Page 1

Esta revista é parte integrante do Expresso nº 2163 de 12 de abril de 2014

O regresso de Cunhal e de outros resistentes O que levou à queda do Estado Novo Histórias de quem saiu e voltou O que pensam Ana Maria Caetano, José Pacheco Pereira, Artur Santos Silva e Gomes Canotilho Cartazes e murais da Revolução O Diário Secreto de Manuel Malaquias 12 de abril O volume 1

25 de

ABRIL

40 anos

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EDI TO RI A L

ERA UMA VEZ UM PAÍS QUE MORREU

H

avia um país a 24 de abril — que morreu. E nasceu outro, a 25. Foi há 40 anos. Foi um dia de festa, o dia em que muitos portugueses conheceram, pela primeira vez, a liberdade. A democracia estava a chegar e a guerra iria acabar. O país cansado, velho, bafiento, onde as proibições eram muitas, ferozes e iníquas, e as permissões irrelevantes e anódinas, dava lugar a uma nova realidade. No país onde fora proibido pensar — e até vender Coca-Cola ou usar isqueiro sem licença — passava a ser proibido proibir, para usar a palavra de ordem do Maio de 68. Já lá vão 40 anos. Cerca de cinco milhões de portugueses terão nascido entretanto. Assinalar um aniversário do 25 de Abril é, hoje, falar de um passado distante na memória, com muitas leituras e diferentes emoções. Mas é ainda um acontecimento em que a generalidade dos portugueses se revê, mesmo em tempos difíceis. Para celebrar mas também para recordar e dar a conhecer o que foi o 25 de Abril, o Expresso decidiu editar duas revistas especiais — esta e a da próxima semana; associa-se depois uma terceira, uma edição monotemática da habitual Revista do Expresso, nas bancas a 25. Em Lisboa, o muralista GonçaloMAR pintou um mural alusivo ao 25 de Abril, que ilustra as capas desta e da próxima edição. Nas páginas finais, o “Diário Secreto de Manuel Malaquias”, repartido pelas duas revistas, foi escrito por Ana Maria Magalhães e por Isabel Alçada com o propósito de contarem aos mais novos como se vivia antes de abril de 74 e como foi a chegada da liberdade. Entrevistas a personalidades de referência, histórias de protagonistas pouco conhecidos, episódios de alguns dos que regressaram a Portugal logo após a instauração da democracia e de outros que se sentiram ameaçados no Verão Quente de 75 e partiram para o estrangeiro compõem esta revista. Que dá também oportunidade de recordar alguns dos acontecimentos das semanas que antecederam a queda do Estado Novo assim como, recuando mais no tempo, de recontar como foi a luta contra a ditadura. Em várias páginas, oportunidade para ver ou rever cartazes, autocolantes poemas e pichagens dos primeiros anos de liberdade. Na próxima semana, depoimentos de quem nasceu perto de 1974 permitem perceber como veem estes 40 anos aqueles que não podem ter lembrança do outro país. Francisco Pinto Balsemão já disse mais de uma vez que o Expresso não teria sobrevivido, tal a perseguição que a censura lhe movia, se o 25 de Abril não tivesse ocorrido um ano e quatro meses após o início da sua publicação. Esse terá sido um dos menores dos grandes feitos dos militares que derrubaram a ditadura. ^ JOÃO GARCIA

Na capa: Mural de GonçaloMAR, na Rua 1º de Maio, em Lisboa Diretor: Ricardo Costa Diretora de Marketing: Mónica Balsemão Direção Editorial do Projeto: João Garcia Diretor de Arte: Marco Grieco Editor de Fotografia: João Carlos Santos Edição e Coordenação: José Pedro Castanheira e Paulo Paixão Projeto Gráfico: Paulo Barata Corrêa e Rita Múrias Conto: Ana Maria Magalhães, Isabel Alçada e Gonçalo Viana (ilustração) Capa: GonçaloMAR Textos e Fotos: Alberto Frias, Alexandra Carita, Alexandra Simões de Abreu, Ana Baião, André Pato, André Rijo, António Pedro Ferreira, Cesário Borga, Christiana Martins, Filipe Santos Costa, Frederico Carvalho, Gabriela Lourenço, Henrique Monteiro, Hugo Franco, Joana Pereira Bastos, Joana Vasconcelos, João Tordo, José Pedro Castanheira, José Ventura, Luís Faustino, Luísa Meireles, Manuela Goucha Soares, Marco Costa, Margarida Mota, Naide Gomes, Nuno Botelho, Nuno Fox, Paula Cosme Pinto, Paulo Paixão, Pedro Lomba, Raquel Moleiro, Rosa Pedroso Lima, Rui Cardoso, Rui Duarte Silva, Tiago Miranda, Valdemar Cruz, Zita Martins Gestora de Marca: Susana Freixo Produção Gráfica: João Paulo Batlle Y Font Secretariado: Conceição Domingos e Susana Rosa Copydesks: Expresso Documentação: Gesco Digitalização e Tratamento de Imagem: Medipress

25 Abril 40 anos | 3 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


S UM ÁRIO

08 OS OUTROS PASSAGEIROS DO AVIÃO DE ÁLVARO CUNHAL Com o líder do PCP, em 1974, voltaram a Portugal outros exilados. Muitos evocam pela primeira vez essa viagem, vivida entre a tensão e a euforia.

26 FORAM & VOLTARAM

Dez pessoas, dez trajetos, fuga e regresso, antes e depois do 25 de Abril. Histórias de vida que são retratos de Portugal, na ditadura e na revolução.

28 | JÚLIO POMAR Esteve quatro meses preso e pintou os companheiros de cela.

30 | JOSÉ MIGUEL JÚDICE Em Caxias conheceu quem lhe abriu as portas da advocacia.

32 | ANTÓNIO BARRETO Viveu 12 anos na Suíça, mas sempre com vontade de voltar.

34 | JORGE JARDIM GONÇALVES Deixou Portugal em 1975, após a nacionalização da banca.

36 | MÁRIO RUIVO Em Itália deu guarida a muitos portugueses no exílio.

38 | LEONOR XAVIER Viveu sempre num ambiente fechado, antes de ir para o Brasil.

40 | MÁRIO DE CARVALHO Foi preso e torturado. Na Suécia teve acolhimento e ajuda.

42 | JOSÉ MANUEL ESPÍRITO SANTO SILVA Passou por Caxias e Monsanto, onde pagou parte da decoração.

44 | MARIA DA PIEDADE MORGADINHO Saiu de Portugal nas barbas da PIDE, com uma filha ao colo.

46 | JAIME NOGUEIRA PINTO Defensor do império, partiu para Angola após a revolução.

ENTREVISTAS 20 | ANA MARIA CAETANO A filha do último chefe de Governo do Estado Novo considera que o pai “era mais socialista do que são os socialistas de agora”.

50 | JOSÉ PACHECO PEREIRA Para o historiador e comentador político, “os portugueses interiorizaram o discurso de que não há futuro”.

110 | ARTUR SANTOS SILVA A realidade superou as expectativas do presidente da Gulbenkian: “Não acreditava que conseguíssemos avançar tanto em 40 anos.”

80 | JOSÉ GOMES CANOTILHO O constitucionalista diz o que mudava e não mudava na Constituição. E garante que o memorando da troika é totalmente inconstitucional.

4 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


S UMÁ RI O

85 ABANÕES NO REGIME 86 | NO TEMPO DA AÇÃO DIRETA A última década e meia da ditadura foi agitada por uma série de atentados.

57 EM CONTAGEM DECRESCENTE 58 | ANATOMIA DA CRIAÇÃO DO MFA Criação, desenvolvimento e afirmação do movimento dos capitães, cansados da guerra e do rumo da governação.

62 | “PORTUGAL E O FUTURO”

92 | UMA GUERRA PERDIDA

Com o livro de António de Spínola, Caetano percebe que o regime está por um fio.

Os militares sabiam que o conflito colonial era impossível de ganhar.

66 | ‘BRIGADA DO REUMÁTICO’

96| O PODER DOS CAPITÃES

Quase todos os oficiais generais prestam ainda vassalagem, mas já de pouco servirá.

Na guerra, o capitão é o homem-chave. E está cada vez mais insatisfeito.

70 | O GOLPE FALHADO DAS CALDAS

98| 25 DE ABRIL POR DENTRO

Militares revoltam-se contra as exonerações de Costa Gomes e de Spínola. Fica o aviso...

A noite decisiva, contada na primeira pessoa por Natércia Salgueiro Maia.

74 | OS EFEITOS DO CHOQUE PETROLÍFERO

99 | CORRESPONDENTES A LESTE

A frente externa nada ajuda: a subida dos combustíveis perturba mais a sociedade.

Quando se deu o golpe, a imprensa estrangeira estava a dormir na forma.

102 PROTAGONISTAS Recordações de episódios que espelham bem a atmosfera de um tempo português.

102 | FERNANDA MATOS 104 | FIGUEIRA MENDES 106 | MANUEL MADEIRA PIÇARRA

116 DIÁRIO SECRETO DE MANUEL MALAQUIAS ICONOGRAFIA DA REVOLUÇÃO 18 | 48 | 78 | 90 | 108

CONTO

ANA MARIA MAGALHÃES E ISABEL ALÇADA 25 Abril 40 anos | 5

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O REG RESS O DO E X Í LI O

DE PARIS A LISBOA NO Há quatro décadas, um voo histórico Paris-Lisboa trouxe de volta a Portugal Álvaro Cunhal. No mesmo avião vieram quatro dezenas de exilados políticos, do PCP e extrema esquerda. Parte deles evoca pela primeira vez as peripécias do dia 30 de abril de 1974, quando finalmente pisaram o solo de um país livre. Uma viagem sob tensão e algumas picardias, antes da explosão de alegria TEXTOS PAULO PAIXÃO

6 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O REGRESS O DO EXÍ LI O

DA RESISTÊNCIA À LIBERDADE (MIL DIAS, EDITORA)

AVIÃO DE CUNHAL Nove participantes na viagem: José Cavaco, Maria do Céu Cavaco, Domingos Abrantes, Conceição Matos, José Dias e Victor Carvalho, na página ao lado, fotografados na Alta de Lisboa, frente ao aeroporto, a 19 de março; nesta página, Luís Cília, Carlos Vaz e Cláudio Torres, no mesmo local, três dias antes. Ao seu lado, José Duarte, o oficial da TAP de serviço na chegadas FOTOGRAFIAS DE NUNO BOTELHO Álvaro Cunhal a desembarcar em Lisboa, no regresso do exílio, recebendo as indicações de José Duarte. No cimo da escada, Domingos Abrantes, Conceição Matos e um funcionário da Air France, Gabriel de Sousa 25 Abril 40 anos | 7 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ABAN ÕES NO REG I M E

F

oi numa pequena agência de viagens de Paris, de um cidadão francês de ascendência polaca, sobrevivente a três campos de concentração nazis, que foi traçado o plano de voo de quatro dezenas de exilados portugueses em França. Todos estavam ansiosos por voltar a Portugal mal souberam do golpe militar que pôs fim à ditadura, a 25 de abril de 1974. No grupo, os membros do PCP, acompanhantes de Álvaro Cunhal, estavam em maioria. Mas havia também oposicionistas sem filiação partidária ou membros de outras formações. Quase todos confiaram a logística do regresso à Office de Voyages Lafayette (no 9º arrondissement, junto às galerias Lafayette), gerida por Maria Amélia Padez, nora de Gaston Kotski, o dono da empresa. Durante a II Guerra Mundial, Kotski driblou a morte em Auschwitz, Dachau e Buchenwald. Militante do PCP, Maria Amélia mantinha boa relação com os vários grupos da oposição em Paris, sem exceção (incluindo figuras socialistas, como Mário Soares).

A lista de quem pousou no aeroporto da Portela às 13h50 de 30 de abril de 1974 (segundo a hora registada pelos jornais vespertinos dessa data) foi obra de tudo, menos do acaso. O dedo de Padez decidira quem viajou no voo AF501. Nesse dia, além da companhia francesa, também a TAP tinha uma ligação Paris-Lisboa. “Foi de propósito que fiz embarcar Cunhal na Air France, por ser uma viagem mais discreta”, diz Maria Amélia, por telefone, desde Luanda, onde vive há três décadas e meia. “Organizei o voo para não haver oposições ou conflitos lá dentro. Tentámos que não viesse muita gente na Air France.” Garantir a tranquilidade do líder comunista, no exílio desde 1960, quando protagonizara a célebre fuga do forte de Peniche, foi assim o principal objetivo da coordenadora da viagem. Com Cunhal (falecido em 2005) vinha outro dirigente do PCP, Domingos Abrantes, e a mulher, Conceição Matos. Vários militantes asseguravam a entourage do secretáriogeral, como Victor Carvalho, José Dias, José Cavaco e mulher, Maria do Céu

Álvaro Cunhal na chegada a Lisboa, engolido pela multidão e só muito a custo protegido pelos militares Na página ao lado, também no aeroporto, José Mário Branco no coro que cantou a ‘Grândola’, rodeado pela família e amigos: José Jorge Letria, Zeca Afonso, Lucília Branco (tia-avó), Isabel Alves Costa (mulher), José Duarte, Adriano Correia de Oliveira e Sara Monteiro (mãe). Entre Zé Mário e Isabel vê-se a nesga de uma cara: é de Ary dos Santos FOTOGRAFIA DE CARLOS GIL

8 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O REGRESS O DO EXÍ LI O

SERVIÇO DE INFORMAÇÃO E DOCUMENTAÇÃO ANA - AEROPORTOS DE PORTUGAL, SA

Foi preferida a Air France à TAP, para permitir uma viagem mais discreta. À chegada ninguém conseguiu controlar os sentimentos. A multidão quase esmagou Cunhal e ‘Grândola’ foi cantada em festa

Cavaco. Os seis juntaram-se para uma das fotografias deste artigo. Se a política dava a notoriedade a Cunhal, e também a Abrantes, era a música que tornava conhecidos dois dos passageiros: José Mário Branco e Luís Cília. Perto deles estava Carlos Vaz. Muito discreto, outro viajante, hoje figura pública, o arquéologo Cláudio Torres. Até à chegada ao aeroporto, poucos membros do PCP sabiam da vinda de Cunhal. “Só três pessoas tinham conhecimento disso: eu, Domingos Abrantes e a Conceição Matos. O sigilo foi mantido por razões de segurança”, diz Maria Amélia Padez, 77 anos. A aparição do líder causou comoção. “Quando, já no aeroporto, disse ao Campos Lima [outros passageiro, já falecido] que o Cunhal também vinha, ele abraçou-se a mim a chorar”, diz Padez. “O mesmo se passou com o Jorge Reis” (então locutor das Atualidades Francesas, que passavam nos cinemas portugueses, igualmente falecido). José Cavaco, 73 anos, recorda esse momento: “Já estávamos eufóricos, porque

vínhamos para Portugal”. Mas “quando vejo o Cunhal, então foi uma surpresa extraordinária, uma coisa indescritível”. TRANSBORDO DE EMOÇÕES A vertigem do regresso a casa fez-se de muitos outros sentimentos. Por alturas do check in, já a apreensão tomara conta de muitos. Como Cláudio Torres. “No aeroporto, não conhecia ninguém — e não queria conhecer. Estava numa enorme tensão, nem sabia se podia embarcar. Vinha ilegal, com passaporte falso. Mas não era só eu que estava inquieto. Sentia-se um ambiente de tensão enorme. Ninguém falava com ninguém. Fugíamos uns dos outros, a fingir e a olhar para o lado”. Carlos Vaz, 72 anos, que fez a viagem ao lado de Branco e de Cília, corrobora. “A tensão era comum, pelo menos aos que não traziam documentos. Eu tinha um bilhete de identidade caducado e vários passaportes falsificados”, diz, a sorrir. O caso de Cília era diferente, sendo talvez o único com o estatuto de “refugiado político”, atribuído pela ONU. Lembra

que a burocracia foi facilitada porque o “consulado em Paris começou a dar à pressa vistos para uma viagem”. Em Cláudio Torres — então interessado na arquitetura vernácula da madeira no centro da Europa, sobre a qual queria fazer um doutoramento na Sorbonne — a angústia tinha uma razão mais profunda, de cariz familiar. “No final de 1973, comecei a preparar as coisas para entrar em Portugal, a todo o custo, para ver o meu pai, que estava doente.” Tratava-se de Flausino Torres, historiador, que viveu exilado na Checoslováquia, entre outros países, e que rompera com o PCP em 1968, por os comunistas portugueses terem defendido a repressão soviética da primavera de Praga. Cláudio fugira para Marrocos em 1961, indo no ano seguinte para a Roménia (aí residindo até 1973). Pelo meio saíra do PCP, por causa da primavera de Praga. Em 1974, a sua determinação em voltar a Portugal era absoluta. “Já tinha inclusive comprado tinta para o cabelo, para me disfarçar.” Maria do Céu Cavaco sentiu um pico de alegria (a “surpresa” de ver Cunhal). Mas 25 Abril 40 anos | 9

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ARQUIVO “A CAPITAL/IP”

O REG RESS O DO E X Í LI O

depressa se impôs o instinto de autodefesa a quem, mesmo em Paris, se habituara a ter a vida vigiada pela PIDE, com o apoio da polícia francesa. “A minha preocupação era passar sem olhar, sem dar a perceber que estava a reconhecer os meus camaradas, para que eles passassem também despercebidos. Havia uma insegurança muito grande. Tínhamos de nos proteger.” A festa do dia seguinte, com que sonhavam, suscitava uma réstia de medo. “O que seria o 1º de maio? Uma ratoeira?” O estado de espírito de José Mário Branco era idêntico. “No voo, o ambiente era algo tenso. Dava a impressão que todos sentiam o que nós próprios sentíamos: será mesmo verdade que Portugal foi libertado? Não iremos todos ser presos à chegada?”, declara, num depoimento escrito, a partir de questões e tópicos colocados pelo Expresso. Mais tranquilo estava Domingos Abrantes. “Quando decidimos embarcar, dois dias antes da viagem, havia um mínimo de confiança”. A 25 de abril de 1974, o dirigente comunista vivia em Paris há dois meses e meio, sendo o responsável pela emigração (em França e outros países europeus). Estava no PCP há 20 anos (11 no Comité Central) e resistira 11 anos nos cárceres da ditadura. 10 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O REGRESS O DO EXÍ LI O

Fugiu de Caxias em 1961. Com mais sete militantes comunistas, protagonizou a cinematográfica fuga no Chrysler blindado que pertencera a Salazar. Com Domingos estava Conceição. Passara dois anos presa. Na cadeia foi barbaramente torturada pela PIDE. Em Paris, a angústia para o regresso foi servida em pratos desiguais. Luís Cília, hoje com 71 anos, admite que possa ter havido alguma “tensão interior”, por dúvidas em relação à chegada a Portugal. “Ainda era cedo para se saber o que iria acontecer”. De resto, Cília não se recorda de “nada especial durante o voo”. Até à descolagem (marcada para as 11 da manhã), os sentimentos eram ambivalentes — “um misto de tensão e de alegria”, sintetiza José Dias, 75 anos. Na primeira parte do voo, as coisas pouco se modificaram. Na distribuição dos lugares, os campos estavam marcados pela geografia política. “O grupo do Cunhal, uma vintena de pessoas — diz Zé Mário —, ficou sentado no fundo do avião.” O cantor estava na parte da frente, com Cília e Vaz. Os caminhos de alguns já se haviam cruzado com o PCP (e um deles continuava lá). Branco fora expulso em

1965. Partilhou o voo com uma pessoa do PCP que havia “estado implicada” no seu afastamento, afirma o músico. Tratava-se de Marques dos Santos (então funcionário da OCDE, já falecido). José Mário garante que viajava também outro “implicado” na expulsão (Silas Cerqueira). Contudo, vários passageiros não se se recordam da vinda de Cerqueira ou negam esse facto (como é o caso da filha, Cristina, que garante ter o seu pai ficado em Paris). NERVOSISMO NO AR Menos linear e mais fascinante fora a relação de Cília (em Paris desde 1964) com o PCP. Chegou a ser expulso em 1969, por Carlos Antunes, antes deste romper com os comunistas (e fundar as Brigadas Revolucionárias), mas seria readmitido dois anos depois. E desde 1973 que o músico tinha já um lugar insubstituível na história dos comunistas portugueses, quando estes adotaram o ‘Avante’ como hino. Uma canção composta anos antes por Cília (e nunca gravada pelo autor), curiosamente a pedido de Antunes. “Era uma música para passar na rádio. Dei a partitura e a letra, e nunca mais pensei nisso”, relataria depois Cília, em 1974 já com dez anos de carreira.

