoje desconhecida. Nos tempos coloniaes e mesmo até há uns 20 annos atraz, ou pouco mais, a

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exportação desta materia constituiu um pequeno commercio, que foi decahindo e hoje é muito restrito ou quasi nullo; é interessante, porém, que, a despeito da larga distribuição geographica da planta, a sua exploração industrial e consequente exportação do produto, só foi feita pelo porto de Manáos. Os bichos de seda alimentados com as suas folhas produzem seda vermelha. - É planta mellifera e muito ornamental, digna de cultura nos nossos jardins; foi introduzida nas estufas da Europa há mais de 60 annos. - Diz-se que a materia tintorial, applicada topicamente, combate as empingens e outras enfermidades da pelle, principalmente para a lavagem de feridas e ulceras de mau caracter; usada internamente é util contra as colicas intestinaes, diarrheas sanguineas e enterocolites, certamente devido à sua adstringencia. (...). Sin.: chica, cipó-cruz, coápiranga, guajuru, guarajuru-piranga, oajuru, piranga.” Le Cointe (1947: 120) dá ainda como sinônimo pariri; diz que “das folhas secas extrai-se, por maceração (fermentação seguida de ebulição), uma tinta vermelha; é um pó encarnado insolúvel em água, solúvel no álcool, no éter e no azeite; com ele e com azeite de andiroba, os índios faziam as suas pinturas nas faces e no corpo; a tinta e as folhas são usadas contra a disenteria e as empingens.

P. 23 (n. 15). Algodão-de-periquito – Talvez seja alguma das espécies de terra

firme conhecidas por “algodão-bravo”, “periquiteira” ou “piriquiteira”, identificadas por A. J. de Sampaio (1934) como Cochlospermum orinocense (Cochlospermaceae), Buchenavia oxicarpa (Combretaceae) e Bixa arborea (Bixaceae). O Cochlospermum orinocense, também chamado “piriquiteira-damata”, “piriquiteira-da-terra-firme” e “pacoté”, de acordo com Corrêa (1984 (V): 504-505), é “Árvore de 15 metros de altura; folhas com 5-7 folíolos, digitada; folíolos lanceolados, ápice atenuado-acuminado e mucronado, base atenuada, margem inteira, face superior glabra e inferior pilosa nas nervuras; panículas terminais de 5-10 flores, pedicelos tomentosos, cálice de 15-18 mm de comprimento, tomentoso; pétalas oboval-cuneadas, incisoemarginadas; estames livres, anteras oblongas, ápice biporoso. Amazônia. Fornece madeira leve, pouco utilizada. Casca útil contra as contusões”. Le Cointe (1947: 390) também fala desta espécie. Sobre a “periquiteira” (Buchenavia oxicarpa) comenta Corrêa (1984 (V): 446447): “Árvore de 6-9 metros de altura, ramos à altura de 2,4-3 metros, formando copa hemisférica; râmulos delgados, freqüentemente verticais; folhas 4-8 nas sumidades dos ramos, 510 cm de comprimento, 2,5-3,7 cm de largura; pecíolos de 4-12 mm, ora glanduloso ora dotado de pequeninas glândulas pares; inflorescência em espigas laxifloras; flores de 3-4 mm de diâmetro; estames alternadamente inclusos ou semiexsertos; fruto drupa, muito pequena. Brasil equatorial (Amazônia)”. Correa (p. 447) cita também outra espécie, Buchenavia

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Pp. 21-22 (n. 14). Algodão – “Cada uma das plantas do gênero Gossipium que produzem o algodão, e das quais a espécie mais cultivada é o Gossipium herbaceum” (Ferreira, 1999: 96; sob algodoeiro)


ochroprumma, chamada “periquiteira-doigapó”, caracterizada por “gemas rubiginoso-tomentosas; folhas obversolanceoladas obtusas, atenuadas no pecíolo glanduloso, coriáceos na maturidade, opacas nas duas faces, pálidas na inferior; pedúnculos ferrugíneo-pubescentes; fruto drupa. Pará”. Quanto à Bixa arborea (Bixaceae), conhecida também por “urucu-damata” ou “urucurana-da-mata”, diz Corrêa (1984 (VI): 359): “Árvore de 1015 metros de altura e 20-30 cm de diâmetro; folhas longo-pecioladas com o limbo oval, base arredondada e ápice acuminado, glabra; panícula terminal tomentosa com o eixo de 3 mm de grossura e os ramos de 2-3,5 cm de comprimento, bibracteolados no meio com 1-2 flores, pedicelos com 1 cm de comprimento; cálice, corola e estames semelhantes à B. orellana; ovário globoso, curto, acuminado, densamento coberto de escamas ocráceas, estilete de 18 mm de comprimento; cápsula reniforme de 5,5 cm de largura e 3,5 cm de altura, rugosa, papilosa, com o ápice curtamente apiculado, loculícida e bivalva; sementes obovais”.

dispostas em fascículos racemosos; fruto drupa elítica. - Espontânea na região do rio Negro, Amazônia. - A ‘fava’ (semente) fortemente aromática, é usada nas farmácias, tônica e estimulante. Usada na dispepsia, diarréia, leucorréia e contra o meteorismo. As sementes são usadas também como condimento [como já assinalado por Landi]. Fornece madeira de cor amarelo-parda, boa para construção naval, marcenaria e carpintaria (densidade 0,63). - Sin.: louro-puxuri, pixurim, puxurim, puxuri”.

Pp. 23-14 (n. 16). Puxiri – ou Pixurim. “Árvore da família das lauráceas (Licaria puchurymajor), da floresta pluvial, cujos frutos contêm uma semente que encerra 2,5% de um óleo volátil rico em safrol e eugenol, além de gorduras”. O fruto dessa árvore é também chamado noz-dopará (Ferreira, 1999: 1581, sob pixurim). Corrêa (1984 (V): 541; sob puchuri-grosso), comenta: “Árvore, folhas opostas elíticas ou oval-oblongas, glabras. Flores

P. 25 (n. 17). Giuá - Juá - Na escrita de Landi, este nome mais parece ler “girà” que “giuà”, mas pela curta caracterização da planta, deve ser mesmo “giuà” (juá), e provavelmente a espécie Solanum stramonifolium (= S. grandiflorum), da família das Solanáceas, a espécie mais comum em Belém e arredores. Corrêa (1986 (III): 325-326, sob “fruta de lôbo”), assim caracterizou esta espécie: “Arbusto lenhoso ou árvore pequena, até 5 m de altura, caule ereto e cilíndrico, inerme ou aculeado (principalmente na base), ramosíssimo, piloso-tomentoso ou lanuginoso; acúleos grandes, retos ou curvos; ramos e fôhas aculeados; fôlhas pecioladas, pecíolo crasso, de 5 cm, alternas, ovadas até ovado-elíticas, ineqüiláteras na base, oblíquas, reviradas, até 20 cm de comprimento e 12 cm de largura, sinuado-angulosas, às vêzes inteiras, fulvo-híspidas na página superior (pêlos estreliformes curtos e rígidos), lanosas na página inferior e com as nervuras primárias salientes; flores curto-pediceladas, azuis, com corola angulosa de 10 cm de diâmetro, dispostas em cimeiras racimosas escorpióides,

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simples ou bífidas, terminais ou extrafoliáceas; cálice 5-partido com lacínias lanceoladas; fruto baga globosa, amarela, pêndula, lanuginosa, até 12 cm de diâmetro. - Os frutos, pelo seu grato aroma de maçã, pelo seu tamanho e pela abundante polpa adocicada que contêm, sempre interessam os sertanejos, cuja opinião entretanto diverge, uns considerando-os comestíveis e inofensivos, quando bem maduros, outros suspeitando-os nocivos e até venenosos. (...). - Amazonas até S. Paulo, Minas Gerais e Goiás. - Sin.: fumo-bravo, jurubeba-grande, no Pará; Loreira, em Minas Gerais”. Por outro lado, pode ser também Solanum toxicarium, da mesma família, que Corrêa (1986 (IV): 553, sob “juá”), assim descreve: “Arbusto com ramos mais ou menos crassos, subflexuosos, cilíndricos, tomentosos e armados de acúleos ora uncinados, ora retos e cônicos; fôlhas superiores geminadas, oval-subcordiformes, lobadas, com lobos mais ou menos agudos, subtriangulares, tomentosas na página dorsal e escabras na página ventral; pilosidade constituída de pêlos estrelados; nervuras primárias e vênulas providas de acúleos longos, acerosos, comprimidos e retos; pecíolo armado; cimeira escorpióide multiflora, tomentosa, congesta, com pedúnculo curto, opositifólio; cálice semigloboso, dividido em 5 lobos curtos, arredondados e apiculados; corola azul celeste, dividida profundamente em 5 lacínios ovallanceolados, recurvados, tomentosos no dorso; antera oblongo-lanceolada, glabra; filetes muito curtos; ovário híspido; estilete glabescente; estigma subcapitado, pubescente; fruto baga globosa,

tomentosa. (...). - Amazônia. - Sin.: jurubeba-do-campo”. Apesar de este autor não mencionar ser o fruto dests espécie comestível, diz Rodrigues (1989: 116, sob “juá”), entretanto: “Tem frutos pequenos, dispostos em cachos como as uvas, e são adocicados e comestíveis, assemelhando-se um pouco ao camapu”.

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P. 25 (n. 18). Cebola-brava – Nome aplicado a duas espécies da fam. Guttiferae: Clusia insignis e Clusia grandiflora (Sampaio, 1934: 20). Corrêa (1984 (II): 170-171) comenta: “Clusia insignis, da familia das Guttiferaceas. – Planta epiphyta emquanto jovem, depois terrestre, munida de raízes adventicias, tornando-se finalmente arvore regular, até 6 ms. de altura; folhas longopecioladas, grandes; flores muito grandes, pedunculadas 2-3, aromaticas, roseas ou brancas exteriormente e vermelho-escuro interiormente; fructo capsula comestivel, identica na fórma á cebola commum e no tamanho e na côr a uma laranja. – Fornece madeira, decerto sem importancia, mas a qual, durante algum tempo, foi pelos Franceses considerada como ‘bois de Pacouri’, ou, melhor dizendo, como uma das especies que forneciam a madeira deste nome. O succo, amarello-avermelhado e resinoso, que a planta exsuda, principalmente das flores, passa por ter qualidades purgativas e drasticas, servindo para compôr, com a ‘manteiga de cacáo’, um unguento vulnerario muito util para tratar as fendas ou rachas dos seios, virtude medicinal cujo conhecimento parece haver sido transmittido pelos aborigenes aos caboclos. – As flores são muito bonitas e a planta é bastante ornamental, sendo


por esta única razão cultivada nas estufas da Europa; as raízes aereas nascem entrelaçando-se na planta-supporte e acabando por asphyxial-a - Tem a variedade hoffmanseggiana (C. flava, C. hoffmanseggiana), de fructos mais crassos (35 mm). Vegeta de preferencia em terrenos arenosos e permeaveis. – Amazonia. Syn.: Apuí, Mata-pau (nome peculiar a varias especies da familia das Moraceas)”. Le Cointe (1947: 42) cita também como sinônimos guapoí e cebolagrande-do-mato. P. 26 (n. 19). Continhas – Landi referese aqui às Leguminosas Papilionáceas do gênero Ormosia, mais conhecidas como “tento’, de sementes muito duras e grandes, geralmente de cores vivas, freqüentemente vermelhas e algumas vezes com manchas pretas, que servem para marcação de jogos carteados e para confecção de colares, rosários e outros adornos, no artesanato doméstico. Corrêa (1984 (VI): 218-223) cita, sob “tento”, as espécies Ormosia cuneata, O. getuliana, O. holoerythra, O. paraensis, O. santaremensis, O. stipularis, O. subsimplex e O. trifoliolata. Sob “tento-preto” as espécies Ormosia excelsa e O. macrocalyx. A espécie Pithecolobium trapezifolium, das Leguminosas-Mimosáceas, constitui o “tento-azul”, também conhecido como “contas-de-nossa-senhora” (Sampaio, 1934: 23), e “lágrimas-de-nossasenhora”. A Ormosia nitida é o “tentogrande”, conhecido como “olho-deonça”, “jandu”, “olho-de-cabra” ou “olho-de-pato” no Sul. O ‘tento-grandeda-várzea” é a espécie Ormosia amazonica. Finalmente, temos o “tento-preto”, Ormosiopsis flava, de sementes vermelhas Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

ou pretas, unicolores com exceção do hilo branco. Le Cointe (1947: 460-462) também trata dessas várias espécies. P. 26 (n. 20). Cubio – “Arbusto da família das solanáceas (Solanum sessiliflorum), de cujo fruto se faz doce” (Ferreira, 1999: 588). Corrêa (1984 (II), sob “cobio-do-pará”, diz: “Planta de ramos cylindricos, acinzentadoferrugineos, tomentosos, inermes ou armados de poucos aculeos; folhas curtopecioladas (peciolo cylindrico e aculeado), subcordiformes, sinuado-angulosas, até 24 cm de comprimento, ciliadas, inermes ou quase inermes, reticulado-nervadas, nervuras salientes na pagina inferior, tomentoso-sericeas nas duas paginas, tendo ainda pêllos sedosos estrellados e radiados na pagina inferior, ferrugineas emquanto jovens; flores sesseis, extrafoliaceas, de corolla tomentoso-sericea, dispostas em glomerulos de 3-4; ovario hirsuto; fructo baga. – As folhas (segundo Caminhoá) e os fructos são comestiveis após cocção, tendo estes emprego especial para conservas, doces e compotas. - Amazonia”. Ver também Le Cointe (1947: 163). Pp. 27-28 (n. 21). Sumaúma encarnada – Corrêa (1984 (VI): 157-158) registra três espécies de Bombacáceas, chamadas “sumaúma” ou “sumaumeira” [Ver também Le Cointe (1947: 440-441]: 1. Sumaúma - Ceiba sumauma – “Grande árvore, até 33 m de altura, caule fortemente aculeado; folhas digitadas, com 5-8 folíolos oblongo-lanceolados, inteiros (serreados no ápice), glabros; flores amareladas, grandes, até 10 cm; fruto cápsula oval-oblonga, escura, glabra, 199


contendo as sementes envoltas em abundante paina branca, sedosa e luzidia. – Habita a região do alto Amazonas. – A paina é usada no enchimento de colchões, almofadas e na preparação de feltro para chapéus. As sementes são oleaginosas”. 2. Sumaumeira - Ceiba pentandra. “Árvore grande, com raízes tabulares ou sapopemas, ramos verticilados e mais ou menos armados de acúleos fortes, solitários ou geminados; folhas longopecioladas (até 28 cm), digitadas; folíolos 5-7, curto-peciolados ou oblongos, inteiros ou serreados, glabros na parte superior, pálidos na página inferior; flores brancas, campanuladas, com pétalas de 3 cm, fruto cápsula fusiforme, grande (até 30 cm de comprimento por 5 de diâmetro), amarelado-ferrugínea, com filamentos sedosos, brancos ou pardacentos, envolvendo as sementes (paina). – Brasil equatorial e Guianas”. 3. Sumaumeira-da-terra-firme – Bombax globosum. “Árvore pequena ou média, inerme; folhas digitadas, 3-5 folíolos sésseis ou curto-peciolados, lanceolado-ovais ou obovais-oblongos; flores numerosas, pequenas, com pétalas pubescentes; fruto cápsula de 4 cm de diâmetro, globosa, glabra, luzidia, amarelo-ferrugínea, contendo abundante paina amarela. – Habita na terra firme da região amazônica, em campos cerrados ou em mata baixa com solo arenoso. – Madeira branca e mole. A paina que envolve as sementes (filamentos muito curtos) é de cor avermelhada e ótima para enchimento de colchões e travesseiros.” Esta última deve ser a “sumaúma encarnada” de Landi, sendo sua “sumaúma branca” provavelmente a segunda espécie vista acima.

Pp. 28-31 (n. 22). Sumaúma branca – Ver nota anterior.

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Pp. 31-34 (n. 23). Cacau – “Theobroma cacao, Esterculiácea. Pequena árvore de ramificação quincotômica, às vezes formando mais de um tronco; no interior da mata sombria forma um único tronco, ereto, com ramificação no alto. Folhas alternas, simples, cartáceas, geralmente pendentes, oblongoobovadas ou elíptico-oblongas, ligeiramente assimétricas; ápice atenuadocuspidado, base obtusa ou arredondada, pecíolo cerca de 1-3 cm de comprimento, espessado nas duas extremidades, ner vuras secundárias filiformes. Inflorescência nos ramos ou no tronco sobre pequenas dilatações nodulares. Flores hermafroditas, completas, pentâmeras; cálice formado de 5 pétalas oblongo-lanceoladas, desde brancacentas até avermelhadas, ligeiramente unidas na base, pétalas com a cógula avermelhada e limbo branco-amarelado, obovado, acuminado no ápice, com a base unguiculada; estaminóidios subulados, estames com duas anteras em filetes recurvados; ovário subpentagonal com 5 estiletes aderentes. Fruto drupáceo ou subacáceo, pericarpo (casca) carnosoconsistente, variando na forma, tamanho e cor, podendo ser anguloso e elipsóideo (...), ou grandes e arroxeados (...); as sementes, de cor roxa, e em número de 20-40, têm forma quase arredondada e dispõem-se em 5 fileiras, sendo algo achatadas pela compressão mútua vertical; a testa é recoberta por uma polpa escassa, branca e adocicada e encerra o embrião, composto de dois cotilédones plicado-enrugados. (...). O cacau é usado


pelas classes populares como simples ‘fruta’, consumindo a polpa in natura ou em forma de refresco, licor, ou ainda preparando, das sementes, e por processos rudimentares um chocolate caseiro”. (Cavalcante, 1988: 62-63). P. 32 (segunda linha) - “Buragine” - em italiano moderno “borrana” ou “borraggine”, Borago officinalis. “Qualquer espécie desse gênero [Borago]. Como, p. ex., a Borago officinalis, nativa da região mediterrânea, subespontânea no Brasil, e cultivada na Europa e América do Norte, por vezes us. na alimentação como verdura, pois tem sabor semelhante ao do pepino, e tb. us. como medicinal. Tem flores e frutos insignificantes” (Ferreira, 1999: 320, sob borago). Pp. 34-35 (n. 24). Ingá – “Legumisosa Mimosóidea. O gênero Inga é atualmente representado na Amazônia brasileira por aproximadamente 180 espécies e deste número só um pequeno grupo de 4-5 espécies tem expressão como fruta comestível, cabendo, indiscutivelmente, o primeiro lugar pela sua maior popularidade, ao ingá-cipó (Inga edulis), numa forma já melhorada pela cultura. O segundo lugar, sem dúvida, pertence ao Ingá-açu (Inga cinnamomea), seguido das outras espécies aqui descritas. Um segundo grupo de ingás é constituído por espécies cujo conteúdo comestível é escasso e pouco atrativo mas não desprezado, especialmente pelas crianças; são os ingás xixica, de macaco, ingaí, etc., valorizados como frutas de sobrevivência” (Cavalcante, 1988: 124; consulte-se também, neste mesmo autor: ingá-açu [p. 124], ingá-cipó [pp. 125-126], ingá-costela Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

[p.126], ingá-cururu [pp. 126, 127], ingáde-fogo [p. 128], ingapéua [pp. 128-129], ingá-turi [p. 129] e ingá-xixica [p. 131]). Ver também Le Cointe (1947: 219-220). P. 36 (n. 25). Jalapa – “Designação comum a diversas espécies das famílias das convolvuláceas e das apocináceas, cujas partes aéreas são trepadeiras, tendo as flores vistosas e coloridas, e com tubérculos subterrâneos tidos popularmente como purgativos” (Ferreira, 1999: 1152). Pp. 36-37 (n. 26). Fava-de-impigem – “Árvore regular e ornamental, da família das Leguminosas (Vatairea guianensis), dotada de flores hermafroditas, roxoazuladas ou róseas, dispostas em grandes panículas, e cujo fruto é vagem suberosa, contendo sementes aromáticas. Fornece madeira de cerne amarelo-pardacento, com estrias mais claras, de apreciável resistência à umidade. Var.: fava-de-impingem. Sin.: andirá-da-várzea, faveira-amarela, fava-debolacha, lombrigueira, faveira-de impigem” (Ferreira, 1999: 884). Segundo Le Cointe (1947: 193; sob faveira-de-empigem), por incisão da casca obtém-se uma goma vermelha-escura, pouco solúvel nágua, adocicada e adstringente; as sementes, piladas com banha, ou vinagre, constituem uma pomada usada para curar empingens; o suco acre do fruto empregase contra as efélides (sardas). Pp. 37-39 (n. 27). Cuia – Cabaça ou porongo (do quíchua porongo, ‘vaso de barro com o gargalo estreito e comprido’, pelo esp. plat. porongo). Landi refere-se à Cabaça ou cabaço, coité, cuieté, cuietê ou cuité, nomes aplicados à “cuia”, o fruto 201


da cuieira, árvore baixa, da família das bignoniáceas (Crescentia cujete), de caule tortuoso, flores solitárias, grandes, esverdeadas ou amarelo-pálidas, com estrias roxas, a qual fornece madeira castanho-amarelada, dura e forte, própria para marcenaria, e cujo fruto, baga, é usado como vasilhas, cuias e instrumentos musicais (Ferreira, 1999: 590, sob cuieira). Sua utilização na confecção de recipientes para vários usos é uma tradição herdada dos indígenas, de origem imemorial. Depois de Landi, Alexandre Rodrigues Ferreira faria um registro valioso sobre as cuias que faziam as índias de Monte Alegre e de Santarém, dizendo: “A matéria de que as índias fazem as cuias é o fruto da árvore que elas chamam cuiainha e o portugueses cuieira. A cuieira quase todo o ano dá fruto; gasta dois meses para amadurcer, que é quando o recolhem. O sinal de que está madura é quando batido o fundo com as costas de uma faca, ele tine; isto é, como a casca adquire, pela madurez, uma consistência lenhosa, produz aquele som. Daqui vem que nas cuieiras se observam muitas vezes os frutos com alguns regos cicatrizados na casca mais exterior, procedidos das tentativas práticas que lhe fizeram. Uma boa cuieira chega a dar por ano 120 até 130 frutos, que vem a ser 260 cuias, partindo cada fruto em duas metades”. Mais adiante, continua o autor: “Tirado o fruto da árvore trata-se de o dividir ao comprido em duas metades, o mais que a olho se pode dividir. De três modos o dividem; ou serrando-o com uma pequena serra, que para isto têm de propósito, ou dandolhe primeiro um risco com a ponta de uma faca, e com um martelo batendo a

faca sobreposta ao risco, ou atando ao comprido um cordão que determine as metades, e batendo-o também com o martelo, até internar-se pelo casco. Este último método tem o defeito de o quebrar muitas vezes: por esta razão, preferem qualquer dos dois primeiros. Divididas as metades, no miolo de cada uma delas se faz com a ponta da faca uma cruz, e assim raspando-a em roda, o separam do casco. Com a mesma faca ou com o sepilho se aplanam os lábios e com outra faca de ponta curva se desbasta a porção do miolo, mais arraigada ao casco, donde ainda procede alguma notável desigualdade de superfície interior, até que ela fique bem levigada. Enchuga-se ao sol, pelo espaço de um dia no verão e pelo de dois no inverno. Então é que passam a preparar a casca exterior” (1974: 36). A descrição prossegue até a pintura das cuias com cumatê, um verniz preto de origem vegetal, que adquire maior fixação e brilho graças ao vapor alcalino da urina salpicada na terra, onde as cuias são colocadas por algumas horas. Em seu romance autobiográfico A Selva, o escritor Ferreira de Castro (1962: 60) também falou sobre as cuias de Santarém: “Moleques e adultos, negros e caboclos, invadiram o navio, em ruidosa venda de frutaria e de cuias de todos os tamanhos e feitios. Exposta no conveses a novidade, ou então oferecida lá de baixo, das canoas, travaram-se fortes regateios, porque os índios, como os judeus, pediam vinte por aquilo que só valia dez. As cuias, mais que as guloseimas, prendiam a atenção de Alberto. Já as conhecia de Belém, célebres por darem frescura e fino sabor à água

