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Comportamento

pág. 11

Rockabillys buscam seu espaço em JF Foto: Divulgação

Fãs do rock dos anos 60 procuram alternativas para se encontrar e trocar ideias diante da presença limitada do estilo na cidade.

Cultura

pág. 12

Preços populares atraem público ao cinema

No ano passado, quando foram exibidos 25 filmes do circuito nacional, o projeto atraiu quase 12 mil pessoas, com ingressos a R$1.

Jornal de Estudo

Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação da UFJF | Juiz de Fora, Maio de 2011 | Ano 46 | Nº 213

Especial

pág. 6 e 7

Facilidade dos sites de compra coletiva leva ao consumo exagerado Em busca de descontos que podem chegar a 90% do valor dos produtos, juiz-foranos rendem-se à nova febre do e-commerce brasileiro: as compras coletivas. Só no ano passado, os sites do

país saltaram de 1,7 milhão de usuários, em junho, para 7,4 milhões em outubro. Psicólogos apontam riscos de a nova modalidade de compra estimular a compulsividade e fugir ao controle.

Cidade

Política

Pesquisa

Saúde

pág. 5

Documentos secretos da ditadura Militantes políticos alegam que história do país ficará comprometida sem a abertura dos arquivos do governo militar.

pág. 8

Estudo tenta viabilizar tatuagem interativa

Por meio da tatuagem interativa seria possível aplicar na pele desenhos que reagem ao toque, à temperatura, e às emoções.

pág. 4

Frota de automóveis cresce 60%, mas estrutura viária não acompanha pág. 9

Especialistas falam dos benefícios do sexo Esporte pág. 10

Jovens não abandonam estudos por esporte

Campus pág. 3

RU busca conciliar produção em grande escala com qualidade

Foto: Eduardo Malvacini

Quase seis mil refeições diárias são produzidas em cozinha de alta tecnologia, mas filas e qualidade da comida geram críticas


2 Opinião

Jornal de Estudo

Maio de 2011

Editorial

Conflito de gerações

A

jovem democracia brasileira já completa 26 anos e até hoje pouco se sabe a respeito dos abusos cometidos pelo regime militar. Esta edição do Jornal de Estudo retoma a polêmica causada pela condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos devido aos excessos cometidos durante o período da ditadura brasileira. Mesmo condenado, o país ainda não abriu os documentos da época, que podem revelar em detalhes a crueldade praticada nos porões do regime. O fotógrafo juiz-forano Luiz Antônio Sansão conta sobre a experiência vivida aos ser preso juntamente com mais 15 pessoas pelos militares. Outro assunto que tem dado “pano pra manga” é o trânsito de Juiz de Fora. Com um aumento de 58% na frota da cidade nos últimos dez anos, o município tem sofrido com falta de planejamento de tráfego. O jornal conversou com especialistas que apontaram os principais problemas e possíveis soluções que vão desde obras viárias à reestruturação do sistema de transporte coletivo. Além de debater assuntos controversos, o Jornal de Estudo traz curiosidades sobre saúde e comportamento. Você sabia que o sexo pode ser benéfico à saúde? Estudos recentes apontam que a prática sexual pode ser um “elixir” da juventude. A vida sexual ativa melhora a autoestima e a aparência. Ainda no quesito saúde, a edição aborda a prática do slow food. Ao contrário do fast food, o movimento preza pela qualidade e responsabilidade com o meio ambiente em todo o processo de produção dos alimentos. Essa filosofia gastronômica propõe uma nova forma de se alimentar. Ela visa mostrar a importância de entender de onde vem a comida, quem a faz e como é preparada. E assim, redescobrir o prazer de alimentar-se. Por falar em alimentação, a reportagem esteve no Restaurante Universitário (RU) da UFJF para ouvir os estudantes que frequentam o estabelecimento. As principais queixas dizem respeito às filas e alimentos mal cozidos. A matéria também traz as justificativas da administração do RU. Para os adeptos da tatuagem, a novidade é a Tatuagem Interativa. Ela reage ao toque e a variações orgânicas diversas, como temperatura, concentrações de glicose e emoções. O desenho, antes estático, agora movimenta-se de acordo com o humor, mudando suas cores, seu tamanho e formato. Além do caráter estético, a nova modalidade será uma importante aliada da biomedicina. Confira esses e muitos outros assuntos nessa edição. Boa leitura!

Artigo Sob a sombra de Geisel brasileira hodierna. O Brasil se intitula um país livre, democrático e igualitário, e os parlamentares de hoje ostentam “direitos e garantias individuais” garantidos pelas cláusulas pétreas da constituição. Surge um equívoco: em vez de “pétreas”, maginemos: “contornando a avenida Castelo tais cláusulas poderiam ser chamadas de “pífias”, Branco em direção à rua João Figueiredo nos já que nada garantem além de direitos individuavemos diante dos diversos televisores de uma loja listas e unilaterais restritos ao papel. Em um país de eletrodomésticos a assistir a apresentadora do que sempre teve a tortura como modelo de desentelejornal da tarde proclamando a reeleição de José volvimento da ordem, proclamar o “progresso” é Sarney para a presidência do Senado”. imoralidade. Mesmo após uma transitoriedade árdua de reA esfera política que possui um olhar desdém democratização brasileira, os reflexos do período à discussão sobre o resgate e abertura dos docuditatorial ainda persistem inmentos da ditadura ainda está detrínsecos em nosso cotidiano. sob a influência de ícones da “Guardar os arqui- tida Pode-se dizer, contextualizado antiga Arena (partido criado, após pelas circunstâncias acima, que vos da ditadura só ser- o Golpe de 64, com o intuito de dar o significado do regime militar virá para desrespeitar sustentação ao regime militar). Cia sociedade e procla- temos alguns exemplos: José Sarpara a História do país se banalizou. Infelizmente, a Lei da mar a arbitrariedade ney, Paulo Maluf e Marco Maciel Anistia previa isso desde sua e as contradições do são políticos ainda em atividade. criação. Ou seja, o discurso congresso nacional” Podemos presumir, portanto, que o amnésico do Estado brasileiro reviver dos “anos de chumbo” não se baseia no esquecimento do é de interesse maior para a oligarpassado enquanto condição para se olhar para o quia que domina os aparelhos burocráticos e as infuturo e para um potencial “progresso” do pretermitências legislativas de nosso país. sente. Ignora-se, porém, que toda a água gélida Indiferente às mágoas retidas nas entrelinhas colocada sobre os assuntos referentes aos “porões de sua História, a construção de uma nação híbrida ditadura” pode se tornar, com a licença da meda e democrática segue “amputada” pelo falso estáfora, uma grande bola de neve. quecimento de um período ainda latente em seu Pois, enquanto uma criança aprende sobre o dia-a-dia e em sua política, traçando as perspecperíodo ditatorial por meio de alguns poucos capítivas de sua dimensão sociocultural. Nenhum retulos do livro de História no colégio, uma mulher gime democrático está livre da volta da tortura e desmaia ao reconhecer seu torturador na fila do da perseguição política, e guardar os arquivos da cinema. Essa atmosfera em torno de um forçado ditadura só servirá para desrespeitar a sociedade “perdão recíproco e coletivo” advinda da Anistia e proclamar a arbitrariedade e as contradições do traz à tona uma contradição eminente à sociedade congresso nacional. Diego Pereira Lucas Peths

I

Expediente Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora Produzido pelos alunos de Técnica de Produção em Jornalismo Impresso Reitor: Prof. Dr. Henrique Duque de Miranda Chaves Filho Vice-Reitor: Prof. Dr. José Luiz Rezende Pereira Diretora da Faculdade de Comunicação: Profª. Drª. Marise Pimentel Mendes Vice-Diretor da Faculdade de Comunicação: Prof. Dr. Paulo Roberto Figueira Leal Coordenador da Faculdade de Comunicação diurno: Profª. Ms. Letícia Barbosa Torres Americano Coordenadora da Faculdade de Comunicação noturno: Profª. Ms. Eduardo Sérgio Leão de Souza

Chefe do Dept. de Jornalismo: Profº. Drº. Boanerges Balbino Lopes Filho Professores orientadores: Prof. Dr. Wedencley Alves, Profª. Ms. Janaina Nunes, Profª. Ms. Simone Martins Estágio docência: Flávia Lopes Projeto Gráfico: Karolina Vargas e Poliana Cabral Monitoria: Felipe Zschaber Reportagem e Diagramação: Amanda Giacchetta, Anderson Oliveira, Angélica Simeão, Carolina Caniato, Débora Falci, Eduardo Malvacini, Flaviane Falcão, Gisele Toma, Gustavo Gusmão, Isabela

Brando, JG Marquues, José de Assis, Kelly Diniz, Lívia Machado, Luciana Laurindo, Maria Tereza Carneiro, Nathála Carvalho, Pâmela Badaró, Paola Candian, Priscilla Thevenet, Tábata Soares, Talita Scoralick, Thais Lawall, Thamara Paiva

Tiragem: 1.000 exemplares Endereço: Campus Universitário de Martelos, s/n – Bairro Martelos 36036-900 Telefones: (32) 2102-3601 / 2102-3602


Campus 3

Jornal de Estudo

Maio de 2011

RU busca a excelência entre os alunos Restaurante Universitário tenta conciliar a produção em grande escala com a qualidade das refeições Eduardo Malvacini

F

rancisco Maia, estudante do 8° período de Comunicação, almoça no Restaurante Universitário do centro pelo menos três vezes por semana. Lá ele não enfrenta filas, diz gostar da comida, mas reclama de alguns alimentos. “Um arroz mal cozido ou uma carne crua, estragam qualquer refeição”, provoca. A aluna do bacharelado de química, Tasiane Nolasco do Amaral, reforça as críticas e acrescenta: “no RU do campus, dependendo do horário, as filas ficam gigantes e a reposição dos alimentos é demorada”. A nutricionista Alexandra Paulino, responsável pela Denjud – empresa terceirizada que faz as refeições – reconhece as críticas e explica que o cozimento em grande escala impede que seja utilizado apenas o arroz branco. “Ficaria uma papa”, ressalta. Por causa disso, a equipe da cozinha

tem experimentado uma mistura entre o tipo parboilizado, que é mais duro, e o branco. Alexandra conta que essa proporção vem sendo testada para melhorar a qualidade final. A iniciativa da modificação partiu de sugestões dos próprios alunos. Somente no horário do almoço são feitas 800 porções de carne de cada vez e a nutricionista justifica que às vezes acontece de dois bifes serem colocados juntos no forno, podendo ficar mal cozidos. No entanto, os funcionários já foram alertados quanto a isso e têm redobrado a atenção. Quanto às filas, atualmente, o principal gargalo se dá nos balcões térmicos. “O usuário pode demorar um pouco para se servir. Algumas pessoas até param para atender o celular”, pondera a coordenadora dos restaurantes universitários Mariza Dessupoio. Ela admite ainda que há problemas na reposição dos alimen-

Foto: Eduardo Malvacini

Restaurante do Campus serve em torno de 4 mil almoços diariamente para os universitários

tos, que deveria ser mais rápida. Mariza também atribui a formação de grandes filas às quedas de energia. “Houve uma semana em que aconteceram três picos de luz no horário do almoço. Isso não só atrasa a cocção dos alimentos, como também impede o funcionamento das refresqueiras, usadas para servir os sucos.” A coordenadora afirma que a equipe busca sempre a excelência e ressalta como ponto positivo a qualidade do espaço físico. “A capacidade de atendimento é suficiente. Na minha visão a questão não é o tamanho do restaurante nem a quantidade de mesas, porque muitas vezes há lugares para se sentar e mesmo assim há filas grandes”. Proporções gigantescas O novo restaurante do campus foi inaugurado em agosto de 2009, e em março de 2010 ganhou uma nova cozinha, com equipamentos profissionais de cocção em larga es-

cala. “O RU hoje é um lugar bonito, aconchegante e os equipamentos são ultramodernos”, destaca Mariza. Segundo ela, o RU do Centro hoje apenas distribui a comida que é feita na cozinha do campus e, apesar de ser menor, tem uma frequência quase constante de 800 a mil pessoas por dia. Já o restaurante do campus possui quase 1.300 lugares e serve aproximadamente quatro mil estudantes só no horário do almoço. Responsável pela fiscalização do RU, Cassia Cardoso de Oliveira explica que a cozinha está preparada para o aumento da demanda, com crescimento do número de alunos da UFJF. “Fazer mil refeições a mais não seria um problema. É para servir essas refeições que precisaríamos de mais estrutura”. Ela acrescenta que a maior parte dos alunos não tem ideia da quantidade de alimentos preparados diariamente e esquecem que há muitas diferenças em relação à comida feita em casa.

