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JORNAL ANO XI – Nº 87 MAIO 2017

Recordações de uma cidade moderna

Conheça inventário que reúne informações sobre residências construídas em Goiânia, entre as décadas de 1930 e 1970 p.12 e 13

Ana Fortunato

Você sabe o que é privilégio social? Participe de um desafio e tente entender a realidade que te cerca p. 4 e 5

Reportagem analisa PIBID e mostra projetos que aproximam licenciaturas e escolas p. 10

Saiba o que muda com a aprovação da lei que libera a terceirização de atividades-fim no país p. 11


Universidade

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JORNAL

EDITORIAL

Pelo direito de existir Luiz Felipe Fernandes*

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ar espaço para grupos sub-representados socialmente é mais que uma obrigação de um veículo de comunicação institucional. É o reconhecimento de que, apesar de avanços pontuais, muito ainda deve ser feito para que tenhamos uma sociedade mais justa, democrática e diversa. Atento a essa responsabilidade, o Jornal UFG traz nesta edição dois assuntos que precisam pautar os debates dentro e fora da Universidade: a invisibilidade de grupos historicamente subalternizados e a intolerância religiosa.

E depois de Goiânia e Catalão, agora é a vez dos estudantes da Regional Jataí darem início ao ano letivo. Que discussões como as que trazemos às nossas páginas estejam presentes durante toda a jornada acadêmica, pautando relações pessoais e profissionais. *Coordenador de Jornalismo da Ascom

Adriana Silva

O primeiro tema é tratado com sensibilidade na reportagem de Vinícius Paiva, elucidativa ao discorrer sobre lugar de fala e de escuta e, em última instância, sobre

o direito de existir. O repórter concebeu um jogo de tabuleiro, ilustrado por Marcos Fernandes, que demonstra como privilégios sociais garantem mais oportunidades para quem os detém. Para abordar o segundo tema, a repórter Angélica Queiroz trouxe o relato de representantes de religiões de matriz africana e do islamismo para uma reflexão sobre a incompreensão que nos leva a fechar os olhos para a fé alheia. A matéria tem a ilustração de Gabrielle Carneiro.

O Jornal UFG é fruto de um trabalho integrado. Para esta edição contamos com a contribuição dos bolsistas de Publicidade Marcos Fernandes e Gabrielle (da esq. para a dir.). O bolsista Vinicius Paiva e a jornalista Angélica Queiroz assinam as reportagens que discutem invisibilidade e intolerância religiosa, respectivamente. Angélica também é editora-assistente do Jornal UFG.

COMUNIDADE PERGUNTA O que é o mestrado profissional? O que o difere do mestrado acadêmico? Pergunta enviada via “Fale Conosco” Os mestrados acadêmico e profissional conferem o mesmo grau e prerrogativas. Ambos pertencem à pós-graduação stricto sensu e são submetidos à recomendação, acompanhamento e avaliação periódica pela Capes. Porém, existem diferenças fundamentais entre eles: enquanto o mestrado acadêmico prepara o professor e pesquisador para a carreira universitária, o mestrado profissional é direcionado para o estudo de métodos e técnicas em áreas diretamente relacionadas ao mundo do trabalho e ao sistema produtivo, visando a

qualificação de profissionais vinculados a órgãos públicos, empresas, cooperativas e organizações não governamentais. Outra diferença é que no mestrado profissional o trabalho de conclusão pode apresentar possibilidades mais amplas e ligadas à atuação profissional do curso, como, por exemplo, registro de propriedade intelectual, desenvolvimento de aplicativos, produtos, processos e técnicas, produção artística, programas de mídia, materiais didáticos e instrucionais, estudos de caso ou proposta de intervenção, protótipos para desenvolvimento ou produção de instrumentos e equipamentos, ou outros formatos de acordo com a natureza da área e a finalidade do curso específico. Cláudio Leles, coordenador geral de Pós-Graduação

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XI – Nº 87 – MAIO DE 2017 Reitor: Orlando Afonso Valle do Amaral; Vice-reitor: Manoel Rodrigues Chaves; Pró-reitor de Graduação: Luiz Mello de Almeida Neto; Pró-reitor de Pós-Graduação: Jesiel Freitas Carvalho; Pró-reitora de Pesquisa e Inovação: Maria Clorinda Soares Fioravanti; Pró-reitora de Extensão e Cultura: Giselle Ferreira Ottoni Cândido; Pró-reitor de Administração e Finanças: Carlito Lariucci; Pró-reitor de Desenvolvimento Institucional e Recursos Humanos: Geci José Pereira da Silva; Pró-reitor de Assuntos da Comunidade Universitária: Elson Ferreira de Morais. – Jornal UFG – Coordenador de Jornalismo: Luiz Felipe Fernandes; Editora: Kharen Stecca; Editora-assistente: Angélica Queiroz; Conselho editorial: Angelita Pereira de Lima, Cleomar Rocha, Estael de Lima Gonçalves (Jataí), Luís Maurício Bini, Pablo Fabião Lisboa, Reinaldo Gonçalves Nogueira, Silvana Coleta Santos Pereira, Thiago Jabur (Catalão) e Weberson Dias (Cidade de Goiás); Suplente: Mariana Pires de Campos Telles; Projeto gráfico e editoração: Reuben Lago; Fotografia: Carlos Siqueira; Reportagem: Angélica Queiroz, Carolina Melo e Patrícia da Veiga; Revisão: Fabiene Batista e Bruna Tavares; Bolsistas: Adriana Silva e Ana Fortunato (Fotografia), Luciana Gomides, Vinicius Paiva (Jornalismo); Impressão: Centro Editorial e Gráfico (Cegraf ) da UFG; Tiragem: 6.000 exemplares

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Ana Fortunato

O sistema penal é uma forma de violência Patrícia da Veiga

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era Regina Pereira de Andrade, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é responsável por promover no Direito Penal uma virada à esquerda e à brasileira. Ela foi uma das primeiras pesquisadoras do país a se aprofundar na criminologia crítica e a discutir violência, crime e punição sob um ponto de vista local, de classe e de gênero. Representante do feminismo abolicionista e afinada com estudos marxistas e pós-coloniais, Vera promove uma revolução no modo de enxergar o sistema penal brasileiro e vislumbra possibilidades em uma justiça restaurativa. O Jornal UFG a entrevistou por ocasião do I Encontro das Criminalistas, realizado em março na Faculdade de Direito (FD), evento em que ela foi homenageada. Confira.

O primeiro encontro de mulheres criminalistas da história do país teve como tema a mesma frase que está no subtítulo de um dos seus livros: “do controle da violência à violência do controle” (“A ilusão da segurança jurídica”, 2003). Como contextualizar essa frase, o que ela denuncia e o que propõe?

Esse é o subtítulo da minha tese de doutoramento. O que tentei demonstrar nesta pesquisa foi que o Direito Penal e a teoria construída junto com a lei, são pensados a partir de um mundo europeu, do século XIX em diante, com a promessa de limitar a violência do poder punitivo do Estado. Nesse contexto, se constrói toda uma técnica jurídica que é ensinada nas escolas de Direito, acriticamente, despolitizadamente, como uma técnica de limitação do exercício do poder de punir do Estado, que é materializado no sistema com várias instâncias de controle, que são as polícias, a Justiça, o Ministério Público, as defensorias e o sistema prisional. Esse modelo punitivo acionado pelo sistema penal tem a pretensão de ser limitado pelo Direito Penal e sua dogmática que, teoricamente, prometem controlar essa violência como garantia dos acusados. Ou seja, o discurso declarado é que não haverá penalidade arbitrária, que as penas de prisão serão aplicadas dentro dos estritos limites da lei, dos princípios liberais da legalidade, da igualdade jurídica, da culpabilidade, do devido processo penal, e que não haverá, então, arbítrio para as pessoas acusadas por esse sistema punitivo. A promessa do sis-

Seria possível outro sistema penal dentro da ordem vigente?

Estamos totalmente inseridos em um sistema desigual e caminhamos por dentro de suas contradições. Entendo que no momento presente o sistema está nu, as pessoas no senso comum não precisam da criminologia para entender o que é essa inversão da violência. Aliás, antes da criminologia isso já estava no senso popular com aquele adágio de que a prisão é para os três “pês”: pretos, pobres e prostitutas. A desigualdade, a violência estrutural e a estigmatização são perceptíveis no saber popular. Temos uma deslegitimação que está colocada tanto na teoria criminológica quanto na prática e no senso comum. No entanto, ao invés de o sistema caminhar para a redução, caminha para a ampliação. Há uma crise de deslegitimação que está em um nível insustentável e, paradoxalmente, o sistema tende a ser ampliado. Na era do capitalismo existe uma “sobra” estrutural de pessoas que não têm nenhuma forma de inserção no mercado de trabalho. Essa “sobra” vai parar no sistema penal e o sistema penal se amplia para criminalizá-la. Na América Latina o problema não é somente o encarceramento neutralizador, é o extermínio puro e simples que nasce com as colônias. Então temos um país que desde sempre teve uma forma brutal de punição, onde a prisão nunca foi modelada pelos direitos humanos e onde sempre permaneceu a tortura, os massacres e as mortes como herança da escravidão, da violência exercida sobre o corpo do negro e cujo racismo está na base de constituição do sistema punitivo. A sobra histórica circular do negro é alargada aqui porque ele não é incluído de nenhum modo na sociedade brasileira, que nunca fez uma redistribuição étnica. Assim, essa não é somente a era do grande encarceramento, mas também a era do grande sepultamento. Nós estamos vivendo uma guerra civil com “matáveis estruturais“que são mortos todos os dias nas periferias e essa matança está naturalizada na forma de uma adesão subjetiva à barbárie.

Em tempos de ampliação da punição, do extermínio e do apoio social à barbárie, o que é destinado às mulheres?

Nesta era de capitalismo globalizado neoliberal, os principais núcleos da criminalização são a droga, a imigração e o terrorismo. E em torno deles se construíram os três grandes inimigos planetários: o traficante, o imigrante e o terrorista. No norte os inimigos são a imigração e o terror, no sul, é mais a droga. E a criminalização da droga é o que está levando as mulheres para o sistema penal. As mulheres estão no sistema pelos mesmos crimes que os homens – furto, roubo e homicídios passionais – mas, sobretudo, por tráfico de drogas. E o sistema penal não tem a menor capacidade de absorver isso porque é androcêntrico,

voltado para o controle de homens que não foram absorvidos pela produção capitalista. E como as mulheres inseridas nesse espaço público entram nesse mercado informal e não formal de trabalho, elas se tornam cada vez mais vulneráveis, expandindo-se a criminalização feminina em todo o mundo ocidental.

