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JORNAL ANO X – Nº 80 JULHO 2016

Você sabe o que é sororidade?

Jessica Peixoto

Entenda o que é e como praticar o princípio que surgiu no movimento feminista e se popularizou nas redes sociais. p.10 e 11

Assédio moral e sexual é discutido na Universidade p. 5

Servidores somam esforços para garantir excelência da UFG p.12 e 13

Projeto de extensão cria brinquedoteca hospitalar em Catalão p.16


JORNAL

EDITORIAL

Por uma sociedade mais justa, democrática e igualitária

A

temática do preconceito, do assédio sexual e moral e todas as formas de discriminação, ainda tão cristalizadas na sociedade brasileira são tema constante e de grande relevância na Universidade. Seja em rodas de conversas ou em fóruns de debate, oportunidades estão sendo criadas para ampliar a discussão em uma sociedade que tende a perpetuar uma cultura de relacionamento interpessoal preconceituosa, machista, homofóbica, transfóbica e discriminatória em diversas formas. Por isso, é importante utilizarmos de estratégias essencialmente educativas e de empoderamento das vítimas de violência tendo em vista a transformação desta realidade. Temos a concepção de que os veículos de comunicação da UFG podem contribuir para essa transformação, estimulando o trabalho conjunto de esclarecimento e combate a essa prática. A primeira edição desse ano do Jornal UFG, que circulou em março, já colocava em debate o tema da violência contra a mulher. Naquela edição, produzimos uma mesa-redonda para expor questões relacionadas aos canais de denúncias e às ações de proteção às mulheres vítimas de violência. Agora, após quatro edições, o assunto volta a ser pauta, tendo em vista o destaque nos últimos meses na grande mídia e nas redes sociais, sobre a cultura do estupro, principalmente depois de ser noticiado um caso de estupro coletivo de uma garota no Rio de Janeiro. Infelizmente, este e outros inúmeros casos que violam os direitos básicos da pessoa humana ocorrem diariamente e sequer são registrados nos órgãos competentes. Nossa intenção com o tema no Jornal UFG é fortalecer o processo de educação e de sensibilização da sociedade quanto à necessidade de empoderamento das mulheres e a busca pela superação das diferenças de gênero. Muitas pessoas ainda estranharão a capa desta edição do Jornal UFG que põe em destaque a sororidade. Na matéria Amizade entre elas, buscamos

COMUNIDADE PERGUNTA Caroline Pires é servidora técnicoadministrativa da UFG

Quais são as regras para encaminhamento de atestados dos servidores da UFG? O servidor que necessitar de afastamento do trabalho ainda que por um dia, por razões médicas ou odontológicas suas ou de familiares, deve entregar o atestado junto ao Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (SIASS). A partir do primeiro dia do atestado, o servidor tem cinco dias para a entrega. Passado esse prazo, o servidor poderá ter seu afastamento negado. O afastamento para acompanhamento de familiares é concedido quando for indispensável e não houver forma de compensação de horários. Além disso, os familiares devem ser previamente cadastrados no Departamento do Pessoal. Em todos os casos é preciso preencher um requerimento que deve conter a assinatura da chefia imediata e a programação de férias do servidor.

entender o significado desse princípio, que nasceu no feminismo e tem se popularizado como uma alternativa à realidade de opressão e violência contra as mulheres. Para quem ainda não se familiarizou com o termo sororidade ou está sendo apresentado agora, vale a pena conferir. Trazemos ainda um artigo sobre o empoderamento das mulheres negras escrito pela Coordenadora de Ações Afirmativas da UFG (Caaf), Luciene Dias, que defende que é preciso entregar nas mão das mulheres e, especialmente das mulheres negras, o protagonismo de atuar na linha de frente no que se refere à elaboração de políticas afirmativas.

Outros assuntos importantes para a comunidade acadêmica também recheiam esta edição. A mesa-redonda traz uma discussão sobre o legado das Olimpíadas, que começam em agosto no Rio de Janeiro, para o esporte no Brasil. O Jornal UFG entrevistou ainda a professora da Faculdade de Farmácia da UFG, Carolina Horta, sobre o inovador OpenZika, projeto coordenado pela UFG em parceria com o World Community Grid, da IBM, e cientistas de vários países, que poderá identificar possíveis medicamentos antivirais para combater o vírus Zika.

Na reportagem: Nova metodologia inova formação nos cursos de Medicina, conheça um pouco sobre as novas diretrizes curriculares para os cursos de medicina que visam qualificar o médico para lidar com a realidade da rede pública de saúde. A reportagem ouviu coordenadores dos cursos de Medicina das Regionais Goiânia e Jataí e, também, um membro da comissão de implementação do curso na Regional Catalão, que opinaram sobre as vantagens e desvantagens do novo currículo. Confira ainda as expectativas e o perfil de alguns dos novos servidores que passaram a integrar o quadro funcional da Universidade, assim como as experiências daqueles que há anos se dedicam à UFG. Boa leitura! *Coordenadora de Imprensa da Ascom

No atestado de licença para tratamento da própria saúde deverá constar a identificação do servidor, identificação do profissional emitente e de seu registro em conselho de classe, data de emissão do documento, o código da Classificação Internacional de Doenças (CID) ou diagnóstico e o tempo provável de afastamento. No de acompanhamento de familiar é preciso constar também o nome do familiar e o CID da doença deste. Atestados não devem ser anexados a folhas de frequência.

Atualmente é possível entregar os atestados na Sede do SIASS (Rua 235, Nº 561, Qd. 70, Lt. 30, Setor Leste Universitário), na Pró-reitoria de Recursos Humanos/Prodirh (Prédio da Reitoria – Câmpus Samambaia), na Coordenação de Recursos Humanos/Codirh (Regional Jataí) e na Regional Catalão (Av. Dr. Lamartine Pinto de Avelar, Nº 1120, Setor Universitário). Mais informações sobre licença de saúde podem ser obtidas no site: <www.siass.ufg. br> ou no telefone <62-32096227>.

Victor Martins

Michelle Martins*

Carlos Siqueira

Opinião

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Edinamar Aparecida dos Santos da Silva é Gestora do Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (Siass)

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO X – Nº 80– JULHO DE 2016 – Universidade – Reitor: Orlando Afonso Valle do Amaral; Vice-reitor: Manoel Rodrigues Chaves; Pró-reitor de Graduação: Luiz Mello de Almeida Neto; Pró-reitor de Pós-Graduação: José Alexandre Felizola Diniz Filho; Pró-reitora de Pesquisa e Inovação: Maria Clorinda Soares Fioravanti; Pró-reitora de Extensão e Cultura: Giselle Ferreira Ottoni Cândido; Pró-reitor de Administração e Finanças: Carlito Lariucci; Pró-reitor de Desenvolvimento Institucional e Recursos Humanos: Geci José Pereira da Silva; Pró-reitor de Assuntos da Comunidade Universitária: Elson Ferreira de Morais. – Jornal UFG – Coordenadora de Imprensa: Michele Martins; Editora: Kharen Stecca; Editora-assistente: Angélica Queiroz; Conselho editorial: Angelita Pereira de Lima, Cleomar Rocha, Estael de Lima Gonçalves (Jataí), Luís Maurício Bini, Pablo Fabião Lisboa, Reinaldo Gonçalves Nogueira, Silvana Coleta Santos Pereira, Thiago Jabur (Catalão) e Weberson Dias (Cidade de Goiás); Suplente: Mariana Pires de Campos Telles; Projeto gráfico e editoração: Reuben Lago; Fotografia: Carlos Siqueira; Reportagem: Angélica Queiroz , Luiz Felipe Fernandes, Giovanna Beltrão e Renato Rodrigues; Revisão: Fabiene Batista e Bruna Tavares; Bolsistas: Adriana Silva e Ana Fortunato (Fotografia); Impressão: Centro Editorial e Gráfico (Cegraf ) da UFG; Tiragem: 6.000 exemplares

ASCOM Reitoria da UFG – Câmpus Samambaia Caixa Postal: 131 – CEP 74001-970 Goiânia – GO Tel.: (62) 3521-1310 /3521-1311 www.ufg.br – www.ascom.ufg.br jornalismo.ascom@ufg.br @ufg_oficial


sendo muito promissora, passa a ser candidata ao fármaco e vai para os estudos de fase clínica, com testes em humanos.

Essas substâncias estão cadastradas em um banco de dados?

O projeto irá rastrear compostos de bancos de dados já existentes com uma velocidade infinitamente maior do que em um laboratório tradicional, permitindo a avaliação computacional de mais de 20 milhões de compostos apenas na fase inicial e até 90 milhões de compostos em fases futuras. Assim poderemos fazer uma varredura de quais substâncias são potenciais para tratar o vírus Zika.

Como a população pode ajudar nessa pesquisa?

UFG coordena pesquisa global sobre Zika vírus Angélica Queiroz

O

vírus Zika foi descoberto em 1947, mas quase ninguém havia ouvido falar dele até o surto que ocorreu no Brasil em 2015, o que fez com que poucas pesquisas fossem produzidas sobre a doença. O pânico aumentou quando começou a ser divulgada a possibilidade de associação da doença com casos de microcefalia em recém-nascidos de mães que tiveram contato com o vírus Zika na gravidez. O vírus está se espalhando rapidamente pelas Américas e já há uma preocupação da Organização Mundial de Saúde de que ele possa chegar também à Europa no próximo verão. Atualmente não existe nenhuma vacina para prevenir a infecção pelo vírus, nem qualquer medicamento antiviral conhecido para tratar pacientes que o contraíram. A UFG, em parceria com o World Community Grid, da IBM, e cientistas de vários países, lançou um estudo que poderá identificar possíveis medicamentos antivirais para combater o vírus Zika. O projeto OpenZika é coordenado pela professora da Faculdade de Farmácia da UFG, Carolina Horta, e possibilita que qualquer pessoa que possua um computador ou dispositivo móvel contribua com o processamento da pesquisa. O Jornal UFG conversou com a pesquisadora sobre as perspectivas desse projeto inovador.

Como surgiu essa ideia?

O laboratório onde trabalho, na Faculdade de Farmácia, o Laboratório de Planejamento de Fármacos e Modelagem Molecular (LabMol), tem como principal objetivo o planejamento e desenvolvimento de fármacos, que são os princípios ativos dos medicamentos, principalmente para o tratamento das chamadas doenças negligenciadas. No ano passado, estive em um congresso nos Estados Unidos e conheci Sean Ekins, um pesquisador que tem vasta experiência na indústria farmacêutica e estava trabalhando com a pesquisa de novos fármacos para o vírus Ebola. Conversei com ele sobre a minha vontade de encontrar novos fármacos para tratar a Dengue, que é uma doença endêmica no Brasil e que não temos opção terapêutica de tratamento para pacientes infectados. Em 2015, iniciamos essa pesquisa e,

quando a crise global de Zika estourou no Brasil, a ampliamos para buscar novos antivirais contra o vírus Zika, já que o vírus da Dengue e o vírus Zika são da mesma família, primos muito parecidos. A partir daí, o Sean Ekins me apresentou a Alexander Perryman e ambos me apresentaram a World Community Grid, iniciativa filantrópica da IBM, que fornece capacidades massivas em supercomputação, por meio de uma rede de mais de três milhões de computadores e aparelhos móveis dos voluntários.