Criação do curso de Rádio, TV e Internet é aprovado O novo currículo foi pensado como opção ao curso de Jornalismo e é mais ligado ao audiovisual e à publicidade Angélica Simeão

N

ão é novidade nos corredores da Faculdade de Comunicação Social o interesse que alguns alunos têm por outras áreas como Cinema, Fotografia, TV, Publicidade e Propaganda e Internet. Em meados de 2009 a criação de uma nova habilitação que atendesse a esta demanda começou a ser pensada. Neste ano, o curso de Rádio, TV e Internet foi aprovado. A diretora da Faculdade de Comunicação Social, Marise Pimentel Mendes, conta que para balizar a criação do novo curso foram utilizados dados colhidos na faculdade para traçar um perfil dos alunos – realizado pelo Diretório Acadêmico Wladimir Herzog (D. A.W. H) - e professores. “Foram feitos questionários e um levantamento de temas dos trabalhos de conclusão de curso

no período de 2005 a 2010”, lembra a diretora. O objetivo era observar os interesses dos alunos e verificar se o corpo docente possuía capacitações necessárias para ministrar o curso proposto Curso Noturno Essa discussão se encaminhou juntamente com as propostas de mudança do currículo do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo que, além disso, passará a se chamar apenas curso de Jornalismo, para se adequar às normas do MEC. “A carga horária proposta para o novo currículo do jornalismo será maior, além de compreender estágio obrigatório e disciplinas eletivas. Porém, ela pode ser dividida entre a parte da manhã e da tarde. Se esse mesmo curso for oferecido no noturno, seria com pelo menos seis anos de duração”.

Foto: Angélica Simeão

A diretora Marise Mendes fala do novo curso

De acordo com Marise, desde o início das discussões já estava claro que a nova habilitação ocuparia uma das três entradas já existentes na faculdade – que hoje são duas no período da manhã e uma à noite – já

que não está previsto um aumento do corpo docente para este fim. O presidente do Diretório Acadêmico, Valentim Júnior, declarou que sempre foi a favor da criação da nova graduação, no entanto, foi contra a extinção do curso noturno. Para ele, “O curso de jornalismo nesse turno foi criado para atender cidadãos que trabalham durante todo o dia e precisam estudar à noite. Entendemos que para se criar uma nova opção não é necessário desfazer outra.” De todas essas mudanças, porém, apenas o nome do curso estará diferente no vestibular de 2012. Ainda não está previsto quando o novo curso começa a valer, porém, tanto o Diretório Acadêmico quanto a direção da faculdade esperam que esse tempo sirva para aprofundar as discussões a respeito do novo curso e do novo currículo para o jornalismo.


4 Cidade

Jornal de Estudo

Maio de 2011

Estrutura viária de JF não acompanha alta de frota Com um aumento de quase 80 mil veículos em dez anos, juiz-foranos sentem o impacto no trânsito Diego Rezende Kelly Maciel Diniz

P

erder uma viagem ou uma reunião importante não é algo raro em Juiz de Fora, principalmente nos últimos dez anos, em que a quantidade de veículos cresceu 58%. De acordo com levantamento do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), em 2001, a cidade comportava sem problemas cerca de 104 mil veículos. Entretanto, até o mês de março desse ano já foram calculados pouco mais de 180 mil. Para que consiga suportar tal crescimento, é fundamental que se tenha um planejamento contínuo da infraestrutura da cidade. O especia-

lista em trânsito José Ricardo Daibert, afirma que dentre as diversas consequências da falta de um projeto viário está a “deterioração da mobilidade das pessoas nos centros urbanos”. O programa “Nova Juiz de Fora”, criado pela Prefeitura em 2010, busca investir na estrutura da cidade realizando a reurbanização de suas quatro principais vias de acesso: as avenidas Rio Branco, dos Andradas, Getúlio Vargas e a nova pavimentação na Avenida Independência. Entretanto, especialistas apontam que o projeto não possui um planejamento concreto diretamente integrado aos problemas que poderão advir do contínuo crescimento do número de veículos.

Além de atrasos e estresse, o trânsito caótico faz com que um importante setor da cidade fique defasado. “Esse trânsito atrapalha muito meu desempenho como taxista. A gente não consegue chegar até os passageiros. Todo mundo reclama que não tem táxi, mas a verdade não é essa. Falta a fluidez do trânsito”, afirma o taxista Denilson Lima de Paiva. Para ele, a cidade peca muito na infraestrutura. “O trânsito de Juiz de Fora está horrível. No horário de pico a gente não consegue andar para lado nenhum. é preciso construir viadutos. Foram prometidos três viadutos, um deles na Avenida dos Andradas, mas acho difícil eles fazerem isso por agora”, acredita. Foto:Diego Rezende

Horário de pico: motoristas enfrentam retenções em diversos pontos da cidade. A Avenida Rio Branco é um dos locais mais críticos

Planejamento viário Segundo o presidente da Comissão Municipal de Segurança e Educação no Trânsito (Comset), Mario Augusto Jacometti, em cada cidade deve ser criado um modelo específico que compreenda a estruturação urbanoviária da mesma. Para isso, diversos fatores devem ser levados em consideração, como: o tipo de topografia, a população, as características sociais e a localização do município. “É necessário pensarmos que Juiz de Fora é a capital de uma microrregião, que estamos no meio do trajeto para as três maiores capitais do país (Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo) e a 110 km do segundo maior polo moveleiro do Brasil, na região de Ubá. Portanto, todo o tráfego que advém dessa região passa por aqui”, afirma Jacometti. Os transtornos referentes à circulação de veículos em Juiz de Fora estão localizados basicamente em três vias: as avenidas Rio Branco, Getúlio Vargas e Independência. A Olegário Maciel, que até então era uma alternativa às demais, torna-se cada vez mais saturada de carros, motos e caminhões. Nesse sentido, descreve Jacometti, é preciso “eliminar ao máximo os estacionamentos no Centro, fazendo com que os usuários apenas usem essas áreas em caso de extrema necessidade, e assim sejam somente ocupadas por pedestres, taxistas e pelo transporte coletivo”. Além das transformações no cenário, o transporte coletivo é causa constante de polêmica na cidade. É consenso entre os especialistas que, para melhorar o trânsito, o transporte público precisa ser mais vantajoso que utilizar o carro particular. “A melhor solução é dotar a cidade de um sistema de transporte público coletivo eficaz, o que quer dizer com qualidade e quantidade compatíveis com a atratividade necessária para o proprietário de veículo particular se tornar este

cliente”, constata Jacometti.

Investimento em transporte coletivo pode a ser solução para a cidade Anderson Oliveira

Segundo os especialistas, com o constante aumento da frota de veículos particulares em Juiz de Fora, a melhor solução para o trânsito é investir maciçamente em transporte público. José Ricardo Daibert afirma que o serviço de transporte oferecido pela cidade está aquém do ideal. “Falta considerar o transporte coletivo como prioridade, é preciso investimentos que façam dele o estruturador do espaço urbano”. De acordo com o professor de engenharia da UFJF, José Alberto Castañon, o serviço oferecido pela cidade é de qualidade mediana. Para ele, os problemas estão ligados à pontualidade e frequência de ôni-

bus, à acessibilidade aos pontos de embarque e à mobilidade limitada dos itinerários. “Não tenho visto muitas melhoras relacionadas ao transporte público em Juiz de Fora. Não há planejamento de curto, médio ou longo prazo para o setor”, afirma Castañon. Quem utiliza os serviços de transporte da cidade confirma os problemas apontados por José Alberto Castañon. O estudante de direito Luiz Fellipe Leal, morador do bairro Novo Mundo, comprou uma moto recentemente e parou de ir à faculdade de ônibus. Ele afirma que ficou muito mais fácil se locomover . “Antes eu ia a pé até a Independência para pegar o ônibus. Chegava a esperar até 30 minutos no ponto e às vezes a espera chegava a 50 minu-

tos. Quando entrava o ônibus, estava lotado”, afirma Luiz Fellipe. Com a aquisição da moto, a ida de Fellipe à faculdade ficou muito mais fácil. “Agora eu demoro no máximo dez minutos para chegar e estou gastando menos.” O presidente da Comset, Mário Augusto Jacometti, também aponta problemas no transporte coletivo oferecido por Juiz de Fora. Segundo ele, numa escala de zero a dez o serviço ficaria com nota sete. “A frota de veículos é bem nova, mas peca em horários e o número de veículos não atende ao anseio da sociedade”, afirma. Jacometti ainda aponta outros setores do transporte público que precisam ser revistos, como o transporte escolar e o serviço de táxi. Para ele, esses setores

merecem nota zero. “É preciso que pensemos em um novo modelo de logística de transporte e trânsito na cidade, uma vez que Juiz de Fora cresce a cada dia.” José Ricardo Daibert destaca a importância do transporte público para desafogar o trânsito juizforano. De acordo com ele, 99,5% da frota da cidade é de veículos particulares, enquanto apenas 0,5% é composta de coletivos. “Isso significa que mais de 90% dos espaços ocupados num congestionamento são de veículos particulares. No entanto, com menos de 0,5% da frota de ônibus transporta a mesma quantidade que os veículos particulares. Daí a importância do papel do transporte público, notadamente o coletivo”, afirma.


Política 5

Jornal de Estudo

Maio de 2011

Segredos da ditadura permanecem lacrados Mesmo condenado pela Conte Interamericana, os arquivos da ditadura militar no Brasil não são abertos ao público Foto: Eduardo Malvacini

Carolina Caniato Eduardo Malvacini

A

ditadura militar no Brasil terminou há 26 anos, mas as feridas provocadas pelos anos de ferro são visíveis até hoje. Para muitos militantes a abertura dos arquivos é uma ação essencial para saná-las. “É importante que o estado assuma sua responsabilidade diante dos cidadãos, que admita que naquele momento de repressão houve muitas arbitrariedades”, afirma o fotógrafo Luiz Antônio Sansão, ex-preso político. Luiz Antônio fazia parte da Ação Popular Marxista Leninista, que se reunia clandestinamente. Ele foi preso e levado para o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOICODI), de Belo Horizonte, com outras 15 pessoas, entre estudantes, professores e profissionais liberais. Ele acredita que a transferência do grupo para outra cidade foi para que eles não identificassem os torturadores: “Em Juiz de Fora seria mais difícil, porque aqui havia pessoas conhecidas entre os militares”. Para a professora de história da UFRJ, Victória Grabois, a impunidade dos crimes de tortura cometidos na ditadura abre margens para que esses atos de violência continuem acontecendo até hoje. Ela alerta para o fato de ainda haver tortura no Brasil como forma de arrancar depoimentos dos criminosos na cadeia: “acontece geralmente com pessoas pobres por causa

de pequenos crimes”. Segundo Victória, a tortura nesses casos não aparece na mídia porque não é de interesse dos governos. “São mais de três mil desaparecidos não-políticos, muitos mortos em chacinas.” A professora faz parte do Grupo Tortura Nunca Mais, fundado no fim da ditadura por pessoas que foram torturadas e familiares de mortos e desaparecidos durante o regime. O grupo luta até hoje pelos direitos humanos, resgate da memória histórica e esclarecimento das mortes e dos fatos ocorridos na ditadura. Ela esteve em Juiz de Fora em abril, ministrando palestra sobre o assunto na faculdade de Direito da UFJF. Unidade do exército em Juiz de Fora recebia presos políticos que eram julgados no mesmo local

Resgate histórico A tortura no Brasil tem origem no regime escravagista. “O pau-de-arara já era usado contra os escravos”, lembra Victória. Nesse sentido, o aprendizado de história do Brasil tem um papel importante. Professor dessa disciplina no ensino médio, Welson Ribeiro afirma que o estudo do período dos governos militares no Brasil acaba sendo superficial. “Sempre fica para o fim de ano e não são abordados muitos detalhes”. Para ele, o conhecimento mais aprofundado da ditadura teria não só o objetivo de fazer justiça, como também de não permitir que regimes como esses possam retornar. Luiz Antônio acredita que os arquivos ainda não foram abertos “porque prejudicariam alguns personagens de destaque na política brasileira. Nin-

guém quer largar o poder”. Ele acrescenta que independentemente da punição ou não dos torturadores, “é um período da história que existiu e que não podemos desprezar. Tem que haver transparência de informação e fácil acesso a elas”. Corte Interamericana Segundo o professor de história Welson Ribeiro, é comum regimes autoritários esconderem ou retardarem informações de períodos passados, mas “os governos ditos democráticos teriam a obrigação de liberar todas as informações sobre a história de seu país”, acrescenta. No final do ano passado, o Brasil foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por abusos

ocorridos durante a ditadura militar. Além disso, a Lei de Anistia, que impede a investigação e condenação dos responsáveis por violações de direitos humanos, foi considerada sem efeitos jurídicos. Porém, o governo brasileiro ainda não respondeu sobre o assunto. No entanto, o Uruguai, que também foi condenado pela Corte, teve a anulação da Lei de Anistia aprovada pelo Senado. A decisão ainda deve passar pela Câmara dos Deputados antes de ser sancionada ou rejeitada pelo presidente do país José Mujica. A Corte Interamericana de Direitos Humanos perrence à da Organização dos Estados Americanos (OEA) responsável pela aplicação e interpretação da Convenção Americana sobre Direitos Humanos.