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que por elas se sorvia, mas nunca as vira em tanta fantasia e variedade. Fruto grande e redondo, de muitos quilos, às vezes os nativos serravam-no ao meio, extraíam-lhe a polpa inútil e das duas metades da casca, submetidas a tratamento e tingidas de negro, faziam aqueles primores locais. Por fora, mãos pacientes abriam, a branco sobre o fundo preto, caprichosos arabescos, uns falando de primitivas ingenuidades, outros impondo-se já por uma intenção de arte. Havia também as que não tinham sido serradas: cavara-se os frutos apenas dos lados, na parte superior fazendo alça garrida a cesto original”. Antônio Maria de Souza Santos (1982: 29-33) tratou extensamente do assunto, em pesquisa realizada em Aritapera (Santarém, PA): “As cenas descritas por Castro ainda se repetem em nossos dias. Na beira do cais em Santarém, onde é intenso o movimento de embarcações, há sempre venda de cuias, que também são encontradas nas lojas de artesanato da cidade. Quando aportam navios de passageiros, os vendedores de cuias se dirigem para bordo oferecendo tais objetos que, nessas circunstâncias, são denominadas cuias de carregação. (...). Devido à larga utilização dos objetos domésticos de fabricação industrial, o uso de cuias se reduziu, como vasilha doméstica, principalmente nos centros urbanos, porém a arte culinária amazônica e principalmente a paraense torna ainda obrigatório o uso de cuias para algumas iguarias regionais, de modo especial o tacacá e, até certo ponto, o açaí e os mingaus das festas juninas. Nas zonas rurais, além dessas circunstâncias, as cuias

continuam sendo usadas também como vasilhas de uso comum em casa, embora já com as limitações apontadas anteriormente. Por outro lado, as cuias como peça de artesanato, que, como já vimos, sempre tiveram importância, continuam ainda sendo utilizadas como tais. Podemos mesmo afirmar que nesse aspecto seu uso tem crescido nas últimas décadas, devido à maior comunicação da Região Amazônica com o resto do País e o maior incremento do turismo na região. Santarém, além de seu papel de importante entreposto comercial no baixo e médio Amazonas, possui uma infra-estrutura de serviços considerável. As cuias de Santarém mantêm um destaque especial pela sua longa tradição artesanal, como já foi frisado anteriormente. A partir dos frutos da cuieiras - baldes - se preparam, além das cuias propriamente ditas, também: floreiras, porta-jóias, bolsas, maracás, gargantilhas e outros adonos. Estes trabalhos se fazem em vários outros locais do Município, porém as cuias de Aritapera já possuem uma marca de fama pela qualidade do material e pelo esmero da preparação. Em Aritapera sempre se trabalhou com cuias. Senhoras idosas o atestam, pois desde a idade infantil já conheciam tal atividade. Todas as pessoas de idade avançada por nós entrevistadas, tanto na cidade de Santarém como em Aritapera, foram unânimes em afirmar que o uso de cuias é antigo em Santarém. O artesanato de cuias em Aritapera é praticado em quase todas as casas e é um trabalho exclusivamente feminino. Normalmente cada família tem sua própria plantação de cuias, variando o número de cuieiras entre 5 e 25, embora

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tenhamos encontrado uma casa em cujo quintal havia 46 cuieiras. O modo de preparar, segundo os moldes da tradição indígena, ocorre da seguinte maneira. Corta-se o balde da cuia conforme o que se pretende fazer: cuias propriamente ditas, porta-jóias, floreiras etc. Retira-se a massa que se encontra em seu interior, a que chamam de bucho. Ferve-se para que as cuias fiquem mais maleáveis, possibilitando que sejam melhor trabalhadas. Raspa-se bem o que tiver ficado dentro delas, e então coloca-se de molho durante 5 a 8 dias. Depois de retiradas da água, espera-se que sequem a contento, o que no verão ocorre rapidamente; já na época do inverno, pode durar até um dia. Depois de secas, devem ser alisadas; para isso utilizam-se a língua e a escama de pirarucu, que antes de serem usadas devem passar três dias expostas ao sol. Usa-se também para raspar as cuias a folha de embaúba (Cecropia sp.), à guisa de lixa. Às cuias raspadas apenas chamam de cuia pitinga e podem ser usadas para alguns serviços domésticos. Uma vez raspadas, tinge-se então com cumatê, uma tinta preparada com a casca de uma árvore: achuá (Saccoglotis guyanensis Bth.) [família das Humiriáceas; “arbusto ou arvore regular, até 13 m de altura; folhas pecioladas, ovadas ou elliptico-oblongas, até 13 cm de comprimento; flores amarellas dispostas em corymbos lateraes. Fornece madeira; é planta considerada anti-rheumatica e util contra a gotta articular. Amazonas até ao Maranhão e Goyaz. - Sin.: uachuá, cumatê” (Corrêa, 1984(I): 26)]; essas cascas são adquiridas da terra firme, podendo ser compradas em feixes com quantidades convencionalmente

adotadas no local. O cumatê é preparado e aplicado do seguinte modo. As cascas ficam de molho durante 2 a 5 dias. Amassa-se com as mãos; retira-se o bagaço, ficando apenas o líquido de cor vermelho-escuro pendendo para o negro. O cumatê é então aplicado nas cuias, com pena de galinha, repetindo-se a aplicação várias vezes, até a cuia ficar bem negra. Para fixar satisfatoriamente a tinta, salpicase urina (de pessoas) no chão ou, numa cama com terra (pequena maromba), no período da enchente, e derixa-se as cuias durante uma noite sobre a terra. Este processo contribui também para melhor lustrá-las. Uma vez tingidas, as cuias são decoradas a canivete, utilizando-se em alguns casos um compasso. As decorações são à base de incisões rasas e raspagens, formando motivos predominantemente de frutas e flores, que depois serão cobertos com tintas coloridas, tarefa feita já na cidade de Santarém, onde artesãos também pintam paisagens sobre cuias que são adquiridas sem os referidos rascunhos. Há uma família muito conhecida na cidade que se dedica inteiramente a essa atividade. Essa divisão de trabalho se explica em parte pela própria natureza das atividades. Os desenhos a canivete fazem parte da mesma linha de tarefas de preparação das cuias; ao passo que as pinturas coloridas e a aplicação de adereços já estão numa outra ordem de atividades. Além do mais, essa divisão de trabalho deve ser conveniente para ambas as partes, uma vez que tradicionalmente sempre ocorreu assim. O trabalho das cuias em Aritapera se desenvolve diariamente e ao longo de todo o ano. Uma média de 600 dúzias

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de cuias são preparadas mensalmente na comunidade, segundo levantamento por nós realizado durante os anos de 1977 a 1978. As tarefas de preparação das cuias podem ser feitas a qualquer hora do dia, principalmente as decorações a canivete, realizadas com extrema habilidade e a qualquer momento, mesmo durante uma conversa. Algumas vezes, quando há muitas encomendas de cuias, as mulheres dedicam um espaço de tempo maior a essa atividade. Em alguns casos, as crianças participam executando tarefas leves. Na época da enchente, as atividades se limitam um pouco, pelas dificuldades de espaço adequado, porém a produção não chega a ser afetada significativamente. As mulheres desenvolvem tais atividades no âmbito de sua unidade doméstica, mas há também alguns casos de trabalho em sociedade, isto é, quando mulheres de duas ou mais unidades domésticas dividem tarefas entre si, repartindo a produção de acordo com a combinação da parceria. Estes casos são ensejados principalmente quando uma das partes não possui cuieiras em seu terreno. As cuias são vendidas em dúzias. Há na Vila algumas pessoas que negociam com cuias, ou seja, compram as mesmas em certa quantidade e levam para Santarém, onde também existem pessoas que transacionam com tais artigos. Em muitos casos, a própria pessoa que trabalha com as cuias leva-as a Santarém para a comercialização. Ali, uma vez completada a pintura, serão vendidas nas lojas de artigos regionais da idade e por vendedores ambulantes. Há também remessas para outras praças, como Belém, Manaus, Macapá e cidades de outros Estados brasileiros”.

O cumati (grafado por Landi como “gumati”), o verniz negro que serve para pintar as cuias, pode ser extraído de várias plantas. Além do achuá (citado por Silva no texto acima), pode ser obtido também dos seguintes vegetais: 1. Myrcia atramentifera, da família das Mirtáceas, que, segundo Corrêa (1984(II): 478), é “Arvore pequena, até 5 m de altura; ramos cylindricos, acinzentados; folhas curto-pecioladas, oblongas, lineares, acuminadas, até 11 cm de comprimento e 5 cm de largura, vermelhas emquanto jovens, coriaceas, reticulado-nervadas, pellucido-punctuadas; paniculas erectas, axillares e subterminaes, pyramidaes, denso-ramosas, do comprimento das folhas maiores; flores de 5 sepalas e 5 petalas; ovario 4-ovulado, densamente pellucido; fructo baga. - Fornece madeira de cerne escuro, rija, propria para construcção civil, marcenaria e carpintaria; a casca, rica em tanino, após maceração serve para calafetar ambarcações e endurecer as linhas de pesca; della se extrahe materia tintorial roxa que, devidamente tratada, torna-se preta, servindo para tingir roupas e pintar cuias, remos e outros utensilios de uso domestico; convém igualmente para mordente quando se pretende dar quaesquer côres aos mesmos objectos. É tambem considerada preservadora do caruncho. - Amazônia. - Sin.: araçá-docampo, cumatê”. 2. Pariri (Arrabidea chica, Bignoniáceas), do qual já tratamos na nota às pp. 19-20 (sob carajuru). 3. Swartzia polyphylla (Leguminosas - Cesalpinioídeas) - a “pitaíca” ou “pitaícada-terra-firme”, descrita por Corrêa (1984(V): 508) como segue:”Árvore de 3-40 m de altura; pecíolo de 15-60 mm

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de comprimento, cilíndrico, com pêlos malpiguiáceos, caducos; raque pubescente de 5,5-26 cm de comprimento; folhas com 2-7 pares de folíolos, peciólulos de 2-11 mm de comprimento, caudiculados, com pêlos malpiguiáceos, caducos, limbo de 4,515,5 cm de comprimento e 1-7 cm de largura, elítico, oval ou lanceolado-elíticos de base aguda, arredondada ou obtusa, ápice acuminado, glabro; inflorescência racemosa, ramígera, às vezes axilares de 4-25 cm de comprimento, com os ramos com pêlos malpiguiáceos, brácteas caducas ou persistentes, triangulares; bractéolas lanceoladas ou ovais; pedicelo de 4-12 mm de comprimento, botão glanduloso ou subgloboso de 5-9 mm de comprimento e 6-8 mm de diâmetro, lacínios do cálice 4-5 em geral, verrucoso; pétalas brancas, glabras, unhas de 3,5-8 mm de comprimento, limbo arredondado, truncado ou cordado na base, de 9-25 mm de comprimento e 10,5-30 mm de largura; 2-5 estames grandes, glabros, com filetes 15-25 mm de comprimento e anteras ovais ou oblongas de 1-2 mm de comprimento com pólen globoso; os outros estames menores glabros com filetes 7-15 mm de comprimento e anteras quadradas ou ovais de 0,6-1,5 mm de comprimento e pólen elítico; ovário glabro, ou raramente com pêlos; estigma truncado ou capitado; ginóforo de 6,5-14 mm de comprimento; fruto glabro, cilíndrico, oval ou suboval, de 6,5-12 cm de comprimento e 4-5 cm de largura com 1-2 sementes; sementes mais ou menos reniformes, de 25-70 mm de comprimento. - Ocorre nas matas virgens de terra firme das ilhas de Breves, de Gurupá e do médio Tapajós. -

Madeira muita dura. - Sin.: maracutaca, paracutaca, paracutaca-da-terra-firme, pracuíba, tachi-pequeno”.

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Pp. 39-40 (n. 28). Seringa ou Seringueira – “Árvore da família das euforbiáceas (Hevea brasiliensis), de folhas compostas, flores pequeninas, reunidas em amplas panículas, fruto que é uma grande cápsula com sementes ricas em óleo, e madeira branca e leve, de cujo látex se fabrica a borracha. Sin.: árvore-daborracha” (Ferreira, 1999: 1843, sob seringueira). Pp. 41-42 (n. 29). Mamorana – “Pachira aquatica, Bombacácea. Árvore pequena, de 4-8 m de altura, às vezes com o tronco baixo, inclinado ou tortuoso, casca espessa, levemente rimosa, mole, com um cheiro muito característico. Folhas composto-palmadas agrupadas na extremidade dos râmulos, com 4-6 folíolos elíptico-lanceolados, pecíolo comum 8-24 cm de comprimento, fortemente dilatado na base, geralmente inserido perpendicularmente ao ramo. Flores grandes, vistosas, isoladas na extremidade dos ramos; cálice inteiro, tubular, verde-castanho; corola com 5 pétalas livres, amarelo-creme ou esverdeadas, em forma de fitas estreitas e longas, de 25-30 cm de comprimento, fortemente reflexo-curvadas na antese; estames cerca de 180 a 260, concrescidos na parte inferior formando um tubo espesso, depois agrupados em feixes de várias ordens de grandeza numérica, os últimos feixes com apenas dois estames; filetes brancacentos na metade inferior e purpúreos na parte restante; anteras vermiculiformes, atropurpúreas; ovário


cônico, 5 mm de altura, com 5 lóbulos multiovulados; estilete 23-25 cm de comprimento, espessado e brancacento na metade basal, delgado e purpúreo na metade superior, estigma com 5 ramos. Fruto uma volumosa cápsula oblongoelipsóidea de 20-30 cm de comprimento, e 10-12 cm de diâmetro, pesando 10001500 g quando madura, externamente castanho-ferrugínea; sementes, 10-25, volumosas e de forma irregular, constituídas de duas espessas folhas cotiledonares compactadamente plicadas, brancas e de consistência semelhante à da batata (Solanum tuberosum). (...). A parte comestível da mamorana são as sementes que, cozidas, têm sabor agradável, semelhante ao da castanha européia (Castanea sativa). Mesmo assim, são pouco consumidos pelos habitantes da região. Quando o fruto amadurece abre-se espontaneamente, libertando as sementes, em condição de consumo, cozidas com sal, assadas ou fritas em óleo. Le Cointe (1947) informa que as amêndoas assadas sobre brasas são boas de comer, principalmente quando ainda verdes, e delas extrai-se 58% de gordura branca, inodora, de boa qualidade para usos domésticos. A planta propaga-se por sementes, as quais germinam em cerca de 8 dias crescendo com rapidez no início, atingindo 60 cm em 15 dias. Floresce e frutifica durante o ano inteiro, com mais freqüência no fim da estação seca e início da chuvosa” (Cavalcante, 1993: 151-153). Pp. 42-43 (n. 30). Piquiá – “Caryocar villosum, Cariocarácea. Grande árvore da floresta primária, atingindo 40-50 metros de altura, tronco até 2,5 m de diâmetro,

algumas vezes ultrapassando os 5 metros, na base, segundo Le Cointe (Ducke, 1925: 135), com enorme copa ocasionalmente emergente. Folhas alternas trifoliadas, pecíolo 5-15 cm de comprimento, folíolos largamente elípticos, 8-20 cm de comprimento, 5-12 cm de largura, os dois laterais geralmente menores e ligeiramente assimétricos, face inferior vilosa, base subarredondada e ápice acuminado, margens serradas ou crenadas, nervação bem evidente. Inflorescência corimbosa com uma raque até 20 cm, sustentando cerca de 20 flores pediceladas, pedicelos de 2-4 cm; cálice largo-campanulado, 1,5 cm de altura, com 5 lobos arredondados; corola amarelada, pétalas 5, oblongas, 2,5 cm de comprimento, estames numerosos, amarelos; ovário com 4 lóculos e 4 estiletes. Fruto drupáceo, de formato variável em função do número de sementes, que pode ser de 1-3, raro 4; com uma semente, globoso; com duas, oblongo-transverso; com três subtriangular; com quatro, subquadrangular; o tipo mais freqüente é o globoso, com uma semente; epicarpo (casca) espesso-carnoso, com a superfície pardo-cinzenta, multilenticulosa, destacando-se facilmente do caroço; mesocarpo pastoso, oleoso, amarelado, com a camada mais interna endurecida, soldando os numerosos espinhos do endocarpo; sementes brancas, oleosas, formando com o endocarpo e espinhos um corpo sub-reniforme, duro, mais conhecido como ‘caroço’. (...). O piquiá é muito, e mais apreciado pelas classes populares, que se deliciam com o sabor e cheiro incomum de sua polpa, comestível depois de cozida. Separados da casca, os caroços (e sua polpa) são levados ao fogo

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juntamente com o feijão cozido ou o arroz; a polpa é consumida pura ou com farinha, que pode ser acompanhada de café, ou ainda, com o arroz no qual foi cozida. A maioria das pessoas costuma roer diretamente o caroço, o que deverá ser feito com cautela a fim de não atingir os finos e rígidos espinhos recobertos pelo mesocarpo” (Cavalcante, 1993: 191192). Ver também Le Cointe (1947: 404). 31. Guaraná – [Pp. 43-45]. Parte deste texto de Landi, com erros de transcrição, aparece em Sousa (1999: 262). Guaraná: “Paulinia cupana, Sapindácea. Arbusto escandente ou cipó lenhoso. Em cultura a céu aberto, com um tutor, tem porte reduzido, enquanto no estado espontâneo na mata, cresce como um cipó vigoroso até alcançar o extrato superior. Ramificações mais finas com sulcos longitudinais, escorrendo um látex branco ao corte; gavinhas formadas na axila das folhas, geralmente bifurcadas. Folhas alternas compostas de 5 folíolos, dois pares e um ímpar, terminal, pecíolo comum 15-18 cm de comprimento; folíolos subsésseis, limbo coriáceo largo, elíptico, 15-26 cm de comprimento e 12-19 cm de largura, base assimétrica, arredondada ou subcordada, ápice curtamente acuminado. Inflorescência em rácemos de 6-15 cm de comprimento, axilares ou nas gavinhas. [...] a inflorescência é composta de flores masculinas e femininas (pseudohermafroditas). As femininas tem estames aparentemente normais, mas as anteras não se abrem, e as masculinas possuem ovário rudimentar com óvulos, porém os estiletes e estigmas, pouco desenvolvidos, caem logo depois

da antese. [...] uma inflorescência tem sucessivos desabrochamentos que podem se estender por um mês e mais e cada desabrochamento poderá ser de flores femininas ou de flores masculinas. As flores são pequenas, zigomorfas e brancacentas, cálice com 5 sépalas de tamanhos diferentes e corola geralmente com 5 pétalas, munidas de escamas internas em forma de crista; estames 8, raramente 9, pilosos, em três tamanhos distintos; ovário trilocular com um semidisco glanduloso na base. Fruto, uma cápsula septicida, estipitada, cerca de 2-2,5 cm de diâmetro, de cor vermelhoalaranjada quando madura, ocasião em que se abre parcialmente, deixando aparecer uma ou duas, raro três sementes; estas são de cor negro-brilhosas ou levemente esverdeadas, com a metade inferior recoberta por um arilo branco, tomando a aparência de um olho humano. Um cacho com 30 cm de comprimento pode conter até 115 frutos e 150 sementes. (...). O processo tradicional de beneficiamento do guaraná é aquele legado pelos Maués, ainda hoje em uso, se bem que mais aperfeiçoado. Tem sido freqüentemente descrito e por isso é aqui apresentado em linhas bem gerais. Após a colheita dos frutos as sementes são separadas da casca e deixadas em repouso até a fermentação do arilo, o que facilita a sua remoção. A seguir são torradas em forno de chapa e removido o tegumento da amêndoa. Este é o produto vendido no comércio, conhecido como guaraná em rama. Para confecção dos bastões, as sementes são socadas em pilão com um pouco d’água, até formar uma pasta consistente. Moldados os bastões (com cerca de 15

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cm) são estes levados a um secador de fogo brando (braseiro) por um dia e daí para o fumeiro, onde fica cerca de 30 dias, quando estão prontos para o comércio. Com uma pasta refinada do guaraná o artesão costuma moldar certas figuras em forma de animais ou objetos, geralmente daqueles que são mais familiares ao seu ambiente – peixes, macacos, quelônios, canoas, etc. Estas figuras são tradicionalmente encontradas no comércio especializado de artigos regionais. Antigamente, quando não existia a indústria de refrigerantes, a bebida do guaraná, muito difundida, era preparada de modo bastante simples: guaraná ralado mais água. O pó era obtido a partir de bolas ou bastões, ralados em pedras ou em língua de pirarucu (extremidade do osso hióide desse peixe – Arapaima gigas). Ao que parece, essa tradição ainda não desapareceu, se bem que muitas pessoas preferem usar, no lugar da língua do pirarucu, um instrumento metálico conhecido como ‘grosa’. Atualmente o guaraná é comum no comércio, vendido na forma de xarope ou de pó, acondicionado em pequenas latas” (Cavalcante, 1993: 114-118). Ver também Le Cointe (1947: 211).

muito chata, coriacea, luzidia. - Fornece madeira amarello-clara com veios quasi pretos e póros longitudinaes muito visiveis, duravel, propria para construcção civil, esteios, marcenaria, etc., recebendo bem o verniz; peso especifico 1,088. As folhas, casca e raiz são febrifugas, tonicas e excitantes, de grande proveito no tratamento das febres terçãs, bem como para lavar feridas e ulceras. - É arvore muito commum nas varzeas humidas do Amazonas (...). Quando em flor torna-se altamente ornamental. Sin.: acapu-do-igapó, caacapoc dos aborígenes; manaiara, no Parᔠ(Corrêa, 1984(I): 24). Le Cointe (1947: 152) cita também como sinônimos acapuranacomum, comandá-açu, cumandá-capoerana e acapurana-vermelha; diz que “a infusão concentrada do fruto adicionada a sal e vinagre é aplicada sobre as empigens para curá-las radicalmente” e que a infusão da casca é usada contra as feridas. P. 46 (n. 33). “Aquittí” – [P.46]. Não identificada. Pp. 46-47 (n. 34-35). Anônimas – . Impossível de identificar.

