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Professor compara dados para avaliar impactos da reforma da Previdência p. 10

Mesa-redonda: reforma trabalhista e consequências para os trabalhadores p. 6 e 7

Opinião: Apropriação cultural existe para além da internet p. 15

Carlos Siqueira

o!

ANO XI – Nº 86 ABRIL 2017


Universidade

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JORNAL

EDITORIAL

Reformar o que, por que e para quem? Luiz Felipe Fernandes*

O

clamor por reformas estruturais não é pauta nova no Brasil. As atuais configurações sociais e econômicas do país exigem garantias legais mais modernas, mais justas e melhor alinhadas às necessidades da população. O debate público deveria ser a tônica para a elaboração dos termos dessas reformas, mas os diversos interesses que entram em cena nesse processo geram informações incompletas, obscurecidas por articulações e manobras políticas. O assunto domina o noticiário e as discussões cotidianas, mas o resultado é o mesmo: muito se fala, mas pouco se explica.

Já a reforma da Previdência ganha um novo olhar por meio da pesquisa realizada pelo professor da UFG Tadeu Arrais. O estudo aponta que as mudanças na legislação previdenciária propostas pelo atual governo colocam em risco os trabalhadores

Por fim, as boas-vindas desta edição vão aos novos estudantes da Regional Catalão, que começam o ano letivo neste mês de abril. A eles e aos demais acadêmicos da UFG fica o convite para conferir a matéria sobre práticas esportivas flexíveis e dinâmicas. Falta de tempo não será mais desculpa para não sair do sedentarismo. A reportagem traz os locais em que é possível praticar atividades físicas em todas as regionais da UFG. Afinal, universidade é lugar de exercitar a mente, mas o corpo também! *Coordenador de Jornalismo da Ascom A jornalista Camila Godoy é bolsista da Ascom. Além de escrever para o Jornal UFG, coordena a produção de releases do Projeto Visibilidade, que divulga pesquisas e projetos da Universidade para a imprensa.

Carlos Siqueira

Para contribuir com o debate, o Jornal UFG traz nesta edição diferentes pontos de vista em relação à reforma trabalhista. Defendida como uma necessidade urgente pelo governo federal, a proposta tem sido alvo de manifestações contrárias por uma parcela da sociedade. A diversidade de opiniões foi garantida com a participação de representantes de diferentes setores: sindicato de trabalhadores, indústria e academia.

rurais. Em entrevista à repórter Camila Godoy, o professor explica que a reforma erra ao equiparar trabalhadores da cidade e do campo. Analisando a origem dos recursos que podem abastecer a Previdência, o professor também desconstrói o discurso do déficit nas contas públicas neste setor.

COMUNIDADE PERGUNTA Quais são os direitos assegurados aos estagiários? Pergunta enviada via “Fale Conosco” A Lei nº 11.788/2008 regulamenta os estágios no Brasil e mostra todos os direitos e deveres do estagiário. O objetivo do estágio é proporcionar ao estudante a possibilidade de aprendizado de competências e o desenvolvimento de habilidades próprias da atividade profissional e do mundo do trabalho. A legislação assegura direitos e limites para sua atuação. Entre os direitos assegurados por lei estão: concessão de bolsa no estágio curricular não obrigatório (no estágio obrigatório a bolsa é facultativa); auxílio-transporte antecipado; seguro contra acidentes pessoais durante a vigência

do estágio; redução de carga horária em dias de avaliações (comunicação deve ser feita no início do período letivo pela instituição de ensino); 30 dias de recesso (sendo remunerado no caso de recebimento de bolsa), quando a duração do estágio for igual ou superior a um ano ou de forma proporcional em períodos inferiores, que devem preferencialmente coincidir com as férias acadêmicas. Para ver a legislação, formulários, passo a passo para formalização do estágio e também mais informações, acesse a página da Pró-Reitoria de Graduação <www.prograd.ufg.br> ou, em específico, para estágio não obrigatório na Regional Goiânia, acesse a Central de Estágios: <ce. prograd.ufg.br>. Lawrence Gonzaga Lopes é coordenador geral de Estágios da Pró-Reitoria de Graduação da UFG

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XI – Nº 86 – ABRIL DE 2017 Reitor: Orlando Afonso Valle do Amaral; Vice-reitor: Manoel Rodrigues Chaves; Pró-reitor de Graduação: Luiz Mello de Almeida Neto; Pró-reitor de Pós-Graduação: Jesiel Freitas Carvalho; Pró-reitora de Pesquisa e Inovação: Maria Clorinda Soares Fioravanti; Pró-reitora de Extensão e Cultura: Giselle Ferreira Ottoni Cândido; Pró-reitor de Administração e Finanças: Carlito Lariucci; Pró-reitor de Desenvolvimento Institucional e Recursos Humanos: Geci José Pereira da Silva; Pró-reitor de Assuntos da Comunidade Universitária: Elson Ferreira de Morais. – Jornal UFG – Coordenador de Jornalismo: Luiz Felipe Fernandes; Editora: Kharen Stecca; Editora-assistente: Angélica Queiroz; Conselho editorial: Angelita Pereira de Lima, Cleomar Rocha, Estael de Lima Gonçalves (Jataí), Luís Maurício Bini, Pablo Fabião Lisboa, Reinaldo Gonçalves Nogueira, Silvana Coleta Santos Pereira, Thiago Jabur (Catalão) e Weberson Dias (Cidade de Goiás); Suplente: Mariana Pires de Campos Telles; Projeto gráfico e editoração: Reuben Lago; Fotografia: Carlos Siqueira; Reportagem: Angélica Queiroz, Camila Godoy e Patrícia da Veiga; Revisão: Fabiene Batista e Bruna Tavares; Bolsistas: Adriana Silva e Ana Fortunato (Fotografia), Luciana Gomides e Vinicius Paiva (Jornalismo); Impressão: Centro Editorial e Gráfico (Cegraf ) da UFG; Tiragem: 6.000 exemplares

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Cada um de nós tem a sua responsabilidade e o compromisso de fazer a mobilidade urbana ‘humana’

UnB_Agencia

Sobre o uso do automóvel, além do grande tráfego e da poluição, sabemos de sua nquanto o trânsito gerar prejuízos sociais, importância na economia, inclusive, pelo econômicos, ambientais e inúmeros aciden- potencial de empregabilidade. Por quanto tes, a mobilidade urbana estará em pauta. tempo esse modelo vai durar?

Avanços científicos e tecnológicos contrastam com os velhos modelos, que geram congestionamento, superlotação e poluição. Para falar sobre o futuro da mobilidade, o gargalo das políticas públicas e a responsabilidade de cada um para uma mobilidade urbana mais humana, o Jornal UFG conversou com Pastor Willy Gonzales Taco, professor e coordenador do Centro Interdisciplinar de Estudos em Transportes da Universidade de Brasília (UnB), integrante da equipe do Programa de Pós-Graduação em Transportes e líder do grupo de pesquisas “Comportamento em transportes e novas tecnologias”.

Dextra

O pesquisador também coordena o Dextra, Laboratório de Ideias da UnB, com a gestão e participação de estudantes. Inspirado no modelo de smart campus, em menos de um ano de pesquisa, o grupo desenvolveu um aplicativo de mobilidade para o câmpus da UnB, além de fomentar o Programa Carona Solidária UnB. Para Pastor Willy, a nova universidade funciona como um grande laboratório, reunindo conhecimentos para soluções rápidas e eficientes.

Além de investimentos, precisamos inovar na forma como o serviço é prestado. E muitas vezes isso não está claro nos instrumentos legais que definem os quesitos de qualidade. Precisamos ter referências de qualidade que correspondam aos anseios da população. Não podemos aceitar receituários prontos, precisamos ouvir a população, acompanhar seus percursos, compreender o que ela vivencia para, com base nisso, estabelecer os parâmetros a serem cobrados aos prestadores de serviço.

Nesse processo de construção em aberto, sobre a mobilidade urbana, como contribuir? O que deve ser considerado para que avancemos?

Silvânia Lima

E

Do que depende a obtenção de mais qualidade no transporte urbano?

De fato, o Brasil apostou no modelo de desenvolvimento econômico baseado na indústria do automóvel. Evidentemente há muitos interesses por trás disso, mas há que lembrar também que isso gera uma considerável mão de obra que sustenta a economia das pessoas. Pensar em mudar isso significa apresentar outro modelo que venha substituir o existente. E penso que isso irá acontecendo de forma natural com o advento das novas tecnologias e das novas formas de economias disruptivas (que usam novas tecnologias para derrubar as existentes no mercado), que já estão produzindo mudanças em várias partes do mundo. Em quanto tempo, não sei, mas isso acontecerá de forma natural, por meio dos novos elementos de melhoria do serviço, os quais a população está apta a vivenciar e que geram mudança de comportamento. Penso que isso será a chave dessa consciência coletiva. Aos poucos as pessoas começam a experimentar mudanças que satisfazem suas expectativas e isso vai gerando respostas e confirmando que é possível viver sem o absolutismo do automóvel, e, sim, com o uso do mesmo de maneira inteligente e racional.

A construção em aberto sugere justamente isso. Primeiro, que cada um de nós possa participar com os nossos saberes na construção de uma mobilidade urbana e humana. Segundo, que exista um “ente/pessoa” condutor que permita a coordenação dos vários saberes na construção dessa realidade tão desejada. Nisso felicito o Fórum de Mobilidade encabeçado pela UFG, pois é nítido e notório que avanços estão sendo conseguidos em termos da mobilidade urbana, em grande parte, graças a eventos como esses. Curitiba é um exemplo único, muito visitado e até imitado mundo afora. O famoso BRT foi idealizado e construído de forma que, quando necessário, foram sendo juntadas as peças para que o sistema funcionasse. As estações tubo, as canaletas, os diversos tipos de ônibus, as soluções tecnológicas foram sendo desenvolvidas e construídas em conjunto.

O que nos aguarda, no futuro, em termos de mobilidade urbana?

Muitas surpresas, pois os paradigmas estão sendo derrubados. E, nisso, as novas tecnologias estão cumprindo um papel importante. As pessoas estão tendo a opção direta e democrática de conhecer, experimentar e escolher serviços que respondem às suas expectativas. Por outro lado, emergem discussões sobre novas formas de regulamentação, em que novos mecanismos de mercado surgem favorecendo a economia dos usuários e redefinindo o uso do espaço urbano. É o que estamos assistindo, por exemplo, com a discussão do Uber. Assim, o futuro já chegou, e breve não será mais a questão da posse do veículo o elemento-chave, mas, sim, o serviço de mobilidade, o serviço da via, que hoje é propriedade exclusiva do automóvel, em detrimento do transporte público e outras formas de deslocamento. E tudo isso será mais fácil de gerenciar com os sistemas inteligentes. Aliás, é só observar que carros autônomos, baseados em sistemas inteligentes, não são mais parte da ficção científica, muitos deles já têm esses sistemas. Esses fatores favorecem uma mobilidade urbana mais humana.

