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Ponto de encontro Em sua primeira edição a revista Eco traz matéria sobre área verde da UENF na sessão Ciência Aberta

Visão

Lílian Bahia: extensão pode ser diferencial na pesquisa

Contraponto

Articulistas debatem o tema Porto do Açu


O grande encontro A revista ECO – Extensão & Comunidade veio para intensificar a disseminação do conhecimento acadêmico. Ao dar ampla visibilidade a projetos de extensão, a publicação pretende oferecer aos gestores públicos e à sociedade em geral subsídios para a elaboração ou o aperfeiçoamento de políticas públicas. Extensão não tem parentesco com assistência social, que, embora necessária, foge à missão das universidades. Extensão é produção compartilhada de conhecimento, envolvendo a comunidade acadêmica e outros segmentos da sociedade. Claro que um processo como este gera ganhos para os dois lados. Na universidade, as equipes assimilam saberes não acadêmicos e podem repensar sua pauta de pesquisas. Do lado dos parceiros, o processo faz o conhecimento circular e provocar mudanças em produtos ou processos. A boa extensão leva à boa pesquisa e viceversa, numa dinâmica de mão dupla que torna fecundo o conhecimento. Nesta primeira edição, privilegiamos projetos que se aproximam desse ideal da extensão universitária. Por exem­ plo, até que ponto a Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Populares (ITEP/UENF) conseguiu avançar no desafio de fomentar uma cultura de economia solidária em Campos dos Goytacazes? Todos dizem que somos muito individualistas e pouco cooperativos, mas o que está sendo feito para mudar este cenário? Outra reportagem convida o leitor a um mergulho no ambiente da educação de jovens e adultos (EJA) para investigar o que leva os alunos a não abandonar a escola mesmo diante de todas as dificuldades. Além de várias outras matérias, todas reunidas na seção Ciência Aberta, ECO traz a seção Contraponto com dois artigos sobre as perspectivas do Norte Fluminense após o início de operações dos Complexos do Açu e de Barra do Furado. Sob diferentes pontos de vista, o sociólogo José Luís Vianna da Cruz, da UFF, e o engenheiro Ronaldo Paranhos, diretor da Agência UENF de Inovação, refletem sobre o que pode estar por vir. Na parte intitulada Visão, trazemos a entrevista com a professora Lílian Bahia, que atuou como pró-reitora de Extensão no período 2003/2007 e liderou um processo de fortalecimento da área que dá frutos até hoje. E a matéria de capa mostra o campus Leonel Brizola como espaço perfeito para abrigar os encontros que geram as trocas próprias da extensão universitária. Em breve, ECO terá uma versão eletrônica que vai facilitar a interação com nossos leitores. Espero que faça uma boa leitura! Paulo Roberto Nagipe da Silva Pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UENF


Expediente Governador do Estado Sérgio Cabral Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia Gustavo Reis Ferreira Reitor Silvério de Paiva Freitas

NESTA EDIÇÃO

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Vice-reitor Edson Corrêa da Silva Diretor do CBB Gonçalo Apolinário de Souza Filho Diretor do CCT Edmilson José Maria Diretor do CCH Sérgio Arruda de Moura Diretor do CCTA Henrique Duarte Vieira Diretor de Informação e Comunicação Vanildo Silveira Gerência de Comunicação (ASCOM): Fúlvia D’Alessandri e Gustavo Smiderle (jornalistas responsáveis) Alexsandro Cordeiro, Felipe Moussallem, Lara Tavares e Marcus Cunha, (projeto gráfico)

Em defesa dos peixes

‘Extensão pode ser diferencial na pesquisa’ Entrevista/Lilian Bahia

Café com Ciência

Os bastidores do mundo da pesquisa

UENF/Projeto Piabanha

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acadêmica

Tecnologias nos assentamentos

18 19 20 24 “Cenário regional sem paixões”

“Desenvolvimento Sustentável”

José Luis Vianna da Cruz

Lara Tavares (bolsista Universidade Aberta – diagramação) Mariane Pessanha (bolsista Universidade Aberta – jornalismo) Jorge Heleno da Silva (bolsista de Extensão) Carolina Seabra (bolsista de Extensão)

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Ediçao 1

Ronaldo Paranhos

Ponto de Encontro: ilha verde em meio à selva urbana

EJA: Por que permanecer na escola?

26 28 31 Incubando

Dengue: Há mais para

uma nova visão

conhecer

Itep/Economia Solidária

Escola de Extensão já é realidade


ho


rizonte em expansão

O Programa federal “Ciência sem fronteiras” contemplou a UENF com uma cota de 30 bolsas de estudo no exterior. Doze alunos estão fazendo intercâmbio em conceituadas universidades norte-americanas, europeias e australianas. Outros 7 estudantes da licenciatura em Física estão na Universidade de Coimbra, em Portugal.

Acesse nosso Site e saiba mais sobre o programa “Ciência sem fronteiras”

www.uenf.br


VISÃO

‘Extensão pode ser diferencial na pesquisa’ Embora o entendimento sobre a importância da extensão universitária venha crescendo muito nos últimos anos, a área ainda é considerada de menor prioridade dentro das universidades. A opinião é da professora Lílian Bahia, que atuou como pró-reitora de Extensão e Assuntos Comunitários da UENF de 2003 a 2007 — período em que a área iniciou um grande crescimento. Para ela, a resistência que ainda existe em relação à extensão se deve “à falta de tempo dos professores para estudar a proposta da extensão e melhor entendê-la”. Ela garante que, quando realizada de forma integrada à pesquisa, a extensão pode ser um “diferencial” na qualidade dos resultados. Veja a entrevista concedida por Lílian à Revista ECO – Extensão e Comunidade.

ECO - O princípio da ‘indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão’ está expresso na Constituição Brasileira. Até que ponto isso vem se confirmando na prática? Lilian - As universidades brasileiras, em especial as universidades públicas, têm trabalhado, por meio do Fórum de Pró-Reitores de Extensão, para tentar fazer com que este princípio da extensão universitária seja otimizado na prática. Esta é uma questão que requer muito investimento ainda, mas que está caminhando. Investimento político nas universidades e também financeiro por parte das próprias

universidades no seu planejamento e por parte das agências de fomento. No Rio, por exemplo, a Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) já lançou dois editais específicos para financiar projetos de extensão. Hoje esta questão está bem melhor que há cinco anos, por exemplo.

ECO - Assim como ocorre em outras universidades, a área de extensão levou mais tempo para se consolidar na UENF. A Pró-Reitoria de Extensão só foi criada em 1999 — seis anos após a fundação da Universidade. Ainda prepondera, no meio acadêmico, a mentalidade segundo a qual a Extensão tem menos importância que o Ensino e a Pesquisa? Lilian - Acredito que sim, pelo menos em termos de prioridade em relação às ou terceira prioridade para a maioria dos docentes. Temos hoje mais de 100 projetarefas das pessoas que atuam na universidade. A extensão entra como segunda tos de extensão em atividade na UENF.

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ECO - Sabemos que o maior boom da Extensão na UENF ocorreu durante a sua gestão como pró-reitora, em 2003-2006. Como você conseguiu isto? Lilian - Na verdade foi um feliz encontro do meu entusiasmo e do entusiasmo Extensão. Quando trabalhamos com entusiasmo temos maiores chances de êxito, de pessoas competentes ao meu redor, tanto na PROEX quanto na Câmara de acredito.

ECO - Ainda há muita controvérsia em relação ao verdadeiro papel da Extensão Universitária. Na sua opinião, qual a melhor definição para esta área acadêmica? Lilian - Acredito que a melhor definição seja aquela que podemos extrair do texto da Constituição brasileira sobre a Extensão Universitária e também do Fórum de Pró-Reitores de Extensão das universidades públicas brasileiras, ou seja, a extensão é a atividade educacional que permite a interação da universidade com a comunidade ao seu redor. Ela é dinâmica e diz respeito ao presente, assim como a Educação classicamente diz respeito ao passado, e a pesquisa ao futuro. O professor Francisco de Sá Barreto, ex-reitor da UFMG, disse o seguinte sobre a extensão:

“a extensão é a atividade voltada para o presente. A extensão é parte do processo educacional, tendo como força indutora e motivadora as questões imediatas e mais relevantes demandadas pela sociedade”. Eu concordo com ele; existem muitas formas de se fazer extensão universitária. Desde cursos, palestras, até projetos com produção de conhecimento, assim como na pesquisa, porém com metodologia adequada à atividade de Extensão.

