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Revista da Universidade Federal do Espírito Santo •

UFES

Dez 2014 • Ano 3 • Nº 4

ISSN 2359-2095

Ciberespaço

revelado Laboratório da Ufes cartografa o impacto da cultura digital nos processos da comunicação contemporânea

Mala Direta Postal

Básica

9912260557/2010-ES UFES – UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESP.SANTO

CORREIOS


Apresentação

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UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Dez 2014


Conteúdos qualificados Mais uma edição da revista Universidade chega, divulgando a elevada produção acadêmica da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em diversas áreas do conhecimento. Creio que temos consolidado este projeto editorial, cujas principais metas pretendidas são a divulgação dos projetos científicos e tecnológicos em desenvolvimento na nossa instituição de ensino. Além da pesquisa, os seus conteúdos contemplam também as áreas do ensino e da extensão universitária, e trazem informações relevantes no âmbito das ações institucionais. Esta publicação é uma tarefa desafiadora para a Administração Central da Universidade, que abraçou o projeto e tem mantido o esforço necessário para que se consolide como uma valiosa ferramenta da comunidade acadêmica. Nesta edição, Universidade nos apresenta a intensa mobilização que envolve os pesquisadores em torno da produção de ciência, tecnologia e inovação. De modo muito oportuno e atual, a revista nos revela, por exemplo, as pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Estudos sobre a Imagem e Cibercultura (Labic), do Departamento de Comunicação Social associado ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação. Ali os pesquisadores se dedicam ao estudo das redes sociais na internet, definindo mapas a partir de softwares específicos que permitem visualizar os movimentos dos relacionamentos estabelecidos nesses ambientes virtuais, e que estão fortemente incorporados aos hábitos comportamentais da vida moderna. Na área ambiental, há o registro de duas pesquisas importantes. Em uma delas, desenvolvida no Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), nossos pesquisadores atuam no litoral capixaba estudando o peixe mero, um gigante do mar, e que está ameaçado de extinção. Em outra linha de pesquisa, realizada no Laboratório de Pesquisa e Simulação sobre a Dinâmica do Oceano, os estudos analisam a temperatura da superfície do mar e a sua relação com a atmosfera. Na extensão, a Universidade nos mostra o programa Centro de Estudos de Promoção em Alternativas de Saúde, do Centro de Ciências da Saúde, a mais antiga ação extensionista da Universidade e que em 2014 completou 30 anos. Esta edição também transita por outras áreas da pesquisa, em todos os centros de ensino da Ufes, com a necessária abrangência que a proposta desta publicação contém. A revista também faz um balanço dos inúmeros eventos que marcaram os 60 anos da Ufes, comemorados em maio de 2014. Por meio de textos e imagens, mostramos este momento muito produtivo da Universidade. Com competência e criatividade, a equipe de profissionais e bolsistas da Superintendência de Cultura e Comunicação (Supecc) oferece um produto editorial de qualidade, com conteúdo diversificado e apresentado com excelente padrão estético. Estou certo de que a revista Universidade é um projeto definitivo e importante para a Instituição, e que se consolida como referência em jornalismo de divulgação científica. Reinaldo Centoducatte Reitor

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Foto: David Protti

Universidade Federal do Espírito Santo • Ufes Reitor Reinaldo Centoducatte Vice-Reitora Ethel Leonor Noia Maciel Pró-Reitor de Administração Eustáquio Vinicius Ribeiro de Castro Pró-Reitora de Assuntos Estudantis e Cidadania Jacqueline Oliveira Silva Pró-Reitora de Extensão Angélica Espinosa Barbosa Miranda Pró-Reitora de Graduação Maria Auxiliadora de Carvalho Corassa Pró-Reitora de Gestão de Pessoas Maria Lucia Casate Pró-Reitora de Planejamento e Desenvolvimento Institucional Ethel Leonor Noia Maciel (respondendo pela pró-reitoria) Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Neyval Costa Reis Junior Superintendente de Cultura e Comunicação Ruth Reis UNIVERSIDADE Revista de Jornalismo Científico • Cultura • Variedades produzida pela Superintendência de Cultura e Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo Secretária de Comunicação Thereza Marinho Coordenadora da Seção de Publicação Científica Emília Manente Coordenador do Núcleo de Comunicação Institucional Luiz Vital Conselho editorial José Geraldo Mill • Alberto Ferreira De Souza • Alberto Fernandes • José Antonio Martinuzzo • Ruth Reis • Emília Manente Editora geral Ruth Reis Editoras Emília Manente Letícia Nassar Reportagem Ana Paula Vieira • Emília Manente • Hélio Marchioni • Jorge Lellis • Letícia Nassar • Luiz Vital Colaboradora Maíra Mendonça Bolsistas Jéssyka Saquetto • Lais Rocio • Marina Amorim Fotografia David Protti • Arquivo Supecc • Rafaela Laiola Design Juliana Braga Revisão Márcia Rocha Foto da Capa Grafo Labic Distribuição • gratuita Impressão • Gráfica Universitária Tiragem • 6.000 exemplares Universidade Federal do Espírito Santo Superintendência de Cultura e Comunicação - Supecc Av. Fernando Ferrari, nº 514, Campus de Goiabeiras Prédio da Reitoria, 1º andar, CEP: 29075-910, Vitória/ES - Brasil Telefone: (27) 4009-2204 E-mail: revistauniversidade@ufes.br ISSN 2359-2095 O conteúdo desta revista pode ser reproduzido para fins didáticos, desde que citada a fonte.

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Prezado leitor, Você tem em mãos mais um exemplar da Universidade, que em sua capa destaca um tema mais que atual: a cultura digital, que é estudada no Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), no qual os pesquisadores têm o objetivo de mapear o que acontece nas redes sociais. Esta edição também está recheada pelo tema da biodiversidade. Começamos esta conversa com destaque para a matéria sobre o projeto Meros do Brasil (o peixe está sendo ameaçado pela pesca predatória) desenvolvido no Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes) e realizado por cinco instituições brasileiras. O cantor e compositor Lenine visitou o projeto no mês de abril de 2014 durante a turnê intitulada “Encontros Socioambientais com Lenine”. Perpassando esse mesmo assunto, podemos conferir outro texto sobre o oceano e o clima. A pesquisadora Meyre Pereira da Silva nos alerta sobre a importância de prestarmos atenção ao que nos ‘fala’ o oceano para que possamos, inclusive, nos precavermos sobre catástrofes futuras. Outro destaque desta edição é o mais antigo projeto de Extensão da Universidade. O Centro de Estudos de Promoção em Alternativas de Saúde (Cepas) tem 30 anos de atuação em comunidades consideradas de risco e suas ações ajudam na construção da cidadania dos moradores assistidos. Ao final da Copa do Mundo fomos conversar com o professor de Educação Física Otávio Guimarães Tavares da Silva que tem como áreas de interesse os estudos socioantropológicos das práticas corporais e os estudos olímpicos. O professor faz um balanço desse megaevento e fala sobre o legado deixado para o País. E no âmbito institucional, as comemorações dos 60 anos da Ufes, celebrados durante o mês de maio de 2014. Nesta edição, a Universidade continua firme no seu objetivo de divulgar, em forma de jornalismo científico, as pesquisas, os projetos de extensão e o que de mais relevante é produzido na Instituição. Boa leitura! Emília Manente Letícia Nassar Editoras

Sumário 30 Labic

Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura

37 Meros

O senhor das pedras

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Sociabilidades informais em Vitória Laboratório de Oceanografia Cepas: atuação comunitária e cidadania Museu de Ciências da Vida Entrevista: megaeventos Robô Maria Ambulatório de Reprodução Humana Artigo: Sexualidade humana Curso de Direito Sustentabilidade Poluição do ar 60 anos da Ufes

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Fonte: Iphan 27ª Região

tese

Vitória era uma festa Ana Paula Vieira

A análise de 3.597 notícias publicadas em dois jornais capixabas entre os anos de 1850 a 1872 permitiu verificar as sociabilidades informais na Capital do Estado do Espírito Santo

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frase que intitula este texto é uma afirmativa da historiadora e doutoranda Fabíola Martins Bastos sobre o cotidiano do município de Vitória na segunda metade do século XIX. A pesquisa Relações Sociais, conflitos e espaços de sociabilidades: formas de convívio no município de Vitória, 1850-1872, defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Ufes, permitiu à pesquisadora, sob orientação da professora Adriana Pereira Campos, chegar a essa conclusão. Instigada a questionar a imagem de marasmo comumente atribuída ao cotidiano da ilha pela historiografia tradicional, Fabíola analisou 3.597 notícias dos jornais Correio da Victoria e Jornal da Victoria, 79 autos criminais e 221 petições encaminhadas à Câmara Municipal de Vitória. Seu objetivo era problematizar a visão corrente de que Vitória era uma cidade onde imperava o tédio. Em um trabalho situado na fronteira entre História e Antropologia, Fabíola contribuiu para a escrita de uma nova página na história cultural do Espírito Santo ao investigar as sociabilidades informais estabelecidas em Vitória no século XIX. O tema da sociabilidade aparece pioneiramente na obra do historiador Maurice Agulhon, Pénitents et Francs Maçons de l’ancienne Provence: essai sur la sociabilité méridionale, de 1984. Porém, o pesquisador francês dedicou-se ao estudo das sociabilidades formais, ou seja, aquelas geradas a partir de relações sociais em associações como maçonaria, igrejas e clubes, que configuram uma sociabilidade institucionalizada. Fabíola encontrou suas referências teóricas em autores como Maria Alexandre Lousada e Arlette Farge para subsidiar o estudo das sociabilidades informais, que no município de Vitória do século XIX foram identificadas, por exemplo, nas festas, nos encontros no comércio e nos chafarizes da cidade. Segundo Fabíola, o cotidiano de Vitória era “bastante movimentado”. Ela verificou que o comércio funcionava das 7 às 22 horas, um dado até então desconhecido e que, de acordo com a pesquisadora, é muito significativo se for levada em consideração a infraestrutura da cidade naquela época. Ela ressalta que o movimento era intenso mesmo num período de iluminação artesanal, feita por meio de lampiões; nas residências, a iluminação era feita à base de velas, que não eram capazes de clarear todo o ambiente, mas retiravam os capixabas da escuridão completa; as ruas da Capital eram mais bem iluminadas nas noites de lua cheia. Além da iluminação ineficaz, Fabíola destaca que a locomoção era outra dificuldade. “As ruas eram calçadas a pé de moleque”, cujas pedras

tinham tamanhos e espessuras diferentes, causando desnível na superfície dos caminhos, explica. Somavam-se ainda ao calçamento grosseiro o mato crescente nas ruas e muitos alagadiços. “Vitória era reconhecidamente uma cidade brejo, porque tinha braços de mar que entravam na ilha e a nascente da Fonte Grande, de onde descia água. Então isso fazia com que a cidade ficasse inundada durante períodos de chuvas torrenciais”, esclarece. O cenário era precário, mas a pesquisa mostra que ainda assim a população ocupava as ruas. “A lama desses brejos, as pessoas usavam para se lambuzar, para sair pelas ruas brincando mascaradas. Festas religiosas aconteciam o ano todo. Então, sim, Vitória era uma festa se atentarmos para o fato de que de terça a domingo havia eventos na cidade, tais como procissões, peças teatrais improvisadas a céu aberto e batuques. Pode não ser aos moldes do Rio de Janeiro do século XIX, mas o Rio de Janeiro não é padrão, é exceção”, explica a pesquisadora. Segundo Fabíola, citando o professor Geraldo Antonio Soares, o fator geográfico foi outro determinante na construção de uma sociabilidade informal intensa, pois Vitória era uma cidade muito pequena, com 12.704 habitantes em 1827, entre indivíduos livres e escravos; ao passo que, no censo de 1872, a população total da Capital não ultrapassava os 4.361 indivíduos. As razões para essa diminuição no número de moradores, de acordo com a pesquisadora, são desconhecidas. “Especula-se que epidemias e migração intra e interprovincial tenham contribuído para essa redução. No entanto, faltam pesquisas que comprovem isso”, destaca Fabíola. Ela explica que a faixa urbana da cidade ia da rua Cristóvão Colombo, onde fica o Chafariz da Capixaba, até o alagado do campinho, que é o atual Parque Moscoso. “O torrão urbano de Vitória era, então, muito pequenino, onde praticamente todos deviam se conhecer”, afirma a pesquisadora. Ao atestar que as sociabilidades eram intensas e que a cidade tinha um cotidiano marcado por festas, encontros e acontecimentos sociais, Fabíola lembra que, para efeito de comparação, a Província do Espírito Santo deve ser analisada em relação a províncias periféricas, que não gozavam de grande destaque no cenário da política imperial. Era comum essas regiões serem vistas como trampolim para alavancar a carreira de políticos que, vindos de fora (não nascidos nessas províncias ou nelas não residentes), se candidatavam por essas províncias na tentativa de se tornarem conhecidos, aspirando atingir funções públicas melhores no futuro. UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Dez 2014

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tese Jornais Os traços da história capixaba revelados na pesquisa foram percebidos a partir de uma sistemática leitura de jornais que circulavam na capital na segunda metade do século XIX. A primeira publicação da província foi O Estafeta, em 1840, mas que teve uma única edição. Portanto, a criação do Correio da Victoria, em 1849, é considerada o início da imprensa local. Fabíola explica que a imprensa foi um empreendimento tardio no Estado, se comparado a outras regiões do Império que registram essa iniciativa desde a década de 1820: Pernambuco em 1822, Minas Gerais em 1823, Maranhão em 1821, São Paulo em 1828 e Pará em 1820. “A pesquisa está baseada no Correio da Victoria e no Jornal da Victoria porque foram os jornais com a maior quantidade de publicações no período estudado. Eu precisava de um corpus documental o mais homogêneo possível para ter condições de fazer uma amostragem mais próxima do real”, justifica Fabíola. O Correio da Victoria circulou de 1849 a 1872, inicialmente publicado duas vezes por semana, passando depois a três edições semanais. O Jornal da Victoria foi editado de 1864 a 1869, também duas vezes por semana, porém às vezes saindo três edições semanais. Além de analisar as sociabilidades, Fabíola também acaba observando características da imprensa capixaba do século XIX que, segundo ela, “era uma imprensa censurada pela elite política provincial, que muito eficazmente bloqueava as iniciativas de questionamento político”. O Correio da Victoria foi um jornal subvencionado pelo governo por mais tempo que o Jornal da Victoria, que se torna

Fonte: PDF do site do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo

As páginas do Correio da Victoria e do Jornal da Victoria serviram de fonte para a pesquisa

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órgão oficial na década de 1860, quando os liberais ascendem ao poder. “Quando eles mudam o tom e passam a ser órgão oficial, começam a reproduzir notícias oficiais, relatórios de presidentes de província, atas das sessões; publicando, assim, o discurso oficial”, analisa Fabíola. Por outro lado, a seção “Publicações a Pedido” mostra uma face diferente da cidade. Trata-se de mensagens de particulares, enviadas aos jornais para serem publicadas. De acordo com a legislação provincial, elas deviam ser identificadas pelos autógrafos, ou seja, pelas assinaturas; mas a maioria delas era feita no anonimato ou com o uso de pseudônimos, como mostra a pesquisa de Fabíola. “Em geral, essas notas tratavam sobre regulação de comportamentos: ‘fulano, para de namorar em frente a minha casa, minha janela não é lugar para eu ficar vendo essas coisas’; ‘fulana, você que deixou o sapato na casa de fulano depois do baile, eu vi que você fez isso, só que ele não vai encontrar porque eu peguei o sapato’, exemplifica Fabíola com a propriedade de quem conta uma história da qual participou. Em resumo, eram publicações voltadas para o controle social da vida alheia, um ajuste de costumes e moral, mas também havia publicações relativas à rotina do local. A realização de festas, de procissões, necessidade de reparo em determinada rua, conserto de chafariz, eram assuntos característicos das publicações a pedido. “A população reclamava, peticionava via imprensa, e isso publicizava uma indignação, fazendo com que as autoridades se sentissem obrigadas a tomar uma atitude”, salienta a pesquisadora. Além da função de questionar o poder público, Fabíola constatou a importância dos jornais para a economia local. Os anúncios publicitários tinham estreita ligação com a atividade comercial, por exemplo: “Há um tipo de notícia bastante inteligente, que seria uma espécie de SPC-Serasa grosseiramente falando. Como se faz para um inadimplente pagar a você no século XIX? Você ameaça publicar o nome dele”, explica a historiadora. Segundo ela, os credores publicavam cobranças nos jornais, chamando as pessoas a comparecerem nas lojas para tratar de assuntos de seu interesse, do contrário os nomes seriam publicados. A publicação dos nomes causaria um grande estrago na reputação do devedor, já que Vitória era uma cidade pequena, e a prática comercial de “venda a caderneta” era comum. Diante desses exemplos, Fabíola chegou à conclusão de que o jornal era um espaço de sociabilidade, o que ela chamou de sociabilidade impressa. Segundo ela, o jornal não era um meio apenas de registro do


Fonte: Arquivo

cotidiano, de notícias; mas um espaço cujas páginas eram ocupadas por particulares. “Os jornais não se furtavam de ser partícipes do momento que a Província e Vitória viviam; então eles refletem a conjuntura pela qual a Capital estava passando, os momentos políticos que ela vivenciava, as disputas, as mudanças no cotidiano da população, as práticas de sociabilidade, o surgimento de clubes, de uma nova rotina no cotidiano”, enfatiza Fabíola. “Ainda que imperasse o silêncio quando se tratava de questões políticas locais, a mudez em relação a esses assuntos diz muito. Tratava-se de uma imprensa controlada pela elite política local, principalmente em termos financeiros, já que o governo provincial subvencionava a impressão dos exemplares por contratos firmados entre a Assembleia Provincial e os proprietários dos jornais”, completa a pesquisadora.