Quais são os principais problemas enfrentados no campo da mobilidade urbana e como mudar? O que acha da educação pela punição, por exemplo, da alta aplicabilidade de multas O principal problema no Brasil em relação à mobi- em veículos? Como avalia a metodologia utilizada no Dextra que reúne ideias de diferentes fonlidade é a gestão. Ela é muito lenta, fortemente influenciada por questões políticas e, muitas vezes, De fato, isso não resolve de forma plena. Há mui- tes de saber? mergulha em interesses particulares, deixando de lado o saber técnico. Paralelamente, há a desarticulação entre os vários órgãos envolvidos na mobilidade urbana. Não existe um compasso nas ações que cada um desenvolve e, ainda, parece existir certa “concorrência” entre eles sobre o tema. Outro problema é o quantitativo reduzido de profissionais qualificados e com expertise junto às prefeituras e órgãos responsáveis para atender às inúmeras necessidades da mobilidade urbana. Quanto à comunidade, falta participação nas instâncias deliberativas. Também falta “empoderamento” daquilo que já está estabelecido na lei e nos diversos instrumentos legais conquistados depois de muito esforço. Junto disso, ainda precisamos desenvolver, de forma individual, a nossa responsabilidade com a mobilidade urbana, que não depende somente do poder público. Cada um de nós tem a sua responsabilidade e o compromisso de fazer a mobilidade urbana “humana”.

tos outros fatores implicados e que infelizmente não têm prosseguimento na sua aplicação. Veja um exemplo que retrata isso: é como ir ao médico e receber a indicação para aplicar uma injeção que acabe com o foco da infecção e a indicação de uma dieta. Mas achando que só a injeção resolve o quadro viral, você deixa de fazer a dieta. Aí a infeção retorna em outro momento, e muitas vezes com mais intensidade, agravando o quadro. É o que ocorre. Não estamos conseguindo diminuir os índices de acidentes com automóveis, a cada dia morrem pessoas equivalentes a uma queda de avião! Precisamos dar continuidade às “recomendações médicas”. Campanhas de educação nas estradas e nas escolas, mais pesquisas para determinar os fatores desencadeadores de comportamentos agressivos. Precisamos inovar no enfrentamento do problema. Inovação é mudança e condição para resultados mais eficientes e permanentes.

Estamos num cenário diferente daquilo que era tradicional em nossas universidades. Hoje em dia, os nossos alunos estão cheios de ideias e totalmente ligados e conectados com um mundo em constante mudança. E o mais interessante disso tudo é que eles conseguem se adaptar com facilidade, o processo de transição é mais rápido, dando lugar a formas diferenciadas de pensar e agir. Basta um clique na tela do tablet, smartphone, computador e a informação chega com muita facilidade. A imagem contendo inúmeras informações faz com que seja mais inquietante o fato de (re)construir do que aproveitar, partir do que já foi feito. E é isso que o Dextra recupera e propõe. E traz, também, como reflexão, repensar a maneira de “formar”, pois no presente contexto não é suficiente o “saber”. Evidentemente, essa realidade requer mudanças importantes no ambiente universitário para fomentar e fortalecer essas novas demandas.

Entrevista Pastor Willy Gonzales Taco

Soluções para mobilidade urbana esbarram na gestão


Pesquisa

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Projeto apresenta primeiros resultados Estudo já identificou possíveis compostos para desenvolver medicamento contra o vírus Zika

Vinícius Paiva

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De uma lista inicial contendo aproximadamente 7,6 mil compostos, dentre eles fármacos já aprovados para uso em humanos pela Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, além daqueles aprovados pela União Europeia e pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, cinco compostos foram selecionados e já estão em fases de testes in vitro na University of California San Diego (UCSD). Além disso, após uma nova

Fotos:Fábio Gaio

Open Zika

ransmitido pela picada do mosquito Aedes aegypti, o vírus Zika surgiu em 1947, na Uganda, mas seu surto no Brasil se deu em 2015, quando foi descoberta a ligação do vírus com a microcefalia e com a síndrome de Guillain-Barré, que afeta o sistema nervoso humano. Pensando na necessidade do desenvolvimento de um medicamento antiviral eficaz no tratamento das pessoas infectadas pelo vírus, a Universidade Federal de Goiás (UFG), em parceria com a World Community Grid (WCG), da International Bussines Machines (IBM) dos Estados Unidos, e com as universidades americanas Rutgers University, University of California at San Diego e com a Collaborations Pharmaceuticals, Inc., iniciou, em março de 2016, o

projeto OpenZika, com o objetivo de identificar substâncias com potencial para tratar o vírus Zika em pessoas infectadas. Nove meses após o início do projeto, os primeiros resultados já podem ser visualizados com a seleção de 14 possíveis compostos que possuem chances de serem utilizados na formulação de um medicamento antiviral.

Problemas na digestão? Laboratório da Regional Catalão testa a efetividade de plantas do Cerrado para tratamento gastrointestinal Fábio Gaio

A

sabedoria popular, passada por gerações, consagrou as plantas como alternativas para o tratamento de diversas doenças, entre elas a úlcera gástrica e a retocolite ulcerativa, duas doenças inflamatórias que afetam o aparelho digestivo. A utilização de determinadas espécies do Cerrado para essa finalidade tem chamado a atenção do Laboratório de Fisiologia e Farmacologia (Lafifa) da Regional Catalão da UFG, que atua no sentido de comprovar ou não a atividade farmacológica de plantas medicinais no trato gastrintestinal. O estudo parte da Etnofarmacologia,

ciência que estuda o conhecimento popular relacionado a sistemas tradicionais de medicina. O professor do curso de Ciências Biológicas e coordenador do Lafifa, Anderson Luiz Ferreira, explica que a partir da indicação popular, as plantas são identificadas e coletadas por um botânico. Posteriormente se obtém o extrato bruto e/ou princípio ativo, que é testado em animais com a finalidade de verificar a possível ação e mecanismos farmacológicos. De acordo com Anderson, algumas plantas têm demonstrado resultados interessantes e promissores. O pesquisador cita o exemplo da Annona Coriacea, conhecida como araticum do campo, e da Spiranthera Odoran-

pesquisadores têm utilizado recursos de outros projetos para avançar na busca de um medicamento contra o vírus Zika.

Sobre o Projeto

leva de pesquisas com 260 compostos adicionais que passaram por uma triagem maior e mais diversa, foram encontrados mais nove compostos, encaminhados para a UCSD.

Repercussão

O projeto ganhou vários artigos em websites e revistas, como por exemplo, o site da Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo. Além disso, outras parcerias surgiram, especialmente na captação de recursos. Recentemente foi criada uma loja virtual na Zazzle com a logo do OpenZika, e 10% do lucro obtido nas vendas será destinado ao projeto. No entanto, até o momento, o projeto não conta com auxílio financeiro de nenhuma instituição brasileira ou do exterior. Os

O OpenZika procura substâncias candidatas a um medicamento que possa tratar as pessoas infectadas pelo vírus Zika. Mas para que um medicamento seja desenvolvido, os pesquisadores do projeto precisam descobrir um composto que seja eficaz em interferir nas proteínas-chave que, provavelmente, o vírus usa para sobreviver e se espalhar pelo corpo humano. Cada composto tem sua eficácia testada a partir de experimentos chamados de triagem virtual, por meio de “cálculos de docagem molecular” que são realizados nos computadores e dispositivos Android de voluntários da WCG. Esses cálculos estão ajudando a equipe de pesquisa a priorizar os compostos mais prováveis que podem levar a um medicamento antiviral. Qualquer pessoa pode ser um voluntário e ajudar na pesquisa, basta se cadastrar no site do WCG.

tissima, popularmente chamada de manacá. No caso da primeira espécie, a pesquisa realizada pela aluna de graduação Keise Rodrigues Silva, sob orientação do professor, tem demonstrado atividade antiulcerogênica com doses baixas do extrato. A segunda espécie, estudada pela mestranda Fernanda Neves Estrela, também apresentou atividades promissoras e o possível metabólito especializado responsável já está sendo isolado.

quanto o extrato possui vários metabólitos especializados, entretanto, foi verificada atividade igual ao da medicação. Ainda não há previsão para a utilização comercial do produto, já que a pesquisa ainda deve demandar mais tempo e recursos.

Comparação não é possível

O principal mérito da pesquisa, para Anderson, deve ser dado às pessoas simples, que não têm conhecimento científico, mas são de extrema importância para os estudos farmacológicos. “Se o trabalho partir da experimentação com plantas coletadas de forma aleatória, possivelmente não teremos nenhum tipo de atividade, ao passo em que, com a indicação popular, os resultados costumam ser quase sempre satisfatórios”, conclui.

Ambos os trabalhos foram submetidos recentemente para publicação em uma renomada revista internacional de Etnofarmacologia. Além da doença ulcerosa péptica, o professor acrescenta que outros dois alunos de mestrado, Joniel Mendes de Araújo e Érika Bezerra de Melo Riceto, testaram com sucesso substâncias extraídas de plantas no tratamento da colite experimental.

Em todo ensaio é utilizado um fármaco de referência e, no caso do araticum-do-campo, segundo o professor, a atividade biológica foi muito semelhante ao medicamento padrão. Para o docente, não é possível comparar se as plantas estudadas são melhores ou piores do que o medicamento alopático, uma vez que a droga é uma substância única, en-

Anderson destaca que é preciso desmistificar a ideia de que remédio natural não faz mal. “Às vezes, a maneira como está sendo preparada a planta pode potencializar algum metabólito que seja tóxico, e, por isso, é preciso tomar cuidado. Plantas podem fazer mal também”, pondera. Outro ponto importante, conforme o professor, é o fato de o trabalho possuir um apelo para a conservação do Cerrado, uma vez que a exploração de plantas medicinais na flora nativa por meio de extração direta é um grave problema que pode levar a drásticas reduções das populações naturais.

WCG


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Ciência para detectar fraudes Pesquisas da UFG unem Química, Matemática e Computação e criam metodologias para descobrir a autenticidade de produtos Camila Godoy e Giovanna Beltrão

Criado em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), o método consiste no levantamento dos elementos químicos encontrados nos itens pesquisados, na identificação

De acordo com o professor do Instituto de Informática (INF) da UFG, Rommel Melgaço Barbosa, essa é a primeira vez que a ciência combina algoritmos e elementos químicos para classificar alimentos orgânicos. “Os laboratórios de química da USP fazem o levantamento dos dados e a equipe da UFG analisa”, explica. Segundo ele, o grupo aplicou o método

Metodologia para verificar a origem e os tipos de produtos

f(x)=ax²+bx+c

Ilustrações: Freepik

Análise resulta em uma fórmula padrão

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Em laboratório detectam todos os componentes químicos da amostra

Os pesquisadores da UFG e da USP também estão trabalhando em parceria com a Polícia Civil do Estado de São Paulo para a identificação da origem de drogas ilícitas. O grupo tem analisado alguns comprimidos de ecstasy apreendidos pelos policiais. Como eles são produzidos de formas distintas e com variações de elementos, a análise dos componentes de cada um deles gera um conjunto de dados com as variáveis químicas correspondentes. Assim, quando novas apreensões ocorrerem, o grupo pode comparar a composição desses comprimidos com aqueles padrões. O próximo passo dos pesquisadores é detectar os tipos de ecstasy que estão sendo produzidos.

UFG desenvolve métodos de identificação de uísques falsificados

Outros produtos podem ser testados

Pesquisadores escolhem uma amostra confiável de produtos

Parceria com a polícia

Fotos: Carlos Siqueira

A

Universidade Federal de Goiás (UFG) uniu três ciências de peso para trabalharem juntas em uma nova metodologia capaz de descobrir a origem e os tipos de diversos produtos. Pesquisadores relacionaram conhecimentos da Química, da Matemática e da Computação e desenvolveram uma metodologia que permite, por exemplo, autenticar um alimento como orgânico ou convencional, determinar se um vinho é do Chile ou Brasil, qual uva foi utilizada em sua produção e até mesmo a origem de algumas drogas ilícitas apreendidas pela polícia. Os estudos têm bastante aplicabilidade e poderão auxiliar a segurança e evitar fraudes.

dos padrões quantitativos e qualitativos desses elementos e na utilização dessas informações como parâmetro para classificação de outros produtos a serem testados. É como se os químicos escolhessem um determinado produto e destrinchassem toda sua composição, gerando extensas tabelas com dados que a olho nu nada significam, mas que com recursos da Matemática e da Computação e seus algoritmos, podem determinar padrões desses produtos que poderão ser comparadas com os elementos detectados em futuras amostras.

