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Revista da Universidade Federal do Espírito Santo •

UFES

Dez 2015 • Ano 4 • Nº 5

ISSN 2359-2095

Pesquisas

Agrárias A Fazenda Experimental da Ufes é referência regional e nacional em pesquisas nas áreas de agronomia, ciências biológicas e em análise nematológica

Mala Direta Postal

Básica

9912260557/2010-ES UFES – UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESP.SANTO

CORREIOS


Hucam:

o maior complexo médico-hospitalar do Estado

O Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam) é o hospital-escola da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), fundamental para a formação de profissionais em diferentes áreas da saúde, abrangendo o ensino, a pesquisa e a extensão. Funciona com cerca de 300 leitos, atendendo, gratuitamente, 24 horas por dia, pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).


Fundado em dezembro de 1967, o Hucam recebe pacientes dos 78 municípios do Estado e de outros estados, como Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Localizado no campus universitário de Maruípe, em Vitória, o Hospital transformou-se no maior complexo médico-hospitalar do Estado do Espírito Santo, destacando-se também pela qualidade da assistência oferecida à população e pelo grande volume de atendimentos, sobretudo nos de alta complexidade. Realiza, aproximadamente, 1.200 procedimentos cirúrgicos por mês. Por ano, são realizados, nos 129 consultórios existentes, mais de 200 mil consultas médicas em quase 150 áreas de saúde, 15 mil atendimentos de urgência, 600 mil exames laboratoriais de análises clínicas, 14 mil cirurgias, 10 mil internações, 1.500 partos e 30 mil exames por imagem, entre outros procedimentos. Por meio de contrato assinado em abril de 2013, o Hucam passou a ser administrado pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), uma empresa pública vinculada ao Ministério da Educação, criada pelo Governo Federal com a finalidade de gerenciar os hospitais universitários do País.


APRESENTAÇÃO

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Foto: David Protti

Informação com

múltiplas temáticas Esta é a quinta edição da revista Universidade, cuja proposta editorial objetiva contemplar a produção de pesquisa científica e tecnológica da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e outros temas relevantes do contexto acadêmico. A publicação é um projeto em construção e em fase de consolidação. Os primeiros resultados, porém, são animadores e apontam para a real importância de estabelecermos este canal de comunicação que informa sobre o que a instituição produz de modo muito satisfatório e que se constitui em um dos pilares da sua missão – a pesquisa. Com um conceito editorial moderno e projeto gráfico criativo, a revista Universidade é resultado de um grande esforço da nossa instituição, objetivando dar visibilidade ao excelente desempenho de nossos pesquisadores. Creio que a publicação traduz o reconhecimento institucional ao desenvolvimento da pesquisa na Ufes e cumpre o valioso papel de informar à comunidade universitária e à sociedade acerca da elevada e qualificada produção acadêmica aqui existente. Este é, de fato, um importante movimento que deve ser permanente – e intensificado – por uma universidade pública. Esta edição apresenta aos leitores uma pauta diversa, instigante, que percorre múltiplas temáticas da pesquisa, da extensão, do ensino e da cultura. Transita pelos centros de ensino da Ufes e revela trabalhos multidisciplinares que envolvem a graduação e a pós-graduação, os professores, estudantes e técnicos, e os laboratórios que instrumentalizam projetos acadêmicos em diferentes áreas do conhecimento. A revista Universidade é, pois, uma cuidadosa publicação, conduzida com talento pela equipe de profissionais da Superintendência de Cultura e Comunicação (Supecc), e que traz o desafio de se consolidar como importante ferramenta de jornalismo científico. Reinaldo Centoducatte Reitor

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Foto: David Protti

Universidade Federal do Espírito Santo • Ufes Reitor Reinaldo Centoducatte Vice-Reitora Ethel Leonor Noia Maciel Pró-Reitor de Administração Eustáquio Vinicius Ribeiro de Castro Pró-Reitor de Assuntos Estudantis e Cidadania Alexsandro Rodrigues Pró-Reitora de Extensão Angélica Espinosa Barbosa Miranda Pró-Reitora de Graduação Maria Auxiliadora de Carvalho Corassa Pró-Reitora de Gestão de Pessoas Maria Lucia Casate Pró-Reitora de Planejamento e Desenvolvimento Institucional Anilton Salles Garcia Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Neyval Costa Reis Junior Superintendente de Cultura e Comunicação José Edgard Rebouças UNIVERSIDADE Revista de Jornalismo Científico • Cultura • Variedades produzida pela Superintendência de Cultura e Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo Secretária de Comunicação Thereza Marinho Coordenadora da Seção de Publicação Científica Letícia Nassar Coordenador do Núcleo de Comunicação Institucional Luiz Vital Conselho editorial Cleonara Maria Schwartz• Fabio Ressel • Marcelo Segatto • Roberto Avelino Cecílio Editor geral Edgard Rebouças Editora Letícia Nassar Reportagem Ana Paula Vieira • Camila Fregona • Jorge Lellis • Letícia Nassar • Luiz Vital Bolsistas Betina Hatum • Jéssyka Saquetto • Maria Luisa Silva • Nayara Santana Fotografia David Protti • Arquivo Supecc Design Juliana Braga • Leonardo Paiva Revisão Márcia Rocha Foto da Capa David Protti Universidade Federal do Espírito Santo Superintendência de Cultura e Comunicação - Supecc Av. Fernando Ferrari, nº 514, Campus de Goiabeiras Prédio da Reitoria, 1º andar, CEP: 29075-910, Vitória/ES - Brasil Telefone: (27) 4009-2204 E-mail: revistauniversidade@ufes.br ISSN 2359-2095 O conteúdo desta revista pode ser reproduzido para fins didáticos, desde que citada a fonte.

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Prezado leitor, Agricultura, rios, lama, dengue, cotas e educação de gênero. Essas são algumas temáticas que este número 5 da revista Universidade apresenta ao leitor. A c ap a t r az em des t aque p esquis as desenvolvidas no Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes/Ufes), localizado na cidade de São Mateus. Em foco, a Fazenda Experimental que, em seus cinco anos de funcionamento, se tornou referência regional e nacional em pesquisas nas áreas de agronomia, ciências biológicas, processamento vegetal, hidráulica, manejo agrícola, dentre outras. Já no município de Itarana, os professores e estudantes do Laboratório de Gestão de Recursos Hídricos e Desenvolvimento Regional (Labgest) desenvolvem, há 10 anos, pesquisas e ações para promover a justiça ao acesso à agua, o seu uso consciente e o desenvolvimento da região. Quem apresenta esse trabalho para o leitor é o professor Edmilson Costa Teixeira, coordenador do LabGest. A polêmica questão sobre a inclusão da educação de gênero nos planos da educação é tema da entrevista com a professora do Centro de Educação Gilda Cardoso de Araújo, que destaca a importância dessa abordagem nas escolas para a construção de uma educação para a cidadania. No Centro de Ciências da Saúde, os pesquisadores do Núcleo de Doenças Infecciosas acompanham os voluntários que participam dos testes da vacina contra a dengue desde 2010. O professor Reynaldo Dietze é o coordenador do Núcleo e dessa pesquisa no Brasil. Há ainda nesta edição outras pesquisas e ações de extensão desenvolvidas pela comunidade univervisitária em diferentes municípios do Espírito Santo. Além disso, pode-se conferir os novos títulos da Editora da Ufes. Boa leitura. Letícia Nassar Editora

Sumário 16 Base Oceanográfica Pesquisas sobre o fundo do mar para entender os fenômenos naturais

26 Ceunes Fazenda Experimental é referência regional e nacional

8 12 22 34 38 40 44 48 50 58 62

LabGest Areias monazíticas Reserva de vagas Vacina contra a dengue Cada doido com sua mania Entrevista: Educação de gênero LaTerra Artigo: Ética na administração pública Centenário de Augusto Ruschi Serviço Social: 45 anos Edufes completa 20 anos

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EXTENSテグ Foto: Jean Carlos Da Re/Incaper

Vale do

Sossego Letテュcia Nassar

Pesquisadores do LabGest e produtores rurais de Itarana juntos na melhoria dos rescursos hテュdricos da regiテ」o

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A

água, elemento natural que está em todas as mídias nacionais por causa de sua escassez, há muito é objeto de pesquisa de diversas áreas acadêmicas, de institutos e organizações não governamentais. Essas ações investigativas já apontavam para o que, atualmente, a população da Região Sudeste também está vivendo: a falta de água nas suas torneiras. Se pesquisar é enfrentar desafios, então o Laboratório de Gestão de Recursos Hídricos e Desenvolvimento Regional (LabGest) há 10 anos trilha caminhos investigativos que procuram conjugar a ação humana com as iniciativas econômica, política, social e ambiental. Ao desenvolver suas ações mediante a interação entre os pesquisadores, as comunidades e as instituições públicas e privadas, o LabGest procura promover a justiça ao acesso à água, o seu uso consciente e o desenvolvimento da região. Ressignificar a relação entre o homem e a água foi uma das atitudes escolhidas pelo grupo. “Não é a água como fim, mas sim a água como elemento indutor de desenvolvimento. Água como elemento simbólico de integração de sociedades, de políticas”, diz o professor do Departamento de Engenharia Ambiental Edmilson Costa Teixeira, ao explicar o leitmotiv adotado pelo LabGest, do qual é coordenador.

“O que fazemos enquanto academia é trabalhar com o desenvolvimento de metodologias, de dispositivos ferramentais científicos e tecnológicos para por em prática questões ou aspectos relacionados a essa temática, ou seja, o de tornar viável a integração. Muitos falam que é importante integrar, que é importante trabalhar com inserção social, reduzir as diferenças, as desigualdades, fazendo com que a água, já que ela é um elemento essencial para todos, seja acessível a todo mundo. Falam, falam, falam. Nós, não! Nós tentamos desenvolver ferramentas para tornar isso factível, concreto. É por isso que o nosso grupo de pesquisa vem se destacando no meio acadêmico e nos setores da administração pública”, afirma o professor. O locus da pesquisa desenvolvida pelo Laboratório é a Bacia Hidrográfica do Córrego Sossego (BHCS), localizada no município de Itarana, a 130 km de Vitória. O córrego faz parte da porção espírito-santense da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Este nasce no município de Ressaquinha (Minas Gerais) e percorre 853 km, passando por 228 municípios, até chegar a sua foz no povoado de Regência, que fica no município de Linhares (Espírito Santo). Segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (CBH-Doce), ao longo desse percurso, as águas do rio atendem a 3,5 milhões de habitantes, sendo que 73% dessa população estão na área urbana. Nos Foto: Jorge Medina

Equipe do LabGest é formada por professores, pesquisadores, pós-graduandos e estagiários em iniciação científica

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EXTENSÃO

Fontes: IBGE, IDAF, IJSN, IPES. Elaborado por Gisele Girard e Fabíola Vieira/2002

do Projeto Sossego, temos, ao longo de alguns anos, buscado garantir que a bacia do Santa Joana saia desse vazio institucional. A partir de 2016, essa bacia passará a fazer parte da gestão formal das águas do Rio Doce. O que significa ser inserido na gestão formal de recursos hídricos daquela bacia? É se tornar, formalmente, instituição descentralizada e participativa local, parte integrante dos sistemas de gerenciamento de recursos hídricos que operam na região e, assim, ter mais voz e voto nas instâncias de tomadas de decisão sobre os recursos hídricos, no contexto do desenvolvimento presente e futuro da região”, destaca Edmilson Teixeira.

Mapa do estado do Espírito Santo e a localização da Bacia do Córrego Sossego

municípios com até 10 mil habitantes, 45,75% da população vivem na área rural. Itarana, segundo o último Censo Demográfico (2010) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), possui 10.881 habitantes, sendo que 6.786 residem na área rural. As pesquisas na Bacia Hidrográfica do Córrego Sossego começaram em 2002, quando ela foi inserida como área de estudo na Bacia do Rio Doce, pelo então Grupo de Estudos e Apoio em Recursos Hídricos (Gearh/Ufes). Em novembro de 2005, o professor Edmilson Teixeira deu origem ao LabGest. “A Bacia do Rio Doce é uma referência nacional, é um exemplo de sucesso de organização para a gestão descentralizada das águas no Brasil”, explica o professor. A bacia possui hoje dez comitês de bacia hidrográfica de rios afluentes do Doce e um comitê de integração (o CBH-Doce). Quase toda a região hidrográfica do Doce, de aproximadamente 90 mil km2, está sob a gestão desses comitês, havendo apenas uma pequena parcela, incluída aí a bacia hidrográfica do Rio Santa Joana, que está sob o estado de “vazio institucional”. “É nessa região que se insere o Córrego Sossego, um afluente do Rio Santa Joana. Então nós, enquanto Ufes, juntamente com outras instituições apoiadoras

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Integração de saberes Quando o grupo de pesquisa chegou a Itarana, em 2002/2003, juntamente com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e o Instituto Jones dos Santos Neves, para implantar o Laboratório Vivo – um lugar de experimentação para a integração de gestão de água e território –, havia muitos problemas sociambientais e conflitos motivados por escassez de água. Entre os trabalhos desenvolvidos pelo grupo, professor Edmilson ressalta a autogestão comunitária. A autogestão é um modo de a comunidade local não ter que esperar tudo do governo. “A partir dessa auto-organização, o número de reclamações no Ministério Público reduziu muito. Ou seja, eles começaram a conversar mais entre eles, minimizando os conflitos pela água. Ainda há problemas por lá? Claro que há, afinal são seres humanos”, completa. O sucesso dessa integração está na metodologia adotada pelo grupo, que visa a ações para além dos procedimentos voltados à aplicação de modelos de simulação em recursos hídricos e monitoramento ambiental. “Trabalhamos com a transdisciplinaridade, ou seja, com a integração dos saberes, inclusive tácitos e especializados, de políticas e de escalas geográficas”, esclarece o professor. Compreendendo que grande parte dos problemas mundiais relacionados a essa temática está ligada à má gestão, desde o que se refere à gestão dos recursos naturais à gestão do ser humano, o LabGest conjuga a engenharia direta com diferentes áreas do conhecimento. Assim, está sendo desenvolvido no projeto Sossego um sistema de suporte para a decisão do uso da água na agricultura, ou seja, a distribuição da água de uma forma mais justa, incluindo todos os seus usuários. Essa ação envolve conhecimentos desde a área da engenharia até os saberes das comunidades locais. “Para esse sistema funcionar, eu tenho que ter o contato com o conhecimento do produtor local e perguntar como


está algo que ele conhece. Coloco essa informação no modelo. Temos, então, sistemas que já contemplam a dimensão social. O que estamos desenvolvendo é uma engenharia social”, afirma Teixeira. Nesses 10 anos de atuação do Laboratório, foi desenvolvida uma metodologia de planejamento participativo de recursos hídricos da bacia do Córrego Sossego. Inicialmente, o grupo de pesquisa, juntamente com a comunidade local, fez um diagnóstico socioeconômico, ambiental e políticoambiental, a avaliação da água e a identificação de conflitos causados pela água. Na segunda etapa, a pesquisa focou no uso dos recursos hídricos na agricultura irrigada, no incentivo ao empreendedorismo e ao cooperativismo e na importância da cobertura vegetal. Atualmente, a pesquisa está terminando a terceira etapa, que é o fortalecimento da mobilização da comunidade e das parcerias entre diversos segmentos da sociedade. O diferencial dessa ação em relação a outros projetos já existentes está na participação de diversos setores da sociedade em todas as fases do desenvolvimento do planejamento, o que, segundo o professor Edmilson, é raro de acontecer. Ele explica que os pesquisadores do Laboratório reforçam ações como a modelagem – utilização de modelos de simulação do impacto do uso, da ocupação e do manejo do solo sobre os recursos hídricos – participativa. “São muitas as ferramentas que permitem dizer, por exemplo, quando chover em uma área ocupada por floresta ou em uma área degradada, em função do tipo de manejo que se adota, quais serão as consequências que a chuva trará para os rios e reservatórios desse lugar, assim como para os aspectos socioeconômicos. Portanto, essas ferramentas contribuem para dizer se as práticas locais tornam a água elemento limitante ou indutor de desenvolvimento”, esclarece. Foto: Jorge Medina

Para o professor, há um problema mundial de gestão de articulação, uma crise conjuntural, que não se refere somente à crise da água. A área ambiental não fica de fora desse contexto e é por isso que o grupo de pesquisa está centrado no desenvolvimento e não na água, pois esta é considerada elemento integrador, capaz de unir pessoas e setores públicos e privados. “Juntos decidimos ações para um mundo melhor, e a água é um elemento muito bom para isso. O nosso diferencial é como fazer isso junto com diversos representantes da sociedade para que se alterne o fazer ‘para eles’ pelo fazer ‘com eles’. O processo é participativo e inclusivo de tal forma que, quando terminado, o resultado pertence a todos. Assim, se é nosso, todos nós vamos cuidar dele, porque construímos juntos”, frisa Edmilson Teixeira.

Laboratório vivo No Estado, o LabGest tem como parceiros órgãos gestores de recursos hídricos e ambientais, tais como a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama), o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), a Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh), os comitês de bacias hidrográficas, a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf), o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan), municípios (Itarana, Itaguaçu, entre outros) e associações de produtores rurais. Da interação entre os pesquisadores da Ufes, os parceiros e a comunidade local é que o projeto desenvolvido no Córrego Sossego é chamado de Laboratório Vivo. Isso porque no local não se aplicam somente as técnicas ou tecnologias. É uma pesquisa que envolve ações in situ, onde há integração entre o social, ambiental, político e tecnológico. “Nós, enquanto grupo, trabalhamos pesquisas. Mas quais pesquisas? Não é só pesquisa para publicar artigos em revista científica, pois afinal fazemos parte do programa de pós-graduação em Engenharia Ambiental. Nossa pesquisa é do tipo ação participativa, ou seja, ao mesmo tempo pesquisamos, damos respostas, consideramos o saber especializado/formal e o local/tácito. É esse diálogo, essa interação que é o LabGest”, conclui o professor Edmilson Teixeira.