Qualquer pessoa que possua um computador ou um dispositivo móvel pode juntar-se ao projeto OpenZika. Não precisa ter nenhum conhecimento científico, não precisa investir dinheiro, não vai gastar seu tempo, é só instalar o aplicativo que ele faz tudo sozinho. Esse aplicativo, automaticamente, passa a realizar experimentos virtuais sempre que esses aparelhos estiverem inativos. Ele vai utilizar os recursos do seu computador ou celular para fazer os cálculos que precisamos para essas simulações computacionais na busca de um medicamento para o Zika.

O projeto irá rastrear compostos de bancos de dados já existentes com uma velocidade infinitamente maior do que em um laboratório tradicional

De que forma a parceria entre a UFG e o IBM contribui para essa pesquisa? Quais as principais preocupações com o vírus Zika? Esse projeto vai acelerar os estudos na busca de um novo medicamento antiviral para tratar pacientes que já estejam infectados com o vírus Zika. Normalmente são necessários entre 10 a 15 anos para que um novo medicamento chegue às farmácias, sendo um processo longo e dispendioso. Sem a rede de computadores, a parte da triagem demoraria pelo menos dois ou três anos. Com o World Community Grid, a expectativa é que consigamos reduzir essa etapa para, aproximadamente, seis meses.

Quais são as expectativas?

As nossas expectativas são grandes porque trata-se de ciência aberta. Então, a partir do momento que tivermos os resultados, eles serão disponibilizados na internet, possibilitando que qualquer pesquisador ou laboratório no mundo possa contribuir com o trabalho, acelerando seus resultados. A nossa pesquisa visa identificar uma substância que seja potencial como medicamento para o vírus Zika. Vamos utilizar estudos computacionais para buscar, como se fosse em um quebra-cabeças, uma substância química que consiga se encaixar nas proteínaschave do vírus Zika e possa interferir no funcionamento dele, bloqueando a sua entrada na célula. Posteriormente, selecionaremos as substâncias mais promissoras e passaremos para os ensaios tradicionais em laboratório, verificando a interação ou a possibilidade de essas substâncias matarem ou inibirem o crescimento do vírus Zika in vitro. Após essas etapas, essas substâncias irão para os estudos em animais de laboratório e, se alguma continuar

O vírus Zika ficou praticamente desconhecido porque causa uma infecção que é assintomática em 80% dos casos e em quatro ou cinco dias o paciente já melhora. Porém, a grande questão desse surto atual, que começou no Brasil em maio de 2015, é a velocidade com que o vírus está se espalhando pelo mundo. Ele começou aqui no Brasil e em nove meses já estava presente em mais de 50 países, da América do Sul, Central e chegando na América do Norte. Essa velocidade é muito preocupante. Além disso, pesquisadores já demonstraram que essa linhagem de vírus que está aqui no Brasil é geneticamente diferente da linhagem original da África, é uma linhagem mais agressiva. Já foi confirmado experimentalmente também a relação do vírus com casos de má-formações genéticas em bebês e várias complicações neurológicas em adultos. A preocupação agora é com essa nova linhagem do vírus Zika, que veio muito mais agressivo e que não sabemos ainda o que vai causar a longo prazo. Enquanto não temos uma vacina para prevenir a infecção, precisamos acelerar a descoberta de uma medicamento para tratar quem já está infectado, estágio em que a vacina não é mais eficaz.

Colabore acessando o site do projeto OpenZika.ufg ou pelo QR Code ao lado

Entrevista Carolina Horta

Ana Fortunato

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Plástico é produzido com resina do cajueiro Material já foi testado com sucesso como embalagem de alimentos e como curativo

Instituto de Ciências Biológicas (ICB) levou apenas 30 dias para se decompor no solo.

Fotos: Divulgação

Universidade

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Plástico pode ser feito de resina Luiz Felipe Fernandes

M

enos poluente, mais eficaz e feito com matéria-prima extraída do cajueiro. Assim é o plástico biodegradável obtido por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG). O filme plástico já foi testado com sucesso como embalagem de alimentos e como curativo, com um diferencial importante: enquanto o plástico tradicional, derivado em sua maioria do petróleo, permanece durante cerca de 50 anos na natureza, o filme produzido no laboratório do

A professora do ICB, Kátia Fernandes, que coordena a pesquisa, explica que a matéria-prima é extraída da resina que o cajueiro produz quando tem seu tronco ou galhos cortados. Essa goma, como também é chamada, atua como uma espécie de cicatrização da planta. Misturada ao PVA – um outro tipo de plástico usado na produção de tintas, adesivos e gomas de mascar –, os pesquisadores chegaram ao plástico biodegradável. “A ideia era chegar a uma alternativa renovável que não dependesse do petróleo. Estamos gerando tanto lixo plástico que o planeta está ficando soterrado”, ressalta Kátia. Os primeiros testes mostraram que o filme plástico usado como revestimento de frutas permitiu que elas ficassem três vezes mais tempo sem refrigeração, sem murchar nem desidratar, que as frutas sem o revestimento. Ao plástico também foram adicionadas enzimas provenientes de um micro-organismo do solo do Cerrado que agem contra invasores, como os fungos. Elas degradam as paredes dos fungos e, assim, impedem seu crescimento.

Comitê de Tecnologia da Informação formula política Expectativa é de aprovação ainda neste semestre

Angélica Queiroz

A governança de Tecnologia da Informação (TI) é a integração entre os objetivos e as diretrizes estratégicas da organização e as ações de TI, visando criar valor para as organizações por meio do uso dos recursos de TI. Na UFG, o Centro de Recursos Computacionais (Cer-

O filme contendo enzimas foi eficaz no combate ao crescimento dos fungos Sclerotinia sclerotium (mofo branco), Aspergillus niger (mofo preto) e Penicillium sp. (conhecido como bolor, comum em pães). Como aplicação prática, a professora cita o transporte de alimentos em longas distâncias. “Uma carga de frutas pode ser transportada de navio para a Europa, por exemplo, sem mofar e murchar, sem que precise de um acondicionamento muito elaborado”.

Curativo

O plástico biodegradável também foi testado em células humanas. As pesquisas mostraram que o material não é tóxico e que as células cresceram normalmente, o que permite vislumbrar sua utilização como curativo. E o melhor: como esse plástico não adere às células, o curativo ainda teria a vantagem de não causar o incômodo de grudar no ferimento, como geralmente acontece. Na primeira tentativa bem-sucedida, uma enzima que controla o processo de cicatrização foi colocada no plástico e permaneceu ativa. Um curativo com essa enzima ativa poderia ser usado para tratar ferimentos de pessoas que sofrem com

Cercomp, Cedric Luiz de Carvalho. Assim, o CTI, presidido pelo reitor da UFG, Orlando Amaral, deve propor políticas de TI a serem aprovadas pelo Consuni.

A Política de TI da UFG deve definir o escopo de atuação da Tecnologia da Informação na Universidade. Segundo o Coordenador de Organização, Sistemas e Métodos da Pró-Reitoria de Desenvolvimento Institucional e Recursos Humanos, Vinicius Braga, secretário da CTI, essa política é parte integrante da estratégia da instituição e vai determinar os princípios, diretrizes, estrutura organizacional, papéis, responsabilidades,

um processo de cicatrização muito rápido. O mesmo foi feito com enzimas que auxiliam a cicatrização. As substâncias permaneceram ativas no material por até 12 horas.

Outros testes incluíram um antiinflamatório no curativo. “O momento da lesão é muito dolorido e um curativo com analgésico é capaz de diminuir essa dor”, explica Kátia. O próximo passo é fazer a mesma tentativa com antibióticos para tratar ferimentos, usando esse curativo para deixá-los cobertos, úmidos, absorvendo os fluidos e com o medicamento agindo.

Produção

As pesquisas feitas no ICB usam o material de cajueiros do Nordeste brasileiro, principalmente do Ceará, que concentra grande parte da produção de caju no país. O objetivo agora é fazer testes na espécie de cajueiro de Goiás para verificar se os resultados serão semelhantes. Para Kátia, a pesquisa é importante para que os produtores aproveitem o potencial do cajueiro, que não se restringe ao fruto e à castanha. “Mesmo o cajueiro velho, que não produz mais fruto, pode produzir resina”, esclarece. processos de alinhamento, estratégias e mecanismos de comunicação da área de TI. Segundo o secretário da CTI, a expectativa é que o processo na UFG seja rápido, com aprovação por parte do CTI ainda em julho de 2016. “A minuta deste projeto foi encaminhada aos integrantes do Comitê de TI no final do mês de maio, recebendo contribuições que ensejaram novas versões desta minuta, com previsão de apreciação inicial pelo CTI em reunião ordinária em julho de 2016. Após a aprovação desta política por parte do CTI, ela será encaminhada ao Consuni para apreciação”, detalha.

Adriana Silva

A

s universidades federais fazem parte do Sistema de Administração de Recursos de Tecnologia da Informação (SISP), que tem o objetivo de organizar a operação, o controle, a supervisão e a coordenação dos recursos de informação e informática da administração direta, autárquica e fundacional do poder executivo federal. Na UFG, o Comitê de Tecnologia da Informação (CTI), criado em resolução do Consuni em maio de 2015, veio para se responsabilizar pela governança de Tecnologia da Informação na Universidade, que até então não tinha um responsável.

comp) vinha realizando, de maneira muito precária, atividades associadas à governança. “Entretanto, não é esse o seu papel. Como o Cercomp é um órgão de gestão, não deveria caber a ele também realizar a governança de TI na UFG. Em função disto, foi criado o Comitê de TI, que deverá assumir as funções ligadas à governança de TI na instituição”, explica o diretor do

Lâmina de vidro seguida por filme de PVA/PEJU 3 e 6 % hidratados


Carlos Siqueira

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Trabalho conjunto de esclarecimento busca combater a prática de assédio moral e sexual na Universidade Silvânia Lima

N

o mundo atual, mesmo com a presença da tecnologia, o aumento da informação e a inserção de novos comportamentos, continuamos assistindo práticas sociais abusivas. Relações sociais e interpessoais continuam carregadas por vícios atrelados a visões de poder, favorecendo antigas práticas criminosas, a exemplo do assédio moral e do assédio sexual. Com o agravante de que agora a prática tem o apoio das redes virtuais, que supervisionam e provocam maior visibilidade das vítimas.

Para quem se espanta ao saber que essa prática tão antiga ainda ocorre em ambientes como a universidade, a professora Luciene Dias, que responde pela Coordenadoria de Ações Afirmativas (Caaf) da UFG, lembra que “A universidade não é isolada da sociedade em geral. Reproduzimos todas as relações sociais e hierarquias de poder, entre elas estão as condutas preconceituosas que parte de quem se sentem superior nas relações sociais” e acrescenta que “não há, por parte da universidade, um empenho em reproduzir o modelo, mas sim uma impossibilidade de agir de outra forma sem um processo de reeducação.

Assédio Moral É toda conduta abusiva (gesto, palavra, escritos, comportamento, atitude etc.) que intencional e frequentemente fira a dignidade e a integridade física ou psíquica de uma pessoa, ameaçando seu emprego, estudo, ou degradando o ambiente onde exerce suas funções. O objetivo do agressor é humilhar, desqualificar e desestabilizar emocionalmente a vítima. Pode estar relacionado à questões de gênero, religião, orientação sexual, pertencimento étnico-racial, capacidade laboral e/ou intelectual, improbidade, doença. Manifestase por tratamentos não dignos, que vão do isolamento da vítima até humilhações e outras condutas danosas, de forma explícita ou velada. Pode ocorrer também entre pessoas do mesmo nível ou segmento, bastando que uma sinta que tem poder sobre a outra e cometa abusos periódicos.

