Revista Universidade | n° 01

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Universidade Revista da Universidade Federal do Espírito Santo •

UFES

Jan/Abr 2013 • Ano 1 • Nº 1

De volta à Antártica Equipe de pesquisadores da Ufes, a única na América Latina a desenvolver estudos em tecnologia de edificações no Continente, trabalha para que a nova estação do Brasil na Antártica seja referência mundial

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Ufes | Qualidade de Ensino

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Apresentação A divulgação científica em pauta A busca pelo saber é a essência da universidade e a produção de ciência e tecnologia, um de seus pilares. A Universidade Federal do Espírito Santo alcançou, ao longo de quase seis décadas, uma real e avançada dimensão na pesquisa científica e tecnológica. Essa elevada produção, em diferentes áreas, a aproxima das melhores e mais conceituadas universidades do País; sendo, inclusive, referência nacional e mesmo internacional quando se trata de pesquisa. Por essa consistente realidade acadêmica é que a Ufes lança esta nova publicação, em sua primeira edição, com foco na divulgação da sua produção de ciência, tecnologia e inovação. Assim, e por meio de um grande esforço da Administração Universitária, estamos nos alinhando às principais instituições de ensino e pesquisa que já possuem, consolidados, os seus instrumentos de divulgação científica. Isto prestigia e reconhece o valoroso trabalho desenvolvido pelos pesquisadores, bem como publiciza e informa a sociedade sobre o que uma universidade pública, como a nossa, está produzindo. O projeto editorial e gráfico desta publicação, bem como a elaboração de pautas, textos, imagens e arte, foram idealizados e produzidos, com criatividade e empenho, pelos nossos profissionais da Superintendência de Cultura e Comunicação (Supecc). Nossa revista será, certamente, mais uma importante ferramenta de informação da Ufes para a comunidade acadêmica e a sociedade. O conceito de universidade, fundamentalmente, pressupõe ambientes de geração do saber, de modo universalizado, contemplando a multiplicidade do conhecimento. Um espaço onde o pensamento se potencialize e onde o ensino, a pesquisa e a extensão se interajam e se multipliquem. Nesse contexto, uma revista de divulgação científica – como é o propósito desta publicação – vem se inserir neste rico e fértil espaço da pesquisa em todas as áreas e em todos os campi da Ufes. E já nesta primeira edição é possível ter uma clara noção da qualidade da nossa produção de ciência e tecnologia. Seu conteúdo editorial demonstra a elevada capacidade dos nossos pesquisadores e o significativo potencial da nossa Universidade. Que a nossa revista seja muito bem-vinda, e que tenha vida longa. Reinaldo Centoducatte Reitor

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Universidade Federal do Espírito Santo • Ufes Reitor Reinaldo Centoducatte Vice-Reitora Maria Aparecida Correa Barreto Pró-Reitor de Administração Amarílio Ferreira Neto Pró-Reitor de Extensão Aparecido José Cirillo Pró-Reitora de Graduação Maria Auxiliadora de Carvalho Corassa Pró-Reitora de Gestão de Pessoas e Assistência Estudantil Maria Lucia Casate Pró-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento Institucional Maximilian Serguei Mesquita Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Neyval Costa Reis Junior Superintendente de Cultura e Comunicação Ruth Reis UNIVERSIDADE Revista de Jornalismo Científico • Cultura • Variedades produzida pela Superintendênica de Cultura e Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo Secretária de Comunicação Thereza Marinho Coordenadora do Núcleo de Divulgação Científica Emília Manente Coordenador do Núcleo de Comunicação Institucional Luiz Vital Conselho editorial Maria Aparecida Correa Barreto • José Gerado Mill • Alberto Ferreira • Alberto Fernandes • José Antonio Martinuzzo • Ruth Reis • Emília Manente Coordenação geral Ruth Reis Editora Emília Manente Reportagem Ana Paula Vieira • Betânia Cordeiro • Emília Manente • Luiz Vital • Maíra Mendonça • Valesca de Monteiro Bolsista Maíra Mendonça Fotografia David Protti • Fernanda Bayer • Arquivo Supecc Design Juliana Braga Revisão Márcia Rocha Foto da Capa Professora Cristina Engel de Alvarez Distribuição • gratuita Impressão • Gráfica Universitária Tiragem • 8.000 exemplares Universidade Federal do Espírito Santo Superintendência de Cultura e Comunicação - Supecc Av. Fernando Ferrari, nº 514, Campus de Goiabeiras Prédio da Reitoria, 1º andar, CEP: 29075-910, Vitória/ES - Brasil Telefone: (27) 4009-7835 A revista Universidade agradece a Juliana Colli Tonini que iniciou a elaboração do projeto gráfico desta publicação. O conteúdo desta revista pode ser reproduzido para fins didáticos, desde que citada a fonte.

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Editorial A revista Universidade nasce com o desafio de constituir-se como mais uma ligação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) com a sociedade, oferecendo assim condições para ampliar o conhecimento público de suas atividades e contribuindo para promover o debate sobre questões contemporâneas. Imersa num ambiente em que a pesquisa e o pensamento são a matéria-prima do seu fazer cotidiano, a Universidade contribui para a construção de um futuro melhor, por meio da produção do conhecimento científico, tecnológico, filosófico, artístico e cultural. Não faria sentido, entretanto, manter descobertas e reflexões no interior da própria Instituição. Por isso, a Ufes vem aperfeiçoando suas formas e meios de comunicação e, agora, acrescenta a revista Universidade ao conjunto de ferramentas que já utiliza. Universidade inicia apresentando um leque variado da produção científica, tecnológica e cultural da Universidade Federal do Espírito Santo realizada no âmbito dos grupos de pesquisa, projetos de extensão, programas de pós-graduação e cursos de graduação. Ao mesmo tempo que ambiciona provocar debates e reflexões que permeiam a produção acadêmica, Universidade procura concretizar o projeto de oferecer ao leitor, de forma agradável, uma amostra representativa da diversidade, importância e abrangência das questões que motivam o empenho criativo de professores, estudantes e técnico-administrativos da Ufes. Ruth Reis Superintendente de Cultura e Comunicação da Ufes

Sumário 20 Antártica Pesquisadores da Ufes desenvolvem parâmetros para nova base brasileira na Antártica

32 Movimento dos barcos Pesca no litoral capixaba é monitorada por pesquisadores da Ufes

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Apresentação Tempos de glamour Atenção aos pomeranos Carro autônomo Fronteira do agrotóxico Morte Educação especial 3ª idade Vinho certificado Práticas inovadoras Nutrição e atividade física de crianças Sono revelador Pós-graduação em doenças infecciosas Artigo: Que desenvolvimento queremos? Caminho da inovação Meninas em risco Meta da Ufes é ampliar a qualidade

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PESQUISA

Tempos de

glamour Maíra Mendonça

Cinema capixaba: pesquisadores da Ufes fazem resgate do acervo fotográfico das salas do Estado

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ocê sabia que há tempos era costume os homens frequentarem os cinemas usando terno e gravata? Ou que as inaugurações das antigas salas de exibição contavam com a presença de políticos e artistas importantes? Ou, ainda, que esses espaços eram utilizados também para a realização de formaturas escolares? Resgatar essas minúcias da história, muitas vezes perdidas no tempo, é o objetivo do grupo de pesquisa História das Salas de Exibição Cinematográficas do Espírito Santo, que busca organizar um acervo fotográfico das salas de exibição, seus entornos, interiores e inaugurações,

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Público aguardando a sessão de inauguração do Cine São Luiz, Centro, Vitória. A sala tinha capacidade para 586 pessoas. 1951

remontando, assim, a história do cinema capixaba. O grupo é composto pelos professores André Malverdes, do Departamento de Arquivologia, e Sônia Maria da Costa Ribeiro, do Departamento de História, além dos pesquisadores Ana Cláudia Borges Campos (Biblioteconomia), Anderson Gomes Barbosa (Arquivologia) e Amarildo Mendes (História) e das graduandas em Arquivologia Heloíza Guerze e Renata Bessa. A pesquisa, que se restringia inicialmente a Vitória, hoje abrange todo o Es-

tado do Espírito Santo, incluindo os municípios de Baixo Guandu, Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica, Castelo, Colatina, João Neiva, Linhares e Vila Velha. Ela é feita por meio da coleta de documentos da imprensa local, cartazes, textos e entrevistas com familiares e ex-proprietários de cinemas, funcionários e antigos frequentadores dessas salas. Atualmente, o acervo conta com 176 fotos e um catálogo de 170 cinemas que existiram entre 1907 e 2008. O ano de 1907 marca a inauUNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Jan/Abr 2013

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PESQUISA guração das salas de cinema no Espírito Santo, com a exibição do primeiro filme mudo em solo capixaba, no Cine Teatro Melpômene, que ficava na esquina das ruas Graciano Neves e Sete de Setembro, na Praça da Independência, hoje chamada de Costa Pereira, centro da Capital, Vitória. O recorte da pesquisa, que se encerra em 2008, registra os tempos da “cinelândia capixaba” entre as décadas de 1950 e 1970, que representa o auge do cinema no Estado, até o período de 1979 a 1985, época de especial interesse do grupo, em que houve uma drástica queda do número de salas de exibição, devido à popularização da televisão e à ampliação de seus conteúdos, além da recessão econômica, caracterizada por altas taxas inflacionárias. A tentativa de resgatar a memória cinematográfica do Estado teve início em 2000, quando o atual coordenador do grupo e professor do Departamento de Arquivologia, André Malverdes, se interessou e começou a mapear os antigos proprietários de cinema, ainda em seu período de especialização. Por falta de bibliografias acerca do assunto, a pesquisa se estendeu para o mestrado,

que teve como resultado o livro No Escurinho dos Cinemas: A História das Salas de Exibição na Grande Vitória. Em 2008, após tornar-se professor da Ufes, André criou o grupo de pesquisa na área a fim de dar continuidade ao trabalho. O professor explica que o resgate dessa história é importante para a compreensão de questões econômicas, culturais e políticas do Espírito Santo, uma vez que, além de atuar como um agente de sociabilização, influenciando os costumes das pessoas, o cinema faz parte também de uma vasta indústria de comercialização de bens culturais, capaz de movimentar a economia das regiões onde se insere e despertar o interesse dos governos. “As pessoas se vestiam de acordo com as atrizes de cinema; o hábito de fumar aumentou, pois as pessoas viam os personagens principais fumando; o modo de chamar os garçons com apenas um estalar de dedos ou o jeito de piscar, de namorar as moças, tudo isso era influenciado pelo cinema. Então, entender esse processo é compreender o papel do cinema para a sociabilidade e para as transformações urbanas”, afirma Malverdes.

Avenida Jerônimo Monteiro: pessoas se aglomeram em frente ao Cineteatro Central. 1921

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Interior do Teatro Melpômene em dia de espetáculo. 1921

Resultados Além do livro No Escurinho dos Cinemas: A História das Salas de Exibição na Grande Vitória, que debate as dimensões políticas, econômicas e culturais do cinema e traz um panorama dos motivos que levaram ao fim das atividades cinematográficas nas salas capixabas durante o século XX, o material coletado pelo grupo de pesquisa resultou também no livro Memórias Fotográficas das Salas de Cinema do Espírito Santo. Este, por sua vez, apresenta 110 imagens das salas de cinema do Estado, de 1901 a 1990, e é dividido entre as salas dos municípios do interior, dos bairros e de Vitória. O grupo também participa de palestras e congressos da área e já realizou exposições que recontam a história dos cinemas no Cine Metrópolis, na Ufes, e nas bibliotecas municipais da Serra e do bairro Nova Valverde, em Cariacica. O blog Salas de Cinema do Espírito Santo: http://salasdecinemadoes.blogspot.com.br/ disponibiliza informações ao público, e é também um meio pelo qual as pessoas podem contribuir para o enriquecimento da pesquisa enviando fotos e contando curiosidades e histórias de vida que se cruzem com os cinemas dos lugares onde vivem.

Acervos Pessoais e Memória Coletiva A necessidade de organizar um banco de dados que permita a realização de futuras pesquisas sobre o cinema capixaba fez com que o professor André Malverdes desse início a mais um grupo de pesquisa: o Acervos Pessoais e Memória Coletiva. Esse grupo, composto por cinco pessoas, entre professores, pesquisadores e alunos, foi contemplado por um edital do Fundo de Cultura do Espírito Santo (Funcultura), da Secretaria Estadual de Cultura, e é responsável pela produção do Inventário Analítico do Acervo Fotográfico Sobre as Salas de Cinema do ES, cujo lançamento está previsto para março de 2013. Ele reunirá documentos e fotografias das salas de exibição cinematográficas, retirados de arquivos públicos, jornais e acervos pessoais que serão tratados para que sejam conservados ao longo dos anos. O inventário será disponibilizado no acervo público estadual, nas versões impressa e digital.

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EXTENSão

Atenção aos

pomeranos Lavradores do interior do Espírito Santo são atendidos por equipe multidisciplinar do Hospital Universitário Noite de sexta-feira. Enquanto muitas pessoas se preparam para um breve descanso no fim de semana, uma equipe do Hospital Universitário, em Vitória, entra no transporte em direção ao interior do Espírito Santo para atender pacientes com problemas de pele. Há 25 anos, coordenada pelo médico Carlos Cley Coelho, teve início essa rotina mensal de trabalho intenso, que deu origem a um dos grupos de extensão mais antigos da Ufes: o Programa de

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Assistência Dermatológica aos Lavradores Pomeranos do Espírito Santo. O atual coordenador do projeto é o cirurgião plástico e professor Luiz Fernando Soares de Barros. Ele calcula que ao longo dos anos foram realizados mais de 100 mil atendimentos médicos e cerca de 20 mil pequenas cirurgias. Iniciado em 1987, o programa de atendimento dermatológico conta atualmente com uma equipe de 30 pessoas, incluindo cirurgiões plásticos, dermato-


logistas, acadêmicos de Medicina, enfermeiros, agentes de saúde, membros de igrejas locais e motoristas, entre outros. Eles visitam, mensalmente, comunidades de 15 municípios, principalmente os de colonização germânica, como Itaguaçu, Afonso Cláudio, Santa Maria de Jetibá, Baixo Guandu, São Gabriel da Palha e Domingos Martins, chegando a atender de 300 a 500 pacientes e a fazer até 70 cirurgias em uma só viagem. Os casos mais graves são encaminhados ao Hospital Universitário, conhecido como Hospital das Clínicas, no campus de Maruípe, em Vitória. O projeto surgiu em função da grande quantidade de lavradores pomeranos (descendentes de colonizadores germânicos) que procuravam o Hospital Universitário em busca de tratamentos para problemas de pele, uma vez que o fato de serem muito brancos, aliado aos longos períodos de exposição ao sol e ao contato com agrotóxicos, torna essas pessoas mais suscetíveis de adquirir câncer de pele. Como muitas vezes os tratamentos eram demorados, eles eram obrigados a passar dias fora de suas casas e ficavam hospedados no Albergue Martim Lutero, criado em 1984 por membros de comunidades luteranas da região serrana do Espírito Santo e da Grande Vitória e que existe até hoje. Segundo o médico Luiz Fernando, muitos lavradores não falavam português e precisavam de um tradutor para conversar com os médicos que atendiam os moradores. Esse tradutor se chamava Arlindo Vilaça, um morador do município de Vila Pavão, que se encarregou dessa função. Foi

Moradores aguardam atendimento médico

ele quem incentivou o médico Carlos Cley a fazer as primeiras visitas às comunidades do interior. No início, as condições de infraestrutura e de transporte para os atendimentos eram precárias, pois o projeto era mantido apenas pelo Hospital das Clínicas, da Ufes. Os médicos e estudantes ficavam alojados nas casas dos lavradores e de pastores das regiões e as consultas eram feitas nas residências e até em igrejas. “Eu lembro que, às vezes, eles puxavam uma lona e em um fogareiro faziam arroz, feijão e um frango. E nós comíamos sentados ali, com o prato na mão mesmo, mas era muito interessante”, conta o médico Luiz Fernando. Outra prática do grupo era a apresentação de slides assim que chegavam aos locais, com o objetivo de conscientizar os lavradores em relação aos riscos provocados pela exposição ao sol. “Hoje os meios de comunicação já chegaram ao interior e as pessoas sabem que a exposição ao sol é perigosa, mas naquela época não. Então, era preciso orientálas e por isso as palestras eram importantes”, explica o professor Luiz Fernando.