Fabíola Martins Bastos estudou as sociabilidades informais em Vitória no século XIX

Para além dos jornais Sabe-se que os jornais eram produzidos visando a um público leitor muito restrito, dados os índices altíssimos de analfabetismo no Brasil como um todo do Oitocentos; porém, Fabíola acredita que as leituras coletivas em voz alta (prática comum nas sociedades dos séculos XVII e XVIII) e a reprodução das notícias por meio de boatos contribuíram para alargar o público leitor dos impressos capixabas, possibilitando que a população em geral tivesse acesso ao conteúdo dos jornais. Além dos jornais, ela pesquisou outras fontes para compor a narrativa do cotidiano do município de Vitória: autos criminais de injúria e agressão física e petições de particulares enviadas à Câmara Municipal de Vitória. Sobre os autos criminais, Fabíola explica que fez uma “leitura ao contrário”. Desta fonte, ela conseguiu extrair algumas peculiaridades do cotidiano local e da rotina da cidade. “Um auto criminal que trata de agressão física diz sobre o conflito, sobre a desordem. Eu o lia ao contrário, procurando sobre a ordem, sobre o estado anterior das coisas”, esclarece a pesquisadora. Ela reforça que, a partir dos autos criminais, conseguia perceber os códigos informais de convivência partilhados pelos moradores das freguesias do município de Vitória: como as pessoas se relacionavam, como conviviam, o que era considerado ponto pacífico, o que era proibido. As petições, de acordo com Fabíola, fornecem informações relacionadas à vida pública da Capital.

Petições são requerimentos feitos por particulares aos vereadores da Câmara Municipal de Vitória. Na pesquisa, a historiadora mostra que as mais comuns tratavam de pedidos de licença para fazer festa, revisão de imposto, autorização para abrir loja, para vender bebida alcoólica, reclamação contra abusos promovidos por fiscais da Câmara, entre outras. Para a pesquisadora, a importância dessa fonte está em perceber como os particulares se relacionavam com o poder público. E esses documentos também deram a visão de quem organizava os eventos em Vitória. “Eu consigo, por essas petições, saber inclusive quais eram as ruas das procissões”, detalha. Ao final de seu estudo, Fabíola pôde destacar a pujança das ruas de Vitória, passando pelas festas e indo até aos conflitos entre os capixabas. Mesmo que o objetivo do trabalho não fosse esgotar os modos de convivência observados na cidade, fica claro que a imagem de marasmo cristalizada no repertório da historiografia tradicional foi questionada com os números, fatos e detalhes apresentados na pesquisa da historiadora. No doutorado, Fabíola dá continuidade aos estudos da sociabilidade, porém, agora, investigando também as sociabilidades formais que, segundo ela, aparecem timidamente no final da década de 1860 e são cada vez mais crescentes no início da década de 1870 e seguintes do século XIX. A tese explora a formação de uma esfera pública de opinião em Vitória a partir do estudo das sociabilidades políticas.

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Foto: Divulgação

P ES Q U I S A

O oceano tem memória Letícia Nassar

Pesquisa analisa a temperatura da superfície do mar e sua relação com a atmosfera. O estudo é desenvolvido no LabPosseidon, laboratório do Departamento de Oceanografia, e suas conclusões poderão ajudar também nas previsões meteorológicas para o Estado

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“C

huva também é água do mar lavada”, diz um dos versos da letra da música “Água também é mar”, de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte. Cantado em verso, prosa ou literalmente em cifras musicais, o mar exerce sobre o imaginário humano uma atração, por conta dos mistérios que o tornam intrigante. Os navegantes desafiaram as ondas e os supostos monstros e descobriram outras terras e outras gentes. Mas, para a ciência, ainda faltam muitos mistérios a serem desvendados. Que as lágrimas derramadas pelo céu também são água do mar, a ciência já constatou. Mas os cientistas ainda navegam por muitos mares revoltos para entender, entre outros mistérios, como a relação entre os oceanos e a atmosfera se processa de modo que nós, seres do continente, possamos participar dessa interação e nos preparar para quando algo de muito ruim estiver prestes a acontecer. Pedindo licença à poética, mas mantendo o mesmo encanto, o Laboratório de Pesquisa e Simulação sobre a Dinâmica do Oceano (LabPosseidon), do Departamento de Oceanografia da Ufes, realiza um estudo sobre a ressurgência, movimento ascendente das águas frias profundas do mar para a superfície, na costa do Espírito Santo. É a pesquisadora Meyre Pereira da Silva, sob a coordenação do professor Renato David Ghisolfi, quem desenvolve esse projeto, que tem como título Estudo Numérico da Interação entre a Corrente do Brasil e Águas da Plataforma Continental do Espírito Santo: Variabilidade Sazonal e Interanual, objetivando, principalmente, compreender o processo de ressurgência costeira e as interações entre o vento, a temperatura da superfície da água do mar e a atmosfera. Meyre explica que “oceano e atmosfera transferem informações entre si. Os ventos formam as correntes que vão influenciar a distribuição da temperatura da superfície do mar, ao mesmo

tempo essa temperatura controla a umidade que o oceano passa para a atmosfera. O oceano é a principal fonte de umidade da atmosfera.” Assim, se há muita evaporação, esse vapor d’água condensa em chuva ou, nas altas latitudes, em neve. Essa é a principal fonte de energia para a atmosfera, que gera ventos que vão afetar a costa. “Entender a temperatura da superfície do mar é também entender onde essas regiões de convergência se formam, como, com qual intensidade e variabilidade. Por exemplo, se a água está mais quente aqui na nossa região, esses ventos vão convergir em cima de nós, haverá mais vapor e, então, mais chuva. É um sistema superconectado”, diz a pesquisadora. “O estudo, então, vai contribuir para as previsões das variabilidades climáticas no Espírito Santo, pois o oceano tem memória, mesmo que as variabilidades sejam lentas. Se a temperatura da superfície do oceano da nossa costa, por exemplo, começar a ficar mais quente, ela tenderá a continuar a aquecer por algumas semanas ou meses. Ao sabermos disso e como essa temperatura afeta os ventos, já saberemos que haverá convergência, uma probabilidade de que o verão, por exemplo, será chuvoso. E isso pode ser previsto com dois ou três meses de antecedência”, completa Meyre. Aliás, como explica o professor Renato David Ghisolfi, “a falta de uma boa base de dados limita também o estabelecimento de medidas preventivas para reduzir os riscos à vida e à propriedade causados pelas mudanças na temperatura, elevação do nível do mar, assim como pela intensificação dos eventos climáticos extremos associados a essas mudanças”. Ghisolfi afirma que não é uma questão do “poder acontecer”, mas “do quando vai acontecer”. Estações de monitoramento A ressurgência costeira é um fenômeno que traz para a superfície dos oceanos as águas profundas que são ricas em nutrientes. Esse movimento é provocado pela rotação da Terra e pelo atrito dos

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P e s qui s a ventos na superfície do mar, levando as águas costeiras para o alto-mar. Na costa capixaba, a ressurgência é determinada pela ação do vento, das ondas, das correntes da maré, do transporte literâneo e da Corrente do Brasil. “O litoral do Espírito Santo apresenta uma intensa dinâmica costeira com grande importância ecológica e econômica. Uma região que engloba desde atividades humanas locais até mudanças naturais características do local e das mudanças climáticas globais”, explica Ghisolfi. “A ressurgência aqui no Espírito Santo cria uma diferença grande de temperatura e temos, então, as frentes térmicas, águas quentes e frias na superfície do oceano. A atmosfera responde a essas regiões de frentes. Ao conhecermos a variabilidade das frentes, poderemos saber como a atmosfera está reagindo”, acrescenta Meyre. As pesquisas já implementaram o primeiro modelo biogeoquímico na costa do Espírito Santo. Meyre explica que “esse modelo simula a produtividade biológica marinha, utilizando duas classes de fitoplâncton e duas classes de zooplâncton. O modelo descreve também o ciclo biogeoquímico do carbono e dos principais nutrientes, como ferro, fósforo, nitrogênio e silício. Todos são nutrientes que têm um impacto direto na produção pesqueira”. A região costeira do Estado possui, segundo Meyre, uma rica importância biológica em comparação com outros estados, como a presença de bancos submarinos, o banco de Abrolhos e sua biologia associada, além de servir como rota migratória para a baleia Jubarte e a tartaruga marinha. “Estamos aprimorando o nosso conhecimento

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físico oceanográfico da região, e também compreendendo melhor a influência do fluxo oceânico nos aspectos biológicos. Essas informações servem de suporte para os modelos de reciclagem de nutrientes e transporte de larvas pelas correntes marinhas, além de modelos numéricos de derramamento de óleo”, diz a pesquisadora. Com base nos estudos sobre modelos e nas informações obtidas nesses últimos anos do projeto, em breve um navio da Marinha que faz pesquisas oceanográficas fará o fundeamento de instrumentos para medir correntes. Serão três fundeios na cadeia Vitória-Trindade, para conhecer o comportamento da Corrente Brasil, e três sensores de temperatura na costa do Espírito Santo. Todos permanecerão no mar por um ano. Na opinião de Meyre, monitorar esse diálogo entre o oceano e a atmosfera colocará o Espírito Santo na vanguarda. “O Estado será uma referência para outros estados, pois terá um monitoramento associado com modelagem para fazer previsões e, assim, preparar-se para ações climáticas”, destaca. Mas, para que isso aconteça, também seria necessário implantar estações de monitoramento que fariam a medição da temperatura da superfície do mar e sua relação com a atmosfera, além de outras avaliações. “A nossa pesquisa, que conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em conjunto com as outras desenvolvidas no LabPosseidon, almeja a construção dessas estações. As análises que desenvolvemos nos


Foto: Rafaela Laiola

dois últimos anos apontam o quão importante é essa relação entre o oceano e a atmosfera na prevenção de catástrofes provocadas, por exemplo, por temporais, como a tragédia que ocorreu aqui em dezembro de 2013”, salienta a pesquisadora. O professor Ghisolfi destaca que as pesquisas em desenvolvimento no LabPosseidon podem tornar mais eficientes as previsões climáticas para o estado. “A tendência nacional é a de usar modelos globais para a previsão de cenários de mudanças climáticas. Apesar de serem adequadas para estudar os processos de larga escala e para quantificar as influências climáticas externas no clima da América do Sul, os mesmos são inadequados para a previsão de fenômenos em uma faixa tão estreita como a zona costeira do Espírito Santo. Assim, a falta de conhecimento dos processos que controlam a dinâmica costeira amplifica os eventuais problemas causados pelas mudanças climáticas”. Toda pesquisa envolve financiamento. Ghisolfi concorda que os custos necessários para aquisição e manipulação da informação meteoceanográfica e suas análises exigem recursos financeiros e humanos e, até por isso, a busca por financiadores do setor privado é contínua e o apoio que tem dos agentes de financiamento públicos é essencial. Contudo, “deixar de monitorar o ambiente marinho pode representar um custo certamente maior que o próprio monitoramento para o Estado e a sociedade em geral. Mas isso pode ser minimizado por meio de redes regionais que envolvam tanto a Ufes quanto as empresas e os segmentos da sociedade que são beneficiados diretamente pelas medições. Estabelecemos, assim, uma cadeia de

Meyre Pereira da Silva, pesquisadora do LabPosseidon

agentes e eventos: o usuário da informação participa diretamente da coleta, novas metodologias são investigadas, a inovação tecnológica é incentivada e a formação continuada de pessoas está assegurada”, completa ele. A pesquisa de Meyre e as dos seus colegas do LabPosseidon envolvem inovações metodológicas que resultarão em informações que trarão benefícios, principalmente, para a sociedade capixaba, mas que irão se propagar em outros mares.

Figuras: Arquivo

Primeira figura: Imagem do satélite GOES 13 - infravermelho com a pressão ao nível do mar sobreposta - dia 17/12/2013. Destaca-se nessa figura a presença de alta nebulosidade sobre o estado do Espírito Santo. Esta imagem foi retirada do site bioblimaufv.blogspot.com. Segunda figura: Temperatura da superfície do mar simulado com o modelo ROMS (Regional Ocean Model System) implementado para a Plataforma Leste e Sudeste do Brasil. Esta figura mostra a temperatura média para o mês de setembro, onde o processo de ressurgência é mais intenso, criando uma forte frente térmica junto à costa do Espírito Santo. Terceira figura: Acumulado de sete dias de chuva sobre a América do Sul até as 15h00min de 22 de dezembro de 2013 (UTC), em imagem gerada pelo satéliteTropical Rainfall Measuring Mission da Nasa. Áreas em vermelho destacam regiões onde a precipitação acumulada em sete dias foi maior do que aproximadamente 350 mm. Esta imagem foi tirada do site pt.wikipedia.org/wiki/Enchentes_no_Sudeste_do_Brasil_em_2013 .

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E X TENS ã o

Em defesa

da vida Luiz Vital

O Centro de Estudos de Promoção em Alternativas de Saúde (Cepas), o mais antigo programa de extensão da Ufes, completa 30 anos de atuação comunitária e construção de cidadania

“T

omar a iniciativa e defender a vida”. Este é o lema que move e impulsiona o programa de extensão mais antigo da Ufes, que em 2014 completou 30 anos de atividades. O Centro de Estudos de Promoção em Alternativas de Saúde (Cepas) desenvolve o projeto denominado “Promoção de cuidados primários de saúde em uma comunidade”, registrado na Pró-Reitoria de Extensão em 1984. A ação de extensão é realizada no bairro Loteamento das Laranjeiras, no município da Serra, na Região Metropolitana da Grande Vitória, e mobiliza professores, estudantes e servidores técnicos da Ufes, além de voluntários. São 1.327 famílias cadastradas que recebem orientações básicas de saúde de professores e estudantes. O passo inicial no trabalho do Cepas é a abordagem por meio de visita domiciliar. As etapas seguintes são: o cadastramento voluntário da família com o registro de todos os seus membros, com nome, idade, peso, altura, histórico de saúde, renda, religião, raça, trabalho e ocupação, escolaridade, entre outros dados. As visitas são agendadas e, ao fim do dia, após o cumprimento das agendas, os monitores se reúnem com os professores para as avaliações dos resultados, quando são decididas as providências sobre os cuidados necessários a cada família. Na identificação de cada realidade familiar verifica-se a necessidade de encaminhamentos ao médico, de realização de exames laboratoriais, se é preciso uma pesquisa mais detalhada sobre alguma

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patologia detectada, se as rotinas diárias precisam ser alteradas, se vacinas precisam ser atualizadas. O trabalho também inclui o acompanhamento do uso correto de medicamentos, além de recomendações quanto às condições sanitárias, higiene, entre outras relacionadas ao ambiente familiar. De acordo com o coordenador do Cepas, o professor Pedro Florêncio da Cunha Fortes, do Departamento de Medicina Social do Centro de Ciências da Saúde (CCS), localizado em Maruípe, Vitória, a atuação do projeto não se limita exclusivamente à cura de doenças. “Buscamos o desenvolvimento pleno do indivíduo, com bem-estar físico, psíquico, econômico e social, de modo que a comunidade em que ele vive ganhe qualidade de vida”, explica. Para o professor, o Cepas considera essencial o que preconiza a Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo a qual a saúde não é apenas a ausência de doença, mas um conjunto de fatores individuais e coletivos que, em harmonia, produzem bemestar ao indivíduo. Clínica a céu aberto Em 30 anos, centenas de estudantes passaram pelo Cepas, que apresenta um perfil extensionista multidisciplinar, com atuação em áreas como Medicina, Odontologia, Enfermagem, Educação Física, Pedagogia, Serviço Social, Administração, Engenharia e outras. A presença de estudantes de Medicina é permanente, em todos os semestres, já que os alunos deste curso que se matriculam na disciplina


Fotos: Rafaela Laiola

Famílias do bairro Loteamento das Laranjeiras são cadastradas e atendidas pelo projeto Cepas

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extensão Foto: Rafaela Laiola

Sistemas de Saúde, obrigatória – ministrada pelos professores Pedro Fortes e Ipojucan José Oliveira Dias de Almeida – podem optar por atuar no Cepas. A disciplina estuda estruturas, processos e políticas de saúde pública no Brasil e em outros países. “Ao optar por participar do projeto, o estudante ganha a possibilidade de estabelecer contato direto com a realidade, o que enriquece a sua formação acadêmica”, argumenta Fortes. “Em uma comunidade carente, os estudantes têm diante de si uma clínica geral a céu aberto”, ressalta.