Apesar do registro formal de queixas constituir uma dificuldade nos casos de assédio, são comuns relatos informais de vítimas. Na Universidade, o segmento que mais se manifesta com relação ao assédio é o dos técnico-administrativos. Porém, ultimamente, são muitos os casos denunciados por estudantes.

Reitor recebe estudantes acolhendo queixas e propostas sobre o problema Fonte: Confederação dos Servidores Públicos do Brasil (CSPB)

Ângela Maciel, coordenadora do Laboratório de Estudo sobre o Trabalho da Universidade Federal do Ceará,

Cultura de respeito e ética

UFG se mobiliza

Recentemente, o reitor da UFG, os pró-reitores de Graduação, de Assuntos da Comunidade Universitária e de Extensão, além de outros membros da equipe, estiveram reunidos com coletivos estudantis a fim de acolher suas queixas e propostas como estratégia de gestão para atacar frontalmente o problema do assédio na UFG. Os estudantes reivindicaram agilidade e transparência no encaminhamento de suas demandas. O reitor Orlando Amaral manifestou-se pelo diálogo aberto e empenho da Reitoria em estabelecer medidas de disponibilização de informações, acolhimento de denúncias e de vítimas, prevenção e combate às práticas de assédio moral e assédio sexual no ambiente acadêmico. Adriana Silva

A prática do assédio, observada em lugares e ambientes diversos, é comum em organizações, porque está muito relacionada à hierarquia, ou a situações em que uma pessoa sente que tem poder sobre a outra, sempre com a intenção de prejudicar. O serviço público é um desses ambientes em que o assédio moral se dá de forma mais visível e marcante, podendo ser praticado, inclusive, por grupos de pessoas. Mas, seria o assédio uma ação isolada e individual? Ou há alguma implicação das organizações na concretização desse tipo de ato?

lembra que a definição sobre o assédio moral geralmente se dá separada do resto da condição de trabalho. No entanto, “quando buscamos as causas do assédio, vemos que tem tudo a ver com o contexto, que reúne as condições físicas e a organização do trabalho. Então, por exemplo, em um ambiente coercitivo, muito autoritário, estará posta uma maior possibilidade de ocorrer o assédio. E se as condições de trabalho são precárias, é ainda pior”, afirma a professora. Para ela, “a pessoa só assedia porque a organização assim o permite”.

Para a coordenadora da Caaf, “precisamos de uma universidade mais orgânica, capaz de gerir a sua complexidade e de promover a aproximação das pessoas”. O conceito de organicidade propõe a sintonia entre o que está fora e o que está dentro, o pensar globalmente, agindo localmente. “O caminho para isso é fortalecer o diálogo. Que todas as pessoas sejam ouvidas igualmente”, reafirma Luciente Dias.

A Associação dos Pós-Graduandos (APG) da UFG e coletivos de estudantes de graduação questionam a ausência de fóruns e normas específicas da UFG que permitam o eficaz enfrentamento e o acolhimento de vítimas de assédio. Além disso, propõem uma campanha permanente que provoque reflexões sobre o tema, além da criação de uma comissão específica e permanente para apurar casos de assédio e violações de direitos humanos, composta paritariamente por servidores docentes, técnico-administrativos e estudantes. Atentos à questão, os sindicatos dos docentes (Adufg) e dos técnicoadministrativos (Sint-IfeGO) e a APG realizaram, no início de junho, mais uma edição do ciclo de debates exatamente sobre este tema.

Universidade

É possível prevenir o assédio

Assédio moral é um problema institucional e uma das atribuições da CAAF é fazer a mediação entre entidades, fóruns e gestão da UFG para o fomento de políticas que combatam essa prática no meio acadêmico. Para mudar a situação, Luciene Dias diz que é necessário um processo de reeducação. A prevenção pela construção de uma cultura de respeito. “Homens, mulheres, indígenas , pessoas negras e LGBTs precisam ser tomados como sujeitos constituintes também dos espaços de poder e não meros beneficiários de ações afirmativas. O reconhecimento da pessoa pelo que ela é, se traduz em respeito”, afirma Luciene Dias.

Assédio Sexual

Denúncia

Abuso em que, geralmente, o agente prevalece de posição superior hierárquica, independente de cargo ou função, caracterizado por atos de constrangimento - não necessariamente exige contato físico – à vítima com o intuito de obter favorecimento sexual. Expressões verbais ou escritas, comentários, gestos e imagens são comprovações desse ato. Assédio sexual é crime previsto no Código Penal, Art. 216-A.

Não pratique, não sofra, denuncie! Esse é o mote da maior parte das campanhas contra o assédio moral ou sexual. Um dos maiores problemas no combate a essa prática é o constrangimento das vítimas que se sentem impotentes e até culpadas diante da violência, prejudicando a formalização das denúncias. Na UFG, esse tipo de denúncia deve ser encaminhada à Ouvidoria: ouvidoria@ufg.br ou (62)3521-1149/ 3521-1063.

Veja cartilha sobre Assédio Moral pelo QR Code ao lado


Mesa-redonda

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Olimpíadas 2016:

legado para o esporte? Ascom, TV UFG e Rádio Universitária

As Olimpíadas do Rio, tão aclamadas por anos no Brasil, finalmente estão chegando. Em meio a uma crise política e econômica, o assunto que deveria ter tomado a pauta durante os últimos meses acabou ficando em segundo plano. Será a primeira vez que evento será sediado na América do Sul e a segunda vez na América Latina, depois da Cidade do México, em 1968. As instalações esportivas do Parque Olímpico do Rio de Janeiro, no bairro da Barra da Tijuca, deve compor o Centro Olímpico de Treinamento para atletas de alto rendimento, capacitando a cidade para sediar competições esportivas dos circuitos internacionais. Mas, além disso: o que fica? Sabemos que diversos projetos que seriam considerados como legados, dentre eles a despoluição da Baía de Guanabara e de rios da região, não serão concluídos. E para o esporte? O Brasil conseguiu avançar em algum ponto? Como fica a formação dos atletas? O esporte paralímpico ganhou maior incentivo?

Para discutir as vantagens e desvantagens da realização de um evento desse porte no país, convidamos o técnico da seleção brasileira feminina de vôlei sentado, José Guedes, o professor da Faculdade de Educação Física e Dança da UFG (FEFD), Wilson Lino, e o Superintendente Executivo de Esporte e Lazer de Goiás, Júnior Vieira. Você pode participar das próximas mesas-redondas enviando sugestões de temas e convidados pelo telefone: 3521-1311 ou jornalismo.ascom@ufg.br

Confira os vídeos do Programa Conexões no QR Code ao lado.

O governo federal criou o Plano Brasil Medalha e adicionou R$ 1 bilhão aos recursos estatais aplicados na preparação de atletas. Até Londres-2012, o governo investia R$ 1,5 bilhão nesses atletas durante quatro anos. De 2012 a 2016, deveria investir R$ 2,5 bilhões. Esse recurso tem sido suficiente para a formação dos atletas brasileiros? Júnior Vieira – Acho que o dinheiro nunca é suficiente e sabemos que o esporte no Brasil ainda tem que avançar muito para que possamos chegar ao nível dos países de primeiro mundo, como Estados Unidos ou China, que disputam as melhores medalhas. O Brasil está aquém porque os governos federal, estadual e municipal ainda não investem o suficiente. No entanto, essa é uma questão cultural: precisamos começar com as crianças, incentivando o esporte nas escolas. Acho que o Brasil já melhorou muito nos últimos dez ou vinte anos, mas temos muito que melhorar.

Wilson Lino – Um marco significativo para pensarmos nisso é o ano de 2003, com a constituição do Ministério do Esporte, porque até então o Brasil não tinha uma organização que dava um caráter de relevância para a política nacional de esporte. A partir daí o sistema esportivo no Brasil passa a ser melhor organizado, embora ainda seja necessária a criação de um sistema nacional de esporte. No entanto, o que existe já tem dado algumas contribuições, tendo em vista as condições objetivas do país. Dessa forma, pensar a formação de atletas com excelência esportiva é pensar uma dimensão da formação humana a partir do esporte. É importante registrarmos que a compreensão do esporte como fenômeno cultural que contribui para o desenvolvimento humano e, portanto, deve ser acessível a todos, é uma coisa. Excelência esportiva, que é o esporte de alto rendimento, que vai disputar medalhas e participar de performances esportivas que exigem grande desempenho humano, já é outro momento. Quando falamos de olhar para a escola a partir do esporte de rendimento, temos um problema, porque não deve ser essa a ideia do esporte. A ideia do esporte é para a formação humana e o esporte de alto rendimento é um momento dessa formação. O Brasil tem investido prioritariamente no esporte de alto rendimento, o que talvez seja um problema nosso, pensando na descontinuidade do atleta. Acabamos investindo somente na elite, sem a preocupação de garantir à população brasileira o acesso ao esporte. A partir desse acesso, as pessoas podem escolher algumas práticas e aí, quem sabe, dentre esse conjunto de pessoas, algumas queiram se especializar. O esporte parece que tem servido no sentido de mudança de classe social, num país subdesenvolvido cuja desigualdade se dá em todas as dimensões, inclusive no acesso às práticas esportivas. José Guedes – Quando falamos de investimentos no esporte, no Brasil é muito comum você olhar de um local equivocado. As pessoas geralmente olham para o topo da pirâmide, onde estão os atletas de excelência, e de cima olham lá para baixo, pensando que é necessário formar atletas de excelência para chegar lá. O ideal seria olhar de baixo para o topo da pirâmide, com uma formação ampla e alto investimento. E, dessa forma, não entra na categoria educacional, porque as pessoas associam diretamente com a escola, e não é da escola a responsabilidade de formar atletas. É preciso investir na base da pirâmide e aí sim olhar no topo e saber quem vai

chegar a essa excelência. Querer ser um atleta de excelência não depende só da vontade, são necessários outros fatores que vão contribuir para isso. Estamos falando de jogos olímpicos e paralímpicos, da excelência esportiva existente no planeta Terra, não estamos falando de pessoas comuns. Um atleta olímpico ou paralímpico é uma pessoa que se diferencia dos demais na sociedade. Acerca dos investimentos, penso em dois marcos históricos para o desenvolvimento do esporte no Brasil: a criação do Ministério do Esporte e a criação da Lei Agnelo Piva, que destina parte dos recursos das Loterias Caixa para o esporte no Brasil. Assim, as Loterias passam a ser um financiador direto do esporte, mas ainda com um foco maior para o topo da pirâmide, trazendo novamente esse olhar invertido. Só recentemente foi feita uma alteração nessa lei para que os clubes formadores, aqueles que trabalham com a base, possam também receber recursos oriundos dessa fonte de financiamento, porque hoje são os clubes os principais formadores de atletas no Brasil. Em relação aos atletas paralímpicos, há uma lacuna maior, porque eles ainda não estão nesses clubes. As pessoas com deficiência, desde a infância até a juventude, começam suas práticas esportivas a partir de projetos que entidades de defesa de direitos de pessoas com deficiência começaram a desempenhar no início dos anos de 1980, com o processo de redemocratização do país. Aqui em Goiás, por exemplo, temos associações muito fortes, que surgem como organizações, mas não são clubes esportivos. Quando vamos para uma paralimpíada, eu não posso trabalhar com o conceito social do esporte, mas com o esporte de alto rendimento, o qual se faz em clubes e se caracteriza como uma outra dificuldade que nós temos.