Sairia do PCP na década de 80, num “parto sem dor”, diz a sorrir. No “grupo dos cantores”, no jargão da viagem, encontrava-se também Carlos Vaz, com a companheira, a australiana Maureen Loadsman. Vaz era refratário. Saíra de Portugal em 1964, após ter conhecido na pele a violência policial nas lutas estudantis de 1962. Em França, nas vésperas do 25 de Abril, “andava metido com a LUAR” (Liga de Unidade e Ação Revolucionária). Desses tempos, lembra que o grupo pensou “invadir a Covilhã” e recorda companheiros de luta, como Camilo Mortágua e Álvaro Morna (mais tarde correspondente em Paris de diversos órgãos nacionais, já falecido), além de outros operacionais, que pede para não serem nomeados. Na gare parisiense ou já no ar, nem mesmo o bálsamo de Portugal estar a poucas horas de distância inibia as dores de cabeça. É esse o diagnóstico de Maria Amélia Padez. “Quanto entrámos no avião, estava toda a gente nervosíssima. Era a emoção de voltar, do exilado que regressa a casa. E Cunhal era o mais nervoso. De tal modo que deixou cair a refeição sobre o corpo. Eu ainda quis buscar guardanapos para ele se limpar...”

A viagem foi vivida em tensão. “Estava toda a gente nervosíssima. Era a emoção do exilado que regressa a casa. E Cunhal era o mais nervoso. De tal modo que deixou cair a refeição sobre o corpo” Na página ao lado, Domingos Abrantes e Conceição Matos. Com Álvaro Cunhal, há 40 anos (saídos do autocarro que os foi buscar ao avião), e no mês passado, no aeroporto de Lisboa FOTOGRAFIA DE NUNO

COLEÇÃO ANTÓNIO JOTTA

BOTELHO

Exilados em Paris no 1º de maio de 74: Hortense Campos Lima, João Monjardino (único exterior ao grupo, pois viera de Londres), Maria Amélia Padez, Luís Cília e mulher (Nina Cília) e Joaquim Barradas de Carvalho

25 Abril 40 anos | 11 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O REG RESS O DO E X Í LI O

PCP

Já no espaço aéreo português, canta-se e sacode-se a tensão. Há um despique musical entre José Mário Branco e o grupo do PCP

Domingos Abrantes, que vinha ao lado, lembra-se bem do “incidente”: “A certa altura, ele entornou a comida, houve que resolver esse problema.” Conceição Matos foi solícita. “Ainda lhe disse se não queria que eu fosse limpar...” Mas por uma vez Cunhal dispensou a distribuição de tarefas pelo coletivo. “Ele disse: ‘não, não!’. E de seguida levantou-se e foi ele limpar com água.” Assim, quando regressa dos lavabos e se senta de novo no lugar, é bem visível o fato molhado do secretário-geral do PCP. Precisamente quando estava prestes a aterrar em Portugal, com a auréola do mais lendário resistente ao fascismo. Quando desce do avião, cerca das duas da tarde — os termómetros rondavam os 14 graus —, Cunhal destoa de outros passageiros. É o único a envergar gabardina. Não para o abrigar do frio, vento ou chuva (inexistentes, de resto), mas

Cunhal a discursar no aeroporto, sobre uma chaimite (fazendo lembrar a chegada de Lenine a São Petersburgo, em 1917). À frente, Luísa Amorim, da CDE, que interveio na receção ao líder comunista, e Dias Lourenço, do PCP. Mais afastado (não se vendo nesta imagem), mas também empoleirado na chaimite, estava Mário Soares

para “cobrir o fato molhado”, diz Abrantes. E assim ter um ar apresentável, para falar aos jornalistas e, depois, se reunir com António de Spínola, presidente da Junta de Salvação Nacional (as novas autoridades saídas do 25 de Abril, que substituíram órgãos políticos da ditadura). PORTUGAL NAS NUVENS Há um momento, acima dos 30 mil pés, em que se abre uma válvula de escape.

Não que o ambiente a bordo fosse sepulcral — muitos passageiros cirandam sem parar, o que motiva reparos da tripulação. “As hospedeiras queixavam-se que andava toda a gente de um lado para o outro, o que para o equilíbrio do avião era pouco aconselhável”, comenta Dias. Mas ruído estrondoso só se deu quando começou a ser sobrevoado o território português. “Ao ser anunciada a entrada no espaço aéreo, o Zé Mário começou a cantar”, recorda Cláudio Torres, 75 anos. “Sentiu-se então um estremeção, meio palmas, meio gritos, um som de alegria.” Comunhão que nem todos a bordo partilhavam. Torres mantém viva ainda a imagem de “duas velhinhas inglesas aterrorizadas, sem saberem o que estava a acontecer”. Um alívio foi então sentido pelos expatriados. “A tensão desvaneceu-se quando alguém começou a cantar”, diz Maria do Céu, 75 anos. “Houve uma certa descompressão e sentiu-se mais confiança. Afinal, podíamos cantar.” A lembrança concreta dessas cantigas é que está mais esbatida. “Seriam as canções revolucionárias, de intervenção. E também se cantou o hino.” Já José Mário Branco — que não foi possível fotografar para este trabalho — tem um registo muito nítido do programa musical. “De vez em quando, alguém cantava canções em coro — curiosamente, do fundo do avião, e com exceção do ‘Canta, camarada, canta’, apenas surgiam canções populares anódinas do tipo ‘A saia da Carolina’ ou ‘Ao passar a ribeirinha’”, recorda. “Em reação” ao alinhamento melódico comunista, Zé Mário e a mulher (Isabel Alves Costa) começaram a entoar “canções heroicas do Lopes-Graça, como o ‘Terra Pátria’, ‘Acordai’, e ‘Jornada’”, ou ainda o “‘Não há machado que corte’” [este da autoria de Manuel Freire]. A micro-geopolítica da esquerda lusitana revelou-se então no seu esplendor, fazendo fé na versão de Zé Mário. “Foi uma espécie de batalha de canções entre ‘duas linhas’: uma ‘de esquerda’, a nossa; e outra ‘de direita’, a do grupo de quadros do PCP”, enfatiza o cantor. Só nessa altura Cláudio Torres, até aí metido no seu casulo, interage com o mundo em redor. “Levantei-me e fui ter com o Zé Mário. Eu conhecia-o de Portugal, mas naquele momento, no avião, não o estava a ver, só percebi quem era por causa da voz. Era-me muito familiar: na Rádio Portugal Livre, em Bucareste [rádio do PCP], eu passava os

12 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


discos dele.” Branco gravou o momento: “Senti que alguém do banco de trás me tocava nas costas... ‘Zé Mário, já não te lembras de mim?’ Era o Cláudio Torres.” O confronto musical passa então da desgarrada para a fase da picardia, ainda segundo as memórias de Branco. “Quando o avião começou a descida, o grupo do fundo começou a cantar o hino nacional. Da nossa parte houve alguns assobios. Eu levantei-me, virei-me para trás e gritei: “Oh Marques dos Santos, como é que vocês agora vão fazer com o refrão?”De facto, que sentido faria, naquelas circunstâncias, cantar “Contra os canhões marchar, marchar”? Victor Carvalho minimiza a disputa: “O José Mário foi convidado por nós para vir no avião, não houve despique nenhum, embora houvesse divergências”. Carvalho puxa para refrão outros versos: “Contra o fascismo estávamos todos, houve unidade. Nós vínhamos para Portugal para que as coisas voltassem para trás. Era essa a nossa esperança e foi isso que fizemos.” CANTO DE LIBERTAÇÃO Jogos florais à parte, a verdade é que as coisas nem sempre rimaram. Domingos Abrantes, 78 anos, recorda-se bem (na conversa mantida com o Expresso no final do ano passado) de que “houve várias bocas”, logo no embarque. E a bordo foram “trocadas algumas piadas entre os esquerdistas e o PCP”. Sobre as cantorias em pleno voo, José Cavaco tem “a ideia de ter ouvido um ligeiro despique” (convergindo assim com o relato de Branco). “Estávamos a cantar o hino, e a dizer ‘contra os canhões, marchar, marchar’, quando alguém disse: ‘Mas agora os canhões é que nos libertaram!’. Então outra voz gritou: ‘Contra os patrões, lutar, lutar’”. Apesar das desafinações políticas, o canto foi deveras libertador. “Numa altura do voo surgem as canções que nos tranquilizaram”, diz Maria do Céu Cavaco. “Se alguma coisa de muito mau acontecesse, estávamos a cantar...” Nem todos foram em cantigas ou se deixaram embalar. “Cunhal ficou praticamente todo o voo sentadinho, tranquilo, enquanto outros estavam na parte de trás a conversar, ele estava sozinho, escrevia, escrevia. Não participava nas canções, não se manifestava”, conta Carlos Vaz, que a certa distância observava o líder comunista. O isolamento tinha razão de ser, explica Abrantes. “De certo modo foi também uma viagem de trabalho,

ARQUIVO “A CAPITAL/IP”

O REGRESS O DO EXÍ LI O

O ÚNICO ENCONTRO ENTRE CUNHAL E JAIME NEVES Numa das partidas da história, o elemento do MFA destacado por Spínola para garantir a segurança de Cunhal estaria ano e meio depois na trincheira oposta à do PCP. Foi quase à bala, pois o país esteve à beira da guerra civil. À frente dos Comandos da Amadora, Jaime Neves foi o homem-chave das operações do 25 de novembro, que pôs fim ao verão quente de 1975. No regresso de Cunhal, estiveram frente a frente, olhos nos olhos, como na viagem de autocarro entre o avião e o aeroporto — na fotografia, um momento testemunhado por Conceição Matos e Domingos Abrantes. Quase todos os passageiros agora entrevistados (com exceção de Abrantes) desconheciam ou não se lembravam do militar que chefiara a sua proteção em 1974. E quando é pronunciado o nome de Jaime Neves (então major), a reação

é de espanto e de gargalhada. O comando registou muito bem essa data e sem motivos para grande alegria. Segundo a obra “Homem de guerra e boémio. Jaime Neves, por Rui Azevedo Teixeira”, a imagem de Cunhal a discursar sobre a chaimite “prova a ingenuidade política do líder comando muito bem manipulado pelo líder comunista. O que estava previsto era que Cunhal falasse de uma varanda do aeroporto, um lugar neutro, sem conotação militar ou política. Falando da chaimite, criou-se logo ali a ideia da união da tropa com os comunistas”, escreve o autor. Após o aeroporto, atravessam Lisboa lado a lado, até ao encontro com Spínola. Ao Expresso, Rui de Azevedo Teixeira — professor universitário e antigo comando, que baseou o livro em várias conversas com Jaime Neves (falecido em 2013) — conta: “Na viagem para a Cova da Moura, Cunhal

nada lhe pergunta, pelo que Neves mantém a boca fechada.” Contudo, nesse dia, Neves “aprova o homem. Cunhal era ‘um tipo com força’, que estava ‘nervoso mas se controlava muito bem”. Para o autor, Neves “respeita Cunhal pelos seus ‘muitos anos de mariazinha’ (prisão). Sente respeito, mas também desconfiança. Não era ‘dos nossos’”. Após o 25 de novembro, mudam os sentimentos pelos comunistas. “Sente por eles um ‘ódio completo’. Considera agora Cunhal um ‘antipatriota, um ‘vendedor das colónias aos russos’. O seu cartão de visita é ‘Jaime Neves, anticomunista’”. Que balanço fez Neves do encontro com Cunhal? — “com quem se encontrará uma só vez, ironicamente, para o proteger”, revela Azevedo Teixeira. “Se devia ter-lhe metido um tiro quando chegou?! Na altura não pensei”, confidenciou o militar ao biógrafo. “Mas era capaz de piorar as coisas.”

25 Abril 40 anos | 13 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O REG RESS O DO E X Í LI O

porque o Álvaro escreveu o discurso [que leria depois à chegada] no próprio avião.” Alheado do rebuliço, Cunhal foi cordial (e cauteloso) para quem, fora do grupo do PCP, o procurou. “Em dado momento, já havia a ementa e alguém a pôs a circular, para outros a assinarem. Eu peguei na minha e fui ter com ele, pedindo-lhe a assinatura”, diz Vaz. “Mas seria a primeira, ainda não falara com mais ninguém. Cunhal disse-me: ‘Olhe, vá lá pedir mais assinaturas, para eu não ser o primeiro. Quando tiver umas quatro ou cinco, venha cá, que eu também assino’. Mas não fui ter com mais ninguém, acabando por ficar sem a assinatura dele. E mais tarde até dei a ementa.” SOBRESSALTO NA CHEGADA A viagem aproximava-se do fim. Depois do reencontro com a família e os amigos, a festa do 1º de maio — entretanto tornado feriado pela Junta de Salvação Nacional, e pela primeira vez em liberdade — ocupava já a mente de todos. Quatro décadas depois, fazem-se balanços dessas horas únicas na vida de cada um dos refugiados. “Foi uma viagem excecional, como nunca fizera”, diz Carlos Vaz. Cília recorda um “sentimento muito misturado, de emoção e de alegria”. Abrantes fala de “uma coisa muito difícil de descrever e ao mesmo tempo de esquecer. Era a conquista da liberdade, coisa que nunca tínhamos vivido”. José Cavaco sacode das memórias qualquer tensão. “Era a euforia de voltar a Portugal”. Já Conceição Matos viveu a “alegria maior” na véspera quando soube que integraria o grupo de militantes do PCP a acompanhar Cunhal. “No aeroporto e no avião estava felicíssima, parece que ia correr tudo às mil maravilhas, por saber que ia voltar à nossa terra, ver a família.” O final feliz com lágrimas não chegou, contudo, sem um arrepio na espinha para alguns passageiros. O episódio, que “durou uns dois minutos, de tensão e de silêncio”, é contado por Victor Carvalho, 70 anos. “Com o avião já parado, o comandante pediu para Álvaro Cunhal sair sozinho. Pensámos que poderia ser para o deter”. Volvidos 40 anos, com a história já escrita nos livros, pode parecer que foi excesso de zelo dos comunistas. Mas o contexto explica as coisas. “Quando aterrámos, não sabíamos se a situação estava mesmo segura. Pela janela do avião víamos chaimites na pista e soldados armados. Então, saímos dos nossos lugares e metemo-nos à volta do Álvaro, num cordão de segurança.”

Pedem a Cunhal para sair do avião sozinho. Os membros do PCP pensam que é para o prender. Fazem um cordão de segurança

Abrantes dirá sobre aquela atmosfera: “Quando desembarcámos, as incógnitas ainda eram muitas. Havia uma situação de certo modo incerta: estava derrotada a ditadura, mas não estava derrotado o fascismo.” Para José Dias, “havia sempre aquela pontinha de suspeição. Poderia ser uma maneira de isolar o Álvaro”. O impasse foi desfeito. “Quando anunciaram que só poderia sair o Álvaro, ele disse: nós somos três, temos de sair juntos. E acabámos por sair os três”, conta Conceição, 77 anos. Ao ouvir pelos altifalantes o pedido para Cunhal sair sozinho, José Mário confidencia à mulher: “Pronto, já vão

14 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O REGRESS O DO EXÍ LI O

SERVIÇO DE INFORMAÇÃO E DOCUMENTAÇÃO ANA - AEROPORTOS DE PORTUGAL, SA

NA LISTA DO CHECK IN

Milhares de pessoas foram ao aeroporto. Os jornais falaram de “uma enorme multidão arrebatada” e de “um entusiasmo contagiante”

prender o homem. Verificámos depois que era para lhe dar um tratamento especial, não para o prender.” Por essa altura, a comunicação entre os militares encarregados de escoltar Cunhal até Spínola e o líder do PCP era feita através do oficial de tráfego da TAP. Nessa tarde, o responsável pela placa do aeroporto era José Duarte,

Segundo “O Século” de 1 de maio de 1974, regressaram de Paris 42 exilados. Victor Carvalho contou apenas um máximo de 40. Nesta reconstituição, o Expresso identificou 37, ainda que entre eles desconheça o paradeiro de cinco. Pelo menos 12 pessoas já faleceram. Das duas dezenas ainda vivas (com a provável exceção de um só caso, todos estão acima dos 70 anos, e há quem já tenha mais de 80 e até de 90), uma dúzia aceitou ser fotografado e/ ou falar. Em certos casos, por email e telefone, como António Jotta, 71 anos, que vive em Paris, e Jorge Frazão, 74 anos, que se divide entre a capital francesa e Madagáscar. Ambos vieram celebrar o 1º de maio a Portugal, mas voltaram para França. Frazão nem era para vir a Lisboa: “Ia só levar os meus sogros ao aeroporto, mas entusiasmei-me e acabei por comprar um bilhete.” Francisco Mendes, 91 anos (antes do exílio estivera preso meia dúzia de anos em Peniche), e Francelina, 90, os ex-sogros de Frazão, residem também em Paris.

conhecido do grande público como jornalista e divulgador de jazz. Ele é o autor do programa “5 minutos de jazz”, o mais antigo da rádio portuguesa, há 48 anos no ar. Há 40 anos, Duarte ouviu do major Jaime Neves, destacado por Spínola para a missão, a “ordem” para informar o comandante do avião sobre o estatuto VIP a conceder ao secretáriogeral dos comunistas — até à semana anterior implacavelmente perseguidos em Portugal. Jaime Neves perguntou: “‘Alguém conhece Álvaro Cunhal?’ As duas assistentes que estavam comigo disseram que não, eu respondi que sim”, conta

PERDIDOS & ACHADOS Quarenta anos depois, há pormenores com versões desencontradas. Aeroporto de embarque? Há quem jure que foi Roissy-Charles de Gaulle (recém-inaugurado), como José Mário Branco, que tem essa “ideia clara”. Outros inclinam-se para Orly, mas a maioria não se lembra. A Air France tem dúvidas. “É muito provável que fosse de Orly”. Boeing ou Caravelle? Maria do Céu Cavaco e José Mário Branco asseveram, de forma espontânea, que foi um Caravelle. Os restantes pouco ligam: tinha asas e voava, era um avião!. A Air France esclarece: era um Boeing B727 (e um voo de carreira, não charter). Quem comandou a operação militar? Jaime Neves é quem surge ao lado de Cunhal. Contudo, a segurança geral do aeroporto estava a cargo de Casanova Ferreira. O funcionário da Air France que deu as boas-vindas a Cunhal diz que recebeu ordens do “major Casanova, do MFA”. Este nega: “Estava a controlar a polícia, nada tive a ver com Álvaro Cunhal.”