Ações de combate às drogas chegam às escolas Projeto da Câmara prevê a criação de uma disciplina, porém a iniciativa é criticada por educadores Amanda Giacchetta Lívia Machado Maria Tereza Carneiro

O

consumo de drogas por jovens é motivo de preocupações para estado, pais e professores. A educação surge como principal meio de formação e importante alternativa para o combate de drogas lícitas e ilícitas. Em 2010, a Câmara Municipal de Juiz Fora criou a Comissão Parlamentar Antidrogas com o objetivo de organizar ações nesse sentido. Uma das propostas determina a exibição de vídeos educativos de um minuto antes das sessões de cinema e dois minutos antes dos demais eventos culturais. Outra iniciativa é o projeto de lei para a criação de uma ‘disciplina antidrogas’ nas escolas. A matéria teria carga horária mínima de seis horas para a Educação Infantil e oito horas para o Ensino Fundamental e Médio. No entanto, a realização esbarra na questão de que a Câmara Municipal não tem poder para sancionar alterações na grade curricular das instituições de ensino. “O que pode ser criado

é o programa de combate às drogas na do ele, é necessário o envolvimento escola”, afirma o vereador e presiden- de outros setores da sociedade na diste da câmara Carlos Bonifácio (PRB). cussão. “Acho melhor pensar em uma Nesse contexto, a professora Fe- proposta que envolva outras secretalena Gama discute a transferência de rias, e que elas atuem efetivamente”, funções da esfera familiar para o am- ressalta Paulo. biente escolar. ComSegundo o prepartilhando da messidente da Comissão “Acho que com Antidrogas, o vereama opinião, o coortodos os professores dor Noraldino Júnior denador do curso de pedagogia da UFJF, trabalhando o tema de (PSC), o projeto será Paulo Dias identifica diversas formas, seria alterado após novas três funções princi- muito mais saudável, discussões. “A criapais da escola hoje. A do que pontuar em ção do Conselho Muprimeira e original é eventos específicos nicipal Antidrogas vai a transmissão de coa discussão ou uma disciplina iso- direcionar nhecimento. A segunsobre políticas públida seria a contribuição ladamente”, afirma o cas integradas”, respara a formação dos pedagogo Paulo Dias salta ele, explicando a valores. E a terceira, a importância de ter um redução das desigualdades sociais. Ele conselho organizado na cidade para acredita que mesmo tendo acumulan- possibilitar o recebimento de verbas do funções ao longo dos anos, a escola do governo Federal direcionadas espetem limites e é preciso respeitá-los. cificamente ao combate às drogas. Para Paulo, a criação de uma matéria exclusiva para o tema pode criar Uma nova proposta uma situação de tensão, personificanExiste um consenso de que a fordo na figura de apenas um professor a ma de abordar o tema das drogas no missão de combate às drogas. Segun- ambiente escolar deve mudar. “Já está

claro que a maneira como era trabalhada a questão de drogas não tinha eficácia, porém, isso é visível diante da realidade que nós temos hoje”, constata Noraldino. O pedagogo Paulo Dias, acrescenta que a escola tem tendência a pedagogizar os assuntos, criando ‘semanas da não violência’, ‘semana do desarmamento’, ‘semana da água’, ‘dia da família’, e ele se mostra contrário a esses movimentos por acreditar que não produzem efeito. O caminho apontado por Dias é a possibilidade de a questão ser tratada com interdisciplinaridade. “Acho que com todos os professores trabalhando o tema de diversas formas, seria muito mais saudável, do que pontuar em eventos específicos ou uma disciplina isoladamente.” A professora Felena Gama, que dá aulas de geografia na Escola São Vicente de Paulo, segue a mesma linha de proposta. “Acredito que já existam professores capacitados para abordar o tema em suas áreas e que eles têm condições de trabalhar, por exemplo, com pessoas ligadas à projetos de prevenção, ex-drogados e seus familiares”, enfatiza.


6 Especial

Jornal de Estudo

Maio de 2011

Mercado de compras coletivas deve mo A cada duas semanas um novo portal surge no país, essa modalidade de venda online ganha cada vez Foto: Eduardo Malvacini

Jani de Souza José de Assis Leandro Henrqiues Luciana Laurindo Natália Carvalho Talita Scoralick

D

esconto. Essa é a palavrachave de um mercado que deve movimentar cerca de R$ 1 bilhão no Brasil somente este ano. Os sites de compras coletivas começaram de maneira tímida, mas o novo modelo logo se tornou uma febre entre os consumidores. Neste tipo de portal, é possível realizar compras de produtos ou serviços com promoções que chegam até a 90%. A negociação ocorre de maneira simples: o consumidor realiza a compra com cartão de crédito ou boleto bancário, imprime o cupom de comprovação e procura o estabelecimento para desfrutar a oferta. A ideia de criar sites de compras coletivas nasceu nos Estados Unidos, em 2008, quando um jovem de 29 anos lançou na internet o Groupon. Essa prática, porém, só chegou ao Brasil no início do ano passado, com a criação do site Peixe Urbano, que seguia os mesmos modelos do precursor . Apesar de ser um mercado recente, a aceitação do público rende a criação de dois novos portais a cada mês no país. Em Juiz de Fora, um grupo de empresários resolveu investir na nova tendência e criou o Tribo Mania, no final de 2010. “Nosso objetivo foi oferecer melhores opções de compra com grande desconto, dando oportunidade para quem mora em Juiz de Fora conhecer os estabelecimentos da cidade, aproveitar as ofertas e movimentar economicamente a cidade”, afirma um dos sócios do site, Diogo Garcia. A regionalização do serviço ajuda a manter a renda circulando dentro da própria cidade, como garante Garcia, “não somos uma empresa de fora que vem até a nossa cidade para sugar dinheiro que será movimentado em Rio e São Paulo. Tudo que geramos fica aqui e isso é muito importante”. O cientista em computação, Gildo Leonel, sempre teve o hábito de fazer compras pela internet, e as oportunidades oferecidas pelos sites coletivos lhe chamaram a atenção. “Acho muito interessante, pois visitei vários bares e restaurantes que antes não conhecia. Acredito que é bom tanto para os compradores quanto para os anunciantes, que acabam fazendo a divulgação de sua marca”, afirma. Para ele, a maior

O consumidor Gildo Leonel, mesmo com vários cupons adquiridos, está sempre de olho em novas promoções vantagem que as pessoas vêem nesses sites é o preço. Mas para quem anuncia,a grande motivação é a propaganda do seu negócio e não o retorno financeiro imediato. Além do desconto que o anunciante oferece no produto, o site utilizado recebe parte sobre a venda dos produtos (em média 50% do rendimento). A esteticista Raquel Martins viu nesses sites uma grande oportunidade de divulgação. “Qualquer outra forma de propaganda despenderia um investimento, como a panfletagem, por exemplo, que precisa de arte gráfica, autorização da prefeitura e impressão dos materiais. Além disso, de todos os panfletos distribuídos, são poucos os que dão retorno. Já nos sites de compras coletivas não é necessário investimento prévio, ou seja, o pagamento pelo serviço, já que o site só recebe se vendermos”. Segundo ela, a principal vantagem é a conquista da fidelidade dos clientes, que acabam retornando e fazendo propaganda para outras pessoas. Adaptação do mercado De toda a renda que o setor de compras coletivas tem movimentado em venda de cupons, 30% acabam não sendo utilizados, segundo estimativas do mercado. Com isso, surgiu então uma nova forma de negociação. Algumas empresas têm

sido criadas justamente para revender esses cupons antes que o prazo de validade expire como é o caso do Regrupe (http://www.regrupe.com. br) e do Recupom (www.recupom. com.br). Sites como esses mostram a capacidade de adaptação do mercado e, de acordo com Diogo Garcia, as projeções para este modelo de negócio são bastante animadoras. “A

compra coletiva não é uma moda, e sim uma tendência de consumo que veio para ficar. Mas como acreditamos que todo o modelo de negócio contemporâneo vai evoluir muito, sempre na linha onde o consumidor é que dita as regras, ele tem o poder de compra e preço quando se une a centenas de pessoas. Ou você muda, ou o mercado muda você”, afirma.

Por traz da compra Ainda de acordo com o sócio do Tribo Mania, a internet vem ganhando força numa velocidade exponencial e, desta maneira, as oportunidades de negócio dentro deste ambiente seguem a mesma velocidade. Este é um dos principais motivos do sucesso deste tipo de negócio. Somente em Juiz de Fora, 12 grandes sites de compras coletivas oferecem o serviço. Os cuidados nas negociações devem seguir critérios semelhantes aos das compras tradicionais. Os consumidores devem pesquisar não só preços, mas também verificar a procedência do que está comprando. Já os comerciantes devem ficar atentos ao aumento de demanda. “Cuidado na hora de atender esse cliente, pois ele está sentado dentro da sua empresa e pode nunca mais voltar se for mal atendido, e ainda repassar esse mal atendimento a

várias pessoas”, completa Diogo. A empresária Cátia Barros, que já utilizou por algumas vezes o serviço, afirma que já ficou insatisfeita com uma compra, pois o atendimento não foi como o esperado. “No salão de beleza que fui não havia profissionais suficientes para atender a demanda que surgiu devido a promoção. Era manicure depilando, secretária que virou cabeleireira. Foi tão ruim que tinha comprado dois cupons e usei apenas um, e pela metade”. Para o presidente do Sindicato do Comércio em Juiz de Fora, Emerson Beloti, este tipo de venda não chega a afetar o modelo tradicional. “Os índices de venda se concentram, em grande parte, ao setor de gastronomia, não atingindo grande parcela do setor de atacado e varejo. Além disso, o público-alvo desses sites são, em maioria, jovens”, afirma.


