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JORNAL ANO XI – Nº 88 JUN/ JUL 2017

Marcelo Curia - MDSA

Plantar, colher e distribuir riquezas A organização coletiva e o acesso ao mercado institucional são os caminhos trilhados por agricultores familiares em busca de melhor qualidade de vida p.8 e 9

John Landers, doutor Honoris Causa da UFG, fala sobre plantio direto, técnica que ajudou a consolidar p. 3

Em mesa-redonda professores discutem existência do aquecimento global p. 6 e 7

No mês de aniversário do Jornal UFG, saiba por que as pessoas continuam lendo o jornal impresso p. 12


Universidade

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JORNAL

EDITORIAL

Protagonismo para as famílias do campo Luiz Felipe Fernandes*

U

m modelo econômico que se sustenta nas próprias distorções cria cenários de extrema desigualdade. No campo, uma dessas distorções atinge a agricultura familiar brasileira: apesar de ser responsável por mais de 70% dos alimentos que chegam à mesa da população, a agricultura familiar representa o segundo maior grupo em extrema pobreza no Brasil rural. Reportagem desta edição do Jornal UFG, assinada por Carolina Melo, mostra que a união desses agricultores por meio de cooperativas pode ser uma das saídas para fazer frente ao agronegócio que parece reeditar a colonização do nosso país.

Um ponto importante nesse contexto é o papel da universidade. As instituições de ensino superior integram a rede de apoio a produtores alijados da tecnologia. No caso de Três Pontes, a UFG atuou na recuperação de 12 nascentes.

A escolha do assunto para esta edição do Jornal UFG tem o objetivo de contribuir com as discussões da 15ª edição da feira Agro Centro-Oeste Familiar, que será realizada de 7 a 10 de junho no Centro de Eventos do Câmpus Samambaia. Com destaque para os agricultores familiares, a organização tem se preocupado em dar ao evento a verdadeira cara da agricultura brasileira. * Coordenador de Imprensa da Ascom

Carolina Melo é jornalista da Assessoria de Comunicação da UFG. Em sua estreia na capa do Jornal UFG, a repórter aborda a importância das cooperativas para a agricultura familiar e a contribuição da Universidade nesse segmento.

Ana Fortunato

Não há exagero ao dimensionar os impactos da presença do capital multinacional na agricultura brasileira. A matéria que mostra a situação do assentamento goiano de Três Pontes é reveladora: tomada pela monocultura, a região sofre com os efeitos dos agrotóxicos, que contaminam pessoas e meio ambiente, e com a submissão dos agricultores familiares às regras das grandes empresas.

A Universidade também possui projetos de assistência técnica e consultoria no campo, dentro de uma lógica de ensino-aprendizagem em que todos ganham: os futuros profissionais, os agricultores familiares e o meio ambiente.

COMUNIDADE PERGUNTA

Como cursar disciplinas como aluno especial na UFG? Pergunta enviada via Fale Conosco As disciplinas isoladas dos cursos de graduação presenciais são destinadas às pessoas interessadas e não vinculadas a nenhum curso de graduação da UFG, na condição de estudante especial, para complementação e/ou atualização de estudos. A inscrição é permitida aos interessados que tenham concluído, no mínimo, o ensino médio, mediante a existência de vaga e

aprovação em processo seletivo específico. O processo de seleção, ofertando as vagas e as disciplinas dos cursos, é publicado semestralmente de acordo com o calendário acadêmico da UFG. Sugere-se que os estudantes façam contato prévio com os coordenadores de curso manifestando interesse em determinadas disciplinas para que a unidade faça a oferta de vagas. Gisele Lúcio da Costa Petrillo, coordenadora de Registro e Controle Acadêmico, Ensino à Distância, Cursos Conveniados e Disciplinas Isoladas do Centro de Gestão Acadêmica da UFG

Direto do Instagram @ufg_oficial @albordeau

@mairaaparecida12

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XI – Nº 88 – JUNHO/JULHO DE 2017 Reitor: Orlando Afonso Valle do Amaral; Vice-reitor: Manoel Rodrigues Chaves; Pró-reitora de Graduação: Gisele Gusmão; Pró-reitor de Pós-Graduação: Jesiel Freitas Carvalho; Pró-reitora de Pesquisa e Inovação: Maria Clorinda Soares Fioravanti; Pró-reitora de Extensão e Cultura: Giselle Ferreira Ottoni Cândido; Pró-reitor de Administração e Finanças: Carlito Lariucci; Pró-reitor de Desenvolvimento Institucional e Recursos Humanos: Geci José Pereira da Silva; Pró-reitor de Assuntos da Comunidade Universitária: Elson Ferreira de Morais. – Jornal UFG – Coordenador de Jornalismo: Luiz Felipe Fernandes; Editora: Kharen Stecca; Editora-assistente: Angélica Queiroz; Conselho editorial: Angelita Pereira de Lima, Cleomar Rocha, Estael de Lima Gonçalves (Jataí), Luís Maurício Bini, Pablo Fabião Lisboa, Reinaldo Gonçalves Nogueira, Silvana Coleta Santos Pereira, Thiago Jabur (Catalão) e Weberson Dias (Cidade de Goiás); Suplente: Mariana Pires de Campos Telles; Projeto gráfico : Reuben Lago; Editoração: Frederico Aldama; Fotografia: Carlos Siqueira; Reportagem: Angélica Queiroz, Carolina Melo e Patrícia da Veiga; Bolsistas: Adriana Silva e Ana Fortunato (Fotografia), Luciana Gomides e Vinicius Paiva (Jornalismo); Impressão: Centro Editorial e Gráfico (Cegraf ) da UFG; Tiragem: 6.000 exemplares

ASCOM Reitoria da UFG – Câmpus Samambaia Caixa Postal: 131 – CEP 74001-970 – Goiânia – GO Tel.: (62) 3521-1310 /3521-1311 www.ufg.br – www.ascom.ufg.br jornalismo.ascom@ufg.br

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tra importante vantagem é que se aplica a qualquer cultura. O pequeno agricultor pode usar uma matraca reforçada para o plantio direto, os médios e grandes as plantadeiras mecânicas.

Carlos Siqueira

Quando a técnica começou a ser difundida e como está hoje no Brasil?

Por uma agricultura sustentável

A partir de 1972, no Paraná. Quatro anos depois, apliquei a técnica em São Paulo, e em 1982, em Goiás, com a soja. De lá para cá, não parei mais, foram muitos experimentos e pesquisas com a colaboração de muitos produtores. O Brasil é líder mundial em agricultura sustentável nos trópicos, através do plantio direto. Atualmente, estamos com 105 milhões de hectares de plantio direto em todo o país. Destacam-se as culturas da soja, em que é utilizado em mais de 95% das plantações, e do algodão. A cana-de-açúcar está começando, mas há uma gama de culturas em que o plantio direto tem sido adotado.

Qual é a sua avaliação sobre o papel do Quais são os benefícios que tornam produtor na sustentabilidade do campo? essa prática sustentável? Como a pesquisa e a tecnologia têm conma vida profissional dedicada à pesquisa tribuído nesse aspecto?

Silvânia Lima

U

de técnicas mais naturais para o campo levou John Nicholas Landers a atestar os benefícios do plantio direto, prática sustentável difundida em todo o mundo. Há 50 anos, o pesquisador escolheu o Brasil para residir, e em 40 deles dedicou-se a estudos em regiões do Cerrado, boa parte em municípios goianos, como Inhumas, Santa Helena e Rio Verde, e em parceria com a Escola de Agronomia da UFG. Assim, deu grande contribuição para o desenvolvimento, difusão e reconhecimento da técnica do Sistema de Plantio Direto na Palha, que foi adotada como base conceitual da Agricultura Conservacionista pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Autorias científicas e práticas extensionistas lhe renderam, ainda, muitos prêmios, como a Order of the British Empire (OBE), em 2006, no Reino Unido, seu país de origem, pela rainha Elizabeth II. Em março, a UFG reconheceu os feitos de John Landers concedendo-lhe o seu 16º título de Doutor Honoris Causa. Em entrevista ao Jornal UFG, ele falou sobre a técnica que ajudou a consolidar.

Como define o plantio direto?

Basicamente é “jogar o arado pela janela”, é plantar sem eliminar os restos da cultura anterior, apenas as ervas daninhas, para não competir com a nova cultura. Você insere o adubo e a semente por baixo dos restos da planta anterior, propiciando a atividade biológica do solo que responde muito bem às diversas culturas. Eu diria até que é o solo trabalhando para o agricultor. Não é uma técnica fácil. No começo, o agricultor tem que persistir, mas quando pegar o ritmo se tornará algo muito gratificante e rendoso.

Como mantém a vida biológica do solo, o plantio direto possibilita a criação de uma espécie de manta protetora, eliminando o problema da erosão, algo muito preocupante no Cerrado. Nós estávamos perdendo dez toneladas de solo, com erosões e assoreamentos dos cursos d’água, por cada grama produzido nos plantios. Hoje isso mudou e, sobretudo, o plantio direto promove o sequestro de carbono, reduzindo na atmosfera a quantidade de dióxido de carbono, causador do efeito estufa.

Como mantém a vida biológica do solo, o plantio direto possibilita a criação de uma espécie de manta protetora, eliminando o problema da erosão, algo muito preocupante no Cerrado

E para o agricultor, quais são as vantagens? A técnica permite ao agricultor plantar mais cedo e gastar menos, propicia a liberação de nutrientes, a infiltração da chuva, reduz a necessidade de água na irrigação, ajuda a incrementar a produtividade. Ou-

O produtor é o guardião dos nossos negócios naturais, é ele que está lá no chão, que trabalha no chão e faz o melhor possível para compatibilizar sua atividade com a natureza. Hoje a maioria respeita o código florestal e isso já faz parte da sua cultura. Como os agricultores estão sensíveis à questão ambiental, estão utilizando cada vez menos os defensivos agrícolas, por exemplo. Temos avançado também com novos produtos no mercado, menos agressivos ao meio ambiente, além do controle biológico de pragas que é totalmente compatível com o plantio direto. As boas tecnologias estão crescendo no país e é importante participar dos eventos para se inteirar delas, como a Agrobrasília, em Brasília, realizada em maio e a Agro Centro Oeste Familiar, em Goiânia, em junho.

O que significou para o senhor o título de Doutor Honoris Causa da UFG?

É o coroamento do trabalho de uma vida, lutando para melhorar o plantio direto, fazendo testes em campo, com centenas e centenas de agricultores, observando e anotando, fazendo um pool de informações. É isso que leva a tecnologia para frente. Para mim tem sido muito importante a parceria com Escola de Agronomia da UFG, em especial com o professor Rogério Almeida, com quem iniciei longo trabalho muito bem sucedido, há cerca de 20 anos, com pequenos produtores de alho, em Inhumas. Confira o programa completo da Rádio Universitária

Entrevista John Landers

É o coroamento do trabalho de uma vida, lutando para melhorar o plantio direto, fazendo testes em campo, com centenas e centenas de agricultores, observando e anotando, fazendo um pool de informações


Pesquisadores se dedicam ao estudo da raposa do Cerrado

Fernanda Cavalcanti

Pesquisa

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A raposa-do-campo é um dos menores canídeos da América do Sul e figura na lista de espécies ameaçadas de extinção

Fábio Gaio

U

Professor do curso de Ciências Biológicas da Regional Catalão e um dos coordenadores do estudo, Frederico Gemesio Lemos, pesquisa a raposa-do-campo desde 2003. Ele explica que chama a atenção o fato de, apesar de ser um animal carnívoro, a raposinha se alimentar preferencialmente de cupins, item presente em até 90% das fezes da espécie (além de outros invertebrados, frutos e roedores). Outro diferencial destacado por ele é o fato de o pai ter um papel primordial na criação dos filhotes, sendo responsável por trazer comida e avançar

Segundo Frederico, boa parte dos estudos com canídeos ocorre em áreas de proteção ambiental (unidades de conservação), o que não é o caso do trabalho realizado pelo grupo, que tenta compreender, por exemplo, como a raposa-do-campo interage com outros animais, a exemplo do cachorro-do-mato, o lobo-guará e o cão doméstico em áreas não protegidas. O trabalho busca compreender também se a raposinha faz parte do ciclo de diferentes parasitas, e se ela é vítima ou não de agressões por parte do homem.