... o sistema que promete controlar a violência coproduz a violência O que avançou e o que precisa ser discutido com a Lei Maria da Penha, que em 2016 completou dez anos? A Lei Maria da Penha foi criada no contínuo de um conjunto de reformas que descriminalizaram alguns delitos em que a mulher era autora, como o adultério, e eliminaram o conceito de “mulher honesta” que havia no código penal – um símbolo explícito à moral patriarcal que dividia as mulheres entre “mulheres sexualmente honestas”, que mereciam a proteção e a punição de seus crimes, e “mulheres não honestas”, prostitutas que podem ser livremente estupradas ou sexualmente abusadas. Por outro lado, nós tivemos no mesmo período uma linha repressiva que aumentou as penas dos crimes praticados contra as mulheres e criou novos tipos. Foram criados os crimes de assédio sexual, violência doméstica, depois veio a Lei Maria da Penha, que foi a terceira, e posteriormente, o delito de feminicídio, homicídio praticado contra mulheres. Isso aconteceu na esteira de debates feministas que viam na punição uma forma de luta contra a desigualdade de gênero. Esse pensamento via nos crimes contra a mulher uma base estrutural, uma expressão de controle, poder e domínio sobre a mulher. Eu concordo com essa avaliação, mas não concordo com aquela resposta. A Lei Maria da Penha, então vem, por um lado, com uma parte punitiva bem rigorosa, bem espetacular. Nela há mecanismos que foram muito apropriados, por exemplo, pela mídia, como separar vítimas de seus violentadores com fitas métricas, proibindo a aproximação de suas casas, ou seja, demarcações simbólicas de territórios. Mas a Lei Maria da Penha tem outra parte que é não punitiva, que abre espaço para a construção de fóruns interdisciplinares de tratamento das relações de gênero que acolhem psicólogos, pessoas da comunidade, pessoas envolvidas, abrindo espaço, inclusive, para a justiça restaurativa. Essa parte é ignorada. A Lei Maria da Penha nasceu ambígua, mas foi apropriada punitivamente e a violência contra a mulher, obviamente, não reduziu. Porque o sistema penal não combate a violência.

Como os movimentos e as teorias feministas podem seguir com o debate?

Esse foi um dos temas do nosso encontro. Existem vários feminismos e uma variada influência de feminismos sobre a criminologia crítica. O campo é bem polêmico. Existem os feminismos que entendem que a violência contra a mulher não pode abrir mão da repressão e do sistema penal, nem que seja de forma simbólica, porque se ele está aí, a ilusão de segurança e proteção deve ser usada. E existem feminismos abolicionistas que entendem que o sistema penal não pode trazer benefício nenhum para o tema da violência contra a mulher porque não discute as relações de gênero, não protege as mulheres da violência e não dá resposta satisfatória nenhuma às vítimas. As pesquisas etnográficas que escutam as mulheres estão nos demonstrando que nem elas querem ver os seus parceiros na prisão, elas querem se ver livres da agressão.

Entrevista Vera Regina Pereira de Andrade

Confira o currículo lattes

tema é uma promessa de segurança jurídica, de que ninguém vai ser punido arbitrariamente. O que eu demonstro, com a ajuda da criminologia crítica, analisando o sistema, é que ele funciona de forma inversa à declarada. Ele funciona violando sistematicamente toda a legalidade e a igualdade. Portanto, a forma lógica do sistema operar não é pela igualdade jurídica, é pela insegurança jurídica. Além de tomar decisões totalmente contrárias ao prometido, esse sistema seleciona arbitrariamente e de forma desigual as pessoas, violando sistematicamente direitos humanos. Portanto, o sistema que promete controlar a violência coproduz a violência. O sistema penal é uma forma de violência institucional. A lei é aplicada desigualmente e não há garantia de legalidade. A seletividade é a lógica estrutural de funcionamento do sistema penal. Ao invés da igualdade jurídica, decisões iguais para casos iguais, pessoas juridicamente iguais são tratadas desigualmente. Então a vulnerabilidade à criminalização está situada entre as pessoas de classes baixas, do sexo masculino, não brancas e improdutivas do capitalismo. Por quê? Porque o sistema penal é um microssistema de reprodução da ordem social vigente, é um mecanismo de controle de classe, de controle de gênero, de raça/etnia. Esse é o sentido da inversão estrutural do sistema.


Sociedade

4 viver ou enxergar aquela diferença”, afirma a professora da Faculdade de Ciências Sociais, Eliane Gonçalves.

Já fui elogiada por ter uma beleza exótica

Fotos: Carlos Siqueira

Shayane Santos

Estamos carentes de olhares humanizados Vozes gritam por igualdade e respeito em uma sociedade pouco acolhedora

Vinícius Paiva

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hayane Santos, 24, estudante de Ciências Sociais/Políticas Públicas da UFG, é mulher, preta e lésbica, e acredita que todas as pessoas devem ser ouvidas. “Nossos corpos são marcados por realidades diferentes e cada um tem uma história para contar. Precisamos entender o ser do outro”. Já Bruno Eduardo, 25, é advogado e estudante de Jornalismo também da UFG. Branco, heterossexual e de classe média, Bruno defende que nem todos trilham os mesmos caminhos e cada um enfrenta obstáculos diferentes. “É como se uma pessoa andasse de escada rolante e a outra tivesse que subir degraus”.

Questionar o abismo entre realidades tão opostas, como a de Bruno e Shayane, e pensar as desigualdades econômicas, as hierarquizações sociais e as diferenciações culturais, são formas de colocar em xeque a neutralidade dos discursos e de seus enunciadores. A professora do Instituto de Estudos Socioambientais (IESA) da UFG, Flávia Rios, explica: “Em sociedades extremamente desiguais como a nossa, dar voz a grupos desprivilegiados ou oprimidos é, de certa forma, subverter o impacto das desigualdades sociais nos espaços públicos”. Trazer à cena lugares de fala, de escuta e de visibilidade se faz importante para a construção de um debate mais igualitário e direciona os olhares para a gigantesca desigual-

dade de poder nas relações sociais. “O lugar de fala refere-se às posições desiguais em que indivíduos e grupos estão socialmente e culturalmente inseridos. Falar é um ato de libertação. O exercício dessa liberdade requer igualdade de condições. É essa igualdade que permitirá a fala e a escuta”, explica Flávia.

Interseccionalidade

“Se não podemos ver um problema, não podemos resolvê-lo”, prega Kimberlé Williams Crenshaw, feminista negra especializada em questões raciais e de gênero que batizou o termo Interseccionalidade. O conceito sociológico é fruto de uma análise entre as diferentes formas de dominação e/ou discriminação, e reflexiona as interações nas vidas das minorias entre diversas estruturas de poder. A concepção foi usada pela primeira vez em uma pesquisa no ano de 1991, que estudou as violências vividas pelas mulheres negras em classes desfavorecidas nos Estados Unidos.

Intersecção significa o encontro de duas linhas que se cortam. Crenshaw defende que essa analogia serve para analisar problemas cotidianos de injustiça social. Podem-se nomear diversas ruas a partir das distintas formas de subordinação, LGBTfobia, raça, gênero, classe, etc. Uma mulher pobre, por exemplo, está no ponto de intersecção das duas vias, sofrendo com os dois tipos de violência, de gênero e de classe. Além disso, cada caso tem a sua leitura,

como exemplifica a professora Flávia, uma mulher pode ser rica, mas a avenida que permite o privilégio de classe não neutraliza a rua da violência de gênero.

Humanização

Um obeso com dificuldades de atravessar a roleta de um ônibus. Uma mulher sendo assediada com assobios masculinos. Um gay com medo de andar de mãos dadas com seu companheiro. Um negro vestindo blusa com capuz sendo confundido com assaltante. O que todas essas situações nos mostram? Nada menos que a falta de cuidado para com o próximo. “Se o outro existe e você não consegue vê-lo, seu olhar é deformado, pois não aprendeu a con-

Expressões já enraizadas como “beleza exótica”, “viadagem”, “denegrir”, “mulher de respeito”, “inveja branca”, “cabelo ruim”, “a coisa tá preta”, “cabeça chata”, “baianice”, “serviço de preto”, “coisa de mulherzinha”, entre outras, perpassam a barreira do preconceito e mostram a invisibilização e a falta de voz de determinadas pessoas. Além disso, ao questionarem certos lugares de fala, os grupos marginalizados ficam suscetíveis a discursos universais e homogêneos que, por vezes, neutralizam as contradições sociais e refletem as experiências sensíveis e a falta de vivência humanizada de algumas pessoas.

Reflexão

Pautar o equilíbrio social é um processo longo, pois cada pessoa é um somatório de percepções, de hábitos e características que compõem o seu entendimento pessoal perante o individual e o coletivo. Mas Eliane nos apresenta, por hora, uma boa solução. “Se faz necessário pausar, respirar, refletir e usar essa reflexibilidade com o objetivo de entender o lugar que você ocupa naquela situação. Precisamos saber como lidar e como contribuir de maneira positiva, sem tomar o lugar de fala ou diminuir as experiências vividas pelos protagonistas de cada história”.

Se o outro existe e você não consegue vê-lo, seu olhar é deformado, pois não aprendeu a conviver ou enxergar aquela diferença Eliane Gonçalves


Sociedade

Ilustração: Marcos Fernandes

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Mesa-redonda

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O Brasil precisa mudar seu sistema eleitoral? Ascom, TV UFG e Rádio Universitária

Nos últimos anos se instaurou no país uma intensa crise política. Escândalos, como o do mensalão, da compra de votos, e agora a operação Lava Jato, que comprovam o envolvimento da maioria dos parlamentares do Congresso Nacional, muitos ocupantes de cargos do governo em esquemas de corrupção, para o favorecimento eleitoral e das próprias empresas que financiam as campanhas. Tudo isso nos leva a reflexões sobre o modelo de organização política brasileira.

Como funciona o regime político no Brasil? Uma reforma política é realmente necessária? José Elias – O nosso sistema político é baseado essencialmente na figura do partido enquanto organização chave. Então quando vamos discutir reforma política, vários dos pontos que estão sendo discutidos envolvem os partidos políticos. Temos um sistema presidencialista e o que percebemos é que há uma necessidade urgente de se fazer uma reforma para poder melhorar, dinamizar e até aproximar de fato a participação popular na instituição política. Além disso, percebemos que há um afastamento gradativo do interesse do cidadão em relação à participação política. O problema é que a reforma política ideal, que é pensada por diversas organizações e entidades, não necessariamente é a reforma política que é debatida no Congresso. Dessa forma, temos um sistema político engessado, que tem problemas sérios, inclusive por conta do presidencialismo de coalizão e dos próprios escândalos que aconteceram nos últimos tempos ,que, na verdade, são práticas comuns que vêm se perpetuando no sistema político, na forma de se pensar política. Temos um sistema político bastante nebuloso e problemático. O problema não é discutir reforma política, é discutir que tipo de reforma de fato faz essa aproximação do cidadão com a vida política.

Hugo Tomazeti – O modelo democrático brasileiro tem paralelos no mundo inteiro. É um sistema que adota o modelo partidário, só que é um sistema que tem muitos partidos. É super pulverizado e são partidos que não refletem necessariamente modelos ideológicos ou ideias políticas próprias com partidos que tentam, em alguma medida, chegar ao poder pelo poder. Isso é um problema inclusive para a qualidade da democracia brasileira. Um dos pontos que também está na discussão da reforma eleitoral e que nos deixa de cabelo em pé e muito preocupado é a ideia da lista fechada ou da lista aberta para votação. Existem modelos de lista aberta e lista fechada mundo afora e inclusive sistemas mistos, como é o caso da Alemanha, e tudo isso precisa ser pensado. De fato não existe um modelo democrático que consiga refletir fidedignamente aquilo que a população quer lá no parlamento, levando em consideração que são milhares de pessoas.

Mudar o sistema de lista aberta para lista fechada altera o jogo político?

Hugo Tomazeti – Hoje temos um modelo de lista aberta onde os partidos inscrevem os candidatos e aqueles que têm mais votos dentro do modelo proporcional de eleição conseguem se eleger dentro do partido e acabam levando outros, que são os chamados “puxadores de votos”, como é o caso de artistas ou jogadores de futebol que conseguem trazer outras pessoas na esteira da sua votação. No modelo de lista fechada, que é o contrário, o partido político indica os nomes numa ordem de preferência e os votos não são dados para as pessoas e sim para os partidos políticos que, a partir dessa votação, elegem quem está nas listas a partir dessa ordem.

