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Revista da Universidade Federal do Espírito Santo •

UFES

DEZEMBRO 2018 • Nº 9 ISSN 2359-2095

Direitos

humanos

70 anos da declaração universal Pacto criado para diminuir as guerras e promover a paz e a igualdade inspirou leis em todo o mundo. Conheça as pesquisas da Ufes sobre Direitos Humanos • Pág. 32

Mariana, três anos depois

Grande Vitória sustentável

Estudos analisam o desastre sob a perspectiva jurídica e social • Pág. 12

Propostas buscam ampliar áreas verdes e reduzir problemas urbanos • Pág. 21


na real, é nas universidades públicas que está a maior parte da

produção científica do Brasil

Você tem ideia do que acontece nas universidades públicas do Brasil? O dia a dia das universidades públicas é focado na produção de pesquisas, no ensino acadêmico e no contato direto com a sociedade, seja por meio de hospitais, bibliotecas, teatros, cinemas, cursos de idiomas, ou dos diversos projetos que auxiliam milhares de pessoas. Além disso, é nas universidades públicas que está a maior parte da produção científica do Brasil. Vale destacar, por exemplo, que as 10 universidades mais produtivas e bem-conceituadas do país são públicas e gratuitas. Para a maioria das famílias brasileiras, as universidades públicas representam a principal oportunidade de acesso a um curso superior. E, se você não sabe, atualmente mais de 60% dos estudantes matriculados pertencem às classes D e E. Na real, essa é universidade pública que você precisa conhecer. Já pensou ficar sem ela? Universidade pública e gratuita: é pra mim, pra você e pra todo o Brasil.


na real,

Essa é a universidade pública que você precisa conhecer


Foto: Marcos de Alarcão

Universidade Federal do Espírito Santo • Ufes Reitor Reinaldo Centoducatte Vice-Reitora Ethel Leonor Noia Maciel Pró-Reitora de Administração Teresa Cristina Janes Carneiro Pró-Reitor de Assuntos Estudantis e Cidadania Gelson Silva Junquilho Pró-Reitora de Extensão Angélica Espinosa Barbosa Miranda Pró-Reitor de Gestão de Pessoas Cleison Faé Pró-Reitora de Graduação Zenólia Christina Campos Figueiredo Pró-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento Institucional Anilton Salles Garcia Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Neyval Costa Reis Junior UNIVERSIDADE Revista de divulgação científica, cultural e temas institucionais, produzida pela Superintendência de Cultura e Comunicação (Supecc) da Universidade Federal do Espírito Santo Superintendente de Cultura e Comunicação em exercício e Secretária de Comunicação Thereza Marinho Editora Lidia Neves Reportagem Adriana Damasceno • Ana Paula Vieira • Hélio Marchioni • Jorge Medina • Lidia Neves • Luiz Vital • Nábila Corrêa • Patrícia Garcia • Cássia Rocha (estagiária) Fotografia Arquivo Supecc, Jorge Medina, Lidia Neves Design Leonardo Paiva Revisão Thereza Marinho Capa Foto: Stockvault Universidade Federal do Espírito Santo Superintendência de Cultura e Comunicação - Supecc Av. Fernando Ferrari, nº 514, Campus de Goiabeiras Prédio da Reitoria, 1º andar, CEP: 29075-910 Vitória/ES - Brasil Telefone: (27) 4009-2204 E-mail: revistauniversidade@ufes.br ISSN 2359-2095 O conteúdo desta revista pode ser reproduzido, desde que citada a fonte.

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UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Dezembro 2018


Prezado leitor

Sumário

Fechamos o ano de 2018, em que celebramos aniversários de marcos jurídicos importantes, como a Constituição Federal, que completou 30

20 Cidades sustentáveis

anos, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que chegou aos 70. Da primeira, lembramos da autonomia didático-científica e do princípio de

Propostas para melhorar a vida urbana no Espírito Santo

indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, apontados em seu artigo 207, para apresentar os conteúdos que vêm a seguir. Esta Revista Universidade destaca ações da Ufes relativas aos direitos humanos: a contribuição para sua conceituação e para o seu exercício, em diversos campos do conhecimento e também no dia a dia da vida acadêmica. Um exemplo é a análise de aspectos relativos à tragédia

32 Direitos humanos, 70 anos Pesquisas da Ufes contribuem na conceituação e prática

de Mariana, que mostra a importância da ciência para a sociedade. A Universidade se relaciona com o seu tempo e reflete sobre ele, como mostram também os artigos desta edição. Estudos para otimizar a produção do cacau e para reduzir problemas urbanos no Espírito Santo indicam o vínculo da Ufes com o seu entorno. Relação que se mostra com pesquisa e extensão, seja na saúde – como as cirurgias bariátricas –, passando pela inovação tecnológica – por exemplo, no uso da energia solar –, até o compartilhamento de conhecimento nos temas mais variados, incluindo a astronomia e o cinema. Tudo isso em constante busca por excelência, de forma integrada com instituições de todo o mundo e com reconhecimento em diversos campos do saber. Boa leitura! Lidia Neves Editora

06 12 18 26 29 40 46 48 52 53 57

Produção do cacau Mariana, três anos depois Polo astronômico em Castelo Cirurgia por videolaparoscopia Artigo: Museu Nacional Cine Metrópolis Artigo: Estudos sobre o golpe Entrevista: Projeto Solares Patentes Internacionalização da Ufes Ideia Premiada

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Pixabay

Ciência e tecnologia qualificam a produção de

CACAU LUIZ VITAL

O Espírito Santo é o quarto maior produtor de cacau do país e conta com certificados e prêmios internacionais para o chocolate fabricado a partir da matéria-prima. Pesquisas realizadas na Ufes buscam otimizar o processo de produção, mantendo sua alta qualidade. 6

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Manjar dos deuses

A

ssim como o inhame de São Bento de Urânia (no município de Alfredo Chaves), o socol de Venda Nova do Imigrante, a panela de barro produzida no bairro Goiabeiras (em Vitória) e o mármore extraído em Cachoeiro de Itapemirim, o cacau de Linhares, no norte do Estado, possui o Certificado de Indicação de Procedência Reconhecida (IP). Este importante selo de qualidade, atribuído pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), confere reputação à região que produz um bem ou serviço. Quarto produtor nacional, o Espírito Santo estende sua cacauicultura para outros 30 municípios. O município de Linhares, sozinho, é responsável por 90% da produção regional. E, para agregar mais valor ao cacau e elevar a sua produtividade, a indústria do chocolate aposta no desenvolvimento da pesquisa científica e tecnológica. O IP foi concedido à Associação dos Cacauicultores de Linhares (Acal) em 2012. Para manter a certificação e a competitividade no mercado internacional, é necessário que sejam desenvolvidos processos de inovação tecnológica em todas as etapas do processo produtivo, especialmente na fase de secagem. Novos métodos, como a secagem de convecção artificial, buscam evitar riscos de contaminação física e microbiológica das amêndoas de cacau e proteger o fruto às variações climáticas, que podem interferir no processo. Uma das recentes pesquisas desenvolvidas na Ufes, finalizada em 2018, estuda a utilização de equipamentos para a secagem artificial, buscando eficiência energética, de modo a otimizar estruturalmente os processos em termos de economia, além de possibilitar mais valor agregado ao produto, mantendo a sua qualidade. Outro estudo, concluído no ano anterior, desenvolve ferramentas para o melhoramento genético do fruto. E os efeitos começam a surgir: o cacau produzido em uma propriedade rural de Linhares foi escolhido, em 2017, como um dos 18 melhores do mundo no Salão do Chocolate, em Paris, e classificado com o certificado Cacau de Excelência.

De acordo com dados do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a cacauicultura do Estado ocupa uma área cultivada de 23.672 hectares, com produção anual de cerca de 5,5 mil toneladas de amêndoas. A denominação científica que o cacau recebeu é Theobroma cacao, cuja tradução literal é “manjar dos deuses” ou “alimento dos deuses”. Relatos históricos indicam que colonizadores espanhóis encontraram o fruto quando desembarcaram na América Central por volta de 1520 e o levaram para a Europa. Em em meados dos anos 1600 surgiu a primeira fábrica de chocolates na França. Daí em diante, o plantio do cacau se espalhou pelo mundo, sobretudo na América do Sul e na África. O cacau é tradicionalmente cultivado em sistema denominado cabruca, que é uma técnica de cultivo sustentável em que a cultura da planta se intercala com estratos florestais, e por isso é chamada de planta ecológica. De acordo com a Organização Internacional do Cacau (ICCO), cerca de 90% da produção mundial ocorre em pequenas propriedades rurais e prioritariamente em áreas de preservação permanente. No Espírito Santo, a produção ocorre há cerca de 100 anos e se dá principalmente em áreas preservadas de Mata Atlântica. As principais etapas do processamento são: colheita, quebra dos frutos, fermentação e secagem das amêndoas. No Brasil, o método de secagem mais tradicional é o espalhamento das amêndoas pelo chão, em piso de concreto, ou suspenso em bandejas expostas à luz solar. A amêndoa do cacau é matéria-prima para a indústria do chocolate. O Brasil chegou a ocupar o segundo lugar do mundo na produção do fruto, entre as décadas de 1970 e 1980. Na década seguinte, a doença conhecida como vassoura de bruxa destruiu cerca de 60% das plantações. Em 2016, o Brasil ocupava o sexto lugar da produção de cacau no ranking da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Além do uso na fabricação de chocolate, do fruto também podem ser feitos sucos, manteiga de cacau, mel, geleias, álcool, vinagre, vinho e licores. O cacau pode ter aproveitamento total, já que as cascas servem para fabricar fertilizante orgânico ou ração animal. Pesquisas apontam que suas sementes e a polpa são ricas em vitaminas e minerais, e excelentes antioxidantes. “Com o uso de novas técnicas obtidas em estudos, é possível a maior exploração do fruto, proporcionando a sua utilização em outras áreas da alimentação e de cosméticos”, diz a pesquisadora da Ufes Daniele Freisleben Lavanhole.

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Em busca de qualidade genética Estudos desenvolvidos por Daniele Lavanhole objetivam identificar as características dos frutos e sementes de cacaueiro. A pesquisa vai auxiliar os programas de melhoramento genético do fruto, na seleção de materiais com alta produtividade e com resistência a doenças. A pesquisa, desenvolvida no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Agricultura Tropical (PPGAT), do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes) da Ufes, tem como título “Análise de diversidade genética e ecofisiologia de germinação de Theobroma cacao L”. Para se obter um produto de qualidade que atenda as exigências do mercado, Daniele diz que é preciso dominar a técnica de escolher a variedade genética adequada, antes do plantio. “Quando se fala em cacau de qualidade, é preciso levar em consideração diferentes fatores, da escolha do genótipo até a sua colheita.” Ela explica que a seleção do genótipo deve se basear em sua produtividade e na sua resistência às principais doenças da lavoura cacaueira. “Outros fatores como poda, análise de solo, irrigação, época de colheita do fruto e beneficiamento das sementes também devem ser considerados”, acrescenta. O estudo possibilitou à pesquisadora identificar exemplares com melhor desenvolvimento para a produção de mudas. “A escolha de materiais promissores, que são altamente produtivos, resistentes às principais doenças do cacaueiro e de fácil manejo, é fundamental para uma colheita rentável”, diz. A pesquisa avalia, também, a interação do genótipo com temperaturas e períodos de secagem na germinação, e com o desenvolvimento pós-germinativo do cacaueiro, auxiliando a identificação de materiais que sejam mais adaptados às adversidades ambientais. Processo germinativo Os frutos dos diferentes genótipos de cacaueiro, de acordo com os estudos, possuem grande variabilidade morfológica e de coloração, dependendo do estágio de maturação. “A forma do fruto, o tamanho e a cor são importantes ferramentas para a identificação dos genótipos – composição genética do fruto – por serem de fácil constatação e visualização, com alta herdabilidade (coeficiente que mede a variabilidade e valor genético) e por

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sofrerem pouca variação ambiental”, ressalta. Daniele Lavanhole salienta que o seu trabalho é uma ferramenta para os melhoristas genéticos. “Na pesquisa, eu apresentei os frutos e sementes com melhores atributos, e os genótipos com processos germinativos mais eficazes para o desenvolvimento de mudas com qualidade genética superior”, destaca. O processo germinativo do cacau, segundo a pesquisadora, é regulado por vários fatores ambientais como umidade, oxigênio, temperatura, luz e nutrientes. A germinação de sementes é o primeiro estágio do biociclo vegetal, que se inicia com a embebição de água pela semente e culmina com a protrusão radicular – movimento que provoca a pressão da raiz e faz a planta crescer. Daniele explica que o processo de germinação pós-colheita, que ocorre devido ao elevado grau de umidade do fruto, não é favorável à produtividade. “As sementes de cacaueiro são classificadas como recalcitrantes, ou seja, possuem elevado teor de umidade, o que favorece a germinação ainda dentro do fruto. Isso tem se tornado um grande problema para os cacauicultores, porque sementes germinadas não podem ser utilizadas no beneficiamento do cacaueiro”, observa. Originário dos trópicos, o cacaueiro se adapta bem em regiões com temperaturas médias superiores a 21°C. Nos meses mais frios do ano pode ocorrer injúria nas sementes, resultando em um produto final de qualidade inferior. O cacau é uma planta que necessita de precipitações pluviométricas superiores a 1.300 milímetros anuais, caso contrário é necessária irrigação. Produção capixaba No Espírito Santo, o cacau é produzido principalmente em pequenas propriedades localizadas na região do Baixo Rio Doce, onde também há a presença de grandes cacauicultores. O clima tropical da região justifica a elevada produtividade, com clima considerado do tipo tropical, quente úmido, com chuvas no verão e inverno seco. O índice pluviométrico da região é de 1.193 mm/ano e a temperatura média é de 23,4ºC, com a máxima de 32ºC e a mínima de 19,6ºC, que são ideais. Daniele, porém, aponta que há muito a ser melhorado. “Dentre os principais fatores que


Divulgação/Daniele Lavanhole

dificultam a produção no Estado estão as doenças, os plantios antigos e com baixa densidade de plantas por hectare, o manejo inadequado da cultura e o tipo de genótipo utilizado”. Para a pesquisadora, a escolha do genótipo é determinante desde a implantação da lavoura até o beneficiamento das sementes, incluindo a resistência a enfermidades. Segundo ela, a realidade atual de muitas lavouras facilita o avanço de diversas doenças, entre elas a vassoura-de-bruxa, comprometendo a produtividade. “Ainda não existem produtos fitossanitários que sejam eficientes no combate à doença. Os cacauicultores adotam medidas profiláticas como a retirada de galhos com a doença. Às vezes, retiram a planta inteira e, dependendo do grau de infestação, toda a lavoura é derrubada”, explica Daniele. Os métodos tradicionais ainda utilizados em pequenas propriedades do Espírito Santo são adequados, segundo a pesquisadora. “Desde que sejam executados com todas as precauções necessárias, atendendo a todas as exigências para cada etapa do processo de produção, como colheita, transporte, fermentação, fermentação microbiana, fase alcoólica, fase acética, secagem, teste de corte e armazenamento, para que o produto tenha qualidade elevada”, assinala. Mas ela avalia que a adoção de novas tecnologias de produção melhorariam a relação custo-benefício para o agricultor.

Fatores como umidade, oxigênio, temperatura, luz e nutrientes impactam o processo germinativo do cacau

Acervo pessoal

A forma, o tamanho e a cor do fruto são usados para estabelecer os genótipos do cacaueiro.

Graduada em Ciências Biológicas pela Ufes e mestre na área de Produção Vegetal também pela Universidade, Daniele Freisleben Lavanhole desenvolveu sua pesquisa no PPGAT do Ceunes/Ufes. O seu projeto foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e recebeu apoio da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).