O trabalho no campo é complexo e envolve recursos técnicos e materiais. Desde 2008 os animais são capturados e recebem um colar de identificação que funciona como um rádio transmissor. A maior dificuldade do estudo, segundo Frederico, não é a captura da raposado-campo e sim a obtenção de informações em longo prazo, uma vez que metade das raposinhas morrem com cerca de oito meses de idade, muitas vezes por intervenção do homem. “Nesses casos elas são mortas por tiro, envenenamento ou a toca com os filhotes é fechada. Em alguns casos as pessoas chegam a mostrar o colar transmissor, afirmando ter matado a raposa que era

Raposa se alimenta preferencialmente de cupins monitorada”, comenta o professor. Diante disso, o estudo vai além do aspecto científico e realiza ações de divulgação da espécie, seja em órgãos ambientais regionais, estaduais e federais, internet ou meios de comunicação. Recentemente foi realizado um documentário por uma emissora de televisão japonesa, o primeiro focado na espécie. Também é realizado um trabalho com cerca de 500 estudantes em escolas de Cumari, no sudeste goiano, município onde o estudo é realizado. Outro aspecto importante sobre a raposa-do-campo avaliado pela pesquisadora Stacie Castelda, da Universidade George Mason/Instituto Smithsoniano e que também participa do estudo, buscou identificar o nível de estresse da raposinha, além de aplicar questionários em propriedades rurais, interessada em saber a percepção da comunidade sobre a espécie. O resultado foi que a maioria das pessoas entende que a espécie é nativa do Cerrado e não vê problema nisso, desde que a raposa não cause prejuízos para as

criações domésticas. “Apesar de ser nomeada como raposa-do-campo e de ser um animal que se alimenta preferencialmente de cupins, existe o preconceito de que a raposinha come galinhas e as pessoas acabam erroneamente matando a espécie como um tipo de prevenção, mesmo sendo um crime federal”, explica Frederico. Apesar de desenvolver o importante papel de predador no ecossistema onde ocorre, a raposa-do-campo não possui valor econômico, mas para Frederico, o grande valor da raposinha está no fato de simplesmente existir como espécie que ocorre e evoluiu no Cerrado. “Não se pode olhar apenas para o aspecto econômico. Uma raposa-do-campo, uma águia-cinzenta, uma cascavel a menos, à medida que espécies vão desaparecendo o ecossistema se torna mais pobre, funciona pior, o que contribui para a diminuição da qualidade da vida como um todo. E o que fazemos diariamente senão buscar qualidade de vida, mesmo que sem de fato avaliar o que isto significa?”, avalia o professor.

Fernanda Cavalcanti

m animal encontrado apenas no Cerrado brasileiro e que está em risco de extinção. A raposa-do-campo (Lycalopex vetulus) ou simplesmente raposinha, uma espécie de canídeo pouco estudada e conhecida e que traz algumas particularidades em relação a outras espécies, tem sido foco de estudos realizados pelo grupo de pesquisa do Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vinculado à Regional Catalão da Universidade Federal de Goiás (UFG). O grupo busca entender diferentes aspectos da história natural da raposinha em um ambiente permeado por atividades agropecuárias e presença humana.

em possíveis agressores, enquanto a mãe passa as noites caçando, indo poucas vezes na toca para amamentá-los.

Estudante surdo produz guia estudantil em Libras

Veja o vídeo produzido pelo estudante

O projeto é parte do Trabalho de Conclusão de Curso do aluno da Regional Jataí, que é surdo

Angélica Queiroz

TV UFG

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odos os anos, a Universidade Federal de Goiás (UFG) disponibiliza uma publicação direcionada aos novos estudantes de graduação das Regionais Catalão, Goiânia, Goiás e Jataí, que contém informações sobre a Universidade: o Guia Estudantil. O guia possui informações gerais sobre a UFG e os serviços oferecidos pela instituição. Pensando na inclusão de alunos com deficiência, o estudante de Pedagogia da Regional Jataí, Edimilson Pereira Almeida, produziu um vídeo a partir do guia estudantil da UFG. O material faz parte do Trabalho de Conclusão de Curso

(TCC) do acadêmico, que é surdo. Edimilson explica que teve a ideia baseada em sua própria experiência. “Sempre gostei de materiais em vídeo porque o surdo é muito visual”, explica. Segundo o estudante, foi durante a produção de vídeos para uma disciplina que ele percebeu o quanto esse tipo de material pode facilitar o processo de ensino-aprendizagem dos surdos. Assim, a partir de pesquisa bibliográfica e das dificuldades vivenciadas por ele próprio durante a graduação, o estudante decidiu produzir um vídeo que mostrasse os espaços da Regional Jataí, em Língua Brasileira de Sinais (Libras), com legenda e áudio, possibilitando a inclusão de todos.

Intitulado “O vídeo na Inclusão do Surdo no Ensino Superior”, o trabalho contou com a ajuda do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão da Regional Jataí e do Laboratório de Mídias do curso de Pedagogia. O material foi dis-

ponibilizado no site da Regional Jataí e divulgado nas redes sociais. Edimilson afirma que pretende continuar estudando o tema e propondo novos materiais visando a inclusão de surdos em seu trabalho de mestrado.


5 Universidade

TV UFG estreia canal digital e lança nova marca Desde 29 de maio, emissora é transmitida pelo canal 15 em sinal aberto

Adriana Silva

Marília Almeida

Consuni aprova resolução contra assédio moral, sexual e preconceito Além de instituir normas, documento prevê criação de comissão permanente de acompanhamento de denúncias Luiz Felipe Fernandes

A resolução nº 12/2017 estabelece definições para os diferentes tipos de assédio e as situações que os caracterizam. O documento também orienta sobre os procedimentos a serem adotados por quem sofrer algum tipo de assédio e os meios disponibilizados pela UFG para a formalização de denúncias. Outro procedimento previsto na resolução e que já vem sendo adotado pela gestão da Universidade é o encaminhamento imediato das denúncias desta natureza ao gabinete do reitor para abertura de sindicância ou processo administrativo disciplinar. Um importante avanço da resolução é a criação de uma comissão permanente de acompanhamento de denúncias e processos administrativos relacionados a questões de assédio moral, sexual e preconceito, composta por representantes dos órgãos da gestão, das regionais e das entidades representativas de professores, servidores técnico-administrativos e estudantes. Esta comissão também poderá propor campanhas educativas e ações preventivas. A resolução que institui normas em casos de assédio moral, sexual e qualquer forma de preconceito integra as medidas adotadas pela UFG no combate aos diferentes tipos de abuso e que foram demandadas pela comunidade universitária. Para a construção dos

Outra ação adotada pela UFG foi o lançamento, no fim do ano passado, da campanha “Assédio moral e sexual não podem permanecer na naturalidade”, com distribuição de material educativo para orientar a comunidade universitária sobre as situações que caracterizam as práticas abusivas e os procedimentos para registro de denúncia.

Ouvidoria UFG

Por meio da Ouvidoria, qualquer pessoa, seja membro da comunidade universitária ou público externo, pode encaminhar suas demandas relacionadas a denúncias, elogios, reclamações, sugestões e informações, no âmbito da UFG. Por se tratar de um mecanismo de participação social, a Ouvidoria busca favorecer o exercício da cidadania, além de estimular o fortalecimento das relações interpessoais na mediação de conflitos, a transparência da gestão universitária e sua integração com a sociedade.

O contato com a Ouvidoria da UFG pode ser feito via e-mail (ouvidoria. reitoria@ufg.br); pelo telefone (62) 3521-1149; pessoalmente no prédio da Reitoria, 1º andar; por meio do site www.ouvidoria.ufg.br; e pelo sistema eletrônico e-OUV, da Controladoria Geral da União. Para encaminhamento da demanda é necessário que o interessado formalize, por escrito, sua manifestação, sendo assegurado o sigilo da sua identidade, desde que solicitado.

Já no início de suas atividades a TV UFG começou a planejar seu canal digital. Em 2010, menos de um ano após a inauguração da emissora no canal 14 (analógico), foi solicitado ao Ministério das Comunicações a outorga do canal 15 (digital), que foi concedida em 2013. Desde então a emissora trabalha para a concretização deste projeto, com a aquisição de equipamentos mais modernos e a estruturação de seu estúdio para a gravação das produções em HD.

A TV UFG A TV UFG é uma emissora educativa e cultural de concessão da Fundação Rádio e Televisão Educativa e Cultural (RTVE), fundação de apoio à Universidade Federal de Goiás. A emissora foi inaugurada em dezembro de 2009 e desde então integra a Rede Pública de Televisão. É exibida no canal 15 em sinal aberto, canal 21 da NET-Goiânia e também pelo site www.tvufg.org.br. Além de exibir parte dos programas da TV Brasil, sua principal parceira de programação, a TV UFG exibe produções próprias, de produtores independentes e de outros parceiros, como o Canal Futura, a RedeIFES (Rede de Compartilhamento de Conteúdos entre as Instituições Federais de Ensino Superior), TAL (Televisión America Latina), Itaú Cultural, TVT, Fundação Roquette Pinto (TV Escola/ TV INES), Centro de Tradições e Cultural de Goiás (CTCG) e Casa de Cultura da Juventude (Instituto Educação, Cultura e Vida).

Fotos: Carlos Siqueira

Confira a resolução aprovada pelo Consuni

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Conselho Universitário (Consuni) da Universidade Federal de Goiás (UFG) aprovou no dia 19 de maio a resolução que institui normas e procedimentos a serem adotados pela instituição em casos de assédio moral, sexual e qualquer forma de preconceito. O documento foi amplamente debatido entre os conselheiros, que tiveram a oportunidade de fazer sugestões para o texto final.

procedimentos foram consultadas as entidades representativas de professores, servidores técnico-administrativos e estudantes, além de documentos similares de outras universidades brasileiras e do Ministério Público Federal.

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TV UFG, emissora educativa e cultural que abrange Goiânia e Região Metropolitana, estreou, no dia 29 de maio, em sinal digital. A emissora agora é exibida no canal 15 em sinal aberto, com maior qualidade de vídeo e áudio. Além da estreia do novo canal, a TV UFG lançou nova identidade visual. A marca, mais dinâmica e moderna, foi criada pelo Laboratório de Inovação em Mídias Interativas (Media Lab/UFG) e visa contemplar este novo momento da emissora, que completa em dezembro deste ano oito anos de atuação.


Mesa-redonda

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Aquecimento global existe mesmo? Ascom e Rádio Universitária

A ação humana e seus efeitos para o meio ambiente tem sido tema de diversos debates nos últimos anos. Desde que a discussão veio à tona, aquecimento global, efeito estufa e buraco na camada de ozônio são assuntos trazidos constantemente pela mídia e suas possíveis consequências amedrontam a todos com catástrofes anunciadas como degelo, desertificação, alteração do regime das chuvas, inundações, secas prolongadas, aumento da temperatura média global e redução da biodiversidade. No entanto, cada vez mais pesquisadores em diversas universidades e centros de pesquisa questionam essa teoria e afirmam que não existem provas científicas de que a Terra está aquecendo ou de que o homem possa alterar o clima global. Estudiosos dessa corrente argumentam que a discussão deixou de ser científica para se tornar política e econômica e que as potências mundiais estariam preocupadas em frear a “evolução” dos países em desenvolvimento. Segundo esses pesquisadores, o aquecimento global não passa de uma farsa. Quem está correto? Para discutir o assunto, esta edição da mesa-redonda convidou professores do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG (Iesa): a climatologista Juliana Ramalho, o pesquisador do Planetário, Paulo Sobreira e o professor do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), Manoel Ferreira.