“Participei do Cepas em 2007 como estudante de Medicina da Universidade de Guttemberg, Alemanha. Vi como as crianças da comunidade aproveitavam a oportunidade para crescer com as lições que recebiam. Pude acompanhar os estudantes da Ufes nas casas das famílias, e aprender com elas. Descobri que rotinas absolutamente normais para mim, não eram para aquela gente, como lavar as mãos, beber água limpa, manter a limpeza da casa. No trabalho do Cepas, compreendi que a população mais vulnerável são as mães que cuidam dos filhos sozinhas. E esta compreensão foi algo tão importante que deu uma nova direção à minha vida profissional. Então, me tornei ginecologista e obstetra e, atualmente, trabalho na República do Quênia, um país da África Oriental, onde moro com a minha família. Estou muito feliz com o meu trabalho e devo isto ao Cepas.” Martina Neudegger, médica alemã, ex-intercambista do Cepas

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Foto: Arquivo

“Nova direção na vida”

Para o professor, esse contato dos alunos de Medicina com o dia a dia de uma comunidade com elevado índice de pobreza provoca neles a necessidade de estudar mais, de pesquisar diferentes patologias e tratamentos – seja na literatura médica, seja com os professores e médicos – porque são permanentemente exigidos a tomar atitudes e buscar respostas. “Além de ser um profissional em formação, o estudante desenvolve noções muito consistentes para o seu futuro sobre a importância da cidadania e do compromisso social”, enfatiza Fortes. Segundo ele, o programa de extensão promove constante interação entre o ensino e a pesquisa. Coordenados pelos professores, os estudantes levam às casas orientação sobre planejamento familiar, pré-natal e saúde da mulher, imunização, reforço escolar e saneamento básico, por exemplo. A região de abrangência do Cepas é dividida em quatro áreas, cada qual com níveis diferentes de atenção. Uma determinada área, com o processo de conscientização das pessoas, a urbanização do lugar e a melhoria das condições de vida, passa a exigir menos do projeto. Outra área, porém, pode exigir mais atenção por ter uma realidade inversa. O programa de extensão também organiza grupos específicos entre os moradores, reunindo idosos, mulheres, crianças, adolescentes, prestando esclarecimentos e informações sobre os cuidados com


a saúde e o bem-estar no cotidiano. “Esse contato muito próximo com a comunidade vai possibilitar que o estudante, no futuro, seja um profissional melhor”, sustenta o professor. O programa de extensão foi idealizado por cinco professores: Pedro Fortes e Ipojucan de Almeida, do curso de Medicina; Margarete Rose Sampaio Fortes, de Enfermagem; além de Aprígio da Silva Freire, de Odontologia; e Virgínia Régia Carneiro Sampaio, de Enfermagem; ambos falecidos. Sua criação começou a ser concebida em 1982, no então curso de Residência em Medicina Geral Comunitária, com atuação na Capital, Vitória. Posteriormente, segundo Pedro Fortes, o projeto se deslocou para o município de João Neiva, Norte do Estado, ocupando um espaço deixado pelo antigo Projeto Rondon, do governo federal, e funcionou na comunidade do Morro da Caixa D’água, de 1984 a 1987, e, depois, na comunidade de Cristal, no mesmo município, de 1987 a 1990. Em setembro de 1990, o programa de extensão da Ufes se fixou em Jacaraípe, Serra. “A ideia essencial do projeto foi mantida”, relembra a professora Margarete Fortes, pioneira do Cepas. A região escolhida, segundo ela, era uma invasão com cerca de

600 famílias, vivendo em precárias condições de vida e em extrema pobreza. Inicialmente, a região foi dividida em três áreas, com 80 famílias cadastradas. “A continuidade das invasões e o aumento da pobreza nos levaram a criar mais uma área de atuação”, diz a professora. Atualmente, o Cepas possui uma sede no local, onde funcionam uma biblioteca, sala de atendimento e reforço escolar, informática, cozinha, refeitório e secretaria. “O trabalho desenvolvido na extensão comunitária é uma oportunidade para os alunos irem além do aprendizado por meio dos livros e da sala de aula, podendo romper os limites da educação formal e adquirir outros conhecimentos relacionados ao dia a dia da comunidade”, defende o professor Pedro Fortes. Ele acredita que a dedicada participação dos estudantes se deve ao fato de que, no projeto, eles retomam o vínculo perdido com a comunidade quando ingressam na Universidade. O segredo para uma ação de extensão tão duradoura, como esta da Ufes, com três décadas, é assim definido pelo professor: “Creio que se deve às pessoas que acreditam que este é um movimento proativo, afirmativo e de excelentes resultados do ponto de vista social;

“Aprendi muito com as crianças”

Michael Räuchle, médico austríaco, intercambista do Cepas em 2004 Foto: Arquivo

“Há 10 anos fui ao Brasil para participar do intercâmbio do Cepas como estudante de Medicina. Soube da existência do projeto em 2002, quando o professor Pedro Fortes fez uma palestra na Universidade de Viena. Outros estudantes austríacos já tinham participado e me informaram sobre as suas experiências. Fiquei imediatamente interessado. Aprendi português e fiz um curso especial para estudantes de Medicina no Instituto da América Latina. Fui para o Espírito Santo em julho de 2004. Uma família muito simpática me abrigou generosamente em Vila Velha. Então, comecei a atuar no projeto, fazendo o longo trajeto de ônibus entre Vila Velha e Jacaraípe, na Serra. No Cepas aprendi muito, especialmente com as crianças; visitávamos as famílias do bairro, e conheci pessoas maravilhosas: a equipe do Cepas, as famílias envolvidas pelo projeto, os colegas estudantes da Ufes e do intercâmbio. Eu me lembro com alegria da tradicional festa junina que organizamos com as crianças. No segundo mês, por meio do Cepas, fiz um estágio no Hospital Universitário (Hucam), em Vitória, onde tive o meu primeiro contato com a

Radiologia. Hoje sou médico sênior nesta área. Em 2008, voltei ao Espírito Santo para comemorar a colação de grau da minha estudante-hospedeira, a Gabriela, no curso de Medicina da Ufes, e voltei ao Cepas para relembrar e agradecer pela oportunidade da experiência. Jamais vou me esquecer daquele tempo, que foi muito importante para a minha formação acadêmica. Tenho orgulho de fazer parte desses 30 anos do Cepas.”

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extensão e também à garra e ao despojamento dos estudantes para este desafiador exercício de aprendizagem”. De acordo com o professor, esse entendimento que envolve as pessoas do programa justifica o lema “tomar a iniciativa e defender a vida”.

Portas sempre abertas O pedreiro aposentado Marcelino Gonçalves, 57, sua mulher Ana dos Santos, 56, e a neta Emily, 3, formam uma família cadastrada no Cepas. Os três moram numa casa modesta na comunidade de Loteamento das Laranjeiras, na Serra, e recebem a visita quinzenal dos monitores. Marcelino recebe atenção especial por ter problemas cardíacos e por se submeter a medicação diária. A estudante Bárbara Barcelos mede a pressão arterial dos adultos, confere os medicamentos que estão sendo usados, e orienta o homem a agendar nova consulta com o médico e relatar os sintomas que sente. Ana é orientada a fazer exames preventivos, como mamografia, a atualizar as vacinas de Emily e realizar exames pediátricos no posto de saúde próximo. “É com alegria que recebemos a equipe do Cepas”, comemora dona Ana. Acompanhada do professor Ipojucam de Almeida, Bárbara se despede da família e se desloca até a casa de Wanderson Pedreiro, pedreiro, e Larissa de Oliveira, cabeleireira. No percurso, a mesma receptividade. Assim como o vizinho Marcelino, Wanderson está construindo a própria casa. Larissa está na sua quarta gravidez, considerada de risco – teve trombose e tem problemas de circulação sanguínea – e necessita de rigoroso acompanhamento médico. A equipe do Cepas é muito bem recebida pela família, e a conversa avança por pouco mais de uma hora. Larissa explica o que sente, relata suas preocupações e ouve, atenta, as recomendações. Ela deverá ser assistida por um especialista, e a sua gestação monitorada, devido aos riscos. “A porta da nossa casa está sempre aberta para eles”, diz Larissa sobre os integrantes do Cepas. Foto: Rafaela Laiola

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Ação tem reconhecimento internacional Atualmente, o programa atua com três bolsistas de extensão e dois de graduação, além dos monitores voluntários, totalizando 15 estudantes da Ufes e da faculdade Doctum. O Cepas alcançou reconhecimento internacional ao ser eleito como o melhor programa de extensão na área de saúde do Brasil por três anos consecutivos, de 1997 a 1999, pelo Congresso Brasileiro de Estudantes de Medicina (Cobrem). Esse reconhecimento despertou a atenção de instituições de ensino e pesquisa de outros países, que manifestaram interesse em conhecer o funcionamento do projeto. As parcerias com universidades estrangeiras, de acordo com Pedro Fortes, fortalecem a ação extensionista da Ufes e abrem portas para importante troca de experiências. O intercâmbio internacional com a Ufes envolve diversas instituições, sendo que o projeto já recebeu estudantes das universidades americanas de Harvard e West Virginia, e europeias, da Áustria, Alemanha, Noruega e Holanda. Com algumas delas o Cepas formalizou convênios, como as universidades de Viena, de Medicina de Viena, e de Graz, todas na Áustria; as universidades de Maastricht, na Holanda; e a de Ostfold, da Noruega. “O Cepas se tornou um campo de estágio para universidades estrangeiras, o que torna a Ufes uma referência internacional”, assinala Fortes. “O intercâmbio internacional permite uma mobilidade acadêmica muito produtiva para estudantes estrangeiros e os da nossa Universidade, possibilitando o contato com outras técnicas, experiências e realidades que enriquecem a formação profissional”, acrescenta o professor. Assim, o Cepas recebeu cerca de 250 estudantes do exterior, que ficam hospedados em casas de estudantes da Ufes. Em média eles permanecem no projeto por três meses, participam de atividades acadêmicas no Centro de Ciências da Saúde (CCS/ Ufes) e também no Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), obtendo certificado de estágio e prática extensionista. Os estudantes da Universidade, por sua vez, ganham oportunidades de realizar intercâmbio no exterior por meio do trabalho no Cepas. Na Europa, são recebidos por professores e estudantes que formam uma comunidade de amigos do Cepas/Ufes.


“É um grande aprendizado” Bárbara Barcelos, 22, e Francisco de Souza, 21, são dois estudantes do quarto período do curso de Medicina da Ufes. Nas tardes de quase todos os sábados, entre 13h e 17h, eles poderiam estar descansando ou se divertindo, algo comum na vida de jovens como eles. Entretanto, é quando eles vão para o Centro de Estudos de Promoção em Alternativas de Saúde (Cepas) enfrentar o desafio de enriquecer a sua formação acadêmica a partir do contato direto com os moradores de uma comunidade carente da Grande Vitória. Eles são monitores no programa de extensão da Universidade, do qual participam pelo segundo semestre consecutivo. “É um grande aprendizado”, resume Bárbara. “Um compromisso que assumi comigo mesmo”, completa Francisco. Calça jeans, camisa do Cepas, medidor de pressão arterial, estetoscópio, prancheta com o mapa da região e registros sobre o histórico de saúde das famílias cadastradas no programa, assim caminham os dois pelas ruas estreitas e becos de terra batida, entre casas humildes e barracos que revelam que, ali, a vida precisa de muita atenção. Invariavelmente são reconhecidos e cumprimentados por onde passam:

pela criança que improvisa uma brincadeira, pelo idoso sentado no portão da casa, pelo trabalhador que passa apressado, pela mulher pendurando roupas no varal. “Aqui encontramos todos os tipos de problemas; conhecê-los significa nos prepararmos para sermos profissionais melhores no futuro”, diz Bárbara. Pela experiência adquirida em dois semestres, Bárbara e Francisco coordenam e ajudam os demais bolsistas do projeto. “A comunidade é como uma biblioteca onde identificamos situações que nos levam a pesquisar sobre elas”, destaca ele. “Estar em contato com as pessoas eleva o nosso desenvolvimento humano”, acrescenta Bárbara. Eles contam que, muitas vezes, as pessoas nem querem falar sobre eventuais problemas de saúde. Querem apenas falar sobre as suas vidas, o que leva os estudantes a perceberem de que modo as rotinas diárias e suas circunstâncias acarretam doenças. Cursando o segundo período de Medicina, Matheus Compart, 19, nascido em São Mateus, considera o perfil de saúde da comunidade semelhante ao de algumas regiões onde morou, no interior do Estado, e não abre mão desse aprendizado. “Sei que é algo que vou levar sempre comigo”, afirma .

Foto: Rafaela Laiola

Foto: Arquivo

No alto, à esquerda, monitores de Medicina Bárbara Barcelos e Francisco de Souza, ao lado, o professor Ipojucam de Almeida e, acima, Pedro Fortes, coordenador do Cepas, desenvolvem atividades de atenção à saúde em comunidade carente

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Fotos: Rafaela Laiola

Px e e st qui e n s sã ao

A vida que passa

diante dos olhos Maíra Mendonça

Localizado em Maruípe, na Capital, o Museu de Ciências da Vida reúne mais de 300 peças, e o seu acervo é considerado um dos mais completos sobre a evolução humana do País

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E

m cerca de oito anos de existência, o Museu de Ciências da Vida, localizado no campus da Ufes, em Maruípe, Vitória, reúne cerca de 60 estudantes dos cursos da área médica e social. Com mais de 300 peças, o museu tem atualmente um dos mais completos acervos de evolução humana de todo o Brasil. Diante dos olhos atentos dos visitantes que por ele passam, a vida se revela em todas as suas dimensões e o que antes talvez fosse mistério, agora, começa a se mostrar como mais uma face da própria natureza humana. A história do Museu de Ciências da Vida


começa em 2007 com a criação do projeto de extensão Corpo Humano, coordenado pelo professor do Departamento de Morfologia da Ufes Athelson Stefanon Bittencourt, no qual os alunos visitavam o Laboratório de Anatomia da Universidade. Nessa época, já havia algumas peças sobre esta área, em sua maioria, doadas ou confeccionadas por ex-professores. Mas o projeto ainda era pouco para Athelson, que em 2008 criou o programa de extensão Museu de Anatomia da Ufes. No fim de 2010, Athelson propôs a elaboração do projeto Evolução Humana, que com o apoio da Prefeitura de Vitória, através do Fundo de Apoio a Ciência e Tecnologia (Facitec), permitiu a importação de muitas réplicas relativas ao tema. Com o tempo, a variedade das peças adquiridas – modelos didáticos, naturais e réplicas realistas – deu uma conotação mais ampla ao Museu. Se seu objetivo inicial era a Anatomia, agora ele contemplava também outras inúmeras áreas, tais como Citologia, Histologia, Fisiologia, Patologia, Evolução e Anatomia Comparada. Seu nome passou a ser, então, Museu de Ciências da Vida. Segundo o professor Athelson, a curiosidade despertada pelo Museu pode, inclusive, converterse em via de prevenção de doenças e de melhoria para a saúde, na medida em que mostra o desenvolvimento do corpo, bem como as doenças e suas consequências. “A gente quer se conhecer. É uma relação de nós conosco mesmos. O museu explora isso e acaba estimulando o ganho de conhecimento. Isso tudo está em nosso imaginário, e as pessoas não sabem realmente como é. O Museu permite essa aproximação”, diz. Apoio ao ensino básico Em paralelo ao Museu, inúmeros estudos são desenvolvidos nos laboratórios da Universidade. O professor Athelson explica que, em função da boa qualidade do material – visto que o acervo é composto também por réplicas de peças expostas em grandes museus de todo o mundo, como na Dinamarca e nos Estados Unidos (nas cidades de Nova York e Chicago) – eles podem ser utilizados por todas as faixas etárias, tanto para enriquecer as pesquisas dos estudantes universitários, quanto para estimular o aprendizado de crianças e adolescentes do Ensino Fundamental e Médio. “A ideia é que o nosso museu seja uma espécie de laboratório para as escolas de todo o Estado”, afirma. Pensando nisso, está em fase de elaboração pelos integrantes do programa de extensão o

projeto Professor Protagonista, em parceria com instituições de ensino como o Ministério da Educação (MEC). O trabalho consistirá na capacitação de professores de Ciências e Biologia em relação ao acervo do Museu de Ciências da Vida. O objetivo é que os educadores passem a encarálo como parte integrante de seu plano de aula, apropriando-se do conteúdo e participando ativamente das visitas com os alunos. Em abril de 2014 foi realizado um projeto piloto com 20 professores, cujos resultados estão sendo analisados. Para o professor Athelson, essa é uma oportunidade de mostrar aos adolescentes novas possibilidades. “Eu vejo essa iniciativa como um projeto de transformação. A partir dele nós conseguimos gerar uma transformação real, que vai atingir quem está na ponta, que é o aluno, a criança que está se formando. Um universo novo se abre e ele consegue enxergar um mundo que ainda não conhecia. E aí ele vai criando outros sentidos para a vida”, destaca, entusiasmado. A necessidade de conhecer o verdadeiro potencial do Museu diante do estímulo ao aprendizado dos jovens fez com que a estudante de Ciências Biológicas Jéssica Duarte, 23, organizasse uma pesquisa avaliativa com os próprios alunos. Entre os métodos de análise, estava a aplicação de exercícios antes e depois das visitas. Concluiu-se que houve um ganho de 38% de conhecimento por

O acervo contempla também as áreas de Citologia, Histologia, Fisiologia, Patologia, Evolução e Anatomia Comparada

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extensão

Fotos: Rafaela Laiola

Museu recebe estudantes do Ensino Fundamental e Médio de todo o Estado

parte dos alunos do Ensino Médio e de 26% por parte dos alunos do Ensino Fundamental. “Museus são instituições ricas, onde o educativo se mistura ao lúdico, além do seu forte caráter cultural. Essas características os tornam locais de aprendizado ativo. O processo de ensino-aprendizagem se dá de uma forma diferente, por exemplo, do que numa sala de aula convencional. A forma como as informações são apresentadas tornamse um atrativo, facilitando o canal de comunicação com o estudante”, explica Jéssica. A diferença também é percebida pelos que estão na outra ponta do processo, os educadores. Aline de Paula é professora da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Irmã Maria Horta, localizada no bairro Praia do Canto, em Vitória, e há 14 anos leciona a disciplina Biologia. Ela conta que sempre leva os alunos ao Museu de Ciências da Vida, a fim de complementar o conteúdo visto em sala de aula. “As visitas não são passeios escolares. Elas funcionam como conclusão de assuntos previamente desenvolvidos em sala de aula”, frisa. E completa: “Eles se interessam muito pelas aulas práticas, tanto as desenvolvidas na escola como as que ocorrem fora do ambiente escolar.