Professor Edmilson Teixeira, coordenador do LabGest

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PESQUISA

Em Guarapari, pesquisadores estudam as

areias monazíticas Os gases radioativos das areias monazíticas possuem ou não efeitos terapêuticos e medicinais? Essa é a questão que o professor Marcos Tadeu Orlando procura responder

Jorge Medina

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Foto: Humberto Capai | Usina de Imagem

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beleza natural das praias de Guarapari atrai, todos os anos, milhares de turistas brasileiros e estrangeiros. Porém foi a Praia da Areia Preta a primeira a atrair os olhares para o balneário, localizado no litoral sul do Espírito Santo. Ela tem esse nome por causa da monazita, e sua fama se deve à popularidade das propriedades medicinais da areia. Mas afinal, quais são os efeitos das areias monazíticas na saúde das pessoas? É com o objetivo de conhecer melhor e comprovar a eficiência terapêutica da radioatividade produzida pelas areias monazíticas que o professor do Departamento de Física Marcos Tadeu Orlando analisa, no Laboratório de Tribologia, Corrosão e Materiais (Tricorrmat), do Centro Tecnológico, os efeitos biopositivos que essa radiação causa no ser humano. Os resultados dos estudos poderão aferir cientificamente se as areias monazíticas são eficientes como terapia alternativa para algumas doenças. “Guarapari poderá se tornar uma estância radioclimática, ou seja, uma clínica natural ao ar livre, em plena praia, projetando a cidade nacional e internacionalmente como a Cidade Saúde, além de atrair pesquisadores”, ressalta o professor, que em 2014 publicou um artigo demonstrando que em Guarapari há menos casos de câncer de mama do que em outras cidades com as mesmas características populacionais.

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PESQUISA

A pesquisa será realizada por quatro anos no Tricorrmat, localizado no campus de Goiabeiras (Vitória), e em uma base científica instalada em Guarapari. Para coordenar as investigações na base científica foi convidado o geólogo e doutor em Geologia Médica e vice-presidente da Organização Mundial de Termalismo, Fábio Tadeu Lazzerini. O pesquisador vai coletar os dados em campo, observando a velocidade do vento, o índice de radiação no ar, o movimento das marés e a estrutura microrgânica das areias (dureza, composição e propriedades físicas). Os equipamentos para a realização da pesquisa foram adquiridos por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), que disponibilizou R$ 36 mil para as compras. Outro objetivo dos pesquisadores é tornar a cidade de Guarapari um espaço de referência mundial no tratamento com areias monazíticas, uma vez que são poucos os países onde essa área monazítica é encontrada. Entre eles estão a Índia, o Egito e a China.

O professor Marcos Tadeu destaca que a radioatividade da areia de Guarapari tem como base o elemento tório e não o urânio. Ele lembra também que essa composição da areia foi formada pela própria natureza. “Não temos, então, um acidente provocado pela ação humana”, explica. Câncer de mama Durante cinco anos, de pesquisas e análises dos dados oficiais do Sistema Único de Saúde (SUS) sobre as cidades do Espírito Santo, o professor Marcos Tadeu e sua equipe comprovaram que Guarapari tem o menor número de casos de câncer maligno de mama per capita no Estado, em relação as outras cidades capixabas. Os resultados dessa pesquisa, realizada de 2008 a 2013, foram divulgados no artigo “Correlation between Breast Cancer and Radiation Level of Guarapari”, publicado nos anais do V Encontro Científico de Física Aplicada, ocorrido na Ufes, em 2014. Foto: Jorge Medina

No Tricorrmat, do Centro Tecnológico da Ufes, professor Marcos Tadeu orienta os estudantes

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“Essa realidade reforça ainda mais a hipótese dos pesquisadores de que o nível de radiação encontrada na Praia da Areia Preta apresenta um alto nível de radiação benéfico à população, em comparação a outras praias do Estado. Essas areias são favoráveis ao tratamento de várias doenças”, reforça Marcos Tadeu. As areias pretas são classificadas como monazíticas, que significa estar solitária, em alusão à raridade do mineral. A monazita é um mineral raro que produz gases que são encontrados entre os grãos da areia. “É importante reforçar que na pesquisa sobre câncer de mama foram utilizados números reais, não

estimativos, comparando as populações equivalentes que viviam na mesma região, com a mesma cultura e mesmos hábitos”, esclarece o pesquisador. Serão quatro anos de muitas pesquisas em campo e no Tricorrmat para que a sociedade tenha a comprovação do efeito terapêutico da areia monazítica. Enquanto isso, alguns moradores e turistas passam a areia preta em partes do corpo por acreditarem que ela seja benéfica para os casos de reumatismo articular e muscular, artrites, nevralgias, mialgias e enfermidades musculares, entre outras.

Tricorrmat e os avanços tecnológicos O Centro Tecnológico da Ufes possui os mais completos, sofisticados e atualizados laboratórios do Estado. Atende cursos de graduação e pós-graduação do Centro e de outros cursos da Universidade. Muitos são equipados com aparelhos de última geração, servindo de base para pesquisa, ensino e extensão. Entre esses espaços para pesquisa, está o Laboratório de Tribologia, Corrosão e Materiais (Tricorrmat), que pertence ao Departamento de Engenharia Mecânica e ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica (Ppgem). Suas atividades estão focadas na caracterização das microestruturas e sua relação com as propriedades mecânicas dos diversos tipos de materiais. Estuda também a ruína de materiais e de seus sistemas mecânicos, que estão sujeitos ao desgaste e ou à corrosão, além de análises de falhas de vários componentes mecânicos. O Tricorrmat desenvolve, por exemplo, pesquisas sobre o desgaste, a erosão, a lubrificação, o atrito e a dureza que ocorrem em tubulações, válvulas, ventiladores, ligas metálicas, plásticos, materiais odontológicos e bioplastia. Os avanços tecnológicos também fazem parte das pesquisas de estudantes e professores do Tricorrmart), buscando soluções eficazes em diversos segmentos, tais como o petróleo, o gás, setores da aeronáutica, aeroespacial, automotivo, de transportes e de dispositivos eletrônicos. Entre os projetos, destaca-se o Baja, que tem como proposta projetar,

Foto: Jorge Medina

As pesquisas sobre as areias monazíticas são desenvolvidas no Laboratório de Tribologia, Corrosão e Materiais (Tricorrmat)

fabricar e montar um carro monoposto que consiga ultrapassar qualquer tipo de obstáculo. Fundado em 2008, ocupando uma área de 200 2 m , no campus de Goiabeiras, o Tricorrmat tem parceria com empresas como Vale, Petrobras, ArcelorMittal e Samarco e organizações de diversos segmentos, que desenvolvem pesquisas ou serviços tecnológicos.

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PESQUISA

O ENCONTRO ENTRE O RIO DOCE E O MAR Ana Paula Vieira

Pesquisas sobre o fundo do mar ajudam a entender fen么menos naturais 16

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Foto: Leonardo Merçon/Últimos Refúgios

O

rompimento da barragem de Fundão da mineradora Samarco, em Mariana (MG), ocorrido no dia 5 de novembro de 2015, causou um desastre ambiental de grandes proporções que soterrou a região com uma onda de lama. A onda seguiu pelo Rio Doce e chegou ao Espírito Santo, atingindo as cidades de Baixo Guandu, Colatina e Linhares. Apesar de determinações judiciais para que a empresa impedisse a chegada da lama ao mar, no dia 21 de novembro ela começou a manchar o litoral de Linhares, na vila de Regência, onde está localizada a desembocadura do rio. A sensação de tristeza que tomou conta da população e o saudosismo de um rio que está seriamente ameaçado, até mesmo de sumir do mapa segundo alguns especialistas e ambientalistas -,

parecem cenas de uma tragédia anunciada. Isso porque a seca que atingiu o Rio Doce nos meses de julho e agosto de 2015, as notícias de que sua foz mudou de lugar e o fato de que sua profundidade caiu de cerca de 1,5m para 26 cm já preocupavam a população capixaba e emitiam um sinal de alerta sobre a ação antrópica naquele ecossistema. Ironicamente, o nível do Rio Doce subiu, mas devido à grande quantidade de rejeitos de minério cujos efeitos órgãos ambientais, especialistas e ambientalistas ainda não conhecem exatamente. O que já se sabe e causa bastante preocupação é o fato de que os dois fenômenos têm relação direta com o mar. O que se conhece popularmente como lama, para a equipe do Laboratório de Oceanografia Geológica (Labogeo), localizado na Base Oceanográfica da Ufes, no município de Aracruz, Norte

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PESQUISA

Foto: David Protti

Base Oceanográfica A Base Oceanográfica da Ufes está localizada em Santa Cruz, município de Aracruz, no Norte do Espírito Santo. Com uma área construída de 3.900 m2, o espaço abriga a secretaria do curso, um auditório para 125 pessoas, duas salas de aula e os laboratórios de Geoquímica Ambiental, Oceanografia Geológica, Nectologia, Ecologia Bêntica, Ictiologia, Zooplâncton, Ecotoxicologia e Cultivo de Organismos Marinhos. Ao todo, 16 professores compõem o Departamento de Oceanografia, que está ligado ao Centro de Ciências

do Espírito Santo, e ligado ao curso de Oceanografia da Universidade, é um tipo de sedimento que faz parte da composição do fundo do mar e é objeto de diversas pesquisas realizadas nesse Laboratório. Desde 2010, a professora Valeria da Silva Quaresma e o professor Alex C. Bastos coordenam um projeto de mapeamento da plataforma continental adjacente do Espírito Santo – que abrange o Norte do Estado e vai até o sul da Bahia, incluindo a região de Abrolhos. Valeria explica que, apesar de períodos de cheia e seca serem normais ao longo do tempo, a interferência humana nunca foi tão forte na natureza como nos últimos tempos, e isso influencia o comportamento do Rio Doce e, consequentemente, a geologia e a geomorfia do fundo do oceano. Nos 850 km de extensão da Bacia do Rio Doce, que nasce no leste de Minas Gerais e se estende pelo nordeste do Espírito Santo, a exploração está presente, para agricultura, pecuária, extração mineral ou construção urbana. “O Rio Doce passou a ser fornecedor de água para agricultura e para abastecimento urbano, como também receptor de dejetos – industriais, urbanos, esgoto e mais”, ressalta Valeria Quaresma. Somando isso ao rompimento da barreira, a população de Colatina, por exemplo, teve de interromper a captação de água no rio, uma situação que já era iminente com a seca. Entre as ações humanas que interferem no comportamento do ecossistema está o desmatamento no entorno da Bacia. A professora explica que a teoria hidrológica normal consistiria na penetração da água da chuva no solo de forma que ele conseguisse absorvê-la – pois a chuva seria “amortecida” pela vegetação –, e pela existência de uma capa protetora de folhas, galhos, etc. junto ao solo

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–, dando tempo para que a água infiltrasse e fosse absorvida pelo lençol freático. Porém, como o solo está sem a proteção da vegetação, a água da chuva cai direto no solo e corre para o rio, fazendo com que a infiltração para o lençol freático diminua consideravelmente. “Então, aquela alimentação que o lençol freático proporcionaria ao rio no momento de seca, diminui. E como não há proteção do solo, toda essa areia e essa lama vão para dentro da calha do rio, fazendo com que ele fique cada vez mais raso, provocando o que chamamos de assoreamento”, esclarece Valeria Quaresma. Essa situação se agrava diante da queda da barreira em Minas Gerais. “Tem uma carga grande de material vindo nas águas e parte desse material ficará retido na calha do rio, podendo, dessa forma, contribuir para o assoreamento”, ressalta. Além de deixar o Rio Doce mais raso, a seca também fez com que ele não mais chegasse ao mar, segundo Valeria Quaresma, porque o rio não tem força para romper as ondas dessa forma. As ondas acabam por formar um banco de areia entre o rio e o oceano. “As ondas não diminuíram, e são elas que redistribuem a areia da plataforma e que aporta pelo rio na praia. O rio mantém a sua desembocadura aberta, porque geralmente tem força suficiente para resistir a essa onda, construindo um canal para passar e desaguar no mar. Agora, o que aconteceu é que o nível de água baixou tanto que o rio não tem força para romper essa barreira, então ele fica como se fosse uma grande lagoa”, salienta. Por outro lado, a professora destaca que ainda não é possível dizer se esse quadro é única e exclusivamente resultante da interferência humana, pois existem outros fatores envolvidos.


Humanas e Naturais (CCHN), e 16 na pós-graduação. O departamento também conta com espaços no campus de Goiabeiras, em Vitória, e no Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), em São Mateus. Além do curso de graduação em Oceanografia, o Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Ambiental oferece os cursos de mestrado e doutorado. O corpo discente é formado por 171 estudantes de graduação e 33 de pós-graduação, nos níveis de mestrado e doutorado.

Entre os reflexos dessa dinâmica para o oceano, está o fato de que não chega o sedimento que teoricamente chegaria até o fundo marinho próximo à desembocadura. Sendo assim, as ondas e as correntes continuam fazendo com que esse sedimento seja ressuspendido e movimentado na plataforma.Mas, em função da situação do rio, essa dinâmica pode estar sendo alterada, trazendo outros reflexos, como a alteração do tipo de fundo da plataforma adjacente. Nesse caso, o volume de sedimentos junto à lama vinda da queda da barragem foi tão grande que deixou para trás o banco de areia e entrou para o mar.

A chegada dos rejeitos ao oceano preocupa, de acordo com Valeria Quaresma, porque sua composição ainda é desconhecida. “Só poderemos fazer essa avaliação quando soubermos a concentração de material que chegará à foz. Normalmente, uma grande quantidade de material já é jogada ali em momentos de cheia do rio, mas a grande preocupação é que a lama vinda de Mariana não é o material que normalmente chega à plataforma. O sedimento que está vindo agora é diferenciado, e não temos ainda como prever o que acontecerá”, analisa a professora. Fundo do mar Todas essas preocupações já eram objetos de pesquisa no Labogeo, especializado no estudo da geologia e geomorfologia do fundo do oceano, mesmo antes da queda da barreira da mineradora Samarco. A pesquisadora explica ainda que o objetivo é identificar o tipo de substrato, ou seja, o tipo de fundo que compõe a plataforma. O conhecimento básico do sedimento superficial de uma plataforma é extremamente importante em vários sentidos, entre eles para a instalação de estruturas de engenharia, para a passagem de dutos, de cabos de fibra óptica, para a pesca, a atividade biológica e para a realização de intervenções na linha costeira; portanto, é preciso conhecer o tipo

Foto: Leonardo Merçon/Últimos Refúgios

A onda de lama desceu o Rio Doce e chegou à foz em Regência (Linhares/ES), afetando o ecossistema fluvial e marítimo

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PESQUISA Fotos: Divulgação

de sedimento existente, como ele se movimenta e, agora, analisar o material que chegará a partir da queda da barragem. Para Valeria Quaresma, esse também é um fator que ainda será analisado quando se souber do que é composta a lama que desce pelo Rio Doce, e essa catástrofe ambiental influencia diretamente os rumos das pesquisas desenvolvidas no Labogeo. “Ficamos mais atentos ainda aos processos na plataforma. Aumentamos os nossos esforços para a produção de dados e análises que possam nortear as ações que deverão ser tomadas. Isso certamente provoca mudanças em direções de pesquisa e enseja o surgimento de novos projetos, principalmente aqueles ligados ao impacto causado”, ressalta. Para realizar o mapeamento da plataforma, os pesquisadores usaram métodos geofísicos por meio de um sonar de varredura lateral. Conforme explica a professora, trata-se de um equipamento rebocado atrás de um barco e que vai margeando a plataforma, como se tirasse uma grande fotografia do fundo do mar. “Com essa técnica, é possível ver o tipo de morfologia existente no local e o tipo de sedimento”, garante a pesquisadora. Mas a análise ainda vai além: para ver o que está abaixo do fundo do mar, utiliza-se o perfilador de subfundo, que proporciona o mapeamento das camadas sedimentares em uma perspectiva temporal. Outro tipo de pesquisa realizada pelo Labogeo é a investigação da hidrodinâmica local e como ela influencia no transporte de sedimento. Para isso, o Labogeo vem instalando equipamentos para medições de velocidade e direção de correntes e ondas na plataforma. De acordo com Valeria, essas técnicas agilizam o mapeamento e o tornam um pouco mais barato. A Ufes dispõe de todos os equipamentos utilizados na pesquisa. Segundo Valeria Quaresma, esse mapeamento é parte de um conhecimento básico, que está entre as exigências do Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente, conhecido como EIA-Rima, necessário para a operação de algumas empresas. Porém, apesar de ser uma exigência comum, o mapeamento do fundo ainda não foi realizado em toda a plataforma continental do Espírito Santo. De acordo com a professora, o que existia era um conhecimento fragmentado. O mapeamento da região Sul do Espírito Santo, por exemplo, ainda está em fase inicial. “Estudamos o passado para entender o que vai acontecer no futuro. O sedimento, para mim, é um

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Com o sonar, é possível ver o tipo de morfologia e de sedimento

livro: tem histórias maravilhosas sendo contadas ali e eu tento ler esse livro”, resume a pesquisadora. O livro agora ganha um novo capítulo com o desastre ambiental em Mariana. Como as pesquisas já estavam em andamento, Valeria Quaresma ressalta que existem parâmetros consolidados no laboratório para se comparar com os impactos do rompimento da barragem. “Por coincidência, no dia em que aconteceu o rompimento da barragem, tínhamos uma equipe fazendo amostragem na plataforma. Então, temos dados de bem antes do acontecimento e, agora, o planejamento é fazer mais amostragens assim que esse material começar a aportar na plataforma, para fazermos uma comparação entre o antes e o depois”, adianta a professora. Desgaste ambiental Para além da parte geológica e geomorfológica, os organismos presentes no oceano também são afetados pela seca do Rio Doce e pelo desastre ocorrido em Mariana. Segundo o professor de Oceanografia Biológica Luiz Fernando Loureiro, o episódio da seca no Rio Doce certamente impactou a região costeira, porque os nutrientes que seriam trazidos pelo rio também não chegaram. “Com isso,


a produção biológica nessa região diminui”, enfatiza Loureiro. Na opinião do professor Renato Rodrigues Neto, algumas consequências trazidas pelos rejeitos de mineração para a vida marinha também já são evidentes. “Num primeiro momento, a lama é um problema porque ela mata por asfixia. As fotografias e vídeos que vimos até agora dos peixes indicam que eles, muito provavelmente, são mortos por falta de oxigênio”. O professor Luiz Fernando Loureiro salienta que fenômenos como a seca que atingiu o Rio Doce são resultados do efeito cumulativo da ação antrópica. “A capacidade de suporte desse ecossistema é comprometida à medida que você vai aumentando a ação antrópica. Existe um padrão natural de comportamento, mas com a nossa ação diária, que inclui a poluição de rios, lagos, oceanos, há reflexos no que existe de vida na Terra e na nossa qualidade de vida também. Nós estamos desgastando nosso ambiente, e ele vai chegar a um ponto em que não vai ter mais condições”, alerta Luiz Fernando Loureiro, ainda antes da tragédia que ocorreu em Mariana, mostrando que a educação ambiental e a conscientização são ferramentas poderosas na preservação dos ecossistemas.