Fotos: Carlos Siqueira

Por um lado, a reforma política é vista como solução para o resgate do caráter eminentemente público das decisões nacionais, tornandose necessária e urgente. Por outro lado, as propostas que têm surgido com relação a essa reforma, como por exemplo o voto em lista, deixam dúvidas se a mudança será boa ou ruim para o país. Para discutir o assunto convidamos o professor do Instituto Federal de Goiás (IFG), José Elias Domingos, e os professores da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, Pedro Célio Borges e Hugo Tomazeti.

Pedro Célio – Muito disso tem a ver com a qualidade da nossa democracia, porque o sistema político do regime democrático supõe, no caso brasileiro, a representação política, a representação de uma sociedade que vai se tornando muito mais complexa e dinâmica, em que os conflitos são mais difíceis de serem negociados e que o parlamento às vezes não consegue discutir. Então temos que discutir uma maneira de aproximar a dinâmica do parlamento daquelas vontades que estão nas ruas, nas grandes cidades, nos dilemas da economia, na vivências dos diversos segmentos sociais que anseiam por formas de representação que melhorem a legitimidade do processo decisório. Precisamos pensar de que maneira as principais decisões que o parlamento toma e que o executivo deve encaminhar em nome do povo podem ficar mais próximas da vontade popular. Essa é a grande questão da reforma política. Nesse instante estamos vivendo uma crise sem precedentes de credibilidade do sistema político por inteiro. Então as duas expressões que traduziriam essa representação política aos olhos da opinião pública são o sistema eleitoral e o sistema partidário. Os problemas sérios estão em reordenar as eleições e os próprios partidos políticos para que a vontade que a população manifesta nas urnas apareça no funcionamento rotineiro do parlamento e do executivo no período entre as eleições. O grande problema atual é que um tema forte como a reforma política está no processo de financiamento das campanhas eleitorais. Me parece que esse tema reaparece com grande força porque ele é o meio pelo qual a corrupção está invadindo o sistema.

Pedro Célio – Eu acredito que o tema da lista fechada, como todos os demais temas da reforma política, são temas políticos. Portanto, eles não saem do nada e mantêm uma vinculação muito forte com o jogo de pressões e interesses do momento. Veja que a sociedade brasileira toda está debatendo neste instante o problema da corrupção política, o financiamento, o modo como o sistema fica permeável à ação dos interesses econômicos. É o grande poder econômico que controla o sistema político e isso ficou provado no Brasil nesses dois últimos anos, essa é a agonia do momento. No entanto, o que as elites políticas oferecem é a lista fechada. Do ponto de vista lógico, uma coisa não tem relação alguma com a outra. Do ponto de vista conceitual, ela pode ser vista até com simpatia. Durante muito tempo se criticou no Brasil o enorme personalismo da política brasileira que deixa o aspecto coletivo ou social da política em segundo plano, evidenciando o poder das celebridades ou dos caciques, coronéis e chefes partidários. A lista viria para diminuir isso, o que poderia ser positivo. Só que nesse instante a lista vem para proteger os corruptos, os donos dos partidos. Com a lista fechada os donos dos partidos podem ficar com mais facilidade para ampliar o seu tempo de impunidade, garantindo sua reeleição controlando as máquinas partidárias e colocando os nomes deles em primeiro lugar. Na medida em que a legenda recebe o voto do eleitor, os três ou quatro ou cinco primeiros nomes da legenda é que vão conseguir as cadeiras que proporcionalmente a distribuição eleitoral vai indicar. Nesse exato momento o debate da lista partidária vem comprometido por essa intenção de diminuir o debate do financiamento de campanha e de proteger os envolvidos na Lava Jato.

José Elias

O problema é que a reforma política ideal, que é pensada por diversas organizações e entidades, não necessariamente é a reforma política que é debatida no Congresso José Elias – E tem mais um ponto que precisamos frisar. A lista fechada durante muito tempo foi defendida por partidos que historicamente são considerados partidos com maior organicidade, partidos menos fisiológicos e mais institucionalizados, como, por exemplo, o Partido dos Trabalhadores (PT). O nosso sistema político é ultra fragmentado, com cerca de 35 partidos. O eleitor quando vai escolher um candidato não necessariamente o vincula a seu programa partidário ou político. A ideia da lista fechada na teoria é muito interessante, porque facilitaria para o eleitor escolher de fato programas políticos, aquela proposta que lhe interessa. O problema está também na questão da cultura política brasileira. De que adianta fazer-


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Pedro Célio

Nesse instante estamos vivendo uma crise sem precedentes de credibilidade do sistema político por inteiro E em relação à questão do financiamento de campanha? Hugo Tomazeti – O tema central de tudo é a corrupção e o financiamento de campanha como porta de entrada para esses processos que vêm acontecendo em todo o nosso histórico de retomada da democracia desde 1988. O financiamento hoje já não é mais privado, ele é público e também é um financiamento que tem por base essa busca por esses partidos pequenos que são currais eleitorais e abocanham uma grande parte do fundo partidário. A discussão hoje é se voltamos com o financiamento privado de campanha – que ninguém está pensando muito nesse contexto da corrupção –, o financiamento público por meio do fundo partidário, que é bilionário, muito alto, ou se também abre para doação de pessoa física, que é algo que acontece naturalmente, mas que não há uma cultura de doação por pessoas físicas para campanhas no Brasil. Isso precisa de fato ser muito bem pensado e muito bem regulamentado. É como dizem: o diabo mora na entrelinha, na vírgula. Se isso não for bem pensado nessa discussão da reforma política podemos continuar abrindo brechas para que a corrupção continue e para que o uso da máquina pública e do fundo partidário por parte desses partidos pequenos se perpetue e continuemos nesse modelo, mesmo fazendo uma reforma política.

Pedro Célio – Complementa-se com uma ideia que é a seguinte: esse processo também chega nos grandes partidos porque eles controlam as máquinas dos governos estaduais, das grandes prefeituras com muitos recursos e têm mais poder de barganha no governo federal. Então são nesses locais que há interesse das empreiteiras e dos prestadores de serviço em fazer grandes contatos com a máquina pública. Se fôssemos fazer um levantamento quantitativo dos processos da Lava Jato, por exemplo, eu creio que mais de 90% atinge os grandes partidos. Num primeiro momento foi o

PT, depois o PP, e agora o PMDB e o PSDB estão na alça de mira. Esse é o lucro do sistema partidário brasileiro que está comprometido no seu núcleo, em sua sustentação, no seu coração principal. E é justamente aí que se emenda o problema de lista fechada para proteger um modelo de financiamento. O ex-presidente Fernando Henrique trouxe uma tese que, de certa forma, ajuda a confundir, ao invés de contribuir para o debate. É a tese de que toda contribuição de campanha, se declarada, deixa de ser caixa dois. Assim um “caixa um” seria legalizado e moralmente aceito. Isso é um absurdo tremendo, porque caberia depois ver um modo de vínculo entre o mandato e a origem do mandato.

José Elias – Em 2015 houve uma mudança no financiamento de campanha quando proibiu-se a doação de pessoas jurídicas. Em 2012, a campanha toda, contando todos os partidos, gastou em torno de R$ 6,1 bilhões. Em 2014, tivemos gasto aproximado de R$ 5,1 bilhões. Já em 2016, com essa restrição, tivemos uma queda brusca em relação ao gasto de campanha: foi para R$ 2,3 bilhões. Inclusive, o Gilmar Mendes, na época, disse que essa medida foi muito interessante. Mas se formos pensar em R$ 2,3 bilhões, para doação de pessoa física mais o fundo partidário, ainda é um gasto alto. Na minha concepção, o financiamento exclusivamente público de campanha favoreceria inclusive a coibição, por exemplo, do caixa dois de corrupção. Além disso, um dado curioso é que, em 2014, a JBS, que é investigada na operação Carne Fraca, foi responsável por 11% das doações de campanha. Tem conexão o financiamento da política. Essas empresas que injetam dinheiro na política fazem um investimento. E elas querem ter retorno. E os partidos retornam esse investimento em forma de favorecimento, muitas vezes. Eu defendo financiamento exclusivamente público de campanha porque isso inibiria caixa dois. E tem ainda um detalhe crucial: muitas vezes a pessoa física é liberada para poder doar e a pessoa jurídica simplesmente dissolve as doações em pessoas físicas. Esse debate sobre o financiamento envolve, necessariamente, outras esferas de poder, que não necessariamente tem que se concentrar em Brasília. Nesse momento temos duas vias de discussão: ou chamar uma assembleia constituinte ou plebiscito. É importantíssimo fazer com que a sociedade civil se aproxime mais desse debate, opine e delibere sobre isso.

Um reforma política que realmente aproximasse o poder público da sociedade é possível nesse atual contexto em que o sistema já caiu em descrédito?

Hugo Tomazeti – Será que temos que pensar em trazer de volta ou em fazer com que a população brasileira de fato se engaje na política? Porque aí é outro debate. Não se percebe historicamente um engajamento político por parte da população brasileira. Não existe essa cultura. Há um distanciamento e inclusive a ideia de que o político é um alien, que vem de longe, e ele é o corrupto, mas está muito afastado da vida pessoal, sendo que o deputado ou o vereador mora ao lado. É sempre muito importante pensar na prática política como algo que deve ser de fato colocado à disposição da população brasileira, deve ser ensinado. Inclusive vamos para outras pautas como, por exemplo, as reformas na educação. É preciso deixar muito claro que a população precisa de fato de noções de política para criar esse vínculo e essa cultura de participação popular na política. Hoje os partidos políticos têm tão somente essa ideia de um lugar de poder onde esses líderes maiores delimitam seu poder e dali vão para o Estado. E a participação popular fica relegada a segundo ou terceiro plano, que seria quando do voto, inclusive para a entrada de novas pessoas nesses quadros políticos. A juventude chamada a participar pelos partidos é sempre ligada a pessoas de família ou alguém que já tenha algum tino para política na vida universitária ou coisa do tipo. Não é aquele popular que

se sente impelido democraticamente a participar da vida partidária como algo para o bem comum.

Pedro Célio – A política brasileira é muito rica e diversificada. Isso reflete muito do país e da sociedade brasileira. Nós vivemos nos últimos anos um incremento de participação política e um grau de politização fabuloso, nunca antes visto no Brasil, e pouco visto na América Latina e em várias nações que se modernizaram. Países centrais tiveram poucos momentos de intensa participação como na experiência brasileira. Acontece que o sistema representativo tem desconexões com esse processo participativo e esse é o problema. Nós falamos muito aqui do tema do financiamento da campanha, lista fechada, cláusula de barreira, mas o Brasil precisa aproveitar a oportunidade e incentivar o debate da reforma política como um todo, que pode mexer em outros temas muito fortes e muito graves para que haja uma proximidade mais íntima entre esse sistema representativo, que é o sistema político e eleitoral e esse processo participativo da vida brasileira. O que interessa é aproximar isso. A representação proporcional por estados, por exemplo, faz com que sejam necessários 37 eleitores de São Paulo para ter o mesmo peso de um eleitor de Sergipe ou Roraima. Isso estabelece um grau de desigualdade dentro da cidadania brasileira de modo que os setores onde a população pobre consegue se organizar, se expressar culturalmente e lutar por seus interesses, têm menos representação.

