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JORNAL ANO IV – Nº 74 OUTUBRO 2015

Carlos Siqueira/Camila Caetano

Fazendo a luz trabalhar Em seu ano internacional e tema do Conpeex 2015, a luz sempre impactou a ciência. Na UFG, professores do Instituto de Física, utilizam fótons em experimento para criar protocolo de criptografia mais seguro p. 8

Em entrevista, especialista belga, Sara Willems, fala sobre equidade nos sistemas de saúde p.3

Pesquisa confirma potencial de microalga de água doce para a produção de biocombustível p.9

Regional Jataí completa 35 anos e celebra conquistas e expansão com inauguração de obras p.10 e 11


Opinião

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EDITORIAL

Luz, ciência e vida na universidade Michele Martins*

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m 2015 celebramos o Ano Internacional da Luz, inspiração temática para a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e para o Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão da UFG (Conpeex). A escolha desse tema é uma forma de chamar a atenção para aspectos importantes do conhecimento e do desenvolvimento humano produzidos na área da Física.

Nessa área, a UFG também apresenta a sua contribuição: pesquisadores do Instituto de Física, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) realizam experimento que utiliza a luz para demonstrar um protocolo de criptografia quântica com 18 vezes mais caracteres do que os utilizados em mecanismos de segurança, como as chaves dos cofres bancários mais seguros do mundo. São estudos como esse que alinham as pesquisas de base teórica às de aplicação prática.

Com o tema Luz, Ciência e Vida, o Conpeex, que será realizado em outubro, colocará em evidência a produção científica e cultural da UFG. Esse é o maior evento acadêmico da instituição. Em sua décima segunda edição, o Conpeex registrou 6.000 inscritos, 79 minicursos voltados para a comunidade interna e externa, além de 1.800 trabalhos que serão apresentados. Reafirmando, assim, a sua importância para a divulgação científica e a integração com a comunidade.

Parte dessa produção científica da UFG pode ser conferida também nas matérias sobre desta edição do Jornal UFG. São pesquisas que buscam, sobretudo, oferecer à sociedade um

conhecimento que faça diferença nas vidas das pessoas e que alcançam grande repercussão. Como é o caso do trabalho desenvolvido pela equipe do Laboratório de Métodos de Extração e Separação (Lames) do Instituto de Química (IQ). Neste ano, as pesquisas do Lames foram destaque, inclusive, na mídia nacional, que revelou os estudos na área de biocombustíveis aqui produzidos. Os recursos naturais também servem de base para outras pesquisas, tanto da área da saúde, quanto do paisagismo. Testes desenvolvidos no Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) comprovaram que os inseticidas produzidos com base em substâncias de plantas têm eficácia equivalente aos produtos químicos atualmente comercializados, mas com a vantagem de produzir menor impacto ambiental.

E, em época de jabuticaba, que tal conhecermos uma forma de aproveitar até a casca e as sementes dessa saborosa fruta em receitas nutritivas? É o que propõe os estudos promovidos pelo curso de Engenharia de Alimentos da Escola de Agronomia, que comprovam ser possível aproveitar cascas, caroços e sementes de frutas e hortaliças em receitas deliciosas e nutritivas, como opção para substituir ingredientes comuns de receitas já existentes. Também na Escola de Agronomia conhecemos o estudo dedicado a examinar espécies do Cerrado e a viabilidade de seus cultivos para fins paisagísticos, tema ainda pouco estudado no Brasil. Confira esses e outros assuntos nesta edição do Jornal UFG. Boa leitura. *Coordenadora de Jornalismo da Ascom

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JORNAL

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO IX – Nº 74 – OUTUBRO DE 2015 www.jornalufgonline.ufg.br – Universidade – Reitor: Orlando Afonso Valle do Amaral; Vice-reitor: Manoel Rodrigues Chaves; Pró-reitor de Graduação: Luiz Mello de Almeida Neto; Pró-reitor de Pós-Graduação: José Alexandre Felizola Diniz Filho; Pró-reitora de Pesquisa e Inovação: Maria Clorinda Soares Fioravanti; Pró-reitora de Extensão e Cultura: Giselle Ferreira Ottoni Cândido; Pró-reitor de Administração e Finanças: Carlito Lariucci; Pró-reitor de Desenvolvimento Institucional e Recursos Humanos: Geci José Pereira da Silva; Pró-reitor de Assuntos da Comunidade Universitária: Elson Ferreira de Morais. – Jornal UFG – Coordenadora de Jornalismo: Michele Martins; Editora: Angélica Queiroz; Conselho editorial: Angelita Pereira de Lima, Cleomar Rocha, Luís Maurício Bini, Pablo Fabião Lisboa, Reinaldo Gonçalves Nogueira e Silvana Coleta Santos Pereira; Suplente: Mariana Pires de Campos Telles; Projeto gráfico: Reuben Lago; Editoração: Reuben Lago e Michel Gomes; Fotografia: Carlos Siqueira; Reportagem: Angélica Queiroz, Serena Veloso e Silvânia de Cássia Lima; Revisão: Fabiene Batista e Bruna Tavares; Estagiários: Natasha Hoshino (Design Gráfico), Lorena de Sousa, Wanessa Olímpio e Anna Carolina Mendes (Jornalismo); Bolsistas: Camila Caetano e Adriana Silva (Fotografia), Italo Wolff e Michel Gomes (Jornalismo); Impressão: Centro Editorial e Gráfico (Cegraf ) da UFG; Tiragem: 7.000 exemplares ASCOM Reitoria da UFG – Câmpus Samambaia CEP 74.690-900 Goiânia – GO Tel.: (62) 3521-1310 /3521-1311 www.ufg.br – www.ascom.ufg.br jornalismo.ascom@ufg.br @ufg_oficial

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Por que o sistema de saúde é ainda tão desigual? A desigualdade no sistema de saúde ocorre em diferentes níveis. O diferencial de acesso aos cuidados pode se dar devido a barreiras financeiras, administrativas, geográficas ou devido a um reduzido conhecimento de alguns grupos. A desigualdade no processo de atendimento pode ocorrer como resultado de discriminação, da variação social na comunicação médico-paciente, da atitude dos profissionais de saúde junto de grupos populacionais específicos ou das reduzidas competências interculturais dos prestadores de cuidados. Por isso, é importante que o acesso e o processo de atendimento sejam monitorados e as possíveis barreiras sejam derrubadas.

Se a prestação de cuidados de saúde varia de acordo com as características do paciente e não com a sua necessidade de cuidados, a desigualdade na saúde ocorre.

Adriana Silva

O que você pensa sobre o SUS? Acredita que o Sistema tem conseguido avançar em equidade de tratamento para a população? É possível fazer uma comparação entre o sistema brasileiro e belga?

Angélica Queiroz ara Willems é professora de Saúde e Equidade na Universidade de Ghent, na Bélgica. Suas atividades de pesquisa estão centradas na estratificação social, na acessibilidade do sistema de saúde belga, no papel dos cuidados primários em saúde, na luta contra a desigualdade social e na ligação entre o capital e a saúde. Willems é, também, uma das coordenadoras da pesquisa Qualidade e Custos dos Cuidados Primários na Europa (Qualicopc), que entrevistou mais de 65 mil usuários para analisar e comparar cuidados primários de saúde em 35 países com o objetivo de investigar a associação desses resultados com o do desempenho dos sistemas de saúde em quesitos como qualidade, acesso, equidade e eficiência. A especialista esteve na UFG durante o 11º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, ocasião em que conversou com o Jornal UFG. 

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entre grupos étnicos, mas não pode ser considerado como uma desigualdade na saúde. No entanto, quando vemos que os pacientes de baixa renda são tratados pior em casos de anemia falciforme, porque eles não podem pagar cuidados de saúde, a expectativa de vida inferior a este grupo pode ser considerada como uma desigualdade. Para não contribuir para a desigualdade na saúde, um sistema de saúde deve ser equitativo. Isto significa que o acesso aos cuidados, o processo de atendimento e até mesmo os resultados (taxas de sobrevivência, satisfação do paciente) não devem ser determinados pela etnia, idade, sexo e nível de renda, mas pela necessidade de cuidados de cada paciente. Se a prestação de cuidados de saúde varia de acordo com as características do paciente e não com a sua necessidade de cuidados, a desigualdade na saúde ocorre.

O que você entende por equidade no sistema de saúde?

Por que nem todas as diferenças podem ser consideradas desigualdades? Equidade em saúde se refere a diferenças sisNem todas as diferenças na saúde, entre grupos sociais, são considerados como desigualdades porque algumas não são causadas ​​por uma distribuição desigual dos determinantes sociais da saúde. Por exemplo, a prevalência de anemia falciforme é muito maior nos grupos de população negra do que em grupos da população branca, é uma predisposição genética. Esta é uma diferença ou desigualdade

temáticas entre grupos sociais (idade, gênero, classe socioeconômica, etnia) numa sociedade em que não são atribuíveis predisposições genéticas ou estilos de vida individuais, que podem ser explicadas por mecanismos sociais subjacentes, tais como a discriminação, a exclusão e a distribuição desigual de recursos e de energia, por exemplo. Como estas diferenças na saúde são evitáveis, elas podem ser consideradas como injustas e desleais.