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Estudos mostram processos de eficiência energética com qualidade do produto Outra pesquisa busca obter a eficiência energética na indústria do chocolate. Em seu mestrado, no Programa de Pós-Graduação em Energia (PPGEn), do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes) da Ufes, Rodrigo Mazolini Imberti estudou a secagem artificial de amêndoas de cacau, com otimização estrutural do processo de beneficiamento para preservação da qualidade do fruto. Os experimentos buscaram obter a maior eficiência energética em um secador de amêndoas do tipo túnel de vento, mantendo qualidade do produto. Após os experimentos, o pesquisador conseguiu quantificar os compostos fenólicos presentes nas amêndoas com atividade antioxidante satisfatória. Ele observou que, dos regimes de modulação de temperatura utilizados, a que apresentou maior eficiência é a variação da temperatura degrau abaixo – step down –, alcançando menor tempo de secagem e maior preservação de compostos fenólicos. “Utilizando o regime step down, foi possível obter melhor eficiência energética, apresentando menor tempo de secagem comparado com outros regimes para a mesma velocidade do ar de secagem”, explica Rodrigo Imberti. Ele aponta que o trabalho desenvolvido na área de secagem pode ser ampliado para processos semelhantes com outros alimentos, e para outros secadores, porque aborda as modulações de temperatura – função degrau – com o tempo. Essas combinações resultam em eficiência energética e qualidade de amêndoas secas de cacau, proporcionando o melhor sabor e aroma dos produtos derivados do cacau, como o chocolate e outros. Eficiência energética Alternativas tecnológicas para processos de secagem mais econômicos e sustentáveis são testadas em fazendas do Estado. “Existem propriedades que utilizam a secagem com estufas em leitos suspensos, para se evitar o contato da amêndoa diretamente com o solo. Essa estufa pode ter a ventilação controlada e é uma forma que tem se mostrado bastante viável. No entanto, ela depende das condições climáticas”, explica o pesquisador. Outros secadores artificiais também contribuem

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para uma maior independência das condições climáticas e aumento da qualidade das amêndoas. Nas fazendas cacaueiras visitadas no Espírito Santo e na Bahia, Imberti constata que nenhuma eliminou a secagem solar. Ele diz ser possível que os métodos tradicionais convivam com novas tecnologias, como secadores a lenha customizados que não deixam a fumaça entrar em contato com as amêndoas, ou secadores com aquecimento por meio de resistores elétricos, sem risco de contaminação das amêndoas. Em seus estudos, Imberti busca aumentar a qualidade do produto, com redução do consumo energético. Ele explica que geralmente, na busca por excelência, gasta-se mais energia. Novos estudos podem melhorar a eficiência energética nas diferentes formas de secagem, de acordo com Imberti, como por exemplo o dimensionamento de um secador adequado que combine a energia elétrica com outras fontes térmicas, como a solar. Nos experimentos do pesquisador e em dados coletados por ele na literatura, foi observado que, no geral, a economia atinge o ponto mais alto no início da secagem, pois nessa fase há apenas

Rodrigo Imberti estudou métodos alternativos de secagem das amêndoas de cacau


a umidade superficial das amostras. Quando a umidade externa é eliminada, é preciso fornecer mais energia para retirar a umidade interna das amêndoas de cacau, por meio do aumento da temperatura. Transformações bioquímicas Entre as vantagens dos secadores artificiais, o pesquisador destaca “a diminuição do tempo de secagem, que pode ser reduzido a algumas horas, porque há o controle da temperatura e da velocidade do ar secante”. Imberti aponta também que há secadores que usam o resfriamento para retirar a umidade do ar, e depois é feito o aquecimento, com um equipamento denominado “bomba de calor”. Apesar dos benefícios de controle desse secador, ele apresenta elevado consumo energético. Já a secagem solar tradicional tem vantagens como a sua fácil implementação nas fazendas, por não demandar investimentos significativos, e por não necessitar de energia elétrica e de nenhum tipo de combustível. Por outro lado, “a qualidade das amêndoas pode ser comprometida, já que em dias de chuva há o risco de contaminação física, química e biológica”, analisa. Ele também destaca a necessidade elevada de mão de obra para a manutenção das amêndoas nas barcaças de cacau e nos processos de revirar, ensacar e despejar as amêndoas diariamente. Acervo pessoal

Para o pesquisador, as alterações das amêndoas de cacau podem impactar a qualidade do produto final. “Antes da etapa de secagem, geralmente, vem a de fermentação das amêndoas, em que ocorrem transformações bioquímicas significativas que conferem o sabor e aroma desejados para determinados produtos de cacau, principalmente o chocolate”, explica. “Essas transformações continuam na etapa de secagem, considerando que algumas formas de beneficiamento excluem a fase da fermentação, para conferir maior concentração de compostos fenólicos”, acrescenta. Referência mundial De acordo com Rodrigo Imberti, o beneficiamento do cacau começa após a colheita de frutos maduros e saudáveis e segue na ruptura dos frutos, que depois são conduzidos para o processo de fermentação. Em seguida, vem a secagem, pelo método tradicional ou artificial – em secadores elétricos, caldeiras a vapor ou estufa solar. Depois vem o armazenamento e, na sequência, a comercialização direta ou a produção de derivados de cacau na própria fazenda. Nas fazendas de cacau, sobretudo em pequenas propriedades, prevalece o conhecimento empírico no beneficiamento do fruto. Imberti avalia que a indústria muitas vezes não acompanha os processos tradicionais nas pequenas propriedades. “Salvo em casos especiais em que são feitas parcerias com algumas fazendas cacaueiras. Geralmente, os produtores vendem suas amêndoas para cooperativas ou atravessadores, e esses, por sua vez, comercializam para as indústrias.” Para o pesquisador, o cacau produzido no Espírito Santo tem se destacado entre os melhores do mundo devido à qualidade do seu produto. “Os prêmios nacionais e internacionais que tem recebido são muito representativos para o cacau capixaba, e significa que é preciso manter esse padrão e elevar sua qualidade para que se mantenha bem posicionado no mercado”, ressalta. O trabalho final de mestrado de Rodrigo Mazolini Imberti, “Estudo da secagem artificial de amêndoas de cacau visando ao aproveitamento na indústria de chocolate – otimização estrutural do processo e eficiência energética”, foi desenvolvido com bolsa concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e apoio da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), que cedeu os frutos para os experimentos. Imberti foi orientado pelo professor Leonardo da Silva Arrieche e coorientado por Paulo Sergio da Silva Porto.

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Foto: Tânia Rêgo/Ag

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Tânia Rêgo/Agência Brasil

gência Brasil

MARIANA três anos depois

JORGE MEDINA

Pesquisas analisam o desastre provocado pelo rompimento da Barragem de Fundão, no município mineiro, sob a perspectiva jurídica e social

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C

onsiderado um dos maiores desastres socioambientais dos últimos tempos, a tragédia que atingiu a cidade de Mariana, no estado de Minas Gerais, completou três anos no último dia 5 de novembro. O tema despertou preocupação nos mais diversos segmentos da sociedade, principalmente na área acadêmica, e interesse da mídia internacional. A catástrofe foi provocada pelo rompimento da barragem do Fundão, controlada pela mineradora Samarco, uma joint-venture entre a empresa brasileira Vale S.A. e a anglo-australiana BHP Billiton. Ela foi responsável pelo lançamento de 60 milhões de metros cúbicos de lama, que devastou o distrito de Bento Rodrigues, além de afetar outros municípios mineiros. No Espírito Santo, as cidades de Aracruz, São Mateus, Linhares e Serra também foram afetadas. A distância percorrida pela lama foi mais de 600 km, até chegar à foz do Rio Doce, e os prejuízos estão estimados em US$ 5,2 bilhões, ou R$ 20 bilhões, baseados no valor estipulado pelo governo federal. Uma quantidade significativa de barro, proveniente do rompimento da barragem, acabou

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com a vegetação por onde passou e deixou rastro de destruição no Rio Doce, cuja bacia hidrográfica abrange 230 municípios nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Ambientalistas acreditam que o efeito dos rejeitos no mar continuará por mais cem anos, sem contar os danos sociais, psicológicos e de saúde nas milhares de pessoas atingidas pela tragédia. Dezenove pessoas morreram e 700 moradores ficaram desabrigados. Casas foram destruídas, animais soterrados, fauna e flora devastadas, entre outros danos ambientais. O desastre ocasionou ainda danos incalculáveis aos produtores rurais, às comunidades locais e aos indígenas que dependiam da pesca, do turismo e do comércio para sobreviver. A arrecadação dos municípios afetados despencou, diminuindo investimentos na saúde, na educação e na segurança pública. A tragédia também resultou na destruição da infraestrutura dos municípios e afetou a população de forma intensa, principalmente as mais carentes, aumentando o número de desempregados. Estima-se que mais de duas mil pessoas foram afetadas.


Acervo pessoal

Arthur Lopes Lemos pesquisou a participação da população nos processos judiciais relativos ao caso

Fotos: Arquivo/Jorge Medina/Ufes

Pesquisas - A Ufes atuou desde que teve conhecimento do rompimento da barragem, com mobilização de toda a comunidade acadêmica em ações de curto, médio e longo prazo. Em relação a pesquisa, foram criadas duas frentes de atuação, uma com enfoque socioambiental e outra voltada para aspectos físicos do tratamento dos rejeitos. Duas dissertações de mestrado defendidas recentemente na Universidade trataram do tema de perspectivas específicas. A primeira é a de Arthur Lopes Lemos, com o título “O caso Samarco e a participação na tutela coletiva: não-dominação, esfera pública e poder judiciário”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Direito Processual. A outra dissertação foi defendida pela psicóloga Paula Bortolon, no Programa de Pós-Graduação em Administração, intitulada “A Samarco e o desastre de Mariana (MG): um estudo em representações sociais a partir da perspectiva dos ex-funcionários da Samarco”. Partindo da premissa de que o processo judicial deve ser entendido como um instrumento de participação democrática nas tomadas de decisões, Arthur, que é escrivão de polícia no Estado, analisou os processos judiciais envolvendo a empresa Samarco. O objetivo era saber se as pessoas que foram diretamente afetadas pelo desastre puderam exercer o direito de voz, expor seus argumentos, interesses e pontos de vista. Ou seja, se os afetados pela tragédia participaram de maneira dialógica na construção das decisões judiciais. O pesquisador partiu de um modelo baseado na teoria de democracia contestatória, proveniente do filósofo irlandês Philip Pettit, para investigar se as pessoas que foram atingidas pela decisão judicial sobre a Samarco participaram dos diálogos que precederam o veredito. Apoiado ainda na escola do formalismo valorativo, Lemos analisou se o processo participativo foi adequadamente utilizado e serviu de instrumento para canalização da voz dos grupos atingidos, especialmente quando estes não estão devidamente representados nas tomadas de decisão.

A comunidade acadêmica tem se mobilizado em diversas ações, desde que a barragem se rompeu e a lama chegou ao Estado

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A dissertação reforçou a necessidade de os afetados na tragédia da Samarco participarem nas decisões judiciais, uma vez que é de grande importância respeitar os direitos fundamentais dos cidadãos. “A possibilidade de participação na tomada de decisões é requisito necessário para a justiça da decisão. O cidadão deve ser vigilante e ter voz de contestação nos processos. Caso contrário, o processo será fonte de dominação”, explica Lemos. Para que isso aconteça, segundo o pesquisador, devem existir instituições que permitam à esfera pública canalizar sua voz e contestar os atos de

dominação. Lemos defende que o Poder Judiciário tem potencial para exercer essa função, permitindo, assim, que a esfera pública exercite a contestação, sempre de maneira dialógica, deliberativa e racional. “Constatou-se ainda que o processo, como instrumento democrático, deve permitir a máxima participação da esfera pública na forma de exercício de voz de contestação, com o objetivo de evitar a dominação. O Poder Judiciário deve ser visto como uma instituição republicana que tem no processo o seu principal, senão o único, instrumento de acesso por minorias ao debate democrático”, ressalta.

Acervo pessoal

Representações sociais da Samarco

A pesquisadora estudou como os ex-funcionários da Samarco passaram a enxergar a empresa após o desastre

Em sua dissertação de mestrado, a psicóloga Paula Bortolon analisou as representações sociais da Samarco e do desastre ocorrido em Mariana com 10 ex-funcionários que aderiram ao Programa

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de Demissão Voluntária (PDV). “Entendemos como representações sociais o conjunto de explicações, crenças e ideias que permitem lembrar um dado acontecimento, pessoa ou objeto. Estas representações são resultantes da interação social, que são comuns a um determinado grupo de indivíduos”, explica. Assim que ocorreu o desastre, as operações da Samarco foram imediatamente suspensas e uma das consequências foi a implementação do programa de demissão por parte da empresa, que desligou aproximadamente 600 trabalhadores em junho de 2016. Os resultados da pesquisa evidenciaram que, para os trabalhadores que pertenciam à área administrativa, a representação social deixou de ser positiva e se tornou uma negativa, uma vez que passaram a identificar a empresa como negligente. Já para os trabalhadores que atuavam nas áreas da operação, da saúde e segurança, observou-se um grande esforço para a manutenção da sua representação social como positiva, considerando o desastre um evento acidental. “Os dados colocam em evidência o fato de que a transformação de uma representação social pode ocorrer para um grupo e não ocorrer para outro, apresentando visões diferentes. Observou-se durante a pesquisa que a formação do pensamento social sobre o desastre apresentou distintas


Por meio do estudo de três casos judiciais sobre o desastre de Mariana, Lemos demonstrou que, para lidar com um fato que atingiu um grupo enorme e diverso de pessoas, e por envolver minorias, os processos devem ter a efetiva participação dos afetados, expondo seus argumentos, opiniões e pontos de vista, participando de maneira dialógica na construção das decisões. O pesquisador reforça ainda que o processo judicial tem de ser um instrumento de democracia e participação, promovidas pelos atores jurídicos. Ele cita como exemplo o Superior Tribunal de Justiça (STJ) que, em sua visão, agiu de maneira

muito correta em um julgamento em Minas Gerais, ao desmembrar a tutela do processo e, com isso, permitiu maior acesso e participação dos afetados. Por outro lado, Arthur afirma que ainda há muito o que melhorar, principalmente no que diz respeito à participação de pessoas ou entidades que auxiliam os tribunais judiciais. Elas deveriam oferecer esclarecimentos sobre questões essenciais, promovendo maior atuação da sociedade civil nos processos. Para ele, deveria haver maior possibilidade de participação daqueles que foram afetados pela tragédia. “O processo pode ser mecanismo de participação, porém, na prática, não tem servido a este ideal,” finaliza.

visões. A percepção do desastre como um fenômeno acidental mostrou-se construída sobre o simbolismo positivo da Samarco presente naquele discurso social. Em contrapartida, o entendimento de que o desastre foi resultado de uma postura negligente da mineradora mostrou-se ancorado em questões individuais, associada a contextos sociais, culturais, ideológicos, crenças e valores, e a influência de grupos e dos meios de comunicação de massa”, destaca Bortolon. A presença dessas representações no grupo administrativo e no grupo da operação, saúde e segurança levou em conta as diferenças de posições que os participantes ocupavam no tecido das relações sociais da empresa. Dessa forma, as variações nas representações sociais em relação aos objetos sociais “Samarco” e “desastre” podem ser explicadas a partir das diferenças de grupos dos quais os trabalhadores pertenciam, uma vez que o meio social em que o indivíduo está inserido influenciou na sua interpretação da realidade. O desastre, destaca a pesquisadora, tornou o que era familiar em algo não familiar e, por isso, os empregados foram motivados a refletir sobre o que ocorreu. O rompimento da barragem gerou uma descontinuidade e uma tensão, levando ao questionamento de boa parte do que era entendido como verdade em relação à Samarco. Os trabalhadores perceberam uma nova realidade sobre a empresa.

“O desastre questionou modelos de pensamentos que dominavam o discurso social desse grupo, dando lugar a novas interpretações da realidade. Ao mesmo tempo, também foi observado um esforço grande por parte de um grupo para a manutenção da representação social. Tais possibilidades foram capazes de demonstrar, empiricamente, como as representações sociais se organizam diante do cotidiano”, destaca. A presença dessas distintas representações sociais nos dois grupos analisados levou em conta as diferenças de posições que os participantes ocupavam no tecido das relações sociais típicas da Samarco. Os resultados contribuíram para compreender as representações sociais em contextos de crise. Percebeu-se uma tensão entre o que era consensual sobre a Samarco e o novo fenômeno que ainda precisava ser acolhido naquele campo representacional. “Podem-se observar duas possibilidades: uma relacionada ao mundo lexical, onde as representações sociais do passado continuam se impondo sobre as interpretações do presente; e a outra, onde as representações do passado se transformaram em função do objeto desastre. O desastre em Mariana causou grandes impactos sociais e ambientais. Compreender esse fenômeno sob a ótica dos ex-funcionários da Samarco que aderiram ao PDV, também impactados pelo desastre, foi essencial para entender como a tragédia afetou emocionalmente e financeiramente esses trabalhadores”, conclui Paula.

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Fotos: Divulgação/PPGCosmo

De olho no

CÉU PATRÍCIA GARCIA

No Parque Estadual Forno Grande, no município de Castelo, pesquisadores de Cosmologia da Ufes observam os astros e compartilham conhecimentos de astronomia com a comunidade.

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A

astronomia é uma das ciências mais antigas. As primeiras civilizações já observavam o céu noturno e previam os movimentos dos objetos que podiam ser vistos a olho nu. Depois de séculos de observação e estudo, o cosmos ainda guarda vários segredos e inspira muitos pesquisadores e cientistas. Desde 2016, Ufes oferece doutorado na área, por meio do Programa de Pós-Graduação em Astrofísica, Cosmologia e Gravitação (PPGCosmo). A Universidade conta também com um grupo de pesquisa em Astrofísica e Cosmologia, o Cosmo-Ufes, que existe desde a década de 1970. Para atender à necessidade desses grupos, e também para o público em geral, foi criado o Polo Astronômico no Parque Estadual Forno Grande, no município de Castelo, sul do Espírito Santo. O polo é fruto de uma parceria entre a Ufes, o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (Ifes), firmada em dezembro de 2017. Desde então, diversas atividades vêm sendo desenvolvidas no parque, visando ao ensino e à divulgação científica.


Vantagens do local O Parque Estadual Forno Grande compreende uma área de 730 hectares, com variação de altitude de 1.600 a 2.039 metros. Seu ponto mais alto é o Pico do Forno Grande, que recebeu o nome dos colonos italianos por parecer um forno de assar pães. Devido à sua altitude e à distância de cidades, o parque é um lugar propício para fazer observações de objetos de fora do Sistema Solar. “No Forno Grande, com um telescópio de porte médio, é possível observar estrelas, espectros de estrelas, sistemas binários, aglomerados de estrelas. Já astrofísica de observação de galáxias é algo um pouco mais complicado, mas talvez seja possível em alguns dias do ano com menos nebulosidade. Em Vitória esse tipo de pesquisa seria inviável”, aponta o professor Júlio Fabris, do Departamento de Física da Ufes, que é um dos coordenadores do Polo Astronômico. Outro fator que levou à escolha do parque como sede do Polo Astronômico foi a estrutura já existente no local. Além de ser de fácil acesso, o espaço possui centro de visitantes, alojamento para pesquisadores e espaço para palestras e hospedagem. Ações para a comunidade Segundo Fabris, a proposta é viabilizar um espaço em que toda a comunidade possa realizar observações, mas que também seja voltado para a pesquisa observacional em Astronomia e o desenvolvimento de projetos acadêmicos. “Um projeto que já estamos desenvolvendo no local é chamado Imersões Astronômicas. Reunimos um grupo de estudantes, universitários ou do ensino médio, para passar dois ou três dias na região. Lá, nós fazemos palestras e levamos telescópios para que eles aprendam a manuseá-los e possam fazer observações preliminares”, diz Fabris. Também estão em andamento os atendimentos à comunidade, em especial a escolas rurais de localidades próximas e projetos de formação. “Estamos em processo de criação um grupo de astrônomos amadores, ou seja, de estudantes locais que possam participar mais ativamente das atividades, como monitores para o atendimento ao público”, explica o professor. Desde dezembro de 2017, funciona no parque a Trilha Astronômica, uma representação em escala dos oito planetas do Sistema Solar e de suas distâncias em relação ao Sol. No percurso de 2,2 quilômetros de extensão em direção ao mirante do local, os visitantes podem compreender melhor as proporções do Sistema Solar de forma mais fiel do que se poderia ter em uma página de livro.