P. 45 (n. 32). Cumandá-açu – ou Acapurana. Campsiandra laurifolia, da família das Leguminosas-Cesalpinioídeas. “Árvore pequena; casca verde; folhas imparipinnadas, compostas de 9-13 foliolos oblongo-ellipticos, curtoacuminados, membranosos; flores brancas e roseas, curto-pedicelladas, numerosas, dispostas em grandes paniculas corymbosas; fructo vagem

P. 47 (n. 36). Palma, che uidi nata nell’acqua – Podemos especular que Landi trate de um exemplar jovem de muriti ou buriti, Mauritia flexuosa, da fam. das Arecáceas. Desta palmeira, diz Cavalcante (1988: 168-171); “Palmeira robusta, solitária, uma das maiores da região amazônica, de tronco reto, cilíndrico, de 30 a 60 cm de diâmetro, às vezes com um leve engrossamento na região média, comumente atingindo alturas de 20 a 25 metros, podendo chegar aos 35 metros ou, ocasionalmente, aos

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50 m nos indivíduos decrépitos, quando então o tronco parece mais fino. O estipe sustenta, no ápice, um capitel de cerca de 20 folhas grandes, flabelado-palmadas com aproximadamente 100 segmentos, pêndulos nas extremidades; pecíolo até 4 m de comprimento, com uma volumosa bainha. Palmeira dióica ou polígamodióica, isto é, há indivíduos com flores masculinas e indivíduos com flores femininas e hermafroditas. Inflorescência axilar, masculinas e femininas semelhantes, volumosas, de 2,5 a 3 metros de comprimento, pedúnculo cerca de 1 metro, com brácteas tubulares, raque 2 metros de comprimento com numerosos ramos providos de bractéolas tubulares de onde partem pequenos eixos de 1 a 6 cm onde estão inseridas as flores. O fruto é uma drupa oblongo-elipsóidea ou globosa, de 5 a 7 cm de comprimento, epicarpo formado de escamas rombóides, córneas, de cor castanho-avermelhada e lustrosas; mesocarpo (parte comestível) representado por uma camada espessa de massa amarelada ou alaranjada; endocarpo esponjoso, semente muito dura com endosperma homogêneo. Ao lado do açaí, o miriti é uma das palmeiras mais típicas da região amazônica, de onde, sem dúvida, é nativa. (...). Sua distribuição geográfica abrange toda a Amazônia e norte da América do Sul e estende-se ao nordeste e centro-sul do Brasil, aí numa forma agora considerada apenas uma variedade ecológica, antes conhecida pelo nome de Mauritia vinifera, que os modernos autores, estudiosos da família das palmeiras, consideram apenas um sinônimo de M. flexuosa. Quanto ao habitat, o buriti parece preferir os alagados, igapós, beira de rios e igarapés,

onde freqüentemente é encontrado em grandes concentrações, com parte do tronco imerso na água por longos períodos, sem que isso lhes cause danos. É portanto provável que a água concorra para maior dispersão dos frutos e daí as extensas populações ou buritizais nas ilhas do estuário e baixo Tocantins. Na terra firme vegeta nas áreas descampadas, em pequenos grupos, ou dispersos. Em todos os seus aspectos o buriti parece ser extraordinário, seja em populações, seja no porte ou na frutificação. O número de cachos frutíferos por indivíduos varia de 5 a 8. Observou-se um buritizeiro cultivado no Horto Botânico do Museu Goeldi produzindo 8 cachos de uma só vez. Contou-se, em um dos cachos, 728 frutos, o que dá uma estimativa de 5700 frutos naquele exemplar. Inúmeros produtos úteis do burizeiro são aproveitados pelas populações ribeirinhas, na sua alimentração ou em outras necessidades diárias: bebida natural ou fermentada, óleo e doces dos frutos, fécula e um líquido potável e açúcar do estipe, sabão caseiro, material para casas, etc. Do mesocarpo prepara-se o ‘vinho de buriti’, e, para isso, os frutos são previamente amolecidos em água morna, o que poderá ser feito, também, abafando-os em folhas durante 3 a 43 dias, dando-se melhor resultado em termos de sabor, segundo algumas pessoas. É que esse amolecimento nada mais é do que um meio de acelerar o amadurecimento dos frutos, vistos os mesmos caírem da planta ainda não bem sazonados. O preparo e consumo do vinho é algo semelhante ao do açaí. Da polpa preparase, também, o tradicional ‘doce de buriti’,

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o qual já é exportado para outros estados. (...). Da polpa pode-se ainda obter óleo comestível e, como tal, empregado na fritura de peixes. (...). Várias outras utilidades, especialmente para o interiorano, tem ainda o buriti. As folhas novas dão cordas resistentes, sendo tradicional o seu emprego nas sogas de tabaco. O pecíolo fornece material leve e mole usado na fabricação de rolhas e no artesanato regional, principalmente brinquedos, comercializados durante a festa da Padroeira do Pará. É referido que nos troncos imersos e apodrecidos desenvolvem-se grandes larvas [sic; moluscos], conhecidas pelo nome de ‘turu’, que são comidas cruas, tendo um alto valor proteico. Não raro os troncos, facilmente flutuantes, são utilizados como trapiches e pontes às margens dos rios e igarapés. É lamentável que o buriti, com tantas possibilidades econômicas, continue ainda quase esquecido. Um manancial quase inesgotável de milhões de butizeiros, especialmente na região das ilhas, é pobremente explotado pelo caboclo. (...). Os frutos podem ser encontrados nas feiras de Belém de janeiro a julho, algumas vezes a partir de novembro ou dezembro”.

Pp. 57-58 (n. 59). Tajá-de-cobra – Le Cointe (1947: 448) cita o “tajá-de-cobra” como sendo a espécie Dracontium asperum, da família das Aráceas, também conhecido como jararaca, com haste de 0,50-2 m, com 2-4 cm de diâmetro, manchada de preto e de branco-esverdeado; a raiz tuberosa

assada é comestível; o suco da raiz é usado interna e externamente contra as mordeduras de cobras; o pó da raiz seca é recomendado contra a asma, a clorose, a amenorréia e a coqueluche. Sob a designação de jararaca, Corrêa (1984(IV): 447-448) assim discorre sobre esta espécie: “Herva tuberosa; fôlha com pecíolo de 3 m de comprimento e 4 cm de diâmatro, com manchas largas e longas, esverdeadas, pardacentas e arroxeadas, provido na base de pequenas protuberâncias, reunidas em grupos, que se dispõem em longas séries alternadas; lâmina foliar tripartida, com 1 m de diâmetro; segmentos da fôlha bipartidos e essas seções, por sua vez, irregularmente pinatipartidas; na axila dos restos das fôlhas mortas, ao redor do tubérculo, originam-se numerosos bulbilhos com função de multiplicação vegetativa; pedúnculo com 10 cm ou mais de comprimento, recoberto por catáfilos lanceolados; espata com 10-25 cm de comprimento, muito encurvada no ápice, coriácea, extremamente castanhoacinzentada, granuloso-áspera entre as nervuras, com a parte anterior apical muito dilatada, cuculada, e na parte interna atroviolácea; espádice com 4-5 cm de comprimento e 1,5-2 cm de diâmatro; flôres hermafroditas, com perigônio de 59 tépalas; tépalas unguiculado-espatuladas; estames de 6-9, com filetes dilatados e anteras deiscentes por meio de rima apical; ovário 3-4 locular, com óvulos inseridos na porção média dos lóculos; estilete maior que o ovário, purpúreo; estigma fimbriado, pequeno; baga turbinada, com 12-15 mm de comprimento e 10 mm de espessura, coriada pelo rudimento do estilete, de 2 mm de comprimento; sementes reniformes, rugosas, com 7-8

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Pp. 48-57 (n. 37-58). Anônimos – Impossível de identificar pelas descrições, ademais desacompanhadas das figuras.


mm de comprimento. - O tubérculo, do tamanho de uma maçã, e o pecíolo são usados pelo povo como remédio para picada de cobra. São triturados com cachaça, esprimidos, e o suco obtido é tomado em determinados intervalos de tempo. O resíduo ou também o suco fresco de partes da planta são colocados sôbre a ferida. O índio, porém, só mastiga o tubérculo e usa um envoltório do tubérculo cozido. Peckolt, entretanto, assinala que durante seus 20 anos de estada no interior do Brasil, só tratou de picada de cobra em animais com essa planta e só observou resultados incertos. O pó do tubérculo, em dose de 0,5 g de hora em hora, tem ação favorável nos casos de asma; em dose de 0,3 g 4 vêzes ao dia, combate a amenorréia. O povo usa uma pitada dêsse pó, 3 vêzes ao dia, para combater a coqueluche. O suco do tubérculo é usado para matar vermes nas feridas dos animais. Friccionando-se os tubérculos êles exalam cheiro; o suco preparado da fécula tem ação neutra e, a princípio, gôsto agradável, mas depois torna-se desagradável, levemente picante, produzindo sensação de paralisia da língua, perda de paladar e apertura da glote. O suco tem alto teor de pectina, de modo que, cozido com açúcar, forma geléia que pode ser usada sem dano. O cozimento da planta em banhos é empregado na medicina popular no tratamento da gôta. - Amazônica. - Sin.: erva-jararaca, jararaca-taiá, jararaca-tajá, jarromanchado, milho-de-cobra, tajá-de-cobra”.

Pimenta-malagueta - “Espécie de pimenta muito ardida da família das Solanáceas (Capsicum fructescens)” (Ferreira, 1999: 1258). P. 60 (n. 62-63). Anônimos – Não é possível identificá-las. P. 60 (sob n. 63) - Gagiuolo - de “gaggio” (?), Mimosa farnesiana. Pp. 60-61 (n. 64). Jacitara – “Designação comum a várias espécies de palmeira do gênero Desmoncus, ricas em acúleos pungentes e compridos, e de caule delgado, alongado e escandente. Sin.: urubamba” (Ferreira, 1999: 1150). Corrêa (1984(IV): 409-414) trata das diversas espécies do gênero Desmoncus. Le Cointe (1947: 343-344) diz que é usada como substituto da palhinha para cadeiras, para fabricar pequenos cestos, e como substituta do junco. P. 61 (n. 65). Amoreira-brava – Não identificada. Pp. 61-62 (n. 66). Anônimo – Não identificável.

P. 59 (n. 61). Pimentas – Designação comum a diversas espécies da fam. das Solanáceas, nativas da América.

P. 62 (n. 67). Vrrapari – O único nome que encontramos, que apresenta alguma semelhança com o empregado por Landi, é “arapari”, mas não podemos ter certeza de que se trate da mesma espécie. Corrêa (1984 (I): 145), sob “arapary”, diz: “Macrolobium acaciaefolium, da familia das Legumonosas-Caesalpiniaceas. - Arvore grande; folhas compostas de foliolos 20jugos, linear-oblongos, luzidios na pagina superior e pallidos na inferior; flores dispostas em racimos; fructo

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P. 58 (n. 60). Anônima - Não identificável.


vagem ovoide-orbicular, coriacea, de 6 cm de comprimento. - Fornece madeira branca, porosa, bastante leve, propria para construcção civil, obras internas, carpintaria e caixotaria. - É adstringente; suas flores são muito procuradas pelas borboletas panápaná (Captosilia statira Cram. e Erema albula) e os fructos são alimentares para as tartarugas. - Guyana até ao Maranhão e Goyaz”. Pp. 62-63 (n. 68). Anônima – Não identificável. Pp. 63-64 (n. 69). Anônima – Não identificável. P. 64 (n. 70-72 [71, 72, 73 no MS, erro]). –Pacova-sororoca - “Planta arborescente, da família das musáceas (Phenacosperma guianense), mais conhecida como Ravenala guianensis, que vive na beira dos riachos, dentro da mata, e tem enormes folhas dispostas em leque, flores alvas que se reúnem em grandes inflorescências terminais, e sementes com arilo vermelho-vivo. Muito ornamental, cultiva-se em jardins, mas, por ser monocárpica, morre depois de florescer” (Ferreira, 1999: 1471). Le Cointe (1974: 331) dá como sinônimos bananeira-deleque e bananeira-brava, e comenta que esta planta vive nos igapós de terra firme e nas beiradas de riachos na mata, ocorrendo da ilha de Marajó até a cordilheira dos Andes; as folhas dão fibras e são boa matéria prima para a fabricação de papel; as sementes, numerosas, de cor preta, lustrosas, com arilo vermelho luzidio, são, ainda segundo este autor, utilizadas pelos indígenas para fazer colares e pulseiras. Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

Pp. 65-67 (n. 73-75). Maracujá - “Fruto do maracujazeiro, planta da família das Passifloráceas, de que há várias espécies” (Ferreira, 1999: 1281). Cavalcante (1988) descreve Passiflora edulis var. flavicarpa (‘maracujá’, p. 158), Passiflora quadrangularis (‘maracujá-açu’, p. 161) e Passiflora nitida (‘maracujá-suspiro’, p. 163). Ver também Le Cointe (1947: 288290). (“Fim das descrições daquelas plantas que estão desenhadas no livro. Seguirão agora as outras vistas por mim, e consideradas com alguma atenção”). Pp. 68ss. A partir da p. 68 (onde trata do Bacuri), Landi deixa de numerar as espécies tratadas. Continuamos a numeração, a partir deste ponto, incluindo o número, entretanto, entre colchetes. Pp. 68-69 (n. 76). Bacuri – “Platonia insignis, Gutífera. Árvore média até grande de 15 a 25 m de altura quando plenamente adulta, tronco reto, até 1 m de diâmetro, casca espessa, fissurada, às vezes enegrecida, exsudando um látex amarelo, quando cortada; copa bicônica com os galhos orientados numa posição entre 50-60º em relação ao tronco. Folhas opostas, simples, elípticas, subcoriáceas, verde-brilhosas na face superior, 8-14 cm de comprimento com as margens onduladas; nervuras laterais copiosas, delicadas, mais ou menos retas. Flores hermafroditas, grandes, cerca de 7 cm de altura, isoladas e nutantes, com 5 pétalas 213


róseas; estames numerosos, agrupados em 5 feixes opostos às pétalas; ovário com 5 lóculos uniovulados. O fruto é uma baga volumosa, ovóidea ou subglobosa, de tamanho variável, até 15 cm de diâmetro e peso máximo de 1 kg; exocarpo (casca) de 1-2 cm de espessura, rígido-coriáceo, quebradiço, de cor amarela, amarelo-esverdeada até marrom, exsudando uma resina espessa e amarelada quando partido; sementes de 0-4, raro 5, oblongo-angulosas, de 5-6 cm de comprimento; polpa branca, macia, delicadamente fibroso-mucilaginososa, fortemente aderida à semente, de cheiro e sabor muito agradáveis. Em toda a Amazônia a área de maior concentração do bacurizeiro é o estuário do grande rio, com ocorrência mais acentuada na região do Salgado e na ilha de Marajó. (...). O bacuri é uma das frutas mais populares no Pará, o maior produtor. Os frutos são variáveis não somente no tamanho e cor do exocarpo, mas também ao nível de acidez. Alguns são bastante doces, logo, preferidos para o consumo in natura. Há frutos bastante ácidos e, tanto estes como aqueles, são empregados na fabricação de sorvete, suco, doce enlatado, pudins, etc., altamente apreciados” (Cavalcante, 1988: 48-49). Pp. 70-71 (n. 77). Andiroba – Carapa guianensis, da família das Meliáceas. Segundo Corrêa (1984(I): 113): “Arvore grande, até 30 m de altura; casca cinzenta e grossa; folhas imparipinnadas ou abrupto-pinnadas, grandes, de 1 m de comprimento ou mais, compostas de numerosos foliolos suboppostos, elliptico-oblongos, inteiros, acuminados,

glabros; flores pequenas, amarellas e vermelhas, axillares; fructo capsula ovoide semi-globosa, lenhosa, pardacenta, 4valvar, contendo numero variavel de sementes vermelhas, coriaceas e quasi lenhosas, convexas, angulosas ou irregularmente tetraedricas, achatadas lateralmente. - Fornece madeira vermelho-acinzentada, escura, facil de fender, pouco resistente às intemperies, porém inatacavel por insectos e propria para mastros, falcame e bancos de navios, construcção civil, marcenaria, carpintaria, caixilhos e portas; peso especifico 0,728 a 0,769. - A casca é adstringente e encerra o alcaloide ‘carapina’ (‘andirobina’), corpo branco-brilhante, amargoso e crystalisavel, insoluvel na agua, bem como 12% de tanino, um oleo essencial, um outro oleo fixo, etc., etc.; é anti-diarrheica, vermifuga, amarga, tonica e febrifuga, succedanea da ‘quinina’ no combate às febres palustres e util externamente como insectifuga e contra empingens, exanthemas e outras molestias da pelle, servindo tambem para cortume, propriedades estas quasi em geral reconhecidas ou atribuidas às folhas. As sementes, privadas das cascas, produzem 70% de oleo amargo e concreto, amarello-escuro e muito espesso, outr’ora conhecido como ‘azeite de andiroba’ ou ‘yandiroba-jandy’, insectifugo já usado pelos aborigenes antes do Descobrimento e que entra na conservação das cabeças mumificadas (tropheus de guerra dos indios Mundurukús). Contém o mesmo alcaloide já referido e varias materias gordurosas, taes como stearina, oleina e margarina, associadas a materia corante vermelha, com variadas applicações na

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medicina (purgativo, anti-rheumatico, anthelmintico, util nas ulceras atonicas, picadas de insectos venenosos, tetano, hepatites, splenites, parasitas do corpo humano, etc.) e na industria, especialmente para illuminação e fabrico de sabão ordinario, inclusive de sabão para molestias da pelle. É tambem de uso corrente na medicina veterinaria e parece que com os mais beneficos resultados. - O povo distingue diversas variedades que differem principalmente na côr do lenho (andiroba-branca, andirobado-igapó, andiroba-vermelha), o que parece explicavel pela qualidade do sòlo em que se desenvolvem. (...). - Vegeta de preferencia nas varzeas proximas ao leito de rios. - Amazonia até a Bahia. Sin.: andiroba-saruba”. Diz Le Cointe (1947: 35) que vive nas várzeas e igapós, sendo muito freqüente no litoral norte do estado do Pará; o fruto, cápsula deiscente de 7-8 cm de diâmetro, encerra várias amêndoas oleaginosas; o óleo (63%) é espesso, amarelado e muito amargo, excelente para saboaria e iluminação a óleo; misturado com urucu é utilizado em fricções pelos índios para se preservarem das picadas dos insetos e da penetração do ‘bichodo-pé’; a casca contém 5% de tanino; a safra das frutas ocorre em fevereiro e de junho a julho; uma árvore pode dar de 180 a 200 kg de amêndoas; a casca, muito amarga, é, como as folhas, utilizada em cozimento como febrífug o e antihelmíntico, ou, externamente, para lavagem das úlceras, contra o impetigo e outras moléstias da pele. Um parágrafo deste texto de Landi foi reproduzido em Sousa (1999: 263).