ECO - Os projetos de extensão desenvolvidos pela UENF propiciam um relacionamento maior com a comunidade local. De que forma esta proximidade pode ser útil no desenvolvimento da nossa região? Lilian - Esta proximidade é a meu ver estratégica para ambos, comunidade e universidade. É uma parceria sem riscos de equívocos e erros no desenvolvimento mútuo da UENF e da região. Foi assim a proposta do Darcy Ribeiro, embora ele não falasse na questão da extensão universitária como estamos falando agora. No

entanto, o desenvolvimento integrado à região que ele preconizou, movido pela UENF, tem como ferramenta de articulação a extensão universitária, ou seja, a extensão como está concebida na Constituição brasileira e no Fórum de pró-reitores de Extensão da universidades públicas brasileiras.

EC0 - Existe ainda muita resistência, por parte dos pesquisadores, em atuar em atividades de extensão? Na sua opinião, por que isso acontece? Lilian - Existe alguma resistência, mas bem menos que no passado recente. São de que é possível fazer extensão sem ter que trabalhar em paralelo. Ele pode atuar várias questões, acredito, que podem explicar esta resistência, dentre elas a falta de forma integrada, na extensão e na pesquisa. E isso pode dar a ele, professor, um de tempo do professor para estudar um pouco a proposta da extensão universi- diferencial na qualidade (para mais, às vezes muito mais) da sua pesquisa. tária com o objetivo de melhor entendê-la. Assim, ele poderá chegar à conclusão

ECO - Quais as principais dificuldades existentes para a ampliação das atividades de extensão? Lilian - Acredito que uma das dificuldades do professor está na organização do quisa. No entanto, isso é perfeitamente possível e pode ser extremamente gratitempo, de forma a permitir-se parar e estudar um pouco a extensão e também, ficante. estrategicamente, integrá-la aos seu trabalho, tanto de docência quanto de pes-

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Ciência Aberta

Em parceria com projeto Piabanha, UENF realiza projeto visando à conservação de espécies ameaçadas de extinção

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á cerca de 12 anos, em uma das salas do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA) da UENF, um encontro entre um pescador amador e dois biólogos — o professor Dálcio Ricardo Andrade, do Laboratório de Zootecnia e Nutrição Animal (LZNA), e o doutorando Guilherme de Souza, do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA), da UENF — deu início a um grande projeto ambiental: o Piabanha, que tem sede em Itaocara e visa à conservação de espécies de peixes de água doce ameaçadas de extinção. Em parceria com o CCTA, desde novembro do ano passado o Piabanha vem tocando o projeto de extensão “A pesquisa científica e a educação ambiental como ferramentas para a conservação dos estoques pesqueiros dos cursos médio, inferior e baixo Paraíba do Sul”, coordenado pelo professor Dálcio. — A premissa básica do projeto é unir o estudo ambiental relacionado ao rio Paraíba do Sul e a divulgação científica. Os agentes multiplicadores das informações são alunos de graduação em Biologia do Cederj (Consórcio das universidades públicas do Estado do Rio que oferecem cursos a distância) — explica Guilherme . Segundo Dálcio, os estoques pesqueiros da

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região estão classificados como “muito ruins”. Além dos últimos acidentes ambientais ocorridos no rio Paraíba que reduziram bastante as espécies de peixes no local, também falta conscientização da população e dos gestores de políticas públicas no que se refere ao despejo de esgoto in natura nos rios que compõem a Bacia do Paraíba. Isso sem falar na utilização do rio como depósito de lixo — já foram encontrados sofás, colchões e até geladeiras dentro do Paraíba. — Com educação ambiental é possível melhorar esse quadro. Temos visto exemplos de pescadores que realizavam a pesca predatória e hoje são nossos parceiros, ajudando a conscientizar a comunidade a evitar a pesca predatória — conta. A aprovação do projeto no último Edital de Bolsas para Programas e Projetos de Extensão da UENF permitiu a contratação de três bolsistas, que estão aprendendo na prática como são feitas as reproduções induzidas dos peixes, dentro do Projeto Piabanha, bem como informações sobre os seus ciclos de vida. Posteriormente, este conhecimento será disseminado para a comunidade. A ideia é que os bolsistas, sob orientação de Dálcio e Guilherme, conheçam os peixes e as ações ambientais que o projeto vem desenvolvendo.


‘Zoológico’ — Vamos agendar visitas de escolas ao projeto para que as crianças possam conhecer melhor a vida aquática de sua região e, dessa forma, aprendam a conservá-la. Queremos formar pessoas capacitadas e colocar tudo isso em prática até 2013 — relata Dálcio. Segundo o professor, a meta é envolver cada vez mais pessoas no projeto, além de instituições de pesquisa e universidades. — É necessário que as pessoas sintam essa necessidade de mudar. Não podemos nos acomodar nunca. Temos que juntar forças e dedicação — finaliza. Um zoológico de espécies ameaçadas. Desta forma Guilherme descreve uma das atividades do Piabanha: a formação de um banco ex-situ (fora do lugar de origem) de espécies de peixes ameaçadas de extinção no rio Paraíba do Sul. Ele explica que os alunos participarão das campanhas de campo ajudando a capturar os peixes no ambiente natural, com a anuência do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Chico Mendes de Conservação da

peixes

Fotos: Felipe Moussallem / Alex de Azevedo

só para

Biodiversidade (ICMBio). Uma vez capturados, os peixes serão conduzidos até o Projeto Piabanha, onde serão armazenados, vivos, em tanques apropriados. No Projeto Piabanha os peixes receberão um transponder, chip eletrônico(Foto 1),

Foto 3

Foto 1

Foto 2

que será introduzido no dorsos dos peixes (Foto 2). — Esse transponder permitirá que o pesquisador, utilizando um leitor apropriado, saiba o histórico do animal (data e local da coleta) . Além disso, um pedaço da nadadeira do peixe será cortado, colocado num tubo com etanol e enviado para a universidade de Mogi das Cruzes, parceira do projeto, objetivando formar um Banco de Tecidos. Este trabalho é coordenado pelo Dr. Alexandre Wagner Hilsdorf — diz Guilherme, observando que, dessa forma, será possível fazer o sequenciamento genético da espécie. Como o Projeto Piabanha preconiza trabalhos futuros com reforço do estoque pesqueiro (repovoamento), ele acredita que tal linha de pesquisa será de suma importância para garantir maior variabilidade genética e reduzir o parentesco na hora da reprodução artificial (Foto 3). Outra linha de pesquisa que os bolsistas estarão participando é a do monitoramento da ictiofauna do rio Paraíba do Sul. — O Paraíba ainda é uma lacuna de conhecimentos. Com essa pesquisa queremos descobrir como estão as populações de peixes que povoam esse rio — informa Guilherme.

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Foto: Alex de Azevedo

aprendendo com a

prática

“Eu segurei a bacia durante a liberação do ovócito. Foi incrível! Uma experiência emocionante.” Com essas palavras, a estudante bolsista Damaris Cabral descreve a primeira vez que participou de uma reprodução induzida ocorrida no projeto. Ela conta que tudo ainda é muito novo e que está encantada com as tecnologias e com a oportunidade de ver as coisas acontecer. — Tudo isso aqui abre caminhos para os bolsistas. A gente aprende na prática e com certeza vai sair daqui muito mais capacitado. Meu trabalho é

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diário. Eu analiso o plâncton, observo o oxigênio da água, passo a rede nos tanques para saber o tipo de peixe que esta lá, o tamanho e o seu desenvolvimento. E estudo muito também. Resumindo, é uma reeducação o que estou tendo aqui — diz. Além da UENF, o Projeto Piabanha possui convênios e apoios das seguintes instituições : Grupo MPE, Pesagro-Rio, Cepta/ICMBio, Instituto Terra, UPEA/ IFF, Ecoanzol, Faculdade Redentor, Inea, Cesp, Ashoka Empreendedores Sociais e Universidade de Mogi das Cruzes.