Especial

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ovimentar R$ 1 bilhão no país este ano mais adeptos; em Juiz de Fora, até o final de abril, havia pelo menos 12 sites deste perfil

Comércio on-line traz mudanças para o mercado brasileiro

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um cenário favorável, com a economia nacional batendo recordes e ganhando a confiança nos principais índices internacionais, o chamado e-commerce (comércio online) vem crescendo rapidamente e garantindo um número cada vez maior de adeptos. Só no ano passado, os sites de compras coletivas (uma modalidade desse mercado) saíram de 1,7 milhões de usuários, em junho, para 7,4 milhões em outubro e, até abril de 2011, só o Groupon já ultrapassava a marca de 10 milhões de usuários. O boom causado pelo que os economistas denominam “marketing de afinidades” traz um modelo de compras online que vem dando certo no país. “A idéia do marketing de afinidades nada mais é que promover um aumento no número de vendas de um dado produto para grupos de pessoas com o mesmo interesse nesse produto”, aponta o economista Wellington Minc, especialista em economia da tecnologia. Segundo Foto: Getty Images

Conheça o criador do Groupon, Andrew Mason - Em 2009 Graduou-se Northwestern University em 2003, com uma licenciatura em música. - Mason cresceu em MT. Líbano, na Pensilvânia , um subúrbio de Pittsburgh . Programador autodidata, Mason lançou em novembro de 2007 um site chamado The Point que que consistia em fazer petições online e angariar apoio para todos os tipos de causas. - Andrew recusou uma oferta de 6 bilhões de doláres do grupo Google, para vender o site de compras coletivas.

ele, é uma lógica que se aproxima da ideia das compras por atacado de que, quanto maior a quantidade de produtos vendidos, menor o preço. É nessa lógica que os sites de compras coletivas vêm se fixando no país. Com um sistema simples de aplicação, o que não faltam são jovens se aventurando nesse novo mercado, criando seus próprios sites. Até dezembro de 2010, já havia mais de 400 sites do tipo e, em abril deste ano, já eram contabilizados 1.200. Esse movimento já é tido como um dos mais significativos da internet brasileira nos últimos tempos. Hoje o Brasil ganha, em média, um novo site a cada duas semanas, lançando no mercado executivos da nova geração que, a exemplo de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, criam espaços para um público já conhecido por eles: os jovens. Mostrando que veio para ficar, o e-commerce obteve no país um crescimento de 40%, atingindo os R$14,8 bilhões de reais em 2010. O

setor ainda promete faturar cerca de R$ 20 bilhões até o final deste ano. A expectativa para o setor de compras coletivas, de movimentar mais de R$ 1 bilhão até o final de deste ano, segundo Wellington Minc, representa um grande progresso no modelo de mercado que usamos hoje. Apesar do avanço do mercado brasileiro, ao contrário de países como Estados Unidos e China, que aplicam maciçamente nos chamados “investimentos de alto risco”, o Brasil ainda é considerado um mercado imaturo quando a palavra é inovação. Nos Estados Unidos, por exemplo, terra de Stevie Jobs, Mark Zuckerberg e Bill Gates (criadores das gigantes Apple, Facebook e Microsoft, respectivamente), só em 2010 o faturamento dos sites de compras coletivas atingiram US$ 1,2 bilhão e esperam alcançar US$ 2,67 bilhões até o final deste ano, segundo estudo elaborado pelo Local Offer Network, uma empresa que comercializa publicidade e tecnologia para o setor.

Compra compulsiva pode ser considerada uma doença “Comprar é a saída que muitos encontram para s e livrar dos sentimentos de ansiedade ou tristeza, mas muitas vezes o ato está vinculado a uma ação doentia dos consumidores”, é o que afirma a terapeuta cognitivo-comportamental Ana Paula Rezende. Desta maneira, consumir se torna uma atitude compulsiva, onde a busca sem limites pelo prazer da compra, muitas vezes passa logo após o ato, acarretando um sentimento posterior de culpa e arrependimento. Essas pessoas geralmente têm dificuldades de estabelecer metas de gastos e de poupança. A falta de uma educação financeira desde a infância, tanto por parte da família, quanto das escolas, é apontado pela especialista como um dos motivos que desencadeiam essa compulsão. Ela salienta ainda que o gasto exagerado não se configura uma novidade. Contudo, as facilidades de pagamento cartões de crédito, por exemplo - e o bombardeio de propagandas fazem com que o ato seja cada vez mais presente, atingindo uma população ávida por novidades, de diversas classes sociais e faixa etárias distintas. Esse é o caso da estudante de economia Nayara Montessi, que está sempre atenta nas promoções oferecidas e já comprou por impulso. “Você leva em consideração o desconto e não a necessidade. Eu já adquiri coisas que não precisava só porque estava barato. Em outras circunstâncias não compraria”, completa. Gildo Leonel concorda que a compra nesses sites acaba sendo por impulso: “recebemos as ofertas, ficamos interessados pela ilusão de economizar e acabamos comprando. Eu particularmente compro somente itens que eu tenho interesse, mas tenho amigos que acabam comprando itens que nunca usariam, pelo simples medo de perder aquela oportunidade.”


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Tatuagem Interativa: emoção à flor da pele Pesquisas sobre a nova tecnologia prometem revolucionar a tradicional forma de expressão corporal Isabella Brando JG Marques Lucas Peths

Foto: Divulgação

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processo de pigmentação localizada da pele está prestes a conhecer mais uma importante vertente dentro de suas inúmeras possibilidades estilísticas: a Tatuagem Interativa. Por meio dela seria possível realizar na pele desenhos que reagiriam ao toque e a variações orgânicas diversas, como temperatura, concentrações de glicose e emoções. A pesquisa é do acadêmico e tatuador Breno Bitarello, com orientação do professor João Queiroz, membro do corpo docente do Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF. Essa modificação nos padrões gerados na pele seria possibilitada por sensores que reconheceriam a alteração de diversos estados orgânicos capazes de impulsionar tais modificações nos padrões epiteliais. Segundo Breno, algumas universidades dos Estados Unidos já estão realizando testes que determinarão a eficácia do processo da Tatuagem Interativa. Atualmente, a proposta vem sendo testada em camundongos em universidades de Illinois, Tufts e Pennsylvania, mas o desenho, inicialmente, só pode ser implementado por intervenção cirúrgica. “Mas já há pesquisas para aplicações semelhantes ao procedimento tradicional da tatuagem, que é baseado em microperfurações realizadas por materiais pontiagudos, dentre eles, as famosas agulhas que são utilizadas na inserção do pigmento na pele”. Se as pesquisas forem bem sucedidas, a Tatuagem Interativa representará uma grande mudança no mercado das tatuagens. Além do caráter estético, a nova modalidade de intervenção epitelial será uma importante aliada da biomedicina. “Por serem interfaces programáveis, essas tatuagens poderiam ser usadas como próteses de diagnóstico. Alguém que tem proble-

Desenho pode reagir ao toque e a temperaturas

mas cardíacos, por exemplo, poderia conferir seus dados com um simples toque na pele”, explica Breno. A restrição ao uso da nova interface consistirá, inicialmente, no orçamento. Especulase que, devido ao caráter cirúrgico da operação, as Tatuagens Interativas terão um preço bastante elevado. A princípio, o processo necessitará do apoio de médicos que, em conjunto com um tatuador, aplicarão a pigmentação digital em ambiente cirúrgico. É possível, porém que, com o desenvolvimento da tecnologia e a popularização da técnica, o preço da aplicação seja reduzido, assim como a complexidade do processo de intervenção. Gabriel Ferreira é tatuador em Juiz de Fora, e acredita que a técnica pode ser promissora, desde que passe por testes que comprovem a eficácia e segurança do procedimento para a saúde do consumidor. “É preciso verificar a procedência de qualquer processo semelhante ao cirúrgico, garantindo que a técnica foi consolidada sem apresentar danos ao adepto. Partindo daí, acredito que qualquer nova tecnologia deve ser oferecida ao cliente, desde que haja predisposição por parte dele”. Rodrigo Paschoalino trabalha com

produção audiovisual e é adepto das tatuagens tradicionais. Para ele, “a tatuagem é um estilo, uma marca pessoal que mostra personalidade”. Quando questionado a respeito da nova proposta, ele é enfático: “Eu acho uma proposta bacana. A tecnologia evolui, a tatuagem hoje em dia é muito mais bonita do que a de antigamente. Acredito que esse desenvolvimento vá ser benéfico”. Segundo a pesquisa de Breno, a Tatuagem Interativa não possui somente implicações estéticas, mas também tecnológicas, comunicacionais e médicas. “É essencial que estejamos atentos ao que está sendo feito. Trata-se, na verdade, de um diálogo entre pesquisas que estão sendo desenvolvidas em diversas áreas, como Engenharia de Materiais, Física, Artes e Design. É provável que uma pessoa que não optaria por se tatuar por motivos estéticos mude de ideia frente à nova proposta. Cabe nós a tentativa de explorar os limites desta tecnologia”,

conclui o pesquisador. Com um histórico que data mais de 5.200 anos de existência, as tatuagens se firmaram, ao longo da história, como importantes ferramentas de expressão artística e estética do ser humano. Utilizadas para decorar o corpo e também como uma maneira de representar a personalidade de cada um, as tatuagens estão cada vez mais populares no Brasil e no mundo. Elas se reinventaram, e o que era marca de estivadores e de presidiários se tornou febre em todas as classes sociais. As técnicas foram aprimoradas, os traços se tornaram mais artísticos e as cores se diversificaram; tudo isso contribuiu para que houvesse um boom no número de interessados em fazer a primeira tatuagem. As tatuagens interativas serão uma nova oportunidade de mercado e de consumo: “Imagine uma tatuagem interativa sobreposta a uma tatuagem tradicional por exemplo. Trata-se de uma possibilidade a mais”, diz Breno.

Conheça as tecnologias que auxiliarão no desenvolvimento da Tatuagem Interativa TRANSISTOR ULTRAFINO DE SILÍCIO Diodos emissores de luz (LEDs) ultrafinos soluveis em água poderiam agir como tatuagens luminosas. Por serem programáveis, os eletrodos podem ser usados tanto para criar imagens complexas visualmente, como para diagnosticar problemas de saúde no corpo. Com um simples toque, dados do paciente poderiam ser conferidos com um um aparelho externo ligado à tatuagem LED. “DATTOO” Esse tipo de tatuagem utiliza sensores leitores de DNA que são inseridos debaixo da pele. O desenho é impresso em uma superfície adesiva que poderá ser agregada na pele por um período especifico de tempo e reconhecida e ativada pelos sensores, podendo ser facilmente removida, se o usuário assim desejar. A TATUAGEM DIGITAL (E-INK) Consiste numa matriz flexivel de “pixels”, pequenos pontos de tinta que são introduzidos na pele dento de microesferas por meio de uma pequena cirurgia. A carga de tinta dentro das esferas reage à bioeletricidade (o corpo é um produtor e condutor natural de impulsos elétricos) e assim produz desenhos na pele. TECHNOTATTOO Ela faz uso de um adesivo tecnológico que contém pequenos sensores que detectam variações no corpo e no ambiente. Os sensores colhem os dados das mudanças e geram uma resposta na forma de imagens interativas na pele.