Hugo Tomazeti

Se isso (financiamento de campanha) não for bem pensado nessa discussão da reforma política podemos continuar abrindo brechas para que a corrupção continue... José Elias – Esse é o momento de chamar a população para o debate, tentar fazer com que a população se engaje mais na construção desse projeto de reforma política. O essencial nesse momento para linkar esses diferentes tópicos é chamar urgentemente ou um plebiscito ou pelo menos tentar montar a ideia de uma assembleia constituinte, algo que eu acho muito difícil nessa atual conjuntura de uma Câmara dos Deputados ultra promíscua e muito corrompida. É um dilema para a sociedade civil organizada e para a população brasileira de uma forma geral.

Confira o programa Conexões, da TV UFG ,na íntegra

Mesa-redonda

mos um sistema de lista fechada e o eleitor ter que escolher partidos políticos, se nós temos ainda perpetuados partidos políticos pouco orgânicos? Partidos que são muitas vezes utilizados simplesmente como currais para que pessoas se elejam. Nós não temos partidos ideologicamente sólidos. Você acha mesmo que no Brasil os eleitores analisam cada um dos candidatos? Então a lista fechada é interessante, mas temos que nos atentar a nossa atual conjuntura política, na qual a lista fechada é proposta por pessoas investigadas. Então é grave.


Sociedade

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Gabrielle Carneiro/ Ascom-PP

atribui a violência ao preconceito que, segundo ela, vem sendo passado de geração para geração. “Todos somos filhos de Deus e também cidadãos brasileiros. Dizem que nossa religião é satânica, enquanto nós só pregamos o amor”. Segundo ela, a saída para mudar o atual cenário é a união entre as religiões, especialmente as de matriz africana, para garantir visibilidade e respeito.

Olhar para a cultura do outro

Quando não enxergamos a fé do outro Intolerância religiosa é uma realidade no país e movimentos buscam visibilidade para mudar cenário de violência Angélica Queiroz e TV UFG

Confira o documento

“T

oda pessoa terá direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Esse direito implicará a liberdade de ter ou adotar uma religião ou uma crença de sua escolha e a liberdade de professar sua religião ou crença, individual ou coletivamente”. O trecho do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos assegura as liberdades de expressão e de culto. Mas a realidade não obedece à regra. Diariamente são registrados casos de ofensas, abusos e atos violentos contra praticantes de religiões, especialmente as de matriz africana ou muçulmana. Segundo dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos, o Brasil teve 697 denúncias de intolerância religiosa entre 2011 e 2015. Os números, mesmo subnotificados pelo fato de muitas pessoas não formalizarem denúncias, alertam para a gravidade da questão.

Fundadora do Terreiro Axé Abassá de Ogum, de Salvador, a Yalorixá (sacerdotisa do Candomblé) Mãe Gilda, é um dos ícones da luta contra a intolerância religiosa no Brasil. Acusada de charlatanismo, teve sua casa atacada e pessoas de sua comunidade agredidas. Os acontecimentos agravaram seus problemas de saúde e ela faleceu no dia 21 de janeiro de 2000, vítima de infarto. A data foi oficializada como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa em 2007, pela Lei nº 11.635. Desde o falecimento da mãe, a Yalorixá Jaciara Ribeiro de Oxum trava uma longa batalha pelo combate à intolerância religiosa no Brasil que, para ela é, antes de tudo, uma luta pela garantia de direitos constitucionais. Mãe Jaciara explica que, no que diz respeito às religiões de matriz africana, o racismo e a discriminação que remontam à escravidão desde

o Brasil colônia, são os principais responsáveis pelo preconceito, junto com a ação de movimentos neopentecostais que se valem de mitos para “demonizar” e insuflar a perseguição a umbandistas e candomblecistas. Segundo ela, a mídia também é “perversa” e colabora para essa visão errônea. “Existe muita desinformação, as pessoas criticam sem saber o que essas religiões realmente preconizam, que é o culto às forças da natureza, o amor e a caridade”, explica.

“Não basta virar número”

Mãe Jaciara afirma que é preciso denunciar não só para colher dados, mas para mudar a realidade e dar visibilidade a esses casos. Para a Yalorixá não existe uma religião melhor do que a outra. “Quando alguém demoniza e não respeita o direito do outro de proferir a sua fé, isso não é Deus. Isso é qualquer outra coisa. Outros segmentos religiosos deveriam seguir seus credos e não demonizar as outras religiões”. Mãe Jaciara lamenta ainda a falta de representatividade das diversas religiões na política. “É muito difícil lutar se não temos quem assine por nós. A intolerância religiosa nos coíbe o direito até à educação, saúde e trabalho. Ela é perversa: mata e exclui”, observa, lembrando que o Estado brasileiro, em tese, é laico.

A militante da Rede Ecumênica da Juventude (Reju), Érica Pereira dos Santos, que é iniciada no Candomblé, afirma que casos de intolerância no Brasil são sistemáticos. “Andar na rua ainda é um grande constrangimento, passamos por hostilizações e xingamentos, além de pessoas querendo nos evangelizar e exorcizar. Isso sem falar da violação das casas e terreiros”. Segundo ela, a sociedade brasileira ainda não resolveu a questão do racismo e o Estado não

tem garantido que todas as religiões possam se mostrar igualmente. “Todos os dias temos que lutar e dizer que queremos existir. Não somos ouvidos e nossos direitos não são respeitados. O momento é de denúncia, mas não basta virar número. Queremos dar um passo à frente. Precisamos de respostas do Estado para construir uma sociedade mais justa e que respeite o outro”.

Visibilidade

Goiânia recebeu, no início do ano, o I Seminário do Fórum de Religiões de Matriz Africanas de Goiás. Organizador do evento, Luis Lopes Machado, o Mestre Luisinho, relata que seu próprio sofrimento o alertou para a necessidade de se buscar mais respeito para essas religiões. “O preconceito é calado, velado, mas existe e não para. Parece que nós não existimos, mas estamos aqui. Também estamos na sociedade, consumimos, produzimos, pagamos impostos. Existimos!”. Segundo ele, faltam políticas públicas, e um dos principais objetivos do seminário foi chamar os praticantes dessas religiões para a luta. “Não existem pessoas especializadas para receber nossas denúncias, mas temos que abrir a boca e achar o caminho”, afirma. Ainda segundo Mestre Luisinho, as lideranças radicais que demonizam outras religiões estão perdendo muito tempo. “Cada um tem uma linguagem para falar do seu Deus. A população está ficando cada dia mais carente de fé por conta desses conflitos. Vejo as pessoas perdendo tempo e gritando loucamente na rua”, lamenta. A umbandista Maria Mendes, conhecida como Maria Baiana, é ativista da luta contra a intolerância religiosa há mais de 50 anos. Ela também

O professor universitário Mayk da Glória Machado se reverteu ao islã há 15 anos (o termo reverteu é utilizado porque a religião considera que todos nascem muçulmanos, por isso não se convertem, se revertem). Ele conta que já sofreu preconceito e que ser muçulmano no Brasil é um exercício interessante, porque é necessário tirar os óculos de sua cultura e olhar para a origem do islã para compreender a religião de fato. “É preciso desconstruir a visão que temos do islamismo. Temos uma concepção ocidental do que é islã enviesada, contaminada com valores. Fazemos uma leitura totalmente etnocêntrica, partindo da nossa cultura”, explica. Mayk da Glória lembra que o islamismo prega respeito e boa convivência com as pessoas muçulmanas e não muçulmanas. “Na verdade, precisamos nos despir, suspender os nossos valores para compreender a cultura do outro. Se não compreendemos, podemos ter comportamento de intolerância, dentro do islamismo, cristianismo, judaísmo ou qualquer outra expressão religiosa”, afirma.

O professor, que também é psicólogo, explica que, partindo de uma análise no âmbito profissional, de acordo com a Psicologia, ódio, intolerância, fanatismo e racismo estão relacionados. Para a ciência, o ódio é um forte sentimento ligado à incompreensão de algum fator, seja ele externo ou interno ao sujeito e ao grupo que ele pertence, e a intolerância seria uma forma de expressão desse ódio. O fanatismo é a crença aguda de que apenas aquela forma de ver o mundo ou a visão de mundo que o sujeito detém é a forma correta. Nesse pensamento, qualquer outra forma de ver o mundo ou vivenciar experiências da vida humana estaria incorreta. “Se você é criado em um ambiente onde esse tipo de violência é naturalizada, a possibilidade de você se tornar um sujeito intolerante é maior”, alerta.

Denuncie! A intolerância religiosa e o racismo são considerados crimes e, portanto, passíveis de punição. A Ouvidoria Nacional da Igualdade Racial pode ser acionada pelo e-mail <ouvidoria@seppir.gov.br> e telefone (61) 20257000. Além da Ouvidoria, é possível encaminhar denúncias ao Disque 100, o Disque Direitos Humanos da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SDH), vinculada ao Ministério da Justiça e Cidadania. As ligações podem ser realizadas de qualquer lugar do Brasil, a partir de telefone fixo ou celular, 24h por dia, sete dias por semana. Na internet, a denúncia pode ser realizada no site do Ministério Público Federal ou pelo Safernet.

Denuncie MPF

Denuncie Safernet


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Fotos: Carlos Siqueira

Regional Catalão

Estudantes da Regional Catalão desenvolveram andador de baixo custo com canos PVC

Universidade

Engenharia sustentável

UFG adota Sistema Eletrônico de Informações A partir de setembro, processos administrativos da Universidade serão criados exclusivamente a partir da plataforma digital Luiz Felipe Fernandes

A

partir do dia 20 de setembro deste ano todos os processos administrativos da Universidade Federal de Goiás (UFG) passarão a ser produzidos e tramitados por meio do Sistema Eletrônico de Informações (SEI). Assim, não será necessário produzir, imprimir, assinar e digitalizar um documento. Eles serão produzidos a partir de modelos inseridos no próprio sistema, iniciando imediatamente a sua tramitação digital. Os processos em papel, atualmente em andamento, não serão digitalizados e continuarão tramitando em papel até que sejam finalizados e encaminhados ao Centro de Informação, Documentação e Arquivo (Cidarq) para arquivamento.

A comissão responsável pela execução da implantação e acompanhamento da implementação do SEI na UFG foi instalada no início do mês de abril. O coordenador da comissão e servidor do Cidarq, Fábio Nascimento Sousa, apresentou as principais características do software e as fases de execução na Universidade. Na ocasião, o reitor da UFG, Orlando Amaral, ressaltou a importância da iniciativa e a necessidade de somar esforços para que, até a implantação do SEI, a comunidade universitária - sobretudo professores e técnicos administrativos, num primeiro momento - esteja informada e capacitada para utilizar o sistema. Para isso, serão feitas ações de comunicação em toda a UFG, além de eventos para informar e capacitar o público-alvo. “O SEI provocará uma grande mudança na cultura organizacional da

UFG, estimulando os servidores a otimizar seus processos de trabalho e modernizando a gestão administrativa da Universidade”, afirma Fábio. Ele explica que o controle do trâmite dos processos administrativos continuará sendo feito no Sistema Integrado de Patrimônio, Administração e Contratos (Sipac), que perderá apenas a funcionalidade de abertura de novos processos. Cabe ressaltar que todos os documentos produzidos em papel deverão cumprir o prazo de guarda previsto na legislação pertinente. Nenhum documento em papel poderá ser eliminado caso seja digitalizado.

Eficiência administrativa

O SEI é um software de governo, desenvolvido pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) e distribuído gratuitamente para as instituições que firmam termo de cooperação técnica com o Ministério do Planejamento. As melhorias que eventualmente são feitas no sistema são distribuídas gratuitamente. Por ser um sistema que permite a criação e tramitação dos processos por meio do próprio sistema, há um ganho de tempo na tramitação dos documentos, contribuindo para o aumento da eficiência administrativa.