O SUS tem provado contribuir de forma importante para a saúde da população. Em teoria, todas as pessoas que vivem no Brasil têm acesso a cuidados. A força definitiva do SUS é também sua medição de qualidade e resultados. No entanto, há alguns pontos que precisam ser melhorados, por exemplo, em relação ao tempo de espera e aos equipamentos disponíveis em algumas instalações. Estou ansiosa para ver o sistema continuar a evoluir. O sistema brasileiro e o belga são muito diferentes, o que impede uma comparação.

Fale um pouco sobre a pesquisa Qualicopc e os resultados já alcançados.

É um projeto de investigação financiado pela União Europeia que visa avaliar a qualidade, os custos e a equidade na atenção primária na Europa. Este estudo é realizado por um consórcio de cinco grupos de pesquisa reconhecidos como especialistas europeus nesta área. Os resultados do estudo indicam claramente uma relação entre a força da atenção primária e os resultados de saúde. Mas, sistemas de atenção primária nem sempre são os mais baratos. No entanto, provavelmente, não é a força do sistema de atenção primária que eleva os custos, mas o fato de que em países com atenção primária forte, os governos investem mais para melhorar a qualidade dos cuidados (por exemplo, para reduzir as listas de espera). Sobre equidade, temos apenas evidências limitadas: sistemas que valorizam a atenção primária não são, por si só, também equitativos, mas investigações adicionais sobre essas características revelaram que os sistemas com atenção primária forte estão associados a mais equidade nos cuidados. Nos próximos meses, outras pesquisas devem identificar quais aspectos dos cuidados de saúde primários mais contribuem para uma maior equidade e se o nível de prática pode amortecer possíveis características negativas.

Entrevista Sara Willems

Saúde e Equidade

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4 Serviço

Comissão orienta guarda e eliminação de documentos Na ativa desde 2009, profissionais de diferentes áreas do conhecimento trabalham para melhorar a gestão de documentos arquivísticos

Anna Carolina Mendes

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nstituições de ensino superior e órgãos governamentais produzem e manejam documentos de forma maciça, tanto por meio de suas atividades-meio, aquelas que ajudam no desempenho de suas funções mas não são o objetivo principal desta, quanto das atividades-fim, como ensino, pesquisa e extensão. Orientar a guarda de documentos de valor permanente e histórico, além de avaliar a possibilidade de eliminação de arquivos são funções da Comissão Permanente de Avaliação de Documentos (Copad). Instituída em 2009, ela foi criada a partir de uma exigência do governo com o Decreto nº 4.073 de 2002, que determina que nos órgãos da Administração Pública Federal exista uma comissão permanente de avaliação de documentos. As unidades e órgãos da UFG listam as possibilidades de eliminação de documentos e a Copad analisa estas listagens já prontas. Se surgir alguma dúvida, a lista volta às unidades ou órgãos para que estes justifiquem a possibilidade de eliminação. A Copad, então, “autoriza e orienta também todo o processo legal desta eliminação”, detalha a diretora do Centro de Informação, Documentação e Arquivo (Cidarq) e presidente

da Comissão, Heloísa Esser dos Reis. Em relação à natureza dos documentos, digital ou física, Heloísa Esser explica que existe apenas a diferença no suporte, mas que isto não afeta a execução das ações para os documentos ou o valor dos mesmos.

Comissão em exercício

A avaliação de documentos é um processo intelectual, no sentido de que deve ser feita uma análise profunda da instituição, conhecendo suas demandas e especificidades. A primeira atividade a ser realizada pela Comissão é o diagnóstico da instituição, a fim de compreender “a sua estrutura e funcionamento ao longo dos anos”, afirma Heloísa Esser. Segundo a arquivista, para a área de arquivologia, um documento possui valor informativo ou probatório: “informativo das ações e da atividade dessa instituição na comunidade onde ela está inserida e probatório da sua existência”. Estes dois valores juntos são chamados de “valor histórico” dos documentos de uma instituição.

Atuando no espaço físico do Cidarq, a Comissão tem membros de diferentes áreas do conhecimento, como arquivologia, história, administração e biblioteconomia. Heloísa Esser acredita

A arte de doar arte

Divulgação

Projeto da Faculdade de Artes Visuais se propõe a democratizar o acesso à arte

que existir profissionais de diferentes áreas é importante, pois garante diferentes olhares sobre a avaliação de documentos, o que ajuda na hora de aprovar ou não sua eliminação ou guarda permanente. Ao todo, são oito membros na Comissão, trabalhando com a análise documental de todas as regionais da UFG.

Membro da Copad e do Cidarq, Flávio Diniz, fazia parte de uma comissão que atuava antes da existência da Copad, no âmbito da Lei de Acesso à Informação. Com a criação da Copad, a atribuição de execução da Lei passou a ser realizada pela Comissão. Flávio explica que nas unidades acadêmicas existem pessoas responsáveis por apresentar os relatórios de documentos para a Comissão avaliar. Outra função da Copad em relação à Lei é “trabalhar a classificação da informação quanto ao sigilo”, explica Flávio. Segundo ele, hoje a Universidade não possui nenhuma informação classificada como sigilosa, restrita ou secreta, mas é a Comissão que avalia esta questão.

De acordo com Heloísa Esser, é necessário entender por que determinado documento foi produzido e qual a importância dele na época de sua produção para saber se aquela informação possui um caráter histórico para a Instituição. Essa informação histórica

tem caráter de guarda permanente e, segundo Heloísa, precisa ser guardada por pelo menos mil anos: “Nós temos que fazer essa projeção se, daqui a mil anos, esse documento realmente ainda vai ser importante para contar a história desta Instituição”.

Lorena de Sousa

com o curso de Design de Ambientes, com a professora Valquíria Guimarães, que assumiu o primeiro módulo de minicursos. Juntamente com alunos voluntários, a arquiteta e pesquisadora se propôs a discutir o lixo enquanto conceito, na teoria e na prática.

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o ano de 2012, a ideia de disseminar e divulgar a história e a prática de arte ganhou força por meio do projeto Arte Voluntária, da Faculdade de Artes Visuais (FAV). Com quatro anos de existência, o projeto tem como coordenadora a professora Anahy Jorge, as professoras Maria Tereza Gomes e Selma Parreira como participantes, além de alunos monitores. Esse grupo se reveza em módulos para ministrar minicursos de desenho, pintura e modelagem em instituições filantrópicas.

“Nosso projeto acredita numa relação de respeito onde cada parte realiza seus objetivos no sentido de, concomitantemente, atender e transmitir conhecimentos, fomentando o fazer artístico por meio de ações conjuntas visando o bem-estar da comunidade”, garante Anahy Jorge. Segundo a professora, essa relação só se torna possível porque os integrantes do projeto acreditam em uma relação de respeito.

Parceria

Este ano, o Arte Voluntária se expandiu e realizou uma parceria

O minicurso, realizado no Grupo Espirita de Orientação Familiar (GEOF), foi aberto a adultos e a crianças que já possuíssem coordenação motora necessária para realizar cortes. A temática escolhida foram as festas juninas. Com o valor de 250 reais advindo de uma doação particular e um espaço 500 m², a ideia do ateliê era produzir materiais e montar uma cenografia para ser utilizada na festa junina da instituição. A proposta foi um sucesso. Após a festa, o cenário foi emprestado a outra instituição, que se interessou em utilizar o material. Uma das dobraduras, em formato de flor, tinha também a possiblidade de ser comercializada como fôrma para doces, agregando valor à vida das participantes e transformando o modo como a comunidade encara o lixo.


5 Pesquisa

Extratos de plantas do Cerrado são base para inseticidas Pesquisa do IPTSP comprova que produto botânico tem eficiência contra mosquito da dengue e apresenta vantagens em relação aos químicos

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lantas do Cerrado como cajuzinho, tinguí e copaíba, podem ser utilizadas como base de inseticidas capazes de combater mosquitos, entre eles o Aedes aegypti, transmissor da dengue, e o Culex quinquefasciatus, conhecido popularmente como muriçoca. Testes laboratoriais desenvolvidos no Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP), da Universidade Federal de Goiás (UFG) e aplicações realizadas pelos pesquisadores na cidade de Senador Canedo, comprovaram que os inseticidas produzidos com base em substâncias contidas nessas plantas têm eficácia equivalente aos produtos químicos atualmente comercializados.

Natasha Hoshino

O papel da pesquisa é abrir caminhos. A universidade não tem condições de ser indústria.

Vantagens Coordenador da pesquisa, o professor Ionizete Garcia da Silva, afirma que a grande diferença entre os inseticidas desenvolvidos no IPTSP e os que se encontram no mercado está no impacto ambiental. Ele explica que os produtos químicos permanecem por muito tempo na natureza – até 30 anos, dependendo da classe química –, além de, comprovadamente, representarem risco à saúde de quem os aplica. “Quem trabalha no controle de insetos busca o produto com extenso efeito residual, que são aqueles que permanecem tóxicos por mais tempo sem degradar”, afirma o professor. Os inseticidas botânicos, por outro lado, não atacam o meio ambiente, pois são biodegradáveis e não intoxicam.