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Não temos desistência nem falta de alunos nesta aula no Museu”. A tentativa de investir na formação continuada de professores foi mais além: cientes das dificuldades dos professores frente à complexidade do sistema nervoso, os pesquisadores do Museu trabalharam no desenvolvimento de um material didático de apoio. Por meio do projeto intitulado Neurociências na Atualidade: um estudo prático e dinâmico do conteúdo de sistema nervoso, no Museu de Ciências da Vida, foi produzido um modelo didático de encéfalo humano em gesso, utilizando-se da técnica de produção de moldes por borracha de silicone. O modelo de encéfalo humano usado como molde faz parte da coleção do Museu e é uma reprodução tridimensional fiel do encéfalo de um homem adulto. A proposta, conforme salienta o professor Athelson, é que cada educador receba uma réplica, cujo custo de fabricação é de cerca de apenas R$ 1,00. O projeto faz parte do trabalho que Marina Cadete, 25, licenciada em Ciências Biológicas, desenvolve em seu mestrado em Educação. “Essa pesquisa contribui para a melhoria do sistema


educacional, pois compõe o quadro reduzido de estudos no Brasil referentes à formação de professores em museus”, ressalta. Parceria Outro trabalho realizado pelos pesquisadores do Museu de Ciências da Vida e do Laboratório de Microscopia Eletrônica da Ufes, sob a coordenação do professor Marco Cesar Guimarães, resultou em uma experiência inédita no Brasil. Trata-se da ampliação e montagem tridimensionais de células por meio de um software de computador e imagens de microscopia eletrônica. O projeto foi concluído no fim de 2013. Ingrid Augusto, 22, participou ativamente da pesquisa. Estudante do curso de Ciências Biológicas da Ufes, atualmente ela participa de um intercâmbio na Austrália, através do programa Ciências Sem Fronteiras. Ela conta que o projeto consistia no corte sequencial de amostras de células sanguíneas, registradas no microscópio eletrônico. Ao sobrepor as imagens, os pesquisadores redesenharam o volume e os componentes desejados das células. Os modelos virtuais produzidos foram, então, enviados ao Instituto Nacional de Tecnologia, no Rio de Janeiro, onde estão sendo preparados para a impressão em 3D. “A maioria dos modelos didáticos celulares hoje disponíveis normalmente são representados bidimensionalmente ou tridimensionalmente, porém baseados apenas em ilustrações da célula. Já os modelos celulares desenvolvidos durante esse trabalho têm o diferencial de serem tridimensionais e ao mesmo tempo mais próximos da realidade”, explica Ingrid. Plastinação Pensando no desenvolvimento do Museu de Ciências da Vida, os pesquisadores começam a investir em uma recente técnica de conservação de corpos, sem que haja a necessidade da utilização de formol. Em síntese, o processo de plastinação consiste na retirada de todo o líquido dos tecidos, que é substituído por uma resina, sem que haja nenhum odor, e conservando as características originais das peças. “Isso garante uma conservação muito maior dos materiais”, afirma o professor Athelson. O laboratório de Plastinação já começou a ser montado na Ufes. Para além da conservação, a nova técnica é importante, pois permite ainda outras possibilidades: com ela, todas as peças poderão ser tocadas, promovendo uma nova experiência por parte

dos visitantes, auxiliando, inclusive, os deficientes visuais, que agora poderão, através da sensação tátil, interagir com os demais. Há tempos a acessibilidade é uma preocupação dos integrantes do programa de extensão. Preocupação que já os levou a realizar, também, exposições com intérpretes voluntários para mais de 200 pessoas com dificuldades de fala e audição. “Uma atitude simples, mas fundamental para a inclusão dessas pessoas”, lembra Athelson. Já existem peças no museu em alto-relevo, feitas especificamente para deficientes visuais.

Exposições itinerantes Os integrantes do Museu de Ciências da Vida já realizaram várias exposições itinerantes pelo Estado, como nos municípios de Santa Teresa e Venda Nova do Imigrante, na Faculdade de Medicina Emescam, na Praça do Papa e no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), em Vitória. Ao todo, mais de 120 mil visitantes participaram dos eventos.

Professor Athelson Stefanon Bittencourt coordena o Museu de Ciências da Vida

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E NTRE V I ST A

Megaeventos:

“Metáfora de país desenvolvido” Emília Manente

O carioca Otávio Guimarães Tavares da Silva é professor associado do Centro de Educação Física e Desporto da Ufes, onde coordena o Programa de Pós-Graduação (PPGEF). Graduado em Educação Física pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestre e doutor pela Universidade Gama Filho (RJ), o professor tem como áreas de interesse os estudos socioantropológicos das práticas corporais, estudos olímpicos e educação física escolar. Ele integrou ainda o grupo de trabalho criado pelos ministérios da Educação e do Esporte para elaborar o projeto da Universidade do Esporte. Nesta entrevista, o professor Otávio fala sobre a repercussão dos grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo de futebol, que foi realizada no Brasil em 2014, e as Olimpíadas que o País sediará em 2016 e explica como o legado desses dois megaeventos pode repercutir na sociedade brasileira. Os principais trechos da entrevista, realizada ao final da Copa do Mundo, podem ser conferidos a seguir.

Esses megaeventos, tanto jogos olímpicos como Copa do Mundo, mesmo quando não eram chamados de megaeventos – o conceito megaevento é muito recente, tem no máximo 15 anos – já tinham alcançado alguma representação simbólica como uma metáfora de país grande, de país desenvolvido. Só para se ter uma ideia, quando o Brasil comemorou o Centenário da Independência, em 1922, ele apresentou candidatura aos jogos olímpicos. É claro que, naquela época, a organização do sistema esportivo no Brasil era muito embrionária, e totalmente autônoma, não tinha nenhuma

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influência de governo. Então, um grupo de esportistas e dirigentes de São Paulo criou uma comissão olímpica nacional e propôs que, no conjunto das comemorações no Centenário da Independência, os jogos olímpicos fossem organizados no Brasil. Só que os jogos olímpicos têm uma periodicidade definida. Seria em 1920 depois em 1924, 1928. Chegaram efetivamente a apresentar candidatura, mas assim, já com a expectativa de mudar a data, uma coisa bastante inocente, quase irresponsável. Mas a ideia era essa, e o jornal O Estado de São Paulo da época já dizia mais ou menos assim: “o Brasil tem há muito tempo


Foto: Rafaela Laiola

inegável direito de realizar os jogos olímpicos”. De qualquer forma, houve a exposição do centenário que foi o primeiro megaevento do Brasil. Foi de setembro de 1922 a março de 1923 no Rio de Janeiro, então capital do País. Uma coisa fabulosa em termos de tamanho, de número de participantes, de construções. Os relatórios da época, por menos confiáveis que sejam, estimam três milhões de visitantes durante todo o período da exposição. As exposições internacionais eram uma marca de modernidade. Há um autor, Maurice Roche, que analisa jogos olímpicos e exposições internacionais como eventos típicos da modernidade. Os jogos olímpicos, por exemplo, fizeram parte de uma exposição internacional na França em 1900 e em Saint Louis, nos Estados Unidos, em 1904. Não tivemos os jogos olímpicos no Brasil, mas foram organizados os Jogos Sul-Americanos no Rio de Janeiro como parte da programação. Outra coisa interessante acontece em 1950 com a Copa do Mundo de Futebol. Também sofremos com obras atrasadas, estouro de orçamento, coisas do tipo. Não tinha a resistência pública porque a participação popular era menor do que a que a gente tem hoje. Mas, de fato, a organização da Copa do Mundo de 1950 teve um marco que foi a construção do estádio do Maracanã para ser o maior estádio do mundo. Isso foi uma marca importante para um país que queria ser desenvolvido. A mesma ideia de 1920 volta em 1992. Naquele ano, o então presidente Fernando Collor de Melo resolve que para as comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil o País deveria organizar as Olimpíadas, em Brasília, em 2000. Criou uma comissão liderada pelo então senador Paulo Otávio e fizeram um esboço de candidatura, tudo de maneira bastante improvisada, mas não lograram êxito. Metáfora de país grande Mas o que é recorrente nesses episódios relatados é essa associação entre copa do mundo e jogos olímpicos como metáforas de país grande. Uma utopia de país grande. ‘Nós somos grandes agora porque nós recebemos um negócio, conseguimos fazer um negócio deste tamanho’. Não foi à toa que o então presidente Lula, na entrevista que ele deu em Copenhague (Dinamarca) no dia da escolha do Rio de Janeiro para sede dos Jogos

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E NTRE V I ST A Olímpicos de 2016, às lágrimas, afirmou: ‘O Brasil agora mudou de patamar. Estava no segundo patamar e agora está no primeiro’. O próprio Lula verbaliza que o Brasil tirou o diploma de país grande. Esses megaeventos são vistos pelas elites políticas, historicamente, como uma metáfora de um bem-sucedido. Isso se sobrepõe às discussões mais pragmáticas sobre benefícios econômicos, sociais, de urbanização. Não que não sejam importantes, mas, como projeto para o País, essa questão se sobrepõe a uma discussão de caráter mais prático, se de fato jogos olímpicos dão lucro ou prejuízo para o País. Tem legado ou não tem legado? Há uma imensa literatura internacional sobre isso, discutindo essa questão, mas o centro do debate, no âmbito do governo, não é necessariamente esse. Primeiro vem o projeto de fazer para só depois vir a argumentação para dizer por que é bom fazer. Independe da liderança política ou da elite política que esteja exercendo o poder. Capacidade de sediar um megaevento x maturidade do país-sede A maturidade vem da experiência, mesmo ela sendo negativa. Não conheço estudos de avaliação sobre a exposição de 1922, a Copa de 1950, sobre a Eco92 no Rio de Janeiro, que foi outro megaevento, da Jornada Mundial da Juventude, do Rock in Rio e dos jogos Pan-Americanos de 2007. De fato o Pan de 2007 serviu para qualificar a candidatura brasileira aos Jogos Olímpicos de 2016. Foi uma grande alavanca porque o Comitê Olímpico Brasileiro e os três níveis de governo – municipal, estadual e federal – investiram na organização do Pan com o nível de organização e instalações de tipo olímpico. Comparadas com outras edições dos jogos pan-americanos, o Pan do Rio teve instalações de maior qualidade porque já estava dentro de um projeto de candidatura para as Olimpíadas de 2016. Há um aprendizado gerencial, até porque ao contrário da Fifa os modos de gestão do Comitê Olímpico são muito diferentes. O modo de gestão do comitê olímpico é muito mais detalhado, cuidadoso e preocupado com uma série de coisas do que a Fifa. O Comitê Olímpico Internacional (COI) tem uma gestão mais democrática comparativamente à Fifa. O problema é de gestão administrativa. Eu participei do programa de observadores do Pan em 2007. São 57 áreas de gestão e cada uma delas tem uma gerência, e um conjunto de atividades para executar. O COI tem uma empresa

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chamada Event Knowledge Management System. Eles sabem que fazem um evento muito grande. Muito mais complexo do que a copa do mundo. É menor em termos de tamanho, em relação à copa do mundo, porque é uma cidade só. Mas a quantidade de modalidades esportivas e atletas é maior. Só de trabalhadores de comunicação são 40 mil. Atletas são 10.500, são 15 dias de evento com 28 modalidades esportivas. Muitas competições acontecendo ao mesmo tempo. Grau de complexidade muito elevado. Foi criado um sistema interno de gerenciamento de conhecimento que ajuda quem organizou antes a passar o conhecimento de gestão para quem vai organizar depois. Isso é bastante organizado. Repercussão inicial da Copa do Mundo de 2014 É prematuro para se fazer uma avaliação definitiva. Aparentemente, teve uma repercussão positiva. De fato ainda não temos nenhum acompanhamento sistemático independente. O governo ainda não fez nenhuma avaliação. A não ser episódicas. A parte da grande imprensa que tem interesse direto e indireto no evento tem divulgado que a repercussão entre os estrangeiros e brasileiros tem sido positiva. Eu tenho um projeto de pesquisa junto com um colega na Alemanha no qual estamos coletando diferentes fontes de lá e daqui do Brasil para depois fazermos uma análise da cobertura da mídia alemã, o que ela publicou sobre o Brasil durante a cobertura da Copa. Vamos comparar com as mídias brasileiras, mas o foco vai ser sobre a imprensa alemã. Podemos dizer que o pessimismo inicial era generalizado. Há o papel da mídia que é uma formadora de opinião, e há uma tradição brasileira, uma certa tendência a pouca autoindulgência da nossa população, uma coisa mais geral de no fundo gostar de ser cachorro vira-lata. Na hora H sempre somos os que não dão certo, aqueles que perdem. Tanto que há mais de dois anos foi criado o bordão “imagina na Copa”, que verbalizava essa crença na incapacidade das coisas funcionarem para a Copa do Mundo. É preciso entender, porém, que, além das expectativas negativas exageradas, a Copa foi claramente um momento de exceção no nosso cotidiano. A mobilização do aparato de serviços públicos, seja de segurança, seja de saúde, seja de transportes, é total. Licenças e férias suspensas. Todos trabalhando. Assim, as chances de as operações darem errado diminuem muito.


Identificação da população x megaeventos esportivos Com a Copa do Mundo, sim, há uma identificação da população e isso que já é uma tradição. Mas com os jogos olímpicos ainda não. O País não para para ver as competições olímpicas. Só uma modalidade ou outra, e na final! Por outro lado, uma das coisas mais comuns no Brasil são as escolas fazerem suas olimpíadas todos os anos com tocha, pira, juramentos. Que valores estão sendo emulados ali de fato? Porque algum significado aquilo ali no final das contas tem. Copa do Mundo x eleições para presidente Durante muito tempo, trabalhou-se com essa crença originária das teorias marxistas, do esporte como uma forma de alienação do povo tal como a religião. A professora Simone Guedes, da Universidade Federal Fluminense, que foi orientanda do antropólogo Roberto Da Matta na sua dissertação de mestrado elaborada no final da ditadura militar, teve como objeto de estudo os operários, e a preocupação dela era tentar entender se de fato havia alguma influência do futebol na maneira como os operários percebiam suas condições de vida, sua qualidade de vida, suas demandas sociais. E ela chegou à conclusão que não havia essa relação. Depois, o próprio Da Matta organizou um livro na USP intitulado Universo do Futebol, que também discute isso. Mas de qualquer maneira, durante muito tempo, a gente ficou mais no senso comum do que no conhecimento propriamente dito. Acho que temos evidências hoje de dois fenômenos que indicam que não há relação direta entre as duas coisas. Primeiro foi a eleição do Lula em 2002, logo após o Brasil ganhar a Copa. Segundo foram as manifestações de junho do ano passado, que a Copa das Confederações não conseguiu diluir. Utopia x distopia Eu tinha dito no início da entrevista que os jogos olímpicos são vistos como uma metáfora da utopia de país grande, por um contexto muito específico do que a gente vem passando, elas viraram distopias de país grande. Este ano, saíram duas pesquisas: uma da Fundação Getulio Vargas (FGV), outra de uma instituição estrangeira chamada Pew Research Institute, que chegaram a resultados muito semelhantes. A da FGV perguntava: sua vida melhorou nos últimos cinco

anos? Quase 70% da população respondeu que melhorou ou melhorou muito. A segunda pergunta era: você acha que vai melhorar nos próximos cinco anos? E a resposta foi a mesma. As perguntas seguintes eram sobre o nível de satisfação com transportes, saúde e educação. E o nível de insatisfação era muito grande. Então, primeiro, as pessoas conseguiam deslocar a sua experiência familiar (tenho um emprego, a renda média aumentou). Mas, ao contrário do que seria uma tese dos liberais, não basta só botar dinheiro no bolso, o povo quer um serviço de qualidade. Usando a metáfora do Da Matta, a ‘casa’ é o ambiente em que as pessoas têm satisfação. ‘Estou com renda, emprego, comprei meu carrinho, estou com dívida, mas estou pagando, comprei uma TV LCD/LED, uma geladeira, mas quando eu vou para a ‘rua’, a coisa continua ruim. Continuo sentindo insegurança, e outros tipos de problemas’. Então, o discurso que tinha de gastar na saúde e na educação e não na Copa colou. Até bem pouco tempo atrás as pesquisas de opinião diziam que 50% da população eram contra a Copa, o que é um dado impressionante. O que eu entendo é que esse conjunto de obras sobre o qual a toda hora saía um aditamento, que atrasou e agora vai custar 1 bilhão, 1 bilhão e duzentos. Esse conjunto de notícias negativas ajudou a catalisar essa insatisfação que estava latente, não com sua vida pessoal, mas com sua vida no espaço público. E não tem ‘alegria do futebol’, ‘vamos torcer pela seleção’ que tenha feito as pessoas pensarem diferente por causa disso. Então a Copa das Confederações não teve nenhum efeito. Todo dia tinha uma manifestação em algum lugar do Brasil. Não teve nenhum efeito sob a mobilização popular em relação a isso. Ia tanta gente para o estádio para torcer pela seleção, quanto ia para a manifestação em volta do estádio naquele período da Copa das Confederações. Acho que temos evidências de que o efeito disso no que vai acontecer nas eleições é pequeno. Não é que não vai ter. Claro que o governo vai capitalizar isso de alguma maneira. Mas por outro lado, ninguém vai esquecer das obras de mobilidade não concluídas, do orçamento dos estádios multiplicados por dois ou três, porque isso também vai ser colocado na mesa do debate. Efeito terá, mas ele vai ser residual, talvez mais para o negativo do que para o positivo.

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Figura: Arquivo

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Pontos, linhas e cores mapeiam interações digitais Reinventando Hélio Marchioni

Pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) desenvolvem análises sobre o impacto da cultura digital nos processos e práticas de comunicação nas redes sociais

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nalis ar as redes so ciais é o trabalho que o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) desenvolve desde 2007. Seu processo de pesquisa envolve algoritmos e uma multiplicidade de dados que se constituem a partir das interações nas redes. Conceitos como centralidade, autoridades, reputação, capacidade de gerar conexões e circular informações são transformados em modelos matemáticos que, por sua vez, constroem as posições e conexões dos nós. Mas é a partir de ferramentas de visualização, ou seja, de softwares específicos, que esses nós se transformam em pontos e, os vetores, em linhas que os interconectam, construindo um mapa. São os chamados grafos, como os que estão reproduzidos na capa da revista e na página ao lado. Eles mostram as relações produzidas pelos usuários do Facebook, Twitter, entre outras redes sociais na internet. Os pontos nodais (nós da rede) representam entidades sociais (pessoas, instituições, grupos, etc.) e as linhas representam os relacionamentos existentes, podendo ou não apresentar reciprocidade, permitindo uma visualização da rede como um todo. De acordo com o que se deseja pesquisar nas redes sociais, os softwares utilizados podem modificar a cor e a forma dos grafos, conforme características específicas de cada tema pesquisado. Por meio deles é possível visualizar e cruzar vários dados que formam as redes, permitindo uma análise visual, matemática e discursiva das relações estabelecidas. Vinagre Um exemplo de sucesso dessas análises é o artigo “A Batalha do Vinagre”, de autoria de um dos coordenadores do Labic e professor do Departamento de Comunicação Social da Ufes, Fábio Malini, que analisou as manifestações de rua contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo, ocorridas em 2013. Citado por diversos jornais, entre eles o New York Times, o artigo ganhou repercussão mundial. Esse tipo de manifestação já havia acontecido em Vitória, em menor escala, em junho de 2011, e o Labic conseguiu identificar que o debate sobre os temas (hashtags) que motivaram essas mobilizações continuariam fortes nas redes sociais e que em algum momento eles sairiam do mundo virtual e explodiriam na vida real. O que aconteceu em junho de 2013.

