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NA BATIDA DO PROTESTO

Na batida do protesto

por Angelo Girotto

Durante dois dias acompanhamos as batalhas de hip hop que mobilizam semanalmente milhares de jovens natalenses à margem do calendário da cultura oficial. A insatisfação e a recusa em aceitar uma derrota sem luta dão o tom desse movimento, numa explosão de dramas juvenis, problemas sociais e busca por uma identidade. As batalhas são o megafone de uma geração que se quer fazer ouvir, ainda que na marra

Chego ao local da Batalha da Cívica às 19h00. Um grupo de jovens com pinta de estudantes secundaristas se amontoa ao redor de um banco da praça, e o pessoal está empenhado em convencer uma garota pequena e magra, com um boné vermelho da cerveja Duff e uma camiseta onde se lê Amsterdã, a se inscrever para os duelos que estão previstos para as 20h00. Após alguns empurrões, ela topa a parada.

A garota se chama Alice, tem 16 anos e frequenta o EJA Tiradentes, onde deve concluir o ensino médio em breve. Ela chegou há já algum tempo, vinda do bairro de Mãe Luiza, onde mora — uma comunidade que se ergueu sobre o morro que abriga o famoso farol da cidade de Natal e que, mesmo tendo uma das melhores vistas do litoral de toda a urbe, carrega um forte estigma ligado à pobreza e à violência; chegou mais cedo para esperar o evento do dia com outros colegas, “porque o papo é bom”. As batalhas da Cívica ocorrem sempre às segundas-feiras, na Praça Pedro Velho, a Praça Cívica, localizada no coração do bairro de Petrópolis, uma das regiões com maior IDH do estado do Rio Grande do Norte e dos raros bairros da capital construídos de forma planejada, pertencendo ao Plano Palumbo, região idealizada pelo arquiteto italiano Giácomo Palumbo nos princípios do século XX que, embora parecendo ter sido ontem para muito de nós, já é um passado distante para a maioria dos jovens ali reunidos que nasceram neste novo e acelerado século.

Alice, cujo nome de guerra é MC Scobar, já vai para sua décima batalha. Para ela, é um lugar onde pode mostrar seu valor. “A gente vive numa comunidade onde os homens acham que são superiores, que tem coisas que mulher não pode fazer.” Mas na comunidade do hip hop ela crê que as coisas são diferentes, “aqui não tem isso, pessoal respeita a gente e a gente tem voz”. Ela diz que prefere criar suas rimas “no calor da batalha”.

As batalhas de rap são um evento relativamente novo na agenda cultural da cidade. Tiveram início em 2006 com a Batalha da Vermelha, cuja extinção é muito lamentada pelos antigos participantes, e que acontecia na Praça André de Albuquerque, também chamada de Praça Vermelha. Hoje a batalha mais conhecida dentre as cerca de quinze que acontecem em toda a cidade é a Batalha do Vinho, no bairro do Gramoré, Zona Norte da capital, que chega a reunir milhares de jovens em suas frequentes edições. Nesta semana, além das batalhas da Cívica e do Vinho, ocorrerão outras três, uma a cada dia útil.

Mc Scobar conta que frequenta as batalhas há três meses, e sempre que participa dos duelos prefere rimar sobre temas sociais, especialmente os relacionados à realidade da comunidade onde vive com os pais; seu único irmão, Adílson, faleceu aos 19 anos, num afogamento na Praia da Meio. Ela acredita que o ambiente das batalhas é estimulante para produzir música e cooperar, aprendendo com trovadores mais experientes.

Como outros jovens artistas com quem conversei, a vocação para a música surgiu na vida de Alice (que pratica violão, sax, teclado e bateria) ainda na infância, por influência de parentes músicos. É o caso também de Fênix, uma das referências locais apontadas por Alice. Quando o pai faleceu, Fênix herdou um espólio modesto que contudo mudaria sua vida: dois CDs, um de Edson Gomes e outro do grupo Racionais.

“O que me move é falar da quebrada, do que vivo. A galera me conhece mais por esse meu estilo, de ser agressivo. Não é pra vencer a batalha, é pra passar a realidade. Quando a galera da comunidade me encontra, diz logo: esse cara fala a nossa verdade”, conta Fênix, também ele residente em Mãe Luiza.