Foto: Jorge Medina

A draga traz à tona os sedimentos do fundo do mar

Pesquisadores da Ufes e a lama Em 30 de novembro, o reitor Reinaldo Centoducatte, o pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Neyval Costa Reis Junior, e os professores Valeria Quaresma (Oceanografia), Renato Ghisolfi (Oceanografia), Aureo Banhos (Biologia), Maurício Abdala (Filosofia), Renato Rodrigues Neto (Oceanografia) realizaram uma visita técnica à foz do Rio Doce e Regência (foto). Os pesquisadores recolheram água, lama e areia do mar e do Rio Doce que serão analisadas em laboratórios da Universidade. A Ufes criou um grupo de trabalho formado por pesquisadores da instituição para monitorar os impactos ambientais, econômicos e sociais no Espírito Santo provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em Minas Gerais.

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TESE Foto: Divulgação

Reserva de vagas nos cursos de graduação amplia a participação de todos os brasileiros na vida social, política e econômica do País Pesquisa de doutorado mostra que estudantes oriundos de classes populares ingressaram nos cursos em que geralmente jovens de grupos sociais mais privilegiados eram os que tinham acesso

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Diminuir o grau de desigualdade social e econômica existente entre raças no ensino superior, além de reservar vagas nos cursos de graduação das instituições federais para estudantes provenientes de escolas públicas, ampliando, assim, a participação de todos os brasileiros na vida social, política e econômica do País. Esse é o principal objetivo do sistema de cotas étnico-raciais e sociais estabelecido pelo Ministério da Educação, em agosto de 2012, para as universidades e institutos federais. Uma análise envolvendo as cotas na Ufes foi realizada pela professora do curso de Biblioteconomia Maria Cristina Figueiredo Aguiar Guasti, entre 2013 e 2014, em sua tese intitulada “Por trás dos muros da universidade: representações de estudantes sobre o sistema de reserva de vagas (cotas) e sobre estudantes cotistas da Ufes”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE). Maria Cristina Figueiredo explica que o objeto da pesquisa foi escolhido por se tratar de um tema que emerge da sociedade brasileira como resultado de anos e anos de lutas de diferentes grupos e sujeitos sociais. Além disso, o tema passou a fazer parte do dia a dia das universidades e de seus estudantes, professores e funcionários, e continua sendo elemento de discussões nos mais diferentes círculos sociais. A pesquisa foi realizada no segundo semestre de 2013 e no primeiro de 2014, nos campi de Goiabeiras e Maruípe, ambos localizados em Vitória, com estudantes dos cursos de Direito, Medicina, Odontologia, Letras, Pedagogia e Ciências Sociais. Foram realizadas entrevistas a cotistas e não cotistas de cursos classificados como sendo de maior e menor status social, considerando dados de pesquisas anteriores. Na tese, foi observado que, apesar da desigualdade existente na origem social e escolar dos estudantes cotistas, não há impacto negativo das políticas de ações afirmativas sobre a qualidade do ensino da Universidade e que os ganhos em termos de igualdade e de diversidade obtidos pela aplicação dessa medida só serão percebidos ao longo dos anos. A pesquisadora ressalta que a implantação do sistema de reserva de vagas para estudantes de escolas públicas e não brancos não gerou impacto de forma negativa no desempenho acadêmico do conjunto da Instituição.

O sistema de cotas, segundo Maria Cristina Figueiredo, é capaz ainda de gerar mudanças sociais abrangentes, tanto para os sujeitos quanto para suas famílias e seus descendentes, pois a renda proveniente de sua profissão proporciona melhorias nas condições de vida dos indivíduos, criando, assim, uma nova convivência social e a elevação da autoestima de toda a família. A pesquisadora destaca que, para as famílias, de um modo geral, ter algum integrante em um curso superior é orgulho para todos. É também um fator de realização pessoal, de um futuro profissional promissor e de ascensão social tanto por parte dos pais, quanto dos próprios estudantes. Com isso, “fica em evidência o valor de um título de graduação conferido por uma universidade federal”, reforça. Mudança social Um argumento apresentado para a implantação do sistema de cotas é que os estudantes de escolas públicas que concluem o ensino médio não têm como competir em condições de igualdade com os estudantes de colégios particulares e, por isso, acabam desistindo de ingressar em uma universidade. Para a pesquisadora as cotas podem realmente trazer uma mudança social profunda no País e na vida dos estudantes na medida em que facilita o acesso ao ensino superior para estudantes da rede pública, indígenas e afrodescendentes. “Elas trarão influência decisiva na formação das futuras elites do País, minimizando as restrições às oportunidades econômicas, educacionais, sociais e políticas dos negros, índios e dos menos favorecidos economicamente, por exemplo, que são mantidos fora do sistema ou à margem e na periferia da ordem social competitiva. O preconceito e a discriminação racial precisam ser superados definitivamente no Brasil”, acrescenta. No que diz respeito ao processo de democratização do acesso à Universidade, a pesquisa, mostrou, a partir de dados contidos em relatórios Comissão Coordenadora do Vestibular (CCV/Ufes), que mais estudantes oriundos de classes populares ingressaram na Ufes, inclusive nos cursos em que geralmente havia alunos de grupos sociais mais privilegiados, como os de Medicina e Direito. Além disso, uma quantidade maior de afrodescendentes ingressou na Ufes, aproximando-se da composição étnico-racial da população do Estado.

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TESE

Racismo e exclusão Uma preocupação da Ufes é com a permanência desses estudantes nos cursos. As graduações de Odontologia e Medicina, por exemplo, têm aulas em período integral, o que inviabiliza a possibilidade de estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Então, como arcar com os custos da aquisição de livros e de instrumental específicos? Para minimizar essa situação, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) aprovou, em 2007, o programa de permanência na Universidade para alunos em dificuldades socioeconômicas, sejam eles cotistas, sejam não cotistas. Os benefícios são destinados somente aos estudantes cadastrados no programa de assistência estudantil da Instituição. Entre eles estão os auxílios para custeio de moradia, transporte, e alimentação e para a aquisição de material de consumo. A pesquisa de Maria Cristina Figueiredo observou que há uma séria defasagem no valor da ajuda para compra de materiais didáticos, especialmente em

Foto: David Protti

Odontologia, em que os estudantes precisam comprar todo o instrumental já nos primeiros períodos do curso, material esse considerado por todos muito caro. Além da questão financeira como um fato que pode afastar o estudante da sala de aula, temse ainda a questão social nos campi. A pesquisa constatou divergência na forma como o estudante cotista é visto pelos estudantes não cotistas. Nas entrevistas feitas pela pesquisadora com os estudantes não cotistas, observou-se que os cotistas são representados como aqueles que não têm um poder e um saber fazer, isto é, “não têm capacidade para estar na universidade” quer seja pelo rendimento, quer seja pela dificuldade financeira. “Certamente essa fala não pode ser generalizada, inclusive porque, no decorrer do curso, alguns deles mudam de opinião à medida que convivem com os estudantes cotistas. Isso é uma demonstração da capacidade avaliativa, que garante a eles a condição de identificar, tanto as desigualdades na origem da escola pública e na origem social, quanto no esforço muito maior que os colegas cotistas tiveram que fazer, a vida toda, para ocupar esse espaço na universidade e realizar o curso”, ressalta Maria Cristina Figueiredo. Na tese, foi analisado também que, nos discursos dos estudantes, a defesa das cotas raciais foi realizada pontualmente e foi feita por estudantes mais politizados. No caso dessa pesquisa, as declarações favoráveis às cotas raciais partiram quase todas de estudantes brancos. Entre os entrevistados na pesquisa, há estudantes negros que se declaram contra as cotas raciais. A justificativa é de que as cotas sociais já alcançam as pessoas negras – que em sua maioria, no Brasil, são de classes sociais mais baixas. Para outros, não é o tom da pele que deve definir quem entra ou não na universidade. Além disso, há os que revelaram o desejo de não serem reconhecidos como cotistas em função da cor de sua pele. Na opinião da pesquisadora, essas opiniões manifestam a existência de um regime de racismo e exclusão, que faz com que os estudantes negros queiram evitar esse tipo de exposição e

A Ufes possui um programa de permanência na instituição para estudantes em dificuldades socioeconômicas, cotistas ou não

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Foto: Ana Carolina Sabino

comparação, a que estão sujeitos no seu dia a dia. Nas representações sobre ser estudante cotista, a pesquisadora percebeu nas entrevistas que ainda não há uma consciência sobre a questão do direito. “As cotas são vistas como privilégio e oportunidade, num sentido positivo pelos cotistas, ou como roubo, pelos estudantes contrários ao sistema de reserva de vagas”, enfatiza. Facetas e desafios Em relação ao sistema de cotas nas instituições de ensino superior, Maria Cristina Figueiredo

A legislação A Lei nº 12.711, de agosto de 2012, orienta as universidades, institutos e centros federais de ensino, vinculados ao Ministério da Educação, a reservarem, em cada processo seletivo para o ingresso de graduação por curso e turno, no mínimo 50% de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas, para os que participaram do projeto Educação de Jovens e Adultos (EJA) ou tenham obtido certificado de conclusão do ensino médio pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário mínimo per capita. Desses 50%, metade, ou seja, 25% do total da oferta, será distribuída a partir do critério racial. Segundo a lei, essa reserva deverá ser preenchida por pretos, pardos e indígenas, em proporção à composição da unidade da federação onde estão localizadas as instituições federais do ensino superior, e de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2012, o Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão da Ufes estabeleceu que, em cada processo seletivo para ingresso nos cursos de graduação da Universidade, no mínimo, 50% de suas vagas sejam reservadas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas, inclusive em cursos de educação profissional técnica; respeitando as seguintes condições: 50% das vagas serão reservadas aos estudantes com renda familiar bruta igual ou inferior a 1,5 salário mínimo. Desses 50%, metade, ou seja, 25% do total da oferta serão distribuídas a partir do critério racial.

Pesquisadora Maria Cristina Figueiredo

observa que existem várias facetas que ainda não foram observadas. “Quantos olhares possíveis ainda poderão ser lançados sobre esse processo, sem que o tenhamos decifrado por completo”, questiona. “Entre as representações que tangenciaram essas questões, ficam ressaltadas aquelas que demonstram a inconformidade com o que consideram falhas no sistema de reserva de vagas; tanto do ponto de vista de uma falsa igualdade entre os estudantes oriundos de escolas públicas diferentes, como as estaduais e as federais, por exemplo, quanto à possibilidade de haver meios de burlar as normas e à falta de fiscalização em relação aos que optam pelas cotas sociais”, completa a pesquisadora. Maria Cristina sugere que a Ufes realize mais pesquisas sobre o sistema de cotas, principalmente sobre a entrada dos cotistas da Instituição no mercado de trabalho, fazendo uma análise comparativa entre cotistas e não cotistas, para entender melhor sobre as possibilidades pós-formatura desses estudantes. No que diz respeito às críticas ao sistema de reserva de vagas no modelo que está em vigor, a pesquisadora considera que há muito o que se discutir sobre quem de fato está sendo incluído. “Por todas essas razões, podemos afirmar que a implantação das cotas na Ufes trouxe diversos desafios a serem superados. Há ainda muito a ser feito em termos de políticas de permanência dos alunos cotistas, por sinal muito comuns entre as universidades públicas que implantaram reserva de vagas em seus vestibulares,” aponta a pesquisadora.

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PESQUISA

Fotos: Rafaela Laiola

Estudantes de graduação participam de diferentes projetos de iniciação científica no Ceunes

FAZENDA EXPERIMENTAL avança em pesquisas agrárias Luiz Vital Fotos: David Protti

Mecanização, defensivos agrícolas, fitopatologia, desenvolvimento rural, processamento vegetal, hidráulica e fruticultura são algumas áreas com laboratórios e projetos de pesquisa, extensão e ensino

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A

Fazenda Experimental do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes) da Ufes, em cinco anos de funcionamento, tornou-se referência regional e nacional em pesquisas nas áreas de agronomia, ciências biológicas, processamento vegetal, hidráulica e manejo agrícola, entre outras. Localizada no campus da Universidade na cidade de São Mateus, Norte do Estado, a cerca de 200 quilômetros de Vitória, a fazenda possui 196 hectares de área total, sendo 40 hectares de mata nativa. A unidade – base física para o desenvolvimento de projetos de pesquisa e de atividades de ensino e extensão – foi cedida à Ufes em 2008, por meio de decreto, pelo governo do Estado, após a desapropriação da área, e entrou em funcionamento em 2011. Atualmente, a fazenda possui os laboratórios de mecanização e defensivos agrícolas, de fitopatologia, de projetos, de desenvolvimento rural, de processamento vegetal e de hidráulica. De acordo com o diretor da unidade, professor Edney Leandro da Vitória, do Departamento de Ciências Agrárias e Biológicas, as prioridades são as pesquisas desenvolvidas nas áreas de experimentação, envolvendo diferentes cursos de graduação e de pós-graduação, e também as atividades de ensino nas áreas de demonstração. Segundo ele, as ações de extensão também estão sendo ampliadas. A partir de parcerias com a Prefeitura de São Mateus, a fazenda objetiva instalar um viveiro para a produção de mudas de qualidade de café e pimenta-do-reino, e oferecê-las, a baixo custo, para pequenos e médios produtores rurais da região. A fazenda, de acordo com Edney Leandro, tem investido especialmente na qualificação dos professores da rede municipal de ensino da região. Isso porque a agricultura familiar compõe o currículo das escolas e, assim, o treinamento – cuidados nas hortas, controle de doenças – representa ganhos para a comunidade. Um convênio com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifes) do município de Montanha, no extremo norte capixaba, permitiu a capacitação em mecanização agrícola para estudantes do curso técnico em Agropecuária. A fazenda também mantém parcerias com as comunidades quilombolas instaladas no seu entorno. O professor Edney Leandro observa que a Fazenda Experimental já se torna referência

regional e nacional, abrangendo o sul da Bahia e leste de Minas Gerais. Ele diz que já existe uma consistente atuação de pesquisadores dos cursos de pós-graduação e de iniciação científica do Ceunes, com cerca de 20 projetos de mestrado em andamento em todos os cursos. Edney ressalta que estão sendo desenvolvidas obras para a expansão da rede elétrica, inclusive para ampliar a capacidade de retenção de água e melhorar a irrigação, que já conta com um pivô central, poço e sistema de bombeamento. Entre as obras projetadas, estão um abrigo para máquinas agrícolas, um terreiro para secagem de café e dois prédios para a produção vegetal. Referência nacional em análise nematológica Atualmente, o Ministério da Agricultura conta com três laboratórios no País cadastrados no Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem), e que possuem o credenciamento para emissão de laudos oficiais sobre a presença de nematoides em mudas de café. Os nematoides são vermes que se alimentam das raízes da planta, injetando toxinas que as destroem. Um dos credenciados é o Laboratório de Análises Fitossanitárias (LAF) do Ceunes/Ufes, instalado na fazenda e coordenado pelo professor Marcelo Barreto da Silva, do Departamento de Ciências Agrárias e Biológicas. A importância da pesquisa com

Pesquisas em laboratórios estão integradas aos estudos de campo

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nematoides, realizadas na fazenda, também se dá porque a Região Norte do Estado é uma das maiores produtoras de café e pimenta-do-reino do Brasil. O LAF iniciou as suas atividades em 2013 e, no ano seguinte, foi credenciado pelo governo federal, como forma de assegurar que o café seja produzido e comercializado sem contaminações. De acordo com Marcelo Barreto, mais de mil análises já foram realizadas pelo laboratório, atendendo a produtores de todo o Espírito Santo e de Minas Gerais. “Além da análise de mudas produzidas em viveiros credenciados, também fazemos avaliações em lavouras de café, pimenta-do-reino e mamão”, assinala o coordenador. O LAF também oferece suporte para aulas práticas de Fitopatologia e para pesquisas do mestrado em Agricultura Tropical, além de possibilitar estágios para estudantes do curso de Agronomia. A origem do laboratório está no projeto Agro+, coordenado por Marcelo Barreto, que realizou pesquisa com mais de 300 produtores rurais de seis municípios do norte capixaba, avaliados para a adoção de 51 boas práticas agrícolas de sustentabilidade. “Os dados mostraram que menos de 20% dos agricultores faziam análise de solo e de mudas para verificar a presença dos nematoides”, ressalta o pesquisador. “Isso implicava em graves riscos de se comprometer o futuro das lavouras, porque esse patógeno destrói as raízes das plantas e favorece a ocorrência de outras doenças”, completa. A partir das constatações desse projeto, a criação do laboratório foi viabilizada para oferecer suporte ao produtor.

Técnicas de cultivo, estufas e casas de vegetação A Fazenda Experimental do Ceunes/Ufes mantém seis casas de vegetação onde são desenvolvidas diferentes linhas de pesquisas, segundo o gerente da unidade, Fabrycio Crizostomo Kock. Uma delas é o estudo sobre a produção de uva sem caroço, ainda em fase de primeiros experimentos, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Também estão sendo instaladas estufas hidropônicas. Trata-se de estudos sobre as técnicas de cultivo de hortaliças, frutos e flores. Atualmente, de acordo com o gerente, a

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fazenda trabalha em pesquisas com culturas perenes, que são aquelas que permanecem plantadas na área por vários ciclos produtivos, como café, banana e pimenta-do-reino, e culturas anuais, que apresentam ciclo produtivo menor, com necessidade renovação do plantio após a colheita, como de milho, feijão, soja, arroz, mandioca, algodão e girassol. A fazenda também mantém unidades demonstrativas, destinadas a atender às disciplinas em cada semestre letivo, além de unidades experimentais, onde são desenvolvidas as pesquisas de campo.


Novas técnicas para o desenvolvimento da fruticultura são estudadas na fazenda

Cuidados fitossanitários “Os nematoides são vermes de solo que atacam as plantas, causando deformações nas raízes, produzindo galhas, que é o engrossamento das raízes”, explica o engenheiro agrônomo Gleison Oliosi, técnico em agropecuária da fazenda e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Agricultura Tropical do Ceunes. “Essas deformações prejudicam a absorção de nutrientes pelas plantas, comprometendo a vida útil da lavoura”, acrescenta. Segundo Marcelo Barreto, “além dos danos causados diretamente pelos nematoides, a interação deles com o fungo causador da fusariose pode acelerar a morte das plantas. O dano em algumas lavouras pode chegar a 80% e atingir dimensões em que o agricultor perde todas as possibilidades de controle econômico”.