Pp. 73-74 (n. 78). Sorva – “Fruto da sorveira, ár vore da família das Apocináceas (Couma guianensis), da floresta úmida, que se caracteriza pelos frutos bacáceos, comestíveis, de pequeno tamanho, e cujo látex é amargo, não servindo para beber” (Ferreira, 1999: 1887). Cavalcante (1988) descreve, além desta espécie (à p. 213), a ‘sorvinha’ (Couma utilis) e a ‘sorva-grande (Couma macrocarpa). Comenta esse mesmo autor (pp. 211-212): “Os frutos da sorveira são muito apreciados, consumidos somente no estado natural, às vezes com a casca e as sementes, o que nem sempre é aconselhável. É muito comum nas feiras de Manaus e também postos a venda nos locais mais movimentados do centro comercial, como avenidas, praças e paradas de coletivos. Assim como as espécies da família sapotácea, produtoras da matéria prima para a fabricação da goma de mascar (chewing gum), as sorveiras são também explotadas com essa finalidade. As árvores são sangradas de cima abaixo do tronco, em sulcos helicoidais, por onde escorre o látex com abundância, o qual, após coagulado e moldado em compactos blocos, é exportado com o nome de ‘sorva’. (...). Regionalmente, o leite de sorva é empregado na calafetagem de pequenas embarcações e, nos lugares mais afastados costumam misturá-lo com café ou então pode ser utilizado em forma de mingau com outros ingredientes. O conhecimento e uso do látex pelos nativos já é bem antigo, pois Baena (1839: 424) faz referência a uma tradição de que ‘as casas assim dos brancos como dos indianos, eram caiadas com tabatinga combinada com a goma da sorveira para

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lhe dar maior perseverança. Adaptada ao meio urbano, a sor veira poderia constituir um belo atrativo ornamental. Na época da floração a árvore cobre-se toda de róseo-púrpura realmente admirável”. Ver também Le Cointe (1947: 438). P. 74 . Ingá - Ver nota à p. 34 (n. 24). Pp. 75-76 (n. 79) Taperebá – “Spondias mombim, Anacardiácea. Árvore de porte médio, até 25 m de altura, galhos a partir de 3-5 m do solo, formando copa espraiada até 15 m de diâmetro, tronco revestido de casca espessa, rugosa e fissurada, com projeções rombudas, espiniformes. Folhas compostopinadas, cerca de 30-70 cm de comprimento; folíolos, 9-15 pares, elípticos, 5-10 cm de comprimento, acuminados no ápice e assimétricos ou truncados na base. Inflorescências em panículas terminais, com flores diminutas, polígamas. O fruto é uma pequena drupa elipsóidea de 3-4 cm de comprimento, casca fina, lisa, de cor amarelo-alaranjada, polpa sucosa, doceacidulada, de sabor e cheiro muito agradáveis; endocarpo (caroço) espesso, súbero-lenhoso, com 5 lóculos unispermos. (...). O fruto do taperebá é um dos mais apreciados na região, principalmente o refresco, o sorvete e o picolé, dele fabricados. É também muito apreciado na forma de ‘batidas’, em moda nas recepções sociais. Quando maduros, os frutos devem ser logo consumidos porque se deterioram em pouco tempo, além de serem bastante sensíveis ao manuseio. Aparecem nas feiras de Belém durante uma boa parte 216

do ano, porém com mais freqüência e abundância de dezembro a junho” (Cavalcante, 1988: 214-215). Ver também Le Cointe (1947: 453). Pp. 76-77 (n. 80). Cutitiribá – “Cutite [ou Cutitiribá]. Pouteria macrophylla, Sapotácea. Árvore mediana, em torno de 20 m de altura, tronco reto até 50 cm de diâmetro, casca exsudando abundante látex quando cortada, copa densa, com ramos mais novos ascendentes. Folhas alternas cartáceas obovadas ou oblanceoladas, 10-18 cm de comprimento, 5-9 cm de largura, até 30 cm por 10 cm nos indivíduos jovens. Inflorescência em fascículos de 3-l0 flores nascidas entre as folhas ou nos ramos onde aquelas já caíram; cálice de 4-5 sépalas oblongoovais, pilosas externamente; corola esverdeada com 4-6 pétalas, estames opostos às mesmas; ovário globoso com 5 lóculos uniovulados. Fruto, uma baga arredondada até 6 cm de diâmetro, sementes ovóides marrom-escuras, dentro de uma polpa amarela de consistência algo farinácea, semelhante à gema de ovo cozido. (...). A consistência e a cor da polpa dos frutos são bastante parecidos com a gema do ovo cozido e tem sabor agradável e cheiro bem pronunciado, e que, a princípio, parece enjoativo para algumas pessoas” (Cavalcante, 1988: 97-98). Pp. 77-79 (n. 81). Castanha-do-pará e Sapucaia Castanha-do-pará: “Bertholletia excelsa, Lecitidácea. Árvore de porte colossal, em torno de 40-50 m de altura quando já idosa e cerca de 2 m de diâmetro quase à base do tronco. Ducke Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


(1954: 15) assinala que ‘a famosa castanheira-do-pará pode, só em casos excepcionais, chegar a 50 metros, porém seu tronco não ramificado (quando na mata virgem), até a copa pequena, pode medir 3 metros de diâmetro’. Recentemente, o botânico Nilo T. Silva teve oportunidade de medir uma castanheira derrubada na área do Projeto Jari, cujo comprimento total foi de 62 metros, e o diâmetro do tronco 4,30 metros; uma segunda castanheira (não derrubada), com semelhantes proporções, foi encontrada no município de Marabá. A idade de castanheiras desse porte é estimada entre 800-1200 anos. O tronco da castanheira é caracteristicamente cilíndrico, reto, com a casca rígida, espessa e rimosa e copa pequena em relação à altura do tronco. Folhas simples alternas, pecíolo em forma de calha, de 5-6 cm de comprimento, revestido de um delicado tomento; limbo cartáceo-coriáceo, oblongo ou elíptico-oblongo, 25-35 cm de comprimento por 8-12 cm de largura; base aguda e ápice obtuso-arredondado, ligeiramente acuminado; margens onduladas, face superior verde-brilhosa; nervura central bem saliente na face inferior e de secção retangular; nervuras laterais abundantes, delicadas, retas, em ângulo cerca 60º com a nervura central. Inflorescência em racimos ou panícula de racimos na extremidade dos râmulos, raque anguloso, de 12-16 cm de comprimento. Flores curtamente pediceladas com 3 bractéolas na base, caducíssimas; cálice a princípio inteiro e urceolado, na antese bi- ou tripartido, com ápice dos lobos denteados; corola brancacenta ou levemente amarelada, perfumada, com 6 pétalas lives, Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

imbricadas, espesso-carnosas na base, levemente desiguais; andróforo com a parte superior hemisférica contendo no lado interno numerosas escamas (estaminóideos) arqueadas, ocráceas, acuminadas; parte inferior do andróforo, a lígula estaminal, levemente purpúrea; estames numerosos, dispostos em torno do orifício da lígula; filetes com uma pronunciada dilatação no ápice, onde se insere a antera por meio de um delicado conectivo filiforme; ovário ínfero, tetralocular, lóculos geralmente com 4-6 óvulos, estilete subulado, deflexo para o lado do andróforo, estigma capitado multipapiloso. Fruto capsular do tipo pixídio incompleto, vulgarmente denominado de ‘ouriço’, esférico ou levemente depresso; mesocarpo lenhoso, extremamente duro, constituído de células pétreas (esclereídeos); parte superior com uma região diferenciada, correspondente à área do cálice em cujo centro se encontra um orifício de 1 cm de diâmetro, sítio do rudimentar opérculo, imergido no fruto já bem seco. Um fruto pode pesar entre 500-1500 g e medir 10-15 cm de diâmetro; comumente contém 15-24 sementes, angulosas, de 4-7 cm de comprimento, com a casca (testa) córnea e rugosa” (Cavalcante, 1988: 82-83). Sapucaia: “Lecythis pisonis, Lecitidácea. Árvore grande decídua, cerca de 30 m de altura, tronco reto não muito alto, às vezes dividido em grossos galhos a pouca altura do solo, quando a árvore cresce em lugares mais ou menos abertos; ramos alongados, casca fissurada, copa bastante larga e densa. Folhas simples, alternas, pecíolos até 1 cm; lâmina membranácea, elíptica, 6-20 cm de comprimento, base arredondada e 217


margens minutamente serrilhadas. Inflorescência geralmente em pequenos racimos terminais, com flores grandes zigomorfas; cálice com 6 sépalas ovais de 10 mm por 5 mm; corola de 6 pétalas livres, desiguais, ovais, até quase arredondadas, cerca de 15 mm por 20 mm, amareladas e enegrecidas logo após caírem; andróforo em forma de U deitado, com estames e estaminódios na face inferior do braço superior (cúpula) conectado pela parte curva (lígula) ao braço inferior em cuja extremidade está o anel estaminal com minúsculos estames em torno do orifício do anel; ovário ínfero, 4-locular, lóculos pluriovulados. Frutos, uma volumosa cápsula lenhosa do tipo pixídio, cerca de 25 cm de diâmetro, munido de opérculo que se destaca na matuação para liberar as sementes, permanecendo a cápsula vazia na árvore, por muito tempo. Sementes em número de 40-50, irregularmente elipsóidea, cerca de 7 cm de comprimento, estriadas, com tegumento flexível. (...). As amêndoas da sapucaia são tão saborosas quanto as da castanha-do-pará e contêm cerca de 51% de óleo comestível. Contudo, a deiscência do fruto é considerada um fator negativo na sua comercialização porque, como é sabido, o opérculo se desprende espontaneamente do fruto ainda na árvore, libertando as sementes; estas se dispersam por entre a vegetação, dificultando a sua colheita. Logo a seguir são avidamente devoradas pelos animais roedores da floresta” (Cavalcante, 1988: 209-210).

de altura quando cultivada, podendo atingir 20-25 m, no estado silvestre na mata primária. Folhas simples, alternas, curtamente pecioladas, limbo subcoriáceo, largo-elíptico ou ovalado, 1230 cm de comprimento e 7-15 cm de largura, ápice curto acuminado, base arredondada ou obtusa; nervuras secundárias 4-6 pares, fortemente inclinadas para o ápice. Inflorescências em pequenas panículas espiciformes, flores pequenas com três brácteas na base, cálice, 5 sépalas carnosas, corola, 5 pétalas brancacentas, estames 5, com filetes alargados no meio e estreitados nas duas extremidades. Fruto uma drupa elipsóidea de 6-8 cm de comprimento, casca fina, amarelo-alaranjada, mesocarpo carnoso-oleoso, cerca de 5 mm de espessura; endocarpo fibroso, delgado, envolvendo uma volumosa semente de 6 cm de comprimento. Espécie nativa e exclusiva do Pará, comum em todo o estuário até o baixo Amazonas, espontânea ou cultivada. Os frutos são consumidos ao natural e acompanhados de farinha de mandioca, e assim muito apreciados pelo povo. Têm cheiro e sabor peculiares; para algumas pessoas, agradáveis, para outras, enjoativos. A polpa pode fornecer uma boa porcentagem de óleo comestível, assim como a amêndoa. Frutos encontrados nas feiras de Belém, em grande quantidade, nos meses de janeiro a junho” (Cavalcante, 1988: 225-226). Consulte-se também Le Cointe (1947: 483).

Pp. 79-80 (n. 82) Umari – “Poraqueiba paraensis, Icacinácea. Árvore pequena ou mediana, geralmente em torno de 8 m

Pp. 80-81 (n. 83) Aninga – Montrichardia arborescens, da família das Aráceas. Corrêa (1984(I): 134-135) assim discorre sobre esta planta, sob aninga-uba: “Planta de

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caule grosso, inerme, ou pseudo-aculeado (protuberancias com fórma de aculeos), até 4 m de altura; folhas longopecioladas, sagittadas, com limbo de 2030 cm de comprimento; flores dispostas em espigas de 10 cm de comprimento, protegidas por espatha carnosa de 12 cm; fructo composto de numerosas bagas de 1 cm ou mais de diâmetro. - Esta especie é uma das mais caracteristicas da foz do Amazonas, ahi vegetando socialmente e constituindo a primeira vegetação (‘aningal’) nas praias lodosas dos ‘furos’ e das ilhas fluctuantes, injustamente considerada ‘praga’, porquanto tem bastante utilidade. - Certamente a parte mais valiosa consiste nas fibras ou filamentos rectos e parallelos que o caule contém e se prolongam pela raiz, na proporção total aproveitavel de 300 g, em média, por individuo, os quaes vêm sendo utilisados (Estados Unidos) talvez na cordoalha e no fabrico de papel e têm mercado franco no Pará; estudos recentes (Londres) demonstraram que fornece bom papel escuro (por não poder ser sufficientemente branqueado). - A raiz, sêcca e reduzida a pó, é purgativa, drastica, diuretica e anti-hydropica, recommendada tambem contra a mordedura das cobras; as folhas são acres, anti-rheumaticas e resolutivas, entretanto o gado bovino come-as com prazer, embora em limitada quantidade, provavelmente como condimento; a flor é excelente isca para o ‘pacú’ e tanto este peixe como o ‘bagre’ e o ‘tambaqui’, assim como os chelonios (tartarugas e kagados), alimentam-se com o fructo. Quanto ao succo da planta, é caustico e hemostatico energico, de uso perigoso. Parece que em certas épocas do anno

PP. 84-85 (n. 85) Angelim – [Pp. 84-85]. Landi trata neste trecho, aparentemente,

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algumas féras e os jacarés se occultam entre as raizes, tornando sobremodo arriscada para o homem a sua penetração no ‘aningal’. - Guyana e Amazonia. = Sin.: aninga-de-espinho, aninga-do-pará, aninga-peré, banana-de-macaco, guimberana, imbé-da-praia, imberana; siny dos extinctos Arauans”. Ver também Le Cointe (1947: 41). Pp. 81-83 (n. 84) Umiri – “Humiria balsamifera, Humiriácea. Arbusto, árvore pequena ou grande, dependendo do habitat. Folhas subsésseis, subcoriáceas, de forma e tamanho variáveis, geralmente obovadas ou elípticas, alcançando até 18 cm de comprimento e 7 cm de largura, sendo mais freqüente dimensões entre 6-7 cm por 3-4 cm, nervuras laterais quase imperceptíveis. Inflorescências cimosopaniculadas, axilares ou subterminais; flor branca de 5 mm de altura, com 20 estames soldados na metade inferior e ovário com 5 lóculos biovulados. O fruto é uma drupa oblongo-elipsóidea cerca de 1,5 cm de comprimento, de cor roxoescura quando madura. (...). A casca das árvores adultas produz um bálsamo resinoso muito agradável, usado na medicina popular como expectorante, tenífugo e contra blenorragia. [...] esse bálsamo é produzido somente pelas árvores velhas, provavelmente como conseqüência de doença da arvore, pela ação de uma espécie de bactéria. A época da floração varia de um lugar a outro, sendo mais acentuada entre os meses de maio a setembro, seguindo-se, em pouco tempo, a frutificação” (Cavalcante, 1988: 227). Ver também Le Cointe (1947: 484).


de três espécies: o angelim-do-pará, o angelim-coco e o angelim-pedra. ‘Angelim-do-pará’ é “designação comum a espécies do gênero Angelim, da família das Leguminosas Papilionáceas, cujas árvores são altas, de flores róseovioláceas e rósei-purpúreas” (Ferreira, 1999). O ‘angelim-coco’ (P. 85) ´é “Ár vore pequena da família das Leguminosas Papilionáceas (Andira legalis), de flores violáceas, cuja madeira se emprega em obras expostas, carpintaria, etc., e cuja casca e sementes possuem propriedades vermífugas. Sin.: angelim-doce, pau-pintado, urarema” (Ferreira, 1999). O ‘angelim-pedra’ (P. 85) é “Árvore da família das Leguminosas, subfamília Papilionácea (Fer reirea spectabilis e Hymenolophium patraeum)” (Ferreira, 1999). Uma parte deste texto de Landi foi transcrita por Sousa (1999: 163). Landi faz referência ao ‘turu’ (p. 85, turrù), ou teredo, “Molusco bivalve da fam. Teredinidae, gênero Teredo, do qual se conhecem três espécies em nosso país. Têm aspecto vermiforme e numa das extremidades duas pequenas valvas com sulcos providos de dentes. Com eles, em movimento rotatório, cava galerias em madeira submersa, com a qual se alimenta, causando prejuízos de monta às embarcações de madeira, embarcadouros e cais” (Ferreira, 1999: 1947, sob teredo). O turu da região do Salgado, no Pará, foi exaustivamente estudado, em seu aspecto folclórico, por Julieta de Andrade (1979).

O ‘louro-branco’ é “Árvore da família das Lauráceas (Ocotea guianensis), nativa nas matas da Amazônia, de folhas com indumento piloso, alvacento na face inferior, flores muito pequenas, cimosas, e cuja madeira, branca e leve, é utilizada sobretudo no fabrico de pasta de celulose para papel” (Ferreira, 1999: 1236). O ‘louro-amarelo’ é ár vore totalmente distinta, da família das Boragináceas (Cordia alliodora), “de folhas oblongas, amplas e tomentosas na página inferior, flores alvas, vistosas, reunidas em panículas compactas, e cujo fruto é uma pequena drupa com cálice e corola marcescentes, sendo a madeira, clara e leve, utilizada para canoas, móveis e construções” (Ferreira, 1999: 1236). Talvez Landi quisesse referir-se a esta segunda espécie. Quanto ao chamado ‘louroencarnado’, podemos supor que Landi se reportasse ao ‘louro-vermelho’, “Árvore da família das Lauráceas (Ocotea rubra), peculiar à Amazônia, de folhas coriáceas, obtusas no ápice, longamente acuminadas e glabras, flores pequeninas, rubro-tomentosas, ordenadas em panículas, e cujo fruto é uma baga cupulada, sendo a madeira, de coloração vermelha, excelente para mobiliário e construção” (Ferreira, 1999: 1236). Naturalmente, na ausência de uma descrição mais detalhada por Landi, são estas identificações hipotéticas.

P. 86 (n. 86) Louro – Landi fala de “duas espécies”: ‘louro-branco’ (ou amarelo) e ‘louro-encarnado’.

Pp. 87-88 (n. 87). Acapu – Vouacapoua americana, família das Leguminosas “Arvore alta, até 20 m ou mais; casca cinzenta-escura com depressões; folhas compostas, imparipinnadas, com peciolo commum estriado; foliolos ovado-

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Pp. 88-90 (n. 88). Cedro – “Árvore de grande porte, sem ramificação, da família das Meliáceas [Cedrella prov. odorata], dotada de casca grossa, considerada medicinal, flores grandes e alvas e fruto capsular lenhoso com numerosas sementes. Fornece madeira própria para marcenaria, escultura, certas embarcações pequenas, etc. [Sin.: cedro-amarelo, cedrorosa, cedro-branco, cedro-vermelho, cedro-davárzea, acajucatinga]” (Ferreira, 1999: 437).

Pp. 90-91 (n. 89). Maçaranduba ou “maçaranduba-verdadeira” - Manikara huberi, da fam. das Sapotáceas. “Árvore de porte elevado, geralmente de 30-40 m, podendo, às vezes, chegar aos 50 m de altura; fuste bastante longo, reto e uniforme, casca espessa e rimosa, com látex branco e resinoso, dando uma ‘balata’ inferior; cerne vermelho-escuro e muito pesado. Folhas coriáceas, oblongoobovadas, de 15-20 cm por 4-7 cm, com a face inferior compactamente revestida por um tomento amarelo-ouro; nervuras laterais copiosas, delicadas, paralelas e quase perpendiculares à nervura principal. Flores em fascículos axilares, em pedicelos de 3-4 cm. Fruto arredondado, cerca de 3,5 cm de diâmetro, com o cálice persistente em forma de uma estrela regular; casca lisa, amareloesverdeada, com látex branco, viscoso; polpa sucosa, doce, aromática, com 1-4 sementes castanho-escuras, achatadas, com uma aresta dorsal. A maçarandubaverdadeira é uma espécie tipicamente amazônica conhecida sobretudo como essência florestal produtora de boa madeira, a mais estimada entre as maçarandubeiras amazônicas. Dispersa por quase toda a região, notadamente no estuário, tendo como habitat ideal a mata pluvial de grande porte, na terra firme e em certas várzeas pouco inundáveis. Os frutos da maçarandubeira são quase tão saborosos quanto os da sapotilheira, na verdade um parente bem próximo daquela. Sendo impossível coletá-los diretamente da árvore, devido à altura, tem-se que apanhá-los no chão, o que nem sempre se consegue, por serem disputados pelos animais da floresta, aliás seus legítimos donos. Mesmo assim,

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oblongos, às vezes lanceolados e ondulados, acuminados, glabros na pagina superior, de 15 cm de comprimento; flores numerosas, de calice 5-dentado, dispostas em paniculas; fructo vagem drupacea, ovoide, lenhosa, avermelhada, dehiscente, de 8 cm. Fornece madeira de alburno brancoamarellado e cerne pardo-escuro com veios e manchas brancacentos, compacta, resistente e de bello aspecto, unctuosa ao tacto e com cheiro desagradavel, propria para marcenaria de luxo e construcção naval, vigas, esteios, soalhos, obras hydraulicas e carpintaria, tendo apenas o defeito de rachar facilmente; peso especifico 0,900 a 1,067; resistencia ao esmagamento, sem determinação da posição da carga, 930 kg/cm 2. - É incontestavelmente uma das melhores madeiras brasileiras (...). - Tanto a casca como o lenho são adstringentes e usados para lavar ulceras antigas; a sua fumaça serve tambem para defumar borracha. Os sertanejos distinguem as seguintes variedades: acapuhy, amarella, branca, commum, pintada, preta ou pixuna e rajada (...). - Guyana e Pará”. Também chamada angelim-de-folha-larga, aracuí, pitangueira e uacapu (Ferreira, 1999: 24).


algumas vezes são encontrados nas feiras entre os meses de fevereiro a abril” (Cavalcante, 1988: 149-150).

cujas pequenas drupas têm um páraquedas formado pelo cálice acrescente” (Ferreira, 1999: 1376).

P. 91 (n. 90). Marapautá – Não identificada.

P. 95 (n. 96). Muirajuba e Paricá – A ‘muirajuba’ é “Árvore da família das Leguminosas (Apuleia molaris), da floresta amazônica, de folíolos emarginados e oblongos, flores pequenas e dispostas em panículas, frutos densamente revestidos de pêlos, e cuja madeira é bege-clara, dura e durável” (Ferreira, 1999: 1376). O ‘paricᒠreferido por Landi talvez seja o ‘paricá-branco’, “Árvore espinhosa, da família das Leguminosas (Acacia polyphylla), comum nas várzeas dos rios. As folhas têm 30 a 50 folíolos de 6 mm; as flores em panículas; a madeira é pardo-amarelada, e malcheirosa quando úmida, servindo para polpa celulótica e tabuado; a casca encerra algum tanino” (Ferreira, 1999: 1501].

P. 92 (n. 91). Anani – “Árvore da família das Gutíferáceas (Symphonia globulifera), originária da América Central. A madeira é própria para construção e carpintaria e a casca produz resina utilizada na indústria” (Ferreira, 1999: 131). As duas primeiras linhas deste texto de Landi foram citadas por Sousa (1999: 263). Pp. 92-93 (n. 92). Pau-d’arco – Ou ‘ipê’. “Designação comum às árvores do gênero Tabebuia (antes, Tecoma), da família das Bignoniáceas, de que há dois tipos: a de flor amarela e a de flor violácea. Muito ornamentais pela floração belíssima, são dotadas de lenho muitíssimo rsistente à putrefação” (Ferreira, 1999: 1134, sob ipê). P. 94 (n. 93). Pau-rosa – “Árvore da família das Lauráceas (Aniba rosaedora), de certas áreas da floresta amazônica. A madeira encerra um precioso óleo essencial, cujo componente fundamental é o linalol, de grande emprego em perfumaria, sendo a extração feita mediante destilação com vapor de água. As folhas são largas e coriáceas; as flores, insignificantes” (Ferreira, 1999: 1519).

Pp. 95-96 (n. 97). Pau-roxo – “Árvore da família das Leguminosas (Peltogyne lecointei), da mata úmida. O lenho caracteriza-se por ser, no começo, pardoescuro, e ir ficando, à ação da luz, cada vez mais roxo. Folhas bifoliadas, flores minutas, fruto indeiscente e obovado, com ligeira asa, e madeira de valor para trabalhos finos e custosos” (Ferreira, 1999: 1519). P. 96 (n. 98). Pau-encarnado – Não identificado.