Como surgiu a teoria do aquecimento global e quando ela começou a ser questionada? Juliana Ramalho – Essa ideia começa na década de 1970, com as primeiras reuniões científicas para tratar sobre questões ambientais e os impactos das ações humanas sobre o planeta. No final dos anos de 1990 ela já começa a ser questionada e nos anos 2000 começamos a ter os painéis intergovernamentais para tratar de mudanças climáticas e o debate fica mais acirrado ainda. Paulo Sobreira – Tem uma vertente política que dá a seguinte explicação: isso veio a partir dos anos de 1980 com os governos de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Tatcher, no Reino Unido, porque eles enfrentaram crises que comprometeram o carvão e petróleo. Em termos políticos o que aconteceu foi que esses países bancaram uma ideia de que usar combustíveis fósseis seria prejudicial, causando o aquecimento global. Isso, do ponto de vista econômico e político, seria uma forma de boi-

cotar o uso desses combustíveis que causaria tanta dependência nas situações pelas quais esses governos estavam passando. Precisamos considerar esse esboço político. Manoel Ferreira – No final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990, foi criado o Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas, conhecido como IPCC, que se reúne desde então e redige relatórios compilando todas as pesquisas científicas. Então há uma sustentação científica muito forte com evidências que já são coletadas desde os anos de 1990 de forma sistemática e apresentadas para a comunidade científica e para a sociedade em geral, que passou a se interessar mais pelo tema quando este se tornou manchete para a mídia. Aí surgem esses questionamentos de que se trata de uma questão econômica e política para reduzir a capacidade econômica de países emergentes ou de algo realmente catastrófico. Estamos num caminho sem volta pelas mudanças que já estão ocorrendo em decorrência do nosso modo de produção.

Manoel Ferreira

Já podemos observar tendências de aumento da temperatura. As mudanças são globais, mas os impactos são locais.(...) Na média [de temperatura] global não há grandes mudanças, mas a amplitude [mínimas e máximas] é que vem tendo novos patamares fixados A impressão que se tem, inclusive na mídia, é a de que o aquecimento global é inquestionável. Por que a valorização dessa perspectiva entre pesquisadores, governos e veículos de comunicação? Há dados que comprovam essa ideia? Paulo Sobreira – Não há dúvida de que há um aquecimento local. Os microclimas, as ilhas de calor, o clima urbano, esses sim foram alterados pelo ser humano. O aquecimento regional é discutível, porém, por exemplo, no caso do Cerrado, com a troca da vegetação pelo agronegócio e o desflorestamento, é evidente que há uma maior incidência de radiação solar e a temperatura tende mesmo a aumentar. Mas, mesmo o aquecimento regional, ainda é discutível. Agora o aquecimento global, no meu ponto de vista,

ainda merece ser melhor discutido. Coloca-se muito na mídia, por exemplo, a questão da mudança climática. Temos que tomar cuidado, estamos falando de uma variabilidade climática. Há notícias do tipo: “tivemos um recorde de temperatura, a maior dos últimos 50 anos”. Então quer dizer que 50 anos atrás tivemos essa temperatura. Se for dito que nunca antes foi observada essa temperatura ou esse volume de chuva, é algo para se tomar cuidado. Caso contrário é uma variabilidade que está acontecendo. Temos que lembrar ainda que existe uma dificuldade em conhecer essa variabilidade porque no Brasil, por exemplo, não há dados de antes de 1961. Por enquanto, em nosso país, conhecemos apenas algumas décadas. Além disso, estamos falando de estações meteorológicas que foram engolidas pela zona urbana. Aqui em Goiânia, por exemplo, temos uma estação na Avenida Paranaíba que hoje é uma baita de uma avenida, uma área cheia de concreto, asfalto. Não tem como comparar os dados de uma estação dessas com apenas algumas décadas atrás. No hemisfério Norte, onde temos estações um pouco mais antigas, essas estão em localidades também engolidas pelas cidades. Então tenho a impressão de que quando falamos de aumento da temperatura, estamos nos referindo a dados que não servem porque eles foram modificados pelo entorno da estação meteorológica. Temos dados da Antártida, por exemplo, que eu respeito e que de fato mostram essa variabilidade. Então falar de aquecimento ou resfriamento global é falar de uma variabilidade que pode se dar em algumas décadas de aquecimento e depois voltar a resfriar, o que torna o assunto muito difícil. E o senso comum nesse caso é perigoso. Nos anos de 1990, eu falava a respeito do aquecimento global, como todo mundo, mas comecei a ouvir algumas opiniões diferentes e pensar sobre elas. Hoje penso mais no resfriamento do que no aquecimento. É, no mínimo, provocador pensar diferente da maioria. Juliana Ramalho – É difícil expormos essa opinião e nos falta, muitas vezes, espaço para pensar diferente. Muitas vezes somos procurados por veículos de comunicação e quando expomos que há um outro lado, que também precisa ser pensado, não temos espaço. Até para pesquisar é difícil, porque os financiamentos já vêm para quem já trabalha com a certeza de que o aquecimento global é um fato. Também precisamos monitorar os dados para saber se os padrões de temperatura vão continuar se repetindo. Às vezes, foi um valor que aconteceu em um horário de um dia. Não temos observado uma modificação nos padrões de grande escala. Precisamos observar essa linha da variabilidade, a repercussão dos fenômenos atmosféricos é diferente hoje com a urbanização e com o avanço das pastagens, por exemplo. Uma determinada quantidade de chuva causa hoje um enorme transtorno numa grande cidade e há 40 anos não causava quase nada. Hoje uma quantidade mínima já alaga a cidade. Precisamos ver quais são os parâmetros e problematizar os dados. Então acredito que existe, sim, uma supervalorização dessa tese do aquecimento global.

Manoel Ferreira – Há dados, sim. Existe uma rede de estações que registram essas variações e há registros históricos e com muitas décadas. Já podemos observar tendências de aumento da temperatura. As mudanças são globais, mas os impactos são locais. Se falarmos de temperatura média do globo é bobagem ficarmos determinando se aumentou um centígrado na última década, porque na média global não há grandes mudanças. Então o que precisamos lembrar é que temos acompanhado aumentos das mínimas e máximas, por exemplo. Na média não muda quase nada, mas a amplitude é que vem tendo novos patamares fixados. Os grandes apoiadores desses estudos são justamente os países mais ricos, normalmente situados em latitudes mais elevadas e que de fato têm quatro estações bem marcadas durante o ano. Nos países tropicais e intertropicais, como o Brasil, além de termos muita dificuldade de monitorar o clima, nossas estações climáticas não são tão bem definidas, temos praticamente seca e chuva, com pequenas alternâncias. São esses países mais ao norte


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Juliana Ramalho

Qual a realidade da temperatura do planeta? Paulo Sobreira – Entre as décadas de 1940 e 1970 houve uma queda de temperatura no planeta, o que é uma coisa totalmente absurda se o culpado de tudo isso é o homem e a produção industrial, porque esse deveria ter sido um período de muito aquecimento. O que existe são dados a partir dos anos de 1980 mostrando a temperatura subindo. Agora, a partir de 2010, ou não está subindo muito, ou está caindo. Numa tendência geral a temperatura tem pequenas oscilações, mas são muitas variáveis envolvidas. Qual é a referência que temos, por exemplo, para afirmar que há degelo? Desde quando conhecemos o gelo da Antártida? O fato é que temos 11.700 anos com significativo degelo no planeta, quando saímos da era glacial e entramos na interglacial, que tem tendência de ser mais quente. Mas, se olharmos mais longe ainda na idade do planeta, no último milhão de anos, ele é muito frio porque houve quatro períodos de glaciações, cada um com cerca de 100 mil anos. No geral, a temperatura do planeta está esfriando e muito. Esse derretimento de agora é natural porque estamos numa fase interglacial. É difícil dizer o quanto o ser humano pode ter acelerado esse processo, mas

Juliana Ramalho – A própria rede utilizada pelo painel intergovernamental, que fala que tem dados de 1850 pra cá, só foi efetivamente criada após a Segunda Guerra Mundial, na metade do século XX, muito recente ainda para falar sobre o comportamento de um planeta que tem milhares de anos. Precisamos ressaltar que resfriar também não é uma coisa boa porque um resfriamento implicaria, por exemplo, na redução da quantidade de chuvas, impactando na produção de alimentos. Quando questionamos o aquecimento global não quer dizer que não consideramos a ação do homem no local e que não estamos preocupados com as questões ambientais ou com o modo como as cidades crescem desenfreadamente, pelo contrário. Apenas afirmamos que o aquecimento global é questionável.

Manoel Ferreira – Existe uma escala geológica e não podemos ignorar isso, mas temos que lembrar que, desde que começamos a fazer monitoramento do clima e emissão de gases do efeito estufa, houve associação do aumento da quantidade desse gás com o aumento da temperatura. Esse aumento coincide com aumento de indústrias e veículos, além de desmatamento em larga escala e urbanização. Tudo leva a crer que estamos realmente induzindo o aumento da temperatura porque é muito clara a relação com o aumento dos gases do efeito estufa. Temos que entender que o mundo passou por um momento de ocupação intenso nos últimos 100 anos, que gerou mais produção de gases do efeito estufa. Há uma correlação bem comprovada do aumento da temperatura com o aumento da emissão desses gases. Há, sim, uma contribuição do nosso modo de vida e projeções que indicam para isso. Nosso melhor cenário agora era começar com políticas para reduzir essas emissões. E nada diz que vamos frear porque há questões econômicas, políticas e até científicas para questionar essas mitigações.

carbono. Todas as ações que fizermos em prol do meio ambiente, pensando em evitar emissão e evitar aumento de temperatura, farão um bem incrível para o meio ambiente e o bem estar da população, de forma mais sustentável. São políticas tão benéficas que eu sou sempre a favor mesmo que as mudanças climáticas tenham lá o seu viés político e econômico.

Paulo Sobreira – Eu vou mudar de caminho porque quero falar sobre o Sol. A energia que chega do Sol para a Terra não varia, mas o ciclo de atividade solar, o chamado vento solar, altera o clima espacial. A cada 11 anos o Sol aumenta e depois reduz sua atividade. Esses ciclos são conhecidos desde o século XVII e são contados. Nesse momento estamos no ciclo XXIV, de menor atividade solar. A gente registra isso a partir de observação das manchas solares na superfície do Sol. Quando há muitas manchas, há mais atividade solar, que causa mais nebulosidade global. É fácil pensar que o aquecimento ou resfriamento do planeta tem a ver com maior ou menor quantidade de nuvens no céu, o que causaria precipitação por neve ou chuva, que tem relação muito direta com temperatura. O que acontece é que a distribuição dessas manchas ao longo dos séculos é variável e, infelizmente, estamos às portas de um novo ciclo solar, de menor atividade do Sol. Em 2012 esperávamos um aumento da atividade solar que não veio e agora acabou essa época. Isso preocupa os estudiosos do assunto porque tudo indica que esse ciclo deverá ter menos manchas solares e, até 2060, devemos ter menor atividade solar, com períodos semelhantes aos que ocorreram há séculos atrás, deixando para trás toda essa questão do aquecimento global, reduzindo a temperatura na Terra. Torço para que essas previsões estejam erradas mas, a partir de 2022, devemos enfrentar temperaturas cada vez menores, inclusive no hemisfério Sul. Aposto num quadro preocupante que o Sul do Brasil poderá sofrer nevascas a partir da próxima década, diminuindo chuvas no Cerrado, por exemplo. Eu inclusive torço por um aquecimento porque ele é possível de se controlar tomando determinadas medidas. Porque o resfriamento é muito mais preocupante do que o aquecimento. E o homem não tem influência sobre isso, a “culpa” é do Sol.

Adriana Silva

Então falar de aquecimento ou resfriamento global é falar de uma variabilidade que pode se dar em algumas décadas de aquecimento e depois voltar a resfriar, o que torna o assunto muito difícil. E o senso comum nesse caso é perigoso

também é difícil dizer o quanto é natural. Além disso, hoje temos melhor aferição de temperatura do que antigamente. E essa aferição é questionável porque os termômetros usados no século XX são diferentes dos utilizados no século XIX e não houve nenhum cuidado para fazer essa transição dos dados de um tipo para outro ao longo da história meteorológica.

Os governos têm conhecimento disso ou eles também são enganados? Quais seriam os interesses por trás dos protocolos assinados para conter o fenômeno? Isso traria um reflexo maior aos países ricos ou pobres?

