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JORNAL ANO X – Nº 83 OUTUBRO 2016

A satisfação no mercado de trabalho tem desafiado a sociedade. Mas, isso é possível? Conheça histórias de pessoas que tentam unir o útil ao agradável p. 8 e 9

Douglas Falcão discute tema do Conpeex 2016 em entrevista p.3

Mesa-redonda discute o tabu da morte e os cuidados paliativos p. 6 e 7

Conheça o Projeto TX, referência em cirurgias de redesignação sexual p. 14

Jessica Peixoto

Em busca da realização profissional


EDITORIAL

Em busca de realização, é preciso coragem para mudar Luiz Felipe Fernandes*

A

s colações de grau que a Universidade Federal de Goiás promove a cada semestre não são apenas o ato formal que encerra a graduação de milhares de estudantes. É também o marco que simboliza o início da vida profissional dos novos licenciados e bacharéis no mercado de trabalho. Provenientes dos mais diferentes contextos sociais e econômicos, muitos acadêmicos precisam trabalhar durante o curso, mas é a formação superior que passa a delinear de forma mais precisa a carreira que definirá o futuro desses profissionais. Concluir um curso superior é mergulhar num mar de possibilidades, mas também de incertezas. Ainda que passar quatro, cinco ou mais anos nos bancos da universidade permita conhecer o universo da profissão escolhida, é o seu exercício prático diário que vai dizer o quanto ela está alinhada às expectativas de cada um. O resultado dessa vivência cotidiana pode variar entre dois extremos: da plena satisfação à frustração. E para quem se depara com uma realidade diferente da que gostaria ou imaginava, o dilema é inevitável: insistir na profissão ou mudar de carreira?

Na reportagem de capa desta edição do Jornal UFG, a repórter Camila Godoy foi em busca de histórias de pessoas que decidiram dar uma guinada na carreira em busca de realização profissional. Assim foi com o professor de Educação Física que virou empresário, com a farmacêutica que agora estuda Engenharia Civil e com a jornalista que pôs o pé na estrada para aprender mais sobre agricultura orgânica. Em meio a discussões no âmbito federal que chegam a aventar a possibilidade de aumentar a jornada de trabalho para 12 horas diárias, relatos de pessoas que priorizaram satisfação pessoal e qualidade de vida são inspiradores. Mas a reportagem finca os pés no chão ao fugir do discurso utópico de que, para se realizar profissionalmen-

te, basta querer. Os professores da UFG consultados para a matéria contextualizam a realidade do mercado de trabalho brasileiro, ponderando que o modelo atual coloca a responsabilidade do sucesso apenas para o trabalhador, constantemente pressionado e sobrecarregado.

E se atitudes pessoais podem definir os rumos de uma carreira profissional, em uma instituição de ensino elas fazem toda a diferença. Não faltam na UFG exemplos de iniciativas que impulsionam o caráter transformador da educação, resultado das inquietações de estudantes, professores e pesquisadores. Um deles é o mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática, Greiton Toledo de Azevedo, que idealizou um projeto de ensino da matemática para crianças por meio de jogos digitais. O projeto deu a Greiton o Prêmio Educador Nota 10. No campo da pesquisa científica, o destaque desta edição vai para a descoberta, por pesquisadores da Regional Jataí, de duas espécies inéditas de plantas. Também trazemos informações sobre a importante retomada, no Hospital das Clínicas, do Projeto TX, um dos poucos no Brasil que realiza gratuitamente cirurgias de redesignação sexual. Já a mesa-redonda traz uma delicada reflexão sobre a morte, abordando a importância dos cuidados paliativos que amenizam a dor de doentes terminais.

Em nossa seção de entrevista, o convidado para a Conferência de Abertura do 13º Congresso de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFG, Douglas Falcão Silva, do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) fala sobre o tema do evento e da Semana de Ciência e Tecnologia 2016: “Ciência Alimentando o Brasil”. Ele explica as motivações da escolha e discute sobre os caminhos escolhidos para popularizar a ciência no Brasil nos últimos anos. Boa leitura! *Coordenador de Jornalismo da Ascom

COMUNIDADE PERGUNTA Como realizar o procedimento de fertilização in vitro pelo Hospital das Clínicas da UFG? Pergunta enviada via “Fale Conosco” O tratamento é indicado para casais com dificuldades de engravidar. A Organização Mundial de Saúde (OMS) lista 22 causas para as mulheres - como a obstrução tubária e a anovulação - e 16 para os homens - varicocele e vasectomia, por exemplo. O atendimento é feito por meio de um projeto de extensão da Universidade. A primeira consulta no Laboratório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas da UFG é marcada pela Secretaria Municipal de Saúde, via serviço social da cidade do paciente, pelos telefones 08006461560 ou (62) 3524-1580. É importante frisar que o Laboratório de Reprodução Humana não tem controle do tempo de agendamento de consultas e também não

marca consultas pela primeira vez diretamente. Outro ponto importante é que existem algumas limitações para atendimento, como disponibilidade de materiais e medicamentos e necessidade de fertilização assistida (bebê de proveta). Outros requisitos são Índice de Massa Corporal (IMC) até 31, máximo de duas cesáreas prévias, ter até 40 anos no mês da consulta e 41 no mês do tratamento. Mais informações podem ser obtidas no telefone do laboratório (3269-8278) ou pessoalmente (Laboratório de Reprodução Humana - Departamento de Gineco-Obstetrícia do Hospital das Clínicas da UFG – 1ª Avenida, s/n, Setor Universitário). Carlos Siqueira

Universidade

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Mario Approbato, responsável pelo Laboratório de Reprodução Humana / HC-UFG

JORNAL

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO X – Nº 83 – OUTUBRO DE 2016 – Universidade – Reitor: Orlando Afonso Valle do Amaral; Vice-reitor: Manoel Rodrigues Chaves; Pró-reitor de Graduação: Luiz Mello de Almeida Neto; Pró-reitor de Pós-Graduação: José Alexandre Felizola Diniz Filho; Pró-reitora de Pesquisa e Inovação: Maria Clorinda Soares Fioravanti; Pró-reitora de Extensão e Cultura: Giselle Ferreira Ottoni Cândido; Pró-reitor de Administração e Finanças: Carlito Lariucci; Pró-reitor de Desenvolvimento Institucional e Recursos Humanos: Geci José Pereira da Silva; Pró-reitor de Assuntos da Comunidade Universitária: Elson Ferreira de Morais. – Jornal UFG – Coordenador de Jornalismo: Luiz Felipe Fernandes; Editora: Kharen Stecca; Editora-assistente: Angélica Queiroz; Conselho editorial: Angelita Pereira de Lima, Cleomar Rocha, Estael de Lima Gonçalves (Jataí), Luís Maurício Bini, Pablo Fabião Lisboa, Reinaldo Gonçalves Nogueira, Silvana Coleta Santos Pereira, Thiago Jabur (Catalão) e Weberson Dias (Cidade de Goiás); Suplente: Mariana Pires de Campos Telles; Projeto gráfico e editoração: Reuben Lago; Fotografia: Carlos Siqueira; Reportagem: Angélica Queiroz, Camila Godoy e Giovanna Beltrão; Revisão: Fabiene Batista e Bruna Tavares; Bolsistas: Beatriz Oliveira (Jornalismo); Adriana Silva e Ana Fortunato (Fotografia); Impressão: Centro Editorial e Gráfico (Cegraf ) da UFG; Tiragem: 7.000 exemplares ASCOM Reitoria da UFG – Câmpus Samambaia Caixa Postal: 131 – CEP 74001-970 Goiânia – GO Tel.: (62) 3521-1310 /3521-1311 www.ufg.br – www.ascom.ufg.br jornalismo.ascom@ufg.br @ufg_oficial


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Ascom MCTIC

Temos conseguido tirar a ciência da academia e levá-la a sociedade?

Ciência que alimenta Kharen Stecca

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13º Congresso de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFG (Conpeex 2016), trabalhará temas ligados a alimentação e tecnologia. Com o mesmo slogan da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNTC), “Ciência alimentando o Brasil”, a intenção é discutir questões abrangentes que vão do uso de agrotóxicos até o ato de escolher o alimento de forma mais consciente. Para realizar a conferência de abertura do evento, a UFG convidou o Diretor do Departamento de Popularização e Difusão de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, Douglas Falcão Silva. Ele, que é físico e já foi coordenador de educação em ciências do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), no Rio de Janeiro, falará sobre o tema do evento. Em entrevista ao Jornal UFG ele falou um pouco sobre a importância do tema, da realização das Semanas Nacionais e da popularização da ciência por meio dos museus de ciência. Confira!

O slogan da SNTC 2016 é também o tema do 13º Conpeex. Qual a intenção da escolha?

Os temas escolhidos para as edições anuais da SNCT procuram sempre aproximação com a realidade das pessoas. Ao mesmo tempo, devem permitir compreensões e abordagens em diversos níveis de profundidade, de forma a possibilitar apropriações pelas diferentes audiências, desde crianças até a formação na pós-graduação. Ou ainda, os que não tem formação escolar ou que já saíram do sistema escolar. Neste sentido, o tema da SNCT 2016 “Ciência, Tecnologia e Alimentação” que tem como slogan “Ciência Alimentando o Brasil” preenche plenamente este quesito. Um segundo aspecto para a escolha dos temas da SNCT são os anos internacionais de conhecimento da UNESCO. Sempre procuramos usá-los como inspiração. Em 2016, a motivação para a escolha do tema baseou-se na decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas, que proclamou 2016 como o Ano Internacional das Leguminosas (AIL). Optamos por ampliar o tema para as relações entre alimentação, ciência e tecnologia. O nosso objetivo geral este ano é estimular a população a pensar na ciência e tecnologia envolvida na produção do alimento no Brasil. Nem todos estão conscientes dos avanços que o país alcançou nas últimas décadas nessa área. Por outro lado, questões como o uso de agrotóxicos, manipulação genética, desperdício de alimentos, o conhecimento do homem do campo, a relação entre

saúde e alimentação, são fatores que hoje tornam a alimentação cotidiana um ato de natureza política. Se você cozinha, o seu controle sobre a sua própria alimentação aumenta. Suas decisões de compra podem fazer a diferença no estímulo a sistemas de produção mais sustentáveis. Queremos que a população coloque estas discussões na agenda, a partir da mediação de pesquisadores e das instituições de pesquisa.

Como a ciência pode ajudar a assegurar alimento de qualidade para toda a população?

Hoje a produção de alimentos no Brasil é muito diferente daquela que paira na cabeça dos brasileiros. O homem e a mulher do campo estão cada vez mais mecanizados e fazendo uso da ciência na solução de seus problemas. Mesmo a agricultura familiar já conta com estes elementos em grande proporção. O Brasil tem hoje uma estrutura de pesquisa na área de agricultura que é referência internacional. Por outro lado, temos ainda uma nova modalidade de subnutrição que pode estar bastante relacionada a falta de compreensão de fatores científicos e culturais que estão envolvidos no ato da alimentação. Passemos a um exemplo. Duas pessoas que vivem sozinhas entram em um supermercado com a mesma quantia e ambas devem adquirir alimentos para suprir suas necessidades por uma semana. Dependendo do nível de apropriação dos conhecimentos sobre sustentabilidade e nutrição, as decisões tomadas por cada um destes consumidores podem ser muito distintas em termos de impacto ambiental e nutricionais. Neste sentido, a popularização do conhecimento sobre ciência e tecnologia na alimentação é fundamental para que a sociedade brasileira possa tomar decisões consistentes, na direção de uma alimentação mais nutritiva e associada a uma cadeia de produção sustentável.