As mudas são pesquisadas em viveiros e também nas unidades experimentais, onde ocorrem as aulas práticas

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O pesquisador alerta para a necessidade de rígidos cuidados fitossanitários das lavouras, em médio e longo prazo, de modo a manter o solo isento dos nematoides. Segundo ele, para o pleno e saudável desenvolvimento das mudas de café, fruteiras e plantas condimentares, é necessária a realização de coletas anuais do solo para se identificar se há a presença do agente biológico que causa a doença. Medidas de manejo são recomendadas quando detectada a infestação da lavoura, como redução do trânsito de máquinas e equipamentos, adição de matéria orgânica e equilíbrio nutricional do solo, plantio de espécies antagonistas e controle de plantas daninhas hospedeiras. “O manejo dessa doença é de alta complexidade, o que torna o monitoramento do engenheiro agrônomo fundamental. Ele pode optar ou não pela utilização de produtos químicos convencionais e controle biológico”, ressalta. “De fato, o controle é difícil, pois o próprio homem pode disseminar o nematoide involuntariamente na área, por meio do uso de implementos agrícolas, pela irrigação, pela aquisição de mudas contaminadas, entre outros fatores”,

acrescenta Gleison Oliosi. Segundo ele, como forma de reduzir os níveis de infestação, o produtor também pode utilizar algumas leguminosas como a Crotalaria Spectabilis, que além de atuar como planta antagonista ao nematoide, também contribui na fixação biológica de nitrogênio ao solo (adubação verde). Oliosi salienta que, no caso do café, existe uma legislação específica que exige a análise das mudas em laboratórios credenciados pelo Ministério da Agricultura, para posterior comercialização das mudas livres de nematoides. O engenheiro agrônomo Helder Ivo Pandolfi, mestre em Agricultura Tropical e técnico responsável pelo laboratório, destaca que a presença de nematoides no café produzido no Brasil foi identificada por pesquisadores europeus no final do século XIX. Para a agricultura capixaba o controle é fundamental, de acordo com o pesquisador, na medida em que o Espírito Santo é um dos maiores produtores de café do país. Pandolfi salienta que os cuidados devem se estender para outras culturas como a goiaba e a pimenta-do-reino, muito produzidas na Região Norte do Estado.

O Laboratório de Análises Fitossanitárias é um dos três do País credenciados pelo Ministério da Agricultura para a emissão de laudos sobre nematoides

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Mais produtividade e qualidade para o tomate A produção do tomate é uma das linhas de pesquisas avançadas desenvolvidas na Fazenda Experimental. A atenção dos pesquisadores é para o tipo de cobertura do solo e sua relação com a produtividade e qualidade do fruto. Cinco tipos de cobertura são analisados: o solo nu, matéria orgânica (palha seca), ráfia (lona), TNT e lona preta. As avaliações químicas e físicas são realizadas na pós-colheita, com classificação de acordo com portaria de 2002, que propõe o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade para classificação do tomate. Outras pesquisas desenvolvidas estão relacionadas à mandioca, ao abacaxi e à banana. As pesquisas com o tomate começaram na fazenda com o professor Robson Bonomo, do Departamento de Ciências Agrárias e Biológicas, a partir do estudo de novas técnicas de irrigação. A pesquisa sobre avaliação da produtividade e qualidade de tomate rasteiro, para consumo in natura, relacionado à cobertura de solo e turno de rega, resultou na produção de uma tonelada de tomate já na primeira experiência, sendo que a maior parte foi fornecida para o Restaurante Universitário do Ceunes. Vale observar que a Região Norte do Estado não possui tradição na produção de tomate, que exige clima mais ameno. Os primeiros resultados da pesquisa, entretanto, revelam que é possível desenvolvê-la com

elevados níveis de produtividade e qualidade. O projeto desenvolve a produção do tomate sem o uso de tutor, que mantém a planta ereta, e com menor demanda de mão de obra, segundo explica Alex Campanharo, estudante de Agronomia e técnico em Agropecuária da fazenda, e que integra o projeto de iniciação científica. A pesquisa busca identificar o cultivo mais adaptado para a região, bem como os tratamentos com diferentes coberturas de solo e que melhoram a qualidade do fruto para o consumo in natura. O tomate estudado é do tipo italiano, com menos acidez e indicado para polpas, extratos e molhos. A classificação e qualidade do tomate são regulamentadas por meio de portaria do Ministério da Agricultura. O tomate, de acordo com Campanharo, é o segundo produto hortícula mais consumido no país – perde somente para a batata inglesa – sendo o Brasil o quinto maior produtor mundial. Na pesquisa, são avaliadas as técnicas mais adequadas para o manejo, adensamento – maior número de plantas por área –, diferentes coberturas do solo, com redução da incidência de plantas daninhas, menor contato do fruto com o solo e a manutenção da umidade do solo. “O objetivo é encontrar alternativas sustentáveis para o produtor por meio de soluções simples”, explica Alex Campanharo.

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Fruticultura As pesquisas sobre frutíferas são desenvolvidas pelo professor Moises Zucoloto, do Departamento de Ciências Agrárias e Biológicas. Ele também desenvolve, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa), estudos sobre sete cultivares de bananeiras resistentes às principais doenças. A avaliação é feita por meio de uma unidade demonstrativa, localizada na Fazenda Experimental, e tem como objetivo garantir a segurança alimentar e a diversificação da fruticultura no Espírito Santo. Além disso, Zucoloto desenvolve, juntamente com os professores Robson Bonomo e Fábio Oséias dos Reis Silva, um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes), que avalia a produção e qualidade pós-colheita de bananeira fertirrigada, com diferentes parcelamentos de nitrogênio e potássio. Há, também, o projeto financiado pela Ufes que trata do estudo sobre a fotossíntese e desenvolvimento de bananeira prata-anã, submetida ao fendilhamento do limbo foliar e déficit hídrico. O projeto é coordenado por Robson Bonomo e pelo fisiologista vegetal Antelmo Ralph Falqueto. Na área de friticultura – atividade recente na agricultura capixaba –, um dos projetos em andamento na fazenda leva o título de “Produção e qualidade pós-colheita do abacaxizeiro fertirrigado, com diferentes parcelamentos de nitrogênio e potássio”, coordenado pelos pesquisadores Robson Bonomo e Moises Zucoloto. O Brasil é o terceiro maior produtor de abacaxi, e o Espírito Santo tem a sua produção concentrada

Pesquisadores dos cursos de graduação e de programas de pós-graduação atuam na fazenda

no Sul do Estado. A pesquisa objetiva avaliar o efeito do parcelamento da adubação em cobertura de nitrogênio e potássio, por meio de fertirrigação na produção e qualidade dos frutos do abacaxizeiro. O projeto estuda técnicas de adubação e irrigação a fim de se obter o melhor resultado. Também está inserida nas atividades acadêmicas da fazenda a Empresa Junior do curso de Agronomia, (Projagro), presidida por Alex Campanharo. Com atuação no Ceunes desde 2012, a Empresa Júnior conta com 22 integrantes. Os estudantes, com suporte de professores, prestam assistência técnica aos produtores da região. A capacitação se dá por meio de visitas técnicas, palestras e realização de eventos, como os simpósios do produtor de café conilon e de fruticultura.

Nas estufas e casas de vegetação são desenvolvidas diferentes linhas de pesquisa

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Pesquisador Moises Zucoloto coordena projeto para cultivo de bananeiras resistentes às doenças

Fazenda é estratégica para ensino, pesquisa e extensão “A Fazenda Experimental é estratégica para o Ceunes, e o seu grande desafio é atuar com planejamento em diferentes áreas do ensino, da pesquisa e da extensão”, sustenta o professor Roney Pignaton da Silva, diretor do Ceunes. Para ele, a meta é que a fazenda crie ambientes sustentáveis envolvendo professores, técnicos e estudantes de graduação e de pós-graduação. Pignaton diz que, juntamente com a direção e a gerência da fazenda, vem buscando parcerias, com a Prefeitura de São Mateus, sobretudo para projetos de extensão, com o governo do Estado, cooperativas agrícolas e com órgãos de pesquisa, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). O diretor salienta que a fazenda busca identificar o perfil e as demandas locais. “Quando trabalhamos com o café, a pimenta-do-reino e a fruticultura, estamos nos aproximando da comunidade rural local”, argumenta. A vice-diretora do Ceunes, a professora Diógina Barata, diz que foi criado um grupo gestor na fazenda, com proposta de desenvolver projetos multidisciplinares. “Queremos

Professor Roney Pignaton, diretor do Ceunes, quer ampliar parcerias

agregar áreas novas, como Educação do Campo, por exemplo”, diz. O diretor, por sua vez, acredita ser fundamental que a fazenda seja produtiva, de modo que alcance sustentabilidade e viabilidade econômica.

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PESQUISA Foto: Divulgação / Empresa Brasileira de Comunicação

No combate à

DENGUE Camila Fregona

Núcleo de Doenças Infecciosas da Ufes participa da pesquisa da vacina contra a doença. Os testes começaram em 2010 e a equipe do Núcleo continuará a acompanhar os voluntários até 2018

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os últimos dez anos, mais de seis milhões de casos de dengue foram registrados em todo o Brasil. Os dados do Ministério da Saúde também apontam que, somente em 2014, 589.107 pessoas foram acometidas pela doença. Se nos casos clássicos o vírus provoca febre, dor, mal-estar e manchas pelo corpo durante um período de 15 dias, os casos mais graves podem levar à morte. De 2005 a 2014, 4.017 brasileiros morreram devido a complicações da doença, segundo relatório do Ministério da Saúde. Uma vacina contra o vírus da dengue, contudo, pode reduzir essas estatísticas nos próximos anos. Desenvolvida pelo laboratório multinacional francês Sanofi Pasteur, a vacina contra a dengue Dengvaxia foi testada em várias regiões onde a doença é endêmica, em países da Ásia e América do Sul. No Brasil, a vacina foi testada em cinco capitais brasileiras, entre elas Vitória. No Espírito Santo, os testes foram aplicados pelo Núcleo de Doenças Infecciosas (NDI) da Ufes, sob a coordenação do professor Reynaldo Dietze. De acordo com o infectologista, que também é o coordenador da pesquisa no Brasil, os dados coletados no País serão analisados em conjunto com as pesquisas realizadas em outros países onde a dengue também é uma epidemia.

O estudo Os testes com a vacina para a dengue tiveram início no Espírito Santo no ano de 2010, quando foi realizado um estudo de segurança. Nele 150 pessoas, moradoras de Vitória, participaram do processo. Dois terços dos voluntários tomaram a vacina-teste, enquanto 1/3 recebeu placebo – uma substância que não tem efeito no corpo. O objetivo foi verificar as possíveis reações do medicamento nos pacientes. “Na época já haviaalguns estudos realizados em outros países, como Indonésia e Tailândia. Mas nós queríamos saber como seria essa aplicação no Brasil, pois poderia haver alguma variação genética que alterasse o resultado dos estudos, que por lá foi muito bom. Por regra, a pesquisa precisa ser aplicada e avaliada no local onde você pretende expandir o seu estudo”, esclarece Dietze. Após o resultado positivo para a segurança da vacina, teve início uma nova etapa da pesquisa, quando foi avaliada a dosagem ideal para a imunização. De acordo com o pesquisador, os voluntários

foram divididos em grupos, que receberam a vacina em diferentes intervalos de tempo. “A cada etapa, era mensurado o nível de anticorpos que os indivíduos produziam, de acordo com critérios aceitos internacionalmente para garantir a imunidade e a eficácia da vacina. Após alguns testes, chegamos à conclusão de que o melhor para essa vacina seria ter três doses, com intervalos de tempo de seis meses emtre elas. Ou seja, ela seria aplicada no dia zero e, depois disso, em seis meses e em um ano”, destaca. Em 2011, teve início a terceira fase do processo, com a pesquisa de eficácia da vacina. Na época, foi selecionado um grupo de 800 voluntários, com faixa etária de 9 a 16 anos. De acordo com o pesquisador, essa é a faixa etária com maior chance de complicações em caso de dengue. Os voluntários foram selecionados em bairros de grande incidência da doença, para que o estudo pudesse mostrar os índices comparativos entre os que tomaram a vacina e os que ingeriram o placebo. A seleção dos voluntários foi feita com o apoio de prefeituras da Grande Vitória, como explica o

NDI O Núcleo de Doenças Infecciosas (NDI) foi criado em 1990 e está subordinado ao Departamento de Medicina Social do Centro de Ciências da Saúde (CCS). Com equipamentos de ponta e uma equipe formada por mais de 40 profissionais (entre médicos, enfermeiras, pesquisadores, professores, estudantes e pessoal de suporte técnico), o NDI trabalha com pesquisas em diversas áreas, com destaque para a dengue, a leishmaniose, a Aids e a tuberculose. Parcerias firmadas com diversas instituições de ensino e pesquisa, dentro e fora do Brasil, têm viabilizado as linhas de pesquisa desenvolvidas pelo Núcleo e a montagem de laboratórios. Além de captar recursos junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e ao Ministério da Saúde, o Núcleo recebe recursos do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH) e de convênios com universidades dos EUA, como Duke e Boston. O Núcleo possui ainda um Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas, classificado como Nível 5.

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PESQUISA Foto: Jéssyca Saketto

A pesquisa atual no NDI corresponde à fase da documentação científica da eficácia ou não da vacina

pesquisador: “Agentes comunitários de saúde dos municípios de Vitória, Vila Velha e Serra informavam que havia o estudo e perguntavam se a família queria voluntariamente participar. Se eles concordassem, marcávamos uma entrevista, explicávamos o que era o estudo, por quanto tempo seriam acompanhados, entre outras informações. Após as

Como é feita a vacina? Toda vacina é feita com material do próprio agente causador da doença, em uma forma mais branda, para que o sistema imunológico da pessoa – após a imunização – reconheça o vírus e produza anticorpos para combatê-lo. Reynaldo Dietze diz que “no caso da vacina da dengue, os cientistas pegaram um vírus da febre amarela e retiraram os genes que produziriam a doença, para que ele não cause nenhum problema. Então, por meio da engenharia genética, inseriram genes do vírus da dengue (Tipo 1, 2, 3 e 4) para que o paciente possa produzir anticorpos contra aquelas proteínas colocadas ali”.

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explicações, a família e a criança assinavam um termo de consentimento”, diz o professor.. A pesquisa foi realizada na proporção 2:1, dois voluntários receberam a vacina enquanto um tomou placebo. O teste foi aplicado de forma cega, portanto, os voluntários não sabiam se estavam recebendo uma injeção com parte do vírus ou uma fórmula sem efeito. Cada voluntário recebeu três doses da vacina, com intervalos de seis meses. Desde a primeira aplicação, a equipe do Núcleo de Doenças Infecciosas acompanha o processo, com avaliações periódicas para avaliar a eficácia da vacina. “Nós ligávamos para a casa das famílias semanalmente para lembrá-los de que, a cada febre ou sintoma de doença, eles teriam de vir até o NDI para que pudéssemos fechar ou não o diagnóstico de dengue, por meio de um exame sanguíneo”, diz Reynaldo Dietze. Para que a vacina seja considerada eficiente, o número de casos de dengue entre os voluntários que tomaram o medicamento precisa ser de, no máximo, 30%, comparado ao número de casos entre os que receberam doses de placebo. De acordo com artigo publicado no New England Journal of Medicine, em novembro de 2014, entre os casos graves, a eficácia


da vacina foi de 95,5%, enquanto contra a hospitalização por dengue a eficácia da vacina foi de 80,3%. Os dados se referem ao estudo aplicado em cinco países da América Latina, entre eles o Brasil, após 12 meses do início da pesquisa. Um recente artigo, veiculado em setembro de 2015 na mesma publicação, avaliou os efeitos da vacina em longo prazo e considerou as regiões onde a dengue é endêmica, incluindo – além dos países latino-americanos – a Ásia e o Pacífico. Tal estudo demonstrou que a vacinação reduziu significativamente a incidência de dengue confirmada virologicamente. A hospitalização ocorreu em 65 participantes, entre os 22.177 que tomaram a vacina. Já no grupo de controle, foram 39 registros de 11.089 participantes. O estudo apontou ainda que, durante os primeiros 25 meses, a taxa de eficácia para dengue foi de 60,3%.

Fotos: Jéssyca Saketto

Próximos passos De acordo com Reynaldo Dietze, a expectativa dos pesquisadores é acompanhar os voluntários até 2018. “Nós queremos acompanhá-los a longo prazo para reforçar os dados dessa pesquisa. Ao acompanhar os ciclos epidêmicos, por exemplo, consegue-se documentar melhor a eficácia da vacina e, dessa forma, afinar a precisão do estudo”, pondera. “É importante salientar que essa foi a primeira vacina para dengue

que chegou até a Fase 3, a fase de eficácia. Obviamente, esse estudo tem que se prolongar um pouco mais para que a gente tenha uma ideia se, por exemplo, haveria a necessidade de um reforço ou não, se essa eficácia se mantém com o tempo ou se vai diminuindo. Ainda desconhecemos isso”, complementa. O pesquisador destaca que a fase atual corresponde à documentação científica da eficácia ou não da vacina. Depois vem a fase comercial, em que o laboratório atua junto com o Ministério da Saúde para que ela seja implementada”, salienta. Para o infectologista, em todo o mundo, as vacinas controlaram muitas doenças e este é o resultado que está sendo buscado para a dengue. “Nós controlamos o sarampo, a poliomielite, a coqueluche, a varicela com uma vacina. Nós conseguimos erradicar a varíola com uma vacina. Então, na história das doenças infecciosas não há nada que a gente tenha conseguido controlar que não tenha sido através de uma vacina”, ressalta.

Saiba mais sobre a dengue* Transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, a dengue é uma doença viral que se espalha rapidamente no mundo. Nos últimos 50 anos, a incidência aumentou 30 vezes, com ampliação da expansão geográfica para novos países e, na presente década, para pequenas cidades e áreas rurais. É estimado que 50 milhões de infecções por dengue ocorram anualmente e que aproximadamente 2,5 bilhões de pessoas morem em países onde a dengue é endêmica. Na região das Américas, a doença tem se disseminado com surtos cíclicos ocorrendo a cada 3/5 anos. No Brasil, a transmissão vem ocorrendo de forma continuada desde 1986, intercalando-se com a ocorrência de epidemias, geralmente associadas com a introdução de novos sorotipos em áreas anteriormente não atingidas ou com a alteração do sorotipo predominante. O maior surto no Brasil ocorreu em 2013, com aproximadamente 2 milhões de casos notificados. Atualmente, circulam no País os quatro sorotipos da doença. *Informações do Portal da Saúde / Ministério da Saúde

Professor Reynaldo Dietze é o coordenador da pesquisa no Brasil

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PESQUISA

Programa de extensão Cada Doido Com Sua Mania:

Há mais de 30 anos vencendo desafios Projeto trata crianças e adolescentes com diferentes tipos clínicos de transtornos psicológicos. Só em 2014 foram atendidas 781 pessoas.

