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Universidade Revista da Universidade Federal do Espírito Santo •

UFES

Maio/Ago 2013 • Ano 1 • Nº 2

Competência em

PETRÓLEO Ufes abriga, no campus de Goiabeiras, em Vitória, um dos maiores centros de pesquisa na área do mundo

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BIBLIOTECA CENTRAL

30 anos 2

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Há 30 anos a Biblioteca Central fincou raízes no campus de Goiabeiras, em Vitória, num edifício de estilo moderno, projetado pelo arquiteto José Galbinski, com 5.300 m². Criada em julho de 1963, a Biblioteca Central da Ufes lidera o Sistemas de Bibliotecas da Ufes (SIB/Ufes), que conta com sete unidades setoriais: bibliotecas Tecnológica, de Ciências da Saúde, do Ceunes, de Ciências Agrárias, de Educação, do Nedtec e de Artes. O conjunto abriga o maior acervo de livros, periódicos, teses e multimeios do Espírito Santo, com 145.278 títulos e 451.272 exemplares, mantido em constante processo de atualização para atender às necessidades das atividades da Ufes e de toda a comunidade externa. A Biblioteca Central da Ufes recebe o nome do professor Fernando Castro de Moraes, em homenagem ao professor, médico e ex-subreitor Acadêmico da Ufes.

Horários de funcionamento: Períodos letivos – das 7 às 21 horas, de segunda a sexta-feira, e das 8 às 13 horas, aos sábados Períodos de recesso – de segunda a sexta-feira, das 7 às 19 horas

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Apresentação

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Conhecimento para o desenvolvimento A Universidade Federal do Espírito Santo lança este segundo número da revista Universidade, cujo principal objetivo é a divulgação da produção de conhecimento da nossa Instituição. Desenvolvida pela Superintendência de Cultura e Comunicação (Supecc), esta publicação traz uma seleção de temas originados de projetos de pesquisas, ensino e extensão que estão sendo desenvolvidos pela Ufes em diferentes áreas. O desempenho obtido pelos professores, técnicos educacionais e estudantes no ambiente da ciência, da tecnologia e da inovação demonstra a forte inserção da Instituição no avanço dos processos econômicos e sociais do Espírito Santo. Nesta edição, a matéria de capa apresenta a parceria da Ufes com a Petrobras, o que evidencia a capacidade técnica e científica da Universidade para a sua inserção na área de petróleo e gás, consagrando como marca desta relação o binômio pesquisa e desenvolvimento. Com gestão compartilhada da parceria, as soluções para as grandes demandas oriundas do setor são pesquisadas nos nossos laboratórios para aplicação tecnológica pela Petrobras e demais concessionárias, gerando inovação, patentes, artigos científicos e formação qualificada de recursos humanos. Nessa área, inclusive, a Ufes tornou-se referência internacional. Vale registrar que o petróleo não é apenas uma fonte de energia para abastecer o País e dotá-lo de mais autonomia para o seu crescimento. É, também, um importante indutor de processos de desenvolvimento sustentado por tecnologias de ponta e por uma rede de serviços que vêm transformando os arranjos produtivos regionais. Nota-se que os impactos da indústria do petróleo e gás na economia capixaba produzem uma capilaridade com efeito nos municípios, atraindo novos investimentos para o Estado no setor de serviços, manutenção, fornecedores, equipamentos, além de potencializar atividades estabelecidas na infraestrutura de transportes, plataformas logísticas, o complexo portuário, entre outros. Particularmente, o fator petróleo e gás também repercute positivamente na Universidade. O Centro de Competências em Óleos Pesados (Copes), uma iniciativa pioneira no País, instalado no campus de Goiabeiras, é que estabelece a ponte entre a Ufes e a Petrobras, a partir de projetos analisados e definidos pela instituição de ensino e a estatal. Assim, a graduação é favoravelmente impactada em diferentes cursos, que passam a se inserir nessa área como o curso de Engenharia do Petróleo, em São Mateus; Geologia, em Alegre; e diversos em Vitória: as Engenharias, Química, Física, Oceanografia, e mesmo cursos das ciências econômicas e humanas. A iniciação científica na graduação é igualmente envolvida em inúmeros projetos nessa área, e a pós-graduação também se fortalece, com a participação de programas em diferentes centros de ensino em Vitória e no interior. Essa mobilização acadêmica em torno do petróleo e gás faz aumentar a nossa produção de modo multidisciplinar, estabelecendo um modal de intensa interação entre os entes do governo e da sociedade, em que se inclui a nossa Universidade, para gerar reflexões e ações qualitativas. Este momento se traduz no crescimento institucional da Ufes, com investimentos em infraestrutura e em recursos humanos, aprimoramento dos cursos de graduação e de pós-graduação, apoio e sustentação ao ensino, à pesquisa e à extensão, de modo que possamos dar respostas objetivas às demandas da sociedade, tanto nos conteúdos da formação acadêmica, quanto na ampliação e diversificação da geração do conhecimento, mantendo a busca permanente da eficiência na prestação de serviços à comunidade. Reinaldo Centoducatte Reitor

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Reitor Reinaldo Centoducatte Vice-Reitora Maria Aparecida Correa Barreto Pró-Reitor de Administração Amarílio Ferreira Neto Pró-Reitor de Extensão Aparecido José Cirillo Pró-Reitora de Graduação Maria Auxiliadora de Carvalho Corassa Pró-Reitora de Gestão de Pessoas e Assistência Estudantil Maria Lucia Casate Pró-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento Institucional Maximilian Serguei Mesquita Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Neyval Costa Reis Junior Superintendente de Cultura e Comunicação Ruth Reis UNIVERSIDADE Revista de Jornalismo Científico • Cultura • Variedades produzida pela Superintendência de Cultura e Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo Secretária de Comunicação Thereza Marinho Coordenadora do Núcleo de Divulgação Científica Emília Manente Coordenador do Núcleo de Comunicação Institucional Luiz Vital Conselho editorial Maria Aparecida Correa Barreto • José Gerado Mill • Alberto Ferreira De Souza • Alberto Fernandes • José Antonio Martinuzzo • Ruth Reis • Emília Manente Coordenação geral Ruth Reis Editora Emília Manente Reportagem Emília Manente • Jorge Lellis • Luiz Vital • Maíra Mendonça Bolsista Maíra Mendonça Fotografia David Protti • Fernanda Bayer • Jorge Lellis • Arquivo Supecc Design Juliana Braga • Eliza Gobira • Mayara Ferreira Revisão Márcia Rocha Foto da Capa David Protti Distribuição • gratuita Impressão • Gráfica Universitária Tiragem • 6.000 exemplares Universidade Federal do Espírito Santo Superintendência de Cultura e Comunicação - Supecc Av. Fernando Ferrari, nº 514, Campus de Goiabeiras Prédio da Reitoria, 1º andar, CEP: 29075-910, Vitória/ES - Brasil Telefone: (27) 4009-7835 E-mail: revistauniversidade@grupos.ufes.br

O conteúdo desta revista pode ser reproduzido para fins didáticos, desde que citada a fonte.

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Foto: David Protti

Universidade Federal do Espírito Santo • Ufes


Prezado leitor, o segundo número da Revista Universidade traz em destaque uma matéria sobre o Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Metodologias para Análises de Petróleos, o LabPetro, um dos maiores centros de pesquisa do mundo na área de petróleo. O laboratório, localizado no campus de Goiabeiras, em Vitória, produz estudos de ponta e não sem razão: o Espírito Santo é o segundo maior produtor de óleo e gás do País. Levando em conta a nossa opção pela multidisciplinaridade, evidenciamos também a importância do Núcleo de Conservação e Restauração da Ufes que, em um trabalho permanente, impede que a cultura e a identidade do povo capixaba, manifestadas em suas obras de arte, se percam. No Núcleo, profissionais da área de Artes trabalham com diferentes formas de restauro para que a memória esteja sempre viva. E por falar em memória, a Ufes instituiu no início deste ano a sua Comissão da Verdade. Uma das suas funções é não deixar que a história do regime militar se apague de nossas lembranças. Para resgatar essa época, entrevistamos o presidente da Comissão e professor do Departamento de Arquivologia, Pedro Ernesto Fagundes. Segundo ele, a Ufes foi a instituição do Estado que mais sofreu interferências naquele período. É preciso revelar para não esquecer. Esta edição publiciza várias outras pesquisas e projetos de extensão da Universidade, bem como o investimento da Instituição em assistência estudantil. Entendemos que esta é uma forma de a Ufes prestar contas à sociedade. Visando ampliar o diálogo entre a revista e os leitores, estamos disponibilizando um email, o revistauniversidade@grupos.ufes. br, para que possamos receber sugestões de pautas, críticas e, por que não, elogios? Emília Manente Editora Ruth Reis Superintendente de Cultura e Comunicação

Sumário 24 Educar para preservar Núcleo tem como objeto de pesquisa a educação ambiental

34 Petróleo, pesquisa e desenvolvimento Ufes abriga um dos laboratórios mais bem equipados do mundo

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Memória viva Com muito humor Uma chance para recomeçar Tecnologia patenteada O Direito para além das fronteiras Novos caminhos para o conhecimento Entrevista: Comissão da Verdade Império Romano De olho na mídia Tecnologias da informação Música, a trilha sonora do mundo Comunicação entre roedores Artigo: O Papa e os desafios éticos Ideia premiada Buscando sempre mais Com aroma e sabor de café Ler o mundo com outros olhos Ufes investe em assistência estudantil

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Para que a memória esteja

SEMPRE VIVA

Maíra Mendonça

Núcleo do Centro de Artes desenvolve há mais de 30 anos projetos e pesquisas em conservação e restauração 8

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Foto: Karoline Marques Stelzer


À

medida que avançam a ciência e a tecnologia e se instauram novos valores e paradigmas no meio social, o passado se torna cada vez mais distante. Garantir que a memória de outros tempos não se perca é uma forma de preservar a identidade de um povo e, portanto, função de toda a sociedade. Na Ufes, um grupo formado por alunos e professores do curso de Artes empenha-se para que o patrimônio artístico e cultural do Espírito Santo esteja sempre resguardado. Trata-se do Núcleo de Conservação e Restauração da Universidade, que há mais de 30 anos desenvolve projetos e pesquisas na área de conservação e restauração de pinturas e esculturas de museus, igrejas e outras instituições públicas e particulares do Estado. Instalado no Centro de Artes, no campus de Goiabeiras, em Vitória, o espaço do Núcleo guarda obras que carregam consigo um valor simbólico incalculável. Para a coordenadora do Núcleo, professora Gilca Flores de Medeiros, é justamente nisso que reside a importância dos processos de restauração e conservação: os valores que são projetados nesses objetos. “Hoje se entende que a maior importância que o objeto tem são as relações que ele pode estabelecer com a comunidade. Quando restauramos, trabalhamos com a matéria, mas o objetivo não é a matéria. É contribuir para que aquele objeto possa provocar mais relações, sejam elas afetivas, culturais, religiosas, turísticas e outras mais”, explica. Gilca esclarece também que muitas pessoas se confundem ao acharem que patrimônio é aquilo que é tombado. “Ao contrário, uma obra é tombada porque é um patrimônio, porque a sociedade acredita que ela é importante”, diz. O embrião do que mais tarde se consolidou como o Núcleo de Conservação e Restauração foi criado pela ex-professora do Curso de Artes da Ufes Rachel Diniz Ferreira, ainda em 1980. Ao retornar de um curso de especialização do Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis (Cecor), da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Raquel montou um ateliê no terreno do Museu Solar Monjardim, no bairro Jucutuquara, na Capital. Em 1990, o ateliê foi transferido para a Ufes, já como um núcleo, sob a direção do professor Attilio Colnago Filho e passou por algumas mudanças, como a ampliação de seu espaço físico, até se tornar o que é hoje. Atualmente o Núcleo é formado por 14 pessoas, incluindo os coordenadores Gilca Flores e

Attilio Colnago; as técnicas de restauração Raquel Pimentel e Albanize Monteiro; cinco estudantes de graduação; quatro ex-estudantes, que são contratados pelas instituições para as quais o Núcleo presta serviços, e a secretária, Marlene Silva Ferreira. Na área de escultura, os restauradores-conservadores se dedicam principalmente à arte imaginária-sacra. Por isso, desde 1990 o Núcleo realiza um trabalho junto ao Conselho de Arte Sacra da Arquidiocese de Vitória, que atua na restauração de esculturas em madeira de igrejas de todo o Estado. Outro importante projeto de extensão desenvolvido pelo Núcleo foi o mapeamento, a catalogação e a análise do estado de conservação das mais de 200 imagens do acervo do Museu Solar Monjardim, que se estendeu de 1995 a 2012. O objetivo é que o museu seja reativado - que funcionava na Capela de Santa Luzia, no Centro de Vitória, e em 1960 foi desativado e transferido para o terreno do Solar Monjardim, em Jucutuquara. Este é o único museu de grande porte do Estado no que se refere à arte sacra. Já na parte de restauro de pinturas, um dos grandes projetos do Núcleo foi a restauração do acervo do Palácio Anchieta, sede do governo do Estado, que possui mais de 40 obras e cuja temática central é a paisagem. O trabalho iniciado em 2005 foi concluído em 2012 e resultou também na realização do seminário Paisagem: do panorama ao pertencimento, além da publicação do livro O Acervo de Pinturas do Palácio Anchieta – História e Restauração, que conta a história do Museu Anchieta e detalha todo o processo de restauração das pinturas feito pelo Núcleo. Missão O professor Attilio Colnago, um dos coordenadores do Núcleo, explica que a preocupação do espaço vai muito além da prestação de serviços. Por isso, seus integrantes buscam desenvolver também atividades de pesquisa e extensão, conferências, cursos, jornadas e seminários. “Somos o único núcleo de conservação e restauração de bens culturais do Espírito Santo. Então há essa preocupação de não funcionarmos apenas como uma oficina de reparos, mas de trabalharmos com pesquisa e extensão, além da capacitação dos alunos, como possibilidade de ajudar na formação de novos profissionais. Essa é nossa principal missão”, afirma. Outro cuidado do Núcleo é fazer com que as comunidades conservem seu patrimônio. Para isso, os pesquisadores fazem visitas técnicas às

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P ES Q U I S A Fotos: David Protti

comunidades, nas quais apresentam o trabalho realizado pelo Núcleo aos moradores e destacam a importância da preservação de bens artísticos e culturais. Após a entrega das obras, é feita uma análise do processo de restauração que justifique os custos arcados pela comunidade, além de um treinamento específico com pessoas que lidam cotidianamente com as peças. “Quanto mais se amplia o conhecimento sobre a peça, mais o olhar das pessoas se torna diferenciado e a salvaguarda da obra de arte é muito maior”, pontua Colnago. Restauração de papel Além da pintura e da escultura, o Núcleo se prepara para ampliar sua área de atuação, criando um ateliê de conservação e restauração de papel, destinado a recuperar documentos, livros e obras de arte, como gravuras, desenhos e pinturas. A proposta é a de que o ateliê fique pronto até o final de 2013. Para dar início a essa nova fase, professores e alunos já vêm desenvolvendo estudos desde 2010. O pioneiro foi o projeto de conclusão de curso de Franquilândia Gonçalves, no qual a graduanda fez o levantamento do estado de conservação das quase 200 peças que compõem o acervo

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de gravuras em metal e xilogravuras do Centro de Artes da Ufes. O trabalho resultou em um projeto de conservação dessas gravuras, financiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo (Secult). Por meio desse projeto, surgiu também a oportunidade da realização de cursos de capacitação para restauração de papel, ministrados pela restauradora Blanche Thaís Porto de Matos, de Belo Horizonte, Minas Gerais. Outros importantes passos para a implantação do ateliê foram o projeto Conservação de Obras Raras (2011), no qual 188 exemplares do Acervo de Obras Raras da Coleção Mário Freire da Biblioteca Central da Ufes passaram por processos de higienização e acondicionamento; e o Projeto de Conservação do Acervo de Fotografia de imagens antigas do Espírito Santo, também pertencentes à Coleção Mário Freire. O trabalho, coordenado pelo professor de Fotografia do Centro de Artes da Ufes Paulo de Barros, foi concluído em 2012. Cerca de 500 imagens passaram por processos de higienização, acondicionamento, recuperação e digitalização. No início deste ano, foi concluída a restauração do Livro de Tombo da comunidade de Todos os Santos, situada na zona rural de Guarapari. O livro de 80 páginas registra os principais fatos históricos da co-


Equipe do Núcleo coordenado pelos professores Attilio Colnago e Gilca Flores trabalha em diferentes formatos de restauro

munidade e da paróquia local. A aluna do mestrado em Artes da Ufes Karoline Marques Stelzer foi a responsável pela restauração do livro. Ela acredita que o ateliê de papel suprirá uma necessidade do Espírito Santo, que quase não possui mão de obra na área.

“Existe no Estado um acervo muito grande de papéis que precisam ser restaurados, como os documentos do Arquivo Público e da Biblioteca Estadual e da própria Biblioteca Central da Ufes, além de outros lugares que nós ainda desconhecemos”, ressalta ela.

Arte Contemporânea Uma vez por semana, os integrantes do Núcleo de Conservação e Restauração se reúnem em um grupo de estudos para discutir temas da área. O assunto mais discutido recentemente é a arte contemporânea, com a qual o grupo também se prepara para trabalhar. A expectativa é de que a partir de 2014, através de um projeto de extensão, o Núcleo inicie trabalhos de restauração e conservação do acervo da Galeria Espaço Universitário, da Ufes, que possui quase três mil obras. A arte contemporânea impõe uma série de desafios aos conservadores-restauradores, como a necessidade de aprender a lidar com diferentes combinações de materiais. Muitas obras também possuem caráter efêmero e, portanto, o processo de conser-

vação torna-se incompatível tanto com o material do qual elas são feitas, quanto com a proposta do artista. Nesse caso, surgem novas formas de se preservar a memória dessas obras, como a documentação técnica e fotográfica das peças, produção de vídeos, entrevistas com os artistas etc. “Aí muda completamente todo o pensamento sobre conservação e restauração. O que vai ficar não é a obra em si, é uma lembrança dela. E ela gera um outro acervo que precisa ser mantido. Há a necessidade de se pensar nisso, pois agora, cada vez mais, esse tipo de manifestação artística se amplia. O restaurador, querendo ou não, tem que se preparar ou se especializar nesse tipo de documento”, argumenta o professor Colnago.