Wilson Lino

Quando falamos de olhar para a escola a partir do esporte de rendimento, temos um problema, porque não deve ser essa a ideia do esporte A crise política e econômica que vivemos no Brasil pode afetar de alguma forma a realização das Olimpíadas? Wilson Lino – Sim, os movimentos populares manifestam em diversos momentos uma indignação social. Nesse país de desigualdades que todos conhecemos, os investimentos maciços foram feitos apenas em determinadas localidades. Por exemplo, no Rio de Janeiro, estado com mais de cinco milhões de habitantes, os investimentos massivos foram feitos apenas na Barra da Tijuca (região da cidade onde se localiza a Vila Olímpica); o que a população identifica como uma qualificação da vida somente daquelas pessoas que moram no entorno. E os demais, as pessoas da favela e o povo carioca, em certa medida se sentem indignados. Tendo em vista também as últimas manifestações políticas que


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Fotos: TV UFG

Júnior Vieira – Acho que estamos atravessando uma das maiores crises políticas e econômicas do Brasil e o cenário ainda não está definido. Isso é grave, acho que poderão haver movimentos. Estive no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro, e realmente até a linha de metrô que vai para a Barra teve um investimento fabuloso. Mas isso, só na área onde ocorrerão os jogos. O evento será no Brasil, no entanto, foi escolhida apenas uma capital para sediar as Olimpíadas, o Rio de Janeiro, que recebeu investimentos e, ainda assim, como foi dito, isso não aconteceu na cidade toda. Sendo assim, a única coisa que aconteceu no Brasil foi a passagem da Tocha Olímpica.

José Guedes

Nós estamos falando de jogos olímpicos e paralímpicos, estamos falando da excelência esportiva existente no planeta Terra, não estamos falando de pessoas comuns

José Guedes – Havia uma grande expectativa para a realização dos jogos no Brasil, as pessoas trabalharam esse conceito de que o Brasil ganharia uma visibilidade, mas que, nesse momento, concentra-se apenas no Rio de Janeiro. Há uma grande preocupação em relação à crise econômica e política, pois desde que foi anunciado o Brasil como país sede, tivemos continuidade na política, que foram os governos do PT. E, no momento final, há essa mudança na gestão, e no Brasil, infelizmente temos uma cultura da descontinuidade de políticas públicas. Portanto, esse fato, na reta final dos jogos onde o principal investimento é público, nos preocupa, inclusive, com a preparação das equipes, das delegações, que dependem de recursos públicos.

A Olimpíada vai deixar algum legado positivo para o Brasil? Como o esporte paralímpico será beneficiado pelas Olimpíadas?

José Guedes – Em relação ao legado, temos alguns aspectos para trabalhar. A estrutura física fica, mas tivemos experiências ruins com o legado dos jogos Pan-americanos no Rio 2007, porque menos de dez anos depois algumas estruturas já não podem mais ser utilizadas. No caso do esporte paralímpico, o principal legado é que o Brasil ganhou um centro paralímpico de treinamento de excelência em São

Paulo, que é melhor do que os melhores do mundo e atende 15 das 20 modalidades paralímpicas em um único local, com estrutura de hotel, academia, piscina, ou seja, toda estrutura para que o atleta alcance a sua excelência. O segundo ponto, que talvez seja o mais importante, é o legado da mudança de paradigma em relação às pessoas com deficiência. As pessoas com deficiência são um segmento da sociedade que, historicamente, têm lutado pelos seus direitos, muitas vezes em lutas isoladas, mas que trazem conquistas para o coletivo. Os conceitos que serão modificados a partir dos jogos vão ajudar as pessoas com deficiência. O presidente do Comitê Paralímpico Internacional, questionado sobre o principal legado dos jogos do Rio, disse esperar que as pessoas enxerguem um atleta paralímpico não pela sua deficiência, mas pela sua capacidade de realizar determinadas atribuições. E é isso que necessitamos, que as pessoas com deficiência ingressem no mercado de trabalho e tenham uma vida social, mas as pessoas enxergam apenas a deficiência e não o potencial. Wilson Lino – Para que possamos pensar a discussão sobre legado, temos que retornar um pouco no tempo e lembrar quais foram as promessas quando estavam cogitando trazer esses megaeventos esportivos para o Brasil, a partir de 2007 com o Pan-americano, depois os Jogos Mundiais Militares, a Copa do Mundo e agora as Olimpíadas. É um conjunto de megaeventos esportivos, em geral, associados com um determinado sentido do esporte, o espetáculo, o alto rendimento. Mas temos de olhar para os impactos desses eventos para o Estado e para a população, que não são diferentes de outros países do mundo. Por exemplo, o professor da UnB, Fernando Mascarenhas discutiu recentemente em programa da TV UnB que ele tem estudado os impactos dos eventos esportivos e tem visto que a prática esportiva cai nos países que sediam as Olimpíadas. O aumento é na chamada atividade passiva com relação ao esporte: formamos novos telespectadores, aumentamos a veiculação da cadeia produtora em torno do esporte e há uma mercantilização das práticas esportivas, mas a prática pela população diminui. Essa é uma questão para refletirmos. Nesse sentido, pensar o legado em termos de infraestrutura, é pensar no esporte de alto rendimento. A pista de atletismo que temos aqui na Faculdade de Educação Física e Dança da UFG, onde foram investidos aproximadamente seis milhões, é uma pista para que haja competições de alto nível. Mas e a nossa comunidade acadêmica? De que maneira podemos garantir o acesso a esse espaço para a prática de esporte e lazer? Eu vejo com dificuldade isso, porque por conta do alto investimento, os cuidados com a utilização demandam garantia de acesso para um conjunto menor de pessoas. Uma outra questão é relativa ao Sistema Nacional de Esporte, criado no começo do governo Lula, com a criação do Ministério do Esporte e a organização das conferências nacionais, quando a população brasileira participou e demandou a criação do sistema, que antecedeu a realização dos megaeventos esportivos no Brasil. Em 2006 realizamos a segunda Conferência Nacional do Esporte, tendo a criação do Sistema Nacional de Esporte como tema. Em 2007, com um grande evento começando, ouve um abandono dessa discussão. Penso então, que o nosso maior legado, que seria a criação e o funcionamento do Sistema Nacional de Esporte, não será consolidado, o que é a perda de uma grande oportunidade.

Júnior Vieira – Talvez, com o final do ciclo dos grandes eventos, nós retomemos essa discussão, porque ela é importante. Não adianta você ter o atleta de excelência lá na ponta se você não tem, dentro do seu próprio país, um programa estruturado e organizado dizendo como deve ser feita a formação de pessoas para trabalhar e vivenciar o esporte, não pensando somente no topo da pirâmide. O Canadá, por exemplo, tem um programa esportivo voltado para crianças a partir de seis anos, onde não vislumbram o topo da pirâmide. O programa esportivo canaden-

se tem um único objetivo: não ter uma população obesa, porque a obesidade dá um grande prejuízo para o governo e eles precisam trabalhar a prevenção e encontraram essa ferramenta no esporte. Eles não investem para formar atletas de ponta. José Guedes – Com essa mudança de governo, o

Júnior Vieira

O evento será no Brasil, no entanto, foi escolhida apenas uma capital para sediar as Olimpíadas, o Rio de Janeiro, que recebeu investimentos e, ainda assim, como foi dito, isso não aconteceu na cidade toda. Sendo assim, a única coisa que aconteceu no Brasil foi a passagem da tocha olímpica Ministério do Esporte só não foi extinto por causa das Olimpíadas. O meu medo é que seja, e que esse trabalho que avançamos de 2003 até agora, possa ir por água abaixo depois que esses grandes eventos esportivos no Brasil passarem. O esporte também é, infelizmente, sempre usado politicamente. O legado a ser deixado pelas Olimpíadas, além da parte física, deveria ser o de a população praticar mais esporte, mas isso já está comprovado que não acontece. Wilson Lino – Dentro do Ministério do Esporte, existe um grupo de trabalho organizando o Sistema Nacional do Esporte. A questão é que ele perdeu centralidade com esses megaeventos esportivos. Outro fenômeno que acontece é que há interesses por conta de quem administra o esporte no Brasil. Então, não sejamos ingênuos de acreditar que não existem forças que se beneficiam da forma pela qual o esporte se constitui hoje, já que essas forças são muito grandes e estão no Brasil há mais de 20 anos. Então, estamos observando um fenômeno dizendo que o esporte tem que ir para a escola, que a escola tem que formar atletas, que a ideia é colocar a escola como a base de formação da pirâmide para a formação do atleta. Isso é altamente excludente. As aulas de Educação Física deveriam propiciar a formação das pessoas para as práticas corporais, esportivas, lúdicas e expressivas. Esse discurso de base, de que a escola deve formar, causa um impacto na Educação Física, na formação inicial dos professores, nas políticas que nos fazem retroceder 20 anos. Os avanços conquistados para garantir teorias pedagógicas da Educação Física, que dão conta da complexidade que é a cultura corporal, acabam sofrendo com essa verticalização de uma ideia de que é o alto rendimento o único sentido que deve indicar as ações dos professores de Educação Física na escola. Um legado às avessas.

Mesa-redonda

tiveram grande visibilidade no cenário nacional e internacional, provavelmente teremos mais mobilizações. Porém, essas mobilizações políticas, a tomada da rua, não é de todo ruim, é um movimento compreensível. Do ponto de vista da segurança, da tecnologia e da qualificação dos quadros, não temo muito, mas acredito que ocorrerão mobilizações, principalmente porque as Olimpíadas acontecerão no período em que o impeachment da Dilma estará tomando um contorno final.


Extensão

8 Próximos passos Segundo Juliana Ramalho, já estão sendo agendadas reuniões com as secretarias municipal e estadual de educação para realizar um levantamento das escolas interessadas em participarem das ações. “A fase atual é prevista para terminar em dezembro de 2016, mas já temos um novo projeto escrito e concorrendo ao Edital Universal do CNPq, com previsão de ir até o final de 2019”, detalha a professora. Fotos: Adriana Silva

Criatividade no ensino Projeto traz alunos da rede pública de ensino para atividades práticas em laboratório da UFG Angélica Queiroz e Renato Rodrigues

M

omentos para aprender usando a criatividade. Assim são as edições do Espaço Maker de Experimentação em Climatologia, projeto de pesquisa desenvolvido pelo Instituto de Estudos Sócioambientais (Iesa). A ideia é estimular o conhecimento utilizando materiais simples para abordar de forma prática temas como a temperatura, a umidade do ar, a pressão e as perturbações atmosféricas.

A coordenadora do projeto, professora Juliana Ramalho Barros, explica que a proposta de criar o Espaço Maker surgiu no ano de 2011 ao perceber que havia uma dificuldade de muitos professores em ensinar assuntos relacionados ao clima em sala de aula. As atividades são monitoradas por seis alunos da graduação que atuam como bolsistas (Prolicen e voluntários) do projeto e orientam os estudantes das escolas da rede pública de ensino em suas atividades práticas no laboratório.

O objetivo principal do Espaço Maker, segundo Juliana Ramalho, é tratar o aprendizado de uma forma mais prática e mostrar que o conhecimento faz parte do dia a dia das pessoas e dos alunos. “Buscamos implantar o processo de aprendizado de uma forma mais agradável, mais prazerosa”,

explica. A professora lembra que o projeto também amplia a formação dos futuros professores de Geografia que atuarão nos ensinos fundamental e médio.

Juliana Ramalho avalia que a iniciativa é positiva para monitores e estudantes. “Além de aumentar o gosto do aluno pela ciência, também conseguimos aproximar esses alunos da universidade”. A pesquisadora prevê que o projeto seja ampliado por meio de parcerias com outras unidades acadêmicas e centros de pesquisa. “O Planetário UFG será nosso parceiro e vamos buscar outras formas de agregar ao projeto mais conhecimentos nas áreas de tecnologia da informação, eletrônica, física e até mesmo robótica”, estima.