Quais as principais contribuições que a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia vem trazendo para o país?

Em sua décima segunda edição a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia - 2015, contou com 147 mil atividades, em 1.081 municípios brasileiros, e com o protagonismo de mais de 2.600 instituições, destas cerca de 60% são escolas de ensino básico. Destaca-se que neste caso, estamos falando de instituições que participam da SNCT como realizadoras de eventos e atividades. Ou seja, as escolas e ensino básico são hoje a maioria entre as instituições realizadoras na SNCT. Tal resultado é estímulo ao protagonismo dos estudantes e professores. Tem sido muito comum nos

Irei me permitir usar uma palavra que não existe na língua portuguesa. A situação “despiorou” muito nos últimos quinze anos. Lembro que até a algum tempo atrás não era muito fácil encontrar um pesquisador disposto a aceitar o convite para participar de atividades de Divulgação de Ciência. Hoje essa situação, embora esteja ainda longe do que deveria ser, mudou. A possibilidade de inserção dessa modalidade de atividade no Currículo lattes é um fator que ajuda a tirar da invisibilidade esse tipo de ação. O pesquisador brasileiro recém formado, teve a sua graduação, mestrado e doutorado em um ambiente no qual a percepção da Divulgação de Ciência é um pouco mais aceita no meio acadêmico. Hoje, alguns editais acadêmicos já exigem a realização de atividades de Divulgação de Ciência associada ao financiamento das pesquisas. Mas ainda falta por parte de uma parcela significativa de pesquisadores uma percepção mais adequada do público alvo destas atividades e muitos ainda não percebem que neste caso, elas devem se dirigir a audiências fora do meio acadêmico. Mas o “gradiente” é positivo. Acho que percepção da importância da comunicação pública da ciência entre os pesquisadores tende a aumentar. Outro aspecto que sinaliza uma maior valorização destas ações é o aumento da realização de pesquisas na área de comunicação pública no Brasil. Tem crescido o número de pós-graduações que tratam especificamente desta área, assim como tem aumentado o número de áreas de concentração afins a esta temática em cursos de pós-graduação já instituídos.

Como os museus de ciência contribuem para essa popularização?

Os Museus de Ciências são peças fundamentais em uma política nacional para a área de Divulgação de Ciência no país. Se adotarmos uma conceituação bastante flexível que define estas instituições, o Brasil tem hoje cerca de 270 museus ou centros de ciência. Número insuficiente para um país como o Brasil. Soma-se ainda a distribuição assimétrica entre os entes federativos. Devemos caminhar para aumentar e distribuir melhor estes equipamentos de disseminação de cultura científica pelo país a fora. A principal razão é o fato de que estas instituições são as únicas que tem em sua missão institucional a socialização do conhecimento científico como atividade maior e não exigem nenhum tipo de formação ou conhecimento prévio para a participação em atividades que visam aumentar os níveis de alfabetização científica da população em geral. Qualquer um pode entrar em um museu e ter a sua própria experiência na visita a uma exposição. Os museus de ciência são hoje uma ferramenta fundamental para a qualificação da cidadania científica da população, isto é, promover experiências que facilitem a participação do cidadão na tomada de decisões no seu dia a dia que envolvem a ciência e tecnologia e quem sabe, em um futuro próximo, estas instituições possam funcionar como fóruns de participação do cidadão na política científica dos municípios, estados e do país.

Entrevista Douglas Falcão Silva

eventos da SNCT ver estandes de escolas e de instituições de pesquisa lado a lado. Essa experiência é muito importante para o empoderamento dos estudantes. Mas o legado que a Semana Nacional está deixando para o país não é apenas um aumento de atividades dirigidas ao público. Também é importante destacar o fortalecimento dos grupos envolvidos na prática de divulgação e popularização da ciência e tecnologia em universidades, institutos de pesquisa, e outros órgãos federais, estaduais e municipais, ONGs, empresas, etc. Destaca-se principalmente o estabelecimento de uma rede de instituições que passaram a trabalhar de forma coordenada na realização de atividades de comunicação pública da ciência. Um outro tipo de resultado que vem se destacando no país é a criação de semanas municipais de ciência e tecnologia por meio de decretos em diversos municípios brasileiros.


Ana Fortunato

Extensão

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Pesquisa analisa transformações em cidades planejadas Estudo é realizado em cidades de Goiás e em Minas Gerais

Monithelle Cardoso

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oiânia, Brasília e Belo Horizonte são cidades planejadas que tornaram-se importantes metrópoles. As modificações nas paisagens urbanas destas cidades são o foco da pesquisa “De cidades planejadas à metrópoles contemporâneas: novas sensibilidades urbanas e transformações na paisagem em Goiânia, Brasília e Belo Horizonte”, que é realizada no Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa/UFG).

A investigação consiste em explorar as mudanças nas paisagens urbanas, nas suas formas, mas também nas práticas culturais que compõem as cidades. Com a pesquisa, serão verificadas essas modificações nas cidades escolhidas. “A tentativa é para mapear espaços que denotam uma transformação cultural e que modificam a

imagem urbana”, explica a pesquisadora e coordenadora do estudo, Valéria Cristina Pereira da Silva.

Capital goiana

Goiânia foi planejada como uma cidade moderna e teve sua paisagem marcada pelo art déco. Nas primeiras observações foi identificado que, em muitos lugares da cidade o estilo fora destruído, em outros, o que restou é considerado patrimônio histórico.

A pesquisadora destacou duas novas construções que modificaram a paisagem da cidade. A Vila Cultural Cora Coralina, que é um espaço de memória e cultura cuja exposição inicial, Goiânia 80 anos unia tecnologia de ponta e memória da cidade na construção de suas imagens. Outra paisagem que rompe do ponto de vista da

forma, embora não do ponto de vista ambiental e da prática do comércio, está o Shopping Passeio das Águas que possui estética arquitetônica contemporânea em formato de borboleta que altera a percepção visual.

ficativa que democratiza o acesso aos bens culturais e simbólicos para uma maior camada da população.

Espaços de práticas culturais têm emergido em Goiânia, porém, com pouca visibilidade diante da população. A professora destaca um retrocesso que tem ocorrido paralelo a criação desses novos espaços, como a perda da paisagem dos Flamboyants na Avenida Goiás e a Praça do Relógio que tinham uma conotação afetiva por parte dos moradores da cidade.

Brasília é a metrópole mais nova, das três cidades observadas no projeto, derivada do modernismo e fundada na década de 1960. “Desde o início da ocupação de Brasília, já começaram os rompimentos com a rigidez. Projetada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, vários edifícios da cidade seguem o estilo do modernismo, mas uma novidade que talvez possa ser ligada ao nosso inconsciente barroco: as curvas de Brasília”, destaca a pesquisadora.

Em Belo Horizonte, cidade moderna e planejada do final do século XIX, o conjunto de prédios administrativos localizado no centro histórico e cívico foi deslocado para outra região da cidade. Assim, essa parte do centro histórico tornara-se, na última década, exclusivamente centro cultural. O local foi transformado em museus e casas de cultura, teatros, entre outros espaços culturais o que não ocorreu em Goiânia. De acordo com a pesquisadora, essa região de Belo Horizonte passou por uma transformação signi-

Nesta etapa da pesquisa, estão sendo entrevistadas pessoas que moram nas cidades e que são atuantes naquele cenário. Os lugares também estão sendo fotografados. O projeto tem previsão para ser concluído no final deste ano.

Outras metrópoles

A partir das primeiras observações foi constatado que a cidade tornara-se, em pouco tempo, também patrimônio histórico. “Essas cidades planejadas são metrópoles que envelhecem, que abrigam novas tribos urbanas, detém, emergências, resistências e mudanças que ressignificam as próprias permanências”, completa Valéria Cristina.


5 Cultura

Ciência em rede Museu de Ciências da UFG reúne acervos de diversas unidades para socializar o conhecimento Aline Goulart

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á mais de uma década, discutia-se na Universidade Federal de Goiás (UFG) a composição de uma equipe para pensar a divulgação científica na instituição, dada a importância da ciência para o desenvolvimento do país. Para o professor Edward Madureira, reitor à época, uma política de divulgação científica é essencial para o desenvolvimento do país. “Precisamos despertar nas crianças e na juventude o gosto pela ciência”, considera. Nesse sentido, foi criado um grupo de trabalho para discutir propostas de desenvolvimento da ciência na Universidade, que culminou com a criação do Museu de Ciências da UFG. Composto por 16 núcleos museológicos que abrigam diferentes acervos de todas as áreas de ensino, o museu estabelece uma rede de socialização do saber.

Para Edward Madureira, a Universidade é um espaço natural para surgirem iniciativas dessa natureza. “Precisamos comunicar e levar à sociedade a cultura científica, pois os conceitos básicos devem ser de domínio geral e isso motivará, além da curiosidade, um desenvolvimento natural para o avanço da ciência e da inovação tecnológica”, enfatiza. A proposta do Museu de Ciências da UFG parte de um compromisso social e educativo não só com a comunidade escolar de Goiás e região, mas para a comunidade em geral, voltada para a popularização da ciência, alfabetização científica e tecnológica e a produção do conhecimento, em equilíbrio com as ações de pesquisa e preservação do patrimônio científico e cultural da universidade.

Exposição

Com o objetivo de apresentar o conhecimento científico produzido na UFG, a equipe do Museu de Ciências trabalha na realização, no ano que vem, de sua primeira exposição, intitulada EntreSaberes: do céu ao solo. O acervo será exposto no Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Mìdias Interativas da UFG (Media Lab). Coordenador do evento, o professor Cleomar Rocha explica que esta primeira exposição do Museu de Ciências vai mostrar as especificidades de cada objeto da mostra com um conceito de universalidade, representando a interdisciplinaridade dos núcleos museológicos. O tema da exposição está alinhado com a perspectiva da Semana de Ciência e Tecnologia, com o tema Ciência Alimentando o Brasil. Segundo Cleomar Rocha, neste contexto a palavra “alimentar” tem dois sentidos: a produção de itens comestíveis e o alimento como provedor do conhecimento científico. “Nós acreditamos que a Universidade cumpre seu papel social de ‘alimentar’ a partir da ciência produzida aqui”, acrescenta.

A exposição terá acervos de seis núcleos museológicos da Universidade: Museu de Solos (Iesa), Museu Comunitário de Ciências Morfológicas Arlindo Coelho (ICB), Centro Cultural UFG, Museu Viver Engenharia (EEMC), Planetário e Parque da Ciência Binômino da Costa Lima (Regional Jataí). Outros três núcleos participam das ações educativas: Media Lab, Laboratório de Educação Matemática Zaíra da Cunha Melo (IME) e Museu da Informática (INF).