Outro ponto favorável do inseticida natural é que, para sua produção, não há retirada de matéria-prima do bioma em que estão inseridas as plantas, já que são utilizados subprodutos descartados pela indústria. No caso do caju, a matéria-prima para os inseticidas é o óleo residual, proveniente do processo de extração da castanha do fruto. Quando descartado indiscriminadamente, esse óleo se tornaria um agente poluente. Além disso, os estudos comprovaram que os inseticidas naturais são seletivos, ou seja, não agridem outros animais, e permanecem pouco tempo com letalidade.

Fotos: Camila Caetano

Angélica Queiroz

Segundo professor Ionizete Garcia, inseticidas botânicos causam menor impacto ambiental

“Há um hiato enorme entre pesquisa e produção” A pesquisa começou no final da década de 80, quando surgiram os primeiros casos de dengue no Brasil. Apesar dos resultados positivos, Ionizete Garcia explica que ainda há pouco interesse de indústrias ou governos em financiar a produção em larga escala dos inseticidas botânicos. “Há um hiato enorme entre pesquisa e produção. O papel da pesquisa é abrir caminhos. A universidade não tem condições de ser indústria”, lamenta. O pesquisador explica que, para viabilizar o uso dos inseticidas em campo, é preciso sintetizar as substâncias. Para os testes é possível utilizar os laboratórios do IPTSP, mas, segun-

do Ionizete Garcia, fazer essa síntese em larga escala demanda estrutura e custa caro.

De acordo com o professor, as prefeituras recebem de órgãos superiores produtos e medidas, que significam apenas uma das inúmeras formas de controle, e utilizam substâncias de grande poder residual, geralmente mais tóxicas porque têm a ilusão de que elas serão mais eficientes e mais econômicas. “Pensam assim e não olham para o problema maior que isso gera. É preciso haver uma mudança de cultura. E é obrigação de cada um colaborar”, conclui Ionizete Garcia.


Mesa-redonda

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Do acesso à permanência

Desafios da Educação de Jovens e Adultos Ascom, Rádio Universitária e TV UFG

Qual a importância da Educação de Jovens e Adultos? Qualquer pessoa pode se inscrever?

Para discutir a EJA no Brasil e como ela está inserida nos planos nacional, estadual e municipal de Educação, a mesa-redonda desta edição convidou a gerente da Educação de Jovens e Adultos do Município de Goiânia, Márcia Melo, a professora da Faculdade de Educação da UFG, Maria Emília de Castro Rodrigues e a professora da EJA no município de Goiânia, Esmeraldina Santos.

Márcia Melo - A EJA tem um significado extremamente importante para a sociedade, especialmente para aquelas pessoas que não tiveram acesso à escola ou pararam de estudar num certo momento da infância ou da adolescência. Pelos dados que temos hoje, na educação básica, ensino fundamental e médio, vemos números extremamente altos dessa população que não terminou, no caso do nosso município, o ensino fundamental. Em Goiânia, nós temos uma população em torno de 250 mil pessoas que não finalizaram o ensino básico e um suporte ainda pequeno para atender a toda essa população. Então, além da Secretaria de Educação investir nessa política, temos que fazer com que a população entenda que esse é um direito que ela tem, porque a educação não é um direito só da criança, é um direito constitucional de toda pessoa. Precisamos fazer com que a população entenda isso e volte para os bancos escolares, porque o estudo está ligado não só a questão profissional, mas também, às necessidades básicas, como ir a um banco, pagar uma conta, ler e contar. O que a Secretaria faz, hoje, é viabilizar esse atendimento com 74 escolas ofertando a EJA e entendemos que ainda é pouco e a população precisa tomar posse dessas escolas que são públicas. Quero aproveitar esse espaço para chamar a população para voltar a estudar.

No Brasil, pouco mais da metade dos jovens concluem o Ensino Médio até os 19 anos. Uma opção para essa parcela da população é a Educação para Jovens e Adultos (EJA), modalidade da educação básica destinada aos jovens e adultos que não tiveram acesso ou não concluíram os estudos nos ensinos fundamental e médio.

Você pode participar das próximas mesas-redondas enviando sugestões de temas e convidados pelo telefone: 3521-1311 ou jornalismo.ascom@ufg.br

Esmeraldina Santos - Essa questão do direito precisa ser garantida. Nós temos diversos horários e disponibilidade de espaços para atender a EJA. O nosso desafio é localizar esse público. Tenho aluno de 15 anos e aluno de 70 anos, por exemplo. A EJA é para qualquer aluno a partir dos 15 anos que queira voltar a estudar. Nós temos diversas formas de atendimento para a educação de jovens e adultos na rede.

De que forma a EJA está inserida nos planos nacional, estadual e municipal de Educação?

Maria Emília Rodrigues - O plano municipal, estadual e federal de educação aborda nas metas de oito a doze elementos da EJA, tratando da educação básica, da alfabetização, do ensino médio e da educação profissional. São metas que contemplam estratégias direcionadas para a EJA e que tentam garantir esse direito com financiamento, formação de professores e chamadas públicas. O aluno da EJA é diferente da educação infantil em que os pais vão e buscam na escola, esse aluno tem que ser convencido do direito que ele tem, porque acha que já passou o tempo dele. Mas isso não é verdade, você pode voltar a estudar em qualquer época, independente da sua idade. Esse processo é importante, e os planos têm garantido isso tentando articular não só a entrada desse aluno no processo de educação, mas, também, garantir que o atendimento à essas pessoas seja de qualidade, com formação continuada dos profissionais que atuam nessa modalidade e material didático específico. Os professores precisam desenvolver um currículo adequado porque, muitas vezes, o aluno procura a escola e, se a forma como o conhecimento está sendo trabalhando não lhe atinge, ele não permanece na escola. Então, o currículo precisa garantir essa permanência e as secretarias precisam buscar esse educando. É importante que tenhamos esse olhar e que haja um compromisso do poder público na sua totalidade.

Fotos: Carlos Siqueira

Maria Emília Rodrigues - Essa modalidade está direcionada para jovens, adultos e idosos, a partir dos 15 anos de idade e que não concluíram ou não tiveram acesso à escola. São pessoas que têm esse direito e muitas vezes acham que já passou o tempo delas. Esse é um dos nossos grandes desafios, que o direito do acesso à educação seja garantido independente da idade, e o que temos

percebido é que ainda há muitos jovens e adultos fora da escola, algumas vezes por desconhecimento de escolas que estão próximas e atendem a esta modalidade. Não é porque é EJA que é só noturno, tem algumas turmas que funcionam no diurno. É importante que as pessoas estejam informadas. Outras pensam que não têm a documentação para chegar à escola. Hoje a Lei de Diretrizes e Bases da Educação garante que essas pessoas possam fazer um exame de classificação e serem matriculadas na escola, dando continuidade aos seus estudos. Isso é um elemento muito importante.


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Os alunos que saem da EJA ressaltam a importância disso na vida deles, há uma mudança até na forma de lidar com as relações familiares ou de trabalho. Então, realmente, é uma mudança. Eu digo que é uma liberdade: nós nos libertamos por meio do conhecimento.

Esmeraldina Santos – Temos vagas. Talvez o que tenhamos de observar é se as vagas estão nos lugares certos. Nas periferias, encontramos as escolas lotadas, por exemplo. Em determinadas regiões falta atendimento porque não há demanda suficiente para atender o ensino estruturado. Nesses espaços, precisamos criar uma organização alternativa para atender as pequenas demandas, onde não é possível criar turmas estruturadas.

Entre os principais desafios da educação de jovens e adultos não está só o acesso, mas, também, a permanência. Quais são as estratégias para manter esse aluno frequentando a escola?

Márcia Melo – O grande desafio da educação de jovens e adultos é a permanência, porque estar na escola não é só o desejo de voltar a estudar, mas envolve uma série de questões que fazem com que ele saia da escola, entre elas, a questão da sobrevivência dele e da família porque, muitas vezes, ele entra na escola por causa do trabalho, mas tem que sair por causa desse trabalho que o pressiona para ficar mais tempo. Esse é um elemento que vivenciamos o tempo todo na escola. A outra questão são os trabalhos temporários, como a Festa do Divino Pai Eterno e a Pecuária, que fazem os alunos saírem da escola e irem trabalhar, voltando um mês depois. Então, não depende só do querer dele, mas de uma série de fatores que dificultam a permanência desse aluno. O grande desafio do poder público é saber como fazer para que no retorno do aluno que foi a vida toda excluído, consiga convencê-lo a permanecer de fato. É um desafio saber que estrutura poderíamos criar dentro das nossas redes para que esse aluno seja absorvido ali e permaneça.

Há programas que oferecem a modalidade à distância? Os cursos à distância conseguem oferecer a mesma qualidade dos presenciais?

Como é a inserção dos alunos que se formam na EJA, no ensino superior e no mercado de trabalho? O acesso à educação pode alterar a realidade desses sujeitos?

Esmeraldina Santos – Não só a entrada no ensino superior, mas a própria conclusão da edu-

Márcia Melo

...temos que fazer com que a população entenda que esse é um direito que ela tem, porque a educação não é um direito só da criança, é um direito constitucional de toda pessoa.

