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QUADRINHOS

Os sonhos da pequena Nemo Editora mineira completa dois anos ousando na forma de lançar hqs ao investir na qualidade gráfica e artística das obras publicadas, muitas delas inéditas no Brasil. P OR F RANCISCO U CHA

Moebius, Loisel, François Bourgeon, Hugo Pratt, Enki Bilal, Jacques Tardi. Estes são alguns dos nomes de maior destaque dos quadrinhos europeus e, embora tenham grande prestígio, suas obras nunca foram publicadas no Brasil com o cuidado gráfico que elas merecem e, muito menos, com a regularidade necessária. Porém, uma pequena editora mineira, fundada há dois anos, começou a mudar esse panorama inóspito com bastante determinação e criatividade. A Nemo iniciava sua jornada em julho de 2011 lançando um álbum icônico que abriria a Coleção Moebius: Arzach, do festejado quadrinista francês Jean Giraud, falecido em março de 2012. Para os apreciadores de quadrinhos era quase inacreditável ver uma edição tão bem cuidada como aquela: capa dura, formato grande (24x32cm), papel de ótima qualidade, impressão primorosa, bem editada e com um texto de introdução do próprio Moebius, nome com o qual Giraud assinava suas incríveis histórias de fantasia e ficção-científica. Isso não significa que outras editoras não tenham lançado, vez por outra, quadrinhos de qualidade em álbuns bem acabados. Mas a Nemo elevou esse trabalho a outro nível de competência. Ao mesmo tempo despertou uma certa desconfiança sobre os rumos de seus próximos passos, já que manter essa qualidade nos lançamentos a seguir exigiria uma certa dose de empreendedorismo e coragem para apostar num mercado tão instável. Mas o lançamento seguinte logo causou uma nova surpresa: a memorável edição de Corto Maltese – A Juventude, de Hugo Pratt, encheu os olhos até dos mais exigentes consumidores dessa arte. Além de ter um alto nível de qualidade gráfica, o livro traz, em 25 páginas, prefácio que contextualiza a juventude do personagem, escrito por Marco Steiner e ilustrado com fotos magníficas de Marco D’Anna. Mais um ponto para a pequena Nemo. E ela não parou de ganhar pontos. 38

JORNAL DA ABI 392 • AGOSTO DE 2013

Entre um ou outro lançamento um pouco mais questionável, foram editadas obras de fôlego como Era a Guerra de Trincheiras, de Jacques Tardi; A Trilogia Nikopol, um livrão que reuniu a futurista saga criada por Enki Bilal em um volume; Animal’Z, outra criação de Bilal; Peter Pan – Volume 1, o início da cultuada série de Régis Loisel; O Apanhador de Nuvens e A Narradora das Neves, dois álbuns com singelas histórias da dupla francesa que assina como Béka (Bertrand Escaich e Caroline Roque) e lindos desenhos de Marko. Corto Maltese retorna em dois álbuns com a mesma excelência do primeiro volume: As Helvéticas e Mu, a Cidade Perdida. E a Coleção Moebius também não parou. Foram lançados mais sete volumes e, com isso, finalmente Jean Giraud teve uma grande parte de suas aventuras oníricas de fantasia e ficção-científica lançada no Brasil. O Homem é Bom?, A Garagem Hermética, As Férias do Major, O Homem do Ciguri e outras obras se juntaram ao recém-lançado e muito aguardado álbum O Mundo de Edena, que abre uma nova coleção de três volumes na qual Moebius apresenta seu conhecido estilo artístico de forma mais despojada. Esse lançamento praticamente inicia as comemorações de dois anos da Nemo, que em julho presenteou os leitores brasileiros com mais uma grande obra dos quadrinhos europeus: Os Companheiros do

Corto Maltese, de Hugo Pratt (à direita), e Linus e seu inseparável cobertor, de Charles M. Schulz, são dois protagonistas dos álbuns lançados pela Nemo.

Crepúsculo, de François Bourgeon. Lançado há 30 anos na Europa, quando rapidamente foi aclamado pelo público e crítica, o álbum é inédito no Brasil e chega depois de longa espera num grande volume de capa dura e 240 páginas. A história se passa na Idade Média, durante a Guerra dos Cem Anos, e se completa em três livros. Mas a Nemo não voltou os olhos somente para a Europa. Dos Estados Unidos chegaram O Incrível Cabeça de Parafuso e Outros Objetos Curiosos, com o desenho inconfundível de Mike Mignola; Bolland Strips!, com o elegante traço do inglês Brian Bolland, e Snoopy – A Felicidade é um Cobertor Quentinho!, com os queridos personagens criados por Charles M. Schulz que, pela primeira vez, ganharam uma edição com uma história única, adaptada de um novo especial de animação e também das tiras originais da série. Do Brasil, o destaque vai para três boas adaptações da obra de Shakespeare – A Tempestade, Hamlet e Macbeth –, dos relançamentos de

Estórias Gerais, e Fantasmagoriana & Outros Contos Sombrios, ambos de Wellington Srbek com desenhos primorosos do mestre Flávio Colin. Houve tentativas também de resgatar alguns clássicos argentinos, mas elas ainda não deram frutos. “Há um clássico argentino inédito no Brasil que eu gostaria muito de publicar, mas não consegui quem me respondesse sobre os direitos. Ajudaria se as editoras de lá respondessem a e-mails...”, lamenta Wellington Srbek, que além de autor é também o editor da Nemo e o responsável pela linha de qualidade que a editora vem mantendo. A Nemo faz parte do Grupo Autêntica, que surgiu em 1997 a partir da fundação da Autêntica Editora, especializada em publicações acadêmicas. Em 2003 o grupo aumentou seu campo de ação com a criação da Editora Gutemberg, buscando atingir o público de livros de interesse geral, ficção, literatura fantástica e no segmento jovem. O diretor-executivo da empresa, Arnaud Vin, afirma que trabalhar no mercado de quadrinhos brasileiro tem sido “uma experiência de grande aprendizagem e grande desafio”, e resume a proposta da jovem editora: “trazer autores e hqs de alta qualidade, em edições à altura dessas obras e com preços acessíveis e voltados a leitores de todas as idades. Paralelamente, buscamos auxiliar da melhor forma possível as livrarias e lojas especializadas em quadrinhos, nossos grandes parceiros no trabalho de tirar as histórias em quadrinhos do anonimato. Há ainda o objetivo concreto de oferecer espaço e trabalho a novos talentos brasileiros, como a Nemo tem feito desde o início.” Parece que os sonhos da pequena Nemo estão apenas começando.

Jornal da ABI 392  

A impiedosa perseguição que o governo militar fez às publicações independentes levou à morte dezenas de publicações alternativas. Isso ajudo...

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