Parcerias Cerca de dez anos após o início do programa, foi feito um convênio com a Secretaria de Estado da Saúde, que passou a conceder o transporte e possibilitou o aumento da equipe. Após a aposentadoria do médico Carlos Cley Coelho, a coordenação do Programa de Assistência Dermatológica aos Lavradores do Estado foi assumida pelo professor Luiz Fernando, período que coincidiu com a realização de mais uma parceria, dessa vez com as prefeituras locais. Os atendimentos são feitos em escolas e postos de saúde das comunidades durante todo o sábado, das 8 às 17 horas, e no domingo até o meio-dia. As principais medidas de prevenção indicadas aos lavradores pomeranos são o uso de chapéus e de roupas compridas que cobrissem todo o corpo para o trabalho na lavoura, além da utilização de protetor solar, e evitar o contato direto com produtos, como os agrotóxicos. UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Jan/Abr 2013

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PESQUISA

Carro

autônomo Maíra Mendonça

Pesquisadores da Ufes desenvolvem carro que trafega sem motorista

A partir de estudos sobre o funcionamento do cérebro humano, o grupo de pesquisa Ciências da Cognição, do Laboratório de Computação de Alto Desempenho (LCAD), ligado ao Centro Tecnológico, desenvolveu um sistema capaz de fazer com que, através de lasers, câmeras, sensores inerciais e GPS, um carro se movimente sem o auxílio de um condutor, respeitando até mesmo as regras de trânsito. O grupo, formado por 15 pesquisadores, incluindo doutorandos, mestrandos e alunos

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de iniciação científica dos cursos de Engenharia e Ciências da Computação, é o mais avançado do País nesta área e possui os melhores equipamentos. O projeto custou cerca de R$ 1 milhão. De acordo com o coordenador do grupo de pesquisa e professor do Departamento de Informática, Alberto Ferreira De Souza, no futuro, essa tecnologia poderá ser utilizada tanto para dinamizar e baratear o processo industrial – auxiliando no transporte de equipamentos dentro de empresas de grande porte –, quanto para solucionar questões práticas do cotidiano das pessoas. “Vejo que podemos usar isso para melhorar a qualidade de vida de pessoas com necessidades especiais, como aquelas com dificuldades de locomoção. Para elas, o carro ainda é difícil de diri-


gir. Então, uma primeira aplicação seria fazer um carro com esses sensores, que seja mais seguro”, afirma o professor. Ele destaca também que em alguns anos será possível produzir carros ainda mais independentes, capazes de andar de acordo com comandos de voz, por exemplo, e que possam ser conduzidos por deficientes visuais. Para se chegar aos resultados recentes, porém, foram necessários anos de estudo. O grupo Ciências da Cognição surgiu em 1996 com o objetivo de compreender como o cérebro humano é capaz de interpretar o mundo e as ideias. Como o tema é muito complexo, o objeto de estudo passou a ser a visão estática, ou seja, a capacidade do cérebro de identificar imagens paradas. Dessa pesquisa, surgiu o Sistema de Reconhecimento de Faces, que implementa uma arquitetura neural que permite distinguir diferentes rostos e atualmente é considerado o melhor sistema de reconhecimento de faces frontais em todo o mundo. E é essa mesma estrutura neural que está sendo aprimorada para que o carro identifique placas de trânsito e semáforos. Outra análise importante foi sobre a capacidade que o ser humano tem de medir distâncias, que só é possível através dos dois olhos. A arquitetura cerebral identificada foi reproduzida em computadores e, a partir da instalação de duas câmeras estereoscópicas, que funcionam como os olhos humanos, deu-se às máquinas esse mesmo potencial. Após esse período, iniciaram-se as pesquisas com imagens em movimento. Dessa vez, os pesquisadores pretendiam desenvolver nos computadores a capacidade de compreender as imagens no tempo. Robôs Em 2009, o grupo construiu seu próprio robô para ampliar a pesquisa. Já em 2010 foi comprado o segundo robô. O Pioneer é o mais avançado e, junto com a utilização de uma nova plataforma de desenvolvimento – o Carmen Robot Navigation Toolkit –, ajudou no progresso da pesquisa. A ideia de utilizar um carro como robô móvel foi inspirada na competição de veículos autônomos promovida pela Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA) dos Estados Unidos, a DARPA Grand Challenge. O Ford Escape, um veículo híbrido (com motor elétrico e a combustão), demorou cerca de um ano e meio para chegar ao Brasil, aportando na Ufes no dia 31 de setembro de 2012. Ele foi adaptado pela empresa norte-americana Torc. O professor Alberto explica que não era interessante para o

grupo adaptar o próprio carro, visto que esses estudos já existem em outros lugares e o importante é gerar novos conhecimentos. Por isso, os pesquisadores se concentraram na produção dos softwares, que foram instalados no carro. A doutoranda em Ciências da Computação e integrante do grupo Mariella Berger ressalta que, embora o desenvolvimento de softwares a partir da estrutura cerebral seja muito importante, o principal objetivo da pesquisa é compreender como o cérebro humano funciona, analisando, inclusive, coisas que parecem simples para as pessoas, como o ato de distinguir rostos ou de parar diante de um obstáculo, mas que na realidade são muito complexas para um sistema computacional. “Todos estão muito motivados. Acho que o carro pode ser útil não só para a minha pesquisa ou para a de qualquer um aqui, mas para a sociedade”, diz Mariella.

Próximos passos O projeto do grupo Ciências da Cognição termina no final de 2013 e até agora quase todos os objetivos da pesquisa foram alcançados. Já existem cinco artigos científicos produzidos. Desses cinco, dois foram submetidos à International Swaps and Derivatives Association, que aconteceu em novembro de 2012, na Índia, e um à Conferência Internacional em Robótica e Automação”, que será realizada na Alemanha, neste ano. Até o fim do projeto deverão ser produzidos, no mínimo, mais oito artigos. Um dos principais desafios dos pesquisadores é substituir os lasers utilizados para o processamento de imagens do carro por apenas três câmeras de vídeo – que ficarão na frente, atrás e do lado do carro –, a fim de diminuir os custos de produção e melhorar a estética do veículo. Para se ter uma ideia, o laser usado atualmente é o Velodyne, que possui 32 lasers e capacidade de girar 360°. Entretanto, o valor desse equipamento é de 50 mil dólares, sendo que as câmeras custam em torno de R$ 4 mil cada uma. UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Jan/Abr 2013

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P esquisa

Fronteira do

agrotóxico Luiz Vital

Pesquisas realizadas na Ufes mostram que é possível produzir vegetais com baixa carga de agrotóxicos ou mesmo sem a presença deles, por meio do controle biológico nas culturas agrícolas e do uso de técnicas alternativas de manejo

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ma equipe de pesquisadores do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da Ufes está criando uma fronteira científica e tecnológica para os produtos usados na eliminação de pragas e doenças nas culturas agrícolas, conhecidos como agrotóxicos. O desafio é reduzir ao máximo a presença desses produtos nas culturas agrícolas e, consequentemente, nos alimentos, com o uso adequado de novas técnicas. Os primeiros experimentos demonstram que as pesquisas alcançam sucesso. Os estudos são coordenados pelo professor Dirceu Pratissoli e realizados no Núcleo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Manejo Fitossanitário de Pragas e Doenças (Nudemafi). A pesquisa, de acordo com Pratissoli, abrange diferentes produtos com elevada exposição e sensibilidade aos agrotóxicos, como morango, café, repolho, mamão, entre outros. O tomate, porém, é o carro-chefe da pesqui-

sa, por receber uma carga muito elevada de agrotóxicos. “É a cultura com maior número de aplicações de agrotóxicos”, ressalta o pesquisador. Em 100% das áreas plantadas, o tomate recebe grande quantidade de agroquímicos, porque a cultura está exposta a grande número de pragas e doenças. Os levantamentos mais recentes demonstram que, anualmente, no Espírito Santo, cerca de 80 mil toneladas de ingredientes ativos são despejadas na agricultura de um modo geral. Pratissoli diz que, atualmente, sem uma grande quantidade de agrotóxicos não se consegue produzir tomates em proporção suficiente para atender ao mercado. Mesmo assim, segundo o pesquisador, a Europa já não consegue mais produzir tomate de qualidade, devido a uma poderosa praga que devastou os cultivos do continente. O Brasil, então, surge como importante alternativa para abastecer o mercado internacional. É nesse aspecto que os estudos dos pesquisadores da Ufes abrem uma nova porta para as exportações brasileiras, com um tomate mais limpo e mais saudável. Técnicas Como reduzir tamanha presença de agrotóxicos no tomate? As pesquisas do Nudemafi demonstram que existem alternativas, com novas práticas de manejo que permitam o controle das pragas nas culturas, em substituição ao controle químico. Tudo isso sem perder a produtividade. Pratissoli explica que, em geral, o tomate recebe de 28 a 32 aplicações de agrotóxicos durante o

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As armadilhas luminosas capturam as pragas que infestam as lavouras

seu ciclo produtivo, que é de seis semanas, em média. Em experimentos recentes, os pesquisadores conseguiram baixar para seis o número de aplicações. “Uma vitória”, comemora Pratissoli. “Na safra atual já conseguimos realizar somente duas aplicações nas lavouras”, salienta. “A meta é esta, baixar ao máximo o uso de pesticidas”, completa. Dirceu Pratissoli e sua equipe de pesquisadores usam métodos alternativos, de modo a se evitar ao máximo o uso dos agrotóxicos. Eles promovem o manejo das pragas utilizando o controle biológico com o uso de inimigos naturais produzidos em laboratórios, bem como de bioinseticidas que são preparados em laboratórios e levados para o campo. O Nudemafi também utiliza barreiras físicas e mecânicas, como as armadilhas de cor e as luminosas. Manejo Os métodos empregados são em função do tipo de pragas que podem ocorrer, levando em consideração o comportamento delas. “Temos o emprego da barreira física, com a instalação de placas de cor amarela impregnada com uma cola especial que não seca, para onde os vetores de viroses são atraídos e ficam grudados, evitando que eles alcancem os tomateiros”, exemplifica Pratissoli.

Como barreira mecânica também é utilizado o ensacolamento de cachos dos frutos, que os protege das brocas. “Desenvolvemos, também, pesquisas com armadilhas que utilizam lâmpadas especiais do tipo ultravioletas, para atrair e capturar mariposas, denominadas brocas, que atacam os frutos”, acrescenta. Outro método de manejo utilizado em larga escala é o biológico, por meio da liberação inundativa de vespas do gênero Trichogramma. Pratissoli resume os resultados obtidos pela pesquisa: “Ela preserva o meio ambiente; melhora consideravelmente o sabor do fruto, bem como a sua durabilidade e qualidade; reduz os custos ao produtor; mantém ou aumenta a produtividade; e preserva a fertilidade da terra plantada”, enfatiza. Pratissoli explica que ainda não é possível eliminar totalmente o uso dos agrotóxicos. “Somente fazemos a aplicação quando esgotados todos os nossos métodos alternativos de manejo das pragas”, salienta. Para dar mais opções ao produtor, Pratissoli e sua equipe já trabalham em outra ponta importante da pesquisa, na área de química, que é a caracterização e síntese de bioinseticidas, que são agrotóxicos naturais retirados de plantas e subprodutos de biodiesel, cujos primeiros testes indicam processos de patentes. UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Jan/Abr 2013

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P esquisa

O pesquisador Dirceu Pratissoli é professor do Departamento de Produção Vegetal do CCA, coordenador adjunto do Programa de Pós-Graduação em Produção Vegetal, e chefia o Núcleo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Manejo Fitossanitário de Pragas e Doenças (Nudemafi), criado em 2002. O núcleo funciona num prédio de 700m², no campus do CCA em Alegre, Sul do Espírito Santo. São 350m2 destinados somente para as pesquisas realizadas em 19 laboratórios. Atualmente estão se especializando no núcleo 11 doutorandos, 10 mestrandos, e 20 alunos de iniciação científica. Pratissoli se formou em Agronomia na Ufes, onde também trabalhou como engenheiro agrônomo. É mestre e doutor em Fitossanidade e leciona na Ufes desde 1985.

Tomate, fim da linha de um vilão A pesquisa realizada no CCA da Ufes é uma das garantias de que, a partir de 2013, o Brasil possa produzir o tomate certificado. A certificação permitirá que o consumidor tenha um produto sem resíduos de agrotóxicos, e o País tenha condições de exportar o tomate para a Europa e outros países, que exigem esta garantia de qualidade, como ocorre com a carne bovina e a suína. “É a Ufes fazendo transferência de tecnologia”, sustenta Dirceu Pratissoli. A Instituição, inclusive, participa do comitê nacional integrado do Programa Brasil Certificado, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O pesquisador, que representa a Ufes no Programa, observa que cada cultura agrícola terá projetos específicos de certificação. As pesquisas desenvolvidas no CCA, porém, fizeram o tomate sair na frente e já envolvem produtores da Região Serrana do Espírito Santo. Um dos laboratórios de campo funciona em Alto Caxixe, em Venda Nova do Imigrante, em áreas da empresa Plantec, que anualmente produz um milhão de pés de tomate. “O tomate, enfim, vai deixar de ser o grande vilão na mesa do brasileiro”, avisa. A proposta do Brasil Certificado é que o comércio varejista mantenha gôndolas específicas

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com os produtos certificados. Segundo Pratissoli, a meta é que o tomate tenha códigos de barra, cuja leitura em computador faça o rastreamento de toda a cadeia produtiva. “Com isso, se ocorrer algum problema com um lote do produto, por exemplo, o varejista e os órgãos de controle sanitário saberão a sua origem exata”, diz. “Alguns supermercados já pedem o tomate rastreado, porque a clientela já está exigindo”, aponta o pesquisador, indicando uma mudança de comportamento do consumidor. Veneno invisível A doutoranda em entomologia agrícola Luziani Rezende Bestete compõe a equipe do professor Dirceu Pratissoli. Ela explica que não é possível, visualmente, identificar o tomate com elevado grau de resíduos. “Todos os tipos de tomate – e são muitas as variedades – estão sujeitos à presença de agrotóxicos”, alerta. Segundo ela, somente uma fiscalização especializada pode comprovar isso por meio de análise de substâncias tóxicas. Segundo a doutoranda, o importante é a


A equipe A equipe do professor Pratissoli é multidisciplinar e interinstitucional, e composta pelos doutores Waldir Cintra de Jesus Júnior, Fábio Ramos Alves, Celson Rodrigues, especialistas em Fitopatologia do CCA/Ufes; Hugo Bolsoni Zago, Hugo José Gonçalves dos Santos Junior, especialistas em Entomologia do CCA; Ulysses Vianna Rodrigues, Leandro Pin Dalvi, especialistas em Produção Vegetal do CCA; Daniel Rinaldo, Adilson Vidal Costa, Patrícia Fontes Pinheiro, Vagner Tebaldi de Queiroz, especialistas em Química do CCA; Edvaldo Fialho dos Reis, especialista em Recursos hídricos do CCA; José Vargas de Oliveira, Jorge Braz Torres, especialistas em Entomologia da UFRPE; Hélcio Costa, Maurício José Fornazier, Davi dos

rastreabilidade dos produtos, também chamada de cadernos de campo, que permite saber a procedência e se está em área de rigoroso controle. Luziani Bestete estuda pragas como a traça do tomateiro (Tuta absoluta) que deposita uma lagarta que se alimenta do tomate. Doenças ficam na terra Vinícius Pereira dos Santos é mestrando em Fitossanidade e também integra o grupo do Nudemafi. Santos estuda e seleciona os agrotóxicos menos agressivos que podem ser usados. Ele explica que uma área com tomateiros somente pode ser usada por dois anos, no máximo, podendo ser utilizada por menos tempo. Depois desse período, é recomendado que as áreas sejam utilizadas para o plantio de outras culturas, pois se intensificam a proliferação de pragas e doenças, que nem mesmo os agrotóxicos têm a capacidade de controle. Nos tomateiros é preciso saber usar adequadamente os agrotóxicos. “Esgotados os métodos sustentáveis, entramos com as aplicações de agrotóxicos”, explica. “É preciso saber o tempo certo de uso, a carência ideal e o número de aplicações”, acrescenta.

Santos Martins, José Salazar Zanuncio Junior, especialistas em Entomologia do Incaper; e Anderson Mathias Holtz, especialista em Entomologia do Ifes de Colatina.