Projeto leva inclusão digital para a terceira idade Trabalho realizado na Faculdade de Psicologia da UFJF ensina idosos acima dos 65 anos a utilizar o computador Isabella Brando JG Marques Lucas Peths

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hecar os e-mails, assistir vídeos, ler notícias, conversar: tudo isso pode ser feito em qualquer aparelho que tenha acesso à internet. Isso já é uma atividade corriqueira das novas gerações, que já nasceram imersas no mundo digital. Porém, nem todo mundo cresceu junto com a tecnologia: muitos só puderam aprender a lidar com os computadores mais tarde, já na terceira idade. O projeto de pesquisa sobre a inclusão digital para idosos desenvolvido na Faculdade de Psicologia da UFJF foi uma alternativa para aqueles que procuravam aprimorar ou aprender a lidar com um computador. Por meio de oficinas ministradas duas vezes por semana por profes-

sores do curso e alunos do Centro de Psicologia Aplicada (CPA), os participantes aprendem um pouco mais sobre o mundo digital, muitas vezes ainda estranho para eles. Segundo a psicóloga Natália Scoralick, que participa do projeto, “o uso de tecnologias, entre elas o computador, é condição imprescindível para a integração social e exercício da cidadania na atualidade.” Ela ainda ressalta que “estar incluído digitalmente possibilita uma maior troca social, estimulação das capacidades cognitivas. Muitos idosos relatavam que o computador sempre fora ‘um bicho de sete cabeças’, que tinham ‘medo até de chegar perto’. Ao final do projeto, muitos relataram que ‘se sentiam mais atualizados, mais participativos, mais vivos’”. Esse é o caso de Sebastião Lopes, que participou do projeto a partir da indicação de um vizinho. “Era maravilhoso. Eu tenho muita saudade. Se

tivesse jeito de voltar eu voltaria feliz da vida”, conta. O programa, que está atualmente parado para estruturação e análise dos resultados, além de ensinar a informática, também proporciona momentos de interação entre os alunos. “Eu gostava de brincar com todo mundo, eu era o mais conversado”, ri Sebastião. Ele acrescenta: “era uma família”. Segundo Scoralick, o projeto também serve para eliminar preconceitos existentes em relação aos idosos: “Vivemos numa sociedade extremamente preconceituosa, que ainda vê o idoso como alguém inútil e incapaz. O projeto contribuiu significativamente para a valorização pessoal”. Teoria sem prática – dificuldades póscurso A oportunidade de aprendizado não significa, necessariamente, a completa inserção no mundo dos computadores. Muitos dos partici-

pantes do projeto não deram continuidade ao uso dessa ferramenta, e isso ressalta a dificuldade do acesso às novas tecnologias, principalmente por parte dos mais velhos. “Na avaliação realizada seis meses após o término do programa, observou-se uma proporção equivalente de idosos que mantiveram e que não mantiveram o uso desse equipamento. Tal resultado pode estar relacionado à falta de incentivo, a carência de espaços públicos que permitam o acesso a atividades do gênero a grupos de idosos”, alerta Natália Scoralick. Porém, os que puderam continuar usando o computador colhem os frutos das aulas freqüentadas: “Eu tinha pouquíssima experiência. Eu estava querendo aprender a receber e enviar e-mails, que é o que mais me encanta. É muito útil para tudo. Nós pegamos experiência prática, e eu até fiz um blog”, comenta Sebastião.


Saúde 9

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Maio de 2011

Sexo melhora aparência e autoestima A atividade sexual pode trazer benefícios para a saúde da pele e influenciar as relações sociais Foto: Paola Lessa

Flaviane Falcão Priscilla Thevenet Thais Lawall

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studos recentes atentam para a possibilidade de a atividade sexual ser um “elixir” para a juventude. Segundo a cirurgiã plástica especialista em medicina estética, Elaine Cugola, pessoas mais ativas sexualmente possuem até a pele mais jovem e bonita. Ela explica que o sexo afeta diretamente a sistema circulatório facilitando a oxigenação do sangue e a drenagem de oxinas, o que consequentemente traz melhorias para a aparência. De acordo com Elaine, o sexo como qualquer outro exercício físico faz o corpo gerar calor, causando intensa vasodilatação da epiderme, ou seja, as veias aumentam, recebem mais sangue e as células são renovadas recebendo mais oxigênio e nutrientes. O resultado é uma pele mais jovem e tonificada. “É um benefício global que se reflete na elasticidade da pele. Por exemplo, o sexo abre os poros e facilita assim sua limpeza fazendo com que a pessoa tenha uma derme mais saudável”, ressalta.

Elisângela explica os efeitos da atividade sexual

A psicóloga e sexóloga Elisângela Pereira, que também é membro da Sociedade Brasileira em Estudos de Sexualidade Humana (Sbrash), corrobora o argumento de Elaine: “Percebo que os casais que praticam mais sexo apresentam melhor humor, mais satisfação pessoal e se sentem confiantes e seguros com sua aparência. Pois passam a se cuidar mais. No entanto a frequência sexual não pode ser determinada, ela vai

variar de casal para casal”, afirma. A sexóloga também fala dos benefícios gerados pela produção dos hormônios ocitocina e endorfina, o primeiro responsável pela criação de vínculos sociais, também conhecido como “hormônio do amor”, e o segundo pela sensação de prazer e bem estar. Para Elisângela a mudança fisiológica existe, contudo não há uma transformação milagrosa na aparência da pessoa: “Quando

alguém está envolvido emocionalmente ou sexualmente com um parceiro, a pessoa se cuida mais, quer estar pronta para o outro”, enfatiza. Outra questão levantado por Elisângela é a perda de vaidade pelos casais com o tempo, pois o nível de ocitocina cai, fazendo com que a excitação do início do relacionamento desapareça. “Essa mudança que ocorre nas pessoas não é só hormonal, ela é também emocional e comportamental. Por isso os relacionamentos duradouros são tão complicados, pois você tem que ser capaz de romper as barreiras da rotina. O sexo está inteiramente ligado à sedução e, muitas vezes, ao longo dos anos os casais perdem isso”, salienta.

Gravidez acima dos 40 anos gera polêmica “Mães mais velhas cuidam melhor de seus bebês”, afirma pesquisa sobre as vantagens da maternidade tardia Débora Falci Paola Lessa

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s avanços da medicina, carreiras profissionais promissoras e o ritmo acelerado de vida vêm contribuindo para que as mulheres tenham filhos cada vez mais tarde. A gestação após os 40 anos sempre chamou a atenção da mídia e dos profissionais de saúde por causa dos riscos para mães e bebês, mas um estudo recente da Universidade de Warwick na Grã-Bretanha mostra o lado bom da gravidez mais madura. O pediatra Alastair Sutcliffe, autor do trabalho, constatou que os filhos de mães que estão acima dos 40 anos são mais saudáveis. Ele percebeu que essas crianças sofreram menos acidentes e tiveram menos doenças até os 5 anos. A pesquisa vem gerando divergências de opiniões não só na Inglaterra, mas em outros países, como é o caso do Brasil. Algumas mães não atribuem a saúde de seus filhos ao fato de terem engravidado mais velhas. Cirley Lima, 51 anos, engravidou pela segunda vez aos 40 anos: “Acho que meu filho é

muito saudável sim, mas não acho que seja mais que outras crianças. Tive os mesmos cuidados que tive com minha primeira filha, que nasceu quando eu tinha 24 anos.” Já Luciene Gomes Porto, 42 anos, mãe de uma adolescente e de um recémnascido, acredita que consegue cuidar melhor de um bebê agora: “Sou mais experiente e reconheço melhor a importância de amamentar. Me preocupei mais com a qualidade da minha alimentação durante a gestação, e tive acesso a exames modernos que permitem prevenir

complicações. Acredito que tudo isso contribuiu para que meu filho tenha nascido com saúde”. Possibilidade de riscos aumenta cuidados O pediatra Alberto Franchesqueti considera que, de certa forma, mães que engravidam após os 40 anos “têm sim um maior cuidado com os seus filhos”, mas não descarta as possibilidades de essas crianças nascerem com algum problema genético. “O fato de serem mais saudáveis está inteiramente ligado Foto: Paola Lessa

Mesmo sendo mãe aos 40 anos, Cirley não acredita que seu filho seja mais saudável que outras crianças

à preocupação das mães, que têm consciência da gravidez de alto risco e, talvez por isso, mimam mais seus filhos”, pondera. Franchesqueti ainda ressalta um fato que talvez não tenha sido levado em conta na pesquisa da Grã-Bretanha. Ele acredita que, em geral, há uma diferença entre o comportamento de mulheres acima dos 40 anos que esperam o segundo filho das que engravidam pela primeira vez. “Na maioria das situações, as que já foram mães se preocupam menos com a saúde do bebê, pois já tiveram a experiência com o primeiro. Os riscos continuam, mas o organismo da mulher já está acostumado e preparado para receber uma gestação”, afirma. Maria Quintiliano, que engravidou pela quinta vez aos 41 anos, confirma o que diz o médico: “Nem tomei todos os cuidados necessários na última gravidez. Fui muito mais cuidadosa na primeira”. Já o ginecologista João Braille, concorda com a pesquisa, mas ressalta que é uma realidade inglesa e não se aplica ao Brasil. “Não podemos esquecer que há questões sociais envolvidas na pesquisa. Não há estatística em nosso país que comprove isto”, diz Braille.


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Jovens não pensam em abandonar estudos por esporte O futebol não é visto apenas como esporte, mas também como aliado na educação de crianças e adolescentes Gustavo Gusmão Pâmela Badaró

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possibilidade de conquistar fama, ter sucesso e conhecer outros países atrai cada vez mais garotos às escolas de futebol da cidade. Levados pelos pais, ou influenciados por exemplos de jogadores bem sucedidos, o sonho de ser jogador de futebol povoa a imaginação de grande parte das crianças e adolescentes. Hilário Secchin Russo tem 10 anos e sempre brincou de futebol, como quase todo menino. Em 2008, após muita insistência, foi levado pela mãe à escolinha de futebol do Minas Tênis. Hoje, futebol para ele é prioridade e, como tantos outros garotos, seu maior sonho é ser um jogador. O menino, fã de Ronaldinho Gaúcho e que passa seu tempo livre desenhando Jabulanis e chutando qualquer objeto redondo que vê pela frente, diz que abriria mão de qualquer coisa para tornar seu sonho realidade, menos dos estudos. Seu esforço já traz resultados. Segundo seu treinador, o jovem atleta está cada vez melhor. Mas o caminho não é fácil, além de talento, muitas vezes é preciso contar com a sorte para ser visto por um olheiro ou por um empresário. Engana-se quem pensa que Juiz de Fora não possui olheiros de grandes times. O treinador Wilmo, no ramo há 14 anos, revela já ter trabalhado com atle-

tas que foram parar em grandes times nacionais como Vasco e Palmeiras, e até em clubes internacionais no Japão. “Juiz de Fora é um celeiro de jogadores”. Para os garotos que pretendem tentar a sorte nessa disputada carreira, o treinador ressalta as dificuldades e a importância de se investir em uma carreira paralela. “Hoje ser jogador de futebol é como ganhar na loteria. Existem muitos garotos talentosos que não conseguem. Por isso é importante que o atleta não abandone os estudos. Caso esse sonho não dê certo, ele tem outra forma de ganhar a vida”. Outro fator importante é a presença dos empresários que podem facilitar a entrada de futuros jogadores nos grandes clubes. “Há casos de garotos talentosos que não passaram em peneiras, e garotos nem tão bons assim, que acabaram passando pelo fato de estarem acompanhados por empresários”, afirma o treinador. Para os pais que acreditam ter um craque dentro de casa, Wilmo dá algumas dicas. A idade ideal para o começo dos treinamentos se dá por volta dos cinco anos, pois nessa idade pode-se desenvolver a habilidade motora da criança. Com 9 anos, o atleta já está preparado para iniciar nas competições, já conseguindo lidar bem com a torcida e a cobrança por vitórias. No entanto, a principal dica de Wilmo é para que os garotos jamais abandonem a escola. Ele afirma que

Foto: Pâmela Badró

alguns clubes chegam a dispensar garotos que não estudam e o abandono da escola já não é prática tão comum hoje em dia. O programa “Segundo Tempo” Pensando justamente em associar esportes e educação, o “Programa Segundo Tempo” foi implantado em Juiz de Fora. O programa consiste no desenvolvimento gratuito de atividades esportivas (com acompanhamento de monitores e técnicos), além de disponibilizar um reforço alimentar para os alunos da rede municipal de ensino. O objetivo central do projeto é atuar no contra-turno escolar, preenchendo o tempo ocioso das crianças e adolescentes aumentando sua autoestima. Os participantes do projeto são de comunidades carentes da cidade, com idade entre 7 e 17 anos. São ao todo 40 núcleos em Juiz de Fora, sendo que são disponibilizadas no mínimo cem vagas para cada um. A única exigência é a de que o jovem esteja matriculado na escola. Rodrigo Vianelo, coordenador geral do programa em Juiz de Fora, diz ainda que “além do desenvolvimento humano e social, um bom trabalho com o programa oferece a oportunidade de aprendizado de diferentes modalidades esportivas, além de valorizar aspectos da saúde, como a prevenção de doenças e o afastamento das drogas”.

Hilário a caminho da escola de futebol

Mas o futebol não é o único esporte oferecido. O aluno deve praticar atividades por três dias na semana, de no mínimo duas horas de duração. É obrigatório ainda, que os participantes do projeto façam dois tipos de atividades coletivas, uma individual e ainda uma atividade complementar, somando um mínimo de oito horas por semana. O Projeto “Segundo Tempo” oferece esportes como handebol, voleibol, xadrez e judô, dentre outros. Para mais informações sobre o programa, o telefone para contato da Secretaria de Esporte e Lazer é o 3690-7844.