Juliana Ramalho – Existem indícios de que há interesse de que isso não seja muito questionado. Não estou dizendo aqui que devemos promover a degradação e sair ampliando a produção agrícola e fazendo pastos para sustentar modo de produção e consumo dos países ricos. Não vou dizer que os governos não sabem, nem que fazem uma conspiração, mas várias coisas levam a crer que existem mecanismos econômicos envolvidos. O buraco na camada de ozônio é um exemplo concreto disso porque a campanha para abolir o uso dos CFCs coincide com o período em que haveria a quebra da patente desse gás e ele não teria mais valor econômico. Então disseram que não podíamos mais usá-lo para pagarmos por outra coisa. Não vou dizer que não há gente muito bem intencionada, mas vamos questionar mais, buscar novas informações. Precisamos fazer cenários e projeções, mas temos que olhar para esse discurso com cuidado porque acredito que há muito mais interesse do que o que é mostrado. Manoel Ferreira – O Brasil aparece entre os dez primeiros emissores do efeito estufa e ainda estamos em processo de desenvolvimento. Concordo que não temos que acreditar em tudo que escutamos, temos que questionar. Existem fontes de dados muito confiáveis e outras são especulativas e se baseiam fracamente em estudos para alarmar a população de maneira equivocada. Mas temos políticas hoje no Brasil interessantes, como o mercado de crédito de

Paulo Sobreira

No geral a temperatura do planeta está esfriando e muito. Esse derretimento de agora é natural porque estamos numa fase interglacial. É difícil dizer o quanto o ser humano pode ter acelerado esse processo, mas também é difícil dizer o quanto é natural Confira o programa completo da Rádio Universitária

Mesa-redonda

que vêm sofrendo com essas mudanças porque notam essas variações de forma mais impactante, com invernos mais rigorosos, por exemplo. Aquecimento global não quer dizer que vai sempre aquecer, pode significar também resfriamento em algumas áreas e aquecimento em outras como, por exemplo, na Antártida, onde o degelo das calotas polares já é comprovado com publicações em periódicos respeitados mostrando que essa área de gelo vem decrescendo anualmente. Esses países, de onde são a maior parte dos pesquisadores, apoiam essas pesquisas porque há, de fato, uma maior sensibilidade à variação. Temos pesquisas que demonstram redução das calotas, redução e aumento de chuvas em alguns locais e aumentos das temperaturas mínimas. O que está acontecendo é que o clima no globo está ficando um pouco esquizofrênico, mudando os seus padrões. Essa mudança é que pega desprevenidas as populações em geral, sobretudo aquelas com menos capacidade de mobilização contra desastres naturais. Então, acredito que há, sim, evidências do aquecimento global, causando maior variabilidade climática no globo. O clima está saindo do padrão em vários pontos.


Cooperativas impulsionam agricultura familiar

Tamires Kopp - Sead

Organização coletiva é alternativa para superar desafios diários dos pequenos produtores

Carolina Melo

E

m um cenário onde quem exerce influência política são os grandes proprietários de terra, agricultores familiares encontram nas cooperativas uma forma de se fazerem ouvir. Falta de informação, assessoria técnica e valorização são alguns dos enfrentamentos diários dos pequenos produtores. É na organização coletiva que muitos vêm conseguindo escoar a produção e conquistar espaços de mercado, evitando atravessadores e buscando formas de superar os índices negativos da agricultura familiar.

Os dados não são muito animadores. Apesar de ser responsável por mais de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, a agricultura familiar representa o segundo maior grupo em extrema pobreza no Brasil rural, com 756 mil famílias extremamente pobres. Nesse sentido, enquanto cerca de 80% dos agricultores revelam ter ativos disponíveis para a produção agropecuária, apenas 20% têm boas condições de comercialização e acesso às políticas agrícolas. Na contracorrente, a Cooperativa de Agropecuária dos Produtores Rurais de Itaberaí (Coapri), no território do Vale do Rio Vermelho, vem modificando a realidade dos seus associados. De 2013 para cá, a organização conseguiu gerar um rendimento dez vezes maior. O faturamento anual, que era de cerca de R$ 100 mil, foi para R$ 1 milhão em três anos. A gestão realizada pelos próprios agricultores familiares, parcerias com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e com a prefeitura de Itaberaí, acesso ao mercado institucional e a participação dos movimentos sociais foram as peças chave para essa transformação.

Carlos Siqueira

Sociedade

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Identificar o que emperra o desenvolvimento no campo é fácil. Não são poucos os produtores e pesquisadores que reclamam da falta de prioridade política, identificam políticas públicas atravancadas na burocracia e nas exigências operacionais, relatam o isolamento e falta de informação dos agricultores familiares, o pouco acesso às tecnologias e assistências técnicas. Difícil é, em um cenário não muito favorável, encontrar o caminho de superação, que garanta qualidade de vida dos agricultores familiares e distribuição de renda no meio rural.

Para a Coapri, a mudança na estrutura da instituição foi o primeiro passo para o fortalecimento coletivo. Antes, a gestão era mista, entre pequenos, grandes proprietários e atores sociais do município. “Quando os próprios agricultores familiares assumiram a entidade, a cooperativa conseguiu gerar motivação e credibilidade para a entrada de novos associados”, afirma Ricardo de Siqueira Camargo, agricultor do assentamento Dom Fernando Gomes, em Itaberaí. O quadro de associados a partir de então ampliou de 22 para cerca de 70, pertencentes aos assentamentos da reforma agrária Dom Fernando Gomes dos Santos, Carlos Marighela, Chê, Dom Hélder Câmara e algumas comunidades de agricultores tradicionais. “Os associados possuem tradição no campo, produzem hortaliças, frutas, carnes e produtos processados”.

A função da cooperativa foi intermediar as pontas de interesse no mercado e o acesso aos créditos, quando necessário. As produções dos agricultores familiares foram mapeadas e incentivadas para atender as demandas do mercado institucional, via o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e, especialmente, o Programa Nacio-

Responsável por mais de 70% dos alimentos, agricultura familiar representa o segundo maior grupo em extrema pobreza no Brasil rural nal de Alimentação Escolar (Pnae). “Antes, a maioria dos agricultores produzia para atender o mercado tradicional. A entrada no mercado institucional promoveu a diversidade produtiva e incentivou a venda dos excedentes nas feiras locais e regionais”. Com isso, o mercado foi ampliado e a produção dos agricultores familiares atende atualmente 14 municípios do Estado. “Com a introdução dos novos produtos e acesso a novos contratos houve aumento de renda das famílias”, observa o agricultor familiar Ricardo de Siqueira.

Acesso à informação

A falta de informação do trabalhador rural impede o acesso às políticas públicas e, nesse sentido, a organização coletiva contribui para sanar em parte o isolamento das famílias que vivem no campo. “Muitos agricultores familiares não têm sequer informações sobre a existência dessas políticas e programas”, afirma a professora da Escola de Veterinária e Zootecnia (EVZ), Raquel Maria Oliveira.

Para se ter ideia, apenas 13% das famílias têm acesso ao crédito rural do Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf ) e quase 50% do total dos recursos do crédito está concentrado no Sul do País, com baixa adoção em Goiás e concentrado em projetos de leite. Os dados foram levantados pelos professores da UFG, Graciella Concioli e Gabriel Medina. “O interessante é que o coletivo tem sido uma forma deles se fazerem ouvir, trocarem informações para melhorar as estratégias. Afinal, sozinho o agricultor rural não consegue ter muita voz”, observa Wilson Mozena Leandro, professor da Escola de Agronomia da UFG. No caso da Coapri, a união conseguiu fortalecer inclusive a rede de apoios e parceiros. A prefeitura de Itaberaí disponibilizou a assesso-

ria de pessoas qualificadas para dar andamento aos processos administrativos, como emissão de notas fiscais. A participação dos movimentos sociais ligados à agricultura familiar teve importante função política nas tomadas de decisão da cooperativa. “Os movimentos faziam uma espécie de amparo e intermediação com o poder público para atender às necessidades dos pequenos produtores”, afirma o agricultor Ricardo de Siqueira. E a universidade possibilitou a inserção de tecnologias no processo produtivo, assim como a assessoria técnica de especialistas. “A rede de apoio é muito importante no meio rural, pois ela supre a carência das organizações coletivas que não têm condições financeiras para manter a assessoria de profissionais de alto custo”, observa Ricardo.

Parceria com a universidade

Projetos de extensão da Universidade Federal de Goiás (UFG) e parcerias com os cursos de Agronomia, Engenharia Florestal, Veterinária e Nutrição propiciaram as ações junto aos agricultores associados da Coapri, com a finalidade de difundir tecnologias e contribuir com o escoamento da produção. Foram realizadas assessoria técnica, acompanhamento e elaboração de projetos junto aos agricultores familiares que possuíam sistemas produtivos estratégicos para atender o mercado institucional. “Nos projetos de extensão, formandos elaboraram orientações sobre o modelo tecnológico apropriado para a realidade dos agricultores familiares, no sentido de melhorar o sistema produtivo, e entregaram o projeto escrito ao agricultor”, lembra Ricardo de Siqueira. Outro aspecto igualmente importante, segundo o agricultor familiar Ricardo de Siqueira, foi que grande parte do acesso ao mercado institucional foi realizada por meio de


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Entretanto, segundo a professora Raquel Maria Oliveira, na realidade do campo ainda falta muita assistência técnica e trabalhos de extensão rural. Para ela, o vínculo entre o campo e a universidade é realizado por iniciativas focais. “A universidade precisa sair dos laboratórios e ir para o campo devolver para as comunidades o conhecimento que contribui para a melhoria de vida do produtor. É um trabalho difícil, mas tem que ser feito”, afirma.

Tecnologia no campo

De acordo com pesquisa realizada pelo professor da Escola de Agronomia (EA) da UFG, Gabriel Medina, apenas 34% dos agricultores familiares brasileiros adotam tecnologias básicas de produção, como correção e adubação do solo. Já em Goiás, os índices são ainda mais impactantes. Mesmo nos territórios de maior desenvolvimento da agricultura familiar no Estado, 72% dos agricultores não fazem correção e adubação do solo, 11% fazem correção e adubação de acordo com sua intuição e tradição e apenas 17% fazem de acordo com a recomendação técnica. Entre os assentados, a porcentagem de adoção de tecnologias é ainda

A realidade é representativa da falta de políticas eficazes de assistência técnica no campo tanto nos governos estaduais quanto no federal. Em Goiás, a Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater), por exemplo, não abre concurso há 25 anos. “No geral, as ações não têm reflexos na agricultura familiar como um todo. São os gargalos, não são políticas que abrangem a todos”, observa o professor de manejo de solos da EA, Wilson Mozena Leandro. “Infelizmente, pois as inovações são fundamentais para a sustentabilidade econômica e ambiental, para garantir o bem estar mínimo das famílias”.

procura. Acredito que a produção de orgânicos pode ser o único caminho para a melhoria da qualidade de vida do agricultor familiar”, afirma o professor. Segundo registros do projeto Organics Brasil, o mercado de orgânicos cresce mais de 20% ao ano, impulsio-

nado por consumidores que buscam alimentos sem agrotóxicos ou mais sustentáveis. “Trata-se de um mercado a ser ocupado. É uma oportunidade de obtenção de renda e não ser dependente de crédito. A agroecologia pode resolver o problema do agricultor, do consumidor e do desenvolvimento local”, acredita Mozena.

UFG no Campo A Universidade é a primeira área pública certificada com orgânicos. Na Escola de Agronomia (EA), a plantação atende extensão, pesquisa e ensino. Os produtos são vendidos toda quinta-feira a partir das 10h na EA. Entre os dias 7 e 10 de junho ocorre a 15ª feira Agro Centro-Oeste Familiar no Centro de Eventos da UFG. Durante o evento, entre as atrações, o Dia do Campo disponibiliza seis rotas de vivência de práticas e tecnologias na área rural. Sendo elas: cultivo e aproveitamento de espécies nativas do Cerrado; cultivo de hortaliças; sistemas de irrigação no Cerrado; produção agroecológica; produção animal; e utilidades e aplicações do bambu. Cerca de 50 empreendimentos de agricultores familiares de Goiás e de outros estados irão expor no evento.