O método também foi aplicado em diversos rótulos de vinho. O grupo analisou os elementos químicos presentes em variedades da bebida produzida no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai e traçou padrões que diferenciam os tipos de uva e o local de produção. “Quando analisamos os elementos de algum rótulo e comparamos com os padrões já encontrados, podemos detectar, por exemplo, se um vinho do tipo Cabernet Sauvignon é do Brasil ou do Chile. Como o vinho chileno é, em geral, melhor reconhecido do que o brasileiro, poderia ter falsificações no rótulo de origem”, afirma. O grupo trabalha também na classificação de vinhos da Califórnia.

Além dos vinhos, os pesquisadores aplicaram a metodologia em outros produtos e obtiveram resultados satisfatórios. O grupo conseguiu encontrar padrões e autenticar o arroz de Goiás e do Rio Grande do Sul e o mel de quatro regiões brasileiras. De acordo com o professor do INF, subsídios fiscais de determinados locais para esses produtos podem atrair falsificações no rótulo de origem.

Engenheiros da computação e Matemáticos analisam os dados coletados

Outras metodologias criadas pela UFG têm auxiliado a polícia a identificar bebidas falsificadas. O Instituto de Química (IQ) da UFG utilizou amostras falsificadas cedidas pela Polícia Federal de Brasília para testar diversos métodos portáteis, de baixo custo, capazes de detectar adulterações na bebida. Os estudos, coordenados pelo professor Wendell Coltro, desenvolveram um método que permite a identificação da falsificação em menos de dois minutos, usando apenas uma gota de amostra. Os pesquisadores utilizam um equipamento para medir sinais elétricos que apresentam intensidades diferentes quando a amostra é original ou falsificada ou identifica a presença de novos sinais.

Em parceria com a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), a Universidade de São Paulo (USP) e a Unidade Técnico-Científica da Polícia Federal de Uberlândia, os pes-

quisadores também desenvolveram um teste colorimétrico em papel, que consiste na busca por espécies químicas presentes nas amostras falsificadas e ausentes nos produtos autênticos, e que permite a determinação dos níveis de concentração de algumas substâncias, viabilizando a identificação rápida das amostras adulteradas. Outra metodologia leva em consideração que as amostras são diluídas em água. Como a água de torneira tem cloro e flúor, o teste é feito por uma técnica chamada eletroforese em microchips. Segundo os pesquisadores, os uísques autênticos contêm concentrações baixas de cloreto e fluoreto e, por outro lado, o uísque adulterado apresenta concentrações elevadas desses dois íons. Se essas substâncias estiverem presentes em quantidades diferentes do padrão original, é um forte indício de que a amostra é adulterada.

Pesquisa

em alguns alimentos produzidos de forma orgânica e outros de forma convencional, explicitando, assim, as características dos minerais presentes nos dois tipos. A análise desses elementos gerou uma fórmula capaz de diferenciá-los. Com isso, é possível evitar a falsificação de alimentos convencionais que são comercializados como se fossem cultivados sem agrotóxicos e fertilizantes químicos, produtos geralmente mais caros e de difícil identificação.


Tarsila do Amaral

Mesa-redonda

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A quem afeta a reforma trabalhista? Ascom, TV UFG e Rádio Universitária

Para discutir o assunto convidamos o professor da Faculdade de Ciências Sociais, Revalino Antônio de Freitas, o presidente do Conselho Temático de Relações do Trabalho da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Olympio José Abrão, e a vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Goiás, Iêda Leal. Você pode participar das mesas-redondas enviando sugestões de temas e convidados pelo telefone: 3521-1311 ou jornalismo.ascom@ufg.br

Assista ao programa Conexões e veja, no Facebook, o bloco extra com as perguntas do público

Iêda Leal – Nos preocupa muito essa tentativa de flexibilização. Se tivermos a garantia de que o que está na CLT vai ser respeitado, teremos condições de tentar abrir um diálogo para que as coisas possam se dar da melhor forma, mas não dá para abrir mão dos nossos direitos. O que vai ser dos trabalhadores se o que prevalecer for apenas um acordo em detrimento de uma legislação? E uma legislação que não é tão boa quanto parece, que realmente precisa de algumas mudanças, mas não para prejudicar o trabalhador. A necessidade de se fazer um amplo debate e chegar em um denominador comum de que o Brasil precisa crescer, que precisamos trabalhar e os trabalhadores precisam colaborar para o crescimento do país é uma coisa. No entanto, querer que o trabalhador pague o preço pela desorganização do Brasil, não temos condição de aceitar. Queremos o diálogo e o diálogo passa primeiro por escutar os trabalhadores e também os patrões. Mas, necessariamente, temos que começar o diálogo, e não fazer mudanças da forma que está sendo proposta agora. A necessidade de se fazer uma reforma é porque existem sérios problemas e querem resolver apertando o cinto do trabalhador. Aí não tem acordo!

Olympio José – A proposta do governo não fala da negociação coletiva. Ela é uma minirreforma que trata de alguns pontos de flexibilização de contratos de trabalho. A CNI, a Fieg e as federações estão de acordo com a reforma, mas achamos que ela é muito tímida, que não é tão abrangente. Evidentemente que respeitando a CLT e as normas de segurança, a proposta que defendemos é que a negociação seja livre entre sindicatos de colaboradores e sindicatos dos empresários. No entanto, estamos preparados para isso? Confesso que não. Porém, temos que dar o primeiro passo e começar esse entendimento, e passar talvez por uma fase de transição, mas o futuro das relações de trabalho no Brasil e no mundo passam por esses acordos coletivos. Todo ano os sindicatos sentam

à mesa para negociar convenções coletivas. Hoje em dia o que fazemos é negociar índice de aumento. Os próprios sindicatos não têm força, estamos tirando a força dos sindicatos. Fotos: Carlos Siqueira

Enquanto a discussão da reforma da Previdência vem tomando conta do cenário político, outra reforma vem sendo discutida paralelamente e deve afetar boa parte da população: a reforma trabalhista. Basicamente a grande mudança é a maior valorização dos acordos coletivos. Diante do cenário atual, será que o Brasil está pronto para dar essa decisão a empresas e sindicatos? As empresas consideram que as leis trabalhistas amarram a relação de trabalho e dificultam o crescimento. Mas o mercado hoje está em condições de negociar esses direitos de forma justa com o trabalhador?

A proposta de reforma trabalhista prevê que negociações entre sindicatos e empresas prevaleçam sobre o que é estabelecido na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). A estrutura de sindicatos existente hoje no Brasil é capaz de dar segurança ao trabalhador com relação à garantia de direitos?

Iêda Leal

Querer que o trabalhador pague o preço pela desorganização do Brasil nós não temos condição de aceitar Revalino Antônio – Há um espaço a crescer na discussão sobre as relações capital-trabalho. Como a maioria das relações, ela não é uma relação simétrica, muito pelo contrário. É óbvio que na relação capital-trabalho e numa sociedade igual a nossa, na qual a proteção social é residual e não uma proteção social de fato aos trabalhadores, num amplo campo que garanta condições de trabalho, quando se pensa numa relação salarial ou trabalhista, é óbvio que a condição do mercado é superior. Eu não estou discutindo o que é melhor ou pior, no caso. Estou apenas tentando mostrar que a relação nesse caso é muito assimétrica. Não estou dizendo também que deve deixar de ser assimétrica, mas em qualquer sociedade mais civilizada, inclusive via Organização Internacional do Trabalho, as relações dos estados


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Revalino Antônio

...todo processo de terceirização significa, antes de mais nada, um descompromisso com o objeto de trabalho

Foi aprovada recentemente a terceirização de atividades-fim. Quais são as implicações desta proposta? No serviço público, a terceirização sem limite não poderia comprometer a qualidade dos serviços, uma vez que são exercidos por um público flutuante, sem estabilidade, sem vínculo duradouro com as instituições? Revalino Antônio – Eu vou pegar o exemplo da universidade. Várias atividades aqui foram terceirizadas. Historicamente, e a literatura sobre a sociologia do trabalho mostra isso, todo processo de terceirização significa, antes de mais nada, um descompromisso com o objeto de trabalho. Não há um compromisso efetivo com o que está sendo feito. A terceirização é ótima para o mercado, mas para a sociedade, que é o consumidor final, ela é perversa, na medida em que a qualidade do serviço cai. E não há literatura nenhuma que mostre o contrário.

Olympio José – Eu queria entender o porquê de haver tanta resistência com a terceirização. Hoje ela ocorre no mundo inteiro e, no Brasil, o setor público é justamente o setor que mais emprega terceirizados. Ao não querer discutir a lei que determina como funciona a terceirização, porque hoje não existe uma lei, estamos deixando de fora uma população enorme de trabalhadores no Brasil, empregados de empresas que terceirizam serviços, que estão sem nenhuma segurança na lei. Eu não entendo tanta resistência em discutir e aprovar uma lei. No caso do setor privado, existem empresas que contratam mão de obra terceirizada, outras não. O que o professor disse da qualidade do serviço, a empresa privada sente na hora porque o cliente some. Se o terceirizado

está atendendo mal, ele vai perder o cliente. Eu queria entender esse bloqueio, porque hoje uma população enorme de trabalhadores está descoberta, não existe uma lei para eles.

Iêda Leal – Acredito que são situações em que precisamos compreender bem mais, inclusive a população. Sobre o serviço público terceirizado, estamos assistindo que está acontecendo tanto na saúde como na segurança em Goiás. Na hora que acontece alguma situação, como nos presídios, não se encontra quem é o responsável. Nós defendemos o serviço público e a entrada é pelo concurso, precisamos garantir isso. Agora, a regulamentação da terceirização precisa ser feita, porque existe uma exploração de mão de obra. Alguns governantes têm obsessão por terceirizar os serviços, pois não acreditam no serviço público. São pessoas que estão, definitivamente, no lugar errado. Nós precisamos defender o serviço público, porque uma universidade, uma escola, um hospital, onde as pessoas podem construir uma carreira, se dedicam e têm um desempenho para garantir que todo o trabalho será feito, é diferente. Agora, não se pode querer um serviço público sem ter as condições. A educação em Goiás, por exemplo, está há 15 anos sem concurso público. A luta para regularizar a vida das pessoas que prestam serviço para as empresas é legítima, mas precisamos proteger o serviço público. A população precisa entender que existe uma luta de proteção ao serviço público para garantir a entrada, a permanência e a formação durante o serviço para melhor atender o público. É isso que tem que ser feito. E não terceirizar porque alguém não faz o serviço corretamente. Isso significará que o terceirizado estará sendo vigiado para desempenhar o serviço. Não entendemos que o trabalho tenha que passar por essa situação, mas acredito que é preciso regulamentar, sim, o serviço para parar com a exploração. As pessoas não dão conta da regulamentação na iniciativa privada e acham que agora todo mundo tem que terceirizar o serviço. E nós vamos ficar perdidos. Precisamos recuperar o trabalho público no Brasil e fazer esse debate de forma plena. Olympio José – No setor privado, entendemos que a terceirização é uma forma moderna de gestão empresarial. O que não concordamos é com a regulamentação que existe hoje, que proíbe a extensão à atividade-fim. A empresa só pode terceirizar portaria, limpeza, esse tipo de atividade. Com relação ao setor público, entendemos que o Brasil é muito grande, por isso nossa carga tributária é altíssima. O Estado tem que garantir qualidade na educação, saúde e segurança, mas pelo tamanho, acaba tendo que terceirizar para se modernizar e prestar serviço de qualidade. Em nossa visão é uma gestão moderna e que, para o setor privado brasileiro, não ter a segurança jurídica de poder utilizar esse serviço, como hoje, é um entrave e um custo muito grande para a produção brasileira.

Iêda Leal – Vejo a necessidade do diálogo, da conversa e do tratamento. Lógico que o Brasil é enorme e saúde, segurança e educação são fundamentais, mas têm certas coisas que não têm a menor condição de terceirizar. Não podemos terceirizar a coordenação de uma escola, a entrada dos professores. Precisamos aprofundar esse debate, mas não há o que discutir: terceirização na educação, por exemplo, não procede. Revalino Antônio – Esse assunto suscita mais discussão ainda, sobretudo sobre essa questão do Estado e da carga tributária.