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P ES Q U I S A

Com muito

HUMOR Grupo de estudos tem o humor como objeto de pesquisa. O tema já rendeu vários trabalhos publicados em anais de congresso, dissertação de mestrado, artigos de iniciação científica e TCCs

Irônico, sagaz, simples, refinado, revelador de um estado de espírito e de modos de ser e de estar no mundo. Seja intencional ou não, o humor se manifesta de inúmeras formas, com diversos fins. Pensando nisso, desde 2009 o Grupo de Estudos em Textos Humorísticos (Gethu), do Departamento de Línguas e Letras da Ufes, faz do humor seu objeto de pesquisa. Desde a criação do grupo foram publicados cerca de 20 trabalhos (entre capítulos de livro, artigos em periódicos e em anais de congressos), além de 14 projetos concluídos – duas dissertações de mestrado, seis trabalhos de Iniciação Científica e seis Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC). O Gethu, formado por 13 pesquisadores, investiga as técnicas de construção do humor vinculadas à linguagem a partir das teorias do Texto e do Discurso, como Linguística Textual, Pragmática, Análise do Discurso e Retórica. São investigadas as técnicas linguísticas que explicam a construção do humor em textos orais e escritos pertencentes a diferentes gêneros e domínios discursivos, como o cotidiano, o literário, o jornalístico e o publicitário. O objetivo final do grupo é consolidar um amplo material de pesquisa, a fim de subsidiar o ensino da produção de textos humorísticos, área

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que ainda não é explorada pela escola básica. Segundo a coordenadora do Gethu, professora Ana Cristina Carmelino (de blusa amarela na foto ao lado), as pesquisas sobre humor se intensificaram a partir da década de 1980, mas ainda há poucos estudiosos da área no Brasil. Um dos motivos é o fato de o tema ainda não ser reconhecido como objeto de estudo relevante por alguns pesquisadores. “Há uma crença (talvez inconsciente) de que o que é agradável e divertido não pode ser assunto respeitável para o campo acadêmico. Estudar humor é coisa séria. O texto humorístico suscita revelações interessantes: livre de determinados procedimentos de controle, ele retoma discursos profundamente arraigados e proibidos, que se infiltram nas técnicas linguísticas”, reforça a professora. Ana Cristina explica que os textos humorísticos são capazes de evidenciar, de forma agradável, fatos importantes acerca dos discursos e dos recursos da língua. Por meio dele, pode-se criticar ou denunciar. “O humor também funciona como um recurso argumentativo eficiente: além de incitar o interlocutor a posicionar-se diante de uma questão polêmica, pode levá-lo a refletir sobre práticas sociais e culturais, sobre as fragilidades do mundo. De extrema relevância, o humor não só desperta interesse, mas, também, prolonga a atenção, excita ou acalma as emoções, orienta o pensamento e guia ações”, enumera ela. Uma das principais questões que giram em torno do tema refere-se aos limites da produção humorística, visto que a interpretação do que é engraçado ou não é subjetiva, proveniente das experiências, da formação e do meio social em que vivem as pessoas. Portanto, uma simples piada ou um comentário estão sujeitos a reações tanto positivas quanto negativas dos interlocutores. “O humor desperta emoções eufóricas e disfóricas. Depende da interpretação de cada um”, afirma Ana Cristina.


O humor em jingles publicitários •

Franciely Freitas, 8º período do curso de Letras

do curso de Letras

“Trabalhamos com a obra “Fábulas Fabulosas” (1964), de Millôr Fernandes. A fábula não é um gênero humorístico, mas, no caso de Millôr, percebemos que o autor usava uma linguagem que levava à situação humorística. O humor presente nas fábulas não leva à gargalhada, ao riso audível. Ao lê-las, rimos de forma contida. Elas, como todas as outras, têm como objetivo o ensino de como o homem deve se comportar. E para chegar a isso, Millôr trabalha com um recurso peculiar: comentários feitos ao final de seus textos, cheios de ironia e sugestão, técnicas que promovem o humor.”

Foto: David Protti

“ Eu analisei a campanha da marca Tigre (Grupo Tigre – Tubos e Conexões), produzida em 2009 e veiculada até 2011. O principal objetivo era analisar os jingles separados da peça publicitária, pois eles também são veiculados separadamente. Percebe-se que o humor é mais utilizado na peça do que nos jingles em si. Os recursos mais utilizados na produção do humor foram inferência e sugestão. Outro recurso observado em menor escala foi a ambiguidade – atribuição de duplo sentido às palavras. O humor, que pode ser usado como uma alternativa para denegrir a imagem de algo ou de alguém, nesse caso foi usado como estratégia de venda de produtos.”

O humor nas fábulas de Millôr Fernandes • Dayana Vicente, 8° período

Uma análise das paródias de filmes publicadas na revista MAD •

Stephanie Matos, 3° período do curso de Letras “Quando lemos uma piada ou uma história não percebemos por que rimos. E eu vi isso como uma oportunidade de pesquisa: descobrir o que há no texto, no âmbito da linguagem, que nos faz rir. Foram selecionadas cinco paródias de filmes da revista MAD, das edições de 2010 e 2011. Pude perceber que, para o leitor compreendê-las, deve acionar o recurso do conhecimento prévio, qaém de que as paródias vêm sob o formato de histórias em quadrinhos.”

O humor nos contos de Chico Anysio • Luana Ferraz, 8º período do curso de Letras

“Descobri no texto humorístico uma diversidade de recursos, um potencial argumentativo e um valor de construção textual que não imaginava. Chico Anysio é consagrado como um dos melhores humoristas do País, mas a sua literatura não é explorada. A análise foi de seu primeiro livro, “O batizado da Vaca”, de 1972. Através de diversas técnicas de construção de humor, ele consegue fazer referências a coisas conhecidas do público e, ao mesmo tempo, se colocar em posição de expressar opiniões e convencer as pessoas sobre determinado assunto”.

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E X TENS ã o

Uma chance para

Foto: David Protti

recomeçar

Professores do Centro de Ciências da Saúde, localizado em Maruípe, Vitória, realizam ações e atendimento interdisciplinar a pacientes com dependência de álcool e outras drogas

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restar assessoria e planejamento em dependência química. Essa é a principal missão do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e Outras Drogas (Cepad) que, localizado no Centro de Ciências da Saúde da Ufes (CCS), em Maruípe, Vitória, proporciona desde 1996 um ambiente específico para o desenvolvimento de estudos e o atendimento a dependentes de substâncias psicoativas sob uma ótica interdisciplinar. Derrubar as barreiras impostas pela dependência, dando aos doentes uma chance para recomeçar suas vidas, é a luta cotidiana dos integrantes do Cepad.


Marluce Miguel de Siqueira (ao centro, na foto ao lado) é professora do Departamento de Enfermagem da Ufes e atua como coordenadora de pesquisa do Cepad desde a sua implantação. Para a professora, a necessidade de promover projetos e estudos em parceria com diversos setores e instituições, reunindo assim diferentes áreas do conhecimento, explica-se pelo fato de a dependência química ser um fenômeno multifacetado, que passa por diversas instâncias sociais ao longo de seu desenvolvimento. Combatê-la, portanto, depende da realização de intervenções de modo integrado, abrangendo os aspectos físicos, psicológicos e sociais, na busca pela prevenção da doença e pela reinserção dos doentes na sociedade. Formado por uma equipe de cerca de 20 participantes, entre professores, especialistas, graduandos e pós-graduandos em Medicina, Enfermagem, Psicologia, Educação e Farmácia, atualmente o Cepad desenvolve estudos multicêntricos junto a universidades de todo o País, coordenados pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Já no eixo ensino-assistência, o Centro oferece serviços à comunidade para o tratamento e a prevenção da dependência química, como o Programa de Atenção ao Alcoolista (PAA) e o Programa de Atenção ao Tabagista (PAT). O primeiro deles foi criado antes mesmo da fundação do Cepad, ainda em 1985. Funcionando de segunda a sexta-feira no Ambulatório de Clínica Médica do Hucam (casa 3), a meta do programa é fornecer as condições necessárias para a recuperação de alcoolistas, um processo de acompanha-

Foto: David Protti

Integrantes do Cepad realizam atendimento interdisciplinar a pessoas que procuram ajuda no Centro

mento que dura em média dois anos. Sobre isso, o professor do Departamento de Clínica Médica da Ufes e coordenador do Cepad, Vitor Buaiz, explica que, devido ao excessivo consumo de álcool, muitos pacientes desenvolvem doenças hepáticas, como hepatites e, por último, a cirrose, resultado de anos de agressão ao fígado. Nesse estágio, é necessário haver, primeiramente, a sua internação. O percentual de recuperação dos dependentes gira em torno de 45% a 55% dos casos. O professor Buaiz acredita que um dos grandes problemas em combater o alcoolismo, assim como outros tipos de dependência, está na dificuldade dos pacientes de enxergar e de aceitar o seu vício, sendo que, em muitos casos, é a própria família que pede a sua internação. Outro fator agravante é o estímulo ao consumo dessas substâncias por parte de amigos e de pessoas próximas, e que leva à regressão do tratamento. “Uma vez um paciente me disse: doutor, parar de beber é fácil, difícil é

Ações educativas Desde 2007, o Centro de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e Outras Drogas (Cepad) realiza ações educativas em datas específicas, como o Dia Mundial Sem Tabaco (31 de maio); o Dia Nacional de Combate às Drogas (26 de Junho); o Dia Nacional de Combate ao Fumo (29 de agosto) e o Dia Nacional de Combate ao Câncer (27 de novembro). São ações educativas voltadas para o público interno e externo da Ufes como panfletagens, apresentações de teatro e distribuição de materiais e pesquisas produzidas pelo Centro. Além disso, entre os dias 19 e 26 junho, aconteceu a Semana Estadual sobre Drogas, que envolveu todos os participantes do Conselho Estadual Sobre Drogas (Coesad), incluindo o Cepad. O Centro também está organizando o lançamento de um novo livro, que reunirá os estudos desenvolvidos pelos pesquisadores. A previsão é de que a publicação fique pronta no final de 2013.

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Foto: David Protti

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controlar o bêbado que está aqui na minha cabeça”, lembra ele. E Buaiz alerta: “Por mais que diga que sim, o dependente não para de beber quando quer. O conselho que nós damos é que as pessoas não comecem a beber. Melhor não correr o risco”. Já o segundo, o Programa de Atenção ao Tabagista, segue a metodologia de trabalho criada pelo Instituto Nacional de Combate ao Câncer. Trata-se de uma intervenção mais imediata, com durabilidade de quatro semanas. Nesse período são realizados encontros com os dependentes do tabaco, em que se procura desconstruir conceitos equivocados que existem em relação à doença, explicar as diferenças entre o abuso e a dependência de substâncias e seus impactos sobre o organismo humano, além de buscar tentativas que visem à reinserção social dos pacientes. O estímulo ao consumo: álcool e tabaco como escadas para o acesso a outras drogas De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 2,5 milhões de pessoas morrem por ano devido a doenças relacionadas ao consumo de álcool e outras 5 milhões morrem em função de doenças associadas ao cigarro. No Brasil, dados do Instituto Nacional de Geografia e

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Pesquisadores do Cepad fazem reuniões em busca de novas formas de intervenções a dependentes de substâncias psicoativas sob uma ótica interdisciplinar

Estatística (IBGE) informam que 8,7% dos alunos do 9º ano do Ensino Fundamental já consumiram drogas ilícitas, enquanto 71,4% deles já ingeriram bebidas alcoólicas. Tais informações evidenciam um consumo muito alto de drogas lícitas em comparação ao uso de drogas ilícitas. Para a professora Marluce Siqueira, as informações veiculadas, por exemplo, nos meios de comunicação levam a população a crer que o grande problema do País é o consumo do crack, ao mesmo tempo em que o consumo de drogas lícitas é cada vez mais estimulado. Ela salienta que, embora a questão do crack seja muito importante, o principal desafio a ser vencido e sobre o qual o Cepad tem se empenhado é mostrar que álcool e tabaco são tão prejudiciais à saúde humana quanto as demais substâncias, sendo porta de entrada para as demais substâncias. “Sem sombra de dúvida, a dependência do crack se instala mais rápido. Mas, se continuarmos ignorando as consequências causados pelo álcool e pelo tabaco, é provável que os problemas sejam os mesmos”, compara ela.


P ES Q U I S A

Tecnologia patenteada

Foto: David Protti

Maíra Mendonça

Bioengenharia é utilizada por pesquisadores da Ufes no desenvolvimento de soluções para o tratamento de esgoto e monitoramento ambiental

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ntegrando pesquisas em diferentes áreas do conhecimento, pesquisadores do Núcleo de Bioengenharia Aplicada ao Saneamento da Ufes desenvolvem soluções tecnológicas para o tratamento de esgotos e monitoramento ambiental. Entre os resultados, está a criação de um sistema de tratamento de esgotos de baixo custo e com geração de efluentes de maior qualidade, que já é uma patente da Universidade, além da possibilidade de geração de energia a partir dos resíduos oriundos do próprio tratamento da água suja. As pesquisas nessa área foram iniciadas na Ufes em 1996 através do Programa de Pesquisa em Saneamento Básico (Prosab), financiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Assim foram construídos, no campus de Goiabeiras, o Laboratório de Saneamento e o Parque Experimental de Tratamento de Esgoto, ambos voltados para fins de pesquisa. Em 2001, foi formalizado o Núcleo de Bioengenharia Aplicada ao Saneamento, hoje composto por 63 pesquisadores de diferentes áreas, como Engenharia Ambiental, Química e Civil, Biologia, Agronomia e Farmácia. Participam do Núcleo alunos de Iniciação Científica (15), graduandos (6), mestrandos (25) e doutorandos (6), além dos professores Sérvio Túlio Cassini e Ricardo Franci (coordenadores), Regina Keller, Edumar Coelho, Renato Simon, Laura Pinotti, Jair UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Maio/Ago 2013

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Fotos: David Protti

P e s qui s a

Tese de doutorado defendida em 2013 Seguindo a linha de estudos em água potável e ambiental, foi defendida, em abril de 2013, a tese Otimização e Desenvolvimento de Sistemas de Detecção de Microcistinas em Amostras de Água, de Paulo Wagnner Pereira Antunes, sob a orientação do professor Sérvio Túlio Cassini. Na pesquisa, foi avaliado o fenômeno da eutrofização (causado pelo excesso de nutrientes na água, que provocam o aumento excessivo de algas) e a floração de cianobactérias, que produzem as microcistinas, toxinas que não podem ser removidas da água através dos tratamentos de esgoto convencionais e que apresentam riscos à saúde pública. Paulo Wagnner explica que as técnicas existentes para a detecção dessas toxinas são muito caras e trabalhosas, sendo que poucos laboratórios no Brasil possuem estrutura para realizar esse tipo de análise. Por isso, o objetivo de sua tese foi otimizar e padronizar uma técnica de referência na detecção e quantificação de microcistinas no Laboratório de Saneamento Ambiental da Ufes, desenvolvendo um sistema de baixo custo e alta praticidade e eficiência. “Nosso sistema, por ser qualitativo, é capaz de realizar pré-análises nas amostras de água, promovendo uma triagem entre as amostras com presença e com ausência de microcistinas. Amostras com ausência comprovada tem o seu uso liberado, já amostras com presença de microscistinas são destinadas às técnicas de referência para a quantificação dos níveis de toxinas presentes. Como a maioria das amostras são negativas para presença de microcistinas, a utilização do nosso sistema impede que esta amostra seja submetida a uma análise quantitativa de alto custo, sem que haja real necessidade”, explica Paulo Wagnner.

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Casagrande, Aureliano Nogueira da Costa, Cristina Engel, Rosana Hein de Campos e Sérgio Leite Lopes. O coordenador do Núcleo, professor Sérvio Túlio Alves Cassini, explica que o próprio tratamento de esgoto gera impactos ambientais. O primeiro deles é o lodo, material sólido produzido a partir da sedimentação da matéria orgânica e da biomassa que, se lançado ao meio ambiente, pode contribuir para a disseminação de epidemias. Outro impacto refere-se ao lançamento da água. Caso o esgoto não seja bem tratado, ele é lançado no ambiente contendo nitrogênio e fósforo, gerando nutrientes para o crescimento de microalgas, que deixam a água verde e produzem toxinas. A complexidade do processo de tratamento de esgoto faz com que o Núcleo desenvolva estudos em cinco linhas de pesquisa: tratamento de esgoto; água de reuso; biocombustíveis; estudos de qualidade de água potável e ambiental; e odores em estações de tratamento de esgoto, linha criada a fim de reduzir os odores causados pelo tratamento da água. Com a utilização integrada desses estudos, o Parque Experimental de Tratamento de Esgoto aperfeiçoou-se e hoje conta com um moderno sistema que, a partir da combinação de micro-organismos aeróbicos e anaeróbicos, permite um tratamento eficiente e mais barato do esgoto, com baixa produção de


Pesquisadores realizam estudos no leito de secagem de lodos. Na foto abaixo está o aparelho Fotobiorreator, utilizado para promover o crescimento das algas

lodo. O modelo já é utilizado em pequenas e médias cidades do Brasil e foi aplicado, também, na Costa Rica e nos Emirados Árabes Unidos. Em 2004, foi desenvolvida uma tecnologia para a reutilização de efluentes em prédios inteligentes, como por exemplo, em descargas de vasos sanitários. Esse projeto também é uma patente da Universidade. Atualmente, são desenvolvidas tecnologias visando ao aproveitamento da água das chuvas e dos banhos. Geração de Energia Para tornar o sistema de tratamento de esgoto mais eficiente, os pesquisadores do Núcleo de Bioengenharia estudam formas de extrair energia do próprio processo de tratamento, que pode ser utilizada dentro das estações. Entre os projetos desenvolvidos nesse âmbito estão a geração de biodiesel por meio de resíduos oleosos, utilizando micro-organismos adaptados; a elaboração de um sistema que visa eliminar o excesso de microalgas a partir de sua retirada da água e conversão em bioenergia (biogás ou biodiesel) e, por último, a geração de biogás em sistemas de tratamento de esgoto, que pode ser queimado ou transformado em energia elétrica. O professor Sérvio fala também sobre o início

de um novo projeto. Trata-se da reestruturação e do aproveitamento de resíduos de frigoríficos para a produção de energia. O primeiro trabalho nessa área será realizado em parceria com a empresa Frisa, de Colatina, e visa utilizar a energia produzida pelo tratamento dos resíduos no próprio sistema de produção do frigorífico. “Nós fizemos os cálculos e vimos que cerca de 40% a 50% da demanda de produção da Frisa pode ser gerada a partir dos resíduos. Mostramos que eles podem ganhar dinheiro e manter o sistema limpo”, frisa Sérvio.