Maior laboratório do continente O Nudemafi possui o maior laboratório da América Latina de criação viva da vespa parasita de ovos (Trichogramma) que, ao matar o ovo da praga, ajuda no controle biológico dos tomateiros. Quem coordena o laboratório é a doutoranda Débora Ferreira Mello. No laboratório, o professor Dirceu Pratissoli descobriu uma espécie nova de vespa, que leva o seu nome, a Trichogramma Pratissoli. A doutoranda tem como estudo principal a seleção de espécies e linhagens da coleção de Trichogramma do laboratório para o uso no manejo da broca pequena do tomateiro. Essa praga, atualmente, é combatida somente com o uso de elevadas dosagens de agrotóxicos. “A grande vantagem dessa vespa é que, ao parasitar os ovos, ela evita a eclosão das larvas da broca que perfuram o tomate”, ensina a pesquisadora. No Brasil, a broca é responsável por uma perda média de 45% nos tomateiros.

O Nudemafi é local de pesquisa para alunos como Vinícius Pereira dos Santos, mestrando em Fitossanidade

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PESQUISA

De volta à

ANTÁRTICA Maíra Mendonça

Equipe de pesquisadores da Ufes é a única na América Latina a desenvolver estudos em tecnologia de edificações no Continente. A nova base brasileira na Antártica será construída a partir de parâmetros definidos por pesquisadores da Universidade 20

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U

m grupo de 20 de pesquisadores da Ufes é o único na América Latina a realizar pesquisas científicas na área de tecnologia de edificações na Estação Antártica Comandante Ferraz (EAFC), base brasileira, localizada na Antártica. A equipe, composta por professores e alunos de iniciação científica, mestrandos e doutorandos das áreas de Arquitetura, Desenho Industrial, Engenharia Elétrica, Civil e Ambiental, forma uma rede de estudos ligada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Antártica (INCT-APA) e ao Programa Antártico Brasileiro, o Proantar. Os cerca de dez anos de conhecimentos acumulados em pesquisas habilitaram a Ufes como a instituição responsável por estabelecer os prin-


Pesquisadores no Continente Antártico, e, acima à direita, a professora da Ufes Cristina Engel Alvarez

cipais parâmetros técnicos do concurso “Estação Antártica Comandante Ferraz”, que selecionará um projeto para a reconstrução da Estação Científica Brasileira na Antártica, destruída por um incêndio em fevereiro de 2012. Liderados pela professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo Cristina Engel de Alvarez, professores da Ufes elaboraram o termo de referência do edital publicado no dia 28 de janeiro, contando também com a participação de outras instituições como a Marinha do Brasil, a Petrobras e a Universidade Federal de Santa Catarina. O edital foi divulgado no dia 28 de janeiro deste ano e está disponível no site concursoestacaoantartica.iab.org.br. O concurso é realizado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e pela Marinha do Brasil, e oferece como prêmio a assinatura de um contrato de cerca de R$ 5 milhões, para que o arquiteto vencedor desenvolva o trabalho até a etapa de projeto executivo da nova estação. Professores da Ufes acompanharão todas as fases do concurso e farão três avaliações do trabalho vencedor ao longo do seu desenvolvimento.

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PESQUISA

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Cristina ressalta que os conceitos fundamentais a serem levados em conta no projeto são o mínimo impacto ambiental, a segurança, o conforto e eficiência da estação e a inovação tecnológica. “O que se espera é que a Estação seja cada vez mais eficiente, do pronto de vista tecnológico e ambiental”, explica Cristina. A expectativa é que a equipe contemplada desenvolva o projeto executivo até o final deste ano, quando deve ser lançada a licitação para a obra, que deve começar no verão de 2014/2015.

História e recomeço O início da história do grupo de pesquisa pode ser datado de 1984, quando a professora Cristina ainda cursava Arquitetura na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul, e se preparava para fazer um intercâmbio em Moçambique, na África. Motivada por uma discussão entre alunos, a então estudante decidiu realizar um seu trabalho final de graduação sobre edificações para a Antártica. Com esse trabalho ela ganhou, em 1986, o concurso nacional do Projeto Rondon e em fevereiro de 1987, já graduada, foi à Antártica pela primeira vez. A partir daí foi contratada como pesquisadora, desligando-se do projeto em 1993, quando fez concurso público e passou a atuar como professora e pesquisadora na Ufes, onde começou a desenvolver trabalhos em outras áreas inóspitas: as ilhas oceânicas brasileiras. Em 2001, ela retomou o projeto da Antártica, e a equipe começou a se consolidar até reunir toda a experiência que tem hoje. Apesar do incêndio ocorrido na Estação Antártica Comandante Ferraz, a maior parte das pesquisas não foram perdidas e agora os esforços se concentram na elaboração de projetos para a reconstrução da base brasileira. Enquanto isso, passa a funcionar uma estação provisória, uma espécie de acampamento avançado, com previsão para durar cinco anos, que servirá de alojamento e apoio logístico para até 65 pessoas, entre militares e pesquisadores, visando principalmente garantir a continuidade dos experimentos científicos. Formação Embora os resultados das pesquisas na Antártica sejam de grande utilidade para a sociedade e sirvam também como base para novas pesquisas, a professora Cristina destaca que o principal objetivo do grupo é o de cumprir o papel para o qual a Universidade se propõe: o de formar profissionais. “O que eu formei de pessoas, que vão formar outras pessoas e que vão multiplicar uma ideia tem muito mais valor do que qualquer outra coisa”, afirma ela. Mariana Roldi de Oliveira cursa o sexto período de Arquitetura e Urbanismo e há um ano e meio é bolsista de iniciação científica do Arquiantar. “O projeto de pesquisas antárticas abre horizontes. Por ser um lugar incomum, o profissional que souber projetar para a Antártica estará preparado para projetar em qualquer lugar. Além disso, o trabalho permite estabelecer contato e relações com pessoas de diferentes instituições e formações, ampliando ainda mais o leque de conhecimento e relações interpessoais, destaca a bolsista.

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PESQUISA

A Estação A Estação Antártica Comandante Ferraz foi criada em 1984 e está localizada na Ilha Rei George, a 130 km da Península Antártica. Hoje está funcionando em instalações provisórias, uma vez que a edificação principal danificada pelo incêndio foi desmontada. A Estação funciona como um centro de pesquisa científica para técnicos, militares, civis e pesquisadores. Seu nome é uma homenagem a Luís Antônio de Carvalho Ferraz, comandante da Marinha, hidrógrafo e oceanógrafo que incentivou o desenvolvimento do Proantar. Mas, afinal, qual a importância de realizar estudos nesse lugar? De acordo com os dados do Proantar, esse Continente exerce um papel fundamental sobre a regulação dos sistemas naturais globais, atuando como o principal regulador térmico do planeta e controlando as circulações atmosféricas e oceânicas. A região detém as maiores reservas de gelo (90%), água doce (70%) e recursos minerais, como gás e petróleo. Portanto, a realização de pesquisas na Antártica serve para entender o próprio funcionamento da Terra, uma vez que as mudanças lá ocorridas se refletem em todo o mundo. Em 1975, o Brasil aderiu ao Tratado da Antártica, que busca dividir o Continente entre os países para a realização de pesquisas científicas, e, em 1982, surgiu o Proantar. Desde então, o País vem realizando estudos na região austral do Continente.

A Estação Antártica Comandante Ferraz, atingida por um incêndio em 2012, está localizada na Ilha Rei George, a 130 km da Península Antártica

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Outras pesquisas As pesquisas e projetos realizados pela professora Cristina Engel de Alvarez na Antártica permitiram o desenvolvimento de trabalhos em ilhas oceânicas brasileiras pelos alunos e professores que integram o Laboratório de Planejamento e Projetos do Centro de Artes da Ufes. O grupo já promoveu intervenções em lugares como o Atol das Rocas, Ilha da Trindade, Fernando de Noronha e o Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Nesses lugares as edificações construídas pela equipe da Ufes agregam um requisito fundamental: a preocupação com a segurança e com a diminuição dos impactos ambientais. Além disso, o Laboratório, que reúne cerca de 30 pesquisadores entre alunos e professores, tam-

bém realiza projetos de extensão, como a construção de um parque municipal no Morro Marista, em Vila Velha-ES, e a elaboração do Plano Diretor-Físico da Ufes, que disciplina a ocupação física dos quatro campi, além de desenvolver alguns projetos de edificações nos campi de Goiabeiras, Maruípe, Alegre e São Mateus, os dois primeiros localizados em Vitória e os dois últimos no sul e no norte do Espírito Santo respectivamente. Também são desenvolvidos estudos individuais por oito mestrandos e três doutorandos. Parte dos recursos arrecadados com os projetos de pesquisa e de extensão são utilizados para custear o trabalho sobre e na Antártica. . UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Jan/Abr 2013

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ENTREVISTA

morte

“A companheira que me convida a viver” Emília Manente

O poeta português Fernando Pessoa escreveu: “a morte é a curva da estrada. Morrer é só não ser visto”. Para entendermos um pouco sobre “essa curva da estrada” de que fala Pessoa, conversamos com um seu quase homônimo, o professor de Filosofia da Ufes Fernando Mendes Pessoa. O Fernando daqui nasceu no Rio de Janeiro e começou a vida acadêmica estudando Psicologia, curso que abandonou no segundo ano, graduando-se em Ciências Sociais. Fez dois mestrados, em Comunicação e Filosofia, doutorado e pós-doutorado em Filosofia, e, desde 1993, é professor do Departamento de Filosofia da Ufes. Do mestrado até o pós-doutorado os seus estudos se concentram em Martin Heidegger, o filósofo alemão que se tornou mais conhecido após a publicação, em 1927, do livro “Ser e tempo”, obra na qual analisa a morte humana como um caminho para a descoberta do ser. E foi sobre Heidegger e a morte, passando pela finitude humana e infinitude divina, e, principalmente, sobre a vida, que Fernando Mendes Pessoa conversou com a revista Universidade. Uma síntese do que pensa o filósofo você confere a seguir.

Por que estudar Heidegger? Eu acho que não há como fazer Filosofia hoje em dia sem estudar Heidegger, pois ele faz uma ruptura com toda a tradição filosófica. A Filosofia era uma coisa antes dele e passou a ser outra coisa depois dele. Você pode nem concordar com a crítica que ele faz, mas tem de compreender essa crítica até para discordar dela. A Filosofia queria ser uma ciência. Na mo-

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dernidade ela veio se constituindo como um sistema que visa à compreensão objetiva do real. E com isso ela foi se tornando cada vez mais acadêmica, mais teórica, mais conceitual. Mas a Filosofia não é uma doutrina, ela é sempre uma tarefa. E Heidegger vai fazer uma crítica a todo esse procedimento filosófico, trazendo a questão filosófica para a existência, para a questão da morte, da angústia.


O pensamento de Heidegger conduz o homem não para um âmbito teórico, mas para um desafio existencial. Por isso, sempre falo para os meus alunos: nós vamos estudar Heidegger, portanto a nossa questão não é acadêmica, fazer prova, passar de ano. Nossa questão é existencial. O objetivo desse curso é promover com este estudo uma transformação de nossa compreensão de ser. O ser Heidegger é um pensador que faz uma crítica a toda tradição filosófica, que, segundo ele, substancializou o ser. Ao pensar o ser como essência, ele acabou sendo concebido como aquilo que é eterno, a substância; o que não nasce nem perece, sendo sempre idêntico a si mesmo. Mas, ao contrário de um ente eterno, Heidegger quer mostrar que o ser não é, pois tudo o que é, é ente. Tudo o que é, é coisa, uma realidade. O ser não é coisa nenhuma. O ser se dá em tudo o que é, mas ele enquanto tal é uma vigência, é um aberto, é a possibilidade dos entes serem. Então o ser é a pura manifestação da realidade, sua temporalização. O ser não é um ente pela condição de finitude temporal da existência, pela morte. Hoje em dia nós homens modernos vivemos numa crise, numa decadência, que é não compreender mais o sentido de ser. Por que nós somos? Qual é o sentido do mundo? Por que estamos vivos? Qual o sentido do casamento? Qual o sentido do filho, do pai, do amigo? Heidegger diz que essa descompreensão é o produto do esquecimento do ser. Por isso, é necessário, nesse império de esquecimento, recolocar a questão do ser, mas em um novo horizonte: para que o homem deixe de se compreender como sujeito, conforme ele veio a se compreender a partir da modernidade, e se compreenda como finitude, existência. A morte e a finitude A morte é minha companheira que me convida a viver, ela exige que eu não adie meus planos. Ela é a nossa instância ao mesmo tempo intransponível, intransferível e certa, porém indeterminada. Para Heidegger, a morte é o fundamento da finitude. A infinitude seria o eterno, o que é para sempre, o que não morre, o que permanece sempre igual a si mesmo: Deus. O contrário disso é o finito, que é marcado pelo tempo e não tem eternidade. E Heidegger diz que essa é a nossa condição. Não querer ser finito,

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ENTREVISTA

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não aceitar a nossa condição mortal, é rebeldia. O que estabelece a finitude e o que dá essa constituição ao homem é o fato de ele ser mortal: ao contrário dos Deuses, que são eternos, o homem morre. Assim como a vida não é o que acontece quando nascemos, a morte também não é o que acontece quando falecemos. Vida e morte são uma tensão de ser e não ser entre nascimento e falecimento. Morte não é falecimento. A morte é o assumir a nossa condição finita. E assumindo a nossa condição finita, saber que a gente precisa se esforçar para vir a ser, de novo, o que somos. Beethoven compôs a Quinta Sinfonia. Depois disso, ele poderia achar que não precisava fazer mais nada, como se o seu ser estivesse pronto, acabado. Mas não, ele sabia que, para tornar-se músico, o músico que ele foi, precisava ainda compor a sexta, a sétima, a oitava e a nona sinfonias, pois a vida só termina quando acaba. Heidegger fala o seguinte: só o homem morre. Os animais fenecem, chegam ao fim. Por isso só os homens são mortais. Mas nós homens somos mortais não porque morremos e sim porque sabemos que vamos morrer antes de morrermos. Essa é a angústia do homem, o que o impõe ter que vir a ser o seu próprio ser.

Heidegger diz é que a morte nos clama à vida. A compreensão da morte é um fator que nos exige uma responsabilidade para com a existência, pois sabemos, diante da morte, que, se nós não fizermos o que precisamos fazer para sermos o que somos, ninguém vai fazer, não vamos ser. Assim, a angústia é uma disposição que nos retira dessa lida impessoal com nosso ser.

A angústia como libertação Para Heidegger, a angústia é uma relação com o nada da existência. Ele faz uma distinção entre angústia e medo e fala que o medo possui sempre um referencial a algo. Já a angústia não tem referencial determinado. Ela nos restitui uma tarefa própria, que precisamos cumprir para sermos o que somos. Geralmente a gente não quer saber dela, pois essa tarefa nos promove angústia. Mas, para Heidegger, a angústia liberta, ela possibilita a apropriação existencial do homem. Como a vida não está dada, pronta, o homem tem que construir a sua vida assumindo-a. Para Heidegger, assumir significa: “ser para a morte”. E assumir essa condição existencial é assumir a finitude, é assumir, em última instância, não o falecimento, mas a morte. “A morte é a possibilidade da impossibilidade de toda a possibilidade”. A imortalidade é a grande ilusão do homem moderno. Mas ele sabe que isso é uma fantasia, que ele adia a apropriação de seu ser para justificar o esquecimento. Com isso, ele posterga tanto a morte, quanto a responsabilidade pela sua vida. O que

A existência Para o pensamento de Heidegger, essas questões que hoje em dia são vistas como tão bobas, como caráter, verdade, dignidade, ética, tudo isso se torna importante. Não em um sentido moralista, careta, mas num sentido de consumar a existência. A existência é esse presente que a gente não pode ficar bobeando, adiando – precisamos nos apropriar do que somos.

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Liberdade Heidegger tem uma compreensão de que a liberdade é um movimento duplo, um negativo e outro positivo. A liberdade negativa é a independência, o “ser livre de”, necessário mas não suficiente para a total liberdade do homem, pois quando temos somente independência, apenas o horizonte aberto do possível, a gente não vem a ser nada; aquele que pode tudo, ainda não realizou nada. Sendo “livre de”, eu preciso agora ser “livre para”, e essa é a liberdade positiva, que engendra destino. Cada um precisa focar o horizonte existencial do possível na realização do que é necessário: ser músico, professor, cientista, jogador de futebol... A possibilidade da existência precisa ser realizada pela necessidade do destino.