Drones do Museu Viver Engenharia (EEMC) e animais taxidermizados do Parque da Ciência Binômino da Costa Lima (Regional Jataí) farão parte da exposição Os acervos serão apresentados em movimento helicoidal – em forma de hélice –, partindo do solo em direção ao céu, passando por animais, corpo humano, arte contemporânea, simulador de voo, drones e, por último, pela projeção planetária no centro da sala. De acordo com o professor Cleomar, os objetos serão mostrados para dar uma ideia de continuidade, com um conceito de universal, propondo uma interatividade das peças expostas.

Ações educativas

O projeto expográfico da exposição EntreSaberes: do céu ao solo tem um caráter extensionista, ou seja, uma articulação entre os saberes dos núcleos museológicos que o compõem. De acordo com Cleomar Rocha, a exposição também é um trabalho de educação não formal, uma apresentação sobre o conhecimento desenvolvido na Universidade. “Não é uma aula, nem um curso, é um ensino de extensão que gera um outro tipo de experiência com a matéria do conhecimento”, complementa.

e a extensão presentes na exibição dos acervos, “Nós trabalhamos com ações educativas para incluir no público a ideia de preservação e o ensino dos elementos apresentados para a melhor compreensão dos temas tratados”.

De acordo com Cleomar Rocha, a Exposição EntreSaberes: do céu ao solo marcará o início das atividades do Museu de Ciências da UFG. “A exposição é um cartão de visitas da Universidade para a comunidade, é a partir disso que nós podemos despertar ou não o interesse das pessoas para a ciência”. Para Cleomar, a inauguração do Museu de Ciências é o maior elemento de ligação da sociedade com a UFG. “É uma prestação de contas essencial para que a maior universidade do estado mostre resultados e ative a produção de conhecimento na Universidade”, completa.

Assim, a exposição poderá ser vista como um retrato do conhecimento científico produzido na Universidade. Para o professor Cleomar, a EntreSaberes está apresentada em dois aspectos: as articulações entre os núcleos, e a pesquisa, o ensino Fotos: Divulgação


Mesa-redonda

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Precisamos falar sobre a morte Ascom, TV UFG e Rádio Universitária

A morte é uma situação previsível na vida de todo ser humano, mas nunca estamos preparados para ela. Em pacientes com doenças terminais, esse despreparo humano fica ainda mais evidente. Por um lado, o paciente precisa assimilar a situação, por outro a família precisa também entender e apoiar, além de lidar com o próprio sofrimento da perda iminente. Para discutir esse momento tão delicado e dolorido na vida de pacientes, de seus familiares e da equipe médica, convidamos o professor da Faculdade de Enfermagem, Marcos André de Matos, o médico paliativista do Hospital das Clínicas da UFG, Ricardo Borges e a psicóloga, Carolline Borges.

Você pode participar das próximas mesas-redondas enviando sugestões de temas e convidados pelo telefone: 3521-1311 ou jornalismo.ascom@ufg.br

Confira os vídeos do Programa Conexões no QR Code ao lado.

Marcos André – Como a morte faz parte do nosso ciclo vital, é importante que a sociedade de uma forma geral discuta sobre essa temática. Da mesma forma que nós nos preparamos para nascer, também temos que nos preparar para a morte, que faz parte de um processo natural, e entender que ela faz parte do nosso ciclo de vida.

Carolline Borges – Nós não estamos acostumados a nenhum tipo de perda. Perder é frustração e vemos como algo que não demos conta, o que nos dá sensação de impotência ou de falta de controle. Não estamos preparados para perder. A morte é uma perda, claro que com um nível de sofrimento muito maior, mas que também faz parte desse rol de perdas que não costumamos trazer para nossas vidas e para as quais não costumamos nos preparar. Ricardo Borges – Isso é muito pessoal, mas algumas vezes vemos pacientes mais preparados que os familiares. Essa angústia frente à possibilidade da perda de um ente querido gera muito sofrimento e, na hora da tomada de decisões, que são decisões às vezes muito difíceis e muito delicadas, essas sensações de impotência e fragilidade acabam dificultando mais o processo. É claro que a maioria das pessoas têm uma dificuldade muito grande de passar por esse processo com tranquilidade e com alívio do desconforto que é vivenciar a possibilidade da morte.

Não estamos preparados para enfrentar nossa própria finitude?

Marcos André – Faz parte da nossa cultura não tratar desse tema. Infelizmente o próprio contexto que nós temos após uma morte, com sepultamento e a forma de velar as pessoas, faz com que esse estigma e preconceito em relação à morte fique ainda maior.

Carolline Borges – Falar sobre morte também não é fácil para nós profissionais. Talvez seja por isso que precisemos criar um contexto hospitalar que envolva a preparação, inclusive dos profissionais, para vivenciar esse processo, porque fazemos parte da mesma cultura que essa família e que esse paciente, então nada mais assertivo do que também nos prepararmos e começarmos a falar sobre esse assunto.

Ricardo Borges – Um ponto interessante para analisarmos é que a morte é cada vez mais medicalizada. O que acontecia antes desse boom tecnológico que passamos no século XX é que as mortes eram muito mais humanas no sentido do acolhimento daquele paciente com uma doença terminal, a morte acontecia em casa com muito mais frequência. Hoje a morte é mais fria, mais isolada. Isso amedronta também as pessoas que enfrentam doenças que podem levar à morte. E o cuidado paliativo – apesar de não ser um movimento tão recente, mas que ainda carece de ser ampliado no contexto da saúde pública – vem para trazer esse manto de proteção, afeto e alívio do sofrimento, essa percepção de senso de controle frente a essa situação que é inevitável e que todos nós sabemos desde o nosso nascimento. Só assim temos condições de proporcionar uma morte razoável, boa.

lidade de vida dos pacientes terminais?

Ricardo Borges – O cuidado paliativo é uma modalidade de cuidado baseada em princípios. O profissional de saúde, não só o médico, mas toda a equipe, como o profissional que dá o suporte espiritual ou psicológico, precisa entender que a medicina paliativa é baseada em princípios que têm que tomar frente em qualquer decisão que você vá tomar junto a esse binômio paciente-família. Um dos grande princípios é o alívio do sofrimento. Muitas vezes na obstinação em tentar aliviar uma doença acabamos passando por cima do conforto do paciente. E um dos princípios básicos do cuidado paliativo é esse, é ver o conforto do paciente em primeiro lugar, qualquer que seja o sofrimento: físico, espiritual, social ou existencial. Fotos: Carlos Siqueira

Em junho deste ano o casamento de uma paciente com câncer em fase terminal, Maria Oneide, no Hospital das Clínicas da UFG, foi notícia na imprensa, evidenciando a necessidade de apoiar e tornar mais leve os últimos dias desses pacientes. Alguns dias depois ela faleceu. O caso despertou a atenção do hospital, que, após o ocorrido, tem investido na criação de um departamento de cuidados paliativos.

Deveríamos falar mais sobre a morte? Como se preparar para entendê-la?

Como o cuidado paliativo pode ajudar na qua-

Carolline Borges

Trabalhamos dentro de uma tríade: família, paciente e equipe. Em cuidados paliativos essa tríade precisa funcionar Carolline Borges – Todos os princípios são voltados para a pessoa, porque até então cuidávamos da doença ou dos sintomas. Com os cuidados paliativos tratamos o paciente. Então, todos os princípios que envolvem o cuidado com a pessoa adoecida é que vão ser valorizados dentro dessa modalidade. Na verdade iniciamos esses cuidados dentro das instituições, mas existe a necessidade desses cuidados em ambientes domiciliares, com os home cares, por exemplo.

Marcos André – O cuidado paliativo não foca a doença, mas a pessoa que está no processo de adoecimento. Então nós temos o resgate dessa humanização na morte. O atendimento a domicílio seria o ideal se nós tivéssemos uma estrutura de saúde pública, principalmente para que esses cuidados paliativos fossem realizados em casa, porque seria uma forma mais humanizada, uma forma com mais afeto e onde o familiar poderia enfrentar junto esse processo de morte e, posteriormente, de luto. Mas, infelizmente os nossos sistemas de saúde ainda não permitem fazer esse atendimento.

Ricardo Borges – Depende muito das condições financeiras do paciente e isso é uma lástima, porque a equidade da oferta de serviços ainda está longe do ideal. Não existe uma grande política nacional de cuidado paliativo, mas existem iniciativas que permitem que essa modalidade seja aplicada. Um dos grandes problemas é a capacitação de profissionais que tenham condições de oferecer esse serviço em qualquer que seja o cenário – domicílio, hospital, UTI, unidades asilares. Qualquer que seja o local, o cuidado paliativo carece de profissionais que tenham esse olhar diferenciado. Até porque, muitas vezes, você vai ser o mesmo profissional que oferecerá um cuidado com potencial de cura


7 que faz parte da equipe de cuidados paliativos também está vivenciando todo o processo, por isso ele não seria o profissional que auxiliaria essa equipe, porque ele também faz parte dela. A recomendação é que busquemos outro profissional.

Carolline Borges – Trabalhamos dentro de uma tríade: família, paciente e equipe. Em cuidados paliativos essa tríade precisa funcionar. Nós temos o canal de comunicação como a grande cartada para que isso funcione: a equipe precisa se comunicar bem e transmitir a notícia de forma adequada; a família precisa se sentir à vontade e criar um vínculo com os profissionais dessa equipe se tornando mais segura e com sensação de controle; fornecer mais autonomia ao paciente e à própria família; trazer a família para essa conversa que acabamos sendo tolhidos de conduzir durante uma vida.

Marcos André – O cuidado paliativo envolve não só o processo de morrer, mas também o processo de luto. No entanto, infelizmente há uma escassez de projetos e políticas que visem o atendimento ao luto, principalmente da equipe de enfermagem. Nós ficamos 24 horas cuidando do paciente e acabamos sentindo as dores, ficamos o tempo todo mensurando essa dor, administrando os medicamentos e acabamos ficando muito impotentes perante as fragilidades do paciente. Então seria muito importante que nós tivéssemos auxílio de psicólogos e trabalhássemos o luto, porque também sofremos com a perda desse paciente.

Qual a importância do apoio psicológico nesse momento?

Marcos André – É extremamente importante também para o profissional de saúde, porque ficamos entre todos esses conflitos que a família e o paciente vivem. Um dos princípios do cuidado paliativo é proporcionar qualidade de vida para o paciente e para a família, e também ter empatia com o paciente. Isso também traz problemas de saúde para o cuidador, porque ele vivencia esse processo. Então o psicólogo é tão importante para o paciente e para a família quanto para o profissional de saúde, especialmente por conta da falta de disciplinas específicas sobre esse assunto nos projetos político-pedagógicos dos cursos de graduação.

Ricardo Borges

Quando conseguimos oferecer esse cuidado paliativo de forma integral, levando em consideração todos os aspectos, com certeza o processo de morte será menos doloroso e o luto será melhor, vai ser menos patológico Ricardo Borges – Eu tive a oportunidade de trabalhar em assistência domiciliar durante muitos anos e agora estou ajudando na formação de um grupo de um hospital grande, que é o Hospital das Clínicas da UFG. Uma das grandes barreiras que percebemos, quando implementa-se um serviço que se propõe a oferecer cuidado paliativo, é preparar o profissional de saúde. Lidar com a proximidade da morte não é fácil para ninguém. Todos nós, seres humanos, temos essa dificuldade, essa limitação. Cuidar do profissional de saúde, portanto, é essencial. Carolline Borges – É recomendável, inclusive, que outro profissional psicólogo seja chamado para atender essa equipe, porque o profissional

Esse auxílio deve continuar mesmo depois que o paciente falece, durante o luto?