E é Fênix mesmo, e só. Ele explica que não se sente à vontade se chamado de outra forma, “sou mais Fênix que eu mesmo”; então, por cortesia, nem pergunto seu nome de batismo. Tem 18 anos e é um dos muitos que começaram no rap no embalo das batalhas da Vermelha. Quando herdou os CDs do pai, tinha apenas 4 anos e se encantou sobretudo pelo ritmo. Foi só depois, na adolescência, que foi completamente fisgado pelo gênero. Sua mãe se casou novamente, após a viuvez, e Fênix não se adaptou à nova vida doméstica, tendo que se mudar para o interior, onde viveu alguns anos por conta própria. Fazia bicos para se sustentar, na maior parte das vezes ajudando um primo a arrancar estacas para cercados de sítios da redondeza, ganhando quando muito 20 reais por dia. As situações por que passou na luta pela sobrevivência o marcaram, e, voltando à capital, relembrou as letras que ouvia nos dois surrados CDs sempre que sentia saudades do pai. Aquelas letras falavam da sua vida, e fazer letras seria a partir de então o caminho para contar sua história.

“Sou esforçado”, ele conta, “gosto muito de fazer o que faço. Podia estar em casa, diante da TV, na casa da namorada. Mas só me realizo quando faço música”. A maioria das pessoas parece ser contra sua vocação, “acham que é coisa de vagabundo”, e o mercado profissional tampouco é mais colaborativo, “galera não quer pagar”, porém ele segue na busca de uma realização profissional que expresse a vocação que descobriu e diz ser para toda a vida. Conta ainda que já foi de Mãe Luiza até Ponta Negra a pé — uma caminhada de 12,2 quilômetros segundo o Google Maps — para participar da Batalha do Disco. Nas batalhas, ele diz que conhece pessoas legais, sua segunda família.

A primeira vez que teve contato com batalhas de hip hop foi pelo Youtube, o confronto Mc Douglas Jean versus Mc Vinisão. Depois disso, caiu dentro e não saiu mais.

Lutar!

Por volta das 20h00 começam as batalhas. Um Mc (Mestre de Cerimônia, me explicam) anuncia os primeiros contendores e um participante instiga a moçada, “se tu ama essa cultura como eu amo, grita”, ao que a moçada responde “Hip Hop, Hip Hop”. Depois de repetir o grito de guerra algumas vezes, uma pequena caixa de som é conectada a um celular e começamos a ouvir a batida. Começa o primeiro round da batalha.

No par ou ímpar se decide quem começa, e à capela os oponentes se revezam em rimas improvisadas, que de início versam sobre histórias pessoais dos desafiantes, com muita provocação mútua e esculacho, e logo segue para disputas de estilo e influências na cultura hip hop e questões sociais e de pertencimento. Serão frequentes nas batalhas a que assistirei nos dois dias da reportagem as referências à cor da pele (branquelos contra negros), bairros de origem (playboys contra manos), preferências musicais (funk, beat, etc). Esses elementos entram em cena num tom de provocação, mas denotam claramente uma busca por identidade, que se dá tanto na autoafirmação quanto na ênfase das diferenças. Também tem muita zoação sobre a qualidade da rima adversária e enaltecimento das próprias habilidades linguísticas – o clima é pesado, direto, no queixo. Ao final de cada round, a moçada aplaude a batalha e os oponentes se abraçam com sincera fraternidade. O que se canta na batalha, fica na batalha.

É o publico quem decide o vencedor de cada round com ovações que o mediador mensura. E como no primeiro duelo cada qual venceu um dos dois rounds iniciais, temos um terceiro de desempate, que confere a vitória a Mc TK em sua primeira batalha da noite.

No terceiro duelo da noite, o mediador anuncia Fênix versus Kadu.

Embora declare que não vê os duelos de forma competitiva, Fênix entra forte na briga e vence o primeiro round de forma arrasadora. No segundo, Kadu empurra o adversário para as cordas com um forte ataque sobre as qualidades rítmicas do outro. No entanto, não teve jeito: a reação de Fênix foi imediata, “esse homem não é bandido, mas roubou a minha lombra”, reconhece na sequência da batida, e parte para o contra-ataque. Ao final, a plateia confere a vitória a Fênix, por dois rounds a zero.

“É que não sou conhecido da galera”, explica Kadu, 22 anos. “Isso também atrapalha um pouco”. Ele diz que as batalhas são boas para praticar, “aqui é esporte, para fortalecer”. Kadu vive no Passo da Pátria, outra comunidade periférica de Natal, embora localizada no centro da cidade.

Enquanto as batalhas se desenrolam, um morador da região se aproxima, puxa conversa enquanto observa de canto de olho as atividades do cachorrinho que leva para passear. Outras pessoas passam desconfiadas, evitando a região central da praça que, exceto durante as batalhas, está sempre despovoada e com um clima hostil.