Temporada de escalada pode atrair mais adeptos em JF Instrutor destaca a necessidade de iniciantes procurarem curso específico para aprender a usar os equipamentos Thamara Paiva

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atureza, adrenalina e aventura. Quem sente afinidade com essas três palavras está pronto para mergulhar no esporte que ainda é tímido em Juiz de Fora, mas tem grande potencial para conseguir mais seguidores: a escalada. Versátil, o esporte pode ser praticado por qualquer pessoa, e ganha novos adeptos no período compreendido entre abril e setembro, meses em que não chove muito e as trilhas estão secas, facilitando a prática. Em Juiz de Fora existem três pontos principais para escalar: a Pedra do Yungue, a Pedra do Retiro e o Morro do Imperador, os de mais fácil acesso.

Segundo o instrutor de escalada Fábio Fernandes, para começar a prática do esporte é necessário, primeiramente, procurar um curso específico para adquirir o método de usar os equipamentos. Cerca de 240 pessoas já passaram pelo curso em Juiz de Fora, segundo Fábio. “A segurança na altura é um somatório de técnica e do próprio equipamento, que deve ser homologado e certificado segundo as normas específicas da atividade”, afirma. Ainda de acordo com o instrutor, depois que a pessoa toma autonomia de escalar, ela precisa encontrar um companheiro confiável para fazer sua segurança. “O ideal é ficar um em cada ponta de forma que um faz a segurança do outro”, explica Fábio.

Ele afirma que existe a possibilidade de escalar com três ou até grupos maiores em uma mesma corda, mas alerta sobre o choque no ambiente. “É até um apelo ambiental evitar grupos muito grandes, para que não haja um impacto muito forte numa mesma trilha de acesso”, diz o instrutor. Escalador frequente, Edinho Vander concorda que é importante a pessoa ter consciência ambiental. “O que acontece é o contrário do que muitas pessoas pensam, ao passar pelas vias, encontramos lixo, e nós mesmos catamos para preservar aquele lugar, pois queremos protegê-lo para continuarmos utilizando-o.” Apesar de haver um número bastante grande de adeptos a essa modalidade, Edinho acha que ela precisa de Foto: Getty Images

um pouco mais de atenção em Juiz de Fora. “É um esporte radical que muita gente gosta, mas está faltando um incentivo maior para motivar ainda mais pessoas a praticar.”

As modalidades da escalada Escalada de Bouldering: composta basicamente por blocos para treinamento, não dá a sensação de que chegou ao topo da montanha. Escalada esportiva: é uma escalada mais atlética. Praticada geralmente por pessoas jovens. Exige mais força e busca maior dificuldade. Escalada Clássica ou de Parede: é o contrário da esportiva. Remonta os objetivos dos primórdios do alpinismo de se chegar ao topo. Ao invés de buscar a dificuldade, busca facilitar o acesso. Possui rotas maiores, pois contornam os obstáculos mais difíceis. Big Wall: caracteriza-se pelo maior tempo de escalada, podendo durar mais de um dia, sendo necessário fazer um pernoite na montanha ou na parede.

Cuidado na segurança: praticantes da modalidade devem procurar profissionais especializados antes de iniciação no esporte


Comportamento 11

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Movimento Slow Food une sabor e sustentabilidade Seguidores primam pela responsabilidade ambiental que se reflete na escolha do cardápio e na melhoria da saúde Flaviane Falcão Priscilla Thevenet Thais Lawall

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busca por uma vida mais saudável e por práticas sustentáveis é uma preocupação cada vez mais recorrente no cenário atual. Inserido nessa filosofia se destaca o movimento slow food. A rapidez no preparo e ingestão dos alimentos nos fast foods são justamente os pontos que diferenciam o estilo slow, do fast. São movimentos que caminham em direções opostas. O ponto forte do slow é priorizar a qualidade e responsabilidade com o meio ambiente em todo o processo de produção da comida. Os praticantes são pessoas com consciência ambiental, que entendem que a alimentação é um ciclo, começado no preparo da terra e plantio das sementes e que demanda tempo. Dessa forma prioriza-se o consumo de alimentos produzidos quase artesanalmente, de maneira orgânica, que não agrida a biodiversidade. O movimento ajuda as pessoas a redescobrirem o prazer de se alimentar e compreenderem a importância de entender de onde a sua comida é proveniente, quem a faz e como é preparada. Em Juiz de Fora existe um restaurante dedicado à prática do alow food. O proprietário da Das Haus Comedoria, Carlos Henrique Trindade Fonseca, começou a difundir a ideia na cidade há um ano, quando abriu as portas de sua casa aos apreciadores da gastronomia. Inicialmente, seus “clientes” se restringiam aos familiares e amigos, mas hoje recebe novos públicos. Favorecendo ideologia do movimento Slow Food ,o estabelecimento está em meio a natureza em um bairro abastado do centro. “Priorizamos sempre produto-

res regionais, o que fortalece a economia local. Muita gente confunde conceito de slow food com a ingestão de alimentos orgânicos, mas não necessariamente é isso, buscamos a sustentabilidade, porque o orgânico feito em larga escala de produção também não é sustentável”,enfatiza Carlos Henrique. Com alguns produtos cultivados na própria casa, como as hortaliças sempre frescas na pequena horta e as galinhas criadas soltas, fornecendo carne e ovos, o restaurante oferece 25 variações de partos. A Comedoria tem apenas cinco mesas, e é o próprio Carlos quem prepara todos os pratos, o que contribui para o perfil slow. “Não dá para aumentar o público, seria necessário aumentar toda a parte da cadeia, desde os fornecedores, até as pessoas no preparo do alimento e atendimento as mesas. Isso torna o processo mais industrial, e esse não é o nosso conceito.” A forma slow de apreciar a comida também é muito benéfica à saúde. Uma mastigação adequada, mais lenta, faz com que o organismo processe a comida ingerida e a pessoa fique satisfeita com a refeição. Como explica a nutricionista Andreia Barros. “Ao comer devagar

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Foto: Paola Lessa

Adepto do estilo slow, Carlos Henrique Fonseca abriu um restaurante para difundir o movimento

você pode além de saborear o alimento, controlar a quantidade de alimentos ingerida, evitando os excessos que levam ao sobrepeso.”, explica Andreia. Para a estudante de medicina Anelise Gavioli a prática da deglutição mais demorada da comida e a preferência por produtos orgânicos contribuem para uma melhora na sua qualidade de vida. “Eu não sabia da existência desse movimento, mas sempre busquei ���������

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Pr i or i z aal i ment ospr oduz i dosdef or ma Apr oduçãodosal i ment osem l ar gaes cal a, s us t ent ável ,pr apr es er vaçãodanat ur ez a. degr adaomei oambi ent e. Sabes eaor i gem dosal i ment os

Pr ocedênci adosal i ment osédes conheci da.

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Mas t i gaçãol ent a,quepr i vi l egi aos i s t ema di ges t ór i o,pr ovocandos ens açãode Rápi dai nges t ão,quei mpedeoor gani s mode s aci edade. pr oces s aracomi da,l evandoaoexager o Di f í ci laces s oaosal i ment ospr oduz i dosde Aces s or ápi doef áci lat odosost i posdecomf or mas us t ent ável . i dades ej ados . Gas t as emui t ot empocom apr át i cadaal i - Rapi dezaos eal i ment ar ,oquef aci l i t aavi da ment ação. daspes s oasquenãot êm t empo.

investir em uma alimentação que fosse ecologicamente correta, recorrendo a produtos orgânicos e a minha hortinha no quintal de casa.” Anelise se identifica com a filosofia proposta pelo slow food, porém relata que é muito difícil a prática diária, devido à dificuldade de encontrar os alimentos adequados.

Entenda o movimento Idealizado pelo cozinheiro Carlo Petrini, o movimento Slow Food começou a ser difundido em um pequeno Bistrô na Itália, em 1986. Sua filosofia baseia-se no prazer da alimentação e nas consequências e responsabilidades dos consumidores com o meio ambiente. A ideia caiu no gosto das pessoas cansadas da correria diária e escravização em função do tempo. Atualmente são mais de 100 mil adeptos por todo o mundo, com sedes e escritórios em 132 países.

Jovens rememoram a música e o estilo de vida dos anos 60 Juiz-foranos que se identificam com a cultura rockabilly reclamam da falta de atrações para esse público como Elvis Presley, Marilyn Monroe, James Dean, Marlon Brando e os Beatles. No entanto, ainda hoje existem jovens que se identificam com esses personagens e seu estilo de vida, são opetes, jaquetas de couro, ves- os chamados rockabillys – mistura de tidos rodados sempre lembram “rock´n´roll” com “hillbilly”, música os astros da música e do cine- country da época. ma que ficaram famosos nos anos 60, O músico Felipe Ribeiro, da banda Cadillacs, cujo repertório inclui canções da década de 60, afirma que apesar de haver muitos rockabillys nos grandes centros, em Juiz de Fora há pouco espaço para quem quer ouvir esse tipo de som: “Tivemos sorte em conseguir criar uma empatia com o público e tocar em várias casas noturnas da região. Mas não acho que nosso caso é pontual. Em várias cidades, o espaA banda Cadillacs é uma das poucas com estilo Rockabilly em Juiz de Fora Lívia Machado Paola Lessa Tábata Soares

Foto: Divulgação

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ço dedicado ao que está fora do mercado é inexpressivo”. O proprietário do Muzik, Maurício Lemos confirma que, apesar da casa ser “a que mais se dedica ao estilo”, há poucos eventos para esse público. Ele conta que quando existe programação rockabilly, em geral, são bandas de São Paulo e Curitiba, com um público razoável. “É uma galera na faixa de 25 a 35 anos. Alguns rapazes aparecem com calças skinny, topetes, costeletas e brilhantina. Já as meninas vêm com o visual inspirado nas pin ups, vestidos rodados, de bolinhas e tatuagens à mostra. Por mais que os DJs se esforcem para manter a pista, com hits dos anos 50 e 60, o público sempre espera uma banda”. A importância da “tribo” na juventude O estudante Brunno Esteves, 22 anos, adora músicas desse estilo, principalmente os clássicos como Brian Setzer e Bill Halley. No entanto, reclama da dificuldade de encontrar pessoas com os mesmo gostos para trocar �� �����

ideias. “Em Juiz de Fora, é muito raro encontrar rockabillys. Os poucos que existem, geralmente, frequentam Muzik e Cultural Bar.” Para suprir a ausência de atrações voltadas para esse público, Bruno comenta que os fãs de rockabilly tentam curtir estilos parecidos, como o rock clássico. Ele afirma se sentir “deslocado” por gostar de rock: “Sempre convivi com pessoas que infelizmente nunca deram valor a uma boa música, isso é uma pena”. Para a psiquiatra Meryangela Salomão, é comum os jovens buscarem se inserir em grupo com ideais parecidos, as chamadas tribos: “É a idealização de um modelo social no qual ele tenha uma participação ativa e plena, uma vez que seu conflito com a sociedade o faz refutar as regras vigentes”. Em relação à identificação com estilos de outras épocas, a especialista acredita que “não há um retorno à geração de 60 e sim, uma incorporação de algumas características básicas para se criar uma tipologia estereotipada”.