Prestando serviços à comunidade Além das pesquisas, o Laboratório de Saneamento também atua prestando serviços à comunidade. Pessoas ou empresas interessadas em analisar a qualidade da água de suas casas ou de outros locais podem coletar amostras e levá-las ao laboratório. O valor cobrado pelas análises – em torno de R$ 20,00 – refere-se somente aos gastos com materiais.

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P e s qui s a

O Direito para além das

fronteiras Professores do curso de Direito da Ufes desenvolvem pesquisas sobre regulamentação internacional

O processo de globalização, caracterizado pela liberdade de circulação de mercadorias, serviços e pessoas em nível mundial, rompe cada vez mais com as barreiras do espaço geográfico, exigindo que os países dialoguem uns com os outros, inclusive nos âmbitos jurídico e processual. Pensando nessas transformações e em seus impactos, os integrantes do grupo Processo Civil Internacional Sob o Viés da Cooperação e Jurisdição, do curso de Direito da Ufes, desenvolvem pesquisas na área de regulamentação internacional. Os estudos concentram-se na jurisdição e cooperação entre os países, temáticas presentes na discussão em torno do Direito Internacional Privado e que se relacionam diretamente com o Processo Civil. Para compreender a relação entre os temas é preciso entender a função de cada um. O direito internacional privado é o conjunto de normas jurídicas criado pelos países, que busca promover a segurança jurídica das relações privadas que envolvam mais de um país, como por exemplo, as compras de mercadorias estrangeiras. Já o processo civil internacional define, principalmente, questões relacionadas à competência internacional, ou seja, o tribunal de que país é competente para decidir

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sobre litígios entre as partes, além de definir os requisitos para o reconhecimento e a execução de decisões judiciais estrangeiras. O grupo composto por cinco estudantes de Iniciação Científica e dois alunos do mestrado em Direito, desenvolve pesquisas desde 2008. A professora e coordenadora do projeto, Valesca Raizer Borges Moschen, afirma que as investigações são fundamentais para que alunos e professores se mantenham atualizados em relação ao tema. “Nós sempre temos a percepção de que passamos por um processo enorme de abertura econômica e participação internacional, tanto do Brasil exteriorizando, quanto interiorizando investimentos, mas o nosso sistema jurídico é ainda muito engessado. E a forma de desengessar esse sistema não é outra senão pelo conhecimento. E o conhecimento é aqui”, pontua ela. Os temas explorados pelos pesquisadores se complementam. A estudante de Direito Agatha Brandão de Oliveira, que já está em sua terceira Iniciação Científica, concentra-se em uma linha de estudos sobre contratos internacionais e sua aplicabilidade, além de acompanhar as atualizações dos princípios que regem o Direito Internacional Privado. Para tanto, ela desenvolve estudos sobre as Conferências de Haia, realizadas na Holanda com o objetivo de harmonizar o Direito em todo o mundo, discutindo questões que vão desde relações comerciais ao sequestro de menores. Já a estudante Mariana Mendes Lomeu pesquisa a norma processual brasileira, que trata da competência internacional do Brasil, referente aos casos em que o País permite que questões sejam


julgadas por outros países ou quando ele se coloca como único competente a julgar determinado processo. Mariana diz que esse tipo de questão está muito próxima da realidade dos brasileiros. “Quando falamos de competência internacional brasileira, estamos tratando de assuntos muito próximos do nosso cotidiano, como matrimônios entre pessoas de países diferentes, criação de filhos, entre outros”, destaca. Neviton de Souza, recém-graduado em Direito, também participa do grupo. Sua pesquisa explora os modos como decisões judiciais proferidas em outros países podem ter eficácia no Brasil, ou seja, como é possível fazer valer o direito adquirido no exterior em território nacional. A professora Valesca salienta que está sendo formado um núcleo introdutório de estudos sobre direito internacional privado, cuja meta é atrair novos pesquisadores para o projeto.

Em Dezembro de 2012, aconteceu a I Semana Científica de Direito da Ufes, durante a qual os estudantes participaram de palestras e exposições de pesquisas realizadas dentro do curso e por pesquisadores de outras universidades. A professora Valesca, organizadora do evento, afirma que o objetivo de projetos como esse é criar uma cultura de intercâmbio das pesquisas em Direito, que começam a se desenvolver. “Para outros cursos esses seminários são comuns, mas para nós são uma novidade. E é preciso incentivar isso, porque não existe uma graduação sem pesquisa”, frisa a professora.

professor Bruno Silveira, através do qual os alunos participam de competições realizadas entre universidades de todo o País. “Hoje, o Brasil é o quarto no mundo e o primeiro da América Latina a utilizar a arbitragem. A estimativa é que pelo menos 97% dos contratos internacionais possuam pelo menos uma cláusula arbitral”, diz Valesca.

Foto: David Protti

Arbitragem Um dos primeiros temas de interesse do grupo foi a arbitragem, método extrajudicial de solução de conflitos na linha comercial em que, ao invés das partes envolvidas recorrerem ao Judiciário, formase uma Câmara Arbitral, apta a solucionar tais conflitos. As pesquisas se desdobraram em um projeto de extensão: o Núcleo de Estudos em Arbitragem e Processo Internacional (Neapi), coordenado pelo

I Semana Científica de Direito

A professora Valesca Raizer B. Moschen coordena grupo que estuda regulamentação internacional

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Fotos: Arquivo LabPC

P ES Q U I S A

Novos caminhos para o

CONHECIMENTO O entrelaçamento de áreas aparentemente díspares é encontrado no LabPC, um laboratório de pesquisa que une Psicologia e Computação

Qual a relação entre Computação e Psicologia? Apesar de, em um primeiro momento, essas duas ciências parecerem caminhar em direções opostas, os pesquisadores do Laboratório de Psicologia da Computação (LabPC), do Departamento de Desenho Industrial da Ufes, provam que seus caminhos podem se cruzar e, juntos, traçarem novos rumos para a educação, a inclusão digital e a cidadania no País. O LabPC surgiu no início de 2012 como uma segunda fase do Núcleo de Interfaces Computacionais (NIC), criado em 2009 e cuja proposta era atrair alu-

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nos para o desenvolvimento de pesquisas e projetos na área de Design Digital. Seguindo a linha de pesquisa Pensamento Computacional, o LabPC investiga aspectos psicológicos da computação, buscando compreender quais dispositivos cognitivos – ligados ao processo de aquisição de conhecimento – permitem às pessoas entenderem como o computador funciona e quais as suas possibilidades de uso. Segundo o coordenador do laboratório, o professor Hugo Cristo Sant’Ana, o computador é inspirado na forma como o homem computa as informações.


Por isso, muitos pesquisadores estudam o cérebro humano para criar novos programas. No caso do LabPC, os estudos são feitos a partir de uma perspectiva diferente: aprender como as funções do computador podem ser usadas de modo criativo pelos usuários. “Isso é estudado, pois é o que permite que as pessoas criem novas formas de uso e não somente utilizem aquilo que já existe. É um modo de fazer com que elas dominem as tecnologias, tornando-se mais independentes e, inclusive, dando-lhes novas possibilidades de formação”, reforça Hugo. Da Ufes para a sociedade As pesquisas do LabPC se voltam também para fora da Universidade. Em 2011, os pesquisadores iniciaram o projeto Trabalho, Emancipação e Renda pela Ação do Design (Ter Design). Nele, alunos e professores realizavam oficinas na Casa Brasil - um dos Centros de Inclusão Digital implantados pelo Governo Federal -, situada no Morro do Itararé, em Vitória. As oficinas eram oferecidas aos artesãos de associações ou cooperativas que trabalham com a Economia Solidária, ensinando-os formas de lidar com programas de desenho, escanear e tratar imagens no computador. Já o projeto Computação 1:1 no Espírito Santo é desenvolvido em escolas municipais e estaduais contempladas com o programa Um Computador por Aluno (UCA) do Governo Federal, que visa promover a inclusão digital de crianças e adolescentes em todo o País. Trata-se de um processo de troca: ao mesmo tempo que os pesquisadores do laboratório fornecem cursos para que os professores aprendam diferentes formas de uso da tecnologia, são levantadas informações acerca dos processos de aprendizagem das crianças e quais mudanças ocorreram no ambiente escolar após a chegada dos computadores. Já as informações adquiridas pelos pesquisadores durante suas vivências são utilizadas na pesquisa intitulada Teoria do Design Computacional que, dentre outros objetivos, procura criar um novo material didático digital, de acordo com as características e necessidades das escolas brasileiras. Vinícius Bispo é aluno do curso de Desenho Industrial da Ufes e desde 2009 participa do LabPC. Devido à sua participação no projeto Ter Design, ele foi convidado a trabalhar na Prefeitura de Vitória, elaborando uma plataforma on-line para os cursos oferecidos pelos Telecentros do município. “No meu caso, eu já havia decidido que queria trabalhar na área digital e o núcleo serviu como um aprofun-

Saiba mais Os cursos oferecidos aos professores baseiamse no Scratch, uma linguagem gráfica de programação desenvolvida no Massachusetts Institute of Technology (MIT) que, dentre outras coisas, possibilita a criação de histórias interativas, animações, jogos e músicas, além de partilhar essas criações na internet. O Scratch pode ser utilizado pelos professores como um material didático, oferecendo aos alunos novas formas de adquirir conhecimento, ao mesmo tempo que aprendem a dominar as tecnologias. Só em 2012, 96 educadores fizeram o curso. A perspectiva é de que esse número dobre em 2013.

damento das questões que envolvem esse tipo de conhecimento”, observa o estudante. Enquanto Espero Outra importante pesquisa do LabPC é o Enquanto Espero: Sistema de Vizualização de Dados Sobre o Transporte Público na Cidade de Vitória, coordenado pelo professor Mauro Pinheiro. O objetivo desse estudo é fugir do convencional e criar suportes de informação a partir de componentes computacionais que facilitem a interação entre pessoas e objetos do cotidiano. O primeiro projeto consiste em disponibilizar o horário dos ônibus nos pontos de Vitória. “A proposta do grupo é pensar em novas interfaces, que facilitem o acesso e a compreensão das pessoas em relação à informação”, diz ele.

A estudante Joyce Cavalcanti do Carmo, integrante do LabPC, ministrando uma das oficinas do projeto Ter Design, em outubro de 2011

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P ES Q U I S A

EDUCANDO

PARA PRESERVAR Maíra Mendonça

Educação muito além da sala de aula. Esse é o princípio que norteia o Nipeea, um núcleo de pesquisa e estudos em educação ambiental abrigado pelo Centro de Educação da Universidade

E

m um momento em que se ouve falar tanto sobre sustentabilidade – termo usado para definir atividades que visam suprir as necessidades dos seres humanos e ao mesmo tempo garantir a manutenção de recursos naturais para as futuras gerações – torna-se importante a compreensão de outro conceito: o de Educação Ambiental, uma vez que é a relação da sociedade com o meio ambiente, além de sua percepção e participação nos processos de sustentabilidade locais que definirão os rumos do futuro da humanidade. A partir dessa reflexão, foi criado em 2005, no Centro de Educação da Ufes, o Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Estudos em Educação Ambiental (Nipeea), cujo objetivo é investigar, a partir da relação cultura-natureza, como as produções narrativas e culturais interferem nos comportamentos, nas atitudes e nos valores das pessoas em relação ao meio em que vivem. Atualmente, 12 pesquisas estão sendo desenvolvidas pelo Nipeea, que já reúne 21dissertações

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de mestrado e duas teses de doutorado em Educação Ambiental pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE). O Núcleo, composto por dois professores, sete doutorandos e cinco mestrandos, surgiu da necessidade de integrar projetos e pesquisas em educação ambiental que já existiam e ampliar as possibilidades de estudo. De acordo com a coordenadora do Nipeea, a professora Martha Tristão, a Educação Ambiental é uma abordagem educativa ambientalmente comprometida, que deve estar presente em todas as disciplinas do Ensino Fundamental e Médio, a fim de fazer com que os alunos entendam a complexidade ambiental. “A proposta do Nipeea é fomentar debates sobre o tema dentro da Universidade tanto para a formação inicial, quanto para a formação continuada de professores. Se tivermos professores comprometidos com a questão ambiental, obviamente teremos, dentro das escolas, a Educação Ambiental”, explica a professora.


Foto: Arquivo Nipeea

Uma das propostas iniciais para a criação do Nipeea, e que funciona hoje como um projeto de extensão permanente do Núcleo, é o fortalecimento da Rede Capixaba de Educação Ambiental (Recea), que foi rearticulada em 2003, após um período de retração iniciado em 1993. A partir desse projeto foi elaborado, em 2006, o Diagnóstico do Estado da Arte da Educação Ambiental do Estado do Espírito Santo. Um de seus objetivos foi identificar o perfil das instituições, especialistas, pesquisadores, educadores e atividades de Educação Ambiental existentes no Estado. O objetivo era promover uma maior reflexão sobre o tema e a integração entre educadores para a difusão e o desenvolvimento de teorias, metodologias e práticas na área, além de contribuir para a elaboração de diretrizes para a Política Estadual de Educação Ambiental. Outro projeto de destaque desenvolvido pelos pesquisadores no Nipeea é o Sala Verde, um centro de referência e documentação em meio ambiente, montado a partir de materiais cedidos pelo Ministério do Meio Ambiente, que ficam à disposição para empréstimos e consultas de alunos e professores. A necessidade de trocar experiências faz com que o Nipeea realize intercâmbios com núcleos de pesquisa de outras universidades, como o Sobre a Natureza, da PUC do Rio Grande do Sul, e o Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte (Gpea), da Universidade Federal de Mato Grosso. Esses grupos participam de encontros na área em que atuam, como os promovidos pela Associação Nacional de Pesquisadores em Educação Ambiental, a Anped. Já o projeto Saberes da Mata foi desenvolvido de 2005 a 2008 em parceria com o Instituto de Pesquisa da Mata Atlântica (Ipema) e traz estudos em cinco áreas prioritárias: Serra das Torres, abarcando os municípios de Muqui, Atílio Vivácqua e Mimoso do Sul; Santa Lúcia, no município de Santa Teresa; Foz do Rio Doce, em Linhares; Alto Misterioso, em São Roque do Canaã; e também em Itaguaçu, Itarana e Baixo Guandu, além da região de Santa Leopoldina. O projeto envolveu os estudos dos meios bióticos, abióticos e da socioeconomia das regiões, além de atividades de educação ambiental em escolas e comunidades, dando início à formação de Fóruns Gestores Locais. A partir dos estudos do Saberes da Mata e de um acordo com o Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema), foi criada, em junho de 2010, a Unidade de Conservação de Serra das Torres, com o intuito de proteger as bacias hidrográficas dos

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P ES Q U I S A rios Itapemirim e Itabapoana e os picos e aflorestamentos rochosos da região. Além disso, os resultados obtidos nas investigações levaram ao lançamento do livro Projeto Saberes da Mata: um jeito participativo de cuidar da Mata Atlântica.

Fotos: Arquivo Nipeea

Formação e Pesquisas Por meio de uma parceria entre o Nipeea e grupos de outras sete universidades brasileiras – Universidade Federal da Bahia (UFBA); Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp); Universidade Federal Fluminense (UFF); Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT); Universidade Federal do Paraná (UFPR); Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ) – que compõem uma rede de formação para a diversidade, foi criado o Processo Formador em Educação Ambiental, um curso de atualização de 180 horas voltado para a formação continuada de educadores, que passou a ser oferecido em 2009. Para que o curso fosse possível, os representantes dessas universidades elaboraram materiais didáticos em nível nacional e outro em nível local. A reoferta do

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curso foi realizada em junho deste ano e há uma proposta para que ela ocorra anualmente. Entre as pesquisas desenvolvidas pelo Nipeea, sob a orientação da professora Martha Tristão, destacam-se os Estudos Culturais em Educação Ambiental: Os Usos e Consumos dos Produtos Culturais em Espaços Na/Da Biorregião do Caparaó Capixaba. A pesquisa é desenvolvida pela doutoranda Flávia Nascimento Ribeiro e realizada com moradores das localidades do entorno do Parque Nacional do Caparaó, situado na fronteira entre Espírito Santo e Minas Gerais, e busca compreender de que forma os produtos culturais em Educação Ambiental são transformados em produções de narrativas e formação de identidades a partir de processos sociais, políticos e das relações de poder. Já a pesquisa Sustentabilidade e Educação Ambiental: Processos Culturais em Comunidade, da mestranda Fernanda Freitas Rezende, é feita na comunidade das Paneleiras da Ilha das Caieiras e em Centros de Educação Infantil da Prefeitura Municipal de Vitória e analisa como os saberes sustentáveis são produzidos e mantidos pelas comunidades, além de como essas questões são observadas na escola.

Ações desenvolvidas pelo Nipeea nas comunidades atingem crianças que aprendem sobre a interação cultura-natureza


Diagnóstico e Resultados O Diagnóstico do Estado da Arte da Educação Ambiental do Estado do Espírito Santo, finalizado em 2006, foi realizado a partir da coleta de dados institucionais e de entrevistas grupais, além da aplicação de 368 questionários aos participantes de seis encontros realizados nos municípios de São Mateus, Nova Venécia, Santa Teresa, Guaçuí e Cariacica, incluindo educadores, pesquisadores e representantes de instituições que trabalham com Educação Ambiental no Estado. Como resultado concluiu-se que, apesar de ter havido uma evolução nos espaços escolares quanto a aspectos importantes como a identificação de problemas locais, a divulgação de projetos na comunidade e o estímulo a cidadania, muitas escolas não lidam com a Educação Ambiental de forma transversal, ou seja, de modo que ela esteja presente em todas as disciplinas curriculares. Assim, ainda predominam atividades pontuais feitas, por exemplo, em datas comemorativas ou promoções de concursos escolares. Fatores como a rotatividade de professores, carências na formação inicial e continuada de professores, o acúmulo de atividades e a falta de infraestrutura contribuem para a manutenção desse quadro. Quanto aos professores, o diagnóstico concluiu que os mais engajados com questões ambientais estão no sul do Estado, atuando em municípios da região do Caparaó e no noroeste, em Colatina. A maioria deles trabalha nas áreas de Ciências, Geografia e Biologia, além de outras como Português. Dentre os motivos que estimulam esses participantes a se envolverem com a Educação Ambiental foram citados a formação acadêmica, a atuação profissional, a história pessoal de vida de cada educador e um desejo de mudança na relação entre sociedade e natureza. Outros projetos e campanhas educativas são desenvolvidos pelas Secretarias Municipais de Meio Ambiente e de Educação dos municípios de Vitória, Serra, Cariacica, Viana e Vila Velha e apresentam temáticas diversificadas com foco na preservação e conservação ambiental, como o consumo sustentável, a Mata Atlântica, ecossistemas, recursos hídricos, lixo e até mesmo a criação de uma cultura de paz. Observam-se a inserção de uma dimensão social nessas propostas e a utilização de recursos lúdicos – feiras de meio ambiente, passeios, visitas monitoradas – como estratégias

Fotos Arquivo Nipeea

metodológicas marcantes nessas ações. Entretanto, os resultados apontam que uma das maiores dificuldades encontradas é fazer com que a sociedade participe efetivamente desses projetos. Segundo a professora Martha, isso acontece, porque em grande parte das vezes, os projetos chegam às escolas prontos para serem executados, e os professores acabam exercendo funções de simples tarefeiros. Assim, uma solução possível para o problema é fazer com que tudo o que se proponha em relação à Educação Ambiental nas instituições tenha a participação de todos os envolvidos.