A arte Uma frase famosa de Heidegger é: “A linguagem é a casa do ser”. E os poetas são os guardiões dessa casa do ser. É muito importante que o mundo contemporâneo, marcado fundamentalmente pela tecnologia, estabeleça um diálogo com a arte, para que o homem possa retomar o sentido existencial de seu ser. O real é afeto Nietzsche vai ser o primeiro pensador a fazer uma crítica ao pensamento tradicional, retomando o afeto como uma questão fundamental do pensa-


mento. E Heidegger vai ser o herdeiro dessa crítica. Para eles, afeto não é essa coisa psicológica, subjetiva, individual. A mesma realidade se manifesta de um jeito para quem ama e de outro jeito para quem odeia. Então, não existe a realidade em si e depois a interpretação pelo amor ou pelo ódio. A realidade já se manifesta sempre no amor, no ódio, na angústia, no medo, no tédio, porque o real é afeto. O cuidado Não é o homem quem domina, quem tem a posse e é senhor da natureza, da realidade, tal como propõe o projeto moderno. Mas, pelo contrário, o homem tem que cuidar da realidade. Heidegger diz que o homem não é o “Senhor da Terra”, mas “o pastor do ser”, aquele que precisa reunir aquilo cuja tendência é se dispersar. Ele fala que nós não temos o controle sobre nós mesmos, sobre a realidade. Por isso, precisamos cuidar do que somos. Heidegger caracteriza essa nossa essência existencial como cura (Sorge), mas não no sentido de remediar, sarar. Pelo fato de sermos mortais, precisamos cuidar o tempo todo de nossa existência, essa condição perfaz a nossa essência como cura. A modernidade e as tecnologias A modernidade tem uma compreensão individualizante do homem, de que a liberdade de um termina onde a do outro começa. Pois, se é assim, nós não temos uma vivência comum de liberdade. Nós estamos confinados a um isolamento, pois, se a minha liberdade termina onde a do outro começa, só podemos ser livres individualmente. A liberdade passa a ser o se dar bem, obter poder individual. Essa é uma ideia equivocada de homem. O homem está decaído nos entes, por isso ele só quer ter. Pois acha que com esse domínio material ele tem um controle existencial, o que é um grande engodo. A finitude, que é a morte, gera uma angústia. E o homem não suporta angústia. Então, ele quer tamponar essa angústia, esse buraco, essa falta, criando tecnologias, novos produtos. E Heidegger faz uma crítica a essa pretensão de eternidade do homem, a essa necessidade de domínio, de asseguramento, tentando reconduzi-lo para a finitude. Heidegger fala uma coisa muito interessante: a gente acha que a tecnologia é um meio para fins utilitários do homem. E ele diz que isso é balela. O homem não é senhor da técnica. Pelo contrário.

A técnica é quem assenhora o homem. Os desenvolvimentos tecnológicos não são orientados por uma necessidade existencial, vital do homem e da terra. Eles são ditados por necessidades tecnológicas. Heidegger diz que a técnica, enquanto tecnologia, disponibiliza o real como matéria-prima e o homem como mão-de-obra. Ou seja, ela já coloca o real na perspectiva da produção. Isso para ele é produzido por um esquecimento de ser. O luto O luto é um sentimento de perda. Tudo na vida, por mais que as coisas estejam equivocadas, sempre tem uma forma de você cuidar, dar um jeito. Mas, como a morte é “a possibilidade da impossibilidade de toda a possibilidade”, quando ela se realiza, cessa a possibilidade da cura, a vida acaba. Fica então o sentimento de perda: não há mais a possibilidade de ser, a existência: “eu nunca mais verei aquela pessoa”. Portanto, há a morte para o outro e a morte para si, que são diferentes. A gente lida muito com a morte do outro e tende a esquecer a nossa morte. Suicídio e ansiolíticos Acho que o suicídio é análogo ao ansiolítico. Ambos provêm do não suportar a condição de angústia, a finitude e aí apelar ou para a alienação anestésica ou para a desistência existencial. Eu acho que é covardia, tanto um quanto o outro, no sentido de buscarem facilitar a tarefa da vida, uma fuga existencial. Como Sartre diz: nós somos condenados à liberdade. Sim, a existência é esse ser fora de quem foi expulso do paraíso. Comer o pão com o suor de nossa testa é a nossa liberdade e a nossa miséria. Depende se a gente assume essa tarefa, vindo a ser com gosto o que somos, ou se não suportamos essa nossa condição. O convite à vida O destino, para Heidegger, é um chamado para você vir a ser o que o plenifica. E a morte, para ele, tem o sentido de vida. Ela é a plenificação da existência, a sua consumação. Existencialmente, morrer é se entregar para o que você é e ser todo, sem querer se poupar, sem querer se guardar para amanhã. A finitude não está relacionada à idade. A qualquer momento a gente pode deixar de ser, por isso devemos ser sempre plenamente o que somos.

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e d u ca ç ã o

Educação especial Observatório Estadual contribui para a melhoria do ensino a crianças com necessidades especiais

Garantir a inclusão social e cultural de crianças com necessidades especiais a partir de pesquisas que auxiliem na construção e no aperfeiçoamento de políticas públicas voltadas para esse público. Essa é a principal função do Observatório Estadual de Educação Especial, coordenado pelas professoras do Departamento de Pedagogia do Centro de Educação da Ufes Denise Meyrelles de Jesus e Sônia Lopes Victor, e por Águida Gonçalves, do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes). Desde 2011, o grupo de pesquisa realiza um trabalho com 125 professores de escolas municipais e estaduais no Estado, a fim de verificar o desenvolvimento das atividades voltadas para a educação especial em escolas comuns, auxiliando, inclusive, na formação desses profissionais. Esse grupo de pesquisa, composto também por quatro alunos de graduação e 12 de pós-graduação em Pedagogia, faz parte do Observatório Nacional de Educação Especial criado em 2010, que reúne 23 programas de pós-graduação de 17 Estados brasileiros. Seus estudos se concentram na análise do funcionamento das Salas de Recursos Multifuncionais, que fornecem o apoio necessário às crianças com necessidades especiais, a fim de aumentar

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o seu potencial de aprendizado dentro das salas de aula. O objetivo é conhecer o que acontece nessas salas a partir da discussão e da troca de experiências entre os professores que nelas atuam, fomentando os debates de questões que eles observam em seu próprio cotidiano de trabalho. Para tanto, a pesquisa tem dois focos de análise: um na Região Metropolitana – formada por Vitória, Vila Velha, Cariacica, Serra, Fundão, Viana e Guarapari –, que possui 80 professores trabalhando em salas multifuncionais; e outro na região Norte do Estado, que inclui os municípios de Linhares, São Mateus, Nova Venécia, Sooretama e Alto Rio Novo, e possui 45 professores. Desafios As discussões são feitas em torno de quatro pontos principais: a forma com que a política nacional de atendimento especializado é implantada nos municípios; a formação de professores especializados; a definição do público-alvo do atendimento especializado; e a dinâmica dessas salas, incluindo sua relação com a sala de aula comum, visto que ambas devem atuar de modo articulado. “Um dos principais desafios do projeto é definir como o aluno é avalia-


Acima, sala de recursos multifuncionais do Cmei Jacyntha Ferreira de Souza Simões, em Goiabeiras, Vitória. Ao lado, as coordenadoras do Observatório no Espírito Santo

do, não só para se constituir como público-alvo da educação especial, mas também como garantir que o atendimento especializado seja realmente uma forma de apoio ao aprendizado em sala de aula”, afirma a coordenadora do projeto, a professora Denise Meyrelles de Jesus. As crianças que necessitam de atendimento especializado são aquelas com deficiências físicas, intelectuais ou sensoriais; transtornos globais do desenvolvimento, como autismo e psicoses ou alunos com altas habilidades, os superdotados. Cada uma delas possui diferentes necessidades cognitivas, intelectuais e de convivência. Em função disso, as Salas de Recursos Multifuncionais surgiram como uma política nacional de atendimento especializado em 2007, e já são 51 mil em todo o País. Segundo a professora Denise, embora esse seja um número significativo, há um problema de desigualdade na distribuição, pois elas se concentram mais nos centros, fazendo com que crianças de regiões periféricas

e do interior enfrentem problemas para utilizá-las. Entretanto, Denise afirma que, embora haja uma vontade dos professores especialistas na área de ampliar os espaços de diálogo em torno do tema, o principal desafio do Observatório Estadual de Educação Especial é contribuir para levar essa discussão para todo o espaço escolar, que inclui os demais professores, os pais e os alunos, criando assim uma atitude de aceitação, que possibilite a real inclusão de crianças especiais. “Isso é parte de um processo de inclusão social muito maior, do qual um dos aspectos é a inserção escolar, responsável por garantir a esses alunos o direito ao acesso, à permanência e à aprendizagem com qualidade”, pontua a professora.

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Movimento dos barcos Luiz Vital

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O

litoral do Espírito Santo – com suas rochas e falésias ao sul; enseadas, ilhas e baías ao centro; dunas e vegetação nativa ao norte – se estende por 411 quilômetros e percorre 15 municípios. Fonte de inspiração de artistas e povoado por diferentes etnias, o litoral capixaba também concentra uma importante atividade econômica – a pesca. São cerca de três mil embarcações e 16,5 mil pescadores profissionais, com uma produção anual em torno de 21 mil toneladas de peixes. E é nesta faixa do Atlântico, que corresponde a 5% do litoral brasileiro, que pesquisadores da Ufes estão desenvolvendo uma pesquisa inédita por meio do Programa de Estatística Pesqueira do Espírito Santo. Trata-se de uma cooperação entre a Ufes e o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). A pesquisa objetiva mapear as potencialidades pesqueiras no Estado e disponibilizar um rico banco de informações a partir do monitoramento de 22 dos 43 portos de desembarque de pescado; de Marobá, em Presidente Kennedy, extremo sul do Estado, a Conceição da Barra, ao norte. Atuam no Laboratório de Estatística Pesqueira do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), da Ufes, no campus de São Mateus, 35 pessoas, entre pesquisadores, coletores de informações, digitadores e técnicos. O coordenador da pesquisa, o professor Maurício Hostim Silva, adianta que no início de 2013 será publicado o relatório estatístico com os primeiros dados do programa.

Pesquisa desenvolvida no Ceunes/Ufes monitora a pesca no litoral capixaba e prepara o primeiro relatório estatístico com o objetivo de ordenar o setor para o aumento da produtividade com equilíbrio ambiental

Técnicas genuínas O supervisor técnico da pesquisa, o oceanógrafo Guilherme Scheidt, explica que ela possui uma metodologia específica desenvolvida em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cujo formato poderá ser replicado para todo o País. Ele observa que o programa vai apresentar um valioso conjunto de informações sobre a atividade pesqueira no Estado. “Fazemos uma média de três mil entrevistas por mês com os pescadores, assim que eles chegam ao desembarque”, assinala. “Temos um volume significativo de informações que nos permite o acesso a dados sobre a pesca, com mapas especializados e detalhados sobre a produção”, completa. “Nossa meta é gerar informações para diferentes públicos”, acrescenta. Por meio da pesquisa, o Espírito Santo poderá ter uma participação maior no mapa nacional e internacional da pesca. A produção pesqueira em Itaipava, no sul do Estado, por exemplo, eleva o litoral capixaba ao posto de maior produtor de atum do Brasil. “A frota de Itaipava é conhecida internacionalmente”, observa. Segundo Scheidt, o Estado exporta espécies como dourado, badejo e cioba, além do atum, que são peixes de elevado valor agregado e muito apreciados pelos consumidores. O pesquisador ressalta que, no Espírito Santo, os profissionais do ramo desenvolveram técnicas genuínas de pesca por meio de linha e anzol.

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Maurício Hostim da Silva “Desenvolvimento econômico com equilíbrio ambiental”

O Programa de Estatística Pesqueira vai apontar soluções para o setor? A proposta é subsidiar o desenvolvimento de tecnologias de captura para que o Estado aumente a sua produção. Em relação ao atum, já estamos mais avançados, mas podemos crescer em produtividade. Por exemplo, hoje são usadas iscas naturais como manjubas e sardinhas, que às vezes faltam. Então, um desafio é ter iscas alternativas para melhorar o rendimento, além da formação de recursos humanos para atuar no setor, que é outra necessidade. Precisamos avançar na direção de um ordenamento da pesca no Estado, dada a sua relevância para a economia local. A pesquisa tem importância para o desenvolvimento do Estado? É importante sim, porque a Ufes vai gerar informações que poderão ser utilizadas de modo estratégico no desenvolvimento do Espírito Santo, oferecendo subsídios sobre a área marinha e costeira, visando a diretrizes de investimentos em diferentes setores. O complexo portuário do Estado, por exemplo, poderá receber dados relevantes

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para que esta atividade reduza os impactos em comunidades pesqueiras, e se estabeleça uma relação sustentável. Petróleo e portos afetam a pesca? Sim, e existe uma preocupação nestes dois setores sobre como reduzir essa influência. E, neste aspecto, poderemos orientar, por exemplo, sobre as áreas vulneráveis e contribuir para o desenvolvimento econômico com equilíbrio ambiental. Então a questão ambiental está associada à pesquisa? O monitoramento nos permite enfrentar desafios ambientais com mais segurança, como em relação às espécies ameaçadas e sobre os ciclos reprodutivos da lagosta e do camarão, por exemplo. Poderemos em breve subsidiar a elaboração de políticas públicas voltadas para a proteção e conservação dos recursos vivos, orientando sobre o tamanho mínimo de captura e os instrumentos mais adequados de pesca. O nosso primeiro relatório será o ponto de partida para um histórico da área, para então trabalharmos com perspectivas de longo prazo.


Quais espécies importantes povoam o mar do Espírito Santo? O camarão é muito importante, principalmente no norte. Mas temos peixes como o cherne, badejo, garoupa, dentão, vermelho, cioba, entre outros, todos de alto valor agregado e de ótima receptividade no mercado. O Estado terá um mapa detalhado da pesca? O nosso objetivo maior é identificar o que se está pescando em nosso litoral, e onde se está pescando. A nossa proposta é o Estado ter um mapa de toda a cadeia produtiva e quanto isto está gerando. O programa é resultado somente do convênio com o MPA? A meta é transformar o programa em patrimônio do Espírito Santo, sendo um núcleo importante de desenvolvimento de pesquisa científica e tecnológica na área da pesca. Queremos ser uma referência nacional, mantido pelo Estado, como ocorre em Santa Catarina e São Paulo. Além da parceria com o MPA, estamos dialogando com outros setores como a Petrobras. Também já apresentamos o programa à Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia, que ficou sensibilizada quanto à importância do programa. No início, a pesquisa estava direcionada somente para o monitoramento do atum. Sim. Itaipava, maior produtor, foi o nosso carro-chefe. Começamos o programa levantando informações científicas para a Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT),

para o manejo sustentável e economicamente eficiente da produção de diferentes espécies de atum, em que o Estado está entre os principais produtores do País. Inevitavelmente, porém, passamos a ter contato com a diversidade de espécies de peixe no litoral capixaba, o que nos fez ampliar o programa. Com essa abrangência maior, poderemos saber do que as diferentes espécies se alimentam, o período de reprodução, a densidade por metro quadrado; enfim, estamos com uma proposta maior. Com essa abrangência maior é possível ter informações que não estavam no plano inicial? Sim. Descobrimos, por exemplo, que o Estado é um grande produtor de peixes ornamentais. É um mercado muito interessante e que gera divisas para o Espírito Santo. Para se ter ideia, um único peixe de uma espécie pode custar em torno de R$ 300,00. A aquariofilia desperta a paixão por peixes de um público muito grande no mercado internacional, e somos grandes produtores, com muito potencial, embora ainda não tenhamos estudos consistentes nessa área. O programa caminha para ser uma referência nacional nessa área? O nosso programa já pode ser considerado uma das três referências do País em termos de estudo e análise da pesca. As principais referências são a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina; e o Instituto de Pesca de São Paulo, que são duas importantes instituições de pesquisa nesta área. Mas o nosso programa na Ufes está caminhando para assumir uma posição de destaque.