Carolline Borges – Infelizmente ainda é muito escassa essa abertura nas instituições de uma forma geral. É necessário abrir um canal de comunicação para falar sobre esse sofrimento junto com os profissionais que passaram pelo processo também.

Ricardo Borges – Queria deixar claro que o cuidado paliativo, apesar desse medo, vem como uma ferramenta para ajudar a vivenciar esse processo. Ele exige conhecimento técnico específico para lidar com todas as fases do processo de morte. À medida que a doença se torna avançada, o processo de morte vai dando alguns sinais, e é necessário controlar qualquer causa de sofrimento a tempo. Quando conseguimos oferecer esse cuidado paliativo de forma integral, levando em consideração todos os aspectos, com certeza o processo de morte será menos doloroso e o luto será melhor, vai ser menos patológico. O cuidado paliativo não extingue o luto, porque a dor da perda precisa ser vivenciada, mas de forma saudável. Por exemplo, quando acontece o pacto do silêncio, muitas vezes o luto fica mais difícil de ser elaborado. Quando a comunicação é um pouco mais fluida e nas tomadas de decisão são respeitadas a autonomia do paciente e da família, com certeza a passagem pelo luto vai ser mais elaborada. Mas é claro que a equipe também precisa acolher essa família em luto.

E a eutanásia e a escolha consciente da hora da partida? A dignidade do paciente é mais importante que a manutenção da vida?

Ricardo Borges – A eutanásia passa pelo princípio jurídico da autodeterminação do sujeito, ou seja, nos países onde a eutanásia é permitida parte-se do pressuposto de que eu, como cidadão, tenho o direito de decidir sobre a minha vida. Em países onde essa autodeterminação não é aceita, há um entendimento de que a vida pertence ao Estado e é ele quem tem a capacidade de decidir pela vida deste indivíduo. Então, em países onde a eutanásia é permitida, esse princípio da autodeterminação faz com que a pessoa, caso opte por dar cabo da própria vida, seja amparada do ponto de vista técnico. Em alguns países a eutanásia é permitida mesmo que a pessoa não esteja enfrentando uma doença terminal, ou seja, a pessoa está vivendo normalmente e tem o direito de tirar a própria vida. Na maioria dos países a eutanásia é permitida desde que a pessoa tenha o diagnóstico de uma doença potencialmente fatal, quando ela pode adiantar o momento da morte. Muitas vezes, para não passar pelo sofrimento que ela imagina que vai passar, ela pode abreviar a sua vida. No Brasil a eutanásia não é permitida. Os profissionais não podem abreviar a vida de uma pessoa a pedido desta. Em outros países, existe outra modalidade, que é o suicídio assistido: a pessoa também tem o direito de decidir por abreviar a sua vida, mas não é a equipe que induz a morte da pessoa. A pes-

soa recebe uma prescrição de medicamentos que causam a morte e os toma voluntariamente. Do ponto de vista ético e moral, são situações muito semelhantes, mas essa modalidade dá a sensação de que o profissional está lavando as mãos para não ser o responsável por abreviar aquela vida. Do ponto de vista moral, no Brasil há o entendimento de que a pessoa não tem essa autodeterminação. No entanto, o Conselho Federal de Medicina no seu código de ética permite ao médico oferecer os cuidados paliativos aos pacientes que estão enfrentando doenças potencialmente fatais para oferecer não a eutanásia, mas o que chamamos de ortotanásia, que é você aliviar o sofrimento e permitir com que a morte chegue no momento em que ela chegaria mesmo, determinada pela evolução daquela doença, com mais dignidade.

Carolline Borges – Na verdade é fazer com que o paciente não passe por procedimentos invasivos, principalmente que não trariam a cura à doença e, pelo contrário, trariam sofrimento, o que também é outro princípio dos cuidados paliativos: a não maleficência, a beneficência do cuidado ao paciente. É muito difícil conversar com a família sobre isso. Se é difícil para nós da equipe, que ainda precisamos conversar muito sobre o assunto para poder ter condições para atuar, imagina falar desse assunto para a família que, a princípio, pode entender que a ortotanásia é a eutanásia, vai fazer essa confusão. Portanto, desmistificar isso, abrir essa comunicação e se colocar disponível a esses familiares e pacientes, faz com que essas dúvidas e mitos sejam esclarecidos.

Marcos André

Na verdade, a eutanásia não é legal no Brasil, mas nós temos cuidados paliativos. O cuidado paliativo surge a partir do momento em que o tratamento que visa a cura não tem mais efetividade Marcos André – Como esses conceitos não são explícitos para a população, ela acaba tendo falta de formação e informações equivocadas. Na verdade, a eutanásia não é legal no Brasil, mas nós temos cuidados paliativos. O cuidado paliativo surge a partir do momento em que o tratamento que visa a cura não tem mais efetividade. Duas pesquisas feitas na Europa aplicaram questionários à população perguntando em relação à eutanásia, se as pessoas eram contra ou a favor. Cerca de 50% se manifestaram a favor. Após uma explicação sobre o que são os cuidados paliativos, cerca de 40% desses 50% que a princípio se manifestaram a favor, mudaram de opinião. Ou seja, como as pessoas não conhecem essa modalidade de tratamento que visa a qualidade de vida e a autonomia do paciente durante o processo de morte, elas acabam não fazendo essa opção.

Mesa-redonda

e, se a doença sai dessa perspectiva, você é quem precisará ter um olhar diferente para esse paciente que está morrendo. Equipes específicas para ajudar até a própria equipe a enfrentar esse processo ainda não são formadas em quantidade suficiente.


Comportamento

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A arte de ser feliz no que se faz Papel do trabalho na vida das pessoas é cada vez mais tema de reflexão

Camila Godoy

Essa temática tem movimentado uma série de discussões nos últimos tempos. De um lado, uma geração que não se satisfaz em apenas ter um salário no fim do mês e busca significado no que está fazendo. Do outro, milhões de brasileiros que não têm escolha pois precisam sobreviver em um país que enfrenta uma forte crise econômica, com inflação e desemprego crescentes, mesmo que a duras penas, adoecendo e ficando infelizes. Uma dicotomia que coloca no centro da reflexão o papel do trabalho na vida das pessoas.

Mudança

A professora da Faculdade de Ciências Sociais (FCS) da UFG, Tatiele Souza, explica que, nas últimas décadas, a sociedade mudou sua forma de produzir e de caracterizar o trabalho. Segundo ela, de 1945 a 1970, um pacto social entre Estado, empresas e trabalhadores permitiu a construção de um ideal de carreira estável e segura. “Existia um conjunto de institucionalidades que favorecia as pessoas a permanecer nos empregos. Os direitos trabalhistas, como a previdência social, traziam segurança aos trabalhadores, que planejavam suas vidas em torno do trabalho”, afirma.

De acordo com a pesquisadora, nesse período era comum que as pessoas trabalhassem praticamente toda sua vida em uma única empresa, até se aposentar. Tatiele de Souza entende que as empresas concentravam toda a produção em um único local, havendo assim, uma intensa divisão do trabalho, com alto grau de hierarquia, que permitia ao trabalhador a ascensão social por meio de um plano de carreira, cargos e salários. No entanto, ela destaca que essa forma de produção e de trabalho se configurou de forma mais intensa nos países de capitalismo desenvolvido e, no Brasil, ocorreu de forma precária e instável, porque o índice de informalidade sempre foi muito alto em todos os períodos.

Além disso, Tatiele de Souza explica que houve uma mudança no campo discursivo e cultural, que construiu um novo ideal de trabalhador, pautado na liberdade e no individualismo. “Aqui, a competitividade, o risco, o ganho a curto prazo, o desenvolvimento de competências como saber se posicionar, ser pró-ativo, ter inteligência emocional e saber trabalhar em equipe são as características mais valorizadas. O empregado passou a ser o responsável por seu sucesso ou fracasso. É ele quem vai construir sua carreira e sua ascensão econômica”, avalia. Assim, para ela, esse novo ideal retira a responsabilidade das empresas e dificulta a forma de avaliação das competências e de possibilidades de organização coletiva.

Consequências

Todas essas novas exigências para o trabalhador, ao mesmo tempo, estimularam a inquietude e o inconformismo, mas também favoreceram o adoecimento de uma população sobrecarregada com as cobranças sociais. Segundo o professor da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (Face) da UFG, Sérgio Barroca, em 2006 o Brasil registrou cerca de 420 mil acidentes de trabalho. Já em 2012, o número saltou para mais de 700 mil.

Para ele, o avanço só tende a ser intensificado com a crise econômica e a consequente diminuição do número de empregos: “Quem é despedido sofre porque não terá dinheiro para pagar as contas, mas quem fica também é afetado porque tem que trabalhar por quem saiu, é mais cobrado e se sente mais pressionado, provavelmente dorme menos, fica mais cansado, adoecendo e se acidentando mais”. Sérgio Barroca defende que o sistema de metas é um dos principais motivos de surto entre os trabalhadores, que chegam em um

Para tanto, o professor alerta sobre alguns sinais. De acordo com ele, apesar de ser de difícil identificação, o isolamento e a agressividade sinalizam o adoecimento psíquico do trabalhador. “As organizações não costumam parar

para observar e ouvir os funcionários. O próprio gestor é pressionado, seja pelo mercado ou pelo dono da empresa, e passa as cobranças aos outros. No entanto, muitas vezes ele não tem a percepção de que está fazendo isso. Quando há uma abertura na empresa para o diálogo, essas questões podem ser resolvidas e, assim, o adoecimento é evitado. Um dos grandes problemas da saúde do trabalhador é o gestor. Ele precisa ter qualificação”, afirma. Arquivo Pessoal

U

ma jornalista que resolveu aprender uma nova profissão e está cultivando orgânicos. Um professor que decidiu trocar as escolas pela confecção de acessórios de ginástica. A empresária que trocou o próprio negócio pelo serviço público. A jovem que se formou, entrou no mercado de trabalho e decidiu voltar para a faculdade em uma área totalmente diferente. O funcionário que passa a maior parte de seu tempo no trabalho e se entusiasma com o crescimento da empresa. Apesar de serem histórias aparentemente bastante diferentes, os cinco têm algo em comum: todos estão em busca da realização profissional.

Segundo Tatiele de Souza, a partir da década de 70 esse sistema começou a entrar em crise. Com as taxas de lucros das empresas diminuindo e a insatisfação dos profissionais aumentando, uma nova proposta surgiu, pautada na flexibilização. Para a pesquisadora, esse novo modelo consistia em diminuir custos e produzir conforme a demanda, sendo necessário então a existência de modalidades de contrato de trabalho flexíveis, que geralmente viabilizam a precarização do próprio trabalho. “As empresas passaram a terceirizar a maior parte do processo de produção, aumentando também as oportunidades de contratos temporários e estágios, constituição de cooperativas de trabalho e estabelecimento de vínculos por meio de prestação de serviço via pessoa jurídica”.

ponto que não conseguem satisfazer a empresa e não suportam a cobrança. “Existe um limite entre a saúde e a doença, e ninguém sabe o momento exato da transição”, explica.