Mesa-redonda

Esmeraldina Santos

Maria Emília Rodrigues – Há pouca oferta. Mesmo quando existia a modalidade de telecursos, ainda assim, havia as classes presenciais. Até porque, esse aluno é um aluno que já apresentou certa dificuldade no processo de aprendizagem e, ao fazer isso sozinho, ele encontra muito mais dificuldade. Mas nós temos oferta de educação à distância para formação de professores de educação de jovens e adultos. Outro elemento que é importante que agreguemos é que esse sujeito, mesmo que ele não tenha acesso a uma escola próxima, há formas de atendimento diferenciadas da EJA. No caso da rede municipal de Goiânia, por exemplo, para fazer esse atendimento eles não têm esperado que o aluno procure a escola, mas têm ido até o aluno. Por exemplo, as extensões, que são turmas que funcionam vinculadas a uma escola em espaços não escolares como, por exemplo, no Hospital das Clínicas da UFG, na Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), em horários alternativos em associações de idosos. São espaços em que as pessoas não iriam para a escola, mas ali se reúnem e constituem uma turma com esse atendimento. Há várias formas de organização alternativa para o atendimento. Outro elemento importante é que nesse processo, a chamada desse sujeito compete ao poder público e precisa ser de diversas formas. Houve momentos em que a universidade acompanhou esse processo de parceria, por exemplo, em uma articulação para identificar onde estão esses jovens e adultos. Nós temos mais de 33 mil analfabetos em Goiânia, mas onde eles estão? Precisamos identificar qual é a região onde eles se encontram, para abrir turmas nesses espaços que sejam adequados. O primeiro movimento precisa ser o do diagnóstico, em seguida, nós precisamos realmente que ocorra a divulgação. Um dos espaços que criamos com este objetivo é o site do Fórum Goiano de EJA (www.forumeja.org. br/go), no qual divulgamos o nome das escolas do EJA nos municípios goianos para que as pessoas possam ter acesso às informações.

Maria Emília de Castro

Nós temos mais de 33 mil analfabetos em Goiânia, mas onde eles estão? Precisamos identificar qual é a região onde eles se encontram, para abrir turmas nesses espaços que sejam adequados. O primeiro movimento precisa ser o do diagnóstico.

cação básica é extremamente importante para eles. Quando você conversa com algum desses alunos sobre qual o significado do conhecimento escolar na vida deles, percebe a sua importância. Eu, por exemplo, trabalho na Comurg e tenho três alunos que fazem o ensino superior e saíram das salas de aula da Comurg. Então, posso ver a satisfação e como o conhecimento escolar é importante. Sabemos que ele, por si só, não garante o mercado de trabalho, mas também sabemos que sem ele é muito difícil. Os alunos que saem da EJA ressaltam a importância disso na vida deles, há uma mudança até na forma de lidar com as relações familiares ou de trabalho. Então, realmente, é uma mudança. Eu digo que é uma liberdade: nós nos libertamos por meio do conhecimento. Vejo depoimentos maravilhosos, mesmo daqueles alunos que completam só o ensino fundamental, em relação ao que aquilo significou para suas vidas. Entendo que o conhecimento escolar é muito importante, assim como a formação superior. Esse conhecimento pode não garantir, mas abre caminhos para que essas pessoas melhorem a vida e as perspectivas de trabalho.

Márcia Melo – Gostaria de aproveitar para ressaltar que as nossas escolas estão abertas, que as pessoas não precisam esperar o início do ano letivo, que as matrículas podem ser feitas a qualquer momento do ano e que há vagas. Além disso, a frequência na EJA é flexível. Se o aluno é guarda-noturno, por exemplo, pode continuar trabalhando e ir à escola nos dias em que não trabalha. Nós pensamos a escola hoje, também, para atender as necessidades do aluno trabalhador. Por isso convidamos toda a população, os filhos, os netos, os sobrinhos, a chamarem os seus pais, avós, tios para voltarem a estudar e ter a possibilidade de uma vida muito mais emancipada. Confira o vídeo completo do Programa Conexões no QR Code ao lado.


Pesquisa

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Luz na criptografia

Carlos Siqueira / Camila Caetano

Pesquisadores realizam experimento que utiliza a luz para demonstrar um protocolo de criptografia quântica que tem 18 vezes mais caracteres que os utilizados em bancos da Suíça, os mais seguros do mundo

No experimento, cada fóton corresponde a um caractere da chave criptográfica Angélica Queiroz

U

tilizada para transmitir informações sigilosas, a criptografia é um conjunto de técnicas que permitem codificar uma informação de forma que somente emissor e receptor consigam decodificá-la. No entanto, os esquemas tradicionais mais utilizados se baseiam, essencialmente, na incapacidade dos computadores de fatorar eficientemente grandes números. Sendo assim, a criptografia clássica está sujeita à quebra porque computadores quânticos, que já estão sendo testados no Canadá, poderiam, em teoria, fazer essa fatoração de forma eficiente.

o professor da UFRJ, Stephen P. Walborn, e o aluno de pós-doutorado da UFRJ, Daniel Tasca.

Como funciona?

De acordo com a mecânica quântica, a luz, quando absorvida ou produzida, comporta-se como se fosse constituída de pacotes de energia, os fótons. No sistema criado pelos pesquisadores, a fonte de luz emite apenas um fóton por vez, em uma determinada direção, que corresponde a

um caractere da chave criptográfica, a senha a ser transmitida. Esse fóton, antes de ser enviado para o receptor, atravessa uma configuração de lentes escolhidas aletoriamente de um conjunto predeterminado, cuja função é tornar difusa a direção do fóton. Em seguida o fóton é enviado para o receptor que também escolhe aleatoriamente uma configuração de lentes para o fóton atravessar e mede sua direção.

Após repetir o procedimento várias vezes, emissor e receptor com-

Pensando em acabar com tal possibilidade, pesquisadores de todo o mundo estudam uma nova técnica de criptografia: a chamada criptografia quântica. Entre eles estão dois professores do Instituto de Física da UFG (IF) que, em parceria com dois pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolveram um protocolo que utiliza a luz para codificar e decodificar mensagens. O sistema, baseado em princípios da Física Quântica, possui um alfabeto com 37 caracteres, 18 vezes mais símbolos que o Protocolo BB84, que é utilizado em bancos suíços, considerados os mais seguros do planeta. “Desde 1994 é sabido que a criptografia tradicional é sujeita a falhas. Para que um sistema criptográfico seja seguro, ele não pode ser quebrado, nem em teoria. A criptografia quântica é baseada em leis da Física. Para que um intruso consiga quebrar os códigos que enviamos pela luz, teria que quebrar essas leis, o que é impossível”, explica o professor do IF, Ardiley Avelar, que integra o grupo responsável pelo projeto junto com outro professor do IF, Rafael Gomes,

partilham os tipos de configuração de lentes que foram utilizadas para cada fóton. Quando elas coincidem, eles têm certeza que a direção dos fótons enviados corresponde aos dos detectados e, portanto, aos caracteres da chave criptográfica. Nos casos em que as configurações do emissor e do receptor não coincidem, os fótons são descartados. Segundo explica Ardiley Avelar, a mecânica quântica garante que é impossível um espião roubar um fóton, cloná-lo e retransmiti-lo para o receptor sem ser detectado. É justamente essa característica que impede que o sigilo seja violado. “Um espião, ao tentar clonar um fóton, introduz erros que serão detectados na etapa de checagem dos caracteres. É justamente isso que torna o protocolo seguro.”

Ano Internacional da Luz

Resolução da Assembleia Geral da ONU, aprovada em 20 de dezembro de 2013, proclamou 2015 como o Ano Internacional da Luz e Tecnologia à Base de Luz. Por esse motivo a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) adotou o tema “Luz, ciência e vida”, que também é o tema do 12º Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão da UFG (Conpeex) que, neste ano, abrirá a SNCT.

Protocolo utiliza luz para codificar e decodificar mensagens

Para o professor Ardiley Avelar, colocar a luz em foco é importante para incentivar as pessoas a refletir sobre a importância dela e também sobre a relevância de suas aplicações tecnológicas, assim como sobre o valor da ciência. “Precisamos pensar sobre as pesquisas utilizando a luz, que impactaram, impactam e impactarão, o desenvolvimento da humanidade. E necessitamos de muito mais gente pesquisando,” afirma o professor do IF.


- Tem um ciclo de vida rápido;

Microalga de água doce é matéria-prima para produção de biocombustível Trabalho desenvolvido no Lames aposta que uso de microalga dulcícola pode ser a chave para aumentar a competitividade do biodiesel brasileiro

- Podem acumular até 50% de seu peso em óleo;

Fotos: Adriana Silva

- Necessitam menor consumo de água e área para cultivo; - Podem ser cultivadas em áreas consideradas impróprias para a agricultura; - O CO2 utilizado em sua produção pode ser proveniente de processo poluidor; - Pode gerar coprodutos de alto valor agregado, como pigmentos que podem ser utilizados na produção de medicamentos e cosméticos; - Potencial de produção de óleo de 10 a 20 vezes maior que oleaginosas.