P

UENF promove encontros entre cientistas e jornalistas para revelar os bastidores do mundo da pesquisa acadêmica

esquisadores do Centro de Ciência e Tecnologia da UENF (CCT) foram os primeiros a participar de um projeto que pretende mostrar por dentro o mundo dos laboratórios. Inaugurado em 15 de outubro, o Café com Ciência reuniu pesquisadores e jornalistas de diferentes veículos, incluindo mídia impressa, online e televisão. O objetivo do projeto, que se realizará uma vez por mês, é aproximar jornalistas e cientistas e assim mostrar ao cidadão comum os bastidores da produção científica brasileira. O tema do evento inaugural foi “A Física que você vê, do petróleo à arqueologia: aplicações da Ressonância Magnética Eletrônica e da Fototérmica”. Por trás do nome extenso e entremeado por termos técnicos estão estudos envolvendo áreas como investigações de petróleo no pré e no pós-sal, informações sobre peças arqueológicas de Campos dos Goytacazes (RJ), propriedades de biocombustíveis e detecção de gases poluentes na atmosfera, entre várias outras (veja box). A primeira parte do encontro — o café propriamente dito — se realizou na área externa da Gerência de Comunicação (ASCOM) da UENF. Recebidos pelo reitor em exercício, Edson Corrêa da Silva (por coincidência, um físico), os jornalistas tiveram a oportunidade de uma primeira aproximação com o grupo dos cientistas. Num segundo momento, a comitiva se deslocou até o prédio anexo ao Centro de Ciência e Tecnologia (CCT), onde funcionam as áreas experimentais do Laboratório de Ciências Físicas. Ali, cada pesquisador apresentou brevemente aos jornalistas suas linhas de pesquisa. O primeiro a falar foi Helion Vargas, um dos

cientistas mais renomados da UENF e membro titular da Academia Brasileira de Ciências. Com a autoridade de quem foi pioneiro no Brasil na área, Helion explicou em rápidas palavras algumas das aplicações das técnicas fototérmicas. Elas são capazes de produzir e detectar ondas térmicas (de calor) em uma amostra, a partir de absorção de radiação (luz, raios-X, micro-ondas etc.). Com isso se obtêm informações sobre determinadas propriedades da amostra. É o que pesquisadores da UENF têm feito, por exemplo, com amostras de mamão em estudos que buscam retardar o amadurecimento e aumentar o tempo de prateleira do produto. Também Edson Corrêa da Silva, já na condição de pesquisador e não de reitor em exercício, apresentou um sumário de aplicações da Ressonância Magnética Eletrônica (RME). As técnicas da ressonância magnética (eletrônica e nuclear) observam as respostas de materiais e/ou sistemas à aplicação de campos magnéticos e radiação. Dessas respostas tiram informações sobre o comportamento dos materiais e/ou sistemas. Por exemplo, imagens do corpo para diagnósticos médicos são obtidas por ressonância magnética nuclear. As técnicas aplicam-se a materiais cerâmicos, polímeros, metais, alimentos, dispositivos eletrônicos, rochas e solos, entre outros. Édson também está entre os pesquisadores mais experimentados da UENF, tendo realizado estudos e publicado artigo científico em conjunto com um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Física de 2007, o alemão Peter Gruenberg. Seguiram-se outros pesquisadores, como Roberto Franco, Maria Priscila Pessanha de Castro e Marcelo Gomes da Silva, todos do Laboratório de Ciências Físicas da UENF.

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Mais aproximação com a

CIENTISTAS E

Na primeira edição do Café com Ciência, os jornalistas estiveram com cientistas que estudam aplicações muito variadas das técnicas fototérmicas e de Ressonância Magnética Eletrônica. Além dos estudos com materiais de interesse arqueológico, biocombustíveis e gases poluentes, a gama de pesquisas inclui temas como café e alimentos pastosos (margarina, óleos e gorduras livres de isômero trans), adulteração de gasolina, caracterização de ecossistemas costeiros, estudos de solos argilosos e rejeitos cerâmicos de louças, filmes finos magnéticos potencialmente utilizáveis em dispositivos como memórias e sensores e ainda estudos sobre vidros especiais dopados com íons de transição e terras raras. O Café com Ciência faz parte de um conjunto de iniciativas da área de Comunicação da UENF voltadas para estreitar a aproximação entre a comunidade científica e a sociedade de modo mais amplo. Em novembro de 2011, por exemplo, foi lançado o Blog

Ciência UENF (http://uenfciencia.blogspot. com.br/), dedicado a apresentar temas científicos em linguagem coloquial e que acumula cerca de 90 mil acessos. Já em 2012, com bolsas do programa de extensão “Universidade Aberta”, começou o projeto Aprenda mais conhecendo a UENF, com visitas guiadas de estudantes ao campus. Finalmente, a própria revista ECO é outra iniciativa de aproximação. A ideia do projeto é começar o encontro com um bate-papo descontraído ao redor de uma boa mesa de café da manhã, reunindo cientistas e jornalistas. Os pesquisadores são convidados conforme o tema escolhido, e os jornalistas são representantes dos mais variados perfis de veículos de Campos e região. — A Universidade é uma instituição pública, mantida pela sociedade. Por isso ela amplia suas formas de comunicação aprimorando sua capacidade de identificar as demandas da sociedade e dar as respostas ou as soluções devidas – diz o vice-reitor Edson Corrêa da Silva.

“A Universidade amplia suas formas de comunicação aprimorando sua capacidade de identificar as demandas da sociedade e dar as respostas ou as soluções devidas” (Edson Corrêa da Silva, vice-reitor da UENF) 12

Foto: Alex de Azevedo

sociedade


O desafio de falar a mesma

JORNALISTAS

língua

modo que um entenda a dinâmica do trabalho do outro – diz a jornalista Fúlvia D’Alessandri, gerente de Comunicação da UENF. De fato, um dos primeiros obstáculos a serem removidos quando se quer ampliar a cultura científica da população é a diferença de linguagem e de perspectiva verificada entre profissionais de comunicação e homens de ciência. Levados pelo interesse de seus leitores e expectadores, jornalistas costumam ter pressa na busca de matérias “quentes”, impactantes e se possível bem simples de entender. Para os cientistas, a abordagem de qualquer tema é sempre mais complexa e sujeita aos limites de suas metodologias, sem falar que o horizonte de tempo é sempre muito mais longo.

Foto: Alex de Azevedo

Quando se trata de pesquisas aplicadas, a utilidade dos estudos é mais facilmente percebida pelo cidadão não especializado. Mas não acontece o mesmo quando se relatam estudos que ampliam as fronteiras da ciência e dão suporte a futuras pesquisas aplicadas, gerando benefícios impossíveis de serem previstos de antemão. Esta é uma das áreas de maior dificuldade na interação entre cientistas e jornalistas e se fez presente no encontro realizado pela UENF. Em dado momento, uma jornalista perguntou: “Professor, para que serve essa sua pesquisa?” - Aquele foi o momento crucial do exercício que pretendemos empreender com este projeto: encontrarmos juntos uma linguagem que faça acontecer o diálogo entre cientistas e jornalistas, de

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Agroecologia e segurança alimentar

U

ma mistura de cinza e húmus de minhoca, pulverizada nas plantas e capaz de aumentar a produção de alimentos como tomate e laranja em até 65%. Conhecida como chá de húmus, essa é apenas uma das tecnologias desenvolvidas através do projeto “Agroecologia e Segurança Alimentar - Produção de Alimentos com qualidade nos assentamentos de reforma agrária do Norte Fluminense,” coordenado pelo professor Luciano Canellas e desenvolvida no Núcleo de Desenvolvimento de Insumos Biológicos para Agricultura (Nudiba). O projeto começou com um diagnóstico da agricultura desenvolvida através da reforma agrária nos assentamentos da região. Nesse levantamento da UENF, uma das descobertas foi que os produtores rurais que ocupavam a terra tinham a tendência a ocupar o espaço com a monocultura da cana ou com a criação de gado.  Através do projeto, os agricultores aprendem a diversificar as culturas e evitam o desgaste do solo. Luciano explica que esta não é uma ação focada em um objetivo apenas. A meta é muito mais ambiciosa: tornar o  agricultor o sujeito de sua produção, a partir do aumento da sua capacidade produção e utilização de novas tecnologias.  — O uso de tecnologias é importante para eles. O chá de húmus é um bom exemplo, porque o ganho que ele confere à produção faz uma grande diferença para uma família que vive na miséria. Isso contribui para o reforço da segurança alimentar. Os pequenos ganhos com a produtividade incrementam a economia, e isso repercute bastante na comunidade — explica Canellas.  Mas levantar as necessidades dos agricultores e desenvolver tecnologias adequadas não é um trabalho fácil. Os técnicos chegam a ficar 15 dias morando com os agricultores com o objetivo de vivenciar a sua realidade . Depois, as dificuldades são levadas até a Universidade, onde são buscadas soluções. O professor conta que mui-