O professor que virou empresário. Eduardo Monção agora fabrica acessórios de ginástica

Busca pela satisfação Evitando sofrimentos, muitos tomam coragem e acabam rompendo com os rumos de sua carreira, aventurando-se em novas áreas. Eduardo Monção é um desses. Graduado em Educação Física, apaixonado pela profissão, em 2006 começou a dar aulas em escolas. A experiência despertou o interesse pela área e motivou o profissional a estudar para um concurso de professor da prefeitura de Aparecida de Goiânia. Tempos depois ele foi aprovado.

No entanto, o sentimento de realização, presente nos primeiros meses, logo foi dando espaço para a frustração com a burocracia do serviço público. “Eu tinha propostas para inovar algumas práticas, mas sempre acabava impedido pela força da hierarquia e falta de abertura da Secretaria de Educação. Além disso, comecei a questionar o modelo de nossa educação, em que muitas vezes os es-

tudantes fingem que aprendem. Trabalhei em uma escola por oito anos e, infelizmente, nunca vi nenhum aluno da região estrelar nos jornais páginas de economia ou de ciências. Porém, cansei de vê-los em páginas policiais”, relata.

Triste com a realidade de sua profissão, em 2012 Eduardo percebeu uma nova oportunidade no mercado: “Os acessórios utilizados para aulas em academias de ginástica eram de origem chinesa, com uma qualidade inferior a que os alunos precisavam. Comecei a fazer manutenção nesses equipamentos e logo percebi que eu mesmo poderia produzi-los. Trabalhei nisso algum tempo e decidi pedir exoneração do concurso para me dedicar inteiramente àquela ideia. Foi um choque social. Alguns amigos me chamaram de louco. Mas não me arrependo e, se necessário, faria tudo novamente. O que vale na vida é estar feliz no seu ambiente de trabalho, o resto acontece naturalmente”, defende.

Satisfeita, a servidora pública Tayenne Helen Olimpio não se arrepende da escolha que fez


9 Comportamento

reserva financeira. Apesar disso, não foi fácil”, lembra. Desde então, ela mergulhou de cabeça nesse mundo. O resultado veio após seis meses: a conquista do primeiro lugar no concurso do Conselho Regional de Odontologia. Mesmo trabalhando, a ex-empresária não abandonou os estudos, pois queria ser servidora federal. Em agosto de 2016 realizou o sonho e foi nomeada assistente administrativa do Instituto Federal de Goiás. Para ela, a segunda conquista trouxe um sentimento inexplicável de gratificação: “Estou muito satisfeita com meu trabalho, com certeza faria tudo de novo. Agora, quero me dedicar a outros projetos, como a maternidade”, afirma.

Para garantir o sucesso profissional, Leandro Reis aposta na qualificação, dedicação e competência

Quando se tem certeza do que gosta No outro extremo da questão, sabendo exatamente o que quer, está Leandro Reis, administrador regional de uma empresa especialista em terceirização de frota de veículos. Para chegar ao atual cargo, ele trabalhou como técnico em segurança do trabalho, se destacou, passou a lidar com rotinas administrativas, acumulou responsabilidades, construiu networking e concluiu sua graduação e pós-graduação. O maior reconhecimento veio quando recebeu um convite de sua atual empresa para assumir uma operação em quatro estados da federação, dirigindo sua própria equipe.

De volta à faculdade, Ana Luiza Fornazier acredita que está no curso certo e tem boas perspectivas para o futuro

Segunda graduação

Saindo da caixa

Na hora de escolher a profissão, muitos jovens acabam sendo influenciados pelos pais ou, por imaturidade, acabam fazendo escolhas que, mais tarde, não trazem realização. A farmacêutica Ana Luiza Fornazier é uma dessas. Ela fez vestibular quando tinha 17 anos. Ao escolher Farmácia, acreditava que teria boas oportunidades em um curso com várias áreas de atuação. Fez diferentes estágios e gostou da experiência em drogarias. Quando formou, não teve dúvidas: queria trabalhar em farmácias para o resto da vida.

A segunda graduação não foi suficiente para Lis Lemos, que ainda está descobrindo seu lugar no mundo. Ela já cursou Relações Públicas e Jornalismo, fez mestrado, trabalhou em redações de jornais e assessoria de comunicação, estudou para concurso e agora está viajando por fazendas do interior da Bahia e de Minas Gerais para aprender a cultivar orgânicos, trabalhando voluntariamente algumas horas do dia em troca de alojamento e comida, uma rotina totalmente diferente do seu ritmo de vida até então, em que não tinha hora para sair do trabalho. Essa história, que mais parece comercial de banco e narrativas de blogs, aconteceu de verdade com uma mulher que queria mais do que um emprego. Ela precisava de algo que acreditasse e que a fizesse se sentir útil.

O primeiro emprego apareceu seis meses depois. No entanto, com o tempo, por mais que o ambiente de trabalho fosse agradável, Ana Luiza começou a se sentir frustrada com a monotonia da rotina e com as perspectivas da carreira. “Ou eu receberia o piso salarial de farmacêutica para o resto da vida, ou montaria uma drogaria para mim, algo que nunca tive vontade. Me senti desestimulada. Via o tempo passando e eu não progredia. Foi quando parei para pensar e vi que a a área da saúde não é o que gosto. Decidi voltar para a faculdade e fazer Engenharia Civil”, relata. Hoje, cursando o oitavo período do novo curso, a estudante está confiante com a decisão: “Considero essa profissão mais desafiadora e dinâmica, características que se encaixam muito mais no meu perfil. A maturidade em uma segunda graduação é muito maior, já até tenho em mente o que fazer quando formar”, explica.

“Me dei conta de que eu não sabia fazer mais nada a não ser jornalismo e, de alguma forma, isso não me completa mais. Quero aprender outra profissão, outro ofício, algo que traga além da sobrevivência, satisfação profissional. Meu desejo é conseguir me sustentar em outra lógica, a não ser a do consumo. Para tanto, vou viver essa experiência até fevereiro de 2017. Eu brinco que vou descobrir nesses meses o que eu quero fazer de verdade. Pode ser que decida voltar a trabalhar em redação de jornal, ser repórter full time. Não sei ainda. Esse é um tempo para descobrir”, afirma.

Desde então, Leandro Reis lida diariamente com uma rotina de viagens, planejamento e controle de diversas áreas, coordenando operações em sete estados brasileiros. “Todos os dias busco me reinventar no trabalho, procurando deixar os processos cada vez mais flexíveis e objetivos, reduzir custos, aumentar a lucratividade, encantar, manter e prospectar novos clientes. Uma rotina que para muitos pode ser pesada, mas que para mim é dinâmica e desafiadora. Gosto de exercer minhas atribuições com eficiência e dedicação, pois tenho certeza que serei reconhecido. Tenho bastante orgulho do que já conquistei”, comemora. Arquivo Pessoal

Fotos: Camila Godoy

Em um caminho contrário, a empresária Tayenne Helen Olimpio trocou o ideal do próprio negócio pela vida de concurseira. Ela havia aberto uma loja de roupas quase sem nenhum capital financeiro, mas com muito esforço e inteligência, viu sua clientela, estoque e faturamento crescerem. Já estabilizada e pensando em expandir o negócio, começou a pesquisar sobre concurso público. Um sonho antigo que ela havia abandonado devido ao sucesso da loja. “Me identifiquei com as possibilidades da carreira pública e, principalmente, com a almejada estabilidade que ela proporciona. Comecei a estudar, mas estava difícil conciliar as duas coisas. Foi então que decidi, com o apoio do meu esposo, fechar a loja em um momento estratégico, sem dívidas e com

Lis Lemos deu um tempo na carreira acadêmica e de jornalista para aprender um novo ofício

A pluralidade da questão O professor da FCS, Nildo Viana, explica que os elementos que trazem satisfação no trabalho, além de serem bastante subjetivos, como mostram as histórias dessa reportagem, são alcançados apenas por uma minoria. Segundo ele, a saúde, a qualidade no ambiente de trabalho, o coleguismo, o salário, a complexidade da tarefa realizada e o reconhecimento pelos colegas, chefe e sociedade, são alguns dos principais fatores. No entanto, Nildo Viana destaca que a grande massa dos trabalhadores procura um emprego para sobreviver. “A competição, mercantilização e controle burocrático do mercado tornam ainda mais difícil viver essa satisfação”, lamenta. O empreendedorismo, apontado por muitos como a melhor alternativa para alcançar a realização profissional, é visto com receio pelo docente da FCS, Revalino Freitas. Segundo ele, a ideia de um mundo mais aberto e moderno, em que “não é necessário trabalhar para mais ninguém”, apesar de bastante sedutor, não é a melhor solução para os problemas do mercado de trabalho. “No capitalismo não existe empreendedorismo para todo mundo. O capitalismo precisa da mão de obra para produzir em proveito de uma minoria. Quando você propõe o empreendedorismo, de certa forma, a proposta é a repartição de receitas, algo que o sistema não permite, pois é da sua essência a acumulação e a concentração, não existindo assim as mesmas possibilidades para todos. Dessa forma, para cada caso de sucesso, centenas são absorvidos”, completa.


Ensino

10 terem tido uma aula sobre esses conteúdos! Era neste momento que Greiton Toledo intervinha ativamente e dava nome para o raciocínio feito pelo aluno. Essa didática lúdica e construcionista é a norteadora de todas as ações do professor em sala de aula. “É motivador ver como a Matemática vai aos poucos se fazendo presente como forma de pensamento, pela construção ativa do conhecimento e do desenvolvimento do raciocínio lógico”, comemora o professor.

Raciocinar de maneira matemática?

É moleza!

Projeto do mestrando Greiton Toledo mostra às crianças que isto é possível. A iniciativa foi reconhecida pelo Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita

Caroline Pires

J

unte uma escola pública em Senador Canedo, seis computadores emprestados, pais fazendo sanduíches para o lanche e um professor inovador, o resultado é uma mistura única que conseguiu mudar o rumo do aprendizado em Matemática de alunos do ensino fundamental. Com a implementação do projeto Mattics, o mestrando do Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Matemática da UFG, Greiton Toledo de Azevedo, teve seu esforço e trabalho reconhecidos ao ser escolhido como um dos ganhadores do Prêmio Educador Nota 10, concedido pela Fundação Victor Civita em parceria com a Fundação Roberto Marinho. O professor apresentou o trabalho Matemática e games? Eis a questão!, que

foi desenvolvido na Escola Municipal Irmã Catarina Jardim Miranda.

Apaixonado desde a graduação pela educação básica, Greiton Toledo lembra que toda a sua trajetória acadêmica foi baseada em pensar maneiras de modificar o ensino da Matemática, que geralmente parte de conceitos e fórmulas apresentadas de maneira direta, sem permitir que o estudante possa aprender a raciocinar de forma lógica. Foi a partir desta inquietação que o mestrando começou a pensar formas de desafiar seus alunos, de 10 a 12 anos, a estabelecer temáticas que se relacionem com o cotidiano para desenvolverem jogos digitais utilizando a linguagem do programa Scratch. Assim nasceu o projeto Mattics, que se transformou em seu objeto de estudo no mestrado.