Estudantes e outros grupos de moradores aprendem a observar o céu com o telescópio

Pesquisa Depois de fundamentadas as primeiras ações voltadas ao ensino e à divulgação científica, o próximo passo, de acordo com o professor, é investir na pesquisa em Astronomia Observacional. “Além de dois telescópios menores, ideais para o atendimento à população, também já temos um telescópio de porte médio, mais automatizado, com o qual é possível fazer algumas medidas astronômicas. No futuro, pensamos em montar uma estrutura física dedicada à pesquisa observacional, o que implica em construir um pequeno complemento na estrutura já existente no parque, para que seja colocado um ponto de observação melhor.” Fabris indica que um telescópio de porte médio é o mais adequado para o Polo Astronômico do Forno Grande: devido à nebulosidade, umidade e altitude da região, o local não é ideal para a instalação de um grande telescópio, que demanda uma estrutura complexa e dispendiosa. “O maior telescópio brasileiro está no sul de Minas. É um telescópio bom, potente, mas é um investimento muito grande: precisa ser instalado numa região bastante isolada e alta, e é necessário construir um acesso e uma estrutura para receber os pesquisadores. E aqui não compensa fazer uma estrutura desse porte. No entanto, com essa organização um pouco mais modesta, já é possível fazer coisas de valor científico. Acredito que no próximo ano já teremos formações no nível da iniciação científica nas áreas de astronomia observacional e astrofísica, o que vai ser um salto imenso para a Ufes”, avalia o professor.

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Soluções

sustentáveis para as cidades LUIZ VITAL e NÁBILA CORRÊA

Pesquisas do Departamento de Arquitetura e Urbanismo propõem alternativas para minimizar impactos dos alagamentos nas cidades e desenvolver construções que contribuam com o meio ambiente 20

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Prefeitura de SP

Jardins de chuva ajudam na absorção da água e diminuem a ocorrência de alagamentos

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omo diminuir os problemas ambientais e urbanos usando os recursos naturais nas cidades? A busca de métodos para solucionar essas questões, inclusive por meio da construção e do funcionamento de edificações, está entre os objetivos das pesquisas e estudos desenvolvidos no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Ufes. Propostas do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU) e do Laboratório de Planejamento e Projetos visam o equilíbrio socioambiental, a sustentabilidade e a economicidade na utilização dos recursos naturais, contribuindo para integrar o planejamento ambiental ao planejamento urbano e ao projeto arquitetônico.

Dentre esses estudos estão os do Grupo de Pesquisa Reabilitação Urbana e Ambiental, coordenado pela professora Daniella Bonatto, vinculada ao PPGAU, com trabalhos que mapeiam cidades do Espírito Santo em relação a regiões propensas a alagamentos e avaliam aspectos como a carência de áreas verdes e de arborização urbana. A partir desse levantamento, são apresentadas propostas de infraestrutura verde, de acordo com as características urbanas e ambientais de cada localidade, com o objetivo de melhorar o sistema de captação das águas das chuvas e reduzir os alagamentos. As estratégias mais eficientes na retenção das águas pluviais pesquisadas pelo grupo são as que

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utilizam ou ampliam a arborização de vias públicas. “Quanto maior o porte e densidade da árvore, maior a capacidade de retenção da água da chuva, propiciada pela área da copa. Uma árvore de médio porte vai ter uma área de vegetação grande, de cerca de 12 metros quadrados (m2). Quanto mais próximas as árvores estiverem umas das outras, maior a eficiência, pois colaboram para a formação dos chamados corredores verdes”, explica a professora Daniella Bonatto. Segundo a pesquisadora, os corredores verdes conectam os recursos vegetais localizados nas cidades aos existentes nas margens dos rios. “A prioridade seria conectar as áreas vegetadas ao redor dos cursos de água com as existentes nas

cidades, em calçadas, canteiros centrais e faixas de estacionamento, além da vegetação existente em parques e áreas livres”, afirma. A vantagem da implantação de corredores em projetos de infraestrutura verde é sua multifuncionalidade: “Além de retardarem e diminuírem o volume de águas pluviais lançado na rede de drenagem tradicional, reduzindo alagamentos e ilhas de calor, os corredores também dão suporte às atividades de esporte e lazer e mantêm a biodiversidade, dentre outros benefícios”, explica. A professora acrescenta que outros elementos podem ser incluídos nos projetos de infraestrutura verde, como canteiros pluviais e jardins de chuva. Já

Alagamentos em Vila Velha Outra região estudada pelo Grupo de Pesquisa Reabilitação Urbana e Ambiental, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, foi a Microbacia de Guaranhuns, localizada no município de Vila Velha, na Grande Vitória. Segundo a professora Daniella Bonatto, essa cidade já tem potencial para alagamentos devido às características de relevo (que não permite o escoamento das águas da chuva para o mar, concentrando-as no córrego de Guaranhuns) e do lençol freático (reservatório subterrâneo que, no caso de Vila Velha, está muito próximo à superfície, e transborda facilmente com as chuvas). A região da Bacia de Guaranhuns foi escolhida por sua importância para o abastecimento de água em Vila Velha, com vários bairros atrelados a seus cursos de água. Além disso, a localidade seria ainda mais propensa a alagamentos do que o restante da cidade: “Essa região está abaixo do nível do mar, então nunca deveria ter sido ocupada”, afirma Daniella. A professora acrescenta ainda que a desobediência à legislação ambiental, que determina o mínimo de 30 metros de preservação de áreas vegetadas ao longo de cada uma das margens dos rios, é uma das causas de tragédias socioambientais na região, como a enchente do Canal do Guaranhuns, em 2013. A estratégia de aplicação da infraestrutura verde para evitar os alagamentos na microbacia começaria a partir da renaturalização de suas margens, que são pouco vegetadas devido à ocupação

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humana. A proposta foi desenvolvida durante o mestrado de Eduarda de Berrêdo, pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. “Posteriormente seria feita a conexão da vegetação dessas margens com as áreas verdes residuais, existentes em espaços livres e praças, e com a arborização existente nas ruas”, explica Daniella Bonatto, orientadora desse estudo. Para ela, a melhor forma de implantação de corredores verdes é utilizar o espaço público, onde a prefeitura pode intervir sem desapropriar. “A situação existente na localidade estudada é de calçadas muito estreitas ou ausentes e uma rua toda livre em que passa carro à vontade”, afirma. A alternativa seria então retirar uma faixa de estacionamento, existente dos dois lados da pista, e ampliar as calçadas para fazer o trabalho de arborização: “em cada quadra eu tenho uma fileira de calçada comprida que, com a inserção da arborização viária e jardins de chuva, comporia um corredor verde. O ideal é que eu pudesse ter uma árvore muito próxima da outra, para que suas copas pudessem reter a água da chuva de maneira mais eficiente”, explica. Segundo a professora, além de evitar perda de vidas humanas e prejuízos materiais, a redução dos alagamentos na Região de Guaranhuns também envolve a preocupação com a saúde pública. “Em Vila Velha, a maior parte da rede de esgoto é conectada com a rede de drenagem. Quando chove


Profa. Daniella Bonatto/Acervo pessoal

alternativas como paredes verdes em fachadas sem janelas nem acabamentos – as chamadas empenas cegas – são importantes em áreas urbanas sem disponibilidade de espaço para implantar arborização, como ocorre no Centro de Vitória: “Estudos mostraram a total viabilidade de implantação de estratégias de infraestrutura verde nessas áreas. Pesquisas do Grupo Reabilitação Urbana e Ambiental analisaram edificações no Centro, por meio de simulações por computador, propondo o uso de paredes verdes nas empenas cegas desses edifícios. O resultado das simulações mostrou melhora na temperatura e umidade do ar no nível do pedestre, minimizando o problema da ilha de calor existente”.

muito, essa rede transborda. Temos então um problema de saúde pública gravíssimo. É necessário impedir a todo custo que essa água escoe”, alerta. A importância da parceria com o Poder Público na aplicação desses estudos foi reiterada por Daniella Bonatto, ao apontar a cidade paulista de São Carlos como exemplo. Ela explicou que, nessa cidade, existem muitos cursos d’água, margens ocupadas e topografia acentuada com desníveis que causavam alagamentos nas avenidas marginais, localizadas em fundo de vale. Lá foi implantado um projeto de infraestrutura verde, com consultoria das universidades locais: “Em São Carlos, havia um curso de água que estava tamponado, escondido. Foi feita então a renaturalização das margens, o que também pode ser feito em casos como o de Vila Velha. A recuperação é muito rápida, a vegetação cresce muito rapidamente. Houve um amplo plano de macrodrenagem, que envolvia técnicas de infraestrutura verde, permitindo a redução de episódios de alagamento”. Daniella enfatiza também que a infraestrutura verde tem potencial para a reabilitação tanto urbana, quanto ambiental: “As margens renaturalizadas em São Carlos, por exemplo, puderam receber equipamentos de lazer, como bancos e pista de caminhada. A implantação de corredores verdes é um excelente caminho a ser seguido por prefeituras e uma experiência que vem se ampliando no mundo e, mais recentemente, no Brasil”, conclui a pesquisadora.

Paredes verdes podem ser usadas para reduzir a temperatura e melhorar a qualidade do ar

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Obras públicas sustentáveis No Espírito Santo, um exemplo bem-sucedido de parceria entre Universidade e Governo Estadual para aplicação de pesquisas relacionadas à sustentabilidade foi a implantação do Centro de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento Eliezer Batista da Silva (Cpid), inaugurado em julho deste ano, em Cariacica, na Grande Vitória. O prédio do Cpid – que tem o objetivo de oferecer aos pesquisadores condições de desenvolver estudos e projetos em áreas estratégicas para o desenvolvimento do Espírito Santo – foi construído a partir de inovações desenvolvidas no Laboratório de Planejamento e Projetos (LPP) da Ufes. Os pesquisadores vinculados ao Departamento de Arquitetura e Urbanismo utilizaram conceitos inovadores para o melhor aproveitamento de recursos naturais na construção e no funcionamento de obras públicas. Segundo o professor Paulo Vargas, um dos coordenadores do LPP, na construção dos 3.664 m² do prédio foi utilizado o conceito de “obra seca”, que é a substituição de materiais tradicionais de construção – como concreto, tijolo cerâmico e argamassa – por outros que podem ser reciclados ou reutilizados, como aço, madeira, placas de OSB (sigla em inglês para Painel de Tiras de Madeira Orientadas), chapas cimentícias, gesso e isopor. “Esse sistema propõe uma obra mais limpa, com menos desperdício, mais rápida e sustentável”, afirma o pesquisador. Vargas assinala que o conceito “retrofit” também foi utilizado na obra, com o aproveitamento de uma antiga casa de estilo modernista. Ela foi recuperada e transformada em recepção e portal de acesso ao prédio, que é feito por meio de uma torre e passarela suspensa. Quanto à manutenção do prédio do Centro de Pesquisas estadual, os recursos naturais terão papel de destaque. As águas da chuva serão armazenadas em reservatórios com capacidade de 80 mil litros e usadas para irrigar a

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A otimização dos recursos naturais foi um conceito fundamental do projeto arquitetônico do Cpid

área verde do Cpid. Há também a previsão de instalação de um sistema fotovoltaico para guardar energia solar. O projeto arquitetônico do Centro de Pesquisas também considerou o melhor aproveitamento da luz natural, permitindo economia no consumo de energia elétrica, incluindo fachadas com o uso de brises – telas parecidas com grandes venezianas que funcionam como quebra sol, mantendo a ventilação, preservando os equipamentos e possibilitando economia e conforto.


Divulgação/Governo do Espírito Santo

A pesquisa foi realizada sob a coordenação técnica do professor Paulo Sérgio de Paula Vargas e administrativa da professora Cristina Engel de Alvarez, ambos do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, e contou com bolsistas de graduação e pós-graduação. A construção do Cpid foi executada pelo Instituto de Obras Públicas do Espírito Santo (Iopes).

Projetos de pesquisa A meta do Cpid é consolidar uma infraestrutura física necessária à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico no Estado, com foco em áreas como Engenharia Ambiental, Tecnologia de Equipamentos, Tecnologia Industrial Básica e Tecnologia de Informação. No novo centro funcionarão os laboratórios de desenvolvimento de pesquisas na área de tecnologia de equipamentos (Elem), coordenado pelo professor Marcelo Eduardo Vieira Segatto, do Departamento de Engenharia Elétrica; e de técnicas avançadas de diagnóstico e controle aplicados a processos industriais (IndControl), coordenado pelo professor Celso José Munaro, do mesmo departamento. Outros quatro laboratórios são: Ensaios Não Destrutivos (Labenden), do professor Marcelo Camargo Severo de Macedo, do Departamento de Engenharia Mecânica; Caracterização Física, Química e Microbiológica (Lacar), coordenado pelo professor Sérvio Túlio Alves Cassini, do Departamento de Engenharia Ambiental; Análise Ambiental (NAA), pelo professor Neyval Costa Reis Junior, do Departamento de Engenharia Ambiental; Informações sobre Água e Desenvolvimento Regional (Niades), do professor Edmilson Costa Teixeira, do mesmo departamento. Outro laboratório é o de Planejamento e Análise do Desempenho para Redes Multimídia e Aplicação no Contexto de Cidades Digitais (Cidig), do professor Maxwell Monteiro, do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). O Cpid é resultado de parceria entre Ufes; Ifes; Empresa Financiadora de Estudos e Projetos (Finep); Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC); Governo do Estado, por meio da Secretaria da Ciência, Tecnologia, Inovação, Educação Profissional (Secti); Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes); e Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema).

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Referência em

cirurgia bariátrica LIDIA NEVES

O Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes é o único no Espírito Santo que usa a técnica da videolaparoscopia para o procedimento, indicado para reduzir os casos mais graves de obesidade. No Estado, só a Ufes tem curso de Cirurgia por Videolaparoscopia, que forma residentes e profissionais, além de graduandos. A experiência motivou várias pesquisas e colocou a Universidade como referência no tema.

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Acervo pessoal/Prof. Gustavo Peixoto

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obesidade atinge 18,9% da população brasileira, segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. Diversas enfermidades estão associadas à obesidade, como diabetes mellitus, disfunções pulmonares, doenças cardiovasculares, problemas hepáticos, psiquiátricos e reprodutivos. Para combater a doença, inicialmente é feito o tratamento clínico, acompanhado de dieta, orientação para mudança de hábitos, atividades físicas, atenção psicológica e uso de medicamentos por, no mínimo, dois anos. Os pacientes que não obtêm a resposta esperada podem ser encaminhados por uma equipe multidisciplinar para a cirurgia bariátrica (veja no box quando o procedimento é recomendado). O modelo mais comum de bariátrica é chamado de bypass gástrico e consiste na diminuição do estômago e realização de uma emenda da parte menor com o intestino. Após a cirurgia, o alimento passa pelo pedaço menor do estômago e o suco gástrico e o pancreático passam a fazer outro trajeto. A absorção e a digestão ocorrem já no intestino. “Quando a gente desvia a grande curvatura do estômago, a gente diminui a expressão de um hormônio chamado grelina, que é o hormônio da fome. E esse é o principal mecanismo de atuação da cirurgia bariátrica. Ao desviar uma parte do intestino,

a gente muda a expressão de vários hormônios, que alteram a sensação de saciedade e regulam o funcionamento do pâncreas, por isso os pacientes melhoram do diabetes”, explica o professor Gustavo Peixoto Soares Miguel, responsável pelo Programa de Cirurgia Bariátrica do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam-Ufes). Primeiro hospital a realizar o procedimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Espírito Santo, o Hucam-Ufes já contabiliza a realização de mais de 1.200 cirurgias bariátricas – cerca de 150 por ano atualmente. Três hospitais realizam a bariátrica pelo SUS no Estado, mas só o Hospital Universitário faz cirurgia por videolaparoscopia. A técnica mais moderna evita a necessidade de fazer um corte de 10 a 20 centímetros (cm) na barriga do paciente: através de pequenos orifícios de até 1,2 cm e o uso de pinças, é possível realizar os procedimentos, acompanhados por meio de um monitor. Além de ser menos invasiva, estudos comprovam que a cirurgia por videolaparoscopia possibilita uma recuperação mais rápida e tem menores índices de mortalidade. O Hospital Universitário passou a usar o vídeo nas bariátricas em 2014, mesmo ano em que teve início o modelo atual do Curso de Cirurgia por Videolaparoscopia. Só em 2017 o procedimento foi incluído no SUS. No entanto, só é remunerado o custo da cirurgia aberta, que é mais barata. “De 2014 até 2017, nós fazíamos porque era importante

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como ensino, para que nossos alunos aprendessem com a tecnologia mais moderna e não ficassem apenas aprendendo uma cirurgia já em desuso, que é a cirurgia aberta”, diz o professor Gustavo Peixoto. Atualmente, a cada três bariátricas abertas, o Hucam faz uma por videolaparoscopia. Formação em cirurgia por vídeo A Ufes tem tradição na capacitação de cirurgiões com o uso do vídeo. Em 1992, o professor Elton Francisco Nunes Batista, do Departamento de Clínica Cirúrgica do Centro de Ciências da Saúde (CCS), criou o Curso de Videocirurgia. Até 2008, foram formados 150 profissionais no Estado. O curso foi interrompido em 2008, por falta de infraestrutura, e retomado em 2014, por iniciativa do professor Gustavo Peixoto, do mesmo departamento, com apoio da Ufes e do Hucam. “A contratação de docentes novos, a aquisição de materiais e a parceria com o Hospital Universitário foram essenciais para a reestruturação do Departamento de Clínica Cirúrgica e o curso foi retomado com várias melhorias didáticas”, relata o professor. Entre as inovações, foram adquiridos sistemas operados em pequenos tablets e torres de vídeo e pinças mais ergonômicas. O Curso Básico de Videolaparoscopia acontece anualmente e é o único oferecido no Espírito Santo. São ensinados os fundamentos teóricos e práticos, como as manobras fundamentais, acessos, uso do instrumental e operações como a retirada da vesícula biliar e do apêndice. Com o aprendizado, o aluno estará apto também a realizar outros procedimentos com técnicas semelhantes.