A iniciativa faz parte de uma rede voltada para aprendizagem criativa, a Makers Educa, composta por educadores de diversas regiões do Brasil, sendo o projeto do Iesa, o único da região Centro-Oeste. Por causa da rede, o projeto conta também com a parceria com o Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Mídias Interativas (Media Lab/UFG) e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA. Periodicamente são realizados encontros da rede em São Paulo. “Nessas ocasiões, procuro levar algum dos bolsistas do projeto, para que eles possam ficar mais integrados e que sejam, de fato, multiplicadores

Iniciativa estimula gosto pela ciência e aproxima alunos da rede pública da Universidade dessa forma de mediar a aprendizagem, mesmo quando não estiverem mais na UFG”, relata Juliana Ramalho.

Incentivo à criatividade

Para Paulo Vitor Ferreira de Melo, professor de Geografia no Colégio Estadual Senador Onofre Quinan, que já acompanhou alunos em atividade no Espaço Maker, o envolvimento dos estudantes com o projeto reflete no aprendizado em sala de aula. “Aqui eles aprendem o conteúdo de uma forma prática, no sentido real e também são incentivados a usar a criatividade. Os alunos começaram a ter mais curiosidade, interesse e a perguntar mais. Este espaço criou isso neles”, comemora. O graduando em Geografia na UFG, Lucas Camilo, que é bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET-GEO) e trabalha como voluntário no projeto, acredita que o Espaço Maker tem a ca-

pacidade de tornar o conteúdo significativo para os alunos. “Passar o conteúdo para os alunos é uma dificuldade dos professores, pois nem sempre o conteúdo ganha sentido para o aluno”, observa o monitor, que reitera que a oportunidade de fazer com as próprias mãos proporciona significado e internalização do assunto nos alunos. Orientado por Lucas Camilo, o estudante do 1º ano do Ensino Médio do Colégio Onofre Quinan, Mário João Araújo Faustino, desenvolveu um simulador de tornados. “Utilizei um disco rígido de computador que tem um ímã e coloquei um outro ímã dentro de um recipiente plástico cheio de água para gerar a rotação”, explica o estudante. Com o movimento da água, o aluno demonstrou como são os efeitos dos tornados, formando um forte redemoinho. “Ele mesmo pesquisou o assunto em casa e trouxe essa novidade para mostrar aos colegas”, elogiou Lucas Camilo.


Luiz Felipe Fernandes

O levantamento, feito de julho a dezembro de 2015, foi realizado por acadêmicos do sexto período da Faculdade de Nutrição (Fanut) da UFG, na disciplina Educação Nutricional II, coordenada pela professora Maria Claret Costa Monteiro Hadler. A pesquisa de opinião, desenvolvida em parceria com o Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (Siass/UFG) e a Pró-Reitoria de Assuntos da Comunidade Universitária (Procom/UFG), faz parte do estudo Ambiente Virtual Como Ferramenta de Promoção da Alimentação Saudável, aprovado pelo Comitê de Ética da UFG. Os questionários foram enviados aos participantes por e-mail. Ao todo, 1.673 pessoas responderam às perguntas, a maioria (1.305) estudantes da UFG – universo que foi levado em consideração para a divulgação dos dados preliminares. Um dos resultados mostra que 61% deles não substituem o almoço ou o jantar por lanches. Mesmo que represente a maioria, o percentual não reflete uma situação ideal. “Significa que 39% dos estudantes fazem essa substituição, o que é um número significativo. E eles estão substituindo a refeição por que tipo de lanche?

A professora Maria Claret orienta que eventualmente é possível fazer um lanche procurando atingir as necessidades nutricionais, mas a refeição adequada – arroz, feijão, uma carne, um acompanhamento e uma salada – é mais rica em nutrientes. Um outro aspecto é o da socialização proporcionada por uma refeição feita em casa, na companhia de outras pessoas, o que nem sempre é possível durante um lanche feito às pressas.

Outro resultado da pesquisa que mostra essa preferência por refeições é o das lanchonetes mais frequentadas pelos estudantes: Estação Reuni (22,6%), Delícias do Câmpus (15,2%) e Centro de Convivência (9,5%), atualmente em reforma. A nutricionista da Procom, Gilciléia Inácio, lembra que os três espaços têm em comum o fato de não servirem apenas lanches. “São espaços mais planejados, que têm refeitório, que têm lugar para as pessoas sentarem”.

Critério de escolha

A pesquisa também revela os critérios de escolha do lanche. Para 39% dos estudantes, o sabor é o que conta, seguido do preço (28%). O fato de o alimento ser saudável aparece em terceiro lugar, levado em consideração por apenas 15% dos participantes. “Mas que sabor é esse que se busca?”, questiona Ariandeny. Uma das respostas pode ser o condicionamento ao doce ou ao salgado, que dificilmente alimentos in natura vão conseguir atingir.

Refeições mais realizadas Lanche da tarde – 59% Lanche da manhã – 36% Café da manhã – 32%

Consumo de bebidas Suco natural – 33% Refrigerantes – 23% Refresco industrializado – 16% Café – 12%

Critério de escolha do lanche Sabor – 39% Preço – 28% Saudável – 15% Hábito – 15% Outros – 3%

Avaliação dos preços dos lanches Caro – 63,6% Acessível – 29% Inacessível – 5,8% Barato – 1,5%

* Também contribuíram para a pesquisa o Siass/UFG, o Centro Acadêmico da Faculdade de Nutrição da UFG, o Diretório Central dos Estudantes (DCE/UFG), o Grêmio Estudantil do IFG Câmpus Goiânia, o Sindicato dos Docentes (Adufg), dos Trabalhadores TécnicoAdministrativos em Educação (Sint-Ifes-GO) e dos Servidores em Instituições Federais de Educação Tecnológica no Município de Goiânia (Sintef-GO).

Já 63,6% dos estudantes da UFG que participaram da pesquisa consideram os lanches desta instituição caros, contra 29% que os consideram acessíveis. Segundo Maria Claret, obviamente a escolha ideal seria por um alimento saudável, mas não adianta ser saudável se o estudante não tem condições de comprar. “Por isso é importante que a Universidade tenha opções de baixo custo para que esses alunos possam consumir, para que tenham condições de adquirir alimentos que tenham sabor e valor nutritivo, mas que também sejam acessíveis”.

Universidade mais saudável

A partir da Pesquisa de Opinião Lanches e Lanchonetes Institucionais, será possível desenvolver planos de intervenção com o objetivo de contribuir para a oferta de lanches mais saudáveis e, assim, promover a saúde

Objetivo da equipe que realizou a pesquisa é levar saúde ao ambiente institucional

Ilustraçõse: Freepik

Q

ue critérios você leva em consideração na hora de escolher um lanche? O preço é mais importante que o valor nutricional? Ou o que vale mesmo é o alimento ser gostoso e satisfazer seu paladar? Para conhecer estes e outros hábitos de estudantes, professores e servidores da Universidade Federal de Goiás (UFG) e do Instituto Federal de Goiás (IFG) e avaliar a qualidade dos lanches servidos nestas instituições, foi realizada a Pesquisa de Opinião Lanches e Lanchonetes Institucionais.

Como geralmente essa substituição não é pelo mesmo valor nutricional, isso se torna um fator de risco para a saúde”, explica Ariandeny Silva de Souza Furtado, nutricionista do Siass/IF Goiano/Goiás e uma das coordenadoras da pesquisa.

Resultados parciais da pesquisa realizada pela Fanut mostram hábitos e opiniões de 1.305 estudantes da UFG*.

Carlos Siqueira

Pesquisa da Faculdade de Nutrição revela hábitos alimentares da comunidade universitária e qualidade dos lanches na UFG

Universidade

Você tem fome de que?

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A pesquisa está disponível no site da Fanut

no ambiente institucional. A proposta é uma atuação intersetorial, envolvendo a Procom, a equipe de vigilância e promoção da saúde do Siass e as ações de educação nutricional, para que a comunidade universitária tenha autonomia e saiba fazer escolhas mais saudáveis.

Como utilizam espaços da Universidade, cantinas e lanchonetes precisam concorrer em licitações gerenciadas pelo Centro de Gestão do Espaço Físico (Cegef). O edital especifica uma série de exigências para que o estabelecimento comercial siga determinados padrões, incluindo espaço físico, preço dos produtos, cuidados com higiene e qualidade nutricional dos alimentos. Estes dois últimos são avaliados pelo Serviço de Nutrição da Procom. Entre as especificações estão cardápios com alimentos saudáveis, preferência por salgados assados e a disponibilidade de um nutricionista no quadro de funcionários para orientar a produção dos lanches e refeições.

Há ainda uma série de ações educativas promovidas pela Faculdade de Nutrição da UFG com o Siass/UFG e o Siass/IFGoiano/Goiás. Dentro da proposta Educação Alimentar e Nutricional na Web, alunos, professores e servidores da Universidade recebem por e-mail informações e vídeos com temas como diabetes, obesidade, alimentos diet e light, dieta sem glúten, entre outros. No ano passado também foi promovido o concurso Lanches Saudáveis de Baixo Custo e Práticos para Cantinas das Instituições Federais de Ensino Superior de Goiás, que selecionou e premiou receitas com potencial para serem oferecidas nas lanchonetes.


Amizade entre elas Princípio que se expandiu com o fortalecimento do feminismo nas A professora da Faculdade de Comuredes sociais, a sororidade vem para unir as mulheres em suas lutas nicação e Informação (FIC) da UFG, Angélica Queiroz

“F

oi em uma volta pra casa à noite, cheia de medo e insegurança que nasceu o movimento ‘Vamos juntas?’. No meio de uma praça escura em Porto Alegre, a jornalista Babi Souza teve uma inspiração e pensou que se as mulheres se unissem nas ruas se sentiriam mais seguras. Afinal, só as mulheres entendem o medo que as outras mulheres sentem na rua. (...) Em 24 horas, a página atingiu 5 mil curtidas. Em 48 horas, 10 mil curtidas. Em 6 dias, 50 mil curtidas. Em 2 semanas e meia, 100 mil curtidas. Em poucos dias o movimento deixou de falar apenas sobre como é importante as mulheres ‘irem juntas’ e passou a falar sobre a importância de ‘estarmos juntas’ e de colocarmos a sororidade em prática”.

A história do “Vamos juntas?”, movimento criado em 2015 nas redes sociais e que ficou conhecido nacionalmente, é um exemplo claro da prática da sororidade. Outra ideia que vem sendo executada em várias universidades do Brasil, incluindo a UFG, também vem de um feminismo altamente carregado de sororidade: estudantes estão depositando uma caixinha com absorventes com um recado: “deixe um se tiver sobrando, pegue um se precisar”. Mas, afinal, o que é sororidade?

A sororidade é um princípio, popularizado recentemente, especialmente nas redes sociais, que diz respeito a um pacto entre mulheres, reconhecidas entre si como “irmãs”, numa dimensão política e prática do feminismo contemporâneo. A professora da Faculdade de Ciências Sociais (FCS), Eliane Gonçalves, elucida que o termo sororidade é um aportuguesamento do inglês womanhood ou sisterhood que, por sua vez, é uma tentativa de criar uma terminologia própria às mulheres para definir a amizade, a aliança e a solidariedade de modo diferencial à amizade masculina. “A amizade é uma noção central para a reconstrução de modos de vida baseados em não-competitividade, tão comum na socialização das meninas e das mulheres”, explica.

