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Esta revista é parte integrante do Expresso nº 2164 de 18 de abril de 2014

Presos políticos em vésperas da Revolução As várias frentes da oposição Últimos dias da ditadura O que pensam Vasco Lourenço, António Barreto D. Manuel Martins e José Félix Ribeiro Cartazes e murais da Revolução O Diário Secreto de Manuel Malaquias 18 de abril O volume 2

25 de

ABRIL

40 anos

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


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EDI TO RI A L

UMA CONTAGEM IMPARÁVEL ATÉ… À SURPRESA INEVITÁVEL

U

m dos trabalhos que mais impressionam nesta Revista especial é aquele a que chamámos “Em contagem decrescente”. Na verdade, não é um trabalho mas uma sucessão de trabalhos sobre datas e acontecimentos que começámos a publicar na edição anterior. O que essa sucessão de artigos mostra de uma forma evidente é uma contagem imparável que só podia ter um fim: a queda do regime. Génese e formalização do MFA, uma guerra interminável, um livro estrondoso de Spínola, o golpe das Caldas, as negociações secretas entre Portugal e a Guiné, o isolamento internacional. A lista podia ser maior — e na verdade é. Mas os acontecimentos que escolhemos e aprofundámos chegam e sobram para reconstruir essa marcha do tempo. É talvez por as coisas parecerem — a esta distância — tão claras que custa a perceber a surpresa generalizada com o 25 de Abril, a começar pelas potências internacionais (que estavam literalmente a leste dos acontecimentos) até boa parte da oposição ou do próprio regime. A surpresa é ainda mais curiosa quando lembramos como Marcello Caetano recebeu o livro “Portugal e o Futuro” de António Spínola. A própria existência do livro — a ideia de o escrever, a ousadia de o editar e a autorização de publicação — só foi possível porque o regime já não tinha forças para impedir aquilo que era, sem margem para dúvidas, um desafio sem precedentes, vindo de um militar com enorme peso no regime, mas que se vinha a afastar progressivamente enquanto ganhava prestígio juntos dos mais jovens oficiais. Mas o que o texto continha ia apressar a queda da ditadura. “Ao fechar o livro tinha compreendido que o golpe de Estado militar, cuja marcha eu pressentia há meses, era agora inevitável”. Foi desta forma lapidar que Marcello relembrou a noite em que leu “Portugal e o Futuro” de uma ponta à outra, com uma clarividência só possível em quem percebia que tudo se estava a desmoronar à sua volta. Um dos maiores fascínios da História é o de, muitas vezes, tornar claro aquilo que, para quem viveu os acontecimentos, parecia longe de decidido. É verdade que o regime podia ter aguentado mais tempo, que a guerra se podia prolongar e que a oposição estava longe de ser uma ameaça séria. Mas ainda é mais verdade que os regimes que não conseguem mudar nem sentir os ventos da história, que isolam externa e internamente, acabam quase sempre por ter o mesmo fim: uma contagem imparável até… à surpresa final. ^ RICARDO COSTA

Na capa: Mural de GonçaloMAR, na Rua 1º de Maio, em Lisboa Diretor: Ricardo Costa Diretora de Marketing: Mónica Balsemão Direção Editorial do Projeto: João Garcia Diretor de Arte: Marco Grieco Editor de Fotografia: João Carlos Santos Edição e Coordenação: José Pedro Castanheira e Paulo Paixão Projeto Gráfico: Paulo Barata Corrêa e Rita Múrias Conto: Ana Maria Magalhães, Isabel Alçada e Gonçalo Viana (ilustração) Capa: GonçaloMAR Textos e Fotos: Alberto Frias, Alexandra Carita, Alexandra Simões de Abreu, Ana Baião, André Pato, André Rijo, António Pedro Ferreira, Cesário Borga, Christiana Martins, Filipe Santos Costa, Frederico Carvalho, Gabriela Lourenço, Henrique Monteiro, Hugo Franco, Joana Pereira Bastos, Joana Vasconcelos, João Tordo, José Pedro Castanheira, José Ventura, Luís Faustino, Luísa Meireles, Manuela Goucha Soares, Marco Costa, Margarida Mota, Naide Gomes, Nuno Botelho, Nuno Fox, Paula Cosme Pinto, Paulo Paixão, Pedro Lomba, Raquel Moleiro, Rosa Pedroso Lima, Rui Cardoso, Rui Duarte Silva, Tiago Miranda, Valdemar Cruz, Zita Martins Gestora de Marca: Susana Freixo Produção Gráfica: João Paulo Batlle Y Font Secretariado: Conceição Domingos e Susana Rosa Copydesks: Expresso Documentação: Gesco Digitalização e Tratamento de Imagem: Medipress

25 Abril 40 anos | 3 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


S UM ÁRIO

06 PRESOS PELA PIDE EM VÉSPERAS DA REVOLUÇÃO A sete dias do 25 de Abril foram detidas as últimas três dezenas de presos políticos. O Expresso levou parte deles a Caxias e à sede da PIDE no Porto.

27 O MEU 25 DE ABRIL

Nasceram quase todos depois do 25 Abril (o mais novo tem 30 anos) e só um viveu a data, embora ainda bebé. Do Estado Novo sabem o que lhes contaram, da democracia conhecem o que viveram. Eis o que pensam do Portugal que mudou.

28 | ANDRÉ PATO Para o diretor de cena do Teatro D. Maria II, há liberdade que falta.

30 | ANDRÉ RIJO O mais jovem presidente de câmara considera que a hora é de esperança.

32 | GABRIELA LOURENÇO A jornalista, filha de Vasco Lourenço, habituou-se desde pequenina a ouvir as histórias de Abril contadas ao vivo.

34 | JOANA VASCONCELOS O 25 de Abril trouxe a futura artista para a terra dos pais, à descoberta.

ENTREVISTAS 20 | VASCO LOURENÇO

O escritor começou a celebrar a liberdade sem saber o que ela era.

O capitão de Abril diz que “não foi feito o julgamento do regime”. E acha que as Forças Armadas têm novamente legitimidade para intervir.

38 | MARCO COSTA

50 | ANTÓNIO BARRETO

36 | JOÃO TORDO

Histórias de infância, contadas pelo avô e pelo pai, preencheram o imaginário do 25 de Abril do CEO.

40 | NAIDE GOMES A atleta diz que há metas ainda por saltar, como as da prosperidade e das oportunidades de trabalho.

42 | PEDRO LOMBA Para o governante, tem de fazer-se a história da gente anónima, a que mais fez pelo país nos últimos 40 anos.

44 | ZITA MARTINS A investigadora da Royal Society University diz que Abril precisa de educação e de participação cívica.

O sociólogo afirma que “a democracia se fundou com base na pura promessa eleitoral, do cabrito com batatas”. E diz que o “nosso regime é impossível”.

110 | D. MANUEL MARTINS Para o bispo emérito de Setúbal, “há 55 artigos na Constituição que são Evangelho puro”. Mas “o sonho do 25 de Abril falhou”, diz D. Manuel.

80 | JOSÉ MANUEL FÉLIX RIBEIRO O economista considera que há uma continuidade entre o regime anterior e o atual. E a sociedade portuguesa “é quase totalmente corporativa”.

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S UMÁ RI O

85 OPOSIÇÕES 86 | COMUNISTAS O PCP chegou ao 25 de Abril com uma aura de coragem e de mistério.

89 | SOCIALISTAS

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64 | O DIA EM QUE A MÚSICA ANTECIPOU A REVOLUÇÃO No Coliseu de Lisboa, ‘Grândola’ é cantada de braço dado e em uníssono. Um prenúncio.

64 | A EXPULSÃO DO BISPO DO POVO Em Nampula, a ação de D. Manuel Vieira Pinto leva o regime a uma posição de força.

EM CONTAGEM DECRESCENTE

68 | ALIADOS APANHADOS DE SURPRESA

56 | GUINÉ EM NEGOCIAÇÃO SECRETA Um diplomata português discute em Londres, com o PAIGC, o fim da guerra. Uma cedência do regime, a menos de um mês do 25 de Abril.

Os diplomatas dos países ocidentais são incapazes de antever o golpe militar.

72 | OS DIAS FINAIS DE UM PAÍS À SOMBRA Poucas horas antes do início do golpe militar, Américo Tomás cumpre a sua agenda oficial.

As rotas da oposição não comunista irão desembocar na criação do PS.

94| MOVIMENTO ESTUDANTIL A ditadura tem de enfrentar novas armas, de jornais de parede a greves.

96| EXTREMA ESQUERDA As microorganizações clandestinas tiveram um papel maior do que se diz.

97 | CATÓLICOS PROGRESSISTAS A vigília da Capela do Rato, no final de 72, foi o ponto alto da oposição católica.

100 | SINDICALISMO Em setembro de 70 é dado o primeiro passo para a criação da Intersindical.

102 PROTAGONISTAS Episódios marcantes, evocados por quem os viveu, do fim da ditadura e do 25 de Abril.

102 | JOÃO PAULO DINIZ 104 | PEDRO FEYTOR PINTO 106 | MÁRIO DE OLIVEIRA

116 DIÁRIO SECRETO DE MANUEL MALAQUIAS

ICONOGRAFIA DA REVOLUÇÃO 18 | 46 | 76 | 92 | 108

CONTO

ANA MARIA MAGALHÃES E ISABEL ALÇADA 25 Abril 40 anos | 5

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AS ÚLT IM AS V Í TI MA S DA P I D E

PRESOS EM VÉSPERAS DA REVOLUÇÃO A 18 de abril de 1974 – faz exatamente 40 anos –, a polícia política prendeu trinta ativistas da oposição. Foram os últimos dos mais de 29 mil presos políticos registados. O Expresso levou alguns dos sobreviventes aos locais onde estiveram detidos (o forte de Caxias e a delegação da PIDE/DGS no Porto) e conta as suas histórias. TEXTOS JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA E MÓNICA BARROS FOTOGRAFIAS TIAGO MIRANDA

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a madrugada e manhã de dia 18 de abril de 1974, a Direção Geral de Segurança (DGS, a polícia política da ditadura) desencadeou uma gigantesca operação em Lisboa e no Porto, de que resultaram 30 presos – 15 em cada cidade. No próprio dia das detenções, a comissão executiva da CDE (Comissão Democrática Eleitoral, a organização frentista liderada

pelo clandestino PCP), emitiu um comunicado protestando contra a detenção na capital de 13 ativistas (a identidade dos outros só seria conhecida mais tarde). Dois dias depois, a polícia revelava os contornos da operação, através de um comunicado publicado obrigatoriamente e na íntegra em todos os jornais. Devido à proibição de partidos políticos – à exceção do partido único,

a Ação Nacional Popular -, a CDE apresentava os detidos simplesmente como “democratas”. Já a DGS garantia que estavam ligados a “várias organizações comunistas”. A DGS sabia o que fazia: os da capital estavam todos ligados ao clandestino PCP, desempenhando mesmo cargos de responsabilidade. Particularmente atingida foi a direção do setor intelectual

de Lisboa, cujo principal núcleo foi desarticulado e que incluía, entre outros, o editor António Manso Pinheiro e os jornalistas Fernando Correia e Mário Ventura Henriques. Após o fracassado golpe de 16 de março, protagonizado pelo Regimento das Caldas da Rainha, a polícia política afrouxara a vigilância sobre os militares. A prioridade passara a ser o 1º de Maio, uma jornada que fazia parte

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AS Ú LTI MAS VÍ T I MA S DA PI DE

40 anos depois, e a convite do Expresso, alguns dos últimos presos pelo Estado Novo voltaram ao forte de Caxias: Fernando Correia, Helena Neves, Fernando Penim Redondo, Sérgio Ribeiro, Rosa Penim Redondo e José Manuel Tengarrinha

obrigatória da agenda das oposições e, portanto, da DGS. No Porto, o alvo das atenções foi um grupo de jovens ativistas ligados à OCMLP, uma organização de extrema-esquerda inspirada no maoismo (ver págs. 16 e 17). Em Lisboa, na mira policial estava a CDE, a frente política dinamizada pelo PCP. Já a 6 de abril haviam sido detidos numa cooperativa meia centena

de oposicionistas, alguns dos quais remetidos para o forte-prisão de Caxias. Na “fornada” de 18 de abril, a maior parte das vítimas pertenciam ao setor intelectual do PCP, cuja identidade fora revelada por um funcionário clandestino, capturado em dezembro e violentamente torturado. Alertados para a prisão daquele camarada, foram vários os militantes do PCP

que, nas semanas seguintes, alteraram as suas rotinas ou se ausentaram mesmo de Lisboa. Viriam a ser detidos, um a um, a 18 de abril, para serem libertados às primeiras horas de 27, quando os portões de Caxias foram abertos para devolver à liberdade todos os seus 78 prisioneiros políticos, naquela que foi uma das primeiras decisões do poder saído da “revolução dos cravos”. 25 Abril 40 anos | 7

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AS ÚLT IM AS V Í TI MA S DA P I D E

HELENA NEVES DETIDA DE MADRUGADA COM O MARIDO

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elena Neves era o primeiro nome da lista de presos divulgada pela CDE. Jornalista, com colaboração no “República” e “Diário de Lisboa”, nascida em 1945 em Lisboa, vivia com o marido, Joaquim Gorjão Duarte, técnico da Corporação dos Transportes e Turismo. Foram ambos presos. “A detenção foi em nossa casa, por onde entrou, às 5 e tal da manhã, uma brigada da PIDE/DGS”, recorda Maria Helena Augusto das Neves Gorjão. Ambos militantes do PCP, ela aderira aos 17 anos, estudante no liceu D. João de Castro, a que se seguiu a licenciatura em Filosofia. O marido — quatro anos mais velho — entrou posteriormente. O casal já conhecia Caxias. Aliás, a primeira vez que foram detidos foi em conjunto, também em casa, em outubro de 1969, vésperas do início da campanha para as “eleições” para a Assembleia Nacional. Se ela foi libertada dois meses depois, ele acabou por ser condenado a 14 meses de prisão. Candidata a deputada pela CDE às “eleições” de 1973, voltou a ser presa em setembro em Torres Vedras, para uma estada em Caxias de apenas cinco dias. A terceira detenção “foi um bocado inesperada. Suspeitávamos de que tínhamos sido denunciados e estivemos um tempo a pairar em Cabreiros, perto de Viseu. Quando nos convencemos de que a denúncia não se confirmara, voltámos para casa e fomos mesmo apanhados.”

Helena Neves: antes do 25 de Abril fora convidada para trabalhar com Cunhal em Praga (em baixo, fotos da ficha da PIDE da jornalista)

A Caxias, logo no dia 25, chegou a mensagem, através da buzina de um automóvel, que tinha havido um golpe militar. “Recebi a notícia com ceticismo, até porque já tinha falhado outro golpe, a 16 de março. Dormi muito bem nessa noite, ao contrário de muitos companheiros. De manhã, quando vi passar alguns elementos das Forças Armadas, pensei que estivessem lá por

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À saída, deparei com a pessoa que me denunciou. Abraçou-me e disse: ‘Perdoa-me!’

causa da greve da fome de alguns presos. Fiquei muito escandalizada e gritei-lhes, agarrada às grades: ‘Não têm vergonha de estar aqui?!’ ‘Tenha calma que desta vez é que sai’ — respondeu-me um deles. Fiquei perplexa.” Percebendo que a libertação estava para breve, não perdeu tempo. “Agarrei no lençol de banho, meti lá tudo o que podia, atei-o e quando apareceram os fuzileiros já estava com a trouxa pronta.” Durante umas horas ainda pairou a dúvida sobre quem acabaria por ser libertado. O presidente da Junta de Salvação Nacional, general António de Spínola, insistia em sancionar, entre os 77 prisioneiros políticos (68 homens e 9 mulheres) de Caxias, aqueles que haviam cometido delitos de sangue, o que incluía militantes de organizações como a LUAR, a FAP, as BR e a ARA. Os prisioneiros, porém — apoiados pelos familiares e advogados —, protestaram firmemente, reclamando a libertação incondicional de todos. “Chegámos a ameaçar que, se não se verificasse a libertação de todos, declararnos-íamos presos políticos do novo regime.” Os primeiros presos começam a sair por volta da meia-noite. No pátio, “foi uma emoção indescritível. Guardei uma fotografia que saiu no jornal ‘O Século’, em que estou de braços abertos com o cabelo às três pancadas. Achava que estava a abraçar aquilo que não pode ser abraçado, que não tem dimensão, que é a libertação. É algo que tento contar às minhas filhas e netos, mas não sou capaz, transcende tudo.” Reformada e a dar aulas na Universidade Lusófona, tem uma recordação inesquecível: “Deparei com a pessoa que me denunciou e que estava completamente

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diferente, envelhecida e terrivelmente amarfanhada. Abraçou-me e disse-me: ‘Perdoa-me, perdoa-me!’ Não o posso esquecer. Fui várias vezes criticada por lhe falar quando o encontrava.” A emoção de sair da prisão e ser recebida pelos braços fortes de uma multidão extasiada foi marcante. “Senti-me mal fisicamente, parecia que o coração me ia saltar. Depois encontrei os meus pais, na alegria de um reencontro com todos os que amava e com o sonho que nos conduziu desde muito jovens, de um país sem ditadura.” Helena Neves e Gorjão Duarte passaram a desempenhar funções de crescente responsabilidade no PCP. Ainda antes do 25 de Abril, Helena foi “convidada para ir viver para a Checoslováquia, com a incumbência de escrever textos para Álvaro Cunhal. Estive um mês a pensar e recusei.” Foi fundadora do Movimento Democrático das Mulheres e jornalista do semanário “Avante!”. Quanto ao marido, foi secretário e chefe de gabinete de Álvaro Cunhal enquanto ministro sem pasta dos primeiros quatro governos provisórios. Manteve-se, depois, como secretário pessoal do líder do PCP. Ambos pertenceram ao Comité Central. Gorjão Duarte faleceu em 1991, vítima de leucemia. Helena deixou o PCP em 1992, “no seguimento da perestroika soviética, que foi muito mal compreendida. O meu marido ainda soube da minha decisão. Escrevi uma carta a comunicar a demissão, que li numa reunião do Comité Central e que nunca tornei pública. Aliás, nunca prestei declarações sobre a minha saída do PCP.” Deputada do Bloco de Esquerda de 1999 a 2002, nunca mais voltara a Caxias. ”

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Antes de ir para casa celebrar, passei pelo jornal, para deixar um texto que escrevera na cela, sobre os últimos momentos da minha prisão. Fui jornalista até ao fim

Fernando Correia: autor do primeiro depoimento de um ex-preso publicado na imprensa

FERNANDO CORREIA REPÓRTER MESMO NA CELA DE CAXIAS

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oi de Fernando Correia o primeiro depoimento de um ex-preso político acabado de sair de Caxias. Jornalista do “Diário de Lisboa”, ali publicou o seu texto, no mesmo dia em que voltou a ser homem livre, 27 de abril de 1974. “As minhas últimas horas em Caxias foram um bocado insólitas”, recorda o ainda hoje jornalista. As dificuldades levantadas por Spínola à libertação de todos

os presos obrigaram a um prolongado e angustiante compasso de espera. “Voltei para a minha cela e como tinha papel e lápis achei que seria interessante começar a escrever como tinham sido as minhas últimas horas, a partir do momento em que tomei conhecimento do que se passava lá fora. Quando finalmente saímos todos, tinha a minha mulher e a família à espera, com um carro. ‘Vamos embora para casa, vamos comemorar!’

— disseram-me. Claro que concordei, mas antes tínhamos de passar pelo ‘Diário de Lisboa’, o jornal onde trabalhava, para lhes entregar um texto que escrevera.” Era já dia 27 quando Fernando Correia entregou a um contínuo do jornal, na delegação da Rua Sampaio Pina, um texto manuscrito que viria a ser publicado no mesmo dia, na página 3, com o título “Depoimento de um jornalista do ‘Diário de Lisboa’ hoje libertado em Caxias”. “Em vez de ter ido para casa ter com os meus filhos e celebrar, resolvi passar antes pelo jornal — mas acho que fiz bem, fui jornalista até ao fim.” O texto revela a profunda angústia que o assaltou 25 Abril 40 anos | 9

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durante a noite de 25 para 26, provocada pela incerteza sobre quem estaria por trás do golpe: “Quem tomara conta da situação? Que militares tinham dado o golpe? Tratava-se de um abrandamento do regime ou mesmo da sua abolição ou, pelo contrário, do seu endurecimento? Não sabia o que pensar. Deitei-me e tentei dormir, mas os meus pensamentos em reboliço apenas intermitentemente mo permitiram. (...) Receei o pior, represálias sobre os presos. Recordei que no passado acontecimentos desses ocorreram, em circunstâncias semelhantes. Tive momentos de desespero. Receei o pior.” Natural de Coimbra, onde nasceu em 1942, Fernando António Pinheiro Correia vivia na Avenida do Uruguai, na mesma casa de hoje. Foi lá que a DGS o foi buscar, de madrugada. Era militante do PCP desde 1962, ano da grande crise académica, quando entrou na Faculdade de Letras de Lisboa. Jornalista profissional, colaborador da revista “Seara Nova”, trabalhava no vespertino “Diário de Lisboa”, depois de se ter estreado, em 1966, no “Diário Popular”. “Nunca tinha estado preso e não cheguei propriamente a ser torturado. Tive umas duas ou três ‘conversas’ com um inspetor da PIDE. Percebi rapidamente que alguém já tinha contado tudo e voltei para a minha cela.” A seguir ao 25 de Abril trocou o “Lisboa” pelo “Avante!”, onde trabalhou uma dúzia de anos. Seguiu-se a agência soviética “Novosti” e em 1988 passou a chefiar a redação da revista cultural “Vértice”. Docente de jornalismo na Universidade Lusófona, é editor da revista “Jornalismo e Jornalistas” e mantém-se militante do PCP.

Fernando Penim Redondo. Militante do PCP desde 1966, saiu com a Perestroika

FERNANDO E ROSA PENIM REDONDO EM CELAS SEPARADAS

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utro casal preso foi Fernando José e Maria Rosa Penim Redondo. Trabalhando ambos na IBM, viviam na Urbanização da Portela. Nascido em Lisboa, em 1945, Fernando era delegado comercial; igualmente lisboeta, um ano mais nova, Maria Rosa era instrumentista de programação. “Fui preso de manhã, quando ia a sair para o emprego”, conta Fernando. “Revolveram a casa toda e

chegaram a ter na mão um embrulho extremamente comprometedor mas que não abriram — ainda hoje não percebo porquê...” Era um molho de panfletos sobre o 1º de maio. “Nessa altura, a nossa única tarefa era distribuir o ‘Avante!’, que alguém nos fazia chegar.” Fernando frequentara o curso de Economia e aderira ao PCP em 1966, antes de ir para a guerra. No ano seguinte conheceu Maria Rosa no Cineclube Universitário — e não só se enamoraram como ele tratou de a recrutar para o partido. Apaixonado pela fotografia, “cheguei a fotografar uns Pides que me perseguiam. Como estávamos a ser vigiados, decidimos cortar a ligação com a organização

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Os Pides revolveram-me a casa toda e chegaram a ter nas mãos um embrulho comprometedor, mas que felizmente não abriram. Eram panfletos sobre o 1º de Maio

do PCP.” A opção foi comunicada ao “controleiro”. “Só o conhecíamos pelo pseudónimo, que ia mudando regularmente. Só soubemos o verdadeiro nome depois do 25 de Abril.” Levado pela polícia, “disseram à minha mulher que era só para me fazerem umas perguntas. Mas quando entrei em Caxias e ouvi fecharem-se atrás de mim seis ou sete portas — um ruído que nunca consegui esquecer —, sentei-me na cela e percebi que estava realmente preso.” Maria Rosa assistiu à detenção do marido, sempre à espera de também ser levada. “Deixaram-me ficar, presumo que à espera que eu fosse contactar alguém, o que obviamente não fiz.

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Queimei os documentos todos, incluindo o famoso pacote que tiveram na mão. Depois fui à IBM dizer o que se passava e fiz aquilo que era costume aos familiares dos presos: ir à sede da PIDE perguntar pelo meu marido. Disseram-me que estava em Caxias para responder a umas questões e que era bom eu ir ter com ele. Meteramme num carro e quando chegámos perguntaram se tinha alguém que tomasse conta do meu filho. Dei-lhes um número de telefone, fizeram os procedimentos normais e lá fiquei também.” Licenciada em História, Maria Rosa ainda teve a visita dos pais. “A seguir levaram-me para interrogatório, durante dois dias e duas noites.

De repente mandaram-me de volta para a cela, onde fiquei a dormir. Quando acordei vi que em vez da guarda normal estavam marinheiros e percebi que as coisas iam mudar”. Quanto a Fernando, foi interrogado durante três dias. “Não fui agredido fisicamente, mas impedido de dormir. Depois enviaramme para a cela e adormeci profundamente. Quando acordei havia um enorme ruído. Comecei a bater na porta e alguém abriu o postigo: era o Miguel Judas, que estava na cela em frente e explicou que havia uma revolução. Passado algum tempo abriu-se a porta e apareceu um antigo colega dos fuzileiros na Guiné.” Trabalharam durante anos na IBM. Se ela foi delegada

As fotos das fichas da PIDE e o casal Penim Redondo nos anos sessenta

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Ao voltar a Caxias, não pude deixar de pensar que ganhei àqueles que ali me puseram. Ganhámos todos, aliás. E isso é bom!

sindical, ele pertenceu à comissão de trabalhadores. A “débacle da União Soviética” foi um fator de afastamento do PCP. No congresso de 1990, ele foi eleito delegado. “Fiz uma intervenção bastante crítica, que está no blogue ‘Dotecome’. Mais tarde publicámos o livro ‘Do Capitalismo para o Digitalismo’. Passei pela Renovação Comunista, mas agora sou independente.” Dedicado finalmente à fotografia, define-se como “comunista liberal”. Ambos reformados, revisitaram Caxias pela primeira vez. “Ao voltar à prisão” — observa Maria Rosa — “não pude deixar de pensar que ganhei àqueles que me puseram aqui. Ganhámos todos, aliás. E isso é bom!” 25 Abril 40 anos | 11

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AS ÚLT IM AS V Í TI MA S DA P I D E

SÉRGIO RIBEIRO, FUTURO DEPUTADO EUROPEU

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Sérgio Ribeiro compara a saída da prisão a “um segundo parto”

Ao sair de Caxias fui ter com um jornalista belga meu amigo que estava no hotel Altis e que me obrigou a tomar um banho de espuma

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cabado de vir de Bruxelas, onde vivia parte do tempo com a companheira e preparava um doutoramento como bolseiro da Gulbenkian, Sérgio Ribeiro foi preso por acaso, ao chegar às instalações do semanário oposicionista “Notícias da Amadora”, onde colaborava. Nascido em Lisboa em 1935 mas desde sempre ligado a Vila Nova de Ourém, Sérgio José Ferreira Ribeiro já cumprira 14 meses de prisão, entre 1963-64. Militante do PCP desde 1959, estava ligado à editora Prelo, o que lhe valera numerosas convocatórias à sede da PIDE/DGS. Licenciado pelo ISCEF, pertencia à célula clandestina dos economistas e tinha uma coluna (com pseudónimo) no matutino “O Século”. Colaborava com vários sindicatos anticorporativos, prestando assessoria na contratação coletiva. “No meio de tudo isto, houve uma gota de água que fez encher o copo: a minha participação num programa da televisão belga, chamado ‘8 milhões 8’.” A seguir ao golpe de 16 de março a televisão propôs-se fazer um programa sobre Portugal. O economista foi um dos apoios dos repórteres belgas, entre os quais Josy Dubié, que se deslocaram a Portugal. “Ajudei na montagem e o programa foi emitido no dia 2 de abril. Eu próprio prestei um depoimento como ex-preso político. Depois da emissão fiz um disparate: eu e a minha companheira viemos de carro passar a Páscoa a Portugal e quando

fui ao ‘Notícias da Amadora’ entregar um artigo, apareceu uma brigada da PIDE. Iam prender o diretor, Orlando Gonçalves, e depararam também comigo. Ou seja, fui apanhado por acaso, uma espécie de bónus...” Instalado na cela 44 do reduto Norte, teve “um arremedo de interrogatório com o celebérrimo inspetor Tinoco, que disse que voltaríamos a conversar daí a dias. Fui para a cela à espera da tortura, mas em vez dela veio a libertação”. Para Sérgio Ribeiro, a saída de Caxias, “foi qualquer coisa de incontável, embora todos os anos o conte dezenas de vezes...” Costuma mesmo comparar o 25 de Abril a “um segundo parto”.

Logo que soube do golpe em Lisboa, o jornalista belga Josy Dubié meteu-se no primeiro avião para Madrid e passou a fronteira a salto. “Quando saí de Caxias ele já cá estava. Há um episódio que nunca esquecerei” — e já está relatado no livro de memórias “...Porque Vivi e Quero Contar”. “Quando cheguei a casa dos meus pais, na madrugada de 27, saído da prisão, tinha um telefonema do

Josy, que estava no hotel Altis e queria falar comigo. Fui logo ter com ele: apareceu-me num corredor, completamente nu, a dizer: ‘Vais imediatamente tomar um banho de espuma que te preparei, porque não quero falar contigo enquanto não tomares banho’. E assim fiz. Depois segui para a noite e foi uma madrugada espantosa.” Logo em junho, chefiou a primeira delegação do novo regime à conferência anual da OIT, organização de que viria a ser consultor. Concluiu o doutoramento na Universidade Livre de Bruxelas em 1986. Deixou o Comité Central do PCP no Congresso de 2012. Em 2005 deixara de ser deputado ao Parlamento Europeu. Reformado, vive em Ourém.

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AS Ú LTI MAS VÍ T I MA S DA PI DE

JOSÉ TENGARRINHA O LÍDER DA CDE

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a última vaga de prisões do Estado Novo, a figura com maior currículo político era José Manuel Tengarrinha. Jornalista e historiador, era o principal quadro do clandestino PCP (a que aderira em 1954) na organização frentista CDE, que participou nas campanhas eleitorais de 1969 e 1973. Nascido em 1932 em Portimão, a primeira prisão de José Manuel Marques do Carmo Mendes Tengarrinha não consta do “Registo Geral de Presos” da PIDE/ DGS, uma vez que ocorreu durante o serviço militar. “Fui internado na Colónia Penal de Penamacor durante mais de um ano, com um tratamento brutal”. Seguiuse uma curta detenção, “após uma manifestação em defesa da paz”. A primeira prisão digna de figurar no registo da polícia foi em dezembro de 1961. “Estive no Aljube. Os curros eram abomináveis, não se via luz nem se sabia se era dia se era noite.” Voltou a ser detido a 22 de setembro de 1973, vésperas “das pseudo-eleições” para a Assembleia Nacional. Um dos principais quadros do PCP que não estavam na clandestinidade, era o mais proeminente candidato da CDE em Lisboa. “Fui submetido a quatro dias de interrogatório, ouvindo as vozes dos familiares que eles gravavam durante as visitas. Prometeram que sairia assim que me comprometesse por escrito a não falar da guerra colonial durante a campanha eleitoral.” Tengarrinha recusou. “Caetano percebia que

seria muito negativo que no estrangeiro se soubesse que um candidato estava preso. Queria libertar-me, mas antes queria o meu compromisso. Foi um jogo do gato e do rato... Na véspera do início da campanha fui chamado várias vezes, à espera que mudasse de ideias.” Inabalável, preparouse para dormir. “Vesti o pijama e meti-me na cama. Quando faltavam cinco minutos para a meia-noite, apareceu um Pide: ‘Venha depressa’. No fundo do corredor mostraram um papel para assinar, mas recusei. À meia-noite libertaram-me sem qualquer compromisso.” A derradeira prisão foi descrita pelo próprio no livro “Combates pela Democracia”, a partir de notas tomadas na cela nº 51. “Eu não fui denunciado. Fui preso porque a DGS sabia que me reunia com militares, para preparar o apoio ao golpe que estava para breve. Além disso receavam que tivesse qualquer ação no sentido da mobilização para o 1º de maio.” O interrogatório foi suspenso a 23. “Como me recusei a responder, o inspetor da PIDE ameaçou: ‘Não queres falar, mas amanhã ou falas ou sais daqui morto.’ Na manhã seguinte esperei que me viessem chamar. Ninguém me chamou, nem recebemos aquilo a que chamavam pequeno-almoço. O silêncio era total e desconfiei que houvesse qualquer coisa. Na cela do lado estava o Sena Lopes. Comunicávamos por batidelas na parede e disse-me que tinha tido a informação de que havia um golpe militar. Temi que fosse um golpe de direita, fiquei numa tensão insustentável e decidi entrincheirar-me na cela. Foi a noite mais fria da minha vida. De manhã

José Manuel Tengarrinha era o principal quadro do PCP na frente CDE (em baixo, foto da ficha da PIDE do historiador)

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Caetano desejava libertar-me, mas antes queria que eu me comprometesse por escrito a não falar da guerra colonial durante a campanha eleitoral. Recusei

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ouvi passos pesados, a porta da cela abriu-se e apareceu um militar alto e loiro, de metralhadora na mão. ‘Acabou, paciência!’ — pensei eu. Nunca saberemos como nos iremos situar perante uma morte iminente... Perguntou o meu nome e disse: ‘Pode sair. Está livre.’” A saída de Caxias ainda iria demorar. “Era noite e fiquei encandeado porque os holofotes da televisão eram fortíssimos e incidiam sobre mim. Fui aos ombros de muitas pessoas e quando, finalmente, pude ver, era um espetáculo impressionante, um mar de gente.” Ainda de madrugada, foi convocado para comparecer perante a Junta de Salvação Nacional. Era a continuação de um percurso que o levou à presidência do MDP/CDE,

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À saída do forte fui levado aos ombros. Quando finalmente pude ver, era um espetáculo impressionante, um mar de gente de que foi deputado até 1987. Quando da oficialização do MDP como partido, em finais de 1974, desvinculou-se do PCP. Parceiros de coligação durante uma dezena de anos, o MDP e o seu líder entraram em rutura com o PCP em 1987. Independente desde então, é catedrático jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa e trabalha no segundo volume da “Nova História da Imprensa Portuguesa”.