Na turma de 2018, foram formados 30 médicos pós-graduandos (residentes) de quatro instituições do Estado e dois cirurgiões já pós-graduados. A estrutura montada também foi utilizada para o treinamento de graduandos de medicina que já cursaram a disciplina de técnica operatória. Com a qualificação, que é aberta também para médicos já formados, a equipe de cirurgiões que fazem bariátrica por videolaparoscopia no Hucam-Ufes já se expandiu para cinco profissionais. “A maioria dos chefes de cirurgia bariátrica do Estado e da região do entorno do Espírito Santo (sul da Bahia, leste de Minas e norte do Rio de Janeiro) é de egressos do Hospital Universitário”, afirma Peixoto. Referência em pesquisa As cirurgias bariátricas no Hucam-Ufes motivaram diversas pesquisas nos programas de pós-graduação em Ciências Fisiológicas e em Biotecnologia, que abordam desde a preparação para a cirurgia até o pós-operatório, passando por análises de tecido e patologias associadas. A tese de doutorado do professor Gustavo Peixoto, defendida em 2009, comprovou que uma nova técnica, a gastrectomia vertical, é equivalente às cirurgias bariátricas mais tradicionais. Nessa modalidade, o estômago do paciente tem uma redução de 80% e é grampeado em forma de tubo, do esôfago ao duodeno. A diferença em relação à técnica do bypass gástrico é que, neste caso, ela só mexe no estômago, não há a necessidade de alterar o intestino. A pesquisa do professor da Ufes foi usada como referência técnica para o Conselho Federal de Medicina aprovar o novo método cirúrgico no Brasil.

Saiba em que casos a cirurgia bariátrica é recomendada A Organização Mundial de Saúde (OMS) usa o Índice de Massa Corporal (IMC) para classificar o excesso de peso e a obesidade. O índice é obtido pela divisão do peso (em quilogramas) pelo quadrado da altura. São consideradas obesas as pessoas com IMC maior ou igual a 30 kg/m2. A obesidade mórbida ou grave é indicada por um índice igual ou superior a 40 kg/m2 . Os que têm cima de 50 kg/m2 são classificados como super obesos. A cirurgia bariátrica é recomendada para os super obesos e para os casos graves que já tenham tentado

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o tratamento clínico por pelo menos dois anos. Também pode ser indicada para quem tem IMC inferior a 35 kg/m2 e com problemas de saúde como apneia do sono, hipertensão arterial e diabetes mellitus. A idade mínima para a cirurgia é de 16 anos. Pacientes com menos de 18 anos passam por avaliação clínica e psicológica especial, além de autorização dos pais e aprovação da comissão de ética do hospital em que o procedimento será realizado. Não há idade máxima, mas para idosos é necessária uma avaliação especial dos riscos e benefícios.


ARTIGO

Tânia Rêgo/Agência Brasil

O MUSEU

que se ergue das cinzas Sérgio Lucena Mendes, professor do Departamento de Zoologia da Ufes e diretor do Instituto Nacional da Mata Atlântica A palavra “museu” tem origem na mitologia grega, onde as musas, filhas de Zeus e Mnemósine, eram inspiradoras das ciências e artes e o templo onde viviam chamava-se “mouseion”. Os museus contemporâneos têm suas origens nos “gabinetes de curiosidades”, impulsionados pelas explorações e descobertas dos séculos XVI e XVII, onde nobres e burgueses colecionavam e exibiam objetos considerados exóticos e obras de arte. A partir do século XVII os “gabinetes” foram substituídos

por coleções institucionais ou privadas, dando origem aos museus de arte e de história natural. No Brasil, os museus surgiram durante o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves quando, para estimular as ciências, em 1818 o Rei Dom João VI fundou o Museu Real, que mais tarde viria a se chamar Museu Nacional. Originalmente o Museu Real localizava-se no Campo de Santana, no centro da cidade do Rio de Janeiro, em um prédio que mais tarde foi ocupado pelo Arquivo Nacional.

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ARTIGO

Tânia Rêgo/Agência Brasilo

O incêndio no Museu representa uma tragédia inédita para a história do Brasil e do Ocidente

Inicia-se, assim, a história do mais antigo museu brasileiro que, a partir de 1892, após a proclamação da República, se estabeleceu no Palácio da Quinta da Boa Vista, também conhecido como Palácio de São Cristóvão. Construído no início do século XIX, o palácio pertenceu a Elias Antônio Lopes, um comerciante português que enriqueceu com o tráfico negreiro. O palácio foi cedido à família real, se transformando na residência de Dom João VI, bem como de seus sucessores, Dom Pedro I e Dom Pedro II. O Museu Nacional, portanto, reúne aspectos muito relevantes tanto sob o ponto de vista histórico e cultural, quanto científico. O valioso acervo remonta à sua fundação por Dom João VI, foi significativamente ampliado pelo empenho pessoal de Dom Pedro II, sendo enriquecido no século XX pela ciência que ali se estabeleceu. A relevância histórica e cultural é engrandecida pela instalação do Museu no Palácio de São Cristóvão, residência oficial da família real portuguesa e da família imperial brasileira. No século XX o Museu Nacional consolidou-se como uma instituição de impacto internacional, não somente pelo crescimento de seu acervo, mas também pela sua atuação como uma instituição de

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ciências e educação, destacando-se em áreas como Botânica, Zoologia, Arqueologia, Etnologia, Geologia, Paleontologia e Antropologia. O Museu passou a oferecer cursos de mestrado e doutorado em Antropologia Social, Arqueologia, Botânica e Zoologia, além de cursos de especialização em Línguas Indígenas Brasileiras, Gramática Gerativa e Cognição e Geologia do Quaternário. Os cursos de pós-graduação estão vinculados a laboratórios e grupos de pesquisa de diversas áreas do conhecimento. O desenvolvimento científico do Museu foi acompanhado pelo trabalho de divulgação realizado, sobretudo, por intermédio de exposições que abordavam, principalmente, a evolução da vida, a evolução da humanidade, as culturas mediterrâneas, o Egito antigo, a arqueologia pré-colombiana, a arqueologia brasileira, a etnologia indígena brasileira, e as culturas do Pacífico, além das diversas seções dedicadas à Zoologia. As artes e a ciência passaram a ser objeto de proteção no âmbito do direito internacional humanitário desde fins do século XIX. As primeiras iniciativas nesse sentido estavam relacionadas a ações que buscavam, em tempos de guerra, a proteção e defesa de determinados locais e construções relevantes. As Declarações de Bruxelas, de 1874, e as Convenções de Haia, de 1889 e 1907, traziam a orientação formal quanto à necessidade de preservação das “artes e das ciências” durante combates. Mesmo com a proteção internacional, grandes museus de arte e ciências foram vítimas de bombardeios durante o século XX, principalmente na Segunda Guerra Mundial, e incêndios acidentais têm atingido vários museus de grande importância ao redor do mundo, inclusive no Brasil, onde podemos destacar os incêndios no Museu de Arte Moderna do Rio (1978), no Instituto Butantã (2010), no Memorial da América Latina (2013), no Museu de Ciências Naturais da PUC Minas (2013) e no Museu da Língua Portuguesa (2015). Apesar desses exemplos dramáticos, o incêndio do Palácio de São Cristóvão, sede do Museu Nacional, no dia de 2 de setembro de 2018, representa uma tragédia inédita para a história do Brasil e do Ocidente. Chocaram o mundo as imagens do Museu em chamas e os servidores em volta chorando de desespero. Certamente é extremamente grave termos grande parte do Palácio da Quinta


da Boa Vista transformado em cinzas, mas a tragédia é muito ampliada com a perda do acervo científico e dos laboratórios que foram incendiados. Dentre as perdas destacadas pelos pesquisadores do Museu pode-se citar a coleção da Imperatriz Teresa Cristina, os afrescos de Pompeia, o Trono do Rei do Daomé, as coleções de Paleontologia, as coleções de animais invertebrados, o acervo de etnologia com artefatos da cultura afro-brasileira, africana e indígena, além do trono do rei africano Adandozan (1718-1818), doado pelos seus embaixadores ao príncipe regente Dom João VI, em 1811. Por sorte, o fóssil humano mais antigo das Américas, achado em 1974 em Lagoa Santa – MG, e batizado de Luzia, foi reencontrado sob os escombros e sobreviveu à catástrofe. Felizmente, nem todo o Museu foi atingido pelo incêndio, já que a biblioteca e as coleções científicas de vertebrados e de botânica (herbário) estão alojadas em outros prédios na Quinta da Boa Vista. Além do acervo de inestimável valor para a humanidade, o impacto atingiu a estrutura de produção de conhecimento e educação de uma instituição de 200 anos. Laboratórios destruídos, cientistas e estudantes desalojados, pesquisas interrompidas, exposições que viraram cinzas são alguns dos exemplos desse impacto que ficará para sempre marcado na história do Brasil.

Mais do que buscar culpados, essa tragédia nos impõe uma reflexão sobre as nossas falhas no trato do patrimônio cultural e científico brasileiro. Em primeiro lugar, a nossa cultura de segurança e prevenção de desastres é, obviamente, precária em todos os setores. Em segundo lugar, os investimentos em ciência e cultura estão muito aquém do desejável, deixando as instituições fragilizadas e expostas a riscos. Em terceiro, mas não menos importante, é o modelo de gestão de instituições públicas, como o Museu Nacional, que necessitam de mecanismos ágeis de captação e gestão de recursos financeiros e de pessoal. Conforme campanha deflagrada após o incêndio, o “Museu Nacional Vive”, o incêndio não destruiu a instituição de 200 anos, mas provocou um incalculável prejuízo, com feridas ainda abertas, que deixarão profundas cicatrizes. O restabelecimento do Museu Nacional é responsabilidade de todos os brasileiros. Órgãos públicos, empresas privadas, terceiro setor e cidadãos de um modo geral devem se unir na recuperação dessa instituição tão valiosa para o país. Por razões óbvias, o Museu que ressurge das cinzas não será mais o mesmo que havia até o dia 2 de setembro de 2018. Mas esperamos que ressurja com a grandiosidade que devem ter a história, a ciência e a cultura na consolidação de um país que honra a sua Constituição.

Arquivo/Gian Cornachini/CC 4.0 e Fernando Frazão/ABr

Fragmentos do crânio do fóssil Luzia, o mais antigo das Américas, foram encontrados nos escombros

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Um coro

universal ANA PAULA VIEIRA e LIDIA NEVES

A Declaração dos Direitos Humanos, que completa 70 anos, ampliou direitos em todo o planeta. Para o professor aposentado da Ufes João Baptista Herkenhoff, que é uma referência capixaba no assunto, as lutas por direitos se expressam em muitas vozes. Os 50 livros publicados por Herkenhoff se destacam nos estudos desta área. Diversos projetos de pesquisa e extensão se debruçam sobre o tema

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Reprodução/C(Elas)

Documentário C(Elas), dirigido pela professora Gabriela Santos Alves (Comunicação), abordou a maternidade na Penitenciária Feminina de Cariacica

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m 10 de dezembro de 2018, a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos. Considerada o documento fundamental dos Direitos Humanos, a Declaração foi proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, como um aceno de esperança contra tamanha brutalidade. Apesar de não ter havido outra guerra daquelas proporções desde então, batalhas contra a fome, a violência, a desigualdade e o preconceito continuam diariamente para muitas pessoas. Também persiste a luta por dignidade, justiça e direitos. Como diz o primeiro artigo da Declaração: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”. No Espírito Santo, um professor da Ufes foi pioneiro dessa luta e referência acadêmica sobre o assunto: João Baptista Herkenhoff. Hoje aposentado, iniciou a docência no Departamento de Direito em 1975, época em que já abordava o tema na disciplina “Fundamentos do Direito”, mesmo antes de o termo “direitos humanos” se consolidar e de o conteúdo da Declaração reverberar pelas Constituições ao redor do mundo.

Sua atuação não se limitava à docência e à pesquisa; ingressou em 1966 como juiz de direito no Tribunal de Justiça em Vila Velha. Algumas de suas decisões ficaram conhecidas nacionalmente, como a libertação de Edna, uma prostituta “condenada por um crime pequeno”, segundo Herkenhoff. A sentença dizia: “A acusada é multiplicadamente marginalizada: por ser mulher, numa sociedade machista; por ser pobre, cujo latifúndio são os sete palmos de terra dos versos imortais do poeta; por ser prostituta, desconsiderada pelos homens, mas amada por um Nazareno que certa vez passou por este mundo; por não ter saúde; por estar grávida, santificada pelo feto que tem dentro de si, mulher diante da qual este Juiz deveria se ajoelhar, numa homenagem à maternidade, porém que, na nossa estrutura social, em vez de estar recebendo cuidados pré-natais, espera pelo filho na cadeia. É uma dupla liberdade a que concedo neste despacho: liberdade para Edna e liberdade para o filho de Edna que, se do ventre da mãe puder ouvir o som da palavra humana, sinta o calor e o amor da palavra que lhe dirijo, para que venha a este mundo tão injusto com forças para lutar, sofrer e sobreviver”. Emocionado, o professor conta à Revista Universidade que, mais tarde, na realização de uma pesquisa, procurou Edna, que lhe relatou sua promessa de nunca mais voltar à prostituição depois da saída da prisão. “Eu tenho alegria de contar isso, mas para isso tem que ter idealismo. Não só o juiz, todo mundo tem que ter. O idealismo é o sal da Terra. A coisa mais triste e absurda é um juiz que pensa apenas no salário”, comentou Herkenhoff. Depois de aposentado do Tribunal, o professor passou a se dedicar exclusivamente à Ufes e, a partir daí, conta que a convivência com os ideais dos direitos humanos foi potencializada durante seu pósdoutorado, realizado na Universidade de Rouen, na França, nos anos de 1991 e 1992: “Lá eu tive convivência com grupos dos mais diversos, com árabes, judeus, refugiados políticos, pois a França sempre foi uma terra de abrigo, um país com toda uma tradição de abrigar os perseguidos. Também convivi com grupos de igrejas – católica, luterana, presbiteriana –, e pessoas espíritas”, ressaltou. De volta ao

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Fotos: Lidia Neves/Ufes

João e Therezinha Herkenhoff relatam que sofreram ameaças por defender os direitos humanos

Presente e futuro Brasil, essa pesquisa resultou em três livros: “Gênese Em relação ao reconhecimento dos direitos, o dos direitos humanos”, “Direitos humanos, a construprofessor vê pontos positivos e negativos. “Não sou ção universal de uma utopia” e “Direitos humanos, pessimista para dizer que o mundo está perdido, poruma ideia, muitas vozes”. Nessas obras, ele aborda que há muita gente lutando por um mundo melhor, a criação da matéria, com uma gênese bastante por justiça, por igualdade, por fraternidade, então há anterior à Declaração Universal de 1948. “Ainda que muita busca de direitos humanos, mas há também não tivesse esse nome, a luta pelos direitos humamuita negação deles”. Entre as negações de direinos, por um mundo de convivência entre os povos, tos, ele cita a tortura, que considera “totalmente por um mundo sem preconceitos, por um mundo injustificável”. O artigo 5º da Declaração afirma que em que se abrigasse as pessoas, é uma luta antiga”, “ninguém será submetido a torexplicou. Nos dois livros seguintes, tura nem a penas ou tratamentos evoluiu por essa história: “Quando “Quando o pedinte cruéis, desumanos ou degradanfalo nos direitos humanos como a pede um pão, ele tes”. “Não pode haver tortura para construção universal de uma utopia, não falo de utopia como um está dizendo: ‘eu sou descobrir crime, para isso tem que haver perícia, busca de testemusonho impossível, mas como um gente, não posso nhas, ciência, esforço. Eu diria que a ideal construído por vários povos”, tortura é a maior negação de direianalisa. No terceiro livro, ele trata morrer de fome’” tos humanos. A polícia precisa se das vozes que contribuíram para modernizar, os crimes têm que ser a consolidação dos direitos humadescobertos, as pessoas que os cometem têm que ser nos: “São vozes das mais diversas raças, vozes dos julgadas, não torturadas”, defende Herkenhoff, que é pobres, não são as vozes dos ricos. É a voz do pedinte contra a pena de morte. na rua. Quando ele pede um pão, ele está dizendo: O professor também destaca o problema da vio‘eu sou gente, eu não posso morrer de fome’. Esse lência que, em seu entendimento, pode ser prevepedido, a mão estendida, são afirmações de direitos nido. “Primeiro, é preciso que a pessoa tenha uma humanos”, enfatiza o professor. A produção de Herkenhoff chegou a 50 livros, família, então tem que haver a proteção da família. É uma obrigação do Estado dar amparo à família, o que lhe rendeu mais de mil citações acadêmicas.