Adriana Silva

Na avaliação do professor Paulo Hellmeister, também da EVZ, o grande ganho da extensão rural é a identificação da real necessidade do pequeno produtor. “Levar a tecnologia para o campo sem conhecer a realidade e a necessidade do produtor não adianta. Nem todas as tecnologias são boas e necessárias para todos. E pequenas orientações podem fazer muita diferença no campo”, acredita.

menor. Ou seja, 96% não dominam os conhecimentos técnicos para fazer irrigação e, consequentemente, não irrigam sua propriedade, e 84% dos assentados não fazem correção e adubação de solo nem de forma intuitiva e nem a partir da recomendação técnica baseada em análise de solo.

Um segundo entrave para a adoção das tecnologias é o pouco acesso dos pequenos produtores aos créditos, necessários para o investimento. Além da falta de informação, há a exigência do cadastro limpo na Receita Federal. “Para o agricultor acessar o crédito, tem que regularizar sua situação cadastral e isso muitas vezes se torna um impeditivo e gera resistência”, explica professor Wilson Mozena. Ao ficarem excluídos das políticas públicas, os agricultores familiares criam sistemas de produção resilientes. “Adotam, portanto, formas tradicionais de cultivo que não são as mais produtivas, mas, para eles, são mais estáveis”, afirma o professor.

Autonomia do agricultor

A demanda da sociedade por produtos de maior qualidade, entre eles os orgânicos e agroecológicos pode ser um espaço promissor a ser ocupado pela agricultura familiar. A avaliação é do professor Wilson Mozena. “A demanda é mundial. A produção é menor do que a

Políticas da Agricultura Familiar Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) favorece a compra dos produtos pelo governo federal diretamente dos agricultores familiares, assentados da reforma agrária, comunidades indígenas e comunidades tradicionais, para a formação de estoques e distribuição à população em maior vulnerabilidade. O programa é um dos que tem maior potencial de acesso à renda pelo agricultor familiar, devido a pouca burocracia. Entretanto, os pequenos produtores sofrem com os cortes orçamentários do programa, que vem sendo suprimido gradativamente pelo atual governo federal.

Carlos Siqueira

Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), conhecido como Merenda Escolar, consiste na transferência de recursos financeiros do governo federal, em caráter suplementar, aos estados, Distrito Federal e municípios, para a aquisição de gêneros alimentícios destinados à merenda escolar. Com a Lei nº 11.947, de 16/6/2009, pelo menos 30% do valor repassado pelo PNAE deve ser investido na compra direta de produtos da agricultura familiar. Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) financia projetos individuais ou coletivos, que gerem renda aos agricultores familiares e assentados da reforma agrária. Os créditos podem ser utilizados para custeio da safra, investimento em máquinas, equipamentos ou infraestrutura de produção e serviços. Mais informações: www.mda.gov.br

Sociedade

projetos da UFG, via profissionais especializados nas áreas específicas. “Agrônomos e nutricionistas ajudaram a cooperativa a dialogar com as escolas municipais e estaduais para viabilizar a produção local por meio do Pnae. A nutricionista da Universidade, por exemplo, conseguiu dialogar com a das escolas no sentido de adequar o cardápio elaborado e a produção da agricultura familiar”.


Fotos: arquivo pessoal

Pesquisa

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Entre o deserto verde e a preservação da água Em uma região impactada pela monocultura, Universidade desenvolve trabalho de conscientização para a preservação das nascentes Carolina Melo

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partir de 2009, o assentamento Três Pontes, localizado no município de Perolândia, a 420 km de Goiânia, começou a mudar sua paisagem. As plantações de mandioca, banana e hortaliças, bem como a produção de leite, ovos e aves foram gradativamente substituídas pelo cultivo de soja e milho, com o auxílio de empresas privadas. Os impactos ambientais e humanos já são perceptíveis. E foi na localidade que um projeto de pesquisa da UFG conseguiu recuperar 12 nascentes do Ribeirão Invernadinha. A experiência sensibilizou os pequenos produtores para a necessidade de conservação e proteção dos cursos d’água. Os pesquisadores da Escola de Veterinária e Zootecnia (EVZ) avaliaram a região com o objetivo de entender o uso da mata e do campo, promoveram ações de conscientização e, em parceria com os assentados, cercaram as nascentes, a mata ciliar e plantaram duas mil mudas de espécies nativas. O local, afetado pela monocultura, é composto por 43 lotes de famílias há 16 anos assentadas. “O cenário inicialmente encontrado foi de degradação da mata no entorno das nascentes, que consequentemente impacta o volume dos recursos hídricos”, conta a coordenadora do projeto, professora da EVZ, Raquel Maria de Oliveira. Atualmente, os pequenos produtores acompanham o crescimento das espécies árboreas do Cerrado e o adensamento da mata que protege as nascentes.

Durante o trabalho iniciado em 2013, os pesquisadores tiveram a oportunidade de aprender com os pequenos produtores que, por sua vez, tiveram acesso aos estudos que contribuíram para a conscientização da conservação da água. “A experiência permitiu a vivência no campo e o compartilhamento de conhecimentos sobre as atividades produtivas, vegetação, animais e mane-

jo da terra”, afirmou o professor Paulo Hellmeister, um dos pesquisadores do projeto.

A recuperação das nascentes do Ribeirão contribui para a manutenção da vazão do Rio Claro, que vem diminuindo ao longo dos anos. “De 2012 a 2016 houve uma diminuição considerável da vazão do rio”, afirma a professora, que alerta para a necessidade de outras ações de conservação e recuperação do Cerrado para garantir a recarga dos cursos d’água na região. “A localidade está ilhada e suprimida em meio aos mosaicos de monoculturas”.

Monocultura

Atualmente, em torno de 75% dos 43 lotes do assentamento Três Pontes aderiram à monocultura. As famílias arrendaram as terras para a empresa Caramuru e, mais recentemente, a Plantar, ambas fornecedoras de sementes, adubos, inseticidas, herbicidas e responsáveis pelo recebimento e armazenamento dos grãos. A assistência técnica também é fornecida pelas empresas, que fazem desde a medição da área a ser cultivada ao cálculo final da renda de cada lote. “Em muitas propriedades as empresas produzem e colhem, fazem todo o sistema produtivo. Em outras, os assentados têm os maquinários e só vendem o resultado da produção. Em todas, o pequeno produtor é o responsável por combater as pragas com agrotóxicos”, afirma a professora Raquel Oliveira. Os impactos culturais, ambientais, humanos estão entre os identificados com a transição do cultivo da terra. O pequeno produtor, antes agricultor familiar, agora se vê no limbo, de acordo com professora Raquel. “A monocultura impacta a soberania alimentar. O produtor deixa de ser agricultor familiar e também não é um sojicultor, pois apenas arrenda a terra. Não mais

Monocultura avança e chega a emendar com o pomar das casas

Nascentes do assentamento Três Pontes foram recuperadas pela comunidade se define como trabalhador do campo e esse desenraizamento gera angústia aos assentados”, afirma. Na atual conjuntura, para o consumo próprio de alimentos, os assentados ficam dependentes dos produtos da cidade. “Há aí uma incongruência, a monocultura vem substituindo a produção de alimentos”, observa a professora Raquel.

Mesmo as propriedades que não aderiram à monocultura são afetadas pela forma de cultivo da terra, afinal, as propriedades da agricultura familiar ficam em meio às matrizes de soja. “Ao usarem agrotóxicos, as propriedades vizinhas acabam infectando a produção dos assentados”, afirma o professor Paulo Hellmeister.

Agrotóxicos e danos à saúde

A monocultura tem a necessidade de aumento da área de plantio e, no caso de Três Pontes, chega a emendar com o pomar das casas dos pequenos produtores, além de se aproximar de nascentes e ribeirões. A aplicação de agrotóxicos para o combate das pragas acaba gerando danos à saúde das famílias e ao ambiente. “Em muitos casos, a aplicação dos produtos químicos é o único trabalho dos assentados”. A grande totalidade, segundo professora Raquel Oliveira, não utiliza os procedimentos básicos de segurança para evitar danos à saúde. “Além de não utilizarem equipamentos de produção individual, não ficam fora da propriedade após a aplicação e, muitas vezes, não fazem o correto descarte das embalagens, reutilizando-as”, afirma. De acordo com o professor Paulo Hellmeister, os agrotóxicos contaminam o pomar e as frutas, consumidas diretamente do pé. “Sem falar que cada vez mais as lavouras vêm utilizando venenos mais fortes e muitas vezes proibidos, como o Benzoato, pois alguns agrotóxicos não estão sendo eficazes no combate às pragas”, complementa professora Raquel. Por outro lado, as embalagens dos produtos químicos, quando não são devol-

vidas aos locais apropriados de recolhimento, em muitos casos são queimadas ou enterradas, em outras, descartadas como lixo comum nas propriedades, abandonadas no campo ou, pior, reutilizadas pelas donas de casa. “E mesmo quando descartam adequadamente, fazem a tríplice lavagem dos recipientes de agrotóxicos nas nascentes e ribeirões, contaminando a água”, conta Paulo Hellmeister.

Incentivo político

A falta de prioridade da agricultura familiar pelo poder público acaba empurrando os pequenos produtores a formas de trabalho aparentemente mais rentáveis. Os pesquisadores relatam que, de acordo com a percepção do proprietário da terra, antes da soja, “tudo era muito difícil, eles tinham dificuldade em vender o que produziam e havia menos incentivos do governo”.

Com a adesão à monocultura, segundo professora Raquel Oliveira, a produção realmente aumenta e o ganho chega mais rápido, mas o solo acaba sendo empobrecido, há impacto ambiental, dano à saúde, além do agricultor perder sua herança cultural. “Os assentados têm um rendimento ilusório, danoso ao ambiente e com período de exploração menor. A longo prazo essa forma de cultivo não traz benefícios, perde-se a soberania alimentar, gera o empobrecimento da terra e consequentemente a migração”, afirma.

Quer saber mais?

O resultado do projeto de pesquisa “Conservando a árvore na mata, a água no rio e o homem na terra” foi divulgado em dois livros pela editora CRV, no primeiro semestre de 2017. O primeiro, com o mesmo nome do projeto, o segundo, intitulado “A utilização de agrotóxicos na microrregião do sudoeste de Goiás: Embasamento legal e impactos na Saúde Pública”, ambos dos autores Raquel Maria de Oliveira, Paulo Hellmeister Filho e Celeni Miranda.


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Ingrid Costa

De Dom Quixote à Baleia Azul Pais e educadores enfrentam desafio diante da apropriação da tecnologia por crianças e adolescentes Kharen Stecca

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Veja o artigo da professora sobre o assunto

ocê conhece o livro Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes? O livro, escrito em 1605, conta a história de Dom Quixote que ao ler romances de cavalaria, acredita neles e passa a andar pelo mundo em seu próprio romance cavalheiresco. “O livro é uma crítica à imprensa, a grande inovação tecnológica da época que transpôs a oralidade das contações de história para a leitura individual. Uma mudança enorme de apropriação cultural, da oralidade para vozes que falam dentro de sua própria cabeça”, afirmou o professor Daniel Christino, da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC/UFG) durante um debate realizado pelo Laboratório de Educação, Tecnologias e Inclusão para discutir os caminhos e descaminhos das crianças e adolescentes na internet. O debate reuniu também a psicóloga e professora Susie Roure e a pedagoga e professora Cleide Rodrigues, ambas da Faculdade de Educação da UFG, para dar perspectivas diferentes sobre o tema.