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tas vezes as demandas dos agricultores acabam se transformando em pesquisas. Um exemplo foi o questionamento sobre o tempo que as minhocas deveriam ficar no minhocário para o chá funcionar. A pesquisa, que envolve técnicos da Embrapa e pesquisadores de uma universidade de Cuba, foi publicada na revista Plant and Soil. O projeto tem duração de oito anos e já está na metade de seu desenvolvimento. Três bolsistas atuam no projeto, que atende a cerca de 500 agricultores em oito áreas da região. Nas ações de campo, os agricultores são capacitados e aprendem técnicas como a produção de adubos e outras tecnologias. Outra vertente importante do projeto é que os próprios agricultores fazem seus mapas e nele especificam o tipo e o reconhecimento do solo, além da potencialização de produtos. É como se fosse um raio-x da terra. “É um trabalho do saber regional”, exemplifica o professor. Além do trabalho com os agricultores, há também a preocupação com a formação dos técnicos. Canellas explica que os bolsistas são formados duas vezes porque, além dos ensinamentos normais, ainda se qualificam nos trabalhos de extensão. — A formação de um técnico que vai trabalhar com a agricultura é completamente diferente,  porque ele é socialmente comprometido com as mudanças no campo, nos moldes que a ação diferenciada requer. Na verdade é uma troca muito grande de informações. A gente aprende com o homem do campo e ele conosco — diz Canellas, acrescentando que há na região muitas terras que sofrem com a erosão, pouco férteis por causa do mau uso e bastante castigadas pela monocultura. E é nessa paisagem que ele quer trabalhar, com uma ação integrada capaz de estimular o plantio e fazer com que os agricultores possam produzir insumos para ter uma agricultura ecológica.


Assentamento utiliza tecnologias Foto: Alex de Azevedo

Produção - Além do desenvolvimento de tecnologias, o projeto se preocupa com a comercialização da produção. Canellas explica que há na região cerca de 3 mil assentados e muitos têm problemas para escoar o que produzem. Um ponto positivo é que as prefeituras de Campos e São João da Barra irão adquirir 30% do que é produzido para ser utilizado na merenda escolar.

No momento da impressão desta edição, fomos surpreendidos com o assassinato do agricultor Cícero Guedes dos Santos (foto), entrevistado na matéria ao lado. Em sua homenagem, fazemos o registro preservando a íntegra do texto original, que revela claramente a contribuição do agricultor à causa da agroecologia.

Com dez hectares e meio de terra ocupados com 225 pés de cítricos, Cícero Guedes dos Santos é um dos agricultores do Zumbi I — um dos maiores assentamentos do Note Fluminense beneficiados com as tecnologias do projeto do professor Luciano Canellas. Ele utiliza o chá de húmus nas laranjeiras e diz que já sentiu diferença em sua produção. Cícero não sabe precisar em números, porque os pés de laranja ainda terão sua primeira produção, mas garante que já dá para perceber mudanças. Uma delas é que a planta cresce mais rápido. Segundo Cícero, não é apenas o chá de húmus que ajuda a melhorar a produção. Através do projeto, ele aprendeu a cuidar das plantas sem utilizar produtos químicos e agrotóxicos. Um bom exemplo é a urina de bovinos, que ele usa para evitar que as folhas das laranjeiras fiquem negras por causa da ação de pragas. Outro ensinamento que veio através do projeto foi a diversificação de culturas. No sítio há coco, abóbora e banana. — A diversificação é importante porque, se a gente fizer o plantio de uma cultura apenas, perdemos tempo e dinheiro — explica Cícero.

Mas não foi só isso que ele aprendeu. O agricultor diz que, quando chegou ao sítio — que batizou com o nome de “Brava Gente”—, não se ouvia sequer o canto dos pássaros. Isso porque a terra foi ocupada por muitos anos com a monocultura da cana-de-açúcar, o que deteriorou o solo e afugentou os animais. Hoje, canto de pássaros é o que mais se ouve no local, que conta com a cerca viva de uma árvore de origem nordestina denominada sabiá. Cícero conta que uma vez por ano distribui entre os vizinhos cerca de 30 quilos de sementes de sabiá. — Acho importante ter essa consciência ecológica de que precisamos de árvores, de animais habitando nossas terras. A cada três ou quatro anos eu retiro mourões das árvores e posso utilizá-los na fabricação de cabos de enxadas e foices. Desde que eu comecei esse plantio nunca mais comprei madeira. Além de ajudar a natureza eu ainda economizo e não há nada melhor que essa união — finaliza Cícero, que há 15 anos saiu do Nordeste, veio para Campos, trabalhou na construção da UENF e viu na reforma agrária a chance de mudar de vida.

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Contraponto

Cenário regional,

sem paixões Segundo o grupo EBX, o Complexo do Açu, em São João da Barra (RJ), tem como âncoras um porto de exportação e importação de minério e de embarque e desembarque de petróleo e gás. Acoplado ao porto haverá unidade de beneficiamento de petróleo, estaleiro e infraestrutura de logística e energia. Enquanto projeto, pretende gerar um parque industrial incluindo siderúrgica e complexo metal-mecânico, estruturas metálicas, insumos para construção civil e outros. Tem reservada área equivalente a cerca de 1/3 do município. Já o Complexo Farol/Barra do Furado deverá ter, na margem de Quissamã (RJ), um estaleiro de reparos e manutenção de embarcações e, do lado campista, uma base de serviços de logística e de apoio marítimo. Ambos estarão vinculados às atividades offshore do Complexo E&P e dispõem de áreas para crescer. Os dois complexos têm na economia do petróleo e gás uma das suas principais âncoras, o que reforça a tendência ao monopólio desse complexo sobre as atividades econômicas regionais. Com dimensões de megaempreendimento, o Complexo do Açu pode vir a desencadear a tão esperada industrialização da

região. Tudo isso aponta para grande expansão do mercado de trabalho e das oportunidades de integração dos negócios locais/regionais nos dois complexos, bem como para um novo impulso na estrutura de educação/formação/qualificação local e regional. Na perspectiva convencional, todos estes são aspectos positivos. Mas há vários pontos preocupantes: elevação especulativa dos preços da terra e dos imóveis; destruição de atividades econômicas pré-existentes; inibição de atividades independentes; e pressão descomunal sobre a infraestrutura urbana, pública, social e coletiva em vista da imigração avassaladora. Os impactos se ampliarão pelo Norte e Noroeste Fluminense, o que pode ajudar a descomprimir a estrutura urbana e a dinamizar municípios periféricos. Crescerá a dependência da região em relação à economia finita do petróleo e será gerada nova dependência frente a um complexo sujeito às oscilações da economia internacional. Por fim, o ambiente natural será (como já está sendo) amplamente danificado. Para nós, que queremos continuar vivendo nesta região, importa refletir sobre como garantir e desenvolver uma base produtiva diversificada, sólida, autônoma, fortemente empregadora e ancorada na inclusão social, e descentralizada. E, ainda, como assegurar cidades acolhedoras, acessíveis e boas de habitar para todos, sem exceção. Isto demandará imenso esforço, pois o rio corre para o lado dos grandes empreendimentos, capazes de atrair tudo e todos como ímãs poderosos.

José Luis Vianna da Cruz Professor Associado da Universidade Federal Fluminense / UFF-Campos

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Foto: Obra do Porto do Açu em São joão da Barra - RJ


O desafio do

desenvolvimento sustentável numa

região em transformação O Norte Fluminense passa por uma situação singular. Como resultado dos grandes investimentos já em andamento, é quase certo que o futuro próximo nos reserva um período de acentuado crescimento econômico. Resta dúvida se será acompanhado de desigualdade social, desequilíbrio ambiental, entre outros aspectos negativos. Já que o crescimento é garantido e até inevitável, o grande desafio será conseguir que o desenvolvimento seja sustentável no nosso território. Como fazer que a sociedade cresça como um todo? Que a desigualdade seja pouca, que tenhamos boa cultura, segurança, saúde e educação? Escutei de Eduardo Nery, ao apresentar o “Plano de Desenvolvimento Sustentável do Norte e Noroeste do R.J”, a mais curta e significativa resposta do que falta no nosso território, mas que pode significar a diferença entre ser ou não ser sustentável: ter governança.

Governança “é a maneira pela qual o poder é exercido na administração dos recursos sociais e econômicos de uma região visando o desenvolvimento”. Governança refere-se a “padrões de articulação e cooperação entre atores sociais e políticos e arranjos institucionais que coordenam e regulam as necessidades e as fronteiras do sistema econômico”. A ideia é que uma “boa” governança é um requisito fundamental para um desenvolvimento sustentado, que incorpora ao crescimento econômico equidade social e também direitos humanos. Temos no nosso território boas características e diversidade nas instituições. As prefeituras têm bom orçamento, em parte devido aos royalties e aos impostos e serviços que serão gerados pelos novos empreendimentos. As entidades de classe estão presentes e são atuantes. As instituições de ensino e pesquisa são várias e fortes. São muitos os exemplos de cidades que se tornaram criativas, de cidades inteligentes que se reinventaram e transformaram os problemas em soluções. Todas mantêm uma boa governança, com os vários atores da sociedade trabalhando em parceria. Então, um grande desafio para conseguirmos que o desenvolvimento inevitável que ocorre no nosso território seja de forma sustentável, é garantir e trabalhar por uma boa governança, com ações integradas envolvendo as prefeituras, as entidades de classe e a academia. Temos todas as condições para encarar esta empreitada. É preciso agir. Vai depender de nós mesmos.