P. 94 (n. 94) Muiraquatiara – “Árvore da família das Anacardiáceas (Astronium lecointei), da floresta úmida, cuja madeira é semelhante à do gonçalo-alves, sendo valiosa pelo colorido e durabilidade, e

P. 96 (n. 99). Mangue e Acapurana – Para “mangue”, vide nota à p. 105 (n. 104). A “acapurana”, segundo Corrêa (1984 (I): 24) é a Campsiandra laurifolia, da

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fam. das Leguminosas-Cesalpináceas, “Arvore pequena; casca verde; folhas imparipinnadas, compostas de 9-13 foliolos oblongo-ellipticos, curtoacuminados, membranosos; flores brancas e roseas, curto-pedicelladas, numerosas, dispostas em grandes paniculas corymbosas; fructo vagem muito chata, coriacea, luzidia. – Fornece madeira amarello-clara com veios quasi pretos e póros longitudinaes muito visiveis, duravel, propria para construcção civil, esteios, marcenaria, etc., recebendo bem o verniz (...). As folhas, casca e raiz são febrifugas, tonicas e excitantes, de grande proveito no tratamento das febres terçãs, bem como para lavar feridas e ulceras. – É arvore muito commum nas varzeas humidas do Amazonas (...). Quando em flôr torna-se altamente ornamental” P. 97 (n. 100). Cumaru – Landi deve querer reportar-se ao “cumaruverdadeiro”, Coumarouna odorata, da fam. das Leguminosas-Papilionáceas, “Arvore grande, elegante e frondosa, caule recto até 32 m de altura e 60 cm de diametro, ás vezes mesmo 1 m; casca avermelhada ou amarello-claro-acinzentada, pouco espessa, com epiderme quebradiça e que se desprende facilmente; folhas grandes, alternas, alado-pecioladas, imparipinnadas, compostas de 6-8 foliolos alternos, curtopeciolados, com um appendice chato, linear, depois do ultimo par, sendo os foliolos oblongos ou ovados, arrendadoobliquo-obtusos na base e curtooblongo-acuminados no apice, até 20 cm de comprimento e 8 cm de largura, ou pouco mais, coriaceos, rigidos, luzidios, finamente reticulado-nervados, glabros

nas duas paginas; estipulas muito caducas; flores vermelhas, de 15 mm, muito aromaticas, dispostas em paniculas ferrugineo-pubescentes, tendo as sepalas coriaceas, denso-ferruginoso-tomentosas, petalas roseo-lilacinas e estandarte brancacento; ovario glabro, alongado; fructo vagem drupacea, ovoide ou oblonga, pubescente, de 5-7 cm, verdeamarellada quando madura, fibrosa e esponjosa, envolvendo uma semente dura, lisa, de 25-40 mm, roxo-escura, achatado-oblonga. – Fornece magnifica madeira de lei (...), de coloração variavel conforme o sólo em que cresce, mais geralmente de alburno cinzentoamarellado e cerne castanho-avermelhado ou amarello-roseo ou pardo-amarelladolaranja com veias ou listras vermelhas, ondeada, bellissima, tecido compacto, grão irregular, muito rija e dura, fibras finissimas e entrecruzadas, póros curtos e largos, difficil de trabalhar porém recebendo optimamente o verniz, propria para construcção naval, obras expostas ás intemperies, canôas, carroçaria em geral, vagões de passageiros, rodas de carros e de moinhos, eixos e dentes de engrenagem, placagem, marcenaria de luxo, bengalas, cabos de guarda-chuva, varas de pescar, obras de torno, flechas, pilões e quaesquer peças de resistencia, também boa para defumação da borracha (...). O fructo desta arvore, embora indehiscente, separa-se facilmente no sentido longitudnal, em duas partes rigorosamenre iguais, desde que seja exposto ao sol; a semente que o mesmo encerra é a famosa ‘fava de cumarú’ (...), objecto de importante commercio em meiados do seculo XIX, mas que depois foi decrescendo, posto que ainda persista.

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Tal semente, que os aborigines Caraibas aproveitavam para fazer collares e braceletes, é bem reputada antispamodica, diaphoretica e cardiaca, sendo que alguns tambem a consideram emmenagoga; taes virtudes medicinaes resultam da presença da ‘cumarina’ (...). Effectivamente o extracto é um veneno moderador e retardador da respiração e dos movimentos cardiacos (...). De certo não são estas propriedades medicinaes que tornaram famosa a nossa ‘fava de cumarú’, e sim o seu aroma [como notou Landi], tão forte quanto suave, a principio quasi apenas usado para perfumar o rapé e actualmente, como o tabaco em pó tem pouco consumo, serve para aromatisar os cigarros e charutos, assim como alguns whiskys e chocolates, tendo largo emprego na industria da perfumaria e dos sabonetes finos, bem como na arte culinaria, como succedaneo da baunilha na aromatisação de doces, sendo que da semente ainda se obtém 25% de óleo (‘óleo de cumarú’), igualmente aromatico, branco e transparente (...), mas que rança com facilidade, o qual é tonico do couro cabelludo e que já era usado desde longa data pelos Indios para curar as ulceras da bocca e para perfumar e dar brilho a seus cabellos...” (Corrêa, 1984 (II): 475-476).

sementes, até 16 cm de comprimento. Amazônia, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. – Fornece madeira de fibras muito revessas, própria para construção civil, obras externas e internas, carpintaria, esteios, moirões, lenha e carvão. A casca é adstringente e serve para curtume. É planta útil contra a asma e bronquites asmáticas; os índios de várias tribos fazem com a semente um pó esternutatório que usam como se fosse rapé” (Corrêa, 1984 (V): 372). P. 98 (n. 102). Sucupira – Mais provavelmente a Bowditchia nitida, da fam. das Leguminosas-Papilionáceas, “Árvore pequena, folhas imparipinadas, compostas de 5-7 folíolos oblongos, coriáceos, luzidios; flores dispostas em panículas; fruto vagem. – Amazonas e Mato Grosso. – Boa madeira castâneoescura, muito resistente e pesada. – Árvore ornamental de belo efeito quando coberta de flores, época em que tem poucas folhas. Poderoso depurativo antissifilítico; útil nas feridas e úlceras antigas” (Corrêa, 1984 (VI): 149).

Pp. 97-98 (n. 101). Paricá – Também chamado “paricá-de-curtume” e “paricáda-terra-firme”, na Amazônia, é a Piptadenia peregrina, “Árvore; folhas bipinadas, pinas 10-30-jugas, folíolos 3050-jugas, opostas, lineares, oblíquas na base; flores numerosas, dispostas em capítulos; fruto vagem rígida e coriácea, mais ou menos contraída entre as

Pp. 99-100 (n. 103) Copaíba – A primeira sentença deste trecho do MS de Landi foi citada por Sousa (1999: 163). Designação comum a várias espécies do gênero Copaifera, da fam. das Leguminosas-Cesalpináceas. A “copaíbaverdadeira”, Copaifera officinalis, é “Arvore grande, copa symetrica, um pouco deprimida, ramos curtos, até 40 cm de altura, geralmente menos da metade; casca castaneo-escuro e rugosa; folhas alternas, pecioladas, glabras, pennadas, compostas de 2-8 foliolos alternos, curto-peciolados, ovado-

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lanceolados ou oblongos, obtusomucronados, de 25-70 mm de comprimento, inteiros, um pouco coriaceos, pellucido-punctuados, frequentemente com glandullas cheias de oleo-resina visiveis á transparencia, tendo na base duas estipulas caducas; flores pedicelladas, apetalas, hermaphroditas, brancas, pequenas, dispostas em paniculas axillares, estreitas, frouxas, pubescentes; fructo vagem curtopedunculada, orbicular, obliqua, comprimida, aguda, carnosa, bivalve, até 25 mm, contendo uma semente ovoide com ala em forma de sacco e quasi completamente coberta pelo arillo. – Fornece madeira de cerne vermelhoescuro, tecido compacto, poros pouco visiveis, de primeira qualidade para construcção civil e naval (...). – Esta arvore e provavelmente as demais do genero produzem uma quantidade variavel do famoso ‘oleo de copahyba’ (...)” (Corrêa, 1984 (ii): 371-372). Além desta, existem as espécies C. guianensis (“copaíba-dopará”), C. martii (“copaíba-jutaí”), C. reticulata (“copaíba-marimari”), C. langsdorffii (‘copaíva-vermelha”), e outras, das quais se extrai, em maior ou menor quantidade, o “óleo de copaíba” (cf. Corrêa, 1984 (II): 370-375).

aromaticas, dispostas em paniculas; fructo baga. – É planta excitante e antispasmodica, efficaz contra a tenia; da oleo essencial com o aroma de limão e o cortex, reduzido a pó, emprega-se tambem como condimentar e carminativo. 2. Pseudocaryophyllus sericeus – “Arbusto ou arvore pequena de ramos pubescentes emquanto jovens; folhas ovado-oblongas, agudas dos dous lados, aé 8 cm de comprimento, rigidas, penninervadas, glabras na pagina superior e sericeo-argenteas na inferior; pedunculos compridos, axillares, alternos; flores dispostas em cymeiras axillares ou quasi yterminaes; fructo baga ovoide corôada pelos quatro lóbos obtudos do calice. – Fornece madeira dura e aromatica; a casca exsuda uma substancia resinosa e tambem aromatica; as folhas sêccas e distilladas dão 6% de oleo essencial aromatico e condimentar (...), proprio para perfumaria; os botões floraes (...) emquanto verdes têm aroma e sabor identicos aos do Amomo, das Antilhas...”.

P. 101 (n. 104). Cravo – Landi, possivelmente, deve falar nesta seção do “craveiro-da-terra”, nome comum a duas espécies de Myrtaceae (cf. Corrêa, 1984 (II): 428): 1. Calyptranthes aromatica – “Arbusto pequeno, ornamental, até 3 m de altura. Folhas connatas, oppostas, oblongo-ellipticas, agudas no apice, grandes, nervadas, glabras; flores brancas,

P. 102 (n. 104). Mangues – “Comunidade dominada por árvores ditas mangues, dos gêneros Rhizophora, Laguncularia e Avicennia, que se localiza, nos trópicos, em áreas justamarítimas sujeitas às marés. O solo é uma espécie de lama escura e mole. [Sin.: mangal, mangrove, manguezal]” (Ferreira, 1999: 1271). Neste trecho de Landi, denominação comum às seguintes espécies: 1. Mangue-branco - “Árvore da família das combretáceas (Laguncularia racemosa), espalhada nos mangues litorâneos, cujo tronco não tem raízes-

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escoras na base, cujas pequenas flores se apresentam em cacho, e cujos frutos, drupáceos, achatados, flutuam na água” (Ferreira, 1999: 1271). 2. Mangue-vermelho. “Árvore da família das rizoforáceas (Rhizophora mangle), que vive nos mangues do litoral, cujo tronco é sustentado por grossas raízes-escoras basais, cujo embrião pode começar a crescer dentro do fruto, o qual se enterra na lama do mangue, onde cresce rígido, e cuja casca, rica em tanino, é aproveitada; mangueiro, mangarobeira, mapareíba” (Ferreira, 1999: 1272). 3. Sereíba. “Designação comum a duas árvores características da vegetação de mangue, da família das verbenáceas (Avicennia nitida e A. tomentosa). São delgadas, têm madeira dura, flores pequenas, inseridas em racemos, e seu fruto é uma drupa mole e achatada. [Var.: saraíba, siriúva, siriúba; sin.: mangue-branco]” (Ferreira, 1999: 1841). Pp. 103-104 (n. 106). Jutaí – Hymenaea courbaril, Leguminosae-Cesalpinoidea. Segundo Cavalcante (1988: 148): “Árvore grande, comumente de 30 a 40 m de altura, excepcionalmente até 50 m. Tronco reto, cerca de 2 m de diâmetro, casca espessa até 3 cm de espessura, de cor marrom-avermelhada internamente. As últimas ramificações se dispõem de modo a dar um aspecto regularmente abaulado à copa, o que e uma das características da espécie. Folhas compostas de 2 folíolos ovallanceolados, assimétricos e coriáceos. Inflorescências em panículas corimbosas terminais. Flores com 5 sépalas espessas, côncavas, marrom-esverdeadas, 5 pétalas

brancas, caducíssimas, 10 estames e ovário formado de um carpelo unilocular com 6-18 óvulos. O fruto é uma vagem indeiscente, oblonga, subcilíndrica, de 815 cm de comprimento; exocarpo rígido, espesso, vermelho-escuro, contendo pequenas bolsas de resina na superfície externa; sementes 1-6, vermelho-escuras, envoltas por uma polpa seca, farinácea, adocicada, de sabor e cheiro muito característicos. O jutaí tem uma larga distribuição na América do Sul, desde o nordeste brasileiro até a Amazônia, países do norte do continente, bem como na América Central e Índias ocidentais, chegando até o México. Disperso nas matas de terra firme e de certas várzeas altas (mais freqüentes em solos argilosos) na Amazônia inteira. Algumas vezes também nos campos ou no capoeirão, em indivíduos reduzidos no tronco e às vezes também no tamanho das folhas. Embora relacionado aqui como fruta comestível, o jutaí é, sobretudo, fornecedor de outros produtos de maior importância. Fornece a resina conhecida como ‘jutaicica’ ou ‘copal’, empregada na indústria de vernizes. Essa resina exsuda em quantidade do caule, dos ramos e até do pericarpo, solidificando-se na própria árvore, ou caindo no solo, junto do tronco, onde é geralmente encontrada em estado meio fóssil em blocos de tamanho variado. Fornece madeira dura incorruptível, de cor vermelhopardacenta, às vezes difícil de trabalhar devido às concreções resinosas. O jutaí é muito conhecido pelas propriedades medicinais da sua seiva, empregada no tratamento de problemas respiratórios e urinários. Floresce entre agosto e

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setembro e quatro meses depois amadurecem os frutos, normalmente encontrados nas feiras de Belém.”

Pp. 108-109 (n. 110) Quaxinga – É a esta planta que deveria ser dado o nome

“guaxinguba”. Sob “coajinguba” comenta Corrêa (1984(II): 321-322): “Ficus anthelminthica (Pharmacosycea anthelminthica), da familia das Moraceas. - Arvore grande e ramosa; ramos finos, lisos e glabros; ramusculos cylindricos, castaneo-acinzentados; folhas alternas, pecioladas, elliptico-oblongas, de dimensões muito variaveis (12-23 cm de comprimento e 2-4 cm de largura, às vezes mais), agudas no apice e na base, coriaceas, vernicosas e com 10-15 ner vuras secundarias; estipulas lanceoladas, sempre enroladas; receptaculos axillares de 2 cm, pedunculados ou sesseis, solitarios ou geminados, deprimido-globosos, urnulados, com flores dos dois sexos, as masculinas de 4 sepalas e 2 estames oppostos, filamentos e antheras curtos, oblongos, comprimidos, emarginados e de tamanho desigual; flores femininas mais numerosas, curto-pedicelladas, perigonio profundamente 5-partido, 46 sepalas e 1 semente; fructo figo do tamanho de cereja, amarello-claro na maturação. - Fornece latex abundante, acre, drastico e corrosivo (= ‘leite de gamelleira’, ‘leite de goajinduba’), que o povo emprega contra a ictericia, a opilação e tambem como parasiticida e vermifugo, efficiente no combate aos vermes intestinaes, inclusive a solitaria, porém de uso perigoso, porquanto, conforme a dose, póde causar a morte do paciente; o Dr. Peckolt encontrou nelle um principio acre ‘sui generis’, varios acidos organicos, substancias albuminosas, sáes de acidos inorganicos, caoutchouc e resina molle. A madeira é leve e muito branca, sendo utilisada, à falta de outra, para canôas e côchos; é, todavia, procurada para

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P. 104 - Caju - Ver nota à pág. 1 (n. 1). Pp. 105-106 (n. 106). Baunilha – “Planta da família das orquidáceas (Vanilla planifolia), muito ornamental, de flores verde-amareladas, e cujo fruto é uma vagem alongada; baunilheira. A vagem seca dessa planta é empregada em confeitaria e perfumaria. A essência preparada com essa vagem ou produzida sinteticamente” (Ferreira, 1999: 281). Pp. 106-107 (n. 107). Muirapinima – “Árvore da família das moráceas (Brosimum guianensis), freqüente na mata úmida, de cerne duríssimo, imputrescível e difícil de trabalhar, notável pela coloração vermelha com pintas pretas, imitante a pele de onça, e empregada na confecção de objetos de luxo” (Ferreira, 1999: 1376). Pp. 107-108 (n. 108). Pau-ferro – “Árvore da família das leguminosas (Caesalpinia ferrea), comum nas matas pluviais e nas caatingas, que tem o tronco manchado de claro e escuro, folíolos pequenos muito ornamentais, os frutos são legumes lisos, perfumados e ricos em tanino, e a madeira é extremamente dura; jucᔠ(Ferreira, 1999: 1517). P. 108 (n. 109) Quacingùa (Guaxinguba) – Erro de Landi; este nome se aplica à espécie seguinte. A planta descrita neste trecho não pôde ser identificada.


pequenos trabalhos domesticos, taes como gamellas, colheres, farinheira, etc.; alguns aborigenes aproveitam a casca, no estado natural, para fazer tangas e mantos, apenas batendo-a para que se desprenda a epiderme dura. - Pará até ao Rio de Janeiro. - Sin.: coajinguva, cuaximguba, cuaxinguba, figueira do matto, f. vermelha, gamelleira branca, g. brava, g. mansa, g, roxa no Ceará; guaxinguba brava, lombrigueira, ojé e renaco, no Alto Amazonas; uapuim-assú”. Esta espécie é atualmente conhecida cientificamente como Ficus insipida.

Gerais. - Sin.: tibornai, na Bahia; jasmim manga, raivosa, sebeú-uva e sucuúba” (Corrêa, 1984 (IV): 433.

Pp. 109-110 (n. 111) Apuí, Maçaranduba, Janaúba – Apuí é “denominação comum às espécies Ficus fagifolia e Ficus nymphaefolia, da família das moráceas, árvore cuja casca exsuda látex; apuizeiro” (Ferreira, 1999: 174). A última sentença da página 109 (“Da questo scipó si tira un late, etc.”) foi citada por Sousa (1999: 264). Para a maçaranduba, ver nota às pp. 90-91 (no. 89). Janaúba - “Plumeria drastica [da família das Apocináceas]. Arbusto latescente; fôlhas pecioladas, lanceoladas, glabras, carnosas, muito grandes; flôres campanuladas, grandes, brancas, dispostas em cimas terminais. - Fornece madeira para obras internas, remos, carpintaria e caixotaria. A casca, febrifuga em doses mínimas, é venenosa e exsuda latex, que se conserva durante anos, também medicinal, sendo usada (no norte do Brasil), para curar feridas de mau caráter e reduzir hérnias. Na Bahia o latex serve para ser misturado com o da mangabeira. - Do Pará até Bahia e Minas

P. 110 (n. 112). Ginja e acerola. Ginja – Eugenia uniflora, Mirtácea. “Planta arbustiva desde 1,5 m de altura, até arvoreta, no máximo com 8 m, ramificada desde a base. Folhas simples, opostas, cartáceas, ovais, variando de 1,5 cm por 1 cm até 5 cm por 3,5 cm, verdeescuras e brilhosas, curtamente pecioladas, base arredondada e ápice curto, obtuso-acuminado. Flores solitárias ou em grupos de 2-3, axilares, com pedicelos filiformes de 2-3 cm de comprimento; corola 4 pétalas brancas, ligeiramente perfumadas, estames numerosos. Fruto, uma baga oblata de 2-3 cm de diâmetro, com 7-10 gomos longitudinais, cálice persistente, casca lisa, brilhosa, vermelha até escarlate quando madura; polpa alaranjada, sucosa, de sabor às vezes adstringente, às vezes adocicado; sementes 1-2, brancoesverdeadas. Originária do Brasil, a ginja encontra-se hoje espalhada em quase toda a América do Sul e em algumas ilhas do Caribe, América Central e no sul da Flórida (E. U. A.), onde é extensamente cultivada como planta ornamental e como cercaduras. Foi introduzida também nas Filipinas e no sudeste da Ásia. Os frutos variam no tamanho e no sabor, este podendo ser doce, ácido ou adstringente, variação essa provavelmente decorrente de fatores genéticos ou dos diferentes habitats onde medra a planta. (...) no sul da Flórida o fruto, quando bem maduro, é comido simplesmente como fruta fresca, ou em forma de salada, sendo muito

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apreciado para a fabricação de geléias e sor vetes. (...). Em nossa região, especialmente no Pará, a ginja é pouco cultivada, entretanto não raro é encontrada no estado espontâneo, sobretudo em lugares de antigas habitações; os frutos são geralmente de sabor medíocre, mesmo assim são consumidos, especialmente por crianças. (...) A maturação de seus frutos se verifica de setembro a dezembro, podendo iniciar a floração em janeiro, e, nesse caso, a maturação dos frutos irá até maio. Em Belém, tem sido observado praticamente o ano inteiro” (Cavalcante, 1988: 107). Acerola ou azarola (“lazariolo” no orig. de Landi, “lazzeruolo” no italiano moderno) - Malpighia punicifolia (= Malpighia emarginata), Malpiguiácea. Também chamada “cereja-das-antilhas”. Sob este nome, diz Cavalcante (1988: 8587): “Arbusto ou arvoreta de 2-6 m de altura, muito ramificado, ramos multilenticelosos, tronco não regularmente cilíndrico nem reto, casca fina, lisa, lenticelosa. Folhas opostas, simples, membranáceas, curtamente pecioladas, lâmina elíptica ou obovada, 2-7 cm de comprimento por 2-4 cm de largura, base cuneada, ápice obtusoarredondado e mucronado; margens suavemente onduladas e nervuras muito delicadas. Flores solitárias ou até 6 em pequenas umbelas; cálice com 5 sépalas ovais, cada uma com duas glândulas externas na base; pétalas 5, róseas, às vezes variando para avermelhadas ou quase brancas, limbo circular, crespo, com a base unguiculada; estames 8-10; ovário súpero com 3 estiletes. O fruto é uma drupa globoso-depressa, trilobada, até 3 cm de diâmetro, 2 cm de altura, peso Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

máximo de 13 gramas; cálice e pedúnculo persistentes, epicarpo (casca) delicada, de cor vermelha intensa, lustroso; mesocarpo (parte comestível) sucoso, levemente alaranjado, de sabor ácido (suave no fruto maduro); imersas no mesocarpo encontram-se 3 sementes angulosas, cada uma envolvida, isoladamente, pelo endocarpo, com 3 aristas dorsais conectadas transversalmente por outras. O fruto maduro desprende um cheiro característico, agradável, detectado à distância em ambiente fechado. A cerejadas-antilhas é originária provavelmente do norte da América do Sul ou das Antilhas e América Central, onde ainda existe no estado espontâneo, sendo conhecida desde a época do descobrimento das Américas.(...). Os frutos podem ser comidos ao natural, porém quando bem maduros. Seu uso mais comum é em forma de suco (refresco), ou como xarope, geléia, sorvete, etc.” P. 113 (n. 113). Figo – O fruto comestível da figueira, formado por infrutescência do tipo sicônio. A figueira é “árvore pequena, frutífera, da família das moráceas (Ficus carica), dotada de inflorescência monóica, receptáculos (sicônios) ou figos solitários ou geminados, axilares, polposos, comestíveis, revestidos de epiderme castanho-violácea com polpa vermelhocarmesim, muito doce quando madura, que contém flores (apenas as femininas, nas variedades cultivadas); figueira-daeuropa” (Ferreira, 1999: 900). Pp. 113-115 (n. 114) Parreira ou Videira (Moscatel, Castanheira). 229