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p esquisa

Pesquisa busca ordenamento da atividade

O Programa da Ufes de Monitoramento Pesqueiro objetiva o levantamento de dados, busca o conhecimento dos padrões de distribuição espacial e temporal, do esforço de pesca, das espécies capturadas e dos rendimentos, para se avaliar o impacto da pesca sobre os recursos, e estabelece diretrizes que resultem no ordenamento adequado à atividade. São 22 portos de desembarque de pescados monitorados pelo programa. Na região Norte, estão os portos de Conceição da Barra, Barra Nova, Barra Seca e Regência; na região Sul, os portos de Perocão, Itaipava, Pontal do Itapemirim, Barra do Itapemirim, Marobá, Anchieta, Piúma e Guarapari; e, na região central, os de Barra do Riacho, Barra do Sahy, Santa Cruz, Nova Almeida, Jacaraípe, Manguinhos, Carapebus, Praia do Canto, Praia do Suá e Prainha. No Laboratório de Estatística Pesqueira do Ceunes/Ufes, os pesquisadores acompanham, diariamente, os levantamentos realizados em toda a costa capixaba. A oceanógrafa Damiane Silvestre Coelho explica que os 22 coletores utilizam planilhas em todos os desembarques, onde somente os mestres das embarcações repassam as informações. Eles registram o peso do pescado, as espécies capturadas, os tipos de artefatos utilizados na pesca, a quantidade de combustível usada na embarcação, a área navegada, o tempo de pesca, o número de pescadores, entre outras. Inseridos na comunidade São informações bem detalhadas que posteriormente são organizadas, digitadas e armazenadas no banco de dados do programa, que é desenvolvido pelos coordenadores de tecnologia da informação, os estudantes Hédrich Colona e Camila Calazans, do Ceunes. O biólogo Joelson Musiello

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Fernandes relata que os coletores do programa são escolhidos pela comunidade de pescadores onde eles vão atuar, e que são remunerados e têm carteira de trabalho assinada. “O coletor de dados precisa ser alguém que já esteja inserido na comunidade e que tenha a confiança dela”, ressalta Fernandes. A oceanógrafa Andréia Schwingel estuda as espécies, as formas e os períodos de captura. “Para o dourado, por exemplo, a frota é dirigida entre os meses de novembro e dezembro”, explica. “Neste período, os pescadores se dedicam exclusivamente à pesca do dourado”, completa. Ela conta que existem as pescas associadas. Ou seja, o pescador sai para capturar determinada espécie e acaba pescando outras também. Segundo ela, na pesca da vaquara (atum pequeno), captura-se grande quantidade do peixe bonito, de alto valor comercial. A pesquisa já revela aspectos importantes para o ordenamento da pesca local. Por exemplo, no sul e na região central, os pescadores realizam pescas de vários dias; enquanto no norte predomina a pesca de um dia. Outro aspecto constatado é que no sul o setor é mais profissionalizado, enquanto no norte ainda há maior atividade artesanal. No Espírito Santo existem dezenas de portos, muitos dos quais sem capacidade de armazenamento. “Tanto assim que a maior parte dos congelados vem de fora do Estado”, observa. “Em Santa Catarina, por exemplo, existem dois ou três grandes portos com boas condições de infraestrutura, enquanto no Estado são dezenas de pequenos portos sem a necessária capacidade operacional”, destaca a pesquisadora. As estudantes de Biologia Gabriela Cesquine e Flora Zauli também participam do programa. Elas se dedicam aos estudos sobre o camarão.


“Para que o peixe nunca falte” Claudinéia Sacramento Ramos, 37 anos, é coletora de informações no porto de desembarque de Conceição da Barra, norte do Estado. Membro da comunidade de pescadores local, Claudinéia é determinada e entusiasmada com o trabalho. Diariamente ela vai para o porto acompanhar o desembarque e entrevistar os mestres. Os pesquisadores elogiam o seu desempenho e dizem que, muitas vezes, ela coleta informações adicionais importantes que nem sequer constam da planilha de entrevista. “Eu tenho muita esperança que este trabalho traga resultados muito positivos para a pesca, e principalmente para a melhoria da qualidade vida e de trabalho dos pescadores”, comenta. Claudinéia sabe o que diz; afinal, ela mesma era pescadora antes de entrar para o programa. “Toda a minha família vive da pesca, os pais, os irmãos, todos os nossos amigos. Neste trabalho me sinto em casa”, salienta a coletora. Benedito Porto, presidente da Associação dos Camaroeiros e Maricultores de Conceição da Barra, reforça o que diz Claudinéia e vai além. “As empresas não vão profissionalizar e investir no setor sem dispor de informações precisas sobre onde estão entrando; e, para isto, o programa da Ufes poderá ajudar muito”, observa, com simplicidade. “Falta incentivo do poder público”, arremata. “A pesquisa também vai ajudar muito a conscientizar os pescadores quanto à preservação do meio ambiente, para que o peixe nunca falte”, destaca.

A pesca do dourado também é monitorada pelos pesquisadores

Claudinéia Sacramento é uma das coletoras de dados da pesquisa

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E X T E N S ÃO

Portas abertas para a

3ª idade Universidade oferece curso de extensão para cerca de 150 pessoas

Os dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que em 2010 havia 20,5 milhões de idosos no Brasil, que representavam 10,8% da população do País. O crescimento contínuo do número de idosos traz cada vez mais à tona uma questão: como garantir maior qualidade de vida e inclusão social a terceira idade? Pensando nisso, há 16 anos a Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati) reúne, semanalmente, cerca de 150 pessoas, que participam de um curso de extensão que inclui a realização de aulas socioculturais. A Unati é coordenada pelo Núcleo de Estudos sobre Envelhecimento e Assessoramento à Pessoa Idosa, do Departamento de Serviço Social da Ufes. Ela oferece aulas nas áreas de educação para o envelhecimento; saúde; corpo e movimento; organização e participação social; dança sênior; atividades de mobilização e oficinas temáticas. Embora o curso tenha duração de dois anos, a coordenadora do programa e professora do Departamento de Serviço Social, Maria das Graças Cunha Gomes, afirma que muitos idosos não deixam de frequentar as aulas mesmo após esse tempo. Por isso, hoje existem pessoas com mais de 90 anos que continuam participando do projeto. Por outro lado, além do auxílio prestado aos idosos, a Unati também é importante para os estudantes de graduação e pós-graduação de Serviço Social, pois possibilita o desenvolvimento de pesquisas científicas nessa área. “No núcleo, a partir das possibilidades de pesquisa, os alunos encontram substâncias, elementos para refletir sobre determinadas questões, de acordo com seu interesse”, diz a professora Maria das Graças. Atualmente, os estudan-

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tes e professores envolvidos no projeto trabalham na construção do perfil dos idosos que procuram a Unati, visando identificar quem eles são e quais as suas necessidades, a fim de complementar, inclusive, a programação do próprio curso. “Às vezes, o profissional que trabalha muito cotidianamente não se atenta para a parte da pesquisa, que é muito importante. E eu levava minha experiência como pesquisadora para ajudar os participantes”, afirma Laiz dos Santos Rodrigues, aluna do 6º período de Serviço Social, que durante um ano foi estagiária da Unati. O grupo de pesquisa O Núcleo de Estudos sobre Envelhecimento e Assessoramento à Pessoa Idosa é composto por 11 estudantes e professores do Departamento de Serviço Social e já publicou 15 artigos de iniciação científica, cinco monografias e cinco dissertações de mestrado publicados. Para a coordenadora do núcleo, Maria das Graças Cunha Gomes, o aumento da população idosa – condicionado, entre outros fatores, pelo aumento da expectativa de vida – é uma tendência no País e exigirá, em um futuro não tão distante, muito mais cuidado por parte dos governos e da sociedade em questões como a melhoria dos sistemas de saúde e de habitação. Nesse sentido, além do trabalho realizado diretamente com os idosos por meio da Unati, a principal função do grupo de pesquisa é sua contribuição para a elaboração de políticas públicas voltadas para os idosos e o estímulo à reflexão por parte da sociedade diante de seu papel de acolher essa população. Para tanto, o grupo participa de fóruns de discussões e ministra reuniões junto ao Conselho do Idoso no Estado. Uma das pesquisas mais relevantes do Núcleo foi o Diagnóstico de Assistência Social para a Pessoa Idosa no Espírito Santo, realizado desde 2010 e concluído no início de 2012, que, a partir de um ques-


Visita dos alunos da Unati ao Museu Solar Monjardim

tionário aplicado em 30 municípios, visava verificar a aplicação da Política Nacional de Assistência Social no Estado, em especial a relacionada aos idosos. Segundo a professora Maria das Graças, ainda há problemas como falta de treinamento e de especialização de profissionais. “Um dos principais resultados é uma mudança quanto à visão da assistência social, que deixou de ser encarada apenas como um benefício, para ser vista como um direito pertinente a todos os cidadãos e que, por isso, tem ganhado bastante visibilidade nos últimos governos”, esclarece ela. O núcleo está realizando atualmente duas pesquisas: o levantamento de reportagens relacionadas à velhice que saem no jornal A Gazeta, a fim de verificar quais os assuntos são mais discutidos, e A Configuração do Estado da Arte na Área do Envelhecimento, que busca mapear a produção científica nacional sobre o tema nos cursos de Serviço Social através de bancos de dados da Capes, do CNPq e do Encontro Nacional de Pesquisadores de Serviço Social. Os frequentadores Tanto tempo de convivência faz com que estudantes e professores que participam da Unati estabeleçam vínculos que vão além da troca de experiências. Os abraços, apertos de mãos ou as conversas informais que surgem na hora do lanche revelam um ambiente saudável, onde todos estão dispostos a dar e a receber atenção. Ana Maria Puppin, 64, é aposentada há mais de 20 anos e há 15 frequenta as aulas da Unati. Mesmo após a aposentadoria, ela não deixou de trabalhar e agora se dedica a participar de dois grupos: o “Amor”, que busca promover melhores condições de saúde e qualidade de vida para as pessoas por meio de visi-

Apresentação do grupo de Dança Sênior no encerramento do semestre letivo –2012/1

tas e arrecadação de fundos para a manutenção de instituições como asilos e creches, e o “Grupo Vida”, dos aposentados do banco Banestes, onde ela trabalhou. “Minha missão é ajudar as pessoas. Às vezes você chega para dar carinho e acaba recebendo carinho”, conta ela. No momento, Ana Maria participa da oficina de memória e diz que as experiências adquiridas nos cursos da Universidade a ajudam a lidar com os trabalhos que ela realiza com os grupos. Já Joana Sebastiana tem 93 anos e participa do projeto desde o seu início graças ao incentivo da filha. Nascida no interior de Minas Gerais, ela não teve, quando jovem, a oportunidade de ser alfabetizada e conta que só aprendeu a escrever o próprio nome para assinar os papéis de seu casamento. “Aqui na Unati eu aprendi a ler e a escrever um pouco. Agora eu vou para um monte de lugares, conheço um monte de coisas. Já fui até para Jerusalém e fiquei lá durante 22 dias”, lembra ela, sorrindo. Martha Riva Manola, 91, participa da Unati há dez anos e afirma ter feito muitas amizades durante esse tempo. “Aqui a gente conhece tantas pessoas, eu amo isso aqui. Em casa a gente só fica bordando e tricotando”, ela diz. Assim como Joana, Martha conta que, por ser mulher, os pais não permitiram que ela estudasse na infância e que através da Unati, ela pôde desenvolver o hábito de ler. Por outro lado, Martha explica que com o avanço da idade ela não tem a mesma saúde e as habilidades que tinha antes e, por isso, atividades como os exercícios de memória que a Unati oferece são muito importantes para retardar o processo de envelhecimento. “Já não sou mais a mesma que eu era no ano passado. Então esses exercícios são muito bons, eles ajudam muito”, afirma a aluna dedicada.

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L a b o rat ó ri o

Vinho

certificado Maíra Mendonça

Dados da Superintendência Federal de Agricultura do Espírito Santo indicam que cerca de 40% dos vinhos importados pelo Brasil chegam através do Porto de Vitória. Para garantir a qualidade das bebidas que entram no País, o Ministério da Agricultura exige dos fabricantes um certificado que ateste as boas condições de consumo dos produtos. Por esse motivo, em 2006 o Laboratório de Análise de Bebidas de Origem Vegetal do Espírito Santo (Labeves) tornou-se o primeiro laboratório do Brasil credenciado pelo Ministério da Agricultura para a realização de tais análises em vinhos e vinagres. Criado inicialmente para atender às demandas do Espírito Santo, atualmente o laboratório atende regiões de todo o País, como, por exemplo, os estados de Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco e Rio de Janeiro. O Labeves faz parte do projeto Ensaios e Análises Laboratoriais, do Instituto de Tecnologia da Ufes, o Itufes. Seu processo de criação teve início em 2004 por meio da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, após o Ministério da Agricultura ter buscado o auxílio

Equipe de pesquisadores do Labeves

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Laboratório da Ufes é o primeiro do Brasil credenciado para certificar a qualidade de vinhos e vinagres importados

da Ufes para a montagem de um laboratório de análises, visto que ele não possuía materiais e técnicos suficientes para emitir os certificados por conta própria. O treinamento para que os técnicos se adequassem aos padrões de análise exigidos pelo Ministério durou até o final de 2005 e, em janeiro de 2006, o Labeves foi credenciado. Os técnicos do Labeves fazem em média 200 análises por mês, chegando a dobrar esse número em certos períodos. O resultado é um total de mais de 15 mil análises realizadas em seis anos. No laboratório são feitos 15 diferentes tipos de


análises, entre elas a verificação dos teores alcoólicos, de açúcar, acidez e densidade dos produtos. De acordo com o diretor superintendente do Itufes e coordenador geral do Labeves, professor Angelo Gil Pezzino Rangel, esses testes, feitos em no máximo sete dias, são realizados para comprovar se as informações dadas pelos produtores em relação às bebidas são verdadeiras. Caso elas estejam corretas, são emitidos os certificados de qualidade. Segundo o professor, é papel das universidades promover esse tipo de serviço não só como uma forma de retribuir os investimentos que recebe da sociedade, mas também como um modo de elevar o nível de conhecimento social. “Quando não há na região um órgão que seja capaz de suprir esse tipo de serviço para a sociedade, é função da universidade realizar o que nós chamamos de serviços tecnológicos, que não são uma simples prestação de serviços, mas sim serviços especializados”, explica o coordenador. Ao todo, nove funcionários trabalham no Labeves: três técnicos em Química e dois estagiários do curso de Farmácia, além do coordenador geral, professor Angelo Gil; o coordenador do laboratório, professor Wolfgang Enrico Riegert; o coordenador administrativo do projeto Ensaios e Análises Laboratoriais, José Sirkis Gottlieb; e a coordenadora de desenvolvimento de projetos, professora Ana Cristina Nascimento Chiaradia. Este último cargo foi criado em setembro do ano passado devido ao aumento do número de consultas e à necessidade de organizar o processo de desenvolvimento do próprio laboratório, uma vez que, a partir do segundo semestre de 2013, o grupo pretende obter a creditação junto ao Inmetro para fazer análises e emitir certificados de destilados alcoólicos, como cachaça, whisky e vodka. Pesquisas O Laboratório de Análise de Bebidas de Origem Vegetal do Espírito Santo possui equipamentos sofisticados, avaliados em aproximadamente 700 mil reais. E, para que toda essa estrutura seja mais bem aproveitada, ele também é utilizado para a realização de pesquisas de alunos de iniciação científica e mestrado dos cursos de Farmácia, Química e Odontologia. O estudo sobre a Aplicação de métodos quimiométricos para a caracterização de vinhos do estado do Espírito Santo, coordenado pela professora do Departamento de Química da Ufes, Rosângela Barthus, é um exemplo de pesquisas desenvolvidas no Labeves desde 2011 com a colaboração do Núcleo de Competências em Química do Petróleo (Labpetro) e do Laboratório de Química Analítica, ambos do Centro de

Ciências Exatas da Ufes. De acordo com a professora Rosângela, o objetivo da pesquisa é a caracterização dos vinhos do Estado a partir de análises que determinam, por exemplo, o índice de metais presentes nas bebidas. Os primeiros resultados foram apresentados este ano na Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química, em São Paulo, e no 12th Rio Symposium on Atomic Spectrometry, no Paraná. Desde de maio de 2012, a equipe do Labeves conta também com a contribuição da enóloga Sônia Aiello, responsável por fazer a análise organoléptica dos vinhos, que está relacionada aos aspectos sensoriais como a cor, o cheiro e o sabor das bebidas. O enólogo é o responsável por estudar todos os aspectos relativos ao vinho, desde o plantio e a colheita das uvas, até a produção, o envelhecimento e a comercialização da bebida. Por isso, segundo o professor Angelo Gil, a partir deste ano, o grupo pretende realizar treinamentos com duração de dois ou três dias para pessoas que desejarem aprender mais sobre análise técnica e paladar dos vinhos.