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uando Simão Bacamarte, médico e personagem principal de O Alienista (1882), de Machado de Assis, resolve fundar o hospício Casa Verde na pacata cidade de Itaguaí, a população o aclama em diferentes graus, esperando que, com a internação dos “loucos”, o novo empreendimento traga a restauração dos bons costumes. No entanto, o que ninguém esperava é que, com o decorrer do tempo, quase toda a população da cidade fosse internada na instituição, já que, de acordo com a teoria de Bacamarte, eram loucas todas as pessoas com desvios de personalidade, como supersticiosas, bajuladoras, indecisas e vaidosas. O alienista, percebendo que sua teoria estava errada, resolve libertar todos os internos e refaz sua teoria: se a maioria apresentava desvios de personalidade e não seguia um padrão, então louco era quem mantinha regularidade nas ações e possuía firmeza de caráter. E adivinhem quem ele julgava o único de personalidade perfeita? Ele próprio, que termina o livro como o único paciente da Casa Verde. A obra de Machado de Assis é um exemplo ideal para se questionar a linha tênue entre loucura e sanidade: ser diferente e se comportar de forma contrária à maioria é suficiente para ser doido? De médico e louco todo mundo tem um pouco? Para entender um pouco esse universo, a revista Universidade foi conhecer o projeto de extensão da

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Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) que há 31 anos estuda, atende e trata pacientes com diferentes tipos clínicos de transtornos psicológicos, o Programa Cada Doido Com Sua Mania (CDSM), do Departamento de Psicologia da Ufes. Criado em 1984, o projeto inicialmente fazia parte do estágio dos estudantes do curso no Hospital Adauto Botelho, onde eram realizadas oficinas terapêuticas com os pacientes. Dois anos depois, foram incluídas as oficinas de arte, que trouxeram resultados eficientes para os pacientes. Em 1992, o Programa CDSM foi reestruturado. “Quando viemos para a Ufes, iniciamos o Centro de Atenção Continuada à Infância, Adolescência e Adultos (Cacia), pois queríamos diversificar e não atender só pacientes psicóticos. Fomos em busca de outros desafios cotidianos, de outras estratégias para que os indivíduos tenham melhores chances de inclusão na sociedade e na família. Desde então atendemos a comunidade universitária e crianças encaminhadas pelo Hospital Estadual Infantil Nossa Senhora da Glória, localizado em Vitória, em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa)”, ressalta uma das fundadoras do Projeto, a médica psiquiatra e professora aposentada do Departamento de Psicologia, do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN), Tânia Prates. Os pacientes do Hospital Infantil são encaminhados para o Cacia, localizado no campus de Maruípe,


porque a instituição não possui um ambulatório de saúde mental. Quando essas crianças deixam o hospital, primeiramente, elas são acolhidas pelo CDSM, por meio do Cacia. Oficinas terapêuticas O CDSM atente adultos, adolescentes e crianças com todos os tipos clínicos, como neurose e psicose, transtorno de angústia, pânico, dificuldade escolar, doenças psicossomáticas, crianças agitadas e pessoas com depressão. Ou seja, de acordo com a antiquada teoria do analista, desvios do comportamento esperado. O programa atende também a soropositivos. O paciente, para ser atendido pelo CDSM, deve fazer parte da comunidade universitária ou ter sido encaminhado pelo Hospital Infantil. Segundo Tânia, o paciente passa por acompanhamento detalhado antes de ser encaminhado para um dos serviços oferecidos pelo programa. “Há entrevistas iniciais para os que chegam ao serviço com o objetivo de acolher, escutar a demanda deles e indicar, junto à equipe, o projeto terapêutico específico para cada paciente, que é elaborado em reunião geral, corroborado com o paciente”. O projeto oferece oficinas terapêuticas, atendimento individual, atendimento familiar e atendimento psicofarmacológico (medicamentos como auxiliar no tratamento de quadros clínicos). As oficinas terapêuticas são as atividades que mais diferenciam o Cada Doido Com Sua Mania de outros projetos, porque oferecem um tratamento alternativo que explora a subjetividade do paciente e a manifestação de sua natureza pela arte e pelos jogos. Os encontros acontecem uma vez por semana no Cacia e no Núcleo de Psicologia Aplicada, localizado no campus de Goiabeiras. Em 2014, foram realizadas 303 oficinas e atendidas 781 pessoas. Atualmente participam do projeto 26 pessoas sob a coordenação da professora Tânia Prates e do professor do Departamento de Psicologia Alberto Murta, além de sete psicólogos voluntários e 15 estudantes. Os alunos que participam do projeto atualmente são do curso de Psicologia, mas podem participar do Cada Doido Com Sua Mania estudantes de qualquer curso, desde que tenham interesse pela temática da saúde mental. O projeto é uma oportunidade para colocar na prática o que os estudantes aprendem na teoria. “A área da Psicologia

é vasta e oferece diferentes frentes de trabalho. Eu ainda não sabia o que fazer, mas quando entrei para o Cada Doido e fiz minha primeira oficina com crianças, descobri qual carreira que eu gostaria de seguir, e logo eu que nunca imaginava clinicar com crianças”, relata a bolsista do projeto e estudante de Psicologia Renata Pozzato. Segundo os bolsistas, o Cada Doido é um projeto de produção de conhecimento que funciona além dos muros da Universidade e beneficia toda a comunidade, tanto interna quanto externa. “Com o projeto conseguimos reunir psicólogos voluntários e pôr em prática os benefícios das ofi cinas terapêuticas, de forma gratuita e acessível”, afirma a bolsista do projeto e estudante de Psicologia Eduarda Godoy.

As oficinas • Para crianças de 1 a 7 anos, são realizadas as oficinas de modelagem. São disponibilizados os materiais para as crianças criarem livremente sua produção por meio de temáticas propostas para estimular o surgimento de histórias que trabalhem suas questões a partir de sua imaginação. Frequentemente essas histórias atualizaram suas vivências e conflitos. • Para crianças de 6 a 8 anos, são destinadas as oficinas de contos, onde as dificuldades no aprendizado escolar, inibições, somatizações e conflitos familiares são tratados. • Para os pacientes de 10 a 19 anos, são realizadas as oficinas de imaginação, para que por meio da criação de personagens e da desenvoltura durante o jogo, eles possam narrar os seus conflitos e encarar suas angústias; possibilitando uma visão de que o conflito é parte da vida de todos, conseguindo assim transpor suas dificuldades com maior facilidade, sentindo-se parte de um todo. Há também, para essa faixa etária, oficina de música e letras. • Já para os adultos, as oficinas são de pintura, músicas e letras. Os recursos de músicas, poemas, crônicas e dinâmicas psicológicas são utilizados como dispositivos que tocaram a vida do sujeito, suscitando angústias, desejos e lembranças.

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ENTREVISTA: GILDA CARDOSO DE ARAÚJO

Educação de gênero “Educar para a cidadania” Letícia Nassar

A polêmica temática sobre a inclusão da educação de gênero nos planos de educação ocupa espaço nas mídias, nas escolas, nas igrejas, nas universidades e nas conversas informais. No meio acadêmico, é também objeto de pesquisa. Para falar sobre esse tema, a revista Universidade ouviu a professora associada do Centro de Educação Gilda Cardoso de Araujo. A docente é mestre em Educação e fez doutorado nesta mesma área pela Universidade de São Paulo. Atuou na Educação Básica como professora, técnica da Secretaria Municipal de Educação (Vitória/ES) e conselheira estadual de educação. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Política e Administração Educacional, principalmente nos seguintes temas: federalismo e políticas educacionais, gestão educacional, direito à educação, municipalização e organização dos sistemas de ensino. A seguir, leia os principais trechos da entrevista.

Educação sexual e educação de gênero não são sinônimos. As terminologias são distintas. Quando se trata de educação sexual, nós estamos falamos mais dos aspectos biológicos. As disciplinas que têm mais relação com a questão do corpo humano e seu funcionamento tratam dessa dimensão da sexualidade. Elas abordam, por exemplo, os temas relacionados aos métodos contraceptivos e às ações de prevenção à Aids, entre outros aspectos. Quando nós abordamos a questão de gênero temos como foco a sexualidade inserida na dimensão social, ou seja, uma conversa para além do

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funcionamento dos órgãos sexuais. A educação de gênero é uma educação para a cidadania, para o respeito à diferença, à orientação sexual e no que se refere ao que se faz com o corpo. A educação de gênero tem uma pauta muito ligada ao movimento feminista, por isso ela precisa estar na escola, como parte formativa das mulheres professoras. Essa educação trata da questão da violência contra a mulher, contra aquele que é diferente, ou seja, de pessoas que escolhem se portar de uma forma que não é a dominante do ponto de vista da heterossexualidade. Então a questão de gênero tem uma dimensão social muito mais abrangente que a sexual.


Fotos: Jorge Medina

É claro que a discussão sobre gênero pode inserir a educação sexual, mas não se resume a ela. Lamentavelmente, perdemos esse debate no Plano Nacional de Educação, quando a proposta foi retirada desse Plano por pressão da bancada religiosa. Também oito estados da federação, incluindo o Espírito Santo, não adotaram essas premissas como princípio de organização do ensino em seus planos. Mas o fato de não constar no Plano não significa que as escolas devam deixar de realizar essa discussão nos seus currículos. Na minha opinião, é dever da escola, da universidade, da sociedade pensar as questões de gênero, independentemente das questões religiosas ou de qualquer outro tipo de fundamentalismo (político, cultural). Infelizmente, o Estado brasileiro não é laico, mas um dos princípios que torna a escola pública mais igual e democrática é a laicidade.

Formação dos professores Os professores não são formados para trabalhar com essa questão da educação de gênero. Eu falei, anteriormente, do movimento feminista. Se existe machismo, é porque nós mulheres ainda educamos para isso. Curiosamente, em casa são as mulheres que educam, e na escola, a maioria dos profissionais do magistério é composta por mulheres. E estas têm o seguinte pensamento: existem coisas para meninos e coisas para meninas. Por isso a necessidade premente de se pensar políticas de formação de professores que também abordem essas questões de gênero. Existem casos de pedagogos ou de equipe pedagógica que chama os pais porque um menino estava brincando de boneca ou uma menina fazendo carinho na outra. A escola tem uma visão preconceituosa em relação ao comportamento e ao modo de vestir dos alunos jovens. Há a implicância com o boné, o dread, as vestimentas, enfim, às atitudes da cultura juvenil de forma geral. Por isso que essa questão de gênero deveria perpassar não só a relação entre professores e alunos, mas a própria formação dos professores. Para isso, ela deveria, também, estar inserida na formação dos pedagogos e dos professores universitários, por exemplo. Mas isso não é muito valorizado. As licenciaturas deveriam dialogar umas com as outras, porque essa questão do gênero, da diversidade, é uma questão do humano. Pensemos historicamente: por que houve o holocausto? Por não se aceitar o diferente, por achar que existe um ser humano que é superior e outro que é inferior.

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ENTREVISTA Estamos tratando de uma temática transversal. A universidade deveria estar engajada nesse tema. O nome “universidade” já traz o sentido do que é “universal”, o que acolhe e não discrimina. Esse seria um dos papéis da universidade, porém, lamentavelmente, isso não acontece e existem muitas barreiras. Eu atuo na formação de professores e há intolerância transvestida de todas as formas, de uma maneira muito incisiva, na sala de aula. Quando abordamos essa temática chegamos, às vezes, a um embate ideológico. O que temos visto hoje são concepções muito próximas do fundamentalismo religioso, político, moral muito pernicioso para o avanço da educação e da democracia na sociedade brasileira.

Ideologia para invisibilizar A educação do gênero está no social. Não existe uma ideologia de gênero, porque na verdade essa questão está inscrita socialmente. Na medida em que você nasceu menino, vão te presentear com um carrinho. Já para a menina, darão uma boneca. Hoje esses papéis sociais são questionados. Quantas famílias monoparentais nós temos? Já quando vamos falar na questão do aborto, temos atitudes diferentes para a mulher e para o homem. São também diferentes os modos de uso do corpo para ele e para ela. Esses exemplos estão nos campos demarcados: homem e mulher. Porém temos também os transexuais, os transgêneros e os que querem ser chamados pelo seu nome social. Eles sempre existiram, como a Madame Satã, mas estavam invisibilizados por toda essa marca carregada de “ideologia de gênero”. Uma ideologia para invisibilizar, para não dar voz. Isso sim é antidemocrático. O que estamos tentando hoje é educar para a tolerância. Aliás, é mais do que tolerância, é inclusão. Tolerar é admitir contrariado. Para que as pessoas de fato convivam e que haja, no Brasil, um processo e um projeto civilizatório que contemple toda a gama do que é humano, eu não posso desprezar o meu semelhante. Nós nos tornamos homens e mulheres no processo de socialização, que acontece na família, na escola, nos partidos, nos sindicatos, nas instituições religiosas, enfim nos locais onde interagimos com o outro. Há, enfim, um tensionamento em torno dessa questão, o que é bom. Mas precisamos avançar e não recuar. Na década 1970, por exemplo, tivemos avanços que eu não quero abrir mão: a liberdade em relação ao meu corpo, a liberdade sexual da mulher e o uso da pílula são algumas conquistas importantes que precisam ser

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discutidas na escola. E isso está se perdendo. O que temos visto, atualmente, é uma discussão que retrocede com relação a essas conquistas.

Os meninos e a evasão escolar Os indicadores educacionais que lemos ou ouvimos na mídia são importantes para formulação de políticas, mas não medem os processos de interação e socialização que ocorrem na escola. A tarefa precípua da escola, além de ofertar um ensino de qualidade do ponto de vista do conteúdo, é formar para a cidadania. Esta requer o reconhecimento e o respeito aos direitos civis, políticos e sociais. Isto nós não tivemos na história do Brasil. Nossa escola não é cidadã ainda. Os nossos professores também não são. Com esse salário, com tripla jornada, com as condições de trabalho desses docentes, não dá para falar em cidadania. Se eles tivessem melhores condições de trabalho, de planejamento, de ler, de ver bons filmes, de viajar, enfim, de ter acesso a esses direitos, que são culturais e importantes na formação humana, talvez houvesse um avanço no campo de gênero e também no que diz respeito a outros preconceitos que precisam ser desfeitos na educação, na família, na escola. Preconceitos esses que estão entre os motivadores da evasão escolar. Atualmente, nós temos uma questão muito séria na educação básica que as políticas públicas não têm levado em consideração e que a sociedade tem invisibilizado. Trata-se da evasão ou processo de não escolarização dos meninos. Os meninos fracassam mais. Esse é um dado para o qual as políticas não têm respondido. Eles fracassam por abandono e por repetência. O impacto desse fracasso é sentido, por exemplo, no ensino superior. No Brasil, quem tem alcançado patamares maiores de escolarização são as mulheres. Então, alguma coisa, lá na base, está acontecendo e, na minha opinião, tem relação com a questão de gênero. Os meninos são os que mais sofrem, afinal a escola não está preparada para a questão disciplinar do menino mais agitado, do menino que não chora. Os meninos precisam provar a virilidade. Eles precisam ser mais fortes, jogar bola, bater e não podem levar desaforo para casa. A escola estimula esse comportamento, construindo um ambiente muito competitivo e perverso.A menina já tem o espaço da escola como o único espaço de socialização, porque ela deve ser a mais presa, ela deve cuidar dos irmãos. Se a escola não olhar para a questão do menino, ela estará também promovendo a evasão e a repetência desse ser humano.


Já orientei uma dissertação de mestrado intitulada “Meninos não choram? Um estudo sobre fracasso escolar e jovens masculinidades no ensino médio” (de Fernanda Ribeiro Pinto Rodriguez, 2014, PPGE/Ufes) que pesquisou o porquê da evasão de meninos de uma escola. A maioria dos estudantes, ao serem indagados sobre o motivo da sua saída da instituição, respondeu que a escola não tinha nada a ver com eles, não era o mundo deles. Em qualquer censo da educação, se constata essa evasão. Eles também não vão para o mercado formal de trabalho. Onde estão os meninos? Quando estamos na rua, por exemplo, grande parte das pessoas que estão vendendo coisas ou pedindo é de meninos. É uma coisa empírica, é só olhar. Então, por que a educação de gênero não deve constar dos planos nacional, estadual e municipal de ensino se nós temos uma realidade dura como essa? O que vai ser dos nossos meninos? A maior taxa de homicídios de jovens está entre os que têm 15 e 24 anos de idade, e grande parte das vítimas é do sexo masculino e estava fora da escola. Prefere-se então que eles morram a ter uma orientação para o sexo, para a vida, para aceitar o diferente, para aceitar a diversidade na escola? Que amor ao próximo é esse? Quando se fala na questão de gênero, da orientação sexual e da raça, está em foco a dimensão da democracia e do acolhimento inclusivo, que é a obrigação da escola, que forma para a cidadania. Sem essa dimensão da inclusão, a cidadania é uma farsa, uma formalidade.

Dimensão humanitária A questão da resistência de inserir nos planos a dimensão do gênero e a própria realidade da escola, de não aceitar que essa temática seja trabalhada, já está gerando consequências muito sérias. Fechar os olhos para essa realidade é piorar a situação. Tem-se, então, pessoas estigmatizadas, principalmente entre os meninos, homicídios e evasão escolar. É só realizar uma roda de conversa com os transexuais e transgêneros que logo vem à tona a luta para usar o nome social e as dificuldades por que passam na escola. Aqui, no Centro de Educação, temos a preocupação e também nos ocupamos com o tema. Mas não tem sido fácil. Esbarramos em intolerâncias. A proposta para lidar com essa dimensão da intolerância, que retranca muito o avanço da política de gênero nos planos ou mesmo nos currículos da escola, é trabalhar com a perspectiva do convencimento. Isso é, vencer junto. Do contrário, perdemos a dimensão humanitária que nos propomos a realizar, tanto politicamente como do ponto de vista ético.