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de tal forma que a criança tenha um lar de fato e se desenvolva. Além disso, há várias coisas, como educação, escolas de boa qualidade, professores remunerados dignamente”, aponta. Ele também destaca o papel das igrejas, âmbito em que teve atuação marcante: Herkenhoff foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória, criada em 1978. “As igrejas podem contribuir para melhorar o mundo, não só a Igreja Católica, mas as igrejas de modo geral”, ressalta. Sobre as perspectivas futuras, Herkenhoff lembra que a busca pelos direitos humanos é diária. “A luta continua, eu estou aqui lutando. Estou aqui falando, me emocionando com a justiça”, concluiu o professor de 82 anos, que não escondeu a voz embargada e os olhos marejados por várias vezes durante a entrevista. E relembrou, junto à esposa, Therezinha Gonçalves Pinto Herkenhoff, de uma trajetória com percalços sofridos – entre elas uma carta bomba e um telefonema para a escola do filho, ameaçando de sequestrá -lo. “A gente passou por muitos maus momentos por causa dos direitos humanos, porque muitas das ideias dele foram totalmente inovadoras aqui no Espírito Santo, nas sentenças”, contou Therezinha. Ela também lembrou da atuação de Herkenhoff na Ufes: “Na época da ditadura, teve uma história célebre de uns meninos que iam a um congresso: o ônibus estava lá e o reitor não queria que fossem. Naquele dia, lá dentro do campus da Ufes, João fez um protesto”. O professor também comentou sobre sua suspeita de que havia pessoas infiltradas na Ufes: “Eu tinha certeza que minhas aulas estavam sendo gravadas”.

geral, porque eles estão presentes em todas as atividades do ser humano.” Daí a universalidade da Declaração: “São muitas vozes, dos sofredores, dos que estão nos hospitais; vozes que estão passando fome, vozes dos presos, enfim, muitas vozes que buscam os direitos humanos mesmo sem usar esse termo. Para se lutar pelos direitos humanos não é preciso falar o nome, eles estão acima das línguas. Uma ideia central, que é a iluminadora, a que fecunda e que é expressa por muitas vozes, um coro universal”, explicou Herkenhoff. No aniversário de 70 anos da Declaração, ele continua integrando esse coro: “Continuo acreditando nessas coisas: no Direito, na Justiça, num mundo de maior igualdade, acreditando que nós temos que suprimir a fome - a fome é a maior brutalidade”, afirmou o professor, que ainda escreve artigos para jornais e dá palestras. Marco histórico Segundo a presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes, professora Brunela Vieira de Vincenzi, a Declaração Universal dos Direitos Humanos é considerada um marco histórico na luta pelos direitos humanos pois positivou normas que não

Muitas vozes Para expandir os direitos humanos, Herkenhoff defende que sejam ensinados para os estudantes de todas as áreas. “Eu acho que no curso de Direito tem que ser obrigatório, mas em todos os cursos deve haver o estudo dos Direitos Humanos. Para o médico, o engenheiro e os profissionais de modo

‘Gênese dos Direitos Humanos’ foi o primeiro livro publicado pelo professor após seus estudos na França

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Um marco para os direitos das pessoas A Segunda Guerra Mundial, encerrada em 1945 após seis anos de conflitos, deixou o mundo marcado pelas mortes de milhões de pessoas e pela destruição de cidades na Europa e na Ásia. O mundo queria a paz. Por isso, naquele mesmo ano, 50 nações formaram a Organização das Nações Unidas (ONU). A Carta das Nações Unidas, que marca o seu nascimento, mencionava sete vezes o termo “direitos humanos”. A Declaração, proclamada três anos depois, foi o primeiro marco legal da proteção dos direitos humanos em âmbito internacional e é o documento mais traduzido do mundo, com versões em mais de 500 idiomas, segundo a ONU. Após sua proclamação, a legislação sobre o tema se expandiu: cerca de 80 declarações e tratados foram adotados pelas Nações Unidas e influenciaram a regulamentação dessas garantias nos países-membros. A partir da Declaração, mudanças em legislações levaram à proteção de crianças, mulheres, vítimas de tortura, pessoas com deficiência, LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), indígenas, minorias e migrantes, entre outros grupos. Também foi constituído um consenso em relação à necessidade de punição de graves violações aos direitos humanos, o que tem sido feito pela Corte Internacional de Justiça, criada em 1992 para resolver conflitos entre Estados na ONU, e o Tribunal Penal Internacional, que desde 2002 julga pessoas acusadas de crimes de genocídio, de guerra e contra a humanidade. Com o passar do tempo, o entendimento de direitos humanos foi ampliado a aspectos como a transparência e prestação de contas de governos, a liberdade de expressão e o combate aos discursos de ódio e às formas contemporâneas de escravidão. Também foram incluídas as garantias das pessoas idosas, o direito à verdade, a um ambiente limpo, à água e ao saneamento, e à alimentação.

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estavam escritas. “As Constituições do México, de Weimar, já previam isso; havia algumas normas na Inglaterra, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão da Revolução Francesa, a Constituição norte-americana, mas tudo muito esparso”, explicou. A professora ressalta que o documento é chamado “universal” pois ampliou o alcance dos direitos para o mundo inteiro. Para ela, a Declaração tem um conteúdo genérico e mínimo, mas que promove a garantia de uma coleção de direitos humanos. O contexto pós Segunda Guerra Mundial envolvia a necessidade de impedir que a barbárie acontecesse novamente: “A gente vê que era uma resposta da sociedade, principalmente ao que ocorreu nos campos de concentração, o extermínio dos judeus, ciganos, homossexuais; e uma esperança muito grande de que aquilo não se repetisse”, analisou a professora. Do ponto de vista do Direito, Brunela explica que, atualmente, a Declaração é aceita como um documento vinculante, incorporado pela maioria dos países. Mas, inicialmente, os 50 países membros da ONU que a aprovaram não tinham obrigação de cumpri-la. Paulatinamente, o texto da Declaração foi se tornando quase um capítulo das constituições pós-guerra. “Nós aqui no Brasil o incluímos integralmente no artigo 5º da Constituição em 1988.” Desafios A partir da Constituição, novas leis relativas a esses direitos foram criadas, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estatuto do Idoso, o Estatuto dos Refugiados, a Lei Maria da Penha e o novo Código Civil. Mas o Brasil ainda tem desafios a enfrentar. “A regularização fundiária e da posse de propriedades nas comunidades é um grande problema do Brasil. Há muita gente em favelas e comunidades sem direito à posse ou à propriedade”, diz a professora, que também destaca as discussões sobre gênero: “Tem uma previsão de igualdade entre homens e mulheres, mas não tem uma norma mandando pagar salários iguais. E a igualdade deve ser em todos os níveis, como a representatividade no parlamento, por exemplo”. No Espírito Santo, Brunela considera que os problemas mais graves de violações de direitos humanos são a violência doméstica, a questão penitenciária e o direito ao ambiente sustentável. Em 2017, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo expediu 8,5 mil medidas protetivas para mulheres vítimas de agresões. No primeiro semestre


Para a professora Brunela Vicenzi, Brasil ainda tem desafios como a regularização fundiária e a igualdade de gênero

deste ano, foram 4,2 mil. A professora lembra do caso Araceli, a menina que foi raptada, violentada e morta em Vitória em 1973, e que motivou a criação do Dia de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. O processo foi arquivado pela Justiça e ninguém foi punido. Em relação à situação prisional, Brunela cita o caso emblemático que fi cou conhecido como “masmorras capixabas”, episódio denunciado pelo então presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, Sérgio Salomão Shecaira, após visita ao estado em 2009. Shecaria relatou a superlotação de cadeias, com casos de detentos presos em contêineres sem banheiros. Seu relatório resultou no pedido de intervenção federal no estado e também motivou uma denúncia à ONU e acusação na Corte Interamericana. “O Espírito Santo é condenado [na Corte] e, depois de quase 10 anos, nós temos outras acusações em andamento contra o Estado por violações de direitos humanos no sistema socioeducativo”, analisa. Quanto ao direito ao ambiente ecológico sustentável, a professora reflete sobre a questão da poluição no Estado. “Há um conflito evidente entre o desenvolvimento e a qualidade de vida das pessoas. E nós temos o direito a uma vida digna, com saúde. A água potável, por exemplo, é um direito humano”, lembra Brunela. Direitos humanos na Universidade Na Ufes, projetos de pesquisa e extensão têm abordado questões relativas aos direitos humanos. Um exemplo recente foi a criação da Rede Ufes-Rio Doce, a partir da tragédia de Mariana,

cidade mineira atingida pelo rompimento de uma barragem da Mineradora Samarco, ocorrida em 5 de novembro de 2015. A partir das primeiras notícias sobre o caso, vários pesquisadores da Universidade se reuniram em um espaço permanente de intercâmbio de estudos, discussões e ações relativas à reparação e à compensação dos estragos sociais, ambientais, culturais e econômicos provocados pelo rompimento da barragem. Outra ação encampada pela Ufes é a parceria firmada com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), que trouxe a instalação da Cátedra Sérgio Vieira de Mello. O objetivo é promover e difundir o Direito Internacional Humanitário, o Direito Internacional dos Direitos Humanos e, em especial, o Direito Internacional dos Refugiados que se encontrem sob a proteção internacional do Governo do Brasil, bem como desenvolver atividades que objetivem a incorporação da temática do refúgio na agenda acadêmica da instituição. O tema também foi incorporado pela extensão neste projeto e em outros. Além das iniciativas acadêmicas, o Gabinete da Reitoria criou, em 2015, a Comissão Permanente de Direitos Humanos da Ufes, que tem a missão de promover e garantir esses direitos na Universidade. A professora Brunela explica que a ideia é “ter um local permanente de reflexão sobre o tema da violação de direitos humanos dentro da universidade ou entre pessoas da instituição”. Ela esclarece que o espaço não é um centro de denúncia, papel exercido pela Ouvidoria, mas um lugar destinado a pensar medidas preventivas e de informação.

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Os Direitos Humanos na Ufes CÁSSIA ROCHA

Diversos estudos abordam questões de direitos humanos na Universidade Federal do Espírito Santo. Alguns pesquisadores identificam diretamente seu trabalho aos direitos humanos. Outros não o fazem, mas é possível perceber seu alinhamento com os temas apontados na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Confira algumas dessas pesquisas:

• Educação Patrícia Gomes Rufino Andrade - educação para as relações étnico-raciais, africanidades e territorialidades e inclusão. Coordena o Núcleo de Estudos Afro Brasileiros da Universidade Federal do Espírito Santo Kiusam de Oliveira - educação e relações étnico-raciais, com foco em estudos sobre a corporeidade, oralidade e ancestralidade Paulo Velten – socioeducação. Coordena o Curso de Especialização em Educação em Direitos Humanos Maria Lina Rodrigues de Jesus - escola, proteção à criança e ao adolescente, extensão, comunidades, troca de saberes e educação inclusiva. Coordena a Área Temática Educação e Direitos Humanos da Pró-Reitoria de Extensão Edna Castro de Oliveira - formação de educadores de jovens e adultos, em interface com alfabetização, educação do campo, educação profissional, políticas públicas e movimentos sociais

• Infância e adolescência Maria Emília Passamani - adolescente em conflito com a lei, liberdade assistida, medida socioeducativa e Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

• Pessoas com deficiência José Francisco Chicon - educação inclusiva. Coordena o Laboratório de Educação Física Adaptada (Laefa)

• Igualdade Racial Aissa Afonso Guimarães - patrimônio cultural imaterial brasileiro, com ênfase nas artes populares, culturas e tradições afro-brasileiras

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Fabio Hebert da Silva - saberes tradicionais indígenas e produção da subjetividade Gustavo Forde - movimento negro, racismo e antirracismo Sandro José da Silva - relações étnico-raciais, patrimônio cultural e direitos humanos João José Barbosa Sana - gestão de políticas públicas de gênero e raça Cleyde Rodrigues Amorim - antropologia das populações afro-brasileiras: remanescentes de quilombos, população Kalunga (Goiás), identidades étnicas e culturais, práticas culturais afro-brasileiras, religiões afro-brasileiras. Coordena o Grupo de Pesquisa Políticas de Inclusão e Educação para as Relações Étnico-Raciais.

• Gênero e sexualidade Erineusa Maria da Silva - educação e gênero Gilsa Helena Barcelos – relações sociais de gênero, divisão sexual do trabalho, violência, políticas públicas para as mulheres, direitos humanos e meio ambiente. Coordena o Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão Sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos (Nevi) Alexsandro Rodrigues - educação, gênero e sexualidades Jhonson Joaquim Gouvêa - cirurgia transexual. Desenvolveu e utiliza técnica que não amputa o pênis nas operações para mudança de sexo, utilizada no Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (Hucam) Catarina Cecin Gazele - violência contra a mulher Andréa dos Santos Nascimento - Gênero e Identidade, Cultura, Desengajamento Moral e Comportamento de Risco, Mobilidade e Psicologia do Trânsito, Psicologia Ambiental

• Comunicação Edgard Rebouças - comunicação e direitos humanos, violações de direitos humanos na mídia Maria Nazareth Bis Pirola - comunicação e educação, publicidade infantil. Coordena o projeto de extensão Comunicaê, de educação para a mídia


• História, memória e verdade Pedro Ernesto Fagundes - ditadura, censura, regimes autoritários, acervos dos órgãos de repressão e usos políticos da memória Maria Beatriz Nader - história da família e das relações de gênero e demografia histórica

• Migrações

• Marginalizados

Brunela Vieira de Vicenzi - migrações e refugiados, violência contra a mulher e mediação de conflitos. Preside a Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação e a Comissão Permanente de Direitos Humanos da Ufes. É titular da Cátedra Sérgio Vieira de Mello do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados na Universidade Erineu Foerste - língua e cultura pomeranas Ednelson Mariano Dota - mobilidade e migrações no Espírito Santo

Igor Martins Medeiros Robaina - população em situação de rua e outros segmentos populacionais marginalizados no espaço urbano

• Meio ambiente, direito à terra e à alimentação Cristiana Losekann - processos de participação na política ambiental no Brasil, mobilização do direito como repertório de ação coletiva nas questões ambientais e efeitos do uso de recursos judiciais para mobilizações sociais e para a produção de mudanças institucionais. Coordena o Observatório projeto de extensão Mariana - Rio Doce Simone Raquel Batista Ferreira - questão agrária e socioambiental, com destaque aos saberes e formas de territorialidade de povos originários, comunidades campesinas e tradicionais, em conflito com projetos desenvolvimentistas hegemônicos. Coordena o Observatório dos Conflitos no Campo (Occa) Alcemi Almeida de Barros - direito à alimentação, nutrição social, segurança alimentar e nutricional. Coordena o Grupo de Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional Prof. Pedro Kitoko (Gesan) e suas ações de extensão, preside o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Espírito Santo e a Associação de Pesquidadores e Extensionistas em Segurança Alimentar e Nutricional (Apesan).

• Moradia Clara Luiza Miranda - desenvolvimento urbano e local, relações entre filosofia, estética, urbanismo e política, relacionando democracia, cidadania, participação e ativismos sociais. Coordena projeto de extensão sobre regularização fundiária urbana, de loteamentos irregulares ou de ocupações.