Testes de qualidade Desde 2008 a qualidade das análises realizadas pelo Labeves vem sendo testada através de sua participação em programas interlaboratoriais, cujo líder é a Rede Metrológica do Rio Grande do Sul, responsável por enviar amostras de bebidas para os laboratórios e avaliar as análises feitas por cada um. Segundo o professor Angelo Gil, os testes feitos até agora comprovam a eficiência do Labeves, visto que todas as análises foram aprovadas. O Labeves também foi um dos primeiros laboratórios a se associar à Rede Capixaba de Metrologia – criada em 2002 sendo que um dos fundadores é o professor Angelo Gil–, participando de atividades de treinamento e programas de qualificação laboratorial liderados por ela.

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PESQUISA

Práticas

inovadoras Laboratório de Estudos em Educação Física promove práticas diferenciadas de ensino

Estimular o desenvolvimento de novas práticas pedagógicas para o ensino da Educação Física nas escolas do Estado. Esse é o principal objetivo do Laboratório de Estudos em Educação Física (Lesef), do Centro de Educação Física e Desportos da Ufes, que reúne cerca de 30 pesquisadores, entre professores do Centro, alunos de iniciação científica, mestrandos, doutorandos e professores de Educação Física já graduados, que desenvolvem estudos em cinco linhas de pesquisa: Educação Física e Saúde; Epistemologia da Educação Física; História da Educação Física e do Esporte; Sociologia das Práticas Corporais; e Teorias Pedagógicas em Educação Física. De acordo com o coordenador do Lesef, professor Valter Bracht, a principal responsabilidade do professor de Educação Física é ensinar seus alunos a se relacionarem de forma crítica com o fenômeno da Cultura Corporal de Movimento, que engloba vários aspectos, entre eles o consumo de produtos voltados para o corpo. “É preciso ensinar as crianças e os adolescentes como consumir produtos para o corpo e a compreender criticamente esse fenômeno para que eles entendam, por exemplo, por que frequentam uma academia”, diz o professor. O Diagnóstico da Educação Física Escolar do Espírito Santo, realizado pelo Lesef em 1998 buscava identificar as principais atividades e o modelo pedagógico utilizado para a implementação da disciplina através do acompanhamento de aulas, de en-

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trevistas com os docentes e da aplicação de questionários para os alunos. Ficou evidenciado nesse estudo que além da prática da Educação Física ainda estar atrelada a um modelo esportivo, voltado somente para os esportes, era possível também observar o fenômeno da “não-aula”, em que muitos professores, em vez de ministrar suas aulas, as deixavam sob o controle dos próprios alunos. A partir do diagnóstico, chegou-se à conclusão que o modelo de educação continuada oferecido pela universidade não estimulava a criação de novas formas de ensino por parte dos professores. Desde então, um dos principais focos de análise dos pesquisadores tem sido a elaboração de um corpo de estudos destinado a fomentar práticas pedagógicas de Educação Física inovadoras. História O Lesef foi criado em 1996 quando as pesquisas no campo da Educação Física começavam a se desenvolver na Ufes. A ideia era produzir um conjunto de conhecimentos que permitissem a elaboração de uma teoria nessa área. Para tanto, buscou-se alicerces em várias áreas de conhecimento, como história e epistemologia da Educação Física, e história do esporte. A criação do laboratório foi estimulada por um movimento denominado Pensamento Pedagógico Renovador da Educação Física, que surgiu na década de 1980 em função


Pesquisas

da necessidade de integrar a Educação Física aos discursos e aos projetos de educação voltados para uma perspectiva de ensino mais humana e mais democrática, já que, naquele momento, o País passava por um período de transição entre o regime militar e a redemocratização. Para um dos orientadores do Lesef, o professor Felipe Quintão, a principal função do laboratório é desenvolver pesquisas no âmbito das ciências sociais para interferir positivamente no modo como a Educação Física é aplicada nas escolas. “Alguém da Sociologia, por exemplo, poderia propor um trabalho semelhante a esse. Mas ele não está preocupado com as práticas de Educação Física. A nossa preocupação é ir a essas teorias de base e voltar para nossas especificidades”, salienta. Ueberson Ribeiro Almeida (doutorando em Educação), Tacia Ramos Varnier (mestranda em Educação Física) e Renan da Rocha (graduando em Educação Física) são integrantes do Lesef. Para eles, além de permitir a ampliação dos conhecimentos adquiridos na sala de aula, por tratar-se de um ambiente heterogêneo, composto por diferentes indivíduos e diferentes grupos de pesquisa, o laboratório estimula os pesquisadores e professores a conviverem com as diferenças e a trocar experiências, fatores que, quando bem aplicados, culminam em um aprendizado para toda a vida.

O Laboratório de Estudos em Educação Física mantém nove projetos de pesquisa em andamento. Entre eles está o Educação Física Escolar: entre a inovação e o desinvestimento pedagógico, em que, por meio de estudos de casos, o grupo busca identificar práticas de inovação e de abandono pedagógico realizadas por professores de Educação Física nas escolas. Para isso, é feito um acompanhamento semanal das aulas e do funcionamento das instituições de ensino ao longo de um ano. Iniciada em 2007, a pesquisa forma hoje uma rede de investigação, composta pela Ufes, pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Na Argentina, o projeto possui ligações com a Universidad Nacional de La Pampa, Universidad Nacional Del Córdoba e Universidad Nacional Del Comahue. Outros dois projetos importantes são o Políticas de formação em Educação Física e Saúde Coletiva e o Educação do corpo em diferentes instituições, artefatos midiáticos e práticas culturais. O primeiro é financiado pelo Ministério da Saúde e feito em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e a Universidade de São Paulo (USP). Nele, os pesquisadores analisam o processo de implementação do professor de Educação Física nos programas nacionais Saúde da Família e Saúde na Escola, bem como quais as atividades são desenvolvidas por esses profissionais. Já o segundo projeto investiga os cuidados com o corpo vinculados aos diversos discursos de promoção de saúde a partir dos diferentes artefatos e práticas culturais.

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PESQUISA

Nutrição e nível de atividade física de crianças

Pesquisadores da Ufes inovam ao estudar o nível de atividade física e o índice de alimentação dos alunos de escolas do Espírito Santo para obter indicadores brasileiros O grupo Nutrição e Saúde de Populações da Ufes é o primeiro no Brasil a realizar pesquisas populacionais com crianças de escolas públicas e particulares de áreas rurais e urbanas do Espírito Santo. As crianças que participam da pesquisa se submetem a avaliação cardiovascular, que inclui a medição de aspectos como rigidez e pressão arterial. Entre os resultados obtidos até agora está a elaboração de um questionário capaz de identificar o nível de atividade física e o Índice de Alimentação do Escolar, que avalia se a dieta das crianças pode ser considerada boa ou de baixa qualidade. O objetivo do grupo de pesquisa, criado em 2006, é estudar questões relacionadas à alimentação e à atividade física e seus determinantes biológicos, sociais e econômicos, a fim de subsidiar a criação de políticas voltadas para a área de nutrição e saúde – que ainda são inexistentes – de acordo com as características dos habitantes de

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cada região, gerando assim um impacto positivo sobre a qualidade de vida das pessoas. Segundo a coordenadora do projeto e professora do Departamento de Educação Integrada em Saúde, do Centro de Ciências da Saúde, Maria Del Carmen Bisi Molina, o grupo tem duas grandes questões a resolver. “A primeira são as lacunas relacionadas à produção do conhecimento científico, e a segunda é o quanto isso pode gerar de informação útil para o planejamento de ações de intervenção”, afirma a professora. Hoje, o grupo é formado por 20 pessoas, incluindo estudantes, mestrandos e profissionais das áreas de nutrição, educação física e enfermagem. O estudo realizado com crianças na faixa de 7 a 10 anos começou em 2007, com o projeto Saúde Vitória, que avaliou 1.882 crianças da Capital, Vitória. Em 2009, foram retomadas as pesquisas, dessa vez na área rural, com 901 crianças do município de Santa Maria de Jetibá. O objetivo é estabelecer


comparações entre aspectos da saúde de crianças que vivem em meios diferentes, tais como sobrepeso, pressão arterial, nível de atividade física e sedentarismo, levando em consideração aspectos sociais, familiares e individuais. Além da avaliação das crianças, foi realizado também um estudo com as mães, a fim de verificar o modo como elas avaliam as condições nutricionais de seus filhos e ver se essa avaliação corresponde aos resultados obtidos. Embora os dados ainda estejam sendo analisados, é possível concluir que, apesar de as características alimentares serem semelhantes, as crianças da área rural apresentam um índice de sobrepeso menor (11,2%) do que as de áreas urbanas (19,5%). Isso se deve ao fato de que o nível de atividade física das crianças do interior é maior do que o das crianças de áreas urbanas – onde o sedentarismo é grande e está relacionado principalmente ao tempo de exposição à televisão e a outros aparelhos tecnológicos –, além de o hábito do desjejum ao amanhecer praticado em regiões interioranas apresentar-se como um fator de proteção contra o excesso de peso. Dentro dessa linha, o grupo ainda faz pesquisas comparativas entre as condições de nascimento de crianças, como prematuridade, peso e amamentação, e sua relação com problemas cardiovasculares. Esse estudo baseia-se na teoria da programação fetal, que afirma que as condições de nascimento e o tempo de amamentação podem interferir nessas questões. Elsa De acordo com a professora Maria Del Carmen, grande parte das pesquisas em nutrição se baseia em populações de outros países, que possuem hábitos de vida e de alimentação diferentes dos brasileiros. Por isso, com o intuito de elaborar estudos nessa área voltados para a população local, o grupo Nutrição e Saúde de Populações também participa do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto, o Elsa. Nesse projeto, que acompanha a saúde de 15mil trabalhadores de instituições públicas de ensino em seis capitais (Vitória/ES, Rio de Janeiro/ RJ, Salvador/BA, São Paulo/SP, Belo Horizonte/MG e Porto Alegre/RS), os participantes atuam na elaboração de métodos para a coleta de dados, como o questionário de frequência alimentar, além de realizarem estudos como a verificação do consumo de sódio e potássio a partir da urina e a análise da relação entre o consumo de alimentos antioxidantes e a diminuição de problemas cardiovasculares. Por tratar-se de um estudo realizado ao longo de anos, ainda não existem resultados.

Pesquisa sem fronteiras Raiane Pereira da Silva é aluna do 5º período do curso de Nutrição da Ufes e, através de sua participação no grupo Nutrição e Saúde de Populações, foi selecionada em 2012 pelo edital do programa Ciências Sem Fronteiras, que disponibiliza vagas para estudantes em universidades de todo o mundo. Atualmente, Raiane estuda na Universidad Autónoma de Madrid e realiza uma pesquisa na área de Nutrição e Dieta das Populações Humanas intitulada Estado nutricional en la gestación y su relación com riesgo cardiovascular em la descendência. Trata-se de um estudo que investiga se o estado nutricional das mães é capaz de influenciar o risco de doenças cardiovasculares em seus filhos. Posteriormente, será feita uma comparação com os dados coletados em Vitória a fim de discutir o estado nutricional de crianças do Espírito Santo e da Espanha. “O grupo de pesquisa de que participo me ajudou muito. Obtive bastante amadurecimento, pois nele eu posso estudar assuntos diversos que não se limitam apenas àqueles estudados na graduação, e isso eleva meus conhecimentos. Minha expectativa para esse estudo na Espanha é muito grande, eu espero poder levar de volta ao Brasil resultados positivos dessa experiência”, ressalta Raiane, que ficará durante 11 meses na Espanha.

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p esquisa

Sono

revelador Pesquisa identifica crianças que respiram de forma inadequada para prevenir apneia do sono

A apneia é um dos principais distúrbios do sono provocados pela dificuldade de respiração e já é considerado um problema de saúde pública. Visando reduzir a incidência desse distúrbio, o primeiro Estudo Epidemiológico e de Diagnose Interdisciplinar das Disfunções Respiratórias do Sono em Escolares do Espírito Santo busca identificar crianças que respiram pela boca e que, portanto, são potenciais desenvolvedoras da doença, criando formas de prevenção contra o agravamento desse quadro. De acordo com os resultados, 22% das crianças examinadas respiram de forma inadequada. O grupo de pesquisa da Ufes responsável pelo estudo surgiu em 2009 e conta com 19 integrantes, entre alunos e professores das áreas de Fisioterapia, Odontologia e Medicina, que avaliam crianças de 7 a 12 anos em 15 escolas do Estado. Até agora o trabalho já resultou na conclusão de dois projetos de iniciação científica e em uma dissertação de mestrado. A professora do Núcleo de Ciências Fisiológicas da Ufes e coordenadora do projeto Maria Teresa Martins de Araújo ressalta que, ao longo do tempo, o ato de respirar pela boca pode causar apneia do sono, em que a pessoa para de respirar por alguns momentos enquanto dorme. Essa doença já atinge cerca de 5% da população mundial, podendo causar problemas como irritação, dificuldade de aprender e aumento do risco de infartos, já que a falta de respiração dificulta a oxigenação do sangue. “A verifica-

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ção de crianças com respiração bucal é importante para a prevenção desses distúrbios, pois por ainda serem jovens elas podem ser tratadas, evitando que esse quadro evolua”, diz a professora. Já a respiração bucal está relacionada a problemas anatômicos e funcionais, como alterações na articulação da mandíbula com o crânio e na postura, além de problemas como rinite e adenoide. “Se a criança é muito asmática, tem rinite, adenoide ou amídalas grandes, ela acaba respirando pela boca. Por isso, temos de identificar também se esses problemas são causas ou consequências da respiração bucal para tratá-los”, explica Maria Teresa. Identificação Nas escolas, a equipe se divide em dois grupos. O primeiro é composto por alunos de Medicina e Odontologia, que identificam as crianças que respiram pela boca e as encaminham para o segundo grupo, formado por alunos de Fisioterapia. Eles elaboram um questionário de qualidade de vida das crianças e em seguida analisam sua função respiratória, sua articulação temporomandibular e postura. Os casos mais graves são encaminhados para o Hospital Universitário ou outros hospitais. Após a primeira fase de identificação dos respiradores bucais, que está quase concluída, serão investigadas também as consequências da respiração inadequada sobre a qualidade do sono das crianças através de um exame chamado Polissonografia. Para tanto, está sendo construído um laboratório dentro do Núcleo de Ciências Fisiológicas. O grupo também pretende elaborar cartilhas de prevenção, que serão distribuídas nas escolas, como forma de alertar os pais em relação aos riscos da respiração bucal e como identificá-la.


p ó s - g rad u a ç ã o

pio nei ris mo Pós-Graduação em Doenças Infecciosas oferece cursos de mestrado e doutorado para alunos de diversas áreas

Criado em 1996 e inicialmente voltado para profissionais graduados em Medicina, o Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas (PPGDI) da Ufes foi o primeiro a abrir, em 2004, ofertas de cursos de mestrado em doenças infecciosas para profissionais não médicos, contemplando, assim, alunos de outras áreas, como farmacêuticos, enfermeiros, veterinários e biólogos. Além disso, o programa passou a oferecer 20 vagas por ano, sendo que até 2003 eram apenas seis. O doutorado, iniciado em 2009, já conta com 18 alunos e duas teses defendidas. De acordo com os dados da secretaria do programa de pós-graduação, de 2004 até o ano de

2012, 30 médicos e 63 profissionais de outras áreas já passaram pelo mestrado em doenças infecciosas, atuando em diferentes linhas de pesquisa. O atual coordenador do programa, professor Moisés Palaci, explica que no início o mestrado surgiu para atender a uma demanda de médicos interessados em aperfeiçoar sua formação, mas que pela inexistência do programa não tinham essa oportunidade. Passado o tempo, o número de médicos que procuravam o curso diminuiu, visto que a maioria, ao sair da universidade, vai para o mercado de trabalho. A partir disso, viu-se a possibilidade de expandir o curso para outras áreas. “A pós-graduação é um elemento de preparação, capaz de aperfeiçoar o aluno para o desenvolvimento de pesquisas e capacitá-lo também a lecionar para alunos de graduação”, afirma o professor. Multidisciplinar Um dos pontos positivos de um programa multidisciplinar é o aumento da qualidade da produção científica, pelo fato de envolver professores com diversas formações, capazes de atender às diferentes necessidades de seus alunos e possibilitar-lhes uma formação mais completa, cujas consequências positivas se refletem sobre a própria sociedade. Para o professor Moisés, tais programas são responsáveis por “levar ao mercado de trabalho profissionais mais qualificados para atender não só a si mesmos, mas também às demandas da sociedade e do próprio País”, diz ele. Só em 2011 foram publicados 56 artigos científicos produzidos por professores e alunos da Pós-Graduação em Doenças Infecciosas em revistas internacionais, como a Journal Infeccious Desersts e a Journal of Clinical Micro Biology, além de 27 artigos inscritos em anais de congressos. O Núcleo de Doenças Infecciosas (NDI), situado no campus de Maruípe, é responsável por dar suporte ao programa de pós-graduação. Além de auxiliar na formação de alunos de graduação – fornecendo estágios e programas de iniciação científica – e pós-graduação, o NDI trabalha com linhas de pesquisa em doenças como tuberculose, HIV, leshmaniose, dengue, infecções hospitalares, entre outras, além de prestar serviços diretos à população, realizando exames diagnósticos dessas doenças a partir da montagem de testes rápidos.