DOIS AUSENTES À sessão fotográfica dos últimos detidos não pôde comparecer, por razões de saúde, Albano Lima. Com 77 anos e ainda militante do PCP, era jornalista da agência France Presse e colaborava na “Seara Nova”. Depois do 25 de Abril, trabalhou no “Avante!”. Quanto a José Alberto da Costa Carvalho optou por não se associar. Recém-licenciado, internista no hospital de São

José — onde mais tarde foi cirurgião plástico —, estava organizado na célula dos médicos. “Era um mero distribuidor de ‘Avantes!’, nada mais”. Nascido em 1945, vivia em Lisboa. “Em Caxias, fui interrogado durante pouco tempo e não fui torturado.” Reformado, continua a pertencer ao PCP, “mas não organizado e com uma militância muito passiva.” Convidado pelo Expresso a juntar-se aos companheiros de cárcere, escusou-se. “Não tem cabimento aparecer ao lado de quem foi realmente importante.” No dia 18 de abril a DGS andou à procura de mais quadros do PCP. Foi a casa designadamente de José Garibaldi. Acordado de madrugada, conseguiu evadir-se pelo quintal... ^

DOS MORTOS TAMBÉM REZA A HISTÓRIA Dos 15 presos em Lisboa, sete já faleceram. O mais velho era Orlando Gonçalves e faria este ano 93 anos. Proprietário do semanário “Notícias da Amadora” e seu diretor de facto (embora a Censura sempre tenha recusado o nome no cabeçalho), foi detido nas instalações do jornal. Desde sempre ligado ao PCP, estivera preso um ano e meio durante a Segunda Guerra Mundial, por atividades relacionadas com o Socorro Vermelho Internacional. Em democracia, presidiu à comissão administrativa da câmara de Oeiras e foi membro das assembleias municipais de Oeiras e Amadora. Faleceu em 1994, ainda dono e diretor do jornal . Mário Sena Lopes era o detido que possuía maior cadastro. Com cinco

Orlando Gonçalves e mulher, na tipografia do seu semanário, o “Notícias da Amadora”, onde a DGS o prendeu

detenções registadas, duas das quais em 1953, cumprira uma pena de quase seis anos. Bancário de profissão, nascido no Porto em 1924, militante do PCP, era casado

com Alice Sena Lopes, que trabalhou no gabinete de Álvaro Cunhal enquanto ministro sem pasta. Dois dos já falecidos eram jornalistas profissionais: Mário Ventura Henriques e Alfredo Figueiredo Filipe. Ambos lisboetas, o primeiro trabalhava no “Diário Popular” e o segundo no “República”. Após o 25 de Abril mudaram-se ambos para o “Diário de

Notícias”. Também ligado aos jornais estava Mateus Vítor Mendes Branco. Madeirense, era empregado no matutino “O Século”. Viria a ser administrador de duas empresas do PCP, a Editorial “Avante!” e a Caminho. Proprietário de outra editora, a Estampa, também António Manso Pinheiro foi preso há 40 anos, tal como Joaquim Gorjão Duarte (ver texto principal). Ainda no dia 18 de abril, a PSP (e não a DGS) deteve em Lisboa João José Cayolla da Veiga, de 39 anos, “proprietário” de profissão. Levado para Caxias, foi solto dois dias depois, “sem qualquer formalidade”, como se lê no “Registo Geral de Presos”, o livro que identifica e enumera os mais de 29.500 presos durante os 48 anos da ditadura. ^

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José Carlos Almeida, o “preso sem nome” do “quarto 13” FOTOGRAFIA DE JOSÉ VENTURA

O DETIDO QUE NUNCA SE IDENTIFICOU A quatro dias do 25 de Abril, José Carlos Almeida foi abordado num autocarro por agentes da polícia política. “Mãos ao alto, não faça barulho”, ordenaram, de pistola apontada. Em vez de ficar calado, José Carlos Almeida, hoje com 82 anos, começou a gritar: “Bandidos, são os gajos da PIDE”. O militante comunista tinha instruções do partido para protestar em voz alta, caso fosse alguma vez detido. Esta era uma das muitas diretrizes de um pequeno livro das ‘Edições Avante!’, que ainda guarda, intitulado “Não Falar na Polícia”. “O objetivo era o de fazer saber-se que se tinha sido preso aos outros camaradas. E soube-se, de facto.” José Carlos Almeida, que viveu doze anos na clandestinidade, foi levado de carro para a sede da PIDE no Porto, depois de levar com algumas coronhadas na cabeça. E horas depois viajou da rua do Heroísmo para o forte de Caxias, algemado com as mãos atrás das costas. Um trajeto feito com algumas peripécias. “Na entrada para Caxias, os agentes perderam-se. Ainda me perguntaram se eu sabia o caminho... Só em Algés, depois de pedir instruções a um polícia, conseguiram chegar à prisão”, conta. Em Caxias, foi interrogado várias vezes, e detido na sala de tortura da ala sul, mas nunca revelou o nome

José Carlos Almeida foi preso pela PIDE no Porto, na manhã de 21 de abril de 1974, depois de doze anos de clandestinidade. Transferido para Caxias, nunca revelou a identidade aos carcereiros. Esteve preso cinco dias

ou a morada, nem prestou qualquer declaração. “Hoje, dizem-me que foi um erro e que deveria ter dado a identificação nos serviços prisionais, para a família ficar a saber onde me encontrava.” Mas José Carlos Almeida decidiu resistir até às últimas consequências. Além disso, a mulher, também funcionária do PCP, encontrava-se a viver na clandestinidade. Acabaria por ser algemado e levado de carrinha para o reduto norte, local onde se encontravam os presos comuns. “Só na manhã seguinte à revolução, a 26, é que comecei a ouvir gritos. Ainda julguei que estivessem a bater em alguém.” Quando abriram a porta da cela onde se encontrava, o pensamento imediato foi: “Vão dar-me porrada.” Em vez disso, um oficial de Marinha avisou-o que o regime tinha sido derrubado. “Julguei que estava a ter uma alucinação.” Logo que saiu da cela, viu muitas caras conhecidas, todas alegres. Só então é que o preso sem nome se decidiu identificar. “Lá fora, as pessoas gritavam: ‘liberdade para os presos’. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida”. Apesar do ambiente de festa, em Caxias os presos continuavam nas celas. “Nós exigíamos sair do forte e festejar nas ruas”. Com alguma confusão pelo meio, acabaram por sair, ao início da noite de 26. “O primeiro foi o Adelino da Palma Carlos. Levava uma bandeira portuguesa”, recorda. Almeida deixou Caxias com a mesma camisa ensanguentada que vestia quando fora detido no dia 21, nos arredores do Porto. Levava no bolso o maço de tabaco Longines com uns poucos cigarros. Contra todas as expectativas acabou por estar preso apenas durante cinco dias. “Fui o último funcionário do PCP a ser preso pela PIDE.” Hoje, guarda com carinho a sua ficha da prisão. Na primeira página pode ler-se ‘preso sem nome’ e ‘quarto 13’. No relatório de duas páginas, escrito à máquina, confirma-se que o recluso se apresentara com um nome falso (Fernando Duarte Bastos, a identificação que constava no seu Bilhete de Identidade) e é relatado com detalhe o modo como foi preso. “Foi um camarada que me denunciou”, diz com um suspiro. ^ HUGO FRANCO

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AS ÚLT IM AS V Í TI MA S DA P I D E

A LIBERDADE POR 30 CONTOS No dia 25 de abril, agentes da PIDE no Porto quiseram “oferecer” a liberdade aos presos a troco de dinheiro

TEXTO VALDEMAR CRUZ

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o dia de todos os prodígios, muitos foram os sucessos inverosímeis, vastos foram os momentos de realidade forçados a tomar a aparência de ficção. Isso terá pensado anos mais tarde Alfredo Vieira, 68 anos, ao recordar o dia 25 de abril de 1974. Tinha então 28 anos, estava preso há sete dias nos calabouços da PIDE/DGS, no Porto, desconhecia ainda o sentido ou a dimensão das movimentações no exterior, como ignorava que ao início da tarde um agente da polícia política telefonara para a mulher, Madalena, professora numa escola da cidade, para lhe fazer a mais inusitada das propostas: se pusesse em cima da mesa trinta contos, ou seja,

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trinta mil escudos (€150), o seu companheiro poderia sair em liberdade naquele mesmo dia. Em 1974 o vencimento mensal de um professor superava em pouco os três mil escudos (€15). Alfredo, nos últimos e longos anos o verdadeiro braço-direito do escultor José Rodrigues, para lá de administrar um ateliê de design, fazia parte daquela que acabou por ser, no Porto, a última leva de detidos pela polícia política. O Expresso reuniu cinco dos 15 homens então detidos: Mário Nogueira, os irmãos Alfredo e Rui Vieira, António Pereira Soares e Hernâni Macedo. Para lá das idades, todos na casa dos vinte anos, unia-os a pertença geográfica à mesma

zona do Porto, a freguesia de Paranhos, e a frequência do Grupo Desportivo, Recreativo e Cultural de Paranhos. A partir da coletividade muitos congeminavam e concretizavam ações subversivas, quase sempre relacionadas com a denúncia e o repúdio pela guerra colonial. Como recorda Alfredo Vieira, “era um trabalho de bairro operário”, embora a estrutura estivesse montada de tal ordem que, explica António Pereira Soares, presidente durante dez anos do Sindicato dos Profissionais de Laticínios, “aquilo era já quase uma célula que se estendia às empresas”. Embora entre aquele conjunto de resistentes houvesse vários militantes do António Pereira Soares, Alfredo Vieira, Mário Nogueira, Hernâni Macedo e Rui Vieira, nas antigas instalações da PIDE/DGS no Porto, na Rua do Heroísmo FOTOGRAFIA DE RUI DUARTE SILVA

São retirados das celas para locais mais afastados do contacto com a rua. Chega-lhes o rumor de um movimento de tropas e isso não os tranquiliza: os golpes militares são todos de direita

PCP, parte importante deste núcleo de Paranhos tinha uma ligação orgânica à OCMLP (Organização Comunista Marxista Leninista), criada em 1973 a partir da fusão dos núcleos “O Comunista” com o grupo do Porto, Comité Operário, que publicava o jornal “O Grito do Povo” desde o início de 1971. NAS MALHAS DA POLÍCIA A partir do Grupo Desportivo organizavam passeios a vários pontos do país, os quais funcionavam como cobertura para reuniões e debates. Era a consciencialização política a funcionar, acompanhada de pinturas nas ruas contra a guerra colonial e a frequente distribuição de panfletos. Vigilantes, foram percebendo o crescente cerco policial. A prisão de Nogueira, a 1 de abril, fez soar campainhas de alarme, mas o processo era já imparável. Caíram todos nas malhas da polícia política nos dias seguintes, e mantinham-se expectantes quanto ao que podia acontecer quando, sem o saberem no interior da cadeia, no exterior o país acordava com as movimentações militares. As notícias e os efeitos da revolução demoraram a chegar ao Porto. Durante o dia 25 quase nada aconteceu na cidade. No edifício da PIDE, os presos são retirados das celas para locais mais afastados do contacto com a rua. Intuem a hipótese de algo de anormal poder estar a passar-se. Chega-lhes o rumor de um movimento militar e isso não os tranquiliza. Hernâni Macedo, então apenas com 20 anos, recorda-se de haver a perceção “de, em termos históricos, os golpes militares serem todos de direita. Isso deu-nos uma angústia muito grande. Desconhecíamos o que nos ia acontecer”.

É quando estão neste impasse que alguns são confrontados com a mais surpreendente das propostas. Na tarde do dia 25, António Pereira Soares é chamado. Depois de tantos dias de interrogatórios, a saída está ali à mão de semear, dizem-lhe. Basta-lhe entregar dez mil escudos. Não aceita, desde logo por não ter meios para desencantar, assim do pé para a mão, uma verba como aquela. Surpreendida e angustiada com o telefonema recebido, a mulher de Alfredo Vieira corre para casa da mãe, no bairro de Paranhos, à procura de auxílio. Quer ver o marido libertado o mais rapidamente possível e, para isso, está disposta a tudo. Como a mãe não tem a verba pedida optam, em desespero, por apelar aos vizinhos. A cotização feita produz resultados. Com os trinta contos na mão, Madalena apresenta-se na rua do Heroísmo, sede da PIDE, pelas 17h30. Entrega o dinheiro e fica à espera. Lá dentro prosseguem as movimentações, com os Pides a tentarem fazer negócio com a liberdade. Alfredo é por fim chamado. Continua a ignorar tudo, inclusive o gesto da mulher. Assombrado, ouve ser-lhe comunicado que pode sair. São já 20 horas. Ao abandonar o edifício da rua do Heroísmo a revolução há muito está na rua e triunfante. Só no dia 26 os restantes presos sentem o perfume da liberdade. No exterior, a recebê-los, destacam-se as figuras de Ruy Luís Gomes e Virgínia de Moura. Seis meses após o 25 de Abril, Alfredo Vieira é chamado ao Quartel-General. Os militares têm um envelope para lhe entregar. Lá dentro, no mesmo invólucro entregue por Madalena, estão 30 mil escudos e o relógio que lhe fora apreendido no dia da prisão. Aquele era mesmo o tempo de todos os prodígios.^ 25 Abril 40 anos | 17

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O tempo das ocupações NAS TRANSFORMAÇÕES da estrutura económica após o 25 de Abril, o maior simbolismo deu-se com a Reforma Agrária, o laboratório de vanguarda das experiências da revolução. Sobretudo nos campos do Alentejo, propriedades mudaram de mãos, em ordem ao lema "a terra a quem a trabalha". Uma dinâmica coletivista comandada pelo PCP e apoiada por setores do MFA. O Verão Quente de 1975, tempo de enorme poder de sindicatos e comissões de trabalhadores, ficou também marcado pela ocupação de casas, devolutas ou deixadas vazias pelos seus proprietários, em fuga devido ao Processo Revolucionário em Curso (PREC). Foi igualmente o período áureo das nacionalizações, em muitos setores, da banca aos transportes, dos seguros à comunicações, da siderurgia à celulose. O Estado chegou a ser dono de 1300 empresas. No capítulo da ocupação de terras, talvez o caso mais emblemático e mediatizado tenha ocorrido no Ribatejo. Na Torre Bela (Carregado), um oficial do MFA instiga os trabalhadores a tomarem conta da herdade do Duque de Lafões: "Vocês ocupam e depois a lei há de vir...". ^ PAULO PAIXÃO

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“Na Herdade do Val Fanado terra rica em trigo e gado Freguesia de Albernoa! O povo era explorado por Mariana Vilhena burguesa, vil e patroa! (...) Até que um dia o povo de foice e punho no ar num só grito disse não! Quarenta e um trabalhadores homens do campo e mulheres fizeram a ocupação! (...) As dificuldades virão porque os ocupantes sabem que o governo é dos burgueses! Por isso pedem apoio a todos os seus irmãos, operários e camponeses!”

© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C.

© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C.

GAC - Grupo de Ação Cultural ("Herdade do Val Fanado"

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VASCO LOURENÇO “NÃO FOI FEITO O JULGAMENTO DO REGIME”

ENTREVISTA HENRIQUE MONTEIRO JOANA PEREIRA BASTOS FOTOGRAFIAS JOSÉ VENTURA

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ENT R EVIS TA

VASCO LOURENÇO

Vasco Lourenço, frente ao Quartel do Carmo, em Lisboa, onde se rendeu Marcello Caetano

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uando chegou a Lisboa a 29 de abril de 1974, vindo dos Açores onde estava de castigo, Vasco Lourenço deitou as “mãos à cabeça” perante a desorganização que encontrou no Posto de Comando do MFA. “Preparou-se muito mal o dia seguinte”, diz. E mesmo o êxito do golpe “foi um autêntico milagre”. Aos 71 anos, o presidente da Associação 25 de Abril é diariamente abordado na rua por pessoas que pedem uma nova revolução. Quarenta anos depois, defende que as Forças Armadas têm novamente legitimidade para intervir, desta vez contra a destruição da classe média e do Estado social.

O 25 de Abril nasceu sobretudo por cansaço da Guerra Colonial e por questões socioprofissionais. A democracia era uma preocupação secundária? Na primeira reunião do movimento, em Alcáçovas, a 9 de setembro de 1973, éramos 136 capitães e subalternos e a grande maioria estava lá por razões corporativas, porque sentiam que lhes estavam a meter a mão no bolso. Depois havia dois outros grupos: um, mais pequeno, que ia por companheirismo. E outro, disperso, no qual eu me incluía, sem fazer ideia de quantos mais pensavam da mesma forma, que achava que se devia aproveitar para mudar as coisas. Não tinha dúvida nenhuma que, na altura, este grupo era minoritário. Os outros aderiram rapidamente? Rapidamente percebemos que não se

opunham. Aliás, o processo foi extremamente rápido. A conspiração só durou oito meses. Pelo meio há o 16 de Março, o golpe falhado que dá a ideia que está tudo perdido... Ainda hoje o 16 de Março é muito controverso. É feito dentro do movimento, mas fora das estruturas, em cima do joelho. O elemento que se envolve mais é o Otelo, mas acaba por não ser detetado e não ser preso. Mas põe em causa a evolução de tudo. Nós tínhamos uma direção de três elementos: o Vítor Alves, que era o responsável pela ligação à Marinha e à Força Aérea, o Otelo, que era o homem do secretariado, e eu coordenava a parte operacional. Mas eu tinha acabado de ser preso e transferido para os Açores. O Salgueiro Maia, quando é contactado para vir, diz: “Eh, pá, mas o Vasco sabe que

eu preciso de 48 horas para me municiar”. Como eu não estava, a ligação não funcionou. O Otelo foi depois extraordinariamente importante no planeamento e na execução do 25 de Abril. Correu tudo bem, mas foi um autêntico milagre. Porquê? Teve a sua componente de sorte. Houve vários pormenores que, se tivessem corrido ao contrário, não sabemos como tinha sido. Na Ribeira das Naus, o brigadeiro Junqueira dos Reis, que era das forças leais ao Governo, dá ordem de fogo contra o Salgueiro Maia. Se o alferes, o furriel e o cabo-apontador do carro de combate tivessem obedecido, aquilo teria sido muito complicado. Mas todos se recusaram a fazer fogo. E a certa altura o cabo-apontador virou a torre para a direção do rio e deixou claro que não iam

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ENT REVI S TA

fazer fogo. Esse cabo é o grande herói do 25 de Abril. Mas isso foi um milagre. As operações estavam mal planeadas? Apesar de eu considerar que foi um milagre em muitos aspetos, não deixo de afirmar que o 25 de Abril é a operação militar mais importante, mais bem planeada e mais bem executada que alguma vez as Forças Armadas Portuguesas fizeram. O facto de as pessoas terem saído à rua também ajudou... Claro. Não só na resolução da parte militar, como também na orientação que ajudou a dar ao golpe. Transformou-o numa coisa mais progressista. A forte adesão popular surpreendeu-vos ou já tinham a perceção de que o regime estava muito isolado?

Estávamos convencidíssimos de que íamos ter adesão popular. A nossa convicção profunda era de que estávamos a fazer o que a grande maioria da população queria que fizéssemos. Mas a dimensão surpreendeu-nos. Principalmente na sede da PIDE a situação foi muito tensa e de grande risco para a população... A força de fuzileiros que se mandou à sede da PIDE também era um bocado improvisada. Foram arrebanhados à pressa e era só cozinheiros e malta que não tinha nenhuma experiência de combate. E ainda por cima puseram a comandar essa força um oficial que era talvez o que tinha menos jeito. Ele chegou ali e deu de caras com um oficial da Marinha, que é o Alpoim Calvão, que dizem as más-línguas que estava indigitado pelo Marcello para substituir o Silva Pais e

estava lá dentro a preparar a transferência de poderes. O Alpoim Calvão era claramente um oficial muito mais capaz do que o que vinha a comandar a força de fuzileiros e mandou-o desaparecer. E ele, de facto, foi-se embora. Mais tarde é enviada uma força de Cavalaria 3 de Estremoz, que estava aqui no Carmo e vai lá, com os fusos (fuzileiros), porque estava a haver uma grande manifestação à porta da PIDE. Quatro pessoas acabaram por morrer. A PIDE tinha de alguma forma a veleidade e a esperança de ser integrada no novo sistema. Diz-se, aliás, que o general Spínola chegou a nomear um inspetor para substituir Silva Pais, ou seja, tinha a intenção de manter a PIDE. A primeira tentativa de golpe do Spínola, não considerando o 16 de Março, é na noite de 25 de abril, na Pontinha, quando chegou 25 Abril 40 anos | 23

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ARQUIVO “A CAPITAL/IP”

ENT R EVIS TA

e disse “bom, está tudo resolvido, agora não é preciso programa político”. Ele quis rasgar o programa do MFA. Tivemos de lhe dizer “o programa foi discutido consigo, o general aceitou-o, se agora não quer este programa as tropas estão na rua. A porta de saída está ali”. Foi muito complicado. Ele pôs muitas resistências à libertação dos presos políticos... Tanto em Caxias como em Peniche os presos acabaram por só ser libertados já na madrugada de 27. E o programa acabou por ser alterado em duas coisas, com uma consequência extraordinariamente grande: uma é a manutenção da PIDE nas colónias. Mas pior do que isso foi a alteração do conceito da guerra e do direito à autodeterminação e independência. Isso constava do programa, que tinha sido aceite pelo

Spínola, depois ele conseguiu impor a alteração e deixou cair isso, o que fez com que os movimentos de libertação intensificassem, provocando para cima de 400 mortos só nas forças portuguesas, entre o 25 de Abril e as independências. Pouco tempo antes do 25 de Abril, o Vasco Lourenço foi alertar o general Spínola e o general Costa Gomes de que estava em marcha um golpe de extrema-direita, do general Kaúlza de Arriaga. Quão perto estivemos nós de esse golpe se concretizar? Tão próximo que no 25 de Abril quem não sabia pensou que era de facto um golpe de extrema-direita. As pessoas só perguntavam “de quem é (o golpe)? De quem é?” Quando começam as canções do Zeca perceberam que não. E depois

quando há a libertação dos presos políticos. Como é que Costa Gomes e Spínola reagiram ao possível golpe de extrema-direita? Quando tive necessidade de denunciar a kaulzada, fi-lo primeiro junto do Costa Gomes, que era chefe de Estado-MaiorGeneral das Forças Armadas. Eu não o conhecia mas fui lá e ele recebeu-me como quem está a tomar um cafezinho. Eu disse: “Está em marcha um golpe militar de extrema-direita e o senhor e o general Spínola são os dois principais inimigos a eliminar”. Ele respondeu “muito obrigado e tal” e mais nada. Eu saí dali a achar que aquilo era tudo uma loucura porque ele reagiu como se nada fosse. Quando saí dali liguei ao Fabião,

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ENT REVI S TA

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Não tivemos o nosso Fidel Castro porque também não tivemos a nossa Sierra Maestra. Foi tudo muito rápido. Não houve condições para fazer sobressair um líder. Tivemos a sorte de ter um conjunto de elementos na cúpula, cada um com características próprias, que não lutaram entre si para serem líderes

Vasco Lourenço, durante o Verão Quente de 1975

que era do grupo do Spínola, encontrámo-nos e também lhe contei o que se estava a passar. Depois fomos ter com o Spínola para o alertar. Encontrámo-nos no largozinho em frente da Cova da Moura. Contei-lhe que estava em marcha um golpe de Estado do Kaúlza, do Luís Cunha, do Troni e do Silvério Marques, que ele e o Costa Gomes eram os inimigos. Ele tinha acabado de ser nomeado vice-chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, ia tomar posse dentro de um mês e pediu para esperarmos por essa altura que ele então tomaria uma posição. “Daqui a um mês? Mas o golpe pode ser amanhã! E o problema é que ou nós atuamos ou a malta ainda acaba por entrar no golpe convencida de que é o nosso!”. Isto porque ainda estávamos numa fase em

que ninguém percebia bem o rumo das coisas. Mas ele despediu-se e foi-embora. Eu comentei com o Fabião: “Eh, pá, com generais destes não vamos a lado nenhum”. Então o Fabião diz-me: “Se você quiser, na segunda-feira eu aproveito o facto de ser chefe de curso de 200 e tal majores e denuncio a jogada”. Ficou combinado e eu fiquei de fazer a ligação com as unidades a dizer que se houvesse alguma tentativa de golpe que não era nada connosco e que ninguém devia alinhar, antes pelo contrário. Estivemos então muito próximos desse golpe de extrema-direita... Podia acontecer. O Kaúlza tentou. Depois negou sempre, num ato de cobardia. Até que relativamente pouco tempo antes de morrer assumiu o golpe,

mas dizendo que como era feito para generais não era um golpe de Estado. Mas ele tentou pressionar o Marcello Caetano a tomar medidas políticas muito mais duras. E o apoiante dele no poder era o Américo Tomás. Imediatamente a seguir ao 25 de Abril, a maioria dos inspetores da PIDE não foi a julgamento e só muito poucos cumpriram pena. Aliás, houve alguns, nomeadamente da PIDE do Porto, que acabaram por fugir, com conivência de elementos do movimento... Parece que de facto lá no Porto a certa altura não sabiam o que fazer com os pides e lhes facilitaram a fuga. E há também a fuga de Alcoentre, que é claramente facilitada por alguém. O problema aqui, e temos de entender isto, é que o 25 de Abril e os portugueses têm características muito próprias... Para já era meio Portugal a vigiar e a denunciar outro meio. Quando estávamos a falar num café nunca sabíamos quem estava na mesa ao lado. A questão dos informadores era muito complicada. E de facto fizemos isto com cravos, não houve sangue. Foi tudo muito pacífico e por isso mesmo não houve condições para grandes questões. Entretanto houve a tentativa (do Spínola) de a PIDE continuar e a necessidade de ela continuar nas colónias porque colaborava diretamente com as Forças Armadas. Havia ligação institucional entre as Forças Armadas e a PIDE, não só nas colónias mas também aqui, havia muitos militares que se sentiam comprometidos com o seu passado e portanto não houve o julgamento do regime. Depois também é preciso ver que a PIDE e os dirigentes eram responsáveis pelo cometimento de crimes. Mas se se pegou nos maiores responsáveis e se nem sequer os prenderam e foram mandados para o Brasil, então ia-se depois prender e julgar a arraia-miúda? Não havia grandes condições para julgar ninguém. Mas o Movimento tinha decidido a priori o que é que ia fazer, quer com os elementos da PIDE quer com o Marcello Caetano e o Américo Tomás? Qual era o plano? Preparou-se muito mal o dia seguinte. Dá-se o 25 de Abril, eu regresso no primeiro avião e no dia 29 de abril entro no Posto de Comando, já não na Pontinha mas na Cova da Moura, e a primeira sensação que tenho é que estou 25 Abril 40 anos | 25

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ENT R EVIS TA

a entrar numa guerra que não era minha. Via mais desconhecidos do que conhecidos. Perguntei como é que aquilo estava organizado e disseram-me que havia um gabinete de questões políticomilitares dirigido pelo Vasco Gonçalves. Cheguei lá e perguntei: “Ó meu coronel, vocês não se esqueceram que eu existo. Diga lá o que é preciso eu fazer”. Ele olhou para mim e disse com um ar estupefacto: “Você é um dos donos disto, faz o que quiser”. E eu perguntei: “Mas vocês não prepararam isto?” Resposta: “Não, você agarra no que quiser”. Eu deitei as mãos à cabeça. Não acha que foi um erro o MFA ter indicado o Spínola para ir ao Carmo receber o poder de Marcello Caetano? Eu sempre disse que nós não precisávamos de generais, embora eles tenham acabado por ter um papel importante na legitimação internacional e mesmo dentro do Exército, na pacificação de alguns elementos que à partida podiam estar contra. Mas quem, em certa medida, começou por legitimar o Spínola foi o Marcello. O Marcello telefonou para a Pontinha e pede ao Otelo uma delegação para ir receber a rendição, em nome do MFA. O Otelo olha para os outros e diz: “Está aqui o Spínola”. Se eu cá estivesse tinha sido o Salgueiro Maia ou outro capitão a receber a rendição. Nós no movimento não tínhamos um líder. Não tivemos o nosso Fidel Castro porque também não tivemos a nossa Sierra Maestra. Isto foi tudo muito rápido. Não houve condições para fazer sobressair um líder. Tivemos a sorte de ter um conjunto de elementos na cúpula, cada um deles com características próprias, que não lutaram entre si para serem os líderes. O país que idealizou é parecido com o que temos hoje? Se eu comparar o país que temos hoje com o que tínhamos antes estamos incomparavelmente melhor. Não há comparação entre os atrasos que Portugal tinha na área da saúde, da educação, dos direitos das mulheres... Desde logo não temos guerra. Estávamos isolados internacionalmente e hoje estamos integrados sem qualquer problema. A comparação é claramente favorável. O problema é que houve evolução muito grande que neste momento está a ser posta em causa, principalmente no campo da justiça

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O poder sempre nos tratou mal. É muito complicado para o poder essa coisa dos heróis vivos. Depois de morrerem — Salgueiro Maia, Melo Antunes, Vítor Alves — isso passa tudo. O problema é quando estão vivos e têm alguma legitimidade para chamar a atenção para os abusos social, onde estamos pior em termos relativos do que antes do 25 de Abril. Está a destruir-se por completo a classe média e tudo aquilo que foi conquistado em termos de Estado social. Vamos ter convulsões muito fortes? Vamos. Na minha opinião é impensável que não haja guerra. Vai ter de haver uma guerra de revolta das populações na Europa. Quando utilizo o temor da guerra estou a pensar em grandes convulsões, no interior dos países e depois alargado a todos. Na França tudo aponta para que a extrema-direita esteja a caminho do poder. Se isso acontecer o que dá? Quais são as consequências que tem para nós aqui na Europa e no resto da Europa, quando estamos a caminhar aqui para que a abstenção seja de longe o maior partido? Acha que a democracia está em causa? Sim, está em perigo. Qual é o papel das forças armadas neste momento? Considero que existe hoje em Portugal uma legitimidade semelhante à que existia no 25 de Abril para que as forças armadas intervenham.

Em que sentido? No sentido da defesa da nação. A legitimidade existe, mas não há condições para isso. Não é só do ponto de vista militar. É fundamentalmente condições psicológicas. O que é espantoso é a capacidade dos militares para aguentar os ataques diretos que estão a sofrer, sem reagir. Eu fico surpreendido mas por outro lado temo pelo seguinte: estas coisas sabe-se como começam mas nunca se sabe como acabam. Em que estado psicológico os capitães de Abril vão celebrar os 40 anos do 25 de Abril? Estamos profundamente desiludidos com a evolução da situação no Portugal de Abril. Continuamos a considerar, de uma maneira geral, que valeu a pena. Não estamos arrependidos, mas a evolução dos últimos tempos criou-nos uma grande mágoa. Na Associação 25 de Abril estamos a promover comemorações no sentido de tentar recuperar os valores de Abril. É a nossa grande luta. Cada vez mais somos confrontados na rua por pessoas que nos dizem que é preciso fazer outro (25 de Abril). Estava disposto a intervir, não do ponto de vista militar mas aceitando cargos políticos? Não. Foi uma das hipóteses que se puseram várias vezes. Desde 1980 que venho a ser sondado para ser candidato a Presidente da República. O poder sempre nos tratou mal. É muito complicado para o poder essa coisa dos heróis vivos. Depois de morrerem — Salgueiro Maia, Melo Antunes, Vítor Alves — isso passa tudo. O problema é quando estão vivos e têm alguma legitimidade para chamar a atenção para os abusos. Nós somos o único grupo profissional que, de uma maneira global, teve o poder e não ganhou com ele. Cada vez que algum de nós é chamado a intervir nas estruturas do poder acaba por ser maltratado. Os capitães de Abril vão estar presentes nas comemorações do 25 de Abril ou voltarão a não participar? Não irei responder já a essa questão porque tenho o princípio de nunca dizer dessa água não beberei. Mas se as comemorações fossem amanhã, não iria. Qual é a dignidade do Parlamento hoje em dia? ^

26 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


O MEU 25 DE ABRIL Do Estado Novo sabem o que lhes contaram, da democracia conhecem o que viveram. O mais novo tem 30 anos, o mais velho 42. Eis o que pensam do Portugal que mudou

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ANDRÉ PATO OPIN IÃO

LIBERDADE QUE FALTA 38 anos Diretor de cena do Teatro Nacional D. Maria II

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enho 38 anos. Nasci pouco tempo depois do 25 de Abril. Acredito que nasci da paixão da revolução. Eu não era nascido, mas a minha futura família já estava quase toda reunida. O meu avô paterno, Octávio Pato, e o meu tio materno, António Almeida, estavam presos em Peniche e os meus futuros pais aproveitavam as visitas para se conhecerem melhor no parque de campismo onde se juntavam as famílias dos presos políticos.

O meu avô esteve 11 anos preso. Abdicou de estar com a família para poder dar a todos um futuro melhor. O meu pai só o pôde conhecer, num encontro clandestino, quando tinha já 9 anos. E, ainda em clandestinidade, só o voltaria a ver aos 22 anos. Ainda assim, o meu pai seguiu-lhe as pisadas. No PCP, na clandestinidade e... na prisão. Viveu algum tempo escondido da PIDE atrás de um armário na casa dos meus tios António e Manuela e os meus primos, ainda crianças, já sabiam que era um segredo bom que teriam de guardar. Acabou por ser apanhado em maio de 1973. Como o seu pai e muitos outros antes dele, não escapou à tortura, à pancada, à privação do sono,

à estátua, aos choques, às alucinações... Violência medieval, sub-humana. Felizmente, no dia 26 de abril de 1974, devido à coragem e abnegação de outros como ele, saiu em liberdade e em breve estaria a caminho dos braços da minha mãe que com ele partilhava os ideais, a perseverança, o amor. Eu nasceria um ano e meio depois. Numa foto da libertação dos presos políticos, vê-se o meu pai feliz, num abraço renascido. Essa é a minha imagem do 25 de Abril. Simboliza a libertação de um povo, o início do futuro e o meu início. Muito mais tarde, quando me colocava as questões próprias dos jovens de quem sou eu, o que quero, para onde vou, lembro-me de sentir

uma inveja imensa de não ter vivido o período da revolução. Nessa altura, já via Portugal e o mundo a caminharem para o abismo numa vertigem de ganância. Não compreendia a opulência dos ricos que salivavam

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O PI NI ÃO

Sentia um sonho de igualdade e fraternidade a esmorecer. Vinham-me à memória os momentos raros em que o meu pai conseguia falar sobre o tempo da prisão e a forma como chorava, impedindo-o de terminar

pelo luxo e acessório com a mesma avidez como um pobre necessita de um teto e comida. Chorava compulsivamente a ver o “Terra e Liberdade”, do Ken Loach, ou a ouvir em Cuba uma voz cantar “Aqui se queda la clara, la entrañable transparencia de tu querida

presencia, comandante Che Guevara”. Sentia um sonho de igualdade e fraternidade a esmorecer. Vinham-me à memória os momentos raros em que o meu pai conseguia falar sobre o tempo da prisão e a forma como chorava, impedindo-o de terminar.

André Pato, fotografado em Caxias, onde o pai e o avô estiveram presos FOTOGRAFIA DE ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

No dia 25 de abril, a liberdade que conquistaram, não foi suficiente: só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir.^ 25 Abril 40 anos | 29

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ANDRÉ RIJO OPIN IÃO

HORA DE ESPERANÇA 30 anos Presidente da Câmara Municipal da Arruda dos Vinhos

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enho 30 anos, quando se deu o 25 de Abril de 1974 muito provavelmente eu não passaria de um mero projeto de vida dos meus pais. Não sou na prática “um filho da revolução” pois quando nasci o nosso processo revolucionário já estava consolidado e o país preparava-se para aderir à então designada Comunidade Económica Europeia. Integrei assim aquele conjunto de cidadãos de dupla qualidade: portuguesa e europeia, numa altura de enorme esperança, fulgor, entusiasmo. Interessei-me sempre pela temática do 25 de Abril, e

pela vida de quem viveu o período do chamado Estado Novo, que na realidade, de novo tinha muito pouco. O meu interesse pela temática começou a aprofundar-se quando me apercebi de que o meu pai ficava sempre com uma lágrima ao canto do olho em todas as cerimónias evocativas do 25 de Abril. O meu pai era um homem de esquerda, daquela esquerda popular, trabalhadora. O meu pai vinha do povo, orgulhosamente do povo, por essa condição natural aos 20 anos foi colocado dentro de um avião com mais 500 homens, destino Guiné para defender esta nação, diria eu sem noção. O meu pai sempre se recusou a contar-me pormenores da sua “estada” na Guiné, sei no entanto que a fronteira entre a vida e a morte ali se cruzaram muitas vezes. Há no entanto um episódio que presenciei e que não resisto a partilhar, certo dia,

no Largo da Câmara em Arruda dos Vinhos, assisti (ainda miúdo) a uma conversa entre o meu pai e um reputado senhor da terra. Dizia o senhor algo irritado: “A nossa descolonização foi um disparate, saímos de África e não conseguimos salvaguardar os interesses de Portugal, demos tudo de mão beijada”, o incómodo do meu pai foi grande e respondeu: “Ai sim, então se as colónias eram assim tão importantes para si, porque é que o seu filho que tem a mesma idade que eu não foi para o ultramar e eu que nunca achei que aquilo era nosso tive de ir...” Jamais esquecerei esta conversa. O meu pai viveu sempre amargurado com o ultramar. O 25 de Abril não o vivi na primeira pessoa, mas depois destes anos todos e da felicidade que tive de em casa conviver com um exemplo vivo do antes e pósrevolução, só posso definir

o 25 de Abril numa palavra: “Oportunidade”. Oportunidade que antes não existia de alguém como eu, oriundo de uma família humilde, pai funcionário público e mãe doméstica, ter-me licenciado em Direito, exercer advocacia e ser presidente de Câmara num Portugal democrático. Oportunidade de voltarmos a ser um país global aberto ao mundo, porque o mundo é o nosso habitat natural. Desde o tempo dos Descobrimentos. E certo que nem tudo está feito, que Abril é um processo em constante transformação de uma luta quotidiana e permanente, mas temos a oportunidade de a travar, assim o queiramos. Abril é também esperança no futuro. Abril criou melhores ferramentas para os jovens, sem as amarras do passado, com asas para poderem voar. Abril é, em síntese, a possibilidade de um sorriso, como expressão mais pura da nossa liberdade. 25 de Abril sempre! ^

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O PI NI ÃO

Pedro Lomba FOTOGRAFIA

Abril criou melhores ferramentas para os jovens, sem as amarras do passado, com asas para poderem voar

André Rijo, o mais jovem presidente de câmara do país FOTOGRAFIA DE PAULO VAZ HENRIQUES

25 Abril 40 anos | 31 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


OPIN IÃO

GABRIELA OBRIGADA, PAI! 32 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


O PI NI ÃO

39 anos Jornalista

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25 de Abril, para mim, nunca veio nos livros do Secundário. Não me lembro sequer de alguma vez no liceu ter chegado àquelas últimas páginas dos compêndios de História. Para mim, na verdade, o 25 de Abril não tinha nada a ver com as histórias dos livros que falavam de reis e de rainhas, de invasões e de Descobrimentos. Esta história comecei a ouvi-la desde pequenina, feita de mil outras que se repetiam lá em casa várias vezes (sobretudo em abril) e que se misturava com as outras que todas as crianças ouvem, com lobos maus, belas e monstros, cigarras

Gabriela Lourenço, a filha de Vasco Lourenço, frente ao graffiti criado pelo artista MAISMENOS (a terminar o trabalho)

e formigas, madrastas invejosas, patinhos feios e pinóquios — personagens que, a seu modo, existiam nesta também. Mas era uma história ao vivo, contada na primeira pessoa por muitos dos que me rodeavam, com toda a emoção de quem a tinha vivido. Ouvia falar de encontros conspirativos, ao melhor estilo dos enredos de espionagem, com senhas, contrassenhas e telegramas codificados (“Tia Aurora segue EUA 25.03.00 Um abraço. Primo António”), ouvia incríveis relatos de coragem de quem podia ter perdido tudo e, mesmo assim, decidiu não desistir. Com isso, aprendi o que queria dizer igualdade (social, sexual, de oportunidades), aprendi o que queria dizer liberdade e porque era tão importante lutar por ela e mantê-la, aprendi como nunca se deve desistir dos sonhos e daquilo que acreditamos ser melhor (para nós e para os outros — nunca só para nós). E aprendi ainda que podemos estar sempre melhor, mesmo quando parece que não há esperança nem possibilidades no horizonte. Aprendi isso em casa e logo na escola primária, onde os nossos pais nos iam explicar não só o que tinha sido o 25 de Abril mas como tinha sido o 25 de Abril, onde cantávamos canções como a ‘Grândola, Vila Morena’ do povo é quem

mais ordena ou o ‘Somos livres’ da criança que dizia “quando for grande não vou combater” (e mesmo se, na altura, não percebêssemos tudo o que nos diziam ou o que cantávamos, as palavras ficaram). Em casa e na escola, ensinaram-me a pensar, trataram-me como gente pequena de mente grande, porque também tinha sido para isso que se tinha feito o 25 de Abril. Aprendi a defender direitos e opiniões, aprendi a contestar e a questionar. Se há coisa que, mesmo quatro décadas depois, ficou desse dia em que os militares derrubaram uma ditadura para a substituir por uma democracia é essa: o ser possível, o valer a pena tentar. Aprendi isso desde sempre. Para mim, é isso o 25 de Abril. E é uma coisa mais ainda, claro: uma imensa razão de orgulho. Porque o melhor pai (e avô) do mundo é também um dos homens mais corajosos, que um dia acreditou que ele e outros conseguiam mudar esse mundo em que viviam e em que eu ia nascer. Nunca deixou de ir à luta nem de defender as suas ideias e isso, para mim, é admirável (mesmo que, por vezes, provoque algumas saudáveis discussões em casa). Foi ele que me ensinou tudo aquilo, dando o exemplo. E isso, desculpem, como me dizia uma amiga há tempos, “é do caraças”. Obrigada, pai ^