Todo o processo começou com a reflexão sobre problemas cotidianos, como a conservação do meio ambiente. A partir daí, os estudantes esboçaram em folhas de papel o esqueleto dos jogos que, em seguida, foram transpostos para o computador. Greiton Toledo, com a ajuda de professores voluntários, desafiou os alunos a usarem linguagem computacional para construir seus jogos digitais. Aos poucos e sem se darem conta, os estudantes se deparam, durante esse processo, com situações matemáticas a serem solucionadas. O resultado é que durante a apresentação dos seus projetos, os alunos se percebiam usando e explicando aos colegas conceitos como planos cartesianos, números negativos e funções. Isto sem nunca

O impacto do projeto não ficou restrito aos muros da escola. As crianças apresentaram também os jogos digitais produzidos por eles e as estruturas matemáticas utilizadas para funcionários do colégio, pais e comunidade local. Essa interação ampliou as temáticas discutidas em sala de aula e promoveu a reflexão sobre temas como poluição sonora, desperdício de água e tratamento de resíduos sólidos. Para encerrar o projeto com chave de ouro, os alunos participantes recebiam ainda cadernos de memórias. Diariamente eles eram desafiados a escrever não só seus raciocínios ou impasses matemáticos, mas a maneira como se sentiam e como lidavam com os problemas que iam aparecendo ao longo do projeto. A utilização desse artifício tornou a experiência ainda mais completa para os estudantes. “É desafiador! É legal aprender... temos que pensar, analisar e discutir para construir! Sempre gostei muito de Matemática, mas, agora, com o projeto Mattics, está mais legal!”, destacou o estudante João Pedro Santana. Já a aluna Sara Castro Coelho estava contente com a sua superação: “Muito bom ser capaz de fazer um jogo. No início não acreditava que eu iria conseguir”.

Como reconhecimento pelo seu projeto o professor recebeu do prêmio Educador Nota 10 o valor de 15 mil reais como incentivo. A cerimônia de premiação será no dia 17 de outubro, em São Paulo. Fotos: Ana Fortunato

Jogo desenvolvido pelos alunos une Matemática e preservação ambiental

Greiton Toledo continuará a desenvolver e implementar o Projeto Mattics com alunos da rede pública de ensino


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Esporte paralímpico na Universidade Centro de Referência em Halterofilismo Paralímpico instalado na UFG oferece local de treinamento para atletas com deficiência Beatriz Oliveira

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halterofilismo, conhecido também como levantamento de peso, é um esporte que consiste em levantar a maior quantidade de peso possível. É um dos esportes que mais cresce entre os atletas paralímpicos, com cerca de 5,5 mil atletas halterofilistas ranqueados no mundo (dados de 2015). Nos Jogos Paralímpicos Rio 2016, o atleta Evânio da Silva conquistou medalha de prata na categoria até 88 quilos, a primeira do Brasil neste esporte. Para Helaine Cristina da Silva, que pratica o halterofilismo desde 2009, o esporte a levou a acreditar mais em seu potencial e a aceitar a sua deficiência. “Com o esporte eu pude aprender que eu era uma pessoa igual a todas. Hoje eu tenho mente aberta para isso, me aceito e me amo do jeito que eu sou”, afirma a atleta, que é cadeirante.

O marido de Helaine, Erinaldo Ferreira Lima, o Naldo, também é halterofilista e entrou por acaso no esporte, em 2012. Naldo, que é medalha de ouro no Campeonato Mundial de Anões dos Estados Unidos e segundo lugar no Circuito Caixa, afirma que o esporte tem papel fundamental em sua vida e que, mesmo enfrentando uma série de dificuldades, não pretende parar. “Quero ficar velhinho com a barra caindo em cima de mim”, brinca. Helaine, Naldo e outros seis atletas da equipe goiana de halterofilismo paralímpico fazem seus treinamentos no Centro de Referência em Desenvolvimento do Halterofilismo Paralímpico, instalado na Faculdade de

Educação Física e Dança (FEFD) da UFG. Os atletas treinam neste espaço desde maio de 2015 e têm acompanhamento de monitores bolsistas da FEFD e treinadores voluntários. O Centro de Referência é fruto de uma parceria entre a UFG e o Comitê Paralímpico Brasileiro, que cedeu todos os equipamentos de treinamento. “Além de um local fixo para treinamento para os atletas de alto rendimento, o Centro de Referência representa também novas possibilidades para o esporte e para pessoas com deficiência”, afirma Helaine.

“Acredito que o centro de treinamento pode fazer com que outras pessoas com deficiência entrem para o esporte. Assim teremos um quadro maior de atletas paralímpicos. Ele está aberto tanto para nós que somos atletas de alto rendimento quanto para quem está começando agora”, reforça Helaine, sobre a importância do Centro de Referência. “É importante também para os estudantes de Educação Física, que passam a ter um contato maior com o esporte paralímpico” completa a atleta.

Paraolímpico ou paralímpico? A palavra “paraolímpico” sempre foi a mais utilizada no Brasil. Contudo, o Comitê Paralímpico Internacional recomenda o uso da palavra “paralímpico” para que a grafia do nome fique mais semelhante em todos os idiomas. Seguindo essa recomendação, o Brasil alterou o nome do seu comitê para Comitê Paralímpico Brasileiro. No entanto, ambos os termos são aceitos pela língua portuguesa.

Formação Segundo a coordenadora do Centro, professora Vanessa Dalla Déa, o espaço é importante para a Universidade porque possibilita o desenvolvimento de pesquisas na área. “Já estamos levando duas pesquisas desenvolvidas no Centro para o Congresso Brasileiro Paralímpico”, afirma. Ainda segundo Vanesssa, a presença dos

atletas no espaço de formação de novos profissionais de Educação Física propicia maior interesse dos estudantes e aumenta as probabilidades de que tenhamos mais técnicos interessados em esportes paralímpicos. “Em Goiás boa parte dos técnicos de esportes paralímpicos não tem formação, principalmente por falta de professores que conhecem os esportes e de patrocínio”, explica.

Quem pode treinar no Centro? Só pessoas com deficiência podem treinar no espaço. Interessados devem entrar em contato e marcar uma avaliação física. extensaoecultura.fefufg@gmail.com

(62) 3521.1085

Naldo é medalha de ouro no Campeonato Mundial de Anões dos Estados Unidos

Fotos: Adriana Silva


Pesquisadores descobrem novas espécies de plantas Duas variedades até então desconhecidas pela ciência foram identificadas por equipe de biólogos da Regional Jataí

Divulgação

Pesquisa

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Neojobertia alboaurantiaca: uma das espécies descobertas pela equipe da Regional Jataí e já ameaçada de extinção Camila Godoy

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planeta Terra é mesmo uma caixinha de surpresas. Mesmo com toda a destruição ambiental provocada pelo homem, ainda é possível se surpreender com a resistência da natureza e toda a sua riqueza. Foi assim com alguns pes-

quisadores da Regional Jataí da UFG que, durante um trabalho de campo, descobriram duas novas espécies de plantas. A descoberta ocorreu quando o grupo de pesquisa em flora da regional, que fazia coletas rotineiras e identificava amostras da vegetação do Sudoeste Goiano, se deparou com duas espécies, até então sem descri-

ção científica. Eles enviaram exemplares da vegetação para diversos especialistas, que confirmaram as suspeitas. Foi então que os biólogos da Universidade registraram pela primeira vez as espécies Bacharis sp. novae e Neojobertia alboaurantiaca. Atualmente, amostras dessas plantas estão depositadas no Herbário Jataiense. Segundo a professora Luzia Francisca de Souza, que coordenou o trabalho, as novas espécies evoluíram no Cerrado e não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo. “São plantas raras, mas que já nasceram para a sociedade sendo fortemente ameaçadas de extinção, principalmente por conta do descaso com a conservação desse bioma”, alerta. Ela explica que a Baccharis sp. é uma erva que gosta de áreas úmidas e ensolaradas e que tem alto potencial para aproveitamento medicinal, visto que é parente da conhecida carqueja. Ainda segundo a professora, a Neojobertia alboaurantiaca, parente dos ipês e da catuaba, é um tipo de trepadeira com grandes flores, bastante ornamental, que gosta de locais secos e ensolarados e que também pode ter propriedades medicinais.

Novidades para Goiás

Durante o trabalho de campo, o grupo também identificou a presença de quatro espécies conhecidas pela

ciência, mas que nunca haviam sido encontradas em Goiás: Thismia panamensis, Bacopa scabra, Ocotea notata e Cereus bicolor. Luzia Francisca de Souza explicou que algumas dessas plantas até são típicas do Cerrado, mas não do solo goiano. “Além disso, essa foi a primeira vez que a T. panamensis foi identificada no Brasil. Típica de outros países da América do Sul e Central, ela está colonizando áreas sombreadas e úmidas de matas semideciduais no domínio do Cerrado em Jataí”, completa.

Pesquisa

A descoberta da UFG é fruto dos esforços dos pesquisadores em identificar as espécies de vegetação do Sudoeste e Oeste Goiano. O levantamento vai compor o catálogo Flora do Brasil 2020, que reúne informações sobre a diversidade vegetal brasileira, cadastradas em uma plataforma online e divulgadas em tempo real. O aumento no número de registros tem atraído mais recursos financeiros de agências internacionais para as fundações de apoio às pesquisas brasileiras. Além disso, os estudos que identificam as condições de espécies auxiliam na formulação de políticas públicas para preservação da biodiversidade. “Sem conhecer, saber onde estão as espécies e quais são suas condições atuais, não há como sugerir medidas de conservação desses recursos”, defende a professora.


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Freepick

Pesquisa investiga engajamento nas redes sociais

Realizado por pesquisadores da Face-UFG, o estudo aborda o impacto do tipo de postagem sobre a interação do usuário no Facebook e Instagram Giovanna Beltrão

A

s redes sociais já fazem parte da vida das pessoas há alguns anos. E, assim como tomaram o âmbito pessoal, elas também se mostram importantes no ambiente mercadológico. Hoje em dia, tanto novos empreendimentos quanto empresas tradicionais se rendem ao poder de comunicação e engajamento da internet. O Facebook e o Instagram são duas plataformas muito utilizadas para isso, sendo que elas permitem que empresas pequenas construam uma audiência mesmo diante da limitação de recursos.

O artigo, baseado na pesquisa defendida por Denise Santos em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Administração na UFG,

Contribuições e resultados

A pesquisa que originou o TCC de Denise foi desenvolvida ao longo do ano de 2014, quando não havia muitas publicações científicas a respeito do Instagram, e tinha como objetivo verificar quais tipos de postagens poderiam impactar um maior número de curtidas, comentários e compartilhamentos em páginas e perfis de marcas comerciais das duas redes analisadas.