A videira é “trepadeira lenhosa, da família das vitáceas (Vitis vinifera), cultivada no mundo inteiro por seus deliciosos frutos, as uvas, e que tem folhas ovadas, lobadas e tomentosas, flores pequenas reunidas em cachos e bagas ricas em açúcares, razão por que fermentam com facilidade, dando o vinho; vide, vinha, cepo” (Ferreira, 1999: 2070). Moscatel é o nome de uma variedade de uva apreciadíssima, e da qual existem vários tipos (Ferreira, 1999: 1379). Castanheira (européia) é “árvore grande, da família das fagáceas (Castanea vesca), de flores femininas, apétalas, inseridas na base de filamentos masculinos, que têm cúpula fechada, esférica, lenhosa, coriácea, com uns três frutos aquênios. É desprovida de albume, constituída inteiramente pelos cotilédones, e leva castanhas saborosas e nutritivas, que se comem cruas ou cozidas” (Ferreira, 1999: 424). Pp. 115-118 (n. 115) Hortaliças – Landi cita neste trecho várias plantas introduzidas pelos colonizadores: Chicória - “Planta pequena, lactescente, da família das compostas (Chicorium endivia), de flores azuis dispostas em capítulos, frutos com escamas agudas e desiguais, e folhas verdes e comestíveis, que podem ser crespas, onduladas ou lisas” (Ferreira, 1999: 459). Endívia - “Variedade de chicória de folhas frisadas, que pode ser consumida crua, em salada ou cozida; escarola, chicarola” (Ferreira, 1999: 753). Tomate - O fruto do tomateiro, “erva da família das solanáceas (Lycopersicum

esculentum), originária do Peru e cultivada no mundo inteiro graças ao fruto alimentar, o tomate, de baga vermelha e rica em vitamina C. Folhas moles e profundamente partidas, flores alvas, reunidas em cimeiras” (Ferreira, 1999: 1971). Couve - “Planta glabra, bienal, da família das crucíferas (Brassica oleracea), de flores alvas ou amarelas, de grande tamanho, dispostas em racimos frouxos, e folhas verdes, onduladas, um pouco carnosas, e comestíveis” (Ferreira, 1999: 572). Repolho - “Variedade de couve rasteira, de feitio globular e com as folhas imbricadas (Brassica oleracea)” (Ferreira, 1999: 1746). Brócolos (broccoli em italiano moderno) - “Erva da família das crucíferas (Brassica oleracea), amplamente cultivada como verdura, e cuja parte característica se constitui das inflorescências novas, verdes e muito compactas, conquanto se utilize a planta inteira” (Ferreira, 1999: 334). Cardo - “Planta da família das compostas (Centaurea macrogonus), considerada praga da agricultura, de flores amarelas, folhas com espinhos, acinzentadas, e caule ereto, revestido de pêlos” (Ferreira, 1999: 408). Salsa - “Erva da família das umbelíferas (Petroselinum sativum), originária da Europa, muito cultivada em hortas, e que tem folhas partidas, herbáceas e aromáticas, e flores pequenas, brancas, organizadas em umbelas compostas. Essa erva é amplamente usada como tempero de sabor característico e estimulante do apetite, ou como guarnição de certos pratos” (Ferreira, 1999: 1803).

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Alecrim - “Arbusto da família das labiadas (Rosmarinus officinalis) que exala odor agradável e forte, e pos destilação dá abundante quantidade de óleo essencial volátil, e se usa como medicamento e como condimento; alecrim-de-cheiro, alecrineiro, alecrinzeiro” (Ferreira, 1999: 90). Cebola - “Erva bulbosa, da família das liliáceas (Allium cepa), de bulbo grosso, solitário, subgloboso, formado de túnicas carnosas, exceto as exteriores, que são membranosas, coloridas ou não, e que tem odor forte e picante, sabor acre e adocicado, sendo usada como condimento” (Ferreira, 1999: 436). Alho - “Planta hortense da família das liliáceas, cujo bulbo se emprega como condimento (Allium sativum). O bulbo desse vegetal, vulgarmente chamado cabeça, é constituído de outros vários pequenos bulbos, ditos dentes” (Ferreira, 1999: 97). Cebola-da-terra - Aqui só podemos especular que Landi estaria se referindo à “cebola-brava-do-pará”, “erva bulbosa, da família das amarilidáceas (Pancratium guianensis), de bulbo grande, sabor acre, flores sésseis e alvas, fruto capsular, com sementes achatadas, e que vegeta em terras inundadas; açucenad’água, cebola-branca” (Ferreira, 1999: 436). Hortelã - “Erva rasteira da família das labiadas (Mentha viridis), cuja morfologia e propriedades se assemelham às da hortelã-pimenta” ou ainda a hortelã-pimenta, “erva rastejante, da família das labiadas (Mentha piperita), muito cultivada para a extração de um óleo rico em mentol, de folhas moles, dentadas e fortemente aromáticas, e flores pequeninas” (Ferreira, 1999: 1063).

Mostarda ou mostardeira “Erva da família das crucíferas (Sinapis alba), cujas folhas, comestíveis, têm sabor picante, e de cujas sementes se retira um pó amarelo, a mostarda, com que se preparam vários condimentos, muito picante, e também usada como remédio, em cataplasmas” (Ferreira, 1999: 1371). Alface - Planta hortense, da família das compostas (Lactuca sativa), usada geralmente para saladas” (Ferreira, 1999: 93). Erva-de-são-caetano - “carrangio” (em ital. mod. caranza) - É o popular “melão-de-são-caetano”, Momordica charantia, da fam. das Cucurbitáceas. Corrêa (1984 (V): 186 diz deste vegetal: “Planta monóica, herbácea, escandente, delicada, muito ramificada, com caule estriado; folhas membranáceas, suborbiculares, 5-7 lobadas, com lobos ovado-oblongos, estreitados na base, denteados ou lobulados com lóbulos mucronados; gavinha simples, delicada, longa, pubescente; flores masculinas, solitárias, em pedúnculos do comprimento ou mais longo que a folha, provido na porção mediana ou mais abaixo de uma bráctea; bráctea reniforme ou orbicular cordiforme, mucronada, inteira, com 5-15 mm de comprimento; cálice com lacínios lanceolado-ovais, com 4-6 mm de comprimento e 2-3 mm de largura; lacínios da corola obtusos ou emarginados, com 1,5-2 cm de comprimento e 8-12 mm de largura; estames aglutinados com os lóculos das anteras muito flexuosos; flor feminina longamente pedunculada, com pedúnculo bracteado; ovário fusiforme, muricado; estaminóides 3, glanduliformes; estilete curto trífido no ápice; estigmas 3, bífidos;

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fruto cápsula carnosa, amarelo quando maduro, com 3-15 cm de comprimento tuberculada, trivalvar; sementes vermelhas, comprimidas. Regiões tropicais. - As hastes fornecem fibras macias próprias para enchimento de colchões, selins e outras obras estofadas, bem como para a indústria do papel; as folhas contêm o alcalóide ‘momorcidina’, o princípio amargo ‘momorcidipicrina’ e ácido momórdico. O fruto é amargo e comestível, muito salutar após a infusão em água salgada ou depois de submetido à decocção, quando verde entra na composição das conservas ou ‘pickles’ (Alemanha, Ceilão, Índia), na do caril e outros molhos picantes (Ásia e África) e na do ‘pepper-pot’ (Jamaica); das sementes extrai-se óleo usado como cosmético em outros países (Cochinchina); e finalmente a polpa que as envolve é muito procurada por certas aves silvestres, também parecendo eficaz no combate ao gogo das aves domésticas. - É planta cultivada para alimentação em todos os países supramencionados e parece que já foi empregada como sucedâneo do lúpulo (Humulus lupulus) na fabricação de cerveja (Índia). - No estado verde, o caule e as folhas triturados servem às lavadeiras, sobretudo no norte do país, para branquear a roupa. Na medicina popular atribuem-se-lhes numerosas virtudes, de modo que, conforme a parte usada, pode ser purgativa, emeto-catártica, febrífuga, anti-leucorréica, anti-catarral, vermífuga, anti-reumática, supurativa, anti-carbunculosa e ainda útil nas inflamações do fígado, embaraços gátricos, cólicas abdominais, menstruações difíceis, queimaduras, cravos e até contra a morféia. Tais virtudes, porém, embora já tendo

preocupado alguns mnédicos, não se acham ainda definitivamente reconhecidas. - É uma trepadeira bela e ornamental, mas pouco apreciada entre nós, talvez por seu cheiro enjoativo característico e por ser muito comum em todos os terrenos cultivados, campos e beirais de estradas e considerada ‘praga’ devido à sua grande expansão vegetativa, atrofiadora das plantas vizinhas. Introduzida da África e naturalizada em quase todo o país, raramente é cultivada e isto apenas nos jardins. (...). Sin.: fruto-decobra, fruto-de-negro, erva-de-são-caetano, ervade-são-vicente, erva-de-lavadeira”. Feijão ou feijoeiro - “Trepadeira da família das leguminosas (Phaseolus vulgaris), da qual há diversas variedades, de flores alvas ou alvo-arroxeadas dispostas em racimos axilares muito mais curvos que as folhas, e cujo fruto é vagem reta ou curvada, com numerosas sementes reniformes, comestíveis, de colorido que vai do branco até o negro, unicolores ou marmorizadas” (Ferreira, 1999: 889). Ervilha - Trepadeira anual, da família das leguminosas (Pisum sativum), dotada de flores grandes, solitárias, róseas, de corola alva, azulada ou roxa, e cujos frutos são vagens oblongas, lisas ou rugosas, com numerosas sementes comestíveis” (Ferreira, 1999: 788). Fava - “Planta de caule ereto, ornamental, da família das leguminosas (Vicia faba), com propriedades medicinais, de flores alvas ou róseas, com máculas negras nas asas, dispostas em racimos axilares, e cujo fruto é vagem viscosa, verde ou preta, comestível, com várias sementes; fava-do-brejo, favaordinária, faveira” (Ferreira, 1999: 884).

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Trigo - “Planta herbácea, da família das gramíneas (Triticum vulgare), cultivada em todas as terras temperadas, inclusive no S. do Brasil, em virtude dos frutos alimentícios. As flores, mínimas, reúnem-se em espículas, que são cariopses ricas em amido, com as quais se prepara a farinha de trigo, panificável por conter proteína (glute)” (Ferreira, 1999: 2002).

P. 118 - Mattioli - Pier Andrea Mattioli nasceu em Siena a 12 de fevereiro de 1501; estudou em Pádua, onde se doutorou em 1527. Passou depois a Roma, de onde teve que fugir em conseqüência do saque de 1527, refugiando-se em Trentino. Foi ali onde escreveu seu tratado sobre o ‘morbo gálico’ (sífilis), impresso em 1530. Em 1546 foi designado médico da

cidade de Gorizia e em 1554 transladouse a Praga, como médico do imperador Fernando I e depois de Maximiliano II. Em 1570 esteve por algum tempo em Verona, estabelecendo-se mais tarde em Innsbruck. Morreu de peste em Trento, em 1577. Além de seus escritos médicos, devemos a Mattioli a tradução da Geographia de Ptolomeu. Mas sua obra principal foi a tradução, com comentários, de Dioscórides. É de 1544 seu Di Pedacio Dioscoridae Anazarbo libri cinque della historia et materia medicinale, tradotta in lingua volgare italiana da M. Pietro Andrea Mattioli Senese Medico. Em 1547 apareceu uma reimpressão e em 1548 uma segunda edição. em 1549 teve outra reimpressão; uma terceira edição em 1552; todas estas sem ilustrações. Em 1554 começam as edições italianas com figuras, que se tornam cada vez mais perfeitas, e que chegam a alcançar vários milhares. De 1544 até 1712, constam-se 17 edições italianas desta obra de Mattioli; de 1554 até 1744, 10 edições latinas; de 1562 até 1678, 7 edições alemãs; de 1560 até 1680, 7 edições francesas; e de 1562 até 1595, 3 edições checas, sem contar as Opera quae extant omnia, publicadas em 1598 por Caspar Bauhin e reimpressas em 1674. As descrições tornam-se cada vez mais cuidadosas, obtidas através do estudo direto das plantas vivas ou secas, que eram remetidas por seus correspondenmtes. Mattioli tentou identificar as plantas vivas através das antigas descrições de Dioscórides, e várias vezes incidiu naturalmente em erro, apesar de reconhecer freqüentemente que as plantas que pretendia reconhecer eram distintas. Na primeira edição ilustrada, de 1554, há como que 1200 xilogravuras,

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P. 117 - “Però quando fui mandato a certo descimento de Indij dodici giorni sopra Mariuuà” - referência à viagem feita por Landi ao rio Marié, afluente da margem esquerda do Negro, de agosto a novembro de 1755, sobre a qual Landi escreveu, como vimos no início deste livro. Pp. 117-118 (n. 116). Esponjeira (“gaggia” (do gr. akakia) em italiano) – “Arbusto grande, da família das leguminosas (Acacia farnesiana), dotado de propriedades medicinais, cujas flores são hermafroditas, aromáticas, de cor amarelo-viva e dispostas em capítulos axilares, e cujos frutos, vagens indeiscentes, com polpa carnosa e sementes pardas, duras, são considerados venenosos; coroa-crísti, coronácris, coronha, esponja, espinilho” (Ferreira, 1999: 820).


todas originais e tomadas do natural. Muitas correspondem a descrições e figuras publicadas pela primeira vez na história da Botânica (Papavero, LlorenteBousquets & Espinosa Organista, 1995: 107-108). Aldrovandi - Ulisse Aldrovandi nasceu em Bolonha a 11 de setembro de 1522, ficando órfão prematuramente. Estudou matemática e a prática de negócios em sua cidade natal e depois em Brescia. De espírito aventureiro, chegou a fugir da casa paterna e a peregrinar pelo mundo; esteve em Roma, no sul da França e foi aparecer como peregrino em Santiago de Compostela; regressou depois à Itália, via Marselha, em 1539. Queria partir então para a Terra Santa, mas desistiu, por influência da família, e dedicou-se ao estudo, doutorando-se primeiro em leis, em 1546; freqüentou depois a Universidade de Pádua, para estudar medicina e filosofia (1548-1553). Em 1549 foi preso pelos esbirros da Inquisição e enviado para Roma. Libertado por Júlio II, interessou-se na Cidade Eterna pela escultura antiga, mais tarde publicando um livro sobre o assunto. Em Roma teve contacto com Rondelet (então ligado ao cardeal de Tourlon) e com Paolo Giovio, com os quais aprendeu ictiologia. Finalmente, em 1553, recebeu o capelo de doutor em medicina e filosofia. Em Bolonha sucedeu a Pamphilio Monti em sua cátedra do Colégio dos Artistas e como protomédico da cidade. Redigiu por essa época o Antidotarium bononiense. Fundou um museu e, em 1568, com os aplausos de Luca Ghini, um jardim botânico, que dirigiu juntamente com Cesare Odoni, até 1571, quando este veio

a falecer; depois dirigiu-o sozinho. A partir de 1573, os acessos de febre, complicados por uma litíase renal, minaram-lhe a saúde, até que em 1600 abandonou a docência. Faleceu em Bolonha a 4 de maio de 1605. As célebres coleções de história natural e peças arqueológicas de seu museu passaram, por seu testamento, juntamente com seus livros e manuscritos, ao Senado bolonhês. Deixou imensa quantidade de doumentos sobre história natural: 300 cadernos manuscritos, 20 pastas com pranchas in-folio, algumas aquarelas, xilogravuras, e outras, tudo isto custeado por ele próprio, ou feito graças aos auxílios oferecidos por Gregório XIII, Sixto V, pelo cardeal Montalto, pelo duque de Urbino e pelo grão-duque Ferdinando da Toscana. Aldrovandi nunca teve tempo de utilizar todos os materais que acumulou, e publicou pessoalmente apenas os quatro primeiros volumes de uma grande obra sobre história natural; o resto foi editado e terminado por outros compiladores: Nyterver, Dempter e Ambrosini. Em vida publicou, portanto, a Ornithologia, hoc est de avibus historia (1599, 1600, 1603) e De animalibus insectis libri septem (1602), este seu melhor livro pela novidade do tema, pelo cuidado em sua redação e subdivisão, pela precisão dos desenhos e pela contribuição pessoal do autor. Os volumes restantes apareceram postumamente, na seguinte seqüência: De reliquis animalibus exsanguinis libri quatuor; nempe de mellibus, crustaceis, testaceis et zoophytis (1606); De piscibus libri v et de Cetis liber unus (1612);

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De quadrupedibus digitatis viviparis libri tres et de quadrupedibus digitatis oviparis libri duo (1637); Serpentium et draconum historiae libri duo (1639); Monstrorum historia, cum paralipomenis historiae omnium animalium (1642); Musaeum metallicum libris iv distributum (1648); Dendrologiae naturalis scilicet arborum historiae libri duo (1667). De uma Dendrologiae tomus alter só se compuseram o frontispício e algumas páginas. Aldrovandi nunca teve tempo de ocupar-se adequadamente das plantas, apesar de haver reunido um herbário significatrivo (Papavero, LlorenteBousquets & Espinosa-Organista, 1995: 158-160). Pp. 118-121 (n. 117). Mamão (Mamoeiro) – Carica papaya, Caricácea. “O mamoeiro é uma erva arbórea não ramificada, exceto em situações anormais. O caule é ereto, crescendo até 6-7 m de altura, constituído de um tecido molefibroso, quando adulto desprovido de medula e dividido em seções. Folhas agrupadas no topo do caule, com pecíolo oco, até 1 m de comprimento, inicialmente horizontal, depois pendente; limbo de consistência membranácea, profundamente lobado, lobos e nervuras de primeira ordem dispostos palmadamente. As flores do mamoeiro apresentam-se sob várias formas quanto à sexualidade e, por esta razão, têm sido objeto de inúmeros estudos. Alguns autores chegaram a distinguir cerca de 30 tipos diferentes de

flores no mamoeiro. Contudo, pode-se considerar dois tipos dominantes de flores e um terceiro tipo intermediário, não dominante, como segue: 1. flores femininas, ou pistiladas. São as maiores e encontram-se isoladas nas axilas foliares, curtamente pediceladas; cálice rudimentar com 5 dentes; corola brancacenta, com 5 pétalas livres, espesso-carnosas, estreito-oblongas, até 6,5 cm de comprimento; ovário volumoso, obovado ou oblongo, lóculo único multiovado; quase toda produção de frutos provém desse tipo de flor; 2. flores masculinas ou estaminadas, dispostas em racimos longos e pendentes; cálice rudimentar com 5 dentículos; corola branca, perfumada, com um tubo longo, estreito e afunilado, dividido na parte superior em 5 lobos; na parte interna e superior do tubo encontram-se 10 estames dispostos em duas séries; 3. flores hermafroditas, ou andróginas, isto é, flores com estames e pistlos; é o tipo não dominante, que aparece ocasionalmente entre os outros tipos de flores e, como são dotadas de pistilo, podem produzir frutos, sustentados por um longo talo, conhecidos vulgarmente por ‘mamãomacho’. O fruto do mamoeiro é uma baga de tamanho e forma consideravelmente variável, podendo ser arredondado, oblongo, prifor me, obovado etc.; o tamanho pode atingir até 40 cm e o peso até 10 kg. O mamoeiro é de origem americana, provavelmente nativo do México, ou dos Andes, segundo alguns autores. Foi levado pelos primeiros navegadores para o Velho Mundo, onde é hoje largamente cultivado em todas as áreas tropicais. Em

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maior ou menor escala é cultivado de ponta a ponta em todo o território brasileiro e, no Pará, é uma das fruteiras de maior expressão comercial, destacando-se uma cultivar de frutos pequenos conhecida como ‘mamão de havaí’. O mamoeiro propaga-se espontaneamente com extraordinária facilidade, principalmente através das sementes transportadas pelos pássaros (dispersão ornitocórica). Deste modo, não raro, surgem mamoeiros espontâneos em quintais, em terrenos baldios, roças abandonadas, margens de estradas, algumas vezes formando extensos mamoeirais (...). Esta espontânea propagação, sua fácil cultura, além de outros fatores positivos, fizeram do mamão uma das frutas mais populares, de presença constante na mesa de todas as camadas sociais. Verde, é usado na fabricação de doce ou utilizado como verdura. Contém açúcares, vitaminas A, B1, B2 e C e constitui uma rica fonte de papaína, cuja ação, semelhante à da pepsina, auxilia na digestão dos outros alimentos, além de ter emprego industrial e medicinal. O mamoeiro tem vida útil bastante curta, mas floresce e frutifica praticamente de modo contínuo” (Cavalcante, 1988: 150151).

P. 124 (n. 119). Pavão(zinho-do-pará) – Eurypyga helias, ave gruiforme da fam. Eurypygidae. P. 125 (n. 120). Beija-flor – Aves da fam. Trochilidae, em geral. P. 126 (n. 121). Tem-tem – A primeira ave citada por Landi é o rouxinol-dorio-negro, ave passeriforme da fam. Icteridae (Icterus chr ysocephalus). A segunda não pode ser identificada.

Pp. 123-124 (n. 118). Tucano – Landi refere-se aqui a várias espécies de tucanos e araçaris, dificilmente identificáveis por suas escassas descrições, aves piciformes da família Ramphastidae.