Zé Duarte. ”Fala francês?”, prosseguiu o militar. Ante a resposta afirmativa de Duarte, Neves incumbiu-o de contactar a tripulação. Assim, na primeira imagem de Cunhal em Lisboa, a descer a escada do avião, vê-se José Duarte a apontar o caminho ao líder do PCP. “Eu disse-lhe que não era do MFA, mas que um capitão me encarregara de o conduzir. Como funcionário da TAP, estava ali para recebê-lo, o que fazia com honra e alegria”, recorda o jornalista, 75 anos. O homem dos “5 minutos de jazz” esteve “uns cinco minutos à conversa com Cunhal”. Lembra-se que o líder comunista proferiu sobretudo “palavras 25 Abril 40 anos | 15

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O REG RESS O DO E X Í LI O

Joaquim Barradas de Carvalho voltou a Portugal em 1974, vindo de Paris. Na imagem, o historiador durante o exílio no Brasil, com o seu grupo de trabalho da Universidade de São Paulo (1966 ou 1967)

mulher, Margarida Brandão (que não pertencia ao PCP, já falecida). Em Paris ficaram os dois filhos do casal (Miguel, com 13 anos, e Joaquim, com 16). Não se recordam de pormenores do voo, mas Joaquim conta episódios familiares que envolveram o líder histórico do PCP. “Cunhal passou uns dias em casa dos meus

de circunstância”, mas mostrou sempre “interesse na conversa”. Como se sentiu Cunhal nesse momento: eufórico, reservado, retraído, nervoso? Responde José Duarte: “Nervoso não estava, estava cool, mas estava tenso. Muito atento para saber com quem estava a falar, quem eram as pessoas que o rodeavam, parecia-me atento a um eventual atentado. Mas de resto pareceume brilhante e cauteloso nas respostas.” Também a receber Cunhal esteve um funcionário da Air France em Lisboa, Gabriel de Sousa. Reformar-se-ia da empresa ao fim de 47 anos, como chefe de escala, sendo o primeiro português a alcançar tal estatuto na transportadora francesa. Contactado através da Air

avós paternos após a fuga de Peniche [em 1960], em Lisboa. O meu avô, monárquico quando jovem, não se opôs; limitou-se a ir para a casa no Alentejo”. Em 1974, Joaquim Brandão de Carvalho recorda a “estupefação de uma tia”, irmã do pai, “mas de direita, perante a moderação e o estilo de Cunhal no discurso no aeroporto”. Miguel tem uma certa mágoa: “O meu pai votaria sempre no PCP, mesmo que já não estivesse de acordo com nada”, diz. “Ele entregou as terras do Alentejo à reforma agrária, a mando do PCP”, prossegue. “Mas no seu funeral estiveram mais pessoas do PS do que do PCP. Daí o meu azedume”.

France, Gabriel de Sousa conta que transmitiu a Cunhal “as indicações sobre o desembarque”, não se lembrando de “mais detalhes”. José Dias recorda-se de tudo e descreve a apoteose. “A chegada foi inolvidável, um acolhimento que não esperávamos.” Logo num primeiro olhar, “o número de pessoas ultrapassava em muito o dos nossos familiares”, diz Dias. E depois de ver todo o ajuntamento, “ultrapassava também a esfera de militantes e de apoiantes do PCP”. PORTA ESTILHAÇADA Domingos Abrantes reforça: “Não contávamos com tamanha multidão. Estivemos quase a ser esmagados, toda a

ARQUIVO “A CAPITAL/IP” AVANTE

Entre os militantes do PCP que acompanharam Cunhal, havia homens de cultura e académicos, que a ditadura expulsara. Como Joaquim Barradas de Carvalho (1920-1980). O 25 de Abril encontrou o especialista na História das Ideias e das Mentalidades em Paris, após ter lecionado nos anos 60 em São Paulo. No AF501 veio também o filósofo Vasco de MagalhãesVilhena (1916-1993). Em 1974 era investigador na Sorbonne e no CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique). Celestino de Castro (19202007), arquiteto, também voltou a Portugal no mesmo voo. Exilado em França em 1965, foi figura destacada do modernismo na arquitetura portuguesa. Castro teria papel relevante nas construções hospitalares. Barradas de Carvalho, filho de um latifundiário alentejano, de ascendência aristocrática, entrou para o PCP aos 17 anos e manteve-se comunista até ao fim da vida. Veio a Portugal para o 1º de maio de 74, acompanhado pela

CAPH - PROJETO MEMÓRIA DA FFCL/FFLCH- USP

INTELECTUAIS DE VOLTA A CASA

O filósofo Vasco de Magalhães Vilhena, em 1975, e o arquiteto Celestino de Castro, em 1996

gente queria abraçar o Cunhal, ainda se partiu um vidro”. Com efeito, “uma porta envidraçada estilhaçou-se por não aguentar a força da massa humana”, escreveu o “Jornal de Notícias” do dia seguinte. Houve apertadas medidas de segurança, asseguradas por militares e um serviço de ordem do PCP, cujos membros usavam uma braçadeira vermelha. “A receção tem outra característica”, recorda Abrantes. “Foi a primeira manifestação do PCP. Sem uma autorização formal (e havia lá pessoas que não eram comunistas, estavam apenas a receber Álvaro Cunhal), e com um certo grau de espontaneidade, mas foi uma manifestação organizada.”

16 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O REGRESS O DO EXÍ LI O

Figuras cimeiras da oposição estiveram na Portela, a saudar Cunhal. Em representação do PS, Mário Soares, Salgado Zenha e Tito de Morais. Pela CDE compareceram Pereira de Moura, Sottomayor Cardia e Luísa Amorim, entre outros. Cunhal responde primeiro aos jornalistas (nacionais e estrangeiros), em improvisada conferência de imprensa. Fala depois no exterior do aeroporto, em cima de uma chaimite (ladeado por militares do Exército). Uma mise-enscène que faz lembrar a histórica chegada de Lenine a São Petersburgo, em 1917. Desfila depois pelas ruas de Lisboa, antes de se avistar com Spínola, para a primeira reunião com as autoridades saídas da Revolução dos Cravos. São marcos já inscritos nos anais desse dia 30 de abril de 1974. Outro momento dessa tarde também se tornou icónico. “Cá fora esperava-nos a minha mãe e uma série de amigos, entre os quais Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Zé Jorge Letria. Enquanto Cunhal discursava na chaimite, cantou-se a ‘Grândola’”, recorda Zé Mário, hoje com 73 anos. Para a história ficaram essa imagem e esses sons, como postais de uma nova era. “Antes de nos separarmos”, prossegue Zé Mário, “foi combinado um encontro de cantores para essa mesma noite, onde seria

fundado o Coletivo de Ação Cultural, mais tarde Grupo de Ação Cultural — Vozes na Luta.” Ia começar uma das mais exaltantes frentes de batalha da Revolução, em que as cantigas fizeram as vezes das armas. HOMENS NA CIDADE Na chegada, nem todos ficaram logo afogados nas emoções políticas e nos braços de familiares e amigos. Cláudio Torres mantinha-se dentro de uma panela de pressão. “Continuava com receio. Ao chegar ao aeroporto, sabia que tinha de sair de lá depressa. Saltei do avião logo após a saída do Cunhal. Não fui na mesma direção, porque estavam todos a olhar e a correr para ele. Havia soldados por todo o lado, com metralhadoras. Fugi para outro lado, precisava de um buraco para me escapulir. Não podia passar pelo controlo, o meu passaporte era mais do que falso. Saltei uma barreira (um militar ainda me pediu explicações, mas depois mandou-me seguir), vim para o exterior, apanhei um táxi.” Em vez da corrida para a tranquilidade, um inesperado corrupio estava a começar. “O taxista descobriu: ‘Ah, veio naquele avião?’Então, levou-me a uma tasca, depois a outra, e a outra, foi mostrar-me à mulher e aos filhos, foi uma festa e quando cheguei a casa

Cunhal desfila pela cidade e reúne-se com Spínola, Cláudio Torres percorre tascas levado por um taxista, Zé Mário e José Cavaco encantam-se com a luz de Lisboa

já não sabia onde estava”, prossegue, entre risos. A família de Cláudio já se encontrava em Portugal. “Não avisara ninguém da minha chegada, porque nada me garantia a segurança. A entrada em Lisboa, gozar a cidade ao fim de tantos anos, foi uma grande alegria. Mas só me libertei verdadeiramente da tensão quando o taxista me levou a beber uns copos”, remata, ainda mais sorridente. José Mário Branco haveria de cantar mais tarde, no jeito que é só seu, o significado desse dia: “Quando o avião aqui chegou/ quando o mês de maio começou/ eu olhei para ti/ então entendi/ foi um sonho mau que já passou/ foi um mau bocado que acabou” (‘Eu vim de longe’, do álbum “Ser Solidário”, de 1982). A Zé Mário, as sensações do retorno, após 11 anos de degredo, ficaram-lhe também gravadas noutras pistas.“Fui com o meu pai, no carro dele, ao Largo da Misericórdia. Saímos para andar um pouco pelas ruas. O que o mais que me impressionou foi o sol a bater nas esquinas das casas (a luz de Lisboa) e o cheiro a fritos que saía das tascas.” Ao início da tarde de 30 de abril de 1974, segundo os registos da meteorologia, em Lisboa o céu estava “muito nublado”. Mas quem voltava do exílio, no horizonte só podia mesmo avistar uma cintilante aberta. Era também o caso de José Cavaco. “Chego cá e apanho um sol, o céu lindo de Lisboa... Depois de sete anos de desterro, foi uma coisa extraordinária.” Num ponto, os lisboetas pareciam mais lunares. Quem vinha da Europa estranhava “o escuro da roupa das pessoas”, concordam vários dos passageiros do voo. Cavaco anui: “Ah, completamente!” Contudo, mostra-se pouco disposto a alumiar agora essa face da realidade observada há quatro décadas. “Eu estava mais atento aos amigos, e às pessoas que estavam a chegar, ao ar de festa de tudo, e portanto não reparei tanto nisso. O que estou a lembrar-me é do sorriso da malta. Aquilo era uma loucura. E foi um momento único”. ^

José Duarte, no aeroporto de Lisboa, observando a foto em que surge ao lado de Cunhal FOTOGRAFIA DE NUNO BOTELHO

25 Abril 40 anos | 17 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C.

© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA UC

“NÃO HEI DE MORRER SEM SABER/ QUAL A COR DA LIBERDADE”, escreveu Jorge de Sena, em 1956, num misto de revolta e de esperança. Teve de esperar 18 longos anos para observar (do exílio nos EUA) esse dia 25 de Abril de 1974, uma jornada cristalina que Sophia viu com uma luminosidade única. Nessa manhã, foi apeada a mais velha ditadura da Europa, 48 anos. O povo em festa tomou conta das ruas e o cravo (no cano das espingardas, nas mãos de civis, em murais e cartazes, a traço tosco ou com recorte artístico) foi santo-e-senha da nova era. E se, como reza a crónica, a primeira flor empunhada por um soldado era branca, vermelho ficaria o ícone da revolução. Por todo o país, os novos direitos (políticos, cívicos ou laborais) são proclamados — nas ruas, na TV, jornais e rádio, nas paredes ou em cantigas que são uma arma. A paisagem, sobretudo urbana, do centro das cidades às cinturas fabris, ganha tons vivos. Aqui se revisita a iconografia desses tempos vertiginosos, pontuada por poemas marcantes ou letras de canções na memória de muitos. ^ PAULO PAIXÃO

© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C.

Os novos ventos da liberdade

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


“Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo” Sophia de Mello Breyner Andresen “25 de Abril” 25 Abril 40 anos | 19 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


25 Abril 40 anos | 20 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ANA MARIA CAETANO “O MEU PAI ERA MUITO MAIS SOCIALISTA DO QUE SÃO OS SOCIALISTAS DE AGORA” ENTREVISTA HENRIQUE MONTEIRO JOANA PEREIRA BASTOS MANUELA GOUCHA SOARES FOTOGRAFIAS RUI ÔCHOA

25 Abril 40 anos | 21 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT R EVIS TA

ANA MARIA CAETANO

Ana Maria Caetano, durante a entrevista ao Expresso, na sua casa de Belas. Nas páginas anteriores, junto a um retrato do pai da autoria de Maluda

A

mais nova dos quatro filhos de Marcello Caetano, o último presidente do Conselho da ditadura, nunca saiu de Portugal depois da Revolução dos Cravos. Aos 77 anos, está reformada da Função Pública, mas continua a trabalhar no colégio de que é sócia, (também) frequentado por alunos do ensino especial. Terapeuta da fala de formação, muito ligada à psicanálise, Ana Maria Caetano é uma mulher que se interroga e desconstrói verdades adquiridas. Diz que o pai lhe faz muita falta, porque era um companheiro com quem podia falar de tudo.

Como é que viveu o período que antecedeu o 25 de Abril de 1974? Estive sempre a trabalhar durante o tempo em que o meu pai foi presidente do Conselho. Trabalhava num serviço de Estado onde o próprio diretor, o João dos Santos [médico psicanalista e pedagogo], era um homem de esquerda. Era um homem excecional. Foi a primeira pessoa que me telefonou no dia 25 de Abril... e, quero acreditar, que me convidou para trabalhar no Centro de Saúde Mental Infantil e Juvenil de Lisboa por gostar do meu trabalho. O mais curioso é que a maior parte das pessoas que trabalhavam com o João dos Santos eram de esquerda... Eu achei tudo natural, tinha tido uma vida com muito tempo dentro de casa, era pouco politizada. Pouco politizada como? Era... Eu sei que era neta do meu avô [o

avô materno, João de Barros, foi ministro da I República e opositor do Estado Novo] e filha do meu pai, mas nunca tinha tomado grandes partidos. Quando fui trabalhar com o João dos Santos, ele disse-me: “Ninguém tem de saber de quem é filha.” E a verdade é que houve pessoas que ao fim de não sei quantos anos [no 25 de Abril] vieram ter comigo e me disseram: “Eu não sabia de quem tu eras filha.” Isso significa que gostou de trabalhar na equipa do João dos Santos? As pessoas eram amáveis comigo, eu fazia o meu trabalho. Conseguiu-se conservar essa parte não política. As pessoas falavam, havia um descontentamento geral no salões dos bons burgueses, ninguém gostava de ter uma ditadura, mas havia uma espécie de namoro entre a esquerda e a direita.

Então sabia que havia descontentamento? Toda a gente queria uma mudança, eu sabia disso. Percebi a certa altura que os grandes empresários queriam ter monopólios e que o meu pai não lhos queria conceder... Não estavam bem [com a situação]. Houve um encontro entre o meu pai e um desses empresários proporcionado por mim e pela filha dele. Quem era esse empresário? Acha que eu tenho de dizer? As filhas estão vivas. Nós queríamos que dissesse... Era o António Champalimaud, e foi pouco tempo antes do 25 de Abril. Quando o meu pai chegou a casa, perguntei-lhe se tinha corrido bem, e ele disse que não. Ainda lhe perguntei se ele tinha ideia do que significava ter um empresário daquela

22 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT REVI S TA

dimensão contra o Governo, e ele respondeu que tinha. Isso significa que o seu pai estava ciente do descontentamento? Sim. Pouco depois houve o Golpe das Caldas... [Nessa noite] ouvi um telefonema, ouvi o meu pai sair, e só pensava que precisava de dormir porque na manhã seguinte tinha de ir trabalhar. No dia seguinte [17 de março de 1974] fui trabalhar e quando regressei encontrei-o em casa a uma hora que não era habitual. Perguntei-lhe o que tinha acontecido, e ele respondeu que ia havendo uma revolução, mas que tinha falhado. Perguntei-lhe o que poderia ter acontecido, e ele disse-me que se o golpe não tivesse falhado poderia ter sido morto ou ido para o exílio. Ainda lhe perguntei como é que eu saberia disso, e ele respondeu-me: “Pelos órgãos de informação!”

O que fez o seu pai depois do Golpe das Caldas? O meu pai colocou o lugar à disposição do Presidente da República [Américo Tomás] por duas vezes. Depois de o livro [do Spínola] “Portugal e o Futuro” ter saído, o meu pai chamou o Spínola e o Costa Gomes lá a casa, para eles tomarem conta do Governo. Depois dessa conversa foi uns dias para o Buçaco, para onde gostava de ir para lhes dar tempo de assumirem [o Governo]. O Tomás não quis aceitar a demissão dele.

barulho, e eu só pensava que precisava de dormir para ir trabalhar no dia seguinte.

O seu pai tinha algum plano para o caso de haver mesmo uma revolução? Não havia plano. Na noite de 24 para 25 de Abril atendi um telefonema por volta das 3 horas. Era alguém, não me lembro quem, que me pediu para o chamar. Não o encontrei, ele deve ter saído por volta da meia-noite, porque nessa altura ouvi

No Quartel do Carmo ficou claro o apreço que o seu pai tinha pela formalidade. A preocupação formal de que o poder não caísse na rua... O meu pai era um legalista.