LOURENÇO FOTOGRAFIA DE JOSÉ VENTURA

Aprendi o que queria dizer igualdade, o que queria dizer liberdade e porque era tão importante lutar por ela e mantê-la 25 Abril 40 anos | 33 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


JOANA VASCON OPIN IÃO

FOMOS À DESCOBERTA 42 anos Artista

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25 de Abril de 1974 marcou todo o meu percurso, também definindo a minha identidade. Se não tivesse acontecido, hoje seria muito provavelmente francesa. Os meus pais exilaram-se em França, em 1968, e nasci em Paris no ano de 1971. Lembro-me pouco dessa altura, mas, da ‘costela’ francesa, ficou a língua, o que tem sido uma mais-valia na minha carreira. Regressámos a Portugal logo a seguir à revolução, e o primeiro acontecimento que o meu pai fotografou foi a manifestação no 1º de maio de 1974 [Luís Vasconcelos foi durante muitos anos fotojornalista e editor em diversos meios da imprensa nacional. Atualmente é

presidente da Associação Estação Imagem]. A minha formação é essencialmente portuguesa e pertenço ao primeiro grupo de artistas portugueses que iniciaram os estudos num ambiente de liberdade. Fomos os primeiros a fazer todo o ensino fora da ditadura. Deixámos as Belas-Artes e o que havia de mais tradicional, para prosseguir com os estudos num ensino mais alternativo. O país abriu-se ao mundo e ofereceu melhores perspetivas aos artistas. Enquanto jovem, nunca tinha pensado ser artista plástica. Sempre fiz e apreciei trabalhos manuais — talvez por influência do culto do saber fazer manual que existe em Portugal. Mas foi graças ao professor Isolino Vaz, do Liceu Marquês de Pombal, que ingressei na Escola António Arroio, pois percebeu que eu tinha um sentido artístico. Para frequentar esta escola,

atravessava Lisboa inteira, de Linda-a-Velha a Lisboa, tomando três autocarros. Fazia-o com gosto, porque me sentia bem naquele ambiente. Com o regresso a Portugal, fiquei mais próxima dos meus avós, o que também foi determinante para a minha formação. Com eles viajei bastante e tive a oportunidade de ver obras ao vivo, como a “Guernica” e a “Mona Lisa”, que muitos da minha idade só conheciam a partir de livros. A minha avó Maria Alice bordava, pintava e restaurava madeiras. No entanto, viver junto ao mar talvez seja o que mais marcou a minha forma de ser e pensar — o que também influenciou a minha decisão de permanecer em Portugal. Viver junto ao mar abre horizontes, alarga a nossa visão e imaginação, levanos a escapar para outros universos. Através da nossa

história e identidade, cresci a perceber a importância de quebrar fronteiras, saltar barreiras e pensar de forma global. Em Portugal é possível ter uma dimensão

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O PI NI ÃO

Deixámos as Belas-Artes e o que havia de mais tradicional, para prosseguir com os estudos num ensino mais alternativo

CELOS

para lá da local. Afinal de contas, atirámo-nos ao mundo sem sabermos o que iríamos encontrar. Atirámo-nos para o vazio, à descoberta, sempre olhando

em frente; e identifico-me muito com essa coragem e sentido de aventura. Em resumo, se não tivéssemos tido a felicidade de conquistar a liberdade

com o 25 de Abril, hoje eu não seria a mesma. Teria estudado numa BeauxArts e seria uma artista francesa. Certamente, não representaria Portugal; e

Joana Vasconcelos, no seu ateliê, em Lisboa FOTOGRAFIA DE ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

nunca teria embarcado na grande aventura de levar o nosso “Trafaria Praia” até às águas de Veneza, o motivo de maior orgulho na minha carreira. ^ 25 Abril 40 anos | 35

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JOÃO TORDO OPIN IÃO

SEI PORQUE CELEBRO

38 anos Escritor

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primeira vez que celebrei o 25 de Abril não me lembro de celebrar o 25 de Abril. Ia às cavalitas do meu pai ou ao colo da minha mãe na Festa do Avante! e, se falava, diria talvez duas ou três palavras — que certamente não seriam pão, nem trabalho, nem paz. Como tantos da minha geração, começámos a celebrar a liberdade ainda sem sabermos o que era a repressão ou

a censura (e, portanto, sem sabermos o que era a liberdade). Aprendemos tudo isto mais tarde; talvez na nossa vida particular, quem sabe na nossa vida política — os que a vieram a ter. Não foi o meu caso. Não obstante, há uns anos escrevi um livro sobre uma figura da liberdade em Portugal. Chamouse Catarina Eufémia e, para a compreender (o que nunca aconteceu) e para que o livro fizesse completo sentido (também nunca aconteceu), fui falar com pessoas. Não desfraldei bandeiras, não invadi o Parlamento, não gritei palavras de ordem. Telefonei, isso sim, a

pessoas — que pertenciam a outra geração, que tinham visto outras coisas, que eram de outro tempo — e, qual putativo repórter na iminência de uma catarse, sentei-me e conversei com gente que sabia o que dizia a respeito de repressão, de censura e de liberdade. Nesse ano, participei em algumas das manifestações de revolta dos portugueses com a situação económica e social do país. Apeteceume desfraldar bandeiras e invadir o Parlamento; sentia, porém, e os que me rodeavam, que não saberíamos que bandeira desfraldar ou por que porta se invadia a Assembleia

da República. Na minha geração precisamos de saber a porta de entrada da revolução, ou ficamos confusos. De maneira que, quando chegou o 25 de Abril, pus um cravo à lapela e fui atrás daqueles que eram mais velhos do que eu e que sabiam onde ficava essa porta ou, pelo menos, tinham-na vislumbrado há quarenta anos e o caminho para nela entrarem. Não era preciso convite, que é a vantagem das revoluções: temos todos o nome à porta. Nem toda a gente entrou nessa porta. Nestas décadas houve quem tivesse ficado para trás, agarrado ao passado como o rei deposto agarrado

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ao trono. Ainda há quem tenha saudades de falar baixinho na rua e, para os portugueses que veem muita televisão, o Salazar continua a ser o grande obreiro da pátria, a despeito da PIDE, da tortura e do encerramento do país na sua miséria — tudo devidamente documentado por historiadores como João Madeira ou Irene Flunser Pimentel. Há quem escolha ignorar. Paciência. Com o 25 de Abril — que celebrei em consciência, pela primeira vez, há três anos, pois antes de escrever esse livro e de ter falado com essas pessoas continuava a ser uma criança na Festa do

João Tordo, um escritor que não gosta que o mandem estar caladinho FOTOGRAFIA DE JOSÉ VENTURA

Avante! — aprendi que há dias que não são iguais aos outros: em 1974, esse dia foi o mais importante da vida de um país que impunha eleições fraudulentas desde 1933. Aprendi outra coisa: que a retórica que subjaz à repressão e à censura persiste. Quando nos dizem que vivíamos acima das nossas possibilidades, estão a dizer-nos que não temos liberdade. Quando nos dizem que temos de baixar os braços

perante a derrota, estão a dizer-nos que não temos liberdade. Quando nos dizem que o melhor é estarmos caladinhos, estão a dizer-nos que não temos liberdade. Tudo isto aconteceu, acontece, tornará a acontecer. O 25 de Abril também é o dia em que, às cavalitas do meu pai ou ao colo da minha mãe, eu celebro sabendo aquilo que celebro e com quem celebro e porque razão celebro. ^

Na minha geração precisamos de saber a porta de entrada da revolução, ou ficamos confusos 25 Abril 40 anos | 37

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MARCO COSTA OPIN IÃO

REGRESSO AO MUNDO 36 anos CEO da Critical Software

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25 de Abril que vive no meu imaginário foi construído a partir de histórias de infância contadas pelo meu avô, que me falava dos tempos em que “não se podia falar”; de tempos em que as pessoas tinham receio de dizer o que pensavam, em que o silêncio e a denúncia viviam paredes meias; em que a informação era pouca e a educação escassa. Um imaginário também construído dos relatos do meu pai, que me falava

dos tempos da guerra do Ultramar, onde serviu a pátria, e onde ganhou marcas que perduram no tempo. Um imaginário onde está também o dia em que a revolução aconteceu e o momento da mudança; do tempo do “antes de” e do tempo do “depois de”; o tempo de um país onde se lutou muito, e que lutou muito; onde aconteceram mudanças profundas e rápidas, mas que não obstante continua marcado pela herança do tempo anterior. O 25 de Abril é para mim a voz do povo, a voz da liberdade e do país devolvidas a todos nós. O momento em que Portugal, recuperando a sua milenar vocação de viajante e descobridor, se voltou a

abrir ao mundo, e em quatro décadas reassumiu o papel e a posição que lhe cabem num mundo cada vez mais global. Um país de talento, inovação, criatividade e excelência em áreas tão distintas como o desporto, a música, o cinema, a literatura, a ciência, a tecnologia, a indústria, o turismo, e muitas, muitas mais. Um país que assume posições de liderança e vanguarda em áreas determinantes para evolução do mundo, como por exemplo a das redes de fibra ótica, a das comunicações de alta velocidade, da exploração do espaço, da internet, das descobertas da medicina em áreas como a oncologia, a neurologia, da tecnologia (com particular destaque o software), os

vinhos, e mais recentemente de novo o mar. Em apenas 40 anos temos um país mais moderno, dotado de infraestruturas de comunicação consideradas das melhores e das mais avançadas do mundo. Um país incomparavelmente melhor em muitos dos parâmetros que distinguem uma sociedade desenvolvida. Hoje, 40 anos depois, celebro o 25 de Abril com a convicção de que é absolutamente vital que os nossos órgãos de soberania e a sociedade civil se unam e desenvolvam as ações necessárias para que esta data se mantenha viva. E para que seja celebrada enquanto corolário da liberdade e alicerce da democracia, assegurando

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O PI NI ÃO

que para aqueles, que como eu têm a “Revolução dos Cravos” apenas no imaginário não a tomem como adquirida. Uma celebração que deverá também assinalar o momento em que o país foi devolvido ao seu destino na Europa, de que fazemos parte integrante há nove séculos como uma das suas mais antigas nações, e no mundo, onde somos uma das maiores comunidades falantes — como Pessoa tão bem escreveu a nossa pátria é a língua portuguesa. Importa assegurar que a memória coletiva da nossa história permanece na sociedade portuguesa. Nada como ela nos pode preparar melhor para o presente e iluminar as rotas do nosso futuro. Ela, a memória

Marco Costa: as histórias do tempo em que “não se podia falar” contadas pelo avô e as memórias do pai sobre o Ultramar construíram o imaginário do gestor sobre o 25 deAbril FOTOGRAFIA EXPRESSO

coletiva da nossa história e da nossa cultura onde deve estar inscrito, lado a lado, o tempo “do antes de” e o do “depois de”, é o berço do exercício esclarecido dos direitos e dos deveres dos cidadãos, numa sociedade democrática voltada para o progresso e para a excelência. Só a consciência e o conhecimento desta memória coletiva da nossa história e da nossa cultura podem assegurar que os erros do passado não se repitam. Num tempo de grandes desafios para Portugal, para a Europa e para o resto do mundo, num

século que deveria ser o da solidariedade e do humanismo e em que tanto se questionam as democracias, o 25 de Abril é um farol. Um farol cuja luz aquece igualmente quer os que como eu apenas o vivem no seu imaginário, quer aqueles que o viveram também nas ruas. E é também, hoje tanto como há 40 anos, um sinal de esperança! Esperança num amanhã bem melhor, construído por todos nós, todos, unidos em torno da defesa de valores como a educação, o trabalho, a equidade, a tolerância e a diversidade cultural. ^

Num século que deveria ser o da solidariedade e do humanismo, o 25 de Abril é um farol 25 Abril 40 anos | 39

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NAIDE GOMES OPIN IÃO

A META POR ALCANÇAR 34 anos Atleta

M

omento de elevada importância no rumo de Portugal e com fortes implicações nas antigas colónias, o 25 de Abril trouxe consigo profundas alterações na sociedade portuguesa: mudanças políticas, económicas e sociais; surgiram novos ideais, novos pensamentos e uma forma bem distinta de olhar para o presente e, acima de tudo, para o futuro. Não era nascida na altura da revolução de Abril — nasci em São Tomé e Príncipe em 1979, mas os meus pais sentiram e viveram aqueles tempos de mudança. Além do conhecimento que os meus familiares me transmitiram, a escola

também desempenhou um papel fundamental para me ajudar a perceber melhor este pedaço importante da História. Acredito que, com o 25 de Abril, foram sentidas muitas melhorias num país onde se impunham mudanças profundas. Apesar de não a ter vivido, agradeço a revolução, não só porque me permitiu ter uma vida diferente, como também me permitiu ser livre! Não apenas eu, mas muitas, muitas pessoas tiveram a possibilidade de conhecer, de viver e de partilhar uma realidade bem distinta daquela que existia. E a liberdade é um bem muito valioso que não tem preço! Adoraria que o sinónimo do 25 de Abril nos tempos atuais fosse prosperidade, oportunidades de trabalho e qualidade de vida. Gostaria que cada um de nós tivesse tempo para si próprio, para a família, para os amigos, para fazer

novos amigos. É muito importante estabelecer metas e ter condições para as concretizar; encarar a vida com um pensamento positivo e um sorriso... Sinto-me bem em Portugal, é um país que adoro. Já viajei muito e não tenho dúvida de que tem muitas condições para crescer e evoluir. No entanto, é com profunda tristeza que registo uma crescente falta de emprego e a diminuição de oportunidades para ter e desenvolver uma carreira profissional, tanto para quem já trabalha há algum tempo como para quem vai iniciar-se agora no mercado de trabalho. Falta uma classe política capaz de liderar o país, pensando apenas e só no bem da sociedade e criando condições para que os cidadãos se sintam parte integrante do crescimento. Os incentivos para os mais jovens são cada vez mais

reduzidos e isso poderá ter implicações negativas nas gerações vindouras. O fenómeno da emigração cresceu nos últimos tempos e a saída de Portugal parece ser o caminho para muitos. Eu estou a concluir uma licenciatura e espero conseguir desfrutar da mesma em Portugal, ou seja, exercer fisioterapia no país em que vivo desde os meus onze anos. Têm sido quatro anos de muito estudo, de muito trabalho e de muita dedicação a algo que gosto. Não queria mesmo nada sentir que foram quatro anos de esforço inglório. Se me perguntarem se planeio ficar em Portugal, respondo, de imediato, sem hesitar, que sim, é isso que desejo. No entanto, em função das fracas expectativas económicas e sociais, a hipótese de emigrar paira no meu pensamento. É o sinal da indefinição que caracteriza a realidade portuguesa. ^

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Adoraria que o sinónimo do 25 de Abril nos tempos atuais fosse prosperidade, oportunidades de trabalho e qualidade de vida

Naide Gomes, no Parque da Paz, em Almada FOTOGRAFIA DE JOSÉ VENTURA

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PEDRO LOMBA OPIN IÃO

O DIREITO DE ESCOLHER 37 anos Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional

N

o dia 25 de abril de 1974 a minha mãe tinha 29 anos, o meu pai 32. Mais novos do que sou hoje, viviam na Guiné para onde o meu pai fora destacado durante os anos finais da guerra colonial. A minha mãe já tinha três filhos (sem políticas de apoio à natalidade) e, num gesto impulsivo tão típico nela, decidira três meses antes vencer o medo. Engoliu dois comprimidos e meteu-se, grávida, num avião periclitante, à espera de se juntar ao meu pai em

Bissau. Conhecendo-a, não sei bem como conseguiu. Mas foi uma das poucas mulheres a fazê-lo, das poucas que ousaram ter essa liberdade. Pagou um preço alto por isso. Vejo fotografias deles desse tempo: os meus irmãos mais velhos com outras crianças à volta, o quartel-general da estrada de Santa Luzia, os telhados de colmo, as sanzalas, um fula marcante que suplicou no fim à minha mãe que o levasse para Lisboa. Parecia um tempo sereno, pelo menos é essa serenidade que eu tento encontrar naquelas fotografias perdidas. Mas era certamente tudo menos sereno. Ainda que Bissau não fosse frente de guerra, ouviam-se com frequência rugidos e explosões. Aos 30 anos não podia haver certezas na vida. Os meus pais não foram tecnicamente retornados de África.

Nem estiveram exilados em África. Não foram para a Guiné, suponho, nem por prazer, nem por desespero. Estavam porque tinham de estar. Estavam juntos porque tinham de estar juntos. Quando chega a revolução e todos percebem as mudanças políticas por vir, nem por um minuto aquela ordem primordial da vida deles se abalou. Regressaram porque lhes foi dito para regressar. Reinstalaram-se onde calhou, onde chegou o dinheiro. A revolução causara instabilidade nas suas vidas, mas apenas porque os obrigou a voltar para Portugal mais cedo e mais abruptamente do que esperavam. Coisa que fizeram com naturalidade. A história destes últimos 40 anos está cheia de histórias como a dos meus pais, histórias em que os primeiros mandamentos são os de que devemos

fazer o que tem de ser feito, os de que devemos cuidar de nós e dos nossos, os de que devemos esforçarnos por uma vida melhor. Por isso, quando leram o comunicado da Junta de Salvação Nacional, quando se juntaram à grande manifestação da Alameda ou quando votaram para a Constituinte (no PS, e por acreditarem que só o PS podia travar a extremaesquerda), os meus pais ficaram obviamente tranquilos e satisfeitos. Nada ultrapassa o direito democrático de escolher. Mas isso não os demoveu de continuarem a fazer o que tem de ser feito, de tratar de si e dos seus, de procurar com a mesma ordem e o mesmo instinto de sobrevivência uma vida melhor. Como nas palavras de Saul Bellow: “Cá dentro, no interior da casa, uma regra arcaica; lá fora, os factos da vida”.

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Os últimos 40 anos estão cheios de histórias em que os mandamentos são os de que devemos fazer o que tem de ser feito e esforçar-nos por uma vida melhor”

Pedro Lomba: para o governante chegou a altura de conhecer a história dos cidadãos anónimos e que nunca se contou FOTOGRAFIA DE TIAGO MIRANDA

Podemos chamar-lhes, aos meus pais e a gente como eles, os outros. Aqueles que não retornaram, não militaram, não instigaram, não radicalizaram. Aqueles que enfrentaram os factos da vida. Não conheciam ninguém, nem ninguém os conhecia. Faziam parte da imensa e anónima classe média portuguesa, com as suas devoções e limitações, com a sua disciplina arcaica, que assistiu sempre à política de fora, sem alguma vez perder o sentido do essencial. Aqueles que se esforçaram, à sua maneira, por uma vida melhor. Foram eles, os outros, que mais fizeram estes últimos 40 anos pelo país melhor que somos hoje. Apesar disso, não foram eles que mais falaram estes 40 anos. Aos 70, a idade que têm agora, já vai sendo tempo de conhecermos a história dos outros, essa história de resistência e coerência, essa história ainda por contar. ^ 25 Abril 40 anos | 43 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


ZITA MARTINS OP INIÃO

A HORA DA IGUALDADE

35 anos Investigadora da Royal Society University

A

s memórias virtuais da revolução de Abril, partilhadas pela geração que nasceu depois de 1974 incluem as canções “Grândola, Vila Morena” e “E Depois do Adeus”, o símbolo dos cravos vermelhos, Salgueiro Maia e a movimentação das forças militares para o Quartel do Carmo no Chiado (Lisboa). De um ponto de vista pessoal a Revolução dos Cravos trouxe a conquista dos três pilares fundamentais da democracia: saúde,

educação e ensino, e igualdade de direitos para ambos os sexos. Um dos resultados diretos da criação do Serviço Nacional de Saúde em 1979 é o facto de Portugal ter uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil da União Europeia. Além disso, desde o 25 de Abril que se assiste a uma mudança positiva relativamente à saúde sexual e reprodutiva, já que o planeamento familiar e a educação sexual são uma realidade legal desde 1984. Há a destacar o papel fundamental desempenhado, entre outros pelo médico Albino Aroso, pai do planeamento familiar em Portugal. A revolução de Abril trouxe além da eliminação da censura, uma significativa melhoria do acesso à

educação e ensino. O crescimento da rede de estabelecimentos de ensino em todos os níveis educacionais fez com que Portugal seja um dos países da União Europeia com mais investigadores por permilagem da população ativa, e tenha uma das mais altas taxas de mulheres licenciadas relativamente a homens da Europa. O facto de eu ter nascido em Portugal na época pós-revolução levou a que tivesse as condições necessárias para tirar uma licenciatura e doutoramento na área de Ciência. Para mim sempre foi normal viver num país em que a igualdade entre sexos é uma realidade (há que ressalvar contudo as ainda poucas mulheres em cargos de topo e a desigualdade nos salários). Tal só foi possível porque o 25 de Abril trouxe

Zita Martins: a investigadora escolheu o Largo do Carmo para ser fotografada FOTOGRAFIA DE ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

uma nova constituição que passou a garantir a igualdade de direitos para ambos os sexos. Antes disso, os direitos das mulheres eram quase inexistentes, e situações como o marido ter o direito de abrir a correspondência da mulher seriam apenas a ponta do icebergue. Exemplos de mulheres que terão servido de inspiração na minha vida, incluem a grande poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, que foi eleita para a Assembleia Constituinte em 1975, e Maria de Lurdes Pintassilgo, que foi a primeira mulher nomeada

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O PI NI ÃO

Hoje mais do que nunca é necessário que as conquistas de Abril estejam vivas e de boa saúde. Isso só será possível pelo acesso à educação e pela participação cívica

para o cargo de primeira-ministra em Portugal. Poderá questionar-se se os ideais do 25 de Abril continuam hoje vivos, uma vez que a crise está instalada no nosso país, com os consequentes cortes na saúde, educação, menor qualidade de vida e elevada emigração (Portugal é presentemente dos países da OCDE com mais emigrantes). Contudo, hoje mais do que nunca é necessário que as conquistas de Abril estejam vivas e de boa saúde. Isso só será possível pelo acesso à educação para todos e pela participação cívica, nomeadamente através do voto e escolha democrática dos nossos representantes, os quais deverão ser exemplos de ética e concretização dos três pilares fundamentais da democracia. ^ 25 Abril 40 anos | 45 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


As primeiras figuras

© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C.

DAS GUERRAS PELO CONTROLO das operações logo após o 25 Abril até às primeiras presidenciais, em 1976, os portugueses descobrem os rostos da nova cena política. O primeiro combate de chefes, travado mais nos bastidores ou por interpostas pessoas, faz-se na Junta de Salvação Nacional (entre Spínola e Costa Gomes). A pouco e pouco, quando as mensagens políticas são embrulhadas pelos arsenais ideológicos, os dirigentes das principais instituições e forças vão-se destacando, e as suas faces são estampadas em cartazes e outras formas de propaganda (por vezes com campanhas negativas, a denegrir o opositor). Uma tendência que faria regra, mas admitiu exceções. O PCP, privilegiando o “partido” como sujeito da ação política, resguarda a imagem de Cunhal (Octávio Pato seria de certa forma o primeiro responsável comunista “a dar a cara”, nas presidenciais). Mas o pioneiro deste novo mundo, o verdadeiro líder, com uma máquina a trabalhar no culto da sua personalidade, estava no MRPP: o “camarada Arnaldo Matos”, “grande educador” da classe operária. ^ PAULO PAIXÃO

“Força, força companheiro Vasco Nós seremos a muralha d’aço Há quem queira fazer marcha atrás Há quem queira meter o travão Mas o povo acelera e faz O caminho da revolução Mas o povo acelera e faz O caminho da revolução Força, força companheiro Vasco Nós seremos a muralha d' aço.” Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo "Companheiro Vasco" 46 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C.

25 Abril 40 anos | 47 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


25 Abril 40 anos | 48 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


ANTÓNIO BARRETO “A DEMOCRACIA FUNDOU-SE COM BASE NA PURA PROMESSA ELEITORAL, DO CABRITO COM BATATAS”

ENTREVISTA HENRIQUE MONTEIRO JOANA PEREIRA BASTOS FOTOGRAFIAS TIAGO MIRANDA

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ENT R EVIS TA

ANTÓNIO BARRETO

P

essimista e deprimido depois do golpe fracassado de 16 de março de 1974, convenceu-se de que nunca iria ver democracia em Portugal. Com a revolução e a conquista da liberdade, achou que todos os problemas do país iriam resolver-se. Mas quatro décadas depois do 25 de Abril, o sociólogo, de 71 anos, que integrou o I Governo Constitucional, esperava que o resultado “tivesse sido melhor”. Faltou “um plano a longo prazo, mais honesto e menos corrupto”, lamenta.

Como é que teve a notícia do 25 de Abril? Eu tinha ficado absolutamente deprimido com o 16 de março, convencido de que aquele golpe tinha falhado e que tão cedo não haveria outro. Os militares mais de esquerda tinham sido deportados, Spínola e Costa Gomes tinham sido saneados... enfim, convenci-me de que estava arrumado e fiquei muito irritado. Recordo que poucos dias antes (do 25 de Abril) tive uma discussão muito azeda e melancólica com os meus amigos. O Medeiros Ferreira era muito otimista e dizia “um dia eu hei de ser ministro dos Negócios Estrangeiros, tu serás ministro da Agricultura, o Eurico Figueiredo secretário-geral do partido”, etc. Distribuía cargos e em dois deles por acaso veio a acertar. E eu dizia “há coisas que nunca vou ver na vida: o fim do apartheid, o fim do comunismo e democracia em Portugal”. Achava que nada disto ia acontecer no meu tempo de vida. Vivia há 12 anos na Suíça quando foi o 25 de Abril. Imaginem o que foi regressar a Portugal... Só tinha vindo uma vez a Lisboa, nunca tinha ido ao

Alentejo ou ao Algarve. Não conhecia praticamente nada, exceto Vila Real, Porto ou Coimbra. O país que nessa altura sonhava que viesse a ser construído aproxima-se do que temos hoje? Eu não preconcebia nenhum país. Tinha desejos de modernidade, cultura, igualdade, democracia, Europa. Mas isso não se traduzia em coisas muito concretas. Portugal era pequenino, pobre e ignorante. Eu estava convencido de que com democracia e liberdade grande parte dos problemas podiam resolver-se. Esperava que o resultado fosse melhor. Há 20, 25 anos achava que tínhamos conseguido melhor do que hoje. Isto é, o balanço do que os portugueses fizeram bem era, há 20 anos, muito mais nitidamente favorável do que é hoje. Acha que progredimos mais nos primeiros 20 anos após o 25 de Abril do que nestes últimos 20? Sim. O número de coisas boas continua a ser mais ou menos o mesmo, mas o

número de coisas muito mal feitas é bastante maior. Isso não tem a ver com o facto de que o que havia a fazer logo a seguir ao 25 de Abril, como o saneamento básico ou a generalização do ensino, ser muito evidente? Quando acabou a evidência, já não sabíamos o que havia a fazer... Acha que foi isso? Sim. Em 1960/70 tínhamos um milhão de crianças fora da escola, hoje não temos nenhuma. Tínhamos uma taxa de mortalidade infantil de 80 (por mil), hoje temos de 2 ou 3. O serviço nacional de saúde, a educação, o Estado social, tudo isto foi feito quase a partir do nada. Mas devíamos ter feito um plano a longo prazo, a 20 anos, que fosse mais honesto, menos corrupto, menos desigual... Fez-se um sistema político que no início parecia bem feito. A Constituição é quase uma peça de ourivesaria: tem quatro artigos e meio para evitar o comunismo, cinco artigos para evitar o capitalismo excessivo, está tudo feito de forma milimétrica, uma obra de filigrana que

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funcionou. Até o CDS votou quase tudo. Já foram feitas oito ou nove alterações e o PCP continua a dizer que a Constituição é deles. O PS sente como deles, o Bloco também e o PSD tem dias. Aquela Constituição é um absurdo, é arcaica, obsoleta e não resolve problemas. Qual acha que foi o nosso maior falhanço? Há um conjunto de razões que nos levaram a falhar. A voracidade económica, política e social nos primeiros dez ou 20 anos da democracia... Os portugueses portaram-se como se não tivessem filhos ou netos, como se não viesse ninguém atrás. E era muito fácil passar cheques com o dinheiro da Europa ou com o dinheiro das reservas que ainda havia. Desde o 25 de Abril até ao cavaquismo é feita a grande obra das infraestruturas coletivas: o saneamento básico, a eletricidade, os esgotos. De 1985 a 1995 é o telefone em casa, a televisão em casa, as estradas, numa perspetiva muito virada para o transporte individual. Houve realmente a ilusão de que o dinheiro chegava para tudo. Criou-se a ilusão de que podíamos viver à custa da Europa, dos empréstimos e da dívida. Depois houve uma voracidade política. Há uma total impossibilidade de conseguir acordos, nos variados momentos difíceis que temos vivido. Todos os países europeus viveram momentos em que foi preciso juntar 3, 4 partidos. A democracia portuguesa fundou-se na base da demagogia, da pura promessa eleitoral, do cabrito com batatas. Prometero que não podes dar, paga com dinheiro que não é nosso, etc... Pensávamos que o salazarismo, a ditadura, o fechamento era a causa de todos os males do país. Mas talvez fosse também consequência desses males. Acrescentou por sua conta e risco. Vivemos ainda hoje sem nenhuma experiência democrática. O regime político faz-se deixando toda a gente viva, o que é uma coisa boa, mas impedindo que haja sidonismo, comunismo, liberalismo, propriedade privada a não ser que seja muito limitada... Tentando um regime que é impossível. É como um ornitorrinco, que é um mamífero mas põe ovos, tem bico, tem pelos, é o bicho mais esquisito do mundo. Temos de facto muito pouca preparação cultural, os nossos números de analfabetismo nos anos 50 eram iguais aos dos ingleses 150 anos antes. Não tínhamos cultura de instituições

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O nosso regime é um regime impossível. É como um ornitorrinco, o bicho mais esquisito do mundo: é um mamífero e põe ovos

25 Abril 40 anos | 51 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


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democráticas. E quando tivemos, pusemo-las reféns dos partidos. O Conselho de Estado é dominado pelos partidos, o Tribunal Constitucional também... Há uma lógica partidária em tudo. Eu não quero um sistema eleitoral em que os independentes ganhem, mas abrir o sistema político para permitir que qualquer pessoa se candidate, porque não? É proibido criar partidos regionais, por exemplo. Isto revela medo. É proibido ser racista, é proibido propagandear o fascismo... Sou contra o racismo ou o fascismo, mas estas coisas não se proíbem.

Combatem-se. Se permitimos candidatos independentes no país inteiro, obrigamos os partidos a escolher os melhores. Neste momento há um grande descrédito em relação aos partidos, nomeadamente por parte das gerações mais jovens. Uma das razões é esta. Os partidos continuam estruturas de defesa de interesses dos seus militantes, estruturas de redes de influência... O caciquismo do antigamente, do grande proprietário ou do delegado da União Nacional, é hoje

dominado pela vida partidária, que tem o poder, as obras públicas, as construções, os favores e os subsídios, os investimentos públicos, o acesso aos dinheiros europeus... tudo depende da vida partidária. O crescente alheamento em relação à política preocupa-o? Muitíssimo. É preciso mudar a natureza do regime e a natureza da política, o que leva uma geração. Não acredito que uma democracia se defenda com as leis. A democracia defende-se com leis, com instituições

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A democracia portuguesa viveu condicionada pela ideia da distribuição de benesses e dinheiro. Mas vai estar nos próximos 20 anos sem poder oferecer nada disso

nomeadamente na justiça, que é a mais importante de todas. Se me perguntarem as três coisas mais importantes da democracia digo que é a urna, o tribunal e a informação (estatística, comunicação social, etc.). Sem estas três coisas não há democracia. A urna está lá, mas as pessoas vão lá cada vez menos. A informação está num estado periclitante porque não há dinheiro, porque não há publicidade, não há leitura. E os juízes, que já foram das profissões mais respeitadas pelos portugueses, agora estão no fim da linha. A democracia portuguesa não atrai pessoas, as instituições são fechadas e corporativas. Todo esse cenário que está a descrever podia constituir em Portugal terreno fértil para o crescimento da extremadireita, o que não está a acontecer, ao contrário do que sucede noutros países da Europa. Porquê? Mesmo para crescer o extremismo são necessárias instituições, mobilização, vontade política, agitação, organização, capacidade de associação... Os holandeses têm isso e têm 6 partidos de extrema-direita, a Finlândia tem dois, a França tem três, a Suíça quatro. Nós temos tão pouca sociedade civil e tão pouca vontade política que nem extrema-direita temos.

e, sobretudo, com a defesa popular. Se o povo não defender a democracia não temos democracia. Acha que os portugueses estão a deixar de acreditar na democracia? Estão desafetos, indiferentes. Gostam da liberdade, mas não tivéssemos nós os fundos europeus e a presença de 30 países democráticos na Europa e não tivéssemos nós as forças militares reduzidas ao ínfimo e estou convencido que já tínhamos tido uma interrupção na democracia. Acha que há esse risco? Há esse risco nos próximos 20 ou 30 anos.