“A Batalha do Vinagre” torna-se, assim, uma importante contribuição para a área de comunicação, quando falamos em estudo de redes. No caso desse artigo, o professor faz alguns apontamentos que chamam a atenção para mudanças de paradigmas nos processos metodológicos. “O #protestoSP não teve uma, mas muitas hashtags e isso pontua a multiplicidade de pontos de vista que constituem o debate em uma rede e, principalmente, nesse tema específico. Isso indica, também, a abertura de novas conversas com outras disciplinas, vale destacar, com a Antropologia Social, uma área que tem nos servido de referência, tanto para o Labic quanto para os estudos de redes. Temos de pensar em novos instrumentos metodológicos para as pesquisas na rede”, destaca Malini. Segundo o professor do Departamento de Comunicação e também coordenador Fábio Goveia, o Labic passou por um longo período de aprendizagem para entender algo que já estava muito visível na rede. “A gente já tinha dado início a um processo de coleta de dados, uma coleta manual, pois não tínhamos ferramentas apropriadas para coletar dados. Em 2011, aconteceu o protesto contra o aumento das passagens na Ufes, e a Polícia Militar jogou até bomba dentro do campus. A pesquisadora do Laboratório e aluna de jornalismo Marcelle Desteffani fez um Trabalho de Conclusão de Curso analisando esses protestos nas redes sociais e percebeu que já havia um processo de ebulição social acerca da mobilidade urbana em Vitória”, salienta. Para o professor, “o estudo é importante porque mostra grupos do movimento passe livre já articulados e ativos, servindo de referência para outros movimentos no País. Uma comunidade criada no Orkut com o nome “a cidade vai parar” já era um prenúncio. Muitos disseram que o texto “A Batalha do Vinagre” adivinhou muita coisa. Ninguém adivinha

Equipe do Labic O Laboratório tem a coordenação dos professores do Departamento de Comunicação Social Fábio Malini (Modelagem e Análise de Redes) e Fabio Goveia (Análise de Imagens), e do professor do Departamento de Tecnologia Industrial Patrick Ciarelli (Desenvolvimento). Também fazem parte do grupo os professores Ruth Reis (Comunicação Social) e Elias Oliveira (Programa de Pós-Graduação em Ciências da Computação).

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nada. Nós vínhamos num processo de acompanhamento desse movimento nas redes sociais há, pelo menos, dois anos. O fato de estarmos muito atentos ao que estava acontecendo facilitou a nossa percepção do que iria acontecer em 2013”. E não foi também uma questão de sorte. O Labic estava preparado para olhar a rede e as articulações de um ângulo que ninguém estava olhando. Já estavam à disposição ferramentas para visualizar e coletar dados na internet, além da participação de pesquisadores do campo das ciências sociais, da ciência da computação e das engenharias. Isso permitiu desenvolver uma investigação mais profunda sobre aquilo que os jornais estavam tentando encontrar. Quem era o culpado? Quem estava organizando as manifestações? Não era esse ou aquele. Era um contexto muito maior. E o texto do Malini explica exatamente isso. “O mais interessante é observar como os jornais locais mudaram de opinião à medida que a população ocupava as ruas. No início, os jornais apontaram que o movimento era de vândalos. Mas, com o avançar das multidões, eles começaram a dizer

que era um movimento legítimo, por uma cidade melhor. A gente já vinha com um olhar atento sobre essas manifestações. Um olhar atento não só do ponto de vista do ativismo, mas também do ponto de vista da ciência. Tínhamos pesquisadores produzindo artigos e trabalhos sobre a questão urbana e o uso das redes sociais nesse debate. Era uma leitura global a partir de um contexto local. Tudo isso em Vitória”, ressalta Goveia. História O Labic foi criado em 2007 com o nome de Laboratório de Internet e Cultura, um projeto de extensão do professor Fábio Malini. Em 2012, ocorre a fusão desse laboratório com outro projeto de extensão, o Grupo de Foto, do também professor do Departamento de Comunicação Fabio Goveia, dando origem ao Laboratório de Imagem e Cibercultura, com a mesma sigla Labic. Tem início, então, o trabalho de estudo e coleta de dados sobre como as redes se formam, como elas dialogam, quais são suas controvérsias, principalmente a partir do debate do Marco Civil para

Figura: Arquivo

Termos mais frequentes encontrados no Twitter durante as manifestações de junho de 2013

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Fotos: Arquivo Labic

Na mídia, a repercussão das pesquisas

Pesquisadores trabalhando na visualização de grande volume de imagens da internet

a internet e do mensalão. Um trabalho de análise mais criteriosa da rede buscando as controvérsias. O grupo cresceu, ficou mais forte, investiu em software e hardware. Além disso, passou a ser também um laboratório de pesquisa. Parcerias Atualmente, o Labic é fonte de informação para inúmeros jornais, revistas e pesquisadores. Desenvolve parcerias com outros laboratórios nacionais e internacionais, presta assessoria para órgãos do Governo Federal, desenvolve aplicativos, produz análises de diversos temas nas redes sociais, em tempo real, por exemplo. Como o objetivo do Laboratório é a realização experimental de produtos digitais e a promoção de pesquisas e atividades de extensão sobre o impacto da cultura digital nos processos e práticas de comunicação contemporânea, o estabelecimento de intercâmbio com instituições do Brasil e do exterior é inevitável e fundamental para o desenvolvimento das pesquisas. Uma parceria muito importante para o fortalecimento do Labic foi firmada em 2011 com os laboratórios Cibercult (Laboratório de Pesquisa em Comunicação Distribuída e Transformação Política) e MediaLab (Laboratório em Mídias e Métodos Digitais), ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com o tema Cartografar as Controvérsias na Internet: uma cooperação científica entre pesquisadores que analisam as relações entre estéticas, poder e internet , o projeto estabeleceu um circuito

O Globo – Procurado pelo jornal O Globo, o Labic monitorou as expressões “Dilma Rousseff”, “Eduardo Campos” e “Aécio Neves” no Twitter, entre os dias 1 e 16 de abril, quando todos eram pré-candidatos. Em seguida, analisou qualitativamente o resultado. A presidente Dilma, do Partido dos Trabalhadores (PT) , teve 163.712 citações no período observado, quase sete vezes mais do que Campos, do Partido Socialista Brasileiro, e quase nove vezes mais do que Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). “O volume de referências a Dilma não se traduz em sucesso para ela. O noticiário negativo da Petrobras ‘está colado’ na presidente e afetou sobremaneira sua militância virtual”, enfatiza Malini. Carta Capital – A revista destacou o pioneirismo da análise inédita feita pelo Labic sobre a Copa do Mundo de 2014. Os pesquisadores monitoraram, diariamente, as redes sociais, desde o início do evento. As análises constataram que a frase “não vai ter Copa”, que se espalhava pela internet antes da abertura, diminuiu de forma abrupta à medida que os jogos empolgavam. Também foram coletados, em tempo real, todas as imagens que apareceram no Twitter e observou-se um predomínio dos “memes” nos posts mais compartilhados, o que refletiu o bom humor em relação à Copa. “Mesmo sem deixar de lado as convicções e de exercer a crítica quanto à forma com que a Copa foi organizada, o discurso ‘boleiro’ contaminou a rede de tal maneira que reduziu a visibilidade do público antiCopa, ofuscando o discurso político”, avalia Fabio Goveia. “O ‘não vai ter Copa’ permaneceu no dia seguinte à abertura, mas não resistiu à repercussão dos primeiros jogos e caiu de forma brutal”. Jornal O Estado de São Paulo – A partir dessa análise sobre a Copa, o jornal encomendou ao Labic um aplicativo. O App #EstadãoNaCopa reuniu tudo o que as pessoas falaram nas redes sociais sobre o evento. Foram utilizados os filtros por personalidade, jogador, hashtag, cidades, estádios ou seleção. Foram parceiros nessa iniciativa os laboratórios Medialab e Cibercult, ambos da UFRJ, e o Institute for Scientific Interchange de Torino, na Itália. Revista Exame – Esse trabalho deu muita visibilidade para o Laboratório. A revista publicou 11 iniciativas de análises da Copa feitas por diversos países, e as do Labic foram as únicas em tempo real.

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P e s qui s a Fotos: Arquivo Labic

de cooperação científica entre os pesquisadores da Ufes e da UFRJ com a produção de pesquisas conjuntas, missões de docência, realização de eventos, intercâmbios de bolsistas, difusão de conhecimentos em plataformas digitais. O projeto, que vai até 2015, foi contemplado com financiamento no edital Casadinho/PROCAD 2011 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Essa cooperação científica, entretanto, articula não apenas os pesquisadores, mas ativistas que atuam na construção da chamada “cultura livre” – um campo social que reúne intelectuais, militantes, gestores e artistas, protagonistas de lutas em defesa da liberdade na rede e refutação dos mecanismos de monitoramento e controle da internet. Multidisciplinaridade O trabalho no Labic é multidisciplinar, pois ter um ambiente de respeito entre as ciências é essencial para o desenvolvimento dessas novas metodologias. Comunicação, computação, design,

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Grupo de pesquisadores do Labic (acima), e um de seus coordenadores, o professor Fábio Malini (ao lado)

matemática e antropologia convergem para compor rotinas de trabalho inteligentes dentro de um processo extremamente criativo, que é a análise das redes sociais. Dessa forma, a Ufes mergulha em um novo campo científico chamado de Humanidades Digitais, no âmbito da cibercultura, dos movimentos de rede e da estética contemporânea. Para tal é preciso dialogar com outros campos do


Foto/figuras: Arquivo Labic

Softwares e inovações nas análises visuais e matemáticas

Pesquisadores em análise de resultados de pesquisas

Resultado de análise de interações na Fanpage de um político no Facebook

Grafo mostra relações entre perfis que utilizam a hashtag 12M, dia de mobilização global na Espanha

Com softwares adequados, é possível modificar a cor e a forma dos nós das redes, conforme as características específicas de cada grupo. Desta forma, é possível visualizar e cruzar vários dados que delineiam as redes, fornecendo uma análise visual e matemática. Trabalhar com análise de redes sociais é mergulhar num universo de termos e siglas. Para a extração e coleta dos dados, no caso do Twitter, é utilizado, entre outros, o software YourTwapperKeeper, uma maneira simples e fácil de arquivar dados diretamente em um servidor. Tem saída para os formatos HTML, RSS, Excel e JSON. Já no Facebook o aplicativo usado é o NetVizz, que possibilita fazer o download de dados em um arquivo. gdf. Essa extensão possibilita analisar os dados tanto no software Gephi quanto no NodeXL. Para monitoramento e análise das informações coletadas, o software utilizado é o Gephi, que possibilita a análise de dados em diversos formatos. O conteúdo pode vir das redes sociais, mas também pode ser usado banco de dados que contenha variáveis com alguma conexão e atributos. A partir daí, podem ser produzidos grafos, ou seja, uma imagem que representa relações entre objetos. O NodeXL, amplamente usado para análise e monitoramento de dados do facebook, assim como o Gephi, também produz imagens que representam relações. O Labic também produz suas próprias ferramentas, como o script NAR_T, que consiste em uma série de algoritmos usados para analisar dados de redes sociais. Todos disponíveis no GitHub do Labic (https:// github.com/ufeslabic). GitHub é um serviço de hospedagem de sites compartilhado para projetos. Com relação a coleta e estudos de imagens, o Laboratório possui um inovador processo de análise em tempo real das principais imagens que circulam nas redes. Esses dispositivos desenvolvidos no Laboratório estão abrindo um campo novo de investigação para os pesquisadores de imagens. Entre os scripts e softwares já criados pela equipe de desenvolvimento estão os coletores de imagens a partir de links (crawler), o identificador de imagens semelhantes (AISI) e o visualizador em multicamadas (ALICE).

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conhecimento e estar preparado para o rompimento de muitos paradigmas. Com o projeto Mapping Controversies 2013: The Protests in Brazil, o Labic foi um dos indicados ao prêmio Digital Humanities Awards: Recognizing Excellence in Digital Humanities. As indicações ao prêmio são feitas de forma anônima considerando as contribuições para o campo das humanidades digitais no ano anterior. “Nós não ganhamos, mas a indicação ao prêmio, que é dirigido pelo prestigiado professor James Cummings, da Universidade de Oxford (UK), foi importante para o Laboratório e para os pesquisadores, pois nos inseriu no debate internacional desse importante campo das humanidades digitais”, enfatiza Malini. Para os próximos anos, o Labic pretende

internacionalizar a sua metodologia de análise de dados digitais. Serão três convênios internacionais que estão em processo de realização: com a Universidade Aberta da Catalunha (UOC), na Espanha, associada ao prestigiado intelectual Manuel Castells, com a Universidade de Guadalajara, no México, e com o Instituto Universitário de Lisboa, em Portugal. “É uma oportunidade de relacionar nossa pesquisa com a pós-graduação e articular nosso jovem mestrado em Comunicação com áreas de pesquisa mais avançadas. Somos hoje o grupo mais referenciado sobre redes sociais e mineração de dados, um grupo que tem orgulho grande de estar onde está: na Ufes. Pensamos, num futuro próximo, incorporar uma incubadora de produtos digitais dentro do Labic. É o nosso desejo”, salienta Malini.

Mapeamento de crimes virtuais Monitorar e mapear infrações aos direitos humanos e das minorias em redes sociais será a tarefa do grupo de trabalho lançado em novembro de 2014 pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Além da criação do grupo de trabalho, o governo anunciou uma parceria entre a Ufes e a Secretaria, por meio do Laboratório de Estudos em Imagem e Cibercultura (Labic), coordenado pelos professores do Departamento de Comunicação Social, Fábio Malini e Fabio Goveia. O Laboratório, referência nacional em pesquisas sobre redes sociais, vai desenvolver um aplicativo para que a Secretaria possa mapear a atuação das redes de apologia ao crime e também de redes de defesa dos direitos humanos.

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O objetivo é receber e analisar denúncias sobre páginas da internet que promovem o ódio e fazem apologia à violência e à discriminação. O grupo será composto por membros da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), da Secretaria de Políticas para Mulheres, do Departamento de Polícia Federal, do Ministério Público Federal, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e do Colégio Nacional dos Defensores Públicos Gerais. A ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Ideli Salvatti, avaliou como assustador o crescimento dos crimes de ódio no Brasil. Segundo ela, dados da SaferNet Brasil indicam um aumento entre 300% e 600% no registro desse tipo de violação no País entre 2013 e 2014.


Foto: Áthila Bertoncini

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O senhor

das pedras Luiz Vital

Pesquisadores do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes) da Ufes desenvolvem estudos no litoral capixaba para preservar um gigante do mar que está ameaçado – o peixe mero UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Dez 2014

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meaçado de extinção na costa brasileira, o peixe conhecido como mero, que pode alcançar 2,5 metros de comprimento e 400 quilos de peso, é, desde 2006, objeto de estudos por parte de pesquisadores do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes) da Ufes. As principais repercussões deste trabalho são a conservação da espécie e a melhoria das condições ambientais marinhas e dos estuários – ambientes de transição entre rio e mar. O litoral norte capixaba é um dos sete pontos focais que compõem o projeto Meros do Brasil: pesquisa e conservação de ambientes costeiros marinhos, gerenciado pelo Instituto Meros do Brasil, e que inclui uma rede de 52 parceiros entre instituições de ensino e pesquisa, organizações não governamentais e empresas públicas e privadas. No Espírito Santo, a pesquisa é coordenada pelo professor Mauricio Hostim, do Programa de PósGraduação em Biodiversidade Tropical da Ufes. O projeto transita por três laboratórios: Pesca e Aquicultura; Genética e Conservação Animal; e Zoologia

de Vertebrados. O grupo de pesquisa foi formado na Ufes em 2006 a partir da experiência nessa área trazida de Santa Catarina por Hostim, onde foi criado o projeto “Meros do Brasil”, em 2002, e do qual ele foi o primeiro coordenador nacional. “O projeto gera importantes informações científicas para a proteção do mero e dos ambientes onde ele vive”, assinala. O trabalho também subsidia outros projetos de conservação marinha e dá suporte para o desenvolvimento de políticas públicas para o setor. O ponto de partida nas rotinas da pesquisa são as visitas semanais ao manguezal de Conceição da Barra, município do litoral norte do Espírito Santo, na foz do rio São Mateus. Diferentemente da garoupa e do badejo, seus primos, o mero convive bem em águas salgadas e doces. Guiados pelos pescadores da comunidade local que atuam no projeto como colaboradores, vencendo as arrebentações em meio ao movimento de avanço e recuo da maré, os pesquisadores percorrem de barco as rotas do exuberante estuário. No manguezal, segundo Hostim, é onde tudo começa. Nele, os pesquisadores depositam as

Fotos: David Protti

No estuário, onde são encontrados os meros juvenis, o filhote da espécie é capturado pelos pesquisadores...

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armadilhas, feitas de bambus e telas de plástico, para capturar os filhotes de meros. Ao longo da semana, os pescadores locais “miram” os covos de pesca, verificam se ainda estão instaladas adequadamente, e preservam os indivíduos capturados em um depósito no local até a chegada dos pesquisadores. Manchas digitais Ao atingir a fase reprodutiva, o mero deixa os estuários e se desloca para crescer no mar, onde ocorre a agregação reprodutiva. Machos e fêmeas se concentram e, na lua cheia, realizam movimentos como uma dança, em que o casal sobe até próximo da superfície liberando óvulos e espermatozoides, cuja fecundação se dá fora dos peixes. E, assim, permanecem juntos como forma de assegurar a reprodução. Os óvulos ficam na superfície até serem levados pelas correntes marinhas para os estuários. No manguezal, sentem-se protegidos e, com a pós-larva e o filhote, um novo ciclo reprodutivo começa na vida marinha. No estuário, são encontrados os meros juvenis,

com tamanhos que variam entre 5 cm e 1 metro. Os procedimentos da pesquisa incluem a medição do peixe do focinho até o final da cauda. Ele é pesado e fotografado. “As manchas no corpo do peixe são as suas digitais”, comenta Hostim. Por meio de uma seringa é feita a introdução subcutânea de uma tag – etiqueta eletrônica e magnética – no dorso do mero, o que permite a leitura de informações individualizadas sobre aquele exemplar. Em seguida, uma minúscula amostra da cauda é pinçada e acondicionada em recipiente com álcool, cujo destino será o Laboratório de Genética e Conservação Animal do Ceunes. “Esse trabalho dura cerca de 15 minutos”, informa Rômulo de Araújo Primo, estudante de Ciências Biológicas da Ufes e integrante do projeto. É hora de soltar o filhote, bem lentamente, seguro na superfície da água até que ele ganhe confiança e, enfim, desapareça nas águas calmas e turvas do manguezal. Em seguida, é medida a salinidade e temperatura da água para se fazer a correlação daquele peixe com as características físico-químicas do ambiente, no futuro, segundo explica a bióloga Gabriela Cesquine Alves.