Ronaldo Paranhos Diretor da Agência UENF de Inovação

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Ciência Aberta

Ilha verde em meio à selva urbana, campus da UENF é local perfeito para induzir interação entre comunidade acadêmica e pessoas de todos os perfis

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Foto: Felipe Moussallem


Foto: Arquivo pessoal do professor Jose Gearaldo de Araújo Carneiro

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xtensão é produção compartilhada de conhecimento, mas como induzir um encontro mais frequente entre os que vivem o mundo das universidades e os que vivem tantos outros universos do cotidiano? Um bom começo pode ser o desfrute comum de uma das poucas áreas verdes da zona urbana de Campos, que é o campus Leonel Brizola, da UENF. São cerca de duas mil árvores espalhadas de uma ponta a outra da Universidade e, junto com elas, um ecossistema rico em inúmeras aves, insetos e até mesmo alguns mamíferos. Entre uma ou outra caminhada pelo campus, há até quem já tenha visto animais como lontras, preás, coelhos-do-mato e gambás. Mas a área de 500 mil metros quadrados onde foi edificada a sede da UENF ainda é pouco utilizada pela população em geral, embora qualquer pessoa possa usar o espaço externo para caminhadas, corridas ou passeios entre bosques e pássaros. Segundo o professor José Geraldo de Araújo Carneiro, que presidiu a comissão formada em 1997 para implementar o projeto paisagístico do campus da UENF e hoje está aposentado, o primeiro plantio, realizado nas áreas de estacionamento, aconteceu no dia 21 de setembro de 1997, Dia da Árvore e início da primavera, com a presença de alunos de escolas primárias, clubes de serviço e membros da sociedade campista. — Outros componentes desta comissão foram os técnicos Herval Martinho Ferreira Paes e Luiz Maurício da Silva Soares. E, como assessores, Andral Nunes Tavares, Adailto Rangel e o então estudante Eduardo Crespo. O presidente da Fenorte, à época Alfredo Renault, deu incisivo apoio nas operações — afirma José Geraldo. Mas quem hoje passa pela UENF não imagina o quanto foi difícil fazer com que as árvores sobrevivessem e crescessem. De início, dois grandes entraves destacaram-se: o solo muito compactado e a presença do asfalto, fatos que trouxeram enorme dificuldade para a abertura das covas. Segundo José Geraldo, as covas no asfalto foram abertas com a colaboração de uma empresa que instalava gás de rua na cidade. Após o plantio, o maior problema foi a ocorrência de elevada quantidade de danos e/ou destruição das mudas pelo homem e por animais de grande porte. — Toda a área do campus tinha sido aterrada, rolada e compactada a cada camada de 20 centímetros. Portanto não era fácil a abertura de covas neste solo. Usando picaretas, foi impossível. Aí tentamos usar brocas, mas também não conseguimos. O jeito foi usar uma retroescavadeira. Todo o solo teve que ser retirado, e as covas foram preenchidas com terra preta — conta. José Geraldo lembra que a perda de mudas levou à adoção de medidas consideradas antipáticas por alguns, como a colocação de arame farpado circundando cada uma das áreas destinadas aos bosques. Nas áreas de estacionamento,

Adailto Rangel, José Geraldo e o ex-reitor Pedro Carajilescov plantando as primeiras Perobas nos bosques daUENF

foram colocados protetores de madeira, envolvidos também por arame farpado, em cada uma das árvores, com o apoio parcial da empresa Demaco. — O trabalho durou cerca de dois anos. Se não fossem os danos e as perdas das árvores, poderia ter terminado bem antes. Só um dos bosques teve que ser replantado seis vezes — lembra o professor. O projeto paisagístico do campus, feito por um escritório do Rio de Janeiro, previa para o miolo do “cocar” (desenho formado pela planta baixa dos prédios, criado para homenagear os índios Goitacá) espécies cuja floração pudesse reproduzir as cores do arco-íris. — O problema é que cada uma tem a floração em uma época diferente. Por isso não é possível ver esse efeito — diz José Geraldo, lembrando que em algumas partes as árvores foram dispostas em linha reta e, em outras, em círculos concêntricos e, também, em forma de espiral. No miolo do cocar (os bosques entre cada prédio) foram plantadas as seguintes espécies: jacarandá, ipê roxo, mulungu, paineira rosa, ipê branco e ipê amarelo. Fora do cocar, há sapucaia, peroba-de-Campos, murta, abricó-de-macaco, paumulato e abio roxo — sendo que a sapucaia e o abio-roxo encontram-se em forma de bosques.

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Maior número de espécies nativas da região implantação da UENF ou foram plantadas por usuários do campus — afirma. Uma das espécies encontradas no campus da UENF está em risco de extinção: a Paratecoma peroba, conhecida popularmente como perobade-Campos. Os poucos exemplares foram plantados em fileira, na entrada , atrás da guarita principal, segundo o projeto. As mudas foram cedidas por Carlos Ronald, engenheiro agrônomo da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Campos dos Goytacazes. Segundo Marcelo, o campus da UENF também abriga várias espécies ruderais (que

Campus tem mais de

100 espécies de aves Quem passa pelo campus da UENF pode se surpreender com o número e a variedade de aves presentes. Em um levantamento feito quando era aluno da UENF, o biólogo Luciano Moreira Lima identificou 105 espécies diferentes de aves dentro do campus. Entre elas, a lavadeira-decara-branca (Fluvicola albiventer), que na época representou o primeiro registro da espécie no Estado do Rio de Janeiro. — Não registramos a presença de nenhuma ave ameaçada, o que é compreensível. Embora destaque-se por ser uma das poucas áreas verdes da área urbana de Campos, o campus da UENF em nada lembra as luxuriantes florestas que se estendiam por boa parte do Norte Fluminense. Estas espécies geralmente são dependentes de

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ambientes mais conservados — diz. Para Luciano — hoje mestrando do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, USP —, a quantidade de espécies de aves encontradas no campus da UENF poderia ser maior caso as árvores existentes fossem mais atrativas. Isso poderia ocorrer, por exemplo, com o plantio de mais árvores frutíferas. — O número de aves encontradas é pequeno, se levarmos em conta que em áreas remanescentes de florestas tropicais já cheguei a registrar cerca de 95 espécies em um só dia — afirma Luciano, que é pesquisador colaborador da Seção de Aves do Museu de Zoologia da USP e membro do núcleo central do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos.

Foto: Felipe Moussallem

Segundo o botânico Marcelo Trindade do Nascimento, professor do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da UENF, o campus da UENF abriga mais de 30 espécies de árvores, a maior parte delas nativas da Mata Atlântica da região. — Algumas foram plantadas em bosques monoespecíficos, como a paineira, o ipê e o oiti. Outras de forma avulsa, como a sapucaia e o pau-ferro. Há ainda espécies frutíferas, como manga e goiaba, e espécies exóticas (não nativas da região), como a acácia, o flamboyant e o eucalipto, que já ocorriam na área antes da

acompanham o homem). São principalmente arbustos e ervas, que servem como importantes atratores de algumas espécies de aves, abelhas e borboletas. — Embora pareçam adultas, as árvores do campus ainda estão em fase de crescimento. Algumas delas podem chegar a mais de 20 metros de altura — diz. Segundo Marcelo, o campus da UENF é, dentro da área urbana de Campos, um dos locais com a maior concentração de árvores por metro quadrado. Um exemplo para o município que, na sua opinião, deveria investir na criação de áreas verdes, não só criando um parque municipal como aumentando o número de árvores nas ruas da cidade. — Uma das primeiras coisas a ser feita é tornar subterrânea a rede elétrica nas principais ruas da cidade e, no lugar de postes, plantar árvores. É caro, mas além de mais segura não seria mais necessário podar com frequência as árvores. E com o tempo teríamos uma cidade mais bonita, com o ar mais puro e o clima mais ameno — conclui.