É uma tarefa para muito tempo. Aliás uma tarefa que é difusa, porque é de muitos movimentos, passa a sensação de que é uma bandeira que não pertence a ninguém. É também uma questão que envolve preconceitos e muitas pessoas preferem não falar para não serem chamadas de libertinas. Já tive que lidar com esse preconceito em sala de aula. Eu sou uma pessoa religiosa, respeito as religiões, mas é preciso trabalhar com essa temática, levar filmes, realizar debates. O caminho é uma educação que busca a sensibilização. E essa tarefa é difícil, ainda mais nesta época de muita intolerância que, às vezes, chega a ser raivosa. Querem colocar todo mundo na caixinha: tem que se vestir assim, tem que agir assim, o padrão de comportamento tem que ser assim. Precisamos discutir o acolhimento de pessoas que fogem da normose. A escola precisa se abrir à diversidade, não tem como negar isso.

Não desistir O Plano Nacional de Educação é uma legislação que é infraconstitucional, que está abaixo da Constituição e dos tratados internacionais que abordam a questão de gênero dos quais o Brasil é signatário, tais como a Convenção Internacional sobre os Direitos das Crianças, a Convenção Relativa à Luta contra a Discriminação no Campo do Ensino, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Então, eu oriento os profissionais da educação, os que são mais sensíveis à temática e, por isso, encontram alternativas para sua abordagem nos programas ou nos currículos, que não desistam. Eu sei de professores que trabalham com essa perspectiva, mas que estão sendo constrangidos nas escolas. Se isso acontece, então cabe denúncia ao Ministério da Educação ou à Secretaria de Educação, pois um dos princípios constitucionais que nós temos assegurados no capítulo da Educação é a liberdade de ensinar e aprender. Como o Brasil é signatário desses tratados, então não estamos fazendo nada fora da legalidade nem dos princípios previstos. Nos debates dos legislativos, infelizmente, a questão encontrou entraves. Para os professores que acreditam nessa dimensão inclusiva da educação de gênero, eu digo que não desistam, porque nós não fomos derrotados. E para os que não acreditam, que passem a ter uma escuta mais sensível em relação ao outro. Uma escuta mesmo que religiosa, pautada mais em seus princípios, porém sensível. Essa é a base do diálogo.

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PESQUISA Fotos: Nayara Santana

A Barraca Agroecológica do LaTerra, localizada no campus de Goiabeiras, comercializa alimentos de produção familiar e difunde os benefícios dos produtos orgânicos

LaTerra: Reinventando

o campo é a sala de aula Programa de extensão congrega professores e estudantes dos cursos de Geografia, Ciências Sociais e Engenharia de Produção para atuar junto às comunidades campesinas e tradicionais

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á muito tempo, os males causados pelo consumo de alimentos com agrotóxicos está em pauta não só na academia, como também nos jornais e nos lares. Porém só há alguns anos a propagação dos alimentos agroecológicos começou a fazer parte dos debates. Na Ufes, o tema envolve diferentes áreas de ensino que, juntas, atuam em comunidades campesinas realizando ações e pesquisas. O programa de extensão que congrega essa interdisciplinaridade é o Laboratório de Estudos Territoriais (LaTerra). O programa é uma iniciativa de um grupo de docentes dos departamentos de Geografia, Ciências Sociais e Engenharia de Produção. O objetivo principal do LaTerra é relacionar projetos de extensão e grupos de estudos da Universidade que possuem experiência em trabalhos junto a comunidades campesinas e tradicionais. Para a coordenadora do LaTerra, a professora do departamento de Geografia Simone Ferreira, o programa é como um guarda-chuva, pois agrega diversos projetos de extensão. “Os projetos que pertencem ao LaTerra compartilham o espaço de produção e a estrutura laboratorial. Dessa forma, professores, estudantes, homens e mulheres do campo ficam próximos e trocam aprendizados”, destaca. Os projetos de extensão vinculados ao LaTerra são: o Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Agroecologia (Nepea); a Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária (ITEES), ambos do departamento de Ciências Sociais; e o Observatório dos Conflitos no Campo (OCCA), do departamento de Geografia. Simone Ferreira explica que “o amálgama que une esses projetos de extensão está fundamentado nos processos produzidos por grupos sociais que se organizam e constituem seus modos de vida a partir de referenciais sociais, políticos, econômicos e ambientais não orientados pela matriz de racionalidade hegemônica”. Essa inter-relação está, de acordo com a professora, “presente nas iniciativas do comércio justo e da Economia Solidária; nas práticas produtivas agroecológicas; e nas demandas pelo reconhecimento dos territórios tradicionalmente ocupados”. Sala de aula e campo Outro ponto destacado pela coordenadora é a atuação dos estudantes. Um dos papéis da universidade federal é utilizar os conhecimentos adquiridos na sala de aula para auxiliar nas demandas da sociedade. “Nós estamos inseridos em uma sociedade que tem problemas, contradições e potenciais.

Quando fazemos um curso, nós temos que olhar a realidade. Quando a Universidade abre a extensão, nós estamos contribuindo com questões que estão brotando na sociedade. Faz parte da Universidade ajudar a pensar e a resolver. Isso enriquece a Ufes”, ressalta. O LaTerra, assim, é importante para a formação dos estudantes da instituição. “É essencial que o aluno saia da Universidade e viva a realidade do seu curso. É importante discutir e pesquisar e, assim, trabalhar nas questões que são demandadas pela sociedade”, diz a professora. Além de todo conhecimento compartilhado com as comunidades tradicionais, os estudantes se envolvem no trabalho como cidadãos e pesquisadores. Para a estudante do curso de Geografia Sarah Dubbeastein Gasperazzo, os programas de extensão são Fotos: Acervo/Grupo de Pesquisa

Produção de farinha e beiju no Quilombo do Angelim

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PESQUISA Fotos: Acervo/Grupo de Pesquisa

comunidades. “Os moradores não possuíam registro da ocupação e da história deles. Com a nossa ajuda, eles seguem com a própria vida, fortalecem a produção e divulgam a bandeira da ecologia”. Não é só na formação dos estudantes que são acrescentados benefícios, mas a vida dos agricultores também é modificada pelas atividades extensionistas. Rone Januth, um desses agricultores, tornou-se aluno da Ufes e é graduando do curso de Educação do Campo. “Na Ufes, eu tive a oportunidade de estudar e não sair do campo, assim eu posso trabalhar e atuar no Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)”, conta Rone.

Estudantes têm contato com os agricultores e conhecem sua cultura

fundamentais para a formação acadêmica. “Por meio do LaTerra, eu tive a oportunidade de ter contato não só com os agricultores, mas com a cultura camponesa. Nós vemos como eles manejam a terra e percebem o mundo, e isso agrega na minha formação”, afirma. Simone Ferreira destaca que os trabalhos dos projetos são uma parceria entre os estudantes e as famílias das comunidades. No Nepea, por exemplo, as famílias contam sua história e mostram aos estudantes como trabalham. Estes, então, escrevem a história com termos técnicos e compartilham a teoria com os produtores. Para a professora, a parceria com a Universidade é essencial para as

Do campo para o campus Quem passa, às quartas-feiras, pelo corredor que dá acesso aos prédios dos centros de Ciências Exatas e de Ciências Humanas e Naturais, no campus de Goiabeiras (Vitória), se depara com uma barraca repleta de verduras, legumes, frutas e produtos caseiros que, antes mesmo de chegar o final da tarde, já foram vendidos. Trata-se da Barraca Agroecológica que comercializa alimentos de produção familiar e difunde os benefícios dos produtos agroecológicos para atrair cada vez mais consumidores. Atualmente, a Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária (ITEES) é quem presta assistência à Barraca Agroecológica. Em 2011, durante a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, uma das iniciativas apoiadas pelo MPA para sensibilizar a população brasileira sobre os riscos que o uso de

O Laboratório de Estudos Territoriais (LaTerra) incentiva a produção agrícola livre de agrotóxicos

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Estudantes e professores do Observatório dos Conflitos no Campo, um dos projetos que integra o LaTerra, atuam em pesquisas sobre territorialidades

agrotóxicos representa para a saúde das pessoas, o coletivo Casa Verde, ligado à Ufes, uniu-se ao movimento para promover, no campus, uma barraca só com produtos livres de componentes químicos. A ideia surgiu para incentivar a discussão sobre o uso dos agrotóxicos com a comunidade acadêmica e externa, além de oferecer um espaço viável para a compra desses alimentos a preço justo. Além da comercialização dos produtos na barraca, os agricultores montam cestas agroecológicas por encomenda e entregam na casa das pessoas. É na Barraca Agroecológica que Rone comercializa seus alimentos no campus desde 2013. Ele conta que, no início, estranhou a iniciativa, porque a Universidade não é um lugar comum para vender os produtos, mas reconhece que o projeto abriu portas tanto para os estudantes da Instituição quanto para os pequenos agricultores. “Os alunos vão visitar o campo, conhecer a produção, como é feita e de onde vêm os produtos. E para nós, agricultores, é um diferencial participar da produção, conhecer os consumidores e poder conversar com eles”. Segundo Rone, a maior parte dos alimentos comercializados na barraca são de produções familiares do interior de Domingos Martins (região de montanhas do Estado). Além de serem agroecológicos, os produtos são colhidos à mão. “Os alimentos não são colhidos mecanicamente. Todos são colhidos da forma mais simples e gentil possível”, relata. Cerca de 30 famílias se revezam para vender na barraca.

Comunidades campesinas O Observatório dos Conflitos no Campo (OCCA) trabalha com comunidades campesinas e tradicionais, atuando em pesquisas sobre suas formas de territorialidade, assim como no registro e monitoramento das situações de conflito vivenciadas. Além disso, monitora os grandes projetos de desenvolvimento vinculados ao agronegócio, como a infraestrutura portuária que vem incidindo sobre territórios tradicionais do Espírito Santo. Os participantes do projeto trabalham com o levantamento de dados da luta pela terra, fazem o registro deles e, dentro do possível, prestam assessoria às comunidades. Segundo a professora Simone Ferreira, as famílias se sentem ameaçadas por não possuírem os documentos legais, por isso o projeto produz um estudo técnico para enviar para o Ministério Público e, assim, reconhecer o território pertencente ao grupo. O Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Agroecologia (Nepea) propõe-se a qualificar a formação de professores, pesquisadores, estudantes e agricultores familiares em agroecologia, considerando princípios e objetivos da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural. Além disso, produz também bancos de dados de experiências e inovações tecnológicas relacionadas à agroecologia desenvolvida por agricultores familiares e técnicos nas propriedades rurais. Já a Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária (ITEES) realiza pesquisa e extensão com iniciativas de organização e comercialização de agricultores de base familiar. Sua principal função é assessorar esses grupos de forma técnica. A ITEES também é dedicada ao estudo e disseminação da economia solidária no campus e na sociedade.

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ARTIGO

Ética

na administração pública Hugo Junior Brandião*

As questões éticas e morais têm um campo privilegiado de discussão no âmbito da administração pública. Isso por envolver diretamente a utilização de recursos provenientes de toda a sociedade que sustenta o funcionamento do aparato governamental. No Brasil, de modo geral, predominam fortes traços culturais que acabam por legitimar condutas criminosas, favorecendo a continuidade de apropriação privada dos recursos públicos, chegando aos atuais descalabros praticados por gestores, em montantes inimagináveis até recentemente em nossa história política. Tudo isso com inacreditáveis argumentos de que podem continuar agindo criminosamente, tendo em vista que gestores anteriores teriam praticado os mesmos crimes. Dentro de perspectivas distintas como a weberiana e a marxista, encontram-se elementos comuns que podem colaborar para o entendimento da situação atual enfrentada pela sociedade brasileira. Um ponto fundamental em análises derivadas de ambas as perspectivas é que há, inevitavelmente, bilateralidade na consideração dos fenômenos da dominação e do poder. Só pode haver um dominante se o mesmo for sustentado pelo dominado. Só pode haver poderosos se houver quem assegure essa posição que implica privilégios para alguns. Com isso, quero afirmar que o fenômeno da corrupção só se sustenta na medida em que a maior parte da sociedade o considera natural, conferindo, portanto, a legitimidade necessária à sua permanência, espúria do ponto de vista ético, permitida e compartilhada através de uma moral oportunista, reproduzida e vivenciada por grande parcela da população.

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Salientando que o que consta na legislação vigente em uma determinada realidade social nem sempre é considerado legítimo pela coletividade, temos, no Brasil, um suficiente aparato legal formal que, a princípio, seria suficiente para coibir condutas patrimonialistas, nada republicanas. A partir da Constituição adjetivada como “cidadã”, a administração pública deveria ser regida por princípios básicos como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, de acordo com seu artigo 37. Por que isso é ainda relegado ao plano abstrato de estudos acadêmicos e não foi suficientemente introjetado pelos gestores públicos é uma questão a merecer permanentes análises, em se tratando de uma realidade em construção no Brasil. Certamente, ainda há suficientes pontos de sustentação e garantia de permanência de condutas imorais, criminosas, mas indefensáveis eticamente por quem acredita que os recursos provenientes de toda a sociedade merecem total respeito, assegurando um padrão razoável de qualidade de vida para todos. Saber o que é feito com o que é de todos é fundamento de toda possibilidade de articulação social que pretenda assegurar um controle efetivo sobre os gestores públicos e suas decisões. A transparência deveria ser total, impedindo a formação de zonas nebulosas de informações das atividades a cargo das estruturas governamentais. A possibilidade de que haja informações inacessíveis ao todo da sociedade implica garantir esquemas espúrios e imorais, geralmente caracterizados por apropriação privada dos recursos públicos, assegurando a impunidade em relação aos crimes praticados. É simplesmente uma obrigação, nunca favor, que haja clareza dos


dados e facilidade de acesso a informações sobre tudo, absolutamente tudo que os responsáveis pela condução dos negócios públicos realizam. No contexto de sociedades de pretensa democracia representativa, o jogo político deve ser regido por regras claras em relação ao papel de estruturas formais de controle, do parlamento e de outras instâncias da sociedade civil. O que cabe às estruturas de controle sobre o aparato governamental, ao Judiciário, ao parlamento e a outros possíveis mecanismos sociais deve ser resultado de uma ampla discussão coletiva, implicando um acordo sobre a desejada ordem social, estabelecendo quais são as prioridades da sociedade e como todo o aparato deve estar voltado para a consecução dessas finalidades. É imprescindível que regras sobre a conduta dos titulares de estruturas de governo e demais envolvidos diretamente na função pública, de servir ao público, estejam claramente estabelecidas, como resultado de um novo pacto político, essencial à transformação da realidade brasileira. Mas, obviamente, não basta definir regras sem a efetiva realização das atividades de governo com a concreta responsabilização daqueles que não as cumprem. É essencial que se fortaleça, no âmbito das relações entre as sociedades civil e política brasileiras, o que se denomina accountability, que implica a responsabilização do servidor público, primeiramente perante a sociedade, com maior transparência da administração pública; perante os políticos eleitos, nos termos da democracia representativa; e perante os representantes formais e informais da sociedade que atuam junto à esfera pública não estatal.

A concreta responsabilização política implica a observação de dois outros fundamentos. Primeiro, a capacidade de resposta, answerability, significando, em termos gerais, a obrigação dos agentes públicos e governantes de informarem e explicarem seus atos decisórios. Segundo, a capacidade, enforcement, das agências de accountability de impor sanções que resultem em perda de poder para esses mesmos agentes e governantes que violarem os deveres públicos. Considerando as três dimensões acima relacionadas – a informação, a justificação e a punição – na gestão pública brasileira, é possível argumentar que a relação entre a sociedade e os responsáveis pelas decisões públicas está apresentando um considerável aumento no grau de exigência ética e demandando maior eficiência e capacidade de gestão por parte da administração pública, em todos os níveis de governo. Observando o argumento de que uma situação só se sustenta quando há respaldo e aferição de legitimidade por parte de quem é afetado pela qualidade dos atos administrativos, certamente uma melhoria das condições sociais, em todos os seus aspectos, pode ser alcançada com uma maior exigência de padrões gerenciais adequados, tanto em termos de eficiência, garantindo resultados com economia dos recursos disponíveis, quanto em termos éticos, apresentando padrões de conduta moral desejáveis para um real compromisso com a coisa pública.