... o exemplar é medido, pesado e fotografado

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p e s qui s a Fotos: David Protti

O filhote do peixe recebe uma etiqueta eletrônica, e por meio dela são armazenados dados para a pesquisa. Depois da sua identificação, ele é devolvido ao habitat natural

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Único predador “A marcação dos exemplares possibilita leituras e armazenamento de informações importantes quando ocorre a recaptura, como deslocamentos, tempo de crescimento e variação de tamanho e peso, hábitos na natureza, entre outros dados”, diz o pesquisador Hostim. A conservação dos manguezais ganha relevância porque é, ali, que o mero se desenvolve. Somente com um ano de vida ele alcança a sua capacidade reprodutiva e, adulto, segue para o mar aberto. “Lá ele é soberano, vive em média 40 anos em profundidades de até 100 metros e não possui predadores”, explica. “O único predador do mero adulto é o homem”, ressalva Hostim. O mero se alimenta de crustáceos – lagostas, siris, caranguejos – e peixes como arraias e bagres, e tartarugas, com movimentos feitos pela boca de aspiração das presas. A atividade humana é a que mais impacta a sobrevivência do mero. A pesca submarina e o espinhel – extensa linha de nylon com dezenas de anzóis – são os principais vilões, embora outras modalidades também possam ameaçar a espécie. Assim, em 2002, diante da iminência do seu desaparecimento da costa brasileira – o peixe é encontrado na faixa atlântica entre os Estados do Pará e Santa Catarina – o Governo Federal estabeleceu uma portaria proibindo a captura, o transporte e a comercialização do mero. Foi a primeira espécie marinha a receber moratória específica de proteção. Em 2012, uma instrução normativa interministerial estendeu a medida para 2015. Hostim destaca que a moratória objetiva recuperar o mero como recurso pesqueiro. “Outras espécies conseguiram sair de situação crítica e voltaram a ser consumidas”, aponta. “É preciso entender a conservação como gestão do recurso”, arremata.


Pesquisa genética armazena informações A professora Ana Paula Cazerta Farro coordena o Laboratório de Genética e Conservação Animal do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), integrado ao projeto “Meros do Brasil”. No laboratório, ela trabalha com amostras recolhidas do peixe mero no litoral capixaba e de diversas regiões do País. “É hoje uma referência nacional”, destaca o professor Mauricio Hostim, coordenador do projeto “Meros do Espírito Santo”, que mantém parceria com o projeto “Meros do Brasil” desde 2010. No laboratório é feito o isolamento do DNA dos peixes, para se comparar as informações obtidas com os genomas selecionados em grupos de outras regiões. “É possível identificar se está havendo acasalamento entre diferentes grupos e, com isso, a troca de genes; além de se verificar se esse fluxo gênico está restrito ou não a grupos de determinadas regiões”, explica Ana Paula. Segundo a professora, a realização da pesquisa no Estado é muito recente – apenas dois anos. Entretanto, algumas questões importantes já estão sendo analisadas. “Uma delas é que, até o momento, as análises não têm evidenciado estruturação genética entre os indivíduos da espécie”, adianta. “As pesquisas evidenciam, segundo

ela, acasalamentos entre membros de diferentes grupos do litoral brasileiro, mas, com uma variabilidade genética relativamente baixa para os marcadores genéticos avaliados”, observa. A baixa diversidade, de acordo com Ana Paula, pode levar a uma homogeneidade nas populações e fazer com que elas respondam negativamente a diferentes pressões ambientais. Esta situação mantém, por exemplo, as mesmas vulnerabilidades a certos tipos de poluição, ou a parasitas presentes naquele grupo. Outra linha de pesquisa busca associar as relações de parentesco entre meros adultos que estão no mar com os filhotes e juvenis nos estuários, e assim estabelecer correlações. No caso da variabilidade genética, ela permite que mais indivíduos de um grupo ou uma população se adaptem melhor às mudanças ambientais provocadas no seu habitat. Ou, se no seu ambiente ocorre pressão ambiental negativa, eles podem se deslocar e se adaptar a outra região mais segura à sua sobrevivência. A pesquisa sobre as marcas genéticas são feitas com a utilização de pequenas amostras de nadadeira caudal. Outra linha de pesquisa busca o desenvolvimento de metodologias para a identificação do mero, e que se tornou parte de tese de doutorado de Junior Damasceno

Fotos: David Protti

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Projeto recebe visita de Lenine O encontro entre o cantor Lenine e os pesquisadores do projeto do Ceunes ocorreu nos dias 23 e 24 de abril de 2014. Lenine percorreu o rio Cricaré em busca dos meros e conheceu as instalações do projeto (fotos ao lado). A visita faz parte da turnê Encontros socioambientais com Lenine, realizada pelo artista com o objetivo de divulgar projetos ambientais desenvolvidos no Brasil. No último dia, o cantor fez um show gratuito e aberto ao público no Sítio Histórico Porto de São Mateus. Lenine destacou que o objetivo da turnê, que pretende passar pelas cinco regiões do Brasil e visitar 12 projetos, é dar visibilidade às pesquisas e aos seus coordenadores. “O show é apenas uma celebração, é uma maneira que encontrei de agradecer a essa turma do bem que está por trás desses projetos”, explicou. O cantor também elogiou o Projeto Meros e a atuação da Ufes. “Gostei muito do que vi. A Ufes está muito presente nos projetos, e a gente vê que esse intercâmbio de ideias e saberes está acontecendo de fato”, ressaltou.

de Souza, do Programa de Pós-Graduação em Oceanografia da Ufes. Por meio das técnicas desenvolvidas, é possível recolher amostras de peixes suspeitos no mercado, já limpos, fatiados e prontos para a comercialização, e, com a realização de testes genéticos, identificar se aquele pescado, eventualmente “mascarado” como sendo garoupa, badejo ou cherne, é da espécie mero. Isto é importante, segundo Ana Paula, porque vigora uma legislação proibitiva à captura e comercialização do mero, mas que está sujeita a ser burlada. “Há possibilidade de parceria com órgãos ambientais fiscalizadores”, salienta a pesquisadora. Pescadores “vestem a camisa” Por meio de uma ação extensionista inserida na pesquisa do mero, os pescadores da colônia do município de Conceição da Barra participam ativamente do projeto desenvolvido no centro de

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Fotos: Ana Oggioni

ensino da Universidade, localizado no norte capixaba. Romildo Pinto Lopes, 51 anos, e Nador Luiz Muniz, 48, são lideranças na colônia local de pescadores. Ambos “vestem a camisa” do projeto, como afirma o professor Mauricio Hostim. “Há uma troca de conhecimento muito produtiva entre pesquisadores e pescadores”, ressalta. Romildo conta que toda a sua vida é dedicada à pesca. “Sou de uma família de pescadores, aprendi o ofício com meu pai, e desde muito cedo vou para o mar”, diz. “O projeto é muito bom e nos torna mais conscientes”, assinala. “Antes se usavam os merinhos filhotes até como isca; mas, com o projeto, a gente trabalha para a conservação dele, e que num futuro bem próximo haja abundância desse peixe aqui nas nossas águas”, diz. Romildo conta que o litoral norte do Estado sempre foi muito rico em mero. “Nunca faltou, mas, ultimamente, a gente vê que há lugares que não se encontra mais”, lamenta.


Foto: Rafaela Laiola

p e s qui s a

Uma esperança

para autistas Pesquisadores dos programas de pós-graduação em Engenharia Elétrica e em Biotecnologia da Ufes desenvolveram o Robô Maria com o objetivo de que ele faça interação com crianças autistas

A

na Beatriz Coelho Dal’Col e Ana Luiza Coelho Dal’Col (foto acima) são gêmeas idênticas, formadas por um único óvulo, fecundado por um só espermatozoide, que posteriormente sofreu uma divisão. Logo, podemos afirmar que ambas têm a mesma carga genética e o mesmo sexo. No entanto, seus pais descobriram que suas filhas não eram tão parecidas assim. Até os 2 anos de idade, Anna Beatriz e Anna Luiza não tinham desenvolvido a fala. Após passar por um fonoaudiólogo e por um psicólogo, Anna Luiza passou a desenvolver a linguagem e a interação social normalmente, porém o tratamento com

a irmã gêmea Anna Beatriz não surtiu efeito. Aos 4 anos de idade, ela foi diagnosticada com autismo. Após a confirmação do autismo, Bia, como é carinhosamente chamada pela mãe, Danielle Dal’Col, e pelo pai, Thyago Silva Costa, começou a participar das reuniões da Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (Amaes), localizada em Goiabeiras, na Capital, e foi lá que ela conheceu, através da aluna de mestrado Christiane Goulart, o professor e doutor em Ciências Físicas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Teodiano Freire Bastos Filho e seu projeto de pesquisa, o Robô Maria (Mobile Autonomos Robot for Interaction with Autistics). UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Dez 2014

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p e s qui s a O projeto O Robô Maria é fruto do projeto de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Ufes. Com pouco mais de um metro de altura, o Robô Maria surge como um projeto inédito nos estudos relacionados com crianças autistas, e irá funcionar como elemento intermediário entre elas e as demais pessoas do seu convívio. Os pesquisadores, durante a elaboração do robô, buscaram na Amaes as primeiras crianças para participar das pesquisas. Das 200 cadastradas na associação, foram selecionadas 37, com idades entre 7 e 11 anos, inclusive Ana Beatriz, hoje com 7 anos, que, durante alguns meses, foram submetidas a testes nos quais elas assistiam a determinados filmes, enquanto seus sinais cerebrais eram captados através de diademas com eletrodos conectados em suas cabeças. Esses filmes foram selecionados por meio de uma base de dados internacionais que confirmam que determinadas imagens e sons conseguem despertar sentimentos de alegria e tristeza em qualquer criança. Com posse dos dados, será feito o primeiro contato individual do robô com a criança autista. Ele é composto por uma base com rodas, sua estrutura é feita com papelão colorido, um display para projetar filmes, alto-falantes, uma câmera, dois braços e peruca. O robô, que é totalmente autônomo, será colocado em uma sala com a criança. Nesse momento, o sensor irá detectar a presença dela e o robô irá se aproximar a uma distância de 50 cm. A primeira reação previsível será que ela tente tocá-lo e, se isso acontecer, o robô irá se afastar. Caso seja a criança que se afaste, o robô tentará se aproximar, e durante esse período será criada a relação de confiança entre robô e ser humano. “Os gestos repetitivos através da aproximação e do afastamento criarão uma sensação de previsão dos movimentos do robô para a criança, e a partir daí ela se sentirá com mais confiança de interagir, pois a dificuldade do autista no contato com as pessoas se dá por causa dos movimentos imprevisíveis que podemos ter, por exemplo, ao gesticular durante uma conversa”, afirma o professor Bastos Filho. Após conquistar a confiança da criança e sua atenção, o robô irá, por meio do seu display de vídeo acoplado, projetar os mesmos filmes a que elas foram submetidas no início da pesquisa e a câmera focará a face da criança para captar todos os sentimentos que ela estiver demonstrando. No

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entanto, é característica do autista não manifestar emoções faciais, mas se ela o fizer será através de microexpressões faciais que somente a câmera será capaz de captar. Ao mesmo tempo, um diadema com eletrodos conectado na criança enviará os sinais emitidos no cérebro para um computador, os quais servirão para avaliar e entender as sensações que o robô está propiciando para a criança. “O robô será como um brinquedo, alegre e interativo para o autista, porém, a todo momento a criança estará sendo estudada, e o robô humanoide aos poucos deixará o autista mais suscetível para as relações com outras pessoas”, ressalta o professor. Depois de coletados todos os dados das crianças antes e depois do contato com o robô, eles serão analisados para constatar se houve ou não melhora nos sinais cognitivos (comunicação, interação social entre outros sinais significativos). A família do autista também ficará responsável por responder a um Foto: Arquivo

O Robô Maria mede um metro de altura, e o seu display de vídeo projeta filmes


formulário avaliando o comportamento da criança após a experiência com o robô Maria. É nesse ponto que Anna Beatriz e Anna Luiza são chaves fundamentais para a comprovação dos resultados da pesquisa. Por se tratar de duas irmãs gêmeas, que vivem em um mesmo ambiente, uma com autismo e a outra não, os pesquisadores já terão uma base para avaliar o progresso e a redução dos sintomas do autismo. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) atualmente não tem cura, e as famílias com filhos ou parentes diagnosticados com autismo buscam nas associações a ajuda de psicólogos e psiquiatras para acompanhamento e orientações de como lidar e melhorar o convívio com uma pessoa autista. “O autismo hoje é de complexo diagnóstico e possui poucos métodos que possam beneficiar as pessoas que sofrem com esse transtorno. As pesquisas para tratamento estão carentes, e o projeto de uma máquina autônoma para interagir com crianças autistas é inédito no mundo. Nosso objetivo é usar a tecnologia e nosso conhecimento para ajudar essas pessoas”, assegura Bastos Filho. O primeiro contato do robô Maria com uma criança autista aconteceu na segunda semana de julho de 2014, e a primeira a conhecê-lo foi Anna Beatriz. “É gratificante saber como tem gente que se dedica a uma causa. Espero que o robô Maria ajude a Bia e que futuramente muitas outras crianças sejam beneficiadas”, declara Danielle Dal’Col”,

mãe das gêmeas. O projeto do robô Maria conta com a participação de mais três alunos da Ufes: a mestranda em Biotecnologia Christiane Goulart, o mestrando em Engenharia Elétrica Javier Castillo Garcia e o doutorando em Engenharia Elétrica Carlos Valadão. Os pesquisadores pretendem usar futuramente o robô com crianças autistas da Amaes e, posteriormente, com o sucesso dos resultados, reproduzi-lo para que atenda o maior número possível de crianças.

O que é autismo? O autismo é um termo geral usado para descrever um grupo de transtornos de desenvolvimento do cérebro, conhecido como Transtorno do Espectro Autista (TEA). A pessoa diagnosticada com autismo apresenta dificuldades no convívio social, na interação com o meio em que vive e ainda mantém uma baixa ou quase nula comunicação verbal. Segundo o Projeto Autismo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo, estima-se que há no Brasil cerca de dois milhões de pessoas com autismo.

Foto: Rafaela Laiola

Da esquerda para direita, o doutorando Carlos Valadão, a mestranda Christiane Goulart e o professor Teodiano Freire Bastos Filho

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extensão

Casais inférteis buscam tratamento Jorge Lellis

Ambulatório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas, localizado em Maruípe, em Vitória, oferece aos casais inférteis atendimento de qualidade

A

infertilidade é um problema que afeta muitos casais. Com o objetivo de auxiliar essas pessoas, o ginecologista, obstetra e professor da Ufes Justino Mameri Filho, junto com a médica especialista em reprodução humana Layza Merizio Borges, criou em 2013, no Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), o Ambulatório de Reprodução Humana. A proposta é oferecer à sociedade um serviço de excelência para os casais de baixa renda com problemas de fertilidade, que afeta tanto os homens quanto as mulheres. Justino Mameri Filho explica que a infertilidade conjugal é definida como a ausência de gravidez após 12 meses de relações sexuais regulares, sem uso de método anticoncepcional. Para os casais que não conseguem engravidar nesse período, o médico aconselha que procurem um profissional especializado para iniciar uma investigação das possíveis causas do problema. “A infertilidade atinge cerca de 15% dos casais. Estima-se que 40% dos casos de infertilidade estão relacionados aos homens, 40% às mulheres, 10% aos dois e em 10% a infertilidade não tem causa aparente”, ressalta o professor. Médicos especialistas afirmam que, de maneira geral, há uma maior possibilidade de a mulher engravidar antes dos 35 anos e esta chance se reduz com a idade, podendo variar de mulher para mulher. “Isso ocontece porque, com a idade, ocorre um envelhecimento dos óvulos e uma redução da reserva ovariana, de forma que há um prejuízo

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tanto na quantidade quanto na qualidade desses óvulos. Além disso, observa-se um aumento da possibilidade de ocorrerem mal-formações genéticas com o avançar da idade feminina, principalmente após os 40 anos”, explica a médica Laysa. O ambulatório oferece tratamento somente a casais com problemas de infertilidade considerados de baixa complexidade, que podem ser tratados com medicamentos ou cirurgias. Mensalmente, cerca de 40 casais são atendidos pela equipe do Hucam, que realiza também um diagnóstico para avaliar as possíveis causas da infertilidade para começar o tratamento. Além da consulta médica com especialista, alguns exames complementares são realizados. O professor Justino esclarece que a investigação para observar os fatores da infertilidade é sempre no casal, não apenas na mulher ou no homem. Fatores Para engravidar, as etapas do processo reprodutivo precisam estar em perfeito funcionamento. Conforme a literatura médica, as principais causas de infertilidade na mulher estão relacionadas a problemas na ovulação (falta de ovulação e ovários com múltiplos microcistos); nas alterações tubárias (é na tuba uterina que ocorre a fertilização, ou seja, o encontro do espermatozoide com o óvulo); e nas alterações no útero (onde acontece a implantação do embrião). Além desses problemas, a redução da quantidade e da qualidade dos óvulos também é uma causa importante de dificuldade de engravidar.