• Saúde Jussara Bezerra de Menezes - políticas públicas e saúde coletiva Luzimar dos Santos Luciano - saúde do trabalhador Patricia Henriques Lyra Frasson - câncer de pele entre os pomeranos. Coordena o projeto de extensão de assistência dermatológica aos lavradores pomeranos Fabiola Xavier Leal - políticas de saúde, saúde mental e drogas. Coordena o Observatório de Direitos Humanos e Sistemas de Justiça do Espírito Santo

• Liberdade religiosa Osvaldo Martins de Oliveira- identidade, memória, territórios negros (rurais e urbanos), quilombos, comunidades religiosas de matriz africana e patrimônio cultural Adriano Pereira Jardim - efetividade psicoterapêutica, memória de eventos marcantes da psicoterapia, consciência de si e narratividade das religiões afrobrasileiras

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Cine

Metrรณpolis:

45 anos de muitas histรณrias

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ADRIANA DAMASCENO

Conheça a trajetória do cineclube que é referência no Espírito Santo e que se tornou uma das principais salas de cinema universitário do Brasil

“O

s meus três P’s: paixão, paciência e perseverança. Você tem que fazer isso se quer ser um cineasta”. A frase, atribuída ao cineasta e produtor norte-americano Robert Wise (1914-2005), reflete a história de criação do cineclube que se tornou o Cine Metrópolis. A história começa quando, em 1974, ano da reestruturação do movimento cineclubista em nível nacional, estudantes do então Centro de Estudos Gerais (CEG) da Ufes criaram o Cineclube Universitário Cláudio Bueno da Rocha. A ideia era reunir cinéfilos em um espaço que proporcionasse exibições e comentários de obras cinematográficas. Em 2019, ano em que a Ufes celebra seus 65 anos de existência, o Cine Metrópolis vai comemorar 45 anos de grandes histórias envolvendo paixão, paciência, perseverança e muito amor à sétima arte. Quando foi criado, o Cineclube Universitário Cláudio Bueno da Rocha – nome dado em homenagem a um importante jornalista cultural de Vitória – tinha um forte perfil político, como toda atividade estudantil. O cineclubismo atuava como centro de resistência à censura e à ditadura, mantendo

vínculo com movimentos operários, sociais, afirmativos e ambientais, além de abrigar artistas, músicos, poetas e filósofos. E o Cineclube Universitário funcionava como um ponto de encontro desses segmentos. Depois de funcionar por dois anos em uma sala do Centro de Estudos Gerais (atual Centro de Ciências Humanas e Naturais, CCHN), o cineclube ganhou um auditório em 1976, construído no prédio do Cemuni 6, no Centro de Artes, onde funcionou até 1994. A mudança proporcionou uma sala adequada para exibições e melhor organização do funcionamento. Com sala própria, os responsáveis pelo cineclube puderam estruturar mais objetivamente a programação e realizar eventos, como a Semana do Cinema Brasileiro. Para aprimorar a atuação, em 1977, os dirigentes do cineclube procuraram a então Sub-Reitoria Comunitária da Ufes (atualmente denominada Pró-Reitoria de Extensão) e receberam apoio administrativo e financeiro, o que viabilizou a formação de um grupo de coordenação das atividades. Após participar das Jornadas Nacionais de Cineclubes, nos anos de 1977 e 1978, o grupo assumiu a missão

Acervo/Tião Xará

Uma das muitas plenárias da federação de cineclubes, organizadas para definir as futuras atividades do grupo

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de coordenar a realização da edição seguinte, a XIII Jornada Nacional, em Santa Teresa, interior do Espírito Santo. Esses passos contribuíram para projetar o Cineclube Universitário nos cenários estadual e nacional. Apoio ao cineclubismo Foi em 1979 que os estudantes Marcos Valério Guimarães e Sebastião Ribeiro Filho (conhecido como Tião Xará) juntaram-se ao grupo. Nessa época, o Cineclube Universitário Cláudio Bueno da Rocha sediou, por duas vezes, a presidência do Conselho Nacional dos Cineclubes, além de ser o organizador da Federação de Cineclubes do Espírito Santo, criada em 1981. “A Federação funcionava na Ufes e tinha total apoio da Universidade, o que contribuiu para o sucesso das atividades cineclubistas na Grande Vitória e no interior do estado”, conta Tião Xará, que foi o primeiro presidente da entidade, entre 1981 e

Acervo/Tião Xará

Acima: Marcos Valério (ao centro da mesa) em reunião do Cineclube Universitário, em 1982 Abaixo: Tião Xará (o segundo, da esquerda para a direita) em encontro com representantes nacionais dos cineclubes

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1983, e membro da diretoria do Conselho Nacional de Cineclubes, de 1982 a 1984. Com o auxílio da Ufes, o Cineclube Universitário tinha como custear o aluguel dos filmes e a manutenção dos equipamentos para transmissão. “Contávamos também com o apoio do pessoal do Espaço Universitário (atual Galeria de Arte Espaço Universitário – Gaeu), que fez a programação visual de vários cartazes de eventos, como as mostras do Cinema Brasileiro, do Cinema Russo e do Cinema Espanhol”, lembra Xará. Paixão e resistência O Cineclube Universitário utilizava uma tecnologia de projeção de películas em 16 milímetros, o que, naquele momento, atendia a toda a estrutura de cinema e publicidade. No fim da década de 1970 e início da década de 1980, o país passou por um período de mudanças político-sociais (saindo do regime da ditadura militar), além de modificações tecnológicas, que afetaram o Cineclube Universitário. Com o enfraquecimento da estrutura de copiagem, a ameaça de desativação do único laboratório de cinema do Brasil a produzir cópias em 16 milímetros e a falta de financiamento público para manter a estrutura vigente, em meados de 1980, os cineclubes brasileiros passaram por um período muito complexo de adaptação, inclusive com o fechamento de várias unidades. Em 1985, a crise tecnológica dos 16 milímetros atingiu o ápice e os cineclubistas adotaram o que Marcos Valério define como “estratégia de resistência e guerrilha”: “Além de lidar com a questão da escassez das cópias, a gente passa a quase virar uma ‘sessão da tarde’; éramos obrigados a ficar repetindo indefinidamente os mesmos filmes, pois não tínhamos títulos novos. Mas a gente não parava, era uma paixão nossa de cineclubista não deixar aquilo morrer”. Em 1991, por meio de patrocínio conseguido junto a empresas de Vitória, o Cineclube Universitário teve seu auditório reformado e o equipamento para o som foi construído. Além disso, a sala ganhou arquitetura sonora e um projetor foi montado. Em 10 de janeiro de 1992, o Cineclube Universitário fez sua primeira projeção em 35 milímetros, exibindo o drama The Commitments – Loucos pela Fama, e a inauguração foi... um desastre! Devido a problemas no equipamento, não foi possível completar a exibição. “Era o último dia da gestão do reitor Rômulo Penina e, devido à correria, a gente


não tinha feito nenhum teste com o projetor”, lembra Marcos. A inauguração foi concretizada de forma simbólica e, a partir daquele dia, o cinema exibia os filmes aos pedaços, com dois equipamentos, devido à necessidade de ficar trocando os rolos para não interromper as sessões. O público entendia as falhas, já que, por um longo período, o Cineclube Universitário se manteve como uma das únicas salas de cinema funcionando em Vitória. Dez dias depois, o Cineclube finalmente funcionou perfeitamente. Foi o nascimento do cinema em seu novo formato, com exibição de filmes do mundo inteiro, além de abertura para realização de eventos culturais. Uma verdadeira sala de arte, que mantinha sua tradição de pensar o cinema como cultura, arte e política. Diversidade, liberdade, inteligência, sensibilidade A queda do Muro de Berlim, em 1989, que simbolizou o fim do regime socialista soviético, trouxe, segundo Guimarães, um frenesi de vitória do capitalismo. Foi também nesse momento que surgiram os computadores de uso pessoal e os videocassetes, que, aliados a fatores como a violência urbana, fortaleceram o consumo de obras audiovisuais dentro de casa. “O cineclube perdeu um pouco o espaço de lugar da memória do cinema, da atualização, do estudo, pois a fita levava o filme para a residência das pessoas”, analisa. Tantas mudanças trouxeram um novo tempo para o movimento cineclubista. O grupo, então, decidiu que era o momento de adequar o nome do cinema a essa nova realidade. “Testamos as coisas mais absurdas, como Cineclube Fractais, expressão matemática que sugere uma linha de ordem dentro do caos”, conta Marcos Valério Guimarães. Após cerca de três meses de “acaloradas discussões”, segundo ele, foi escolhido o nome Metrópolis, uma referência ao longa-metragem alemão homônimo, obra-prima do cineasta Fritz Lang, lançado em 1927. O filme mudo homenageado, de ficção científica, aborda uma sociedade na qual a Nova Ordem Mundial foi concretizada, em que uma elite selecionada vive no luxo, enquanto uma massa desumanizada de trabalhadores vive em um inferno monitorado. “Eu continuo acreditando que o mundo é muito mais do que isso e o nome Cine Metrópolis traz esse conceito de que a gente deve prestar atenção na diversidade, na liberdade, na inteligência, na sensibilidade”, defende. O artista gráfico Hélio Coelho foi convidado a produzir a logomarca do novo espaço e criou fontes

Logomarca ilustra o retorno para o mundo da pessoa que foi ao cinema

próprias para o Metrópolis, que reproduziam as silhuetas dos prédios de uma metrópole contornando o círculo de um boneco. “Era algo que ilustrava a pessoa voltando para o mundo com a informação do filme, com a oxigenação, o atravessamento que o cinema proporciona ao ser humano”, explica Guimarães. O Cine Metrópolis mantinha, a essa altura, uma relação mais profissional com as distribuidoras, repassando parte dos lucros para o pagamento dos títulos. A média de exibição era de três a quatro sessões por dia de filmes brasileiros, europeus e argentinos, num circuito alternativo. O cinema trabalhava ainda outros aspectos da cultura, apostando em poesia, literatura, música e filmes antigos – algumas vezes com trilha sonora executada ao vivo. As estratégias geravam renda e certa autonomia para, por exemplo, reformar a plateia do auditório, que ganhou inclinação. O sucesso do Metrópolis foi enorme e ele se tornou um intenso ponto de relação com a cidade. Com isso, a Administração da Ufes decidiu ampliar o espaço do cinema e, em julho de 1994, durante as celebrações do aniversário de 40 anos da Universidade, foi construído o Centro de Vivências do campus de Goiabeiras, que incluiria o prédio onde o Metrópolis está localizado hoje. Com essa mudança de ambientação, a sala passou de 99 assentos para os atuais 240. Marcos Valério esteve à frente da sala, como coordenador, por 16 anos, de 1979 a 1995. “Quis manter

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a ideia na sua concepção original e acredito que o Metrópolis cumpriu com os objetivos propostos nessa interface universidade-sociedade, na discussão e na formação do cinema. O cinema está aí, faz um belo trabalho e continua seu ativismo cinematográfico, o que é algo fantástico”, comemora. Era digital Em setembro de 1997, problemas estruturais levaram à interrupção das atividades do Cine Metrópolis. O então coordenador Fernando Alves Neto lidava com máquinas antigas, falta de manutenção estrutural e escassez de novas películas em 35 milímetros, em um período em que se iniciava a era digital do cinema. A falta de variedade de títulos resultou em uma queda vertiginosa da bilheteria, o que prejudicava o custeio da sala e o pagamento dos terceirizados, levando ao endividamento do cinema. Em fevereiro de 1998, Adriani Raimondi assumiu a coordenação da sala e deu início a um projeto de buscar parcerias para reabrir o cinema. “O público sentiu muita falta do Metrópolis, até porque estamos falando de um tempo em que Vitória contava com apenas três salas em funcionamento e a maioria das pessoas só tinha acesso a filmes por meio do cinema”, diz Raimondi, que conseguiu verba para a reforma dos projetores e para aquisição de um novo sistema de som. Em agosto do mesmo ano, o Cine Metrópolis foi reaberto ao público com a exibição do filme Policarpo Quaresma, estrelado pelo ator Paulo José. A cada filme exibido, a bilheteria crescia e quase todo o montante arrecadado era alocado para o pagamento das dívidas, o que foi finalizado num período de dois anos. Após um período de estabilidade, surgiu novo impasse: a progressiva transição dos filmes em película de 35 milímetros para as plataformas digitais. Já se tornava difícil encontrar filmes adequados à tecnologia disponível no Cine Metrópolis que, além dos problemas de equipamentos, passava novamente por problemas estruturais na parte elétrica e hidráulica. Em meados de 2013, Rogério Borges assume a Secretaria de Cultura da Ufes, trazendo novamente Fernando Alves Neto para a coordenação do Cine Metrópolis a partir do início de 2014. “Coloquei a modernização do Metrópolis como o grande desafio da minha gestão e comecei a pensar em como manter o cinema funcionando, mesmo de forma

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não desejável no que diz respeito a equipamento e sonoplastia”, lembra Borges, que mantém uma ligação sentimental com o cinema: “No início dos anos 1980, eu era um músico atuante no cenário cultural capixaba e era na salinha do Cineclube Cláudio Bueno da Rocha que, na hora do almoço, nós, artistas, nos apresentávamos. Eu vi nascer essa história”. A ideia do secretário de Cultura era promover uma reocupação do espaço. Para isso, buscou parceria com o curso de Cinema e Audiovisual da Ufes e o professor Fábio Camarneiro criou a disciplina optativa História do Cinema Brasileiro, que era ministrada dentro do Cine Metrópolis. Posteriormente, outros professores e alunos juntaram-se

Ambiente universitário favoreceu o cineclubismo A “era de ouro” do movimento cineclubista brasileiro foi o período compreendido entre o final da década de 1950 e a primeira metade da década de 1980. Os cineclubes nasceram em meio ao processo de legitimação cultural do cinema, em resposta à necessidade que a nascente indústria cinematográfica comercial não atendia. São associações sem fins lucrativos, com estrutura democrática e com compromisso ético que surgiram do agrupamento de pessoas interessadas em assistir e discutir filmes, tornando-se centros de debates tanto sobre as obras cinematográficas como a respeito da conjuntura político-social do país. Organizados em instituições representativas, como federações nacionais e estaduais, e reunidos em torno de um conselho nacional, os cineclubes assumiram variados perfis, conforme os espaços em que se estabeleceram – salas próprias de cinema ou locais adaptados, como salas de aula – caso da fase inicial do Cineclube Cláudio Bueno da Rocha, na Ufes. Como ponto em comum, havia a defesa de bandeiras como a liberdade de imprensa, o fim da censura e da ditadura militar e a restauração da democracia. Muitos cinemas universitários nasceram como cineclubes, aproveitando o ambiente acadêmico, que pressupõe a existência de reflexão, diálogo, ação e provocação. “O cineclube nasce a partir desse espaço, mas precisa de muito trabalho, muita gente envolvida, muita dedicação. As pessoas fazem por paixão”, explica Camarneiro.


Adryelisson Maduro/Ufes

O Cine Metrópolis da Ufes é hoje um espaço consolidado para exibição de filmes, além de palestras e debates acerca de projetos audiovisuais

ao projeto e diversos cineclubes da Grande Vitória foram convidados a promover seus eventos na sala, numa tentativa de recolocar o cinema no lugar de grande protagonista fora do eixo comercial. Por nove meses, entre 2016 e 2017, o Cine Metrópolis ficou fechado para obras, realizadas com recurso conseguido junto à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. Já sob a gestão do atual coordenador do cinema, Aníbal Souza, foram reformados a parte elétrica, o equipamento de som e o forro, que foi adequado às normas técnicas das salas de cinemas mais modernas do Brasil. Depois de reaberto em março de 2017, o cinema tem sido usado para lançamentos de obras audiovisuais de alunos, de cineclubes e de outros realizadores. As atividades com foco na exibição de filmes correspondem a 80% do total, mas a sala também recebe palestras e pequenos grupos musicais. “A todo palestrante que pretende usar o cinema é solicitado que exiba filmes relacionados ao tema proposto, para que a sala continue a tradição de ser um espaço ligado ao audiovisual”, explica o secretário. Público consolidado Durante seus quase 45 anos de história, o Cine Metrópolis se consolidou como uma sala alternativa, focada em obras que estão à margem do circuito comercial. “O cinema da Ufes mantém o perfil de priorizar filmes do curso, dos alunos e o cinema brasileiro de produção independente. Isso é muito importante porque eu não vejo, em Vitória, lugar nenhum para assistir a filmes alternativos nacionais. As grandes

redes optam por passar filmes de maior impacto de bilheteria, normalmente comédias”, analisa o professor Fábio Camarneiro, que explica que o público do cinema tem crescido numericamente devido à procura por esse tipo de filme. “Por isso é tão importante que um cinema como o Metrópolis tenha essa cara alternativa. Ser sala de rua, dentro de uma universidade pública e desvinculada da ideia de compra que tem o shopping, é uma característica muito positiva do Cine Metrópolis”, completa. Além de sediar grandes mostras e festivais de cinema pioneiros no Espírito Santo, como o Vitória Cine Vídeo (desde 1994) e a Mostra Produção Independente da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas do Espírito Santo (ABD Capixaba, desde 2005), o Cine Metrópolis faz parte do projeto Cinemas em Rede, circuito nacional promovido por uma parceria entre a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e o Ministério da Cultura (MinC), que interliga 12 salas alternativas de cinema (das quais 10 são universitárias) espalhadas pelo Brasil para compartilhamento de filmes brasileiros de relevância artística e cultural. Para o futuro, Rogério Borges planeja a reforma das cadeiras e a aquisição de um novo projetor Digital Cinema Package (DCP), que está se tornando o padrão de distribuição e exibição do cinema digital no mundo. A projeção em DCP tende a ser tecnicamente mais perfeita que a película de 35 milímetros, que ainda está em funcionamento no Metrópolis, apesar de o cinema já usar, também, equipamentos digitais com projeção em alta definição.