A possibilidade de aumentar a jornada de trabalho para até 12 horas diárias e com intervalos menores que uma hora de almoço, mesmo com o pagamento de horas extras, não vai autorizar uma exploração do trabalhador além de sua capacidade?

Revalino Antônio – Temos que pensar que o tempo de trabalho não diz respeito apenas ao ponto de vista linear das horas. Isso é a horizontalidade do tempo de trabalho. Há uma questão que é mais grave ainda, que é a intensificação, a verticalização do tempo de trabalho. No início a ideia da automação foi saudada como o fim do trabalho. Isso foi tolice, porque ela intensificou ainda mais o trabalho, aumentando seu ritmo. Até 15 anos atrás, quando discutíamos a questão de saúde do trabalho no campo da sociologia do trabalho, as principais questões eram Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e outras doenças ocupacionais. Hoje a questão central é a doença mental, justamente pela intensidade e o ritmo do trabalho. Essa discussão de ampliar a jornada de trabalho por si só já é preocupante, mas também o problema que paira acima disso que é a intensificação do trabalho. E isso não tem sido discutido.

Olympio José

No setor privado entendemos que a terceirização é uma forma moderna de gestão empresarial Olympio José – Infelizmente as leis trabalhistas tratam todos por igual. Evidentemente que um trabalho de 12 horas não pode ser estendido para todo mundo de forma ininterrupta. Tem normas de segurança do trabalho. O que nós pregamos é que o acordo coletivo, feito entre patrão e empregado via sindicatos, possa flexibilizar e que alguns setores possam estender a jornada, outros não. Então não é uma coisa geral. A proposta do governo foi muito tímida, fala muito em contratos temporários de trabalho e flexibilização de férias. Não se pode tratar por igual porque não são todos iguais.

Iêda Leal – Eu acho que essa história de 12 horas é a volta à escravidão, portanto não vamos discutir isso. Não podemos discutir estender a carga horária dos trabalhadores numa mesa de discussão. Nós temos que reduzir para garantir que mais pessoas trabalhem. Com a redução da carga horária, nós vamos ter mais trabalhadores. É tão difícil pedir para alguém trabalhar mais, é como se estivéssemos pedindo para a pessoa morrer mais rápido. Tem que ser o contrário. É preciso entender que qualquer pessoa, tanto no serviço público como no privado, precisa ter rendimento. Ninguém vai render estendendo sua carga horária, pelo contrário. Nós queremos a redução da carga horária do trabalhador, queremos que a família possa se encontrar mais e queremos construir outro Brasil. Discutir é uma coisa, agora querer impor que as pessoas trabalhem mais, fiquem mais doentes, morram mais rápido, nós não concordamos. Escravidão já acabou há muito tempo!

Mesa-redonda

que têm sistema de proteção social é um sistema de proteção social forte que permite que patrões e empregados possam negociar de uma forma muito mais precisa para discutir as questões pontuais que dizem sobre o dia a dia do trabalho. Mas para isso a proteção social tem um amplo leque para dar garantias aos trabalhadores. Isso no Brasil é extremamente frágil. Quando a CLT foi instituída, o Brasil era mais avançado do que vários países do mundo em alguns aspectos. Um exemplo são as férias, que não existiam na maioria dos países. Depois que isso mudou, os outros países passaram a ter férias maiores e tudo o mais e nós paramos no tempo, não avançamos.


Universidade

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Como evitar desculpas e se exercitar?

Veja como pesquisas e projetos de extensão da UFG têm trazido respostas e oferecido oportunidades de adesão às atividades físicas dentro e fora da Universidade

Kharen Stecca

Confira a pesquisa na íntegra

A

A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que a quantidade ideal de exercícios físicos por semana é de 150 minutos. Isso seria, no mínimo, uma atividade de 30 minutos em cinco dias na semana. O professor da Faculdade de Educação Física e Dança da UFG (FEFD/UFG), Paulo Gentil, explica que, em geral, o motivo alegado para não chegar a essa quantidade de exercícios é o mesmo: falta de tempo. “Em especial, durante a graduação os estudantes alegam não ter tempo extra para a atividade física”. E então? Como encontrar motivação para mudar esse hábito? A resposta pode estar em pesquisas realizadas na área de Educação Física.

Saiba mais sobre os protocolos na TV UFG

“Não tenho tempo!”

Outro protocolo de exercícios intensos em menor tempo é o Gibala, criado pelo pesquisador canadense Martin Gibala. Consiste em um aquecimento de três a cinco minutos, com 4-6 séries de exercícios de 30 segundos em alta intensidade, com quatro minutos de descanso, seguido de cinco minutos de desaquecimento. Depois, o mesmo grupo adaptou o protocolo para 3-4 séries de 20 segundos com dois minutos de intervalo. Assim, dependendo da forma como o protocolo é aplicado, pode durar menos de 20 minutos.

Seu problema é tempo? 30 minutos por dia é demais na sua rotina diária? O professor da FEFD/UFG, Paulo Gentil, explica que diversos estudos mostram que há exercícios que conseguem o mesmo resultado de 30 minutos de atividades em até quatro minutos. Você já ouviu falar de protocolo Tabata e Gibala?

A regularidade nos exercícios também é uma das preocupações da OMS, que indica uma regularidade ideal de três vezes por semana. Mas já existem estudos que mostram que mesmo uma vez por semana é possível obter ganhos do exercício físico.

“Três vezes por semana?”

Segundo o professor Paulo Gentil, há escolhas a fazer para chegar ao condicionamento físico adequado: o responsável pela orientação do treinamento pode aumentar o número de repetições (as séries de exercícios) ou aumentar a carga de esforço do exercício. A partir dessas escolhas que devem ser feitas mediante uma avaliação prévia do paciente e análise de seu perfil, é possível encontrar o exercício que mais se adapta ao estilo de vida e driblar o problema do tempo.

“Preciso de alguém para ser estimulado”

Sim, o estímulo de um profissional, em especial, é muito importante. O professor Paulo Gentil participou de um estudo que mostrou que, após 11 semanas de treino, em uma sala com 25 alunos e cinco orientadores, os resultados foram melhores em ganho de força tanto na parte superior quanto inferior do corpo do que numa sala com os mesmos 25 alu-

nos e um orientador, o que destaca a importância da supervisão. Não por acaso tem crescido a demanda pelo personal trainer. Quando há essa dedicação de um profissional, o resultado do condicionamento físico é melhor. Orientação é importantíssimo!

Eu não gosto de: ( ) musculação ( ) corrida ( ) natação ( ) outro: ___________

Já te disseram que musculação é o exercício que mais dá resultados? E qual o resultado que você precisa? “Às vezes, para sair do sedentarismo, primeiro é preciso encontrar um exercício que o torne motivado a continuar as atividades físicas”, afirma o professor. Seja andar de bicicleta, correr, nadar ou realizar treinos de musculação, o importante é ter prazer e persistência. E, novamente, os estudos na área auxiliam na busca dessa possibilidade. “Hoje já conseguimos perceber que é possível, por exemplo, com o exercício de spinning (pedalar), obter resultados na capacidade aeróbia e também de força e massa muscular. O mesmo pode ser feito com outros exercícios, basta que sejam estruturados para atender essas duas demandas”. Fotos: Carlos Siqueira

maior parte da população é capaz de reconhecer que praticar atividade física faz a diferença na vida e na saúde das pessoas. Mas daí a chegar à prática constante de exercícios, há uma grande diferença. Pesquisa realizada pelo Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Estudantis (Fonaprace) em parceria com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições de Ensino Superior (Andifes) em 2014, com estudantes de graduação de 62 instituições federais de ensino superior brasileiras, mostra que em média 36,75% das mulheres universitárias e 20,92% dos homens não praticam atividades físicas. Outros 31% das mulheres e 32% dos homens praticam ocasionalmente. E isso em uma população que, em sua maioria, tem entre 18 e 24 anos.

Na década de 1990, no Japão, uma equipe liderada por Izumi Tabata comparou os efeitos de treinos que duravam uma hora em intensidade moderada com treinos de apenas quatro minutos em alta intensidade. O que Tabata e seus pesquisadores conseguiram comprovar foi que a intensidade do exercício é tão importante ou até mais que o volume do treinamento. O pesquisador criou o método Tabata que propõe a execução de sete a oito séries de 20 segundos de exercícios intensos, que podem ser caminhada, bicicleta, corrida, série de apoios, levantamento de peso, ou qualquer outro. Ao fim de cada série, utiliza-se um descanso de 10 segundos. As oito séries desse método, com duração de 30 segundos cada, mais o descanso somam quatro minutos. Somado ao aquecimento e volta à calma, em 15 minutos é possível fazer uma série de exercícios. Deve-se fazer cada repetição com o máximo possível de esforço para manter a intensidade elevada, explica o professor Paulo Gentil.

O professor participou de um desses estudos que dividiu 30 homens em dois grupos: um fazendo séries de exercícios para cada músculo, uma vez na semana, e outro duas vezes na semana. O resultado é que o ganho de força e massa muscular foi similar em ambos os grupos.

Eu me exercito na UFG! Allan Rogger, 25 anos, é aluno do curso de Estatística. Há dois anos pesava 156 quilos e começava a apresentar problemas devido à obesidade. “Meu pai chegou a sugerir uma cirurgia bariátrica, que não era indicada no meu caso, pois eu ainda não apresentava problemas de saúde”, relata o estudante. Quando a obesidade começou a incomodar, ele procurou uma rotina de exercícios e há dois anos frequenta o Cecas/UFG. Alexandre Melo, 42 anos, é analista de Tecnologia e Informação do Centro de Recursos Computacionais da UFG. Quando os problemas de saúde começaram a surgir, como pressão alta e colesterol, o técnico iniciou uma rotina de exercícios que vem realizando com assiduidade há um ano. “O fato do Cecas ser tão próximo facilita muito minha rotina, pois uso períodos livres, como o horário de almoço, para me exercitar”, afirma. Carlota Viana, 62 anos, é técnica aposentada da UFG, mora perto do câmpus e é frequentadora assídua do espaço desde o início. Ela considera o Cecas um excelente serviço, especialmente pelos monitores. “Eles realmente orientam toda a nossa rotina de exercícios, são muito atenciosos, o que melhora os resultados”. Essa opinião também foi compartilhada por Allan e Alexandre, que já tiveram experiências em outras academias e consideram o atendimento do espaço de excelente qualidade. Carlota considera que a iniciativa é ótima para a comunidade, em especial para os servidores que podem fazer exercícios antes do trabalho ou no horário do almoço.


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A moda agora é corrida

As corridas de rua ganharam notoriedade nos últimos anos. Basta percorrer os parques e as largadas de eventos ou mesmo o Facebook de amigos e perceber que alguém aderiu à prática. “A corrida é um esporte democrático, porque basta um tênis e a rua para começar”, explica Paulo. No entanto, também é um esporte que tem um risco grande de lesões. “O que orientamos é que é preciso uma avaliação inicial do paciente, para que ele tire do exercício os melhores resultados”, afirma. Outra orientação é que a pessoa deve saber obedecer os limites do corpo. “Muitas pessoas começam correndo cinco quilômetros, depois já querem correr dez e então uma meiamaratona; e é quando aumentam essa quantidade de exercícios, que surge o risco de lesões que provavelmente não viriam em quantidades menores de treino. Uma passada errada, uma inclinação do tronco diferente, podem não atrapalhar uma corrida de três quilômetros algumas vezes na semana, mas podem ser decisivas em uma lesão quando você começa a correr distâncias maiores”, explica.

Exercícios com jogos eletrônicos: é possível?