“Outra vantagem que pode ser citada é o fim dos extravios de processos, que algumas vezes ocorre com os documentos físicos no momento da tramitação entre as unidades. Haverá também uma economia de alguns materiais como capas de processos, carimbos, colchetes e, principalmente, de papel”, acrescenta Fábio.

Protótipo já foi testado e andador deve estar disponível em breve Luciana Gomides

O

uso de andadores ortopédicos é primordial para pessoas com alguma dificuldade de locomoção permanente ou temporária. No entanto, tais equipamentos não são obtidos tão facilmente por todos que necessitam deles, seja por motivos de disponibilidade ou preço. Atendendo a demanda da população carente, associada ao emprego de materiais sustentáveis, alunos da Regional Catalão da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolveram um modelo com maior possibilidade de acesso: o projeto Andadores com PVC. Trata-se da construção de um protótipo utilizando canos de policloreto de polivinila, normalmente descartados no meio ambiente de forma inadequada pela construção civil, para desenvolver o aparelho ortopédico.

O equipamento começou a ser construído em uma disciplina do curso de Engenharia de Produção, na qual os estudantes tinham como tarefa a elaboração de uma peça aplicando princípios sustentáveis. Orientados pelo professor André Carlos Silva, os alunos propuseram a montagem do andador tendo como matéria-prima canos PVC. Segundo o acadêmico Vi-

tor Calaça, “o peso e a praticidade de se trabalhar com o material, aliado ao seu poder de resistência, destacaram-se como características essenciais para a concepção da proposta”. Na construção do primeiro andador, além de sete metros de cano PVC, os aprendizes empregaram materiais simples, como calços, conexões, lixas d’água, cola, película sintética (overgrip), adesivos bicomponentes (durepoxi), luvas e tinta spray, aplicando técnicas de engenharia estudadas na disciplina. “Analisando sua estrutura, observamos a necessidade de complementá-la para não comprometer a segurança do usuário pelas forças possivelmente atuantes na frente e nas laterais”, explica Gabriela Rosa, aluna também envolvida na iniciativa. Assim, o equipamento recebeu treliças e pés antiderrapantes/ antideslizantes, antes de ganhar a pintura final. Após a apresentação do produto de encerramento da disciplina, o andador teve repercussão e reconhecimento por parte da Regional, resultando na proposta de desenvolvê-lo com fins beneficentes. O funcionamento do aparelho já foi devidamente testado e, em breve, poderá ser disponibilizado para a comunidade externa.


Ensino

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Tem gente nova na escola Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência aproxima acadêmicos de licenciatura à realidade da educação básica

Carolina Melo

T

Iniciado em 2009, o Pibid na UFG busca incentivar a formação docente em nível superior para a educação básica, promovendo a integração supervisionada dos bolsistas no espaço escolar. No Colégio Colemar Natal e Silva, desde 2014, quatro ações são desenvolvidas: A Hora do Conto, Aula de Libras em Sala de Aula, Aula de Libras para a Comunidade e O Ensino de Elis, a Língua de Sinais. Os 27 bolsistas de Letras Libras a cada seis meses passam por uma das atividades. Em frente à lousa, Pollyana Dias, de 23 anos, faz a leitura em voz alta da história de ficção e Vinícius Afonso de Camargo, de 28 anos, interpreta a narrativa em Libras. Do outro lado, os alunos escutam atentos enquanto tentam imitar os gestos que iluminam o conto na língua dos sinais. Orgulhosa da vivência, a professora de Literatura da UFG, Sueli Regino, uma das coordenadoras do subprojeto do Pibid, observa cada detalhe. “Percebemos um salto de desenvolvimento tanto dos acadêmicos surdos quanto dos ouvintes que participam do Programa. Aprimoram a leitura, a linguagem e a interpretação. Ensinar é prazeroso e eles têm acesso a isso. O contato com os alunos ajuda a formar o professor”, afirma a docente. Além de promover a prática de ensino-aprendizagem dos universitários, o projeto contribui para a melhoria na comunicação entre os alunos. “Foi surpreendente perceber que as crianças ouvintes iam reproduzindo os gestos e aprendendo Libras. Com isso, a inclusão é realizada de forma entrelaçada entre crianças ouvintes e surdas, de forma natural”, observa. O Pibid também estimula a criação de experiências metodológicas, tecnológicas e práticas como contribuição

Segundo o professor de Matemática, o Programa permitiu que, ainda enquanto estudante, adentrasse ao universo da educação básica, planejando aulas, atuando e avaliando os resultados propostos. “Ele me abriu as portas para o universo da pesquisa científica aliada à prática pedagógica. Pude ter o contato direto com professores que já atuavam no ensino básico e repensar as práticas de ensino, antecipar a reflexão e criticidade sobre a prática de ser professor de Matemática”, analisa Greiton Toledo.

Durante sua participação no Pibid, a partir da experiência em sala de aula junto com os professores da escola, eram realizados semanalmente encontros com a coordenadora e a supervisora do subprojeto Pibid/ Matemática para discussões críticas, reflexivas e fundamentadas em busca de atividades pedagógicas lúdicas. O caminho iniciado pelo egresso da UFG continua rendendo frutos. Esse

Você Sabia? A Elis, escrita da língua de sinais, foi criada em 1997 pela professora da UFG Mariângela Estelita Barros. A Hora do Conto, do curso de Letras Libras, começou como projeto de extensão, foi incluído como subprojeto do Pibid e hoje também é programa na TV UFG. Esse ano foi lançada a biblioteca virtual de acervos de livros audiovisuais juvenis para surdos e deficientes visuais, Bibliolibras, idealizada pela professora da UFG, Sueli Maria de Regino.

ano, o projeto desenvolvido pelo professor Greiton foi selecionado pelo Desafio Aprendizagem Criativa Brasil, da Fundação Lemann e MIT Media Lab, para receber uma Creative Learning Fellowship, que ajudará a implementar o trabalho. Fotos: Adriana Silva

oda terça-feira a rotina do Colégio Estadual Colemar Natal e Silva é transformada pela presença de cinco acadêmicos do curso de Letras Libras, dispostos a entrar em sala de aula para contar histórias de um jeito diferente. Com gestos que comunicam a narrativa lida em voz alta, os estudantes entram nas salas do 3º ao 5º ano para ler contos dos Irmãos Grimm em Libras. Parte do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), o projeto aproxima universitários do curso de licenciatura da realidade escolar ao mesmo tempo em que contribui para diminuir o distanciamento comunicativo entre alunos ouvintes, surdos e professores.

acadêmica à escola. O subprojeto do curso de Letras Libras proporciona aos alunos surdos e ouvintes do colégio estadual o suporte da biblioteca virtual de livros audiovisuais em Libras, Bibliolibras, idealizada pela professora da UFG, Sueli Regino, e também o acesso à Elis, escrita da língua de sinais criada pela professora da UFG, Mariângela Estelita Barros. “Alunos surdos têm dificuldade em aprender a escrita do português, pois não escutam a fonética da língua. A Elis é uma grande contribuição”, observa a professora do Colégio Estadual Colemar Natal e Silva e supervisora do Pibid, Rosilda Silva Ferreira Soares.

rimentar outras práticas de ensino junto aos alunos”, afirma.

Da academia para a sala de aula

Um dos questionamentos sobre a efetividade do Pibid diz respeito ao futuro do discente, ou seja, sobre o ingresso do acadêmico no ensino público enquanto professor. Entre os objetivos do Programa está a melhor formação dos alunos das licenciaturas para a atuação na educação básica. Segundo a coordenadora institucional do Pibid/UFG, Janice Lopes, ainda não se tem uma base de dados sobre esse acompanhamento. “É preciso considerar que mesmo tendo vontade de seguir a carreira docente, há os que acabam fazendo outras opções por razões diversas, como a falta de concursos e baixa expectativa de valorização da categoria”. Mas, segundo Janice, não são poucos os relatos de ex-pibidianos em regências nas escolas públicas do Estado. O professor de Matemática da rede municipal de Senador Canedo, Greiton Toledo, por exemplo, participou do Pibid nos dois últimos anos da licenciatura, em 2011 e 2012, e acredita que o Programa é um campo fértil de aprendizado, de discussão e aprimoramento da prática docente. “Foi a base e o alicerce para a formação do professor que sou”. Atuando na Escola Municipal Irmã Catarina Jardim Miranda, Greiton desenvolveu em 2015 o projeto Mattics, “Matemática e games? Eis a questão!”, que uniu o ensino à linguagem de programação. “Na construção dos jogos digitais, os alunos aprendem matemática brincando”. O projeto lhe rendeu em 2016 o Prêmio Educador Nota 10, concedido pela Fundação Victor Civita em parceria com a Fundação Roberto Marinho. “Sempre fui muito crítico em relação ao ensino engessado da Matemática e o Pibid me abriu as portas para fazer essa reflexão de forma mais aprofundada e expe-

Quatro acões são desenvolvidas no Colégio Colemar Natal e Silva

Histórico Pibid - O primeiro edital do Pibid foi lançado em dezembro de 2007, destinado às licenciaturas das Ciências Naturais e Matemática. - Na segunda edição, em 2009, a UFG participou com oito licenciaturas nas regionais Goiânia, Catalão e Jataí. - Atualmente todas as licenciaturas da UFG participam do Pibid em 81 escolas parceiras. - Em 2011 foi lançado o primeiro edital do Pibid Diversidade, que atende os cursos de educação intercultural e do campo. - As bolsas tem prazo de até 48 meses destinadas aos licenciados, coordenadores de área (professores do ensino superior) e supervisores (professores da educação básica). - No último edital de 2013 foram aprovadas 87.060 bolsas nacionalmente, destas, 70.192 destinadas aos licenciados. - Na UFG, há 44 subprojetos; 660 bolsas de Iniciação à Docência; 118 de supervisor; 67 de coordenação de área; quatro de coordenação de gestão; e uma de coordenação institucional. - Levando em consideração o Pibid Diversidade, atualmente há mais de 90 mil bolsistas em todo o País. - Em 2014 foi criado o Fórum Nacional dos Coordenadores Institucionais do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Forpibid), que tem se mobilizado, inclusive politicamente, em defesa da manutenção e ampliação do Pibid, após cortes nos repasses de verbas de custeio, redução do número de bolsas e ameaças de descontinuidade do Programa.


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Angélica Queiroz

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oi sancionada, no final do mês de março, a Lei da Terceirização (lei nº 13.429), que autoriza a terceirização irrestrita do trabalho no Brasil, o que inclui a chamada atividade-fim, essência de qualquer empresa. Mas o que isso significa? O que pode mudar na vida do trabalhador? O Jornal UFG conversou com pesquisadores do Núcleo de Estudos sobre o Trabalho (Nest) da Faculdade de Ciências Sociais para saber o que dizem as pesquisas sobre o assunto e qual o futuro que se delineia para os próximos anos. Para eles, a terceirização está diretamente relacionada com a precarização do trabalho e significa a retirada de direitos históricos conquistados pelos trabalhadores brasileiros.