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ARTIGO

golpe

O estudo do nas universidades federais Maurício Abdalla professor do Departamento de Filosofia da Ufes

Quando a universidade se debruça sobre um tema não significa que ela detém a verdade completa sobre ele ou mesmo que chegue a resultados que são obrigatoriamente aceitáveis e incontestáveis. Porém, a academia se caracteriza por submeter o objeto de seu estudo a um rigor metodológico e à análise de profissionais com formação, capacitados e concursados para o exercício da função. Por isso, as universidades públicas ainda são as principais referências de pesquisa no país e estão à frente de todas as demais em qualidade de ensino. No decorrer deste ano de 2018, várias universidades colocaram o tema “O golpe de 2016” como objeto de reflexão e ensino. Isso ocorreu porque o assunto é digno de ser abordado de maneira científica, metódica e sistemática. Não deve haver tema proibido para o estudo nas universidades no século XXI. O que deve ser observado não é o objeto de estudo, mas os métodos, o tipo de abordagem, a consistência teórica do tratamento dado e a capacitação dos que se propõem a estudá-lo. Vários professores da Ufes resolveram também analisar criticamente, sob diversos aspectos e com o instrumental teórico e analítico de que a universidade dispõe, a narrativa de “impeachment constitucional”. Seu problema de investigação era se a justificativa da constitucionalidade da destituição do governo eleito fazia realmente sentido e o que isso significava para a vida da República. São fatos políticos dignos de estudo e pesquisa (para a Ciência Política, Direito, Filosofia Social e Política, Sociologia, Psicologia Social, Linguística, etc.) as motivações declaradas dos deputados federais na votação da admissibilidade do impedimento. O objeto da acusação simplesmente desapareceu sob os votos dados em nome da família,

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de Deus, das igrejas, do filho, da esposa, etc. Qual a constitucionalidade de um processo que se desvia do objeto da acusação para punir o acusado em nome de coisas abstratas? Fenômeno mais intrigante se deu no Senado Federal, responsável pela destituição definitiva da presidente eleita. Alguns senadores admitiram ter votado a favor do impedimento sem crime de responsabilidade, conforme os seguintes exemplos:

“Rose de Freitas [senadora do PMDB-ES] já adiantou o voto favorável ao impedimento da presidente Dilma Rousseff, mas não devido às chamadas pedaladas fiscais. Neste caso, Rose não vê crime de responsabilidade, mas defende a saída de Dilma do Poder” (A Gazeta, 22/04/2016) “Senador vota pelo impeachment, mas diz que não há crime de Dilma. Em vídeo, Acir Gurgacz [senador do PDT-RO] diz que não vê crime de responsabilidade no caso. ‘Falta governabilidade para a presidente voltar a governar’, justificou.” (Portal G1, 31/08/2016) “[...] Telmário [Mota, senador do PTB-RR] afirma que Dilma não cometeu crime e que o impeachment foi aprovado por causa da perda de apoio político da petista. ‘Considero que a presidente Dilma não foi afastada pela pratica de crime algum, mas sim por posturas políticas adotadas, que não foram capazes de conquistar uma base de apoio congressual minimamente favorável ao seu governo’, diz o texto assinado pelo senador”. (Portal Uol, 31/08/2016)

Ora, se não estamos no parlamentarismo, a aprovação da destituição da presidente legitimamente sufragada em uma eleição legal sem que houvesse crime de responsabilidade é uma


Roberto Stuckert Filho/PR

Dilma Rousseff faz discurso de defesa contra o impeachment no Senado Federal em agosto de 2016

manobra de tomada do poder por meios não legais. Mais ainda se, de fato, para o Parlamento, as “pedaladas” se tornam crime de responsabilidade passível de cassação de mandato, por que não se criou uma cascata de cassações de governadores que praticam o mesmo ato com frequência? Para esse tipo de destituição de um mandatário eleito (independente da avaliação que se faça de seu governo) não há outro nome na literatura a não ser “golpe de Estado”. Um golpe não se caracteriza pelo meio utilizado para ser colocado em prática (se usa o Exército, o Judiciário ou o Parlamento). O que o define é o fato de grupos minoritários se apropriarem do poder sem respeitar a decisão da maioria e os mecanismos institucionais e jurídicos que garantem o Estado de Direito. A maquiagem de constitucionalidade e de processo social endógeno dada ao golpe tem sido a nova estratégia de intervenção das potências do Ocidente (lideradas pelos EUA) na política de países que estão sob seu interesse – como revela a história recente de países como a Geórgia, Síria, Egito, Jordânia, Honduras, Paraguai, Venezuela, Bolívia, etc. O termo que vem sendo utilizado para defini-la é “golpe suave”, uma estratégia sistematizada, estudada e publicada e, cada vez com mais frequência, aplicada em vários países do mundo. A estratégia de tomada não-violenta de poder foi elaborada pelo filósofo e cientista político estadunidense Gene Sharp (1928-2018). Devido à utilização das ideias de Sharp pelos EUA e potências do Ocidente (aliados às elites locais) para destituição não-violenta de governos estrangeiros, criou-se o conceito de “golpe suave” (soft coup). Sharp reconhece, por meio de carta aberta de 2007 (publicada no site do Instituto Albert Einstein

- www.aeinstein.org), o uso de sua estratégia por militares, políticos e organismos de inteligência, mas defende-se da acusação de propor esse uso.

A ação não violenta é uma técnica para a condução de conflitos, assim como a guerra militar, o governo parlamentar e guerra de guerrilhas. Essa técnica usa métodos psicológicos, sociais, econômicos e políticos. Essa técnica tem sido usada para uma variedade de objetivos, tanto “bons” quanto “ruins”. Foi usada tanto para mudar governos quanto para apoiar governos contra ataques. [...] “Golpe suave” relaciona esse tipo de ação aos golpes antidemocráticos de grupos militares, políticos ou de inteligência, que são muito diferentes. Os golpes são uma das principais formas pelas quais as ditaduras são estabelecidas (grifos meus). A expressão “golpe suave” (com variações como “golpe branco”, “golpe brando”, “golpe silencioso”, etc.) foi incorporada ao vocabulário das Ciências Políticas. Sua utilização visa modificar e ampliar o conceito de “golpe de estado”, incorporando a estratégia não-violenta – estudada e desenvolvida por Sharp – na ideia de tomada “repentina” e “inesperada” do poder sem a legitimidade popular, que define o conceito de golpe. Estudar essa nova estratégia de destituição de governos no mundo contemporâneo é condição fundamental para o entendimento de geopolítica, geoeconomia e das novas configurações do poder no mundo globalizado. Por isso, deve ser estudada de maneira acadêmica, ou seja, de forma metódica e sistemática nos ambientes universitários e ser também tratada como objeto de ensino em diferentes campos do saber. Entender sua aplicação no Brasil é condição para se entender o próprio país.

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ENTREVISTA – PROJETO SOLARES

Potência

SOLAR

HELIO MARCHIONI

O projeto de extensão Solares desenvolve pesquisas para o uso de energia solar. Entrevista com integrantes do projeto mostra que este modelo de energia limpa tem gerado boas expectativas de mercado e chegou a crescer 400% ao ano no Brasil

C

om apenas três anos de existência, o Projeto Solares já tem muito a comemorar. Seus barcos movidos a energia solar levaram dois prêmios na competição nacional, o Desafio Solar Brasil (DSB 2018), realizado em Búzios, no Rio de Janeiro. Na primeira participação, no ano passado, tinham ficado em quarto lugar. O Solares é um projeto de extensão do Centro Tecnológico da Ufes, que possui uma equipe multidisciplinar coordenada pelo professor do Departamento de Engenharia Mecânica, Bruno Venturini Loureiro, com a participação de 29 estudantes dos cursos de Engenharia, Arquitetura e Urbanismo e Comunicação Social. “O Solares tem como missão explorar as aplicações da energia solar e capacitar os seus membros e a comunidade”, afirma o diretor de Marketing, Henrique Nascimento, estudante de Engenharia Mecânica. O barco Poente ficou em primeiro lugar na classe Catamarã, categoria inicial da disputa, com o maior número de embarcações. Nessa competição os barcos são movidos a energia solar fotovoltaica e competem num rally. Também foi premiado, na categoria Melhor Oficina, o Projeto Girassol, dirigido a crianças do ensino fundamental que integra o Solares Social, área com ações voltadas para

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a comunidade. O desafio contou com 19 equipes de diversas instituições brasileiras. Os projetos de energia solar são desenvolvidos por meio de pesquisas para aprimorar os produtos e para desenvolver novas tecnologias. Muitas delas são realizadas por iniciativa dos estudantes, com apoio dos professores. Para as próximas edições do DSB, o grupo pretende construir um barco monocasco para participar também da Categoria Livre e, posteriormente, disputar da competição internacional Frisian Solar Challenge. “Como nosso projeto sempre quer trazer algo inovador e sempre queremos crescer, após construirmos o barco monocasco e participarmos do DSB na Categoria Livre, pretendemos futuramente levar o Solares, o Espírito Santo e a Ufes para a Holanda”, disse Henrique Nascimento. O professor Loureiro conta, em entrevista, que está prevista ainda para este ano a inauguração da Estação Solares, um quiosque alimentado por energia solar off-grid (que não está ligada à rede elétrica) e que poderá ser usado, por exemplo, para carregar celulares ou ligar computadores. A Estação Solares terá uso livre para toda a comunidade e ficará no Centro de Vivências da Ufes, ao lado do Cine Metrópolis, no campus de Goiabeiras.


Fotos: Divulgação/Solares e Jorge Medina/Ufes

Revista Universidade – Qual o histórico e como está a realidade do mercado da energia solar? Bruno Venturini Loureiro – No mundo, a energia fotovoltaica já tem algum desenvolvimento desde 1980. No início eram células muito pouco eficientes, só usadas em laboratório. A tecnologia foi evoluindo até chegar em um nível de ser possível fazer comercialmente. Nos países onde a energia solar começou a se desenvolver, Alemanha e Itália, por exemplo, as pesquisas tiveram início com um forte apoio governamental, pois são países altamente dependentes de fontes não renováveis de energia, como carvão e gás. A Alemanha, a partir do ano 2000, passou a financiar muito a pesquisa, o desenvolvimento de projetos de energia solar e a subsidiar a implantação de energia solar nas residências. Com isso, os países que deram o pontapé inicial viraram referência para o mundo inteiro. Principalmente na questão da regulamentação. No Brasil, em 2012, foi lançada a norma regulamentadora 482 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que foi o marco legal inicial da energia solar no país. A partir daí o crescimento se deu exponencialmente, chegando a 400% ao ano. Em números absolutos, a participação da energia solar no mercado de energia brasileiro ainda é pequena. Mas, com a queda dos preços, o surgimento de muitas associações, a importação de tecnologia externa e as diversas opções de financiamento, sejam de bancos públicos ou privados, a tendência é de muito crescimento para o setor. A realidade da energia solar no Espírito Santo ainda está distante de regiões como o Nordeste, por exemplo, onde o Banco do Nordeste já financia projetos de energia solar há mais tempo e com juros muito baixos. Além disso, o Estado foi um dos últimos a adotar a isenção do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] para projetos de energia solar. Com os elevados índices de aumento na tarifa de

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ENTREVISTA – PROJETO SOLARES energia elétrica no último ano, é muito provável que o mercado tenha uma aceleração no seu crescimento. Os líderes do mercado brasileiro de energia solar são Minas Gerais e São Paulo. Como a energia solar pode contribuir para a vida das pessoas, do comércio e das indústrias? Loureiro – A energia solar tem início nas residências das pessoas, mas tanto o comércio quanto a indústria já perceberam que a energia solar é um investimento com uma excelente taxa de retorno. Investindo em um projeto de energia solar, você pode chegar a uma taxa de retorno de 20% ao ano. Comparado com investimentos de renda fixa, você não consegue 10% ao ano e a poupança rende em torno de 5%. Quais são os exemplos e iniciativas de sucesso de uso da energia solar? Loureiro – O projeto Solares é um excelente exemplo. Um projeto da Ufes que desenvolve pesquisas, explora novas aplicações e busca as novidades do mercado. Nós temos desde projetos sociais em escolas até um sistema fotovoltaico conectado à rede na Biblioteca Central da Ufes. E o nosso objetivo a partir desse projeto piloto é colocar energia solar em mais edifícios dentro da Ufes, estabelecendo uma microgeração considerável na região. Outro bom exemplo é a nossa embarcação movida a energia solar. Nossas pesquisas podem gerar aplicações para iates, navios e plataformas de petróleo. Além do Solares, existem muitas organizações não governamentais (ONGs) que estão desenvolvendo coisas interessantes. Por exemplo, o litro de luz, que nem é energia fotovoltaica. É simplesmente uma garrafa com um líquido dentro, com uma propriedade fosforescente, que durante o dia capta a energia do sol que é armazenada dentro desse líquido

e a noite o líquido brilha. Pode parecer uma coisa menor, mas em comunidades onde a energia elétrica não chega pode ser uma alternativa. Quando e como surgiu o projeto Solares? Henrique Nascimento – O Solares nasceu em meados de 2015 como uma iniciativa de alunos junto com o professor Juan Romero, do Departamento de Engenharia Mecânica da Ufes. Antes dessa data, já havia uma estruturação do Solares, mas em moldes diferentes dos atuais. O professor falou em uma aula sobre essa iniciativa de desenvolver um projeto de energia solar e convidou os alunos que quisessem tomar a frente do projeto e transformá-lo, que o procurassem. Alguns deles se interessaram e fundaram o Solares. Inicialmente, com uma infraestrutura simples e sem dinheiro no caixa, os alunos tomaram as rédeas do projeto e desenvolveram subprojetos, captaram doações de equipamentos com patrocinadores, montaram uma cultura organizacional e estruturaram o que hoje é o Projeto Solares. Todas as atividades foram organizadas e construídas com a proatividade e trabalho duro dos alunos e orientadas pelo professor. Onde o projeto está inserido dentro da Ufes? Nascimento – O Solares atua na Universidade na área de extensão, como um projeto de extensão. Sem fins lucrativos nem registro de pessoa jurídica, o projeto conta com infraestrutura da Ufes, uma sala para trabalho e um galpão, que é a oficina. Composto por membros voluntários, tem como missão explorar as aplicações da energia solar e desenvolver os membros e a comunidade. Quais os principais projetos desenvolvidos e resultados alcançados? Nascimento – Nós temos o barco Poente, criado

Após vencer o Desafio Solar Brasil 2018, o grupo pretende expandir o uso da energia solar em escolas e na Ufes

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para que pudéssemos competir no Desafio Solar Brasil. Participamos pela primeira vez no ano passado e conseguimos o quarto lugar na classe catamarã, na qual esse ano fomos campeões. Além do barco, nós também desenvolvemos um carrinho solar, controlado remotamente por um aplicativo de celular conectado via bluetooth. Outro projeto é a Estação Solares, que será um espaço de convivência com bancos, pergolado e as placas solares alimentando as tomadas que serão de uso coletivo para as pessoas carregarem seus notebooks e celulares. Este projeto ainda está em processo de construção e em breve se tornará real, pela contribuição de todos. Temos também o Solares Ensina, uma vertente do projeto que realiza ações e eventos para difundir o conhecimento sobre energia solar para todos os públicos, aproximando a comunidade das descobertas da Universidade. Um dos nossos subprojetos é o Solares Social, que é uma linha de projetos mais voltados para a comunidade e, atualmente, é responsável por fazer visitas em escolas de ensino fundamental com uma apresentação interativa para as crianças aprenderem o conceito solar enquanto se divertem. E, não menos importante, temos o On-Grid, que desenvolve projetos de energia solar fotovoltaica ligados diretamente à rede elétrica (on-grid). O objetivo dessa área é implantar a geração de energia solar em prédios de instituições públicas, como a Biblioteca Central da Ufes, para a qual já foi desenvolvido um projeto para ser implementado em 2019, junto à Prefeitura Universitária. Quais são os objetivos e os projetos futuros? Nascimento – Nós queremos concretizar o projeto do on-grid na Biblioteca Central da Ufes no próximo ano, e futuramente em outros prédios do campus e quem sabe em outras universidades. Pretendemos também popularizar a energia solar no Estado através do Solares Social, instalar outras unidades da Estação Solares e, com certeza, manter o bom desempenho no DSB, expandindo nossa participação para a classe livre e, futuramente, para o Frisian Solar Challenge, na Holanda. Existe objetivo educacional nos projetos desenvolvidos? Nascimento – Com certeza! Com alunos de graduação, seja ela qual for, visamos aplicar o que aprendemos na sala de aula diretamente nos subprojetos. Tanto na parte de Engenharia, quanto na parte de Marketing e Comunicação Social. Para a construção de cada subprojeto nosso, é necessária uma bagagem teórica e técnica que conquistamos estudando

as disciplinas, mas também em contato com nossos professores auxiliares do projeto, aprendendo pelos livros e pesquisando na internet. Um dos itens da missão do projeto é capacitar os membros, e isso acontece, educacionalmente, quando praticamos o aprendido para desenvolver as aplicações e também quando nos reunimos para realizar alguma capacitação interna, seja oferecida pelos próprios membros ou por alguma instituição especializada. Também tem objetivo educacional o Solares Social, em que pretendemos ensinar o conceito de energias renováveis para as crianças, entre elas a energia solar. Qual é a equipe atual do projeto? Nascimento – A equipe atual é composta por 29 membros de diversos cursos. Além das Engenharias, temos membros da Arquitetura e Urbanismo, Jornalismo e Cinema. Para fornecer apoio técnico e pedagógico, temos o atual professor orientador, Bruno Venturini, e outros professores de diversas áreas que auxiliam nossos membros no desenvolvimento dos projetos. Como o Projeto Solares contribui com o desenvolvimento de pesquisas? Nascimento – Os membros do Solares desenvolvem pesquisas e estudos relacionados direta ou indiretamente às nossas atividades. As pesquisas são tanto para aplicação e melhoria de componentes ou sistemas de projetos nossos, como o catamarã solar, quanto para desenvolvimento de novas tecnologias e implantação da energia solar em protótipos inovadores. A estudante de Engenharia Mecânica Luma Gonçalves Fraga, que participa do Solares, desenvolveu uma pesquisa de iniciação científica, juntamente com o professor Juan Romero Saenz, sobre a hidrodinâmica do casco do barco em navegação. Analisou cinco modelos de casco e verificou o comportamento e a força de arrasto em diferentes condições de navegação. Essa pesquisa foi exposta na última Jornada de Iniciação Científica da Ufes. Atualmente também temos alguns membros desenvolvendo pesquisas em comunicação de dados através da luz visível e outros no projeto de um controlador de carga. Todos esses projetos são realizados sob tutoria dos professores auxiliares do Solares. Um diferencial nosso é a proatividade e capacidade dos alunos de também desenvolver projetos e pesquisas. Os professores entram mais na parte pedagógica e auxílio estratégico, mas são os alunos que fazem. Mais informações sobre o Solares podem ser encontradas em solaresufes.wordpress.com

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Pa ten tes

depositadas pela Ufes Produtos para remoção e recuperação de petróleo Trata-se de um processo para produção de biocompósitos à base de resinas obtidas a partir da glicerina e do óleo de mamona, produtos resultantes desse processo, e do uso desses produtos para a remoção e para a recuperação de petróleo. Biocompósitos são materiais constituídos por resíduos de origem natural. Seu desenvolvimento contribui para a redução dos impactos ambientais causados pelo intenso consumo de materiais sintéticos obtidos a partir de fontes fósseis. Eles são polímeros que apresentam estrutura química com características magnéticas, o que os torna muito eficientes no processo de remoção de petróleo derramado sobre água.