Arborização atrai 50 espécies de abelhas O crescimento das árvores se reflete também no número de insetos que dependem das árvores para sobreviver. Um levantamento coordenado pela professora Maria Cristina Gaglianone, do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da UENF, identificou 36 espécies de abelhas no campus da UENF no ano de 2004. Em novo levantamento, feito em 2008, o número de espécies encontradas subiu para 50. — O maior número de espécies está possivelmente relacionado à maior arborização do campus no período. Entretanto, muitas espécies de abelhas usam plantas herbáceas e arbustivas nativas, que aos poucos estão sendo retiradas pela urbanização no campus. Um terceiro levantamento será feito para avaliar mudanças nos últimos quatro anos — afirma.

Confira as espécies mais facilmente encontradas Exomalopsis auropilosa – espécie nativa, constrói ninhos no solo, difí-

ceis de ser encontrados. Visitam pelo menos 19 espécies de plantas no campus da UENF e são importantes polinizadores. Podem polinizar flores de Solanaceae, como o tomate, porque têm capacidade vibratória de coleta de pólen nestas flores.

Trigona spinipes

– espécie nativa, social. Também chamada de “abelha-cachorro” ou “irapuá”, pelo fato de morderem e se enrolarem no cabelo. Diferentemente das outras espécies, o ferrão na fêmea é atrofiado, por isso pertence ao grupo das chamadas abelhas-sem-ferrão. Apesar de muitas abelhas sem ferrão produzirem mel de boa qualidade, o mel desta espécie não pode ser consumido. Vive em colônias grandes, em ninhos construídos em tronco de árvores, expostos. Forrageiam em grupo, por isso muitas abelhas desta espécie podem ser encontradas coletando pólen ou néctar na mesma planta. Visitam pelo menos 29 espécies de plantas no campus da UENF.

Apis mellifera

– espécie social, introduzida no Brasil e na maior parte do mundo. Também chamada de “abelha Europa” ou “abelha africanizada”, produz o mel consumido pelas pessoas. Pelo menos 20 espécies de plantas foram registradas como fontes de pólen e néctar para esta espécie no campus da UENF.

Xylocopa frontalis

– espécie nativa, conhecida popularmente como “mamangava” ou “abelha carpinteira”, pois escava seus ninhos em madeira (troncos ou galhos) mortos e secos. São as maiores abelhas encontradas no campus e são muito importantes para a polinização de muitas plantas, como o ipê-amarelo, o maracujá e outras do gênero Passiflora, ou o abricó-de-macaco plantado no campus. Ela usa estas flores e pelo menos outras sete espécies de plantas no campus para coletar néctar e pólen, usado para alimentar suas larvas nos ninhos. Outras quatro espécies de mamangavas ocorrem no campus da UENF – Xylocopa ordinaria, Xylocopa suspecta, Xylocopa nigrocincta e Xylocopa macrops.

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Por que permanecer

na escola? _______________ M

uito se discute sobre os motivos que levam os estudantes da EJA (Educação de Jovens e Adultos) a abandonar os estudos, mas pouco se fala sobre os fatores que os levam a permanecer, apesar de todas as dificuldades. O projeto de extensão ‘Diagnóstico de Educação de Jovens e Adultos na Região Noroeste Fluminense – Ano II: a permanência escolar em questão’, coordenado pelo professor Gérson Tavares, se propõe justamente a buscar estas respostas. O projeto vem sendo realizado junto às Secretarias Municipais de Educação de sete municípios: Bom Jesus do Itabapoana, Italva, Itaperuna, Laje do Muriaé, Natividade, Porciúncula e Varre-Sai. Gérson, que atua no Laboratório de Estudos de Educação e Linguagem (LEEL) do Centro de Ciências do Homem (CCH) da UENF, considera o projeto “um novo olhar sobre a EJA”. Segundo o diagnóstico, grande parte dos alunos é obrigada a conciliar trabalho e estudo. No segmento feminino, há ainda aquelas que, além do trabalho profissional, cuidam dos filhos, da casa e do marido. — Uma descoberta obtida em pesquisa anterior foi que a maioria destas pessoas não vê a escola apenas como lugar de certificação de escolaridade, mas também como um local

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onde podem “ser mais”, como diz Paulo Freire. Eles veem na escola a chance de serem mais “humanos”, menos embrutecidos — diz Gérson, traduzindo o que tentaram explicitar os 611 alunos pesquisados pela Secretaria Municipal de Educação de Campos em 2008. Na sua opinião, as universidades têm um papel importante na composição de políticas públicas que levem em conta questões ainda invisíveis nas práticas do EJA, como por exemplo a permanência escolar e o anseio por reconhecimento. O projeto teve início em julho de 2010, ano em que a Comissão Estadual da Agenda Territorial de EJA deu início ao seu processo de organização no Estado do Rio de Janeiro. Uma das atribuições da Comissão é promover a realização de um diagnóstico em relação à EJA no território fluminense. Para tanto, as universidades públicas do Estado vêm sendo convocadas a participar a partir de um projeto geral idealizado pela professora Jane Paiva (Uerj) a ser adaptado para cada região. Até o momento, há três projetos de diagnóstico em andamento: a UENF no Noroeste, a Uerj na região Metropolitana e a UFF no Sul Fluminense.

Foto: Felipe Moussallem

Pesquisadores tentam entender o que leva os estudantes da EJA a não abandonar os estudos, apesar das dificuldades

Gerson - “Anseio por reconhecimento”


Agenda territorial de:

" Foto: Marianne Pessanha

_Educação ________ __

A proposta da Agenda é constituir Comitês Regionais, para que, periodicamente, representantes de diversos segmentos da sociedade, públicos e privados, possam discutir e se articular para promover não só a ampliação da oferta e da qualidade da alfabetização de jovens e adultos, mas também a sua continuidade na modalidade de EJA /PROEJA. (Gerson)

Gérson ressalta que o projeto “Diagnóstico da EJA” está ligado à Agenda Territorial de Educação de Jovens e Adultos do RJ. Criada pelo MEC em outubro de 2009, a Agenda tem o objetivo de firmar um pacto social para melhorar e fortalecer a integração e continuidade dos programas de Alfabetização, Educação de Jovens e Adultos e Proeja. — A proposta da Agenda é constituir Comitês Regionais, para que, periodicamente, representantes de diversos segmentos da sociedade, públicos e privados, possam discutir e se articular para promover não só a ampliação da oferta e da qualidade da alfabetização de jovens e adultos, mas também a sua continuidade na modalidade de EJA /PROEJA — diz Gérson, lembrando que a UENF tem representação na Comissão Estadual desde janeiro de 2011 e, desde então,articula o projeto de diagnóstico da EJA na região noroeste com os objetivos da Agenda Territorial. No I Seminário de EJA/PROEJA da Região do Norte e Noroeste Fluminense, realizado em agosto de 2012, foi implantado esse Comitê regional, estabelecendo uma agenda de compromissos em que cada município trace metas para a educação de jovens e adultos integrada à alfabetização. — Estamos fazendo um “raio-x” da educação de jovens e adultos. Criamos parcerias com as secretarias de Educação, estamos conhecendo os alfabetizadores, fazendo cursos com os professores e conhecendo também o aspecto físico das escolas. Observamos, por exemplo, se contam com refeitórios, banheiros, espaço de convivência, iluminação e coordenação — relata Gerson.

EJA - Novas perguntas

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Dengue

há mais para

conhecer

Além da pesquisa, projeto da UENF leva para escolas públicas o que não está presente na propaganda oficial sobre como prevenir a doença

L

evar o estudante a conhecer o mosquito Aedes aegypti, mostrar os locais onde ele vive e destruir mitos que cercam a dengue. Esses são alguns dos objetivos do projeto “Monitoramento Entomológico e Educação em Dengue no Município de Campos dos Goytacazes”, coordenado pela professora Marílvia Dansa, do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da UENF. O trabalho tem duas vertentes: o educativo é realizado junto com alunos da rede pública de Campos dos Goytacazes, enquanto o de monitoramento entomológico envolve um trabalho de pesquisa para saber os locais onde os mosquitos são melhores transmissores da dengue no município. De acordo com Marílvia, no que se refere ao monitoramento da cidade, o primeiro passo é descobrir junto ao Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) os locais que apresentam os maiores índices de infestação predial. A partir daí é feito o cruzamento de dados com a incidência da doença. Ela explica que nem sempre onde a infestação dos mosquitos é grande os números de dengue são altos. Isso acontece porque nem todo mosquito Aedes