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a rtig o

A sempre necessária discussão: que desenvolvimento queremos? Arlindo Villaschi* Ednilson Felipe* Durante algum tempo, o Espírito Santo se viu como o ‘patinho feio’ da Região Sudeste e/ou como o rejeitado pelos irmãos da Região Nordeste. Isso mudou nos últimos cinquenta anos: de ‘Nordeste sem Sudene’ no final dos anos 1960, passamos a ‘Sudeste com incentivos’ já no final do século passado. Entretanto, apesar do bom desempenho da economia como um todo, por razões estruturais, as finanças públicas estaduais ainda assim mantinham-se defasadas em termos de receitas. Com a exploração de gás e de petróleo na costa capixaba e o correspondente recebimento de royalties também essa situação de escassez de recursos nos cofres públicos do Estado e dos municípios mudou. Graças a um legado da natureza, dessa exploração de gás e petróleo é possível projetar (mesmo levando-se em conta o que deixará de ser recebido em função de alterações nas regras de distribuição de royalties entre estados/municípios produtores e não produtores de gás e petróleo) considerável fluxo de renda para os erários estadual e municipais nos próximos anos. Esse fluxo de receita, quando comparado com tudo o que o Espírito Santo viveu no passado, coloca-o em situação ímpar em termos de recursos públicos disponíveis que podem ser direcionados para mudanças estruturais na formação socioeconômica capixaba. Como eles são fruto de recursos não renováveis (ou seja, mais cedo ou mais tarde, o gás e o petróleo acabarão), vale a pena um exercício de como gastá-los de maneira a gerarmos novas fontes de riqueza para o futuro. Na construção de uma agenda voltada para a discussão política de como gastar receitas do presente e do futuro próximo com o objetivo de gerar essas novas fontes de riqueza, seria conveniente dividir os objetivos em duas grande áreas. Na primeira, haveria concentração de aplicação de recursos para o resgate de dívidas sociais acumuladas ao longo de décadas. Dentre essas, alguns destaques:

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eliminação do analfabetismo entre os capixabas. Segundo o IBGE, em 2011 o Espírito Santo tinha como analfabeta 2,1% de sua população entre 10 e 14 anos, e 8,2% das pessoas com mais de 15 anos; enfrentamento de questões que esgarçam o nosso tecido social, dentre os quais aquelas referentes à violência. Esse esgarçamento pode ser sentido no dia a dia dos capixabas, mas podem ser ilustrados pelo mapa da violência encontrado em Waiselfisz (2011). A contundência dessas evidências deve levar à mobilização política e social no sentido de desenharmos e operacionalizarmos políticas de coesão social compatíveis com nossas taxas de crescimento econômico; diminuição da concentração social, espacial e setorial da renda econômica. As decantadas taxas de crescimento da economia capixaba ainda estão muito concentradas em poucos setores (majoritariamente naqueles intensivos em recursos naturais, sendo que alguns não renováveis); e em um pequeno número de municípios ao longo da costa. Há que se construir políticas públicas que busquem corrigir (ainda que parcialmente) essas distorções que se avolumam à medida que a economia progride, guiada apenas por uma lógica do mercado. Um segundo objetivo no gasto do fluxo previsível para os erários estadual e municipais do Espírito Santo nos próximos anos deve ser o de construir ativos que deem sustentação ao progresso social e econômico do Estado quando o herdado do passado (recursos naturais não renováveis) deixar de existir. Dentre áreas priori-

* Os autores coordenam o Grupo de Pesquisa em Inovação e Desenvolvimento Capixaba (GPIDECA), Departamento de Economica/CCJE-Ufes (http://economiacapixaba.weebly.com, http://economiacapixaba.wordpress.com/o-gpideca/


tárias nessa construção de ativos sociais, econômicos e políticos, ênfase para: estabelecimento de competências em educação semipresencial principalmente em áreas nas quais é grande a defasagem do Espírito Santo. Além do analfabetismo mencionado acima, há que se buscar formas e conteúdos alternativos ao que hoje se faz em termos de educação de jovens e adultos, inclusive aquela voltada para a aprendizagem continuada, contemporânea da sociedade do conhecimento e do aprendizado; criação/ampliação de conhecimento e sua difusão voltados para setores estratégicos da formação socioeconômica capixaba. Dentre esses, destaques para a: agricultura familiar – para além do que já é feito para a cafeicultura e voltada para a maior diversificação da base produtiva, inclusive com expansão da produção de orgânicos e recuperação de fauna e flora com espécies nativas; logística – que precisa ser pesquisada, estudada e operacionalizada para além das reivindicações de ampliação da infraestrutura multimodal; mobilização para a inclusão na agenda política estadual de prioridades para temas que têm sido tratadas como algo distantes das prioridades capixabas. Dentre essas: energias alternativas – que precisam ser pensadas em termos contemporâneos de biomassa, eólica e fotovoltaica; vida marinha – maior conhecimento da diversidade da flora e fauna existente em nossa costa de forma a torná-la fonte permanente de riqueza para os capixabas; qualidade de vida urbana – que precisa ser recuperada na agenda de prioridades políticas, sociais e econômicas e que necessita ser pensada para além dos objetivos da construção civil e da maior mobilidade de automóveis por nossas cidades;

design, marketing para Arranjos Produtivos Locais (APLs) – a competitividade sistêmica em segmentos como moveleiro e vestuário está crescentemente associada a esses serviços intensivos em conhecimento. Por isso, é preciso enraizar capacitações inovativas e tecnológicas neles; capacitações para diálogos transversais – áreas como mudanças climáticas, biotecnologia, nanotecnologia são portadoras de futuro. Por isso, é fundamental capacitar-se para melhor entendê-las e identificar janelas de oportunidades sociais, econômicas e políticas que delas podem advir; e cultura, empreendedorismo e inovação – que precisam ser transversalisadas em todos os níveis de educação e descentralizadas por todo o território capixaba como forma de incrementar tanto a competitividade empresarial quanto a capacitação social no Espírito Santo. Essa agenda preliminar para o debate sobre novas formas e novos conteúdos para os dispêndios governamentais no Espírito Santo se faz necessária para que possamos usar a singular fase de estarmos ricos para nos capacitarmos para a construção de um processo de desenvolvimento sustentável para o Espírito Santo. Afinal, em crescimento sustentado em recursos naturais não renováveis somos especialistas. Transformar, no entanto, esse processo de crescimento em desenvolvimento sustentável (economicamente viável, socialmente justo, ambientalmente correto e centrado no cuidar de si, do outro e da Mãe Terra) requer a construção de visões compartilhadas sobre o futuro cujos desafios são qualitativa e quantitativamente bem distintos de tudo o que já vivemos em nossa história política, social e econômica. Por isso, é imprescindível a ampliação dos canais, das formas e dos conteúdos de interações entre o público e o privado; entre o governamental e o não governamental; entre o econômico, o político e o social. Por isso, o diálogo precisa ser plural, rico e abundante. Coisa de quem está rico e que passa a ficar atento para riquezas outras além daquelas de ordem financeira.

REFERÊNCIA WAISELFISZ, J. J. Mapa da violência 2011: os jovens no Brasil. Disponível em http://www.sangari.com/mapadaviolencia/pdf2011/MapaViolencia2011.pdf. Acesso em 12 nov. 2012

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Caminho da

inovação Betânia Cordeiro e Valesca de Monteiro

Em três anos, o número de depósitos de patentes da Ufes junto ao Inpi passou de um para 13. A Universidade registrou, nesse período, três marcas e dois programas de computadores

E

m 2010, a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) contava com um único pedido de patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), órgão responsável pela concessão das proteções no País. Em três anos o número de depósito de patentes subiu para 13 e ainda há outros 11 pedidos em tramitação. Neste período, a Ufes também registrou três marcas e dois programas de computadores. Os números são tímidos em relação à estrutura organizacional da Universidade e à sua produção científica, uma vez que a Ufes conta atualmente com 1 mil professores doutores e 450 mestres, com 2,2 mil servidores técnicos, mais de 22,3 mil alunos entre graduandos e pós-graduandos, além de 203 grupos de pesquisa registrados em órgãos oficiais. Apesar disso, os números são indicadores do crescimento e da consolidação de uma cultura de inovação que o Espírito Santo – assim como o Brasil, de maneira geral – tenta galgar. O desafio de consolidar resultados no campo da inovação tem levado o poder público e o setor empresarial a um esforço coletivo em âmbito nacional. No Espírito Santo, a Ufes tem se proposto compartilhar a liderança de um movimento que

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estimule o desenvolvimento de tecnologia e a integração das pesquisas ao anseio da sociedade capixaba. “Temos trabalhado no sentido de dialogar com os diversos setores da sociedade para conseguirmos relacionar o nosso conhecimento potencial às necessidades do Estado. Internamente temos desenvolvido nossos campi e investido em pesquisa. Também criamos o Instituto de Inovação Tecnológica (Init) para dar sustentação a nossa política de inovação”, explica o reitor da Ufes, Reinaldo Centoducatte. Vale ressaltar que a cultura de inovação é recente no Brasil. A Lei de Inovação (Nº 10.973), que é de 2004, dispõe sobre incentivos à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo e define as chamadas Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs): “órgão ou entidade da administração pública que tenha por missão institucional, dentre outras, executar atividades de pesquisa básica ou aplicada de caráter científico ou tecnológico”. Podemos citar ainda a chamada Lei do Bem (Nº 11.196), de 2005, que trata, entre outras coisas, de incentivos fiscais para inovação tecnológica. De acordo com levantamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), apesar de


71,6% das ICTs do País, que responderam ao Formulário para Informações sobre a Política de Propriedade Intelectual das Instituições Científicas e Tecnológicas do Brasil (Formict/2012), possuírem políticas de inovação implantadas, 65,9% delas contam com núcleos de inovação tecnológica (NITs), órgãos responsáveis pela gestão dessas políticas. Na Ufes, o Instituto de Inovação Tecnológica

(Init/Ufes) foi criado em 2008, pela Resolução Nº 25, com o intuito de gerir a política de inovação da Universidade. O Instituto trabalha focado, principalmente, em três frentes: desenvolvimento de mecanismos de integração da rede de inovação tecnológica do Espírito Santo, proteção e comercialização dos bens intelectuais da comunidade acadêmica e promoção da cultura de inovação dentro da Ufes.

Para além das patentes A proteção da propriedade intelectual, como o depósito de uma patente ou o registro de um programa de computador, é estimulada pela Lei da Inovação como forma de incentivar a produção tecnológica e aumentar o controle e o retorno de benefícios que podem ser conquistados pela instituição a partir de negociações com terceiros. Dirigindo o Init há quatro anos, o professor de física Antonio Alberto Fernandes aponta que a realização do processo de proteção e sua manutenção é apenas uma das atividades essenciais que a Lei atribui a núcleos de inovação como o Init. “Mas não é a única. Há uma série de outras atividades que devem e precisam ser implementadas pelos núcleos”, comenta, dimensionando o desafio do órgão. Trata-se de atividades como a implantação de uma política de confidencialidade, a avaliação de

conveniência de divulgação das criações desenvolvidas na instituição, o desenvolvimento de projetos de cooperação com terceiros e de contratos de transferência, orientação a pesquisadores, relacionamento com empresas e entes públicos, entre outros. Ao se propor dar conta dessas atividades, o Init, ao lado de outras 176 instituições que responderam ao Formict deste ano, compõe o cenário nacional de agentes indutores e organizadores do desenvolvimento da política de inovação no País. Os dados do MCTI indicam que ações como “o desenvolvimento de projetos de cooperação com terceiros” e “Confidencialidade” são os itens da política de inovação implementada pelos núcleos que tiveram maior incidência, em 2011. No gráfico abaixo, é possível ter um panorama da implementação das ações dos núcleos, em nível nacional e da performance da Ufes.

Atividades da Política de Inovação Não Implementado

Implementado

Desenvolvimento de projetos de cooperação com terceiros Confidencialidade Acordos de parcerias Alianças estratégicas Contrato prevendo titularidade da PI e participação nos resultados Atividade de ensino em temas correlacionados à inovação Prestação de serviços Compartilhamento de instalações, permissão de utilização Participação do pesquisador em resultados econômicos Contratos de transferência e licenciamento Bolsa estímulo a inovação Retribuição pecuniária aos pesquisadores Estímulo ao inventor independente Cessão de direitos sobre a criação para que o criador os exerça Afastamento para prestar colaboração com outra ICT Licença sem remuneração para pesquisador constituir pesquisa Outros

Init faz 8,70%

91,30%

8,70%

91,30%

17,50%

82,50%

22,20%

77,80%

25,40%

74,60%

25,40%

74,60%

27,80%

72,20%

31,80%

68,30%

37,30%

62,70%

38,90%

61,10%

45,20%

54,80%

46,80%

53,20%

49,20%

50,80%

58,70%

41,30% 23,00% 18,30% 20,60%

77,00% 81,80% 79,40%

Gráfico I - Universo total de 126 instituições que informaram possuir política de inovação implementada. Fonte: FORMICT 2012/MCTI

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Patentes depositadas pela Ufes A Universidade possui depositadas no Inpi 13 patentes desenvolvidas em diversas áreas do conhecimento. Conheça um pouco sobre cada uma delas: Casca do camarão O invento possibilita a obtenção de uma substância muito usada na indústria cosmética e alimentícia a partir do exoesqueleto do camarão existente do litoral do Espírito Santo. Biocombustível A invenção propõe um novo sistema que utiliza resíduos da casca de coco verde para incrementar a produção de bioetanol celulósico. O sistema pode ser utilizado em indústrias de biocombustível. “Aço ecológico” Nova tecnologia para produção de aços com melhores propriedades mecânicas, resistência à corrosão e custo reduzido. Pode ser aplicada em estruturas soldadas, parafusadas ou rebitadas e expostas à corrosão atmosférica ou marinha, sem necessidade de pintura. Resíduos do abacaxi Enzima abundante no abacaxi, a bromelina é muito usada nas indústrias farmacêutica, cosmética e alimentícia. A nova tecnologia utiliza as sobras das plantações, otimizando recursos e diminuindo os resíduos no campo. O processo depura a bromelina a um grau de 90% de pureza, o que agrega mais valor ao produto. Energético à base de café A invenção fornece uma bebida alcoólica fermentada à base de polpa de café. Seu processo de produção utiliza resíduos do processamento dos frutos de café, com a finalidade de gerar maior rentabilidade e proporcionar fonte de renda alternativa para os cafeicultores. Água de coco O invento permite que a água de coco tenha maior tempo de prateleira, mantendo seu sabor característico e suas propriedades nutricionais.

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Trata-se de um processo de descontaminação de água de coco por pressão hidrostática. Cadeira de rodas robótica Trata-se de uma cadeira de rodas robótica, dotada de sensores, sistema de acionamento e controle, saída acústica e interface visual que pode ser comandada por piscadas de olhos, movimento do globo ocular e sinais cerebrais. A cadeira pode ser utilizada por pessoas com deficiência motora severa. Tratamento de água e esgoto A invenção utiliza material orgânico (como bagaço de cana e bucha vegetal) como agente de absorção de contaminantes sólidos de efluentes. O sistema filtrante pode ser aplicado em estações de tratamento de esgoto, tratamento de água ou filtros biológicos percoladores. Produção de petróleo Três das patentes depositadas pela Ufes estão relacionadas à área de produção de petróleo. Uma delas consiste num processo e sistema para extração de sais de petróleos leves e pesados, a outra num processo para extração de sais de petróleos leves e a terceira num processo e sistema para dessalgação de óleos. As soluções desenvolvidas em parceria com a Petrobras apresentam vantagens de custo e maior segurança quando comparadas às tecnologias importadas. Resíduos da indústria têxtil A invenção consiste num processo para tratamentos de águas residuais da indústria têxtil. A tecnologia também pode ser aplicada por qualquer empresa do segmento de tratamento de efluentes ou chorume. Testes de impacto Os experimentos de fratura são intrinsecamente destrutivos, havendo, em geral, dificuldades para sua reprodução, principalmente nos sólidos frágeis. A invenção consiste em um aparelho para simulação de experimentos não destrutivos de clivagem e de fratura frágil.