Esteve em contacto com ele? Ele só telefonou do Carmo às 3 horas da tarde [de dia 25]. Teve medo? Não. Só sei o que as coisas são depois de as viver. Não sofre de ansiedade? Não é bem isso. Não prevejo.

Acha que ele foi surpreendido pela adesão popular ao 25 de Abril? 25 Abril 40 anos | 23

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


Ele tinha a perceção do que poderia acontecer. Tinha curiosidade sobre o comportamento das massas. Tinha andado a ler um livro sobre isso pouco tempo antes. Recuando no tempo, quando o seu pai tomou posse, houve uma ideia de que com ele isto ia mudar... O meu pai era a continuação do Salazar. Mas era um homem mais novo, casado, sempre em contacto com os alunos na universidade... Queria muito poder corresponder aos anseios desses jovens... Lembro-me de ter ido a um cabeleireiro onde estavam a dizer imenso mal dele, porque isto estava num esquerdismo terrível. E eu fiquei surpreendida de ouvir dizer tanto mal, porque estava habituada a ouvir dizer bem do meu pai. Mas essas pessoas eram muito à direita e não queriam responder à abertura. Acha que o seu pai nunca foi em Portugal aquilo que foi em Espanha o Adolfo Suárez? O meu pai não era democrata. Queria um

chefe, queria alguém que mandasse, queria um escol formado pelas universidades. No fundo, [queria] um pai... Era paternalista. Acha que a guerra colonial foi a principal preocupação do seu pai desde a tomada de posse? Ou a principal preocupação foi a melhoria das condições de vida e as reformas sociais que fez? Eu acho que ele era muito mais socialista do que são os socialistas de agora. Tinha um pensamento sobre o Estado social. O Veiga Simão fez uma reforma muito boa da educação, o Silva Pinto na área social... Ainda se fez muita coisa. O meu pai era um homem que tinha mais preocupações sociais do que as que eu vejo agora. Hoje em dia, ninguém pensa no povo, as pessoas pensam em si próprias, cada maioria acaba por ser uma ditadurazinha. Claro que há mais liberdades... mas para mim liberdade é a nossa liberdade de pensamento e a liberdade de escolha.

O seu pai, quando tomou posse como presidente do Conselho, escreveu ao ministro do Interior pedindo-lhe para humanizar o tratamento dado aos presos políticos. Mas a verdade é que no final do regime a repressão aumentou muito. Ele deixou de ter mão na PIDE no fim do regime? Após a Primavera [Marcelista], o regime começou a ser posto em causa por todos os lados. A direita era mais por estilo, era bonito dizer mal. [Do lado da esquerda] nós tínhamos amigos e familiares que estavam constantemente na prisão. Saíam de lá e vinham-nos contar. Essas pessoas tiveram algum tratamento de favor? Não. Mas essas pessoas contaram aos meus irmãos que no início ninguém lhes tocou... Depois houve uma altura em que correu pior. O meu pai ia sabendo como é que o PCP se estava a infiltrar... A Zita Seabra conta que por ter havido uma abertura eles infiltravam-se melhor. Por exemplo, os comunistas não podiam trabalhar no Estado, tinham de assinar um papel a dizer

24 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT REVI S TA

que eram anticomunistas, mas no meu serviço havia comunistas. A Ana Maria sabia? Sabia que eram de esquerda, não sabia que eram comunistas. E no caso do Pedro Ramos de Almeida [ex-dirigente do PCP], grande amigo do seu irmão José Maria? Sabia. Nós tínhamos um primo direito, Tomás de Figueiredo, que viveu quase sempre na prisão até 1974. Tinha feito catequese com a minha mãe. A minha mãe [nas suas aulas de catequese] formou vários comunistas. Como eram as relações do seu pai com a PIDE? Eram através do ministro [do Interior]. Não sei se tinha relações com o major Silva Pais. Não sei, não faço ideia. Ele soube desse aumento de autoridade e deu ordens para que não fosse assim. Está a dizer que a tortura era aplicada sem o conhecimento do seu pai? Sim, não iam telefonar a dizer o que iam fazer. Mas é como as histórias da guerra: ponha poder na mão de um homem e vai ver o que é que ele faz... E eles [PIDE] tinham poder. Quem mandava na PIDE era o Silva Pais. Acho que o meu pai também estava um bocado nas mãos deles. O que quer dizer com isso? Basta a história da ida para o Quartel do Carmo, um sítio de onde não se podia sair. Nós tínhamos sempre segurança à porta de casa, e no dia 25 de Abril não sabiam de nada. Fui eu que os mandei embora. A multidão não avançou sobre a nossa casa, mas podia ter avançado. Mas avançou sobre o Carmo, e o seu pai estava lá dentro. Exigiu que o poder fosse passado para o general Spínola, que foi até lá para assegurar essa passagem. Houve um comportamento diferente em relação ao almirante Tomás e ao seu pai... Não sabiam do almirante Américo Tomás. Depois encontraram-no em casa, porque ele ficou em casa. O meu pai saiu do Carmo num Chaimite, protegido da multidão, caso contrário davam cabo dele. Ainda esteve preso na Pontinha e depois foi para a Madeira. Telefonaram-nos a dizer para lhe arranjarmos uma mala para ele levar para a Madeira. O meu irmão João foi levar a mala ao aeroporto, encontrou um militar

µ

Continuei a trabalhar depois do 25 de Abril. Talvez por estar numa equipa de esquerda, nunca tive problemas. Perguntei ao meu diretor se devia ir aos plenários. Ele questionou-me se eu alguma vez tivera benesses por causa do meu pai. Disse que não — e ele disse que iria continuar a não ter. E foi assim que acabei nos plenários

da revolução que conhecia e acabou a jantar com os militares da revolução. Foi vê-lo à Madeira? Como foi a ida da Madeira para o Brasil? Fui. Ele esteve lá quase um mês. Um dos membros da Junta de Salvação Nacional era o Galvão de Melo, que era cunhado do Correia de Campos, que tinha sido secretário do meu pai. As conversações começaram para que o meu pai ficasse na Madeira ou fosse para o Brasil. Ainda houve amigos em Espanha, como o López Rodó, que lhe perguntaram se queria ir para Espanha, mas ele preferiu o Brasil. Foi para São Paulo [20 de maio], ficou lá uns dias, e daí foi para o Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro. Foi uma espécie de penitência ou era crente? Ser ou não crente não acrescenta nada às pessoas. Os valores é que são importantes. Ele foi para lá porque precisava de tranquilidade, de descanso espiritual. Tinha havido uma revolução, ele tinha ido para o exílio...

Ele queixava-se do exílio? A mim não, que eu não permitia. Quando fui visitá-lo ao Brasil, na altura dos anos dele, em agosto, os amigos de lá, o [Pedro] Calmón e outros, perguntaram se eu ia ficar lá. E o meu pai respondia-lhes: “Não, que ela está com muita pressa de viver a democracia.” Obviamente que não me iria fazer queixas, até porque eu lhe tinha dito que não tinha de sofrer a escolha política dele. A escolha dele era dele, não era minha. Ficou em Portugal durante o PREC [Processo Revolucionário em Curso]? Não teve medo? Fiquei. Não tive medo, só tenho histórias fantásticas para contar. Fui abordada por muitas pessoas que me diziam que gostavam muito do meu pai. Não percebo porquê, mas nunca tive nenhum episódio de hostilidade, e tinha curiosidade de viver [o que estava a acontecer]. Mas a Ana Maria era conhecida, foi um rosto do mandato do seu pai. Acompanhou-o publicamente em atos de representação, a sua imagem está ligada a uma certa renovação da Primavera Marcelista, quando começou a aparecer uma mulher bonita e jovem ao lado do presidente do Conselho. Isso foi um arejo na imagem do regime... Eu continuei a trabalhar [depois do 25 de Abril]. Não sei se por estar numa equipa de esquerda, muito psicanalisada, em que as pessoas se interrogavam porque é que se exclui uma pessoa, nunca tive problemas. Quando voltei da Madeira, havia plenários no meu serviço. Fui ter com o meu diretor e perguntei-lhe o que é que fazia, se devia ir aos plenários. O João dos Santos respondeu perguntando-me se eu alguma vez tinha tido benesses antes do 25 de Abril por causa do meu pai. Como não tinha tido, ele disse que iria continuar a não ter, e foi assim que acabei nos plenários, onde se falava do fascismo, da ditadura, mas nunca se falou de Marcello Caetano. No fim, quem acabou a ser posto em causa foi o diretor do serviço... apesar de ser um homem de esquerda. Foi duro ver a tristeza do João dos Santos. Voltando à imagem pública, foi um peso para si começar a acompanhar o seu pai aos 31 anos, numa função de representação, por causa de a sua mãe estar doente? 25 Abril 40 anos | 25

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT R EVIS TA

Eu gostei que houvesse um Parlamento e partidos políticos e que exista discussão política, desde que seja séria.

Combinei com o meu pai que eu tinha a minha vida e ele tinha a dele e que por isso o acompanharia o menos possível. Mas foi uma opção que fiz, como fiz a escolha de ficar com a minha mãe. Foi uma escolha, e a verdade é que quando acompanhava o meu pai num banquete à noite ninguém me falava nesse assunto no serviço [no dia seguinte]. Costumava falar de política com ele? Falávamos de tudo. Não tínhamos discussões ideológicas, porque fomos habituados a ver o meu avô João de Barros e o meu pai a terem uma convivência fora de série. Eu tinha umas ideias mais no ar, e o meu pai gostava de ideias muito fundamentadas. Por isso arrumava-me sempre. A história da guerra de África vinha sempre à tona. Eu fui madrinha de guerra de muitos amigos e ia sabendo coisas. Não morreu nenhum deles, mas tiveram mortes de soldados por acidentes [nos pelotões deles]. O seu pai acreditava que a guerra colonial podia ser ganha? Ele pensava que podia ganhar aquilo politicamente. Mas não havia tempo para o que ele queria, os novos Brasis. Sofria imenso com uma solução para África. Não queria a guerra. Mas nós estávamos a lutar contra os americanos e contra o Partido Comunista. África tinha as suas riquezas. Como é que ele viveu no exílio, e à distância, o desenrolar dos acontecimentos? Foi acompanhando? O meu pai e eu escrevíamo-nos todas as semanas. Eu descrevi-lhe o PREC todo, mas com um certo humor, com que nos defendíamos. Mas ele também tinha curiosidade de saber como estava a funcionar a democracia. O seu pai mostrava algum arrependimento nas cartas que lhe escrevia? Não era arrependimento. Era uma enorme angústia de saber onde teria errado tanto, de saber como é que poderia ter feito melhor. Isso é uma dúvida que lhe ficou, aliás escreveu logo o “Depoimento”. Mas ele nunca se revoltou contra o povo. No exílio, recebeu cartas de pessoas de norte a sul do país que não o conheciam. Na sua opinião, qual foi o maior sucesso do 25 de Abril?

Qual foi o maior falhanço? A crise económica não foi por causa do 25 de Abril. Aconteceu na Europa, aconteceu na América. O maior falhanço para mim foi a Assembleia... Eu, às vezes, não gosto da maneira como são os debates. Todos falam uma linguagem tão própria, as ideias entrecruzam-se tão pouco, é uma espécie de cassete. Acha que a democracia não soube produzir elites? Acho.

µ

O meu pai não levava a mulher e os filhos a visitar Salazar, como muita gente fazia. Lembro-me de que o Adriano Moreira lhe foi apresentar a noiva. A minha mãe nunca foi passar uma tarde com Salazar, mas havia um grupo de senhoras que ia

Tem exercido sempre o seu direito de voto? Tenho. Mas não voto sempre nos mesmos, voto por um programa de que goste. Já votei extrema-esquerda, já votei Bloco de Esquerda, porque estava contra os outros. No Partido Comunista nunca votei. Elegeu os Presidentes da República? Nos últimos Presidentes votei em branco, porque não sabia o que eles iam ser como Presidentes. Mas elegeu algum Presidente depois do 25 de Abril? O Eanes. Gostei dele, é um homem sério, e vi o Eanes ali em cima do carro [na campanha eleitoral de 1976, em Évora]. Como vê o país no momento atual? Sinto que os governantes se governam a si próprios. Hoje em dia há uma corrupção que não existia antes. Não vejo ideais em ninguém. É por isso que admiro o Cunhal, nunca quis ter uma casa nem viver burguesmente. O seu pai admirava Salazar? Era muito crítico, mas admirava-o. Tinham uma relação próxima? Não. Não eram amigos nesse sentido. O Salazar achava que o meu pai era um incómodo. Conheceu Salazar? Não. O meu pai não levava a mulher e os filhos a visitar Salazar, como muita gente fazia. Lembro-me de que o Adriano Moreira lhe foi apresentar a noiva. A minha mãe nunca foi passar uma tarde com Salazar, mas havia um grupo de senhoras que ia. ^

26 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


Foram & voltaram DEPOIMENTOS RECOLHIDOS E ESCRITOS POR ALEXANDRA SIMÕES DE ABREU

Dez figuras, dez histórias, em trajetos cruzados. Uns saíram para o exílio forçado e regressaram a Portugal após a revolução; outros deixaram o país já em democracia, desiludidos com o estado das coisas e só voltaram quando os ânimos acalmaram. Uns foram presos (mas torturados só na ditadura). Eis o testemunho das suas vivências — antes, durante e depois do 25 de Abril. 25 Abril 40 anos | 27 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FO R A M & VOLTAR A M

JÚLIO POMAR

NAQUELA ALTURA ERA QUASE INSTINTIVO SER COMUNISTA Esteve preso quatro meses. Fez o retrato dos companheiros de cela. Mas quando se deu a revolução estava já afastado da atividade política, dedicando-se muito mais à vida artística e cultural, que vivia intensamente, em Paris, onde estava desde 1963. Hoje, diz que olha com outros olhos para um tempo em que não percebia quem não era do PCP

87 anos Pintor

N

asci num meio de tendência republicana, já de esquerda. Entrei para o Partido Comunista Português (PCP) não tinha 20 anos sequer.

Quem me levou foi o Guilherme de Carvalho, um militante de uma família burguesa do Porto que entrou na clandestinidade muito cedo e que acabou por morrer em Peniche. Naquela altura era quase instintivo ser do PCP, nem percebia como é que não se era do PCP. A guerra ainda estava em todo o seu esplendor, havia o fenómeno das resistências que era, evidentemente, posto em grande foco. Não é por acaso que pinto um quadro chamado “Resistência”.

Mas a minha ação não era só feita através da pintura. Eu era militante ativo. Tinha reuniões de carácter político, primeiro no quadro do PCP e depois no quadro do Movimento de Unidade Democrática (MUD) juvenil, que era a tentativa de uma organização legal. Participei em muitas reuniões clandestinas, com todo o seu rigor e o seu teatro. Para que tudo fosse dificilmente registado, cada pessoa tinha um nome de guerra. Tive vários. Cheguei a ter

o apelido Marques. Álvaro Cunhal foi sempre Duarte. Os olhos com que olhamos hoje são completamente diferentes dos daquela altura, em que se vivia um clima com censura, em que os livros eram peneirados e a informação mais condicionada. A pintura forçosamente romantizada… Fui preso na qualidade de membro da comissão central do MUD juvenil, da qual fazia parte Mário Soares. O motivo invocado da prisão, do julgamento e das condenações foi a

28 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


Júlio Pomar à porta do seu ateliê-museu, em Lisboa FOTOGRAFIA DE JOSÉ VENTURA

divulgação de notícias falsas ou tendenciosas. Era sempre a mesma coisa. Dos membros da comissão fui o último a ser preso. Estava em viagem pelo país, para entrar em contacto com todas as comissões. Fui detido no decurso dessa viagem, em Évora. Estive preso quatro meses. Como já era conhecido a polícia caprichou em ter um comportamento não criticável. Éramos mais de 20 numa cela. Fazíamos cursos, como jovens empreendedores. Eu fazia um de iniciação

µ

Em Paris, em 1963, sentia que uma atividade política pura e dura estava longe de me encher as medidas. Não sou um animal político

às artes plásticas. Íamos ensinando uns aos outros o que sabíamos. Fiz os retratos da maior parte dos meus companheiros de cela e ofereci-lhos. Quando saí, era para acabar de pintar os frescos que tinha iniciado no Cine-Teatro Batalha, no Porto, mas, entretanto, o governo mandou apagá-los. Vou viver para Paris em 1963, numa altura em que os quadrecos que pintava já davam para a renda da casa. Diminui a minha atividade política e aumenta a cultural e artística. Fui-me afastando aos poucos do

partido. Estava mais focado no meu trabalho. Sentia que uma atividade política pura e dura estava longe de me encher as medidas. Não sou um animal político. Por pura coincidência, vivi cá o dia 25 de Abril de 1974. Tinha comprado um apartamento em Miraflores, um bairro ainda em construção, e estava de partida para Paris. Por acaso liguei para um amigo, o Manuel Torres, e ele deu-me a notícia. Andei a festejar nesse dia e nos seguintes. Fiquei cá um mês.