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E NTRE V I ST A

Comissão da

VERDADE Revelar para não esquecer Emília Manente

Desde o final de 2012, o Ministério da Educação recomendou que as universidades federais criassem suas ‘Comissões da Verdade’ com o objetivo de fazer um levantamento acerca de tudo o que foi produzido durante o regime militar por uma Divisão de Segurança e Informação (DSI), ligada diretamente ao Ministério. À DSI cabia autorizar (ou não) compra de livros para bibliotecas, viagens de professores e estudantes, entre outros. A Comissão da Verdade da Ufes foi oficialmente instalada em março de 2013, tem 10 membros, e é coordenada pelo professor do Departamento de Arquivologia Pedro Ernesto Fagundes, que tem vasta experiência em pesquisa na área. Seu doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) teve como objeto de pesquisa os arquivos do Dops daquele estado. É sobre as Comissões da Verdade instaladas no País e na Ufes e sobre a importância de se lembrar desses episódios para que não os esqueçamos que o professor falou à revista Universidade. Os principais trechos da entrevista podem ser conferidos a seguir.

Não existe um único modelo de Comissão da Verdade. Não há um país no mundo que seguiu o modelo do outro, pois são casos muito específicos. Essa é uma das etapas da chamada Justiça de Transição, criada a partir do início da década de 1990, quando havia se encerrado as ditaduras na América Latina, o regime do Apartheid, na África do Sul, e os regimes do antigo bloco soviético, no leste europeu. A ideia era fazer uma transição para a democracia. E essa transição tem várias etapas. Primeiro, a criação das Comissões da Verdade ou de conciliação nacional, para que sejam reconhecidos e

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divulgados os crimes chamados “crimes de lesahumanidade”. O que são esses crimes? O terrorismo de Estado, no Cone Sul; 10 mil pessoas mortas na Argentina; 30 mil no Chile; mais uma grande quantidade de pessoas mortas por conta da segregação racial na África do Sul. O primeiro passo da justiça de transição é a reconciliação através das Comissões da Verdade. Você vai externar e tornar público o que aconteceu, quem foram os perpetradores, quem cometeu os crimes. Depois há a segunda etapa: a punição dos culpados. Você vai identificá-los a partir das Comissões da Verdade e elas indicarão quem foram os


Foto: Maíra Cabral

culpados. E, por fim, caso seja preciso a anistia. Nessa visão de Justiça de Transição, a anistia é o último passo. Ao contrário do Brasil, que anistiou, em 1979, ainda durante o governo do presidente João Figueiredo (período ditatorial), os dois lados: os que foram vítimas, que sofreram graves violações dos Direitos Humanos, e os torturadores. Segundo a jurisprudência do Direito Internacional, tortura e desaparecimento de pessoas de maneira forçada são crimes imprescritíveis. A qualquer momento, em qualquer situação, o acusado de um crime desses pode ser preso, julgado e condenado. É o que acontece quando se encontra ex-líderes do Partido Nazista perdidos pelo mundo. Cada país vai tentar fazer as etapas dessa Justiça de Transição de uma forma. O Brasil começou com quase 30 anos de atraso. Pois quando o Brasil anistiou, ele vedou, fechou, impediu a possibilidade de uma pessoa ser julgada e condenada. O acesso aos documentos da Ditadura no Brasil Onde estão os arquivos do aparato repressivo? Do que tratam esses documentos? Em 1997 há uma nova tentativa de estabelecer uma lei, que não atingirá seu objetivo. Em 2002, Fernando Henrique Cardoso, em seu último dia de governo, sanciona uma lei que modifica novamente o acesso aos documentos. Em 2005, Lula vai criar uma nova lei, que estabelece novos prazos, mas que também não vai abrir de maneira irrestrita os arquivos considerados sensíveis, esses do aparato repressivo do Estado. Mesmo assim o Governo Federal toma algumas iniciativas. Por exemplo, em 2008, cria o programa Memórias Reveladas, coordenado pela então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. A ideia era fazer uma rede formada pelos arquivos públicos estaduais, sob a coordenação do Arquivo Público Nacional, para tentar buscar toda a documentação dos antigos Dops, dos antigos órgãos repressivos da Ditadura Militar. Finalmente, em novembro de 2011, é aprovada pelo Congresso Nacional a Lei de Informação (Lei 15.227). Nesse mesmo dia, é aprovada a lei que cria a Comissão da Verdade (15.228). Essas duas leis só foram sancionadas em maio de 2012. É aí que foi instalada a Comissão Nacional da Verdade no Brasil. Essa discussão sobre ter acesso irrestrito a essa documentação começou há pouco tempo e ainda não é uma realidade, pois alguns órgãos do Governo Federal ainda não abriram seus arquivos. Por exemplo, o Exército, que contava com um órgão chamado Centro de Inteligência do Exército (CIE), até hoje não liberou essa documentação.

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E NTRE V I ST A

Nós não temos acesso, por exemplo, à documentação dos Destacamentos de Operações de Informações-Centros de Operações de Defesa Interna (DOI-CODIs) que funcionavam no Brasil. Ninguém sabe onde ela está. DSI/Ufes Por conta da Comissão Nacional da Verdade e da Lei de Acesso à Informação, em setembro do ano passado, o Ministério da Educação (MEC) enviou uma circular para todas as universidades brasileiras pedindo que elas procurassem em seus arquivos documentos relativos a esses órgãos de repressão, como a Divisão de Segurança e Informação (DSI), do MEC. Todos os ministérios do País, mesmo os civis, tinham DSIs, divisões que controlavam essa espionagem: o que eles iriam comprar, as pessoas que seriam contratadas, as pessoas que assumiriam cargos de chefia, tudo. Entre esses ministérios, a maior foi a DSI do MEC, que controlava todas as universidades. Ela foi criada em 1967 e até hoje o Arquivo Nacional e a Comissão Nacional da Verdade não sabem onde essa documentação foi parar. Em princípio a DSI do MEC funcionava em nível nacional, monitorando todas as universidades. Entretanto, com o aumento das mobilizações, principalmente dos estudantes, em 1968, a política de repressão no Estado ditatorial vai se ampliar. O SNI vai virar um monstro com tentáculos em todas as estruturas do Estado Brasileiro. Entre 1971 e 1983 funcionaram 36 Assessorias Especiais de Segurança e Informação (Aesi), que ficavam dentro de cada uma das universidades federais e de mais algumas estaduais. A Aesi na Universidade O modelo vai depender muito de universidade para universidade. Aqui na Ufes, por exemplo, o documento mais antigo que encontramos é o ofício 002, de 17 de agosto de 1971, durante a administração do reitor Máximo Borgo. Podemos chegar à conclusão de que a Aesi/Ufes foi criada em agosto de 1971. A lei que cria as Aesis em nível nacional é de 1971. Esse ofício solicita informações - e isso é algo recorrente durante o período de atuação da Aesi - sobre livros que foram comprados, livros que circulavam no Centro de Artes, quem eram os autores desses livros, se existia alguma publicação que havia sido enviada pela União Soviética e quais os livros existentes no Diretório Acadêmico de Artes. Eles tinham uma grande preocupação com as ideias

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que circulavam na universidade, pois ela reunia dois dos elementos considerados mais perigosos para o aparato repressivo: primeiro, os intelectuais e, segundo, os estudantes. Os intelectuais porque podiam difundir informações e ideias e incitar o debate, a reflexão crítica, algo inaceitável pela ditadura brasileira, que impunha a censura e limitava a discussão. E os estudantes, pois eles tinham uma capacidade de mobilização muito grande. Iam para as ruas, protestavam, pediam a democracia. E também porque existia a possibilidade de eles serem influenciados por ideias moralmente desagregadoras, como o uso de drogas e o sexo livre. A Comissão da Verdade da Ufes Em setembro de 2012, um ofício do MEC recomenda a criação das Comissões da Verdade no âmbito das universidades, e a Reitoria procura o Departamento de Arquivologia e pede que façamos um levantamento preliminar. Com esse levantamento, descobrimos cerca de 300 documentos da Aesi no Centro de Artes da Ufes. E a Reitoria resolve criar uma Comissão da Verdade, que possui 10 membros. Essa comissão está trabalhando desde novembro de 2012. O reitor convidou as pessoas a compor a Comissão da Verdade da Ufes em fevereiro e ela foi nomeada em março de 2013, com representantes do Diretório Central de Estudantes (DCE), da Associação dos Docentes da Ufes (Adufes), do Sindicato dos Trabalhadores da Ufes (Sintufes), entre outros. Seguindo mais ou menos o exemplo da Comissão Nacional da Verdade, nós dividimos o trabalho em duas comissões. A de acervos, que se ocupa em procurar a documentação da Aesi e do período anterior a ela; e outra que faz entrevistas com ex-alunos, ex-professores e ex-funcionários que estavam na Ufes naquele período. Também estabelecemos um regimento interno para a Comissão da Verdade. Até agora já entrevistamos cinco pessoas, entre elas o professor Vitor Buaiz, que foi aluno e é professor da Ufes; o professor Jaime Lana Marinho, do curso de Odontologia; o professor de Medicina Carlos Salla Pissinali que também é ex-aluno da Universidade e Marcelo Paes Barreto, filho do ex-reitor Manoel Xavier Paes Barreto Filho, que foi cassado em 1964. Repressão Com o levantamento preliminar e as pesquisas que venho realizando há quase três anos sobre os


órgãos de repressão que atuaram no Espírito Santo, posso afirmar que a Ufes foi o espaço mais vigiado durante o período da Ditadura Militar no Estado. A Ufes sofreu quatro grandes ondas repressivas durante a ditadura. A primeira, em 1964, quando foram instalados inquéritos administrativos em todos os seus centros, que ouviram dezenas de estudantes, professores e funcionários. Nessa primeira onda, o fato mais marcante foi a destituição por motivos políticos do reitor Manoel Xavier Paes Barreto Filho, em abril de 1964. Manoel era ligado a João Goulart e foi indicado para assumir a reitoria por ele em 1962. Quando houve o Golpe de Estado em 1964, ele foi exonerado. A segunda onda repressiva na Ufes aconteceu em 1968 e 1969, período marcante na história mundial por conta das mobilizações dos estudantes em vários países do mundo, como França, Japão, México e Brasil. No Espírito Santo também ocorreram várias passeatas, manifestações em 1968. Tudo isso resultou no Ato Institucional número 05, em 13 de dezembro daquele ano. Logo depois, em janeiro de 1969, a sede do Diretório Central dos Estudantes (DCE) foi invadida e ficou fechada até 1978. A terceira onda repressiva se deu no auge dos chamados ‘anos de chumbo’, durante o governo de Emílio Garrastazu Médici, entre 1972 e 1973. Aconteceu uma série de prisões no Espírito Santo de militantes do Partido Comunista do Brasil. Foram presas e indiciadas pelo inquérito aberto no 38º BI - na época 3º Batalhão de Caçadores - 33 pessoas. Dessas 33, 18 eram da Ufes: um professor, o Vitor Buaiz, e 17 estudantes, sendo oito de Medicina. Entre os presos também estavam Iran Caetano, Angela Milanez e Míriam Leitão. Todos foram levados para o 3º Batalhão, interrogados e alguns foram torturados. Já a quarta onda repressiva tem início em 1976, quando o Movimento Estudantil começa a se rearticular através dos Diretórios Acadêmicos do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE), do Centro Tecnológico (CT) e do Centro de Ciências da Saúde (CCS). Essa onda repressiva vai de 1976 a 1979. Por incrível que pareça, o maior volume documental que nós temos foi produzido exatamente nesse período. Relatórios, memorandos, pedidos de informação, pedidos de buscas, apreensão de panfletos, de cartazes, de jornais estudantis. Foi um período de profunda repressão, vigilância e monitoramento da Universidade.

Importância da Comissão A pesquisa da Comissão da Verdade tem vários significados. O primeiro é para as pessoas entenderem que a repressão política não atuou apenas sobre os que aderiram à luta armada, como os militantes que foram para o Araguaia, que se juntaram a Carlos Marighella ou a Carlos Lamarca. A repressão política se deu em todas as estruturas da sociedade. O estado ditatorial brasileiro criou um amplo e diversificado aparato repressivo, que atuou em todas as instâncias da sociedade brasileira. A sociedade brasileira sofreu muito mais interferências do que imagina, seja no âmbito da cultura, dos costumes, da educação, da ciência e da tecnologia. E a repressão política não foi executada apenas pelos militares. Nós imaginamos que a sociedade foi vítima de alguns militares malvados que agiram como psicopatas, como sádicos. Não. Existiram muitos civis que colaboraram com a repressão política. O caso da universidade é um exemplo. O caso de empresas como a Telest, a Escelsa, a Companhia Vale do Rio Doce, todos esses órgãos e autarquias contavam com civis que atuavam e colaboravam com a ditadura. Por ser um tempo distante de sua realidade, os jovens tendem a imaginar que quem foi preso foi quem fez coisa errada. Mas isso não é verdade. O Espírito Santo foi monitorado em todas essas instâncias. As gerações de hoje têm que entender que, por pior que possa parecer o regime em que vivemos, não há nada melhor do que a democracia. A democracia não é só você falar mal do governo. É você ter a liberdade de ir e vir, a liberdade de escolha. Algo que não existiu durante a ditadura no Brasil, pois havia órgãos tanto civis, quanto militares atuando no sentido de censurar, de impedir, de impor barreiras para que as pessoas não pudessem atuar livremente, seja na universidade, no trabalho, na igreja, no partido político. A pesquisa da Comissão da Verdade já pode afirmar que a Ufes foi a instituição mais vigiada durante a ditadura no Espírito Santo. Foi nela que se organizou o núcleo do PCdoB, o núcleo do PCB. O PT se formou graças a muitos militantes que eram alunos e professores da Ufes. Esse era um espaço que convergia todas as ideias e por isso essa preocupação tão grande em monitorar e cercear os espaços de atuação dentro na Universidade.

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Fotos: Jorge Lellis Medina

P ES Q U I S A

IMPÉRIO ROMANO ainda fascina pesquisadores Jorge Lellis Medina

Professores de várias universidades brasileiras têm no Império Romano sua fonte de investigação. Desde 2005, a Ufes conta com um laboratório de estudos na área

Grandioso por sua dimensão, marcado por lutas políticas, agitação social, guerras, corrupção, traições, assassinatos, crimes, atrocidades e conflitos religiosos, o conturbado Império Romano fascina historiadores e pesquisadores do mundo inteiro. Estudar esse período, que também ficou conhecido pelos sangrentos combates de gladiadores e pela escravidão, é conhecer um pouco mais da história da humanidade e da civilização. Com esse objetivo, pesquisadores de várias universidades criaram em 2005 o Laboratório de Estudos do Império Romano (Leir).

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O professor Gilvan Ventura, do Departamento de História da Ufes, é doutor em História Econômica, mestre em História Antiga e Medieval, coordenador do Leir na Universidade e um dos mais respeitados estudiosos sobre o Império Romano no País. O professor esclarece que, do ponto de vista territorial, a criação do Império Romano é um acontecimento conectado com a Primeira e a Segunda Guerras Púnicas, entre 264 e 201 a.C., quando Roma, que já controlava a Península Itálica, começa a adquirir propriedades no ultramar. A Sicília foi a


primeira província criada por Roma, depois vieram as outras. Isso ocorreu sob o regime da República (509 a 27 a.C.). Do ponto de vista político, segundo o professor Gilvan, o Império Romano seria a monarquia controlada pelo imperador (um título republicano), e se firma a partir de 27 a.C., mediante a atuação de Augusto, sobrinho e herdeiro de Júlio César; e como entidade política, o Império se subdivide em duas fases: o Principado (do início, com Augusto, até meados do século III) e o Dominato, fundado por Diocleciano em 284 e que se prolonga até 476, quando há a deposição de Rômulo Augusto, o último imperador do Ocidente, por Odoacro, chefe do povo hérulo. Outro aspecto impressionante desse Império foi a sua área territorial. Foi um período em que Roma acumulou o máximo de seu poder e conquistou a maior quantidade de terras de sua história, algo em torno de 6 milhões e meio de quilômetros quadrados, com uma população estimada em 100 milhões de habitantes, o que representava um sexto da população total do mundo na época. No seu apogeu, era formado por parte da Europa, pelo norte da África, pelos países mediterrâneos e por grande parte da Ásia, Roma (Itália), Alexandria (Egito) e Antioquia (Turquia) como suas maiores cidades. O Império Romano deu origem a 46 novos países. Os imperadores Ancorado na figura do imperador, que concentrava poder, liderança e prestígio, os imperadores tinham a função de manter o equilíbrio e a harmonia entre os povos. Controlavam também todas as instituições, acumulando os cargos administrativos, religiosos e sociais. Os imperadores eram os representantes de Deus na Terra. O coordenador do Leir reforça que o imperador romano era o titular absoluto da autoridade pública. Era assessorado por um conselho de comitês, de companheiros, e quase sempre contava com o apoio do Senado de Roma e das cúrias (conselhos) das cidades provinciais. “É interessante ressaltar que toda a imagética imperial foi reapropriada ao longo da Idade Média até a Idade Contemporânea, de modo que muitos governantes europeus de todas as épocas buscaram emular o imperador romano, a exemplo de Carlos Magno, Napoleão, Mussolini e mesmo Hitler. Além disso, muito da simbologia que até hoje cerca o papado tem suas origens no culto à figura do imperador romano”, enfatiza o pesquisador.