I DEIA PREMIADA

Invenções ganham prêmio nacional da Petrobras

Uma equipe do Departamento de Química conquistou uma premiação inédita na Ufes: o Prêmio Inventor da Petrobras. A edição 2012 contemplou pesquisadores que depositaram pedidos de patente no ano passado. A Ufes teve três invenções premiadas, destacando-se como a Universidade com o maior número de troféus no evento que reuniu instituições brasileiras como USP, Unicamp e UFRJ. O Prêmio Inventor 2012 foi concedido aos professores Eustáquio de Castro, Milton Morigaki e Edna Medeiros e aos servidores técnico-administrativos Cristina Sad, Carlos Fraga e Roberta Chimin. As invenções premiadas estão relacionadas à área de produção de petróleo. Denominadas “Processo e sistema para extração de sais de petróleos leves e pesados”, “Processo para extração

de sais de petróleos leves” e “Processo e sistema para dessalgação de óleos utilizando uma dessalgadora manual”, as soluções desenvolvidas na Ufes apresentam vantagens de custo e maior segurança quando comparadas às tecnologias importadas. As novas tecnologias são o resultado de quatro anos de pesquisas desenvolvidas numa parceria do Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Metodologias para Análises de Petróleos (LabPetro) com a Petrobras. Com soluções inovadoras para a indústria petrolífera, as invenções estão em processo de patente conjunta. Criado pela Petrobras em 2001, o Prêmio Inventor envolve todas as áreas de pesquisa e desenvolvimento nas quais a empresa deposita patentes: exploração e produção, gás e energia, biocombustível e abastecimento.

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t ese

Meninas

em risco Maíra Mendonça

Tese de doutorado analisa o envolvimento de meninas e adolescentes em atos infracionais

A Secretaria Especial de Direitos Humanos, órgão ligado à Presidência da República, no Levantamento Nacional do Atendimento Socioeducativo ao Adolescente em Conflito com a Lei, de 2002 a 2006, apontou que o número de adolescentes do sexo feminino envolvidas em atos infracionais aumentou, naquele período, 350% no Espírito Santo. A tese de doutorado O Envolvimento de Meninas e Mulheres Jovens em Atos Infracionais, do professor Alexandre Cardoso, teve o objetivo de investigar os processos e as condições sociais e econômicas que levam essas adolescentes a se inserirem na criminalidade. Os resultados apontam para uma trajetória de vida marcada por conflitos familiares e vivências em ambientes violentos, além de mostrar que, na maioria dos casos, o envolvimento com crimes passa pelo tráfico de drogas. O trabalho apresentado ao Programa de PósGraduação em Psicologia da Ufes em 2012 baseou-se no depoimento de 20 meninas entre 13 e 19 anos – 10 da Unidade de Internação Feminina (UFI) da Unidade de Internação Socioeducativa (Unis) e 10 frequentadoras do Centro de Referência Especializada de Assistência Social (Creas) – que vieram dos municípios de Vitória, Cachoeiro

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de Itapemirim, Castelo, Alegre, Linhares e Aracruz. Elas cumpriam pena por infrações como tráfico de drogas, assalto, furto e lesão corporal. Foi entregue a essas meninas um roteiro de entrevistas semiestruturado, com perguntas relacionadas às suas trajetórias, delitos praticados, experiências dentro da medida socioeducativa e perspectivas de futuro. Há tempos, as meninas costumam colecionar papéis de carta e folhas de caderno. Pensando nisso, o professor Alexandre elaborou um método que consistia na entrega de papéis de carta a cada menina, contendo termos referentes a aspectos de suas vidas, como uma espécie de título das folhas. “Eram 15 termos, entre eles minha vida, ser mulher, relações afetivas, família e violência. Foi um método que se mostrou bastante eficaz, pois era um momento em que as meninas ficavam a sós e podiam escrever o que quisessem”, afirma o professor. Das 20 adolescentes entrevistadas, 16 tinham algum tipo de envolvimento com o tráfico de drogas. O fato de serem mulheres, e, portanto, vistas como menos suspeitas, facilita sua participação nesse tipo de delito, em que atuam no transporte, na venda e no gerenciamento de bocas de fumo. Segundo o professor Alexandre, para a maioria delas o tráfico está associado a fatores como poder, fama e dinheiro. Mesmo os riscos de morte ou de prisão não inibem a busca constante por visibilidade social e aventuras, em que, pela própria falta de outros referenciais de vida, a figura do traficante é vista com uma roupagem de herói. No entanto, a convivência com novos am-


bientes e exemplos de vida e a participação em espaços de diálogo através das medidas socioeducativas se refletem sobre o comportamento das jovens, que em grande parte passam a se reaproximar de suas famílias e assumem uma visão próxima ao comportamento socialmente esperado de uma mulher. “Observa-se que há um conflito entre o passado e o futuro dessas meninas. Agora elas pensam em outra forma de ser mulher, em trabalhar e em serem honestas, fato que se contrapõe ao seu passado, em que em algum momento o envolvimento com crimes foi uma opção”, diz Alexandre. A partir dos depoimentos recolhidos, constatou-se uma maior eficácia das medidas socioeducativas – em que as meninas têm sua liberdade restringida e têm a oportunidade de passar por tratamentos psicológicos e outros acompanhamentos – do que da prisão em unidades de internação diante da recuperação das adolescentes infratoras. Esse dado comprova a necessidade de investir na criação de espaços de diálogo como forma de prevenir a inserção de jovens no crime e não somente como forma de punição, aplicada após a prática dos delitos.

Preconceito Outro desafio a ser vencido e desta vez não só por essas adolescentes, mas por todos, é o preconceito, responsável por reduzir as possibilidades de reinserção de ex-infratores no meio social e no trabalho, pois, além da vontade necessária para voltar a conviver com pessoas e ambientes que viabilizam sua reinserção no crime sem ter uma recaída, essas pessoas ainda precisam lutar contra as atitudes desconfiadas da sociedade.

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I NSTITUCIONAL

Meta da Ufes é ampliar a

qualidade

“A Ufes está pronta para dar novos saltos em direção ao futuro”. A afirmação é do reitor, professor Reinaldo Centoducatte, para quem a Universidade deve estar em permanente processo de aperfeiçoamento. O reitor mostra-se confiante com a sólida evolução registrada pela Ufes nos últimos anos e ressalta que ainda existem muitas ações a serem desenvolvidas. Segundo o reitor, os avanços ocorreram nas mais diferentes áreas, seja no ensino, na pesquisa, na extensão, na assistência, seja na modernização da gestão, com a construção de projetos consistentes que possibilitaram investimentos significativos. Prestes a completar 59 anos de importante trajetória na educação superior brasileira, com cerca de 1.600 professores, 2.200 servidores técnicos

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e 20 mil estudantes de graduação, a Ufes apresenta indicadores relevantes que sinalizam boas perspectivas para o futuro, conforme enfatiza o reitor. “Na pós-graduação crescemos acima da média nacional entre as universidades federais”, sustenta o reitor. De acordo com Centoducatte, a Ufes instalou, nos últimos oito anos, programas de pós-graduação em todos os seus 10 centros de ensino. No período, a Universidade saltou de 19 mestrados para 47; e de cinco doutorados para 16. “Um crescimento muito significativo que repercute positivamente na Universidade e no Estado, pois promove elevada qualificação de recursos humanos para atuação em inúmeras áreas, além de acelerar a pesquisa científica e tecnológica, e a inovação”, assinala.


Na extensão universitária, o reitor aponta outro crescimento, pois a Ufes saiu de pouco mais de 200 projetos e programas, em 2004, para atingir a marca de 700, contemplando cerca de 1,2 milhão de capixabas em diferentes áreas de atuação, nos 78 municípios do Espírito Santo. Centoducatte também observou o fortalecimento da produção cultural, cuja meta é ampliá-la nos próximos anos. Esse salto considerável também ocorreu em relação à área construída nos quatro campi e em todos os centros de ensino da Universidade. Em 2008, a área construída era de 225 mil metros quadrados, e atualmente já está com 280 mil, incluindo a construção de salas de aula, laboratórios e áreas com finalidade administrativa. “A Ufes já está efetivamente consolidada como uma instituição de ensino de elevado nível”, pondera o reitor. Ele diz que a Universidade está caminhando para alcançar um padrão de excelência acadêmica em diferentes áreas do conhecimento. “A Universidade soube estabelecer metas para alcançar êxitos. Agora, o nosso objetivo primordial é buscar a qualidade de nossas ações”, arremata. Relações Internacionais Com a finalidade de formular políticas de internacionalização da Ufes e expandir a atuação da instituição no exterior, o reitor Reinaldo Centoducatte criou, em abril deste ano, a Secretaria de Relações Internacionais (SRI). E os primeiros resultados já começam a surgir. Antes denominada Assessoria de Relações Internacionais, a Administração Central decidiu transformá-la em secretaria, para que, com mais estrutura, viesse a atuar de modo mais dinâmico. A secretária do setor é a professora Jane Méri Santos, do Departamento de Engenharia Ambiental, do Centro Tecnológico da Ufes. O balanço inicial revela que somente de 2011 para cá, 88 estudantes de graduação dos mais diferentes cursos da Ufes realizaram intercâmbio em dezenas de universidades da Europa, América do Norte e Ásia. Outros 56 estudantes estrangeiros, sobretudo da África e América do Sul, por meio de convênios de graduação, estão estudando na Ufes. A Universidade também estabeleceu convênios, nos últimos dois anos, com 28 instituições de ensino e pesquisa do exterior, incluindo universidades da Alemanha, Argentina, China, Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, México, Noruega, Portugal e Rússia.

Excelência na graduação O ano de 2013 será marcante para o aperfeiçoamento dos cursos de graduação da Ufes, com a adoção de inovadoras ações em diferentes níveis. “O objetivo da Administração Central é realizar um grande esforço, considerando o aumento significativo do número de cursos, nos quatro campi universitários, a partir de 2005”, afirma a vice-reitora Maria Aparecida Barreto, que coordena diretamente o conjunto de ações a serem desenvolvidas. A pró-reitora de Graduação Maria Auxiliadora Corassa ressalta que, em 2005, a Ufes ofertava 45 cursos e 2.785 vagas; em 2013, a Instituição mantém 94 cursos e 4.985 vagas. “O projeto do reitor Reinaldo Centoducatte, em sintonia com os conselhos superiores, e considerando esta significativa evolução, é resgatar o foco da qualidade dos nossos cursos”, afirma. Ela observa que diversas ações estão sendo planejadas, e menciona o programa de acompanhamento aos estudantes com dificuldade acadêmica. “São estudantes que, por diferentes razões, encontram limitações para trabalhar os conteúdos de determinadas disciplinas, e necessitam de suporte”, diz. Em outra ação, um grupo de mestrandos está pesquisando os níveis de retenção e de evasão em todos os cursos presenciais. “Este é um grande desafio para a Universidade, porque precisamos definir ações objetivas visando reduzir ao máximo a evasão e corrigir as distorções que levam os estudantes a ficarem desperiodizados”, arremata Maria Auxiliadora. De acordo com a pró-reitora, a Administração Central da Ufes pretende direcionar outras ações por meio de investimentos em equipamentos, espaços físicos, ampliação da acessibilidade, sobretudo nos cursos criados mais recentemente, além da formação continuada de professores e servidores técnicos. “Nossa meta é fechar 2013 com a graduação muito mais qualificada”, conclui. UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Jan/Abr 2013

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I NSTITUCIONAL

Projeto é dobrar produção em pesquisa e pós-graduação A pós-graduação na Ufes tem experimentado uma evolução muito significativa nos últimos anos, com considerável potencial para crescer ainda mais. O desenvolvimento foi planejado, o que fez a Ufes crescer em número de cursos acima da média nacional, segundo pondera o reitor Reinaldo Centoducatte. O executor desse processo de aceleração foi o professor Francisco Guilherme Emmerich, pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação até 2011. O atual pró-reitor, professor Neyval Costa Reis Junior, adianta que, com base nessa evolução, a meta da Ufes é, no mínimo, dobrar a sua produção nos próximos três anos. A base para esta projeção está nos indicadores atuais. Se em 2004 a Ufes mantinha 19 cursos de mestrado, em 2012 chega aos 48; além de sair de cinco doutorados para 19, com 48 pro-

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gramas de pós-graduação em todos os centros de ensino. Na esteira desse crescimento veio a evolução na pesquisa científica e tecnológica. De acordo com o pró-reitor Neyval Reis, atualmente a Ufes possui cerca de 2.200 projetos de pesquisa em andamento e mais de 200 grupos de pesquisa cadastrados no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Na avaliação do pró-reitor, a Ufes está entre as universidades de porte médio do País. Entretanto, segundo ele, a Instituição tem metas ambiciosas de crescimento e indicadores que aproximam o seu desempenho acadêmico a algumas das maiores universidades. Ele entende que o desenvolvimento econômico e social do Espírito Santo apresenta novas demandas que exigem a formação de mais recursos humanos capacitados. “É estratégico que a Ufes avance mais nesta área”, define.


I NSTITUCIONAL

Extensão cresce e se moderniza Dados mostram o crescimento das ações de extensão na Ufes nos últimos anos. Entre 2008 e 2011 o número de pessoas atendidas pelos projetos e programas triplicou, saltando de aproximadamente 500 mil para cerca de 1,5 milhão. Os últimos números mostram que foram cadastradas 753 ações entre projetos e programas, que se desenvolvem em todo o Espírito Santo e que também vão além das fronteiras do Estado, chegando a locais como São Paulo, Alagoas e Rio Grande do Norte. Para o pró-reitor de Extensão, professor Aparecido José Cirillo, um dos motivos é a profissionalização do setor. Segundo ele, a equipe tem se empenhado em ações que visam consolidar e dar mais visibilidade ao trabalho. Desde maio de 2012, por exemplo, é possível consultar online todas as ações de extensão por meio do Sistema de Informações de Extensão (Siex), um aplicativo da web aberto à comunidade, que não exige cadastro prévio, senhas ou login. Outra inovação está relacionada à concepção de extensão universitária. Cirillo acredita que a ideia de que não há recursos para a área está ultrapassada: “Em 2010, por exemplo, a Ufes captou R$ 9 milhões para as ações”, destacou. De acordo com ele, o fortalecimento da participação da Universidade nos editais de fomento se deve, em parte, à criação de uma assessoria para elaboração de projetos, que desde 2009 auxilia os extensionistas a adequarem as suas ideias aos perfis dos editais. O pró-reitor ressalta que é preciso consolidar o lugar da extensão na Universidade: “A extensão é uma das ligações mais importantes entre a universidade e a sociedade. Por meio dela os

nossos alunos têm contato com a vida real, fora da academia, e podem até antever a realidade da profissão”, explica Cirillo. Metas Para 2013, a Pró-Reitoria de Extensão tem como meta consolidar e qualificar a Revista Guará, que é a publicação de extensão da Ufes; além de preparar o seu catálogo das ações de extensão, promover uma oficina de blog para cada projeto dar publicidade às suas iniciativas, e revisar a resolução sobre extensão universitária na Ufes, no sentido de desburocratizar os procedimentos. Cirillo ressalta que conscientizar sobre a necessidade do registro das ações e dar mais visibilidade a elas são expedientes fundamentais para a pasta. “Quanto mais os números aparecerem, maiores as chances da Ufes obter os recursos necessários às demandas”, avalia o pró-reitor. UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Jan/Abr 2013

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Edufes Publicizando o conhecimento A Editora da Universidade Federal do Espírito Santo - Edufes – é um órgão suplementar da Instituição e está vinculada à Superintendência de Cultura e Comunicacão - Supecc. Entre os seus objetivos estão: difundir o conhecimento gerado na Ufes ou por sua interferência no contexto regional, nacional ou internacional; promover a divulgação e distribuição de obras publicadas, mantendo intercâmbio com outras editoras universitárias, com vistas à coedição de títulos de interesse comum; e viabilizar recursos junto a órgãos de natureza pública ou privada para publicação e divulgação das obras aprovadas pelo seu Conselho Editorial.

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Hélio Coelho - Acrílica s/ tela, de 94 x 75 cm. Nº de tombamento 205.1.47 Acervo da Universidade Federal do Espírito Santo na Galeria de Arte Espaço Universitário

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