Segundo Eliane Gonçalves, nas posições subalternizadas que todas as mulheres ocupam - em graus diferenciados quando intersectadas por raça, etnia, classe, geração, sexualidade e localização geográfica -, a amizade é um sentimento e uma prática que precisa ser aprendida “para desaprendermos o sexismo”, como prega a ativista feminista americana bell hooks. “A amizade entre mulheres não cai do céu, não funciona apenas por intenção, requer treino, prática, exercício diário e reflexividade”, destaca Eliane Gonçalves.

Para a pesquisadora da FCS, a amizade é o princípio que medeia a possibilidade da renovação, das formas de aprendizagem comuns e da confiança com consequente superação do medo e da insegurança. “O feminismo tem sido este movimento que demonstra vitalidade, criatividade e longevidade por sua capacidade de superar as barreiras impostas por uma educação sexista, racista e fóbica dos prazeres do corpo e das alegrias dos encontros”, afirma, lembrando que o feminismo não é um movimento bonzinho ou dócil.

Luciene Dias, explica que a sororidade é um conceito que vem depois da prática. “Vivemos em estado laico de direito, porque o princípio é masculino. Não é isso que a sororidade busca. O que ela busca é a construção de uma comunidade coletiva, existente pelo que ela é no cotidiano, existente pelos afetos”, explica. Segundo ela, o movimento feminista faz o que pode para manter esse princípio, buscando mudar comportamentos. A professora explica que, quando é criado um disque denúncia (Ligue 180) contra a violência doméstica, por exemplo, está havendo sororidade. E é o mesmo princípio que faz com que grupos de apoio sejam tão recorrentes nos movimentos feministas. “A ideia é essa: você é vulnerável, eu também sou. Mas juntas somos fortes”, elucida Luciene Dias.

Na universidade

Nos últimos anos as universidades passaram a receber um número mais relevante de mulheres. Luciene Dias explica que, quando essas mulheres passaram a se encontrar no mesmo espaço, elas se olharam, se identificaram e, mais do que isso, se solidarizaram, passando a criar um movimento

Ana Fortunato

Comportamento

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A ideia começou na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e já se espalhou por várias universidades do país. Na foto, banheiro da FCS, na UFG

SO.RO.RI.DA.DE Substantivo feminino “Sororidade” tem um significado semelhante ao de “fraternidade”. A principal diferença é a substituição de “frater” (irmão, em latim) por “soror” (irmã).

de consolidação e pertencimento a esse espaço acadêmico que antes era negado a elas. “Começam a surgir os movimentos de mulheres dentro da universidade para construir um espaço através da autoidentificação feminina. Isso é sororidade. É você olhar a outra pessoa, percebê-la como igual e passar a construir junto com ela um mundo melhor”, detalha a professora.

Com o aumento do número de mulheres nas universidades e o ativismo feminista nas redes sociais, o feminismo foi ganhando espaço: a persistência da violência contra a mulher foi tema da redação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), surgiram Coletivas Feministas em várias universidades pelo país e muitas mulheres começaram a fazer trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses sobre o feminismo, além de se organizarem para ajudar umas as outras.

Na UFG, a Coletiva Feminista Nonô, criada em 2015 por estudantes de Jornalismo, organiza reuniões para falar sobre feminismo na universidade, na sociedade e o machismo de todos os dias. Logo na segunda semana de existência da Coletiva, as estudantes organizaram uma oficina de cartazes, onde escreveram várias mensagens feministas e de combate ao machismo e os colaram no prédio da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC). “Isso serviu para nos impormos um pouco, mostrar que estamos ali presentes e também deu um conforto em outras


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Outra ação da Coletiva Feminista Nonô foi a doação de mais de 200 livros para a biblioteca do presídio feminino Consuelo Nasser. Algumas meninas da Coletiva estavam fazendo um trabalho no presídio e ficaram próximas das mulheres encarceradas. “Decidimos ajudar da forma que podíamos e foi uma experiência extremamente recompensadora”, relata a estudante.

paganda e conta que se descobriu feminista na UFG. “Percebi que o que minha avó e minha mãe fizeram e me ensinaram a vida inteira chamava feminismo, por meio de um Núcleo Livre. Desde então, passei a pesquisar mais sobre isso e militar”, relata. Para ela, a sororidade é fundamental dentro do ambiente acadêmico e foi por esse motivo que, em sua colação de grau, levantou um cartaz com os dizeres “Bela, Feminista e Formada”. “Entendo que se cheguei ali foi porque tive a influência de mulheres fundamentais. E é com elas e por todas elas que vou continuar lutando por liberdade, empoderamento e ocupação de espaços dentro e fora da universidade”, afirma Karoline Santos. mulheres cis e trans. “Sororidade é um conceito bastante importante, sobretudo porque a sociedade patriarcal constantemente coloca mulheres em papel de rivais e essa rivalidade é usada para a manutenção do status quo machista. Quanto mais unidas somos, melhor. Mas não podemos nos cegar por isso e deixar de lado as críticas e cobranças. Porque somos mulheres, mas ainda há racismo, LGBTfobia, elitismo e várias outras opressões que podem nos privilegiar ou oprimir”, lembra a estudante de Jornalismo e integrante da Coletiva Nonô, Elisama Ximenes.

Fotos: Coletiva Feminista Nonô

A militante Karoline Santos, acaba de se graduar em Publicidade e Pro-

Além do feminismo Luciene Dias explica que a sororidade é um princípio que nasceu no feminismo, mas vai muito além e pode ser aplicado em outros grupos como as populações LGBTTI, negra ou deficiente. “A sororidade conquistou um espaço incrível, porque é a partir dela que outras pessoas conseguem existir nos espaços públicos pelo que elas são. Sororidade é um princípio baseado na autoidentificação no outro e ação para que esse coletivo se projete. A sororidade não tem a pretensão de ser hegemônica, ela só existe”, detalha a pesquisadora da FIC. Para Eliane Gonçalves, a política da amizade pode e deve ser ampliada a outros grupos em situação “minoritarizada”. Segundo a pesquisadora, alianças entre pessoas e grupos socialmente marcados tendem a forta-

Comportamento

mulheres que visitavam o prédio e elogiavam a presença. Eram mensagens de sororidade, de denúncia e também de esperança”, detalha Verônica Mendes, integrante da Coletiva.

lecer a ação política em outros níveis. “A amizade é um elo importante para a aprendizagem da alteridade; homens e mulheres tenderiam a se beneficiar muito para crescimento pessoal com amizades mútuas, reunindo tanto quanto possível diferenças produzidas socialmente. Penso que a amizade é uma das manifestações do amor, é amor em uma forma poderosa que transcende as afinidades”, opina a professora da FCS.

Críticas

A prática da sororidade, no entanto, ainda é alvo de muitas críticas, inclusive dentro do próprio movimento feminista, principalmente por conta das relações de poder que ainda existem entre as mulheres no que diz respeito às diferenças raciais, sociais, de orientação sexual, ou ainda entre

Segundo Elisama Ximenes, a Coletiva Nonô tenta quebrar essas barreiras e assumir uma luta pela igualdade, mas sempre na diferença, no respeito à diferença e aos protagonismos e luga-

res de fala. A colega Verônica Mendes concorda. Para ela, é preciso equilibrar essas relações de privilégio. “Nós precisamos ser críticas e estar preparadas pra ouvir críticas e respeitar o lugar de fala. Não adianta dizer que combatemos o racismo e não dar protagonismo para as mulheres negras, por exemplo. Temos que ser interseccionais nas nossas ações, porque feminismo é política e não só discurso. Quanto maior a representatividade, mais justo é o feminismo”, explica. A professora Luciene Dias concorda com as críticas e afirma que as mulheres negras, por exemplo, não costumam se enxergar na sororidade. Segundo ela, o princípio poderia chegar ao movimento negro, mas isso deveria partir das mulheres brancas. “A lógica da sororidade é essa: uma sobe e puxa a outra”, conclui.


A serviço da Universidade

Novos servidores passam a integrar o quadro funcional da instituição, somando esforços ao quadro de técnico-administrativos

Luiz Felipe Fernandes

S

e o que move qualquer organização são os seus funcionários, não é exagero dizer que em uma universidade o material humano é a sua essência. Como integrantes da comunidade universitária, servidores técnico-administrativos são responsáveis por todo o processo administrativo e burocrático que garante o pleno funcionamento da instituição. Na Universidade Federal de Goiás (UFG), 155 novos servidores aprovados nos últimos concursos passaram a fazer parte dessa força de trabalho, distribuídos nas mais diferentes funções e unidades, em Goiânia e nas regionais do interior.

O radialista Cloves Henrique Batista da Rocha é um desses novos servidores. Depois de toda uma carreira construída na iniciativa privada, passando por várias emissoras de rádio como locutor, produtor e coordenador, ele foi surpreendido pela demissão. Como o concurso público da UFG oferecia vaga em sua área, decidiu participar da seleção. Aprovado, tomou posse na Rádio Universitária como técnico em laboratório de áudio em abril deste ano. “É um sonho estar aqui na UFG, parece que não acordei ainda”, comemora. Cloves diz que um dos diferenciais da Universidade foi o tratamento recebido desde que começou a trabalhar.

“Sou muito bem tratado pessoalmente e valorizado em meus conhecimentos como profissional”. Por isso ele diz que quer continuar estudando para buscar crescimento pessoal e para a instituição, até porque seus planos são de fazer carreira na UFG. A estabilidade do serviço público é outra vantagem apontada pelo radialista.

do Departamento do Pessoal desde novembro de 2015, ele conta que ficou muito feliz ao ser aprovado, já que foi o primeiro concurso para o qual se preparou previamente. Luã destaca o comprometimento dos servidores, do órgão em que trabalha e de toda a instituição com a administração pública. Apesar do grande volume de trabalho, ele afir-

Fotos: Adriana Silva

Universidade

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ma que o ambiente é harmônico e acolhedor. “Estou desempenhando um trabalho que me proporciona um entendimento aprofundado dos princípios e valores que regem o serviço público, bem como dos direitos e deveres dos servidores”. Outro ponto positivo é o Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação, que traz incentivos à qualificação.

Integração

Algumas dessas experiências foram compartilhadas na última quinzena de maio, quando os novos servidores participaram do primeiro encontro do Curso Introdutório 2016 – novo formato da ação de integração promovida pelo Departamento de Desenvolvimento de Recursos Humanos (DDRH). Reunidos no Centro de Cultura e Eventos Professor Ricardo Freua Bufáiçal, no Câmpus Samambaia, eles receberam informações sobre a estrutura da UFG e alguns serviços oferecidos, como cadastro na biblioteca no Sistema de Bibliotecas, atendimento nutricional e atividades esportivas. Divididos em grupos, os servidores puderam trocar experiências sobre os primeiros meses no serviço público, suas impressões e expectativas. Para o assistente em administração Luã Lírio, a segurança e a estabilidade, além do prestígio da UFG, foram os fatores que mais o atraíram. Lotado na Seção de Cadastro e Lotação

Estou desempenhando um trabalho que me proporciona um entendimento aprofundado dos princípios e valores que regem o serviço público, bem como dos direitos e deveres dos servidores Luã Lírio, assistente em administração

Recepção aos novos servidores ...COMO ESTÁ

COMO ERA...

Ainda em fase de implantação, o Curso Introdutório é marcado pela utilização de mídias diversificadas e reformulação da metodologia dos encontros, alinhados a valores como autonomia, acessibilidade, formação continuada, compromisso e humanização. A previsão é de que as atividades totalizem 120 horas ao longo de alguns meses, contemplando tanto encontros presenciais quanto módulos de Educação a Distância (EaD).