Ilustração: Pedro Feijó

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extensão Fotos: Jorge Lellis

A médica Layza Merizio Borges, especialista em reprodução humana, orienta casais sobre possíveis problemas relacionados à infertilidade

Esse processo está diretamente relacionado à idade, pois os óvulos, ao contrário dos espermatozoides, não se multiplicam e se esgotam. Especialistas explicam ainda que existem outros fatores que também contribuem para a infertilidade feminina, como tumores, obesidade ou baixo peso, ansiedade, problemas hormonais, doenças sexualmente transmissíveis, tabagismo, álcool, drogas ilícitas, estresse, medicamentos, quimioterapia ou radioterapia e endometriose (em que o tecido que age como a mucosa que reveste a parede interna do útero cresce em outras regiões, causando dor e sangramento). Já nos homens, ainda segundo cientistas, os problemas estão relacionados com a formação, o transporte ou a ejaculação dos espermatozoides. As principais causas no sexo masculino são: varicocele (presença de varizes nas veias do escroto), processos infecciosos, exposição a toxinas, fatores genéticos e imunológicos, alterações hormonais, inflamação dos testículos e obstrução dos ductos de transporte. Para detectar os fatores da infertilidade, é importante a realização de exames, enfatiza o médico. Na mulher, os testes incluem a avaliação da ovulação (história menstrual e dosagens de hormônios), o estudo das tubas (histerossalpingografia) e avaliação do útero (ultrassonografia transvaginal). O diagnóstico de endometriose, quando há suspeita, envolve exames de sangue e de imagem (ultrassonografia com preparo intestinal). No homem, é avaliada a produção de espermatozoides através da análise do sêmen, o espermograma, que avalia o volume do sêmen, o número,

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a concentração, a movimentação e a forma dos espermatozoides e a presença de inflamação. “Apesar de todo esse processo investigativo, em algumas situações, as causas não são identificadas. Nesses casos, a infertilidade não tem tratamento”, ressalta o médico. Tratamentos O tratamento da infertilidade vai depender da causa conjugal. Atualmente, existem algumas opções de tratamentos para infertilidade. Entre elas, de acordo com Justino, estão os procedimentos cirúrgicos e os de reprodução humana (relação sexual programada, inseminação intrauterina e fertilização in vitro). Para algumas causas de infertilidade, como miomas, malformações uterinas, alterações tubárias corrigíveis e a endometriose é indicado o tratamento cirúrgico. Em relação ao homem, pode-se considerar tratar cirurgicamente a varicocele ou realizar a reversão da vasectomia. O tratamento de reprodução humana envolve etapas diferentes. A relação sexual programada é indicada para a mulher que tem problemas na ovulação. Também pode ser usada em casos em que não se encontra o fator da infertilidade, a chamada infertilidade sem causa aparente. Já a inseminação intrauterina é indicada para o casal em que o homem tem

Para o professor Justino Mameri Filho, o Ambulatório tem como objetivo ajudar os casais de baixa renda a realizarem o sonho de terem filhos


uma alteração de leve a moderada do sêmen. Nesse caso, conforme a literatura médica, a indução da ovulação é feita de maneira semelhante à relação sexual programada. No entanto, em vez da relação sexual, é realizado um procedimento que consiste em uma injeção do sêmen processado dentro do útero da mulher, utilizando-se um catéter delicado. A fertilização in vitro é um tratamento de alta tecnologia em reprodução humana. As etapas são a indução da ovulação, a captação dos óvulos, a coleta dos espermatozoides, a fertilização no laboratório e a transferência dos embriões. Normalmente, a técnica é utilizada para casais em que a mulher tenha problemas nas trompas ou endometriose, o que pode dificultar a chegada dos espermatozoides até o óvulo. Em muitas situações, explica o professor Justino, há mais de uma opção de tratamento. Nesses casos, dentre os fatores que determinam a escolha de cada tratamento estão a idade da mulher, tempo de infertilidade, fatores associados e vontade do casal. Visando orientar e sanar dúvidas, o Ambulatório promove, periodicamente, palestras com casais inférteis. “O objetivo é abrir um espaço de discussões e oferecer informações e um suporte emocional aos casais de baixa renda que desejam realizar o sonho de ter filhos. Após uma investigação da causa da infertilidade, observando o histórico dos pacientes e seus antecedentes, solicitamos a realização de alguns exames, para iniciarmos o tratamento mais adequado”, enfatiza o professor.

Ambulatório No final da década de 1980, o professor Justino Mameri decidiu criar o Ambulatório de Infertilidade. O objetivo inicial era colocar em prática o que era ensinado em salas de aula, oferecendo para os casais com dificuldades em engravidar uma pesquisa do seu problema e o tratamento adequado, quando possível. Professor Justino destaca que uma outra etapa do sonho foi realizada, com a criação do Ambulatório de Reprodução Humana, além do convite aceito pela médica especialista em Reprodução Humana Layza Merizio Borges para participar do programa. “Agora estamos em busca de novos horizontes. O Hospital está adquirindo equipamentos e contratando um biólogo para realizar novos tratamentos de fertilização, o de inseminação, que é a introdução do sêmen, preparado em laboratório, concentrado em espermatozoides, dentro do útero nos períodos férteis das mulheres”, explica o professor. Em relação à fertilização in vitro, o médico afirma que ainda não há previsão de quando o Hucam vai começar a realizar este procedimento.

O Ambulatório funciona no Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), localizado no campus de Maruípe, em Vitória

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artigo Ilustração: Divulgação

Sexualidade humana:

considerações abertas Antônio Vidal Nunes *

É difícil precisar quando e como, mas em algum momento na evolução humana a consciência emerge. Ao tornar-se consciente, o homem inicia um novo processo: o de humanização. Sem deixar de ser animal, o homem escapa às determinações rígidas e inflexíveis da natureza, foge de sua programação biológica, definidora de diversos aspectos da sua existência. Ele cria cultura, e com ela passa a exercer domínio, não apenas sobre o mundo que o rodeia, mas também

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sobre si, realizando mudanças profundas e diversificadas internamente. Liberto de suas antigas amarras, o homem se vê obrigado a buscar sentido, justificativa para o seu viver e sua ação no mundo; a linguagem torna-se, então, a grande chave. É a partir dela que o homem vivencia e nomeia o novo e, também nela, considerada como memória, guarda suas realizações. A sexualidade enquanto tal não estará fora deste mundo significativo e simbólico; em relação


a ela, o homem passa a ter a prerrogativa de decidir onde, quando, com quem e por quê. Ao passar, portanto, do reino da necessidade para o da liberdade, o homem, e sua natureza animal, são humanizados. Por milhares de anos, influenciados e submetidos a fatores distintos, as comunidades humanas povoaram a terra; uma pluralidade de formas de ser e viver foram lentamente se configurando. No contexto mais específico da sexualidade, encontramos uma diversidade imensa de significações, representações e comportamentos; expressão da capacidade criativa humana que se reinventa estando sempre submetida à ressignificações e mudanças, quando no encontro de diferenças crenças, povos e regiões. Como sabemos, a civilização ocidental resultou, em análise geral e sumária, da aproximação de vários povos realizada pela dominação romana; deste reagrupamento resultou uma nova síntese cultural permeada por elementos oriundos das culturas grega, romana e judaica. A sexualidade, enquanto tal, nunca se encontra desvinculada de certa concepção sobre a realidade e o homem. Fomos marcados profundamente pela visão de Platão, segundo o qual, havia dois mundos distintos e opostos: o das coisas eternas e o das coisas passageiras; concebe-se, assim, uma antropologia para a qual o homem era constituído de uma substância eterna e de outra perecível. O corpo, a sexualidade, o prazer encontravam-se do lado das coisas passageiras sendo, portanto, desqualificados e colocados sob suspeita. Aos poucos, neste encontro de culturas, emerge uma nova moral sexual: a cristã; segundo ela, na sexualidade encontravam-se perigos que poderiam comprometer a salvação e a alma humana. Por muito tempo, a palavra pecado esteve associada quase que unicamente às infrações da carne. Esta moral sexual, tida por muitos estudiosos como castradora e repressiva, permanece, ainda que enfraquecida, nos dias atuais. Com as revoluções empreendidas na idade moderna, todos os aspectos da vida humana se reinventam: a política, a economia, a cultura, a sociedade. O homem cria uma nova imagem de si mesmo; uma nova racionalidade, e nela uma nova lógica regerá a vida de todos. Certamente que novos valores e representações surgirão em relação à sexualidade humana, e que tais formulações passarão a conviver com o legado cultural que recebemos de nossos antepassados. Desde o seu início, a nova ordem social passará por vários momentos em sua evolução, o que trará alterações na forma como o homem percebe e vive sua sexualidade. Poderíamos, nesta breve reflexão, destacar dois momentos neste desenvolvimento. O

primeiro vincula-se ao período inicial do capitalismo, com o processo de industrialização; as energias humanas eram absorvidas de forma absoluta com jornadas de trabalho que se estendiam por 14 a 16 horas diárias, tal organização social acabou produzindo a deserotização do corpo e a genitalização da sexualidade. Nesse contexto, e em consonância com ele, surge uma ideologia religiosa, para a qual o trabalho se constituía no grande meio de purificação da alma, como muito bem mostrou Max Weber. Uma vez que o novo sistema se consolida, a sexualidade, em todos os seus aspectos, passa a se libertar: a repressão torna-se vazão, a energia reprimida é capitalizada de muitas formas, no processo em que Marcuse denominou “dessublimação repressiva”. Agora vale tudo, nesse “retorno do reprimido” a difusão de modelos de comportamento e o aspecto mercadológico da sexualidade encontram na mídia um companheiro fundamental, potencializado com o surgimento de novas tecnologias que, como a internet, apesar de configurarem conquistas importantes, não deixam de representar um risco e contribuir para a desumanização do homem, quando não utilizados adequadamente. Nossa civilização está marcada por duas cosmovisões distintas, e com elas formas diferentes de conceber e viver a sexualidade. Uma colocou sob suspeita o corpo, assumindo a sexualidade como um risco à salvação; a segunda, mais recente, procurou explorar a sexualidade na realização da lógica capitalista. O capital coloca tudo a seu serviço, das mais variadas formas, sua relação com a sexualidade humana não é diferente. Segundo estudos, por exemplo, o mercado erótico brasileiro no ano de 2013, movimentou mais de 1 bilhão de reais. Com a internet a pornografia também atinge um grau de propagação anteriormente nunca vista, atingindo a sociedade e as pessoas de todas as idades, colocando em crise a indústria pornográfica antes existente. A situação desumanizadora em que vivemos em nossa sociedade também reflete na qualidade como o homem vive a sua vida e sua sexualidade. Não há como estabelecer os caminhos de uma nova sexualidade sem um novo humanismo, revestidos de novos significados, segundo os quais o homem possa ser colocado como o valor maior, e a sexualidade possa ser parte da realização plena do mesmo, articulada com as outras dimensões essenciais que o constitui, na busca de uma nova ordo amoris, conforme nos indica Max Scheler no livro que tem o mesmo título.

* Professor doutor do Departamento de Filosofia (Ufes)

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g r a d ua ç ã o

Curso de Direito:

formando e capacitando advogados há 84 anos Foto: Arquivo

Foto: Jéssyka Saqueto

Nos anos 1930, a Faculdade de Direito funcionava no centro de Vitória e, atualmente, no campus de Goiabeiras

Formar profissionais capazes de utilizar, com senso crítico e habilidade intelectual, os conhecimentos do universo do Direito, da legislação e das normas afins, relacionando-os e aplicando-os à realidade, permitindo avaliar as situações derivadas da multiplicidade dos conflitos entre o fato e a norma. Essa é uma das preocupações do curso de Direito da Ufes que, em 2014, completou 84 anos de história. O curso de Direito foi um dos primeiros a serem criados no Estado, por volta dos anos 1930. Inicialmente, as aulas eram ministradas em um prédio no centro de Vitória onde funcionava a Faculdade de Direito, até a criação da Universidade Federal e a implantação e funcionamento do campus de Goiabeiras. O curso foi oficializado pelo Estado em 1935, e somente em 1950 foi incorporado ao sistema federal de ensino. Uma recente e importante conquista para o curso foi a criação, em 2006, do Programa de PósGraduação em Direito (PPGDir), que possibilitou a implementação do Mestrado em Direito Processual Civil. Até no ano de 2012, o programa formou 52 mestres em direito. O curso de mestrado tem duas linhas de pesquisa que desenvolvem estudos nas áreas de Processo, constitucionalidade e tutela de direitos existenciais e patrimoniais e Justiça, meios de defesa e de impugnação de decisões. “A criação da pós-graduação marca um momento em que o

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curso deixa de ser apenas um ‘consumidor’, e passa a ser um produtor de estudos e pesquisas”, destaca o chefe do Departamento de Direito e professor da Ufes, Júlio Pompeu. O curso conta ainda com projetos de extensão e grupos de pesquisa que auxiliam o aluno no exercício da prática jurídica junto à comunidade, que pode usufruir desses serviços gratuitamente. O Núcleo de Prática Jurídica é um dos projetos de extensão. Criado em 1976, oferece assistência social à comunidade por meio do Juizado Especial Cível Adjunto. O atendimento é feito por assistentes sociais e alunos, com o auxílio de professores, dependendo do caso. “Queremos ser facilitadores. Assumir mais ativamente o papel de protagonistas nos direitos sociais. O Núcleo não quer apenas receber a comunidade, ele quer também ir até as pessoas e comunidades carentes para diagnosticar e aconselhar”, afirma Pompeu. Nas provas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o curso de Direito da Ufes sempre obtém bons resultados. Nos últimos exames da Ordem, por exemplo, a Universidade conquistou os primeiros lugares em aprovação, tendo aprovados 97% dos alunos que se submeteram à avaliação, aprovados. Recentemente, foi a instituição que mais aprovou no País, com um índice de 80% de aprovação. Em 2012, a Ufes recebeu o Selo “OAB Recomenda”, que contempla as melhores Universidades de Direito do Brasil.


Foto: Rafaela Laiola

i d e ia p r e mia d a

Inovação tecnológica baseada em

sustentabilidade recebe prêmio

O Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) foi contemplado com menção honrosa na edição 2013 do prêmio Vale-Capes de Ciência e Sustentabilidade, que selecionou dissertações de mestrado com propostas de projetos ecologicamente sustentáveis. A ideia de premiar essas ações surgiu a partir da parceria firmada entre a Vale e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), durante a Conferência Rio+20, que tratou de questões atuais do meio ambiente e estabeleceu uma agenda de compromissos com o desenvolvimento sustentável. A dissertação intitulada Arquitetura institucional de ensino superior. Ações sustentáveis projetuais baseadas nas categorias do LEED Schools NC-V3 foi defendida em 2012 pelo mestrando Celso Silva Bastos, sob orientação do professor João Luiz Calmon. Ambos também foram agraciados com o prêmio. O trabalho abrange a pesquisa acerca de conceitos de sustentabilidade e ações aplicadas para a redução dos impactos ambientais. Desenvolvendo uma abordagem da construção civil sustentável, o projeto traz como modelo uma instituição de ensino de Vitória, analisada segundo seu desempenho ambiental. Para essa análise, o autor empregou o sistema de certificação americano LEED Schools NC-V3 como método de avaliação qualitativa dessa edificação, baseando-se em critérios exigidos para a redução do consumo dos recursos naturais durante todo o processo de construção. Ao projetar a construção, Bastos priorizou elementos e tecnologias favoráveis ao meio ambiente, influenciando todo o processo, como na escolha do local e dos materiais utilizados e no uso consciente do edifício até sua fase de “desconstrução”. Sendo

Professor João Calmon (à esquerda) e seu orientando Celso Bastos receberam prêmio

assim, é feito um estudo sobre o manejo adequado da matéria-prima, mão de obra e equipamentos utilizados na construção, dando atenção ao procedimento de reuso e reciclagem desses materiais após a vida útil do espaço, para evitar os malefícios da liberação inadequada de resíduos da obra. Ressaltando, ainda, a qualidade do ar no ambiente interno do edifício. A construção projetada tem o compromisso com os métodos necessários para o uso correto de água e energia, uma vez que são observados grandes volumes de água desperdiçados em prédios mal coordenados ecologicamente. O autor direcionou seu foco para o desenvolvimento de um sistema de aproveitamento de água originada na condensação do ar condicionado e reutilização nas descargas sanitárias do edifício, que gerou economia em torno de 70% na quantidade de água consumida. “Considerando que um dos grandes problemas de hoje é a questão da água, seu reaproveitamento e a proteção dos mananciais, propomos utilizar uma água que, normalmente, é totalmente descartável na edificação. A ideia foi realizar uma engenharia dessa água, alimentando todas as caixas de descarga do prédio com a água captada na condensação do ar condicionado. Pudemos transformar em produto a água captada no ambiente do próprio prédio”, afirma Bastos acerca do sistema criado. A dissertação premiada destacou-se pela proposta eficiente e inovadora, garantindo também maior produtividade para a edificação além das questões ambientais. Celso Silva Bastos pretende continuar seu trabalho com ênfase na gestão da água, iniciando sua tese de doutorado dentro da linha de pesquisa em saneamento, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental da Ufes. UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Dez 2014

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I d e ia p r e mia d a

Pesquisa sobre poluição do ar na Grande Vitória

é premiada na Itália Foto: Arquivo

A estudante da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Milena Machado de Melo recebeu o prêmio de melhor apresentação oral na International Conference on Atmospheric Dust, que aconteceu em junho de 2014 em Castellaneta Marina, Itália. Participaram da conferência mais de 300 estudantes de graduação, mestrado e doutorado de diferentes países. O trabalho premiado faz parte da sua tese de doutorado, cujo tema é a quantificação da relação exposição versus resposta ao incômodo causado por material particulado. A pesquisa consiste em estudar a relação entre a poluição do ar e o incômodo percebido pela população na região metropolitana da Grande Vitória. Para a realização da pesquisa, Milena utilizou o método “Survey”, por meio da aplicação de questionários para os moradores das regiões em torno de cada estação de monitoramento da qualidade do ar da Grande Vitória. Essas estações são gerenciadas pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema). A estudante pretende com a pesquisa quantificar a relação entre: exposição a níveis de material particulado e níveis de incômodo percebido pela população. Os resultados parciais do estudo mostram que mais de 80% dos entrevistados estão incomodados com a poluição do ar. Foram entrevistadas mais de 2.000 pessoas, e para isso a então doutoranda contou com a ajuda de estudantes de graduação do curso de Engenharia Ambiental e com o apoio técnico dos alunos do curso de Estatística, entre eles, o estudante Wharley Borges Ferreira. Segundo Milena, a relevância do seu trabalho é fornecer informações científicas sobre um problema real vivido não somente pelos habitantes da região estudada, mas também em outras

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A doutoranda de Engenharia Ambiental Milena Machado de Melo com o certificado do prêmio recebido da International Conference on Atmospheric Dust. Ao seu lado, o estudante do curso de Estatística Wharley Borges Ferreira, que ajudou na coleta de dados

regiões metropolitanas. “Acredito que meu trabalho se destacou pela riqueza das técnicas estatísticas aplicadas a um problema real. Esse prêmio significa o reconhecimento internacional de parte da minha tese de doutorado, e isso envolve minha dedicação aos estudos, além da dos professores e alunos”, ressalta Milena. Milena é aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental (PPGEA) e contou com a orientação dos professores Valderio Anselmo Reisen e Jane Santos, além da colaboração de estudantes de iniciação científica do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e da Ufes. A conferência tem o objetivo de apresentar trabalhos científicos que tratem de temas como poeira na atmosfera, impactos no meio ambiente, saúde, qualidade de vida, além de soluções tecnológicas e inovadoras. Essa foi a primeira edição da International Conference on Atmospheric Dust, e sua periodicidade será anual.