Jorge Medina/Ufes

Patente é um título de propriedade temporária sobre uma invenção ou modelo de utilidade, outorgado pelo Estado aos inventores, autores, pessoas físicas ou jurídicas detentores de direitos sobre a criação. Em troca da propriedade temporária, o inventor revela o conteúdo técnico da matéria protegida. A validade de uma patente é territorial e temporal. O Instituto de Inovação Tecnológica da Ufes (Init-Ufes) é o órgão responsável pela gestão da propriedade intelectual gerada na Universidade e pelo depósito dos pedidos de patentes de invenções desenvolvidas por seus pesquisadores.

Ecologia na produção de aço Nova tecnologia para produção de aços com melhores propriedades mecânicas, resistência à corrosão e custo reduzido. Pode ser aplicada em estruturas soldadas, parafusadas ou rebitadas e expostas à corrosão atmosférica ou marinha, sem necessidade de pintura. Nanopartículas metálicas com uso de erva-mate Trata-se de um processo para obtenção de carboximetilcelulose, polímero derivado da celulose, muito solúvel e com a excelente propriedade para aplicações em farmacologia por ser fisiologicamente inerte. O processo se dá a partir da utilização de Ilex paraguariensis (erva-mate) como agente redutor de resíduos agroindustriais. Síntese de nanopartículas com quercetina Processo para obter carboximetilcelulose a partir de resíduos agroindustriais por meio do uso de quercetina (fl avonóide natural) como agente redutor, bem como os produtos obtidos. Professor Marco Guimarães desenvolve pesquisas de síntese e caracterização de nanopartículas metálicas para aplicação biológica

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Fotos: Lidia Neves/Ufes

Do Espírito Santo

para o mundo LIDIA NEVES

Ações buscam fortalecer a presença da Ufes no cenário internacional. A mobilidade de docentes e estudantes para o exterior e a vinda de estrangeiros já acontecem de forma constante. Conheça também programas de pósgraduação que já são referência internacional

C

omo aprimorar o papel da universidade, para que ela possa ser competitiva internacionalmente em relação à pesquisa e inovação e à formação dos seus estudantes de graduação e pós-graduação? A internacionalização é parte importante da resposta a essa pergunta. Receber e enviar estudantes, professores e pesquisadores, fazer pesquisas em parceria com outros países e participar de eventos e publicações internacionais são algumas das formas pelas quais a Ufes tem buscado ampliar o alcance de sua atuação. “Queremos ter visibilidade internacional e que

a Ufes seja um destino para estudantes e pesquisadores”, disse a secretária de Relações Internacionais da Universidade e professora de Engenharia Civil, Patrícia Cardoso. A mobilidade é uma das partes mais consolidadas deste trabalho, segundo ela. Em 2018, a Ufes recebeu 37 alunos de graduação e 42 de pós-graduação, segundo dados da Secretaria de Relações Internacionais (SRI) e da diretoria de Pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG). Em contrapartida, foram para o exterior 51 estudantes de graduação.

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Na pós, anualmente, cerca de 40 alunos passam de 3 a 12 meses em centros de pesquisa do exterior, em doutorados sanduíche. Entre os professores, como mais de 80% já possuem doutorado, o mais comum é se afastarem para o pós-doutorado: dos cerca de 40 a 50 docentes que tiram licença por ano para desenvolver um projeto científico ou tecnológico, aproximadamente 20 se dirigem a universidades do exterior. Na outra direção, atualmente seis professores visitantes estrangeiros lecionam na Ufes. Responsável pela política de internacionalização da Ufes, a Secretaria de Relações Internacionais recebe quem chega, oferece oportunidades de mobilidade para a comunidade universitária, fomenta acordos e convênios para ampliar as colaborações com instituições estrangeiras e apoia o aprimoramento em idiomas para fins acadêmicos. Acolhida aos estrangeiros Para receber quem vem do exterior, a SRI elabora eventos e documentos que facilitam sua adaptação à Universidade e ao Brasil. Uma dessas

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iniciativas é o programa Anjos na Ufes, em que voluntários da comunidade acadêmica apoiam os estrangeiros recém-chegados com informações para facilitar sua instalação e aproveitam para praticar idiomas. Em 2017, 145 alunos e servidores se inscreveram para ser “anjos”. A Ufes também tem políticas de assistência aos estrangeiros para favorecer a sua permanência, que incluem empréstimo estendido de livros e acesso a curso de línguas. A maior parte dos que fazem a graduação completa participam do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), que oferece formação superior a cidadãos de países em desenvolvimento. Vários deles têm bolsa oferecida pelo próprio Ministério da Educação.  Os que não recebem esse auxílio podem se cadastrar no Programa de Apoio ao Estudante Estrangeiro da Ufes (PAEES) e ter ainda acesso a auxílio alimentação. Tanto para os que saem quanto para os que chegam, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e Cidadania (Proaeci) oferece ainda apoio psicológico. Para os estudantes que viajaram ao exterior, o atendimento é feito via chamadas de vídeo.


Pós-graduação internacional A internacionalização está entre os critérios avaliados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para definir o conceito dos programas de pós-graduação. Essa nota é usada para definir a abertura e a manutenção de mestrados e doutorados e influencia a visibilidade das pesquisas e a captação de recursos. Os indicadores variam conforme a área de conhecimento, mas em geral são considerados critérios como a presença de professores estrangeiros no programa, a participação em comitês e diretorias de sociedades científicas internacionais, a presença em eventos científicos no exterior, a docência, a consultoria e a editoria de periódicos relativas a instituições de outros países, a inclusão em intercâmbios e convênios internacionais e a captação de recursos para projeto de pesquisa em um cenário de competitividade mundial. “A internacionalização é muito importante quando é uma via de mão dupla, ou seja, quando encontramos parceiros no exterior que querem e, principalmente, precisam colaborar em projetos de

Reprodução/SRI-Ufes

A Ufes possui 121 acordos de cooperação internacional vigentes

pesquisa, desenvolvimento e inovação”, afirmou o diretor de Pós-Graduação da PRPPG, o professor de Ciências Fisiológicas José Geraldo Mill. Segundo a pesquisa “A internacionalização na Universidade Brasileira: Resultados do Questionário Aplicado pela Capes”, realizada em 2017, a mobilidade de docentes e discentes para outros países é a parte mais bem resolvida da internacionalização e é entendida como o principal mecanismo de acesso às experiências no exterior, à formação de redes e ao estabelecimento de colaborações em pesquisa. Já a atração de professores estrangeiros e o aproveitamento dos que se qualificaram no exterior são apontadas como desafio prioritário, já que eles poderiam mobilizar suas redes externas para estabelecer intercâmbios e parcerias científicas. Na Ufes, a situação não é diferente. “Até aqui, nosso processo de internacionalização ficou mais focado na formação de recursos humanos no exterior. Daqui para a frente, há a necessidade de aumentar o grau de cooperação internacional. Para isso, precisamos melhorar as condições institucionais para receber professores e estudantes estrangeiros, bem como aumentar os recursos para desenvolvimento destes intercâmbios”, disse o professor Mill.  A presença de artigos de professores da Ufes no exterior reflete o trabalho já realizado: em 2017, foram 1044 publicações em periódicos com circulação internacional, segundo a plataforma Scopus, o maior banco de dados de resumos e citações da literatura com revisão por pares. Desses, 20% foram feitos em colaboração com instituições estrangeiras. Além disso, foram registradas participações de docentes em 332 eventos no exterior no mesmo ano, com a apresentação de pelo menos um trabalho científico. Os programas de pós-graduação com maior inserção internacional são o de Doenças Infecciosas (PPGDI) e o de Astrofísica, Cosmologia e Gravitação (PPG Cosmo), segundo o diretor de Pós-Graduação. As pesquisas sobre doenças infecciosas já contam com colaborações de universidades norte-americanas há mais de 20 anos, com foco nas áreas de tuberculose, leishmaniose e Aids. O mestrado em Doenças Infecciosas teve início em 2006 e se consolidou com a colaboração de instituições norte-americanas. O programa, que forma profissionais das diversas áreas das Ciências Biológicas e da Saúde, passou a contar com um doutorado em 2009. A partir de 2012, os estudantes passaram a ter formação sanduíche, com parte de suas pesquisas realizadas nos Estados Unidos, Portugal,

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França ou Inglaterra, entre outros países. Em 2013, estudantes estrangeiros passaram a integrar o programa e, em 2017, foi a vez de professores visitantes fortalecerem a internacionalização. Já o PPG Cosmo foi criado em 2015 e tem o objetivo de formar doutores inseridos em um ambiente internacional. O estudante é sempre co-orientado por um dos colaboradores do programa de universidade estrangeira – dos Estados Unidos, França, Alemanha e Reino Unido – e deve passar um ano na instituição no exterior. Essas universidades lideram consórcios internacionais de pesquisa, o que contribui para projetar o envolvimento dos doutorandos globalmente. Além disso, a metade dos doutorandos do programa é de estrangeiros. Fomento Para aumentar a cooperação internacional, a Ufes busca recursos para fomentar pesquisas e oportunidades de mobilidade para a comunidade acadêmica. A SRI integra diversas redes mundiais com essa finalidade, bem como redes brasileiras, latino-americanas, europeias e de língua portuguesa. Uma dessas associações é o Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras (GCUB), composto por 83 instituições brasileiras de Educação Superior, que promove parcerias acadêmicas com instituições de mais de 100 países. Entre elas está o Programa de Alianças para a Educação e a Capacitação (Paec), que concede bolsas de estudos integrais para cursos de pós-graduação stricto sensu a estudantes dos demais países-membros da Organização dos Estados Americanos (OEA). A parceria com a OEA, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) e o Ministério das Relações Exteriores brasileiros (MRE) já trouxe para a Ufes mais de 60 pós-graduandos latino-americanos.

Localmente, a Ufes integra a Rede de Internacionalização da Educação do Espírito Santo (RIEES), em que atua no fomento de oportunidades internacionais em conjunto com outras cinco instituições de ensino superior. Um exemplo é a ação integrada de recepção aos alunos internacionais. A Ufes possui 121 acordos de cooperação internacionais vigentes, que podem representar uma ação de toda a instituição ou alguma parceria específica, para pesquisa ou mobilidade por exemplo. Alguns deles são motivados por professores e outros são frutos de visitas diplomáticas, em que os países tomam conhecimento das oportunidades de investir em pesquisas realizadas na Universidade. Além disso, a cooperação com outros países resulta também em ações culturais, como mostras de cinema. Línguas Para ampliar as possibilidades de internacionalização, a Ufes também busca aprimorar a proficiência em línguas. “Precisamos ficar antenados com o que acontece. Para isso, as pessoas precisam ter mais base de idiomas, para podermos participar de pesquisas conjuntas com grupos internacionais”, disse a professora Patrícia Cardoso. Entre as ações promovidas estão a capacitação para participar de eventos e publicar artigos e capítulos de livros em língua estrangeira, a tradução e revisão de artigos e os exames de proficiência em inglês. E para os estrangeiros, a Ufes é a aplicadora, no Espírito Santo, do exame de Certificação de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras), o único reconhecido oficialmente pelo governo brasileiro, além de oferecer aulas de português para quem chega de outros países.

Estudantes estrangeiros contam com o apoio de “anjos” para facilitar sua adaptação

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IDEIA PREMIADA

Foto: Divulgação/Total

Engenharia de Petróleo de São Mateus recebe três prêmios em um ano

A empresa Total premiou os estudantes pela organização do 9º Petroufes

Em 2018, o Capítulo Estudantil da Sociedade de Engenheiros de Petróleo (SPE, sigla em inglês) do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), campus da Ufes em São Mateus, recebeu três prêmios. A SPE reúne profissionais e estudantes da área de Óleo e Gás do mundo, com o objetivo de compartilhar conhecimento técnico, de forma segura e responsável. A SPE atua há mais de 50 anos e tem 168 mil associados (profissionais ou estudantes) em 144 países. O Regional Service Award 2018 (prêmio referente à atuação regional), da SPE, foi direcionado ao professor conselheiro ( faculty advisor) do Capítulo, Oldrich Joel Romero, como um reconhecimento ao seu trabalho com os estudantes. O grupo também recebeu da SPE o Gold Standard 2018, pelo seu esforço na realização de ações em beneficio da comunidade acadêmica da Ufes na região de São Mateus e entorno. A terceira premiação foi a Team Total, concedida pela empresa Total, que fornece um subsídio para projetos, desafios e atividades educacionais organizadas por equipes de estudantes. O reconhecimento se deu na categoria “Discover”

(descoberta), com premiação para o 9º Petroufes, realizado em março de 2018 no Ceunes. O evento foi um dos quatro projetos selecionados, num total de 188 propostas concorrentes. “Poder receber todos esses prêmios internacionais demonstra que é possível alcançar grandes conquistas, mesmo perante tantos desafios. Assim, o Capítulo mostra que, com dedicação e competência, sonhos se tornam realidade e obstáculos podem ser superados”, disse a presidente do Capítulo Estudantil Anna Paula Ferreira, estudante de Engenharia de Petróleo. O professor Oldrich Joel Romero destaca que o trabalho do grupo se tornou uma referência. “Desde sua fundação, em 2010, o Capítulo Estudantil SPE Ufes se tornou um dos grupos de estudantes mais ativos da Universidade. Várias de suas competências se tornaram referência em nosso Estado. Os diretores do Capítulo têm explorado áreas como gestão, marketing, artes, web design, criação de marcas e trabalho em equipe, entre outras. Nossas ações buscam desenvolver não só a performance acadêmica de nossos estudantes, mas também as competências pessoais”, diz.

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IDEIA PREMIADA

Tese de doutorado em

Imunologia

Sociologia Rural

Um projeto de pesquisa desenvolvido pelo Núcleo de Doenças Infecciosas (NDI) da Ufes recebeu o Prêmio de Melhor Trabalho da categoria profissional no Congresso da Sociedade Brasileira de Imunologia. O trabalho “Células T* Senescentes Circulantes associadas à inflamação sistêmica e ao tamanho da lesão durante o tratamento cutâneo humano”, cujo título original é em inglês, pesquisou as Células T, um grupo de glóbulos brancos (leucócitos) responsáveis pela defesa do organismo contra agentes desconhecidos. O trabalho foi desenvolvido pela pesquisadora Luciana Polaco Covre, sob orientação do professor Daniel Gomes e em colaboração com a University College London (UCL). Também participaram do trabalho os professores Aloisio Falqueto (Departamento de Medicina Social- Ufes) e Arne Akbar (UCL). O projeto conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), do Medical Research Council-UK (MRC) e do Newton Fund. A pesquisa, desenvolvida no Laboratório de Imunobiologia, levanta questões de saúde pública e contribui para o desenvolvimento de estratégias de diagnóstico e terapêutica (vacina e medicamentos) para doenças como leishmaniose, tuberculose, dengue, zika, malária, entre outras, segundo o professor Daniel Gomes, que coordena o espaço. Gomes destaca o caráter multidisciplinar das pesquisas do NDI, que envolve estudiosos e laboratórios com expertises diversas. “Já observamos o aumento da produtividade e, consequentemente, da competitividade dos laboratórios do Núcleo frente ao cenário da pesquisa mundial”, afirma. Foto: Acervo pessoal

Professora Ana Cláudia Meira recebe o prêmio das mãos de José Graziano

Professores Daniel Gomes (Ufes) e Arne Akbar (UCL) participaram da pesquisa junto com a pósdoutoranda Luciana Covre

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Também foi premiada a tese de doutorado “Ô!! Você vai passar por cima de mim!!’: desenvolvimento, conflito ambiental e disputas por justiça no litoral sul do Espírito Santo, Brasil, de autoria da professora do Departamento de Medicina Veterinária do Centro de Ciências Agrárias e Engenharias (CCAE) Ana Cláudia Hebling Meira. Foi concedido à pesquisa o Prêmio José Gomes da Silva de 2018, como a Melhor Tese de Doutorado em Sociologia Rural. O nome do prêmio homenageia o agrônomo que escreveu o Estatuto da Terra, pai do diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), José Graziano. O estudo questiona sobre a possibilidade de se chegar a acordos pacíficos e justos com as comunidades de pescadores artesanais das praias de Itaipava, do Pontal e de Marobá, no processo de construção de terminais portuários no sul do Estado. Foram analisados os aspectos ambientais e econômicos dos acordos e suas consequências para a população local. Em sua tese, a professora conclui que as disputas estudadas configuram um conflito ambiental e cria o conceito de “cosmojustiça”. “Significa que, na convivência humana, há grupos diversos, que constroem diferentes pontos de vista do que é justiça. São visões diversificadas que precisam ser ouvidas, estudadas e respeitadas”, explica. O doutorado foi defendido em 2017 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).


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Luciano Amaral Rocha - Ponto final, Tiragem 5/30, 1977, Xilogravura sobre papel, 18,0 x 19,1 cm. Nº de identificação: 0135 Acervo da Universidade Federal do Espírito Santo, na Galeria de Arte Espaço Universitário

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Revista Universidade | nº 09  

Revista de Jornalismo Científico, Cultura, Variedades produzida pela Superintendência de Cultura e Comunicação da Universidade Federal do Es...

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