Em Portugal ou na Europa? Em Portugal mais do que noutros sítios. Não há do lado popular uma defesa intransigente da democracia. Estou a falar da democracia como sistema político, não apenas da defesa das liberdades. A democracia portuguesa viveu condicionada pela ideia da distribuição de benesses e dinheiro. Mas vai estar nos próximos dez ou 20 anos sem poder oferecer nada disso ou muito pouco. Portanto, tem uma população desafeta, veja-se as taxas de participação eleitoral, as taxas de confiança nas instituições,

Qual é então o risco? Continua o risco de bancarrota económica e financeira, apesar da troika. Ainda estamos hoje mais endividados do que há três anos. Estamos em melhor situação financeira do ponto de vista da confiança dos mercados, mas estamos em pior situação real. Não se soube cortar com equidade. Foi preciso fazer tudo a correr. Politicamente, o risco é de fragmentação, desafeto, desinteresse. Em qualquer altura podemos ter o parlamento invadido como já aconteceu. Mas não tem havido episódios de violência… Não e fico muito satisfeito com isso. Não estou a prever violência para amanhã em resultado direto da troika. Estou a prever para os próximos 20 anos, que serão de de ruína e de muito difícil construção, em que é provável que o apoio europeu em relação aos países periféricos seja menor. 25 Abril 40 anos | 53

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ENT R EVIS TA

Acha que faz sentido o debate sobre se Portugal deve ou não permanecer na União Europeia? Nesta União Europeia, não, porque esta vai acabar. Mas acho que faz sentido Portugal manter-se na próxima União Europeia. Como é que acabará esta União Europeia? Já está a acabar lentamente. A Alemanha está a refazer os seus projetos estratégicos a dez anos. Uma das grandes fragilidades europeias hoje é a desorientação francesa e perceber até onde a Inglaterra quer entrar. Estamos tão preocupados com o amanhã e o depois de amanhã que não percebemos que isto são coisas para 20 anos, grandes ciclos. A Alemanha quer ser líder, quer mandar mais. Os projetos totalitários podem aparecer em dias, semanas, meses, de um dia para o outro. Há um livro maravilhoso que se chama “A Escola dos Ditadores”, escrito antes da II Guerra Mundial, em que um americano que quer ser ditador pede a um professor suíço de ciência política que o ensine a chegar lá. O professor explica-lhe que não é preciso organizar um partido político nem ter militares para se ser um bom ditador; é preciso é ter paciência porque as democracias caem por elas. Voltando a nós, a ideia do golpe de Estado preparado, da Marine Le Pen que lentamente passa a 10% dos votos, sobe para 15% e já vai em 26%, não se aplica a Portugal. Todos os herdeiros de Salazar nunca tiveram mais de 0,5%. O dr. Salazar nem sequer consegue ter uma estátua, uma rua, nada. Mas foi eleito figura do século no programa da RTP... Não valorizei, fiquei desolado porque é um sinal de incultura. Por que tem Portugal o último comunismo do mundo? Por um atraso social e cultural. As coisas que eles dizem são impensáveis, repetem a mesma coisa há 40 anos. O PCP com 6% ou 7% dos votos trata o PS com 35% ou 38% como se fosse o contrário. Dizem: vamos formar um governo de esquerda e o PS se quiser entrar entra. O BE tomou o mesmo caminho. Isto é atávico. Os partidos comunistas francês, italiano ou espanhol eram partidos sérios e acabaram porque os países evoluíram. Por cá, o PCP marcou excessivamente os últimos 40 anos. Por que só revimos a sério a Constituição em 1982 e em 1989? Perdemos 10 anos com a guerra colonial,

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Perdemos 10 anos com a guerra colonial, cinco com a revolução e dez com a contrarrevolução. Desde 1970 até hoje já perdemos quase 30 anos. E agora estamos a perder mais uns bons pares de anos

cinco com a revolução e depois 10 com a contrarrevolução. Desde 1970 até hoje já perdemos 30 anos. E agora estamos a perder mais uns bons pares de anos. Quais foram as maiores conquistas do país após o 25 de Abril? O nosso balanço de melhoramentos é enorme. A mais importante é a liberdade pura e simples. A nossa democracia falhou, a liberdade não. A segunda foi (a emancipação d)as mulheres. Em 1960, uma mulher não podia alugar um quarto, sair do país, abrir uma conta bancária... Em terceiro lugar, o Estado social. Os números são avassaladores. Nas universidades de todo o país havia 24 mil estudantes, hoje há 400 mil. E não estão em risco essas grandes conquistas? O Estado social está. Por não ter sido feito com a devida cautela demográfica e financeira. Com isto não estou necessariamente a dizer que se desse menos a mais gente. Mas podia ter-se encontrado outros equilíbrios. Acha que os fundos europeus foram uma oportunidade perdida? Globalmente não. Possibilitaram um enorme avanço. Mas podia ter-se avançado muito mais. A indicação que temos é que cerca de um terço dos fundos foi levianamente utilizado e não teve retorno económico. Algumas dessas coisas foram feitas com os fundos. Houve aumentos da Função Pública completamente desabridos. Isto podia ter sido feito de maneira mais equilibrada, mais pensada. Estamos com mais desigualdade social do que há 20 anos. Mas é mentira que os ricos ficaram mais ricos e os pobres ficaram mais pobres. Todos subiram, só que os ricos subiram mais. O empobrecimento geral veio para ficar? Não falo em empobrecimento, mas em diminuição de rendimentos. Acho que essa diminuição de rendimentos se vai manter em termos relativos e absolutos, pelo menos nos próximos cinco ou dez anos. Se tivermos sorte isto vai ajudar a definir padrões de consumo um bocadinho mais racionais. Mas recuperar os níveis de consumo e de vida que tínhamos há 20 anos vai demorar outros tantos. ^ Agradecimentos: Escola Superior de Comunicação Social

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EM CONTA GEM DECRES CENTE O regime vai ficando mais frágil. Dá provas de fraqueza na frente ultramarina e vê alastrar a contestação interna animada pela música. Os últimos dias chegam naturalmente

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EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

À ESPERA DE ABRIL

2 7 MARÇO

Guiné em negociação secreta

A um mês do 25 de Abril, pela primeira (e única) vez, um enviado de Lisboa discutiu em Londres com o PAIGC o fim da guerra na Guiné. A iniciativa partiu da Grã-Bretanha, que contou com o apoio da Nigéria TEXTO JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA

A

27 de março de 1974, termina em Londres um encontro inédito e secreto de dois dias, que visa pôr termo à guerra na Guiné. De um lado, um emissário especial do Governo de Marcello Caetano; do outro, uma delegação do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que desde 1963 conduz uma bem-sucedida guerrilha contra o domínio colonial português. A reunião é promovida pelas autoridades da Grã-Bretanha, o mais velho aliado de Portugal, parceiro na NATO e com enorme experiência acumulada em matéria de descolonização. Lisboa havia impedido várias iniciativas diplomáticas no sentido de

encontrar uma solução política para a guerra colonial. Ainda em 1971, as conversações entre Portugal e o Senegal, conduzidas pelos respetivos ministros dos Negócios Estrangeiros, marcaram passo devido à falta de vontade política por parte de Portugal. No ano seguinte, também o diálogo entre o governador da Guiné, general António de Spínola, e o Presidente da República do Senegal, Leopold Senghor, viria a ser bloqueado por decisão do próprio presidente do Conselho, Marcello Caetano. Ainda em 1972, Lisboa não permitiu que Spínola aceitasse o desafio que lhe fora lançado pelo líder do PAIGC, Amílcar Cabral, para um encontro em Bissau. Com o misterioso assassínio de Cabral, em janeiro seguinte, desaparecera não

apenas o principal líder dos movimentos de libertação das colónias portuguesas como o dirigente que mais intensamente procurara um compromisso com a potência colonizadora. Nos primeiros dias de fevereiro de 1974, dois funcionários britânicos da embaixada em Lisboa visitaram a Guiné. Meses antes, quando Spínola ainda era o governador, recebera o próprio embaixador, sir David Muirhead. Londres percebera rapidamente o impasse em que a guerra se encontrava, com o PAIGC numa posição de progressiva ascendência militar, muito por via da introdução dos mísseis terraar “Strella”, fornecidos pela União Soviética. Por outro lado, a declaração unilateral de independência da Guiné,

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EM CON TAGEM DECRES CENT E

em 24 de setembro de 1973, prontamente reconhecida pela esmagadora maioria do Estados-membros da ONU, revelara o completo isolamento internacional de Lisboa. Os britânicos alvitram então ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício, um encontro exploratório com o PAIGC. Sentindo-se num beco sem qualquer saída, Caetano aceita a sugestão. Num ciclo de colóquios sobre o caetanismo, realizado entre setembro de 2008 e janeiro de 2009, o ex-ministro Rui Patrício viria a reconhecer que a guerra na Guiné “tinha atingido patamares difíceis”, pelo que “era possível que tivesse de ser encarada” para aquele território uma ‘solução diferente’ da equacionada para Angola

Há 20 anos, o Expresso juntou em Londres os participantes na reunião histórica (realizada duas décadas antes): José Manuel Villas-Boas, Silvino da Luz, Vítor Saúde Maria e Gil Fernandes FOTOGRAFIA DE ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

e Moçambique. “Abrir um canal de possível negociação afigurava-se-nos oportuno” — explicou então. Coube ao Reino Unido criar as condições logísticas para esse diálogo. Para tanto, recorre aos bons ofícios

da Nigéria, uma ex-colónia britânica presidida pelo general Yakubu Gowon. No poder após o golpe de 1966, Gowon contara com o apoio britânico durante a sangrenta guerra civil provocada pela tentativa de secessão da província do Biafra. Um emissário nigeriano aborda na Guiné-Conacri o líder do PAIGC, Aristides Pereira, que substituíra Amílcar Cabral após o assassínio deste. A proposta é inédita e vai ao encontro de uma das constantes estratégicas do PAIGC. É escolhida uma delegação de altíssimo nível, composta por três elementos: o secretário internacional do PAIGC, Vítor Saúde Maria, espécie de ministro dos Estrangeiros da Guiné-Bissau após a declaração de independência, acompanhado de dois dos 25 Abril 40 anos | 57

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EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

mais experientes diplomatas do PAIGC, Gil Fernandes (colocado em Estocolmo) e Silvino da Luz (enviado a Nova Iorque para fazer lobbying junto da ONU). Saúde e Silvino recebem instruções do próprio Aristides Pereira, em Conacri, onde o PAIGC tem o seu quartel-general. Partem juntos para a Nigéria, onde são recebidos pelo Presidente Gowon. Recebem passaportes falsos, atribuindolhes a nacionalidade nigeriana, enquanto os indispensáveis vistos de entrada são concedidos pela embaixada da Grã-Bretanha em Lagos. Quanto a Gil Fernandes, voa diretamente de Estocolmo para Londres, também com passaporte nigeriano — um dos quatro que possui... Chegam ao aeroporto de Heathrow a 25 de março. Acolhidos por funcionários britânicos, são levados para um hotel enquanto é distribuído a cada um o habitual pocket-money. O emissário português fica hospedado no hotel Victoria, perto da gare com o mesmo nome. Chama-se José Manuel Villas-Boas. Cônsul-geral em Milão, fora aluno de Marcello Caetano na Faculdade de Direito de Lisboa, após o que

O enviado português, uma escolha do próprio Caetano, foi José Manuel Villas-Boas, cônsul em Milão, que já estivera noutras missões meio secretas

ingressara na carreira diplomática. A escolha pertencera ao próprio Caetano. “Ele era um diplomata com um grande habilidade. Bom negociador, conhecia bem África”, explicou o ex-ministro Rui Patrício, quando da reconstituição do encontro pelo Expresso, 20 anos depois. Villas-Boas já fora chamado por Caetano para outras missões meio secretas junto do Presidente da Costa do Marfim, Houphouet-Boigny, e do imperador Bokassa, da República Centro-Africana. Convocado de urgência a Lisboa, recebe instruções do ministro, na presença do diretor-geral dos Negócios Políticos, embaixador Freitas Cruz. Nessa mesma reportagem, VillasBoas explicou que “o ministro garantiu a total cobertura política por parte de Marcello e exigiu o maior segredo. Recomendou-me, em particular, que não escrevesse nada sobre o assunto”. O que o diplomata respeitaria durante três décadas: só em 2003, quando publicou o seu “Caderno de Memórias” (Temas & Debates), se referiu detalhadamente à missão, uma das mais importantes da sua carreira.

Portugal e o mundo há 40 anos

BRASIL TEM NOVO PRESIDENTE A posse do novo Presidente da República do Brasil (15/3), general Ernesto Geisel, contará com a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Rui Patrício. Filho de imigrantes alemães, Geisel, 65 anos, é o quarto militar a ocupar o cargo, desde a instauração da ditadura, em 1964. Na posse estarão presentes o general Augusto Pinochet, do Chile, Hugo Banzer, da Bolívia, e Juan Bordaberry, do Uruguai. O braço-direito do Presidente será o chefe da Casa Civil e general reformado, Golbery do Couto e Silva.

LEITE COM NOVOS PREÇOS A venda de leite pasteurizado nos postos de abastecimento e ao domicílio passa a ter o preço por litro de 4$90 e 5$20 (valores próximos de dois cêntimos), respetivamente. O decreto-lei do Ministério da Economia publicado no “Diário do Governo” (16/3) justifica o aumento com a necessidade de compensar os custos de produção. Fica também o aviso de que haverá nova subida de preços no segundo semestre. Uma tendência que se manteve até ao presente: o preço do leite embalado, à saída da fábrica, aumentou 15% desde 2005.

formada pelos bancos Borges & Irmão, Espírito Santo, Fonsecas & Burnay, Nacional Ultramarino, Português do Atlântico e Totta & Açores. Os primeiros cartões só serão emitidos em novembro, mas no fim de 1974 estavam no mercado quase 10 mil, ao que se seguiria um crescimento exponencial do dinheiro de plástico. Atualmente, a Unicre, sociedade que representa o cartão Unibanco e passou a ter 13 instituições financeiras como acionistas, gere 245 mil cartões desta marca.

PREJUÍZOS NA CARRIS O aumento do preço dos bilhetes e a consequente quebra no número de utilizadores terá agravado os resultados da Carris, que em 1973 registou prejuízos de 842,6 mil euros (23/3). A redução de passageiros, que começou a verificar-se em 1966, cifrou-se numa perda de 28 milhões de utentes. Também no número de funcionários, houve uma diminuição de 7,5%, quando comparado com o ano anterior. Há 40 anos, a empresa tinha 537 autocarros e 288 elétricos.

SIM AOS CARTÕES UNIBANCO O lançamento do cartão Unibanco (27/2) foi autorizado por despacho do secretário de Estado do Tesouro, após quatro anos de espera. Pertence a uma sociedade

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As instruções de Patrício a VillasBoas são claras: “A ideia era procurar chegar a um cessar-fogo na Guiné portuguesa (como dizíamos na altura) a troco do reconhecimento de uma independência plena”. Em termos de calendário, o cessar-fogo deveria ser alcançado “a curto prazo, enquanto a questão da independência teria de ser preparada” com mais tempo. VillasBoas voa para Londres num voo da TAP. No aeroporto tem a aguardá-lo um funcionário inglês — do MI6, os serviços secretos britânicos, soube mais tarde — e que, para se dar a conhecer, exibe um cravo vermelho na lapela e o “The Times” debaixo do braço. As conversações decorrem num apartamento do nº 535 de Dolphin Square, na margem esquerda do Tamisa, com vista para o Big Ben. Facilitadores da reunião, os britânicos fazem as apresentações e retiram-se. Convencido de que no lado contrário estaria o próprio ministro Rui Patrício, a ausência deste leva o guineense Saúde Maria a abandonar a reunião, passando a delegação do PAIGC a ser chefiada pelo

NAÇÕES UNIDAS CONDENAM COLONIALISMO PORTUGUÊS A Comissão especial da ONU para o Colonialismo pediu (16/3) a Portugal que “cesse imediatamente as suas guerras coloniais”. O órgão formado tem insistido com os Estados que se relacionam economicamente com Lisboa que “façam diligências coletivas no sentido de levarem o Governo português a acatar as resoluções da ONU”. COLÉGIO MILITAR PREMEIA SPÍNOLA E COSTA GOMES Cinco emblemas de ouro foram entregues (15/3) pela Associação de Antigos Alunos do Colégio Militar aos generais António de Spínola, Costa Gomes, Venâncio Deslandes, ao tenente-coronel Almeida Bruno e ao capitão Ribeiro da Fonseca, todos ex-alunos da instituição. Esta distinção foi conferida pela primeira vez”. CHRISTIANA MARTINS

cabo-verdiano Silvino da Luz. A conversa prossegue no dia seguinte. O PAIGC coloca em cima da mesa a independência de Cabo Verde. O mandato do português limita-se, porém, à Guiné. Para o arquipélago, explica, necessita de “pedir instruções a Lisboa”. Os responsáveis do PAIGC querem saber ainda os planos para Angola e Moçambique. Villas-Boas repete que só está “autorizado a discutir o caso da Guiné”. NOVO ENCONTRO A 5 DE MAIO Nenhuma das partes está interessada em quebrar o diálogo, combinando novo encontro para 5 de maio, novamente em Londres. Antes de se despedirem, o português oferece a Silvino da Luz (futuro ministro dos Estrangeiros de Cabo Verde) um exemplar do livro do general Spínola, “Portugal e o Futuro”, publicado um mês antes e que tantas ondas já levantara. Volvidos 40 anos sobre esse encontro secreto, desconhece-se qualquer relatório escrito. De regresso a Conacri, Saúde Maria e Silvino da Luz fazem “um relatório verbal” à direção do partido. O mesmo sucede com Villas-Boas, que

AGENDA CULTURAL

presta contas diretamente ao ministro Rui Patrício, de novo acompanhado por Freitas Cruz. Nas suas pesquisas nos arquivos britânicos, o historiador Pedro Aires Oliveira não encontrou qualquer documentação. “Uma vez que esses contactos envolveram a participação de elementos do MI6, os arquivos oficiais britânicos nada revelam a seu respeito”, explica no livro “Os Despojos da Aliança” (Tinta da China, 2007). O 25 de Abril encarregou-se de tornar inútil o encontro agendado para maio. As negociações tornaram-se públicas, visando simultaneamente o cessar-fogo, o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, mas também as condições de acesso à independência de Cabo Verde. Passaram a ser conduzidas ao mais alto nível, entre o ministro dos Negócios Estrangeiros do novo regime, Mário Soares, e o secretário-geral do PAIGC, Aristides Pereira. O encontro secreto de Londres, que se tivesse sido realizado mais cedo poderia ter mudado a história da descolonização portuguesa, só viria a ser revelado pelo Expresso 20 depois, em março de 1994. ^

de quatro mil espectadores. A imprensa relata que no final do concerto “um cravo vermelho caiu no palco”.

Maria João Pires toca Schumann na Gulbenkian a 20 de março de 1974 — naquele que é o seu primeiro concerto após a atribuição do Grande Prémio do Disco da Academia Charles Cros, pelo Concerto nº 21 de Mozart — e é aclamada pela crítica e pelo público. Francine Benoit crítica do jornal “A Capital” chega a falar da “enlouquecedora penetração schumaniana” da pianista portuguesa.

No Teatro Monumental, Art Blakey e o grupo Messengers dão um concerto de jazz com a sala esgotada. Estávamos a 20 dias da revolução e, um dia depois, Paulo de Carvalho começava a fazer história com ‘E Depois do Adeus’, apresentando o tema — que viria a ser a senha para a o golpe militar — no Festival da Eurovisão da Canção, ficando em último lugar. É ‘Waterloo’, dos suecos ABBA, que arrecada a primeira posição.

No Coliseu dos Recreios, em Lisboa, três dias depois, o cantautor espanhol Patxi Andión atua para uma plateia

O álbum estrangeiro mais vendido em Portugal foi

o dos Procol Harum, banda britânica de rock progressivo que recebe dia 9 de abril a respetiva “Caravela de Prata”. E já em vésperas do 25 de Abril, a 19 e a 20, Rão Kyao é aclamado pelo público e pela crítica no Hot Clube. O crítico do Expresso, Trindade Santos, escreve mesmo que foi “o mais importante concerto de jazz que já ouvi a um português”. No cinema passam filmes de Truffaut, “A Noite Americana”, de Jean Renoir, “Boudu Querido”, de George Lucas, mas também de Cunha Teles, “Meus Amigos", ou de António Macedo, “A Promessa”. ALEXANDRA CARITA

25 Abril 40 anos | 59 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

À ESPERA DE ABRIL

2 9 MARÇO

A música de braço dado com a exigência de liberdade e democracia. Na imagem reconhecem-se Manuel Freire, José Jorge Letria, Vitorino, Fausto, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira

A noite em que a música antecipou a revolução 60 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


ARQUIVO “A CAPITAL/IP”

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No Coliseu, ‘Grândola’ é cantada em uníssono numa sala a abarrotar. Uma espécie de ensaio geral do coro coletivo que chegaria semanas depois TEXTO CHRISTIANA MARTINS

C

inco mil pessoas reunidas a 29 de março de 1974 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, cantaram uma revolução que só aconteceria um mês depois. A audiência pensava que participava apenas no I Encontro da Canção Portuguesa, mas não sabia que, desta forma, ajudava a escolher uma das senhas do 25 de Abril: “Grândola, Vila Morena”. Fazia-se história. Foi Ary dos Santos, um dos participantes, quem reconheceu a importância do encontro, ao sublinhar que era a primeira vez que “gente muito importante aparece junta”. Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Manuel Freire, Fausto, José Barata Moura, José Jorge Letria, Fernando Tordo, Carlos Paredes, Carlos Moniz e Maria do Amparo, Rui Mingas, eram essa gente e todos cantaram uma liberdade que não tardaria a chegar.

A ideia do espetáculo surgiu na direção da Casa da Imprensa, que, em 1974, como em todos os anos, iria distribuir os seus prémios de mérito em várias áreas. Desta vez, queria fazê-lo embalando a cerimónia pelo som forte das canções de intervenção. E conseguiu, mas não foi fácil. Não por falta de adesão, que a lotação esgotou com vários dias de antecedência. Era o fim do regime que estava a emperrar a engrenagem. Para desbloquear a preparação do evento, Mário Cardoso, então presidente da Casa da Imprensa, escreveu ao subsecretário de Estado da Informação e Turismo, Caetano de Carvalho. Faltavam dois dias para os intérpretes subirem ao palco. Na carta, assumia um compromisso: “Com todos os artistas convidados assentámos taxativamente que não seriam cantadas letras que não tivessem sido, devida e antecipadamente, examinadas e aprovadas para o espetáculo”. Feita a promessa, veio o pedido do organizador do espetáculo, para que fosse “levantado” o “embargo em relação aos artistas José Afonso e Adriano Correia de Oliveira”, proibidos de cantar pelo regime. À cautela, para ver se o pedido passava, Cardoso salientava que seria a “título excecional, com a certeza antecipada” de que a “presença” dos cantores no palco do Coliseu teria “um carácter estritamente artístico”. Num depoimento escrito ao Expresso, Mário Cardoso diz que ainda sente “na pele, nas veias, no coração, os inebriantes momentos de entusiasmo, de tensão, de desafio ao poder, por que passaram todos quantos ousaram levar a cabo a grande aventura”. E completa: “Porque de aventura (e perigosa) verdadeiramente se tratava: meter ombros àquilo era correr o risco de um grande fiasco, desafiar o poder marcelista, soltar, muito provavelmente, os cães, a PIDE e a polícia de choque (que se confirmou: estavam lá todos!)”. Até o subsecretário Caetano de Carvalho, que, somente nos bastidores, autorizou, in extremis, Adriano Correia de Oliveira a interpretar o ‘Cantar de Emigração’. BRAÇO DE FERRO José Jorge Letria — presidente da Sociedade Portuguesa de Autores e, na altura, jornalista e cantor —, que participou da organização do espetáculo, lembra-se das dificuldades da sua concretização. “Foi um processo muito complexo, porque o regime estava no fim, a canção conquistava influência, 25 Abril 40 anos | 61

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Quarenta anos depois, no Coliseu de Lisboa, foi evocado o espetáculo que vitaminou ainda mais a contestação à ditadura. Nas imagens, João Afonso acompanhado por Rui Pato (em cima) e Júlio Pereira FOTOGRAFIAS DE NUNO FOX

a intervenção da censura agravava-se” e, para complicar, “pela primeira vez reuniam-se cantores políticos”. Recorda que, minutos antes de as cortinas se abrirem, a incerteza ainda era total, faltava saber quem podia subir ao palco e o que poderiam cantar. Letria não tem dúvidas: “O espetáculo foi um braço de ferro final e converteu-se num empurrãozinho ao fim do Governo. O Golpe das Caldas acontecera há menos de 15 dias... Mas tudo decorreu com grande maturidade cívica e com alegria coletiva”. Da lista de canções proibidas constam títulos como ‘Venham Mais Cinco’, ‘Menina dos olhos Tristes’, ‘A Morte Saiu à Rua’, ‘Balada do Pescador’, ‘Companheiro’, ‘Tango dos Pequenos Burgueses’, entre muitas outras.

Portugal e o mundo há 40 anos

ÁGUA CANALIZADA NA FIGUEIRA DA FOZ O conjunto de redes de abastecimento a 40 povoações do concelho da Figueira da Foz, que irá beneficiar cerca de 12 mil habitantes, foi inaugurado pelo secretário de Estado das Obras Públicas (24/3). A seguir à cerimónia efetuou-se um beberete. Quatro décadas mais tarde, as infraestruturas básicas de água canalizada e sistema de esgoto estão

presentes em praticamente todos os alojamentos do território nacional.

de dois oficiais e três cabos mecânicos, que constituíam a tripulação das duas aeronaves.

ACIDENTE AÉREO EM ANGOLA O comando-chefe das Forças Armadas em Angola distribuiu um comunicado (28/2) revelando que colidiram em voo dois helicópteros da Força Aérea, quando uma formação daqueles aparelhos manobrava na zona do Luso. Do acidente resultou a morte

ENCERRADO INSTITUTO DE ECONOMIA DE LISBOA O Instituto Superior de Economia de Lisboa (ISE) fechou (26/3) devido ao incidente que envolveu o diretor da instituição, Gonçalves Proença, e um grupo de alunos. Em causa estava uma reunião de alguns estudantes, para discutir a

situação do país, que teriam arrombado as portas de um anfiteatro e agredido um funcionário do ISE. A direção da escola decidiuse pelo encerramento da instituição. C.M.

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‘Grândola’ passou, não era muito conhecida, tinha sido estreada em 1972, não se tinha a certeza de quantas pessoas realmente conheceriam a letra. Na assistência estiveram militares de Abril — inclusive Otelo Saraiva de Carvalho —, atentos ao que se passava, de tal forma que foi no Coliseu que a música de Zeca Afonso foi escolhida como uma das senhas revolucionárias. No exterior, os polícias a cavalo, com o célebre Capitão Maltez a comandar as hostes, davam gravidade ao ambiente que circundava o Coliseu. Ordeiras, as pessoas presentes contiveram-se, porque a alegria ia dentro de cada um para se soltar quando ‘Grândola’ ecoou em força. Ninguém queria que aquele dia de festa se transformasse numa caça ao homem. Ou aos ideais.

Para Manuel Freire, uma das memórias mais fortes do encontro foi ver a plateia aderir espontaneamente e fazer o coro de ‘Grândola’

UM ‘LUCRO MENOR’ DE 133 CONTOS Manuel Freire, o homem que entrou para o imaginário nacional como a voz profunda de a ‘Pedra Filosofal’, recorda-se daquela noite e do misto de sentimentos que provocou. No seu caso, teve os últimos versos da canção ‘Dulcineia’, de José Gomes Freire, vetados. E como viajara de Ovar num comboio recorreu a um artifício, imediatamente compreendido pelo público: “A janela abriu-se as folhas voaram, não me recordo da letra”... Depois, seguiram-se as reações de hostilidade e os apupos a Fernando Tordo e a Ary dos Santos. “Eram cantores dos festivais, faziam o que na época se chamava de música burguesa, e aquela era uma audiência muito informada e politizada”, explica. O poeta

revoltou-se e deu a volta à situação. “Poeta castrado, não!”, gritou Ary dos Santos, recitou “SARL, SARL, a pança do patrão não lhe cabe na pele” e saiu ovacionado. Houve nomes ausentes, muitos porque não podiam estar em Portugal, como José Mário Branco, Luís Cília, Sérgio Godinho ou Francisco Fanhais. Paulo de Carvalho estava em Londres. Mas Zeca Afonso era o homem do momento. Manuel Freire diz mesmo que uma das memórias mais fortes que lhe ficaram do encontro foi de ver a audiência a aderir espontaneamente e fazer coro de ‘Grândola’. No fim, o saldo foi muito bom: 123 contos de lucro (€613). Para se ter uma noção, a organização apenas gastara 81 contos (81 mil escudos, ou seja,

AGENDA CULTURAL A censura era particularmente violenta com os espetáculos ao vivo. O contacto direto com o público levava os censores a crer que seria mais fácil ao espectador comum copiar e adotar as atitudes e comportamentos do que via em palco. O teatro foi por isso alvo de uma censura constante com muitas peças cortadas e muitas proibidas.

Obras hoje indispensáveis para uma cultura geral básica, eram ameaça para o Estado Novo. Como “Bruscamente no Verão Passado”, de Tennessee Williams, que conta a história de um

€404). Mas a verdade é que muito mais ficou daquela reunião de músicos de intervenção: a certeza de que a canção é uma arma e que a força pacífica de muitos pode fazer conquistas que ficarão na memória do tempo. No dia seguinte, os jornais comprovaram a força da canção. O “Diário Popular” titulou “Aquele Abraço da Música”, tentando reconstruir o “ambiente de euforia” e as muitas pessoas sentadas pelo chão, num espetáculo em que “o público foi a vedeta”. O “República” preferiu dizer que aquele foi “Um Encontro na Música” e a “Flama” que serviu para “Matar a Sede das Palavras”. Mas houve quem não conseguisse fazer o trabalho previsto. O jornalista Cesário Borga faria, a propósito do encontro, a sua primeira colaboração com a rádio, mas a sua peça nunca foi para o ar. Então no “Diário de Lisboa”, Borga foi convidado a colaborar com a Rádio Renascença e a sua estreia seria a reportagem do encontro. “Falei com as pessoas, ouvi as canções, recolhi sons do ambiente, a montagem da peça foi feita com muito cuidado e o trabalho ficou bastante bem, mas foi censurado, acabando com a minha carreira na rádio”, contou ao Expresso. Passados 40 anos, a mesma Casa da Imprensa, desta vez, com a colaboração da Fundação José Afonso, reeditou aquele momento marcante. No mesmo Coliseu, no dia 28 de março, com muitos ausentes (que já não cantam ou já morreram), mas com a participação de artistas mais jovens. Desta vez ‘Grândola’ é a referência maior de um país novamente em crise. ^

amor materno patológico e emocionalmente perturbador. Ou o caso de “Júlio César”, de William Shakespeare, cortado até à medula, por retratar uma conspiração contra o ditador romano. O incesto, tema central de “Antígona”, nunca foi tolerado. Jean Genet e as suas “Criadas” foi proibido 12 vezes. Quem toleraria uma luta de classes num Portugal tão pacífico? Brecht também era visto com maus olhos, as suas peças foram recusadas sistematicamente pela censura

até uma companhia brasileira conseguir passar “A Alma Boa de Szechwan”, apesar de tratar um caso de denúncia social. Já os autores portugueses eram mais poupados. Caetano dava diretivas de que cortar ou proibir peças de dramaturgos nacionais era desagradável. Mas Bernardo Santareno é exceção. O seu “Inferno” não passa. A flexibilidade não chega a uma descida aos infernos acompanhada do mito de Orfeu. A.C. 25 Abril 40 anos | 63

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À ESPERA DE ABRIL

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A expulsão do bispo do povo

ABRIL

Em Nampula, D. Manuel tratava brancos e negros por igual. Mas ao passar a escrito a denúncia dos abusos do sistema colonial e a defesa da independência de Moçambique, o regime deportou-o para a metrópole TEXTO RAQUEL MOLEIRO

Q

uarta-feira da semana santa de 1974, dia 11 de abril. Há já 48 horas que as ruas de Nampula são palco de manifestações violentas, indignadas. Nas vésperas da Páscoa, a catedral é apedrejada por homens em fúria, mais colonos do que locais, mais brancos do que negros. O paço episcopal está cercado. Lá dentro, o bispo, D. Manuel Vieira Pinto, aguarda que os ânimos acalmem. Está sereno, seguro do que fez, do que defendeu. Não se desassossegou nem quando soube que uma efígie da sua figura fora enforcada na praça, com a PIDE-DGS a organizar a revolta, a distribuir por toda a colónia de Moçambique panfletos com a foto do sacerdote. Em cima da imagem, um rótulo teclado a máquina de escrever: “Famigerado Traidor à Pátria, Indesejável em Território Português. Viva Portugal Uno e Indivisível”. Em tempo de pensamento único, o bispo de Nampula ousou dizer o que pensava. No documento “Um imperativo

de consciência”, assinado por si e pela Congregação dos Combonianos da diocese, insurgiu-se contra os abusos do sistema colonial. Antes sequer de o documento ser divulgado junto da Conferência Episcopal e do Vaticano, foi policopiado, difundido de mão em mão. E chegou às mãos erradas. PELA INDEPENDÊNCIA DE MOÇAMBIQUE Quem o leu, leu um manifesto a favor da autodeterminação do povo moçambicano e extremamente crítico do papel da Igreja local acusada de nada fazer para impedir as desigualdades, as expropriações de terras, a exploração laboral, que aceita a guerra, que não denuncia os massacres, que não reconhece ao povo direitos, que mistura evangelizar com portugalizar, que discrimina. Em cada entrelinha defendese a independência de Moçambique. Nas linhas finais, os signatários deixam uma dúzia de exigências à hierarquia da

Igreja, entre as quais o reconhecimento da legitimidade dos Movimentos de Libertação, a divulgação das situações de opressão, a renuncia ao ensino nas escolas do Estado cujos currículos “conduzem à alienação dos povos” e a denuncia da concordata “cúmplice de um sistema que contribui para o genocídio cultural do povo impedido de crescer autóctone e livre”. A reação não se fez esperar. Primeiro chegaram a Nampula as manifestações, orquestradas pelo regime. Depois veio um carro preto. Lá dentro a PIDE e a ordem para levarem o bispo em direção à Beira, num pequeno avião. Três noites ali dormidas e nova viagem, num aparelho maior para uma mais longa viagem até Lisboa. Estava consumada a expulsão. Era domingo de Páscoa. Faltavam onze dias para a revolução. Ao longo de 30 anos, D. Manuel contou este episódio vezes sem conta. Nos últimos dez, a memória começou a atrapalhar-se, o sentido das frases num

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D. Manuel Vieira Pinto, em março de 2001, então já bispo emérito, quando se despediu de Nampula

CENTENAS DE NEGROS CUMPRIMENTADOS UM A UM O primeiro ato de rebeldia foi registado no dia em que aterrou em Nampula já bispo, a 24 de setembro de 1967. “Na sala do aeroporto estava gente toda branca. Cumprimentei um por um. Cá fora estavam centenas de negros para ver o bispo novo. E cumprimentei-os do mesmo modo. Então disseram-me que não era costume, que estava a atrasar a cerimónia. E eu respondi-lhes ‘Então passa a ser’. Aí peguei numa criança de peito, levantei-a na direção do sol, dei-lhe um beijo e entreguei-a de novo à mãe. Ouviu-se um uuuuuhhhh entre os portugueses e eu disse cá para mim ‘aqui alguma coisa está mal’”, contou ao Expresso em março de 2001. Pouco tempo depois, a sua primeira visita pastoral a uma missão garantiulhe para sempre um Pide a morder-lhe os calcanhares. Durante o almoço, o administrador que estava a comer

MÁRIO ROBALO/ ARQUIVO EXPRESSO

atrofio, a lógica do discurso ausente. Diagnosticaram-lhe Alzheimer estava ele em Portugal, recém-chegado de Nampula, feito bispo emérito, reformado pelos 77 anos de idade. Dizia então que era só uma pausa, que mal os médicos deixassem voltaria a Moçambique. Foram 34 anos lá — uma vida não se abandona assim. Nem se deixa para trás a vontade de lá morrer, como diz ter escrito no testamento. Mas a alta médica nunca chegou. D. Manuel tem agora 90 anos. Vive no Porto. E não voltou a África. Agora que passam 40 anos da sua expulsão de Moçambique, a história conta-se pelas entrevistas que deu, pelos textos que escreveu — e que o padre Anselmo Borges compilou em livro — e pela voz dos amigos mais próximos. Por várias vezes o bispo disse acreditar que, mais do que Marcello Caetano, fora a PIDE a decidir expulsá-lo. Por aqueles dias, e ali, longe das esferas de decisão, a polícia política mandava mais do que o Governo. E há anos que o seguiam, que alimentavam um dossiê sobre o rapaz de São Pedro de Aboim (Amarante) que se fizera bispo, e que ousava misturarse com os negros e dar-lhes poder de decisão.

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D. Manuel em Aboim, a 2 de julho de 1967, dois dias após a sua ordenação episcopal, e em Nampula, numa visita pastoral; e num panfleto posto a circular pelo regime pouco antes da sua expulsão para Portugal

galinha atirava os ossos para o meio dos miúdos africanos, que corriam a apanhálos. “Os meus filhos não são cães”, disse-lhe D. Manuel, indignado. Mais tarde, foi a oposição ao conflito colonial a tirar-lhe mais uns pontos na confiança do Estado Novo. A 1 de janeiro de 1974, dia mundial da paz, escreveu a carta pastoral “Repensar a Guerra”. E não se ficou por meias-palavras. “Falar de paz em Moçambique sem falar da guerra que a mancha de sangue seria iludir o problema fundamental. Repensar a guerra é interrogarmo-nos se na base do litígio não estará em causa uma justa aspiração deste povo à emancipação”, escreveu então. Esse seu lado contestatário teve um mestre à altura. Foi ordenado por D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto, exilado por Salazar em Espanha por ter ousado escrever-lhe uma carta em que punha em causa do regime. D. Manuel era ainda só padre quando começou a encher o Pavilhão dos Desportos, com palestras sobre o Movimento Por um Mundo Melhor, saído do Concílio Vaticano II. “Era um comunicador nato, sem medos, defensor de uma doutrina que tocava os problemas sociais e políticos e isso apaixonou a opinião pública”, lembra o Padre Feytor

Portugal e o mundo há 40 anos

MORRE GEORGES POMPIDOU Após meses de rumores e desmentidos sobre o seu estado de saúde, falece (2/4), aos 63 anos, o Presidente de França, Georges Pompidou. Os sinais de intensa fadiga eram evidentes a cada aparição pública, mas o silêncio sobre a causa da morte ainda se mantém no Palácio do Eliseu e a notícia teve um efeito negativo imediato sobre o valor do franco no mercado de câmbios. O Governo

português decretou três dias de luto. De ascendência camponesa, Pompidou fez carreira política à sombra do general de Gaulle, com quem colaborou durante 25 anos. Acabaria por ser substituído pelo aristocrático representante da direita, Valéry Giscard d’Estaing, que venceu o socialista François Mitterrand FOTOGRAFIA DISTINGUE RESISTÊNCIA DE ALLENDE O fotógrafo chileno Luiz Orlando Lagos Vázquez, o “Chico” Lagos, venceu (28/2)

o mais prestigiado prémio de fotografia mundial, o World Press Photo, com a imagem de Salvador Allende a sair do Palácio de La Moneda, durante o cerco em setembro de 1973, que acabou com a morte do Presidente chileno, o fim do regime democrático e a imposição da ditadura militar no Chile. O fotógrafo, que escapou da residência oficial sob ataque, com as filhas do Presidente, acabaria por falecer em 2007, altura em que o seu nome foi divulgado. Até então, o vencedor do prémio permaneceu no anonimato. SÓ UM EM CADA DEZ TEM TELEFONE As estatísticas de 1973 apontam para a existência de um telefone para cada dez portugueses. Ao mesmo

tempo, 60 mil pessoas encontram-se em lista de espera. TELEFÉRICO PARA O CASTELO DE SÃO JORGE A construção de um teleférico para ligar o Martim Moniz e o Castelo de São Jorge, em Lisboa, é uma das alternativas que constam da alteração do plano de urbanização da zona comercial da capital (29/3). O projeto, da autoria do arquiteto Filipe Lopes, pretende reorganizar o esquema de conexão entre o centro tradicional da cidade e uma nova área a criar, conforme as recomendações expressas do Conselho Superior de Obras Públicas. O plano é complementado ainda pela proposta de criação de amplos silos subterrâneos para estacionamento automóvel.

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Na primeira visita a uma missão, ao almoço, o administrador, que estava a comer galinha, atirava os ossos para o meio dos miúdos africanos. D. Manuel Vieira Pinto disse-lhe indignado: “Os meus filhos não são cães”

Pinto, seu amigo há 54 anos. O padre José Lino, que o acompanhou sempre em Nampula onde ainda permanece, compara-o ao Papa Francisco, na simplicidade e pés na terra. Com o passar dos anos, D. Manuel tornou-se um incómodo insuportável. E tirá-lo de Moçambique não chegava, era preciso expulsa-lo do império. No dia 14 de abril, à chegada a Lisboa soube que não era o seu destino final. Faltava mais uma viagem até Roma, para exilá-lo no Vaticano. Mas as contas saíram furadas à polícia do regime. Era ainda cedo, a gare do aeroporto estava quase deserta. Na varanda, de onde se assistia à chegada dos aviões, uma mulher viu-o ser enfiado

CONTAS PÚBLICAS EM ALTA Um saldo positivo de 42,3 mil contos (cerca de 211 mil euros) foi o resultado alcançado em 1973 pelas contas públicas nacionais (4/4). Segundo a nota oficial enviada pelo Ministério das Finanças e da Coordenação Económica à comunicação social, “os valores globais da conta refletem objetivamente uma gestão orçamental conduzida em obediência a princípios basilares de equilíbrio financeiro. O aumento das receitas para cobrir a expansão verificada nas despesas públicas não resultou de agravamento da incidência fiscal mas, antes, do crescimento da matéria coletável provocada pelo desenvolvimento da economia”. C.M.

numa sala e fechado à chave, reconheceu-o e correu a telefonar à nunciatura — “D. Manuel está nas mãos da PIDE” disse a um Núncio ainda sonolento. Mas que se indignou, e saltou da cama, ligou para o ministro do Ultramar, Baltasar Rebelo de Sousa, que se indignou também, e ordenou à PIDE que levassem D. Manuel para onde ele quisesse ir. REGRESSO A NAMPULA EM 1975 Os mesmos agentes abrutalhados que fecharam o bispo na sala libertaram-no cheios de salamaleques, contou D. Manuel à TSF em março de 2002. “Vossa excelência reverendíssima para onde deseja ir?”, disseram-lhe. E ele, que só tem família no

AGENDA CULTURAL Filmes malditos, filmes proibidos, filmes cortados, houve de tudo durante o Estado Novo. Os censores determinavam que argumentos que tivessem como tema central a guerra ou a paz fossem liminarmente postos de lado. A Guerra Colonial assim o obrigava. Erotismo era já pornografia e nada disso devia também ser visto. Do rol de filmes só vistos após o 25 de Abril, destaque para os mais polémicos da década de 70: “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, uma das obras-primas cinematográficas que mais polémica causaram devido ao seu teor, violência sexual e caos emocional. Entre os protagonistas Marlon Brando e Maria Schneider (na fotografia); “Laranja Mecânica”,

norte, pediu para ir para o Cartaxo, ali mais perto, para casa de amigos. Foi num carro preto cheio de Pides, com Amália a tocar na rádio o tempo todo. Dez dias depois, com o eclodir da revolução, D. Manuel lembrou-se do que dissera quando partira de Nampula ao governador da província: “Hoje sou expulso e amanhã hei de regressar, mas vocês serão expulsos e nunca mais regressarão”. A profecia confirmou-se. O bispo voltou para Nampula em 1975 e só tornou a Portugal em 2001. Logo após a revolução, Spínola convidou-o para conselheiro de Estado. Ele agradeceu mas recusou, preferiu voltar a casa, a África. Aceitou, porém, ajudá-lo com o discurso da independência das colónias. No Moçambique independente D. Manuel continuou a ser uma voz incómoda, primeiro com Samora Machel, de quem foi até uma espécie de consultor, depois com Joaquim Chissano. Ele não criticava os regimes, mas os maus-tratos ao povo, a guerra independentemente dos adversários. Grande parte da sua doutrina, e da sua vida, podem ser consultadas no Facebook. D. Manuel Vieira Pinto tem uma página, feita por um genro. Para que se preserve a memória que ele já perdeu. ^

de Stanley Kubrick, a história de Alex DeLarge, um jovem violento capaz de seduzir seguidores e de levá-los a atos de extremos; “Emmanuelle”, de Just Jaeckin, um dos filmes eróticos mais vistos em todo o mundo; e “Por Detrás da Porta Verde”, de James e Artie Mitchell, uma película verdadeiramente pornográfica.

os traumas da guerra e o último filme a ser proibido pela censura (teve estreia após a revolução). Artur Semedo, João César Monteiro (na foto), António de Macedo, Rogério Ceitil, Cunha Telles, entre outros realizadores do novo cinema português, também viram as suas obras cortadas e proibidas. Queriam levar para o grande ecrã temáticas sociais ‘desagradáveis’, como a denúncia das más condições de vida, ou a emigração, dramas familiares onde a sexualidade intervinha... A. C.