O processo de terceirização tem como principal característica o repasse de determinadas etapas do processo de produção ou de serviços a outras empresas que, é claro, visam lucro. Revalino Freitas, professor do Nest, afirma que a terceirização em si não é nenhuma novidade e já existiu em outros momentos em diversas sociedades, atingindo, historicamente, principalmente as populações mais vulneráveis do mercado de trabalho: mulheres, negros, jovens e migrantes. “Existe uma tendência, de tempos em tempos, do sistema retomar formas pretéritas de produção que julgávamos já ter superado”, explica. A grande mudança com a sanção da lei é que antes só era permitido que fossem terceirizadas as atividademeio da empresa, a partir da ideia de que uma empresa se concentraria apenas em sua atividade-fim e poderia descentralizar as outras atividades. “Agora a empresa pode terceirizar tudo. Isso quer dizer que podem existir empresas sem nenhum empregado”, ressalta Revalino. “A legislação trabalhista já era burlada pelas empresas de diversas formas, mas antes existia a possibilidade de as pessoas exigirem seus direitos na justiça do trabalho. Agora não”, completa a professora Tatiele Pereira de Souza, também do Nest.

Os pesquisadores ressaltam que experiências e pesquisas sobre a terceirização mostram inúmeros prejuízos ao trabalhador, como remuneração mais baixa, já que parte do dinheiro vai para a empresa intermediadora; perda de benefícios como plano de saúde, vale alimentação e transporte; rotatividade; falta de acesso a equipamentos de proteção individual e, consequentemente, mais acidentes graves de trabalho. Além disso, o trabalhador terceirizado normalmente não se sente parte da empresa, não cria vínculo e não “veste

a camisa”. Isso impacta na qualidade do trabalho e, consequentemente, do produto oferecido. Assim, o consumidor vai se distanciando cada vez mais daquilo que é a própria empresa e perde a referência com o produto.

Empresa 1

Contrato

A empresa 1 contrata uma outra, a empresa 2, especializada em um serviço

É firmado um contrato entre as partes. A empresa 1 pagará a empresa 2 pelo serviço prestado

Uberização do trabalho

Revalino explica que o capital atingiu, nos últimos anos, uma nova fase e hoje supera o Estado como principal ator. Para ele estamos assistindo a um processo de erosão dos direitos sociais e trabalhistas, o que muitos pesquisadores têm chamado de uberização do trabalho, em referência ao modelo de organização e remuneração adotado pela Uber, que distancia-se da regulação do assalariamento formal, acompanhado geralmente pela garantia dos direitos sociais e trabalhistas. “Esse modelo é uma desregulação de tudo e tira do Estado a responsabilidade de intervir, precarizando as relações de trabalho. Os principais prejudicados são os próprios trabalhadores, que perdem direitos e ainda acham que estão se dando bem porque é essa a ideia que as empresas vendem”. O professor afirma que a mudança atende aos interesses dos empresários e acaba com a insegurança jurídica deles, ao mesmo tempo em que transfere essa insegurança aos trabalhadores, que perdem o direito de reclamar vínculos trabalhistas, dando total liberdade aos empresários. “A insegurança jurídica agora está completamente do lado dos trabalhadores”, elucida.

Tatiele explica que, com o aval da lei, agora muitas empresas vão poder terceirizar todo o serviço, com subcontratos e a “pejotização” do trabalhador, que é tratado como pessoa jurídica e, assim, não tem direitos trabalhistas. A professora exemplifica o processo de subcontratação com a pesquisa de doutorado de Jaqueline Vilasboas, realizada sobre o polo de confecções de Jaraguá. A pesquisa revela que, em muitos casos, todo o processo de produção é subcontratado, sem custo trabalhista. “O trabalhador tem certo vínculo com as empresas, prazos e modelos a cumprir, mas sem nenhuma relação contratual e nenhum direito. Isso pode significar aumento da produção, mas em que condições e a partir de quais consequências para os trabalhadores?”.

Fragilidade brasileira

Os pesquisadores chamam ainda a atenção para a fragilidade do merca-

Empresa 2 A empresa 2, a chamada terceirizada, será responsável diretamente pela contratação do trabalhador e deve arcar com todos os tributos e direitos trabalhistas

Imagens: Freepik

Para especialistas, mudança vai impactar diretamente nas relações de trabalho

Sociedade

Terceirização rima com precarização

Trabalhadores O trabalhador contratado pela empresa 2 fornece a mão de obra para a empresa 1, mas não tem nenhum vínculo empregatício com a empresa 1

do e do sistema de proteção social no país. “No Brasil o trabalho não é um direito, apesar do que diz a Constituição. A cultura é do trabalho enquanto obrigação. Priorizamos o trabalho intelectual e não valorizamos os outros. Nessa condição, a ideia de terceirização é aceita de maneira branda porque aqui o trabalho sempre foi fragilizado, desmerecido e desrespeitado”, lamenta Revalino. “Além disso, num momento de forte desemprego como o que estamos vivendo, as pessoas são obrigadas a fazer concessões mil por conta da concorrência pela vaga”, completa.

Tatiele pesquisou, em seu trabalho de mestrado, a construção de identidade e organização do trabalho de servidoras terceirizadas da limpeza em três instituições. A conclusão é que essa flexibilização do trabalho acarreta em diversas perdas para esses trabalhadores, que, como estão vinculados a mais de uma empresa, não sabem sequer de quem cobrar direitos. “A relação entre trabalhador e capital deixa de ser direta”, resume. “A gente já falhou em permitir a terceirização de atividade-meio, como se uma função fosse mais importante que a outra, quando todas são essen-

ciais para o bom funcionamento de uma empresa”, observa.

Reforma da Previdência tem tudo a ver

Tatiele ressalta ainda que o conjunto de reformas propostas pelo governo, como a trabalhista e a da Previdência, estão relacionadas com a aprovação da Lei da Terceirização. Ela explica que uma das consequências da terceirização é a rotatividade dos trabalhadores. “Sendo assim, eles vão ficar períodos sem contribuir com a Previdência. Junte isso com o aumento do tempo de contribuição proposto e a possibilidade de trabalhadores terceirizados terem acesso a aposentadoria integral será mínima”. Segundo ela, essas pessoas que já estão em condições de trabalho altamente precarizadas vão ficar em uma situação ainda mais vulnerável. “Esse conjunto de reformas impacta em toda a possibilidade de construção de uma sociedade pautada na ideia de um estado de bem-estar social, que garanta direitos sociais e trabalhistas, o direito à cidadania do indivíduo”, afirma Tatiele. “Ou seja, é um sistema perverso para o trabalhador em todos os sentidos”, conclui Revalino.


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Fotos: Ana Fortunato

Cidade

Repertório

Goiânia traduzida em nove linguagens Pesquisa identifica um diverso repertório arquitetônico, composto por casas construídas nas quatro primeiras décadas da capital

Patrícia da Veiga

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oiânia é uma cidade embalada pelo ideário moderno desde o nascimento. Nesse sentido, valores como desenvolvimento, aceleração, acumulação e funcionalidade sempre fizeram parte de sua estrutura. Em apenas oito décadas, a cidade cresceu e se transfigurou intensamente, produzindo um patrimônio arquitetônico marcante, variado e de múltiplas influências estéticas. Empenhado em identificar, registrar e tornar pública essa trajetória, antes que ela se apague no tempo e no próprio espaço, o Laboratório de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Artes Visuais (LAU/FAV) produziu um inventário reunindo informações sobre 339 casas construídas entre as décadas de 1930 e 1970.

O estudo, intitulado Inventário de Arquitetura Residencial Unifamiliar em Goiânia, foi feito em 2015 e 2016, em cooperação técnica com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e com o apoio do Ministério Público de Goiás. Na oportunidade, uma equipe de 25 pessoas, coordenada pela professora Eline Maria Moura Pereira Caixeta, organizou um detalhado banco de dados sobre o núcleo inicial da cidade e seus arredores, com o objetivo de fornecer subsídios a futuras pesquisas e a possíveis ações de preservação do patrimônio.

Baseado em investigações feitas entre os anos de 2007 e 2015, o grupo delimitou como área de atuação principal os setores Central e Sul. Nestes dois bairros foi feita uma varredura completa, visitando os espaços, fotografando-os e analisando-os em relação à paisagem e ao contexto de seu entorno. Neste processo, foram identificados 298 imóveis, entre bens isolados e conjuntos de casas. Uma segunda área estudada compreendeu partes dos setores Aeroporto e Oeste. Nesse território, a identificação das casas se deu por meio de derivas direcionadas e levantamento de dados. A partir de arquivos históricos, foi possível reconhecer edificações também nos setores Marista, Bueno e Universitário.

O grupo utilizou como metodologia de trabalho o Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão do Iphan (SICG). Essa ferramenta, uma vez adaptada às necessidades do Inventário e às características de Goiânia, possibilitou a organização das informações e gerou 25 mapas conceituais da cidade. Das 339 residências, 180 foram selecionadas para um estudo mais aprofundado e 29 receberam fichamento completo, tendo suas plantas reconstituídas. O patrimônio investigado foi valorado de acordo com critérios técnicos, tais como excepcionalidade, potencial de risco, estado de conservação e estado de preservação.

A emblemática residência do escritor Bariani Ortêncio, na Praça Cívica

A surpresa do estudo é que Goiânia não possui somente um conjunto arquitetônico Art Déco. Possui, em verdade, um variado repertório que vai desde o Eclético Neocolonial até a mais Modernista das casas. Ao todo, foram encontradas nove linguagens diferentes (veja mais no quadro ao lado) espraiadas por uma faixa territorial que vai além do núcleo já tombado. E tudo isso, para a professora Eline, diz respeito a um mesmo espírito forjado na construção da nova capital. “Independentemente do estilo, todas as casas são modernas, pois têm uma mesma relação com a cidade e seu contexto”, afirmou.

Outra revelação do inventário, que não se limitou a estudar as casas e fez uma leitura histórica, iconográfica e sensorial da paisagem urbana como

um todo, é que há um movimento de especulação imobiliária no entorno dos bens históricos – o que os torna constantemente ameaçados. “O Setor Sul, por exemplo, teve a sua área verde drasticamente reduzida. Essa transformação me deixa muito assustada”, confirmou a superintendente do Iphan em Goiás, Salma Saddi. De acordo com Dafne Marques de Mendonça, arquiteta do Iphan e supervisora do trabalho, é da dinâmica de Goiânia a transformação acelerada, o que o inventário levou em conta, mas isso não impede que se lute pela preservação do patrimônio. “Goiânia muda rápido e essa dinâmica constitui a sua história. Mas há muito ainda a se reconhecer. O inventário foi importante para nos proporcionar um apuramento desse olhar”, declarou.

Uma casa normanda por entre prédios na Avenida Tocantins

Exemplar do estilo Eclético Missões na Rua 24

Muitos imóveis ainda precisam de restauração


13

Casa onde Nancy Neo sempre viveu com a família conserva originalidade

Memória viva

De sua infância, ela se lembra da árvore que já dava frutos no quintal e do alpendre que recebia os visitantes. Da juventude, Nancy recorda de uma reforma que modificou a fachada da casa e transformou “em tudo reto”, sem os portais suntuosos e arredondados que ampliavam a entrada da residência – o que se vê ainda hoje. Da vida adulta, Nancy conta da edícula construída nos fundos do terreno, que já foi uma academia, depois serviu de moradia para sua irmã. “Mas a casa ainda está conservada, os tacos, os vitrais e os portais são os mesmos”, informou. Lá dentro, móveis de 1960, 1970 e 1980 convivem com os porta-retratos, os tapetes e as cortinas de décadas anteriores. “Aqui estão minha mãe, meu pai, meus irmãos e eu, essa bebezinha”, apontou para a foto. Bem perto de Nancy está o antigo lar de uma família cujos pais já faleceram e cujos filhos já se mudaram. No lugar há uma clínica de otorrinolaringologia e uma reforma em andamento. Arnaldo Mascarenhas Braga, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU), é o responsável pelo imóvel, herdado por sua esposa. “Aqui ficou abandonado por muito tempo, mas hoje estamos tentando revitalizar”, apresentou. Ele convidou nossa reportagem para entrar e conhecer o interior da residência, classificada como Eclética. “Essa escada de mármore eu consegui manter”, apontou. Também recebeu visita Maria Ludovico, professora de música aposentada da UFG e sobrinha-neta de Pedro Ludovico Teixeira. Aos 83 anos, ela mora com parte da família em uma

A permeabilidade do solo e a conservação de materiais foram outros aspectos apontados pelo Inventário como algo comum entre as casas. Todas as residências visitadas pelo grupo de arquitetos apresentaram o jardim frontal ou o quintal já reduzidos (ou até mesmo suprimidos) pelo cimento, o que diminui a área permeável dos lotes. Por outro lado, a equipe encontrou várias residências com pisos intactos de madeira (tábua corrida, tacos em espinha de peixe ou em losangos), granito, lajota cerâmica, cacos cerâmicos e azulejos.