E o que Dom Quixote tem a ver com a internet? Para o professor, criticamos a internet da mesma forma que no passado os livros foram criticados, como se fossem algo que vem de fora. “A tecnologia é extensão do homem e de sua subjetividade, precisamos parar de vê-la como algo a parte”, afirma. Ele explica que a tecnologia, conforme muda, exige de nós habilidades diferentes: “a leitura constituiu a subjetividade moderna e a internet está mudando novamente essa subjetividade”. E o que incomoda os pais, afinal? Segundo ele, incomoda que os filhos estejam perdendo essa capacidade de mergulhar no conhecimento. “Nosso cérebro se adapta ao tipo de consumo de tecnologia que fazemos, não queremos que essas crianças percam essa capacidade”. Mas se a forma de leitura se altera, outras habilidades

também. Ele cita algumas dessas modificações: a realidade aumentada, por exemplo – cujo exemplo mais famoso é o jogo Pokemon Go, mas também o Foursquare – muda nossa forma de apropriação do espaço. A sociabilidade também se altera no mundo virtual. Ao contrário da perspectiva de que a internet nos torna individualistas, o professor cita um estudo antropológico que está sendo realizado em comunidades virtuais de jogadores de games. As conclusões são de que esses espaços são muito mais colaborativos do que competitivos e essas dinâmicas têm impacto na vida dos sujeitos.

O educador não é mais aquele que mostra o caminho, com a tecnologia essa lógica se inverte Susie Roure E é nessa dinâmica que surge o questionamento sobre o impacto da internet e de jogos virtuais na vida das crianças e adolescentes e o polêmico jogo Baleia Azul. Os pesquisadores são unânimes em afirmar que hoje temos o Baleia Azul, ontem foi o campeonato de asfixia, um pouco antes as comunidades que cultuam a anorexia e que sempre existiu e existirá esse tipo de polêmica. O mesmo ocorre com os games, que são frequentemente associados a atos explícitos de violência, como em assassinatos em massa. Para Daniel Christino, muitos outros produtos já foram associados a crimes, como filmes e até músicas: “As pesquisas não conseguem afirmar como uma pessoa vai realizar a apropriação cultural. Elas, na verdade, mostram que uma pessoa predisposta a uma psicopatologia pode usar o produto da cultura, seja um

jogo, filme ou série para articular e organizar a ação, mas em geral, elas acabam usando esses produtos como escapismo da realidade”, afirma.

Se por um lado os pais estão preocupados com o assunto, os professores estão também perdidos. A professora Cleide Rodrigues explica que as pesquisas mostram que a tecnologia é usada muito mais em casa do que na sala de aula. Por isso mesmo pesquisadores têm levantado a necessidade de se preocupar mais com o que as crianças estão fazendo com a tecnologia fora da sala de aula. Ela acredita que a escola precisa repensar seu sentido na sociedade contemporânea. “As novas gerações têm um déficit, a desorganização de informações; a escola deveria ser o espaço de organização dessas informações”, afirma. O jovem usa a internet para entretenimento, comunicação e informação de seu interesse.

Por outro lado, apesar da preocupação dos pais, o que a realidade mostra são crianças sem controle nenhum do que veem ou buscam na internet. Outro dado assustador colocado por Cleide é a quantidade de horas que crianças entre 8 e 12 anos ficam na internet: 6 horas para meninos e 8 horas para meninas. E o mais agravante: as pesquisas mostram que as crianças têm pouca ou nenhuma consciência dos perigos que a internet oferece. A professora e psicóloga Susie Roure explica que a cultura e subjetividade se articulam e se transformam dialeticamente. “A tecnologia nos modifica. Os pais e educadores se assustam com a velocidade das mudanças e as pesquisas, que demandam seu próprio tempo, não conseguem acompanhar o ritmo delas e dar as respostas que a sociedade requer”, afirma.

O papel do educador também mudou: “O educador não é mais aquele que mostra o caminho, com a tecnologia essa lógica se inverte”. Ela destacou a importância de que os pais coloquem muito cedo limites aos filhos. “Limites

Para Susie, há alguns erros que os pais vêm cometendo. O processo de conquista da autonomia deve ser supervisionado por pais que já passaram pelo processo de maturação, no entanto esses mesmos pais têm se voltado para seu próprio sofrimento e sido egoístas, não planejando suas ações e decidindo o processo no dia a dia, o que acaba dificultando a criação desses limites.

E o papel dos pais e educadores? Como resposta à pergunta do debate – o que fazer com relação a ansiedade de pais e educadores com relação às crianças e adolescentes na internet –, Daniel Christino acredita que precisamos estudar, adquirir conhecimento, pois só assim seremos menos “usados” pela tecnologia. Cleide Rodrigues destaca que os próprios pais estão fascinados com a tecnologia: “Precisamos mudar nossos olhares, voltá-lo para a cultura digital que estamos construindo e usar a tecnologia de forma consciente”. Já Susie destaca os limites que os pais precisam criar para as crianças: os que devem ser transpostos, por exemplo, a criança precisa saber lidar com a tecnologia corretamente; os que precisam ser impostos: o que pode ser feito e o que é inegociável na infância e dialogável na adolescência (e dialogável não significa negociado), como por exemplo o tempo gasto em frente aos eletrônicos e os limites da privacidade, que são os cuidados com o corpo, com suas ideias e a noção de privacidade. Já do ponto de vista dos educadores, os professores ressaltam a importância de o professor atingir um novo perfil. Nas palavras de Daniel Christino: “O professor deixou de ser um dispositivo para acessar o conhecimento, ele agora precisa dar pertinência a esse conhecimento.” Quer saber mais sobre segurança na Internet para crianças e adolescentes? Acesse o site produzido pelo Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br)

Comportamento

devem ser definidamente claros na infância, e negociados na adolescência, na medida da construção da autonomia. Mas se eles não forem trabalhados na primeira infância, dificilmente serão aceitos na adolescência”. Ela explica que a autoridade vem sendo questionada, pois em um mundo onde o novo deve suplantar o passado, o jovem precisa ser livre e autônomo. Porém, em nenhum momento deve-se confundir autonomia com ausência de normas ou de responsabilidade, que é a base da autonomia. No entanto, ela afirma que para criar jovens com esse perfil é preciso normas e limites na infância: “A liberdade é um direito humano, mas no ponto de vista do sujeito, ela precisa ser conquistada”.


Sociedade

12 a sua caracterização como meio, identificando as melhores informações para seu berço.

Por que as pessoas ainda leem jornal? Pesquisa mostra que laço com o impresso se mantém e atravessa gerações, mas publicações precisam se reinventar Angélica Queiroz

“O

Segundo Simone Tuzzo, para falar sobre essas diferenças é preciso levar em consideração os diferentes tipos de impactos: tecnológicos, comportamentais, psicológicos, sociais, econômicos e políticos. A professora destaca que os jornais impressos são estruturados e utilizados de um modo que os leitores se sentem atraídos a ler histórias sobre as quais eles não teriam se interessado de antemão. Além disso, a maioria dos entrevistados, em sua pesquisa, creditaram à mídia impressa maior veracidade das informações do que quando transmitidas através de meios eletrônicos, especialmente na internet. “O jornal não é visto como superficial, mas sim como profundo. Os jornalistas gostam de enfatizar que o rádio diz, a televisão mostra e o jornal impresso explica”. Impressos terão que se reinventar Os jornais online substituirão os im-

A pesquisadora explica que o elo estabelecido entre leitores com o jornal firma-se muito mais na relação sensorial e na forma com que o veículo se apresenta do que meramente por conteúdos. Neste sentido, ainda que as notícias sejam disponibilizadas gratuitamente nas redes sociais, o laço cativo com o impresso se mantém e atravessa gerações. Assim, para a professora, os veículos impressos devem continuar tendo seu espaço, mas por uma ótica mais crítica. “O futuro do jornal impresso depende do que nós e do que as novas gerações fizermos dele. O seu futuro, o seu destino está em nossas mãos!”. Segundo o coordenador do Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Mídias Interativas (Media Lab), Cleomar Rocha, na história das mídias há pouca ou nenhuma substituição. “Lúcia Santaella indica seis eras das mídias: oral, escrita, impressa, de massa, cultura das mídias e cibercultura. Ainda hoje vivemos todas elas, ainda que haja uma convergência para o digital”. Nessa analogia, ele acredita que a mídia impressa, caracterizada como mídia de massa, mantém seu espaço, sendo preciso, contudo, observar

Jornal UFG se reinventa

O editorial da primeira edição do Jornal UFG, em junho de 2006, aponta "a convergência" como importância institucional da publicação, apresentando um jornalismo capaz de aproximar universidade e sociedade por meio de um espaço plural e democrático. “Nessa perspectiva, o Jornal UFG constituiu-se como importante projeto político, acadêmico, científico e cultural relevante para a valorização da cidadania a partir da Universidade”, observa a professora da FIC, Silvana Coleta, uma das fundadoras do jornal. O veículo, que esse mês de junho completa 11 anos, tem se reinventado para promover integração entre os veículos de comunicação da UFG, numa proposta, em parceria com o Media Lab, que traz o jornal impresso como mídia integradora, central. “Pela proposta o jornal impresso trata a informação em função de

Para Silvana Coleta, o jornal impresso dá sentido à informação de uma maneira que a maioria dos outros meios não dá, sendo objetivo e reflexivo ao mesmo tempo. “Muitos já decretaram a morte do jornal enquanto outros têm a convicção da sua eternidade. Eu tendo a acreditar na ponderação entre esses dois extremos. A mudança nos hábitos de leitura e a inovação tecnológica são desafios que os jornais enfrentam atualmente e para os quais têm apresentado respostas bastante funcionais. Com a informação reconhecida como vital, a internet conquistou espaço inegável, também no Brasil. Mas por outro lado, a demanda por informação mais completa, pela contextualização das notícias, pela análise e interpretação dos fatos, não se perdeu”. “Quanto ao futuro do jornal impresso, ele depende do que fizermos dele”, completa.

Fotos: Ana Fortunato

s leitores que preferem o impresso gostam do cheiro da tinta, do som de virar as páginas, da textura do papel e da calma que traz a leitura do formato do jornal, sendo também um prazer para a visão. Além disso, não são poucos os que citam o prazer associado a um café. Isso é muito interessante, pois a leitura do jornal passou a aguçar os cinco sentidos, ou seja, a princípio já estimulava a visão, o tato, a audição e o olfato, mas como o paladar não estava presente, o café completa o processo”. O trecho é parte do livro Os Sentidos do Impresso, resultado de pesquisa da professora da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG (FIC), Simone Tuzzo, trabalho que traz uma observação sobre as diferenças entre ler notícias online e no papel.

pressos? Para Simone Tuzzo, esse questionamento remete aos velhos discursos sobre o desaparecimento do rádio quando da chegada da televisão. “Por que alguém iria querer continuar a utilizar um veículo que só emitia som, se com a TV todos poderiam ter som e imagem? Ainda assim, o rádio está conosco até os dias atuais sem o menor sinal de que desaparecerá, isso porque soube se reinventar, se adequar às novas realidades”, exemplifica. Segundo ela, a cada nova mídia, as anteriores fazem suas adequações e não necessariamente desaparecem.

Para Cleomar Rocha, a informação digital, de veículos online, tende a reunir a velocidade da notícia com a fragmentação da mídia. “Nesse aspecto, a mídia online não substitui a mídia impressa, antes auxilia no dimensionamento da notícia, da informação, podendo haver, na verdade devendo haver, uma integração dos veículos. É comum que corporações de comunicação tenham rádios, TVs, jornais impressos, revistas e sites. A criação de versões online não substituem, mas complementam a base jornalística e informacional, em uma sociedade cada vez mais ávida por notícias, por novidades”, detalha.

seu público e periodicidade, indicando novas abordagens das notícias em outras mídias, como revista, site, TV e rádio. Essa integração tem caráter complementar, nunca com replicação da abordagem”, explica Cleomar Rocha. Com isso os veículos da UFG pretendem não apenas identificar melhor sua abordagem e características enquanto mídia, mas abrir espaço para tecer sua própria malha informacional. A integração já teve início, com ampliação de QR Codes, códigos no jornal impresso que conduzem o leitor a matérias da TV e rádio. O processo de adaptação do público ao novo posicionamento do jornal está projetado para um ano, alinhando capacidades integradoras das equipes e também de uso das novas formas de se informar, por parte do leitor. “O posicionamento do jornal é inovador e condiz com o papel institucional da UFG, alinhando pesquisa e extensão”, detalha o professor.