No cinema português, Eduardo Geada viu proibido o seu filme de estreia, “Sofia e a Educação Sexual”, por ser demasiado provocador. O mesmo acontece a Fernando Matos Silva, com “O MalAmado”, uma história sobre 25 Abril 40 anos | 67

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À ESPERA DE ABRIL

2 2 ABRIL

Aliados apanhados de surpresa

No dia do golpe, o embaixador dos EUA estava a fazer turismo nos Açores e o da Alemanha despedira-se na véspera. Quando ao velho aliado inglês, mudara o seu representante em Lisboa três dias antes TEXTO JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA

O

s principais aliados de Portugal foram completamente apanhados de surpresa pelo golpe dos capitães. A diplomacia e os serviços secretos de países como os Estados Unidos, Grã-Bretanha e Alemanha falharam em toda a linha. Ignorando as mudanças radicais que se aproximavam, Londres e Bona escolheram mesmo o mês de abril para substituir os seus embaixadores em Lisboa. Na manhã de 22 de abril, um novo embaixador britânico apresenta as cartas credenciais ao Presidente da República, Américo Tomás. É Nigel Trench, que substitui Sir David

Muirhead, nomeado para Bruxelas. Segundo o historiador Pedro Aires Oliveira (no livro “Os Despojos da Aliança”), Sir David Muirhead revelara-se quase sempre “bastante otimista em relação aos esforços empreendidos” por Marcello Caetano; mas quando chegou ao fim da missão estava bem “mais apreensivo”. Os ingleses acompanhavam atentamente a evolução da guerra. Em fevereiro um conselheiro da embaixada e o adido militar visitaram a Guiné. “Os militares combatiam sem muita esperança. Havia a sensação de que a guerra tanto podia demorar mais dez dias como prolongar-se por mais dez anos” - disse

ao Expresso, anos depois, o adido militar Thomas Huggan, reformado em Roma. Huggan só soubera do golpe das Caldas da Rainha na própria manhã de 16 de março. Depois tentara visitar os oficiais spinolistas Almeida Bruno e Manuel Monge no presídio da Trafaria, mas não fora autorizado pela hierarquia militar. Os contactos entre os funcionários da embaixada e os capitães “parecem ter sido escassos, senão mesmo inexistentes” – conclui Aires Oliveira, que fala da “miopia” britânica. Ao contrário do seu antecessor, Anthony Lambert, o embaixador Muirhead “não terá encorajado o seu staff a prosseguir o convívio discreto com elementos da oposição”. Quanto ao novo

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ARQUIVO “A CAPITAL/IP”

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O novo embaixador da Grã-Bretanha, Nigel Trench (à esquerda), na cerimónia de apresentação das cartas credenciais ao Presidente da República, Américo Tomás, na manhã de 22 de abril de 1974

titular, David Trench, nem tempo teve para aquecer o lugar. Desde março que também o embaixador da República Federal Alemã, Ehrenfried Von Holleben, estava de abalada. Atingida a idade de reforma, passara as suas últimas semanas portuguesas a despedir-se das autoridades e dos amigos. A tradicional receção de despedida decorre na sua residência, ao fim da tarde de... 24 de abril. Na agenda, tem marcado para 25 um almoço oferecido pelo ministro dos Estrangeiros, Rui Patrício — que os acontecimentos se encarregam de anular. O governo alemão estava a leste do vulcão com epicentro em Lisboa. A 24

de abril, Mário Soares é recebido em Bona, para conversações com o partido do governo, o SPD, e com a Fundação Friedrich Ebert. Segundo a historiadora Ana Mónica Fonseca, que estudou a forma como Bona acompanhou a transição portuguesa, “apesar de exilado, Soares estava bem melhor informado que os interlocutores alemães”. Os diplomatas acreditados em Lisboa, com efeito, de nada sabiam. “Os oficiais do MFA eram, na maior parte, ilustres desconhecidos, mesmo para os adidos militares das embaixadas” — recorda o embaixador belga, Max Wéry, no delicioso livro “E Assim Murcharam os Cravos”. Quando muito, desconfiavam

de que algo se tramava. O mesmo Wéry nota que, em março, depois do grande plenário do movimento em Cascais, “pela primeira vez”, mencionou “a possibilidade de uma mudança de regime em Portugal, a curto prazo”. A informação, porém, foi recebida em Bruxelas “com grande ceticismo.” A eleição de Costa Gomes e Spínola como chefes militares do movimento deixara o belga atónito: “Jamais se vira rebeldes comunicando um golpe de Estado antes de ele se efetuar.” Também os EUA estavam literalmente às escuras — quer o Departamento de Estado quer a CIA. Indiferente à conspiração, o embaixador em Lisboa, 25 Abril 40 anos | 69

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Stuart Scott, programara uma visita para os Açores entre 21 e 25 de abril. Acompanhado da esposa e de altos funcionários da embaixada, incluindo o adido militar, fez várias visitas turísticas. Na manhã de 25 saltou da cama, mas em vez de regressar a Lisboa, decidiu cumprir o programa estabelecido: voou para Boston, para presidir à reunião anual da Associação da Faculdade de Direito de Harvard. Só voltará a Lisboa a 29 de abril. O posto de embaixador em Lisboa vagara em fevereiro de 1973, mas Scott só apresentara as cartas credenciais a 23 de janeiro. Para Herbert Okun (que viria a ser o principal colaborador de Frank Carlucci na embaixada em Lisboa durante o PREC), Stuart Scott “era um distinto advogado de Nova Iorque, homem sério, mas que nada sabia de Portugal”. Quanto ao seu principal conselheiro, Richard Post, “era um especialista” mas do... anterior

“Sabíamos muito pouco ou nada sobre o MFA”, reconheceu nas memórias o então embaixador dos EUA em Lisboa, Stuart Scott. O diplomata nunca imaginou que o MFA fosse capaz de ‘derrubar o Governo’

regime. O próprio Scott o reconhece nas suas memórias (policopiadas, a que o historiador Tiago Moreira de Sá teve acesso): “Nós sabíamos muito pouco ou nada sobre o Movimento das Forças Armadas” e nunca imaginou que fosse capaz de “derrubar o Governo”.

Segundo aquele investigador (em “Os Estados Unidos da América e a Democracia Portuguesa”), a embaixada “viu-se impedida de aprofundar os seus contactos com Spínola uma vez que foi instruída diretamente por Henry Kissinger para evitar qualquer

Portugal e o mundo há 40 anos quando Eusébio entrou na sala, o público, apercebendose, recebeu-o com aplausos. A mulher do jogador, Flora, e o próprio não se mostravam completamente satisfeitos com a qualidade da fita. Quarenta anos mais tarde, quando Eusébio morreu, as imagens seriam recuperadas pelas televisões para recordar o jogador.

ESTREIA FILME SOBRE EUSÉBIO “A Pantera Negra” estreou-se (11/4), com Eusébio da Silva Ferreira sentado na plateia do cinema. O filme que retrata a biografia do jogador do Benfica começou sem que a personagem principal tivesse chegado. Apesar de atrasado,

MORRE LUÍS CABRAL DE MONCADA Em Coimbra, onde residia, faleceu (9/4) com 85 anos Luís Cabral de Moncada, professor, escritor e filósofo. Jubilado em 1958 pela Universidade de Direito, onde construiu uma vasta experiência, era considerado um vulto intelectual do país, que alicerçou a sua sabedoria no estudo dos filósofos alemães, tendo mesmo recebido o título de doutor “honoris causa” pela Universidade de Heildelberg. GOLDA MEIR DEMITE-SE Israel entra em profunda crise política com a demissão

chegou a ministra dos Negócios da Justiça.

da primeiro-ministro, Golda Meir (10/4), 75 anos, devido às críticas quanto à sua atuação na Guerra do Yom Kippur. As maiores interrogações apontam para o futuro das negociações de paz com a Síria e ao destino dos montes Golã, onde há um mês se travam combates diários. Acabaria por ser substituída por Yitzhak Rabin. Filha de um carpinteiro, nasceu na Ucrânia e emigrou com oito anos para os Estados Unidos. Foi uma das fundadoras do Estado de Israel e era a ela que se referia Ben Gurion quando disse: “É o único homem do meu gabinete". Morreu quatro anos após a sua demissão e foram precisas décadas para voltar a haver uma mulher com protagonismo na política israelita, Tzipi Livni, que

MULHER DE FRANCO ÀS COMPRAS EM PORTUGAL D. Carmen Polo de Franco, esposa do generalíssimo de Espanha, Francisco Franco, esteve (9/4) em Viana do Castelo e Caminha, locais onde tradicionalmente vai às compras. Quando chegou ao hotel, foi obsequiada com os tradicionais bordados da região. Conhecida como a senhora de Meíras, conheceu Franco com 17 anos, com quem se casou e de quem teve uma única filha. O caudilho de Espanha morreria em 1975 e D. Carmen sobreviver-lhe-ia por mais 13 anos. ELEIÇÕES NA SEDES “Portugal, para onde vais?” é o título do último documento elaborado pela SEDES — Associação para o Desenvolvimento Económico e Social. Em causa está a discussão sobre o futuro da sociedade portuguesa. Mais de uma centena de sócios

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gesto de aproximação ao general e às suas ideias”. O embaixador levou as instruções à risca e a 15 de março cancelou um jantar com Spínola e Costa Gomes, destinado a dar-se a conhecer aos dois generais. E a 10 de abril, Henry Kissinger ordenou ao embaixador para não manter contactos com o futuro Presidente da República, “mesmo a um nível pessoal”. Uma decisão de que cedo viria a arrepender-se... Num relatório de dezembro de 1973, citado pelo jornalista Nuno Simas (em “Portugal Classificado”), a embaixada previa: “É improvável que se registe instabilidade séria nos próximos meses”. Exemplo crasso de incompetência é o facto de o livro “Portugal e o Futuro”, lançado a 22 de fevereiro, só ter sido reportado para Washington a 1 de março. E já depois do golpe das Caldas, um telegrama considerava que os capitães não tinham uma intenção “revoltosa

terão contribuído com ideias para a construção do cenário desejável para o país. No fim do mês, a organização, constituída em 1970, vai a votos. ATENTADO AO NAVIO “NIASSA” Às 18h, a hora marcada para a partida, um engenho deflagrou (9/4) a bordo do navio “Niassa”. A explosão aconteceu num porão adaptado a dormitório de praças, os quais foram poupados por naquele momento estarem na amurada, despedindo-se dos familiares. Os estragos foram apenas materiais e registaram-se contusões ligeiras em quatro militares, afetados pela deslocação de ar. O navio é reparado para prosseguir caminho e sabe-se que os autores do atentado foram as Brigadas Revolucionárias (lideradas por Carlos Antunes), que quiseram marcar com esta ação a oposição à guerra colonial e à partida dos soldados para a Guiné. C.M.

ou ameaçadora”. Em tudo idêntico era o ponto de vista da CIA. Na semana antes do golpe, a embaixada enviou para Washington apenas três telegramas — e sobre assuntos marginais. INDAGAR NO SÍTIO ERRADO Na madrugada de 25 de Abril, o embaixador belga Max Wéry é alertado por um telefonema da sua secretária, enquanto o colega austríaco sabe do golpe pela rádio BBC. Quanto ao adido britânico, Thomas Huggan, é acordado por um estranho telefonema de um militar português que preferiu o anonimato. “Muitas vezes me interroguei sobre quem terá sido...” Espantado, indaga junto do homólogo francês, que lhe diz que também “não sabia de nada”. A embaixada dos EUA está igualmente em branco. O primeiro telegrama para Washington confessa: “Não temos indicação sobre

quem está envolvido e quem comanda o movimento”. Confundida, num seu relato a CIA fala do “ministro da Defesa, general Andrade Silva Cunha” — misturando os nomes dos titulares da Defesa, Silva Cunha, e do Exército, Andrade e Silva. Durante todo o dia 25 a legação americana procura, desesperada, informações que lhe permitam perceber o que se passa. Ao princípio da noite telefona para o comandante do Regimento de Cavalaria 7 (RC7), na Ajuda. É o pior local para saber o que quer que seja sobre os golpistas: o RC7 é a mais poderosa das unidades fiéis a Caetano. Quem atende já não é o coronel António Romeiras. A unidade já se rendera. Em vez do coronel, é um major que fala. Chama-se Manuel Monge, pertence à Comissão Coordenadora do MFA e acabara de ser libertado da prisão da Trafaria. Da embaixada dos EUA, desligam o telefone...^

se esgota: Tomás da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues, Afonso Ribeiro, Raul Rego, Alves Redol também foram censurados. José Cardoso Pires é outro deles. Já na ‘primavera marcelista’ o seu “Dinossauro Excelentíssimo” foi apreendido pela PIDE.

AGENDA CULTURAL Foram centenas os livros que a censura proibiu durante os anos da ditadura. E foram centenas os autores que viram os seus livros ter de passar por baixo dos balcões das livrarias para que chegassem a algum público. Tudo o que passasse perto ou menos longe da política comunista era vetado. Karl Marx e Friedrich Engels foram autores sacrificados, desde “A Ideologia Alemã” a “O Manifesto do Partido Comunista”, livros editados entre nós já no ano da Revolução. Como eles, também Henrique Galvão foi proibido. O seu “Assalto ao Santa Maria” não poderia passar o crivo da censura.

Já Jorge Amado foi censurado por outros motivos que não políticos. O erotismo dos seus livros, desde logo “Tereza Baptista Cansada de Guerra”. D. H. Lawrence e “O Amante de Lady Chatterley” idem aspas e Jean-Paul Sartre, com “As Mãos Sujas”, nem se fala. A conivência de um chefe revolucionário com os seus adversários numa história baseada na oposição política e no conceito de liberdade. No que respeita a autores portugueses, o cartoonista e humorista José Vilhena consegue a ‘proeza’ de ver 29 livros seus proibidos durante a ditadura, tal era a acutilância do seu discurso e a popularidade dos seus caricaturados. Mas a lista não

Destaque ainda para a proibição de “Os Bichos”, de Miguel Torga, pela luta permanente entre a natureza e a divindade, num mundo rural carregado de mitos, que se cruzam com elementos religiosos; ou de “Quando os Lobos Uivam”, de Aquilino Ribeiro, um romance atrevido que coloca o Estado Novo no papel de um lobo mau todo poderoso que expropria a terra a quem a trabalha e impõe um vigilância apertada e ameaçadora. A.C. 25 Abril 40 anos | 71

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À ESPERA DE ABRIL

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Os dias finais de um país à sombra ABRIL

Na véspera do golpe militar, menos de uma hora antes de a rádio passar a primeira senha, Tomás cumpria a sua agenda oficial, como se nada estivesse para acontecer TEXTO VALDEMAR CRUZ

A

na Paula tropeçou na história. No início de abril de 1974, esta rapariga do Porto, aluna do colégio luso-francês, após meses de eliminatórias distritais, e depois de cinco dias de duras provas finais, é eleita por unanimidade a Rapariga Ideal 1974 num concurso patrocinado pela Mocidade Portuguesa Feminina. A sessão final decorre na Residência Guardiola, em Lisboa. Aí, as 29 candidatas, oriundas de todos os pontos de “Portugal continental, insular e ultramarino”, terminam o dia em alegre convívio, com a eleita a manifestar-se contra os concursos de “misses”, por lhe parecerem “supérfluos e nada educativos”.

Oito dias depois caía o Carmo e a Trindade, e a revolução começa a espreitar a rua na mesma noite de 24 de abril em que Américo Tomás inicia, às 22 horas, a visita oficial à Feira das Indústrias. Como não seria leitor do “República”, ter-lhe-á escapado uma pequena e enigmática nota publicada pelo jornal a chamar a atenção para o programa “Limite”, emitido pela Rádio Renascença e de “audição obrigatória”. Porventura também não seria muito dado a ouvir telefonia e, até pela idade, à meia-noite e vinte minutos não seria tempo de estar ainda acordado e vigilante. Àquela hora ouvese no “Limite” a canção ‘Grândola, vila morena’.

Nada acontece da noite para a madrugada e de geração espontânea. Não obstante a eficácia da máquina propagandística do regime, a engrenagem começara a ter de contornar muitos grãos de areia. Muitos o sabiam e até “lá fora”, no estrangeiro, essa mítica entidade desde sempre muito venerada e respeitada pelas autoridades portuguesas, se suspeitava de que algo poderia estar para acontecer. Passado o 16 de março, o jornal francês “Le Monde” publica, no dia 23 daquele mês, uma extensa notícia sobre Portugal com um título premonitório: “Un processus de dégradation qui pourrait aboutir à um coup d’état militaire” (Um processo de degradação que poderá desembocar

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Américo Tomás e Marcello Caetano, últimos Presidente da República e presidente do Conselho (primeiro-ministro) do Estado Novo, respetivamente

ARQUIVO “A CAPITAL/IP”

num golpe de Estado militar). E nisto de antevisões, nem Marcello Caetano quis ficar atrás. Na sua última “Conversa em Família”, transmitida pela RTP na noite de 28 de março, fala para o futuro a defender-se do passado: “Fica-me a tranquilidade de ter sempre procurado cumprir retamente o meu dever para com o país”. Tranquilidade era o que escasseava por aquelas alturas em Portugal, um país sombrio, a precisar de sol para não sufocar. Havia quem procurasse sair da sombra. Havia quem resistisse. Havia quem procurasse dizer não. No dia seguinte a Caetano ter falado, o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, recebia sob forte escolta policial o I Encontro da Canção Portuguesa, que termina com milhares de pessoas a clamar “abaixo a repressão”. BOMBA NO NAVIO “CUNENE” Ora, isso de safanões e repressões era coisa de que pouco se falava, pelo menos de peito cheio e viva voz. O PCP publica, ainda em março, um comunicado intitulado “A ditadura atravessa uma grande crise”, mas a circulação é restrita e a opinião geral é formatada pelos jornais submetidos à censura, pouco disponíveis para dar o devido relevo, por exemplo, ao rebentamento, a 4 de abril, de um engenho explosivo colocado pelas Brigadas Revolucionárias no navio “Cunene”, que se preparava para partir para África. Cheio de soldados. Cheio de jovens com a juventude interrompida. Carregado de tristezas. Carregados de medos. Do lado de cá ficavam meninas de olhos tristes. Acontecia o soldadinho 25 Abril 40 anos | 73 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


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não voltar do outro lado do mar. Assim cantava Adriano, para constatar que, afinal, às vezes voltava numa caixa de pinho para nunca mais se fazer ao mar. No dia 14 um comunicado das Forças Armadas de Moçambique faz o balanço do primeiro trimestre: 66 mortos em combate e 69 em acidentes e outras ocorrências. Não obstante as agruras, um país não para. No início de abril o Teatro Maria Matos, em Lisboa, apresenta “Morte de um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, o Teatro Experimental do Porto tem no palco Woyzeck, de Georg Büchner, estreia em Lisboa o filme “Malteses, Burgueses e às Vezes”, de Artur Semedo, o Futebol Clube do Porto é recebido com manifestações de carinho em Cabo Verde, o romance “Domingo à Tarde”, de Fernando Namora, chega à décima edição, a Arcádia publica “No Tempo da Solidão”, de Manuel da Fonseca, o cinema Passos Manuel, no Porto, exibe “Quando as cegonhas passam”, de Mikhail Kalatozov, “Jesus Cristo Superstar” passa há 14 semanas no já extinto Estúdio Foco, os cigarros SG mudam de embalagem, e no Maria Vitória continua em cena “Ver, Ouvir e... Calar!”. Pois.

A 22 de abril reúne-se o Conselho de Ministros, presidido por Marcello Caetano. Ainda não o sabem, mas ministros e chefe do Governo nunca mais voltarão a estar juntos

O respeitinho é muito lindo. Para o demonstrar aí estava um decreto do Ministério das Comunicações, inserido no “Diário do Governo” de 17 de abril, a proibir a música nos elétricos e nos troleicarros. A propósito de música e da diferença de 70% nos vencimentos dos músicos das orquestras sinfónicas de Lisboa e do Porto, o deputado da União Nacional José Alberto Carvalho faz um discurso na Assembleia para dizer que “neste país vai-se estando cansado de ver implantadas as boas coisas apenas num lugar” (Lisboa). Por vezes aparecem na Assembleia Nacional esgares como este.

Uns dias depois, o aumento de 400% no custo da instalação de um telefone é comparado pelo almirante Armando Reboredo à “extorsão praticada pelos produtores de petróleo”. Entretanto, na aparente placidez metropolitana, o chefe de Estado, almirante Américo de Deus Rodrigues Tomás, visita no dia 18 de abril as obras da barragem da Aguieira e não comenta o facto de uns dias antes ter recebido no Restelo Kaúlza de Arriaga. Por carta, o general propusera-lhe a substituição de Marcello Caetano. São os ultras do regime a movimentarem-se. Do outro lado da

Portugal e o mundo há 40 anos se chega às 55 horas por semana, através da utilização sistemática do trabalho extraordinário.

JORNADA DE TRABALHO AUMENTA Os portugueses trabalham mais, segundo revela um estudo do Gabinete de Planeamento do Ministério das Corporações (13/4). Os operários passam a ter uma jornada semanal de 48 horas, contra as 46 verificadas em 1972. A situação agrava-se no sector metalúrgico, onde

TRANSÍSTORES PROIBIDOS NOS CARROS ELÉTRICOS O hábito de se ouvir o jogo de futebol de ouvido colado ao transístor enquanto se viaja de elétrico acabou. Um decreto do Ministério das Comunicações alarga aos passageiros dos elétricos e dos troleicarros os deveres até agora impostos apenas aos utentes de transportes coletivos automóveis. Passa

a ser então proibida (17/4) a utilização de telefonias no interior dos carros, assim como qualquer tipo de comercialização ou a prática da mendicidade. BAIXAS POR DOENÇA “FILTRADAS” Os casos de incapacidade temporária por doença passam a ser apreciados por juntas médicas. Segundo um despacho do ministro das Corporações e Segurança Social, o objetivo desta medida é combater o elevado número de situações de doença simulada. Em Lisboa, Porto, Coimbra e Setúbal serão criadas juntas de carácter permanente, as áreas onde a escassez de caso não justifique um estrutura fixa serão servidas por juntas itinerantes. A fiscalização

domiciliária será intensificada, mas, mesmo quarenta anos mais tarde, o problema das baixas fraudulentas estará longe de ser erradicado. DEMOLIÇÃO DA IGREJA DE SÃO JULIÃO A Câmara Municipal de Lisboa está a discutir a demolição da igreja de São Julião (18/4), na Baixa. Propriedade do Banco de Portugal, a igreja data originalmente do século XVII, tendo sido reconstruída após o terramoto de 1755. A igreja não foi destruída e chegou a ser utilizada como arquivo, casa-forte e estacionamento para cargas e descargas de materiais, acabando por transformar-se no espaço que receberia o Museu do Dinheiro, após profundas obras de requalificação. C.M.

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barricada também se mexem as peças de um xadrez complexo. O Movimento das Forças Armadas está a olhar atento para o tabuleiro e indica a António de Spínola três possíveis nomes para ocupar o cargo de primeiro-ministro: Pereira de Moura, Miller Guerra e Raul Rêgo. HOMENAGEM A ÓSCAR LOPES Os dias seguintes vão mostrar que foi outra a escolha, mas ainda é cedo para lá chegar. Na noite de 19 de abril há uma homenagem a Óscar Lopes num restaurante da praia da Aguda, em Gaia, à qual assistem 400 pessoas oriundas de todo o país. O professor aceita aquela manifestação, não como uma homenagem pessoal, mas por simbolizar “todos os que resistiram e tudo fizeram por uma literatura condigna e uma liberdade concreta”. Na madrugada do dia 20 um drama percorre as ruas da cidade do Porto. A reitoria e os serviços centrais da Universidade do Porto são praticamente destruídos por um violento incêndio. Nos dias seguintes os jornais andam absorvidos com os prejuízos incalculáveis provocados pelo fogo, mas ainda vai surgindo espaço para dar conta dos dois milhões de dólares em notas falsas

AGENDA CULTURAL Em áreas como o cinema, o teatro ou a literatura, a censura foi-se tornando mais branda e mais tolerante com a chegada da ‘primavera marcelista’, sobretudo no que dizia respeito aos autores portugueses. Mas na música o processo foi o inverso. Enquanto os chamados cantores de intervenção se mantiveram dentro do círculo

fabricadas em Nova Lisboa, Angola, ou para o assalto à mão armada numa agência do Banco Português do Atlântico no Bombarral. Em simultâneo, os tribunais plenários continuam ativíssimos, com julgamentos sucessivos de presos políticos e a PIDE/DGS prossegue a perseguição dos agitadores e apreende material subversivo. Um comunicado da polícia política informa que desde o início de abril “tem-se verificado por parte de várias organizações comunistas uma grande atividade de difusão de panfletos e outras atuações de propaganda, através das quais se incita a ações revolucionárias no 1º de maio”. Resulta daqui um ataque “ao esforço da nação em defesa dos territórios portugueses no ultramar e fazse a defesa das organizações terroristas que nos atacam”. Que a coisa está a ficar preta, sentemno os portuenses na madrugada do dia 22, quando o Norte do país fica isolado do mundo devido por uma faísca ter rebentado o cabo coaxial que estabelecia as ligações Lisboa-Porto. Enquanto persistem as dúvidas sobre se o Sporting conseguirá ou não ser campeão nacional, com o Real Madrid a insistir na transferência do avançado Yazalde, na Cova da Piedade há escaramuças durante

uma manifestação a pretexto do 1º de maio. No mesmo dia reúne-se o Conselho de Ministros presidido por Marcello Caetano. Ainda não o sabem, mas nunca mais voltarão a estar juntos e sobretudo daquela maneira. No regimento de engenharia da Pontinha, Otelo Saraiva de Carvalho, Jaime Neves e Garcia dos Santos fazem os últimos preparativos para a instalação do posto de comando do Movimento das Forças Armadas. Talvez na capital ainda ecoassem as palmas provocadas pelo êxito da “Traviata”, de Verdi, apresentada na noite de 23 no Teatro São Carlos quando as ondas da rádio começam na noite de 24 a emitir sinais cujo significado só é percebido por alguns. E depois do adeus nasce a madrugada de 25 de abril de 1974. A tropa está na rua e a NATO tem previsto o início de um exercício com dezenas de navios de guerra, incluindo porta-aviões e submarinos, centenas de aviões e milhares de homens. Serão espectadores ao largo. Portugal amanhece com vontade de construir um futuro novo. Continuam abertas as inscrições para o concurso de Mulher Ideal Portuguesa 1974, mas naqueles dias Portugal sai à rua e é já outro o ideal que quer cumprir. ^

académico das universidades, a sua atividade foi praticamente livre. Porém, quando o célebre “Zip Zip” (de José Fialho Gouveia, Raul Solnado e Carlos Cruz, na imagem) leva para a televisão a canção política, tudo muda de figura. As coletividades de cultura e recreio e as cooperativas começam a oferecer mais atuações. As apreensões de discos começam de forma intensa.

Até os espetáculos lotados destes cantautores são proibidos. E neste jogo de gato e rato, pois o fruto proibido é sempre o mais apetecido, os cantores passam a dizer as canções em vez de as cantarem em frente ao público.

São proibidos todos os discos de Zeca Afonso, sendo “Os Vampiros”, o primeiro deles; de José Mário Branco, “Mudamse os Tempos, Mudam-se as Vontades”; de Sérgio Godinho, “A Liberdade Está a Passar Por Aqui”; de Francisco Fanhais, “Canções da Cidade Nova”; quase toda a discografia de Manuel Freire (exceto ‘Pedra Filosofal’); de José Jorge Letria, “De Viva Voz”.

A proteção da Igreja leva a que dois programas da Rádio Renascença continuem a passar as suas músicas. São eles “O tempo Zip”, de Joaquim Furtado e João Paulo Guerra, e “Página Um”, de José Manuel Fernandes. O movimento que estes autores inauguram começa a ganhar expressão e não mais deixará de se expandir até ao 25 de Abril, sendo enorme a circulação dos discos, vendidos por baixo dos balcões de lojas como a Discoteca Roma, em Lisboa. A. C. 25 Abril 40 anos | 75

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© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C. © ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C.

“A paz, o pão habitação saúde, educação Só há liberdade a sério quando houver Liberdade de mudar e decidir quando pertencer ao povo o que o povo produzir quando pertencer ao povo o que o povo produzir” Sérgio Godinho, "Liberdade"

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Casas de pedra e cal DOS CINCO ELEMENTOS da nova ordem cantados à queimaroupa por Sérgio Godinho logo em 1974 — a paz, o pão, habitação, saúde, educação —, a habitação foi aquele em que mais rapidamente se cavaram os caboucos de qualquer coisa nova. É verdade que a paz foi alcançada com o fim da guerra colonial — e na grelha do cantor isso só podia ser “liberdade a sério”. E é verdade que no resto também houve melhorias: o pão haveria de ser menos à míngua (subiram os rendimentos dos portugueses mais desfavorecidos); a saúde caminharia ainda na década de 70 para um serviço nacional; e a educação — se na universidade deu corpo aos programas e aventuras dessa conjuntura revolucionária — abriuse nos primeiros graus de ensino a mais crianças e adultos. Mas mãos à obra o povo pôs mesmo foi nas suas casas, arrasando barracas, erguendo tetos dignos desse nome e infraestruturas básicas. Comissões de moradores formaram-se em todo país, e muitos portugueses só então descobriram o verdadeiro sentido das palavras associação, iniciativa ou cooperativa. Como mola propulsora desta dinâmica estava o SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local), no qual se envolveram de alma e coração alguns dos mais prestigiados arquitetos nacionais. ^

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PAULO PAIXÃO

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ECO NO M I A

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JOSÉ MANUEL FÉLIX RIBEIRO

ECO N O M I A

TEXTO HENRIQUE MONTEIRO JOANA PEREIRA BASTOS FOTOGRAFIAS NUNO BOTELHO

SOMOS GOVERNADOS POR MARXISTAS DE DIREITA Pedimos a José Manuel Félix Ribeiro que identificasse três grandes feitos e três grandes defeitos em Portugal, depois do 25 de Abril. O economista mais heterodoxo da sua geração, autor de “Portugal, a Economia de uma Nação Rebelde”, identificou isso e muito mais.

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seguimento entre o anterior regime e o atual em temas fundamentais é algo em que quase ninguém pensa, mas Félix Ribeiro garante que existe. “Uma coisa que me impressionou foi a continuidade em torno de duas ideias: o Estado social e o corporativismo. O Estado social é um conceito que Marcello Caetano trouxe como uma espécie de forma de relegitimar o regime do Estado Novo. Algo que tentou aplicar num contexto muito bom para o crescimento económico, até à primeira crise petrolífera (1973). Esse conceito passou muito bem para o atual regime no sentido em que em ambos os regimes se tem a ideia de que o Estado é o ator principal na sociedade. Isso facilitou a transição, porque o Estado, seja ele autoritário ou democrático, é sempre visto pelas pessoas como ator central”. E Félix Ribeiro tem mais exemplos. O corporativismo é um deles, com a agravante que cresce mais rapidamente em democracia, diz: “Esta é a sociedade mais corporativa que alguma vez já vi.