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aegypti é suscetível à doença. — Pouca gente sabe disso, mas existem os Aedes suscetíveis e os refratários à dengue. O nosso trabalho é coletar esses mosquitos, levar para o laboratório e verificar quais deles são realmente bons transmissores da dengue. Essa pesquisa é importante porque este tipo de mapeamento permite ao poder público agir de forma mais incisiva nos lugares onde realmente mosquitos suscetíveis proliferam — explica Marílvia. Marílvia ressalta que atualmente todo mundo sabe o que é a doença, mas existem muitos mitos que acabam se transformando em “verdades” para a população. — Esse é o ponto-chave dos trabalhos desenvolvidos nas escolas: mostrar esses erros e preparar o jovem para enfrentar a doença e ser multiplicador do projeto — comenta. Entre os mitos divulgados ela cita o que coloca a bromélia como grande vilã da dengue. A planta acumula água e acabou vista como um dos criadouros do Aedes. Ela diz ainda que outra informação pouco divulgada e que pode salvar da morte uma pessoa com dengue é conhecer os sinais de alerta que indicam a evolução da doença para uma forma grave. Alguns sinais de alerta são: extremidades

frias; dor abdominal intensa; vômito persistente e diminuição da diurese; agitação ou letargia; pulso fraco e rápido; diminuição brusca da temperatura e melhora súbita do quadro febril. — Sinto falta desse tipo de informação nas propagandas oficiais, e são informações como essas que estamos levando para as escolas, mostrando pontos importantes na prevenção e no tratamento da doença. Além disso, queremos demonstrar que a dengue tem, sim, relação direta com a pobreza. A experiência mostra que a culpa não é individual. Ações coletivas, como saneamento básico e coleta de lixo eficientes, são fundamentais para o controle da doença. E isso também não é mostrado pelos governos — afirma. Com o trabalho realizado junto aos estudantes, planeja-se, para o futuro, o lançamento de um livro paradidático sobre a dengue. — Vamos continuar a desmistificar essa doença junto a escolas e comunidades. O projeto é aberto, e todas as informações são disponibilizadas para os órgãos públicos. Nós também vamos a todas as escolas que desejarem obter informações acerca da


Meio milhão de casos graves

por ano Estimativa é da Organização Mundial de Saúde e vale para todo o mundo

dengue. Basta entrar em contato conosco através do blog “dengueuenf. blogspot.com.br”, que estaremos lá. A dengue é uma luta de todos — finaliza Marílvia Além de visitar escolas e dialogar com estudantes, a equipe coordenada pela professora Marílvia Dansa dissemina informações sobre a doença através da internet. Visitando o blog dengueuenf.blogspot.com.br sabe-se que a dengue é uma doença infecciosa de áreas tropicais e subtropicais cujas condições climáticas favorecem a proliferação do inseto vetor, o mosquito Aedes aegypti. Somente a fêmea do mosquito adulto alimentase de sangue, e uma única fêmea pode colocar de 60 a 100 ovos. Estudos laboratoriais indicam que a sobrevivência dos mosquitos adultos é de 20 dias para machos e 30 dias para fêmeas. A transmissão de dengue ocorre

através da picada em indivíduos portadores do vírus, e a transferência do vírus ao homem, através da picada, encerra um ciclo de transmissão. O vetor é encontrado principalmente em ambientes doméstico e peridoméstico, utilizando-se de recipientes que armazenam água e recipientes descartáveis que acumulam água de chuvas para postura dos ovos. A dengue é uma infecção reemergente que vem preocupando mundialmente as autoridades sanitárias. É a virose transmitida por mosquitos ou outros artrópodes de maior incidência no mundo, sendo endêmica em vários continentes. Cerca de dois terços da população mundial vivem em áreas infestadas com o mosquito vetor. Os sintomas da doença vão desde febre e sintomas comuns, como dor de cabeça, náusea, mialgia (dores musculares), dor no fundo dos olhos, até formas

hemorrágicas (dengue hemorrágica FDH), síndrome de choque associada ao dengue (DSS) e outras manifestações graves da doença. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 50 a 100 milhões de casos de dengue ocorrem anualmente em todo o mundo; cerca de 500 mil casos evoluem para as formas mais graves da doença. Não existe vacina disponível contra a dengue e nem medicamentos específicos para tratar a infecção. Dessa forma, a prevenção e controle da dengue dependem do combate do Aedes aegypti em torno dos domicílios onde mais ocorre a transmissão. O caminho mais eficaz para o controle do mosquito é a redução larval nos domicílios. Como explica o blog, é muito difícil controlar ou eliminar Aedes aegypti, porque eles se adaptam facilmente ao ambiente, o que os torna altamente resistentes ou lhes confere a habilidade de rapidamente recuperar-se a números iniciais após os distúrbios resultantes de fenômenos naturais como secas ou intervenções humanas, por exemplo.

Foto: Paulo Damasceno

Marílvia (Dir.) e equipe.

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U

maextensãotransformadora pressupõe um ambiente de cooperação dentro e fora das universidades, mas como implementar projetos nesta direção quando justamente este primeiro requisito é modesto ou está ausente? Esta é uma pergunta difícil, mas a experiência da Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Populares (ITEP/UENF) pode ser considerada uma tentativa prática de resposta. Criada em 2009, a ITEP/UENF semeia cooperação onde predomina a lógica da competição e a ação coletiva solidária onde a tradição é o “cada um por si”. Os resultados? Não há nenhum milagre, mas alguns avanços já são palpáveis. Nestes primeiros anos foi possível formar a chamada Rede de Economia Solidária do Norte Fluminense, composta por nada menos do que 31 grupos ligados ao artesanato, confecção e reciclagem ou reaproveitamento de materiais, com abertura para a inclusão de outros segmentos. Os grupos reunidos na rede

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dispõem de espaço para comercializar seus produtos, o Circuito Goitacá de Economia Solidária. Toda terça-feira, pela manhã, o Circuito acontece no campus da UENF. Artesãos e artesãs comercializam seus produtos numa área de forte circulação, onde funcionam a agência bancária e a feirinha de produtos agroecológicos. Além do espaço de vendas na UENF, o Circuito Goitacá estimula outros projetos, como a participação de artesãos em eventos no Rio de Janeiro ou em outros estados e municípios. A inserção na Rede também abre portas para a melhoria da qualidade das peças produzidas, mediante a “Curatela e Desenvolvimento de Produtos” selecionados dentre o que é produzido criando e estimulado um “Projeto Coletivo”. O Projeto Coletivo objetiva ampliar a produção cooperativa dos grupos autogestionários que ainda não se constituíram como empresa coletiva (associação ou cooperativa), bem como separar o melhor da produção para receber assessoria técnica de design, gestão e práticas de comercialização.

Fotos: Felipe Moussallem

ITEP/UENF dissemina conceito da economia solidária e já colhe os primeiros frutos da incubação de empreendimentos tocados por grupos populares

Eventos para alavancar a Economia Solidária


É a partir do conjunto dos projetos coletivos que se estimulam as compras coletivas de matérias–primas com preços mais baixos para os grupos da ‘Rede de Economia Solidária Norte Fluminense’, ligados à ITEP/UENF e ao Fórum Municipal de Economia Solidária de Campos dos Goytacazes. Passos iniciais - Os primeiros grupos incubados pela ITEP foram a Associação de Mulheres Empreendedoras (AME), a Cooperativa União de Reciclagem (CooperUnião, que cessou suas atividades em 2010) e a Cooperativa de Costureiras de Rio Preto (CCARP). O processo de incubação na ITEP apoia-se na concepção da criação de vínculo permanente entre a Universidade e a sociedade, e a transferência de novas tecnologias tem que se aliar com os saberes populares para que seja de fato assimilada e usada na resolução de problemas sociais. A filosofia é criar um ambiente institucional que reforce o caráter indissociável da extensão, do ensino e da pesquisa, com práticas extensionistas interativas e investigativas a partir da realidade de cada grupo incubado. A partir da compreensão dos problemas da população e das respostas aos problemas, estimula-se a apropriação dos resultados por todos os envolvidos no processo, tanto os trabalhadores cooperativados como a própria equipe da ITEP. Os instrumentos para que este processo aconteça são encontros, oficinas, cursos e atividades de gestão dos empreendimentos e de fortalecimento do cooperativismo entre os grupos – sempre com a participação de alunos da graduação da UENF e de bolsistas de extensão do programa Universidade Aberta. Em novembro, peças de artesanato feitas com bagaço de cana pelas mulheres da AME ganharam mais valor agregado graças à inserção de pedras semipreciosas brasileiras e detalhes em prata reciclada a partir da associação com a designer de joias Silvia Blumberg, do Rio de Janeiro.