Leir - O Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (Leir) resulta de uma iniciativa de sete docentes: Norberto Luiz Guarinello e Carlos Augusto Ribeiro Machado (Universidade de São Paulo), Fábio Faversani e Fábio Duarte Joly (Universidade Federal de Outro Preto/MG), Ana Teresa Marques Gonçalves (Universidade Federal de Goiás), Margarida Maria de Carvalho (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho /Franca) e Gilvan Ventura da Silva (Ufes). A coordenação nacional é do professor Guarinello, um dos pioneiros na formação de recursos humanos especializados em História Antiga no Brasil. O Leir foi criado em 2005 para dar consistência, integração e visibilidade às pesquisas em história de Roma realizadas no Brasil, bem como para fomentar o intercâmbio com pesquisadores de outros países. O Leir da Ufes é coordenado pelo professor Gilvan, vinculado aos Programas de Pós-Graduação em História e em Letras, e tendo como associados, os professores Sérgio Alberto Feldman e Leni Ribeiro Leite. O Leir Ufes realiza diversos eventos, como os encontros nacionais dos pesquisadores do Laboratório, ciclos de palestras, conferências, além de promover, junto com o Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), a Jornada de Estudos Clássicos da Ufes. Entre os dias 22 e 24 de outubro deste ano, por exemplo, acontece o V Colóquio Internacional do Leir, com a presença da equipe nacional do Laboratório e de pesquisadores do Chile e da Espanha.

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PETRÓLEO, PESQUISA E DESENVOLVIMENTO

Luiz Vital

O Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Metodologias para Análises de Petróleos (LabPetro) da Ufes está localizado no campus de Goiabeiras, em Vitória, e é um dos mais importantes centros de pesquisa química em óleo, gás e derivados do mundo

O

Espírito Santo, segundo maior produtor de óleo e gás do País, consolida uma rede em que a Ufes se destaca com diferentes frentes de pesquisa e produção de ciência, tecnologia e inovação, além da elevada formação de recursos humanos qualificados para responder a tamanhas demandas regionais e nacionais. Após mais de meio século de atividades exploratórias em seus mananciais petrolíferos no mar e em terra, hoje o Estado possui reservas equivalentes a 2,92 bilhões de barris de óleo, e a sua produção alcança a média de 329,4 mil barris/dia, além de 12,5 milhões de m³/dia de gás natural, de acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O litoral capixaba, particularmente, revela magníficas jazidas de petróleo e gás, com promissoras potencialidades que se projetam a partir da descoberta e exploração de camadas do pré-sal. Com significativa presença do setor petrolífero na sua economia, surgem novos desafios para o Espírito Santo

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e o País, como a necessidade de acelerar e inserir a produção científica e tecnológica nesse processo. A Ufes, por meio de ações e parcerias institucionais, e da crescente produção de seus pesquisadores nessa área, atua fortemente nesse ambiente caracterizado por aliar pesquisa e desenvolvimento. Neste cenário propício à pesquisa e à transferência de tecnologia, a Ufes forma pessoal capacitado para atuar nesse setor, com destaque também para a inovação tecnológica, com potencial para se tornar uma referência acadêmica internacional. O desenvolvimento da indústria do petróleo no


Foto: David Protti

Estado incrementa diferentes e importantes vocações econômicas, como a atividade portuária, o agronegócio, a siderurgia, a celulose, a mineração, o comércio exterior, entre outras que seguem no mesmo rastro, como a indústria naval, terminais offshore e usinas termelétricas, além de uma consistente e diversificada rede de fornecedores e de manutenção da indústria e serviços. A pesquisa científica e tecnológica na Ufes segue atenta e acompanha este intenso e produtivo movimento instalado no Espírito Santo, segundo aponta o professor Eustáquio Vinícius Ribeiro de

Castro, pesquisador e coordenador do Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Metodologias para Análises de Petróleos (LabPetro) da Ufes. Segundo ele, investimentos novos advindos desta “era do petróleo” estão sendo direcionados para o ensino e a pesquisa, consolidando o aumento de oportunidades na formação de mão de obra qualificada para atuação no setor de óleo e gás. Com o desenvolvimento da pesquisa no ambiente do LabPetro, vinculado ao Centro de Ciências Exatas (CCE), este novo circuito do petróleo passa a agregar diferentes linhas de pesquisa em outras áreas da Universidade.

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p e s qui s a Quatro patentes e três prêmios É no campus de Goiabeiras, em Vitória, que está instalado o Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Metodologias para Análises de Petróleos (LabPetro) da Ufes, um dos mais importantes centros de pesquisa química em óleo e gás e derivados do mundo. O laboratório possui quatro patentes depositadas, sendo três premiadas, e quatro em andamento. Por meio do laboratório já foram apresentadas mais de 40 dissertações em nível de mestrado e publicadas dezenas de artigos científicos em revistas especializadas nacionais e internacionais, e mais de 200 graduandos já desenvolveram projetos de iniciação científica. Essa efervescência acadêmica produzida na Ufes em torno do petróleo e gás circunda o LabPetro, com os seus 20 laboratórios que, por meio de ensaios físico-químicos, investiga e define os perfis dos óleos produzidos no Espírito Santo. “A Ufes possui hoje um centro de pesquisa de padrão internacional”, comemora o professor e coordenador do LabPetro, Eustáquio Vinícius Ribeiro de Castro, que atua em cinco grupos e nove linhas de pesquisa. Ele destaca alguns dos diversos aspectos que fomentam a pesquisa científica e tecnológica na Ufes, como a criação de cursos com ênfase em petró-

Fotos: David Protti

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leo, o surgimento de diversas linhas de pesquisa no âmbito da graduação e pós-graduação, o desenvolvimento de novas tecnologias e serviços para o setor, a propriedade intelectual e a transferência de tecnologia, e os estudos aplicados à preservação ambiental e à sustentabilidade. Na órbita do LabPetro, estão o Núcleo de Competências em Química do Petróleo (NCQP) e o Laboratório de Prestação de Serviços (LabServ). Pouco mais de 60 pessoas atuam no NCQP, entre pesquisadores, técnicos e estudantes de graduação e pós-graduação. “O núcleo desenvolve métodos analíticos laboratoriais para suporte a projetos de pesquisa na área de caracterização, avaliação e processamento primário de petróleos pesados e extrapesados”, explica Eustáquio Castro. O LabServ, por sua vez, capta recursos com a prestação de serviços de análises químicas, em que uma parte é direcionada para os projetos de pesquisa – iniciação científica, mestrado e outros – e outra para suporte ao Departamento de Química do CCE/Ufes, o que assegura a autossustentabilidade do projeto. “Realizamos pesquisas e serviços, mas entre os objetivos fundamentais de nossos projetos e da Ufes está a formação de quadros altamente capacitados para


atuação no setor”, ressalta o professor. O LabPetro/Ufes iniciou as suas operações nos anos 2004/2005 com a sua participação em chamadas públicas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), visando à aplicação de projetos em parceria com o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), da Petrobras, com sede no Rio de Janeiro. O LabPetro iniciou as suas atividades de pesquisa com dois projetos: implantação de metodologias para a caracterização de óleos pesados e extrapesados e implantação de sistema de destilação atmosférica e alto vácuo de petróleos. Em 2006 captou novos projetos, como a implantação do laboratório de Ressonância Magnética Nuclear – parceria da Ufes com o Cenpes/Petrobras e a multinacional Schlumberger –, e adequação de metodologia para obtenção de curvas PEV (ponto de ebulição verdadeiro) para óleos pesados e extrapesados. No ano seguinte, novos projetos: implementação e desenvolvimento de metodologias para a determinação de metais e compostos de enxofre em óleos e derivados e efeito de óleos ácidos nos polímeros dos dutos flexíveis. O considerável avanço

da Ufes em pesquisas na área de petróleo e gás resultou na inauguração, em 2012, do novo prédio do NCQP no campus universitário de Goiabeiras, em Vitória, abrigando um complexo com 20 laboratórios, auditório para 110 pessoas, biblioteca, sala de reuniões, central de processamento de dados, 14 salas de professores, duas de treinamento e cinco de apoio técnico, totalizando 3,6 mil m² de área construída. A Petrobras, principal parceira do LabPetro/Ufes no desenvolvimento de pesquisas, é responsável pela maior carteira de projetos, por meio de recursos assegurados em legislação federal, a partir de tributo anual da ordem de 1% sobre o faturamento da empresa em grandes campos de produção de petróleo. “São valores destinados aos institutos de pesquisa sob a orientação e fiscalização da ANP, que define a sua aplicação”, salienta Eustáquio Castro. A Ufes também estabeleceu parcerias de serviços com outras empresas do setor via LabPetro, como a British Petroleum (BP), Schlumberger, Partex Oil and Gas, SGS e UTC. Castro destaca que a Ufes atua em diversas frentes de pesquisa com projetos multidisciplinares envolvendo diferentes áreas como Química, Física, Oceanografia, Biologia, as engenharias e as ciências humanas. De acordo com o coordenador do LabPetro, essa presen-

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Foto: David Protti

Pesquisadores utilizando o aparelho denominado de Expectômetro de Massas, no Laboratório de Petroleômica e Química Forense

ça diversificada de mais pesquisadores no ambiente do petróleo cria uma curva ascendente nos investimentos do setor em projetos de pesquisa e desenvolvimento, que são direcionados para instituições técnico-científicas. “Este ambiente de elevada produção tende a se renovar permanentemente e a se estender por diferentes áreas da Ufes”, ressalta o pesquisador. Copes mapeia competências O Centro de Competências em Óleos Pesados (Copes) é uma parceria entre a Ufes e a Petrobras, com o objetivo de desenvolver projetos de pesquisa e desenvolvimento, bem como a prestação de serviços tecnológicos no setor de petróleo e gás no Espírito Santo, a partir de um formato de colaboração tecnológica entre a estatal e universidades e instituições de pesquisa. O modelo inclui redes temáticas e núcleos regionais de competência. No Espírito Santo, o Copes é o núcleo regional e está instalado no campus da Ufes em Goiabeiras, em Vitória. Assim, os investimentos em projetos de pesquisa e infraestrutura na Ufes são definidos pelo Copes, segundo explica o professor Eustáquio Castro. No Copes, de acordo com Castro, a Ufes possui três assentos no comitê gestor e a estatal, outros três. “O Copes

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mapeia as competências; ou seja, quais os grupos, projetos de pesquisa ou de serviços são compatíveis e adequados às demandas”, observa o professor. “É um modelo pioneiro e único no Brasil”, acrescenta. A parceria Ufes e Petrobras, por meio do Copes, possibilita a concretização de projetos multidisciplinares de pesquisa e desenvolvimento, em que a empresa recorre ao conhecimento e ao potencial humano e material da Universidade para a busca de soluções na exploração e produção de óleo, gás natural e energia. “Essa integração do setor produtivo com o ambiente acadêmico contribui fortemente para o desenvolvimento da pesquisa científica, tecnológica e a inovação no Espírito Santo”, argumenta o professor. As atividades do Copes são orientadas pelo Cenpes, pela Petrobras, pela ANP e demais concessionárias. Na esteira dessa parceria, segundo o pesquisador, o LabPetro/Ufes também está consolidando convênios internacionais importantes com o Sintef Petroleum – instituto de pesquisa norueguês – e empresas de produtos químicos como Dorf Ketal Chemicals e Baker Petrolite. O Copes estabelece com a Ufes várias redes temáticas de pesquisa, como o Centro de Tecnologia em Dutos (abastecimento e refino); Óleos Pesados (produção); Revitalização de Campos Maduros (produção); Monitoramento Ambiental Marinho; e Gás, Energia e Desenvolvimento Sustentável, entre outras.


Fotos: David Protti

EUSTÁQUIO VINICIUS RIBEIRO DE CASTRO “Mão de obra local qualificada é fundamental”

Qual a importância da pesquisa em petróleo e gás para o Espírito Santo? Sendo o Estado o segundo maior produtor de petróleo e gás do País, e por ser o setor mais importante para a economia capixaba, a detenção da tecnologia é fundamental. Entretanto, o que mais se deve destacar é a formação de mão de obra qualificada local, com pesquisadores e técnicos de alto nível. Este é um fator fundamental para o Estado e a sociedade capixaba, porque quebra um paradigma, uma tradição, a cultura que se estabeleceu em outros setores da economia capixaba e que provocou distorções e atrasos nos processos históricos de desenvolvimento socioeconômico do Estado. O LabPetro é uma referência internacional em pesquisa do petróleo? Sim. O elevado número de trabalhos publicados em periódicos científicos de abrangência internacional, a participação em congressos e outros eventos, as parcerias e aproximações com empresas, institutos e órgãos públicos internacionais tornaram o LabPetro/Ufes reconhecido mundialmente. A demonstração disso é a existência de projetos de pesquisa e serviços em parceria com empresas como a francesa Schlumberger, a norueguesa Sintef, e o atendimento a outras como a inglesa BP e as americanas Baker e SGS. São parcerias que têm como objetivo o desenvolvimento de trabalhos de conteúdo científico e tecnológico e a formação de recursos humanos. Qual a evolução dos investimentos do setor de petróleo em instituições técnico-científicas? Com a regulamentação dos dispositivos da Lei 9.478/97, a Lei do Petróleo, que tratam da obrigatoriedade de investimentos em ciência e tecnologia, o volume de recursos aumentou significativamente, tendo em vista o crescimento igualmente relevante da produção de petróleo no Brasil. Calcula-se que, atualmente, só de participações especiais, os investimentos anuais em instituições brasileiras de ciência e tecnologia sejam de aproximadamente R$ 600 mi-

lhões/ano, sendo a Petrobras a concessionária com a maior carteira de investimentos. Qual é a produção acadêmica do LabPetro neste contexto? São mais de 40 dissertações defendidas e outras que estão em andamento, além de três doutorados em parceria com outras universidades. Foram publicados 20 artigos em periódicos qualificados pela Capes. Temos parcerias consolidadas por meio de 20 projetos com a Petrobras, cinco com a Finep, além de trabalhos com outras empresas nacionais e estrangeiras. Já foram apresentados mais de 300 trabalhos em congressos nacionais e internacionais e mais de 100 trabalhos de iniciação científica, estágio e de conclusão de curso. E quanto às patentes? Já foram depositadas quatro patentes, além de outras quatro em desenvolvimento. Três foram agraciadas com o prêmio “Petrobras Inventor” e tratam, essencialmente, de métodos e equipamentos para o processamento de óleos para análises laboratoriais. As patentes são as seguintes: Equipamento e métodos para preparação e para fracionamento de amostras de compostos complexos por adsorção seletiva; Processo e sistema de extração de sais de petróleos leves e pesados; Processo de extração de sais em óleos leves; e Desenvolvimento de unidade dessalgadora manual de petróleos. O Copes exerce uma função estratégica no desenvolvimento de pesquisas na Ufes? Sim. O Copes é resultado de uma parceria entre a Ufes e a Petrobras criada em 2005. Seu objetivo principal é facilitar o entendimento entre as competências da Ufes e as demandas da Petrobras. Além de facilitador, o Copes cumpre também o papel de gestor dos projetos desenvolvidos pela parceria. Conta com um coordenador membro da Petrobras, equipe de suporte técnico e pesquisadores representantes da Ufes que auxiliam nos trâmites internos da Universidade.

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E X TENSÃO

De olho na

MÍDIA Observatório da Mídia analisa a publicização de temas relacionados aos direitos humanos, políticas e sistemas, interligando diferentes instituições e áreas do conhecimento

P

assam-se anos, décadas, e uma questão está sempre presente: como garantir a todos o respeito ao exercício pleno de seus direitos civis, políticos, sociais, culturais, econômicos e ambientais, que juntos dão origem à conhecida expressão “direitos humanos”, fundamentais para a existência e a dignidade do homem? Um dos temas que permeiam essa discussão refere-se ao papel dos meios de comunicação diante de tais direitos, já que estes são os principais espaços de circulação de informação na sociedade, tornando-se referenciais para a formação de valores e de opiniões. Para analisar essas questões surgiu, em 2006, o Observatório da Mídia: Direitos Humanos, Políticas e Sistemas. Até agora, foram publicados cerca de 50 artigos vinculados a projetos de iniciação científica, graduação e pós-graduação, além de nove dissertações de mestrado e uma tese de doutorado que englobam temas como violência, representação de minorias e publicidade em jornais,

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canais de televisão e rádios. Além disso, o grupo foi um dos fundadores da Red de Observatorios de Medios y Defensores de las Audiencias de Nuestra América, criada em 2011, que reúne Observatórios de Mídia da América Latina e dos Estados Unidos. O Observatório foi criado na Universidade Federal de Pernambuco quando o seu coordenador, o professor do Departamento de Comunicação da Ufes Edgard Rebouças trabalhava na instituição. Segundo ele, o grupo surgiu a partir de uma demanda da própria sociedade, como um suporte acadêmico para a campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania, promovida pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e entidades que se ocupam do tema. Em 2009, quando Edgard passou a dar aulas na Ufes, a sede do grupo se estabeleceu na Universidade, contando com a colaboração de estudantes e pesquisadores de Pernambuco, São Paulo, Brasília (Distrito Federal) e Rio de Janeiro, para a produção de pesquisas de amplitude nacional.


do longitudinal – que será feito até 2014 – no qual o Observatório monitora as publicidades destinadas às crianças em programações de 15 canais, durante as semanas que antecedem datas comemorativas. Já a pesquisa Cartografia dos Grupos de Mídia no ES é feita há três anos. Nela são mapeados e analisados conteúdos informativos e publicitários de rádios, TVs, jornais, revistas e veículos de comunicação on-line, buscando investigar relações econômicas, políticas e culturais entre eles. Com os seminários Observações, o grupo busca emitir suas opiniões e interpretações sobre diversos temas, discutindo-as com estudantes e profissionais de diferentes áreas. Sobre a relevância de iniciativas como as do Observatório da Mídia, o professor e pesquisador do grupo Victor Gentilli afirma que “a incidência de problemas de desrespeito aos direitos humanos na mídia é muito alta. Como prestadores de serviço público, as empresas midiáticas, pelo contrário, deveriam estar atentas não apenas ao seu cumprimento como, em especial no caso do jornalismo, no apontar os descumprimentos. Instituições como o Observatório cumprem o papel de acompanhar de perto estas situações”. A estudante de jornalismo da Ufes Esther Radaelli participa do Observatório desde junho de 2012 e diz que a importância de projetos de pesquisa e ex-

Familiares e crianças participam da Feira de Troca de Brinquedos, realizada pelo Observatório da Mídia em outubro de 2012, na Praça dos Namorados, em Vitória