Cultura 12 10 Esporte

Jornal de Estudo

Maio de 2011 agosto de

Preço baixo atrai público variado ao cinema Funalfa e Cinearte Palace se unem para democratizar a Sétima Arte com ingressos promocionais a um real Foto: Maria Tereza Umbelino

Angélica Simeão Gisele Toma Maria Tereza Carneiro

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a tentativa de ampliar o acesso da população à cultura do cinema, a Funalfa criou o projeto “Cinema Para Todos”, dividido em quatro iniciativas diferentes: “Sessão Cidadão”, “Clube do Professor”, “Sessão Terceira Idade” e “Escola vai ao cinema”. Atualmente, a que possui mais destaque é a “Sessão Cidadão”, criada para durar alguns meses, e que completa dois anos em 2011. Às terças e quintas são exibidos filmes que estão em cartaz pelo preço simbólico de R$1 e a verba é revertida para a revitalização do Cinearte Palace. De acordo com a coordenadora do projeto, Fernanda Martins, no ano passado foram, aproximadamente, 12 mil espectadores e 25 títulos exibidos. “A importância [da Sessão Cidadão] é a acessibilidade, proporcionar esse contato com a arte do cinema a um público que talvez não poderia estar ali por causa do preço do ingresso”, afirma Fernanda. São feitas, regularmente, pesquisas informais nas filas que antecedem as sessões do projeto para definir os próximos filmes que a plateia quer ver. Segundo a gerente do Cinearte Palace, Luciana Altolari,

As amigas Ana Luísa da Silva e Marina

Público se aglomera na porta do Cine Palace nas terças e quintas-feiras, quando acontece a Sessão Cidadão, projeto da Funalfa para popularizar o acesso

“a comédia é o gênero preferido do público”. O último cinema de rua As cidades brasileiras sofreram transformações ao longo das últimas décadas e os tradicionais cinemas de rua perderam seu espaço. A maioria das salas de exibição pertencem a grandes grupos empresariais e se

encontram em shoppings. Em Juiz de Fora, o Cine Veneza e o Cine Excelsior que também funcionavam no Centro fecharam suas portas. Para a estudante Marina Vittori de Carvalho, de 16 anos, o fato do Cinearte Palace ser no centro da cidade é importante. “É bom, porque é perto dos pontos de ônibus e assim todos podem ter acesso”.

Um outro motivo de seu sucesso é o preço acessível. Antes as sessões de quarta-feira eram a opção mais barata. O vendedor ambulante Itamar Queiroz, 77 anos, que frequentava às quartas, agora se tornou um espectador assíduo da Sessão. “O preço é mais atrativo, por isso acredito que as pessoas venham mais ao cinema. Eu mesmo venho toda semana”, declara.

Projeto Sérgio Lessa incentiva a produção da cultura local Palco do Cine-Theatro Central recebe oito grupos de artistas da cidade para apresentações ao longo do ano Angélica Simeão Gisele Toma Maria Tereza Umbelino

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Cine-Theatro Central é famoso por sua grandiosidade e já recebeu inúmeros espetáculos nacionais e internacionais. A oportunidade de apresentar um trabalho em seu palco é única. Assim, o projeto Sérgio Lessa proporciona

esta chance a espetáculos de Juiz de Fora. Com o primeiro edital lançado em 2006, a Pró-Reitoria de Cultura da UFJF incentiva a produção local, por meio da democratização ao acesso, e estimula a participação do público juiz-forano pela popularização do produto local. Até hoje 35 produções das mais variadas áreas, como música, teatro e literatura já participaram do projeto. Estas são Foto: Divulgação / Camila Botelho

Companhia Ormeu realiza o espetáculo Retina, que mistura teatro, dança, cinema e outras formas de arte

avaliadas quanto à qualidade e relevância artístico-cultural, abrangência cultural e social e originalidade. Neste ano, oito propostas foram aprovadas das 25 que concorreram. Entre elas, está a Orquestra de Violões do Conservatório Estadual de Música que fará uma apresentação comemorando seus dez anos. Para o maestro Vicente Cimino e seus integrantes a expectativa é grande. “Estou muito feliz em participar. Nos reunimos com a comissão que cuidará da logística para fazermos um grande espetáculo”. Outro contemplado é o pianista e violonista Carlos Henrique Pereira. Trabalhando há mais de 20 anos no cenário musical, fará uma apresentação de seu terceiro CD ‘Minas, Gerais’ para gravação em DVD. “Pretendo convidar alguns músicos para tornar o espetáculo mais atrativo”, afirma Carlos. Para uma maior divulgação, as produções contempladas recebem além da permissão para uso do Central sem ônus - flyers, impressão de ingressos e mil reais usados para divulgação em mídia. Além disso, a participação do público é de grande

importância para o projeto. Relações públicas da Pró Reitoria de Cultura, Gabriel Miranda, diz que o projeto atinge seu propósito ao “congratular tanto a classe produtora como o público local tendo acesso ao Central”. O edital fortifica o cenário cultural da cidade e ajuda dar continuidade a boas iniciativas, como é o caso do Festival Internacional de Coros de Juiz de Fora. Após participar de três edições do projeto,saiu da seleção desse ano porque a Pró-Reitoria de Cultura realizou uma parceria individual com o FestCoros. Esse ano as apresentações começaram com as peças teatrais. A Cia. Ormeo subiu ao palco do Cine Theatro no dia 20 de maio, com o espetáculo ‘Retina’. A compania formada por artistas de Juiz de Fora e Cataguases explora o intercâmbio entre música, dança, teatro, literatura, cinema e artes visuais. A segunda apresentação da agenda ocorreu no dia 29 de maio e ficou por conta do grupo TQ. Sua peça ‘Tropa de Elite 2’, é uma comédia que discute e critica acontecimentos recentes do município.


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Jornal de Estudo Maio de 2011

Esmaltes fazem a cabeça das vaidosas Eles ganham cada vez mais espaço nos make-ups e desfilam para pessoas de todos os gostos Foto: Divulgação ABAN

Tábata Soares Paola Lessa Lívia Machado

tendência mudou, mas hoje com tantas opções, quem passa o básico está passando ‘esmalte de vó’, como dizem por aí.”

A

cessórios indispensáveis nas produções, os esmaltes que anteriormente eram apenas um acabamento para as unhas, atualmente têm ganhado atenção especial do público feminino. Com uma enorme variedade de novas cores e texturas, a rotina de consumidores, lojistas e manicures tem sofrido mudanças significativas na tentativa de acompanhar as tendências. É o que acontece com a vendedora Michele Marques, 21 anos, que faz as unhas diariamente. “Eu chego em casa, tomo banho e já troco o meu esmalte. Faço isso todos os dias porque não consigo ficar com o mesma cor”, comenta. Os produtos causam tanto interesse que já existem vários blogs de beleza fazendo sucesso por aí. A estudante juiz-forana Bia Jiacomine começou a escrever um blog pessoal, mas ao notar que falava mais de esmaltes do que de qualquer outro assunto, resolveu se dedicar ao tema. Ela e a cunhada Lívia Mautoni hoje respondem pelo site eunaosouamelia.com, atualizado todos os dias com

Bia Jiacomine mostra uma pequena parte da sua coleção de esmaltes

uma nova dica sobre lançamentos e tendências do mundo da beleza. E esse e outros sites e blogs têm se tornado fontes de informação para os consumidores. “As leitoras ficam na dúvida se compram ou não um novo lançamento. Depois que veem o resultado no site e gostam, acabam usando também. Eu mesma me sin-

to influenciada pelos blogs que eu leio”, afirma Bia. A blogueira lembra que há cerca de três anos, quando a personagem Rakelly, vivida pela atriz Ísis Valverde, começou a aparecer na TV com esmaltes de cores e texturas diferentes, o uso era considerado brega. “Eu não sei dizer quando essa

À procura de lançamentos Bia Jiacomine acredita que a melhor maneira de adquirir os lançamentos é comprando os esmaltes nas lojas especializadas ou pela internet: “Os salões da cidade não conseguem acompanhar as demandas. As novas tonalidades de rosas até são mais fáceis de encontrar, mas em relação aos esmaltes com efeito 3D ou de marcas estrangeiras, deixam muito a desejar”. De acordo com a manicure Isabel Cristina Nunes, o numero de clientes tem aumentado, porém, os preços continuam os mesmos. O valor cobrado pelos serviços varia apenas de acordo com a localização do salão, sendo que na região central são mais caros que nos bairros. Aderindo ou não a essa nova “onda”, o fato é que o esmalte está chegando mais perto dos holofotes e ganhando mais espaço nas produções. Mas o importante mesmo é poder escolher sem neuras e sem complicação. Se seu estilo é clássico e pede um renda, “se joga” e seja feliz.

Incentivos ao esporte na Universidade

Eventos como a Corrida Rústica e investimentos em novas instalações atraem muitos juiz-foranos

Amanda Giacchetta Débora Falci

A

UFJF prestigia os juiz-foranos não apenas com suas unidades de ensino, que são referência na Zona da Mata Mineira. O ambiente do campus é uma estrutura também favorável à prática de esportes, com ciclovias e aparelhos de musculação, atraem além dos universitários, uma boa parcela da população local. Além disso, a universidade é uma das principais áreas verdes da cidade para o lazer. A última reforma do anel viário foi em 2009 e consistiu na revitalização do passeio, com a criação da ciclovia e sinalização. No final do ano passado, mais uma obra foi realizada. Uma academia ao ar livre foi inaugurada e tem atraído muitas pessoas. Dona Jani Teixeira, que já é aposentada, sempre fez caminhadas na UFJF e há 20 dias, veio malhar aqui no campus. “Na academia é fechado, aqui é livre.”, diz a aposentada., que também ressaltou que conseguiu perder três quilos e meio, fazendo exercícios físicos na Universidade. “ Sempre malhei e nunca perdi peso, agora eu consegui”. .A manutenção destes espaços têm possibilitado a realização de grandes eventos esportivos, como os jogos Panamericanos escolares, ocorrido em em 2010, e a Corrida

Rústica, realizada em abril desse ano. As estudantes Isabela Nardini e Raquel Mendes, de 15 anos, começaram a praticar atividades físicas a pouco tempo e elogiam bastante o espaço da UFJF. “Nós começamos a fazer atletismo na escola, e tivemos um professor que nos estimulou muito a correr e a fazer caminhada. O espaço da universidade é muito bom para isso.” Outro praticante de corrida que se utiliza do campus é Vanderson Luís de Souza. Ele tem o hábito de correr há 13 anos e já até participou de algumas competições. “Venho pelo menos três vezes na semana à universidade. Nos outros dias, treino no caminho do trabalho. Mas aqui, é um dos melhores locais da cidade.” De acordo com o vice-diretor da Faculdade de Educação Física, Maurício Bara, “o aumento do número de pessoas que vêm aqui para a prática de desportos ocorreu devido à revitalização da área e a universidade é uma referência em Juiz de Fora”. Ele ressalta que os incentivos oferecidos pela UFJF vêm principalmente do apoio da administração superior juntamente com a Faculdade de Educação Física, contando também com apoio do Ministério do Esporte. Entre os projetos realizados pela universidade voltados para a comunidade há incentivos à prática de atletismo, pilates, hidroginástica, musculação e voleibol. Em relação a esse

último, de acordo com Bara, há quatro anos o time da UFJF tem conquistado campeonatos levando o nome da universidade pelo Brasil a fora.

tavam atletas acostumados a correr grandes maratonas, jovens e adultos que começaram a praticar exercícios físicos recentemente e até mesmo

Boa estrutura para grandes eventos Setenta voluntários da Faculdade de Educação Física se envolveram na organização da primeira fase do 25º Ranking da Prefeitura de Juiz de Fora de Corrida Rústica, realizado no dia 10 de abril no campus da Universidade Federal de Juiz de Fora. O evento é dividido em nove etapas e nesta fase contou com 1.200 inscritos. A média de público extrapolou as anteriores ocorridas na cidade. Entre os presentes no evento, es-

pessoas que foram simplesmente para dar apoio e se divertir. Com um histórico de seis São Silvestres e 15 maratonas, Fernando Costa, que treina há 29 anos, participou desta e de todas as corridas já realizadas na cidade. O maratonista faz parte de um grupo que existe há mais de 21 anos, chamado Super Amigos. Ele costuma correr no campus da UFJF e ressalta a qualidade da infraestrutura. “Além da função acadêmica a UFJF também cumpre bem este papel social”.