*Professor do Departamento de Administração

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Foto: Paulo Bonino

PESQUISA

Augusto

RUSCHI

Movimentos no cotidiano do cientista da natureza Luiz Vital

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Pesquisa historiográfica e arquivística revela os bastidores da trajetória do naturalista capixaba em seis décadas de intensa vida dedicada à ciência e à militância ambiental

N

ascido em 1915 na cidade de Santa Teresa, no Espírito Santo, o naturalista Augusto Ruschi – morto em 1986 de complicações hepáticas – deixou um legado científico essencial às Ciências Naturais, o que o mantém como uma referência internacional de pesquisadores, mesmo passados 100 anos de seu nascimento. No contexto de homenagens ao cientista, dois pesquisadores da Ufes lançaram no final de 2015 o “Catálogo do Acervo Textual de Augusto Ruschi no Instituto Nacional da Mata Atlântica – INMA”. Alyne dos Santos Gonçalves e Marcello França Furtado, doutoranda e mestrando, respectivamente, do Programa de Pós-Graduação em História, desenvolveram pesquisas que resgatam parte significativa dos documentos produzidos e mantidos pelo cientista sob a guarda do INMA, localizado na cidade onde nasceu. A pesquisa contemplou 2.693 documentos, no período de um ano, e resultou na sua apresentação em livro, ao longo de 452 páginas. “Encontramos muitos manuscritos de palestras e discursos sobre os mais variados temas, com destaque para abimportânciabdas reservasbbiológicas na preservação do patrimônio natural brasileiro, e para os riscos ambientais advindos do desmatamento, do reflorestamento inadequado e do uso de agrotóxicos”, relata a historiadora Alyne Gonçalves. Ela localizou correspondências, ofícios e telegramas trocados com autoridades da politica nacional, personalidades da área cultural e empresarial, cientistas, além de fotos, mapas desenhados pelo próprio Ruschi, relatórios de pesquisas, cartas topográficas com medições de terras, entre outros. De acordo com Alyne Gonçalves, as atividades científicas de Ruschi se misturavam à sua militância ambientalista. “A linha que separa o Ruschi cientista do Ruschi militante ambiental é muito tênue. Ele assinalou em seus escritos, inclusive, que não via sentido na ciência que não estivesse direcionada para

a sociedade”, observa. “Muitas vezes a comunicação sobre a descoberta de uma nova espécie de beija-flor, por exemplo, mesmo quando registrada em publicações científicas voltadas para um restrito público acadêmico, ele incluía apelos para a conservação do local onde vivia tal espécie, ou denúncias sobre eventuais riscos de destruição daquele local”, completa. Arranjo arquivístico A pesquisa sobre os documentos produzidos por Ruschi percorre seis décadas de história – 1930 a 1980 – e revela a capacidade do naturalista de transitar com desenvoltura por diferentes ambientes, quando havia o interesse científico e a defesa do meio ambiente. Segundo a pesquisa, Ruschi se relacionou, por exemplo, com presidentes da República como Juscelino Kubtscheck, Janio Quadros e marechal Castello Branco; com ex-governadores como Jones dos Santos Neves, Carlos Fernando

O naturalista Augusto Ruschi deixou um importante legado científico para as Ciências Naturais

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PESQUISA

começou o seu projeto. Associou-se, então, ao pesquisador Marcello Furtado, que levou para o projeto o método de descrição arquivística para a identificação do conteúdo do acervo. “A proposta foi dar visibilidade, acesso e compreensão sobre o acervo pessoal de Ruschi”, assinala Marcello Furtado. “Os documentos estão organizados por suas funções comuns, porque foram gerados a partir das atividades específicas de Ruschi. É um modelo de organização que possibilita a escolha das séries, como os documentos pessoais, a participação em eventos e difusão científica, as atividades do museu, e outras”, explica. “É uma estrutura que chamamos de arranjo arquivístico, com sequências de operações físicas e intelectuais, destinados, principalmente, aos documentos em terceira idade – aqueles que não têm mais valor administrativo, mas possuem importância histórica e devem ser guardados”, acrescenta. Multifacetado

O Museu de Biologia Professor Mello Leitão, em Santa Teresa (ES), possui um valioso acervo que revela a vida e a obra de Ruschi

Monteiro Lindenberg e Carlos Lacerda; com militares influentes como o general Golbery do Couto e Silva; com personalidades do mundo cultural e empresarial como Assis Chateaubriand, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Victor Hasselbald, Crawford Greenewalt e Augusto Antunes de Azevedo; e com cientistas como Helmut Sick, Lauro Travassos, Olivério Mário de Oliveira Pinto e Jose Cândido de Melo Carvalho. Alyne conta que em 2013 foi ao Museu de Biologia Professor Mello Leitão com o objetivo de reconstituir os caminhos percorridos por Ruschi em Santa Teresa, a fim de organizar excursões turísticas na cidade, com temática ambiental. Entretanto, lá a historiadora se deparou com o valioso acervo documental, iconográfico e museológico. Impactada com a descoberta, redirecionou o seu propósito, e daí

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A produção de instrumentos de pesquisa em acervos públicos e privados é algo recente no Espírito Santo. Segundo Marcello Furtado, o “Catálogo do acervo textual de Augusto Ruschi” é a primeira obra financiada pelo único edital existente no Espírito Santo de valorização dos acervos, e que é financiado pelo governo do Estado. Alyne Gonçalves, por sua vez, salienta que a pesquisa localizou documentos históricos, como os processos provocados por Ruschi que resultaram na criação de quatro reservas biológicas no Estado, em 1948, e a movimentação dele, em 1952, envolvendo presidente da República, governadores e senadores, com o objetivo de transferir as reservas para o âmbito do governo federal, a fim de protegê-las dos loteamentos clandestinos e de grileiros, o que, efetivamente, ele conseguiu. Os pesquisadores adiantam que o projeto sobre a intensa vida e a vasta obra de Augusto Ruschi não se restringe à publicação do catálogo. “Nosso desejo é o desenvolvimento de outro instrumento de pesquisa, que é o inventário, que abrange o acervo em sua totalidade”, conta Marcello. “O próximo passo é descrever e dar visibilidade aos conjuntos fotográficos, diários de campo, correspondências, mapas e desenhos individuais, e aos objetos tridimensionais deixados por Augusto Ruschi”, diz o pesquisador. “É a história muita rica de um personagem multifacetado, polêmico, que conseguiu articular e compor redes de relações sociais e politicas bastante influentes, sempre com foco na proteção da natureza”, finaliza Alyne Gonçalves.


Fotos: Paulo Bonino

A Mata Atlântica como laboratório Augusto Ruschi classificou 80% das espécies brasileiras de colibris, catalogou mais de 600 espécies de orquídeas e identificou 50 novas, e estudou a vida das bromélias e dos morcegos. Pesquisou a fauna e a flora brasileiras, e ainda hoje é o principal autor de obras científicas sobre beija-flores. Escreveu 22 livros e seus trabalhos científicos constam em cerca de 500 publicações. Produziu cerca de 400 artigos científicos, e concebeu projetos para instituições zoológicas e botânicas de vários países. Contribuiu na implantação de diversas reservas ecológicas no país e instalou duas instituições de pesquisa no Espírito Santo: o Museu de Biologia Professor Mello Leitão – hoje denominado Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) – e a Estação de Biologia Marinha Augusto Ruschi. O naturalista, segundo estabelece lei federal, é o Patrono da Ecologia no Brasil. No centenário de nascimento de Ruschi, a Ufes fez a entrega do título de Doutor Honoris Causa, em memória, ao cientista, em sessão solene do Conselho Universitário realizada no dia 12 de dezembro – data de seu aniversário – na sede do INMA, em Santa Teresa. A entrega foi feita pelo reitor Reinaldo Centoducatte, autor da proposta ao conselho. “De formação acadêmica múltipla, Ruschi direcionou todo o seu potencial intelectual e a sua energia de cidadão engajado para o estudo da natureza e a defesa da ecologia”, pontuou o reitor na entrega do título. “A formação acadêmica específica nas áreas das ciências naturais, na pesquisa e no ensino de graduação e de pós-graduação, avançaram na Ufes e no Brasil movidas pelo pensamento moderno e abrangente de Ruschi”, declarou. Piero Angeli Ruschi, filho do naturalista, recebeu o título representando a família. “Ruschi desenvolveu grande intimidade com o mundo natural desde a infância, e sua relação de amizade com a natureza foi cultivada ao longo de toda vida. Junto à natureza, Ruschi desfrutou dos prazeres que a busca pelo entendimento do mundo natural oferece à curiosidade humana desde os primórdios de sua existência. A aquisição do conhecimento cientifico marcou o aprofundamento de sua relação com o meio ambiente, cujos descobertas foram registradas em seus artigos científicos e livros”, sustentou Piero, ao receber o título.

Augusto Ruschi na década de 70 e sua inseparável câmera fotográfica, com a qual realizava seus registros

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PATENTES

Patentes

depositadas pela Ufes A Universidade possui 37 patentes depositadas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), que são produtos de pesquisas desenvolvidas por diferentes áreas do conhecimento. Conheça algumas delas. Fitas magnéticas A invenção refere-se a um aparato com fitas magnéticas para simulação de experimentos não destrutivos de clivagem e de fratura frágil. O setor é o de aparelhos para simulação experimental de clivagem e de fratura frágil. Departamento de Física (CCE) Análise de estrutura e tensão Trata-se de dispositivo construtivo para analisar a estrutura e tensão internas dos materiais pela aplicação de tensão externa com difração de raios X. Departamento de Física (CCE) Biobase autoemulsionável fitossanitizante A nova tecnologia refere-se à formulação de uma biobase concentrada autoemulsinável, seu processo de produção e seus usos. PPG em Biotecnologia (CCS) Célula de pressão Trata-se de uma célula de pressão construída para estudar a estrutura de um material e também as variações de microtensões internas mediante a aplicação de pressão hidrostática e campo magnético externo. A invenção possui aplicação, entre outras, nas áreas naval, aeroespacial, bélica, nuclear, automobilística e de fabricação de cimento e cerâmica. Departamento de Física (CCE) Célula eletroquímica portátil Célula eletroquímica portátil para realização de ensaios de corrosão. Departamento de Química (CCE) Compostos do petróleo Trata-se de um equipamento e métodos para preparar

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e promover um fracionamento de amostras de compostos complexos por meio de um tratamento de adsorção seletiva em escala de laboratório. Ufes e Petrobras Ressonância magnética nuclear Trata-se de processo para a análise de fluidos, em especial petróleos, utilizando a técnica de Ressonância Magnética Nuclear para caracterização físico-química da amostra. Departamento de Química (CCE) Produção de aços Nova tecnologia para produção de aços com melhores propriedades mecânicas, resistência à corrosão e custo reduzido. Pode ser aplicada em estruturas soldadas, parafusadas ou rebitadas e expostas à corrosão atmosférica ou marinha, sem necessidade de pintura. Departamento de Engenharia Mecânica (CT) Germinação de sementes Trata-se de um processo de aceleração do período de germinação de sementes de Carica Papaya pela aplicação de pressão hidrostática, relacionando-se com as áreas de cultivo de plantas e reguladores de crescimento de sementes. PPG em Biotecnologia (CCS) Bebidas alcoólicas Trata-se de um processo de floculação de leveduras não floculantes em cultura, usando canavalia ensiformis. Relaciona-se, entre outros, com o setor industrial de produção de bebidas alcoólicas, tais como alambiques, vinícolas, cervejarias e indústrias de produção de etanol, além do setor de energia em geral. PPG em Biotecnologia (CCS)


IDEIA PREMIADA

Estudantes ganham

6º Prêmio Jovem Jornalista As estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Jéssyka Saquetto, Laís Rocio e Rafaela Laiola ganharam o 6º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, organizado pelo Instituto Vladimir Herzog. A premiação foi uma viagem para Israel, que foi realizada em abril de 2015. A reportagem “Nossas Cláudias, Nossos Amarildos”, realizada pelas estudantes, com a orientação do professor do Departamento de Jornalismo Victor Gentilli e mentoria do jornalista Paulo Oliveira, concorreu com outros 135 projetos de pauta de todas as universidades de Jornalismo do Brasil. O Prêmio tinha como tema “As Heranças do Golpe de 64”. Segundo Laís Rocio, a opção por abordar a violência da Polícia Militar no Espírito Santo veio quando o grupo concluiu que os policiais militares são uma herança desse golpe, devido às abordagens violentas,

à repressão e ao policiamento ostensivo. As entrevistas, pesquisas e investigações duraram seis meses e originaram o Jornal O Velho Oeste. “Nossa proposta era comprovar que no Espírito Santo também existiam muitos Amarildos e Cláudias, mesmo que seus casos não tenham sido repercutidos pela mídia”, afirma. Em Israel, o grupo teve a oportunidade de conhecer as cidades de Jerusalém, Tel Aviv, Haifa, Nazaré, Hebrom, localizadas na região da Cisjordânia, e duas cidades que fazem divisa com a Faixa de Gaza. Além da região do Mar Morto, também visitaram a antiga cidade de Masada e o Museu do Holocausto. “A viagem me mostrou vários lados e posicionamentos políticos da região, despertando em mim a vontade de realizar um trabalho jornalístico denso, que possibilite documentar as diversas histórias que o mundo nos apresenta”, ressalta Laís.

Fotos: Divulgação

Os professores Paulo Oliveira e Victor Gentilli e as alunas, Laís Rocio, Rafaela Laiola e Jéssyka Saquetto recebem o prêmio

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IDEIA PREMIADA

Harmonização de Processos de Software Foto: Arquivo

recebe o prêmio de melhor artigo na Espanha

O doutorando e os professores foram os autores do artigo premiado na categoria Inteligência Artificial e Agentes

O estudante de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Informática Fabiano Borges Ruy, juntamente com os professores do Departamento de Informática Ricardo Falbo, Monalessa Barcellos e Giancarlo Guizzardi, receberam o Prêmio de Melhor Artigo na categoria “Inteligência Artificial e Agentes”, no 30º Simpósio de Computação Aplicada (ACM-SAC). O evento foi realizado em abril de 2015, pela Associação para Sistemas de Computação (Association for Computing Machinery - ACM), na cidade de Salamanca, Espanha. O artigo, traduzido como “Rumo a uma Linguagem de Padrões Ontológicos para Harmonização de Normas ISO de Processos de Software”, propõe linguagem de padrões ontológicos voltada para a representação de processos de software e está dentro do tema de pesquisa do doutorado de Fabiano Ruy. Segundo o estudante, as linguagens de padrões vêm sendo discutidas há algum tempo. “Muitas organizações buscam a melhoria de seus processos por meio da implantação de normas de qualidade, como a ISO 9001 e o CMMI, mas os conceitos e práticas das normas adotadas nem sempre estão alinhados entre si. A ideia do artigo é promover a integração conceitual, simplificando a implantação”, explica Fabiano Ruy. O Simpósio contou com 1.211 submissões em cinco categorias. “Esse prêmio reconhece o

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trabalho que vem sendo realizado há anos pelo grupo. A conferência é muito tradicional na área de informática e está atualmente no extrato superior na classificação de eventos científicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)”, afirma um dos coordenadores do Núcleo de Estudos em Modelagem Conceitual e Ontologias (Nemo), Giancarlos Guizzardi.

Nemo As pesquisas foram realizadas no Núcleo de Estudos em Modelagem Conceitual e Ontologias (Nemo) e esse prêmio é o décimo que o Núcleo ganha nos últimos 10 anos. Atualmente, o Nemo é composto por seis professores e mais de 50 membros, entre estudantes de graduação e pós-graduação, além de receber alunos de outros países. O Núcleo é um dos principais grupos do Brasil na área de Ontologias. Seus trabalhos visam à elaboração de teorias formais lógico-matemáticas para descrever conceitos sobre a realidade. Além disso, criam técnicas para que as pessoas possam desenvolver seus próprios modelos. O grupo tem uma participação grande em comitês internacionais e os produtos da sua linha de pesquisa são atualmente usados por diversas empresas privadas, órgãos governamentais e por universidades de diversos lugares do mundo.


Fotos: Divulgação

O local de exposição foi separado com um painel. Na divisão dos ambientes, estão frestas e espaços de passagem em que áudios se misturam

Prêmios para projeto

do curso de Artes Visuais

O Projeto de Extensão Preposformance, do curso de Artes Visuais da Ufes foi contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea e com uma exposição no Paço das Artes, ambos de São Paulo. Com as premiações, o grupo de artistas do projeto expora seus trabalhos em galerias da capital paulista. A idealização do projeto é do Grupo Práticas e Processos da Performance (3P), que desenvolve um processo de experimentação das performances em ambientes participativos e colaborativos é formado pelos artistas-professores Carlos Eduardo Borges, Marcos Martins, Ricardo Mauricio Gonzaga e Yiftah Peled, por meio da curadoria de depoimentos e receitas de performances extraídas do programa Linguagens Visuais no Ar, da Rádio Universitária (104,7 FM). Todos os professores têm pesquisas individuais ligadas às práticas poéticas do corpo e do espaço na área da performance e se reuniram para realizar o projeto. Para o professor Yiftah Peled, as premiações atestam a qualidade no trabalho feito na Ufes. “Os dois prêmios foram avaliados de forma bastante criteriosa, os projetos estão em experimentação e já ganhamos uma projeção em nível nacional”, afirma o professor. Yiftah explica que toda a atividade da exposição do projeto Preposformance envolve a pesquisa, a extensão e a sala de aula. Claro & escuro O espaço de exposição foi dividido com um painel e áudios diferentes foram instalados em cada uma das partes. Do lado escuro, receitas de performances para serem postas em prática, onde o visitante mergulha nas narrativas, imaginando-as. Do lado

claro, a lembrança de momentos performáticos vividos por artistas, como receitas, onde o visitante tem a possibilidade de realizar a performance de forma dinâmica. Na divisão dos ambientes, estão frestas e espaços de passagem em que os áudios se misturam. A Fundação Nacional de Artes (Funarte), do Governo Federal, é o órgão responsável pelo desenvolvimento de políticas públicas de auxílio às artes visuais, à música, ao teatro, à dança e ao circo. Com o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea, a exposição do Preposformance ocupou, de abril a junho de 2015, a Galeria Flávio de Carvalho, do Complexo Cultural Funarte, em São Paulo. O Paço das Artes, é uma galeria de arte multidisciplinar subordinada à Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, que possibilita a produção e o desenvolvimento de projetos artísticos e de curadoria sob assistência da instituição. A exposição foi realizada de julho a setembro de 2015.