Foto: Arquivo Observatório da Mídia

Inicialmente com o propósito de desenvolver pesquisas regionais, o Observatório começou a realizar estudos sobre a violação dos direitos humanos na mídia, focando temas como a violência contra mulheres, o desrespeito a homossexuais e a ridicularização de pessoas em programas de rádio e televisão do Nordeste. Mas, com a ampliação das demandas, os pesquisadores começaram a elaborar trabalhos que vão além dos conteúdos de Jornalismo, como entretenimento e publicidade de alimentos e medicamentos para crianças . Os estudos sobre publicidade destacam-se entre as frentes de pesquisa do grupo. Entre 2007 e 2009, os pesquisadores iniciaram investigações sobre publicidades voltadas para o público infantil devido a uma discussão na Câmara dos Deputados e no Senado sobre a regulamentação do setor. A partir disso, foi feita a pesquisa Regulamentação da Publicidade na TV Para Crianças e Adolescentes - Estado da Arte: Regulamentação Internacional, para avaliar o modo como a questão é tratada em países de todo o mundo. Outra grande pesquisa nessa área começou a ser feita em 2011 como resultado de uma parceria entre a Ufes e o Instituto Alana, organização sem fins lucrativos, que busca promover o bem-estar das crianças a partir da garantia de uma vivência plena da infância. O projeto Monitoramento da Publicidade de Produtos e Serviços Destinada a Crianças é um estu-

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Fotos: Arquivo Observatório da Mídia

E X TENSÃO

Evento do Observatório da Mídia realizado no plenário da Assembleia Legislativa do Espírito Santo

tensão como este está no aprendizado que os alunos adquirem para além da sala de aula. “O Observatório trabalha com questões fundamentais para a formação de um comunicador social, além de possibilitar uma compreensão mais ampla sobre a Comunicação. A Universidade possui vários espaços, os grupos de pesquisa e extensão são alguns, que nos proporcionam vivências únicas. É muito importante que aproveitemos ao máximo todos eles”, ressalta. Englobando diferentes áreas do conhecimento Em um primeiro momento, pode-se pensar que um grupo que investiga a relação entre a mídia e os direitos humanos é restrito à participação de alunos dos cursos de Comunicação Social. Entretanto, não é isso o que acontece no Observatório da Mídia. É justamente por lidar com temas complexos que os pesquisadores do grupo se voltam para a discussão de questões como obesidade, violência e segurança a partir de uma conexão entre os estudos midiáticos e outras áreas do conhecimento, que vão além do Jornalismo e da Publicidade. Para tanto, o grupo possui parcerias com alunos e professores de Direito (da Faculdade de Direito de Vitória - FDV), Serviço Social, Nutrição, Educação e Psicologia da Ufes, além dos Conselhos Regional e Federal de Psicologia, do Ministério da Saúde, Ministério da Justiça, Anvisa, Organização Pan-americana de Saúde, Ministério Público Federal e do Conselho Federal de Nutrição. Aline Cavaca, que hoje cursa o doutorado em

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Odontologia na Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, realizou sua pesquisa de Mestrado em Saúde Coletiva em parceria com o Observatório. Após o mestrado, ela decidiu continuar os estudos na área com a pesquisa Doenças Midiaticamente Negligenciadas (DMN). “A partir da experiência do mestrado, na qual estive mergulhada na leitura dos periódicos locais, fiquei intrigada com o descompasso da valorização midiática da saúde em relação ao contexto de saúde estadual. Assim, incitou-me o desejo de ir além da perspectiva da saúde bucal e avançar na pesquisa em Comunicação e Saúde,” diz Aline. Democratização da Comunicação: um mundo em que muitos falam para muitos Outra questão defendida pelo Observatório da Mídia é a democratização da comunicação, que só é possível com a plena garantia de liberdade de expressão aos indivíduos. O professor Edgard Rebouças afirma que democratizar não implica somente garantir o acesso das pessoas à mídia, mas é também dar mecanismos para que a própria sociedade produza conteúdos midiáticos. “Uma crítica que nós sempre recebemos é que nós não gostamos de televisão, não gostamos de jornal. Não, pelo contrário, nós gostamos muito. Todos os observatórios fazem esse trabalho porque gostam muito da mídia e por isso desejam uma mídia melhor. E para ela ser melhor, é preciso que haja uma maior participação da sociedade, mais discussão e mais debates”, explica ele.


Desse modo, caracterizando-se como um grupo de pesquisa e ação, o Observatório da Mídia também promove eventos fora do campus, com o objetivo de conscientizar as pessoas em relação aos seus direitos. Uma forma, segundo o professor Edgard, de fazer com que a universidade retribua os investimentos que recebe da sociedade através de seus programas de pesquisa e extensão. Exemplos dessas ações são as Oficinas de Leitura Crítica da Mídia, ministradas pelos membros do grupo para crianças, adolescentes e idosos em escolas estaduais e municipais da Grande Vitória. Além disso, o Observatório promoveu dois eventos em parceria com a Comissão de Educação e Comunicação da Assembleia Legislativa, intitulados: A TVE e Rádio Espírito Santo que queremos (2011) e Plano Nacional de Banda Larga: implantação e desenvolvimento no Espirito Santo (2012). Junto ao Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e o Coletivo Intervozes, o grupo realizou, em junho de 2012, o seminário Qual o Seu Papel na Democratização da Mídia? e em março do mesmo ano organizou, em parceria com o Instituto Estadual de Proteção e Defesa ao Consumidor (Procon/ES), a I Feira do Consumidor Cidadão, realizada no Centro Esportivo Tancredo de Almeida Neves, o Tancredão, cujo objetivo foi estimular o consumo consciente entre crianças. Foi com esse mesmo objetivo que o Observatório realizou, em outubro de 2012, a Feira de Troca

de Brinquedos na Praça dos Namorados, em Vitória, uma iniciativa para que as crianças, ao invés de comprar brinquedos, os trocassem entre si. O mais recente seminário promovido pelos Observadores, intitulado Os rumos e o papel da comunicação pública, ocorreu em junho de 2013.

Primeiro Lugar Em 2013, o projeto Capacitação de Jornalistas para a Promoção e o Respeito dos Direitos Humanos, do Observatório da Mídia, foi aprovado em primeiro lugar pelo Programa de Extensão Universitária (Proext/Mec) na área de Direitos Humanos. O novo trabalho é uma parceria entre o Observatório da Mídia, a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Espírito Santo (SEADH) e o Sindicato dos Jornalistas, para a realização de oficinas de capacitação direcionadas a jornalistas, estudantes e militantes de direitos humanos no Espírito Santo. O projeto entra em vigor no início de 2014 e será um piloto para que em 2015 ações semelhantes possam ser propostas em âmbito nacional. As reuniões do Observatório acontecem todas as quintas-feiras, às 14h, no Cemuni I, campus de Goiabeiras, e são abertas a quem desejar participar.

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Nacional

Tecnologias de Informação a serviço da saúde no Espírito Santo O Telessaúde tem o objetivo de aproximar pacientes e profissionais da saúde, não importando a distância, para garantir atendimento de qualidade

O Telessaúde é um programa nacional desenvolvido pelo Ministério da Saúde, que visa melhorar a qualidade da saúde e do atendimento na atenção básica a partir do desenvolvimento de tecnologias de informação e comunicação que permitam uma maior integração entre as equipes de Saúde da Família do Estado e profissionais especialistas. Oferecer um melhor atendimento aos pacientes e garantir o aperfeiçoamento de profissionais, como médicos, enfermeiros, psicólogos, dentistas, farmacêuticos e agentes de saúde, são alguns dos objetivos do programa. Implantado há um ano, o Telessaúde-ES já está presente em 50 municípios do interior do Espírito Santo e conta com 209 profissionais cadastrados. A meta é que até o fim do projeto, previsto para agosto deste ano , cerca de 70 municípios sejam atendidos.

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No Espírito Santo, o Telessaúde é o resultado de uma parceria entre a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), que atua como um elo entre o projeto e o Ministério da Saúde; o Ifes, responsável pelo desenvolvimento de softwares para a comunicação, e o Hospital Cassiano Antonio Moraes (Hucam), da Ufes, que disponibiliza os especialistas em saúde para atuarem no projeto. Monta-se uma estrutura para que o profissional que está mais afastado da Capital e, muitas vezes, tem dificuldades de fazer cursos e se manter atualizado, possa solicitar informações e receber auxílio de outros profissionais. O gerente do Telessaúde, Marcelo Queiroz Schimidt, explica que, quando os profissionais têm a oportunidade de trocar informações com outras pessoas de sua área, eles deixam de se sentir isolados e se tornam mais seguros, potencializando seu trabalho. Algumas das principais vantagens do programa são a maior agilidade nos processos de diagnósticos e a redução de deslocamento dos pacientes para outros hospitais, visto que na maioria das vezes os problemas são solucionados nos próprios municípios. Além disso, é possível reduzir os gastos com


exames desnecessários e poupar os pacientes de maiores desgastes físicos e psicológicos. Como funciona Todas as perguntas são enviadas para um ambiente virtual (dentro do site do Telessaúde) e encaminhadas diretamente ao médico regulador. É ele quem avaliará se é capaz de responder as questões ou se é preciso encaminhá-las para especialistas. Caso seja necessário, as questões são reencaminhadas ao ambiente virtual e são automaticamente direcionadas ao especialista. Todo o processo é confidencial e feito com autorização prévia dos pacientes. As perguntas são respondidas em, no máximo, 72 horas. Atualmente, o programa conta com um médico regulador, 22 médicos especialistas e 10 profissionais de outras categorias. Thiago Sarti é professor da Ufes e médico regulador do Telessaúde. Ele explica que em sistemas de saúde avançados, como o de Cuba, da Inglaterra e do Canadá, o primeiro contato das pessoas com um serviço de saúde é feito em uma unidade de atenção primária (no Brasil, conhecemos essas unidades como Unidades de Saúde). O médico de Saúde da Família e da comunidade busca analisar os problemas de forma ampla, incluindo a promoção da saúde e a prevenção de doenças. “Vários estudos mostram que as pessoas ficam mais satisfeitas e os resultados são melhores quando elas acessam uma atenção primária qualificada. Contudo, alguns pacientes precisarão de um atendimento especializado. É aí que entra a função de filtro do médico generalista: primeiro, resolvendo a grande maioria dos problemas de saúde das pessoas, encaminham-se apenas aqueles que realmente vão ter necessidade de um acompanhamento em um serviço especializado; segundo, conhecendo bem o problema da pessoa, encaminha-se o indivíduo para o especialista mais adequado”, ressalta Sarti. Para facilitar a inserção dos municípios no programa, o Telessaúde oferece às Unidades de Saúde um kit de materiais completo, contendo computador, monitor, mouse, teclado, fone de ouvido e microfone, caixas de som, webcam e máquina fotográfica. O kit deve ficar disponível a todos os profissionais cadastrados no Telessaúde para que eles tenham a possibilidade de se comunicar quando acharem necessário. Serviços Caso as questões enviadas para o médico regulador ou para o especialista sejam mais complexas

ou relevantes para outros profissionais que podem se beneficiar do conhecimento produzido a partir das dúvidas que surgem, é elaborada a Segunda Opinião Formativa. Esta é uma resposta sistematizada, construída com base em revisões bibliográficas, evidências científicas e clínicas e no papel ordenador da atenção básica à saúde, que visa responder às perguntas originadas das teleconsultorias. As pesquisas geradas através da Segunda Opinião Formativa são armazenadas em uma base de dados que, por sua vez, compõe uma Biblioteca Virtual, cujo acesso é permitido a qualquer profissional cadastrado. No serviço de Teleconsultoria, um ou mais clínicos se reúnem por meio de uma videoconferência para discutir a situação de um paciente. Já nas webconferências são realizadas reuniões, palestras e treinamentos para os profissionais. Porém, caso achem necessário, os clínicos podem agendar webconferências particulares.

Como participar Os municípios do interior do Estado foram os primeiros beneficiados com o programa Telessaúde justamente por serem regiões afastadas dos maiores centros urbanos. Para se ter uma ideia, existem lugares em que só há um profissional de saúde para cada área. Mas, a partir de 2013, o programa também está sendo oferecido aos municípios da Grande Vitória. Para participar do projeto, o único pré-requisito é que os municípios tenham acesso à internet. As secretarias de Saúde municipais interessadas devem fazer um pré-cadastro no site do Telessaúde-ES e em seguida confirmar seu cadastro por e-mail ou telefone. Cabe a elas decidir em qual Unidade de Saúde o sistema será implantado. A terceira etapa consiste no agendamento de testes para a implantação dos softwares, que são feitos on-line entre um técnico de informática do município e um técnico do Telessaúde. Depois, são entregues os kits e inicia-se a fase de treinamento dos profissionais. Site: http://telessaude.ifes.edu.br/

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P ES Q U I S A

i Mús c a a trilha sonora do mundo

Professores do Departamento de Teoria da Arte e Música criam grupo para pesquisar a interface entre a música e outras vertentes da linguagem Seja vista como a arte de manifestar diversos afetos da alma mediante o som, como pensava o maestro Paschoal Bona, seja como um conjunto de sons e silêncios organizados no tempo, independentemente de suas definições. Como dizia o poeta e

dramaturgo Victor Hugo, “a música está em tudo. Do mundo sai um hino”. Ela se manifesta de diferentes formas no cotidiano, afirmando-se como uma das mais antigas formas de expressão da humanidade. É com o objetivo de pensar a música inserida no mundo que os pesquisadores do Grupo Linguagens e Música investigam o diálogo entre a linguagem musical e outras vertentes, como Filosofia, Psicanálise, Cinema, Teatro e Educação. Um dos resultados do projeto é a revista eletrônica Música e Linguagem, lançada em julho de 2012, que reúne artigos sobre o assunto, estimulando o debate em torno do tema. Atualmente, o Linguagens e Música é compos-

Fotos: David Protti

Os professores Ernesto Frederico Hartmann Sobrinho (abaixo) e José Eduardo Costa Silva (ao lado) coordenam o grupo de pesquisa Linguagens e Música

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Musivamentando Um dos projetos ligados ao Linguagens e Música é o Musivamentando. Ele é um programa ligado à Pró-Reitoria de Extensão da Ufes e tem a função de englobar projetos de extensão do curso de Música, como o Papo de Compositor. Neste evento, que foi realizado de 2009 a 2011 na Ufes, compositores capixabas eram convidados a fazer apresentações musicais; o Rec It All, evento de recitais produzidos pelos alunos do curso, que se apresentam na Universidade e o Música na Ufes, projeto também desenvolvido dentro da Ufes, que trabalha com a alta performance musical e consiste na apresentação de concertos mensais dos professores do curso de Música.

to por cinco alunos de iniciação científica e pelos professores do Departamento de Teoria da Arte e Música da Ufes Ernesto Frederico Hartmann Sobrinho, José Eduardo Costa Silva, Marcus Neves, Darcy Alcântara e Marcos Ribeiro de Moraes. O grupo foi criado em 2007, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), quando os professores Ernesto e José Eduardo cursavam o doutorado em Música naquela instituição. Em 2011, após ambos já trabalharem na Ufes, o grupo foi transferido para a Universidade com o objetivo de englobar todas as pesquisas desenvolvidas pelos alunos para que elas contribuam para a elaboração de uma linha de pesquisa mestra do curso de Pós-Graduação em Música. A música é vista historicamente a partir de dois pontos divergentes: como produtora de significação, sentimentos e emoções dentro da linguagem, ou como uma manifestação dela. A música não é capaz de definir objetos com precisão, mas dá aos indivíduos a possibilidade de conhecê-los de outras formas, a partir do pensamento metafórico. A questão que permanece é se é a própria música quem proporciona esse novo olhar ou se tais impressões são criadas a partir do que conhecemos da língua. “É justamente nessa tensão entre a linguagem como estrutura e a linguagem como símbolo da música que nós trabalhamos, pesquisando essas

interações e o que resulta disso”, completa Ernesto. O objeto de estudo dos pesquisadores não se limita à musica popular – caracterizada pela união entre a palavra e o som, que dão origem a outro significante – ou à música instrumental. Trata-se da música enquanto fenômeno artístico, resultado de um intenso processo de elaboração. “O mais importante é que embora a gente goste da música e a respeitemos como ela é, estamos discutindo uma forma de ela estar inserida no mundo. A música não deve ser vista como um mero entretenimento. Ela é arte e pensamento”, afirma o professor José Eduardo. Pesquisas e Produção Artística Um dos maiores trabalhos realizados pelos pesquisadores do grupo, em parceria com doutorandos em Psicanálise da Universidade Veiga de Almeida, do Rio de Janeiro, foi a produção de trilhas sonoras para as peças Variações Freudianas (2010) e Abram-se os Histéricos! (2012), da Companhia Inconsciente em Cena. Na primeira peça, os sintomas da histeria são levados ao palco através da música e da dança. Já a segunda centra-se nas aulas públicas do cientista Jean-Martin Charcot, no século XIX, além de retratar o surgimento da Psicanálise, com a formulação da Teoria do Inconsciente de Freud. Outra linha de pesquisa explorada pelo grupo é a de Paisagem Sonora, que discute questões ligadas à escuta, à música e à ecologia, buscando entender como um determinado ambiente sonoro é permeado por sons, incluindo suas possibilidades de poluição sonora. UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Maio/Ago 2013

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Fotos: David Protti

p e s qui s a

Comunicação entre roedores

Com o objetivo de explorar as potencialidades da bioacústica, linha que investiga as ondas sonoras emitidas por animais, o grupo de pesquisa Comunicação em Mamíferos Neotropicais se dedica a estudar a comunicação entre mamíferos roedores da América do Sul, como porquinhos-da-índia, preás, capivaras, tuco-tucos, catetos e queixadas, a fim de analisar o comportamento social desses animais e sua relação com o ambiente. Entre os projetos desenvolvidos pelo grupo destaca-se a montagem de um banco de dados contendo as emissões vocais dos mamíferos, que poderá ser utilizado por cientistas de todo o mundo para o reconhecimento de espécies. Apesar de existir desde 2003, o grupo foi formalizado em 2010 e, atualmente, envolve pesquisadores dos núcleos de Biologia e Psicologia de cinco universidades: Rosana Suemi Tokumaru, da Ufes; Selene Nogueira, da Universidade Estadual de Santa Catarina (UESC); Patrícia Ferreira Monticelli e Elisabeth

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A professora Rosana Suemi Tokumaru integra a equipe de pesquisadores de várias universidades que investigam a comunicação entre mamíferos neotropicais

Spinelli de Oliveira, da Universidade de São Paulo (USP); Carlos Ramón Ruiz, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF); e Gabriel Henrique Francescoli Gilardini, da Universidad De La Republica Oriental Del Uruguay. Os mamíferos neotropicais vivem na região composta pela América Central, sul da Flórida (EUA), ilhas do Caribe e América do Sul. A professora do Departamento de Psicologia da Ufes Rosana Suemi explica que o interesse de criar o grupo surgiu pois, embora a bioacústica seja uma linha de pesquisa utilizada desde a década de 1970, os pesquisadores focam seus interesses na análise de sons de aves e de primatas, excluindo outros animais. Ao mesmo tempo, os estudos com roedores


centram-se em suas características olfativas, fazendo com que sua vocalização seja pouco explorada. Quanto ao fato de as pesquisas relacionadas à bioacústica serem objeto de interesse não só de biólogos, mas também de psicólogos, como é o caso das professoras Suemi e Patrícia, a professora Suemi afirma que o estudo do comportamento animal serve como auxílio para que sejam entendidos aspectos do comportamento humano, foco da Psicologia. “A partir de homologias e analogias com o comportamento animal é possível entender, por exemplo, a própria linguagem humana, que é um tema complexo”, exemplifica ela. Por se tratar de um trabalho de observação do comportamento animal, as análises são feitas tanto em campo quanto em cativeiro por meio de recursos como a observação direta, câmeras filmadoras, microfones e gravadores. A segunda etapa do trabalho consiste em estudos laboratoriais dos sons captados, feitos por programas de computador específicos. Em 2013, o grupo se prepara para a apresenta-

ção dos simpósios Comunicação vocal em roedores: avanços recentes, e Como a bioacústica pode melhorar a avaliação do bem-estar animal: mecanismos e design experimental, que acontecerão em setembro, durante o XXIV Congresso Internacional de Bioacústica, em Goiás. A professora Suemi destaca que o fato de o grupo ser formado por várias universidades estimula a troca de experiências entre pesquisadores. “O que tem sido interessante para nós é o contato que podemos ter uns com os outros e a possibilidade de compartilharmos a formação de nossos alunos”, salienta.