Claudia Lima

No Setor de Fisiologia Humana e do Exercício da FEFD/UFG, profissionais investigam as demandas fisiológicas impostas sobre o organismo pelos exergames (exercícios realizados com apoio de jogos eletrônicos). A ideia é investigar se esse tipo de atividade física pode ser tão efetiva quanto um programa clássico de exercício.

Para ele, uma das vantagens desses jogos é aumentar a adesão do indivíduo a um programa de atividade física regular, sobretudo em crianças e adolescentes. Também pode ser uma ferramenta para reabilitação de pacientes com Parkinson, Alzheimer, vítimas de acidente vascular encefálico, etc. Adicionalmente, já foi demonstrado que os exergames potencializam o gasto calórico e, por isso, são interessantes no tratamento de obesidade. Mas é preciso cuidado“. Existe a possibilidade de exercícios realizados eletronicamente fomentarem o isolamento social. Outro ponto negativo é que não existe a supervisão/orientação por um professor de Educação Física e isso pode ser crucial, sobretudo para pacientes que tenham condições clínicas específicas”, explica Cláudio Lira.

Centro de Práticas Corporais

O Centro de Práticas Corporais (CPC) é um programa da Faculdade de Educação Física e Dança (FEFD/UFG) que objetiva estreitar a distância entre universidade e sociedade. Através de projetos de extensão envolvendo docentes e discentes dos cursos de Dança e Educação Física, o programa oferece atividades físicas para a comunidade interna e externa da UFG. Só no primeiro semestre de 2017 foram oferecidas 1.415 vagas distribuídas em práticas aquáticas, esporte, dança, lutas, ginástica e yoga com uma taxa de matrícula que variava entre 35 e 90 reais de acordo com a idade e dias na semana. Todos os semestres são realizadas novas inscrições e as modalidades podem variar. Mais informações no site <www.fefd. ufg.br> ou no telefone 3521-1085.

Espaço Fitness Câmpus Samambaia

Você é aluno, professor ou técnico da UFG, aposentado ou da ativa e frequenta o Câmpus Samambaia? Então você pode se exercitar no Espaço Fitness do Centro Esportivo do Câmpus Samambaia da UFG (Cecas). A academia

Ascom REJ

Sim, há academias com valores altos, profissionais particulares que não cabem no bolso de muita gente. Mas também há muitas opções, e para quem está no Câmpus Samambaia elas podem estar mais próximas do que você imagina. A Universidade dispõe de diversos programas de atividades físicas, seja por meio da Faculdade de Educação Física, seja por meio do Centro de Esportes do Câmpus Samambaia (Cecas). Há atividades como musculação, yoga, natação, hidroginástica e grupos de corrida. Tudo com orientação de professores e estudantes da área e com custo mínimo ou até gratuitos. Em troca, a Universidade forma na prática seus profissionais e fomenta a pesquisa e extensão nessas áreas.

Os jogos de computadores sempre foram vistos como vilões da atividade física: “Os tradicionais jogos de videogame aumentam o comportamento sedentário e este tem repercussões negativas sobre a saúde. Foi justamente nesse contexto, ou seja, aliar o videogame com a atividade física, que surgiram os exergames”, explica o professor da Faculdade de Educação Física e Dança, Cláudio Lira, que estuda o efeito desses jogos no condicionamento físico de pacientes.

Confira o que outras regionais oferecem à comunidade: Regional Catalão A Regional Catalão possui projetos de extensão e práticas vinculadas às disciplinas do curso de Educação Física. Há atividades oferecidas nas dependências da Universidade, como hidroginástica, natação, ginástica, ludoteca e jogos coletivos como basquete e vôlei, além de uma turma especial de basquete em cadeiras de rodas. Há também atividades oferecidas em outros ambientes localizados na cidade de Catalão. As inscrições são feitas durante todo o semestre até o preenchimento das vagas. Para informações sobre como participar entre em contato pelos telefones (64) 3441-5311 ou (64) 3441-5383. Regional Goiás Em 2016 a Regional Goiás ganhou o projeto de extensão Copa UFG Regional Goiás de Futsal, com o objetivo de integrar a comunidade acadêmica e incentivar a prática de esportes. Um grupo de servidores também se organiza informalmente para jogar futebol de salão duas vezes por semana e aos sábados vôlei de areia. Os jogos ocorrem no ginásio do Colégio Santana, hoje alugado pela UFG, e no Balneário Carioca (vôlei). Quer participar e incrementar a prática de esportes na Regional? Procure o servidor da UFG Lucas Fagundes pelo email: <lucasfagundesvaz@ufg.br>. Regional Jataí A Regional Jataí tem o Núcleo de Práticas Corporais (NPC), ligado ao curso de Educação Física, na Unidade Jatobá. O NPC oferece diversas modalidades, como artes marciais, dança, ginástica, modalidades coletivas, hidroginástica e natação. As inscrições podem ser realizadas durante todo o ano, de acordo com o limite de vagas. Para mais informações entre em contato pelo telefone (64) 3606-8370, e-mail <educacaofisicanpc@gmail.com> ou no site <https:// npceducacaofisica.jatai.ufg.br/>.

funciona das 7h às 22h de segunda a sexta e atende 20 alunos por hora. Cada aluno realiza atividades em horários prefixados duas vezes por semana e na sexta-feira o horário é livre. Não há taxa de matrícula ou mensalidade. Atualmente as vagas são poucas, mas existe uma lista de espera. Quando surgem vagas a pessoa é contactada para matricular-se. O espaço possui aparelhos para musculação e ergometria. As atividades são acompanhadas por monitores que orientam a rotina de exercícios e sua execução que, por sua vez, são supervisionados por um profissional devidamente qualificado.

Gosta de esportes coletivos?

Futsal, vôlei, rugby, handebol e basquete são algumas das modalidades esportivas em que UFG mantém equipes representativas e que realizam seus treinamentos no Cecas. Os times participam de torneios como os Jogos Universitários Goianos (JUG´s), Jogos Universitários Brasileiros (JUB´s), entre outros. Os treinos são dirigidos por treinadores contratados pela CEL-Procom para representarem a UFG nas competições Universitárias no Estado de Goiás e por todo Brasil. Confira o quadro de horários de treinamento no Cecas. Mais informações sobre como participar, no telefone 3521-1526.

Praticampus O Centro de Esportes Câmpus Samambaia também apresenta uma nova atividade: o Praticampus, que unirá iniciação esportiva e treinamento funcional. O Praticampus objetiva a vivência de uma dinâmica fora da academia visando a promoção da saúde através da prática de modalidades esportivas juntamente com exercícios funcionais. Inicialmente serão ofertadas turmas nos horários iniciais de cada um dos períodos do dia (7h às 8h e das 12h às 13h) para atender, também, aos trabalhadores da UFG. As inscrições serão realizadas na recepção da academia do Cecas. Mais informações pelo telefone 3521-1526. Modalidade

Dias e horários

Basquete

Quinta 21h às 22h

Futsal

Segunda 17h às 19h, Terça e Sexta 21h às 22h

Handebol

Segunda 19h às 22h

Rugby

Quinta 22h às 23h30 e Sábado 16h às 19h

Voleibol

Quarta 20h30 às 23h e Sexta 18h às 21h

Universidade

“Não tenho dinheiro para pagar um supervisor ou uma academia”


Pesquisa

10 relacionar esses valores com toda a riqueza gerada em diversas cidades, percebe-se que em muitas delas a aposentadoria rural representa 50% do Produto Interno Bruto (PIB) municipal. “O aposentado rural não faz poupança, não investe em letras do tesouro, na previdência, em dólar, em nada. Ele gasta aquilo na economia local”, afirma.

Professor da UFG analisa os impactos da reforma da Previdência Social e destaca como o caráter social da Previdência pode acabar

Camila Godoy

E

m meio a tantos debates sobre a reforma da Previdência Social, com o envio ao Congresso Nacional da Proposta de Emenda Constitucional nº 287, o professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Tadeu Arrais, resolveu analisar dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além da legislação sobre o assunto, para traçar algumas possíveis consequências dessa proposta, caso seja aprovada. Durante a pesquisa, algo chamou a atenção do docente: a invisibilidade dos trabalhadores rurais, dos pescadores e daqueles que vivem no regime de coleta nas florestas e que são contemplados com o que, cotidianamente, chamam de aposento rural. O estudo resultou em um livro lançado no início do ano pelo professor. Assim, para iniciar a reflexão, geralmente considerada complexa por seus muitos números, nada melhor do que entender as peculiaridades do regime de previdência social brasileiro. Segundo Tadeu Arrais, a palavra social muda tudo ao se levar em consideração o funcionamento tradicional do sistema, como os da esfera privada, em que o cliente de um banco deposita mensalmente um valor durante um período predeterminado, com todas as taxas e rendimentos da modalidade, para depois receber uma quantidade fixa mensal por outro período determinado previamente. “Em algum momento, na década de 1980, o Brasil decidiu cuidar das mulheres, dos idosos e deficientes, entre outros. Nossa Constituição Federal garante uma série de direitos que não podem ser traduzidos apenas

pelo nome previdência. Nem o termo Previdência Social pode ser sinônimo de aposentadoria. Hoje, por exemplo, se uma mulher fica grávida, ela tem direito à licença maternidade. Se um trabalhador sofre acidente de trabalho, tem direito ao auxílio doença. O trabalhador rural pode se aposentar por idade e invalidez, além de ter direito a pensões e auxílios”, explica Tadeu Arrais. Ele acrescenta que os brasileiros têm um regime solidário, em que os recursos são oriundos de contribuições patronais, empregados e repasses do Estado, gerenciados pelo governo, e que não vão para uma poupança individual, mas para todos.

Contra-argumentação A origem dos recursos é justamente uma questão que, no ponto de vista do professor, é ignorada por muitos ao reproduzirem o discurso de déficit das contas públicas da previdência, principal motivo apontado para a reforma e divulgado como R$ 151,9 bilhões no ano de 2016. No entanto, para Tadeu Arrais é necessário analisar toda a conjuntura, em um Brasil com mais de dez milhões de desempregados e com leis que permitem a desvinculação de receitas da União, de forma que a gestão possa retirar dinheiro do INSS para fazer um remanejamento orçamentário. Além disso, ele aponta o fato desses números não contabilizarem outras receitas, que de acordo com a legislação, poderiam ser destinadas à previdência, como os recursos da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). “Isso tudo cria um cenário quase que apocalíptico, em que a previdência é responsável pela falência do estado”, destaca. O tempo de contribuição proposto pela reforma também é questiona-

do pelo pesquisador. Neste sentido, o professor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, Revalino Freitas, também acredita que o prazo previsto para os trabalhadores se aposentarem será inviável visto que o pleno emprego não é mais uma realidade brasileira. “Na década de 1970 e 1980, as pessoas trabalhavam toda a vida em dois ou três empregos. Hoje, não há estabilidade. Os jovens ficam desempregados por períodos mais longos e frequentes”, afirma. Seguindo essa lógica, contribuir por 25 anos, como proposto, demorará muito mais tempo corrido.

Trabalhadores rurais

Segundo Tadeu Arrais, a situação fica muito mais preocupante quando se analisa a situação dos beneficiados pela assistência social do regime, ou seja, idosos de baixa renda, deficientes e aposentados rurais. Este último com um regime diferenciado, em que homens com mais de 60 anos e mulheres acima dos 55, desde que comprovem o exercício da atividade rural por no mínimo 15 anos, têm direito ao valor de um salário mínimo mensal vigente à época da data do requerimento. Assim, para o professor, como esses trabalhadores não contribuem no mesmo parâmetro do trabalhador urbano formal, a proposta do governo defende que eles percam esse direito adquirido tal como é.