Por estar ligada diretamente à PróReitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, a ITEP/UENF permitiu a articulação de um conjunto de projetos de extensão que induzissem ações ligadas à política nacional de economia solidária e inclusão digital comunitária no território Norte Fluminense. Um dos destaques é o Programa Nacional de Inclusão Digital - Telecentros. Br - implementado pelo Ministério das Comunicações (Minicom), do qual a UENF é parceira juntamente com o Instituto BemEstar Brasil (Ibeb). No total, 22 telecentros comunitários estão implantados com computadores e acesso a internet pelo Programa Gesac, do Ministério das Comunicações, em bairros ou distritos de Campos dos Goytacazes e de Cardoso Moreira, tendo como protagonistas associações de moradores, associações rurais e ONGs. - Estimular práticas assertivas ligadas à política de inclusão digital e de economia solidária será um bom legado da nossa ITEP para o desenvolvimento local e regional do Norte Fluminense. Estas ações, ligadas à inclusão digital, promovem a interação entre centros universitários de modo que os telecentros se constituam em autênticos espaços socioeducacionais, onde se pode não apenas difundir a qualificação profissional, que é importante, mas tam-

bém estimular o protagonismo das comunidades e valorizar o capital humano da população, que são os principais responsáveis pela gestão destes espaços  de inclusão digital – avalia Nilza Franco Portela, coordenadora da Incubadora. Natural do Rio Grande do Sul, onde a tradição cooperativista é muito mais forte do que no Rio de Janeiro, Nilza diz que na base do trabalho da ITEP está a sensibilização e a formação dos grupos para a atuação nos moldes da economia solidária. Neste sentido foi articulado, em outubro de 2010, o Movimento Popular de Economia Solidária, com a constituição do Fórum de Economia Solidária de Campos dos Goytacazes, em parceria com Secretaria Nacional de Economia Solidária e o Núcleo Estadual de Assistência Técnica a Empreendimentos Solidários - Neates, projeto financiado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE/Senaes). A meta é organizar e apoiar a instalação de mais quatro fóruns municipais: São João da Barra, São Francisco de Itabapoana, São Fidélis e Cardoso Moreira. Destes, São Fidélis instituiu seu Fórum, e São Francisco de Itabapoana está com seu pré-fórum trabalhando para estabelecer o seu movimento de economia solidária municipal.

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Fotos: Felipe Moussallem

Destinada a incubar empreendimentos populares, a ITEP/UENF começou ela própria como uma incubada da ITCP/COPPE/UFRJ, a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UFRJ. Ali teve início o desenvolvimento de metodologias de incubação de empreendimentos econômicos cooperativados, que têm como foco a autogestão dos grupos (o respeito a sua autonomia) e a organização deles em rede de cooperação. Os primeiros passos da ITEP foram de sensibilização comunitária para o cooperativismo e suas possibilidades para a inserção econômica de trabalhadores de Campos e região, com o apoio articulado do conhecimento produzido na universidade - ensino, pesquisa e extensão. Já em 2009 foram realizados na UENF dois encontros de Economia Solidária. Em 2010, a ITEP/UENF agregou ao Encontro a I Aldeia de

Oi Fúlvia,

Encontro no Centro de Convenções da UENF

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Experiências Solidárias e Tecnologias Sociais com a participação da Senaes (Secretaria Nacional de Economia Solidária), Rede de ITCPs (Rede de Incubadoras Tecnológicas Universitárias de Cooperativas Populares), Febracom (Federação Brasileira de Cooperativas) e instituições públicas e instituições não governamentais. Nestes encontros, o público-alvo foram artesãos, agricultores familiares, pescadores, agentes públicos e representantes de cooperativas. Apesar da diversidade de origem e da dinâmica cultural, as ações de Economia Solidária têm vários pontos de convergência. Entre eles, a valorização social do trabalho humano; a satisfação plena das necessidades de todos como eixo da criatividade tecnológica e da atividade econômica; a busca de uma relação de intercâmbio respeitoso com a natureza; e os valores da cooperação e da solidariedade. Nilza Franco acredita que as universidades públicas possuem uma dívida social com trabalhadores do Brasil e que a ciência e as novas tecnologias não contribuem como deveriam na melhoria das políticas públicas, que são as garantias de direitos às quais os trabalhadores têm acesso. Quem usufruiu deste conhecimento é o capital econômico contra o bem estar dos trabalhadores. - É importante compartilhar com segmentos organizados da política pública de economia solidária tecnologias voltadas à adequação e ao desenvolvimento de novos processos que ampliem a capacidade produtiva solidária com o domínio do conhecimento técnico – conclui.

Nilza Portela: Resgatar a “dívida social”


Fotos: Felipe Moussallem

Menu Aperitivo

promissor Gastronomia

é a entrada no cardápio de cursos de qualificação, atualização, aperfeiçoamento e especialização da recém-implantada Escola de Extensão da UENF

C

oncebida por Darcy Ribeiro como instituição forte na pesquisa e na pós-graduação, a UENF logo ofereceu também cursos de graduação e agora finca de vez o pé na extensão universitária. A recém-instalada Escola de Extensão vai oferecer cursos de especialização, atualização, qualificação e aperfeiçoamento, entre outras modalidades. O primeiro curso oferecido, de Gastronomia e Artes Culinárias, teve como público-alvo 20 merendeiras vencedoras do “5º Prêmio 2012 Melhores Receitas”, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Campos (Smec). O curso ocorreu entre 10/11 e 08/12/12. O segundo passo deve ser um curso para qualificação de técnicos na área de petróleo e gás – o Promimp, que será ministrado à Petrobras pelos docentes do Laboratório de Engenharia

e Exploração de Petróleo (Lenep) da UENF Para 2013, entre muitas outras possibilidades, a UENF estuda com muito carinho outro curso de Gastronomia aberto à comunidade em geral. - Esta área é estratégica para o Rio de Janeiro em função da grande necessidade de contratação de serviços especializados para a Copa do mundo e as Olimpíadas de 2016. Além disso, a região se prepara para uma grande mudança estrutural em virtude do complexo do Açu – avalia Paulo Roberto Nagipe, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UENF. Segundo Nagipe, o curso de especialização em Gastronomia pode vir a ser a base de um restaurante-escola a ser instalado na região. Com a Escola de Extensão,

a UENF pretende potencializar o alcance de suas ações na área, incluindo as modalidades de especialização lato sensu, especialização para técnicos, iniciação, de atualização, treinamento, qualificação e aperfeiçoamento profissional. Mediante convênios, poderão ser oferecidos cursos até mesmo em sedes de outras instituições. — O cenário regional é de muita demanda por qualificação, e agora a UENF poderá ajudar a atendê-la não apenas nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, mas também em áreas mais específicas e que exijam uma formação mais rápida, como é o caso da Pós-Graduação lato sensu — afirma o pró-reitor de extensão, Paulo Roberto Nagipe da Silva.  Os coordenadores e vice-coordenadores dos cursos deverão ser profissionais da UENF, mas o corpo docente poderá integrar profissionais externos. Os cursos de Extensão deverão ser aprovados e certificados pela Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PROEX) da UENF.

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A UENF é a melhor universidade do Rio de Janeiro e a 11ª melhor do Brasil. É o que atesta a última edição do Índice Geral de Cursos (IGC) do MEC. No último Enade (2011), a UENF obteve a 6ª melhor nota média do País.

A melhor do Rio só pode ser a melhor opção para você. Graduação presencial (ingresso pelo Sisu/Enem): Administração Pública, Agronomia, Biologia (licenciatura), Ciência da Computação, Pedagogia (licenciatura), Ciências Biológicas (bacharelado), Ciências Sociais, Engenharia Civil, Engenharia de Exploração e Produção de Petróleo, Engenharia de Produção, Engenharia Metalúrgica e de Materiais, Física (licenciatura), Matemática (licenciatura), Medicina Veterinária, Química (licenciatura), Zootecnia

Graduação a distância/semipresencial (Vestibular Cederj): Licenciatura em Ciências Biológicas a distância, Licenciatura em Química a distância

Mestrado e doutorado: Biociências e Biotecnologia, Ciência Animal, Ciências Naturais, Ecologia e Recursos Naturais, Engenharia Civil, Engenharia de Reservatório e de Exploração, Engenharia e Ciência dos Materiais, Genética e Melhoramento de Plantas, Produção Vegetal, Sociologia Política

Mestrado: Cognição e Linguagem, Engenharia de Produção, Políticas Sociais

Mestrado profissional: Matemática (PROFMAT)

Revista ECO - Extensão e Comunidade - Ano 01 - Número 01  

Revista ECO - Extensão e Comunidade, editada pela Gerência de Comunicação da UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro

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