Pesquisas Na Ufes, as primeiras pesquisas referentes à bioacústica na área de Psicologia começaram em 2003, quando a professora Suemi passou a integrar o corpo docente da Universidade. Mas, para a professora, o trabalho com mamíferos roedores começou desde 1993 quando, ao longo de seu mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo (USP), ela investigou as vocalizações emitidas entre filhotes de porquinhos-da -índia e suas mães. As conclusões apontaram que, apesar de não reconhecer individualmente o filhote, a mãe atende ao seu chamado e o procura. Os próximos animais estudados foram as capivaras, que constituem um grupo social mais complexo, em que os membros interagem a todo o tempo entre si. A análise laboratorial permitiu a identificação de sete diferentes vocalizações e os contextos em que elas ocorrem, como por exemplo, em situações de agressão, alimentação, relações entre pais e filhotes ou reprodução. Além disso, foram identificados grupos de capivaras que possuíam vocalizações distintas. O próximo passo da pesquisa consiste em saber se essas capivaras reconhecem ou não tais

distinções de som. “As espécies que estudamos são espécies sociais. E o comportamento social delas inclui a vocalização, que não só medeia as relações como regula os comportamentos. Um filhote que se perde da mãe, por exemplo, quando emite sons está de alguma forma provocando a aproximação da fêmea e com isso está regulando as interações entre eles”, ressalta Suemi. Outro projeto desenvolvido pelo Grupo Comunicação em Mamíferos Neotropicais é o levantamento da filogenia dos animais, ou seja, o estudo do grau de parentesco entre os membros de diferentes espécies, feito através da bioacústica e da análise de seu comportamento de forma geral. “Através deste estudo pretendemos associar as afinidades vocais entre as espécies e compará-las a métodos mais tradicionais de classificação animal, tais como os morfológicos e os biomoleculares. Se conseguirmos validar tal método, haverá um benefício do ponto de vista financeiro para a classificação das espécies, pois os métodos acústicos são mais rápidos e mais baratos que os demais”, afirma Selene Nogueira, responsável pela pesquisa.

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artigo

O

PAPA e os desafios éticos Edebrande Cavalieri*

Tomando por motivação a perspectiva do filósofo J. Habermas de que a luta entre os extremismos do laicismo e do fundamentalismo religioso deve existir uma terceira via, mais significativa para a humanidade e que mantenha a presença pública das religiões mundiais da humanidade, que garanta a convivência frutífera entre diversas religiões, culturas e pertencimentos. Entre o laicismo e o fundamentalismo religioso que cresce e se apresenta de maneira destemida sem precedentes na história parece não haver nenhuma outra alternativa. Ao mesmo tempo, observa-se que a “reserva de sentido” do discurso religioso não está esgotada. Jacques Lacan na obra O triunfo da religião afirma que a mesma triunfará inclusive sobre a psicanálise. Impossível pensar quão poderosa ela é. A ciência não resolverá todas as questões e a religião terá a função de apaziguar os corações. Ela possui recursos que nem se suspeita que possua. Para Habermas também há uma reserva de sentido, mostrando não apenas como o religioso persiste de maneira vigorosa, mas que exige uma coexistência nem sempre pacífica com outras esferas de sentido. Deixamos para trás aquela ideia bem positivista de que a religião deveria ser um estágio a ser superado na história da cultura humana e passamos a reconhecer uma grande sensibilidade do fator religioso presente na sociedade, bem como a necessidade de um conhecimento cada vez mais rigoroso com as ferramentas que a própria ciência moderna nos legou. Com essas duas motivações introdutórias, queremos mostrar que “falar da eleição de um Papa” em um meio universitário tem sentido na medida em que, enquanto pesquisadores, nos debrucemos sobre o que uma figura religiosa central na história do ocidente pode representar para a humanidade inteira. Não me compete e nem me interessa entrar em disputas apologéticas ou doutrinárias funda-

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mentando o poder pontifício. Deve interessar-nos, acima de tudo, a perspectiva ética da chamada “reserva de sentido”. Desta forma, o diálogo com a academia se torna mais produtivo e positivo. De pronto podemos perguntar: que importância tem para toda a sociedade e para a Igreja Católica a eleição do Arcebispo de Buenos Aires Jorge Mário Bergoglio? A sua eleição pelo Colégio dos Cardeais é decorrente da renúncia do Papa Bento XVI. Desde o século XV tal fato não acontecia. Neste ponto, Ratzinger deixou um grande legado em termos políticos e eclesiais. O exercício do poder pontifício não se submete à vitaliciedade de modo absoluto. O mundo atual e seus enormes desafios carecem muito mais do que uma figura simbólica de um papa moribundo. Bento XVI, sempre muito cioso das tradições eclesiais, recupera uma possibilidade política extremamente significativa. Os primeiros gestos do novo Papa são muito significativos. Ao aparecer na janela do Vaticano, e antes de qualquer ação perante o povo, pede a este mesmo povo que reze por ele. Reconhece assim a missão fundante da Igreja - ser ação, servir, submeter-se às necessidades do povo. Não se trata de um cargo ou exercício de poder. Este gesto se completa com a escolha do nome Francisco. Este nome remete a uma das figuras mais emblemáticas do Cristianismo, Francisco de Assis, que viveu num momento em que via o desmoronamento da Igreja medieval. Com um pequeno grupo de irmãos lança-se na ação pelos pobres, o amor à natureza, e a reconstrução da Igreja a partir de ações efetivas, e não de discursos teológicos abstratos, como aqueles então produzidos pela Escolástica. A origem geográfica do novo Papa também é algo que aparece de imediato. Trata-se de uma grande mudança na própria Igreja Católica que entendia a competência de governar a Igreja a partir do eixo europeu e, principalmente, italiano. A Argentina é um


dos poucos Estados em que o Catolicismo é religião oficial, com o governo assumindo despesas dos eclesiásticos. Neste ponto, o novo Papa tem o desafio de garantir a existência do estado laico, que cuida do bem comum de toda a população. Há no mundo atual a perspectiva de alguns grupos religiosos assumirem o poder do Estado e governarem segundo os interesses de suas agremiações religiosas. É o primeiro papa latino-americano, terra fértil da Teologia da Libertação. Esta área teológica tem características diferentes do que quase sempre se produziu na academia. Não nasce a partir dos gabinetes dos pesquisadores, mas da escuta do grito dos pobres, do índio, da mulher. As Comunidades Eclesiais de Base não foram vencidas. Sua metodologia de ação impregnou não apenas a Igreja, mas a própria sociedade. Foi da sua escuta permanente e atenta aos clamores do povo que se estabelece o conceito de exclusão social já arraigado nas análises acadêmicas e políticas presentes no mundo. Daí nascem o “Grito dos Oprimidos” e o “Grito da Terra”, que mostram a correlação profunda entre a destruição da natureza e a exclusão social ou produção da pobreza. A questão fundamental não é saber se o Cardeal Bergoglio é da Teologia da Libertação. Esta é uma reflexão a posteriori. Em primeiríssimo lugar vem a atitude diante dos pobres e oprimidos. Assim, as divergências com os Kirchers levam em consideração o avanço da pobreza na Argentina passando de 4% em 1990 para 30% nos dias atuais. Esta é a percepção do Arcebispo, agora Papa, de Buenos Aires: o empobrecimento do povo argentino e o aumento da miséria de uma parte e a concentração de riqueza cada vez maior nas mãos de poucos. A atitude de acolhimento às mães solteiras de Buenos Aires que solicitavam o batismo de seus filhos foi motivo de enfrentamento contra alguns párocos que recusavam o batismo aos recém-nascidos. As questões internas da Igreja Católica parecem ser as mais desafiadoras de serem enfrentadas imediatamente. Não é possível tolerância ou encobrimento dos escândalos relativos à pedofilia de muitos eclesiásticos e dos desvios presentes em alguns setores da Cúria Romana, principalmente no Banco do Vaticano. Nesse caminho de recuperação da conduta ética e moral da Igreja, o Papa necessita de um conjunto de forças e apoios dentro do próprio episcopado. O mundo atual requer essas transformações. Muitos desvios de conduta não são compatíveis com o Evangelho pregado em todas as celebrações. É preciso ter muita força e coragem. Algumas questões de cunho disciplinar devem ser

postas em pautas reservadas e também públicas no exercício do pontificado. Uma delas com certeza refere-se ao tema do Celibato dos padres. A expectativa dentro de alguns segmentos católicos vem desde a época do Concílio Vaticano II na década de 1960. Outra mais desafiadora se refere à possibilidade de ordenação das mulheres como diaconisas e presbíteras. A presença das mulheres nas comunidades eclesiais é muito grande. Os novos tempos parecem questionar a Igreja sobre a impossibilidade de sua ordenação. Em termos mundiais, os desafios são cada vez maiores. Não é mais possível uma posição de indiferença perante os graves problemas de convivência entre Estados, entre Grupos Étnicos, entre Eixos Econômicos, entre a presença cada vez maior de minorias e os grupos dominantes em cada sociedade. Este trabalho de interlocução entre os vários Estados tem sido uma exigência cada vez maior. A autoridade moral do Papa pode contribuir para a solução e superação de muitos conflitos, muitas injustiças, muitas mortes. Por fim, para nós brasileiros, tivemos a oportunidade de ter sua primeira visita ao Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude realizada em julho. Para a juventude, a Igreja só será motivo de esperança à medida que suas ações forem sempre pautadas pela coerência ética e transparência moral. A juventude não pode perder a esperança. E, neste ponto, não tenho como finalizar este escrito sem pensar na situação de uma juventude que não espera mais por nada a não ser o momento de sua morte antes de completar trinta anos. O envolvimento em drogas e nos diversos tipos de crimes faz desta juventude o maior território missionário da Igreja. E vemos entre nós crescer a postura imediata da penalização desta juventude antes dos dezoito anos. O Grito da Terra é hoje o Grito dos Jovens. De que adianta ser o país mais cristão, mais católico, se não damos aos nossos jovens a possibilidade de viverem dignamente com todos os direitos garantidos?

* Professor do Departamento de Filosofia e Doutor em Ciências da Religião

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I D E I A PRE M I A D A

Um trabalho

minucioso ARTES PLÁSTICAS NO ESPÍRITO SANTO: ensino, produção, instituições e crítica é o título do livro da professora Almerinda Lopes que ganhou prêmio nacional

Ler edições diárias de mais de 20 anos de jornais e revistas, para traçar um panorama das exposições e eventos artísticos realizados em Vitória. Foi deste, entre outros esforços, que surgiu o livro Artes Plásticas no Espírito Santo 1940/1969: ensino, produção, instituições e crítica, lançado em dezembro de 2012 pela Editora da Ufes (Edufes). É isso o que conta sua autora, a professora do Departamento de Teoria da Arte e Música da Ufes Almerinda Lopes, ganhadora do Prêmio Sérgio Milliet, da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), como melhor autora por pesquisa publicada. Em termos de publicação, o trabalho é a primeira iniciativa de registrar a história da arte no Espírito Santo no período estudado. O livro é uma continuação das pesquisas iniciadas por Almerinda desde a década de 1990 quando ela, que morava em São Paulo, foi aprovada em concurso para dar aulas na Ufes. Ao chegar a Vitória, Almerinda percebeu que as únicas pesquisas históricas sobre arte no Estado eram restritas à arquitetura, não havendo nenhuma publicação referente à pintura, escultura e fotografia. Foi assim que ela

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começou a visitar acervos públicos e particulares, onde encontrou também obras do século XIX. Com o tempo, seu objetivo passou a ser não só conhecer o acervo, mas descobrir os artistas que atuavam no Estado e as políticas culturais de outros tempos. A falta de materiais para a realização das pesquisas – uma vez que na época não eram feitos catálogos das exposições e não havia sequer o registro de compra das obras nos acervos públicos e museus – fez com que a professora encontrasse um novo método de estudo: a análise de jornais e de microfilmes da época do Arquivo Público e da Biblioteca Estadual. Dessa primeira fase nasceu, em 1997, o livro Arte no Espírito Santo: do século XIX à Primeira República, ganhador do prêmio Almeida Cousin, do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Quinze anos depois, a publicação Artes Plásticas no Espírito Santo: ensino, produção, instituições e crítica traz abordagens que vão desde a criação da primeira Escola de Belas Artes até a constituição dos acervos do Estado a partir dos discursos da crítica.


Essa foi a terceira vez que Almerinda concorreu ao prêmio da ABCA –uma por seu primeiro livro sobre a história da arte capixaba e a segunda por sua trajetória como crítica de arte. A professora acredita que, além de um reconhecimento pelo trabalho dos pesquisadores, o prêmio é uma forma de dar visibilidade e ampliar as pesquisas. Outro ponto positivo é a possibilidade de relembrar os artistas e valorizar suas obras, que se (re) significam à medida que são estudadas. “O trabalho de pesquisa é um trabalho de formiga. Ficamos embaixo da terra, lá nos arquivos, atuando no subterrâneo para trazer à tona essas coisas que vão se perdendo. E o que eu digo sempre aos meus alunos é que enquanto nós não pesquisarmos, não escrevermos sobre o que é nosso, não esperemos que os outros façam isso”, pontua.

Aula de pintura oferecida por Homero Massena, em 1952, atraía inúmeros alunos

Além de fornecer um panorama das artes plásticas em Vitória de 1940 a 1969, o livro busca juntar, em suas 473 páginas, as peças do mosaico que é o sistema artístico, composto por instituições, artistas, colecionadores e outros agentes culturais, na tentativa de compreender a configuração da arte no Estado e sua influência sobre o pensamento acadêmico de arte. A professora explica que, apesar de seu livro já conter referências de como o moderno chegou ao Espírito Santo – principalmente a partir da federalização da Ufes (1961) e da vinda de professores de outros estados, como Rio de Janeiro e São Paulo, para o Centro de Artes –, a pesquisa é finalizada em 1969, pois, a partir da década de 1970 começam a surgir movimentos de arte contemporânea no Estado, pela iniciativa individual de alguns jovens, como Atílio Gomes Ferreira, o Nenna, e após a criação da Galeria Homero Massena e de outras galerias ligadas a Ufes, fato que se configura como um novo momento histórico-artístico da região.

Outras publicações Após a publicação do livro Arte no Espírito Santo do Século XIX a Primeira República, a professora Almerinda percebeu que ainda havia inúmeros temas de natureza artística a serem pesquisados, como a fotografia. Desse interesse surgiram mais dois livros: Albert Richard Dietze: um artista fotógrafo do Brasil no século XIX (2004), que conta a história do alemão que inaugurou o primeiro estúdio fotográfico de Vitória, e Memória Aprisionada: a visualidade fotográfica capixaba 1850-1950, publicado pela Edufes em 2007 e que reúne vários fotógrafos que passaram pelo Estado ou estabeleceram seus empreendimentos na Capital e no interior ao longo de 100 anos de história.