Conheça as linguagens arquitetônicas encontradas em Goiânia pelo Inventário da Arquitetura Moderna:

Fotos: Divulgação

Que histórias de vida podem ser localizadas junto ao patrimônio arquitetônico de Goiânia? Quem ainda reside nessas casas? Que lembranças guardam? Ao circular pela cidade, a equipe do Jornal UFG conheceu Nancy Neo de Almeida, professora aposentada da Escola Superior de Educação Física e Fisioterapia do Estado de Goiás (Eseffego) e egressa do curso de Letras da UFG. Aos 69 anos, ela não se lembra de habitar outro endereço que não o atual: Rua 8, entre a Rua 5 e Avenida Paranaíba, no Setor Central. “Quando meu pai construiu essa casa, não tinha nada em todo o quarteirão”, afirmou.

Nos três casos, foi possível identificar um aspecto apontado pelo inventário que diz respeito à consciência de preservação das casas. Os moradores ou ex-moradores sabem reconhecer a beleza e a qualidade dos materiais originais e primam pela sua sobrevivência, de algum modo. Mas houve casos diferentes, conforme relatou a professor Eline Caixeta na oportunidade de lançamento do Inventário: “encontramos os que não compreendem o valor da residência enquanto patrimônio histórico, em função da

aparência da casa, por terem menor porte e fachada simples. Não por acaso, essas residências apresentam uma maior quantidade de modificações”. Para ampliar tal entendimento, o grupo pretende, em breve, realizar uma oficina com a comunidade.

Cidade

das primeiras casas construídas na Rua 24. Coberta por mangueiras, a edificação simples mantém a fachada original, bem como as janelas e portas de madeira. Apenas uma grade dividindo o quintal e a rua foi construída com o correr dos anos.

Brutalista Apresenta o mesmo intuito de inovação da casa modernista, com ênfase na exposição da estrutura do edifício e na valorização estética de determinados materiais e técnicas, como o uso aparente dos materiais construtivos (concreto, tijolos maciços e estrutura metálica) e instalações à vista.

Eclético Tipológico Neocolonial Casas que reúnem elementos ornamentais inspirados na arquitetura civil e religiosa do período colonial brasileiro, dentro de uma nova síntese formal e espacial.

Modernista de Transição Residências que se aproximam do vocabulário modernista, porém de modo epidérmico, não apresentando inovações formais, funcionais ou construtivas, características da casa modernista.

Casa-Tipo O Inventário da Arquitetura Moderna atribuiu essa denominação a residências construídas pelo governo do estado para servir como moradias de funcionários durante a construção da nova capital. Houve diferentes variações de casas-tipo. Estas casas funcionaram como modelos de uma nova forma de habitar e construir.

Eclético sintético Casas que combinam elementos de vários estilos e períodos diferentes, buscando o aprimoramento da edificação.

Moderno Déco Está entre o ecletismo e modernismo. É eclético por misturar elementos decorativos geometrizados, tomados de diversas culturas, e é modernista por aproximar-se da estética da industrialização, com uma tendência à abstração na linguagem.

Eclético Tipológico Missões A intenção desse estilo é produzir uma arquitetura nova ligada a temas da cultura hispânica.

Eclético Tipológico Normando Casas inspiradas nas construções da região da Normandia, na França, cuja a imagem mais marcante é a cobertura bastante inclinada no sótão e a construção em enxaimel, muitas vezes substituindo os caibros aparentes de madeira por sua representação em argamassa.

Modernista As residências modernistas buscam romper com os padrões dominantes, inovando na organização dos espaços, na utilização de novos materiais e técnicas e na adoção de uma linguagem abstrata, desvinculada do passado.


14 Universidade

Ciência? Com cerveja! Pela primeira vez em Goiânia, Pint of Science leva cientistas a bares para divulgar seus trabalhos de forma descontraída

Angélica Queiroz

I Acompanhe o site do festival

magine um grande festival de música em que os artistas se apresentam simultaneamente em vários palcos a cada noite. No entanto, em vez de artistas, imagine que há pesquisadores conversando com o público. E, no lugar da música, há Biologia, Computação, Engenharia, Estatística, Filosofia, Física, História, Matemática, Química, Sociologia e muito mais. Esse é o Pint of Science, uma iniciativa que vai unir Brasil, Alemanha, Austrália, Japão, Canadá, Espanha, França, Irlanda, Itália, Tailândia e Reino Unido nos dias 15, 16 e 17 de maio. Serão mais de 100 cidades espalhadas por esses países participando deste que é um dos maiores festivais de divulgação científica do mundo.

Este ano Goiânia participará pela primeira vez do festival, realizado localmente pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com a colaboração do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade. Durante as três noites do festival, a população de Goiânia poderá participar de seis debates (veja box). Em cada local e dia haverá dois cientistas que, após suas apresentações, ficarão disponíveis para perguntas da plateia. Os assuntos escolhidos para esta edição são: paleontologia, evolução humana e conservação da natureza, desenvolvimento de vacinas, física quântica, miniaturização de laboratórios para testes rápidos e nanotecnologia (veja a programação completa ao lado). O evento é gratuito e as pessoas só pagarão o que consumirem nos locais em que ocorrerá cada bate-papo.

Ciência não é algo chato?

Em cada uma das cidades que realizarão o Pint of Science, existe um grupo de voluntários trabalhando para organizar os diversos batepapos com os pesquisadores. Em Goiânia, a programação é coordenada pelo professor do Instituto de Ciências Biológicas da UFG, Adriano Melo. O professor acredita que muito sdos problemas que temos poderiam ser resolvidos ou amenizados com governantes e populações mais familiarizados com conceitos científicos. “Ciência é algo fascinante, está no nosso dia a dia e combina muito bem com uma cerveja num bom bar!”

Para Adriano esta será uma excelente oportunidade para entender um pouco mais do que os cientistas fazem na Universidade. “As pessoas poderão conferir desde temas específicos até aqueles bastante amplos e ver que ciência é legal e que os cientistas também vão a bares!”.

Imagens: Divulgação

De acordo com a coordenadora nacional do evento, Natalia Pasternak,

a ciência brasileira enfrenta uma de suas maiores crises de financiamento e credibilidade e, por isso, divulgá-la nunca foi tão importante e tão urgente quanto agora. Para ela, o Pint of Science cria a oportunidade para o estabelecimento de uma comunicação mais informal, descontraída e humana entre os cientistas e a população: “É um momento para nos unirmos e fazermos um brinde à ciência, rompendo todas as fronteiras”, celebra. “O Brasil é o primeiro país sul-americano a fazer parte do festival e o sucesso estrondoso de 2016 mostra que os brasileiros amam ciência e querem realmente matar sua sede de conhecimento”, completa Michael Motskin, diretor e fundador do Pint of Science.

Em 2016, 7,3 mil pessoas participaram do evento, em sete cidades brasileiras

Ele lembra que, infelizmente, nem todos tivemos boas experiências nas aulas de ciência, mas ela está no nosso dia a dia mesmo quando não a percebemos, por exemplo, em nossos smartphones ou no remédio da farmácia

O professor explica que o Pint of Science é um evento de cientistas para não cientistas. “O objetivo é popularizar a ciência de um modo descontraído”, resume. Segundo ele, as palestras são bastante variadas e envolvem desde assuntos tecnológicos, como o desenvolvimento de testes clínicos em chips de papel com custo muito reduzido até assuntos mais amplos como a evolução humana e como salvar nosso planeta dos danos ambientais. “As palestras terão linguagem acessível para quem não é especialista e oferecerão exemplos sobre como o tema em questão afeta nosso dia a dia”, detalha.

Como tudo começou A ideia surgiu quando dois pesquisadores do Imperial College London organizaram um evento chamado Encontro com pesquisadores, em 2012. A experiência resultou na proposta de que pesquisadores saíssem de seus laboratórios para conversar com as pessoas. Nasceu, assim, o Pint of Science, que se espalhou pelo mundo. Em 2015, o evento foi realizado pela primeira vez no Brasil pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos.

Cientistas não são nerds?

Segundo Adriano Melo o festival vem para ajudar a desfazer o mito de que todos cientistas são nerds. “Alguns cientistas são nerds (e isso não é algo ruim!) e outros arrogantes (isso é muito ruim). Mas a maioria dos cientistas são pessoas divertidas e acessíveis, que gostam de falar do seu trabalho, de encontrar soluções para os problemas da sociedade. Cientistas, como qualquer classe de profissionais, são pessoas normais”, observa. O doutorando em Ciência da Computação (INF/UFG), Alexandre Barbosa, também participa da comissão local de organização do Pint of Science Goiânia, e considera que o evento possui vários aspectos legais, como esse de levar o cientista para além da universidade, desmistificando aquela figura de cientista que fica trancafiado no laboratório. “Cientistas são pessoas comuns como todos nós, que vão também ao bar tomar cerveja com amigos, e que conversam sobre futebol, política e, claro, ciência!”. Para Alexandre, a realização do Pint of Science em Goiânia pela primeira vez vem para fortalecer a divulgação científica local e contribuir para mostrar a relevância que a ciência tem para o desenvolvimento da sociedade. “Uma sociedade bem informada realiza melhores escolhas. Espero que se torne uma tradição aqui”, afirma.

Confira a programação de Goiânia Segunda-feira, 15/5, 15/5, às às 19h30 19h30 Segunda-feira, - Entre Dinossauros e Mamutes: uma conversa com a Ciência do passado Local: Quiosque Colombina - Desmi(s)tificando a física quântica Local: Matuto Bar Terça-feira, 16/5, 16/5, às às 19h30 19h30 Terça-feira, - Nosso lugar na natureza: de onde viemos e para onde vamos Local: Quiosque Colombina - Um laboratório na palma da mão Local: Matuto Bar Quarta-feira, 17/5, 17/5, às às 19h30 19h30 Quarta-feira, - Da Tuberculose à Zika: Potenciais tratamentos, vacinas e outros petiscos Local: Quiosque Colombina - Como a nanotecnologia pode influenciar o tratamento de doenças? Local: Matuto Bar


15 CAMINHOS DA PESQUISA

Copiei, e daí? Tatiana Duque Martins – Presidente do Comitê de Integridade Acadêmica da UFG

O Macloys Aquino / Adufg

poder destrutivo das más condutas nas atividades acadêmicas não é tão óbvio para a maioria das pessoas. Muitas das más condutas cometidas hoje por pesquisadores e estudantes ocorrem por desconhecimento ou desatenção e, mais importante, sem a intenção. Por isso, o que tenho observado é que, uma vez identificada uma má conduta, ela não é reincidente, é fato aprendido e internalizado. E, o melhor, aquele indivíduo será um multiplicador do conhecimento, orientando seus colegas, culminando na prevenção à má conduta.