Testes mostram potencial de microalgas para produção de biodiesel

Pesquisadores do Lames testaram 450 espécies de microalgas dulcícolas Angélica Queiroz

P

roduzido a partir de fontes renováveis, o biodiesel tem sido considerado como uma alternativa viável para a diversificação da matriz energética mundial, em substituição aos combustíveis fósseis, contribuindo para mitigar as mudanças climáticas e reduzir a poluição atmosférica. O Brasil, apesar do grande potencial para a produção desse tipo de fonte de energia, ainda enfrenta o desafio de aumentar a competitividade de seu biodiesel. A diversificação das fontes de matéria-prima para a produção desse biocombustível é uma das possíveis saídas para esse problema.

Projeto Microalgas

O Projeto Microalgas é apoiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), sob a coordenação geral da UFG; envolve outras nove instituições nacionais de pesquisa – UFPR, TECPAR, UFSCar, UFLA, UFES, UFSC, INT, UFRJ e UFPB. Coordenador geral do projeto, o professor do IQ, Nelson Antoniosi, explica que as pesquisas já acontecem há cinco anos e devem ser concluídas apenas em meados de 2016. Segundo ele, participam do projeto cerca de 80 pesquisadores que fazem parte da Rede Brasileira de Tecnologia e Biocombustíveis (RBTB), criada pelo Governo Federal. Das 450 espécies testadas, apenas três apresentaram as características de reDESAFIO: Aumentar a Competitividade

Produção de Biodiesel Cultivo de Microalgas DIVERSIFICAÇÃO

Projeto envolve pesquisadores da UFG e de outras nove instituições

Novas fontes de matérias-primas graxas

sistência, qualidade e quantidade da biomassa e capacidade de reprodução procuradas pelos pesquisadores. Um estudo realizado com uma dessas três microalgas já confirmou seu potencial. “O projeto estabeleceu a tecnologia de cultivo e a produção de biodiesel a partir de uma cepa microalga com potencial cerca de 20 vezes maior que a soja, hoje a principal matéria-prima utilizada na produção de biocombustível no Brasil”, explica Rafael da Silva Menezes, autor do trabalho. O biocombustível já está sendo utilizado em um carro de testes da UFG. Segundo Nelson Antoniosi, também já estão sendo realizados testes com as outras duas microalgas, e os testes com uma delas já obtiveram resultados promissores. “Estamos identificando novas potencialidades para a produção de biodiesel, fazendo testes em grande escala”, detalha. O professor explica ainda que todo o sistema de produção do biodiesel usando microalgas demora, em média, 30 dias, possibilitando produção o ano inteiro, outra vantagem em relação à soja, que tem apenas dois picos de produção anuais. 70-80% do custo de produção de biodiesel é a aquisição da matéria prima graxa Principal entrave para o aumenta da competitividade/ teor de mistura Principal entrave para o aumenta da competitividade/ teor de mistura REDUZIR O CUSTO

Lames

Atentos a essa realidade, pesquisadores do Laboratório de Métodos de Extração e Separação (Lames) do Instituto de Química (IQ) da Universidade Federal de Goiás (UFG) coordenam a pesquisa que testou 450 espécies de microalgas dulcícolas e marinhas para avaliar se elas seriam uma alternativa viável para a produção de biodiesel. Os pesquisadores acreditam que o uso das microalgas para produção do biocombustível em grande escala pode

vir a ser uma realidade num futuro próximo e aumentar a competitividade do biodiesel brasileiro.

Energia

Vantagens das microalgas de água doce

9


Regionais

Fotos: Carlos Siqueira

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Regional Jataí completa 35 anos Comemorações do aniversário são marcadas por eventos e inaugurações de obras ao longo do ano Serena Veloso

D

urante seus 53 anos de história, a UFG passou por grandes mudanças e conquistou um espaço decisivo no interior goiano, com a expansão da oportunidade de acesso ao ensino superior público entre a população de diferentes regiões do Estado de Goiás. Em 1980, a UFG implantava na Cidade de Jataí as bases iniciais do que viria se tornar a Regional Jataí, antes denominada Câmpus Avançado de Jataí (CAJ), que funcionava com apenas três cursos de graduação. Em 2015, a Regional completa 35 anos de existência e celebra diversas conquistas, fruto dos esforços para garantir educação de qualidade para formação de profissionais nas diversas áreas do conhecimento. Uma série de atividades alusivas ao aniversário estão sendo organizadas e integram o calendário de festividades da instituição. “Acredito

que temos razões suficientes para comemorar por termos chegado tão longe e com excelentes perspectivas de continuarmos por muito mais tempo alcançando um sucesso ainda maior”, aposta o diretor da Regional Jataí, Wagner Gouvêa dos Santos, satisfeito com os resultados da trajetória. A primeira iniciativa para celebrar a data foi a da criação de uma logomarca dos 35 anos da Regional, utilizada nas páginas da internet e documentos oficiais da Universidade. Ao longo do ano, também estão previstos o lançamento de novas obras e a instalação de equipamentos nos laboratórios, que trarão melhorias significativas no desenvolvimento das atividades de ensino, pesquisa e extensão. Primeira das obras inauguradas em 2015, o Restaurante Universitário (RU) da Regional Jataí está em pleno funcionamento desde o mês de maio e oferece refeições à comuni-

dade universitária a preço acessível. O espaço tem atendido, diariamente, uma média de 600 estudantes, servidores e docentes, com a elaboração de cardápios variados, com alimentos saudáveis e nutritivos.

Além do RU, outras nove obras deverão ser inauguradas em breve, são elas: a ampliação do prédio dos cursos de pós-graduação, os prédios dos gabinetes dos professores, dos cursos de Biomedicina, de Enfermagem, de Engenharia Florestal, de Fisioterapia e de Direito, além das instalações Zootécnicas, do Centro de Ciências Humanas, do Laboratório de Nutrição de Peixes e galpão de máquinas.

Transferência de área

Outro importante ato que veio complementar as comemorações foi a recente oficialização, por parte do governo do Estado de Goiás, da transferência da área onde está lo-

calizado o Câmpus Cidade Universitária José Cruciano de Araújo à UFG. Devido ao trâmite do processo jurídico para a efetivação da transferência, a entrega da escritura só ocorreu 18 anos após a área ser cedida para o funcionamento do câmpus. O terreno, que antes pertencia à Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Goiás (Emater), precisou ser transferido para o governo estadual para que fosse realizada a doação à Universidade.

Para o reitor da UFG, Orlando Amaral, foi essencial o trabalho das gestões anteriores da instituição na consolidação desse processo e crescimento da Regional Jataí, além da parceria com o poder público para a construção dos câmpus no município. “Os gestores no passado foram ousados e hoje colhemos os frutos dessa ousadia. Com muita dificuldade e graças às parcerias com o Município e o Governo do Estado, que em 1997 nos cedeu o terreno, hoje, a Regional Jataí é um dos maiores

Entrega da escritura que formaliza doação de terreno do Governo de Goiás para a UFG foi comemorada pela gestão


Crescimento

Com as ações dos Programas de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) e Expansão Fase I - Novos Campi, a Regional Jataí passou por um processo de grandes transformações nos últimos seis anos. Atualmente, possui 25 cursos de graduação nas áreas de saúde, educação, ciências humanas, sociais, biológicas, agrárias e exatas, distribuídos em dois câmpus: Cidade Universitária José Cruciano de Araújo, conhecido como Unidade Jatobá, e a Unidade Riachuelo, que atendem 3.400 alunos matriculados. Na pós-graduação, contabilizam-se seis cursos stricto sensu e diversos de especialização. As atividades dos varios cursos oferecidos na Regional envolvem um quadro amplo de docentes e técnico-administrativos, que chegam ao número de 351 e 216, res-

pectivamente, incluindo efetivos e terceirizados. Ainda assim, a quantidade não consegue suprir toda a demanda de atividades e serviços. “Apesar do número ainda insuficiente e das condições ideais estarem sendo construídas, partindo de um processo natural do crescimento e consolidação de uma universidade, acredito que todos estes anos têm sido de grandes conquistas”, comenta o diretor da UFG em Jataí.

Expectativas

As obras inauguradas na Regional nos últimos anos e a ampliação do número de cursos e vagas oferecidas para ingresso, não só transformaram em realidade a presença da UFG no interior goiano, mas trouxeram novas expectativas para a concretização de uma universidade cada vez melhor. Com isso, novos projetos estão sendo esboçados para atender a crescente demanda da comunidade universitária. Entre eles, a construção de um auditório para comportar eventos diversos, como as colações de grau, a finali-

zação do prédio do curso de Medicina e da Biblioteca Central, obra já iniciada e que deverá ser entregue no início de 2016. Além disso, está sendo consolidado o Parque Tecnológico Jataí TEC, uma iniciativa em parceria com a Prefeitura da cidade, a Secretaria de Desenvolvimento do Estado de Goiás (Sed), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/ GO), entidades empresariais e instituições de ciência e tecnologia da região. A proposta do Jataí TEC vem de encontro às estratégias de fortalecimento e promoção do crescimento econômico e tecnológico do sudoeste goiano, por meio da transferência de conhecimento e tecnologia da Universidade para o setor produtivo, estímulo à inovação e qualificação profissional, o que impulsionaria a geração de empregos e renda, além de investimentos na área empreendedora. “A Regional Jataí tem contribuído efetivamente para o desenvolvimento local, melhorando os indicadores sociais, econômicos e culturais do

município e da região Sudoeste de Goiás”, destaca Wagner Gouvêa.