O professor da Escola de Engenharia Elétrica e de Computação, Reinaldo Nogueira, faz parte do Conselho Editorial do Jornal UFG e tem todas as edições já publicadas até hoje. “Sempre tive uma enorme satisfação em poder me sentar e manusear notícias da UFG, tanto que guardo com muito carinho todas as 87 edições lançadas até agora. Por esse motivo sempre defendi a continuidade da versão impressa, além do fato de nem sempre podermos contar com acesso digital”.


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Alunos do curso de Ciências Biológicas desenvolvem projeto de ensino com pacientes hospitalizados Luciana Gomides

O

tempo de internação exigido para o tratamento de doenças, bem como o período de recuperação, compromete, em grande parte dos casos, a participação do paciente em atividades escolares. Para garantir o direito à educação de crianças, jovens e adultos em condição especial de saúde que os impossibilite de frequentar o ensino regular, a Pedagogia Hospitalar apresenta-se como uma modalidade de ensino especial aplicada nos hospitais e domicílios, permitindo o início ou a continuidade da escolaridade. Como consequência, diminui-se a defasagem, a evasão e o fracasso escolar.

Com o objetivo de trabalhar a reintegração do educando em seu ambiente acadêmico, alunos e professores do Programa de Educação Tutorial do Curso de Ciências Biológicas (PETBio) da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolvem o projeto Ensino de Ciências e Biologia nas Classes Hospitalares: Inclusão e Cidadania ou, simplesmente, “O Projeto do Hospital”, como é mais conhecido na Unidade. As atividades são desenvolvidas em parceria com a Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (Seduce), por meio Núcleo de Atendimento Educacional Hospitalar (NAEH), no qual os alunos da Universidade atuam como bolsistas.

Gabrielle Carneiro

O início dessa parceria se deu por iniciativa da tutora do PETBio, a professora Renata Mazzaro, após assistir a uma reportagem sobre educação hospitalar prestada a pacientes em hemodiálise no Ceará. “Cheguei para os ‘petianos’, contei a história e uma

aluna comentou que um projeto similar já existia em Goiás, desenvolvido pela Seduce, e que a mãe lecionava nele”, conta Renata. A partir daí, foi feito o contato com a professora Zilma Rodrigues Neto, então coordenadora do NAEH, iniciando a parceria a partir de 2014, possibilitada pelo edital do Programa de Extensão Universitária (Proext), com o qual o PETBio foi contemplado.

Parceria

O NAEH atua desde 1999, mantido pela Seduce por meio da Superintendência de Inteligência Pedagógica e Formação/Gerência de Ensino Especial, em prol do atendimento a edu-

Os acadêmicos da Universidade acompanham os professores designados pela Secretaria durante os atendimentos, aplicando o conteúdo sugerido de acordo com o nível escolar, idade e grau de doença na qual se encontra o aluno-paciente. Ademais, os “petianos” têm a possibilidade de atuar dentro da própria Seduce, auxiliando na elaboração de material de estudos e auxílio ao banco de dados. “O planejamento de uma aula hospitalar é individualizado e requer um currículo flexibilizado, muito diferente do que se aprende em sala de aula”, detalha a tutora do PETBio. Renata reforça a particularidade da educação hospitalar pela condição dos pacientes, fragilizados pelo tratamento e tempo de internação. “Mui-

Educação Hospitalar A educação constitui direito, garantido por lei, de toda criança e adolescente, consoante a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que rege os princípios e fins da Educação Nacional. Sendo assim, entende-se que o acesso ao conhecimento inclua aqueles que encontram-se hospitalizados ou em período de convalescença. Apesar de decretos, como a Lei n.1044/69 (tratamento excepcional para alunos portadores de afecções, em suas residências) e Lei n. 6202/75 (exercícios domiciliares às estudantes gestantes), ainda não havia disposições legais que contemplassem a educação hospitalar. Na década de 90, foram criadas leis específicas que aferiam sobre as classes hospitalares, a exemplo do Art. 9 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que versa o “Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programa de educação para a saúde”, e da Lei dos Direitos das Crianças e Adolescentes Hospitalizados, através da Resolução n. 41 de 13/10/1995. Atualmente, a classe hospitalar está inserida na LDB 9.394/96 como educação especial, além de ser incluída em publicação do MEC, de 2002, que enfatiza o direito a atendimento escolar direcionado aos impossibilitados de frequentar as salas de aula regulares.

tas vezes, o bolsista faz o atendimento hoje com o paciente e, na próxima semana, não pode continuar porque o mesmo está imunodeprimido, fez quimioterapia ou, até mesmo, faleceu”, explica. Por lidar com situações tão extremas, os alunos contam com formação específica e apoio psicológico dentro do NAEH, com sessões semanais de terapia em grupo acompanhadas por psicólogo e atendimento individual, quando necessário.

Experiência

A professora discorre, com carinho, sobre os laços de afeto desenvolvidos entre os bolsistas e os alunos atendidos. “Os educandos se identificam e se reconhecem nos estudantes do PETBio”, comenta, completando sobre o quão a experiência é gratificante. O sentimento é compartilhado pelos discentes Artur Monteiro, que fez parte do projeto até o ano de 2015, e Luiz Gustavo Rezende, integrante do grupo desde 2014. Para ambos, o tempo atuando nos hospitais representa um marco, tanto pessoal, quanto profissionalmente. Artur destaca o atendimento prestado a uma paciente do Crer que sofria de paralisia cerebral e deficiência visual. “Lá, ela aprendeu que, como toda criança, poderia sair do chão se pulasse, seria capaz de tomar água sozinha e devolver o copo para a mesa”, comenta o estudante, lembrando, também, a forma como a menina o reconhecia ao passar as mãos em seu rosto, além de chorar para não ir embora do atendimento. “Seus olhos não viam, mas falavam muita coisa. Por eles, dava para ver uma menina que queria sair do seu casulo e encarar o mundo”, recorda.

Luiz se impressionou com um reabilitando, também do Crer que, vítima de AVC aos 35 anos, tinha como principal objetivo reaprender a escrever o nome para lidar com questões de herança. “A força de vontade dele era imensa, mesmo não sabendo falar e tendo baixíssima motricidade”, comenta. Ele também menciona um atendimento impactante no Hospital Araújo Jorge em que, com muito esforço, uma criança fazia os deveres enquanto recebia a medicação. “A mãe ficava ao lado, com feição cansada e de sofrimento, o que me chocou bastante, tanto que optei por não voltar a esse hospital”.

Em razão da dinâmica do projeto e a rotatividade dos educandos, Luiz e Artur não conseguiram manter contato com os pacientes atendidos, porém, o período dedicado ao projeto promoveu a sensibilização perante o outro, fazendo-os sair de suas próprias zonas de conforto, principalmente em uma área carente de profissionais qualificados. Tal impressão é corroborada por Renata Mazzaro, que frisa:“O olhar para o próximo é muito desenvolvido, trabalhando cidadania, educação, pesquisa e inserção social. Essa vivência os alunos do PETBio não teriam em outro lugar”.

Extensão

Educação hospitalar como forma de inclusão

candos em estado de doença ou convalescença, nas classes hospitalares e domicílios. Atualmente, o Núcleo presta seus atendimentos em nove instituições e na residência dos estudantes que apresentam condições especiais de saúde. O trabalho dos acadêmicos do PETBio se desenvolve em três dessas unidades, sendo elas o Hospital das Clínicas da UFG (HC/ UFG), o Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) e o Hospital Araújo Jorge.


Respeito à diversidade e combate ao preconceito Universidade promove ações em prol da quebra de barreiras arquitetônicas e atitudinais Luciana Gomides

R

esultados do Censo 2010, apresentados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que aproximadamente 45,6 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência, o que equivale a quase 25% da população. São indivíduos que, cada vez mais, lutam pela igualdade de direitos, a fim de garantir sua inclusão social e acesso às oportunidades e dignidade. Sob o ponto de vista educacional, ao nos referirmos às pessoas com deficiência, falamos de características, formas de locomoção, comunicação e aprendizado peculiares que demandam preparo e adaptação por parte das instituições, desde a educação básica até a pós-graduação, a fim de atendê-las de forma efetiva.

Segundo a Lei 13.146/2015, do Estatuto da Pessoa com Deficiência, “a educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurado sistema educacional inclusivo em todos os níveis de aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem”. Na Universidade Federal de Goiás (UFG), o desenvolvimento de ações que promovam a acessibilidade é tido como valor institucional que prima pelo respeito à diversidade humana. Por isso, desde 2008, a instituição vem formulando a Política de Acessibilidade da UFG, através do Núcleo de Acessibilidade (NA). Inicialmente sob a coordenação da professora Dulce Barros de Almeida, o NA foi criado para propor e

viabilizar a educação superior inclusiva, eliminando ou minimizando barreiras relacionadas a aspectos infraestruturais, pedagógicos e, sobretudo, atitudinais. A atual diretora do Núcleo, professora Vanessa Santana Dalla Déa, explica que o Núcleo de Acessibilidade tem como foco principal atender os 220 alunos com deficiência que fazem os cursos de graduação da UFG” Segundo ela, para ter uma universidade acessível, é necessário ir além da adaptação com rampas e elevadores. “Temos que considerar a complexidade do ser humano e suas necessidades”, comenta a docente.

As ações são elaboradas após estudos feitos para identificar a necessidade específica de cada estudante. Por esse motivo, as interferências do NA contemplam variados campos, como a acessibilidade comunicacional, na qual a Universidade conta com intérpretes para alunos surdos durante cursos, eventos e cerimônias de formatura. Outra ação de destaque é o Laboratório de Acessibilidade, parceria firmada com o Sistema de Bibliotecas (Sibi) para ofertar equipamentos e tecnologias assistivas, além da preparação de materiais acadêmicos para estudantes com deficiência visual. No que toca à estrutura física, o NA atua junto ao Centro de Gestão do Espaço Físico (Cegef) para estudos e melhorias arquitetônicas.

Porém, para Vanessa, a dimensão que merece atenção especial ainda se refere ao combate ao preconceito, com destaque para o capacitismo. Trata-se de discriminação, de certa forma velada, envolta em uma capa de paternalismo e na tendência em considerar pessoas com deficiência como incapazes de gerir suas pró-

Núcleo de Acessibilidade trabalha para viabilizar educação inclusiva prias vidas. “As pessoas com deficiência têm mostrado sua eficiência no trabalho, no esporte, na família e, também, no ambiente acadêmico”, defende a professora. Por isso, são oferecidos pelo Núcleo cursos de formação, palestras e eventos, além de divulgação de informações no intuito de levar conhecimento sobre as diversidades neurológica, motora, visual e auditiva, objetivando desconstruir esse tipo de intolerância.

SINAce

Em 2014, foi instituído o Sistema Integrado de Núcleos de Acessibilidade da UFG (SINAce), órgão suplementar vinculado à Pró-Reitoria de Graduação (Prograd). O SINAce é composto pelos diferentes órgãos e pró-reitorias da UFG, representantes dos corpos discente e de servidores com deficiência. O principal objetivo do sistema é estruturar e aprovar a Política de Acessibilidade da UFG, documento que estrutura metas e ações em oito eixos: Inclusão e Permanência, Infraestrutura Acessível, Acessibilidade Pedagógica e Curri-

cular, Acessibilidade Comunicacional e Informacional, Catalogação das Informações sobre Acessibilidade, Extensão sobre/com Acessibilidade, Recursos Humanos e Financiamento da Política de Acessibilidade.

Ações externas

Atualmente, a UFG realiza trabalhos com Núcleos de Acessibilidade de outras instituições públicas de ensino. “Estamos formulando, em parceria com o Centro Integrado de Aprendizagem em Rede (Ciar), um curso de formação para docentes do ensino superior junto à Universidade Estadual de Goiás (UEG), ao Instituto Federal de Goiás (IFG) e ao Instituto Federal Goiano (IFGoiano), que estará pronto no segundo semestre”, informa Vanessa. Ademais, há a participação conjunta com universidades federais dos estados do Paraná, Pará, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul na elaboração de documento orientador para efetivação de cotas dos alunos com deficiência nas instituições federais de ensino superior e técnica.