*Daniel Christino

Vivendo entre as ruínas: o sentido de Universidade na era da pós-verdade

O

termo “pós-verdade” ganhou fama depois que a Oxford University Press o escolheu como palavra do ano de 2016. Segundo o jornal The Guardian, o uso do termo, em inglês, aumentou em até 1.000% em relação a 2015, especialmente durante a eleição americana e do plebiscito para a saída do Reino Unido da União Europeia. Eis a definição dada pelo Oxford Dictionary: “que se refere a ou denota circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e crenças pessoais”. Há nesta escolha um esforço de tematizar o impacto da tecnologia em nossos hábitos de consumo de informação e suas repercussões na arena política e cultural que viraram as redes sociais. Há, claro, o pressuposto de que “nós somos aquilo que consumimos”, especialmente se o produto consumido for informação. Mas por que nós, da Universidade, deveríamos nos importar com o fenômeno ao qual o termo está associado para além de um interessante como objeto de pesquisa? O sentido imediato evocado pela definição é o de que, quando falamos em política, crenças e afetos são mais decisivos para a tomada de atitude do que fatos objetivamente comprováveis. Esta não é, todavia, uma afirmação muito escandalosa. O peso das emoções em nossas escolhas já era estudado entre os gregos na retórica. Aristóteles afirmava que o processo de escolha moral era precedido pela prudência e pelo hábito, sendo este último um exercício constante imposto pela lei e pela educação desde a infância. Do mesmo modo, um famoso estudo em psicologia social chamou de “dissonância cognitiva” o sentimento de desconforto que alguém sente ao ter crenças contraditórias ou, mais importante neste caso, crenças contraditas pelos fatos. Nestes casos ou o sujeito muda suas convicções ou nega os fatos. Especialmente para nós, da Universidade, o problema está na ideia de que é possível agir socialmente como se a verdade não existisse ou fosse irrelevante. Na era da pós-verdade apenas as narrativas têm importância e o fato de se gostar ou necessitar de uma informação é mais importante do que sua verdade. Negar os fatos em detrimento

de uma versão mais aprazível da realidade corresponde, em um nível individual, a regredir à idade na qual, por um ato de vontade, desejaríamos tornar o mundo mais agradável aos nossos desejos, prendendo a respiração até que os fatos recuassem ante nossa teimosia. O problema é que sem a referência normativa da ideia de verdade – da ideia de que em cada proposição sobre o mundo seja possível determinar, com um razoável grau de certeza, se o conteúdo desta proposição é ou não o caso –, a arena social certamente sucumbirá ao mais forte ou ao mais dissimulado; aos demagogos e aos tiranos. É o contrário do que significa uma Universidade.

A era da pós-verdade pressupõe o ocaso da verdade como valor estruturante. Pressupõe, igualmente, a destruição do espírito da Universidade. Sem o ethos da verdade que sustenta todo o arcabouço da pesquisa científica (não importa o quanto seja conflituosa a determinação filosófica de seu caráter epistêmico), andaremos entre os escombros daquele projeto humboldtiano que procurava, ecoando um apelo muito mais antigo, aliar o verdadeiro, o bom e o belo numa síntese transcendente; e a maior prova disso será a progressiva importância do nosso caráter escriturário de certificador profissional, da nossa prestação de serviço. A contradição mais perversa da era da pós-verdade, para nós, é tornar nosso esforço em formar profissionais melhores e mais preparados um mero ato institucional, fantasmagórico, esvaziado de sentido; uma máquina bem azeitada de interesses políticos rasteiros, afetos mesquinhos e resplandecente mediocridade. E, ao fim, faria de nós criaturas muito atarefadas a cuidar de ruínas. * Daniel Christino é professor da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.

No entanto, a maior dificuldade tem sido a prevenção e o combate ao plágio e ao autoplágio, justamente por ser difícil a compreensão dos prejuízos que a simples cópia traz ao desenvolvimento acadêmico. Muitos me perguntam: “mas eu não posso concordar com os argumentos que ouvi? Não posso compartilhá-los?”. O que há de errado em copiar conceitos de significativa contribuição acadêmica? Como essa ação pode prejudicar o desenvolvimento da ciência ou a formação do profissional?

O conhecimento se desenvolve e se perpetua independentemente do autor. Somos apenas instrumentos de que a ciência dispõe para se disseminar e se aprimorar. O que produzimos hoje terá repercussões bem após deixarmos de existir, portanto, nossa responsabilidade para com o produto acadêmico é atemporal. Disseminar o produto de outrem, de modo que seja compreendido como nos pertencendo, descaracteriza todo o contexto em que ele foi desenvolvido e aspectos como as condições de pesquisa, seu contexto cultural e social são equivocadamente propagados e um resultado futuro disto pode ser a destruição daquele conhecimento. Isso pode ocorrer mesmo quando estamos repetindo nossos próprios resultados. Erros de interpretação quanto, por exemplo, às condições em que aquele dado resultado foi obtido podem levar pesquisas e projetos subsequentes a assumirem como fato informações equivocadas e levarem a resultados errados, configurando sério prejuízo ao desenvolvimento acadêmico. A compreensão do autoplágio como uma má conduta é um desafio, afinal, o autor tende a compreender seu produto como sendo de sua propriedade e, por isso, tem o direito ao seu uso irrestrito. Esse é o erro! Mesmo sendo de nossa autoria, um trabalho anterior deve ser corretamente citado, mesmo pelo próprio autor! Via de regra, para rechaçar o plágio e o autoplágio, basta que façamos a citação correta dos trabalhos que nos serviram de algum modo, durante o desenvolvimento do nosso trabalho. Para evitar a tentação da cópia, basta que acreditemos em nosso próprio potencial.

A correta citação é a chave para o combate ao plágio. No momento em que a comunidade científica estiver plenamente instruída quanto à importância e à forma correta de citar um trabalho, aí o combate ao plágio se tornará fácil, pois será possível eliminar todos aqueles plágios decorrentes de erros involuntários e, como costumo dizer, chegar à situação ideal em que todos os plágios detectados sejam cometidos com intenção. Nesse momento, punições poderão ser aplicadas sem que injustiças sejam cometidas e, aí sim, elas terão o resultado esperado. Assim, é importante que o acadêmico tenha em mente que “as atitudes baseadas nas escolhas morais e altruístas são, certamente, íntegras” [1]. Boa sorte em sua evitação ao plágio! [1] Afirmação na apresentação: “Identificação e Prevenção ao plágio e à má conduta em pesquisa, ensino e extensão”. Tatiana Duque Martins, CONPEEX, Outubro de 2015.

Opinião

ARTIGO


Pesquisa

16

Imagens: Divulgação

definido pelas estudantes para representar a união entre o acolhimento de uma casa de alpendre e a praticidade da montagem em larga escala. Desta forma, os possíveis moradores do Abrigo Pivô teriam facilidade para erguer suas moradias, poderiam adaptá-la às suas necessidades e ainda contariam com uma área externa de integração e descanso, para estender um varal de roupas ou armar uma rede de balanço. “Se as famílias também quiserem, podem construir um cômodo a mais ou dividir a casa de forma diferente”, explicou Talita.

Uma casa para dias difíceis Estudantes projetam abrigo temporário com o objetivo de fornecer condições básicas a populações em situação de risco

Patrícia da Veiga

A ideia foi desenvolvida por Laura Carvalho Santana, Lorena Passos

O resultado foi um projeto em estilo “vernacular industrializado”, termo

Abrigo Pivô foi projetado por estudantes de Arquitetura e Urbanismo

Menção honrosa Confira o projeto completo

Um módulo básico do Abrigo Pivô custaria algo em torno de R$ 7 mil e, para adaptar as peças de MDF à função de encaixe, dependeria de uma máquina de corte CNC (Comando Numérico de Controle) no valor aproximado de R$ 10 mil. Tais valores são considerados baixos se comparados ao que se gasta em uma construção convencional. Para as estudantes, o ideal seria que instituições públicas ou privadas fossem responsáveis por esse custo e não os próprios desabrigados. “Temos todos os moldes prontos. Se alguém precisasse do Abrigo Pivô na China, por exemplo, bastaria imprimir o projeto e cortar as placas”, acrescentou Laura. Carlos Siqueira

O

cupação urbana desordenada, desigualdade social, disputas por terra, catástrofes ambientais, territórios destruídos por guerras, acidentes industriais: muitos são os fatores que produzem desabrigados e desalojados em todo o mundo. Conforme as Nações Unidas, em 2013, quando do último relatório do Alto Comissariado para os Refugiados (UNHCR), essa era a condição de mais de 50 milhões de pessoas que habitam o planeta. Sensibilizadas, cinco estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Goiás (UFG) criaram uma solução: o Abrigo Pivô, estrutura temporária, de fácil montagem e que pode ser adaptada a qualquer situação de risco.

Silva, Priscilla Freire da Silva, Sarah Domingos Batista e Talita Vianna de Assis, em 2016, quando cursaram a disciplina Projeto II, dedicada a construções funcionais e ergonômicas. Na ocasião, elas partiram de uma investigação sobre como vivem as pessoas que perdem suas casas. A conclusão, segundo as estudantes, foi triste. “A situação, na maioria das vezes, é deplorável. São raros os abrigos em que há garantia de dignidade”, definiu Sarah. Sob a orientação dos professores Christine Ramos Mahler e Bráulio Vinicius Ferreira, elas foram desafiadas, então, a desenvolver uma proposta humanizada e, ao mesmo tempo, transportável, confortável, de fácil montagem/desmontagem, estável e constituída por materiais acessíveis quanto ao custo e à disponibilidade.

A estrutura do Abrigo Pivô usa placas de fibra de madeira (MDF) que recebem cortes estratégicos para mais de uma opção de encaixe. Essas placas se tornam paredes, colunas e também móveis como mesas, bancos e camas. Janelas e portas têm formato pivotante, se movimentam em posicionamento vertical e com uma única folha conseguem garantir ventilação ao ambiente. Uma lona usada para cobrir a parte superior da casa, juntamente com calhas galvanizadas, contribuiria ainda para a captação da água da chuva, que seria direcionada a um esquema de armazenamento sustentável.

As estudantes também pensaram na necessidade dessas moradias temporárias contarem com práticas coletivas. Foram projetadas, assim, plantas referentes a um banheiro coletivo com pias, sanitários e chuveiros; uma escola com capacidade para 24 pessoas; um posto de saúde dividido em quatro consultórios; e um refeitório contendo quatro mesas retangulares de 12 lugares cada.

O trabalho conquistou menção honrosa em um prêmio realizado pelo Portal projetar.org, especializado em expor e avaliar trabalhos de estudantes de Arquitetura e Urbanismo. O concurso n° 018 foi exclusivo para abrigos de emergência. Cerca de 150 projetos foram inscritos. Para a professora Christine, é cada vez mais necessário o envolvimento de pesquisadores e profissionais de Arquitetura e Urbanismo e Design de Ambientes com esse tipo

de empreendimento. “Abrigos temporários têm sido necessários em função das catástrofes ambientais, cada vez mais recorrentes, como o caso do distrito de Mariana (MG), que em 2015 foi devastado pela lama de rejeitos produzidos pela mineradora. Além disso, problemas sócio-políticos também ocasionam necessidade de fornecer habitação temporária a determinadas comunidades, como é o caso recente da alocação de refugiados em países europeus, em especial na Alemanha”, explicou.

Jornal ufg 87  

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XI – Nº 87 – MAIO DE 2017

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