Pp. 126-127 (n. 122). Pássaros ditos do Espírito Santo – Os comentários de Landi sugerem que a população associava o aparecimento sazonal de determinadas aves frugívoras em grande cópia com o “dia do Espírito Santo”, uma das denominações populares da festa de Pentecostes, antigo ritual judeu celebrado exatos 50 dias depois da Páscoa, que terminou sendo mantido pelos católicos, graças ao episódio do Novo Testamento da vinda do Espírito Santo, enviado por Cristo para iluminar os Apóstolos após a sua morte [cf. Atos dos Apóstolos 2: 1-4]. Ainda que o texto do Novo Testamento, em nenhum momento, relacione semelhante manifestação à imagem de uma ave, mas sim a “línguas de fogo”, antecedidas por um grande rumor vindo do céu “como se soprasse um vento impetuoso”, semelhante associação encontra-se demasiado presente na tradição cristã para ser ignorada, conforme comprova o grande número de textos e obras de arte relativas ao milagre da imaculada conceição e ao batismo de Cristo (teste Cooper, 1992; CharbonneauLassay, 1997). Nada mais natural, portanto, que uma concentração pouco

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(Das Aves) [P. 122]


usual de aves entre os meados de maio e as primeiras semanas de junho causasse forte impressão, sobretudo no seio de uma população cujo calendário se apresentava profundamente marcado pelos eventos religiosos. Ademais, semelhante aparição envolveria espécies de notável beleza, detalhe talvez nada desprezível em termo das mentes mais arrebatadas, sempre prontas e louvar as maravilhas da Criação e conferir um significado mirífico a qualquer evento natural. No entanto, tais convicções parecem ter sido insuficientes para impedir o abate desses pássaros extraordinários, conforme se depreende do próprio original de Landi. A julgar pela breve descrição fornecida, as observações do arquiteto italiano correspondem a um fenômeno que pode ocorrer no final do período chuvoso em diversas partes da Amazônia, quando um grande número de aves parece deslocar-se para áreas ricas em árvores em plena frutificação, por vezes formando concentrações dignas de nota. Em julho de 1991, poucas semanas após a festa de Pentecostes, tive a oportunidade de presenciar uma dessas aglomerações em São Gabriel da Cachoeira, cidade localizada na margem esquerda do alto rio Negro (c. 0º 08’ S, 67º 05’ W), cujos arredores estavam tomados por bandos de aves que disputavam os frutos dos açaizeiros (Euter pe sp.). Conforme mencionado por Teixeira & Bornschein (1993), uma fração considerável desses voláteis era composta por cotíngidas (Passeriformes, Cotingidae), sendo os exemplares de Xipholena punicea (Pallas, 1764) particularmente abundantes, embora vários representantes de Cotinga cotinga (Linnaeus, 1766), Cotinga cayana

(Linnaeus, 1766) e até mesmo de Phoenicircus nigricollis (Swainson, 1825) também pudessem ser observados. Conhecidos pelo nome geral de “bacacos”, esses pássaros eram recebidos com grande satisfação pelos habitantes da cidade, que promoviam verdadeiros festins em seus quintais para saborear a carne de dezenas de aves abatidas nas fruteiras vizinhas. De acordo com os vários testemunhos obtidos, semelhante fenômeno ocorreria normalmente nessa época do ano, não lhe sendo imputada relação alguma com qualquer passagem bíblica ou data religiosa. Os registros levados a cabo no alto rio Negro sugerem que o texto de Landi se refere a eventos semelhantes observados na região de Belém (provavelmente; Landi não menciona a localidade; muitas de suas observações foram feitas em Belém, mas existe um número considerável delas feitas no rio Negro), margem direita do baixo Amazonas. Com efeito, uma fração significativa dos “pássaros do Espírito Santo” mencionados pelo arquiteto italiano também parece estar formada por cotíngidas, aves de plumagem esplêndida mas de canto nada mavioso, que se revelam ávidas de determinados frutos, embora muitas vezes não possam ser consideradas frugívoras na exata acepção do termo (teste Teixeira & Almeida, 1997). De fato, a descrição de pássaros negros com as asas e a cauda brancas ajusta-se de forma notável aos machos de Xipholaena lamellipennis (Lafresnaye, 1839), ao passo que o relato sobre aves azuis com penas murzelas (“morelle”) na garganta parece corresponder aos machos de Cotinga cotinga e/ou Cotinga cayana. Malgrado as aves cor de carmim (“colore del carmino”)

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possam ser atribuídas aos machos de Phoenicircus carnifex (Linnaeus, 1758), as demais referências revelam-se de difícil identificação, por serem demasiado vagas ou não corresponderem exatamente a nenhuma das aves assinaladas para a região de Belém (teste Novaes & Lima, 1998). A comparação das observações de campo efetuadas no alto rio Negro com os curiosos comentários de Landi sobre a antiga Capitania do Grão-Pará sugere que o deslocamento de contingentes expressivos de determinadas espécies ornitológicas, em demanda de grandes concentrações de árvores em plena frutificação, já representou um evento sazonal comum ao ponto de constituir referência para o folclore das populações amazônicas durante o século XVIII. Semelhante fenômeno revestir-se-ia de particular interesse sobretudo pela marcada presença de um número muito expressivo de cotíngidas, pois esses pássaros não costumam apresentar tendência ao gregarismo não sejam em absoluto excepcionais (vide também Snow, 1982). Embora essas notáveis aparições pareçam não ser mais associadas com a festa de Pentecostes ou qualquer outra efeméride do calendário católico nos dias de hoje, vale lembrar que a presença de bandos expressivos de aves em determinadas datas religiosas continua mantendo seu significado no imaginário da região. Apenas a guisa de exemplo, lembraríamos a crença popular dos belenenses de que o maior ou menor número de periquitos (Psittacidae) avistados no segundo domingo de outubro, portanto durante as comemorações do Círio de Nazaré, pressagiam o volume das cheias anuais (Teixeira, 2000). 238

P. 128 (n. 123). Cigana – Ave galiforme da fam. Opisthocomidae (Opisthocomus hoazin). Pp. 128-129 (n. 124). Mutum – A primeira espécie é o “mutum-pinima” (Crax fasciolata); a segunda o “mutumcavalo” (Mitu mitu); ambas as aves da ordem dos galiformes, fam. Cracidae. P. 129 (n. 125). Garça – Trata-se aqui da “garça-branca-grande” (Casmerodius albus), ave ciconiiforme da fam. Ardeidae. P. 130 (n. 126). Maguari – Ardea cocoi, ave ciconiiforme da fam. Ardeidae. Pp. 130-131 (n. 127). Marrecas – Aves anseriformes da fam. Anatidae. P. 131 (n. 128). Unacuau [sic] – Ave caprimulgiforme da fam. Nyctibiidae. Barbaggiani - coruja-branca Segundo a Ornithologia (VIII, 539) de Aldrovandi (1559-1603), este seria o nome italiano da “suindara”, Tyto alba (vide Peterson et al., 1988), ave estrigiforme da família Tytonidae. P. 132 (n. 129). Cujubim – Pipile cujubi, ave galiforme da fam. Cracidae. P. 132 (n. 130). Nhambu – A espécie pequena referida por Landi é Crypturellus sp., e a grande Tinamus sp., ambas aves tinamiformes da fam. Tinamidae. P. 133 (n. 131). Saracura – Aramides cf. cajanea, ave gruiforme da fam. Rallidae. Pp. 133-134 (n. 132). Anu-una - Crotophaga ani, ave cuculiforme da fam. Cuculidae. Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


Pp. 134-145 (n. 133). Japiim – Cacicus cela, ave passeriforme da fam. Icteridae. Pp. 135-136 (n. 134). Guará – Eudocimus ruber, ave ciconiiforme da fam. Theskiornithidae. P. 136 (n. 135). Colhereiro – Ajaia ajaja, ave ciconiiforme da fam. Threskiornithidae. P. 137 (n. 136). Jacamim – Psophia sp., ave gruiforme da fam. Psophiidae. Pp. 138-140 (n. 137). Anac㠖 Deroptyus accipitrinus, ave psitaciforme da fam. Psittacidae. Pp. 140-141 (n. 138). Papagaios – Aves psitaciformes da fam. Psittacidae. P. 142 (n. 139). Araras – Na realidade, esta deveria ser a p. 143 (ver segunda nota abaixo desta). Landi refere-se aqui a Ara macao e Ara ararauna, aves psittaciformes da fam. Psittacidae. Pp. 143-144 (n. 140). Periquitos - Aves psittaciformes da fam. Psittacidae. A espécie mencionada à p. 144 é Aratinga solstitialis. A referência de Landi a um exemplar “completamente cor de ouro” pode referirse a um indivíduo que sofreu tapiragem. P. 143 - A primeira sentença (“Têm a cabeça totalmente amarela e o encontro das asas são de carmim” é repetição da frase que inicia a p. 141. O restante texto da p. 143 deveria, na verdade, constituir a p. 142, antes de entrarem as araras (e a página marcada como 142 por landi a página 143 verdadeira). Landi fez aqui uma Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

transposição de páginas. O “moleiro” citado nesta página é Amazona farinosa, ave psittaciforme da fam. Psittacidae. P. 144 (n. 141). Pombas – Aves columbiformes da fam. Columbidae. [Mamíferos; sem título] Pp. 145-146 (n. 142) Anta – Tapirus terrestris, mamífero perissodáctilo da fam. Tapiridae. Pp. 146-147 (n. 143). Tamanduá – A primeira espécie citada por Landi é Myrmecophaga tridactyla, o tamanduábandeira; a segunda, Cyclopes didactylus, o tamanduaí, ambos mamíferos edentados da fam. Myrmecophagidae. P. 148 (n. 144). Cutia – Dasyprocta sp, mamífero roedor da fam. Dasyproctidae. P. 149 (n. 145). Guariba – Alouatta belzebul, mamífero primata da fam. Cebidae. Pp. 149-150 (n. 146). Macacos – Landi refere-se neste trecho a vários primatas das fams. Cebidae e Callitrichidae. P. 150 (n. 147). Quati – Nasua narica, mamífero carnívoro da fam. Procyonidae. P. 151 (n. 148) Cuandu – Coendou sp., mamífero roedor da fam. Erethizontidae. Pp. 151-152 (n. 149). Capivara – Hydrochaeris hydrochaeris, mamífero roedor da fam. Hydrochaeridae. 239


P. 152 (n. 150). Mucura ou Sarigüéia – Didelphis marsupialis, mamífero marsupial da fam. Didelphidae. P p. 1 5 3 - 1 5 4 ( n . 1 5 1 ) . Ta t u – D a s y p u s n o v e m c i n c t u s , mamífero edentado da fam. Dasyproctidae, o tatu-galinha. P. 154 (n. 152). Paca – Agouti paca, mamífero roedor da fam. Agoutidae. P. 155 (n. 153). Veado – Landi refere-se a dois gêneros de mamíferos artiodáctilos da fam. Cervidae: Mazama sp. e ? Ozotocerus sp. P. 155 (n. 154). Porcos – Taititu – Pecari tajacu, mamífero artiodáctilo da fam. Tayassuidae. P. 156 (n. 155). Onça, ou seja, Tigre – Panthera onca, mamífero carnívoro da fam. Felidae. P. 157 (n. 156). Maracajá – Felis sp., mamífero carnívoro da fam. Felidae. P. 157 (n. 157). Irara – Eira barbara, mamífero carnívoro da fam. Mustelidae. P. 157 (n. 158). Aguará – ou Jaguacambeba – Galictis sp., mamífero carnívoro da fam. Mustelidae. Pp. 158-159 (n. 159). Preguiça – Bradypus sp., mamífero edentado da fam. Bradypodidae.

[Répteis; sem título] P. 160 (n. 161). Jararaca – Bothrops sp., réptil ofídio da fam. Viperidae. Com muita probabilidade, Bothrox atrox. Dizem Cunha & Nascimento (1978: 175): “Esta espécie é muito freqüente e domina todas as outras do gênero Bothrops; concorre paralelamente com muitas espécies da família Colubridae em quantidade de indivíduos. Tem sido encontrada em todos os habitats, especialmente nas áreas de roçados, onde são comuns os roedores, alimento essencial desses ofídios. Vive na mata, capoeira, lugares inundados e até nas proximidades das casas rurais. Encontrase nos arredores de Belém, em terrenos abandonados de vegetação secundária, causando, às vezes, acidentes. É muito ativa durante a noite, à caça de roedores e outros mamíferos, como o marsupial conhecido como ‘cuíca do mato’ (gênero Marmosa). Mas também é ativa durante o dia à procura de pássaros e lagartos (Ameiva ameiva), de acordo com a análise do conteúdo estomacal dos exemplares. Possuindo grande adaptabilidade ao meio ambiente em que vive, prolifera demasiadamente, sem ser comprometida por inimigos potenciais. É a espécie que ocasiona o maior número de acidentes aos habitantes das zonas rurais, em toda a Amazônia, acompanhada de longe pela surucucu (Lachesis m. muta (Linnaeus)).”

P. 159 (n. 160). Sauiá – Mamífero roedor da fam. Echimyidae.

Pp. 160-161 (n. 162). Coral – Micrurus sp., réptil ofídio da fam. Elapidae. Para as espécies do leste do Pará, ver Cunha & Nascimento (1978: 157-170).

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Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


P. 161 (n. 163). Surucucu – Lachesis muta muta, réptil ofídio da fam. Viperidae. Cunha & Nascimento (1978: 185) comentam sobre esta espécie: “A surucucu vive exclusivamente em áreas florestadas, de solo úmido, nas várzeas e proximidade de igarapés, escondendose durante o dia no oco de troncos apodrecidos e nas raízes salientes das ár vores gigantes. Os hábitos são terrestres e sua maior atividade é durante a noite, quando procura pequenos vertebrados que lhe servirão de alimento. O exame do conteúdo estomacal atestou ratos do mato. [...]. Não tem sido encontrada em outro ambiente no leste do Pará e por isso sua sobrevivência está condicionada a pequenas ilhas de matas residuais e nas matas ciliares de igarapés e várzeas. É pouco freqüente em vista da devastação que a área vem sofrendo há mais de 80 anos. Na região sul do Pará o ofídio é mais freqüente, onde grande parte da área ainda está revestida de densa floresta. Vários espécimes de tamanho avantajado têm sido coletados nessa região [...].” P. 162 (n. 164). Cobra-de-duas-cabeças – Amphisbaena sp. ou Leposternon sp., réptil da fam. Amphisbaenidae. Na Amazônia também conhecida como “mãe-de-saúva”; em tupi, ibijara. Diz Ihering (s/d: 239-240): “... à primeira vista parecem ser todas iguais, simples minhocas grandes, de cauda grossa e romba como a cabeça (e foi isto que determinou a escolha do nome). São de côr pálida, amarelada, em conseqüência da vida subterrânea que levam e foi também esta a causa da atrofia quase completa dos olhos, bem Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

como da perda total das extremidades. Encontram-se freqüentemente nos formigueiros (daí ‘mãe-de-saúva’). Ainda não está, ao que parece, de todo bem elucidado qual o alimento principal desses lacertílios. Dizem alguns autores que a ‘mãe-de-saúva’ come os seus hospedeiros, ao passo que outros lhe atribuem predileção por aranhas. São de todo inofensivas, mas o povo lhes tem medo, porque ‘dizem que picam com a cauda’.” P. 163 (n. 165). Sacaimbóia – ou Cipó – O nome ‘cobra-cipó’ é aplicado a muitas espécies de répteis ofídios da fam. Colubridae, dos gêneros Chironius, Dendrophidion, Dipsas, Dr ymoluber, Imantodes, Leptophis, Mastigodr yas, Oxybelis, Philodryas, Sibon e Siphlophis (cf. Cunha & Nascimento, 1978). O nome “sacaibóia” é reservado por esses autores a duas espécies de Chironius (cf. op. cit., pp. 62-63). Com a brevíssima descrição de Landi é obviamente impossível qualquer tentativa de identificação. P. 163 (n. 166). Quatimbóia – Nome aplicado (mais comumente como cutimbóia) a diversos representantes do gênero Chironius, répteis ofídios da fam. Colubridae. Pp. 163-164 (n. 167). Jibóia – Boa constrictor, réptil ofídio da fam. Boidae. Segundo Cunha & Nascimento (1978: 46): “É ofídio inofensivo, raramente mordendo. Não é irritadiço, mas quando procura alimento em liberdade mata a vítima por constricção. É extremamente comum na região leste do Pará, onde é encontrada em todos os habitats. Parece 241


ter mais preferência nos roçados e suas proximidades, nas capoeiras e muitas vezes próximo das habitações humanas. Ocorre em Belém e seus arredores. Hábitos exclusivamente arborícolas, mas costuma também andar no chão à procura de alguma presa e para deslocarse de um para outro lugar. Atividade mais noturna que diurna. Alimenta-se de pequenos e médios mamíferos, ratos, aves silvestres e domésticas e lagartos (Ameiva ameiva), de acordo com o exame do conteúdo estomacal”. P. 164 (n. 168). Acutimbóia – Nome comum a vários répteis ofídios da fam. Colubridae. Ver nota à pág. 163 (no. 166). Cunha & Nascimento (1978: 64) reservam este nome para Chironius scurrulus. P. 165 (n. 169). Camaleão – Tupinambis sp., réptil lacertílio da fam. Teiidae. Pp. 165-166 (n. 170). Jacaré, ou seja, Crocodilo – Répteis da ordem Crocodylia. A descrição de Landi é demasiado generalizada. [Animais aquáticos (incluindo certos mamíferos, peixes, ostras, tartarugas); sem título] Pp. 166-167 (n. 171). Lontra – Lutra sp. ou Pteronura sp., mamíferos carnívoros da fam. Mustelidae. P. 168 (n. 172). Pirarara – Peixe siluriforme de água doce da família Pimelodidae (Phractocephalus hemiliopterus). 242

No geral, a descrição de Landi poderia ser aplicada a vários outros bagres da família, embora a referência à cabeça que parece “coberta de areia grossa” expresse bem a granulação peculiar do neurocrânio da espécie. É curioso que o autor não descreva a coloração, que é bastante peculiar: dorso escuro, flancos esbranquiçados e nadadeiras em vermelho vivo. Ferreira et al. (1998: 126) comentam: “Espécie de grande porte, alcança mais de 1,5 m de comprimento e 80 kg de peso [o que corrobora a observação de Landi de que o peixe teria o tamanho de um homem]. A pirarara é um peixe praticamente inconfundível, com sua coloração característica e enorme cabeça. Possui ainda uma placa nucal muito grande e em forma de rim ou feijão, característica ímpar entre os pimelodídeos. Diferentemente dos demais grandes bagres, essa espécie invade os lagos e igapós à procura de frutos, que inclui em sua alimentação ao lado de peixes, crustáceos (caranguejos e camarões) e caramujos. Desova no início da enchente”. P. 168 (n. 173). Gurijuba – Peixe siluriforme de água salobra, da fam. Ariidae (Arius luniscutis). Chega a medir até 1,20 m de comprimento e é freqüente nas costas do Pará, do delta amazônico até a região de Bragança. A estrutura descrita como matéria-prima de cola é a bexiga natatória; de fato, ainda hoje, a espécie é procurada para a extração daquele órgão com vistas à fabricação de ictiocola.. P. 169 (n. 174) Pirarucu – [P. 169]. Peixe osteoglossiforme de água doce da fam. Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira


Arapaimidae (Arapaima gigas), “espécie de grande porte, é o maior peixe de escamas da Amazônia, chegando a atingir mais de 2 metros de comprimento e 100 quilos de peso. Caracterizada pela língua óssea e áspera e pelo corpo roliço. Tem respiração aérea obrigatória, isto é, precisa subir regularmente à superfície para tomar o oxigênio do ar. Este hábito é conhecido pelos pescadores e usado para capturálo com arpões. É uma espécie predadora, alimentando-se de peixes. Na epoca de reprodução, formam casais, com a fêmea depositandoos ovos em buracos cavados no fundo dos lagos, e cuidam da prole nos primeiros meses de vida. Espécie muito apreciada como alimento, contudo em virtude de sua escassez, sua presença nos mercados é pequena, sendo inclusive proibida sua captura entre os meses de novembro e março. É comercializada em mantas, que é a carne, em forma de filé, que fica após a retirada da cabeça, das nadadeiras, e da espinha dorsal, praticamente sem espinhos. Dois métodos de conservação são utilizados: o gelo e a salga, sendo este último o principal” (Ferreira et al., 1998: 28). Pp. 169-179 (n. 175). Pirajuba – – Peixe siluriforme da fam. Pimelodidae (Brachyplatystoma flavicans). É um dos peixes comerciais mais procurados no mercado de Belém, e os exemplares comercializados medem cerca de um metro de comprimento, podendo chegar a metro e meio e um peso de até 25 kg. Em estado natural, tem coloração prateada com reflexos dourados, e por isso é hoje mais conhecido no Estado Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

do Pará sob o nome dourada (não confundir com “dourada”, citada abaixo (n. 188), nem com “dourado”, que é um caraciforme (Salminus maxillosus) que não ocorre na Amazônia). P. 179 (n. 176). Mamaiacu – Por este nome se conhecem os baiacus (fam. Tetraodontidae) de água doce da Amazônia, duas espécies do gên. Colomesus (C. asellus e C. psittacus) muito semelhantes entre si. O peixe a que alude Salamon (?) provavelmente se trata de Sphoeroides maculatus, o baiacu marinho e estuarino, de distribuição cosmopolita. Todos possuem os “quatro dentes como os nossos” e a propriedade de inflar-se quando perturbados, e a maioria apresenta toxinas letais ao homem na vesícula biliar, ovários e pele. Saraca (“salacca” em italiano moderno) é Alosa communis, uma espécie de sardinha, peixe marinho clupeiforme da fam. Clupeidae. Pp. 170-171 (n. 177). Agulha – Como Landi só trata de espécies de água doce ou estuarinas, e não marinhas, presumese que o nome se refira a Potamorrhaphis spp., peixes beloniformes da fam. Belonidae. Há pelo menos duas espécies na região amazônica, P. guianensis e P. petersi. Não têm valor como alimento. P. 171 (n. 178). Rodela – Segundo o depoimento de várias pessoas mais antigas da região do Baixo Amazonas, esse nome atualmente em desuso deve designar Pseudodoras niger, peixe siluriforme da fam. Doradidae. A espécie é hoje conhecida ali como “cujuba”, e como “cuiú-cuiú” no Estado do Amazonas. 243


Pp. 171-175 (n. 179). Peixe-boi – Trichechus inunguis, mamífero sirênio da fam. Trichechidae. As fotos destas páginas da coleção Meira Filho estão praticamente ilegíveis, e daí as numerosas lacunas em nossa leitura do texto. P. 75 (n. 180). Tucunaré – Possivelmente Cichla ocellaris, peixe perciforme da fam. Cichlidae. O Dr. S. Kullander (com. pess.) acredita ser o número de espécies de tucunaré maior do que hoje imaginado, e o nome é indiscriminadamente usado para várias formas de Cichla. Todas são de porte médio a grande (até 60 cm de comprimento) e de carne apreciadíssima. O lúcio mencionado é o Esox lucius europeu (fam. Esocidae). P. 175 (n. 181). Piranha – O nome é aplicado a vários gêneros e espécies de peixes caraciformes da subfam. Serrasalminae (fam. Characidae). Entre as que ocorrem no Rio Negro estão Pygocentrus nattereri (piranha-caju), Serrasalmus spilopleura (piranha-mafurá), S. elongatus (piranha-longa) e S. rhombeus (piranha-preta, esta a que atinge maior tamanho, com até pouco menos de meio metro de comprimento), algumas de conhecida ferocidade, fato curiosamente omitido na descrição de Landi. Quanto à “dourada” citada (vrata no original), v. n. 185 abaixo.