A altura do PREC foi passada quase toda em Paris. No verão quente vim cá várias vezes. Via-se o país a mudar e a querer acontecer. Todo o processo que não se tinha dado, a dar-se. A minha ideia é que havia uma grande imaturidade e incapacidade de enfrentar a situação tal como ela estava. Havia o recurso a clichés. Não via com bons olhos. O otimismo seria mais um querer ser otimista do que uma constatação de. Não fui exilado. Saí porque quis, quando quis e regressei quando quis. ^ 25 Abril 40 anos | 29

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FO R A M & VOLTAR A M

JOSÉ MIGUEL JÚDICE

DOU POR BEM EMPREGUE O TEMPO QUE ESTIVE PRESO Festejou o 25 de Abril com um cálice de Porto, mas defendia que Portugal se chamasse Lusitânia e que a capital fosse transferida para Luanda. Foi detido a 28 de setembro de 1974 e foi na cadeia de Caxias que conheceu o homem que lhe abriu a porta do escritório onde ainda hoje exerce advocacia

64 anos Advogado

E

m abril de 1974 era assistente universitário e dava aulas de ciência política e direito constitucional no primeiro ano da faculdade de direito, em Coimbra. No dia 25 fui acordado às 8h da manhã por um amigo, Vieira de Andrade, que apareceu em minha casa com a mulher. Disse-me que tinha havido uma revolução durante a noite. Abrimos uma garrafa de vinho do Porto

e fizemos um brinde ao fim do regime. Nessa altura não fazíamos a mais pálida ideia do que se tinha passado, mas tínhamos uma certa esperança de que o general Spínola estivesse envolvido. Sentimos que acabava uma coisa em relação à qual éramos brutalmente contra. Achávamos que Portugal era um país colonialista e éramos contra o statu quo. Considerávamos, também, que o regime dava um poder desmesurado aos patrões e que não podia haver justiça social se a banca fosse privada. E defendíamos a reforma agrária. A terra devia ser trabalhada por quem a tratava. Hoje não acho isso sensato, mas na altura tinha 24 anos. Fui político profissional durante algum tempo,

tentando lutar por aquilo que me parecia ser a solução mais adequada para o país. E que passava por criar um Portugal não colonial em que a capital fosse para Luanda e em que cada um dos territórios devia ter o mesmo estatuto. Defendíamos que passássemos a ter o nome de Lusitânia. Era uma visão muito baseada no pensamento de Norton de Matos, e também nas ideias que Spínola defendia em “Portugal e o Futuro”. Por isso fizemos o Movimento Federalista Português, que procurou ter pessoas ligadas aos mais variados sectores. Fui preso a 28 de setembro de 1974. Estive em Caxias três meses e meio. Numa cela onde deviam estar sete, estávamos 14. Ao fim de 40 dias pude

receber visitas da família e contactar um advogado. Dou por bem empregue os três meses e meio que estive preso. Foi uma grande lição de vida. Quando fui bastonário da Ordem dos Advogados fiz a primeira homenagem, e última, aos advogados que defenderam presos políticos antes e depois do 25 de Abril. É intolerável ter havido presos políticos, antes e depois. Voltei a ser preso, por um dia, a seguir ao 11 de março e aí já senti que a atmosfera era muito diferente. Disseram-me que eu já não saía e que se houvesse outro golpe semelhante iam às nossas celas e fuzilavam-nos. Em agosto de 1975 fui sumariamente demitido da função pública sem poder defender-me. Deixei

30 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FORAM & VO LTARAM

µ

Fui sumariamente demitido da função pública em 1975. Deixei de ter ordenado, do qual vivia. Tinha dois filhos e decidi ir embora

José Miguel Júdice regressou a Portugal no início de 1976. Ao chegar à fronteira meteu-se na bagageira do carro, para entrar como saiu... incógnito FOTOGRAFIA DE TIAGO MIRANDA

de ter ordenado, do qual vivia. Tinha dois filhos e decidi ir embora. Sai em setembro. Primeiro fui sozinho. Aparentemente não havia nada contra mim, nem sequer tinha termo de identidade e residência, mas temia que o meu nome estivesse na fronteira. Nessa altura a revolução estava a acelerar brutalmente. Não quis correr riscos. Fui ter com um contrabandista. Passámos a pé, numa zona sem ninguém. E se alguém nos visse dizíamos que íamos comprar chocolates ou caramelos! Tencionava ir para o Brasil. Mas quando cheguei a Madrid, estava lá muita gente a tentar mudar o estado das coisas e resolvi ficar e dar uma ajuda. Vivi três meses numa casa de freiras, num quarto com a

minha mulher e os meus dois filhos. Nessa altura fazia parte do gabinete técnico-político do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), fazia análise política e um programa do governo, caso algum dia o MDLP chegasse a Portugal. Com o 25 de novembro, a minha família veio logo mas eu ainda estive um mês a ver como paravam as modas. Regressei em janeiro de 76, de carro. Quando cheguei à fronteira meti-me na bagageira. Comecei a tentar arranjar emprego e devo a minha vida a ter sido preso, porque foi na cadeia que conheci António Maria Pereira, que me convida a entrar para o escritório de advogados, onde ainda estou. ^ 25 Abril 40 anos | 31

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FO R A M & VOLTAR A M

ANTÓNIO BARRETO

ERA MAIS RADICAL DO QUE O PCP NA REVOLUÇÃO MAS MAIS LIBERAL NA CONVERSÃO Viveu 12 anos na Suíça, fugido à tropa, obcecado com a ideia de voltar a Portugal e fazer política. Ficou conhecido como o ministro que travou a reforma agrária, mas acabou por dedicar-se à vida académica. Do 25 de Abril, o melhor foi a liberdade, a saúde e o lugar das mulheres na sociedade. O pior, a total incapacidade de o país se governar e de haver discussões racionais entre adversários

71 anos Sociólogo

E

stava em viagem, num comboio, algures entre Colónia e Amesterdão, na madrugada de 25 de Abril de 1974. Só soube que tinha acontecido algo no dia seguinte, ao

passar por uma televisão no hotel onde fiquei instalado. De repente vejo imagens de soldados que me fazem lembrar Portugal. Fiquei excitado. Pedi para me traduzirem pequenas notícias dos jornais, mas só tive dados mais concretos quando fui ter com o meu irmão Paulo, que vivia a poucos quilómetros de Amesterdão. Fizemos vários telefonemas. Fui a Paris, onde já se organizavam camionetas de portugueses que queriam ir para ou a Portugal. E quando voltei a Genebra, onde vivia exilado

há 12 anos, os meus amigos encontravam-se divididos e especulavam. Era um golpe de esquerda ou de direita? Era Kaúlza ou Spínola? Fiquei quase convencido de que não era a direita. Por intuição. Uma coisa de direita, à séria, fazia-se em meia hora e estava feito. E de hora a hora havia um acontecimento novo. Só consigo vir a Portugal em meados de maio. Nessa altura tenho sentimentos misturados. Um enorme entusiasmo, alguma perplexidade e ao mesmo tempo familiaridade. Saía

de casa e alguma coisa acontecia, individual, coletiva, boa ou má. Estive 15 dias em Portugal. Dois ou três dias em Lisboa a tentar resolver a questão militar — eu era refratário — e a do passaporte. Depois rumei ao Porto, para ver os meus pais. Entre o Porto, Vila Real e Régua passo cinco dias de puras emoções. Conheci gente da família que nunca tinha visto. A PIDE tinha ficado com correspondência entre mim e os meus pais, onde havia fotos dos novos familiares.

32 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FORAM & VO LTA RA M

A minha primeira experiência política pós-25 de Abril aconteceu logo na noite em que cheguei e foi muito esclarecedora. Fui a uma reunião do Movimento de Esquerda Socialista (MES) onde se discutia a ida para Nova Iorque de Jorge Sampaio como embaixador de Portugal na ONU. O objetivo de Mário Soares era que Sampaio tratasse da descolonização. Sampaio impôs como condição levar uma equipa composta por José Medeiros Ferreira, João Cravinho, Manuel de Lucena e eu. Mas 99% dos presentes naquela reunião estavam contra e diziam que Sampaio não devia servir a burguesia. Ele decidiu que não ia. Na minha cabeça havia uma pergunta constante: volto ou não volto de vez? Toda a gente queria a democracia, até os bons burgueses de classe média alta. Percebi que tinha um país ‘novo’ à minha frente. Quando entro no avião para regressar a Genebra, sento-me, fecho os olhos e, emocionado, disse em voz alta: “Pronto. Já está. Vou voltar.” Entretanto, resolvi passar uns dias de férias na Grécia. No dia da minha partida, os voos tinham sido cancelados, por causa de um golpe de Estado. Furioso, meti-me num comboio para o sul de Itália e lá consegui boleia num cargueiro, que ia para a Grécia. O barco ficou retido um dia e meio à frente do Pireu, até que de repente há uma enorme algazarra na tripulação e grita-se: “Podemos atracar, vai ser instaurada a democracia.” Tive o meu 25 de Abril em Atenas! Voltei definitivamente a Portugal, em agosto, com a certeza de que ia lutar pela democracia civil e não por

António Barreto, no Terreiro do Paço, à porta do então Ministério do Comércio e Turismo, primeira pasta que assumiu no Governo FOTOGRAFIA DE ALBERTO FRIAS

uma grande revolução de esquerda. Tinha entrado para o Partido Comunista Português (PCP) em 63 e saí em 69. Eu era muito mais radical na revolução, do que o PCP, mas muito mais democrata e liberal na conversão. Em janeiro de 1975 inscrevo-me no PS. Em setembro fui nomeado secretário de Estado do Comércio Externo, do VI Governo Provisório. No I Governo Constitucional fui ministro do Comércio e do Turismo, cargo que acumulei, em outubro de 1976, com a pasta da Agricultura e Pescas. Dois anos depois desentendime com o PS e com Mário Soares, por causa do que fizeram comigo e com a reforma agrária. Voltei a aderir ao PS em 86 e fui eleito deputado no ano seguinte. Abandonei a vida partidária e política em 1991. Mas, quando saí a primeira vez, em 1978, devia ter saído mesmo. Na política nunca se deve ficar com um pé dentro e outro fora. Devia ter ficado fora. Ter feito gestos em que não fui claro foram erros que me perseguiram a vida inteira. ^

µ

Em maio de 1975, na minha cabeça havia uma pergunta constante: volto ou não volto de vez? Percebi que tinha um país novo à minha frente. Quando entro no avião para Genebra, sento-me, fecho os olhos e, emocionado, disse em voz alta: pronto. Já está. Vou voltar

25 Abril 40 anos | 33 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FO R A M & VOLTAR A M

JARDIM GONÇALVES

ERA MELHOR QUE NÃO TIVESSE SIDO NECESSÁRIA UMA REVOLUÇÃO O engenheiro que se tornou banqueiro saiu do país, com autorização, para Madrid, e foi lá que aderiu à Opus Dei. Regressou a Portugal, em 1977, para integrar o conselho de gestão do Banco Português do Atlântico, mas só depois de ver o seu nome publicado em “Diário da República”

78 anos Banqueiro

F

ui engenheiro durante dez anos. Três na área da engenharia militar e sete ligado aos portos, hidráulica e obras. Em 1970, fui convidado a integrar o Banco da Agricultura, cujos acionistas eram grandes

proprietários do Alentejo e o Banco Popular Espanhol. Não tinha formação nem experiência nenhuma em economia. Deixei o Porto rumo a Lisboa para saber como é que um banco funciona. Nessa altura já tinha quatro dos meus cinco filhos. Fiz de tudo em estágio. Balcão, caixa, análise de risco, área de estrangeiros, etc. Em 1975, quando a Banca é nacionalizada, eu já era administrador. No dia 25 de Abril ouvi as notícias na rádio, saí de casa e fui para o banco, como habitualmente. Já tinha

havido o 16 de março... Eu acompanhava tudo aquilo que se ia passando, mas não tinha nenhuma atividade política. Nunca estive em nenhum partido, nem tive problemas com algum deles. Nem com o PCP. A revolução começou por ser um tema corporativo, os militares não aceitaram bem certas decisões do governo e depois, efetivamente, os tempos não estavam para a manutenção daquele regime e ele cairia de uma maneira ou de outra. Era melhor que não tivesse sido necessária uma revolução

como a do 25 de Abril, era melhor que o regime, ele próprio, tivesse feito a sua renovação, mas é muito difícil isso acontecer. Saio do país em 1975, porque o banco é nacionalizado. São nomeadas comissões administrativas, mas os até aí administradores dos bancos deviam estar disponíveis durante três meses para explicar operações. Decidi ficar. No entanto, percebi que à banca não voltaria e procurei regressar a empresas de engenharia. Fiz contactos, tive ofertas

34 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FORAM & VO LTA RA M

Jorge Jardim Gonçalves, no seu gabinete FOTOGRAFIA DE ALBERTO FRIAS

de emprego, mas todas elas não se concretizaram. As comissões de trabalhadores dificultavam a minha entrada ou os próprios empresários percebiam que eu poderia ser uma fonte de perturbação uma vez que representava o lado do capital colado ao anterior regime. Apercebi-me de que ia ter dificuldades em sustentar a família. Sabia que tinha o meu nome na fronteira, sabia que havia pessoas que tinham saído, através de herdades, rios, de variadas maneiras. Eu não queria seguir o mesmo caminho.

µ

Depois da nacionalização do banco, em 1975, expliquei ao tenente Rosário Dias: tenho familia, fiquei sem trabalho, quero ir a Madrid

Vivia na Estrela e o meu apartamento, mais exatamente o meu quarto, ficava mesmo em frente ao portão verde onde costumava ver o professor Marcello Caetano entrar e sair. Atravessei a rua, bati à porta e disse que queria falar com alguém porque precisava ausentar-me do país. Recebeu-me alguém em nome do tenente Rosário Dias. Expliquei-lhe: sou casado, tenho família, fiquei sem trabalho, não acredito que venha a ter emprego nos próximos dias, quero ir a Madrid.

Fui de carro, com autorização. Consegui trabalho no Banco Popular Espanhol. Primeiro fui sozinho, a minha mulher foi lá ter depois, com os filhos. Com a venda de uma casa na Foz, de um apartamento no Porto e com o meu ordenado conseguimos viver. A maior despesa eram os colégios dos miúdos. A minha ligação à Opus Dei dá-se nessa altura. Os colégios não eram da Obra mas tinham a orientação espiritual da Opus Dei. Entretanto, o Presidente da República faz a primeira visita de Estado, a Espanha. Nunca tinha visto o general

Ramalho Eanes. Henrique Granadeiro foi quem me indicou ao general Eanes, que andava com aquela tarefa, concertada com Mário Soares, de fazer regressar as pessoas a Portugal. Disse que só voltava se tivesse trabalho para sustento da minha família. Corria o ano de 1977. O ministro Medina Carreira manda-me um convite para integrar o Conselho de Gestão do Banco Português do Atlântico. Só voltei depois de ver o meu nome publicado em “Diário da República”. Estive no BPA até sair para o Banco Comercial Português. ^ 25 Abril 40 anos | 35

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FO R A M & VOLTAR A M

MÁRIO RUIVO

ESPERO MORRER COMO PESSOA VINCADAMENTE DE ESQUERDA Fez parte do grupo da “Seara Nova”, foi militante do PCP e deu guarida a muitos portugueses no exílio, sobretudo em Itália, onde viveu de 1961 a 1974. Entre eles, o seu grande amigo Mário Soares. No dia 25 de Abril foi à televisão italiana explicar o que se estava a passar em Portugal

86 anos Biólogo

N

asci em 1927, em Campo Maior. Acompanhei as vicissitudes do meu pai e avô que fizeram parte dos movimentos para a implantação da república. Consta que quem hasteou a bandeira republicana lá na terra foi o meu pai.

Vim sozinho para Lisboa, para casa de um tio materno, onde fui preso pela PIDE em 1947, juntamente com outros membros da Comissão Académica de Lisboa do MUD Juvenil, Mário Soares, Zenha e Fernando Pulido Valente. Estive no Aljube e depois fui para Caxias. Saí do país em duas ou três circunstâncias conjunturalmente diferentes. Da primeira vez, saio porque sempre me interessei cegamente pelo pensamento científico, pela investigação. Saí num navio de investigação da Sobornne, que passou

pelo Tejo. Percebi que não podia trabalhar cá porque não tinha as “garantias de idoneidade moral e cívica”. Mas saí também porque tinha a perspetiva de que estando fora poderia continuar a minha formação científica e simultaneamente contribuir para pôr fim ao regime. Fui correio, divulguei informação, fui solidário com muitos que saíram para o exílio. Fiz parte do Partido Comunista, com grande honra. Em meados dos anos 50, volto a Portugal para trabalhar no Instituto de

Biologia Marítima. Nessa altura, reintegro-me nos movimentos que lutavam contra o regime. Até que um dia o diretor do Instituto chama-me e diz: “Houve um homem da PIDE que veio cá ver o que é que fazes.” As coisas estavam complicadas e como tinha um convite pessoal da FAO — Food and Agriculture Organization, em Roma, decidi aceitar e fui estudar as sardinhas. Fiquei em Roma de 1961 a 1974. No dia 25 de Abril recebo uma chamada de um amigo que estava a acompanhar a situação em Portugal. Disse de que tinha eclodido

36 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FORAM & VO LTA RA M

em Lisboa um movimento militar, cuja orientação não era imediatamente discernível mas que nos levava a crer que poderia ser esperada abertura para um regresso de Portugal à liberdade e à democracia. O que foi confirmado. O 25 de Abril para os italianos é o dia da libertação da ocupação nazi alemã. Uma vez que eu já lá estava há bastante tempo e tinha criado o Comitato Italiano de Solidarietà con il Popolo Portoghese, fui convidado para ir à televisão fazer uma apresentação e tentar explicar o que se estava a passar em Portugal. Antes de partir para Itália estive envolvido na “Seara Nova”, que tinha duas estruturas paralelas. O comité da redação, que evidentemente tinha de organizar e arranjar materiais e inventar coisas para substituir os frequentes cortes da censura, e as atividades clandestinas, ligadas a vários tipos de movimentos. Quando fui para Roma ia mandatado de certo modo para agir em nome do grupo político da revista. Tive muitos encontros clandestinos, muita gente veio bater-me à porta. O sofá de minha casa era chamado “o sofá da unidade”. Dormiu lá toda a gente. Católicos progressistas, socialistas — António Brotas, Alçada Batista, Salgado Zenha, Mário Soares, muitos... Esse período permitiu-me no plano científico, mas sobretudo ideológico e intelectual, ter uma perceção da evolução do mundo e da evolução das Nações Unidas em que estive ativamente envolvido como profissional. Tive grande noção do processo de descolonização, mantive

Mário Ruivo, nas instalações do ministério do Ambiente, onde preside ao Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável | FOTOGRAFIAS DE ALBERTO FRIAS

µ

Durante a década de 60, muita gente bateu-me à porta, em Itália. Em minha casa, o sofá era chamado ‘o sofá da unidade’. Dormiu lá toda a gente, incluindo Mário Soares

contacto estreito com os movimentos de libertação e com os seus líderes, como Agostinho Neto, Amílcar Cabral… Deu-me uma perspetiva não só do estado do mundo, mas do papel importantíssimo do sistema das Nações Unidas. Regressei a Portugal no dia 27 de abril de 1974 com a mulher de Manuel Tito de Morais e pedi autorização à FAO para me ausentar durante uns dias. Regressei ao meu círculo da “Seara Nova” e participei ativamente em manifestações, que culminou comigo no cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, no V Governo Provisório, a convite de Costa Gomes e de Vasco Gonçalves. Durou pouco mais de um mês. Espero morrer como pessoa de esquerda, acentuadamente de esquerda, convictamente socialista mas aberta à evolução do mundo. Uma coisa são as ideias, outra, que sempre me interessou, é como podemos construir instituições que reduzam os conflitos e que ajudem a encontrar soluções. Participei ativamente em negociações complexas das Nações Unidas e aprendi bastante com isso. Hoje, quando me perguntam o que faço respondo: tento fazer flutuar as jangadas. A gente põe a bordo o que puder e depois vê onde é que desembarca. ^ 25 Abril 40 anos | 37

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FO R A M & VOLTAR A M

LEONOR XAVIER

NÃO ERA FASCISTA NEM DEIXAVA DE SER. VIVIA NUM MUNDO À PARTE Em Portugal viveu sempre num ambiente fechado e protegido. A primeira vez que viu um comunista foi Octávio Pato, na televisão. Leonor Xavier tornou-se uma outra mulher, depois de viver 12 anos no Brasil

71 anos Escritora

T

inha três filhos, com três, cinco e oito anos, quando se deu o 25 de Abril. Vivia na Rua dos Remédios à Lapa e era casada com um professor assistente da Faculdade de Direito, especialista em direito fiscal, que durante os últimos 40 dias do governo de Marcello Caetano foi secretário de Estado do Planeamento. Foi um amigo que telefonou às 7h da manhã a avisar-nos:

“Há uma revolução, não saiam.” Na altura fazia parte do grupo de pessoas que estavam num certo lugar dentro da sociedade portuguesa e que não tinham consciência da política. Eu fui criada num ambiente onde não se discutia nem política, nem religião, nem dinheiro. A minha consciência política só surgiu no Brasil, onde percebi que o buraco era mais abaixo! Eu e o meu marido fomos algumas vezes a Londres ver os filmes proibidos. Sabíamos que muitas coisas não passavam cá. Mas fazia parte de uma cultura onde se convivia com isso. Nunca vivi especificamente perseguida. Fiz as greves na Faculdade de Letras como toda a gente da minha geração, mas não fui presa por estar na cantina universitária.