Desde 2002 era realizado o Seminário de Integração, totalizando 20 horas em uma semana, disponível duas vezes ao ano na Regional Goiânia e a cada dois anos nas demais Regionais. Foco na exposição de conteúdos relevantes ao servidor ingressante, por meio de palestras com representantes da UFG, sobre temas como o funcionamento da Universidade, órgãos específicos, plano de carreira, estágio probatório e avaliação de desempenho.


13 Aos anseios e à força de vontade de quem está entrando nos quadros da UFG soma-se a experiência de quem dedicou – e ainda dedica – a maior parte da vida à Universidade. Um exemplo é a servidora Juara Mendes Nogueira, lotada no Departamento de Desenvolvimento de Recursos Humanos (DDRH). Ela compartilhou sua história com os novos servidores durante o primeiro encontro do Curso Introdutório 2016. Juara entrou na Universidade por concurso público em outubro de 1975, no cargo de escrevente datilógrafa. Em seguida foi aprovada em uma nova seleção para o cargo de agente administrativo. Como era um concurso válido para qualquer órgão federal, decidiu continuar na UFG. Posteriormente, por meio de um concurso interno – que hoje não existe mais – ascendeu ao cargo de econo-

Universidade

Uma vida dedicada à UFG

mista, de nível superior. “Desenvolvo minhas atividades dentro da legislação específica e faço o que posso para contribuir com o servidor no esclarecimento de dúvidas, orientação quanto à sua carreira e para facilitar o andamento dos processos”.

Em 41 anos de serviços prestados à instituição, Juara acompanhou diversas mudanças. Ela destaca os avanços na gestão administrativa – criação do DDRH e da Prodirh, com a capacitação do servidor e o Plano de Carreira; no aspecto físico – construção de prédios, salas de aula, laboratórios, aquisição de equipamentos; e na gestão acadêmica – criação de novos cursos, aumento de vagas, políticas afirmativas, entre outros. “Além da minha alegria, satisfação e gratidão em ser servidora da UFG, gosto do que eu faço e tenho um bom relacionamento não só com a minha equipe, mas também com a Universidade”, garante.

Além da minha alegria, satisfação e gratidão em ser servidora da UFG, gosto do que eu faço e tenho um bom relacionamento com a minha equipe Juara Mendes Nogueira, economista

Capacitação de cara nova Este ano o Departamento de Desenvolvimento de Recursos Humanos (DDRH) implementa o Curso Introdutório 2016, voltado para os servidores que ingressaram nos últimos concursos. A proposta é avançar em relação ao Seminário de Integração que ocorria desde 2002, valendo-se da experiência da Coordenação de Capacitação e Desenvolvimento (CCD) e das análises dos questionários de avaliação aplicados em eventos anteriores.

A UFG é uma segunda casa, uma segunda família, porque passei a maior parte da minha vida aqui

O diretor do DDRH, Márcio Medeiros Oliveira, explica que para cada foco de crítica identificado foi desenvolvida uma alternativa. Por causa da dificuldade de concentrar todas as atividades em uma única semana, por exemplo, o novo formato vai dis-

ponibilizar o conteúdo nos módulos de Educação a Distância (EaD), permitindo autonomia no andamento do curso e revisão quando necessário. Diante da reclamação de que faltavam dinâmicas de integração entre os participantes, o novo curso passa a adotar metodologias que privilegiam esse envolvimento.

Os módulos EaD estão sendo estruturados pelo Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Mídias Interativas (Media Lab/ UFG). A expectativa é oferecer suporte para diversos jogos, vídeos e demais atividades interativas. De acordo com Márcio Medeiros, inicialmente a plataforma disponibilizará os módulos do Curso Introdutório, com possibilidade de incluir outros cursos posteriormente.

Armando Honório da Silva, arquivista

Arquivo vivo Na UFG desde 1967 – apenas sete anos depois que a Universidade foi criada –, Armando Honório da Silva é um arquivo vivo da própria instituição. Entrou como porteiro, passou para agente administrativo e, trabalhando como arquivista, foi beneficiado com a lei que regulamentou a atividade. Chegou a se aposentar em 1994, mas continua na ativa no campo da pesquisa em documentos históricos da UFG e do estado de Goiás. É fonte certa de professores, pesquisadores e dos colegas servidores que necessitam de dados da história da Universidade. É de Armando, por exemplo, o feito de localizar documentos relacionados à doação do monumento ao

Bandeirante, que fica na Avenida Anhanguera, centro de Goiânia. A documentação ficou perdida durante 22 anos. “Dei uma de investigador, fui atrás de todos os professores de história que eu conhecia, até que encontrei (os documentos) com uma professora que havia recebido o acervo”, conta.

Prestes a completar 50 anos na UFG, Armando também carrega as memórias da transformação da Universidade, incluindo o período da ditadura militar. Durante todo esse tempo, acompanhou a formação de estudantes e estabeleceu vínculos com os professores e os colegas que passaram ou que ainda estão na instituição. “A UFG é uma segunda casa, uma segunda família, porque passei a maior parte da minha vida aqui”.

É um sonho estar aqui na UFG. Sou muito bem tratado pessoalmente e valorizado em meus conhecimentos como profissional Cloves Henrique Batista, técnico em laboratório de áudio


Universidade

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Carlos Siqueira

metodologias, os professores vem recebendo treinamentos em oficinas de capacitação, o que, segundo Maria Auxiliadora, os tem motivado, na medida em que passam a conhecer melhor o método.

Integração dos conhecimentos e mais contato com a realidade do SUS estão entre as mudanças propostas Renato Rodrigues e Kharen Stecca

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esde a publicação da Lei que institui o Programa Mais Médicos (nº 12.871, 22/10/2013), foram criados novos cursos de Medicina no país, dentre eles, na UFG, o da Regional Jataí e a previsão para a criação na Regional Catalão, que aguarda a publicação da autorização no Diário Oficial. Uma das condições para criação desses cursos é o uso de metodologias ativas. Já os cursos existentes têm um prazo até 2018 para se adequarem às novas diretrizes curriculares nacionais (DCNs) para os cursos de Medicina, de junho de 2014.

Um dos métodos utilizados, em especial na Regional Catalão onde o curso está ainda em fase de implantação, é o Aprendizado Baseado em Problemas (Problem-Based Learning – PBL), que trabalha com problemas propostos dentro dos temas ensinados. “A intenção é trabalhar o conhecimento de forma integrada”, afirma a Assessora da Reitoria e responsável pela implantação dos novos cursos de Medicina, Sandramara Matias Chaves. Os currículos disciplinares são substituídos pelos eixos temáticos ou módulos e a ideia é englobar outros conhecimentos, como Sociologia e Filosofia, na formação dos médicos, com o professor assumindo a postura de tutor.

Os próprios professores constroem no PBL casos clínicos baseados nos objetivos e conhecimentos previstos para cada período. “O futuro médico precisa entender o processo saúde/ doença contextualizado, não apenas estudar a doença de forma isolada”, ressalta Sandramara Chaves. Na metodologia da problematização, as discussões são desenvolvidas a partir de casos reais vivenciados pelos estudantes nos cenários de prática. Esse também é outro diferencial previsto nas DCNs e favorecido pelas metodologias ativas: os estudantes começam a ter contato com a realidade da sua profissão desde o início do curso, na rede de atenção

básica, vivenciando e aprendendo com a realidade do Sistema Único de Saúde (SUS) .

Outra metodologia ativa que vem ganhando espaço nos cursos de Medicina é a Aprendizagem Baseada em Equipes (Team Based Learning - TBL), uma das metodologias utilizada no curso de Medicina da Regional Goiânia. Segundo a coordenadora do curso, Maria Auxiliadora Carmo Moreira, o curso coloca em prática a problematização com utilização de casos clínicos, mas o PBL é de mais difícil implantação em cursos antigos, porque direciona toda a organização curricular, o que exigiria uma reforma radical. Em Jataí, segundo o coordenador Ewerson Jacobini, o PBL e a tutoria também estão presentes, mas o currículo utiliza todas as formas de metodologias que promovem o aprendizado colaborativo (TBL). No TBL o conhecimento é construído em grupos de aprendizagem, estimulando o desenvolvimento de diferentes habilidades requeridas do médico ao exercer a sua profissão e contribuindo para a formação do médico generalista, em acordo com o previsto nas novas diretrizes curriculares. O pressuposto é de que esse profissional não seja formado estritamente voltado para as questões biológicas, mas que sejam consideradas as diferentes dimensões que envolvem o processo saúde/doença, como as questões sociológicas, psicológicas, econômicas e sociais, que influenciam e muitas vezes determinam esse processo. Isso significa compreender o ser humano na sua totalidade, buscando uma visão mais coerente em relação as necessidades de saúde da população. O Pró-reitor de Graduação da UFG, Luiz Mello, explica que o desafio atual é repensar a sala de aula não só na Medicina, mas em todos os cursos. “Tanto o professor quanto o estudante precisam mudar a perspectiva de que o conhecimento vem apenas do professor. O mundo mudou e o modelo de aula tradicional expositi-

va já não é mais possível. O professor é fundamental, mas outros sujeitos precisam entrar na formação do estudante”, afirma o Pró-reitor.

A principal intenção com a mudança é qualificar o médico para lidar com a realidade da rede pública de saúde, sem perder de vista a qualidade da formação. Os cursos já existentes devem se adequar até 2018, reformulando os seus projetos pedagógicos. Entre as mudanças, 30% da carga horária do internato médico será desenvolvida na rede de serviços básicos de atendimento do SUS e 70% envolve outras áreas da formação médica. O Programa Mais Médicos informa em sua página que 80% dos problemas de saúde do cidadão são solucionados na Saúde Básica, o que justifica o foco na formação.

Vantagens e desvantagens

Segundo a coordenadora do curso de Medicina em Goiânia, Maria Auxiliadora Moreira, desde as mudanças curriculares de 2003, as metodologias ativas vêm sendo implantadas, mas ganharam mais ênfase nas modificações propostas a partir das Diretrizes de 2014. Segundo ela, a utilização do método apresenta inúmeras vantagens, que passam a ter uma participação ativa no processo ensino-aprendizagem. No entanto, a coordenadora ressalta que a demanda de trabalho do professor é muito maior. “Elaborar um seminário em TBL é bem mais complicado do que uma aula expositiva, o que gera um pouco de resistência por parte de alguns professores”, exemplifica. Para vencer essa dificuldade, desde o início da implementação das novas

Na Regional Catalão o curso de Medicina ainda está com seu projeto pedagógico em fase de elaboração. O Chefe da Unidade Acadêmica Especial de Biotecnologia, a qual o curso será vinculado, Geraldo Sadoyama, ressalta que a comissão para implementação do curso, da qual ele é membro, é composta por docentes que têm experiência com metodologias ativas e profissionais médicos que realizaram o curso de graduação de Medicina dentro dessas metodologias. Segundo ele existem escolas médicas de renome internacional como Harward, Mac Master, New York University, Maastrich que já adotam, há algumas década,s as metodologias ativas de ensino. “Não se trata de algo experimental. mas de uma adequação ao novo perfil de aluno. O jovem desta geração é bastante crítico, pró-ativo, interativo e autodidata, então estamos também adequando a universidade às expectativas da geração da conectividade que o mundo globalizado exige e solicita”.