A análise foi feita a partir de cinco categorias de postagens (publicidade, fãs, eventos, informações e promoção) e se ateve ao impacto de cada tipo de conteúdo nas métricas de interação: curtidas e comentários nas páginas do Facebook e nos perfis do Instagram. Foram selecionadas para análise empresas de cinco segmentos do mercado (alimentação, beleza, calçados femininos, tatuagens e roupas femininas para ginástica). Sobre o artigo, Denise afirma que uma de suas maiores contribuições é exatamente mostrar as relações

Quanto ao Facebook, o padrão notado é de que a categoria de postagem não influencia diretamente no número de comentários. Além disso, percebeu-se uma menor quantidade de comentários no Facebook, mesmo que o post em ambas as redes seja idêntico, o que mostra uma facilidade do usuário em comentar no Instagram. No entanto, os posts sobre eventos foram os que mais influenciaram na quantidade de curtidas que as empresas receberam no Facebook. Marcos Severo aponta que a maior implicação gerencial trazida pela

Interdisciplinaridade

Severo reconhece que as redes sociais situam-se em um ambiente volátil e que a pesquisa acadêmica encontra limitações para acompanhar essas rápidas mudanças. Um estudo não é publicado logo que é desenvolvido, passa por longos estágios de melhoria e após avaliações minuciosas é que é publicado. “Sabemos que faz parte do jogo, temos que nos adequar a isso”, argumentou. Por outro lado, as redes sociais constituem uma área interdisciplinar do conhecimento, sendo abordado e trabalhado por profissionais das áreas de Administração, Informática, Comunicação, entre outras. Para o professor, essa interdisciplinaridade é “enriquecedora, porque você tem diferentes competências que podem responder a um determinado tipo de problema”. Em outras palavras, enquanto os administradores se atêm a problemas gerenciais e mercadológicos, os mesmos dados podem ser usados, por exemplo, para determinar uma previsão do algoritmo na Informática. “São questões distintas, mas que usam a mesma base, que é a rede social”, finalizou Marcos Severo.

Enquanto o Facebook é focado em páginas e comunidades, e têm diversas ações ali dentro, o Instagram é voltado para a postagem de imagens e vídeos, essencialmente.

Carlos Siqueira

Esse assunto é tema do artigo Does social media matter for post typology? Impact of post content on Facebook and Instagram metrics (Diferenças entre as redes sociais importam, quando se considera a tipologia de postagem? O impacto do conteúdo da postagem em métricas do Facebook e Instagram), realizado por Denise Santos de Oliveira, Ricardo Limongi França Coelho e Marcos Inácio Severo de Almeida. Os pesquisadores, da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (Face) da UFG, tiveram o estudo publicado na revista Online Information Review, que integra o grupo britânico Emerald de publicações científicas, classificada como A2 pelo critério Qualis/Capes.

analisa o conteúdo postado por páginas comerciais nas redes sociais e as interações individuais de usuários vindas dessas postagens. O TCC teve orientação do professor Ricardo Limongi, que junto com Marcos Severo coordena o grupo de pesquisa e extensão ADMKT, do qual Denise faz parte. Atualmente a pesquisadora é aluna do Mestrado em Administração, também na (Face) da UFG.

O número de comentários e curtidas é chamado pelos profissionais da área de marketing de engajamento. Na pesquisa realizada, foi detectado que, no Instagram, as postagens de publicidade e eventos têm um maior efeito sobre o número de curtidas; enquanto somente as postagens sobre eventos influenciaram na quantidade de comentários. Para a pesquisadora, uma sugestão é que as empresas invistam mais nesse tipo de postagem para aumento do engajamento com seguidores.

realização da pesquisa e, subsequentemente, pela publicação do artigo, é “oferecer um guia para que o gestor de marketing digital gere maior engajamento nas redes sociais”. Para ele, esse profissional, atualmente, disponibiliza de múltiplas ferramentas. Por isso, direcioná-lo a tipos de postagens que geram uma maior interação com o seu público poderá levar resultados significativos ao seu negócio.

Membros do grupo ADMKT pesquisam formas de aliar marketing e administração

Universidade

entre duas redes sociais completamente distintas. “Enquanto o Facebook é focado em páginas e comunidades, e tem diversas ações ali dentro, o Instagram é voltado para a postagem de imagens e vídeos, essencialmente. E nós vimos que o tipo de post que estava afetando os consumidores no Facebook seria diferente do que estaria afetando no Instagram. Esse foi o principal foco do artigo, ver quais tipos de postagens mais aumentavam a quantidade de curtidas e comentários nessas duas redes sociais”, argumentou.


Pesquisa e Extensão

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Corpo e identidade em harmonia Projeto TX, do Hospital das Clínicas da UFG, é referência na área de cirurgias de redesignação sexual

Angélica Queiroz

I

magine estar em um corpo estranho. Você que é mulher, imagine que no dia seguinte acorde no corpo de um homem e vice-versa. Como vai se sentir? O exercício simples nos dá uma ideia de como a população transexual se sente, já que seu corpo físico não corresponde à sua identidade interior. Por conta desse desacordo muitas dessas pessoas desejam se submeter ao processo transexualizador para adequar seu corpo à sua identidade de gênero, sendo as intervenções cirúrgicas momentos muito simbólicos e aguardados pelas pessoas que vivenciam esta realidade. As cirurgias de redesignação sexual eram proibidas no Brasil até que, em 1997, uma resolução do Conselho Federal de Medicina decidiu que era possível fazer a cirurgia de redesignação sexual no Brasil. O Hospital das Clínicas (HC) da UFG foi o segundo do país – já existia um projeto semelhante no Rio Grande do Sul – a implementar um projeto para realizar essas cirurgias, o Projeto TX.

Rafaela Damasceno ingressou no projeto assim que foi criado e foi uma das primeiras pacientes a passar pela cirurgia de redesignação, em 2004. Ela elogia o tratamento e a equipe do ambulatório e afirma que o procedimento refletiu em todos os âmbitos da sua vida. “A cirurgia mudou totalmente a minha vida”, declara. O projeto, que antes era chamado de “Transexualismo”, foi atualizado para “Transexualizador” pela necessidade de não associar o termo a uma patologia.

História Segundo a coordenadora do Projeto TX, Mariluza Terra, a partir da resolução de 1997, muitas pessoas transexuais começaram a procurar o HC. “Antes a cirurgia era considerada mutilação e o médico que fizesse podia ter sua licença cassada”, lembra. Contudo, segundo ela, não havia ainda no hospital uma equipe capacitada para realizar o procedimento. A demanda, no entanto, sensibilizou a direção do hospital, que resolveu criar um projeto em Goiás. O Projeto TX começou em maio de 1999 e, devido à necessidade de acompanhamento prévio psicológico e hormonal de pelo menos dois

anos, a primeira cirurgia foi realizada apenas em 2001. Hoje, quase 80 pessoas já passaram por cirurgias no Projeto TX e 27 aguardam na fila para realizar o procedimento de redesignação sexual.

Só em 2008 o governo brasileiro finalmente oficializou as cirurgias implantando o “Processo Transexualizador” por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Desde então foram feitas novas regulamentações pelo Conselho Federal de Medicina, reestruturando o atendimento dos Projetos TX do Brasil, conforme a experiência do desenvolvimento dos trabalhos. Ao longo desse processo, o projeto da UFG, um dos cinco existentes no país, se tornou referência nacional e internacional na área. Hoje, além do Rio Grande do Sul e Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco também têm projetos TX. Antigamente se usava o termo “readequação sexual”, mas pela necessidade de atualização, a cirurgia agora é chamada de “redesignação sexual”.

Interrupção e reformulação Por falta de profissionais, as cirurgias e o cadastro de novos pacientes foram interrompidos por dois anos. Em março deste ano o projeto voltou a receber novos pacientes e em agosto as cirurgias voltaram a ser realizadas. Segundo Mariluza Terra, um novo médico, cedido pelo estado, viabilizou a retomada do projeto. A coordenadora do TX destaca que os movimentos sociais, especialmente o Coletivo de Mulheres e Homens Transexuais, Transgêneras, Familiares Apoiadores da Causa Trans na UFG (TransAção), foram os responsáveis por não deixar o projeto acabar. “A partir do momento que comecei a trabalhar com o movimento social as coisas mudaram para melhor. É maravilhoso trabalhar com os movimentos”, afirma.

A membro e co-fundadora do Coletivo de Mulheres e Homens Transexuais, Pessoas Transgêneras e Travestis, Familiares Apoiadores da Causa Trans na UFG (TransAção), Ester Sales, aguarda na fila há cinco anos. Ela está animada com a volta do projeto e aguarda ansiosa a sua vez. Segundo ela, a cirurgia será um passo muito significativo em sua história e contribuirá de forma marcante para que se sinta à vontade com seu próprio corpo e possa viver com adequada qualidade de vida. Ester ressalta,

porém, que o órgão genital é uma coisa que faz parte da sexualidade, mas não a determina. “A sexualidade se refere a algo mais profundo, que vai além do físico”. Acrescenta ainda que este aspecto é significativo para desconstruirmos a cultura que visualiza a mulher e o homem apenas enquanto “limitados” a seus órgãos genitais. “Ser mulher e ser homem é uma dimensão do ser que vai muito além e que se conecta com diversos aspectos sócio-histórico-culturais e íntimos da subjetividade”.

Mariluza Terra explica que o principal obstáculo para o desenvolvimento do TX é a escassez de profissionais que se interessam em tratar dessa população. “Um elemento muito importante é o preconceito, tem que se reconhecer. Eu sempre digo que existe um perfil específico do profissional que trabalha com essa população. Não é qualquer profissional de saúde. Deve ser alguém que consiga olhar as pessoas transexuais e enxergar através do corpo, ver a alma”, reflete. A coordenadora do projeto destaca que o trabalho é fonte de grande aprendizado. “Injustiça é algo que sempre me angustiou. E a população travesti, transgênera, intersexual e transexual (TTIT) é uma população injustiçada, alvo de muito preconceito. Comecei a entrar em contato diariamente com o seu sofrimento”. Este ano o projeto passou por uma reformulação e foi reescrito a várias mãos, com a ajuda de professores da Universidade e de integrantes de movimentos sociais, além da equipe do TX. Segundo a Coordenadora de

Linha do tempo

Ações Afirmativas da UFG, Luciene Dias, que participou desse processo, a criação de movimentos sociais conscientes da importância do TX gerou essa necessidade de atualização. Ela explica que o projeto, que era de extensão, agora também é um projeto de pesquisa. “Essa mudança fortalece o projeto dentro do tripé ensino, pesquisa e extensão”, ressalta. Segundo ela, como projeto de pesquisa, o TX agora pode concorrer a editais de pesquisa em qualquer agência de fomento e conseguir, por exemplo, recursos para utilização e compra de equipamentos de tecnologia avançada ou pesquisas fora do país.

Acesso

Para ter acesso ao ambulatório, basta ir a qualquer Cais de Goiânia, ter uma consulta com o clínico e solicitar encaminhamento para o Ambulatório de Transexualismo do HC, que já está no sistema da Secretaria Municipal de Saúde. São dezesseis novas vagas por mês. Os novos pacientes devem ter acompanhamento psicológico e hormonal de pelo menos dois anos até a cirurgia. O projeto tem duas dimensões: ambulatorial, quando são ofertados atendimentos básicos de saúde e acompanhamento, e o atendimento hospitalar pré, durante e pós-operatório, quando são realizadas diversas cirurgias de correções plásticas para adequação do fenótipo de nascimento físico ao gênero de identificação da pessoa transexual.