Depois do 25 de Abril ficámos aqui quase um ano. O meu marido foi saneado da Faculdade de Direito, mas isso não afetou a nossa vida, inclusive teve bastante trabalho como jurista. Partimos para o Brasil, por um impulso. Ele tinha a tese de doutoramento publicada no Brasil e em dezembro de 1974 foi lá fazer uma conferência, onde surgiram convites. Aceitou ser professor da (PUC) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ele seguiu o impulso da mudança para uma vida diferente e eu aderia, sem hesitar, às decisões do meu marido nas questões essenciais. Fomos a seguir ao 11 de março de 1975. Diz-se que nessa altura houve emigração política, mas, sobretudo, houve emigração económica. No

nosso caso não foi nem uma coisa nem outra. Tínhamos 30 anos e uma respiração maior do que o país onde vivíamos. Estávamos numa fase de coisas novas e diferentes e o Brasil era muito tentador. Lembro-me de ter ficado muito emocionada, logo que cheguei, por ver tudo escrito em português. Chegámos ao hotel quase à hora do almoço e fiquei de boca aberta com o lado afetuoso dos brasileiros e com o movimento de uma cidade com 10 milhões de habitantes. Foi uma golada, que já deu o tom, o mote para os anos que vivi no Brasil. Antes de partir, nunca tinha feito nada profissionalmente. A minha profissão era a devoção ao meu marido. Havia essa absoluta dedicação a um projeto de família. Eu fazia as coisas que faziam

38 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FORAM & VO LTARAM

as mulheres da minha geração, mas lia muito, lia os autores franceses e os clássicos. A sensação que tinha era como se metade do mundo estivesse pouco iluminado para mim. Eu não acompanhava as coisas, não sabia tudo o que de clandestino se passava na sociedade portuguesa. A primeira vez que vi um comunista foi o Octávio Pato, na televisão. Não era fascista nem deixava de ser. Vivia num mundo ao lado. O meu crescimento de cidadania aconteceu no Brasil. Um dia, num jantar, o então marido da Ana Maria Niemeyer, filha de Oscar Niemeyer, tinha um jornal, o “Copa Centro”, e perguntou-me se queria escrever sobre a noite. Aceitei. Logo a seguir fui a um jantar onde estava o Nuno Rocha que na época era diretor de “O Tempo” e que me convida para ser correspondente no Rio. Voltei a aceitar. Em 1979 estava no Rio. Entretanto comecei a escrever no “Mundo Português”, que na altura era do Champalimaud e da família Espírito Santo. Depois fui correspondente do “Diário de Notícias” e escrevi em vários jornais e revistas brasileiros. Em 1984 separei-me. Três anos depois regressei a Portugal. Um dia acordei e pensei, vou-me embora. Quando voltei, em 1987 achei o país difícil. As pessoas falavam por metáforas e eram raras aquelas que abriam mão do seu dia a dia para ajudar. Mas há um sentimento de pertença. Sempre houve. Quando vinha a Portugal pensava, eu pertenço aqui. Inventei o conceito de pátria amada. Passei anos da minha vida a escrever sobre os portugueses do Brasil e a escrever sobre o Brasil para Portugal. A gente tem um chão, tem uma identidade. ^

Leonor Xavier, no jardim da Estrela, onde passeava os filhos FOTOGRAFIA DE ANA BAIÃO

µ

A minha consciência política só surgiu no Brasil, onde percebi que o buraco era mais abaixo! A minha profissão era a devoção ao meu marido 25 Abril 40 anos | 39

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FO R A M & VOLTAR A M

MÁRIO DE CARVALHO

HOUVE PERSPETIVAS ERRADAS QUE CULTIVEI E TRANSMITI Aos 15 anos ficou marcado pela prisão do pai. Aderiu ao PCP, foi preso e torturado. Acabou por fugir de Portugal, ajudado por estranhos. Diz sentir uma enorme dívida de gratidão para com o povo sueco que o acolheu e ajudou. Mas aquele não era o seu país e por isso regressou logo após a revolução de 1974. Encontrou um país em festa, com muita utopia

69 anos Escritor

E

m 1974 estava na pequena cidade de Lund, no sul da Suécia. A minha mulher, mãe e filhas tinham chegado há pouco tempo. Quando recebi a notícia, era manhã cedo e tínhamos acabado de vir

do curso de sueco. Alguém nos chamou de uma janela, era um português que vivia com uma sueca, e gritou “houve uma revolução em Portugal”. A apreensão era grande. À noite conseguimos encontrar um apartamento vazio que tinha um grande rádio. Sintonizamos a emissora nacional portuguesa e, de repente, a voz do José Afonso enche o apartamento vazio. Foi dos momentos mais comoventes da minha vida. Decidimos voltar. Estávamos com asilo político e o Estado sueco já nos tinha dado uma casa. Mas punha-se

outro problema. O meu passaporte era especial para estrangeiros e só me permitia viajar na Escandinávia. Até essa altura nunca tive um passaporte legal. Fomos até ao consulado de Copenhaga. Conseguimos um passaporte para regressar a Portugal mas passando por países específicos. Chegámos em maio. Havia uma espécie de política do sorriso em todas as pessoas, de afabilidade no trato, que não era habitual. Era como se houvesse um banho de felicidade. Havia altos e baixos fluxos e refluxos. A história

acelerou espantosamente e andava à solta. Houve ações precipitadas, alguma leviandade, alucinação, próprias das revoluções. Muita ilusão, muita utopia. Disse muito disparate. Houve perspetivas erradas que cultivei e transmiti e que não o faria hoje. Mas o balanço é positivo. Quando tinha 15 anos fiquei muito marcado pela prisão do meu pai. Estava longe de supor que ele estivesse ligado ao PCP. Foi uma grande surpresa e tive de reconfigurar as minhas perceções. Participei nas Juntas de Ação Patriótica, que reunia várias tendências políticas de resistência

40 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FORAM & VO LTA RA M

antifascista. Só me ligo ao PCP em 1965, depois de um belo dia, em que Saldanha Sanchez me apanha no corredor da faculdade de direito de Lisboa e me diz: “Vamos falar de politica?” Fui preso a primeira vez em 1971. Vivia na Rua Andrade, perto do Mercado do Forno do Tijolo. Era um sábado. Preparava-me para ir ver um filme, “A Confissão”, com o Yves Montand. Saio para ir buscar o carro e reparo que há um fulano que não fazia parte da rua. Quando ia entrar no carro aparecem outros tipos. Meteram-me num táxi e fui para a Rua António Maria Cardoso. Estive 11 dias sem dormir. Primeiro três, depois seis e mais dois. Batiam com força na mesa e tiravam-me a cadeira para não adormecer. Tinha de ficar de pé. Quando desfalecia, agarravam em mim e colocavam-me a andar de um lado para o outro. Uma vez bateram-me com o processo na cabeça. O que me custou mais foi

a sensação de eternidade. A incerteza sobre o fim daquela tortura... mas nunca tive medo de morrer. Fui condenado a dois anos de prisão maior, mas acabei por cumprir 18 meses. Estive em Caxias e em Peniche. Tive liberdade provisória e aproveitei esse ano para fazer o estágio. Mas o Supremo acabaria por confirmar a minha pena e voltei a ser detido em 1973. Mais seis meses. Quando saio em liberdade condicional, como estava no serviço militar, soube que ia regressar ao exército mas para a companhia disciplinar de Penamacor, que era uma espécie de extenso da cadeia militar. Pareceu-me demais. Foi aí que procurei sair do país. Ainda hoje não sei ao certo quem me ajudou. Não foi ninguém do PCP e confesso que sinto alguma mágoa por isso. A pessoa que me propiciou os primeiros contactos foi o Vítor Lima, economista. Tinha estado

Mário de Carvalho voltou à rua onde foi preso pela primeira vez, perto do Mercado do Forno do Tijolo, em Lisboa FOTOGRAFIA DE JOSÉ VENTURA

µ

Fui preso em 1971. Estive 11 dias sem dormir. O que me custou mais foi a sensação de eternidade. A incerteza sobre o fim daquela tortura

preso comigo em Peniche. Nunca mais o vi. Só a minha mulher sabia da minha partida. Levou-me a Alcobaça. Aí alguém faz-me uma pergunta, eu dou uma resposta. Apresento um papel meio cortado, ele apresenta a outra parte. Encaixam. Estava feita a ligação. Levou-me de carro até Pombal. Fui apresentado ao passador, que tinha cara de índio. Fomos de comboio até ao Porto, apanhámos uma camioneta para Chaves e aí tomámos um táxi para um ponto junto à fronteira com Espanha. Atravessei uma ribeira a pé e fui ter a uma venda, onde um tal Pepe vivia por cima. Estive lá uns dias até que veio um casal de madeirenses, que mal compreendia, e fui com eles de comboio para Paris. Mas eu queria ir para a Suécia, onde já estavam os meus cunhados. Estive dois meses e tal em Paris, até conseguir documentos falsos. Entrei na Suécia com o passaporte do meu pai. ^ 25 Abril 40 anos | 41

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FO R A M & VOLTAR A M

JOSÉ MANUEL ESPÍRITO SANTO SILVA

DEPOIS DE SAIR DA PRISÃO EU E OS MEUS IRMÃOS ESTIVEMOS ESCONDIDOS Foi enviado para Caxias a 11 de março de 1975, juntamente com os irmãos, nos próprios carros do banco. Depois foi para Monsanto, onde a família decorou parte da prisão. Saiu do país e só voltou em 1992

68 anos Banqueiro

D

ois dias depois do 25 de Abril o banco abriu. Na época, eu era subdiretor e o meu irmão Manuel Ricardo diretor. O ambiente estava mais tenso. Começaram a organizarse os sindicatos. E, apesar de vários políticos hoje responsáveis andarem a dizer mal dos banqueiros

e dos industriais — na rádio insultavam-nos e aos Mellos, aos Champalimauds —, o ambiente não era de vingança. Quando se deu o 28 de setembro, tomámos algumas precauções. A minha mulher e as minhas duas filhas foram para Madrid, onde estiveram três dias. Voltaram e a vida continuou normalmente. Os problemas só surgem a partir do 11 março de 1975. No dia em que fomos presos, estávamos no banco, quando às cinco da tarde o tenente Rosário Dias chegou e nos prendeu. Levou-nos para Caxias, nos nossos próprios carros. Estivemos três meses em

Caxias, numa cela pequena. Ficámos os 14 sempre juntos. Depois levaram-nos para a prisão de delitos comuns, em Monsanto, onde estivemos mais mês e meio. Quando chegámos a Monsanto íamos de blazer vestido e os outros presos colocaram-nos logo a alcunha de ‘os bacanos’. O diretor de Monsanto tinha sido durante vários anos diretor da prisão de Pinheiro da Cruz que fica ao lado da Herdade da Comporta e o meu irmão Manuel Ricardo convidava-o para ir lá ao fim de semana. Quando nos viu ficou espantadíssimo. Recordo que, no dia em

que chegámos, havia uma greve de fome por causa de dois presos que estavam no ‘segredo’. Para nós esse era o primeiro dia em que podíamos comer a comida de casa. O Manuel Ricardo convenceu o diretor da prisão a deixar sair os dois presos que estavam no ‘segredo’. Isso caiu muito bem no meio dos outros presos. A partir daí ficámos ali com um grupo de amigos extraordinários, apesar de estarem todos presos por delito comum. A minha mulher ia visitar-me à prisão, tanto em Caxias como em Monsanto. A sala de visitas em Monsanto era horrível, por isso resolvemos

42 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FORAM & VO LTARAM

µ

Quando chegámos a Monsanto, em 1975, íamos de blazer vestido e os outros presos colocaram-nos logo a alcunha de ‘os bacanos’

José Manuel Espírito Santo Silva, na antiga sede do BES, na Baixa de Lisboa | FOTOGRAFIA DE TIAGO MIRANDA

comprar mesas, cadeiras, cinzeiros e arranjámos a sala da prisão. Também comprámos uma rede de voleibol e a bola para jogarmos Enquanto estivemos presos tentámos mudar o nome do banco. Era Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa e queríamos tirar o Espírito Santo para ficar só Banco Comercial de Lisboa. Mas foi o Banco de Portugal que na altura não autorizou por considerar o nome Espírito Santo muito importante internacionalmente. Eu e os meus irmãos saímos no dia 26 de julho de 1975. Logo que saímos as barricadas feitas

pelo sindicato do banco começaram a funcionar a ver se nos encontravam. Já prevíamos sair. Não havia qualquer má gestão do banco. A única coisa pela qual fomos julgados, foi o facto de um cliente estrangeiro ter aberto uma conta numa agência em Coimbra sem ter o número de passaporte e de identificação. Saímos com o passaporte apreendido e nessa altura as nossas famílias já estavam fora. Estivemos dois dias escondidos em casas de amigos. Alguns deles levaram-nos depois para fora de Portugal. Saímos pelo norte. Fomos para Ourense, na Galiza. Aí

estava um outro grupo de amigos que nos levou para Madrid. Fomos para casa do marquês de Deleitosa, que trinta e tal anos antes tinha estado em nossa casa com a família, por causa da guerra civil de Espanha. Estivemos em Madrid um mês a organizar a vida de cada um. Eu fui trabalhar para um banco, em Londres. Mas sempre com o intuito de, na primeira oportunidade, voltar a Portugal. Estive dois anos em Londres e quando o grupo se reestruturou fui para Lausanne, onde lancei a Compagnie Financière Espírito Santo. A primeira vez que regressei a Lisboa foi por causa do Rei de

Espanha que numa visita oficial tirou um dia para ir ver a minha mãe à Quinta do Peru. Na altura viemos os 11 filhos recebê-lo. Foi em 1978. Em definitivo só regressei quando o banco foi privatizado. Em 1986, foi autorizado o Banco Internacional de Crédito (BIC) e ponderei voltar nessa altura, mas tinha mais duas crianças nascidas na Suíça e o negócio tinha evoluído. A partir de 1992 resolvi mudar-me para cá. Porque o centro de decisão do grupo passou a estar em Lisboa. Em 1995, no enterro do meu irmão António, quando estava a sair do cemitério, sinto uma pessoa ao meu lado a olhar para mim. Era um preso com quem tinha estado em Caxias. Disse-me que soube do enterro de um Espírito Santo e achou que podia encontrar-me. Tinha-se tornado artista plástico e queria vender-me umas peças! ^ 25 Abril 40 anos | 43

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FO R A M & VOLTAR A M

MARIA DA PIEDADE MORGADINHO

ABANDONEI O MEU CURSO PARA SER FUNCIONÁRIA DO PCP Saiu nas barbas da PIDE com a filha mais velha ao colo. Esteve em França, na Bélgica, Checoslováquia e União Soviética. Mas foi na Roménia, juntamente com o (ex) marido Aurélio Santos, que mais anos serviu o PCP na clandestinidade. Ainda trabalha no partido

81 anos Funcionária do PCP

F

ui privilegiada por ter crescido numa família de sentimentos democráticos, antifascistas, com a minha mãe ligada ao Partido Comunista Português (PCP). Já eu estava na clandestinidade quando ela foi presa duas vezes. Isso influenciou

muito a minha vida, como o próprio ambiente de Aljustrel, onde nasci. Andava na escola primária quando assisti às manifestações, durante a guerra, em que as mulheres e os mineiros pediam pão e trabalho e eram brutalmente reprimidos pelas forças do fascismo. São imagens que marcam. Fiz o liceu em Beja, em casa de familiares — todos eles com cadastro na PIDE —, e depois vim para a Lisboa, para a Faculdade de Ciências, onde frequentei o curso de Biológicas. O meu primeiro ato público foi em Beja, aos 16 anos, num comício da oposição democrática de apoio à candidatura do

general Norton de Matos à Presidência da República. Aderi ao PCP em 1954. Três anos depois abandonei o meu curso no 3º ano e entrei para funcionária do partido. E continuo funcionária do partido até hoje. Vivi 17 anos fora do país, mas não fui na qualidade de exilada política para o estrangeiro. Quando saí de Portugal fui com tarefas definidas, concretas, determinadas pelo secretariado do comité central. Sai em 1957, nas barbas da PIDE, com a minha filha mais velha, que tinha sete meses. O controlo de toda a juventude que saísse do país era muito apertado.