Dessa forma, Tadeu Arrais aponta como principais erros dessa proposta a equiparação do trabalho urbano e do rural, visto que têm naturezas completamente diferentes. Ele afirma que mais de 70% das pessoas iniciam o trabalho no campo com menos de 16 anos, sendo o contrário do urbano, regido por um mercado formal e que incompatibiliza escola e trabalho. “A expectativa de vida entre os dois tipos de trabalhadores é completamente diferente. Entre o Nordeste e Norte brasileiros, predominantemente rurais, e o Sudeste, majoritariamente urbano, chega a oito anos. Portanto, não seria exagero dizer que nós vamos inverter a lógica inteira da previdência e o Nordeste e o Norte vão financiar a previdência do Sudeste”, detalha.

A previdência rural e a economia municipal

Um dos dados mais alarmantes da pesquisa do professor Tadeu Arrais é como a aposentadoria rural se tornou um recurso indispensável para as economias municipais. Ao

O professor também orienta para o fato de que ao analisar dados gerais de estados essa realidade pode ser camuflada. “Isso fica assustador quando começamos a pensar as amostras e estratificações. Pegando isso, há 54 municípios goianos em que a receita da aposentadoria, acrescido do bolsa família e benefícios, é acima de 70% do valor total das receitas municipais. É isso que faz a economia desses locais girar. Em algumas dessas cidades há mais beneficiados de aposentadoria do que no trabalho formal”, argumenta.

Assim, para o docente, a aposentadoria rural combate a pobreza na terceira idade e na infância, uma vez que o idoso é arrimo de família, financia parte da produção agropecuária, capitalizando as pequenas propriedades, e ainda movimenta o varejo das economias municipais. “A PEC-287 desarticula sistemas de produção na escala nacional e, de quebra, enterra parte da política de assistência social ao idoso e à mulher do campo”, defende. Veja os resultados completos da pesquisa no ebook Retorno do risco social no campo - a reforma da previdência e o fim da aposentadoria rural, publicado pela Imprensa Universitária, selo vinculado à Editora da UFG.

Eu, professor universitário, aos 65, imagino que estarei em pleno exercício das minhas atividades intelectuais necessárias à profissão. O mesmo eu não digo de alguém que trabalha nas carvoarias, na construção civil ou como policial militar. Precisamos ter coragem de pensar esses grupos. Não somos homogêneos Tadeu Arrais

Ebook


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Fotos: Divulgação

Esporte

Equipes de rugby da UFG têm destaque nacional Desafio é popularizar o esporte fora do foco Sul-Sudeste Angélica Queiroz

O

rugby é um esporte coletivo de intenso contato físico que, segundo a lenda, surgiu quando um aluno correu agarrando a bola e seguiu com ela até a linha de fundo adversária, infringindo a regra, durante um jogo de futebol, na cidade de Rugby, na Inglaterra, em 1823. O jogo é disputado por duas equipes, em que os jogadores conduzem uma bola oval com as mãos, podendo também utilizar os pés para chutes e lançamentos, com o objetivo de marcar o maior número de pontos dentro do tempo regulamentar da partida. Apesar de ter chegado ao Brasil ainda no século XIX, o rugby ainda não é muito conhecido no país e tem pouco espaço, especialmente, fora do eixo Sul-Sudeste. No entanto, nos últimos anos, equipes de rugby criadas na UFG vêm conquistando espaço no cenário nacional.

Na temporada 2016, a equipe masculina da UFG terminou o ano invicta na modalidade de Rugby Sevens, conquistando todos os campeonatos disputados. Segundo o treinador, Bruno Alexandre Freire, para 2017, o desafio é fomentar o esporte no país e mostrar No Brasil, o esporte é organizado pela Confederação Brasileira de Rugby.

a força do rugby do Centro-Oeste. “Teremos uma jornada bem mais longa, disputaremos novas competições, pois agora o nosso objetivo é mostrar nossa cara, mostrar nosso rugby para o restante do Brasil. Estamos felizes e orgulhosos, e trabalharemos duro para melhorar cada vez mais”, afirma.

A equipe feminina é mais nova, formada no início de março de 2016; mas em seu primeiro campeonato, já conquistou o terceiro lugar. De acordo com o treinador da equipe feminina Xavantes, Felipe Schmitz, a estreia ocorreu após cinco meses de treino e a equipe está feliz com seu desempenho inicial. “Todas as atletas iniciaram juntas, estão crescendo juntas e, o mais importante, com o espírito e os valores do rugby”. Felipe Schmitz afirma que o projeto para 2017 é um tanto quanto ousado, porém com os pés no chão. “O calendário feminino é mais curto do que o masculino, o que dificulta, mas não nos desmotiva em nada. Temos como objetivo crescer como equipe e, além dos títulos, o principal é disseminar o rugby no país, mostrando que mulheres também jogam e jogam bem”. O presidente do UFG Rugby, Mateus Pureza Cardoso, afirma que a proNo jogo de rugby há três ou quatro árbitros. Entretanto, cabe apenas a um conduzir o jogo.

A versão original e mais tradicional é disputada por duas equipes de 15 jogadores, já a olímpica é disputada por duas equipes de sete jogadores.

Só é possível passar a bola para o lado ou para trás. Os ataques decorrem das corridas com posse de bola; só é possível passes para a frente com pontapés.

cura pelo esporte tem crescido, especialmente devido aos resultados mais expressivos alcançados pelas equipes da Universidade. Segundo ele, a Pró-Reitoria de Assuntos da Comunidade Acadêmica da UFG auxilia a equipe fornecendo traslado para campeonatos universitários e locais para treino. De acordo com Mateus, também já está sendo viabilizada uma parceria entre as equipes do UFG rugby e um projeto de extensão de aperfeiçoamento e iniciação do Rugby vinculado à Faculdade de Educação Física e Dança.

muitas vezes se sacrifica para que seus companheiros ganhem mais dois metros de campo, aprende-se a confiar na sua equipe”, explica.

Esporte para todos

A treinadora das equipes iniciantes, Veridiana Albuquerque, afirma que o rugby é uma modalidade bastante democrática. “O rugby é um esporte em que a pessoa pode ser magra, gordinha, alta ou baixa. Não existe preconceito ou a necessidade de um padrão físico para o jogador, pois ele pode se adaptar às posições adequadas ao seu porte físico”, detalha. Veridiana também destaca que o espírito de coletividade no rugby é muito forte. “Desde as primeiras lições no esporte aprendemos que não dá para jogar sozinho. Por ser um jogo de contato, no qual Austrália, África do Sul, França, Inglaterra e Nova Zelândia são as grandes potências mundiais.

Quer conhecer o rugby?

O UFG Rugby aceita inscrições o ano todo e, para ingressar nas equipes, não é necessário ter vínculo com a UFG, embora a base do time seja obrigatoriamente formada por estudantes. Nos treinos, que ocorrem geralmente às quartas e sábados, há uma divisão entre iniciantes e veteranos. As equipes têm uma treinadora exclusiva para os iniciantes para que eles tenham noção do esporte antes de treinar com os mais experientes, evitando lesões e melhorando a dinâmica dos treinos. Entre em contato pelo Facebook, Instagram (@ufgrugby) ou e-mail (clubeufgrugby@gmail.com) Por ser um esporte de extrema interação física é importante que os jogadores usem equipamentos de segurança, tais como chuteiras, ombreiras, boqueiras e capacetes.

No Brasil também podemos escrever “rúgbi”. Em Portugal é conhecido como “râguebi”.


Esporte

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Biomecânica como aliada do esporte Faculdade de Educação Física e Dança da UFG utiliza ciência para auxiliar a prática esportiva Angélica Queiroz

A

Biomecânica está presente desde as tarefas mais simples, como levar comida à boca, até as mais exaustivas, como uma competição. A ciência que estuda e faz análises físicas de movimentos do corpo humano, estuda as causas e consequências do movimento a partir da combinação de diversas disciplinas. Nas práticas esportivas, a Biomecânica tem aplicação fundamental, uma vez que, se praticado de maneira inadequada, o esporte pode ter efeito nocivo e prejudicar ossos, músculos e articulações. De olho nisso, pesquisadores do Laboratório de Bioengenharia e Biomecânia (Labioeng) e do Laboratório de Avaliação do Movimento Humano (Lamovh), da Faculdade de Educação Física e Dança da Universidade Federal de Goiás (FEFD/UFG) se dedicam a estudar os movimentos do corpo humano de modo a produzir equipamentos apropriados, avaliar postura e controle motor e estabelecer a execução correta de cada atividade.

Fotos: Carlos Siqueira

Nos laboratórios a tecnologia é uma grande aliada para a análise,

feita através de sistemas que observam as características geométricas e temporais dos movimentos ao longo de uma determinada tarefa, estabelecendo comparações entre pessoas saudáveis e grupos com algum tipo de dificuldade motora. Para a análise, marcadores reflexivos são fixados com adesivo em pontos anatômicos do indivíduo a ser analisado, e a pessoa começa a se exercitar. Dez câmeras suspensas emitem luz infravermelha de modo que cada marcador é visto simultaneamente por pelo menos duas câmeras. Então, por meio de um software de reconstrução de movimento, se obtém a representação tridimensional do conjunto de marcadores no computador. A partir dessas coordenadas é possível analisar as variáveis cinemáticas como posição, velocidade, aceleração de cada segmento e ângulo de cada articulação como, por exemplo, da articulação do joelho, obtida via cálculo trigonométrico, envolvendo segmentos da coxa e da perna. Essa modelagem virtual pode ser útil, por exemplo, na construção de uma terapia de reabilitação para indivíduos com movimentos comprometidos por traumas.

O Lamovh desenvolve o Dynamic Posture, um sistema de baixo custo financeiro para avaliação postural computadorizada com filmadoras e câmeras fotográficas comuns. “Esse sistema já é utilizado em ambiente de laboratório e está em fase de simplificação para instrumentalizar o professor de Educação Física que atua na escola, academia, clubes esportivos e outros espaços carentes de recursos”, explica o membro da Sociedade Brasileira de Biomecânica e professor da FEFD, Mário Campos. O professor explica que, compreendendo o movimento, a Biomecânica também pode ajudar os atletas na prevenção de lesões, garantindo longevidade e o desenvolvimento de técnicas e equipamentos para aumentar o rendimento, garantindo também mais sucesso naquela modalidade.

Lacuna entre a pesquisa e o esporte

O professor Marcus Vieira, coordenador da Rede Goiana de Pesquisa em Tecnologias da Saúde da Fapeg, comenta que a parte de desenvolvimento de materiais para desempenho esportivo é muito sofisticada e desenvolvida. Segundo ele, atualmente já existem técnicas bastante elaboradas para desenvolver equipamentos esportivos, como roupas próprias para natação, similares a sistemas biológicos reais, como de

peixes e tubarões, ou calçados e pisos capazes de armazenar energia potencial e devolver em forma de energia cinética ao atleta.

No entanto, o pesquisador lembra que existe um obstáculo que atrapalha o desenvolvimento da Biomecânica no país: a lacuna entre a pesquisa e o campo esportivo. Segundo ele, a área necessita de investimentos maciços, especialmente nos esportes de alta complexidade; e há um distanciamento entre a pesquisa, que traz esse suporte, e a aplicação prática, especialmente porque pesquisa nessa área é cara, pois exige espaços grandes, equipamentos sofisticados e bagagem teórica sólida para trabalhar com esses equipamentos. “Investimento ainda é uma das principais dificuldades em se fazer ciência, sobretudo em nosso país”, lamenta.

Além disso, Marcus Vieira lembra que ainda existe uma certa aversão por parte dos alunos a essa disciplina devido à sua complexidade e embasamento teórico. “Nós precisamos trabalhar um pouco isso desde a formação. Precisamos resgatar um pouco mais da importância dos princípios mecânicos por trás de cada técnica utilizada”, explica. Para Marcus Vieira é tarefa do profissional de Educação Física ensinar aos alunos a execução correta de cada movimento de modo a prevenir lesões e obter melhores resultados.