É totalmente organizada por interesses corporativos que têm um enorme poder sobre a condução das políticas públicas. O corporativismo, sob um regime autoritário, não constitui grande risco, porque a forma autoritária de Governo lhe corta as possibilidades. Mas, em democracia, a organização corporativa cresce como cogumelos e apodera-se de vários mecanismos da sociedade e do Estado. Na prática, isto significa que o atual regime nunca se reconheceu como genuinamente defensor da economia de mercado. A economia de mercado foi sempre vista como um mal inevitável”. Será daí, adianta o economista, que nasce e perdura a ideia de que só são possíveis pequenas e médias empresas; de que os ricos não se podem ver, que os banqueiros são péssimos, que as empresas lucrativas são algo de que se deve desconfiar. Mas o Estado social é visto como uma das principais conquistas do 25 de Abril? “Sim, mas é entendido como sendo a Educação, a Saúde, a garantia das reformas e o que mais for da 25 Abril 40 anos | 79

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responsabilidade do Estado e, nalguns casos, de parcerias corporativas. Ora, parece-me que não há qualquer razão para que em alguns desses casos o Estado não possa ser cofinanciador e regulador, não sendo o prestador principal dos serviços. Digamos que poderia existir uma distinção entre financiamento e prestação”. Defende que a Saúde deveria ser privada? “Depende do que se entende. A Saúde pode ser privada, mas não deve ser aí que os grupos privados vão fazer

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Uma das coisas mais preocupantes é quando dizemos: temos de exportar mais! Mas temos de exportar também mais coisas diferentes. E no geral não há atores internos para isso

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desenvolvem. E não parece ser nenhuma. “Pois! É essa a herança corporativa de que eu falo. A sociedade é quase totalmente corporativa, havendo uma continuidade do regime anterior. E para entender a desconfiança face à economia de mercado é necessário reconhecer que o sul do país transmite à sociedade um legado terrível de latifúndio e de grande indústria. A maioria das pessoas que vieram do Alentejo para a Área Metropolitana de Lisboa, transportam o legado de uma desigualdade terrível. Mas neste mundo globalizado nenhum país sobrevive se não tiver grandes empresas modernas e em Portugal as PME fazem 98% do nosso tecido empresarial”.

acumulação de capital. Ora não é isso que tem sido feito, infelizmente, porque os grupos privados, na prática, tendem a fazer uma simbiose com o Estado. O que eu quero dizer é que o Estado social é uma atribuição de responsabilidades que a sociedade deveria ser capaz de organizar com uma relativa independência do Estado”. De facto, ao olhar para os parceiros sociais — patronais, sindicais, etc. — podemos perguntar que tipo de ação social

O ÊXITO DA DISTRIBUIÇÃO Os grupos empresariais que nasceram depois do 25 de Abril com algum sucesso foram sobretudo do sector da distribuição, nomeadamente a Sonae e a Jerónimo Martins, sublinha. Mas também há sobreviventes como o grupo Espírito Santo na banca e o grupo José de Mello, além de “um empresário extraordinário — Américo Amorim”. Grande empresário, especifica, não por ser muito rico, mas pela variedade de negócios em que foi capaz de se envolver, começando nas cortiças, avançando para a Mabor e participando depois no lançamento das telecomunicações móveis, estando hoje também na Galp. A variedade é fundamental na exportação, defende. “Em Portugal, hoje uma das coisas mais preocupantes é quando dizemos: temos de exportar mais! Mas temos de exportar também mais coisas diferentes daquelas que já fazemos. E, no geral, não há atores internos para isso. No fim do regime anterior havia alguns grupos que iam na direção da diversificação, mas isso hoje falta. Os industriais de calçado fazem calçado maravilhosamente, mas fazem só calçado, nos têxteis acontece o mesmo. A não ser as multinacionais que vêm de fora, temos muito pouca diversificação. Temos PME magníficas, inovadoras, mas são pequeninas... E os bancos são cada vez mais convidados pelos reguladores a temer o risco”... A aversão ao risco também era conhecida do regime anterior embora, no seu final, os grupos empresariais se estivessem a abrir ao exterior. “Veja-se Sines, por exemplo. No início dos anos 70 havia um amadurecimento dos maiores grupos, no sentido de apostarem mais nos mercados externos, de se expandirem

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Em Sines, no início dos anos 70, havia um amadurecimento dos maiores grupos, que apostavam mais nos mercados externos, sem contarem com os apoios financeiros do Estado e revelando capacidade para fazerem alianças com parceiros internacionais. Depois foram decapitados

sem contar com os apoios financeiros do Estado, e revelando capacidade para fazerem alianças com nórdicos, ou irem investir no Brasil ou fazer estaleiros para o Médio Oriente, etc. Depois foram decapitados”. As nacionalizações — diz, sem duvidar — foram uma catástrofe. “Claro que na altura eu não pensava assim, mas o poder político quis ‘tomar conta de castelos’ e nem viu que esses castelos já estavam vazios”. As empresas nacionalizadas já estavam tão endividadas com esses grandes projetos, ainda não concluídos, que acabou por se ter nacionalizado a dívida, explica. “A partir daí seguiu-se um caminho perigoso. Eu não sei se os grupos anteriores ao 25 de Abril sobreviveriam à globalização (embora Champalimaud fosse um grande empresário e José de Mello também), mas, assim, nem hipótese lhes deram. As nacionalizações foram um erro e as privatizações ainda foram um 25 Abril 40 anos | 81

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erro maior, foi dizer ‘venham comprar o que era vosso’. Ora esses empresários foram endividar-se ao estrangeiro para recomprar o que fora deles e ficaram a pagar essa dívida em detrimento de criar mais valor, mais emprego e mais inovação.” Portugal perdeu o império; estava habituado a ter emigrantes e de repente acolheu 800 mil ou mais portugueses vindos das ex-colónias, com a mudança de regime, no meio de um abanão brutal na economia provocado pelo choque petrolífero, seguido de recessão. Tudo junto só não deu um resultado trágico, porque se conseguiu, segundo Félix Ribeiro, escorar o país em três pilares: “A Europa, que permitiu a ideia de uma proteção externa da democracia; o Estado social, que apesar de todos os problemas que hoje tem, foi um bálsamo para sarar feridas e tornar as pessoas gratas ao novo regime; e o municipalismo. Se não fosse o poder local, as pessoas que vieram das colónias não tinham tido oportunidade de se integrar”. UMA PERGUNTA PARA 40 ANOS Claro. Só que, ao fim de 40 anos, este regime tornou-se muito conservador. Félix Ribeiro entusiasma-se com a noção de que a sua geração assistiu, por inteiro, ao nascimento, consolidação e amadurecimento de um regime. “Fantástico!”, classifica... Mas poderemos, agora, pensar como vamos caminhar nos próximos 40 anos, sem já estarmos presos a alguns conceitos ultrapassados. Por exemplo, como vamos sair deste programa de assistência? Hum! Sair? A opinião é contrariada pelo entrevistado: “É verdade que não vamos ‘ficar’ presos’, mas vamos ficar em liberdade condicional, com uma pulseira eletrónica e uma ‘mochila de dívida’ para não sairmos do pé da esquadra. Claro que uma parte da elite da Alemanha não pode querer outra coisa”. Para o economista, a Alemanha “não quis isto, nem fez de propósito para ter este resultado — ficar a ‘mandar’ na zona euro quase isolada — sendo que ao contrário de outros impérios, não pode mandar nem tropas, nem polícias. A hipótese mais prática será manter os países periféricos com dívidas pesadas. Enquanto os países do Leste aceitaram bem a diminuição do Estado e a introdução do mercado, os do Sul não aceitam. Embora do ponto de vista dos valores, estes países do Sul

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É verdade que não vamos ‘ficar presos’ [após a saída da troika], mas vamos ficar em liberdade condicional, com uma pulseira eletrónica e uma ‘mochila da dívida’ para não sairmos do pé da esquadra

estejam mais próximos daquilo que é o modelo alemão”. E, afinal quem nos governa? Neoliberais? “Acho que são mais marxistas de direita — se essa categoria existisse... — do que liberais! Continuam a ver a sociedade dividida em classes, mas às vezes parece que consideram que os pobres tiveram coisas de mais ou querem coisas de mais. A grande realização do atual Governo foi baixar drasticamente as expectativas. Cada um deixou de esperar muitas coisas e passou a esperar menos. E isso é uma mudança cultural. As pessoas ficam incertas sobre o futuro. É uma enorme transformação cultural”. Convém, no entanto, recordar que, desde 2000, Portugal experimentou

vários choques externos: a adesão da China à Organização Mundial do Comércio, a entrada dos países de Leste na União Europeia, o preço do petróleo que subiu quatro vezes. E o que se passou, então? Toda a gente se agarrou à “terra” — no sentido do investimento imobiliário e da construção de infraestruturas no território. O que já era anteriormente um impulso forte, nas últimas duas décadas ainda foi mais! OS EFEITOS DA UNIFICAÇÃO ALEMÃ A União Europeia sofreu uma transformação profunda depois da unificação alemã. O economista não diz que é um barco à deriva, mas acha que se passa “qualquer coisa estranha”. A maneira como tudo é gerido, mesmo a morte de Kadhafi na Líbia ou a atual crise da Crimeia, fazlhe pensar numa Europa esquisita, sem rumo. Porque até determinada altura a construção europeia era uma questão de boa vizinhança. Não só para que não houvesse guerras como para que se reforçassem os pontos comuns entre países que eram muito diferentes. “Decidiu-se ter uma ‘horta comum’ e fez-se a Política Agrícola Comum; depois decidiu-se ter um grande mercado e avançou-se para o Mercado Único. Ambas eram coisas politicamente simples. Mas de repente, a seguir à unificação alemã, a Europa vê-se como grande potência no mundo, com uma moeda internacional e uma ambição geopolítica. Esse sonho está a desmoronar-se”. Nesse caso que deve fazer um país como Portugal, e os países do Sul, no geral? Félix Ribeiro tem a resposta na ponta da língua: é andar atrás da proposta do Presidente Obama. Ele lançou a ideia da parceria transatlântica de comércio e investimento entre os EUA e a UE. Isso é uma coisa muito boa para Portugal, sobretudo se houver maior harmonização de normas, maior liberdade de comércio. Há vantagem em apanhar “este comboio” sem ter de sair da Europa. Tudo o que seja ancorar a Europa nos EUA é do nosso interesse. No fundo é descentrar a Europa, colocarmo-nos no centro, pormonos “na dobradiça” do Ocidente, como afirma o economista. “Nós, os ingleses e os holandeses. Com um mau relacionamento com os EUA seríamos completamente marginalizados”. E com euro ou sem euro? “O euro é

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antes de mais uma invenção francesa”. E a Europa — pode resumir-se assim o pensamento de Félix Ribeiro — foi sempre uma construção artificial — ou se quisermos bem datada no tempo. Que tinha pela frente a União Soviética — um adversário de respeito face ao qual os Estados europeus saídos da 2ª Guerra não tinham capacidade de resistir sem a aliança com os EUA, quando o maior e mais central Estado europeu (a Alemanha) — se encontrava amputado. Ente 1989 e 1991 a URSS implode e a Alemanha unifica-se. “Faz-me muita impressão ninguém ter percebido na altura que nada mais ia ser igual daí para diante”. A França respondeu a este choque tectónico com a proposta de avançar rapidamente para o euro, que via como a forma de enquadrar monetariamente a Alemanha e de avançar ao mesmo tempo para a criação de uma potência que fosse mais consistente como concorrente dos EUA. E os países do Sul apoiaram a França. “Quinze anos depois, o resultado está à vista: a França quase desapareceu em combate. O euro foi um temível erro histórico da França”, diz. Os países do Sul têm, agora, de fazer uma reforma interna de modo a tornarem-se menos dependentes dos apoios externos para poderem dizer que só permanecem na União Europeia se houver uma reformulação da dívida contraída durante a crise dos últimos três anos. Isso, segundo Félix Ribeiro, não é sair do euro nem da UE. “É dizer nós tínhamos 69% de dívida e hoje temos 130%. Alguma coisa se passou e não fomos só nós”. Tem de se fazer uma coisa como a que propôs Alexander Hamilton nos anos que se seguiram à guerra da independência nos EUA, propõe Félix Ribeiro: “No caso da Europa não é preciso eurobonds para sempre, basta uma vez. Emite-se dívida europeia sobre as dívidas desse período e recomeça-se. De uma só vez. E temos de ter presente uma coisa bem clara: a dívida detida por privados é intocável. Sejam eles quem forem hedge funds, fundos de pensões, fundos de investimento. Eles estavam lá para fazer dinheiro e arriscaram. Mas não são responsáveis pelas deficiências de conceção da união monetária”. Situação bem diferente é a da dívida que é detida por agências europeias ou que as agências europeias como o BCE contribuíram para colocar nos bancos dos Estados sob assistência ou à beira dela.

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Não é preciso ‘eurobonds’ para sempre, basta uma vez. Emite-se dívida europeia sobre a dívida desse período e recomeça-se. De uma só vez. E temos de ter presente uma coisa bem clara: a dívida detida por privados é intocável (sejam eles ‘hedge funds’, fundos de pensões ou de investimento). Os privados estavam lá para fazer dinheiro e arriscaram 25 Abril 40 anos | 83

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ECO NO M I A

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Entre 1989 e 1991, a União Soviética implode e a Alemanha unifica-se. A França responde com a proposta de avançar rapidamente para o euro. A França quase desapareceu e o euro foi um terrível erro histórico

O que não se pode fazer é chegar lá e dizer: “Queremos gastar mais dinheiro e não vos queremos pagar. Isso é que é impossível.” Mas Portugal mudou alguma coisa estrutural? A resposta é desarmantemente simples: “Não, apenas tornámos o modelo que tínhamos mais barato”. Há vários aspetos que são discutíveis na organização do país. Por exemplo, o ensino tem de ser público, parecelhe óbvio, no sentido do programa, do financiamento dos mais pobres, ou das metas do que deve ser ensinado em cada ano. Mas as escolas não têm de ser públicas, defende. Ou seja, o Estado deve entrar mais do lado da procura do que da oferta. “Uma pessoa quando nasce devia ter uma conta-educação, que fosse capitalizando e que não poderia servir para mais nada, senão para estudar, escolhendo onde quer estudar. Se o dinheiro não estiver no Estado, mas nas pessoas, há menos custos e evita-se a corrupção”. Ou seja — sublinha — não se pode negar à partida este tipo de raciocínio. E de repente, faz esta declaração que é raro ouvir-se num estudioso europeu: “Acho o capitalismo americano uma coisa maravilhosa como construção humana. E sob vários aspetos considero o capitalismo da Europa continental uma espécie de “Parque Jurássico...” Mas não tem o capitalismo americano falhas enormes, na Saúde, por exemplo? “Veja o que o Presidente Obama está a fazer, é extraordinário. Ele está a tentar construir uma aliança entre as classes criativas e as minorias étnicas, como base no futuro poder do Partido Democrata. E é justamente aí, nas minorias étnicas que há das maiores dificuldades na saúde.

Porque os empregados da indústria norte-americana têm há décadas seguros de saúde, negociados com as entidades empregadoras.” UM ESTADO DEMASIADO CARO O economista considera que temos hoje um Estado social muito caro para um país que não cresce. E atenção: não deixámos de crescer por ter um Estado social grande, o que não conseguimos é manter este Estado social se não crescermos, explica. “E deixámos de crescer por uma razão simples: aqueles choques externos que eu referi foram decisivos: a entrada da China na OMC, a entrada do Leste na Europa e o petróleo passar a custar quatro vezes mais, deram cabo das funções que tradicionalmente desempenhávamos na economia mundial”. E todos os alertas sobre bens transacionáveis, sobre fazer menos autoestradas, estádios, etc., por que razão ninguém ligou? “Sim, ninguém ligou nenhuma. Mas repare-se que, ao mesmo tempo, temos vindo a fazer uma coisa excelente, que eu penso ser a maior obra depois do 25 de Abril — a escolarização e a investigação científica”. Além disso, insiste, havia ainda a ilusão europeia, a ideia de que tudo tem de ser pensado no interior da Europa. Afirma que as elites atuais têm sobre a Europa uma ideia semelhante àquela que havia no anterior regime, quando as colónias não se discutiam. “Agora é a Europa — acham-na tão boa que não a discutem. E isso é paralisante para a tomada de opções. O problema é que a reunificação alemã acabou com a ilusão da Europa e por cá muita gente ainda não entendeu isso. Não digo isto para dizer mal da Alemanha, é apenas porque uma parte da elite alemã quer ter uma ‘espécie de

clones’ à volta, tudo igual. Lidar com a diversidade na gestão de uma moeda internacional que não pertence a um Estado é temível. O tratado fiscal resulta disso. Mas porque havemos de ter as mesmas normas orçamentais do que eles?”, questiona. Depois há os países que nem Estado social têm e que pressionam os preços porque têm custos de produção muito mais baratos, mas que desempenham um papel que poucos ligam: se os chineses, vietnamitas e paquistaneses não produzirem um cabaz de compras muito mais barato, é uma tragédia para o Ocidente, sobretudo para os seus mais velhos. O problema é para países como o nosso que competiam, de certa forma, nesses mesmos produtos. Félix Ribeiro é igualmente a favor da abertura de fronteiras aos imigrantes, nem vê futuro na Europa sem eles. Não é fácil sair desta embrulhada, mas o certo é que passados 40 anos temos vícios iguais, bloqueios semelhantes, mas estamos bem melhor. Pedimos-lhe que refira os três principais defeitos, e voltamos ao início: — As nacionalizações; — A transição do corporativismo e do Estado social (coisa do marcelismo) para o pós-25 Abril; — A desconfiança da riqueza e da economia de mercado. E os três grandes feitos: — Não ter havido uma guerra civil; — A aposta na educação e na investigação e desenvolvimento da ciência; — A abertura ao exterior, como país. E pronto, com a noção de que ainda havia muito a dizer, concordámos em ficar por aqui. Afinal, também já há muito em que pensar.^

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OPOSI ÇAO EM VÁRIAS FREN TES Durante décadas, na prática só o PCP combatia a ditadura. Mas, em 1974, o Estado Novo já estava cercado por muitos lados. E algumas dessas forças saíram do interior do regime

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OPO S IÇÕ ES

COMUNISTAS

O PARTIDO ERA SÓ UM Resistindo a décadas de repressão de Salazar e Caetano, o PCP chegou ao 25 de Abril com uma aura de coragem e mistério. Resenha do impulso final para a liberdade TEXTO FREDERICO CARVALHO

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urante décadas, no tempo da ditadura, quem dissesse as palavras “o partido” não precisava de explicar qual. “O partido” era só um, o PCP, os comunistas, tanto para quem o admirava como para os que o odiavam ou temiam. Era o partido da “resistência antifascista” ou da “subversão a soldo de Moscovo”, consoante o ponto de vista; o dos militantes clandestinos, dos presos mais torturados, parte do movimento comunista internacional, animador das greves operárias e sempre presente, em maior ou menor grau, nas campanhas legais da oposição democrática. Raríssimos foram os outros grupos oposicionistas organizados que não tiveram início numa qualquer dissidência do PCP. A própria polícia política, PIDE/DGS, estruturou-se a partir dos anos trinta em função do combate ao clandestino PCP; e quando nos anos finais da ditadura surgiu uma miríade de comités tentando disputar a hegemonia comunista à esquerda, os Pides mostraramse várias vezes impreparados para perceber quem era o quê. Quando o PCP emergiu da clandestinidade, após o 25 de Abril, apresentava tanto as cicatrizes como a aura dessas décadas. Em muitos partidos da democracia, PPD (hoje PSD) incluído,

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O PO S I ÇÕ ES

CUNHAL AO LEME A plataforma política com que o PCP chegou ao 25 de Abril não surgiu sem uma séria querela interna. A redefinição começou com a fuga de dez dirigentes comunistas, entre os quais Álvaro Cunhal, do forte-prisão de Peniche, a 3 de janeiro de 1960. Na cadeia, era maioritária a crítica à orientação do partido nos anos anteriores.

consideravam que o PCP abdicava assim de imprimir a sua marca na luta contra a ditadura. Em 1958, apoiou a contragosto a campanha de Humberto Delgado, que não podia influenciar. Regressado à liberdade clandestina, Cunhal conduziu uma severa crítica ao que foi crismado, no dialeto comunista, “desvio de direita”. Os dirigentes criticados aceitaram o corretivo. A nova orientação fixou-se num longo documento redigido por Cunhal e aprovado em 1964, sob o título “Rumo à Vitória”; converteu-se numa quase bíblia política, mesmo para os não-militantes. O “levantamento nacional” e a “luta armada do povo e dos militares revolucionários” eram a via para conquistar um governo democrático. E os objetivos políticos são familiares a quem viveu o pós-25 de Abril: Assembleia Constituinte, nacionalizações, reforma agrária, independência das colónias. Nunca o PCP tivera um programa tão claramente definido.

Em liberdade no exílio, Cunhal combate o ‘desvio de direita’ do PCP e no ‘Rumo à Vitória’ fixa a nova orientação comunista O PCP fora abalado pela nova orientação do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), que em 1956 denunciou os crimes de Estaline e teorizou a possibilidade de uma “transição pacífica para o socialismo”, por via parlamentar, nos países capitalistas. Em Portugal, a direção do partido começou a falar de uma “solução pacífica” contando com dissidentes do regime. Os críticos

Em 1961, com o início da guerra colonial, as audaciosas operações de Henrique Galvão aliado a Humberto Delgado e dissidências internas no regime, a ditadura passou um momento difícil. Em maio de 1962, o PCP impulsionou as greves dos trabalhadores rurais do Sul do país que conquistaram a jornada de oito horas. Também em 1962, iniciou emissões diárias a rádio do partido, Rádio Portugal Livre, a partir da Roménia. Juntou-se ao órgão central do PCP, o “Avante!”:

AKG/ RIA NOVOSTI/ AIC

havia ex-presos políticos e protagonistas corajosos de combates contra Salazar e Caetano. Mas em nenhum como no PCP: ao apresentar em maio de 1974 o seu Comité Central à luz do dia, os 23 membros efetivos totalizavam 255 anos de prisão, uma média de 11 anos por dirigente, e nenhum desconhecia os cárceres. Como se viu no ano seguinte, não era credencial suficiente para os portugueses lhes confiarem em eleições o governo do país; mas atestava uma luta feita de atos e não apenas de retórica. Uma história de luzes e sombras, como em todas as lutas prolongadas em situações adversas.

Álvaro Cunhal, em 1962, em Moscovo, dois anos depois da audaciosa fuga do forte de Peniche, em que participaram dez presos comunistas

Na página ao lado, esquema da evasão, da autoria de Margarida Tengarrinha

criado em 1931, saiu sem interrupções desde agosto de 1941 até ao 25 de Abril; nem a captura pela polícia de algumas tipografias clandestinas, equipadas com prelos manuais mas muito eficazes, travou a publicação. Em 1974, o PCP tinha duas tipografias centrais, uma no Norte e outra no Sul, que repartiam a impressão do jornal em papel-bíblia. AUDÁCIA E CETICISMO Na década final da ditadura, uma nebulosa de grupos 25 Abril 40 anos | 87

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maoístas e da “nova esquerda”, a maioria criados a partir da emigração e das universidades, acusava o PCP de ter desistido da revolução e conseguia audiência na juventude politizada pela oposição à guerra colonial. Cunhal respondeu-lhes em 1970 com um virulento opúsculo, “O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista”, outro texto clássico. Mas era sobretudo no terreno da ação política que a estrutura comunista mostrava a sua maior capacidade, apesar de ter ainda sofrido golpes repressivos de monta. Na sombra, o PCP ia tomando desde 1964 algumas medidas para combinar as lutas por melhores condições de vida e a unidade democrática com a “ação direta” contra o aparelho repressivo e colonial. Mas, como atestam as memórias de Jaime Serra, que viria a

Nos anos do marcelismo, o PCP aproveita as campanhas eleitorais de 1969 e 1973 para centenas de comícios nas estruturas legais da oposição democrática

Cunhal num dos primeiros comícios do PCP, em junho de 1974 DIREITOS RESERVADOS

encabeçar o comando central da Ação Revolucionária Armada (ARA), braço armado do PCP, a tradição de crítica ao aventureirismo desligado da luta popular atrasou a adoção de medidas de fundo. Num ambiente radicalizado pela regressão da tímida liberalização de Marcello Caetano e o prolongamento da guerra, vários dirigentes e militantes reclamaram mais audácia. A luz verde foi finalmente dada em 1970, e em outubro a ARA iniciava uma série de sabotagens com cargas explosivas, ao longo de dois anos. As explosões eram ainda complemento de uma luta mais vasta. Os anos do impasse marcelista viram o PCP aproveitar as campanhas eleitorais de 1969 e 1973 para centenas de comícios das estruturas legais da oposição democrática, apoiar em 1970 a criação da Intersindical (o embrião da CGTP) pelos

sindicatos subtraídos à tutela do regime, e recuperar alguma da influência perdida no movimento estudantil para a ultra-esquerda. 1973 e 1974 foram anos de um surto de greves operárias por melhores salários. No Porto, em abril de 1972, a organização comunista esteve no centro de uma célebre manifestação de milhares de pessoas contra a carestia. Chegara a crise final do regime. Carlos Brito, que além de encabeçar a organização de Lisboa acompanhava os militares comunistas, recorda o “sentencioso ceticismo” com que Álvaro Cunhal, a partir de Paris, respondeu às suas notícias sobre a conspiração militar em marcha; o PCP mantinha memória dos fracassos passados do “reviralho” castrense. Desta feita, enganou-se. Vinha aí o mar encapelado da liberdade. ^

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PS

O PO S I ÇÕ ES

SOCIALISTAS

A CAMINHO DO PS As rotas da oposição não comunista assumem muitas variantes, mas irão desembocar na criação do PS já no ocaso da ditadura TEXTO VALDEMAR CRUZ

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meio de uma tarde do último inverno lisboeta, um homem magro, baixo, calvo, encasacado, entra numa confeitaria próxima do jardim do Príncipe Real. Chega disponível para uma viagem através das oposições à ditadura no universo não comunista, com particular incidência nos percursos que mais tarde desembocariam no PS. José Medeiros Ferreira, 73 anos, olha com desprendimento e um inamovível humor para aqueles tempos de luta, prisões, torturas, guerra colonial e exílio. O modo como tropeçavam nas ideias uns dos outros terá obrigado a rasgar amizades, mesmo se daí não resultaram inimizades.

Construíram-se solidariedades ao navegar em mares turbulentos e tantas vezes foi necessário fazer a separação das águas, numa oposição ao longo de décadas marcada pela força e pela presença do PCP. O inimigo era comum, mas os caminhos para o combater e os percursos imaginados para o dia após uma eventual vitória sobre o fascismo eram cada vez mais e irremediavelmente outros. Na véspera, na sua casa próxima da Assembleia da República, e enquanto frente à escadaria do Parlamento um grupo de reformados protestava contra os cortes nas pensões, Mário Mesquita, 64 anos, jornalista, ex-diretor do “Diário de Notícias”, um dos fundadores do PS, recuava até

os seus tempos de formação iniciados nos Açores, onde acaba por ter contactos esporádicos com Melo Antunes, ou até aos anos finais da década de 1960, marcados pelas leituras de jornais como o “Le Monde”, “L’Express”, “Le Nouvel Observateur”. Isso permite-lhe enquadrar as movimentações de jovens como ele que, “sendo da oposição ao regime”, não se reviam “nas opções marxistas dominantes no movimento estudantil”. Assim, enquanto universitários, “aderir a uma organização como a Ação Socialista Portuguesa-ASP, se por um lado era tomar posição contra o regime, por outro lado constituía uma demarcação”, face à posição preponderante dos

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Umas das fotos de família da fundação do PS, na Alemanha, a 19 de abril de 1973: 1| Fernando Borges 2|Liberto Cruz 3|José Neves 4|Carlos Queixinhas 5|Jorge Campinos 6|António Arnaut 7|Maria Barroso 8|José Maria Roque Lino 9|Rui Mateus 10|Fernando Valle 11|Mário Soares 12|Carlos Carvalho 13|Francisco Ramos da Costa 14|Fernando Loureiro 15|Catanho de Meneses 16|Bernardino Gomes 17|António Gomes Pereira 18|Gustavo Soromenho 19|Lucas do Ó 25 Abril 40 anos | 89

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movimentos influenciados pelo PCP. Tratava-se de um posicionamento novo numa questão antiga. O Partido Comunista Português tinha uma longa tradição de presença e acompanhamento das lutas populares e estudantis. Nascido em março de 1921 num contexto de grande desenvolvimento das lutas do movimento operário português, sobrevive ativo na clandestinidade a todo o longo e difícil período da ditadura. Os que se reivindicavam do socialismo estavam de alguma forma órfãos há muito tempo. O antigo PS fora-se desintegrando e já nada restava do movimento seareiro constituído nos anos de 1920 à volta de homens como Jaime Cortesão, Raul Proença, Câmara Reis, António Sérgio ou Sarmento Pimentel. Nos anos 50, e na sequência da “Alocução aos Socialistas”, de António Sérgio, é criada em Lisboa

Nos anos 50, é criada a Resistência Republicana e Socialista, que reúne, entre outros, desiludidos do PCP, Soares, Zenha, Piteira Santos ou Ramos da Costa

e no Porto a Resistência Republicana e Socialista. Reúne desiludidos da União Socialista e dissidentes do PCP, como Piteira Santos, Salgado Zenha, Mário Soares ou Francisco Ramos da Costa. A partir deste núcleo nasce em Genebra, em 1964, a ASP (Ação Socialista Portuguesa) e, então sim, começa a ganhar corpo, de um modo consistente e continuado, a ideia de uma formação situada à esquerda, embora com posições mais recuadas do que as habitualmente defendidas pelo PCP. CDE VERSUS CEUD A ASP estava longe, porém, de esgotar o universo da oposição não comunista, como recorda Joaquim Mestre, advogado e um dos fundadores, após o 25 de Abril de 1974, do MES-Movimento da Esquerda Socialista, com Jorge Sampaio, César Oliveira, Ferro Rodrigues ou Nuno Teotónio Pereira. Eram

Mário Soares, no dia da chegada a Portugal, em 28 de abril de 1974, dirigindo-se à multidão que o saúda frente à estação de Santa Apolónia, em Lisboa

os chamados “socialistas independentes”, um grupo do qual fazia parte uma nova geração de sindicalistas, um conjunto de católicos apelidados de progressistas, além dos profissionais liberais e advogados muito ativos na defesa de presos políticos, como o próprio Joaquim Mestre, Jorge Sampaio, Victor Wengorovious, José Manuel Galvão Teles, Nuno Brederode Santos, César Oliveira, ou João Cravinho. Têm um papel ativo nas “eleições” de 1969, às quais a oposição concorre dividida entre as listas da CDE-Comissão Democrática Eleitoral, com comunistas, católicos progressistas, socialistas independentes

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O PO S I ÇÕ ES

PS

No exílio, Mário Soares empenha-se em recrutar gente nova, formada em edifícios teóricos exteriores ao marximo

e outros democratas, e a CEUD-Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, influenciada pela ASP. A participação eleitoral “é um fiasco” para a CEUD, segundo Alfredo Barroso, 69 anos. Se não é este o espaço para esmiuçar um processo por demais historiado e sobre o qual está publicada imensa literatura, valerá a pena regressar a este fundador do PS quando, ainda assim, encontra motivos de regozijo ao recordar a expulsão pela PIDE de observadores da Internacional Socialista. “Para nós foi uma glória”, diz. “Passamos a ser temidos pelo regime e isso foi mais importante do que qualquer resultado eleitoral”. ALTERNATIVA NA ESQUERDA A emergência de uma força à esquerda, não vinculada ao PCP, tornara-se uma inevitabilidade imposta pelas circunstâncias políticas

internas e externas. As movimentações e o crescendo de afirmação da área que se reivindicava do socialismo começara muito antes, embora sempre em circunstâncias de presença minoritária, seja nos movimentos estudantis seja nos meios operários ou intelectuais. Susana Martins, historiadora, autora do estudo “Socialistas na oposição ao Estado Novo”, defende que a penetração da ASP no meio estudantil, por exemplo, “cingia-se a oito ou nove elementos perfeitamente identificáveis: Mário Mesquita, Pedro Coelho, Jaime Gama, Arons de Carvalho, Nuno Godinho de Matos” e poucos mais. Alguns dos dinamizadores de uma nova presença oposicionista, materializada na ASP, tinham passado pelo PCP, mas muitos outros pertenciam a uma geração formada a partir de um edifício teórico exterior ao marxismo, ou pelo menos não por ele condicionado.

São muitos os oposicionistas a movimentar-se nesse circulo de ideias e Mário Soares empenha-se no sistemático recrutamento de gente nova ou oriunda de outras vivências. É o caso do agora coronel Manuel Pedroso Marques, um dos participantes, enquanto capitão, da revolta de Beja de 31 de janeiro de 1961, destinada a derrubar Salazar. Frustrado o golpe, exilase durante três anos na embaixada do Brasil, até que consegue sair clandestino para França, onde solicita asilo territorial. Aí tem “os primeiros contactos com sectores da ASP”, avista-se “com Mário Soares e Piteira Santos”, mas é no Brasil, onde vai encontrar “uma oposição à ditadura muito fragmentada e afetada por intermináveis quezílias”, que acaba por aderir formalmente à ASP. Por cá, era cada vez mais evidente a relevância do papel desempenhado pelos chamados católicos progressistas, aglutinados à volta da revista “O Tempo e o Modo”. Um dos colaboradores da revista é José Medeiros Ferreira. Dirigente estudantil entre 1961 e 1965, originário dos Açores, tal como Gama e Mesquita, é preso pela PIDE logo após ter sucedido a Jorge Sampaio como secretáriogeral da RIA (Reunião Inter Associações Académicas). DO GRUPO DE GENEBRA À FUNDAÇÃO DO PS No verão de 1968, Medeiros Ferreira sai de Portugal a salto e acaba em Genebra. Aí encontra um conjunto de exilados, como António Barreto, Eurico Figueiredo, Ana Benavente, ou Manuel Lucena. Todos eles acabarão por se inscrever no PS já depois do 25 de Abril de 1974. Antes disso, porém, com Medeiros farão todo um percurso político e ideológico à volta do Grupo Socialista

Revolucionário, responsável pela edição, em 1973, da revista “Polémica”, portadora, diz Medeiros Ferreira, que em 1969 apoiara a CDE e não a CEUD, de “um pensamento autónomo, independente e não enfeudado ao PC”, passível de ter agradado muito a Mário Soares. Não o bastante, porém, para os tornar fundadores do PS. Medeiros Ferreira [falecido a 18 de março, pouco depois da conversa com o Expresso] acreditou que “dificilmente Mário Soares faria o PS” sem aquele conjunto de exilados em Genebra. Mas um dia, recorda, aparece-lhe em casa Mário Mesquita e outros que lhe dizem que “vinham da fundação do PS”. Com a malícia que lhe caracteriza o olhar, Medeiros admite que Soares terá querido “evitar que alguns nomes ficassem como fundadores”. A constituição do PS teve lugar a 19 de abril de 1973, na cidade alemã de Bad Münstereif. Os participantes vão de Portugal, de vários pontos da Europa e do norte de África. Dividem-se na votação, como recorda Mário Mesquita, entre os que pensavam não ter a ASP uma estrutura, nem “uma imagem suficientemente forte” para se apresentar como partido, e os que, como Soares ou Tito de Morais, consideravam crucial darem aquele passo em frente. Mesquita e Maria Barroso (em representação de Salgado Zenha), entre outros, votam contra. São apenas sete face aos 20 votos favoráveis à constituição de um partido que, naquele momento continuava a ter uma militância residual. Por isso mesmo, ninguém imaginaria quão importante se tornaria, uns meses depois, a decisão tomada. Ainda ninguém sabia estarem a chegar ao fim de um longo caminho, e próximo de iniciar outro, agora em liberdade. ^ 25 Abril 40 anos | 91

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92 | 25 Abril 40 anos

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Referências e mártires UM PAÍS JÁ LIBERTADO foi o palco da morte das últimas vítimas da ditadura. Na tarde de 25 de abril de 1974, a PIDE disparou sobre populares na rua, em Lisboa, assassinando quatro pessoas. No Tarrafal, em Cabo Verde, para onde o regime mandou presos políticos até 1954, perderam a vida 37 portugueses da metrópole. Houve oposicionistas mortos cujo comportamento foi mobilizador para muita gente durante a ditadura (o general Humberto Delgado, o escultor Dias Coelho, o estudante Ribeiro Santos), e que foram exaltados em democracia. Nenhuma dessas vítimas se tornou um ícone da dimensão de Catarina Eufémia, a camponesa abatida por um GNR, em 1954, em Baleizão. Adotada pelo PCP como personificação da resistência no Alentejo e ao salazarismo, Catarina foi cantada por Zeca Afonso — que também imortalizou Dias Coelho, abatido a tiro pela PIDE, na canção ‘A morte saiu à rua’ — e teve a sua vida trágica e exemplo também sublimados em poemas de Ary dos Santos e de Sophia. Em Portugal, depois de 1974, quando muitos líderes e revolucionários internacionais eram faróis para parte do leque partidário, só um estadista estrangeiro esteve à altura de entrar no panteão dos resistentes portugueses: Salvador Allende. ^ PAULO PAIXÃO

“Chamava-se Catarina O Alentejo a viu nascer Serranas viram-na em vida Baleizão a viu morrer Ceifeiras na manhã fria Flores na campa lhe vão pôr Ficou vermelha a campina Do sangue que então brotou” José Afonso "Cantar alentejano" 25 Abril 40 anos | 93 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


OPO S IÇÕ ES

1962: Jorge Sampaio na cantina da Cidade Universitária, em Lisboa, o terceiro elemento sentado (foto à esquerda)

ARQUIVO “VISÃO”

1969: Manifestação de estudantes de Coimbra durante a visita de Américo Tomás (página ao lado, em cima)

1969: O incidente na inauguração das Matemáticas que origina a greve. Alberto Martins pede a palavra que Tomás não dará (página ao lado, em baixo)

MOVIMENTO ESTUDANTIL

UM PREGO NO CAIXÃO DO ESTADO NOVO Associações académicas, jornais de parede, plenários, greves e imprensa paralela. As armas dos universitários para abalar a ditadura TEXTO RUI CARDOSO

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m 1970, a contrapropaganda da ditadura fazia-se através de um jornal chamado “Frente Universitária”. O nome era bem escolhido: perdidos quaisquer resquícios de legitimidade com a fraude nas presidenciais de Humberto Delgado em 1958, envolvido na guerra em Angola, Guiné e Moçambique, o Estado Novo era ameaçado numa nova frente, a universidade, ficando em causa a renovação das elites pela adesão em massa dos estudantes a valores alternativos. O primeiro abanão veio do Luto Académico (eufemismo para greve) de março de 1962.

O grau de politização deste movimento, que alastrou a Coimbra, era inversamente proporcional à adesão, mas para chegar aos 90 estudantes em greve da fome na cantina da Cidade Universitária de Lisboa, a polícia teve que prender muitas centenas e transportá-las em autocarros de dois andares da Carris para Oeiras e Caxias. Discreto, portanto... Em 1969, Salazar cai e o regime ensaia uma tímida abertura. Em Lisboa, voltam os plenários, momentaneamente sem polícia. Num ambiente marcado pelo Maio de 68 é, episodicamente, possível

discutir o impensável: a guerra colonial, as estratégias de modernização do capitalismo, a liberdade sexual, etc. COIMBRA, 1969 Mas basta um incidente em Coimbra, durante uma visita de Américo Tomás, para a repressão voltar. Numa academia cercada pela GNR, tudo é discutido, da guerra às relações entre rapazes e raparigas. À presença policial os estudantes respondem com coragem e criatividade. Mil e um heróis anónimos inventam estratagemas para a greve a exames ser levada a bom termo e os fura-greves não

passarem. Tal como sete anos antes, a derrota é inevitável, mas o regime paga um elevado preço político: apesar da censura, toda a gente sabe que Coimbra esteve em estado de sítio. A final da Taça de Portugal entre Benfica e Académica não é transmitida pela TV e Américo Tomás não vai ao Jamor. Cai um ultra do regime, Hermano Saraiva, substituído pelo liberal Veiga Simão na Educação. Com a viragem da década, a contestação chega à sala de aulas. Os professores são interpelados acerca do ritmo de exposição das matérias e das razões da escolha dos programas ou dos autores dos compêndios.

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ARQUIVO “VISÃO”

O PO S I ÇÕ ES

pelos dirigentes, nem estes reportavam obedientemente a “controleiros” inseridos em tenebrosas estruturas clandestinas. E mesmo que o fizessem, a dinâmica coletiva levava sempre a melhor. A repressão revelase contraproducente. As incorporações compulsivas acabam por redundar na politização do quadro de oficiais (contribuindo para a génese do MFA). E o degredo dos academicamente “malcomportados” para outras faculdades só espalha a “doença”.