Programa Mais Médicos Fonte: www.maismedicos.gov.br

Metodologia inova formação em Medicina

O coordenador do curso na Regional Jataí, Ewerson Jacobini, também ressalta que houve problemas iniciais por desconhecimento das próprias metodologias. “A grande maioria dos professores foram graduados na metodologia antiga. Para solucionar a questão fazemos um intensivo trabalho de atualização e aprendizado dessas metodologias, com atores importantes nesse contexto, oriundos de outras universidades”. Ewerton Jacobini também aponta dificuldades para os alunos que, segundo ele, estranham a nova forma de aprendizagem, devido a maneira como chegam à graduação. “Tanto o Ensino Médio como o cursinho são ministrados em metodologias antigas, centradas no professor. De repente, os alunos são imbuídos a uma nova maneira de pensar e agir, trazendo grandes preocupações. Mas com o passar do tempo começam a perceber a diferença de serem os atores principais ao invés de apenas expectadores do conhecimento que determinado professor tem”, explica.


15 CAMINHOS DA PESQUISA

Universidade

ARTIGO

Inovação e competitividade ainda são desafios

Carlos Siqueira

Adriana Silva

Cimei Borges Teixeira (CNPq)

Luciene Dias*

Reflexões para nossas frentes antirracistas

P

rotagonizamos o que pode ser categorizado como uma verdadeira batalha pela conquista do respeito às diferenças. Por um lado, temos que manter fortes nossas frentes de combate ao racismo e aos preconceitos. Por outro, queremos construir espaços e condições de acesso à cidadania. Assim, é fundamental desvincular definitivamente as noções de diferença e desigualdade. Mais que isso, é importante compreender como e quando o traço estrutural das relações sociais propostas está sustentado na diferença.

Uma das perspectivas apontadas pelos feminismos negros é que a diferença não pode ser meramente comparativa. Isso equivale dizer que o preto não está para o branco, o feminismo não está para o machismo e o ocidente não está para o oriente. São conceitos diferentes e que falam de projetos de dominação, seja de uma raça sobre outra, de um gênero sobre outro, de uma nação sobre outra. A diferença é social e histórica. Ela é marcada pelo sistema político, ideológico, social e simbólico. O Brasil é um país racista e machista. A falta de equidade na representação política, no mercado de trabalho e nos espaços de poder, somada ao aumento na taxa de homicídio de mulheres negras no Brasil, nos impulsiona às ações. De acordo com o último Mapa da Violência, houve um crescimento na taxa de homicídio de mulheres no Brasil de 3,9% para 4,8% entre 2007 e 2015. O exercício de leitura dos números se complexifica quando notamos que enquanto a taxa de homicídio de mulheres brancas subiu de 3,1% para 3,2%, esse número entre as mulheres negras subiu de 4,4% para 5,4% no mesmo período.

Poderíamos dizer que essa disparidade se dá porque os aparelhos de vigilância não chegam onde deveriam chegar. Mas quem propõe, elabora e administra as Delegacias da Mulher, os sistemas de ensino, lazer, cultura e saúde são exatamente as pessoas que representam o pensamento hegemônico nacional. Chega a ser contraditório porque quem sabe das condições femininas e de negritude são as pessoas negras e as mulheres. Quem sabe das nossas especificidades, senão nós mesmas? Uma vez tendo compreendido como opera o racismo e o machismo, temos que tomar a “posição de sujeito”, temos que “tomar a palavra” e

transformar a igualdade negativa imposta pela escravização que subjugou toda pessoa negra no Brasil em qualidade positiva: a igualdade na construção das relações sociais. Ou seja, aproximar pessoas, resgatar trajetórias silenciadas pela escravidão e ressignificar relações sociais para construir equidade. Em um movimento de resiliência. Se vivemos a falta de alcance aos direitos civis já elaborados, uma das grandes descobertas é que o problema está nas leis e não nas pessoas. Por isso, a necessidade da formação de linhas de frente para a elaboração de políticas afirmativas. Mudar a cara de quem agencia a construção de políticas é um passo sem o qual ficam praticamente inviáveis elaborações que contemplem a diferença. Um corpo docente eminentemente branco não pode trazer para o campo das ações, políticas que de fato contemplem as necessidades de aprendizagem de estudantes negros e negras. Uma gestão, política ou institucional, não pode inovar com uma equipe eminentemente masculina e heteronormativa na luta contra o machismo e o sexismo.

Para elaborarmos políticas afirmativas consistentes, temos que de fato ocupar a linha de frente. Não podemos ter o protagonismo de um grupo homogêneo e hegemônico. A linguagem, outra perspectiva dos feminismos negros, é também um lugar de combate e, por ela, podemos reescrever, reconciliar e renovar nossas relações sociais. Não podemos manter uma representação majoritariamente branca em um país majoritariamente negro, uma representação masculina em um país de mulheres, uniforme em uma conjuntura plural. A diferença positivada na mudança das relações sociais convergentes para o respeito e a equidade pode, de fato, ser uma boa campanha. As ações afirmativas começam no momento em que rompemos a barreira do silenciamento imposto pela subalternidade. *Professora da Faculdade de Informação e Comunicação e Coordenadora de Ações Afirmativas da UFG

O Jornal UFG não endossa as opiniões emitidas nos artigos, por serem de inteira responsabilidade de seus autores.

Luiz Felipe Fernandes

A

cada ano o Brasil atinge patamares mais elevados de produção científica. Dados do Portal Scimago, que baseia seus levantamentos na plataforma Scopus, mostram o país em 13º lugar no ranking mundial de trabalhos acadêmicos publicados em periódicos especializados. Em 1996, o Brasil ocupava a 21ª posição.

Mas por que, apesar desse crescimento, o Brasil continua caindo nos rankings de competitividade e inovação? “É claro que competitividade envolve outros fatores, como estrutura e educação, mas a ciência responde por uma fatia significativa dessa área”, pontua o coordenador do Programa de Capacitação Tecnológica e Competitividade do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Cimei Borges Teixeira. A palestra de Cimei Borges encerrou as atividades do semestre do Programa de Formação em Inovação da UFG. No evento, ele abordou o modelo de financiamento da pesquisa científica no Brasil, em grande parte proveniente do setor público. Os pesquisadores estão vinculados ao governo, à academia ou a outros órgãos públicos, situação inversa em países como China, Estados Unidos, Cingapura e França. “Nestes países o doutor trabalha numa empresa privada, o doutor marca cartão de ponto”, enfatiza. Para o coordenador, não adianta copiar os modelos desses países. O Brasil precisa encontrar uma fórmula própria. Um dos caminhos é a formação voltada para o empreendedorismo. “Isso não quer dizer que vamos parar de fazer ciência”, ressalta.

Pesquisador na empresa

Como exemplos bem-sucedidos, Cimei Borges citou programas e projetos implantados recentemente pelo CNPq. Um deles foi o Programa de Formação de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (Rhae – Pesquisador na Empresa), encerrado em 2013. O programa inseriu mestres e doutores em empresas privadas, financiados com bolsas. O objetivo era promover o desenvolvimento ou melhoria de um produto ou processo, aliado à possibilidade de desenvolvimento de atividades de pesquisa. Outro programa é o Doutorado na Indústria, que já passou por uma experiência piloto. Também financiado com bolsa, o pesquisador desenvolve sua tese de doutorado a partir de um problema definido pela indústria. Além disso, uma parceria com o Sebrae capacitou agentes locais de inovação para levar a cultura da inovação para micro e pequenas empresas.


16 Extensão

Humanização A brinquedoteca proporciona um atendimento mais humanizado à criança e sua família. Crianças que se veem em situação de internação ficam submetidas a sentimentos de estresse e confusão, podendo interpretar isso como uma forma de punição.

Brinquedoteca Hospitalar

Segundo Juliana Martins, o brincar ameniza esses traumas, dando à criança uma nova perspectiva do hospital e ajudando-a a se preparar para vivenciar situações com as quais não tem familiaridade. A brincadeira faz parte do processo de recuperação, que é uma modificação da rotina da criança.

Aos alunos de Enfermagem e Psicologia, o projeto “possibilita [...]

uma aproximação com os cenários de prática e contato direto com a criança, família e equipe de saúde, permitindo que o aluno relacione as atividades de extensão, pesquisa e ensino”, explica a coordenadora. Além dos turnos na brinquedoteca, os alunos participam de grupos de estudos – juntamente com alunos de Pedagogia – sobre a temática do brincar e a infância. O caráter interdisciplinar do projeto possibilita a integração, a troca de experiências e o fortalecimento do trabalho em equipe. A brinquedoteca hospitalar atua, também, como uma facilitadora da comunicação entre profissionais da saúde, as crianças e seus familiares, pois propicia tranquilidade, descontração, descanso e aumento da segurança.

Diversão é o melhor remédio Em Catalão, projeto estimula ato de brincar como método terapêutico para crianças internadas Giovanna Beltrão

O

O projeto surgiu de uma disciplina do curso de Enfermagem, na qual o brincar é trabalhado como um instrumento fundamental no cuidar da criança hospitalizada. De acordo com a professora Juliana Martins de Souza, coordenadora do projeto, “a instituição contava com um espaço destinado à brinquedoteca e valorizava a importância do brincar, mas não tinha recursos humanos e materiais para mantê-la”. Em outubro de 2014, os alunos de Enfermagem arrecadaram brinquedos e materiais para decoração do ambiente da brinquedoteca da Santa Casa.

A ação foi registrada junto aos projetos de extensão da UFG com o intuito de estabelecer uma consistência na realização das atividades. Desde então, as crianças internadas são atendidas todos os dias – das 09 às 12h e das 14 às 17h, inclusive em finais de semana e feriados.

Predominam, entre as crianças internadas, problemas respiratórios (gripes, pneumonias, asma e bronquite), diarreia, pós-cirúrgicos (apendectomia, herniotomia, fraturas de membros), acidentes de trânsito, acidentes domésticos e patologias diversas. Nos últimos meses, notou-se, também, um aumento nos casos de dengue e H1N1.

Atividades Na brinquedoteca, há oficinas de desenho, pintura e contação de histórias; além de jogos como boliche, bola, dominó, quebra-cabeça e brinquedos de encaixar. As crianças podem brincar com carrinhos e bonecas e têm, também, momentos com músicas e filmes infantis.

As atividades recreativas são realizadas no leito do paciente ou no espaço da brinquedoteca, levando-se em consideração a vontade e as limitações dos pacientes. Segundo a coordenadora do projeto, logo é possível notar a melhoria na aceitação do ambiente hospitalar, no vínculo e afetividade tanto da criança (paciente) quanto da família (acompanhante). Fotos: Lilian Mariano

processo de internação infantil pode gerar ansiedade, angústia e tensões tanto na criança hospitalizada quanto em seus familiares. Dessa forma, o ato de brincar no ambiente hospitalar é visto como um método terapêutico que possibilita à criança expressar seus sentimentos e emoções. Diante dessa realidade, professores e alunos dos cursos de Enfermagem, Psicologia e Pedagogia da Regional Catalão da Universidade Federal de Goiás (UFG) criaram o projeto de extensão Brinquedoteca Hospitalar: atuação interdisciplinar, que mantém uma brinquedoteca em funcionamento diário na Santa Casa de Misericórdia do município.

Desde o início do projeto, já foram atendidas aproximadamente 600 crianças. Inicialmente, as atividades eram destinadas a pacientes da unidade de internação pediátrica do Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2016, no entanto, elas passaram a ocorrer, também, no Pronto Socorro e na unidade de atendimento particular e de convênios.

Projeto de extensão complementa a educação de estudantes de Enfermagem, Psicologia e Pedagogia

Jornal ufg 80  
Jornal ufg 80  

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO X – Nº 80– JULHO DE 2016

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