Confira o programa Viver Ciência sobre o assunto

Aprender para ensinar A professora da FEFD, Florence Rosana, aplica a ciência nas aulas de atletismo da FEFD, já que a modalidade esportiva envolve incontáveis movimentos e riscos de lesão, como corridas, saltos, lançamentos e arremessos. Para reduzir esses riscos e compreender a técnica correta, a professora ensina os princípios da ciência aos alunos, preparando os futuros profissionais do esporte para repassar os movimentos corretos, contribuindo, inclusive, para a melhora do rendimento. “Tento resgatar com eles o que viram nas aulas de Física no Ensino Médio, como posicionamento do corpo, vetores, angulação, movimentos de braços e perna, inclinação na hora de curva. Não é uma das disciplinas preferidas porque envolve Física e Matemática, mas a aplicação diminui a rejeição e os resultados são positivos”, resume.


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Projetos estimulam o hábito da leitura por meio do acesso a acervos mantidos com apoio da instituição e também de voluntários Luciana Gomides

U

ma pesquisa divulgada em 2016 pelo Ibope, por encomenda do Instituto Pró-Livro, revela que 44% dos brasileiros não lê. 30% dos entrevistados nunca comprou um livro. Diante da missão de socializar o saber e o conhecimento, a UFG tenta mudar esses números por meio de uma série de ações com o objetivo de democratizar o acesso à leitura. É o caso dos projetos do Sistema de Bibliotecas (Sibi/UFG), da Faculdade de Educação e do curso de Biblioteconomia.

Semana Nacional do Livro e da Biblioteca

Composto pela Biblioteca Central (BC) e oito seccionais, o Sibi/UFG é um dos grandes estimuladores dos projetos de incentivo à leitura, apoiando e desenvolvendo propostas de relevância dentro da Universidade. Além de ações internas, como melhoria na estrutura da BC e campanhas de conservação de livros, são colocadas em prática iniciativas como o resgate das comemorações da Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, realizada em outubro de 2016, onze anos após sua última edição na UFG. Maria Silvério da Silva Siqueira, atual diretora do Sibi, destaca uma iniciativa que começou durante o evento:

a Gelateratura. O projeto, idealizado pela Oficina Cultural Geppetto, já é conhecido pela população goianiense. “São geladeiras instaladas em terminais de ônibus e hospitais com o objetivo de compartilhar o material bibliográfico, de forma que a geladeira se sustente”, explica Maria. Trazê-lo para a UFG é parte de um projeto ainda mais interessante do que sua simples instalação.

Ao todo, foram adquiridas 13 geladeiras e dois frigobares. As tintas puderam ser compradas com renda proveniente das multas por devoluções em atraso. Para reformá-las, Sibi e Gepetto uniram-se na promoção de duas oficinas de pintura, envolvendo alunos de Artes do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae) e graduandos da Faculdade de Artes Visuais (FAV). Depois de prontos, os equipamentos foram distribuídos em 12 pontos da Universidade (confira no quadro). Os livros da Gelateratura são doados pela BC e por voluntários (ou seja, você também pode doar), estando disponíveis aos alunos, aos servidores e à comunidade que frequenta os câmpus. Para a diretora do Sibi “no futuro, colheremos a diferença desse incentivo à leitura na capacidade crítica, de leitura e de vida do indivíduo”. A atual gestão pretende lançar novos projetos, como uma feira de troca de livros durante a próxima edição da Semana Nacional do Livro e da Biblioteca.

Fotos: Carlos Siqueira

Além das bibliotecas, confira os locais na UFG em que você pode pegar um livro e também doar para que outras pessoas leiam! – Restaurante Universitário (Câmpus Samambaia) – Prédio da Reitoria – Faculdade de Educação Física e Dança – Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae) – Departamento de Educação Infantil – Hospital das Clínicas

Extensão

Democratização da leitura na UFG Projeto Estante Solidária está sendo desenvolvido na Faculdade de Educação

Vivemos em uma comunidade baseada na vigilância e punição, o que precisa mudar. É necessário construir uma sociedade onde exista a confiança, e não penalidades

Adão Peixoto

Estante Solidária Não somente o incentivo à leitura mas, também, a mudança de atitude. Esse é o objetivo maior da Estante Solidária, projeto desenvolvido na Faculdade de Educação (FE) sob a orientação do professor Adão Peixoto. Idealizado a partir da observação de iniciativas presentes nos pontos de ônibus de Brasília, Campo Grande e Porto Alegre, o plano foi colocado em prática em outubro de 2016. Instalada no hall de entrada da FE, a estante dispõe de títulos dos mais variados temas, disponíveis para a comunidade interna e externa. Não é exigido que o interessado em fazer um empréstimo forneça dados pessoais ou se associe, sendo necessário, apenas, que retire o exemplar, anote o título e o devolva ao finalizar a leitura. As estantes foram fabricadas no Centro de Gestão do Espaço Físico (Cegef) e o acervo vai sendo construído mediante doações de alunos e professores. Juliana Goulart, uma das alunas envolvidas no projeto, explica que o registro das retiradas servirá como fonte de levantamento de dados sobre os assuntos mais procurados pelos usuários. “Essa verificação facilitará a gestão do acervo, nos ajudando a ver quais títulos continuarão disponíveis e quais serão retirados”. Karine Moraes, diretora da FE, recorda que a unidade possuía sua própria biblioteca, retirada há alguns anos. “Por isso, esse tipo de projeto é de grande valor para os alunos”, completa a docente. A diretora comenta ainda que a presença de alunos de cursos externos à Faculdade de Educação facilita a entrada de exemplares de temas diversos. No entanto, Karine lembra que, apesar da variedade de títulos, o intuito do projeto não é se tornar uma biblioteca, mas, sim, servir como incentivo à leitura, um programa de circulação e

influência do hábito de ler. Segundo ela, entre os planos futuros para a Biblioteca Solidária está a otimização do espaço, tanto das prateleiras quanto da própria estrutura física, tornando-a mais confortável para seus usuários.

“Libris” para as crianças Apaixonados por livros como são, alunos e professores do curso de Biblioteconomia pretendem plantar o mesmo fascínio nas crianças. O Laboratório do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (Libris) tornouse referência na Universidade por seu ineditismo em trabalhar ações voltadas para o público infantil. Ao todo, são três bibliotecas congregadas, sendo elas as Bibliotecas Escolares Modelo do Departamento de Educação Infantil (DEI/UFG) e da FE, além da Biblioteca Infanto- Juvenil do Grande Hotel, fruto de uma parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de Goiânia. A Biblioteca Modelo tem como foco principal criar e implantar espaços referenciais para o Ensino Fundamental dos sistemas público e privado. Coordenado pela professora Maria das Graças Monteiro Castro, o projeto conta com acervo composto por 6 mil títulos de literatura infantil, informativos e teóricos. A docente Laura Vilela explica que a ideia é, a partir desse recurso, “organizar uma biblioteca que se torne referência para que os sistemas educacionais público e privado”. São desenvolvidos critérios de implantação levando em conta estrutura física, técnica e organizacional, acervo, formação de professores e bibliotecários, além da promoção e mediação da biblioteca no contexto escolar. A fundamentação do programa está na premissa de que a biblioteca escolar deve posicionar-se no espaço pedagógico, atuando como difusora do conhecimento e centro dinamizador da leitura.

O Libris atua como comitê do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler) em Goiânia, por meio de convênio firmado com a UFG. O projeto tem também o apoio da instituição no fornecimento de bolsas de estágio e ações de promoção de leitura, como contação de histórias e mostras de livro no DEI (antiga creche da UFG). As mostras, inclusive, incluem visitas de alunos de Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis), que passam o dia no DEI envolvidos em atividades lúdicas e de incentivo à leitura.


Universidade

14 Parte da obra encontra-se em estágio avançado de conclusão. Do nono ao 20º andar a fase é de acabamento, com a instalação de revestimento, portas e esquadrias. Os recursos investidos na construção do prédio e na aquisição de parte dos equipamentos, até o presente momento, alcançam o montante de aproximadamente R$ 150 milhões.

Parte destes recursos, da ordem de R$ 20 milhões, foram alocados pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) e o restante, R$ 130 milhões, foi proveniente da alocação de recursos de emendas de bancada, do conjunto de deputados e senadores goianos no Congresso Nacional. Fotos: Carlos Siqueira

UFG investe em reformas e novas obras Universidade possui 47 obras em andamento em todas as regionais, incluindo a construção da nova unidade do Hospital das Clínicas Luiz Felipe Fernandes

Hospital das Clínicas

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Outra obra de grande porte é a da nova unidade do Hospital das Clínicas (HC). O prédio, que está sendo construído na mesma quadra da atual sede do HC, é a maior obra já realizada na UFG e será o maior hospital de uma universidade federal brasileira. São 20 pavimentos em uma área de mais de 44 mil metros quadrados.

inda que o cenário nacional seja de economia de gastos, a Universidade Federal de Goiás (UFG) investe recursos em dezenas de obras em todas as regionais. Atualmente são 47 obras em andamento, que incluem reformas, adaptações e novas construções. O montante destinado é de aproximadamente R$ 204 milhões. O diretor do Centro de Gestão do Espaço Físico (Cegef), Marco Antônio de Oliveira, informa que as construções têm destinações variadas, como o atendimento a cursos já existentes (edifícios do curso de Medicina da Regional Jataí e de Engenharia Mecânica da Regional Goiânia) e a implantação de novos cursos (câmpus de Aparecida de Goiânia). Além disso, em continuidade aos anos anteriores, são feitas intervenções para a acessibilidade das áreas externas nas Regionais Catalão e Jataí.

No começo deste ano o reitor da UFG, Orlando Amaral, visitou o prédio em construção. “A obra tem uma enorme importância para a pesquisa, o ensino e a extensão, sobretudo para a população que necessita de serviços hospitalares e que será atendida integralmente pelo SUS”, destaca. Ele acrescenta que as condições de ensino e pesquisa oferecidas pela nova unidade do Hospital das Clínicas representam um avanço tanto para a Universidade quanto para a saúde em todo o estado de Goiás.

Nova unidade do HC será a maior obra já realizada na UFG

Confira algumas obras em andamento - Edifício de internação do Hospital das Clínicas; - Edifício dos cursos de Aparecida de Goiânia; - Edifício do curso de Medicina (Regional Jataí); - Edifício da Biblioteca (Regional Jataí); - Restaurante Universitário (Regional Goiás); - Edifício do curso de Engenharia Mecânica (Regional Goiânia); - Conclusão do segundo pavimento da Faculdade de Medicina (Regional Goiânia); - Conclusão do edifício de Artes Cênicas (Regional Goiânia); - Edifício do Centro Tecnológico.

Reformas e adaptações - Edifícios do Instituto de Física (Regional Goiânia); - Acessibilidade dos edifícios da Regional Catalão; - Acessibilidade dos edifícios da Regional Jataí; - Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas (Regional Goiânia); - Reformas nas Casas do Estudante.

Ascom Jataí

O prédio que está sendo erguido em Aparecida de Goiânia terá seis andares, 7,3 mil metros quadrados e abrigará quatro cursos de graduação. O valor investido ultrapassa R$ 17 milhões. A previsão de término é fevereiro de 2018. Em Jataí, o edifício do curso de Medicina terá quatro andares, com área de 5,2 mil metros quadrados. O investimento é de quase R$ 11 milhões e a conclusão está prevista para o fim deste ano.

Serão ao todo 600 leitos de internação distribuídos em dez andares. Um deles será destinado à maternidade, com capacidade de atendimento à gestante de alto risco, equipado com UTI neonatal e centro obstétrico, e outro exclusivo para a internação de pacientes transplantados. Os outros dez pavimentos vão abrigar centros cirúrgicos, UTI e estruturas de apoio ao funcionamento da unidade. A conclusão está prevista para novembro de 2018.