Jornal de Estudo 14 Suplemento JE Maio de 2011

Jornal de Estudo Comportamento 11 agosto

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Ministério da Educação incentiva quadrinhos MEC inclui os quadrinhos nos editais do PNBE para incentivar a leitura de clássicos literários

Raquel lara crê que a troca cultural é importate para formação profissional do aluno

Tábata Soares Gisele Toma

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urante muitos anos os gibis tiveram um papel secundário. A leitura de quadrinhos foi apontada por Frederic Wertham, em “Sedução dos Inocentes”, como “influência para que jovens cometessem atos delinquentes e imorais.” Porém o Ministério da Educação, MEC, está tentando reverter essa situação. Desde 2006, os quadrinhos entraram pela porta da frente das escolas brasileira, inclusos nos editais do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). Projeto criado “para distribuição de acervos de obras de literatura, de pesquisa e de referência, a fim de promover o acesso à cultura e à informação e o incentivo à leitura de alunos, professores e da população em geral” diz o MEC. Os quadrinhos conquistaram espaço nas escolas do Brasil. Com um processo de leitura complexo que exige atenção do leitor que deve se atentar a todos os elementos presentes, como texto, imagens, balões, ordem das tiras e onomatopeias os gibis contribuem no processo de interpretação dos textos lidos. O MEC publica editais anualmente para seleção dos títulos que serão disponibilizados e realiza uma triagem, levando em consideração a qualidade dos textos, a adequação temática e o

projeto gráfico. Obras clássicas da literatura universal, já foram adaptados aos quadrinhos e estão presentes nas prateleiras de bibliotecas espalhadas em instituições de ensino pelo país. Desde a inclusão, o número de quadrinhos que fazem parte do programa está cada ano maior, mas ainda não dá pra afirmar que os jovens estão mesmo se sentindo incentivados à ler. Para o proprietário da comic shop e editora Conclave Marcelo Oliveira, “os gibis são formas de popularizar a leitura, muita

gente não gosta de ler só texto e nos quadrinhos uma quantidade muito grande de informação fica condensada em um único quadrinho, ao invés de ler páginas e mais páginas descritivas” afirma. Por outro lado o consumo desse tipo de material ainda é muito pequeno segundo Marcelo: “As HQs adaptadas de obras da literatura clássica não são muito procurados, pois poucas pessoas tem conhecimento de sua existência, e o consumo de quadrinhos ainda é muito pequeno no país”.

Empecilhos a incentivo Ainda que a iniciativa seja para aumentar a leitura nas escolas e as HQs estejam mais presentes nas escolas o professor de Literatura Brasileira Eduardo Monteiro diz: “não acredito que os quadrinhos adaptados de livros devam servir como incentivo à leitura livresca”. Ele ainda afirma ainda que “o importante não é ler a qualquer preço, muito menos ler muito o importante é como ler.” O Consumo desse tipo de arte também é muito limitado, segundo Pablo Gabriel, leitor de HQs há mais de 10 anos, “os quadrinhos em si não são uma forma de incentivo à leitura, pois só quem acompanha há mais tempo é que consome” desacredita. Porém os clássicos da literatura adaptados para os gibis podem servir de incentivo à literatura clássica. “Espero que as pessoas que leiam as obras literárias quadrinizadas sintam também vontade de ler o clássico em si, pois no quadrinho, como em filmes, tem que se resumir muita coisa.” Levar clássicos da literatura para as histórias em quadrinhos, e colocá-las nas listas das bibliotecas do Brasil inteiro é um grande passo na tentativa de incentivar os jovens a ler, mas existem outros obstáculos a serem vencidos. Entre eles está o preço das obras em livrarias, que acabam afastando possíveis leitores.

Raquel lara crê que a MEC inclui os quadrinhos nos editais do PNBE para incentivara a leitura de clássicos literários troca cultural é importate para formação profissional


Comportamento Suplemento Jornal deJEEstudo 15 11

Jornal de Estudo 15 Suplemento JE

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Produtos industrializados prejudicam desenvolvimento infantil Além de conter muita gordura e açúcar, esses alimentos podem acabar tomando o lugar de alimentos saudáveis se não forem consumidos com moderação pelas crianças. Foto: Carolina Caniato

Carolina Caniato

Não há dúvidas em relação ao delicioso sabor do chocolate. Mas a preocupação com a saúde e a estética fazem as pessoas pensarem duas vezes antes de comer mais um pedaço. Se já é complicado para um adulto ter esse autocontrole, imagine para as crianças. Resistir à tentação de se comer chocolate na infância é muito difícil, principalmente nos dias de hoje, em que eles muitas vezes são acompanhados de brinquedos, embalados em rótulos coloridos, enfeitados com personagens de filmes e desenhos animados, estratégias para tornar o produto mais chamativo. Além disso, é possível encontrar o doce nas mais variadas formas e preços e mesclados com outros alimentos. De acordo com a nutricionista Fernanda Azevedo, o cacau, matériaprima dos chocolates, é benéfico ao organismo, devido a presença dos flavonóides, agentes antioxidantes. Estudos indicam que o consumo do chocolate do tipo amargo diminui a pressão arterial e melhora a sensibilidade a insulina, diminuindo a probabilidade de diabetes. Porém, ela afirma que “a indicação para o público infantil deve ser moderada, pois a preferência pelo sabor doce pode atrapalhar a aceitação dos alimentos salgados”. O consumo excessivo de chocolate na infância é capaz de provocar gases, desconforto abdominal e diarréia, devido ao alto teor de açúcar e gor-

Almoço em família: Cláudia faz questão de incluir verduras e legumes nas refeições dos filhos

dura, proveniente do leite. O alimento também está presente em vários produtos industrializados, como biscoitos e bebidas lácteas, que estão presentes na dieta diária das famílias. Por conta disso, a melhor indicação é o do tipo amargo, já que é menos gorduroso e calórico. Cristina Malvacini é pediatra há 20 anos e conta que, desde o início de sua profissão, tem observado que a diminuição de hábitos saudáveis, como o consumo de frutas e vegetais. “As crianças pequenas têm pouco apetite e, ao invés da ser dado a ela uma fruta, é dado um biscoito ou chocolate, deixando-as ‘viciadas’ nesses alimentos”, explica Cristina. “Esses produtos industrializados contém muita gordura, carboidratos e açúcar, então a criança acaba se sentindo satisfeita, deixando de comer alimentos com maior teor

nutritivo”. Educação alimentar A questão não é proibir, mas sim tentar oferecer uma alimentação equilibrada. “A educação começa em casa e os pais devem ter muita atenção. O consumo de produtos industrializados, em longo prazo, pode desenvolver precocemente doenças como diabetes, hipertensão e obesidade, trazendo prejuízos físicos e emocionais”, acrescenta Fernanda. Segundo a pediatra, as crianças adquirem uma memória alimentar. O aleitamento materno e o consumo de produtos mais saudáveis na primeira infância, resultam numa melhor alimentação posteriormente. “A gente consegue controlar os filhos até certa idade. Depois eles começam a ter autonomia de escolher o que vai comer, por exemplo, na cantina da escola. Se

essa criança já estiver acostumada a ter hábitos saudáveis, é bem provável que ela faça melhores escolhas.” Um exemplo disso encontra-se na casa de Cláudia Senna, mãe dos gêmeos Lucca e Frederico, de 11 anos. “Nós sempre tentamos evitar dar alimentos com muito açúcar pra eles desde pequenos e eles acabaram se acostumando. Não proibimos, mas eles próprios não se importam muito. Na Páscoa, por exemplo, compramos os ovos alguns dias antes e podemos deixar guardados que eles não ficam com vontade de comer.” Claúdia complementa ainda que seus filhos não gostam de comprar lanche na escola e sempre levam comida de casa, geralmente alimentos mais nutritivos e que não contem muito açúcar. “Nos preocupamos muito com o que a má alimentação pode causar, desde uma cárie até doenças mais graves. Tentamos educá-los da melhor forma, porque não sabemos como vai ser no futuro”. A nutricionista Fernanda e pediatra Cristina chamam atenção para a necessidade de criar uma rotina alimentar. É interessante “não deixar a criança comer assistindo TV, oferecer sucos naturais e negociar as guloseimas controlando as quantidades”, diz Fernanda. “As crianças são o principal alvo dos produtos industrializados e precisam ser orientadas”. A nutricionista ainda lamenta que existam poucos espaços de educação que incluam a alimentação em seu conteúdo.

Recomendação de proibição da venda de inibidores de apetite divide opiniões Especialistas veem com diferentes olhos a indicação da Anvisa Carolina Caniato

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esde que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou a proibição da venda de inibidores de apetite, a polêmica se instaurou entre os especialistas. Enquanto alguns apoiam a medida, alegando que os medicamentos causam danos à saúde; outros consideram a ação precipitada. O cardiologista Hélio Brito Jr explica que esse tipo de medicamento age no centro do cérebro diminuindo o apetite, e como efeito colateral acaba atingindo parte da fibra cardíaca podendo provocar arritmias, em geral do tipo ventricular. Ainda segundo o especialista, tais substâncias são prejudiciais do ponto de vista nutricional e psiquiátrico. Além de gerar um emagrecimento não saudável, já que as pessoas perdem a vontade de comer tudo e param de ingerir proteínas e vitaminas essenciais a saúde, os anfetamínicos também causam dependência. “O problema é ainda maior do que o sério risco cardiológico”, enfatiza.

No entanto, a endocrinologista Mônica Barros considera a medida prematura, uma vez que os estudos nos quais a Agência se apoia para justificar a indicação da proibição de tais inibidores, são sem qualidade. “A ação é paradoxal, uma vez que existem drogas muito mais perigosas que continuam no mercado”, explica. Outro aspecto que diverge opiniões entre os profissionais é a forma de se combater a obesidade. O cardiologista aposta na utilização de “outras armas terapêuticas”, acreditando que dietas orientadas, aliadas a exercícios físicos regulares podem ser eficientes em muitos casos. E quando apenas essas práticas não solucionam o problema, ainda pode-se recorrer à cirurgia bariátrica, que consiste na colocação de bolsas no estômago para reduzir a quantidade de alimentos ingeridos. Já para a endocrinologista, há quadros clínicos em que pacientes enfrentam dificuldades para perder peso apenas com dieta e atividade física. Quanto à intervenção cirúrgica, ela considera uma medida extrema: “A cirurgia não se aplica a todos os casos. Além disso, ela pode gerar anemias e a obesidade

pode retornar”. Nesse contexto, a médica afirma que nem mesmo a medicação pode resolver o problema, mas que ela é um recurso que deve estar à disposição para ser utilizado.“Infelizmente não existe uma tratamento efetivo para a obesidade”, esclarece. Desde que a Anvisa divulgou a nota técnica indicando a proibição da venda da sibutramina e dos anorexígenos anfetamínicos (anfepramona, femproporex e mazindol), as divergências de opinião só aumentam. A alegação da Agência para o cancelamento do registro de tais substâncias é a segurança da população. Argumenta-se que seu uso é pouco efetivo na manutenção de redução de peso a longo prazo, além de aumentar o risco cardiovascular dos pacientes, podendo ocasionar prejuízos cardiopulmonares e ao sistema nervoso central. Ainda estão sendo realizadas audiências e reuniões públicas para solucionar o impasse, entretanto nada ficou regulamentado. Possíveis consequências da proibição Caso a proibição da sibutramina e dos três anorexígenos anfetamínicos seja efetivada, cria-se um ambiente fa-

vorável ao surgimento de um mercado paralelo, como que teme a deputada Alice Portugal (PcdoB-BA), segundo informações publicadas pelo Correio Brasiliense. Há ainda uma outra possibilidade, apontada por Mônica Barros: o aumento de um mercado ilegal já existente, em que essas substâncias são utilizadas para potencialização do efeito alucinógeno de algumas drogas. Mais uma consequência vista com pesar pelos endocrinologistas é a possibilidade de prescrever apenas o Orlistat para o tratamento da obesidade. Como explica Mônica, o medicamento não é capaz de substituir os demais, pois tem outro mecanismo de ação e ainda diminui a capacidade de absorção de gordura pelo organismo. Para evitar o uso indiscriminado e a venda em larga escala dos inibidores de apetite, a endocrinologista acredita que a exigência de avaliações médicas mais especificadas ou a prescrição restrita aos especialistas seriam suficientes: “No Brasil existe o problema de médicos fazerem receitas para amigos sem averiguar se há necessidade. É preciso desenvolver uma consciência, não proibir”.


Maio 2011 - com suplemento