1912

São registradas as primeiras notícias dessa cirurgia, na Alemanha.

1931

A cirurgia de redesignação sexual é apresentada para Lili Elbe e realizada pelo Dr. Kurt Warnekros em Dresden, na Alemanha.

1952

O ex-soldado George Jorgensen Jr. submete-se à cirurgia na Dinamarca e adota o nome de Christine Jorgensen.

1971

A primeira cirurgia de redesignação sexual no Brasil é realizada em São Paulo pelo médico Roberto Farina.

1997

O Conselho Federal de Medicina regulamenta a realização de cirurgias experimentais de transgenitalização em hospitais universitários no Brasil.

1999

Iniciam os trabalhos do Projeto TX do HC/UFG

2001

HC/UFG realiza a primeira cirurgia de redesignação sexual em Goiás.

2008

O governo brasileiro decide finalmente oficializar as cirurgias de redesignação sexuais, implantando o “Processo Transexualizador” pelo SUS. 


15 CAMINHOS DA PESQUISA

Integridade Acadêmica:

muito além do “copia” e “cola”

Divulgação

Lawrence Gonzaga Lopes é coordenador de estágios da Pró-reitoria de Graduação. Também contribuíram neste artigo Miriam Fábia Alves e Luiz Mello de Almeida Neto

Tânia Rezende*

Se não somos militantes, que tenhamos alteridade

E

m sessão do Supremo Tribunal Federal, no dia 10 de agosto, ocorreu o seguinte diálogo entre o presidente da Casa, ministro Ricardo Lewandowski, e a ministra Carmen Lúcia, recém-eleita à presidência do STF, a partir de setembro: – Concedo a palavra à ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita… ou presidente? – Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não é não? – É bom esclarecer desde logo, não é?

As escolhas linguísticas que fazemos revelam nossas ideologias e atitudes. Foi o que revelou a ministra Carmen Lúcia, ao responder ao presidente do STF, com uma justificativa sustentada na norma linguística (sou amante da língua portuguesa), o tradicional discurso de autoridade; subsidiada pela escola (Eu fui estudante), a agência de sustentação da norma; e legitimada pela nomeação (o cargo é de presidente), o poder da oficialidade. Com isso, a ministra mobilizou, em poucas palavras, poderosas agências de socialização de gênero, em defesa da manutenção da ideologia de gênero vigente na sociedade.

Não se trata, nesse caso, de “correção gramatical”, conforme sentenciam os gramáticos, rapidamente evocados pela mídia. Trata-se de preferência, como defende a mesma mídia. Mais que um fato linguístico, a marca de gênero em “presidenta”, atualmente, é o indicador de uma mudança social maior. Mikhail Bakhtin, em Marxismo e Filosofia da Linguagem (2006), defende que a linguagem, por ser ideológica, é o termômetro mais sensível das mudanças sociais. O embate a que temos assistido entre “presidente” e “presidenta”, desde a eleição de Dilma Rousseff para a Presidência da República do Brasil, em 2010, é a representação linguística de uma transformação social contemporânea. Por exemplo, há algum tempo, observo, em Goiânia, que alguns homens, para expressar agradecimento a uma mulher, dizem: obrigada. Ou seja, o gênero gramatical concorda com o gênero social da interlocutora. Ao cumprimentar meus amigos indígenas nas redes sociais, pelo aniversário deles, eles me agradecem, dizendo também obrigada. Algumas línguas indígenas fazem distinção entre a fala masculina e a fala feminina. Esse background linguístico pode estar orientando o uso do gênero centrado na interlocutora e não no locutor, quando esses indígenas falam em português. O fato de

os goianos também marcarem o gênero gramatical do agradecimento, considerando o gênero social da interlocutora, aponta para a possibilidade de influências indígenas na cosmovisão e na epistemologia linguística goianas.

As explicações e as discussões sobre a língua são feitas na própria língua, fazendo com que “a cumplicidade ontológica entre as categorias linguísticas e as categorias sociais pareça natural” quando, na realidade, é construída e imposta. Ou seja, as práticas linguísticas seguem convenções, portanto, as tradições linguísticas são invenções discursivizadas, que podem ser (e são) desinventadas, da forma defendida por Cristine Severo (2016), em A invenção colonial das línguas da América, e muit@s goian@s já as estão reinventando no agradecimento. Da mesma forma, no uso visibilizado do feminino, como em “bom dia a todas e a todos”, já bastante aceito; no emprego, na escrita, de “alunas e alunos” ou “os/as estudantes”, no lugar do falso genérico masculino “alunos”, “estudantes” para indicar masculino e feminino, invisibilizando ou, pior ainda, excluindo as mulheres, não está em questão o pressuposto do certo/errado ou o que é ou não correto na língua, considerando o que diz a gramática normativa. Trata-se de uma escolha política de uma regra ideológica para dar existência e visibilidade às mulheres, na sociedade, pela linguagem.

Com relação ao emprego de símbolos, como ‘x’ ou ‘@’, o que está em questão é a ruptura epistemológica: rompe-se com a epistemologia maniqueísta de mundo, com a visão binária de gênero, e propõe-se uma concepção pluralista de gênero. Para além de feminino e masculino, propõe-se dar existência e visibilidade à pluralidade de gêneros existentes na sociedade. Trata-se de uma proposta mais inclusiva. Enfim, se não somos e nem queremos ser militantes, temos de reconhecer que as conquistas das mulheres são devedoras das lutas e atuações históricas das militantes. Por isso, se não usamos uma linguagem, sobretudo uma escrita, menos sexista, porque não somos/não queremos ser militantes, usemos, então, pelo menos, por alteridade. *Tânia Rezende é professora da Faculdade de Letras da UFG O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.

A

integridade acadêmica nas relações de ensino resulta em formação humana que busca fortalecer os valores éticos, o respeito às diferenças, a retidão nas ações e a honestidade consigo e com os demais. O que parece óbvio e inquestionável, às vezes, é subvertido em práticas cotidianas. Por que convivemos com práticas que corrompem essa integridade? A resposta não é simples e tampouco única, pois há que se pesar a origem multifatorial que conduz às situações que frequentemente nos deparamos no dia a dia do desenvolvimento das atividades no meio universitário. No Brasil, a má conduta nas diferentes esferas da vida, a famosa cultura do “jeitinho”, se faz presente nas relações políticas, sociais e também familiares, o que tem comprometido a formação das novas gerações em uma cultura de valorização da ética e do cumprimento das normativas da sociedade brasileira. Na universidade, tais práticas se repetem e são materializadas em situações rotineiras em sala de aula ou fora dela, das quais podemos destacar algumas: cópia total ou parcial de trabalhos e projetos da internet; “cola”; desrespeito ao calendário e normas da instituição; apresentação de informações falsas para adquirir vantagens em processos seletivos; ausência em aulas ou atividades acadêmicas planejadas; pouca ou nenhuma adesão em trabalhos em grupo, porém não se eximindo da autoria para recebimento da nota final do grupo; ato escuso para obtenção do trabalho final de curso; invasão de sistema acadêmico, agravado com uso de contas de terceiros; ações e comportamentos desrespeitosos, intolerantes, preconceituosos ou violentos; e, por fim, mentir sobre determinadas ações realizadas.

...o trabalho mútuo, envolvendo os estudantes, professores, gestores e familiares com base em valores éticos, torna-se imperioso para criar uma nova cultura e motivar práticas concretas de integridade acadêmica Na perspectiva de um pensamento global, considerando o indivíduo dentro de seu contexto social, familiar e acadêmico, observa-se que o trabalho mútuo, envolvendo os estudantes, professores, gestores e familiares com base em valores éticos, torna-se imperioso para criar uma nova cultura e motivar práticas concretas de integridade acadêmica. Nessa perspectiva, a Universidade sendo lócus importante na formação das novas gerações e dos futuros profissionais, numa concepção humanística e cidadã, deve assumir seu protagonismo e tornar-se uma baliza importante para impedir que condições de má conduta prosperem.

Opinião

ARTIGO


Universidade

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Todas as atividades do Clube de Astronomia Amadora são divulgadas nas redes sociais. Siga e fique de olho!

Estudantes criam clube para divulgar Astronomia

Não adianta divulgar ciência sem saber ciência

Clube de Astronomia Amadora realiza diversas atividades para popularizar a ciência

Angélica Queiroz

T

razer Astronomia para a cidade de Goiânia de forma irrestrita, para todas as pessoas e de todas as maneiras porque ela faz parte de nossas vidas. Essa é a ideia que motivou a criação do Clube de Astronomia Amadora, fundado por estudantes do curso de Física da UFG em março de 2015. De lá pra cá o grupo realiza palestras, observações, minicursos, oficinas e visitas às escolas, entre outras atividades, atraindo o interesse de centenas de pessoas que querem saber mais sobre os assuntos do Universo.

Lucas Vieira conta que o projeto está crescendo e que cada vez mais o grupo tem sido procurado, principalmente por escolas. “Essas visitas são momentos bastante ricos, porque as crianças se interessam bastante por esse assunto. Ficam com aquele brilho nos olhos”, detalha. Os membros do Clube de Astronomia Amadora se reúnem semanalmente para discutir as próximas atividades e as novas descobertas da Astronomia no mundo. O grupo participa ainda de algumas atividades conjuntas com o Pátio da Ciência da UFG, como o Espaço das Profissões.

Incomodados com a forma com que o assunto é divulgado na grande mídia e na internet, os estudantes estudam bastante, pesquisam e tiram dúvidas com professores, buscando oferecer informações de qualidade sobre a Astronomia e popularizando-a. “Não adianta divulgar ciência sem saber ciência”, ressalta Lucas Vieira. O também fundador do clube, Rodrigo Freire, completa: “Nós trabalhamos contra a má divulgação científica”.

Por conta dessa preocupação, um dos projetos do Clube é a criação de um canal no Youtube para a publicação de vídeos explicando vários assuntos sobre o Universo. “Ficamos angustiados porque a internet tem muito sensacionalismo e muitas informações são tratadas de forma errada. Queremos oferecer uma alternativa, por isso a ideia do canal”, explica Lucas Vieira. Esse trabalho já é feito nas redes sociais, maiores veículos de divulgação do Clube, que já alcançam cerca de duas mil pessoas.

Observação à Conjunção, realizada em agosto, foi um dos eventos organizados pelo clube na UFG

Clube nasceu da vontade de trazer a Astronomia para todos e é aberto a quem quiser participar

Fotos: Ana Fortunato

Um dos fundadores do clube, Lucas Vieira, afirma que a Astronomia tem pouco espaço em Goiás e no Brasil e que, por isso, uma das intenções é contribuir para que o assunto seja mais conhecido pela população em geral. Com a pouca oferta de cursos de Astronomia no país, o estudante acabou optando por cursar Física na UFG, já de olho na Astrofísica. Fascinado pelo assunto desde criança, o estudante logo se juntou a outros colegas que dividiam a mesma paixão pela Astronomia e assim surgiu o clube que, apesar de ter sido criado por estudantes da UFG, é aberto a qualquer pessoa, independente de curso ou instituição de ensino.

Divulgação

Jornal UFG 83  
Jornal UFG 83  

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO X – Nº 83 – OUTUBRO DE 2016

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