As espécies que ocorrem na região são Hypophthalmus fimbriatus, H. edentatus e H. marginatus, não sendo incomuns cardumes mistos de indivíduos das duas últimas. São bagres de até 30 cm de comprimento, de carne gordurosa, apreciadas em algumas regiões como Cametá, mas rejeitadas em várias outras como peixe “reimoso” – ou seja, cujo consumo causaria pruridos e alergia, e faria mal ao sangue. P. 176 (n. 183). Sardinhas – Na Amazônia, o termo “sardinha” pode designar peixes de água doce pertencentes a dois grupos bem distintos. Hoje, o nome se refere principalmente aos caraciformes do gên. Triportheus (fam. Characidae, sete espécies na região), peixes de formato alongado com a parte anterior do ventre caracteristicamente encurvada, superficialmente assemelhadas às sardinhas verdadeiras, que são clupeiformes da fam. Clupeidae. Os representantes fluviais deste último grupo são atualmente mais conhecidos como “sardinhão” ou “apapᔠe compreendem três espécies – Ilisha amazonica, Pellona flavipinnis e Pellona castelnaeana – das quais apenas as do gên. Pellona atingem (e podem até ultrapassar) o tamanho de “dois palmos” citado por Landi.

P. 176 (n. 182). Mapará – Denominação de diversos peixes siluriformes hoje classificados na subfam. Hypophthalminae (fam. Pimelodidae), tendo sido anteriormente situados em família própria.

P. 177 (n. 184). Piramutaba - Se na época do autor a piramutaba (Brachyplatystoma vaillanti, siluriforme da fam. Pimelodidae) era “comum” a ponto de ser encontrada “em cada rio vizinho da cidade [de Belém]”, hoje, devido à intensidade do esforço de pesca, a espécie se tornou escassa na região. Ainda pode ser

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capturada em grande número na calha do rio Amazonas, onde atuam frotas de navios pesqueiros “piramutabeiros”, cuja produção é inteiramente absorvida pelo mercado de exportação. É a menor das espécies do gên. Brachyplatystoma e, como as demais, tem um ciclo de vida caracterizado por migrações de longa distância que percorrem desde o alto rio Solimões até a baía de Marajó. Segundo Ferreira et al. (1998: 134): “Espécie de grande porte, alcança cerca de 1 m de comprimento e cerca de 10 kg de peso. Difere de suas congêneres em forma e hábitos. Quanto à forma, apresenta uma nadadeira adiposa longa, com base distintamente maior que a base da anal. Além disso, é a única espécie do gênero que forma grandes cardumes, podendo se capturada aos milhares ao longo da calha do Solimões/Amazonas. Devido a esse fato, e por ser bem aceita tanto para consumo local como para exportação, movimenta uma pescaria intensiva e muito específica, sendo pouco seletiva quanto ao tipo de peixe utilizado como alimento. Reproduz-se no início da enchente, ao que tudo indica, no alto Solimões com os alevinos crescendo no estuário nas proximidades da Baía de Marajó”. P. 177 (n. 185). Pescada – Nome geral dado aos perciformes da fam. Sciaenidae, peixes de alto apreço gastronômico e valor comercial. As formas de água doce incluem os gêneros Plagioscion (cinco espécies na Amazônia), Pachypops (duas) e Pachyurus (três). Há pelo menos onze gêneros de pescadas de água salobra ou salgada na região: Ctenosciaena, Cynoscion, Isopisthus, Larimus, Lonchurus, Macrodon, Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

Micropogonias, Nebris, Paralonchurus, Pogonias e Stellifer. A “nossa dourada” (vrata no original) se refere ao peixe que se chama “orata” em italiano moderno (do latim aurata). Trata-se do perciforme Sparus auratus (fam. Sparidae), um pargo comum no Mediterrâneo. Essa espécie, que não ocorre no Brasil, é chamada “dourada” em Portugal, e nada tem a ver com o dourado-do-mar (Coryphaena spp., fam. Coryphaenidae), ou a nossa atual dourada (Brachyplatystoma flavicans, v. “Pirajuba” acima), ou o dourado da bacia do Paraná-Paraguai (Salminus maxillosus, fam. Characidae), e muito menos com o “dourado” do próprio Landi (v. n. 183 abaixo). P. 178 (n. 186). Bacu – Lithodoras dorsalis, peixe siluriforme da fam. Doradidae. O aspecto “escamoso” citado por Landi não se refere à presença de escamas, mas ao fato de, em indivíduos grandes (maiores que 30 cm), o ventre aparecer recoberto de pequenas placas ósseas que gradualmente vão ocupando toda a parte do corpo abaixo dos escudos da linha lateral. Essas placas eventualmente se anastomosam e conferem ao peixe um aspecto rígido e pétreo, do qual deriva o nome genérico e a denominação popular de “bacu-pedra”. Pode chegar a pouco mais de um metro de comprimento e, em que pese a avaliação contraditória de Landi sobre o sabor de sua carne, ocorre a exportação da mesma na forma de postas e filés congelados. P. 178 (n. 187). Raia – As raias de água doce da Amazônia pertencem à fam. Potamotrygonidae, com cinco ou seis 245


espécies do gên. Potamotrygon e pelo menos uma espécie de um gênero ainda não descrito (P. Charvet, com. pessoal). Todas podem atingir ou mesmo ultrapassar meio metro de diâmetro do disco, e são muito temidas pelos ribeirinhos devido ao acúleo que possuem na base da cauda, causador de acidentes dolorosos. Exemplares pequenos vêm sendo comercializados no mercado de peixes ornamentais, e os maiores podem ser consumidos como alimento, embora pouco apreciados. P. 179 (n. 188). Dourado – Este “dourado”, que não deve ser confundido com outros “dourados” e “douradas” (v. n. 185 acima), refere-se ao siluriforme Pimelodus ornatus (fam. Pimelodidae), hoje conhecido como “mandi-amarelo”. É uma espécie de porte pequeno (20 cm de comprimento), integrante da pesca de subsistência das populações ribeirinhas, com valor comercial reduzido aos mercados locais.

espécies na Amazônia) e, por extensão, a fam. Ageneiosidae como um todo. Os mandubés são bagres de corpo lateralmente comprimido e cabeça verticalmente achatada, superficialmente parecidos aos maparás (subfam. Hypophthalminae) mas com barbilhões curtos e reduzidos a um par apenas, que é ossificado nos machos reprodutivos. A. brevifilis, o maior deles, pode chegar a uns 60 cm de comprimento. A carne é apreciada em algumas regiões, e desprezada em outras como sendo “reimosa”. Ventre di tonnina - traduzimos por “ventrecha de atum”.

Pp. 179-180 (n. 190). Mandubé – Por este nome se designam os siluriformes do gên. Ageneiosus (quatro ou cinco

P. 180 (n. 191). Poraquê – Electrophorus electricus, peixe gimnotiforme da fam. Electrophoridae. Suas propriedades eletrogênicas são bastante conhecidas, e compreendem descargas de alta voltagem produzidas pelo órgão elétrico principal (derivado de um feixe de músculos estriados) para aturdir presas, e pulsos intermitentes de baixa freqüência que servem para orientação e comunicação interespecífica. A espécie foi descrita na XII edição do Systema Naturae de Linnaeus (1766) como Gymnotus electricus. O termo “enguia elétrica”, comum na mídia impressa e televisiva, é uma tradução literal da denominação em inglês da espécie (“electric eel”) e não tem qualquer uso entre as populações amazônidas. Na região de Ourém, centro-norte do Estado do Pará, a espécie é tida como comestível uma vez que se lhe extirpe a “lolóia”, ou o órgão elétrico principal. Parte deste texto foi citada por Sousa (1999: 268).

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P. 179 (n. 189). Piraúna – Denominação dada na Amazônia aos adultos do peixe perciforme Pogonias cromis, de hábito estuarino e marinho (fam. Sciaenidae). É também conhecido como “miraguaia”. Os indivíduos novos são de cor prateada, com quatro faixas transversais; os adultos, que podem chegar a metro e meio de comprimento e mais de 60 kg de peso, são escuros – e daí o nome “piraúna” (Ihering, s/d: 455). De fato, a espécie é infreqüente nas coletas da região.


Pp. 180-181 (n. 192). Ostras – Landi deve querer referir-se aqui a diversos moluscos bivalvos de água doce, e não às ostras (Oestreidae) verdadeiras. Pp. 181-184 (n. 193). Tartarugas – Landi refere-se à tartaruga-do-amazonas, Podocnemis expansa, réptil quelônio da família Pelomedusidae. Pp. 184-185 (n. 194). Tracajás – A tracajá é a espécie Podocnemis unifilis, réptil quelônio da família Pelomedusidae. As “tartarugas que se pescam no Maranhão, que são de água salgada”, referidas no fim da p. 184, são as uruanás, Caretta caretta, ou as tartarugas-de-pente, Erethmochelys imbricata, ambas espécies de répteis quelônios da fam. Cheloniidae. P. 185 (n. 194) - Paoli – paulos, moeda assim chamada do nome do Papa Paulo III, antiga moeda de prata da Roma papal.

P. 186 (n. 196). Trairambóia – Nome de algum réptil ofídio da fam. Colubridae. P. 187 (n. 197). Ararambóia – Provavelmente Corallus caninus, réptil ofídio da fam. Boidae. P. 187 (n. 198). Jaquiranambóia – Fulgora spp., inseto homóptero da fam. Fulgoridae. Para o folclore da jaquiranambóia, ver Lenko & Papavero (1997: 119-128). Sousa (1999: 270) comentou: “o manuscrito termina com uma pequena descrição de um ofídio [sic!] que Landi conhecia mal, a Giachiranamboia”. [Índice]

P. 186 (n. 195). Boiúna – Provavelmente a “sucuri”, Eunectes murinus, réptil ofídio da fam. Boidae. Sousa (1999: 267) identificou-a como Eunectes sp.

Pp. 188-192 - Landi omitiu, por descuido, de seu índice, os seguintes verbetes: annacan (anacã; p. 138); anta (p. 145); auará (aguará; p. 157); aguglia (agulha; p. 170); arraramboia (ararambóia; p. 187); garza (garça; p. 129); giacarè (jacaré; p. 165; jaguàcambeba (jaguacambeba; p. 157); mangas (mangues; p. 96); mandue (mandubé; p. 179); pimentas (p. 59); parera (parreira; p. 113); sariguéia (sarigüéia; p. 152); scipò (cipó; p. 163); taitetù (taitetu; p. 155); tigre (onça; p. 156); tariramboia (tarirambóia) (p. 186); vite (videira; p. 113).

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[Volta a tratar de cobras, incluindo a jaquiranambóia]


Índice dos nomes populares originais de animais e plantas contidos no Códice (As páginas referem-se ao MS de Landi) Abbacati - 16 Accapù - 87 Acapuranas - 96 Accutinboia - 164 Agli - 122 [116] Agochia - 170 Aguglia - 170 Andirobba - 70 Angellino - 84 Angellino-di-coco - 85 Angellino-di-pietra - 85 Annacan - 138 Annanì - 92 Anningas - 80 Annaunà - 133 Anta - 145 Appui - 109 Aquitti - 116 Arare [sic] - 142 Arraramboia - 187 Aruiglie - 112 [116] Assapucaia - 79 Atta - 7 Auarà - 157 Bacú - 178 Bacuri - 68 Biribas - 15 Biscia detta di due teste - 162 Brocoli - 111 [115] Brocoli gemani [?] - 111 [115] Buiuna - 185 Cacao - 31 Caffè - 4 Caggiù - 1 Cagiu - 104 Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

Camaleonte - 165 Capiuuara - 151 Caragiurù - 19 Cardi - 112 [116] Castagno - 77 Cedro bianco - 88 Cedro incarnato - 88 Ciapin - 134 Cicoria bianca - 111 [115] Cicoria in cespi - 111 [115] Cicoria trinciata - 111 [115] Cinganá - 128 Cipolla braba, o sai saluatica - 25 Cipolla della terra - 112 [116] Cipolle - 112 [116] Coàtti - 150 Coattimboÿa - 163 Cocodrilo - 165 Colombi - 144 Continas - 26 Corallo - 160 Cottone - 21 Cottone detto di Pirichito - 23 Coui apperti - 111 [115] Coui col cappucio - 111 [115] Crauo - 101 Cuandù. - 151 Cubbio - 26 Cuggiubim - 132 Cugliarera - 136 Cuia - 37 Cujubin - 132 Cumarù - 97 Cummandaassú - 45 Cuppauba - 99 Cupuassú - 13 Cuttia - 148 249


Cuttutirubà - 76 Dourado - 179 Erba di San Gaetano - 112 [116] Erbaggi - 111 [115] Faggiuoli - 112 [116] Faua seluatica - 35 Faua de impicio - 36 Faue - 112 [116] Fichi - 113 Frumento - 117 Garoffani - 117 Garza - 129 Giacarè - 165 Giachamin - 137 Giachiraramboia - 187 Gialappa - 36 Gianauua - 110 Giararaca - 160 Giassitara - 60 Giboia - 165 Gingias - 110 Ginipapo - 3 Giniparana - 9 Giuà - 25 Giuttaì - 103 Guarà - 135 Guaranà - 43 Guariba - 149 Guiaua - 10 Gurugiuba - 168 Iggiò [?] - 7 Indiuia - 111 [115] Ingas - 34, 74 Iuarà - 157

Latuca - 112 [116] Loiro bianco - 86 Loiro incarnato - 86 Lontra - 166 Macachi - 149 Maguari - 130 Mairagiuba - 95 Mamiacù - 170 Mamone - 118 Mamone vrana - 41 Mandue - 179 Mangani - 102 Mangas [sic] - 96 Mappara - 176 Maracagià - 157 Maracugià - 65 Marapautá [?] - 91 Maraquittiara - 94 Marecas - 130 Massaranduba - 90, 110 Morrera braba - 61 Mucura - 152 Mulleiro - 143 Murapenim - 106 Muschini - 9 Mustarda - 112 [116] Muttù - 128 Nambù - 132 Onza machiata - 156 Onza negra - 156 Onza rossa - 156 Ortollana - 122 [116] Ostras - 180 Ostrie - 180

Jaguácambeba - 157 Jràra - 157

Pacha - 154 Pacoue-sororoche - 64 Pappagalli - 140 Perera - 113

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Paricà1 - 95 Paricà2 - 97 Passeri detti dello Spirito Santo - 126 Pàu d’arco - 92 Paù ferro - 107 Pau incarnato - 96 Pau rosa - 94 Paù rosso - 95 Pauone - 124 Periquitos - 143 Pescada - 177 Pesce bue - 171 Peterzemolo - 112 [116] Pica flore - 125 Pichià - 42 Pigricia - 158 Pimenta saluatica - 18 Pimentas - 59 Piramutaua - 177 Piranga [sic, piragna] - 175 Pirarrara - 168 Pirauiua - 169 Pirauna - 179 Piriquitos - 143 Pomi d’oro - 111 [115] Porcos - 135 Porcuollana - 112 [116] Puciri - 23 Purachi - 180 Purarucù - 169 Quacingùaa - 108 Quacinga [?] - 108 Radechij - 111 [115] Raia - 178 Rodella - 171 Rosmarino - 112 [116]

Sardine - 176 Sariguèia - 152 Savià - 159 Scipò-una - 7 Sipò - 163 Siringa - 39 Sorbas - 73 Sponggiettas - 117 Sumauma bianca - 28 Sumauma incarnata - 27 Suppupira - 98 Surucucù - 161 Taigià-de-cobras - 57 Taitetù - 155 Tamandua - 146 Tapiribas - 75 Tariramboia - 186 Tartarughe - 181 Tattù - 153 Tein tein - 126 Tigre - 156 Tomate - 111 [115] Tracaggiàs - 184 Tuccano - 123 Tucunarè - 175 Turrù - 84 Uiola - 117 Vaniglia - 105 Veado - 155 Vite - 113 Vmarì - 79 Vmiri - 81 Vnacuaù - 131 Vrrapari - 62

Sabonetas - 17 Saccaimboÿa - 163 Saracura - 133 Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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Índice dos nomes populares de animais e plantas utilizados na tradução (As páginas referem-se ao MS de Landi) Abacate - 16 Acapu - 87 Acapurana - 96 Acutimbóia - 164 Aguará - 157 Agulha - 170 Alface - 112 [116] Algodão - 21 Algodão-de-periquito - 23 Alho - 112 [116] Amoreira-brava - 61 Anacã - 138 Anani - 92 Andiroba - 70 Angelim-coco - 84 Angelim-do-pará - 84 Angelim-pedra - 84 Aninga - 80 Anta - 145 Anu-una - 133 Apuí - 109 “Aquiti” - 46 Arapari [?] - 62 Ararambóia - 187 Araras - 142 Ata - 7 Aves-do-Espírito Santo - 126 Bacu - 168 Bacuri - 69 Baunilha - 105 Beija-flor - 125 Biribá - 15 Boiúna - 186 Brócolos - 111 [115] Cacau - 31 Café - 4 Caju - 1, [104] Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

Camaleão - 165 Capivara - 151 Carajuru - 19 Cardos - 112 [116] Cebola - 112 [116] Castanha[-do-pará] - 77 Cebola brava, ou seja, selvagem - 25 Cebola-da-terra - 112 [116] Cedro-branco - 88 Cedro-encarnado - 88 Chicória-branca - 111 [115] Chicória-em-céspedes - 111 [115] Chicória-trinchada - 111 [115] Cigana - 128 Cipó [Cobra-cipó] - 163 Cipó-una - 7 Cobra-de-duas-cabeças - 162 Colhereiro - 136 Continhas - 26 Copaíba - 99 Coral [Cobra-coral] - 160 Couve - 111 [115] Cravo - 101 Cravo [flor] - 117 Crocodilo [Jacaré] - 165 Cuandu - 151 Cubio - 26 Cuia - 37 Cujubim - 132 Cumandá-açu - 45 Cumaru - 97 Cupuaçu - 13 Cutia - 148 Cutitiribá - 76 Dourado - 179 Endívia - 111 [115 Erva-de-são-caetano - 112 [116] 253


Ervilhas - 112 [116] Esponjeiras - 117 Favas silvestres - 35 Favas-de-impigem - 36 Feijões - 112 [116] Figos - 113 Garça - 129 Ginja - 110 Goiaba - 10 Guará - 137 Guaraná - 43 Guariba - 149 Guaxinga - 108 Guaxinguba - 108 Gurijuba - 168 Hortaliças - 111 [115] Hortelã - 112 [116] “Iggiò” - 7 Ingás - 34, 74 Irara - 157 Jacamim - 137 Jacaré - 165 Jacitara - 60 Jaguacambeba - 157 Jalapa - 36 Janaúba - 109 Japiim - 134 Jaquiranambóia - 187 Jararaca - 160 Jenipaparana - 9 Jenipapo - 3 Jibóia - 163 Juá - 25 Jutaí - 103

Louro-encarnado - 86 Macacos - 149 Maçaranduba - 90, 109 Maguari - 130 Mamaiacu - 170 Mamão - 118 Mamorana - 41 Mandubé - 179 Mangues - 102 Maparás - 176 Maracajá - 157 Maracujá - 65 “Marapautᔠ- 91 Marrecas - 130 Moleiro - 142 Moscatel - 116 [114] Mosquinhas - 9 Mostarda - 112 [116] Mucura - 152 Muirajuba - 95 Muirapinima - 106 Muiraquatiara - 94 Mutum-cavalo - 128 Mutum-pinima - 128 Nhambu - 132 Onça-pintada - 156 Onça-preta - 156 Onça-vermelha - 156 Ostras - 180

Lontra - 166 Louro-branco - 86

Paca - 154 Pacova-sororoca - 64 Papagaios - 140 Paricá - 97 Parreira - 113 Pau-d’arco - 92 Pau-encarnado - 96 Pau-ferro - 107 Pau-rosa - 94

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Pau-roxo - 95 Pavão (Pavãozinho-do-pará) - 124 Peixe-boi - 171 Periquitos - 143 Pescadas - 177 Pimenta silvestre - 18 Pimentas - 59 Piquiá - 42 Pirajuba - 169 Piramutaba - 177 Piranha - 175 Pirarara - 168 Pirarucu - 169 Piraúna - 179 Pombas - 144 Poraquê - 180 Porcos - 155 Preguiça - 158 Puxiri - 23 Quati - 150 Quatimbóia - 163 Raia - 178 Repolho - 111 [115] Rodela - 171

Taitetu - 155 Tajá-de-cobra - 57 Tamanduá - 146 Tamanduaí - 146 Taperebás - 75 Tarirambóia - 186 Tartaruga-de-pente - 184 Tartarugas - 181 Tatu - 153 Tem-tem - 126 Tigre - 156 Tomate - 111 [115] Tracajás - 184 Trigo - 117 Tucano - 123 Tucunaré - 175 Turu - 84 Umari - 79 Umiri - 81 Unacuaú - 131 Veado - 155 Videira - 113 Violeta - 117

Sabonete - 17 Sacaimbóia - 163 Salsa - 112 [116] Sapucaia - 77 Saracura - 133 Sardinhas - 176 Sarigüéia - 152 Sauiá - 159 Seringa - 39 Sorva - 73 Suçuarana - 156 Sucupira - 98 Sumaúma branca - 28 Sumaúma encarnada - 27 Surucucu - 161 Landi: Fauna e Flora da Amazônia Brasileira

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