Os artistas-professores da Ufes na Galeria Flávio de Carvalho, do Complexo Cultural Funarte, em São Paulo

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I NSTITUCIONAL

Serviço Social: Curso conta com quatro Programas de Educação Tutorial (PET) e nove núcleos temáticos, que desenvolvem atividades de extensão e pesquisa na Grande Vitória e no interior do Estado

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esquisar é um fazer que envolve o desejo de solucionar algo, de descobrir ou estabelecer fatos ou princípios relacionados a diversas áreas do conhecimento humano. E esse desejo pode estar vinculado a motivações ou provocações surgidas durante os estudos na graduação. No departamento do curso de Serviço Social da Ufes há a preocupação em formar indivíduos para atuar em diversas áreas e campos institucionais que promovem o exercício pleno da cidadania. Para atingir o objetivo, começa na graduação o incentivo à pesquisa, aliando a teoria à prática por meio de programas e projetos de extensão e pesquisa. O curso possui quatro Programas de Educação Tutorial (PET) e nove núcleos temáticos, que desenvolvem atividades de extensão e pesquisa na Grande Vitória e no interior do Estado. A atuação dos estudantes nessas atividades e em ações concretas extrassala de aula é mais um caminho adotado pelo curso na formação profissional do aluno em conjunto com a análise da realidade. Em 1970, foi criado o curso de Serviço Social a partir de uma demanda liderada pela assistente social Eliseth Cardoso e que contou com entidades capixabas, como o Serviço Social da Indústria do Espírito Santo (Sesi), a partir de uma carência de profissionais no mercado capixaba. O Departamento de Direito recebeu a proposta e, a partir de um projeto pedagógico, acolheu a constituição da coordenação do curso. Em 16 de dezembro de 1970, o Conselho Universitário aprovou a sua criação e, hoje, juntamente com os cursos da pós-graduação, é “uma referência na formação profissional de assistentes sociais no Espírito

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Santo, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, de acordo com a avaliação da Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social”, afirma a coordenadora do curso, professora Maria Madalena Nascimento Sartim. A cada semestre, 46 estudantes ingressam no curso, que, no primeiro semestre de 2015, possuía 352 alunos. Entre os demais cursos da instituição, ele está entre os que têm a menor taxa de evasão e o maior número de concluintes por semestre letivo. Na década de 1990, o curso expandiu para a pósgraduação lato sensu e, em 2003, o Conselho Universitário aprovou o Programa de Pós-graduação em Política Social (PPPS) que, atualmente, conta com o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado. As pesquisas realizadas no Programa de Pós-graduação em Política Social (PPGPS) têm como área de concentração Política Social, Estado e Sociedade e atua em parceria com os departamentos de Economia e Ciências Sociais. Suas duas linhas de pesquisa são: Reprodução e estrutura do capitalismo contemporâneo, e políticas sociais, subjetividade e movimentos sociais. O Programa publica a Revista Argumentum, periódico avaliado A2 pela Capes. “Nossos graduandos e pós-graduandos saem da Universidade comprometidos com os valores centrados na melhoria da qualidade da sociedade. Como atuamos nas políticas públicas sociais, nos últimos anos houve um crescimento da demanda por assistente social, principalmente, no âmbito da política de assistência pública, política esta que tinha como objetivo a inclusão dos mais pobres, fazendo com que em muitos concursos chegassem a ser oferecidas mais de 100 vagas para esse profissional, como ocorreu nos


municípios de Vila Velha, Serra e Vitória. Acrescento ainda as vagas surgidas nas Associações de Direitos, nos conselhos municipais, estaduais e nacionais, nas ONGs e no setor empresarial”, explica a professora. Pesquisa e extensão Depois das disciplinas ministradas na graduação, o estudante do curso de Serviço Social expande sua área de atuação e participa das atividades desenvolvidas pelos núcleos e grupos, cuja ação extrapola o campus, chegando às comunidades da Grande Vitória e ao interior do Estado. Às vezes, essa participação em projetos provoca no estudante o querer saber mais, o aprofundamento, os questionamentos que o conduzem à pós-graduação. Os nomes dos núcleos/grupos por si só esclarecem essa demanda, que anualmente chega a 200 estudantes: Núcleo da Criança e do Adolescente (Neca); Núcleo de Estudos e Assessoramento à Pessoa Idosa (NEEAPI); Núcleo de Estudos em Movimentos e Práticas Sociais (Nemps); Núcleo de Estudos sobre o Trabalho (NET); Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão sobre Segurança Pública e Direitos Humanos (Nevi); Grupo de Estudos e Pesquisas em Análise de Políticas Públicas (Fenix); Grupo de Estudos sobre Políticas Sociais e Urbanas, Fundo Público e Serviço Social (Interface); e Grupo de Estudos sobre Cultura e Educação Popular. Esses núcleos e grupos também realizam Foto: Arquivo Supecc

Para a professora Madalena Sartim, o foco do curso está na formação de cidadãos comprometidos com valores centrados na melhoria da qualidade da sociedade

cursos de extensão, seminários e mesas-redondas. Além desses, há também o Programa de Educação Tutorial, o de Educação pelo Trabalho e o Programa de Residência Multiprofissional em Saúde (Centro de Ciências da Saúde, campus de Maruípe). Em 2014, o Programa de Capacitação (Suas), em convênio com o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e com a Secretaria de Estado da Assistência Social e Direitos Humanos (SEADH-ES), atuou na qualificação de 500 participantes – conselheiros, gestores e trabalhadores da Assistência Social – nos municípios de Cachoeiro de Itapemirim, Colatina e Linhares. De todos os programas desenvolvidos, o mais antigo é o Programa Universidade Aberta à Terceira Idade (Unati), que atende aproximadamente 200 idosos a cada ano letivo, contribuindo para a qualidade de vida dos participantes e também influenciando as políticas públicas destinadas a esse público. Como diz a professora Madalena Sartim, “à universidade, que é um espaço de pesquisa, produção e experimentação de conhecimento, compete a formação intelectual e humana de sujeitos sociais e cidadãos comprometidos com valores centrados na melhoria da qualidade da sociedade. A formação em Serviço Social converge com tais finalidades na medida em que se pauta em princípios éticos, tais como: a defesa intransigente dos direitos humanos contra todo tipo de arbítrio e autoritarismo; a defesa, aprofundamento e consolidação da cidadania e da democracia; o posicionamento a favor da equidade e da justiça social; o empenho na eliminação de todas as formas de preconceito e a garantia do pluralismo; e o compromisso com a qualidade dos serviços prestados na articulação com outros profissionais e trabalhadores”.

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José Martí (1853-1895):

Pensamento e Ação Política Edebrande Cavalieri*

Apesar de já ter passado mais de cem anos de sua morte, o pensador José Martí ainda está por ser descoberto tanto pelo mundo acadêmico das universidades quanto pela história atual, que insiste nas velhas fórmulas dos mundos europeu e norte-americano. Ele não foi apenas um líder que lutou com as armas da escrita e das ideias pela libertação de seu país, Cuba, contra a colonização espanhola. Ele anteviu também o risco que vinha do norte da América com seu expansionismo. Morreu na Batalha de Dos Rios lutando por Nuestra America. É produtor de um saber crítico permeado de responsabilidade ética. Como muitos outros líderes, sentia-se irmão dos demais povos latino-americanos, pois estava convencido de que “a Pátria é a humanidade”. A arquitetura das diversas nacionalidades não se contrapunha com esse ideal pátrio. Martí entendia que a independência não era apenas a autonomia de governo ou a troca de amo (colonizador), mas a busca de igualdade, autenticidade e autonomia para os povos latino-americanos. Ele e outros revolucionários já sentiam o risco da política norte-americana pautada pela Doutrina Monroe resumida no slogan “A América para os americanos”, que objetivava o expansionismo vindo do norte. A história comprovou como isso foi e é, ainda hoje, verdadeiro. A independência é uma luta espiritual contra todas as formas de representação colonial, inclusive aquelas canonizadas pela filosofia e pela literatura. A complexidade do mundo latino-americano não pode ser decifrada nem com o livro europeu, nem com o ianque. A base das reflexões de Martí está na realidade cotidiana e por isso empreende um esforço gigantesco para tornar este caminhar histórico cada vez mais universal enquanto experiência de mundo. Então não se trata de pensar a sua Cuba, mas a “Nossa América”. Essa é a imagem-conceito paradigmática que o torna um pensador original e que

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pode ser elevado a um ponto central na filosofia latino-americana. Assim, até a literatura que ele cultiva com muito esmero está marcada por um modo alternativo e, de certo modo, privilegiado da ação política. Pode muito bem ser chamada de uma literatura engajada. A “Nossa América” nos convida a pensar sobre o que vem a ser a autoctonia e a identidade que nos une enquanto pátria. Para Martí, existe uma natureza particular americana, com características e especificidades próprias. Daí a necessidade imperiosa de se buscar soluções. A autoctonia implica o desafio de criação de formas políticas, econômicas e culturais próprias, em sintonia com a diversidade da realidade latino-americana. A América Latina é uma unidade histórico-social, resultante de elementos “naturais” e “civilizados”. O projeto colonial europeu só fez com que essa unidade fosse cortada ou interrompida historicamente. Para ele, as elites europeias se reproduziram nesta terra com o desenvolvimento de projetos de monocultura agrária e exploração de recursos naturais. Elas nunca vão promover o desenvolvimento econômico e social preconizado. Por esse motivo, a educação fica sempre patinando com diversas propostas nos governos que a história registrou. O pensamento martiano toma a direção de valorização da cultura autóctone sem abrir mão da crítica ao homem produzido pelo padrão civilizatório ocidental. Seus interlocutores não são apenas os países latino-americanos, mas todos os povos colonizados e periféricos, como os árabes, os africanos e os asiáticos. Por isso pode-se afirmar que “a pátria é a humanidade”. A universalização nasce de uma identidade comum em termos históricos. É comum conceber o conceito de identidade como um todo orgânico, progressivo e harmônico. Para Martí, a identidade latino-americana é resultado de uma violenta interação de fragmentos


dispersos e anárquicos, pois o corpo da América foi desconjunturado e decomposto; são restos de códigos, fragmentos incongruentes de tradições em permanente luta. A ação política de independência implica condensar o disperso, reativar a totalidade orgânica perdida e presente em nossa história. O caos não é o resultado da barbárie representada pelos colonizadores, mas é a consequência da decomposição imposta às culturas ulturas tradicionais aqui presentes antes do processo o colonial. A barbárie é resultado dos diversos processos essos de exclusão. Compreende-se assim por que Martí resiste aos processos modernizadores do século ulo XIX na medida em que eles expressavam formas as importadas, modelos estrangeiros. Na literatura, seu pensamento também expressa uma resistência cia à retórica do ‘saber dizer’ que produz uma leitura ura e uma escrita como pura ornamentação. A literatura atura é um grande meio capaz de revelar a ‘alma daa terra’, capaz de disseminar e inaugurar outras formas rmas de representação sobre a realidade. Gostaria de concluir esta ta breve exposição de alguns conceitos de José Martí artí registrando o que a Ufes realizou no dia 8 de dezembro ezembro de 2015 prestando homenagem a esse grande homem da terra latino-americana. Pela segunda nda vez, a Universidade registra, no campus de Goiabeiras, abeiras, a exposição do busto do pensador doado pelo ex-governador do Espírito Santo Vítor Buaiz, juntamente ntamente com Homero Mafra, atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em 1995. Localizado ocalizado em frente ao Prédio Bernadette Lyra está tá o busto, inaugurado com a presença da consulesa esa cubana Ivette Martinez Leyva. Naquele dia, foi oi lançada a ideia de se instituir na Ufes a “Cátedra José Martí”, integrando filosofia, literatura, poesia, ciência política e história. Já existem cátedras José é Martí em 17 países e, no Brasil, temos cinco. As terras erras capixabas podem também ser o berço para fazer crescer entre nós uma proposta de pensamento ento que une teoria e ação política.

*Professor do Departamento de Filosofia

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I NSTITUCIONAL

Edufes

Foto: Arquivo Supecc

Há 20 anos publicizando o fazer científico da Ufes

Neste ano de 2015, a Editora da Ufes (Edufes) completa 20 anos. Criada em 1995 pelo então secretário de Produção e Difusão Cultural (SPDC), professor Francisco Aurélio Ribeiro, a Edufes surgiu para atender às demandas universitárias relativas às publicações de caráter científico e técnico. “Na SPDC tínhamos uma coleção chamada Cultura na Ufes, que priorizava as publicações literárias. Com o encerramento das atividades da editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, apresentamos a proposta de criação de uma editora ao Conselho Universitário. A Edufes foi criada e a comunidade universitária ficou satisfeita”, explica o professor, que é também presidente da Academia Espírito-Santense de Letras.

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Ao longo dos seus 20 anos, a editora publicou 600 obras. “Nos últimos quatro anos, a Edufes publicou 200 novos títulos. E, em 2012, iniciou-se, como política permanente, a disponibilização on-line das obras publicadas em papel”, diz o coordenador da editora, Washington R. dos Santos. A Edufes publica livros didáticos; coletâneas selecionadas; traduções de obras clássicas para o português; publicações destinadas a valorizar os patrimônios culturais, históricos, literários, artísticos, arquitetônicos; trabalhos sobre temais atuais e relevantes; e obras que discutem a organização e o funcionamento das universidades e seus reflexos sobre a geração e a democratização do saber. As


obras literárias são consideradas em edital específico, com categorias definidas por meio do Prêmio Ufes de Literatura. Em 2004, a Edufes ficou no topo do ranking da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (Abeu), com o maior número de livros publicados. Em parceria com a Abeu, a Edufes participou neste ano das feiras de Frankfurt, Guadalajara e da Feira Internacional do Livro de Medellín (Colômbia). “Essas são as feiras realizadas no exterior, mas nós também estamos nas principais feiras nacionais, regionais e locais, como as bienais do Rio de Janeiro e São Paulo. Em 2015, por exemplo, a Edufes teve uma estante na 17ª Bienal Internacional do Livro, realizada no Rio de Janeiro”, afirma Washington. O secretário de Cultura da Ufes, Rogério Borges, destaca que a participação da Edufes em diferentes eventos, seja para expor, seja para vender, “é importante para a divulgação de nossas pesquisas, dos nossos escritores, e aponta a atuação da editora para além dos muros da Universidade”. Conselho editorial As propostas de publicação e outros temas relativos à editora são avaliados por um conselho composto por representantes de todos os centros da Ufes. Os originais são avaliados em sua viabilidade técnica pelo Conselho e enviados a pareceristas integrantes do Comitê Científico, de acordo com a área de conhecimento da obra (Ciências Agrárias, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Biológicas, Ciências da Saúde, Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Engenharias, Linguística, Letras e Artes). O Conselho Editorial pode nomear pareceristas ad hoc sempre que necessário. Os livros que tiverem sua publicação aprovada são editados em formato impresso e em formato de e-book, seis meses após a publicação da versão impressa, ou apenas em formato digital, de acordo com a decisão do Conselho Editorial. Os exemplares podem ser adquiridos na livraria da Edufes, que possui 90m² e fica no campus de Goiabeiras (Vitória/ES). Nesse local, não são comercializadas apenas as publicações da editora, mas também de outras editoras universitárias. Os títulos de todas as obras publicadas pela editora também podem ser consultados no catálogo, que está disponível no endereço eletrônico www.edufes.ufes.br.

Editora da UFES a serviço da difusão do conhecimento Sandra Reimão*

O livro é, desde a Antiguidade helenística até, pelo menos, o início do século XX, o principal veículo de registro, preservação, transmissão e recepção de ideias, informações e cultura e a ele estão vinculadas as noções de liberdade de expressão e opinião. Uma editora universitária, por sua própria especificidade, é um espaço de publicação e difusão do conhecimento acadêmico gerado por instituições universitárias e outras afins. A Associação Brasileira das Editorias Universitárias (Abeu), entidade que há mais de 25 anos agrega editoras universitárias do Brasil inteiro e que conta com mais de 100 associados, em seus documentos oficiais, esclarece que sua função principal é a de dar mais visibilidade aos editores associados e à produção científica, acadêmica e cultural das Universidades, e, complementa que o foco maior é, pois, no livro técnico-científico e pedagógico. Gerar e difundir conhecimento científico, conhecimento técnico, produzir e promover as circulações de ideias são tarefas maiores das instituições universitárias e, entre elas, as editoras universitárias. No conjunto das editoras universitárias brasileiras, a Editora da Ufes (Edufes) destaca-se pela sua longevidade, 20 anos de atuação, pela qualidade e variedade de seus títulos. Longa vida à Edufes e votos de continuidade de sucesso em sua tarefa de difusão do melhor do conhecimento universitário.

(*) Professora livre-docente da Universidade de São Paulo, coordenadora do grupo de pesquisa Livros e outras mídias (http://livroseoutrasmidias.org) e, desde 2013, dedica-se ao projeto Livros e censura no Brasil: censura, circulação e comércio de livros na ditadura militar - os pareceres censórios. É autora de dezenas de artigos sobre o mercado editorial e, entre outros, dos livros Repressão e resistência: censura a livros na ditadura militar; Fusões: cinema, televisão, livro e jornal; Literatura policial brasileira e Mercado editorial brasileiro.

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LANÇAMENTOS

Recados de Tempo Orlando Lopes, Paulo Roberto Sodré e Wilberth Salgueiro (Orgs.)

O Conflito entre o Paganismo, o Judaísmo e o Cristianismo no Principado

O Terribilíssimo Mal do Oriente Sebastião Pimentel Franco

Carolline da Silva Soares

Direitos de Propriedade Intelectual e Inovação Alain Herscovici (Org.)

Nas Rotas do Império 2ª edição João Fragoso, Manolo Florentino, Antônio Carlos Jucá e Adriana Campos (Orgs.)

Política de Formação de Professores Alfabetizadores e Ensino da Leitura Fernanda Zanetti Becalli

Modernidade e Modernização no Espírito Santo Luiz Cláudio M. Ribeiro, Leandro do Carmo Quintão, Kellen Jacobsen Follador e Gilton Luis Ferreira (Orgs.)

Marx, Ricardo e Smith 2ª edição Reinaldo Carcanholo (in memorian)


OBRAS DISPONÍVEIS EM FORMATO DIGITAL 1. JULGAMENTO DAS CAUSAS REPETITIVAS - Luis Filipe Marques Porto Sá Pinto // 2. SORRISO DE PERSONA - Danilo Barcelos, Ester Abreu Vieira de Oliveira e Maria Mirtis Caser (Orgs.) // 3. COM DIAS CANTADOS (coleção II Prêmio Ufes de Literatura) - Israel Rozário // 4. A PAZ DOS VAGABUNDOS (coleção II Prêmio Ufes de Literatura) - João Albani // 5. PENSE MELHOR ANTES DE PENSAR (coleção II Prêmio Ufes de Literatura) - Renata Dembogurski // 6. QUANDO NÃO SOMOS MAIS (coleção II Prêmio Ufes de Literatura) - Vanessa Maranha // 7. COLETÂNEA DE POEMAS (coleção II Prêmio Ufes de Literatura) - Edufes (Org.) // 8. COLETÂNEA DE CONTOS E CRÔNICAS (coleção II Prêmio Ufes de Literatura) - Edufes (Org.) // 9. TRANSPOSIÇÕES - Alexsandro Rodrigues, Catarina Dallapicula e Sérgio Rodrigo da Silva Ferreira (Orgs.) // 10. NORMALIZAÇÃO DE REFERÊNCIAS NBR 6023:2002 - Biblioteca Central/Ufes (Orgs.) // 11. NORMALIZAÇÃO E APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS CIENTÍFICOS E ACADÊMICOS - Biblioteca Central/Ufes (Org.) //

Trabalho, Igreja e Boteco Jamily Fehlberg e Paulo Rogério Meira Menandro

Vidas no Cárcere André Mota do Livramento e Edinete Maria Rosa

Cotidiano e Processos de Subjetivação

Máquinas Fantasmas na Escritura

Roberta Carvalho Romagnoli e Magda Dimenstein (Orgs.)

Jiego Ribeiro

A Edufes é filiada à Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu)

Reis, Santos e Feiticeiros 2ª edição

Políticas de Inovação no Setor Elétrico Brasileiro

Gilvan Ventura

André Tosi Furtado


Joyce Brandão – Bom dia cidade, 1978, Aquarela sobre papel, A 34,7 x L 27,0 cm. Nº de registro - 0094 Acervo da Universidade Federal do Espírito Santo, Galeria de Arte Espaço Universitário

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Revista Universidade | nº 05  

Revista de Jornalismo Científico, Cultura, Variedades produzida pela Superintendênica de Cultura e Comunicação da Universidade Federal do Es...

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