Primeiro doutorado

Uma das conquistas da Regional Jataí em 2015 foi a aprovação do primeiro doutorado no Programa de Pós-Graduação em Geografia. O curso será implantado com duas linhas de pesquisa voltadas para a temática do Cerrado e deverá iniciar suas atividades no primeiro semestre de 2016.

O professor do curso de Geografia, João Cabral, que esteve à frente da proposta de criação do programa, acredita que a iniciativa trará novas perspectivas na qualificação profissional voltada para a docência e a carreira acadêmica, além da capacitação dos estudantes para a condução de pesquisas nas áreas ambientais, sociais e humanas. “O curso vem suprir a carência de oportunidades de Pós-Graduação fora dos grandes centros urbanos do país”, comenta João Cabral, além de destacar os esforços dos professores do Departamento de Geografia e da Universidade nesse intuito.

Refeições nutritivas são servidas para cerca de 600 pessoas diariamente no Restaurante Universitário

Processo de expansão da Regional nos últimos anos abriu oportunidade para criação de novos cursos

Parque Tecnológico de Jataí está em construção para atender a demanda de desenvolvimento em tecnologia e inovação da região

Prédio da Biblioteca Central já foi iniciado e tem previsão de entrega para 2016

11 Regionais

câmpus do Brasil”, declarou durante a cerimônia, em Goiânia, em que foi oficializada a transferência.


Extensão

Na trilha sonora do conhecimento Iniciativa de servidora da UFG em parceria com unidades acadêmicas promove atividades educativas e artísticas para comunidade

Fotos: Adriana Silva

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Espaço de Artes Vitória oferece, entre outras atividades, aulas de música Wanessa Olímpio

A

servidora do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae), Célia Freitas, trabalha na UFG há 33 anos. Ela sempre gostou de promover atividades recreativas e aulas de educação ambiental para os filhos dos seus colegas de trabalho, com a ajuda de voluntários. Para isso, ela utilizava o Bosque dos Palmares, no Conjunto Nossa Morada e, também, espaços cedidos pela instituição e até a garagem de sua casa.

Atualmente, a servidora coordena o Espaço de Artes Vitória, em parceria com a Universidade e a Paróquia Nossa Senhora da Assunção, representada pelo padre Marcos Rogério de Oliveira. O projeto de extensão proporciona atividades educativas e artísticas para pessoas da comunidade. Com a colaboração da Escola de Música e Artes Cênicas (EMAC/ UFG) e o Centro de Línguas UFG/ UFG, são oferecidas aulas de iniciação musical, instrumentos musicais,

canto coral e Inglês, além de acompanhamento com uma assistente social. Hoje a iniciativa atende 60 crianças que recebem aulas de instrumentos e canto coral.

Flauta, violão, teclado, guitarra e bateria foram doados ao Espaço pela dupla Zezé de Camargo e Luciano. Os professores são estagiários do curso de Música da UFG e permanecem durante um semestre lecionando. Dessa forma, novas vagas são oferecidas a cada semestre e preenchidas por ordem de inscrição. A divulgação é feita durante as missas da igreja, no Cepae e no boca a boca. A idade mínima para participar é seis anos e não há limite máximo de idade.

Convivência

Segundo a assistente social e psicóloga, Carmem Lúcia Soares, que trabalha no projeto por meio da Faculdade de Educação da UFG, o compartilhamento de saberes e o aprendizado são benéficos para as crianças. Para

Projeto Espaço de Artes Vitória Horários

Flauta: segunda-feira, das 14h às 15h. Violão, teclado e bateria: duas turmas às terças e quartas-feiras, das 14h às 15h. Canto coral: terça-feira, das 15h às 16h. Inglês: quarta-feira, das 17h30 às 21h.

Matrículas

No início de cada semestre.

Taxas

Aulas de música: taxa simbólica/gratuita. Aulas de inglês: R$ 204,00.

Endereço

Paróquia Nossa Senhora da Piedade, Rua MB 2, quadra 1 - Setor Morada do Bosque.

ela, a visão do projeto é extremamente abrangente. “Nosso desejo não é simplesmente que a criança aprenda o inglês ou a música. Acompanhamos o desenvolvimento e a socialização dela”, ressalta.

Tiago Martins, um dos estagiários do projeto, leciona canto coral. Para ele, fazer parte desta iniciativa é uma oportunidade de colocar em prática a teoria que aprende na faculdade. “Aqui é uma simulação do que vai ser no mercado de trabalho”, afirma. O estudante enfatiza ainda que o ensino é conduzido de forma leve. “Não temos a intenção de formar músicos aqui, mas queremos despertar a expressão artística que a música pode oferecer, abordando uma linguagem que possa fazer com que eles se relacionem entre si e com outras coisas na escola”. Além dos estudantes do curso de Música, há um voluntário do curso de Engenharia de Software da UFG. Leonardo dos Santos ministra aulas de bateria desde o início de 2015

para, em média, 15 alunos, em duas turmas, uma de crianças e a outra com pré-adolescentes e adultos. “Um dos meus alunos é fabricante de instrumentos de percussão e teve o interesse de aprender a tocar também. Vemos que eles estão interessados na aula, que eles estão ali realmente para apreender alguma coisa”, relata. Graciela Fernandes é mãe da aluna Ana Clara, de 10 anos, e ficou sabendo das aulas de música por meio de uma amiga. Ela conta que a filha sempre gostou de música e faz aulas desde os quatro anos. “Em momento algum eu incentivei, isso é dela mesmo. Ela gosta muito de música clássica, totalmente diferente de mim”, observa. Para outra aluna, Magda Alves, o fácil acesso ao Espaço de Artes Vitória é um dos seus pontos positivos. Ela estuda canto coral há três anos por meio do projeto e conta que já tinha tentado se matricular em outros cursos, mas não conseguiu porque ficavam longe. “As aulas têm me ajudado bastante”, elogia.


Nem todas as cascas, caroços e sementes precisam ir para o lixo

13 Sustentabilidade

Angélica Queiroz

A

grande quantidade de resíduos produzidos pela indústria alimentícia sempre incomodou a professora do curso de Engenharia de Alimentos da UFG, Clarissa Damiani, que se dedica, junto a seus alunos de graduação e pós-graduação, a buscar alternativas para o aproveitamento desses alimentos. As pesquisas comprovam que é possível aproveitar cascas, caroços e sementes de frutas e hortaliças em receitas deliciosas e nutritivas, como doces de casca de jabuticaba e de melancia, granola de cascas desidratadas de banana e maçã e até biscoitos sem glúten produzidos a partir de quirera de arroz e okara.

Além do sabor, as pesquisas identificam os nutrientes existentes nos resíduos e analisam a permanência dos mesmos após o processamento, para que agreguem valor nutritivo aos alimentos produzidos e possam, também, servir como opção para substituir ingredientes comuns, adaptando receitas já existentes.

Os resíduos de frutas, leguminosas e hortaliças são desprezados pelas indústrias que precisam lidar com o problema ambiental e geralmente pagam alguém para dar fim ao lixo que acaba virando adubo. Isso ocorre num cenário em que é necessário o aumento da produção de alimentos para uma população crescente, sem aumentar o desmatamento. “Falta comida e não tem como aumentar a produção porque falta espaço. Temos que parar de jogar alimento no lixo. O que hoje tratamos como lixo pode virar matéria-prima”, alerta Clarissa Damiani.

A professora destaca que os alimentos que hoje são desprezados pela indústria podem ser utilizados como fonte alternativa de nutrientes e de fibras alimentares, inclusive, mais barata e acessível. Por isso, ela acredita que o aprovei-

tamento desses resíduos tem papel estratégico porque não só ajuda a resolver o sério problema de descarte, como agrega valor aos itens produzidos pela indústria, com os subprodutos.

Empresários e população precisam comprar a ideia

Clarissa Damiani explica que a redução da produção de resíduos e a utilização econômica dos mesmos, aliada ao desenvolvimento de tecnologias para minimizar as perdas nos processos produtivos, pode contribuir de forma significativa para a economia do país e diminuição dos impactos ambientais. No entanto, ela lembra que, para isso, empresários e população precisam comprar a ideia. “O empresário brasileiro ainda não tem a cultura de procurar produtos na universidade”, lamenta.

As pesquisas coordenadas por Clarissa Damiani já renderam vários trabalhos de iniciação científica, apresentações em congressos e dissertações de mestrado. No entanto, a professora sonha em conse-

Restos de alimentos servem de base para novas receitas guir mais resultados práticos. “Nós publicamos, mas, infelizmente, os resultados se restringem à teoria. Acredito que, como pesquisadora, tenho a missão de levar a sociedade algo que faça a diferença”, afirma. Clarissa Damiani espera plantar uma semente para mudar a cultura da população, começando pelos alunos que, no futuro, vão trabalhar nas indústrias. “Há a cultura do desperdício. É preciso mudá-la”. Eurípedes Júnior

Temos que parar de jogar alimento no lixo. O que hoje tratamos como lixo pode virar matéria-prima.