Perguntei mais cedo a Alice se as batalhas são bem vistas na comunidade. Ela contou que hostilidades são incomuns e que o clima geral é de tranquilidade mesmo com a polícia. Apesar disso, lamentou as dificuldades em se obter acesso a alguma infraestrutura, como uma fonte de energia que possibilitasse o uso de aparelhos melhores para acompanhar os músicos.

A bela Praça Cívica é pouco frequentada pelos moradores das redondezas, que se ressentem de uma noção de insegurança, embora seja fácil perceber ali a constante presença de viaturas da polícia e de serem raros os relatos de furtos ou agressões. No local, há pessoas que improvisam suas casas, uma delas armada de forma tocante sobre uma árvore; roupas são vistas quarando sobre os arbustos mal podados; crianças exibem sua letargia típica dos dias quentes e muito úmidos, que parecem a cada ano menos ventilados. Há ali uma fonte cujo chafariz costuma ser ligado nos dias comemorativos, como o do desfile de 7 de setembro, ocasião em que a praça recebe um público nada habitual.

E como que para ilustrar as preocupações de Alice, no final do primeiro round da segunda batalha acaba a bateria da caixa de som que marca o ritmo do duelo. O público tem que gastar as cordas vocais para conferir o acompanhamento adequado dali em diante.

O Coliseu

No dia seguinte fui à Batalha do Coliseu, um anfiteatro localizado no setor 2 da Universidade Federal, que é regularmente ocupado pela moçada para atividades culturais independentes.

A Batalha do Coliseu teve início com um recital de um estudante da Escola Estadual Berilo Wanderley chamado Rodrigo, o Mc Sabota. “O próprio Sabotage [ilustre expoente do hip hop brasileiro] já deu palavras de incentivo”, ele conta.

O Sabota potiguar, com 21 anos, é um exemplo clássico dos muitos jovens que encontram no movimento hip hop uma saída para as enrascadas da vida. Teve problemas com drogas ainda muito jovem e diz que chegou a perder a fé em si. Ele alega que a atividade artística lhe conferiu um senso de “responsabilidade moral” diante de seus amigos e colegas. A poesia, que diz ser hoje sua melhor amiga, também fez com que ele se interessasse mais pelos estudos. Intensificou o ritmo dos estudos porque percebeu que para contar aquilo que desejava, era preciso não apenas saber rimar como também conhecer a história, a filosofia, a política — e também para poder fazer frente aos oponentes nas batalhas. As referências culturais e históricas, pelo que pude perceber, são constantes nos versos de muitos dos trovadores do rap que se enfrentam nesses eventos. Fala-se em história antiga e regiões remotas do planeta, ícones da luta negra e feminista, revoluções, fatos contemporâneos e cultura pop. Temos um bom exemplo disso nos poemas que Mc Sabota recitou na abertura da Batalha da Cívica, dos quais alguns trechos seguem transcritos junto a esta reportagem de Circuito.

Rodrigo diz que se inspira e improvisa temas novos nas batalhas, mas que é nos poemas que se disciplina a melhorar os versos, “arquitetar o pensamento de forma construtiva”. Lê muito autores potiguares, como o patrono da escola onde estuda, Berilo Wanderley, a quem lamenta o ultrajante desconhecimento por parte de seus concidadãos. Chama esse entusiasmo recém descoberto de “cobiça por literatura”.

Para ele, participar das batalhas é “muito importante. Traz protagonismo. Dá voz. Eu aprendi a assumir o protagonismo por causa do hip hop. Antes eu não daria uma entrevista. Não pensaria que tenho algo a dizer. Hoje, organizo atividades culturais na escola, para envolver outros nessa atividade que mudou minha vida. Quando comecei no colégio com os recitais, não tive apoio, por causa da vida que levava antes. Mas meu trabalho mostrou que agora é diferente. Agora confiam em mim. Aceitei o protagonismo”.

Na Batalha da Cívica desta semana, se reuniram ao menos uma centena de jovens das mais variadas origens; estudantes secundaristas de diversas regiões da capital, universitários de áreas diferentes da pesquisa.