Mas no verão de 1957 realizou-se o Festival Mundial da Juventude, em Moscovo, e a vigilância afrouxou. O partido decidiu que eu devia arriscar, porque era mais cómodo sair pelo aeroporto do que a salto, clandestinamente, com uma criança ao colo. Fui para França. Em 1956 tinha casado com Aurélio Santos, de quem estou divorciada agora. Ele foi diretor da Rádio Portugal Livre e membro da direção do partido. Tinha estado preso e todas as semanas era obrigado a apresentar-se na sede da PIDE. A saída dele foi preparada com a ajuda do Partido Comunista Francês, que lhe arranjou

44 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FORAM & VO LTA RA M

FOTOGRAFIA DE NUNO BOTELHO

µ

documentação falsa. Ele saiu depois de mim. Encontrámo-nos em Paris e fizemos o resto do percurso juntos, sempre com identificação falsa. Da França fui para a Bélgica, depois estive na Checoslováquia, a seguir na União Soviética e depois fui para a Roménia, onde estive mais tempo, de 1963 a 1974, ligada à Rádio Portugal Livre. Tudo isto decorrente das exigências e das necessidades do partido. Tive vários privilégios. Ter as minhas filhas sempre comigo, vê-las crescer, chegar à noite e, embora exausta de trabalho, poder deitar a cabeça na almofada, sabendo que não tinha a PIDE a bater-me a porta a

altas horas da madrugada, é algo que não tem preço. Por isso, tenho grande respeito por todos aqueles que foram perseguidos e forçados a exilar-se. E também por isso a nossa resposta era trabalharmos o mais possível e o melhor que sabíamos e empenhar todas as nossas energias numa tarefa que sabíamos ser muito importante. As nossas filhas sempre souberam que estávamos ali a desempenhar uma tarefa muito importante. Mas não sabiam o nosso nome, só ficaram a saber o nosso nome verdadeiro quando voltámos. Na madrugada de 24 para 25 quem estava de serviço era a camarada Veríssima,

Maria da Piedade Morgadinho, junto à sede do PCP, onde ainda hoje trabalha

Ter as minhas filhas sempre comigo, vê-las crescer, chegar à noite e saber que não tinha a PIDE a bater-me à porta, não tem preço que era a mais jovem. Ao começo da manhã, telefona para a nossa casa dizendo que qualquer coisa se estava a passar. Fomos para as instalações da rádio. Ligámos todos os aparelhos. Antes do meio-dia ouvimos na Emissora Nacional o relato sobre o que se passava no Largo do Carmo. Continuámos em escuta. Até que veio o comunicado do MFA. Aí saltámos, pulámos, rimos, chorámos. No dia seguinte recebemos a confirmação da revolução via partido. Fomos para França, ao consulado, com testemunhas, apresentar a nossa verdadeira identidade. Já com passaportes portugueses,

desembarcámos no aeroporto de Lisboa no dia 21 de maio. Não tínhamos ninguém à espera porque estivemos muitos períodos longos sem saber da família. Não sabíamos quem estava vivo ou não. Arriscámos, metemo-nos num táxi e demos o endereço de uns familiares. Quando chegamos à Visconde Valmor, a casa era num rés do chão, vimos as janelas abertas, os cortinados a esvoaçar e música lá dentro, pensámos “está tudo vivo, temos gente”. Foram momentos muito emocionantes. E, como chegámos à hora do almoço, foi lavar as mãos e sentar à mesa. ^ 25 Abril 40 anos | 45

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FO R A M & VOLTAR A M

JAIME NOGUEIRA PINTO

QUANDO VI O TANQUE NA RUA GARRETT PENSEI: PORTUGAL ACABOU! Defensor do império português e do Ultramar, Jaime Nogueira Pinto partiu para Angola depois da revolução. Já com um mandado de captura, fugiu para a África do Sul. Seguiu-se o Brasil e Espanha

Jaime Nogueira Pinto na Rua Garrett, em Lisboa, onde viu um tanque FOTOGRAFIA DE JOSÉ VENTURA

46 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FORAM & VO LTA RA M

68 anos Empresário

E

stava na tropa quando se deu o 25 de Abril. Liguei para o Estado-Maior do Exército e disseram-me para ficar em casa. Só ao fim da tarde é que fui para as ruas de Lisboa. Lembro-me de chegar à Rua Nova do Almada e ver um supermercado a ser saqueado. Depois vi um tanque a descer a Rua Garrett e pensei: Portugal acabou. Achava que o império ia desmoronar-se, como veio a acontecer, e eu pensava que não fazia sentido. Estive envolvido na criação de muitos partidos, como o Partido do Progresso, onde se juntou toda a gente que, na época, era da direita nacionalista. Todos esses grupos e eu próprio, no dia 26 de abril, estávamos ativamente a fazer tudo o que fosse possível para reverter um pouco a situação. Em julho de 1974 parto para Angola. Como toda a vida fui um defensor do império português e do Ultramar, achei que era a maior das vergonhas não ir lá e troquei com um camarada que estava mobilizado. Em Angola, com uma série de gente que lá estava e com a minha mulher, a Zezinha (Maria José Nogueira Pinto), que veio ter comigo, fundámos a Frente Revolucionária de Angola, um movimento resistente ao MFA. Depois

voei para o meu destino militar, Carmona. Entretanto, chega o 28 de setembro. À noite, a Zezinha foi aos correio telefonar para Lisboa e a tia Maria Pinto da Cunha disse que tinham ido procurar o pai do Eduardo. Sendo eu o pai do Eduardo, era um sinal. A partir daí preparámos a saída para a Namíbia e depois para a África do Sul, para eu não ser preso. Nem eu nem a Zezinha guiávamos, portanto não foi fácil montar um plano de evasão para percorrer mais de 2000 quilómetros de carro. Fui com o senhor Esteves, um fazendeiro nosso amigo, até ao Alto Dondo. Lá encontrámo-nos com a Zezinha, o Miguel Corte-Real, o Zé Penha Rodrigues e o Alfredo Aparício, que vinham de Luanda num outro carro. Depois confiámos na old

µ

altura era o comissário da África do Sul para a Namíbia. A Zezinha, que era muito previdente, tinha levado um vestido e um fato para mim, que vestimos. Instintivamente percebi que a melhor maneira de nos deixarem ficar era mostrar low profile e atenuar o papel político ativo. Passámos ali uns dias até que fomos levados para um campo de concentração, feito durante a II Guerra Mundial. Estavam lá cerca de 400 portugueses de Moçambique, envolvidos no 7 de setembro. Havia quem disputasse uma laranja e lutasse por uma maçã. Não era obrigatório trabalhar, mas aceitei ir para a cozinha descascar cebolas e batatas e a Zezinha foi para a lavandaria. Só se podia sair do campo com emprego e embora os empresários aparecessem todos os

voltámos a Pretória. Arranjei emprego numa empresa como tradutor. Depois mudámos para Joanesburgo, onde passámos um Natal, o primeiro do exílio. Um Natal triste e amargurado também pelo luto dos nossos sobrinhos que morreram num desastre. Entretanto, a Zezinha veio à Europa buscar o nosso filho Eduardo. Foi averbado ao passaporte dela como sobrinho, filho do meu cunhado que deu a autorização. No meio de tudo fomos participando na vida dos exilados políticos, tentando fazer qualquer coisa, seguindo tudo o que se passava até ao 11 de março. Como não deu em nada e eu continuava com mandado de captura, em junho de 1975, partimos para o Brasil, onde trabalhei com o António Champalimaud. Em junho

Confesso que custou-me regressar. Eu tinha sido educado e formado na ideia de Portugal ser um país grande, com importância...

boys networks. Passámos por Nova Lisboa e Sá da Bandeira até chegar ao Catequero. Aí, uma prima do Esteves chamou o marido que nos levou até à fronteira com a Namíbia, onde estava o sr. Banana, que nos deixou num ponto seguro, limpo de minas, para passarmos o arame fronteiriço. O sol nascia e começámos a caminhar pelo meio do capim em direção ao posto SAP (South African Police) para pedirmos asilo político. Os sul-africanos puseram-nos numa escola desativada onde dormíamos em colchões e onde iam chegando outros refugiados. Dias depois partimos para Oshakati e fomos chamados ao administrador, que na

dias com ofertas, eu não sabia fazer nada do que procuravam — eletricistas, marceneiros, canalizadores, cabeleireiros. A Zezinha, sempre expedita, conseguiu falar com o diretor do campo e explicou-lhe a nossa situação e porque não conseguiríamos sair. Ele pediu desculpa e disse: “How could you be with such a people?!” A Zezinha numa fúria respondeu: “Olhe a ‘such a people’ fez coisas extraordinárias, aguentou aqui as vossas costas durante muitos anos, quero ver sem ‘such a people’ o que é que vocês vão fazer!” Apesar de tudo conseguimos deixar o campo de Cullinan e

de 1976 fomos para Espanha. Colaborei na fase final dos movimentos clandestinos anticomunistas ELP e MDLP. Entretanto, a forma de voltar a Lisboa pela via legal era apresentar-me ao serviço, vestir a farda e ir umas semanas à tropa. Não aceitei. Se a alternativa era ser julgado, que me julgassem! Ficámos dois anos em Madrid, onde nasceu a nossa filha Catarina. Voltei para Portugal em 78. Fui julgado e absolvido, em Santa Clara, em 1981. Confesso que me custou regressar. Eu tinha sido educado e formado na ideia de Portugal ser um país grande, com importância, e isto tinha passado a ser um país pequeno. ^ 25 Abril 40 anos | 47

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


“Vi as portas da prisão abertas de par em par vi passar a procissão do meu país a cantar. Agora o povo unido nunca mais será vencido nunca mais será vencido Nunca mais nos curvaremos às armas da repressão somos a força que temos a pulsar no coração. Enquanto nos mantivermos todos juntos lado a lado somos a glória de sermos Portugal ressuscitado. Agora o povo unido nunca mais será vencido nunca mais será vencido.”

PCP

José Carlos Ary dos Santos “Portugal Ressuscitado”

48 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O primeiro Parlamento democrático A 25 DE ABRIL DE 1975, precisamente um ano depois da Revolução dos Cravos, os portugueses participam pela primeira vez numas eleições livres e universais. Foi a escolha da Assembleia Constituinte, à qual concorreram 14 partidos e movimentos cívicos. Descontando uma associação de Macau, de vida efémera, que elegeu o deputado pelo território, apenas seis forças ganharam assento em São Bento: PS (116), PPD (81), PCP (30), CDS (16), MDP (5) e UDP (1). Estes partidos marcaram os primeiros anos da democracia em Portugal, quando o quadro político-institucional estava longe de estabilizar. Os quatro primeiros atravessariam as décadas seguintes, chegando ao presente com expressão parlamentar. O MDP diluiu-se no PCP, e a UDP integra o Bloco de Esquerda. No dia das eleições de 1975, PS e PCP estavam já em barricadas opostas. Mas logo após o 25 de Abril ainda ensaiaram iniciativas conjuntas. São dessas forças os cartazes destas páginas, com slogans e mensagens que refletem bem o espírito da época. ^ PAULO PAIXÃO

25 Abril 40 anos | 49 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


25 Abril 40 anos | 50 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


JOSÉ PACHECO PEREIRA “OS PORTUGUESES INTERIORIZARAM O DISCURSO DE QUE NÃO HÁ FUTURO” ENTREVISTA HENRIQUE MONTEIRO JOANA PEREIRA BASTOS FOTOGRAFIAS ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

25 Abril 40 anos | 51 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT R EVIS TA

JOSÉ PACHECO PEREIRA

Q

uatro décadas após o 25 de Abril, o historiador e comentador político considera que não há ainda uma cultura democrática plena em Portugal. Aos 65 anos, José Pacheco Pereira diz que o país está a iniciar um longo ciclo de empobrecimento e que milhares de portugueses já não conhecerão vida melhor. O ainda militante do PSD teme o fortalecimento dos extremismos como reação à insensibilidade social dos “governantes criados em estufa”.

O Portugal que temos hoje é o país que, no 25 de Abril, esperava vir a ter? As pessoas que viveram aqueles momentos viveram-nos de forma tão imediata e tão intensa que a ideia de que havia um projeto é uma ideia construída um bocado a posteriori. Ninguém estava a imaginar o Portugal que queria. Só o fim do PREC é que permitiu esse processo. Até aí, a solicitação do imediato, do quotidiano e do conflito político duro, sempre no limiar da guerra civil, não o permitiam. De qualquer forma, Mário Soares tinha escrito “Portugal Amordaçado”, em que defendia o ‘Descolonizar, Democratizar e Desenvolver’, que depois foi o programa do MFA. O que aconteceu em 1974 e depois no PREC foi muito além dos três D. Há um saneamento profundo das estruturas do Estado, a nacionalização dos grandes grupos económicos, a reforma agrária, o controlo operário, o que na altura se chamava de conquistas da revolução. O que é aplicado é um programa que Cunhal tinha formulado e que, de alguma

maneira, estava implícito no acordo que o Partido Socialista estabelece com o Partido Comunista em vésperas do 25 de Abril. O PS chega ao 25 de Abril com um programa de Frente Popular, muito parecido em muitos aspetos com o programa do PC.

eleição do Soares. Só a partir dessa primeira volta e da revisão constitucional é que podemos considerar que esse ciclo político termina, por um processo duplo que é a vitória de Mário Soares para a Presidência da República e a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva.

E convencido de que era um pequeno partido. Até às eleições convence-se que o PC era muito maior... A influência do PS na vida política portuguesa foi muito moldada pela resistência ao PC durante o PREC. Não era nada que estivesse previsto e antecipado. O crescimento daqueles partidos nesse período deveu-se essencialmente à resistência ao Partido Comunista e, depois desse período, à inscrição no funcionamento do Estado e na Constituição de uma certa hegemonia da vida política partidária, destinada a favorecer PS e PSD em detrimento do PC. A verdadeira tática dos comunistas era o controlo do MFA. E, num certo sentido, isso só acabou quando acabou a influência militar no processo político, ou seja, no início da década de 80 e depois na primeira

Visto a esta distância, qual diria ser a maior conquista de Portugal no pós-25 de Abril? Sem dúvida a democracia política. Eu sei que isto é difícil de transmitir às gerações mais novas, mas, por exemplo, eu tinha uma espécie de tique, que era antes de chegar às casas em que vivia, ou onde estava escondido, tirava sempre as chaves do bolso com bastante antecedência, para poder deitá-las fora se me apercebesse que havia alguma coisa estranha à porta de casa, porque a questão das chaves era importante para a PIDE, para perceber os locais onde estávamos. Esse tique ficoume muitos anos depois. Se estiver num café, mesmo de costas, consigo perceber se está alguém atento ao que eu estou a fazer. Naqueles anos, particularmente quando se tinha uma atividade política

52 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


intensa, havia uma permanente sensação de risco. O principal resultado histórico do 25 de Abril não é um programa económico nem social. É político. Devolver aos portugueses a responsabilidade pelo seu próprio futuro, num país onde funciona a democracia e o primado da lei e onde as pessoas escolhem com liberdade, sem medo de emitir as suas opiniões. É evidente que nada disto é perfeito. Nós não temos plenamente uma cultura política democrática. Porquê? Há muitos aspetos que não são democráticos na nossa cultura política dominante, por exemplo a demonização da política e dos partidos, que vem de antes do 25 de Abril. Houve 48 anos de demonização da política e dos partidos. O elogio do consenso, a inexistência de um verdadeiro debate crítico, não apenas na área da política, mas também da cultura, por exemplo. É um país muito pequeno, toda a gente se conhece, todos são primos, os bens são muito escassos e a fome é muita. Não temos um hábito genuíno do debate. Há muito medo do confronto. Quem está numa universidade a fazer uma tese sabe que tem de ter algum cuidado se fizer uma recensão crítica de alguém que pode estar no júri. De um modo geral, isto faz com que o nosso meio cultural, político e intelectual seja muito abafado. Não se respira um ar de grande liberdade, e isso é uma herança de 48 anos de sanção sobre o conflito. A riqueza das sociedades democráticas está na diferença, não no consenso. Acha que esse medo do conflito explica o facto de não haver sinais de violência ou revolta, apesar da crise profunda em que o país está mergulhado? O que eu acho mais perigoso é que é o discurso melhor para o populismo. A demonização da vida político-partidária e por outro lado uma espécie de sebastianismo e de populismo de espera. Esta espera um dia encontra alguém. Neste momento, se houver populismo, ele virá de alguém que passe bem na televisão. Estes processos são complexos, mas estamos a criar um mundo em que ou temos uma degenerescência cada vez maior do sistema político-partidário ou temos a criação de uma mitologia populista de quem fala verdade, não responde a interesses, parte a louça toda. Há quem queira colocar-se nessa posição.

O facto é que não tem acontecido em Portugal o que tem acontecido noutros países, que é o fortalecimento da extrema-direita ou da extrema-esquerda. Fazer a análise do fortalecimento da extrema-esquerda ou da extrema-direita apenas pelos resultados eleitorais engana. Temos de ver também outros indicadores. O que não há é uma extrema-direita nem uma extrema-esquerda organizada. Mas isso tem também a ver com a considerável hegemonia dos partidos do chamado arco da governação. Mas acha então que existe esse risco? Existe esse risco. E também acho que há risco de violência, mas não necessariamente a violência que temos visto na Grécia. E há risco de populismo vindo dos próprios partidos do sistema, PSD ou PS... É mais difícil por causa do estado em que os partidos estão hoje. O PSD e o PS estão estruturados com base numa burocracia política interna, o aparelho, que controla os

mecanismos de ascensão partidária. Mas já há um fenómeno unipessoal com aspetos populistas, que é o Paulo Portas... Quero ver quem será o Miguel de Vasconcelos que vai ser atirado pela janela, como em 1640. Claro que os candidatos a Miguel de Vasconcelos são Passos Coelho e Paulo Portas. E Sócrates.. Não, porque para todos os efeitos já vieram outros a seguir. Eu nunca fui e não sou manso com o Sócrates, mas acho que Sócrates não dá para cobrir os estragos que se fizeram nos últimos dois anos e que são estragos de assinatura própria. Que estragos são esses? É ter pegado na herança, sem dúvida péssima que receberam, e terem feito tudo mal. E terem criado problemas novos que não existiam e terem desperdiçado a enorme disponibilidade que os portugueses tinham para uma política de sacrifícios se ela tivesse sido feita desde o início de uma forma muito diferente. Este Governo recebeu uma herança muito negativa, mas recebeu 25 Abril 40 anos | 53

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT R EVIS TA

também uma coisa raríssima em democracia: as pessoas estavam convencidas de que tinham de se sacrificar para ajudar o país. Os nossos governantes tinham uma ignorância profunda do aparelho de Estado, que aliás agravaram com medidas demagógicas, como a de deitar fora as chefias da Função Pública. Como foram substituídas por boys e por assessores, a qualificação do Estado para responder até à própria aplicação do programa do Governo era muito menor. Depois houve claramente uma fase ideológica, com a ideia da austeridade. Aplicaram uma receita que tinha uma forte componente ideológica. O Estado social está em risco? Está em risco, em grande parte pelas medidas que foram tomadas, que transportaram a crise da economia para cima do Estado social, quando na realidade a crise podia ter sido minimizada se tivessem sido tomadas medidas alternativas. As pessoas estavam disponíveis para fazer um sacrifício, mas não estão disponíveis para fazer todos os

µ

O pior falhanço do pós-25 de Abril foi a incapacidade de o país se equilibrar economicamente? Sem dúvida que isso é um problema, mas é um problema entre muitos. Como nós o enfrentamos como problema único ou principal, as soluções que encontramos são soluções que o agravam ainda mais. Quando discutimos o problema do endividamento das famílias, isso hoje é apresentado como uma coisa intrinsecamente má. Há 30 anos, se uma pessoa tivesse de optar entre comprar uma casa, endividando-se junto do banco, ou arrendar uma casa, quando não havia mercado de arrendamento, a opção inteiramente racional e economicamente vantajosa era pedir um empréstimo. A demonização que se faz hoje e que tem um moralismo insuportável, de que as pessoas viveram acima das suas possibilidades, esquece que muitas eram decisões racionais...

gimnodesportivos e coisas absolutamente absurdas. Mas, em grande parte, o excesso foi fomentado pela banca. Muita da governação económica, principalmente desde Guterres, é condicionada pela banca, em função dos seus interesses. Não contesto que tenhamos vivido acima das nossas posses, mas isso só funciona depois de 2008. Há um aspeto económico muito penalizador de medidas que são tomadas apenas por racionalização de custos e que acabam por ter um custo invisível muito superior ao que se poupa. É esta sensibilidade que o Governo não tem, pela simples razão de que não faz a mínima ideia do que é o país. Estes governantes foram criados em estufa e viveram sempre uma vida que não os pôs em contacto com nada que não seja o controlo político. No núcleo central político, não há ninguém que não venha das estruturas partidárias. Costumo dizer que nunca tiveram o problema de estacionar o carro.