A IMPOSSÍVEL REFORMA Para modernizar o tecido económico, era preciso reformar o ensino, muito especialmente no Técnico e em Económicas. Mas a ditadura não podia simultaneamente abrandar o controlo ideológico nem permitir a liberdade de reunião e associação. Qualquer crítica à reforma levava à intervenção da polícia. Esta passa de invasões esporádicas (Técnico e Económicas a 16 de março de 1972) à presença quotidiana. Surge um corpo de contínuos

O movimento estudantil vive em reunião permanente onde tudo pode ser posto em causa

DIREITOS RESERVADOS

As associações descentralizam-se, os dirigentes aproximam-se dos estudantes e o movimento estudantil torna-se muito mais difícil de travar porque já não depende exclusivamente de um edifício ou de meia dúzia de líderes. A matriz de pensamento de muitos ativistas é marxistaleninista, mas métodos de trabalho autoritários e conceções não democráticas geram o seu contrário: o movimento estudantil é profundamente democrático e vive em assembleia permanente onde tudo pode ser posto em causa. Numa versão filolibertária do aforismo maoísta o poder está na ponta da língua. As associações, enquanto a ditadura não as fecha de vez (o que acontecerá em fins de 1973), têm as paredes cobertas por cartazes e jornais de parede onde há sempre um espaço livre e uma frase a incitar: “Comenta!” As cabinas sonoras passam noticiário sobre temas que a censura omite, a par de música de intervenção. As aventuras e desventuras dos grupúsculos clandestinos são irrelevantes. Nem os estudantes foram “carne para canhão” das estratégias congeminadas

encorpados, os “vigilantes”, alcunhados de “gorilas”. A12 de outubro de 1972, um Pide, descoberto no interior de Económicas, puxa da pistola e mata o estudante Ribeiro Santos, o que desencadeia uma explosão de indignação. São distribuídos dezenas de milhares de comunicados à população. No Porto, em 1971 a Queima das Fitas é boicotada e não volta a realizar-se até 1974. Em 1973 o mesmo sucede a um festival de coros universitários, ambos os eventos tidos como símbolos de uma imagem reacionária do estudante. Estas ações são reprimidas à custa de dezenas de prisões. O Técnico reabre com controlo de entradas por cartões codificados e uma câmara de vigilância que acaba por ser destruída. Em 1974 já não há, praticamente, uma associação aberta de Norte a Sul. “Choques “ e “gorilas” entram no quotidiano. Mas, como no “Chant des Partisans”, que muitos sabiam de cor, por cada companheiro expulso, preso ou torturado, outro saía da sombra para tomar o seu lugar. A banalização da força bruta só significava que a ditadura tinha perdido, de vez, o controlo da frente universitária. O 25 de Abril vinha aí. ^ 25 Abril 40 anos | 95

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OPO S IÇÕ ES

EXTREMA ESQUERDA

OS RELÂMPAGOS MAOÍSTAS, TROTSKISTAS, GUEVARISTAS... O esquerdismo afinal sempre existiu. As microorganizações clandestinas à esquerda do PCP eram anárquicas, dispersas e diletantes, mas tiveram um papel maior do que por vezes se diz no sapar dos alicerces da ditadura TEXTO RUI CARDOSO

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uando Humberto Delgado disse que demitiria Salazar em 1958, a referência para um jovem que, na altura, descobrisse a face bafienta do Estado Novo era o comunismo e a organização de referência, o PCP. Dez anos depois, mais depressa seria atraído por um grupo esquerdista. Nasce, a partir de 1969, uma nebulosa de pequenas organizações, na maioria maoístas (embora também as houvesse trotskistas, anarquistas, guevaristas, etc.) que exercerá um tremendo poder de atração, mesmo nas fileiras ortodoxas. Falando em 2010, num seminário sobre o maoísmo em Portugal promovido pelo IPRI (Universidade Nova de Lisboa), João Arsénio Nunes, docente do ISCTE, disse que, nessa altura, “era impossível, alguém com formação marxista, não se tornar maoísta”, coisa que, como explicou na ocasião, não o impediu de ter um percurso pessoal curioso: “do revisionismo soviético ao maoismo e, mais tarde, de volta ao ‘revisionismo’, ainda que com algumas dúvidas...” Surge uma imprensa clandestina que serve de referência ideológica aos que despertavam para a oposição

a uma ditadura cada vez mais próxima do fim (coisa óbvia hoje mas nada evidente na altura). O seu estudo é feito por José Pacheco Pereira em “Armas de Papel” (2013, ed. Temas e Debates). A PIDE detetava funcionários do PCP travestidos de caixeirosviajantes ou tipografias clandestinas mas esta nova realidade escapavalhe. “Quando a PIDE lhe

apanhasse o jeito, o efeito seria ainda maior que sobre o PCP, porque estes grupos eram muito mais mal organizados, mas já não houve tempo para isso suceder”, lembrou o historiador Fernando Rosas, na apresentação do referido livro de Pacheco Pereira. Na rua, os esquerdistas revelavam-se mais duros de roer do que a oposição republicana tradicional ou

Os copiógrafos a Stencil permitiam editar panfletos e jornais “do contra” em milhares de exemplares

a fação estudantil do PCP, habituadas a “comer e calar”. Nas manifestações-relâmpago contra a repressão ou a guerra colonial havia martelos e barras de ferro. Tiravam-se os tróleis dos elétricos para parar o trânsito e as bandeiras vermelhas chegavam disfarçadas de pendões do Benfica. Este universo tão bem estudado por Miguel Cardina em “Margem de Certa Maneira” (2001, ed. Tinta da China) e “O Essencial sobre a Esquerda Radical” (2010, ed. Angelus Novus) querendo (re)fazer o partido da classe operária, atraiu sobretudo estudantes. Mas, como referiu a antropóloga Paula Godinho no referido seminário sobre o maoismo, também captou franjas operárias jovens que não se reviam no discurso do PCP, nomeadamente quanto à guerra colonial. Destas microorganizações saíram figuras como Alberto Martins, Saldanha Sanches (1944/2010), Ana Gomes, Maria José Morgado, Pacheco Pereira, Fernando Rosas, Irene Pimentel, Ferro Rodrigues, Mariano Gago, Félix Ribeiro, Jorge Coelho, Francisco Louçã, José Lamego, Pedro Baptista, João Vieira Lopes ou, ainda, Durão Barroso. ^

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O PO S I ÇÕ ES

Sessão de evocação, em 1983, na Capela do Rato. Uma década antes, a polícia invadira a igreja, durante uma vigília de católicos

ARQUIVO “O JORNAL”

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CATÓLICOS

PROCLAMAR A VERDADE NOS TELHADOS Começou com vozes isoladas, ganhou notoriedade e espaço, até ser um problema com que o regime não sabia lidar: a oposição católica. Informal, aberta, abrangente TEXTO FILIPE SANTOS COSTA

que eu vos digo às escuras, digam-no em pleno dia e o que escutam ao ouvido, proclamem-no nos telhados!” — a citação, do Evangelho Segundo São Mateus, encimava os panfletos distribuídos por várias igrejas de Lisboa nesse domingo, último dia de 1972. Apelavam a que mais gente se juntasse à vigília que, desde a véspera, desafiava o Estado Novo. Nesse sábado, um grupo de opositores ao regime tinha lançado na Capela do Rato a iniciativa que ficaria como a mais emblemática ação de resistência dos católicos — a que teve maior impacto no país e no estrangeiro, que não foi possível à ditadura fingir que não tinha acontecido. A oposição católica ao Estado Novo agia, por fim, em pleno dia e do topo dos telhados. “Não achámos que tivesse aquele impacto, apesar de ter sido tudo planeado para ter o maior impacto possível”, recorda Conceição Moita, que nesse sábado, 30 de dezembro, se assumiu como porta-voz da oposição católica, se dirigiu ao púlpito após a missa das 19h30, e anunciou 48 horas de greve de fome e reflexão sobre a guerra colonial, apelando à participação de católicos e não-católicos. O pretexto era o Dia Mundial da Paz, que desde 1969 se celebrava a 1 de janeiro. Podia ter sido só mais uma iniciativa antirregime, quase sempre com um impacto limitado, dos “católicos progressistas”. “Os temas da Capela do Rato eram recorrentes. São os mesmos 25 Abril 40 anos | 97

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da vigília de São Domingos em 1969”, diz o historiador João Miguel Almeida, autor do livro “A Oposição Católica ao Estado Novo”. “Só que a vigília de São Domingos foi abafada. A Capela do Rato teve o impacto da polícia invadir um espaço religioso. As linhas que tinham sido estabelecidas entre o Estado e a Igreja esbatem-se.” A polícia entrou no espaço da Igreja e a Igreja entrou no espaço da polícia — no dia 1 de janeiro, o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, foi à sede da DGS, de onde se recusou a sair enquanto o Pe. António Janela, detido nessa manhã na Capela do Rato, não fosse libertado. Uns dias depois, uma nota do Patriarcado criticava a intervenção policial e advertia que esta “não deve, porém, interpretar-se como desencorajamento da procura, por parte dos católicos e dos homens de boa vontade, das soluções concretas que levam à paz baseada na verdade, na justiça, na caridade e na liberdade”. Era a primeira vez que o mais alto dignitário da Igreja portuguesa condenava em concreto uma ação repressiva do Estado Novo. Tarde demais para muitos

ARQUIVO “A CAPITAL/IP”

Num país onde Salazar tinha imposto uma “Frente Nacional” que juntava regime e Igreja, a oposição católica propunha-se mudar ambos

católicos oposicionistas que, por essa altura, já se tinham afastado da Igreja e radicalizado a luta. Afinal, a sua tinha sido uma agenda com duas prioridades: “Queríamos mudar o regime e mudar também a Igreja”, resume Nuno Portas que, em 1958, ainda estudante de arquitetura, participou num dos primeiros documentos do que ficaria conhecido como a oposição católica à ditadura. UMA AGENDA EXPLOSIVA Recuemos, então, a um início possível desta história: eleições presidenciais de 1958. Numa carta ao diretor do “Novidades”, o jornal oficioso da Igreja, alinhado com Américo Tomás, 28 católicos apelam para que o periódico mantenha a isenção e contribua para “esclarecer a consciência católica nacional”. A missiva leva a assinatura de figuras de referência dos círculos intelectuais católicos, como António Alçada Batista, Francisco Lino Neto ou Nuno Teotónio Pereira, mas a maioria são jovens ligados às organizações de juventude universitária (JUC) e operária (JOC), como João Bénard da Costa, Nuno

D. António Ferreira Gomes foi forçado a um exílio de 10 anos (1959-69); e capa de “O Tempo e o Modo”, de 1975, em que se vê o grau de compromisso político da revista. Na página ao lado, foto da ficha da PIDE de Nuno Teotónio Pereira

Bragança, Manuel de Lucena, Pedro Tamen, Nuno Portas, Adérito Sedas Nunes, João Salgueiro ou Manuel Serra. A demarcação pública e organizada de tantos católicos face ao regime foi um marco. Que seria reforçado, depois das eleições, pela divulgação de um documento de Lino Neto (“Considerações dum católico sobre o período eleitoral”), que punha em causa os alicerces da aliança forjada pelo Estado Novo entre o poder político e a hierarquia católica. O texto frisava como o regime “acentuou, cada vez mais, as suas tendências totalitárias, o que criou dois tipos de preocupações aos católicos conscientes: por um lado, o próprio carácter anticristão

de um sistema totalitário, mais grave ainda se apresenta como inspirado nos princípios cristãos; por outro, o facto de comprometer a Igreja pela sua aparente solidariedade com o regime (...)”. “Aparente” era, claro, eufemismo. A “Frente Nacional” entre o Estado Novo e a Igreja Católica foi anunciada, nestes termos, por Salazar logo nos anos 30. Após os desmandos da I República, o regime admite que a Igreja “pode e deve gozar de especiais favores”; em contrapartida, esta reconhece a legitimidade do novo regime enquanto representação de uma nação “essencialmente cristã”. Aos católicos é permitida ação política, mas só na União Nacional. A Concordata, em 1940, sela a união de facto. Apesar de algumas vozes isoladas, só em 1958, com o furacão Delgado, a “Frente Nacional” é posta em causa por vozes que não podem mais ser ignoradas. E nenhuma mais do que a do bispo do Porto. O texto que ficou conhecido como “Carta do bispo do Porto a Salazar” (um pro memoria para uma entrevista de D. António

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Ferreira Gomes com o presidente do Conselho) tinha uma agenda explosiva: direito à greve, redução do horário de trabalho, denúncia da miséria social, reivindicação da justa repartição de rendimentos, valorização da participação na vida pública. A ideia de que os católicos não se podem alhear da política é o corolário. MALEÁVEL E INFORMAL A carta do “bispo vermelho” tornou-se uma espécie de documento programático da oposição católica, e os seus argumentos haviam de ser revisitados em inúmeros documentos que, pelos anos seguintes, seriam produzidos por grupos maiores ou menores, para divulgação pública ou difusão clandestina. “A privação da liberdade e a injustiça social foram grandes molas para a mobilização dos cristãos e para a consciencialização progressiva de que havia uma dimensão política na nossa situação de cristãos. Era o próprio Evangelho que exigia uma tomada de posição”, recorda Conceição Moita. É esse ponto de vista “radical” sobre o Evangelho — no sentido etimológico, de ir à raiz — que une gente muito diferente. Mas mesmo essa “unidade” é uma força de expressão: ao contrário do que Salazar chega a temer, os católicos nunca se organizam como partido, como as democracias-cristãs europeias, e, embora tendencialmente situados à esquerda, mais do que uma ideologia partilham um ponto de vista cristão e humanista. “Nunca houve fronteiras rígidas. Pelo contrário, foi sempre tudo muito maleável e informal”, resume Joana Lopes, que chegou à direção da Junta Central da Ação Católica e escreveu “Entre as Brumas da Memória”, livro sobre a sua experiência na oposição católica. “Se constatamos

uma pluralidade política entre estes católicos da oposição, eles possuem uma identidade negativa: não aceitam fazer política no lugar que o regime lhes reservava — a União Nacional; estão dispostos a denunciar este regime alegadamente cristão e até a derrubá-lo”, escreve João Miguel Almeida. “Os católicos eram um ponto de cruzamento fácil entre correntes muito diferentes”, confirma Francisco Louçã, que, sendo ateu, foi um dos jovens participantes na vigília da Capela do Rato. Testemunhou “várias redes em planos de atividades muito diferentes” e “uma enorme abertura”. “O Tempo e o Modo”, publicação lançada por Alçada Batista em 1957, reflete essa abertura e pluralidade. Apesar desta informalidade, diz Louçã, “a ideia de que não havia uma estrutura é exagerada. Não haver uma estrutura formal não significa que não houvesse uma estrutural funcional — muito leve, de pessoas que sabiam o que os outros estavam a fazer e se ligavam por grandes laços de amizade e cumplicidade.” Promoviam retiros e debates caseiros, desmultiplicavam-se

em associações, divulgavam informação inacessível por outros meios — atividade editorial clandestina que se tornou ainda mais relevante com a guerra colonial. O arranque do Concílio Vaticano II, com a esperança numa regeneração da Igreja, foi uma motivação extra. Sem uma estrutura formal, sem direção central, e sem uma escola de clandestinidade, à PCP, a oposição católica ia funcionando com “muita carolice, voluntarismo e imaginação”, conta Joana Lopes. “E muita adrenalina”. ENCONTRAR UM CAMINHO Pisando muitas vezes a linha entre legalidade e clandestinidade, puxavam pela criatividade para chegar a mais gente e fugir ao controlo de uma polícia que não sabia bem como lidar com aquela ameaça — uma contestação aparentemente desorganizada, de uma burguesia urbana, em muitos casos de famílias próximas do regime, sem rotinas e com uma informalidade que lhes permitia passar por baixo do radar. Por outro lado, não deixava de ser gente da Igreja, a velha aliada do

“Conseguimos abanar a ditadura e influenciar uma grande parte da população”, sintetiza Nuno Teotónio Pereira

regime... “Pelo menos até ao marcelismo, tínhamos consciência de que havia ali a asa protetora da Igreja”, admite Joana Lopes. Só mais tarde, quando desaparece a dupla Salazar/ Cerejeira, e o marcelismo falha a tentativa de seduzir os sectores católicos — por exemplo, através da Ala Liberal —, é que o regime endurece a repressão às oposições católicas. Por essa altura, já o grande tema da oposição era a guerra colonial. 1961 marca uma nova página na história do regime e dos que o combatiam. Também para os católicos a guerra passa a ser o ponto fulcral do combate, ainda mais a partir de abril de 1963, quando é publicada a encíclica “Pacem in Terris”, um apelo ao diálogo e à busca da “paz de todos os povos na base da Verdade, Justiça, Caridade e Liberdade”. A guerra reforçou as razões dos católicos que se opunham ao regime e alargou a audiência para os seus argumentos. “Nós achávamos que íamos conseguir acabar com a ditadura. Não sabíamos como, mas a guerra e o isolamento de Portugal podiam precipitar tudo”, lembra Joana Lopes. “A nossa convicção era como a água, sabíamos que ia encontrar um caminho”, compara Conceição Moita. O caminho cumpriu-se em abril de 1974. Qual o peso da oposição católica?, perguntou o Expresso a Nuno Teotónio Pereira. O arquiteto, referência e incansável dinamizador deste movimento (e que seria preso pela PIDE no final de 1973), respondeu em janeiro passado, um dia depois de completar 92 anos. “Conseguimos abanar a ditadura e influenciar uma grande parte da população, que era católica. Os católicos eram partidários da ditadura e conseguimos abaná-los. Fazêlos olhar para o regime de uma maneira diferente.” ^ 25 Abril 40 anos | 99

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SINDICALISMO

ASSIM NASCEU A INTERSINDICAL Toleradas de início pela ditadura, as reuniões intersindicais, que juntaram muitas correntes da oposição, foram proibidas em 1971 TEXTO JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA

U

m dos sinais mais patentes da vontade de Marcello Caetano de introduzir uma nova política social foi a mudança do ministro das Corporações. Herdado do último gabinete de Salazar, Gonçalves de Proença é substituído em janeiro de 1970 por Baltazar Rebelo de Sousa, um médico da confiança de Caetano. A legislação sobre sindicatos, trabalho e contratação coletiva sofrem profundas alterações, no sentido de alguma liberalização, o que virá a ser uma das principais vertentes da chamada “primavera marcelista”. Uma das consequências é a eleição em numerosos sindicatos, especialmente do sector dos serviços, de direções conotadas com a oposição democrática. São direções “da confiança dos trabalhadores”, como passam a ser designadas, em contraposição às anquilosadas direções corporativas, praticamente nomeadas pelo regime. O fenómeno não é inteiramente novo. Ainda sob Salazar, a oposição conseguira conquistar alguns sindicatos, como os dos bancários do Porto e de Lisboa. O mesmo sucede, já sob o caetanismo, com importantes sindicatos operários, na área dos têxteis e lanifícios, bem como nos metalúrgicos. Tal deveu-se,

segundo o livro “Contributos para a História do Movimento Operário e Sindical”, ao “hábil aproveitamento da legislação sindical” por parte de militantes de várias proveniências políticas, “formados na escola do frentismo”. É neste ambiente de relativa abertura que, a 28 de setembro de 1970, um grupo de cinco sindicatos se reúne na sede dos Metalúrgicos de Lisboa. Decidem convidar 19 sindicatos para uma reunião a 11 de outubro. Assinada por quatro sindicatos, todos de Lisboa, a convocatória é de 1 de outubro — data que marca a fundação CGTP — Intersindical Nacional. Os subscritores são os presidentes dos respetivos sindicatos: Daniel Cabrita (Bancários), José Pinela (Caixeiros), Manuel Lopes (Lanifícios) e António Santos Júnior (Metalúrgicos). Cabrita é o único militante do clandestino PCP, a que Pinela também estivera em tempos ligado; Lopes formara-se na Juventude Operária Católica (JOC) e Santos Júnior um simpatizante do velho anarcosindicalismo.

A primeira reunião intersindical tem lugar na sede dos bancários, com a participação de 14 sindicatos — oito dos quais integram atualmente a CGTP e seis a UGT (segundo “A UGT na História do Movimento Sindical Português”). Revelador do clima político da época, “jornais e rádio noticiaram o acontecimento” — nota José Barreto em “Os Primórdios da Intersindical sob Marcello Caetano”. A mesa é dirigida por Daniel Cabrita, que se revela como o primeiro líder deste movimento. EFEITO BOLA DE NEVE Na sequência desta histórica reunião, os sindicalistas são recebidos a 19 de outubro pelo ministro das Corporações. É também esta uma audiência histórica, uma vez que será a única. Nos meses seguintes, os sindicalistas contactam com alguma frequência os deputados da ala liberal, apoiando as suas posições em defesa da liberdade sindical e do fim da censura à imprensa. O número de sindicatos nas reuniões aumenta

gradualmente. Em janeiro de 1971 já são 41. E a 28 de fevereiro, na oitava reunião, a respetiva ata deixa cair o hífen da palavra intersindical. No mês seguinte é aprovado um “Programa Básico dos Sindicatos”, reivindicando a liberdade de associação e de negociação, o direito à greve e o respeito por convenções da OIT que o Governo português sempre se recusara a ratificar. Particularmente dinâmicos, os sindicatos criam grupos de trabalho, promovem a eleição de delegados nas empresas, investem na informação e em iniciativas culturais. A contratação coletiva ganha um ímpeto nunca visto, com o recurso a grandes plenários, assembleias gerais e mesmo greves. O movimento estende-se a meia centena de sindicatos e alarga-se às ordens dos Médicos e dos Engenheiros. As direções sindicais contratam numerosos técnicos, sobretudo juristas e economistas, ligados às várias correntes da oposição. Uns estão ligados ao PCP, como Carlos Carvalhas, Barros Moura ou Sérgio Ribeiro;

Em plena “primavera marcelista”, um grupo de 14 sindicatos reúne-se pela primeira vez na sede dos Bancários de Lisboa em outubro de 1970

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outros, como Marcelo Curto, virão a aderir ao PS; outros ainda irão fazer parte do núcleo fundador do MES — caso de Jorge Sampaio, Ferro Rodrigues ou Augusto Mateus; há ainda jovens ligados a organizações maoístas, como Peres Metello e Júlio Dias. A Base — FUT, criada a partir da Ação Católica operária, é outro alfobre de quadros. Daniel Cabrita é preso pela PIDE/DGS em maio de 1971, juntamente com Manuel Candeias, dos Metalúrgicos de Lisboa. Segundo o historiador João Madeira (em “História do PCP”), pertenciam ambos a “um pequeno organismo” do PCP “orientado para o trabalho sindical a nível nacional”. Nas semanas seguintes à prisão de Cabrita multiplicam-se as ações reclamando a sua libertação. Um grupo de dirigentes desloca-se a São Bento, para pedir uma audiência a Caetano. Sem sucesso. A 26 de julho, milhares de bancários manifestam-se na baixa lisboeta; no mesmo dia, o Governo proíbe as reuniões intersindicais, argumentando que são a “base de um novo organismo, configurado como verdadeira confederação de trabalhadores”, o que a legislação proíbe. A ressaca é grande. Cabrita é condenado a dois anos de prisão e o movimento intersindical passa praticamente à clandestinidade. A repressão acentua-se e a “primavera” esvai-se. As reuniões só são retomadas um ano depois, em setembro de 1972. Em “condições de semiclandestinidade”, voltam a reunir-se dez sindicatos, número que vai crescendo, mas sem atingir a magnitude anterior. A 7 de novembro de 1973, na última grande remodelação governamental do Estado Novo, Rebelo de Sousa é promovido a ministro do Ultramar e substituído por Joaquim

Manuel Lopes, António Santos Júnior, José Pinela e Daniel Cabrita, os quatro promotores da Intersindical, reunidos pelo Expresso em outubro de 1990 FOTOGRAFIA DE FERNANDO PERES RODRIGUES/ ARQUIVO EXPRESSO

Na sequência dos protestos contra a prisão de Cabrita, o Governo proíbe as reuniões, que passam a ser clandestinas

da Silva Pinto. Na mesma altura as reuniões sindicais passam a ser coordenadas por um secretariado de cinco elementos, a sigla ISN (de Intersindical Nacional) aparece pela primeira vez no cabeçalho da ata de uma reunião e avança-se com uma reivindicação essencial: um salário mínimo nacional. Meses antes, José Vitoriano regressara ao país para integrar a direção clandestina do PCP, onde é o responsável pelas questões sindicais. Outros quadros comunistas, como Domingos Abrantes e Francisco Canais Rocha, após terem sido libertados, passam a trabalhar em sindicatos. Depois do 25 de Abril, este último emerge como o líder da Intersindical. Os quase seis anos de caetanismo são atravessados por numerosos conflitos de trabalho. Um deles foi a luta dos caixeiros pela semana inglesa e pelo horário de 44

horas semanais, com o ponto alto em março de 1971 numa grande manifestação em São Bento. Dois anos depois a TAP foi o cenário de um dos conflitos mais radicalizados, com a polícia de choque a invadir o aeroporto de Lisboa. Os últimos meses da ditadura são especialmente agitados. João Madeira refere que entre outubro de 1973 e abril de 1974 houve “um importante ciclo grevista, em que, segundo os números do PCP, terão estado envolvidos cerca de 60 mil trabalhadores”. Temendo que o 1º de maio volte a ser aproveitado pela oposição, o regime desencadeia uma vasta ação preventiva, prendendo em abril várias dezenas de ativistas, muitos deles ligados ao PCP. A polícia política sabe bem que o PCP é a principal força a empurrar os sindicatos. Mas de uma coisa a DGS se esquece: dos capitães, cujo golpe antecederá o temido 1º de Maio. ^ 25 Abril 40 anos | 101

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PROTAG ONIS TAS

Momentos da revolução, desde a senha radiofónica que fez arrancar o golpe aos bastidores da rendição de Marcello Caetano, e um relato dos tempos da ditadura, quando a Igreja fazia o jogo do Estado Novo. Três histórias de protagonistas que retratam a atmosfera de um período marcante da História de Portugal.

João Paulo Diniz

O homem da senha Otelo queria Zeca Afonso. Mas como este estava “proibidíssimo pela Censura”, o locutor escolheu Paulo de Carvalho, que não “levantava suspeitas” TEXTO PAULA COSME PINTO FOTOGRAFIA ALBERTO FRIAS

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altam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival-74, ‘E depois do Adeus’”. João Paulo Diniz acabara de pôr no ar a senha que espoletava a revolução de abril e sentia-se finalmente “superdescontraído”, após dois dias de muita tensão. O pedido para participar no golpe de Estado acontecera no dia 22, quando um desconhecido o abordou no Rádio Clube Português e lhe pediu para conversarem sobre uns discos israelitas. Desconfiado, acedeu a entrar no Mini estacionado à porta da estação de rádio. E só depois o homem se identificou: tratava-se do capitão Costa Martins. “Disse-me que precisavam de mim para relançar um sinal através da rádio para um movimento militar que iria derrubar o regime. Disse-lhe que ele devia

estar a fazer confusão”, conta João Paulo Diniz, que ficou sempre com “o pé de fora do carro” caso fosse preciso fugir. “Estava cheio de reservas, nunca se sabia se podia ser um tipo da PIDE.” O radialista, na altura com 25 anos, só cedeu um pouco quando o capitão lhe propôs uma conversa com Otelo Saraiva de Carvalho. E acabou por combinar um encontro com o antigo camarada dos tempos da Guiné, naquela mesma noite, no centro comercial Apolo 70. PLANO EM MARCHA Quando estacionei e vi o Otelo à porta com o Costa Martins pensei: “Espera lá, afinal isto bate certo!” Abraçaram-se e, em poucos minutos, Otelo Saraiva de Carvalho foi direto ao assunto. “Disse-me mais ou menos isto: queremos fazer uma revolução, acabar com a guerra colonial, tornar o país

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João Paulo Diniz frente ao edifício onde funcionava a Rádio Peninsular, em Lisboa

uma sociedade democrática. Precisamos que no dia 24, às cinco para a meia-noite transmitas uma senha para alertar as unidades militares e pormos o movimento em marcha.” João Paulo Diniz trabalhava à noite na Rádio Peninsular, dos Emissores Associados de Lisboa, pelo que o sinal não poderia ser a nível nacional. Mas mesmo assim o plano avançou. Ainda se encontraram mais uma vez no parque Eduardo VII, onde acabaram por definir que música deveria passar à hora marcada. Otelo propôs Zeca Afonso, mas João Paulo Diniz não concordou e propôs Paulo de Carvalho. “O Zeca estava proibidíssimo pela censura. Já o Paulo de Carvalho tocava na rádio a toda a hora com a canção que tinha ido à Eurovisão. Era pacífica, toda a gente já a tinha ouvido, não levantava suspeitas.” Nesse encontro, antes de se despedirem, João Paulo colocou a questão inevitável: “E se isto corre mal?” Otelo revelava sempre um grande otimismo, mas foi frontal. “Vai correr bem. Se correr mal nós vamos para a Trafaria e tu vais para Caxias.” Nenhum deles acabou por ir parar à prisão. No dia marcado João Paulo Diniz foi visitar a campa do pai para “pedir inspiração”. Partilhou uma refeição com a mãe, a única pessoa a quem confiou o seu segredo. Agarrou nos discos que tinha ido levantar à discoteca da Rádio Peninsular, entre eles o de Paulo de Carvalho, e foi trabalhar. Ao fim da tarde recebeu a visita inesperada de Costa Martins

“E se isto corre mal?”. Otelo era sempre otimista, mas frontal: “Vai correr bem. Mas se correr mal, nós vamos para a Trafaria e tu vais para Caxias” a avisá-lo de alterações na emissão da senha. Teria de ser uma hora antes. Não gostava de dar a sua palavra de honra a ninguém, mas deu-a a Costa Martins. E com confiança redobrada dedicou-se à sua tarefa. “Conduzi a emissão para àquela hora lançar a senha. A frase-chave era

‘faltam cinco minutos para as vinte e três horas’”. Depois do programa seguiu para casa. “Devia manter a minha rotina.” E só durante a noite, quando um amigo lhe ligou para casa a dizer que havia um golpe de Estado e que o RCP estava a passar marchas militares, é que João

Paulo conseguiu acreditar. “Ganhámos!” Até hoje, nunca se sentiu um herói, mas mantém-se firme quanto à opção que tomou. “Há momentos na vida em que é preciso tomar determinadas decisões. Se fosse hoje teria feito exatamente a mesma coisa” ^. 25 Abril 40 anos | 103

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Pedro Feytor Pinto

O mensageiro de Marcello Um dos braços direitos de Caetano, viveu um dia tenso entre o Carmo, a casa de Spínola e o posto de comando do MFA, terminando com uma entrevista ao Expresso TEXTO HUGO FRANCO FOTOGRAFIA JOSÉ VENTURA 104 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


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Pedro Feytor Pinto, no quartel do Carmo, em Lisboa, onde há 40 anos viveu a rendição de Marcello Caetano

Salgueiro Maia disse-lhe que podia ir ao PC [posto de comando]. Como não estava habituado à linguagem de caserna, pensou que eram as iniciais do Partido Comunista

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25 de Abril começou às 4h, em sobressalto, para Pedro Feytor Pinto, um dos homens de confiança de Marcello Caetano. E só terminou às 2h da madrugada seguinte, com uma longa entrevista concedida a Francisco Pinto Balsemão. “Foi o dia mais longo da minha vida”, sintetiza o então responsável pelos contactos com a imprensa estrangeira na Secretaria de Estado da Informação e Turismo. O diretor da Emissora Nacional acordou-o nessa madrugada, com um telefonema, alertando-o que

“a revolução estava nas ruas”. Às 6h, já estava a caminho do escritório no Palácio Foz e viu carros militares por toda a cidade. “Percebi naquele momento que tinha tudo terminado”, recorda Feytor Pinto, hoje com 77 anos. Depois de passar a manhã a receber telefonemas dos diretores dos jornais, e a anunciar que publicassem tudo, sem censuras, acabou por seguir a pé até ao quartel do Carmo, onde se encontrava o Presidente do Conselho. “Encontrei-o sentado num sofá. Mal entrei, disse-me: ‘oh Pedro, onde nós chegámos!’”, lembra. Rapidamente ficou incumbido de entregar uma mensagem de Marcello Caetano ao general Spínola, a única pessoa que poderia evitar que o poder caísse na rua, na opinião do Presidente do Conselho. “Ninguém sabia onde ele morava. Valeu-nos um jornalista que assistiu à conversa (Aníbal Mendonça), que sabia onde era a casa dele e nos guiou, em pé, no estribo do jipe.” Chegados a casa do general, no Campo Mártires da Pátria, ninguém lhes atendeu a porta. “Foi uma vizinha que estava à janela que se ofereceu para ir pelas traseiras, avisar o general que queríamos falar com

ele.” O diálogo com Spínola foi tenso. “Isto não é a letra dele”, acusou o general. Não era de, facto. Tinha sido ditada por Marcello a um ajudante, o comandante Coutinho Lanhoso, que a redigiu, no Carmo. A conversa terminou com uma afirmação de Spínola: “Vou ao Carmo. Não tomarei armas contra o meu Governo.” “MANDAMOS TODOS!” Quando Pedro Feytor Pinto regressou ao quartel do Carmo, pediu para chamar Salgueiro Maia. “Quem manda aqui?” A resposta do capitão deixou-o confuso: “Aqui mandamos todos, somos todos capitães.” Durante a conversa, Salgueiro Maia disse-lhe que Feytor Pinto “podia ir ao PC”. Como não estava habituado à linguagem de caserna, julgou que as iniciais eram as de Partido Comunista. “O quê?! Já?”, exclamou. Afinal tratava-se das siglas de posto de comando do MFA, situado na Pontinha. Para onde seguiu de imediato. Quando regressou de novo ao Carmo viveu os momentos mais emotivos, e tensos do dia. O Presidente do Conselho disse-lhe: “Está tudo acabado.” O mundo parecia ter desabado. “Eu e o Nuno Távora (o

secretário do secretário de Estado) desatámos a chorar, como crianças.” Foi então que o Presidente do Conselho lhe disse outra frase que não esquecerá: “Não me façam perder a coragem e determinação que tive até agora.” Lá fora, a multidão gritava: “Está na hora” e “à morte, à morte”. Feytor Pinto confessa que nessa altura sentiu medo. Minutos mais tarde, Marcello Caetano saiu do Carmo num carro blindado. “Quando entrou na porta pequena da chaimite olhou para mim, levantou a mão e disse: ‘Adeus Pedro, até quando Deus quiser’”. Aquelas foram as últimas palavras que ouviu da boca do homem para quem trabalhou entre 1970 e 1974. “Nunca mais voltámos a estar juntos.” Feytor Pinto saiu do quartel um pouco mais tarde quando os ânimos já tinham serenado. O longo dia terminou no restaurante do Hotel Florida, onde deu uma longa entrevista a Francisco Pinto Balsemão, a contar como fora o seu 25 de abril. “Acho que nem comi grande coisa.” O Expresso publicaria o exclusivo na primeira página da edição seguinte. ^ 25 Abril 40 anos | 105

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Mário de Oliveira frente ao Barracão da Cultura de Macieira da Lixa

Foi preso duas vezes durante a ditadura (em ambas absolvido). Mesmo atrás das grades espalhava a sua palavra, muitas vezes a cantar 106 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


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Mário de Oliveira

Um padre sem paróquia, mas livre Na Guiné-Bissau, onde era capelão do Exército, numa homilia, leu um texto contra a guerra, afrontando o regime e a hierarquia da Igreja TEXTO PAULA COSME PINTO FOTOGRAFIA RUI DUARTE SILVA

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aquela manhã liguei o rádio enquanto tomava o pequeno-almoço e a música alegre deixou-me com a pulga atrás da orelha. Quando ouvi o comunicado do Movimento das Forças Armadas dei um salto, abracei os meus pais e chorei de emoção. Nunca mais ia ser preso pela PIDE!” Depois de duas longas estadas na prisão de Caxias, o padre Mário de Oliveira viveu o 25 de Abril como uma “verdadeira Páscoa, uma libertação total”. Depois de celebrar, nesse dia concedeu a primeira entrevista da sua vida, ao “Jornal de Notícias”, e deu a conhecer ao país a sua história. Conhecido como o “padre irrecuperável” ou o “padre Mário da Lixa”, aproveitara as suas homilias para meter o dedo na ferida das questões terrenas e tornara-se uma das figuras católicas mais controversas da última década da ditadura. Começou a dar nas vistas aos 30 anos, altura em que lhe retiraram o cargo de professor de Religião e Moral porque “deixava os alunos

pensar, o que era perigoso na altura”. Como consequência, em novembro de 1967 foi enviado para a Guiné-Bissau como capelão do exército. “Ter um padre a abençoar as tropas dava um ar de cruzada ao que se estava a passar, tipo guerra santa. Alguém tinha de fazer alguma coisa.” E o padre Mário de Oliveira decidiu fazer. “Na homilia da paz, no dia 1 de janeiro de 1968 levei um texto que tinha preparado com todo o cuidado. Enquanto eu o lia havia um silêncio sepulcral, sabia que depois daquilo ia ser corrido.” Foi a primeira vez que afrontou em público não só o regime, mas também a Igreja. Acabou por ser expulso ao fim de apenas quatro meses em terreno de guerra. No ano seguinte, já enquanto pároco da freguesia de Macieira da Lixa, voltou a gerar corrupio nas suas homilias de domingo. “Havia sempre pides nas missas e as pessoas às vezes vinham alertar-me e pedir para eu não falar muito. Era quando eu falava mais e tentava que até os agentes se convertessem ao meu evangelho”, conta

com a ironia que lhe serviu de ferramenta ao longo dos muitos anos de luta pelos direitos humanos. A PRIMEIRA DETENÇÃO Acabou por ser preso em 1970, acusado de ‘subversão’. “Antes de me prenderem interrogaram-me cinco vezes, até que fui parar a Caxias. Os pides tinham-me ódio, sabiam que eu mexia em assuntos tabu como a guerra colonial, as injustiças sociais e a emigração ilegal. Fazia-o sempre publicamente, portanto também sabia que mais tarde ou mais cedo ia parar à prisão.” Mesmo atrás das grades não perdia oportunidade de espalhar a palavra e, muitas vezes, fazia-o a cantar. “Os guardas vinham-me dizer que eu não podia andar a cantar todo feliz porque estava preso e eu dizialhes sempre: claro que posso, eu sou um homem livre, vocês é que não!” Das duas vezes que foi preso acabou por ser absolvido pelo tribunal e considerado “um padre exemplar”. Ao abrigo da Concordata, “que reconhecia à

Igreja a liberdade de exercer o ministério sem objeção, sabia que estava protegido” das pressões do regime, explica o padre Mário de Oliveira, que encontrou na própria Igreja a sua maior censura. “Quando me prenderam, de certa forma prenderam toda a Igreja e isso não caiu bem a muita gente”, depreende o padre, que depois do segundo julgamento foi informado pelo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que já não seria pároco. Nunca mais teve ofício pastoral, mas continua ligado à Igreja. Acabou por se dedicar ao jornalismo e à investigação. Escreveu livros com títulos tão provocatórios quanto a sua postura — “Evangelizar os Pobres”, “Nem Adão e Eva, Nem Pecado Original” ou “O que fazer com esta Igreja?”. Mas por mais que não lhe deem uma paróquia, não deixa de se sentir padre. “Não fui eu que desisti deles, foram eles que desistiram de mim. Não guardo mágoas, aliás até agradeço: sou um padre livre e não há nada melhor do que isso.” ^ 25 Abril 40 anos | 107

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Eu vi Abril por fora e Abril por dentro vi o Abril que foi e Abril de agora eu vi Abril em festa e Abril lamento Abril como quem ri como quem chora. Eu vi chorar Abril e Abril partir vi o Abril de sim e Abril de não Abril que já não é Abril por vir e como tudo o mais contradição. Vi o Abril que ganha e Abril que perde Abril que foi Abril e o que não foi eu vi Abril de ser e de não ser. Abril de Abril vestido (Abril tão verde) Abril de Abril despido (Abril que dói) Abril já feito. E ainda por fazer.” Manuel Alegre "Abril de Sim Abril de Não"

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Balanço & contas OLHAR O RICO TESOURO de cartazes, autocolantes e murais “made in Portugal” na democracia recém-nascida desperta muitas reações. Há o genuíno deleite na contemplação de obras já intemporais, como os quadros de Vieira da Silva, alguns enriquecidos por palavras de Sophia (“A poesia está na rua”). Há rasgados sorrisos, ante o tom provocatório de ideias que hoje parecem anacrónicas — para uns, foi tudo fruto do “irrealismo prodigioso” que os portugueses fazem de si próprios (parafraseando Eduardo Lourenço); para outros, era apenas a revolução em estado puro, movida pela utopia. Há também slogans que pareciam fadados ao esquecimento, hoje com atualidade. Mas quem mirar a iconografia dos anos febris de 74, 75 e 76 pode ter outro tipo de sentimentos. Revelação e espanto, nas gerações mais novas que descobrem agora esse espólio; nostalgia ou confronto, nos que revisitam velhos tempos. Uns acharão que se foi muito além; outros, que estamos hoje muito aquém. A estes, aos que queriam mudar o país de cravo em punho, sobra sempre “Tanto Mar”, o poema de Chico Buarque: “Foi bonita a festa, pá/ Fiquei contente/ Ainda guardo renitente/ Um velho cravo para mim/ Já murcharam tua festa, pá/ Mas certamente/ esqueceram uma semente/ nalgum canto de jardim”.^ PAULO PAIXÃO

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D. MANUEL MARTINS “HÁ 55 ARTIGOS NA CONSTITUIÇÃO QUE SÃO EVANGELHO PURO”

ENTREVISTA JOANA PEREIRA BASTOS ROSA PEDROSO LIMA FOTOGRAFIAS RUI DUARTE SILVA

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ENT R EVIS TA

D. MANUEL MARTINS

D. Manuel Martins fotografado na Maia, cidade onde reside. Nas páginas seguintes, no seu escritório

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hegou a Setúbal, como primeiro bispo da nova diocese, no Verão Quente de 1975. Teve dúvidas e receios. Ele, que nunca tinha ido à cidade — um bastião comunista e zona de forte tradição operária — percebeu cedo que o seu “altar não podia estar na Igreja”. Baixou ao terreno, arregaçou as mangas e deu voz aos que tinham fome e, sobretudo, sede de justiça. É um homem do 25 de Abril, mas confessa-se desanimado porque a revolução “não passou do papel”

Foi nomeado primeiro bispo de Setúbal em 1975, em pleno PREC. Isso assustou-o? Sim, claro. Quando fui chamado à nunciatura e o núncio me disse: o Santo Padre quer constituir a Diocese de Setúbal e pensou em si, pedi que me deixassem pensar durante oito dias. Tinha tanto medo, constava tanta coisa sobre esta terra... Estávamos no Verão Quente e eu nunca tinha vindo a Setúbal. E sabia que o povo não queria que viesse para cá um colonizador do Norte e que muito boa gente não ficou contente com a minha nomeação! Este povo agitado e contestatário do mundo trabalho não queria que viesse para aí um padre aconselhar a paciência, organizar peregrinações ao Cristo-Rei ou a Fátima. Queria um bispo que viesse para a rua lutar com eles. Aceitei. E quando foi a minha ordenação houve uma manifestação à porta da Sé. “Não precisamos de bispo”, diziam, e “muito menos um bispo reacionário do Norte”. Quem organizou a manifestação? Nunca se soube. Fui ordenado a 26 de julho

de 1975, às quatro da tarde. Só da minha paróquia e da minha terra vieram 18 autocarros. E depois vieram os bispos e o patriarca e, naquele tempo, ser bispo ou ser patriarca era andar de Mercedes, era o carro de estatuto. De maneira que começaram a chegar os carrões de todo o lado e a gente nova que andava pela cidade, tudo em clima de revolução, ficou a saber o que se passava. E foram para a porta da catedral. E houve uma confusão e a polícia recusou-se a tomar conta da situação por se sentir incapaz perante uma multidão daquelas. Tiveram de vir soldados.

relação com toda a gente. Deus deu-me a graça de entender que a minha missão episcopal não estava só no altar. Ou melhor, que o meu altar estava no mundo. No mundo dos homens, onde se grita, onde se sofre, onde se berra.