Fotos: Renata Fleury Curado Roriz

Estudos da Escola de Agronomia e Engenharia de Alimentos mostram que resíduos de alimentos podem ser utilizados em novas receitas e como substitutos de ingredientes tradicionais

A professora também tem planos de divulgar os novos produtos desenvolvidos na Escola de Agronomia para as donas de casa. Segundo ela, muita coisa pode ser feita em uma cozinha comum, usando a criatividade. “Às vezes, a pessoa não dispõe da tecnologia que temos na universidade, mas dá para usar o liquidificador como triturador ou o forno convencional para secagem, obtendo produtos advindos de cascas e sementes com qualidade higiênico-sanitária e nutricional adequadas”, exemplifica.

Produtos derivados da jabuticaba agora duram mais tempo

Um dos projetos com aplicabilidade prática foi realizado na cidade de Hidrolândia, famosa por sua produção de jabuticaba. A fruta é perecível e, depois de colhida, possui vida útil de apenas três dias. Quando industrializada, a casca e a semente não eram utilizadas, o que gerava perda de 50% do fruto. Aproveitando o que era descartável, a professora, juntamente com alunos de graduação e pós-graduação, desenvolveram casca cristalizada e em passas, produtos que preservaram os antioxidantes da casca in natura, rica em fibras. O trabalho resultou, ainda, no projeto de extensão “Difusão do Conhecimento para Padronização de Produtos Derivados da Jabuticaba”, uma parceria entre a UFG e as mulheres produtoras de jabuticaba de Hidrolândia. Confira no QR Code ao lado algumas receitas para fazer em casa


Extensão

Fotos: Camila Caetano

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Música e cena em Goiás Laboratório que trabalha na recuperação da memória cênico-musical do Estado recebe novos acervos

Lorena de Sousa

D

urante toda sua carreira acadêmica, a professora da Escola de Música e Artes Cênicas (Emac/ UFG), Ana Guiomar Rêgo Souza, se deparou com uma carência bibliográfica acerca da história musical e cênico-musical goiana. Mesmo após seu doutorado, a atual diretora da Emac continuava com essa inquietação. Na busca por dar prosseguimento ao trabalho de colegas* e sistematizar o que já estava em posse da unidade, surgiu a proposta de criação de um espaço adequado para acomodar o que já existia e para o recebimento de novos materiais.

Assim nasceu o Laboratório de Musicologia Braz Wilson Pompeu de Pina Filho (Labmus): preservação, catalogação e divulgação de documentos escritos, sonoros e audiovisuais, projeto idealizado há quatro anos, e que há três conseguiu local ideal para funcionar. “Sentíamos a necessidade de um espaço para preservação, catalogação e difusão de documentos escritos e audiovisuais de maneira a incentivar e possibilitar pesquisas sobre a história, memória e a cultura musical e cênico-musical de Goiás e do Brasil”, conta Ana Guiomar.

torne um centro de referência para o qual as pessoas e instituições enviem suas coleções para que sejam tratadas, digitalizadas e disponibilizadas”, detalha. Após esse processo, a professora explica que as coleções serão devolvidas para que voltem a integrar os bens culturais das cidades de origem.

Acervo Balthasar de Freitas

Grande parte das coleções de manuscritos do século XVIII e XIX de relevância para a construção de histórias da música e do teatro de Goiás se encontra com particulares, geralmente familiares de músicos moradores das cidades que compunham a rota do ouro, em acervos das bandas locais, de irmandades e da Igreja. Prova disso é que, recentemente, o laboratório recebeu o acervo de Baltasar de Freitas, maestro já falecido. O material foi doado pelas bisnetas do músico: as professoras Gyovana Carneiro, Ivana Carneiro e Dulce Pedrosa. Balthasar de Freitas foi um importante músico que viveu entre os

anos de 1870 e 1936 em Jaraguá, no interior do Estado, onde trabalhou com o coro da Igreja e com a banda de música da cidade. O acervo possui mais de seiscentas obras, divididas em quatro séries: música sacra, música instrumental, música impressa e outros documentos. “Ele não só produziu um grande número de manuscritos musicais, como foi também o herdeiro de um valioso acervo de obras copiadas e compostas por músicos de gerações anteriores, alguns deles também representantes da família Ribeiro de Freitas”, detalha Gyovana Carneiro. A professora e bisneta do músico conta que os registros ficaram durante muitos anos com os filhos do maestro e, posteriormente, passaram para as mãos de uma de suas tias, que mostrou as obras a ela, sua irmã e a uma prima. “A família de Balthasar de Freitas achou que o melhor lugar para o acervo seria a Universidade, portanto, em comum acordo, o arquivo foi doado ao Labmus, onde poderá ser digitalizado e investigado por pesquisadores interessados de todo o mundo”, explica Gyovana Carneiro.

Os primeiros documentos levados ao local compunham o acervo da própria escola - Acervo Emac/UFG -, dividido em três grandes coleções: uma contendo documentos do antigo Conservatório Goiano de Música e Conservatório de Música da UFG, a outra formada por documentos do Instituto de Artes da UFG e a última englobando material disponível a partir da separação do Instituto de Artes em Faculdade de Artes Visuais e Escola de Música (1996) e material advindo da atual Escola de Música e Artes Cênicas, assim denominada depois que a Escola de Música criou, no ano de 2000, os cursos de Artes da Cena. Segundo Ana Guimar, o objetivo agora é receber mais documentos de pessoas que não tenham interesses em mantê-los, ou que desejem disponibilizá-los para outros. “A ideia é que o laboratório cresça e se

Labmus possui acervos de documentos disponíveis para pesquisa

Outros documentos Outra conquista do Labmus é o acervo conhecido como Jean Douliez, músico belga que participou da criação do Conservatório Goiano de Música, em 1955, e, depois lecionou no Conservatório de Música da UFG. Douliez se radicou em Goiás por muitos anos e, ao voltar para a Bélgica, deixou na escola grande parte de seus documentos, incluindo documentos da época da criação da UFG, partituras de músicas diversas e composições de sua autoria, como o Hino da UFG. Encontra-se também em posse do laboratório a coleção Marília Laboissière Paes Barreto, um conjunto de documentos, livros e partituras, colecionados pela professora aposentada da Emac, Marília Laboissière, e doado ao Labmus por sua família.

*Braz Wilson Pompeu de Pina Filho, Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça e Maria Augusta Calado de Saloma Rodrigues.


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Um mapa de possibilidades cotidiano e midiológico da violência, a denominada explosão de informações e os perigos da vida urbana impactam as subjetividades?

Eguimar Felício Chaveiro*

F

requentemente, nos círculos de professores universitários, são suscitados exemplos de uma novidade no mundo da escola: os alunos não cessam, mesmo em atividades de aulas, de teclar os seus celulares. Alguns evadem tanto, que contornam o corpo em direção oposta aos professores. Há, ainda, os que saem e entram na sala como se fossem acossados por palavras distantes de suas vontades e de seus ritmos. As explicações ao fato ganham contornos diversificados: o que se vê é a emergência de um novo sujeito, o sujeito global. Está em curso um mecanismo de captura da audição e da subjetividade, isto é, entramos na era de uma subjetividade forjada na tempestade, cujo resultado é a fragmentação do sujeito. Convém problematizar: a instabilidade da economia atual, os intensos fluxos organizados em redes, as estratégias transfronteriças do mercado, o desdobramento

Tratamos de esclarecer que não se trata apenas de impactos exemplificados na ansiedade de jovens para atualizar os seus status no Facebook; ou o seu medo consoante ao desemprego estrutural e ao seu futuro; ou mesmo a insegurança de adultos relativa à manutenção de sua família; ou o temor de idosos na garantia das aposentadorias e do atendimento da saúde. O que está em consecução são subjetividades constituídas e atravessadas por essa economia de signos que, comumente, infantilizam, adoecem, impõem linhas de fugas ao sujeito, retirando-lhe a atenção, a escuta, a capacidade de discernir as forças que lhes atravessam e a potência criadora de suas faculdades sociais e culturais. Contudo, nada é linear, pois a juventude que se vê massacrada de informações é convidada a discutir mais sobre os temas do mundo e se posicionar diante das várias ideologias e dos múltiplos imaginários tecidos dentro e fora das instituições de comando. Junta-se a isso o poder de autonomia para comunicar, associar e organizar. Frente a isso, as ruas, com rapidez, enchem-se de gente. Nas fendas das máquinas de controle e contra a “militarização da existência”, surgem propostas e alternativas que não se curvam aos espaços que afetam a saúde cognitiva e aos meios que adoecem. São bandas, grupos de poesia, de teatro, de cinema e,

inclusive, de ações de trabalho; são grupos de jovens que, corajosamente, participam ou colaboram com os Movimentos Sociais sem perder o seu ethos, as suas insígnias e a sua cultura.