O underground é a rataria. E o batecabeça potiguar é ainda mais agressivo e seco, defende Palymobil, para quem o rap Bonsai, de Slam San, é um exemplo perfeito do batecabeça potiguar, variante que vence preconceitos e ganha popularidade em todo o país

No par ou ímpar se decide quem começa, e à capela os oponentes se revezam em rimas improvisadas, que de início versam sobre histórias pessoais dos desafiantes, com muita provocação mútua e esculacho, e logo segue para disputas de estilo e influências na cultura hip hop e questões sociais e de pertencimento

O movimento

A primeira coisa que fui obrigado a questionar era o porquê do apelido Playmobil, pois, como expliquei a ele, a expectativa que se criava com o nome era de alguém que possuísse uma cabeça mais impressionante que aquela frustrante normalidade que ele carrega sobre o pescoço. Ele contou se divertindo que o apelido vinha do tempo em que jogava futebol: “eu corria de um jeito estranho, e o pessoal dizia que parecia um boneco Playmobil. Dos meus apelidos, era o melhor. E no hip hop, a gente precisa de um nome de impacto”. Aproveitei que naquele dia Playmobil, também conhecido como Gabriel Teodósio, não duelaria e tive com ele uma verdadeira aula sobre o movimento. “Gosto de duelar descansado e concentrado, para dar o meu melhor. Valorizo a oportunidade”, ele explica.

Ele me conta que o rap nordestino enfrentou resistência no sul do país quando começou a despontar, muito em função de um certo preconceito que ainda confere ao Nordeste um estereótipo rural. Entretanto, Playmobil não vê nenhuma oposição entre a tradição cultural nordestina e o hip hop, um movimento eminentemente urbano. Sua própria trajetória até o encontro com o gênero ilustra bem isso.

A família de Playmobil tem fartura de artistas, e seu primeiro contato com os versos improvisados se deu através da cantoria de viola. Ele me mostra uma pasta de vídeos que organiza para estudos musicais e exibe uma entrevista com os famosos repentistas Caju e Castanha, na qual o primeiro opina “essa coisa de funk, de rap, isso aí a gente já fazia, é repente”. Playmobil concorda e acrescenta: “o que fazemos é um coco de embolada com autotune”.

Ele avalia que a urbanização crescente da região deu vazão ao movimento hip hop, impondo novos temas sociais, e considera natural e positivo que o movimento se alimente da tradição de repentistas para produzir novas formas. Gabriel Teodósio é aluno do curso de Ciências Sociais da UFRN e é dado a essas considerações.

Inclusive, ele conta, “o RN tem se destacado na cena com um estilo próprio, o bate-cabeça”, uma variante do rap que tem ganho o respeito dos confrades de outros estados. O rap é rico em variedades de estilos, me explica, e cita uma porção de termos até então desconhecidos por mim (trap, boom bap e outras dezenas). O bate-cabeça potiguar se caracteriza por acentuar certos aspectos, como o uso frequentes de pausas, parônimos e uma batida mais forte. Apresenta no celular alguns expoentes do estilo: Slam, Hagar, Kelb, ARTR, além de citar o Poeta, um dos pioneiros do movimento no estado. Também chama a atenção para o uso de expressões regionais que vão se harmonizando ao ritmo do rap. “São as expressões e o flow que dão personalidade ao bate-cabeça.” Flow, pelo que entendi, é a cadência de cada variedade.

O hip hop potiguar tem se organizado. O próprio Playmobil passou, há alguns anos, a compor um grupo chamado Frente Fria, que se apresenta em diversos espaços culturais. Ele começou na Batalha do Ded em Candelária, em 2016. Logo passou a frequentar e vencer diversas batalhas, sendo convidado para compor o Frente Fria. O grupo começou com LW, Kiko (que sairia mais tarde), PV (Karma, hoje na Austrália onde segue cantando rap), Traive e ele. Depois se juntaram JV, Théo e Alb. Os vídeos do grupo no Youtube são bem produzidos e acumulam milhares de visualizações. Eles colecionam inúmeras apresentações e já abriram shows na Rua Chile e dizem que é só o começo. Paymobil cita como exemplo do progresso do movimento local o surgimento de produtoras especializadas no gênero, das quais ele me apresenta a KaliYuga Mob, que produz os clipes de Slam Sam, rapper que ganha cada vez mais prestígios na cena musical brasileira.

“O underground é a rataria. E o bate-cabeça potiguar é ainda mais agressivo e seco.” Sugiro que essa característica de estilo tenha a ver com a crescente angústia dos jovens de nossas grandes cidades. A música lenta e romântica que toca nos bares de Petrópolis para apreço dos jovens de classe média não expressa mais o sentimento dessa nova geração que nasceu e se socializou numa sociedade ultrarrápida, extremamente contraditória. Toda uma nova geração de artistas da MPB canta em voz quase infantil, bucólica, como se fossem desnutridos por negação voluntária a se alimentar. Já no movimento hip hop sentimos a fome e o desejo de comer. Ele concorda. “Vivemos oprimidos, muitos têm pouca esperança no futuro. Nossa música reflete isso.”