Obra na Regional Jataí será destinada à Biblioteca

Prédio do câmpus Aparecida deve ser concluído em 2018


15 CAMINHOS DA PESQUISA

Integridade e ética na extensão Claci Fátima Weirich Rosso é Pró-reitora Adjunta de Extensão e Cultura

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Carlos Siqueira

extensão universitária tem o importante papel de promover a interação entre a universidade e a sociedade, socializando os conhecimentos acadêmicos através da troca de saberes acadêmicos e populares, concebida como um processo educativo, cultural e científico que articula o ensino e a pesquisa. Neste sentido, a integridade acadêmica e a ética na extensão devem ser conduzidas com os mesmos princípios que norteiam a pesquisa e o ensino. Portanto, é necessário definir a má conduta e o equívoco acadêmico na extensão e definir como proceder no sentido de contribuir para corrigir e assegurar a credibilidade da extensão universitária.

* Juara Castro e Evaldo Gonçalves

Apropriação cultural existe para além da Internet

C

om os novos espaços de sociabilidade, sobretudo as novas redes de comunicação, o ser humano parece ter (re)descoberto viver em uma sociedade em rede. Uma organização antiga, mas que vinha sendo enfraquecida até a chegada da modernidade. A apropriação cultural tem figurado com uma das maiores discussões desse cenário, sendo até classificada por muitos como “coisa de Internet”. Vamos com calma, meus amig@s! A “coisa” não é rasa assim para você simplesmente se jogar sem nenhum efeito “pós-queda”. Apropriação cultural é um termo antropológico usado para explicar o ato de se utilizar ou adotar hábitos e comportamentos de uma cultura que não é sua. É uma ideia complexa, ainda mais em países marcados pelo hibridismo, como é o caso do Brasil, onde a miscigenação é uma variável básica em boa parte das manifestações culturais. Porém, apropriação cultural é muito mais que uma mera disputa para legitimação de opiniões, sobretudo na Internet. Ela está estritamente ligada ao consumo cultural e vai além de um posicionamento “digital” para a acumulação de “likes”.

...como é possível que o samba, os turbantes e os colares de miçangas estejam na moda e os negros não? Como uma mulher estampa uma capa de revista com uma capulana e um turbante e ela não é negra? É necessário refletir sobre as problemáticas de racismo e desigualdades sociais que caminham lado a lado com a questão da apropriação cultural, sobretudo em países como o Brasil. A arte, a cultura e a política são variáveis altamente interligadas, o que significa que apropriar-se indevidamente de uma cultura gera uma desvalorização política do que está envolvido naquelas práticas simbólicas. Sendo diretos e práticos: como é possível que o

samba, os turbantes e os colares de miçangas estejam na moda e os negros não? Como uma mulher estampa uma capa de revista com uma capulana e um turbante e ela não é negra? O raso irá afirmar: isso é resultado da globalização. Mas a ligação do socioeconômico com a etnia é muito mais complexa e estrutural que isso.

Expressões simbólicas, performances e comportamentos são reflexos das relações de poder. A arte e o sentido político são responsáveis pela distinção, afirmação e reafirmação dos lugares de fala, e essas relações surgem a partir de práticas de consumo que induzem juízos de valor em relação à cultura. Portanto, uma luta política e simbólica não pode se reduzir a um “exotismo” ou “fetiche” de classes dominantes pela moda e “tendências de verão”. Estamos falando de uma classe dominante historicamente mais favorecida não só economicamente, mas principalmente em espaços políticos e de exercício da intelectualidade. Sendo assim, “dívida histórica” não é exagero, nem muito menos vitimismo. Pensar a ancestralidade como resistência e a negritude como uma forma de sociabilidade para além do biológico é fortalecer um sentimento de pertença devastado por anos de opressão. Perguntamos: “Por que o turbante não era interessante até estar na capa da revista?”. A questão vai além da permissão de usar ou praticar algo relacionado à cultura negra, mas sim ao desmonte do simbolismo com a “desculpa” de fazermos parte de uma lógica capitalista. A marginalização do negro tem andado de braços dados com a apropriação cultural. A “moda” negra está na moda, mas o negro não. Vale a reflexão de como algo marginalizado torna-se “de todos” de uma hora para outra. Mas esse “todo” exclui fortemente o primeiro detentor daquela cultura. A palavra de ordem é: respeito. * Estudantes do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Informação e Comunicação

O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.

... é necessário definir a má conduta e o equívoco acadêmico na extensão e definir como proceder no sentido de contribuir para corrigir e assegurar a credibilidade da extensão universitária O Comitê de Integridade Acadêmica (CIA), recentemente criado na UFG, está composto por representantes das grandes áreas do conhecimento, das Pró-Reitorias de Graduação, Pós-Graduação, de Pesquisa e Inovação, de Extensão e Cultura, dos Comitês de Ética em Pesquisa e representantes da Regionais. O CIA tem promovido debates em oficinas e workshops sobre a integridade e a ética na pesquisa, ensino e extensão, considerando como má conduta na extensão “faltar com a responsabilidade assumida; não prestar contas dos resultados”, entre outras ações que intencional ou por negligência podem depreciar ou desqualificar a universidade, sua comunidade ou a comunidade externa. Também é necessário estar atento ao plágio, que pode estar presente na produção acadêmica em todos os níveis.

Mas ainda são incipientes a discussão e as diretrizes sobre a integridade e ética para nortear os projetos de extensão que trabalham com vários seguimentos da sociedade, como comunidades vulneráveis, crianças, idosos, indígenas, comunidades quilombolas, entre outras. Docentes, técnico-administrativos e coordenadores de projetos de extensão têm demonstrado preocupação com aspectos éticos na extensão, principalmente no que diz respeito à publicação de artigos de extensão, produção de material audiovisual, livros didáticos e técnicos, como produtos dos projetos de extensão, nos quais podem conter imagens, relatos e dados destas comunidades. Se faz necessário ampliar o debate sobre integridade e ética na extensão e contar com a colaboração da comunidade acadêmica para apresentar diretrizes mais consolidadas. Neste sentido, a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura promoverá o primeiro Simpósio de Qualidade na Extensão, no dia 30 de agosto deste ano, sendo um dos temas a ser abordado a ética e a integridade na extensão. Com isso, contribuímos para o fortalecimento e credibilidade da extensão universitária e, consequentemente, da UFG.

Opinião

ARTIGO


Fotos: Rogério Neves

Extensão

16 Título: “Toadas de Santos Reis em Inhumas, Goiás: tradição, circulação e criação individual” (Goiânia: Gráfica UFG, 2015) Organizadores: Sebastião Reis e Talita Viana Onde encontrar: Livrarias UFG Pátio da FIC - Câmpus Samambaia Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 8h às 18h Fone: (62) 3521-1209 Faculdade de Educação - Câmpus Colemar Natal e Silva Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 8h às 20h Fone: (62) 3209-6322 Investimento: R$ 50,00

O vasto mundo dos foliões Projeto de extensão da UFG identificou 40 toadas diferentes, 12 delas de autor conhecido e atuante nos festejos de Santos Reis de Goiás

Patrícia da Veiga

L

ocalizado a 35 quilômetros de Goiânia, o município de Inhumas, com pouco mais de 56 mil habitantes, possui inúmeros grupos de Folia de Reis – tantos, que mapeá-los é tarefa para uma longa convivência. São em maioria companhias urbanas, mas circulam pelo campo, pelas estradas e em municípios vizinhos como Damolândia e Itauçu. Fazem seus giros durante vários meses do ano e não somente no intervalo entre o Natal (25/12) e o dia de Santos Reis (6/1), como de costume. São grupos marcados pela complexidade e pela diversidade. Nos cortejos que fazem, usam um vasto repertório, muitas vezes de autoria própria. Para identificar e preservar a obra presente nessa manifestação da cultura coletiva, pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), da Universidade de Brasília (UnB) e da Faculdade Sul-Americana (FASAM), juntamente com a Cia de Santos Reis de Inhumas, produziram a coletânea “Toadas de Santos Reis em Inhumas, Goiás: tradição, circulação e criação individual” (Goiânia: Gráfica UFG, 2015).

O material, lançado em fevereiro deste ano, é composto por um livro e dois CDs que reúnem 40 toadas identificadas nas Folias. No primeiro disco, é possível acompanhar todo o ritual cantado, da retirada da bandeira da casa do embaixador até os agradecimentos finais na residência do anfitrião. Já o segundo CD reúne 26 faixas com trechos de músicas costumeiramente tocadas nas festas. O livro, por sua vez, traz partituras das músicas, uma descrição detalhada de como atuam os foliões, além de reflexões sobre autoria e transmissão de saberes no processo de organização e realização dos cortejos.

O trabalho foi organizado pelo professor da Faculdade de Ciências Sociais (FCS), Sebastião Rios e pela doutoranda em Antropologia da UnB, Talita Viana. Sebastião é violeiro e acompanha os grupos de Inhumas desde 2006. Talita está na região desde 2009 e há seis anos atua como caixeira nos grupos. Motivada pela vontade de compreender os fundamentos das Folias, a dupla produziu os projetos “Livro e CD da Cia de Santos Reis de Inhumas – Goiás”, contem-

Inovação Por ocasião do lançamento da coletânea, o professor Sebastião Rios recebeu de Carlos Rodrigues Brandão, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e referência nos estudos da cultura tradicional, uma avaliação do trabalho feito na UFG. Leia um trecho da correspondência: “O trabalho feito por sua equipe e você é realmente inovador. E digo isto depois de haver escrito muito e haver lido mais ainda sobre os mais variados estilos de folias, dedicadas aos mais vários santos. A abordagem criativa, o lugar de justo destaque dado a cada uma das pessoas participantes. A coerência de textos e de memórias. E o maravilhoso trabalho de imagens. Não me lembro de haver lido e visto antes um trabalho que fosse tão merecedor da experiência humana surpreendente que é um pequeno ‘bando de foliões’ estrada afora, anunciando um menino e alguns reis magos. Só resta despedir com um... ‘Santos Reis que abençoe’. “ Carlos Rodrigues Brandão

plado pelo Fundo Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de Goiás (Secult) em 2013, e “Uso comercial de expressões culturais tradicionais”, contemplado pelo Programa de Extensão Universitária (Proext/MEC) em 2014. Ambos culminaram nessa coletânea, que recebeu contribuições de estudantes de graduação em Direito e Ciências Sociais, e contou com imagens de Rogério Neves, professor de fotografia e produção audiovisual na FASAM.

Religiosidade A toada compreende desde a estrutura de versos e respostas do cantorio até a melodia, o ritmo e o acompanhamento de instrumentos. “Os cantos e toadas da Folia de Reis trazem a marca da sensibilidade dos foliões que, contrastando com seu cotidiano de trabalho duro e precárias condições materiais de existência, se revela na leveza de um cantorio ao mesmo tempo rústico e delicado. Simples em sua harmonia e complexo na sobreposição e encaixe de vozes, a Folia de Reis constitui uma das maiores celebrações da cultura e da religiosidade popular no Brasil”, detalham os autores. É por meio do cantorio que os donos da casa recebem os festeiros e que estes se comunicam com quem recebe a bandeira. Nesse sentido, a Folia de Reis é entendida como uma mani-

festação cultural e social, mas sobretudo religiosa, que tem na música um papel central. “O prazer estético de ouvir e cantar, tocar e dançar é indissociável do contexto do ritual. Os foliões são, normalmente, bons cantores e alguns também muito bons instrumentistas. Ao apresentar os cantos estão, porém, expressando, antes, sua devoção ou cumprindo uma promessa”, escrevem Talita e Sebastião. Em depoimento registrado no livro, Luiz Carlos Frazão, embaixador da Cia de Santos Reis de Inhumas, confirma essa ideia: “a Folia de Reis para mim, em primeiro lugar, é como se fosse um Evangelho ambulante”.

Jornal ufg 86  

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XI – Nº 86 – ABRIL DE 2017

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