Como se sentiu naquela altura? Eu não vi nada! Estava lá dentro... Só soube depois. Quando acabou a ordenação, estranhei que me tirassem pela porta do cavalo, pela sacristia para um salão, porque o normal seria eu vir saudar a população.

Como conseguiu ser aceite em Setúbal, um bastião comunista? Fui nomeado bispo desta Igreja que sofria do mal que sofria toda a Igreja. Era conservadora. Havia em Portugal problemas muito graves que tinham a ver com a dignidade da pessoa humana. Os direitos sociais praticamente não existiam e nós fomos educados nisso. Andamos um pouquinho distraídos. E a Igreja era isto. Com a agravante de que as autoridades religiosas que nos governavam tinham sucedido imediatamente a Salazar.

Alguma vez teve medo? Não. Nunca tive a mais pequena falta de respeito por parte de ninguém. E quando me fui embora, a sociedade civil, sindicatos e patronato, prestou-me uma homenagem que está em livro. Houve sempre a melhor

A Igreja foi um pilar do Estado Novo... Uma das grandes lutas da Igreja foi entre a República e a monarquia. A República foi uma coisa boa, até providencial, porque separou a Igreja do Estado. Mas, uma vez estabelecida a República, os ódios todos

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que existiam contra a Igreja vieram à superfície. O Estado anulou a personalidade jurídica da Igreja, apoderouse dos seus bens. Com um clima destes, com passos e conventos roubados e e entregues a boys... Isso não é novo, pelos vistos... Ai não é, não. Os boys são tão velhos como os bois. (risos) Mas tudo isto para dizer que não é de admirar que Salazar, um homem formado num seminário e que andava a dar conferências nos meios católicos, chegado ao poder tenha querido que uma das primeiras coisas a pôr em ordem fossem as relações do Estado com a Igreja. E isso acaba com a concordata de 1940. A maioria dos bispos que nós tínhamos em 1974 eram bispos nomeados no tempo do Salazar. Não temos nada que nos admirar de termos uma Igreja conservadora. Porque foi uma Igreja que respirou de alívio quando Salazar pôs as coisas na ordem. E como é que a Igreja fez a transição para a democracia? Bom, mesmo com Salazar, o

descontentamento foi nascendo. Porque para manter o poder, Salazar desvalorizou os direitos humanos. Mas a Igreja foi uma estrutura em que ele sempre se apoiou. E até o Papa João Paulo II sabia disso. Quando tínhamos as visitas habituais dos bispos ao Papa, de cinco em cinco anos, João Paulo II falava sempre no Salazar. Bem ou mal? Bem. Mas não propriamente por ser o nosso Salazar. Falava do seu tempo de rapaz, quando vivia num regime comunista. E no seu tempo de rapaz lembrava-se de ouvir falar num chefe de um Governo que existia cá para um país chamado Portugal que tinha posto tudo na ordem. Era conhecido como um economista de primeira classe, como o maior político do tempo de rapaz — em pleno comunismo — do futuro Papa João Paulo II. Era essa a imagem que o Papa fazia de Salazar? Falava nele. Como falava no Eusébio e na Amália Rodrigues.

Alguma vez lhe mostrou o outro lado de Salazar? Nas primeiras vezes, calava-me. Mas uma vez, julgo que a última que estive com ele, a conversa alargou-se e o Papa pegou-me no braço e chamou-me para junto dele. E lá começaram esses elogios a Salazar e alguns bispos, entusiasmados, acrescentaram razões novas. E eu disse: Santo padre, é preciso não esquecer que foi este homem que exilou um bispo português por ele denunciar as injustiças, o que é um das dimensões da evangelização. Outros começaram a dizer que não era assim. Estabeleceu-se um sururu. E o Papa, ao perceber que eu estava a falar com raiva, pôs-me a mão no braço e disse: pronto, vamos falar de outra coisa. Salazar foi também foi o chefe de Governo que não recebeu o Papa... Sim, Paulo VI. Mas há outra história: quando Pio XII adoeceu, tinha muitos soluços e morreu disso e disseram-lhe que viesse para Portugal, por causa do clima. E quando foram dizer a Salazar, este terá respondido: aqui nem um pio, que fará 12! (risos) 25 Abril 40 anos | 113

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Como foi a sua relação com os seus pares bispos? Foi pacífica ou as suas ações foram criticadas? Tive sempre uma relação fraterna, até devido ao meu feitio. Nunca recebi nenhuma repreensão ou chamada de atenção por parte de nenhum bispo. Mas também — não devia dizer isto, mas já estou numa idade em que posso dizer tudo — nunca nenhum me deu os parabéns. O seu caso foi único. O facto de arregaçar as mangas e estar no terreno era muito invulgar... Fui às fábricas. Lembro-me de uma, que ia fechar, aqui na estrada do Alentejo e eu fui. Estava lá o credor, o tribunal, a Guarda Republicana, os cães... e quando, às 16h, tocou pela última vez a campainha para os trabalhadores saírem, eu pedi para falar com eles. Lá fiz o meu discurso, e o credor, o homem a quem a fábrica devia dinheiro, ouviu. Os trabalhadores tinham feito um juramento de que não iam deixar as máquinas. Então a polícia entrou para os obrigar e alguns desmaiaram. Foi dramático. A miséria era imensa. As metalomecânicas tinham fechado, as pessoas passavam fome. Só de uma vez houve oito suicídios em Setúbal. No fim daquilo tudo, o homem do dinheiro disseme: “O senhor bispo fez o discurso que lhe competia. Mas o meu discurso tem de ser outro porque eu aqui represento o capital e ao capital compete fazer capital, sem se comover com estas coisas”. Fiquei revoltado. É esta a filosofia do capitalismo? Onde está a dignidade das pessoas? Alguma vez pensou que 30 anos depois de ter denunciado a fome aqui em Setúbal se voltaria a falar do assunto em Portugal? Não, ninguém julgava. O 25 de Abril foi um grande sonho, na medida em que nos ia permitir viver, tanto quanto possível, os direitos humanos. Há 55 artigos na Constituição, do 24 ao 79, que são Evangelho puro, da igualdade, da liberdade, justiça, educação, trabalho, remuneração... Mas ao fim e ao cabo as pessoas continuam menosprezadas, menorizadas, sem capacidade de escolha. Na vida política portuguesa temos neste momento uma manipulação permanente. Esse sonho do 25 de Abril falhou. Não passou do papel.

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O sonho do 25 de Abril falhou. Não passou do papel. E agora o povo anda muito adormecido, porque nunca foi devidamente instruído. Nunca tivemos um Governo que mandasse. Os poderes económicos dominaram sempre

Que retrato faz do Portugal de hoje? A minha sensação permanente é pouco cristã. É uma sensação de tristeza. Tenho muita tristeza pela situação em que Portugal se encontra, em primeiro lugar por não ter encontrado gente capaz de abrir os caminhos necessários para que a ninguém falte o que é minimamente indispensável para ser feliz, o que nós chamamos Estado social: o pão, a saúde... Tenho uma tristeza profunda pela situação de desesperança e desânimo do povo do meu país. E tenho também uma tristeza muito grande ao reparar que não temos um Estado democrático, mas um Estado corporativo, com grupos de interesses que se juntam e defendem, que se penduram no dinheiro, desprezando as pessoas. Também fico triste por ver que os nossos governantes, na sua maioria, não têm pedagogia política, nem têm conhecimentos. Fazem as coisas sem pensar, já não digo no objetivo ou na essência, mas até na oportunidade (das medidas). Surpreende-o que não haja mais manifestações, tendo em conta o agravamento da pobreza nos últimos anos? A manifestação é um direito, a pessoa está descontente e manifesta o seu descontentamento. Mas há uma coisa de que eu tenho muita pena é de que boa parte destas manifestações, com clareza ou de forma escondida, tenham partidos por trás. Tenho muita pena e também me causa muito desânimo ver esta multiplicidade de greves que se organizam e que são fruto de organizações corporativas que mais se preocupam com os seus interesses do que com os direitos dos outros. Mas tirando essas manifestações organizadas, parece que o povo está muito passivo... Está. É um perigo. O povo está muito alérgico, desanimado, descrente, muito conformado. Ao fim e ao cabo quem fez o 25 de Abril? O povo? O 25 de Abril encontrou um eco imediato na alma do povo, sinal de que o povo sentia necessidade de uma revolução, embora não a conseguisse dizer ou fazer. Agora pode estar a acontecer o mesmo. O povo anda muito adormecido porque nunca foi devidamente instruído. O país está pendurado no grande poder económico, no capitalismo selvagem, sem o mínimo princípio de moral, que só explora, que só

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suga... Nunca tivemos um Governo que mandasse. Os poderes económicos, com mais ou menos evidência, dominaram sempre. E cada vez pior. Acha que era preciso um novo 25 de Abril? É preciso chamar a atenção para os valores que estiveram na origem do 25 de Abril. É preciso restaurar esses valores. Não é preciso fazer outro. Acha que a democracia está em risco? Não é uma questão de estar em risco. A questão é que nós não temos democracia. A democracia é um Estado organizado, com hierarquias, em que há uma ordem. Nós vivemos num Estado desorganizado, em que não há respeito pela dignidade das pessoas. Mas tivemos grandes conquistas desde o 25 de Abril... Antes de mais tivemos conquistas ideológicas. Chegámos à conclusão de que tínhamos vários direitos, mas muitos desses direitos não nos são hoje reconhecidos. Conquistámos muita coisa, mas essas conquistas estão comprometidas. É preciso que a sociedade acorde para que os valores do 25 de Abril sejam uma realidade. Faltam vozes na Igreja para fazer esse papel de despertar consciências? A Igreja desculpa-se quando é interpelada sobre as suas obrigações nesta sociedade. Diz que tem cumprido o seu dever, mas entende-o apenas como o “dar de comer a quem tem fome”. Temlhe faltado uma coisa que é muito importante, que é apontar as causas da fome e denunciá-las sem medo. Mas se calhar a Igreja está comprometida com muita coisa, com o Governo que dá dinheiro para o seminário, com o presidente da Câmara que dá dinheiro para uma obra... Está comprometida com o poder e tem-se esquecido um bocadinho da sua dimensão profética, que é a de denunciar com coragem e sem medo as causas e os causadores da situação que vivemos. O Papa Francisco disse que prefere uma Igreja mergulhada no mundo, do que uma Igreja bonequinha, muito bem tratadinha dentro de uma redoma. Este é o Papa com quem mais se identifica? Estou apaixonado por este Papa. ^ 25 Abril 40 anos | 115 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)


CONTO

ANA MARIA MAGALHÃES E ISABEL ALÇADA ILUSTRAÇÕES

GONÇALO VIANA

Diário Secreto de

MANUEL MALAQUIAS Parte II

Aos olhos das crianças que nasceram e cresceram em democracia a celebração dos 40 anos do 25 de Abril dificilmente se reveste de significado. Para que valorizem esse acontecimento histórico, é indispensável disponibilizar elementos que ajudem a formar ideias acerca de uma época que em absoluto desconhecem, ou percecionam como estranha e distante. A personagem a que demos o nome de Manuel Malaquias foi imaginada para servir de ligação entre o passado e o presente.

6º REGISTO Lisboa, 8 de dezembro de 1973

A

proxima-se o dia dos meus anos, gostaria de dar uma festa na casa de campo que o tio Luís comprou para passar os fins de semana. É pequena, engraçada, tem quintal e lareira, não fica longe, há camionetas para a aldeia mais próxima e, sendo isolada, pode-se pôr música aos berros. Como o tio está em Espanha, tenho de esperar

que volte para lhe pedir autorização. Mas amanhã é domingo, apanho a camioneta e vou até lá ver bem o tamanho da sala, quantas pessoas posso convidar.

Lisboa, 9 de dezembro de 1973 A ida a casa do tio Luís acabou por ser a experiência mais embaraçosa e perturbante da minha vida. Como não encontrei a chave no vaso do costume, resolvi forçar a janela da casa de banho, que fecha mal. Saltei lá para dentro e apanhei logo um susto de morte porque na sala dei de caras com um homem que

não conhecia. Pensei que fosse um ladrão e quis fugir, mas o terror paralisou-me. Para meu grande espanto, limitou-se a fazer-me uma pergunta simples. — Quem és tu? A voz rouca sugeria garganta bastante inflamada. Ainda na defensiva, respondi-lhe: — Sou sobrinho do dono da casa. Ele ficou em silêncio, a mirar-me da cabeça aos pés, como se me avaliasse. Impressionou-me a sua magreza, a postura um pouco altiva e sobretudo o olhar intenso, forte, determinado. De

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repente, compreendi que não podia ser um assaltante por dois motivos óbvios: ali não havia nada que valesse a pena roubar e o homem estava de pijama. — O teu tio emprestou-me a casa para passar uns dias de férias. — Sozinho? — Sim. A explicação não me convenceu. Casa isolada e gélida no inverno, podia ser um lugar excelente para tudo menos para uma pessoa adoentada ir passar férias sozinha. A menos que se tratasse de escritor ou artista desejoso de

solidão para se concentrar na sua obra. O problema é que não havia o menor vestígio de tintas, telas ou papelada. — Está a mentir — pensei. — Mas porquê? A verdade estalou-me na cabeça pouco depois. Lá fora não havia carro, mota ou bicicleta. A lareira estava apagada e as portadas das janelas apenas entreabertas para a sala receber uns fios de luz. Naquele cenário, o homem era a imagem perfeita de alguém que se quer esconder. Então lembrei-me do tio Luís a falar dos comunistas obrigados a esconderem-se

para não serem presos pela PIDE. Devia ser o caso. Ele começou a explicar-se, como se me tivesse lido o pensamento. — Não te enganaste, é isso mesmo. Estive preso por motivos políticos mas consegui fugir. O teu tio é amigo de um amigo meu, emprestou a casa para eu aguardar as pessoas que me preparam a saída clandestina para o estrangeiro. Como tu apareceste, tenho de procurar imediatamente outro poiso. — Não é preciso! Eu prometo não dizer nada a ninguém! — Acredito que seja essa a tua 25 Abril 40 anos | 117

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CONTO

“O homem que ia ao volante do descapotável abrandou e gritou-nos: Lisboa está cercada!”

intenção, mas qualquer deslize involuntário seria fatal, não me posso arriscar a ser preso outra vez. Olhei-o consternado, ele continuou: — Os agentes da PIDE espancaram-me com tal violência que perdi os sentidos. Depois submeteram-me à tortura do sono e estive três dias seguidos sem dormir. Queriam que eu denunciasse os meus camaradas, não o fiz, então fecharam-me numa cela isolada, com pouco ar e pouca luz. Sofri muito, como vês não me posso arriscar a ser apanhado. Desculpei-me por ter aparecido, ele abanou a cabeça e encolheu os ombros. — São coisas que acontecem. Nós estamos preparados para todas as eventualidades. Por isso vou apanhar a próxima camioneta e tu ficas aqui, só apanhas a seguinte e esqueces este encontro. Acenei que sim. Ele foi ao quarto e voltou pouco depois, de tal forma transfigurado que nem parecia a mesma pessoa. A roupa, talvez almofadada por dentro, tornava-o mais gordo. Trazia um bigode postiço com aspeto natural, óculos de aros pretos e um boné aos quadrados. Transportava ao ombro um saco de pano velho, cheio de maçãs. Quem o visse, tomálo-ia por um homem do campo. Despedi-me e fiquei sentado a pensar que nunca esqueceria aquele encontro. E a desejar-lhe boa sorte.

7º REGISTO Lisboa, 17 de março de 1973

Q

uando combinamos programas que já repetimos mil vezes não nos passa pela cabeça que possam incluir novidades. Era esse o caso do passeio a Badajoz que a minha família adora e não dispensa antes da Páscoa para comprar sabonetes, sacos de caramelos, pêssegos em lata e prendas para os afilhados. Ontem saímos cedo e fizemos piquenique à beira da estrada, numa zona do Alentejo agradável e quase sem movimento. Acabávamos de abrir o farnel quando passou por nós um descapotável que abrandou e quase parou. O homem que ia ao volante gritou-nos: — Lisboa está cercada! Pé no acelerador, desapareceu a grande velocidade sem mais explicações e sem nos dar hipótese de fazer perguntas. Ainda tentámos ouvir notícias na rádio do carro, mas naquele sítio a antena só captava emissoras de Espanha, o aviso evaporou-se ao som de castanholas. Seguimos para Badajoz e cumprimos os rituais de sempre. No regresso, porém, os guardas da fronteira estavam de sobrolho franzido, demoraram um tempão a carimbar os passaportes e uma eternidade a revistar tudo o que trazíamos dentro do carro. Desconfiados, perguntámos se tinha acontecido alguma coisa, a resposta limitou-se a uma espécie de gorgolejo ininteligível e deram-nos ordem da marcha. Ao atravessarmos de novo uma zona quase deserta, azar! Um estoiro, um furo. O azar duplicou porque o meu pai não conseguiu mudar o pneu. Estivemos para ali à espera que passasse alguém disposto a ajudar-nos, já era noite quando finalmente um camionista simpático encostou à berma, avançou para nós e ofereceu-se para tratar do assunto. — Mudar pneus é a minha especialidade! O pai agradeceu, o homem foi buscar ferramentas, enquanto apertava e desapertava porcas falou-nos de uma tentativa de revolução que tinha havido nesse dia. — Hoje mesmo, 16 de março, os militares das Caldas da Rainha saíram do quartel de Infantaria 5 e marcharam sobre Lisboa...

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A informação inesperada remeteu-nos para os gritos do dono do descapotável e perguntámos-lhe: — Cercaram a cidade? — Não. Foram obrigados a recuar. Aposto que vai haver prisões. — Como é que você soube? — Por um amigo que está a prestar serviço militar nas Caldas da Rainha. Telefonou-me a contar tudo e a dizer que falharam. Em vez de olhar para nós, concentrarase no trapo a que limpava as mãos. — Falharam desta vez, não hão de falhar sempre. Isto está por um fio. Despediu-se e nós retomámos a estrada rumo a Santarém, onde íamos dormir em casa de uns primos. Embora ignorassem pormenores, os pais, alvoroçados, não se calaram todo o caminho. — O governo bem se esforça por ocultar o que se passa, mas já não é possível. Se na aparência está tudo calmo, a verdade é que o ambiente se tornou explosivo. — E o livro que o general Spínola publicou o mês passado pode perfeitamente servir de detonador. A voz da minha mãe soava entre neutra e ansiosa. — “Portugal e o Futuro” — murmurou. — Acabei de o ler ontem. Se um general que tanto lutou já defende por escrito o fim da guerra e a liberdade, devia ser ouvido? — Com certeza — disse o meu pai, muito sério. — Mas em vez de o ouvirem, demitiram-no. Este governo não ouve ninguém. Olha lá os deputados da ala liberal, que tanto se empenharam a defender mudanças progressivas, sem agitação. Ligam-lhes importância? Não! Por isso um deles já se demitiu, o Sá Carneiro, que é um homem muito inteligente e podia ser útil ao país. Neste regime político retrógrado não há lugar para quem quer modernizar o país. Mas na minha opinião chegámos a um ponto de viragem. Se isto não for a bem, há de ir a mal. Fiz o resto da viagem a pensar em revoluções. A companhia dos meus primos não me libertou de ideias convulsivas. Adormeci a pensar em tiroteios e despertei de madrugada julgando ouvir tiros. Afinal, enganava-me. Eram foguetes anunciando qualquer festejo popular. A hora da revolução ainda não tinha chegado.

8º REGISTO Lisboa, noite de 24 para 25 de abril de 1974

O

tio Luís convidou-me para jantar, eu disse-lhe que era melhor escolhermos outro dia porque amanhã tenho aulas muito cedo. Ele insistiu alegando que não lhe apetecia estar sozinho. Pensei que talvez se tivesse zangado com a namorada e então lá fui para o animar. Curiosamente, encontrei-o animadíssimo, ou melhor dizendo, agitadíssimo. Tinha preparado imensos petiscos, não parava quieto, ao contrário do que é habitual, em vez de me falar de coisas sérias só falava de músicas e cantores. Comecei a estranhar até porque desligou a televisão e acendeu a rádio. A certa altura olhou para o relógio e eu instintivamente olhei

também. Faltavam cinco minutos para as onze horas da noite. Sem qualquer justificação, pôs a música mais alto. Reconheci a voz do Paulo de Carvalho a cantar ‘E Depois do Adeus’. O tio fez coro com ele e trauteou arrebatadíssimo: ‘Quis saber quem sou, o que faço aqui, quem me abandonou, de quem me esqueci...’ De novo pensei em questões de amor. Talvez afinal já se tivesse esquecido da namorada anterior e a alegria se explicasse por estar à beira de começar namoro com outra. Fiquei à espera que me desse uma pista divertida sobre esses enredos, mas como não abriu o bico e se fazia tarde, quis despedir-me. Ele não deixou. — Telefona à tua mãe e diz que hoje dormes cá em casa no meu sofá-cama novo, que é ótimo e precisa de ser estreado.

“O tio Luís pôs a música mais alto. O Paulo de Carvalho cantava ‘E Depois do Adeus”

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CONTO

“Os militares resolveram finalmente pegar em armas para pôr fim à ditadura. Já estão muitos regimentos em Lisboa, já ocuparam a televisão e o aeroporto. Há tanques de guerra e camiões na Baixa” — Só se amanhã o tio se levantar bem cedo, porque eu tenho que ir buscar os livros antes de ir para as aulas. — Não te preocupes, não te preocupes! Mantinha o sorriso misterioso e o ar de satisfação. Apesar da hora tardia, declarou que lhe apetecia imenso jogar uma partida de xadrez. Que remédio! Sentámo-nos em frente do tabuleiro, ele tão aéreo que lhe ganhei. Passava da meia-noite quando voltou a concentrarse no rádio, mas mudou de emissora. — Ora vamos lá a ouvir o que nos oferece a Rádio Renascença. Agora parecia tenso. As mãos tremiam-lhe e não desfitava o aparelho. Quando ouviu a voz de Zeca Afonso a cantar ‘Grândola Vila Morena’ corou até à raiz dos cabelos e, alheado da minha presença, repetiu várias vezes: — Estão dados os sinais de código. Oxalá tudo corra bem. Perguntei-lhe de que falava, como não se explicou e saiu da sala, resolvi

entreter-me a registar este estranho serão no meu diário secreto.

Manhã de 25 de abril de 1974 O telefone tocou de madrugada. Acordei em sobressalto e percebi que o tio não se tinha deitado. Atendera e ouvia o que lhe diziam numa tal euforia que só podiam ser boas notícias. Pus-me à escuta, as frases soltas que captei não me permitiram entender logo o que se passava, esperei que desligasse. Então ele abraçou-me. — Manel, Manel, chegou a hora! Aquelas canções que ouvimos eram o sinal combinado para as tropas saírem à rua. A revolução está na rua! Eu bem queria saber mais, só que o telefone não parava de tocar. Nos curtos intervalos ele ia informando: — Os militares resolveram finalmente pegar em armas para pôr fim à ditadura. Já estão muitos regimentos em Lisboa, já ocuparam a televisão e o aeroporto. Há tanques de guerra e camiões na Baixa.

Voltou a colar-se à rádio, mudou de posto e então ouvimos uma voz masculina a informar que o Movimento das Forças Armadas recomendava às pessoas que mantivessem a calma e ficassem em casa. O tio Luís não aceitou o conselho. — O país está a dar a volta e afinal eu ainda cá estou para assistir. Não posso ficar na toca. Vou mudar de roupa e sair para a rua, quero fazer parte dos acontecimentos. De caminho, deixo-te em casa. Não valia a pena contrariá-lo. Enquanto se veste, estou eu entretido com os meus registos. Depois acompanho-o para onde for, quer ele queira, quer não. Se tentar impedir-me lembro-lhe o que disse há mais de um ano. — No dia 1 de janeiro de 1973, o tio Luís garantiu que ia haver uma revolução e que eu havia de assistir. Nessa altura jurei a mim mesmo cumprir a profecia. É o que tenciono fazer.

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DIÁRIO SECRETO DE MA NUEL MAL AQUIAS

9º REGISTO Lisboa, 25 de abril de 1974

N

ão é fácil contar por escrito aquilo a que assisti no dia de hoje. Mas vou tentar. A revolução estalou nas ruas de Lisboa, conforme muita gente esperava que acontecesse. Eu tive a sorte de ver cenas históricas ao vivo porque o tio Luís recebera informações secretas de amigos que estavam envolvidos no golpe militar para derrubar o governo. Ansioso e sem saber qual seria o desfecho, não quis passar a noite de ontem sozinho e por isso convidou o sobrinho preferido, que sou eu, para jantar e dormir em casa dele. Ouvimos juntos duas canções transmitidas na rádio, que para mim eram apenas canções, e que ele sabia serem o código secreto para dar início à operação “Fim de Regime”. Só me explicou o que estava a acontecer quando os telefones começaram a tocar e os amigos a prevenir que as tropas sempre tinham saído dos quartéis e ocupado pontos-chave da cidade. Num rompante de entusiasmo, precipitou-se para a rua e eu fui atrás, sem pensar um minuto na hipótese de ser apanhado no meio dos confrontos ou de ser atingido por balas perdidas. Eram para aí 6 horas da manhã quando chegou ao Terreiro do Paço uma coluna militar vinda de Santarém, comandada pelo capitão Salgueiro Maia. Até custa a crer mas não houve tiroteios horrendos, mortos e feridos a cair em cima uns dos outros, sangue a correr pelos passeios, como é habitual nas revoluções. Para meu grande espanto, os militares encarregados de defender o governo em vez de tentarem deter os revoltosos, aceitaram conversar e recusaram-se a disparar. Depois, alguns viraram costas e foram embora, mas a maior parte aderiu ao golpe. Ao nascer do sol começou a aparecer gente, cada vez mais gente, tudo civis, homens, mulheres e até crianças. A certa altura, alguém, não sei quem, lembrou-se de oferecer cravos vermelhos e os militares enfiaram-nos no cano das espingardas. Só mesmo em sonhos seria possível imaginar aquele espetáculo inédito, de homens armados e decididos a impor a sua vontade, que ousavam substituir fogo por flores. Pelo que fui ouvindo aqui e além, fiquei a saber que alguns ministros se refugiaram no Ministério do Exército, onde fizeram um buraco na parede, para passar a outro edifício, tal e qual num

filme de aventuras! O Marcelo Caetano e outros ministros preferiram o quartel da GNR no Largo do Carmo. Por volta do meio-dia os revolucionários cercaram esse quartel. E a população em vez de evitar um local onde tudo podia acontecer, correu para lá aos gritos de alegria, a empoleirar-se nas árvores, a trepar para cima dos tanques de guerra de braços no ar e dedos a fazer o V de vitória. Não faltou quem tirasse fotografias, houve quem se pusesse a discursar e a gritar: — Acabou a ditadura! Vai acabar a guerra colonial! As tropas de Salgueiro Maia receberam ordem para rebentar as portas do quartel a tiro. Ele preferiu dar tempo a conversações. Como demoraram, lançou umas rajadas contra os vidros, que não feriram ninguém. Os governantes foram retirados do quartel num carro blindado, protegidos contra qualquer ataque. O tio Luís disse-me que vão enviá-los para a ilha da Madeira e dali hão de ir para um país que lhes dê asilo político, provavelmente o Brasil. Exausto, recolhi a casa com o tio Luís. Encontrei a família a ver o telejornal, a comentar a Revolução dos Cravos e a imaginar cenários para o futuro. Já passava da meia-noite, ou seja, já estávamos a 26 de abril, quando na televisão um grupo de militares se apresentou como Junta de Salvação Nacional. Cheio de sono, ouvi apenas que

“A 25 de abril a vida de Portugal entra numa espécie de remoinho estonteante. Há notícias a toda a hora. A televisão e as rádios transmitem debates”

vai haver eleições livres. Cabeceava de olhos fechados quando alguém telefonou a dizer que os agentes da PIDE tinham disparado sobre a multidão que cercava a sede, mas que às duas da manhã se renderam. Na sala desataram às palmas e eu também. Depois senti necessidade de reviver tudo sozinho, enfiei-me no quarto e atirei-me ao diário para fazer este registo sobre o dia em que secretamente me atribuo o papel de personagem histórica. Afinal estive lá, não estive?

10º REGISTO Lisboa, 2 de maio de 1974

A

partir do dia 25 de abril a vida em Portugal entrou numa espécie de remoinho estonteante. Há notícias a toda a hora. Não se fala senão de política. A televisão e as rádios transmitem imensos debates. As pessoas interpretam o que ouvem de maneiras diferentes e depois discutem em casa, na rua, nos locais de trabalho. Verdade se diga, ninguém sabe ao certo o que se vai seguir, mas nem por isso o ambiente tem menos graça. A cidade fervilha de jornalistas e fotógrafos que vieram do mundo inteiro para recolher informações e imagens. Segundo consta, todos se surpreenderam pelo facto de haver um povo capaz de em plena revolta substituir balas por cravos. A imagem das armas floridas inundou o planeta, estampada nas primeiras páginas dos jornais mais importantes de diversos países, acompanhada de comentários elogiosos. Enfim, estes dias valeram por cada segundo. Há, no entanto, momentos-chaves, marcos, que faço questão de registar aqui no meu diário. O primeiro foi a libertação dos presos políticos. Vi na televisão as famílias e os amigos que os aguardavam à porta da prisão de Caxias e associei-me à alegria com que se abraçavam. O tio Luís também estava lá e abraçou uma data de gente, a rir e a chorar sem vergonha nenhuma porque, conforme ele próprio diz, em certas ocasiões, se um homem não chora não é homem nem é nada. Foi muito comovente. Outros marcos importantes foram as chegadas dos líderes de dois partidos políticos. Um deles chama-se Mário Soares. Tinha sido preso várias vezes, tinha sido deportado para a ilha de São Tomé, ultimamente vivia em Paris, no exílio, proibido de entrar em Portugal. No ano passado, ele e uns companheiros 25 Abril 40 anos | 121

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CONTO

“No 1º de maio, participei na maior manifestação que alguma vez se viu em Lisboa. As pessoas traziam cartazes ou faixas de pano com frases sobre a liberdade”

reuniram-se na Alemanha e fundaram o Partido Socialista Português, clandestino até que se derrubasse a ditadura. O Mário Soares viajou de comboio com a mulher, a Maria Barroso. Na Estação de Santa Apolónia estavam para aí 10 mil pessoas à espera. Ele discursou logo ali na varanda da estação. O tio Luís levou-me e eu adorei, mas não ouvi bem o discurso por causa dos encontrões, das pisadelas e dos aplausos constantes. O outro líder chama-se Álvaro Cunhal e é o homem mais importante do Partido Comunista Português. Tinha estado encarcerado anos e anos em várias prisões, a última de alta segurança, que é o Forte de Peniche. Aparentemente, nunca ninguém conseguiria fugir dali. Mas ele e vários companheiros organizaram uma fuga espetacular e fugiram mesmo. Agora, o Álvaro Cunhal vivia clandestinamente no estrangeiro. Regressou de avião no dia 30 de abril e também foi recebido por milhares de pessoas que o aguardavam entusiasmadíssimas no aeroporto. Assisti à cena na televisão e foi um delírio. É óbvio que os dois líderes têm imensos seguidores. O tio Luís diz que muita gente vai aderir a estes partidos e garante que, não tarda, vão surgir outros partidos políticos, como é normal nas democracias. O último momento-chave, das minhas experiências recentes, foi ontem, dia 1 de maio, quando participei na maior manifestação que alguma vez se viu em Lisboa. Juntaram-se muitos grupos ao pé da Fonte Luminosa. Cada qual trazia a sua bandeira e muitos traziam cartazes ou faixas de pano com frases sobre a liberdade. No desfile gritaram-se palavras de ordem a uma só voz, sendo os slogans mais repetidos “O povo unido jamais será vencido” e “Nem mais um soldado para as colónias”. Nas janelas dos prédios debruçavam-se pessoas a aplaudir e o cortejo ia engrossando. Terminou num estádio do bairro de Alvalade que ficou logo batizado como Estádio 1º de Maio. Tornou a haver discursos que voltei a não ouvir, porque a atmosfera esfusiante me deixou atordoado. No fim de tudo, cantou-se o hino nacional e, isso sim, cantei, berrei emocionadíssimo ‘Heróis do mar... nobre povo... nação valente...’ O tio Luís recomendou que fixasse bem o nome dos dois líderes, Mário Soares e Álvaro Cunhal, porque vão ficar na História. Eu não lhe disse, mas acalento o sonho de que o meu também fique. Por que não? Até soa bem, Manuel Malaquias. ^

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2014

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Viver melhor na 3ª idade. Um prémio de 500 mil euros para promoção da qualidade de vida dos mais velhos. No âmbito da sua política de Responsabilidade Social, o BPI lança a 2ª edição do Prémio BPI Seniores que tem por finalidade apoiar projectos que promovam a melhoria da qualidade de vida e o envelhecimento activo de pessoas com idade superior a 65 anos. O Prémio BPI Seniores destina-se a todas as instituições sem fins lucrativos, com sede em Portugal, que apresentem um projecto contemplando um ou mais tipos de intervenção nas respostas sociais aos mais velhos. O valor total dos donativos a atribuir é de € 500.000, com um 1º prémio cujo montante poderá ir até € 200.000 e menções honrosas até € 50.000 cada. Em Junho, será lançada a 5ª edição do Prémio BPI Capacitar, também no valor de € 500.000, que distingue os melhores projectos de integração de pessoas com deficiência ou incapacidade permanente. Cada entidade promotora só poderá candidatar-se a um dos Prémios BPI (Prémio BPI Seniores ou Prémio BPI Capacitar).

Candidaturas até 18 de Maio. 800 22 33 44 (Todos os dias das 8h - 20h) www.bancobpi.pt © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.240.51.32 (18-04-14 00:36)

Expresso 25 de abril 40 anos volume 2  

Expresso: 25 de Abril 40 anos. Lisboa : Expresso 2014. 124p. Númeroe special publica do conjuntamente com o nº 2164 do jornal "Expresso" de...

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