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g r adua ç ã o

Buscando

sempre mais O curso de Psicologia é um dos que mais recebem bolsas de estudo para projetos de Iniciação Científica na Universidade

Criado em 1979, o curso de Psicologia da Ufes vem se desenvolvendo e ampliando suas potencialidades nos âmbitos de graduação, mestrado e doutorado com o objetivo de oferecer aos graduandos e pós-graduandos uma formação mais abrangente. Segundo a coordenadora do curso, professora Célia Regina Rangel do Nascimento, entre os cursos vinculados ao Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN), o curso de Psicologia, atualmente composto por 43 professores, é um dos que mais recebem bolsas de estudos para projetos de Iniciação Científica, tendo recebido no último programa ofertado um total de 29 bolsas. A professora Célia explica que o curso de Psicologia tem o objetivo de formar um profissional apto a lidar com as diferentes frentes de trabalho exigidas por sua profissão, tais como a área clínica, a social, do desenvolvimento, da saúde e a educacional. Assim, a integração entre ensino, pesquisa e extensão, aos quais os alunos têm acesso, visa ampliar ainda mais os seus conhecimentos. Stéfane Stolze cursa o oitavo período de Psicologia na Ufes e há quase um ano participa de uma pesquisa em que busca entender quais as dificuldades enfrentadas por trabalhadores de transportes terrestres, como caminhoneiros, motoboys e motoristas de ônibus, e o que os motiva a seguir em sua profissão, a fim de contribuir para uma melhor organização desse trabalho e para a qualidade de vida das pessoas. Além da pesquisa, a estudante atua em outros projetos, entre eles a Rede de Estudos e Pesquisas em Psicologia Social (Redepso) – que visa contribuir para a formação em pesquisa de graduandos e pós-graduandos em Psicologia – e o Programa de Educação Tutorial, o PET-Saúde, parceria entre a Ufes e o Ministério da

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Saúde que reúne estudantes de diferentes cursos para trabalhar em Unidades de Saúde do Estado. “Por que e para que participar? Para vivenciar a prática psicológica ainda enquanto estudante; para poder experimentar os espaços e possibilidades que a Ufes disponibiliza; para ter cada vez mais convicção de que é isso que eu quero e para agregar mais experiência ao meu currículo também. Você se apropria de um conhecimento que é seu e não mais de livros ou professores. É seu porque você vivencia aquilo, você sente medo, excitação, tudo”, descreve Stéfane. Em 1993, vinculado ao Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento (DPSD), foi criado o primeiro mestrado em Psicologia da Ufes. Em 2000, a nova proposta do departamento, dessa vez para o doutorado, também foi aprovada. Seguindo as linhas de pesquisa em Processos Psicossociais, Processos de Desenvolvimento e Psicologia Social e Saúde, até maio de 2013 foram contabilizadas 230 dissertações e 63 teses ligadas ao DPSD. Já o Mestrado em Psicologia Institucional, do Departamento de Psicologia Institucional (DPSI), foi criado em 2005. Com foco na análise teórica e metodológica da Psicologia Institucional, até maio de 2013 o curso apresentou a produção de 66 dissertações. Mudando para melhor Atualmente o curso de Psicologia passa por um processo de implantação do novo Projeto Pedagógico do Curso (PPC), que visa atualizar e modernizar o curso, adequando-o às diretrizes do Ministério da Educação (MEC). Entre as mudanças previstas está a divisão do curso em dois momentos: o primeiro, que se estende até o sétimo período, prevê a aplicação de disciplinas voltadas para a formação inicial dos estudantes. Já no segundo momento, que vai do oitavo ao décimo período, os alunos têm a opção de escolher disciplinas e estágios obrigatórios de acordo com duas Ênfases Curriculares – a ênfase em Investigação e Intervenção em Saúde, Processos Clínicos e Educacionais, do DPSI, e a ênfase em Investigação e Intervenção em Psicologia Social e do Desenvolvimento, do DPSD. Para a professora Célia, a atualização do currículo traz pontos positivos, como o aumento do número de disciplinas optativas (de oito para 16), que dinamizam o curso; a antecipação do contato dos estudantes com o campo de trabalho por meio dos estágios básicos, que têm início no quinto período, e a redução do tempo de integralização do curso, que passa de nove para sete anos e meio, acelerando o processo de abertura de vagas.


patente

Com aroma e sabor de café

Fotos: David Protti

Segundo dados do Ministério da Agricultura, em 2012 a produção de café no Brasil atingiu o montante de 50,8 milhões de sacas de 60 quilos, representando 6,7% de todas as exportações do agronegócio brasileiro. Nesse cenário, conforme as informações do Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Café (Cetcaf), o Espírito Santo é o segundo maior produtor do País, tendo colhido 13,5 milhões de sacas em 2012. Visando a um melhor aproveitamento dessa produção, pesquisadores da Ufes desenvolveram uma bebida fermentada à base da polpa do café, que tem como vantagens a redução de danos ambientais e o benefício econômico dos cafeicultores, que podem ter uma nova fonte de renda. O produto já está em processo de patenteamento. A bebida de cor marrom, com sabor e aroma que lembram o café, é resultado das pesquisas do mestrado em Biotecnologia do professor Filipe Dalla Bernardina, realizado de 2007 a 2009, na Ufes. Sob a orientação da professora do Núcleo de Biotecnologia Ana Cristina do Nascimento Chiaradia, Filipe buscou agregar valor à polpa do café, que muitas vezes é desperdiçada. Isso porque o pó de café consumido pela população é obtido a partir do grão do café torrado e moído. Por não ter um significativo valor de mercado,

essa polpa normalmente é descartada pelos produtores, podendo gerar desequilíbrios ambientais caso seja lançada no ambiente de forma inadequada. Filipe lembra ainda que a proporção entre a produção do grão e a produção da polpa é de um para um, o que significa um desperdício anual de polpas muito grande. “A proposta foi dar um destino adequado a esse produto, aumentar o seu valor agregado e promover uma nova fonte de renda para os cafeicultores. O café que eles colhem agora pode ser aproveitado de forma muito mais integral”, reforça. Por ser fermentada, a bebida possui teor alcoólico (4,7%), mas não pode ser considerada um energético, já que não possui quantidade suficiente de cafeína. Em uma produção em pequena escala, seu tempo de fabricação pode variar de 13 a 15 dias. Após a despolpa úmida, primeira etapa de produção da bebida, a polpa do café é desidratada e armazenada. Em seguida, ela é processada junto à água e passa por uma filtragem. Nesse estágio, são utilizadas leveduras para fermentar o extrato aquoso, convertendo o carboidrato em álcool. Após cerca de 10 dias de fermentação, é feita a pasteurização da bebida (processo utilizado para destruir microorganismos causadores de doenças) e, por último, o seu engarrafamento. UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Maio/Ago 2013

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Extensão

Ler o mundo com

outros olhos Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres:/ Trouxeste a chave?

como programa de extensão da Universidade. A Reler é assessorada por um grupo “observador”, composto pelos professores Maria José Campos Rodrigues e Júlio Francelino Ferreira Filho, ambos do Centro de Educação da Ufes (CE); Alzinete Maria Ronccon, do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE); Aucione das Dores Smarsaro, do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN), e Lúcia Helena Maroto – representante da comunidade externa. É importante lembrar o sentido amplo com que a Reler concebe a leitura. Seja verbal ou visual, a leitura é traduzida como capacidade do ser humano de se situar no mundo, atribuindo sentido aos fatos e à sua própria vida. “A interdisciplinaridade se processa como resultado do próprio conceito ampliado de lei-

Fotos: David Protti

É com o verso Trouxeste a chave? do poema Procura da poesia de Carlos Drummond de Andrade que o professor do Departamento de Línguas e Letras da Ufes Santinho Ferreira de Souza revela a importância da leitura: “com ela, você tem a chave no bolso, a chave para ver o mundo”. O professor é coordenador da Rede de Experiências em Leitura – RELer&fazer –, criada em 1997 para a realização de ações de estímulo à formação de novos leitores, além de buscar uma maior integração entre a Ufes e a escola básica. A RELer&fazer nasceu como forma de contribuir com o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler), desenvolvido em todo o Brasil desde 1992 e vinculado à Fundação Biblioteca Nacional e ao Ministério da Cultura. Em 2007, o projeto foi instituído

Um dos projetos da Rede é o A leitura vai ao cinema que utiliza o Cine Metrópolis para a realização de rodas de conversas com alunos após a exibição de filmes cuja temática seja a leitura

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A professora russa Marina Sheveleva concede entrevista ao coordenador da Rede, professor Santinho Ferreira de Souza, nos estúdios da Rádio Universitária

tura, que não se restringe à escrita. Sempre que se pensa em leitura, pensa-se em literatura ou poema. E, na verdade, a leitura refere-se a tudo, como a circulação de pessoas nas ruas, a arquitetura das cidades, a produção nas artes”, esclarece Santinho. El-Buainin Vieira Machado Nunes participa da RELer&fazer desde 2009. No programa, ele encontrou uma forma de levar seus estudos para além da comunidade acadêmica, o que o motiva a continuar na Reler mesmo após se graduar em Letras-Português. “A leitura é, no meu entendimento, o objeto a ser estudado mais relevante para a educação nacional. Nós brasileiros lemos pouquíssimo. Estou pensando leitura em sentido amplo: leitura como produção de sentidos, leitura crítica, e não leitura como simples decodificação, que é uma prática comum na escola brasileira há muito tempo”, critica. Ações Atualmente a RELer&fazer desenvolve cinco projetos de extensão: • RadioLeitura: programa de rádio veiculado pela Rádio Universitária 104,7 Fm aos domingos, das 9h às 10h. Tem como meta fazer do exercício da leitura uma prática reflexiva a partir de diferentes linhas de ação. • Observatório de leitura: sessões de leitura realizadas no Planetário de Vitória. A proposta é ler textos literários associados à astronomia. • A leitura vai ao cinema: rodas de conversa feitas

no Cine Metrópolis estudantes de escolas públicas do Estado – em especial os de Ensino Médio e Educação para Jovens e Adultos (EJA) –, após a exibição de filmes que tenham a leitura como tema ou que possuam personagens leitores. • A leitura entra na roda: rodas de leitura e discussão de textos que são abertas ao público e acontecem em diferentes espaços da Ufes. • RELer&fazer em fotografia: projeto que visa montar uma galeria de leitura com as fotografias dos eventos promovidos pelo programa de extensão. Integrando Pesquisa e Extensão Em 2012, foi criado o Núcleo de Pesquisa em Leitura, cuja meta é fazer com que os alunos se envolvam paralelamente em projetos de pesquisa e extensão, de modo que ambos se desenvolvam mutuamente. Uma das propostas do Núcleo é envolver estudantes da graduação em Letras e do mestrado em Linguística com os estudos da linha de pesquisa Recortes de Leitura, cuja finalidade é avaliar a argumentação dos personagens leitores tanto da literatura quanto do cinema, além de textos críticos sobre leitura. “Sabemos que há dificuldade não de as pessoas compreenderem que a leitura é importante, mas de entenderem que é preciso ler para saber mais. O livro é importante, mas o essencial é a leitura em processo. Se você deixa se levar não pelo livro, mas pela leitura, aí sim você se constitui leitor”, enfatiza Santinho.

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I NST I T U C I ON A L

Ufes investe 10 vezes mais em

assistência estudantil Fotos: David Protti

A Universidade avança e consolida a sua política de inclusão social, com diversos projetos que contribuem para o bom desempenho e a permanência dos estudantes em seus cursos. Os investimentos em programas de assistência estudantil na Instituição saltaram de R$ 1,4 milhão, em 2008, para R$ 14 milhões em 2012

A

política de assistência estudantil desenvolvida pela Ufes já representa investimentos anuais da ordem de R$ 14 milhões, aplicados em 18 programas permanentes direcionados aos estudantes de todos os cursos e dos quatro campi universitários. Cerca de 3 mil alunos de graduação da Ufes são beneficiados, atualmente, com os projetos de assistência, sob a coordenação da Divisão de Assistência Estudantil (Daes), vinculada à Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas e Assistência Estudantil (Progepaes), criada na atual gestão universitária para atuar no suporte aos estudantes. Os investimentos são provenientes de recursos próprios da Ufes e do Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes) do Ministério da Educação. Para desenvolver esse amplo programa de assistência estudantil, a Progepaes conta com uma complexa estrutura com o objetivo principal de oferecer condições adequadas para que os alunos se mantenham na Universidade até a conclusão de seus cur-

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sos, segundo afirma a administradora Lucia Casate, pró-reitora de Gestão de Pessoas e Assistência Estudantil. “Essa ação propositiva da Administração vai resultar em impactos positivos, como a queda na evasão e a melhoria do desempenho acadêmico, além de oportunizar mais acesso à Universidade”, ressalta. Os programas oferecidos aos estudantes fazem parte de um modelo integrado que reúne diferentes unidades, incluindo os campi de Alegre e São Mateus, no interior do Estado, de acordo com a assistente social Ludimila Rodrigues Nunes, diretora da Daes. Ela explica que há uma integração entre a Daes, o Departamento de Atenção à Saúde (DAS) e o Departamento de Gestão de Restaurantes (DGR) – todos vinculados à Progepaes – além de parcerias com a Biblioteca Central e o Centro de Línguas. A Daes gerencia o cadastro que é aberto anualmente a todos os estudantes, e realizado on-line no portal da assistência estudantil. O critério básico, porém, é que o aluno tenha renda familiar per capita equivalente a 1,5 salário mínimo. Auxílio Ludimila Nunes informa que existem ainda outros critérios para que os estudantes cadastrados sejam inseridos nos diferentes programas, como cumprir carga horária semestral de 240 horas, não ter reprovação por faltas e possuir 75% de aprovação ou coeficiente mínimo de 3,5. “Todo início de semestre, lançamos os editais dos programas, com datas, prazos e a documentação exigida, sendo que a cada ano o aluno beneficiado deve, obrigatoriamente, se recadastrar e atualizar as suas informações”, observa a diretora da Daes. Recebem auxílio de R$ 200,00 os estudantes cadastrados nos programas de auxílio-moradia. O estudante pode ainda receber o auxílio-transporte, equivalente a R$ 50,00, quando residir a mais de três quilômetros do campus universitário onde estuda. Outro auxílio é o de material de consumo, de R$ 59,00, para todos os cadastrados. Para o auxílio-alimentação nos restaurantes universitários são oferecidos descontos de 50% ou isenção total, dependendo de cada caso. Os programas de auxílio mais concedidos são os de transporte, com cerca de 1,8 mil cadastrados, e moradia, com 1,5 mil, aproximadamente. “Somente para os auxílios de natureza pecuniária o custo mensal da Ufes é da ordem de R$ 500 mil”, assinala a diretora da Daes. Entre os outros programas está o de empréstimo estendido de livros. Nesse caso, ao invés do prazo normal de até 15 dias, a Biblioteca Central estende este prazo para até dois meses.

Juntamente com o DAS, são oferecidos os programas de atenção psicossocial, o projeto Sorriso, de atendimento odontológico; e o Saúde da Mulher. Também é oferecido auxílio aos cadastrados para estudos de língua estrangeira no Centro de Línguas para a Comunidade da Ufes. A Universidade oferece ainda subsídios para os estudantes que, comprovadamente, forem apresentar trabalhos acadêmicos em eventos fora do Espírito Santo. Este depende de aprovação dos respectivos centros de ensino. Ludimila Nunes também adianta que a Ufes aderiu ao programa do MEC para a oferta de bolsa permanência para estudantes de baixa renda. “Temos meios eficazes de suporte ao estudante” A pró-reitora de Gestão de Pessoas e Assistência Estudantil, Lucia Casate, diz que a Administração Central da Ufes está empenhada na consolidação do Sistema de Inclusão Social. Ela observa que a atual gestão criou a Progepaes visando estruturar diversos programas para serem desenvolvidos com recursos próprios da Universidade e em parceria com o MEC, por meio do Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes). Segundo ela, com o foco na assistência estudantil, a Progepaes trabalha para a ampliação e democratização das condições de acesso e permanência dos estudantes na Universidade. As atividades da Progepaes nesta área, segundo a pró-reitora, objetiva assistir todos os estudantes, de todos os cursos, notadamente os de baixa renda e os ingressantes pelo sistema de reserva de vagas. “Para consolidar o modelo de inclusão social na Ufes, temos, atualmente, meios eficazes de suporte ao estudante, por meio de diversos programas, para que obtenham bom desempenho acadêmico e permaneçam na Instituição”, assinala. “Mas a meta da Ufes é o aprimoramento do sistema”, destaca.

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I NST I T U C I ON A L

Programas de assistência • Auxílio-moradia – Apoio financeiro para atender nas despesas com moradia, e concedido a estudantes cuja família resida fora da Grande Vitória.

• Auxílio-material de consumo – Oferece apoio financeiro ao estudante para aquisição de material de uso didático.

• Auxílio-transporte – Concessão de auxílio financeiro para a compra de passe escolar para deslocamento do estudante até a Universidade.

• Língua estrangeira – Oferece bolsas de estudos de língua estrangeira no Centro de Línguas para a Comunidade (CLC/Ufes) por um período de até seis semestres.

• Auxílio-alimentação – Concessão de descontos de 50% ou 100% no valor da refeição do Restaurante Universitário aos estudantes cadastrados.

Fotos: David Protti

• Recepção ao calouro – No início de cada semestre, são realizados seminários informativos com os calouros, em que são apresentados os projetos e as ações desenvolvidas, e divulgados os critérios para inserção no Programa de Assistência Estudantil. • Reforço e acompanhamento escolar – O projeto objetiva contribuir para a melhoria do desempenho acadêmico dos estudantes matriculados em disciplinas da área das ciências exatas, por meio de aulas de monitoria realizadas em horários alternativos. Atualmente são ofertadas turmas de Álgebra Linear, Cálculo I e Matemática Básica. • Inclusão de pessoa com deficiência – Garantir ao estudante com deficiência condições específicas que permitam o acompanhamento das atividades de ensino, pesquisa e extensão. Além dos projetos desenvolvidos pela DAE, outras ações são desenvolvidas em parceria com diferentes setores da Ufes. • Empréstimo estendido de livros – Garantir ao estudante cadastrado no Programa de Assistência Estudantil o empréstimo de até três livros nas bibliotecas da Ufes por um período estendido de até dois meses. • Saúde da mulher – Objetiva promover ações educativas, oferecer consultas ginecológicas e realizar exames que propiciem a prevenção e/ou descoberta de doenças pertinentes à saúde da mulher. • Projeto Sorriso (Odontologia) – Objetiva melhorar a saúde bucal dos estudantes por meio de ações educativas e atendimento odontológico no que se refere à profilaxia. Para participar, o estudante deve se inscrever em ações educativas no Portal do Aluno.

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• Atenção psicossocial – Atendimento psicológico e social aos estudantes, mediante agendamento na DAE e no DAS. • Plantão psicológico – Tem por objetivo ser um atendimento pontual, que atenda servidores e estudantes da Ufes no momento em que estiverem necessitando, sendo um espaço de escuta e encaminhamentos. Para participar, não é necessário agendamento, e o atendimento ocorre por ordem de chegada, nos seguintes dias e horários: terças e quintas-feiras, das 8h às 16h, no prédio do DAS/ Progepaes – antiga SAC. • Serviço médico – Atendimento médico aos estudantes em casos de intercorrência que exige procedimentos simples. Em casos mais complexos, o Samu é acionado. Atendimento psiquiátrico por meio de agendamento. • Acolhida aos calouros – Consiste na realização de palestras sobre diversos assuntos para os

estudantes calouros no Programa de Assistência Estudantil (Proaes), promovendo discussões sobre a realidade da Universidade e do mundo, por meio de debates e atividades culturais. • Atividade física – Este projeto objetiva garantir ao estudante vagas gratuitas na academia vinculada ao Centro de Educação Física e Desportos para a prática de exercícios físicos. • Participação em eventos – Destinado aos estudantes que necessitarem de apoio para participar de atividades/eventos de caráter técnico-científico, didático-pedagógico (acadêmico), esportivo e cultural. • NaUfes – O Núcleo de Acessibilidade da Ufes (NaUfes) visa desenvolver ações permanentes de extensão, projetos de pesquisa, estudos, intercâmbios, cooperações técnico-científicas voltadas para a melhoria das condições das pessoas com deficiência no espaço universitário. UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Maio/Ago 2013

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Marca de conhecimento Desde 1995, a Edufes imprime sua marca na difusão do conhecimento acadêmico e na valorização da produção literária. Agora, traz também em versão digital parte do seu catálogo de livros. Confira em http://repositorio.ufes.br

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Raphael Samú - Matéria de Sonho III - Mista s/ papel 1977, de 69,5 x 41,5 cm. Nº de tombamento 205.I.198 Acervo da Universidade Federal do Espírito Santo na Galeria de Arte Espaço Universitário

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Revista Universidade | n° 02  

Revista de Jornalismo Científico, Cultura, Variedades produzida pela Superintendênica de Cultura e Comunicação da Universidade Federal do E...

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