Poder-se-ia dizer que há um novo mapa de possibilidades políticas inserido em novos estatutos da luta de classe, da organização de gênero e étnica, das identidades juvenis e da produção das subjetividades. Há, igualmente, problemas antigos travestidos de cores novas. Em muitos casos, ou quase em todos, as ladainhas de reclamações feitas pela idealização do passado, no “antigamente a escola era boa”, “antigamente a juventude era combativa”, fora o equívoco da análise, pouco ajudam a compreender a complexidade do que está posto e, também, pouco contribuem para enxergar o cerne dos atuais conflitos – e as imensas possibilidades de compor raias de solidariedade e de criação. Com efeito, não se trata apenas da erosão do íntimo, da fabricação de emoções desequilibradas e de cognições torpedeadas por impulsos de toda sorte, como se as subjetividades fossem alheias aos conteúdos sociais de onde emergem. Refleti-las, na sua totalidade, requer a crítica social - esta não pode ser feita apenas pela via de uma razão genérica e burocrática, mas de uma razão sensível atenta aos grupos e às singularidades.

*Eguimar é professor do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais (Iesa) da UFG

CAMINHOS DA PESQUISA

Divulgação científica nas redes sociais a palestra Uso das mídias sociais na divulgação científica - a contribuição da ABEC, deixou algumas dicas:

Wanessa Olimpio Com o advento da internet, a maneira como as pessoas se comunicam mudou. O tráfego de informações ficou mais rápido e as redes sociais podem ser ótimas ferramentas para a troca de conhecimento. Neste contexto, como ficam as revistas científicas? Os editores destas revistas estão preparados para o diálogo com os seus pares? A Analista de Pesquisa e Comunicação Científica do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de Santa Catarina, Elisabete Werlang, esteve em Goiânia durante o XXIII Congresso de Editoração Científica e, durante

• Antes de criar uma conta em uma rede social para a revista, pense nas necessidades do periódico. O que o marketing digital pode trazer para o veículo?

• Delimite o seu o público-alvo, conheça as suas necessidades e os desejos dos leitores e consumidores daquelas informações. É necessário conhecer a comunidade científica para a manutenção de um diálogo. • Os artigos publicados nas revistas são originais, possuem valor científico para a área, por isso podem gerar notícia e discussão. Esse é o diferencial da comunicação científica que deve ser valorizado.

• Ao divulgar as pesquisas, é preciso transpor a linguagem específica

de cada área. Título de artigo não é chamada para post e resumo não é release para a imprensa.

• Seja social, não fale apenas da sua revista nas redes sociais. Trabalhe conteúdos significantes para a sua comunidade. Dê respostas rápidas, seja honesto e sincero, mesmo que você não saiba responder, mas não deixe sem resposta.

• O objetivo das redes sociais é chamar atenção para o site da revista, fazer com que ela seja lida. • Poucas revistas utilizam as áreas de comunicação das instituições de ensino. Usem a assessoria de comunicação da sua instituição de ensino para a divulgação de pesquisas. • Prefira as redes sociais das instituições de ensino para a divulgação de pesquisas, pois poderão dar maior visibilidade ao assunto tratado.

Evaldo Gonçalves, aluno especial do mestrado em Comunicação da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

Sempre ouvimos falar sobre ações afirmativas na UFG, mas, afinal, o que esse termo significa?

Luciene Dias, coordenadora da Coordenadoria de Ações Afirmativas da UFG (Caaf) Com o processo de redemocratização pelo qual o Brasil passou, a equidade, ou seja, a igualdade de oportunidades, passa a ser uma das principais buscas. Neste caminho, fatores como a cor da pele, a textura do cabelo, o gênero e a orientação sexual, além da condição socioeconômica, influenciam – e algumas vezes chegam a determinar – nossas oportunidades. Isso equivale a afirmar que a depender do local e das condições de nascimento, uma pessoa acessa mais ou menos equidade. É neste contexto social, político, cultural e ideológico de negação de acesso que surgem as ações afirmativas como medida emergencial para garantir a igualdade de oportunidade e possibilitar a afirmação de pertencimentos.

Na prática, as ações afirmativas assumem formas de ações voluntárias, obrigatórias ou mistas; programas governamentais, públicos ou privados; leis e novas orientações a partir de decisões jurídicas; agências de regulação e fomento. Com foco em pessoas e grupos histórica e socialmente subordinados e excluídos, as principais áreas contempladas são mercado de trabalho, sistema educacional e representação política. Assim, ações afirmativas e cotas não são sinônimos, sendo que as cotas são apenas uma representação das ações afirmativas. O princípio das ações afirmativas é, na verdade, constitucional quando admitimos que devemos tratar de forma desigual pessoas e grupos desiguais na medida em que se desigualam.

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Caetano Caetano

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Plantas do Cerrado têm potencial para ornamentação Estudos de alunos de pós-graduação da Faculdade de Agronomia buscam valorizar espécies nativas

Angélica Queiroz

O

Cerrado é a segunda maior formação vegetal brasileira e um dos biomas de maior diversidade florística do planeta. No entanto, as espécies nativas são raras nos viveiros e os jardins e casas por aqui são, normalmente, decorados com espécies exóticas, vindas de fora. Tendo em vista o alto potencial ornamental das plantas da região, um grupo de pesquisadores da Escola de Agronomia da UFG se dedica a examinar essas espécies e a viabilidade de seus cultivos para fins paisagísticos, tema ainda pouco estudado no Brasil.

Professora da Escola de Agronomia da UFG e coordenadora do grupo, Larissa Leandro Pires conta que atualmente ela e seus alunos trabalham com diversas espécies nativas do Cerrado, desde orquídeas e bromélias até espécies de bambus nativos, envolvendo a caracterização fenológica e a avaliação de seu potencial ornamental e das possibilidades de uso paisagístico de cada espécie.

Larissa Leandro explica que, para que as espécies nativas possam ser utilizadas no paisagismo e ornamentação, primeiramente faz-se necessário conhecê-las. “Precisamos saber de suas necessidades e exigências em diversos aspectos, como luminosidade, adubação, solo, necessidade hídrica, e até mesmo como estas irão se comportar fora de seu habitat natural, plantadas em um vaso na varanda de casa, ou em um jardim ou na própria arborização urbana”, detalha.

Divulgar, valorizar e conservar

O doutorando Daniel Brandão estudou durante seu mestrado plantas nativas da Serra dos Pirineus, onde, entre 60 espécies, escolheu seis para acompanhar durante um ano. Defendeu sua dissertação sobre a Mimosa setosissima, planta que mostrou alto potencial paisagístico. Para o pesquisador devem haver muitas outras espécies nativas do Cerrado com esse potencial. Por isso, ele também está estudando plantas ornamentais em seu doutorado. “Pesquisas científicas nessa área devem continuar para preservar, divulgar e gerar conhecimento para que futuramente essas espécies que são nossa identidade no Brasil Central, possam ser inseridas no mercado paisagístico para o consumidor”, afirma Daniel Brandão. O doutorando explica que cultivar plantas nativas é mais sustentável e até mais barato, pois, por essas já estarem adaptadas aos solos e ao clima, demandam menos custos. Além disso, segundo ele, a utilização de espécies de plantas ornamentais nativas do Cerrado pode se tornar uma alternativa futura de renda, principalmente para pequenos e médios agricultores. A também doutoranda Mayara Wesley da Silva explica que a utilização racional de espécies de plantas nativas pode ser um mecanismo eficiente para valorizar e conservar a biodiversidade. Ela, que atualmente desenvolve pesquisas com orquídeas nativas, defende que as espécies do Cerrado têm potencial ornamental em todas as fases. “Precisamos divulgar que as plantas não são bonitas apenas na fase de floração”, destaca.

Por que utilizar plantas nativas no paisagismo? - Já são adaptadas às condições climáticas locais; - Baixa necessidade de manutenção; - Colaborar para a preservação da flora local; - Reforço das identidades regionais; - Favorecimento da diversidade biológica; - Público ávido por novidades dos viveiros e dos espaços verdes ; - Tendência de desenvolver produtos com baixo impacto ambiental.

Alunos da EA pesquisam as seguintes espécies: - Bambu Pleioblastus distichus e Chimonobambusa marmorea ; - Helicteris Helicteres saca-rolha; - Bromélia Bromélia reversacanta; - Orquídea Anaccheilium vespa; Cyrtopodium  saintlegerianum; Trigonidium  egertonianum.

Fernanda Rodrigues

Além disso, segundo a professora da EA, é preciso conhecer, inclusive, como será a aceitação e preferência dessas espécies pelo mercado, local ou não, tanto por parte dos viveiristas que irão produzir as mudas a serem comercializadas, como dos paisagistas que irão inserí-las em seus

projetos, até chegar ao consumidor final. “Muitas pesquisas ainda devem ser feitas para embasar o uso dessas nativas no mercado”, esclarece.

Espécies do Cerrado podem ser usadas no paisagismo e ornamentação, não apenas na fase de floração.

Jornal UFG 74  

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO IX – Nº 74 – OUTUBRO DE 2015 www.jornalufgonline.ufg.br

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