cês tão vendo tudo errado mano, um branco, num carro preto de ponta é trabalho, dinheiro e pronto um preto, num carro branco de ponta é assalto, roubo e espanto um branco de cabelo raspado, regata e chinelo é um universitário um preto de cabelo raspado, regata e chinelo, ex presidiário             - Mc Sid

O rap potiguar ainda luta por reconhecimento, mas Playmobil está otimista. “Eu entendo essa resistência, leva um tempo para quebrar estigmas, superar certas barreiras”. Ele demonstra ser um pesquisador dedicado do gênero e de muitos outros. Busca inspiração e referências em diversos artistas e se esforça por incorporar novidades ao seu estilo. Exibe um vídeo que julga ter sido um divisor de águas para o rap nordestino, Sulicídio, um ataque à muralha erguida no Sul do país contra a produção hip hop do Nordeste.

O movimento vem ganhando aliados, a exemplo da União Estadual dos Estudantes – UEE-RN –, que apoia as batalhas através do CUIA – Circuito Universitário de Intervenção Artística. Yara Costa, presidente da UEE, esteve nas batalhas da Cívica e do Coliseu. A estudante de Gestão de Políticas Públicas da UFRN é uma entusiasta das batalhas e diz ver nos eventos um canal para a expressão de toda uma parcela da juventude que é excluída dos espaços tradicionais.

Playmobil ressalta ainda que para os próximos meses está prevista a seletiva PB, PE e RN que escolherá o representante da região na batalha nacional de hip hop que acontece em Belo Horizonte. “Se o RN conseguir enviar um representante, será outro marco para nossa cultura”, avalia.

De volta à Cívica Na quarta batalha da noite na Praça Cívica, o Mc anuncia o duelo de Scobar (Alice). Diferente do que esperava, vejo um duelo sem cavalheirismo, onde um garoto mirrado com o boné atravessado na cabeça vai socando Scobar desde a primeira estrofe; tudo literariamente, claro. Scobar também não se faz de madame: manda algumas rimas fortes e provocativas na cara do oponente. Após as primeiras trocas de golpes, contudo, Scobar parece abandonar a luta e é eliminada.

Houve ainda um momento nas batalhas em que a galera foi ao delírio, pois parecia haver algum vascaíno em cena e, aparentemente, isso representava uma desvantagem competitiva. Ter um ritmo mais pro funk que pro rap também foi versado como algo negativo, embora não tenha impedido o funkeiro denunciado de vencer sua batalha, ao contrário do que ocorreu com o vascaíno.

Nas semifinais, Fênix volta para o ringue e começa com um papo reto: “tu não manda rima rara / e a mim não se compara”. Mas o oponente, TK, parece conhecer algum fato obscuro do passado de Fênix, algo sobre tirar uma foto no capô de um fusca. Após dois rounds onde foi preciso que levantassem a mão para contar os votos, TK derrota Fênix por 2 a 0.

A grande final é entre TK e ICS. Alguém arrumou um celular potente e temos pela frente um confronto em alto nível. Após uma controvérsia teórica sobre criminalidade, TK venceu o 1º round conquistando o aplauso da moçada na estrofe final: “A sociedade diz que bandido bom é bandido morto / Eu falo: bandido bom é bandido ressocializado”.

No 2º round, ICS parte para a destruição, acusando o adversário de ser “MST do Greenville” (condomínio de luxo da cidade, como tantos outros com nomezinho em inglês) e denunciando aquele papo furado de socialismo, “aqui não é a China”. Mas a noite é mesmo de TK. O “branquelo” garoto destroça em seus versos de encerramento, porque aqui não é China, ele diz; eles se inspiram no passado, mas “aqui é contemporâneo, fazendo nova tradição”.

Encerrada a Batalha da Cívica, a galera ainda fica de papo por ali, dividida em grupos. Fênix me diz que se conseguir a passagem aparece no dia seguinte na Batalha da Cívica, porém não o encontrei lá, entre o público. Pergunto a Scobar se alguma timidez a fez desistir da batalha. Ela nega, diz que vergonha grande passou no primeiro dia de aula do ano. A professora perguntou a cada aluno o que costumavam fazer, o que desejavam para o futuro, e ela falou do rap. Então a professora a incitou a improvisar alguns versos. Ela mandou algumas rimas sobre como era estar ali, em sala de aula novamente. Diz que passou o maior aperto. TK está sendo congratulado por amigos. Nesta noite, ele venceu. Mas para ele, Scobar, Fênix, Kadu, Sabota, Playmobil e tantos outros, a batalha está apenas começando.

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