Imagens: Divulgação

Extensão

14

Professora Vanessa Dalla Déa em evento sobre Síndrome de Down

Intérpretes de Libras em solenidades da UFG contribuem para acessibilidade


15 CAMINHOS DA PESQUISA

A escolha de cerejas Luis Mauricio Bini, professor do Instituo de Ciêcias Biológicas da UFG

Adriana Silva

A *Revalino Antonio de Freitas

De volta ao começo: a modernidade chega à senzala

A

s Reformas Trabalhista e da Previdência e a Lei da Terceirização constituem tão somente a face mais visível de um projeto maior de retrocesso no campo da proteção social e dos direitos dos trabalhadores no Brasil. Se antes os fundamentos normativos do trabalho assalariado, condensados na CLT, em 1943, foram capazes de atender à política desenvolvimentista nas décadas seguintes, a partir dos anos 1990, com a guinada na política social e econômica, uma nova agenda – neoliberal – passou a propugnar, dentre outras coisas, a desregulação da economia e das relações trabalhistas. Se os contratempos políticos do governo Collor impediram o triunfo imediato desta agenda, o octênio do governo de Fernando Henrique Cardoso insuflou ânimo novo à mesma, com as Organizações Sociais, parcerias público privadas, privatização, terceirização de atividades no setor público, que tiveram continuidade nos governos Lula e Dilma. Agora, sob o governo Temer, inaugura-se um novo momento desta agenda. Se outrora, o argumento principal era o “Custo Brasil”, agora tudo se move em torno de uma certa “insegurança jurídica”. É preciso dar liberdade ao empreendedorismo, à livre iniciativa, enfim, é preciso dar liberdade a todos aqueles que desejam construir uma sociedade “livre” de interdições à acumulação de riquezas. E os trabalhadores e seus direitos constituem o obstáculo principal a esse desígnio maior do capital.

Mas, para que essas medidas tenham efeito, é necessário desqualificar o trabalhador, reduzi-lo à condição mais vil. Numa sociedade que ideologicamente sempre enalteceu a exploração do trabalho, aqueles que reivindicam e lutam por direitos, que cobram por dignidade e cidadania, passam a ser vistos como vagabundos. A saída, portanto, é criminalizá-los, como mostra a hostilidade vivenciada durante a greve geral, extravasada em parte na mídia, nas redes sociais e por certos políticos, como o prefeito da cidade de São Paulo, que chamou os grevistas de “vagabundos”, ou o ministro da Justiça, que os classificou como “baderneiros”. Não será assustador se qualquer dia desses, uma Lei dos Pobres – tal qual aquela dos primórdios da Revolução Industrial, na Inglaterra – for aprovada com o in-

tuito de obrigar os trabalhadores a se imolarem no trabalho. Não é demais lembrar que o artigo 59, do Decreto-Lei 3.688, de 1941 – que combate a ociosidade – se encontra em vigor, mesmo que não utilizado atualmente.

Essas ações procuram levar os trabalhadores a admitirem que o trabalho até a exaustão, sem direitos e sem descanso, é a única forma de viver que lhes é socialmente admissível. A sanha desses modernizadores não tem limites. Que o diga o projeto de lei do deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), que em nome da bancada ruralista, prevê aumentar a jornada de trabalho para 12 horas, substituir o descanso semanal remunerado por um período contínuo de trabalho de até 18 dias, além de autorizar a venda integral das férias dos trabalhadores rurais. Não satisfeito, o projeto prevê, ainda, que a remuneração poderá ser paga com casa e comida. O agronegócio apresenta, assim, a modernidade de suas propostas para o mundo do trabalho. Não será demais se, no caminhar dessa modernidade, o moderno empresário rural tiver o direito ao uso do açoite contra trabalhadores recalcitrantes. Aos trabalhadores não restarão muitas alternativas, pois até a Justiça do Trabalho se encontra na berlinda. Não basta desqualificar os trabalhadores, mas também os poucos mecanismos institucionais que lhes possam defender. As declarações recentes do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de que o Tribunal Superior do Trabalho é um “laboratório do PT” e abriga “simpatizantes da CUT”, ou, ainda, a declaração do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, para quem a Justiça do Trabalho sequer deveria existir, pois promove insegurança e a e impede a geração de empregos, demonstram que muito ainda está por vir. * Professor de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais da UFG

O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.

crise da falta de reprodutibilidade na ciência é definida como a incapacidade de cientistas obterem resultados similares aos observados em estudos anteriores. Em maio de 2016, a revista Nature publicou resultados de uma pesquisa de opinião sobre esse tema. Aproximadamente metade dos entrevistados (52% de 1576 entrevistados) considera que essa crise é grave, sendo causada principalmente pela prática da “escolha de cerejas” (cherry picking). Isso ocorre quando resultados são escolhidos, conscientemente ou não, para apoiar uma hipótese, em geral, de relação significativa entre variáveis. Por exemplo, uma pesquisa hipotética pode testar se um determinado hábito alimentar apresenta efeitos em diferentes variáveis respostas. Os resultados dessa pesquisa podem indicar que esse hábito está associado com uma das variáveis apenas. Para que não ocorra “escolha de cerejas”, todos os resultados deveriam ser apresentados num manuscrito científico. No entanto, a história do manuscrito não seria tão clara e direta pois, embora não tenha uma única mensagem, ele demonstra, corretamente, que existe incerteza. Autores, revisores e editores de periódicos científicos, em geral, priorizam histórias “limpas”. Aí começam os problemas: a equipe envolvida na pesquisa hipotética pode submeter um manuscrito que relata apenas o resultado da variável que esteve significativamente associada ao hábito alimentar e, mesmo que ela submeta o manuscrito com todas as variáveis, revisores e editores podem aceitar o manuscrito para publicação somente se os resultados não significativos forem omitidos (argumentando que, assim, o manuscrito contaria uma história mais clara e concisa). Num segundo exemplo, a equipe de pesquisa hipotética testa se diferentes estilos de vida (e.gpor exemplo, prática de exercícios físicos e consumo de vegetais) influenciam diferentes variáveis respostas. Nesse caso, existe a possibilidade real que a equipe (por conta própria ou induzida por editores e revisores), após analisar os dados e encontrar algumas relações significativas (dentre muitas testadas), além da escolha de cerejas, reformule as seções de introdução e objetivos do manuscrito com o objetivo de convencer o leitor que as relações encontradas foram previstas (antes mesmo da coleta de dados). A prática de declarar hipóteses após conhecer os resultados é conhecida como HARKing (hypothesising after knowing the results).

As práticas de escolha de cerejas e HARking prejudicam o progresso científico. Supondo que um terceiro estudo tente reproduzir os resultados anteriores, é provável que não consiga porque os resultados dos estudos originais foram falsos positivos. Poder-se-ia então pensar que há mecanismos de autocorreção: o terceiro estudo corrigiria o erro mostrando que a relação encontrada anteriormente não é significativa. Para muitas áreas, no entanto, o mecanismo de autocorreção é ineficiente pois não há incentivos para repetir estudos. Estudos “novos” são mais valorizados que repetições e, mesmo que seja repetido, terá dificuldades em ser publicado porque o meio acadêmico pode ser preconceituoso em relação a resultados que divergem daqueles que já estão publicados. Os poucos estudos que tentaram repetir resultados de estudos anteriores apresentaram resultados alarmantes. Briam Nosek coordenou um estudo com o objetivo de replicar 100 experimentos em Psicologia (Science, 2015, v. 349). Apenas 39 % dos resultados obtidos nos experimentos originais foram reproduzidos com sucesso. A boa notícia é que esses problemas podem ser minimizados com o registro prévio de projetos de pesquisa, dentre outras ações.

Opinião

ARTIGO


Pesquisa

16 tanta gente que as crianças se perdem. Mas um dado interessante é que os bombeiros ficam justamente aí para fazer a segurança”, relatou o professor Humberto.

Poder público

Comportamento ambiental no Araguaia deixa a desejar Investigação identifica diferenças impactantes entre o discurso e a prática dos turistas no que diz respeito à preservação do meio ambiente Patrícia da Veiga

“C

hegou o mês, vai começar tudo outra vez”, anunciava massivamente, na década de 1990, uma campanha publicitária financiada por uma extinta rede de supermercados de Goiânia. A propaganda alertava para a necessidade de se preservar as praias do rio Araguaia, sobretudo nas férias de julho. “Não jogue lixo na nossa casa/Essa beleza é para todo mundo/Ô bicho homem, vê se não arrasa”, cantavam as personagens da animação, representando a fauna do Cerrado. O trailer não é mais reproduzido nas emissoras de TV e rádio do estado, mas seu tema continua atual. Uma investigação realizada pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Esporte, Lazer e Comunicação da Faculdade de Educação Física e Dança (Gepelc/FEFD) constatou que o comportamento do turista ainda deixa a desejar.

A pesquisa, fomentada por edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), foi realizada em julho de 2013. Antes de seu início, integrantes do Gepelc fizeram duas visitas a Aruanã para mapear a estrutura do município e conhecer o contexto local. Em julho, foram aplicados os questionários e levantadas questões como: a) o tu-

O contraste maior, porém, se deu nos acampamentos de fim de semana, que recebem a maior parte dos turistas. É onde estão os bares, que chegam a fornecer lixeiras e sanitários, mas não em quantidade suficiente para atender à grande demanda. “As pessoas vão com as suas barracas, os seus equipamentos e se instalam onde querem. Há muita bebida e desorganização. É

Na etapa da observação, os pesquisadores assistiram a três tipos diferentes de acampamento: os institucionais, os familiares e os de fim de semana. Aqueles promovidos por sindicatos, bancos, federações, entre outras instituições, por exemplo, possuíam regras de convívio, recipientes de depósito de lixo, coleta seletiva, horário estipulado para determinadas atividades e programação envolvendo práticas corporais. Nesses lugares, o comportamento ambiental se aproximou das declarações registradas nos questionários. Nos acampamentos familiares, a diferença entre discurso e prática ficou diluída, uma vez que cada grupo reunido seguia uma dinâmica Imagens: Gepelc

Coordenada pelo professor Humberto Luís de Deus Inácio, a pesquisa teve como objetivo averiguar a consciência ambiental dos turistas que visitam Aruanã. Para tanto, o trabalho recorreu à aplicação de questionário e observação nos locais onde as pessoas se concentram. Como resultado, o estudo constatou contradição entre o discurso e a prática. Nas respostas preenchidas no papel, sobressaiu o entendimento de que é preciso cuidar e preservar o meio ambiente. Já na ação... “Você percebe lixo, uma churrasqueira ao lado da outra, produzindo calor, muito ruído, poluição provocada por veículos aquáticos motorizados e até dejetos fecais na água”, afirmou o professor Humberto.

rista conhece a localização do órgão ambiental do município? b) se importa com o meio ambiente? c) sabe como cuidar? d) evita comprar produtos poluentes? e) procura fazer pouco ruído quando pratica atividades na natureza? f ) não deixa lixo? g) recolhe o lixo que vê? h) usa meios de transporte menos poluentes? As respostas acusaram consciência ambiental de média para alta.

própria de convivência. Montados por barqueiros antes do início da temporada, esses apresentam uma variada estrutura: há desde aquelas famílias que querem se isolar na natureza, sem muitos recursos, até as que levam geladeira, televisão e pia.

O que mais chamou a atenção no processo de conclusão da pesquisa foi a ausência do poder público nessa dinâmica toda. “Esperávamos uma regulação mais forte e uma atuação mais presente por parte do poder público, seja estadual, municipal ou da Marinha”, opinou Humberto. Em entrevistas realizadas com secretários da prefeitura de Aruanã, isso foi questionado. A resposta é que há ações pontuais, o que o grupo não considerou como suficiente. “Por exemplo, a prefeitura recolhe o lixo das ilhas. Os barcos passam em pontos estratégicos e recolhem os sacos de lixo. Então o barco para, o gari joga o saco para dentro e vai embora. O que está espalhado fica na ilha, ninguém pega”, explicou o professor. Os pesquisadores entendem como necessária a ampliação de programas e campanhas de Educação Ambiental antes e durante o período de férias. Também insistem em uma fiscalização maior, principalmente, nos acampamentos de fim de semana.

Jornal UFG 88  

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XI – Nº 88 – JUNHO/JULHO DE 2017

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