Foto: Thaiana Gomes

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Comunidade universitária e sociedade

celebram 60 anos da Ufes Em 2014, uma extensa e criativa programação atraiu milhares de pessoas para as comemorações

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riada em 5 de maio de 1954 como Universidade do Espírito Santo, e então vinculada ao governo do Estado, a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) comemora em 2014 os seus 60 anos de história. Uma extensa e variada programação foi desenvolvida objetivando a celebração de uma data especial para o Espírito Santo e para a educação superior do Brasil. “Em todo o mundo, a universidade é uma instituição milenar; portanto, os 60 anos da Ufes revelam a sua juventude e, ao mesmo tempo, a sua maturidade para continuar a exercer, com qualidade, a missão de produzir conhecimento e formar novas gerações de profissionais e cidadãos para o mundo do trabalho e para a vida”, destacou o reitor, Reinaldo Centoducatte. As festividades em torno dos 60 anos foram planejadas e organizadas por uma comissão coordenada pela vice-reitora Ethel Maciel, com a participação de representantes das pró-reitorias de Extensão e de Planejamento e Desenvolvimento Institucional, da Superintendência de Cultura e Comunicação (Supecc), da Associação dos Docentes (Adufes), do Sindicato dos Trabalhadores (Sintufes), do Diretório Central dos Estudantes (DCE), e da Associação dos Aposentados (Asaufes). E foi no dia 5 de maio de 2014 que o Teatro Universitário, no campus de Goiabeiras, em

Vitória, recebeu a comunidade da Instituição e representantes da sociedade para a sessão solene que marcou o início das comemorações. Professores, servidores técnicos, estudantes, convidados e autoridades prestigiaram o evento, cuja sessão foi presidida pelo reitor Reinaldo Centoducatte, acompanhado da vice-reitora Ethel Maciel. A solenidade teve a apresentação do Coral da Ufes, regido pelo maestro Cláudio Modesto, e do quarteto de cordas sob a regência do maestro Leonardo David, da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo. Na ocasião, também foi exibido o novo vídeo institucional da Ufes, produzido pela Supecc, e que apresenta a história e os avanços alcançados pela Universidade no decorrer dessas seis décadas. Nessa sessão solene, o reitor Reinaldo Centoducatte homenageou os ex-reitores, representados por Manoel Ceciliano Salles de Almeida, reitor de 1975 a 1980, e por Roberto da Cunha Penedo, que exerceu o seu mandato de 1992 a 1996. “É fundamental reafirmar o papel singular da Ufes no cenário regional e nacional desde a sua criação, por meio de uma trajetória que evidencia progressiva e sistemática evolução da sua produção acadêmica, resultado da dedicação e do trabalho de várias gerações de homens e mulheres que contribuíram com a sua energia para a construção desta Instituição”, falou o reitor, na solenidade.

Fotos: Arquivo

O início das comemorações dos 60 anos da Ufes foi em sessão solene no Teatro Universitário, com apresentação do quarteto de cordas sob a regência do maestro Leonardo David, da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo

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Fotos: Arquivo

Celebrações envolvem todos os campi As comemorações pelos 60 anos da Ufes se concentraram no seu campus principal, o de Goiabeiras, atraindo também a comunidade universitária do campus de Maruípe, ambos na Capital. Mas as festividades se estenderam para os campi do Centro de Ciências Agrárias (CCA), em Alegre, no Sul do Estado, e do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), localizado em São Mateus. No dia 26 de maio, as comemorações ocorreram no campus do Ceunes, com uma sessão solene realizada no auditório do Centro, presidida pelo reitor Reinaldo Centoducatte, e com a participação da vice-reitora Ethel Maciel, além de professores, servidores técnicos, estudantes e convidados. Foi oficialmente inaugurado o campus universitário e o restaurante de São Mateus. Durante dois dias, a Tenda Multicultural apresentou diversas atrações, com muita música, teatro, poesia, rodas de conversa e oficinas. O encerramento da programação cultural ocorreu no Sítio Histórico do Porto de São Mateus, envolvendo a comunidade local. Em Alegre, as festividades começaram no dia 29 de maio, com uma sessão solene no Teatro Municipal Virgínia Santos. Estiveram presentes o reitor, a vice-reitora, e membros da comunidade universitária e da sociedade local. A programação cultural foi realizada na Praça Seis de Janeiro, com shows musicais.

mais de 200 artistas locais, que puderam mostrar a qualidade da produção cultural capixaba. Organizada pela Supecc, a tenda foi palco de shows musicais, exposições fotográficas, debates, lançamentos de livros e apresentações de teatro e poesia. Toda a programação cultural foi aberta ao público. O Cine Metrópolis realizou a mostra de cinema “Seis décadas de aventuras, risos e sonhos”., que apresentou filmes que marcaram a história do cinema nos últimos 60 anos. Shows musicais também brilharam na programação da tenda, como os do Grupo América 4 e das bandas Cheap Blues e Big Bat Blues Band. A Editora da Ufes (Edufes) promoveu o lançamento coletivo, na Tenda Multicultural, de nove livros impressos, e seis em formato digital, e a Galeria de Arte Espaço Universitário organizou a exposição “Cúando tú for mi leva”, do historiador de arte e editor Júlio Martins. A exposição teve origem em um encontro entre os artistas Elpídio Malaquias e Elisa Queiroz, reunindo obras de 30 artistas capixabas. Também foram realizadas apresentações teatrais e oficinas culturais em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc). A Rádio Universitária cobriu, ao vivo, parte dos eventos de comemoração dos 60 anos na Tenda Multicultural, transmitida no programa “Tardes infinitas”.

Tenda Multicultural atrai cerca de 20 mil pessoas A Tenda Multicultural, que percorreu os campi da Capital e do interior do Estado durante as comemorações dos 60 anos da Ufes, atraiu um público de aproximadamente 20 mil pessoas, com a participação de

Atividades culturais marcaram as comemorações em todos os campi UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Dez 2014

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I NST I T U C I ON A L Câmara dos Deputados presta homenagens A Ufes recebeu homenagens pelos seus 60 anos da Câmara dos Deputados no dia 4 de junho, quando foi realizada uma sessão solene para comemorar o aniversário da Universidade. Participaram da homenagem o reitor Reinaldo Centoducatte, a vice-reitora Ethel Maciel, e os deputados Camilo Cola, Carlos Manato, César Colnago, Iriny Lopes, Jorge Silva, Paulo Foletto, Rose de Freitas e Lelo Coimbra, autor da proposta. Também participaram pró-reitores e diretores de centros de ensino da Instituição. “A trajetória de seis décadas da Ufes, desde a sua fundação em 1954, é resultado da mobilização da sociedade capixaba e de seus agentes públicos”, destacou, na ocasião, o reitor Reinaldo Centoducatte. “No curso de sua história a Universidade reafirmou, permanentemente, o seu papel transformador de cumprimento da sua missão de promover formação acadêmica qualificada, de desenvolver ciência, tecnologia e inovação, e contribuir para a construção da cidadania”, ressaltou o reitor em seu discurso no Plenário Ulysses Guimarães. Representando o presidente da Câmara, Henrique Alves, o deputado André Moura discursou, ressaltando as significativas contribuições da Universidade ao Espírito Santo e ao País. Na ocasião, o reitor agradeceu o reconhecimento do parlamento brasileiro à história da Ufes, e fez a entrega de placas comemorativas aos 60 anos para os deputados capixabas. Assembleia Legislativa entrega comendas A Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), em sessão solene realizada no dia 8 de junho, também prestou sua homenagem. No evento, a Ales fez a entrega de placas, certificados e da Comenda Loren Reno para 30 pessoas que ofereceram reconhecida contribuição ao desenvolvimento da Ufes. A sessão comemorativa, presidida pelo deputado Paulo Roberto, autor da proposta de homenagem, contou com a presença do reitor, da vice-reitora, de professores, servidores técnicos, estudantes, gestores da Universidade, parlamentares, além de ex-alunos com reconhecida atuação na sociedade capixaba em diferentes áreas. “O aniversário de 60 anos da Ufes representa uma trajetória edificante para o nosso Estado, pois trouxe contribuições definitivas para a sociedade capixaba, seja na formação qualificada de recursos humanos, seja pela sua elevada e reconhecida produção acadêmica”, salientou o reitor Reinaldo Centoducatte durante a homenagem. Em seu discurso,

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o reitor observou que a origem da Instituição de ensino foi na Assembleia Legislativa, que em abril de 1954, após tramitação na comissão de educação, aprovou o projeto de lei que instituiu a Universidade do Espírito Santo, e que em 5 de maio daquele ano recebeu a sanção do governador Jones dos Santos Neves, por meio da Lei nº 806. Durante a sessão solene, o painel eletrônico do plenário Dirceu Cardoso exibiu uma mostra fotográfica organizada pelo fotógrafo Antonio Carlos Sessa Neto, que trabalhou na Ufes nas décadas de 1970 e 1980 e, atualmente, é funcionário da Assembleia. O valioso acervo de Tonico, como é chamado, possui imagens do campus de Goiabeiras antes mesmo das primeiras edificações, e de reitores que passaram pela Universidade. Parte desse acervo está arquivada na Biblioteca Central da Ufes. Logo inspira reflexão sobre história e futuro Produzida pela Superintendência de Cultura e Comunicação (Supecc), a Universidade ganhou uma marca comemorativa pelos seus 60 anos, produzida para ser utilizada durante o ano de 2014 em diferentes materiais de divulgação e de atividades acadêmica e administrativa. A marca traz o símbolo que representa o infinito, e se baseia no conceito de continuidade, de focar no que está por vir, mantendo o olhar para o passado de realizações. Criador da marca, o design e programador visual da Ufes, Willi Piske Júnior, explica que as cores do brasão – vermelha e amarela – e do logo promocional – azul-claro e azul-escuro – foram trabalhadas de modo a lembrar a paisagem de um nascer ou pôr do sol, provocando reflexão sobre a história da Universidade e também sobre o seu tempo de planejar o futuro. De acordo com Piske, as tipografias asseguram fácil legibilidade do logo e revelam características como solidez e dinamismo, muito presentes no desenvolvimento da Ufes.


Fotos: Arquivo

Selo filatélico marca a data Durante as comemorações de aniversário da Universidade, foi apresentado o selo filatélico que registra a data, exibindo a imagem do mosaico produzido pelo artista plástico Raphael Samu, instalado no campus de Goiabeiras, e que se tornou um símbolo da Ufes. As primeiras obliterações (carimbos) do selo, produzido e lançado pelos Correios, foram realizadas pelo reitor Reinaldo Centoducatte e pela vice-reitora Ethel Maciel, na sessão solene realizada no dia 5 de maio de 2014. A peça lançada durante as comemorações dos 60 anos é marcante para a Universidade e faz parte de uma coleção especial da Ufes, e certamente apreciada por filatelistas. Os selos não são vendidos, mas usados em correspondências institucionais, ou disponibilizados para autoridades, visitantes e filatelistas.

Livros contam trajetória histórica A publicação de dois livros pela Editora da Ufes (Edufes) registram a história de 60 anos da Instituição. O primeiro – “Ufes, 40 anos de história” – é a reedição da obra do professor Ivantir Antonio Borgo, que aborda as primeiras quatro décadas da Universidade desde a sua idealização, no início dos anos de 1950. O livro narra a história da criação da Universidade, as dificuldades iniciais, sua federalização na década de 1960, os processos de estruturação, a criação de cursos e centros de ensino, o período da ditadura militar e o começo da democratização do País, os eventos e as personalidades marcantes, entre outros fatos históricos. O livro de Ivantir Borgo, lançado em 1995, ganhou uma segunda edição com moderna concepção gráfica produzida pela Edufes. O segundo livro aborda os 60 anos da Ufes, completados em 2014. Apresenta uma síntese cronológica dos primeiros 40 anos, buscando associar o desenvolvimento da Universidade com momentos históricos marcantes de cada período. O livro traça também um panorama da vida institucional nas últimas duas décadas, destacando as principais ações desenvolvidas em cada época, resgatando diferentes processos que resultaram na evolução da Ufes até recentemente. A produção do livro “Ufes 60 anos” foi coordenada pela professora Ruth Reis, superintendente de Cultura e Comunicação, com pesquisa e texto do jornalista Luiz Vital; fotografia do professor David Protti; pesquisa de imagens da programadora visual Alaide Del-Pupo; diagramação e arte das designers Juliana Braga e Samira Bolonha Gomes; e revisão de Márcia Rocha. O projeto gráfico da coleção é do programador visual Willi Piske, da Edufes.

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Fotos: Arquivo

Shows musicais, mostra de cinema, inaugurações, homenagens, exposições de arte e de fotografias fizeram parte da programação

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Ufes, história e avanços A Ufes foi fundada em 5 de maio de 1954, como Universidade do Espírito Santo, por meio da Lei Estadual nº 806, sancionada pelo então governador Jones dos Santos Neves. Posteriormente, foi incluída no sistema federal de ensino superior, e passou a ser denominada Universidade Federal do Espírito Santo, por meio da Lei nº 3.868, de 30 de janeiro de 1961, sancionada pelo então Presidente Juscelino Kubitschek. É uma instituição autárquica vinculada ao Ministério da Educação (MEC), com autonomia didáticocientífica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedece ao princípio da associação integral entre ensino, pesquisa e extensão. Possui vocação para atuar em todas as áreas do saber. A Universidade é a maior instituição de ensino do Espírito Santo, e está entre as mais conceituadas do País. Sua missão é gerar avanços científicos, tecnológicos, artísticos e culturais. Por meio do ensino, da pesquisa e da extensão, tem a finalidade de produzir e socializar conhecimento, a fim de formar cidadãos com capacidade de implementar soluções que promovam o desenvolvimento humano sustentável. Possui quatro campi universitários, sendo dois em Vitória – Goiabeiras, o principal, e Maruípe; e dois no interior, em Alegre, no sul do Estado; e em São Mateus, no norte – e está presente nos 78 municípios capixabas por meio de diferentes ações. A Instituição conta com 1.700 professores, com 1.150 doutores e 430 mestres; 2.200 servidores técnicos; 18 mil alunos de graduação presencial e 4 mil na modalidade a distância, e 3 mil nos cursos de pós-graduação. A Ufes mantém 99 cursos de graduação, sendo 17 noturnos, e oferece 5 mil vagas anuais. Forma em média 2,5 mil estudantes por ano. Possui sete pró-reitorias: Administração, Assuntos Estudantis e Cidadania, Extensão, Gestão de Pessoas, Graduação, Pesquisa e Pós-Graduação, e Planejamento e Desenvolvimento Institucional, além das secretarias de Ensino a Distância e de

Relações Internacionais, e a Superintendência de Cultura e Comunicação. A Universidade também mantém o Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), uma das principais instituições de saúde do Espírito Santo. O hospital-escola atende na formação acadêmica nos cursos da área de saúde, em que são desenvolvidas diversas linhas de pesquisa e programas voltados para a comunidade, sendo uma referência em atendimentos de média e alta complexidade. O Hucam, atualmente, é gerido pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), possui 320 leitos, cerca de 1 mil profissionais e, anualmente, realiza cerca de 10 mil internações, 6 mil cirurgias, 2 mil partos, 200 mil consultas, 15 mil atendimentos de urgência e 250 mil exames laboratoriais. A Sistema Integrado de Bibliotecas tem oito unidades distribuídas nos quatro campi e mantém, no campus de Goiabeiras, a maior biblioteca do Estado, com cerca de 50 mil visitantes por mês. Possui o maior acervo bibliográfico do Espírito Santo, com 440 mil exemplares e 143 mil títulos. A Ufes oferece 52 programas de pós-graduação, instalados nos 10 centros de ensino, com 52 cursos de mestrado e 22 de doutorado, com o desenvolvimento de centenas de linhas de pesquisa científicas e tecnológicas em diferentes áreas do conhecimento. Cerca de 4 milhões de atendimentos em comunidades de todo o Estado são prestados pela Universidade por meio de 700 programas, projetos, eventos, cursos e serviços de extensão. Na área cultural, vale ressaltar a ação da Editora Universitária (Edufes); da Galeria de Arte Espaço Universitário; da Galeria de Arte e Pesquisa; da Livraria da Ufes; do Teatro Universitário, o maior e mais moderno do Estado; do Cine Metrópolis; e de outros serviços abertos à comunidade acadêmica e ao público.

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Foto: JĂŠssyka Saquetto


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Revista Universidade | n° 04  

Revista de Jornalismo Científico, Cultura, Variedades produzida pela Superintendênica de Cultura e Comunicação da Universidade Federal do E...

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