Mas o problema não é as pessoas viveram acima das suas possibilidades, é o Estado fazê-lo...

É um problema da política portuguesa? Um dos problemas que mais pode pôr em causa a democracia é a degeneração dos

Estes governantes foram criados em estufa e viveram sempre uma vida que não os pôs em contacto com nada que não seja o controlo político. Nunca tiveram o problema de estacionar o carro

anos mais sacrifícios sem nenhum vislumbre de melhora. Porque para a maioria das pessoas os sinais de retoma não significam nada. As pessoas estão convencidas de que na sua vida já não vão conhecer nada de diferente ou melhor. As pessoas interiorizaram o discurso do empobrecimento? Pior do que isso. Interiorizaram o discurso de que não há futuro. Uma pessoa que tenha 35 ou 38 anos, perca o emprego numa fábrica, por exemplo, e não tenha elevadas qualificações nunca mais vai ter emprego na vida. A degradação das condições de vida é cada vez maior. O peso principal deste ajustamento não foi necessariamente sobre os mais pobres dos pobres. A oferta que este Governo faz aos mais pobres dos pobres é que nunca mais vão sair da pobreza, não é necessariamente que vão empobrecer mais. É sobre a classe média, e ao ser sobre a classe média é a garantia de que isto não resulta. Porque não há recrudescimento ou milagre económico que não implique mobilidade social.

Mas o Estado vive acima das suas posses em grande parte por uma combinação entre os desvarios socráticos naquela fase final e a sobrecarga social trazida pela forma como este Governo enfrentou a crise. Portanto, neste momento temos uma dívida e um défice extremamente difícil de controlar que é em grande parte recente. É verdade que historicamente gastámos sempre mais, mas a maioria dos países, salvo duas ou três exceções, funciona assim. Isso não é por si só irracional, a não ser quando chegamos a uma situação de crise e subitamente tomamos todas as opções erradas.

aparelhos partidários, que é devastadora no PSD e no PS. Impede que os partidos forneçam o pessoal político que era fundamental em democracia. Não têm know-how, não têm carreiras, não têm independência em relação aos interesses económicos.

O que fizemos aos fundos estruturais? Não estou a dizer que a forma como nós os aplicámos seja isenta de culpas, mas ao mesmo tempo os adquiridos dessa época são fundamentais. Por exemplo, a modernização do nosso sistema de impostos, o saneamento básico, a mudança radical que se deu no interior do país. É evidente que depois se passou de padrões mínimos de consumo para três pavilhões

Uma das coisas que também se tem falado muito no pós-25 de Abril tem a ver com a Europa, nomeadamente se devíamos ou não ter aderido à Europa e se devíamos ou não ter aderido ao euro... Qual é a sua posição? Fui favorável à entrada de Portugal na Europa, porque o objetivo inicial dessa entrada foi garantir uma estabilização do nosso sistema político democrático. A

É a favor de uma alteração ao sistema eleitoral? Sou a favor de um sistema misto, uninominal à alemã, mas sou mais radical em matéria eleitoral. À medida que os partidos se degeneram, sou a favor de abrir o Parlamento a listas de independentes.

54 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT REVI S TA

Europa em que nós entrámos era uma Europa construída como uma parte do plano anticomunista. Para impedir o crescimento do comunismo, a ideia era construir uma Europa próspera e que usasse em conjunto as suas reservas estratégicas. Daí terem começado pelo carvão e pelo aço. Monet, que conhecia muito bem a Europa e sabia que os países europeus não são como os Estados americanos, dizia que se tinha de dar a todos a perceção de que são iguais: o pequeno Luxemburgo é igual à Alemanha. E isto funcionou bem até ao momento em que, face à perceção de que o Leste ia ser muito difícil de reconverter económica e socialmente sem uma grande deslocação de capitais, há um crescimento dos egoísmos nacionais. E o euro? O euro era uma medida lógica depois do mercado único. Tinha um certo sentido avançar para uma moeda única. A integração das economias tinha sentido, como resposta à globalização. O que não tem sentido é o delírio político que tomou conta da União Europeia, com o abandono da política de coesão e a progressiva emergência de um diretório que passou a substituir a vontade do consenso. Tinha de dar para o torto. A que os franceses acrescentaram a

José Pacheco Pereira durante a entrevista, realizada no edifício da redação do Expresso

tentativa de usar a União Europeia para fazer uma política antiamericana; e os alemães, que tinham interesse em voltar a uma plenitude dos seus poderes, nomeadamente em política externa, precisavam, através da aliança com a França e da União Europeia, ultrapassar a menoridade em resultado da derrota na Segunda Guerra Mundial. E a partir daí é só asneira, a que os governantes fecham magnificamente os olhos. Deixou de haver referendos quando os referendos começaram a dar para o torto. Passou a haver um enorme equilibrismo político para que não houvesse referendos. E nalguns casos houve tantos referendos até ganhar a União Europeia, ou seja, deixou de se poder dizer que não. A União Europeia não tem hoje quase nada a ver com a sua origem. E há alternativa a esta UE, nomeadamente para Portugal? A única alternativa que Portugal tem em relação à UE é defender os seus interesses, coisa que já não faz há tanto tempo que presumo que já não saiba fazer.

E ainda tem autonomia para isso? A autonomia vem do poder que cada Estado assume. Portugal já não defende os seus interesses há muito tempo. Não sou federalista, porque não se pode construir a Europa contra as realidades nacionais. Não é fácil ter uma política externa europeia a não ser sobre questões menores, porque não podemos esquecer que Gibraltar separa os ingleses dos espanhóis, os franceses gostam dos sérvios, os alemães gostam dos croatas e dos eslovenos. O caos da política externa americana e o caos da política externa europeia só geram um mundo mais perigoso. Faz sentido a manutenção de Portugal no euro? O debate da saída tem sentido. Se quando começou o programa de ajustamento na Grécia os gregos pudessem escolher entre perder 30% com a saída do euro e perder 30% durante três ou quatro anos com as medidas de austeridade, eu, se fosse grego, achava tentador sair do euro. Perdia os 30%, mas o meu turismo tornava-se altamente competitivo, porque seria muito mais barato. Por isso, da maneira como as coisas estão, a questão da saída do euro tem de ser trazida para o debate nacional. Não pode 25 Abril 40 anos | 55

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT R EVIS TA

ser um não debate. Como a nossa posição em relação à UE não pode ser de não debate. Não podemos assinar tudo de cruz. O pacto orçamental, por exemplo, é absolutamente inaceitável. Eu comparo o pacto orçamental aos chineses obrigarem as famílias a pagar a bala com que se executam os condenados à morte. É o melhor exemplo da degeneração da social-democracia europeia e da Europa no seu conjunto. Eu entrei euro-otimista no Parlamento Europeu e saí eurocético. Acha viável uma união dos países do Sul? Claro que é viável e faz sentido. Não digo que tenha de passar pela saída desses países da UE, mas para já faz sentido que colaborem entre si. Colocados perante problemas semelhantes, têm de ter conversas entre si. E isso neste momento não acontece. E os separatismos, em Espanha ou na Escócia, por exemplo? Isso é outro problema. A quebra de solidariedade e da coesão europeia impregna os países todos, no sentido da dissociação. A União Europeia hoje é um diretório essencialmente alemão e um conjunto de interesses diversificados, dos agricultores franceses, da banca inglesa, etc... Enquanto não se puder discutir os subsídios atribuídos à agricultura francesa com a mesma liberdade com que se discute o défice português… Ou há um milagre e se aceita limitar estes interesses ou a União Europeia transforma-se num mecanismo político de hegemonia alemã sobre a Europa, que já o é em grande parte. Na Grécia já há uma forte reação antialemã. A diminuição da coesão e o crescimento desse tipo de sentimentos pode ser perigoso? Claro que pode. A quantidade de problemas que estão debaixo do tapete na Europa e de que ninguém fala... Voltando a Portugal, falava há pouco da força que tinha o movimento estudantil antes do 25 de Abril como um dos principais motores da oposição ao regime. Como vê hoje o papel das gerações mais jovens? Há sempre uma certa tendência para ser paternalista em relação às gerações mais jovens. Uma coisa é certa: não lhes desejo nenhuma nostalgia do passado. Mas uma coisa eu posso dizer que não se aplica necessariamente aos jovens, mas aos

µ

Estamos a iniciar um ciclo longo de empobrecimento. Várias centenas de milhares ou até milhões de portugueses nunca vão conhecer melhor vida. Está a ser semeado um discurso de divisão — os novos contra os velhos, o privado contra o público, os pensionistas contra os contribuintes da Segurança Social — que destrói os poucos laços que os portugueses tinham conseguido criar entre si

portugueses no geral: uma das consequências deste processo de ajustamento é o regresso ao provincianismo. Quem escapa são os imigrantes. Quem cá fica vai de novo voltar a um quadro intelectual cívico e político com muito poucos horizontes, o que é devastador para quem quer pensar e crescer. No início desta conversa dizia que estávamos a chegar ao fim de um ciclo iniciado no 25 de Abril... Que ciclo é esse e o que vem aí? Estamos a iniciar um ciclo longo de empobrecimento. Várias centenas de milhares ou até milhões de portugueses

nunca vão conhecer melhor vida. Não estou a falar de pessoas em abstrato, estou a falar de pessoas cuja qualidade de vida é perdida aos 60 ou 70 anos. Tratados sem respeito e sem dignidade, como velhos acabados. Nunca pensei assistir em Portugal a uma demonização da velhice por razões instrumentais no plano político. Estamos a semear um discurso de divisão que destrói os poucos laços que os portugueses tinham conseguido criar entre si — os novos contra os velhos, os trabalhadores do privado contra os funcionários públicos, os pensionistas contra as pessoas que pagam contribuição social. E este discurso, que é muito eficaz em períodos de empobrecimento, faz com que cada um se acantone no seu egoísmo particular. A distribuição desigual de recursos inevitavelmente vai agravar a conflitualidade social. O que vale é que ainda estamos em democracia e, por muitas objeções que se possam fazer, os tribunais funcionam neste momento como mecanismo do primado da lei, em último recurso. Com o processo de ajustamento está em curso uma desvalorização das eleições. “Vão lá a votos, mas tudo fica na mesma, votem em quem quiserem, mas as eleições não servem para nada, o Seguro vai para lá fazer o mesmo que o Passos Coelho, as europeias não têm qualquer papel, mesmo que o Governo leve uma derrota monumental, etc...” Esta desvalorização das eleições também é uma receita para a conflitualidade social. O que é espantoso é que eu digo estas coisas e pareço um perigoso esquerdista. Mas estas coisas são o mais trivial da cultura democrática e da política moderada. Mas admite que com Seguro mude alguma coisa? Duvido. Mas, se houver eleições, há uma maior margem política para tentar outro tipo de soluções que hoje estão bloqueadas e para negociar na Europa. A única coisa que pode salvar o sistema político-partidário é aplicar o modelo Rui Moreira aos partidos. Ou as pessoas que restam no PS e no PSD que ainda têm prestígio nacional — o Rui Rio, o António Costa, pessoas que exerceram ou exercem cargos públicos e que não estão de mal com a opinião pública — criam um entendimento entre si, à margem dos partidos, e ganham uma grande mobilização, ou então o sistema político-partidário não tem saída. ^

56 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CONTA GEM DECRES CENTE No início de 1974 acumulam-se os sinais da desagregação do Estado Novo. O Movimento das Forças Armadas ganha força e o livro do general Spínola acelera o processo

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

À ESPERA DE ABRIL

0 5 FEVEREIRO

Anatomia da criação do MFA Nascido no verão de 1973, o movimento dos capitães do Exército cresceu e organizou-se em reuniões realizadas em Alcáçovas, Óbidos e Cascais, alargando-se a outras patentes, à Marinha e à Força Aérea TEXTO JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA FOTOGRAFIA NUNO FOX

58 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CON TAGEM DECRES CENT E

N

omeada a 5 de fevereiro de 1974, uma comissão de redação trabalha afincadamente num documento que sirva de base ao futuro programa político do 25 de Abril. Compõem-na o major Melo Antunes, o tenente-coronel Costa Braz e os capitães Sousa e Castro e Moreira de Azevedo. “Encontrámo-nos por três vezes em minha casa, na mesma rua onde ainda vivo, a Margarida Palla, em Algés”, conta Manuel da Costa Braz. No horizonte dos jovens oficiais, capitães na sua grande maioria, com uma idade média pouco superior a trinta anos, está o fim da guerra, sendo cada vez mais nítida a convicção que tal objetivo implica o derrube do regime. Depois de grande discussão, Melo Antunes, Costa Braz e Sousa e Castro redigem cada um o seu texto, a ser apresentado a quem os nomeara: a Comissão Coordenadora do Movimento dos Oficiais das Forças Armadas (MOFA). A guerra, iniciada em Angola em 1961 mas que rapidamente se estendera à

Guiné e a Moçambique, vai já no décimo terceiro ano. À beira do esgotamento, os militares — os profissionais, mas também os milicianos — nada mais podem fazer. A solução para a guerra não é militar mas sim de ordem política, competindo ao Governo e não às Forças Armadas. O INÍCIO DA CONSPIRAÇÃO Uma primeira atitude coletiva contra a política de beco sem saída fora tomada aquando do Congresso dos Combatentes, realizado em junho de 1973, no Porto. Organizado pela extrema-direita, o congresso suscitara um abaixo-assinado de protesto de 400 oficiais, entre os quais Ramalho Eanes, que decidiram não comparecer. No mês seguinte, a 13, fora publicado o decreto-lei nº 353/73, relativo às carreiras de oficiais do Exército. Desde 1964 que havia falta de candidatos à Academia Militar, tornando cada vez mais escasso o recrutamento de oficiais para as três frentes, situação que o diploma torneava, permitindo a rápida entrada no Quadro Permanente (QP) dos oficiais milicianos.

Os capitães de abril Vasco Lourenço, Nuno Santos Silva, Luís Costa Correia, Moreira de Azevedo, Luís Pimentel, Garcia dos Santos, Frederico Morais, Teófilo Bento, Pinto Soares, Otelo Saraiva de Carvalho, Parreira de Campos e Delgado da Fonseca, no início de março nas varandas da Associação 25 de Abril, em Lisboa

Temendo ser ultrapassados nas promoções, os oficiais formados na Academia reagiram em voz grossa, a ponto de o Governo ser obrigado a recuar parcialmente, aprovando em 20 de agosto o decreto nº 409/73. Indignados com a atabalhoada legislação, 51 oficiais do QP do Exército em serviço na Guiné subscreveram a 28 de agosto uma exposição de carácter profissional, que é considerado o primeiro documento dos capitães. Era o início da chamada “guerra dos papéis”, que, a 9 de setembro, ganhou corpo numa inédita 25 Abril 40 anos | 59

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

reunião numa herdade em Monte Sobral (junto a Alcáçovas, uma vila a 25 kms de Évora), com 136 capitães, tenentes e alferes a subscreveram um abaixoassinado ao presidente do Conselho, Marcello Caetano, a pedir a revogação dos controversos diplomas. Preparando o futuro, elegeram uma comissão de coordenação, de que faziam parte Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço e Sousa e Castro, entre outros. Como assinala Maria Inácia Rezola (em “25 de Abril. Mitos de uma Revolução”), era “o nascimento do Movimento dos Capitães e o início da conspiração”, que logo alastrou a Angola e Moçambique. Principal responsável pela controversa legislação, o ministro da Defesa, general Sá Viana Rebelo (mais conhecido entre o jovem oficialato como o “meia nau”), é afastado do Governo a 7 de novembro. Pela primeira vez na história do Estado Novo, a pasta é entregue a um civil, o ex-ministro do Ultramar, Silva Cunha. Mas nem a promessa de um substancial aumento de vencimentos trava o descontentamento. As reuniões sucedemse, mais organizadas e participadas, mesmo se limitadas ao Exército. A 1 de dezembro, na Casa do Povo de Óbidos, o movimento passa a designar-

se Movimento dos Oficiais das Forças Armadas (MOFA) e decide eleger dois “chefes prestigiados”: os generais Costa Gomes e António de Spínola. Quatro dias depois, na Costa da Caparica, a coordenadora elege uma direção: Otelo, Vasco Lourenço e Vítor Alves, equipa que se manterá até ao 25 de Abril. A SURPRESA MELO ANTUNES A circular nº 1/74 do movimento data de 23 de janeiro. O tema já não são questões corporativas, mas os acontecimentos na Beira, em Moçambique, onde a população branca contesta na rua a alegada passividade da tropa. O assunto é discutido num encontro de Otelo e Vasco Loureço com Spínola, o primeiro desde a constituição do movimento, e que não se opõe à emissão do comunicado, noticiado na BBC e no “Le Monde”. A agenda dos ‘capitães’ é cada vez mais política. A eventualidade de um golpe de Estado, como forma de pôr fim à guerra, começa a ser encarada, da mesma forma como urge a elaboração de um programa que congregue os oficiais. Em casa de Vasco Lourenço, no Estoril, é aprovado a 26 de janeiro um texto programático elaborado pelo capitão Moreira de Azevedo. E a 3 de fevereiro, em casa de Otelo, decide-

se fazer o levantamento das forças militarizadas e policiais, incluindo a DGS e a Legião Portuguesa. Como precaução, Vasco Lourenço é encarregado de elaborar uma lista de pseudónimos para os membros da coordenadora e Otelo passa a ser o ‘eng. Óscar Pinto’... Na noite de 5 de fevereiro de 1974 realizase outras das importantes reuniões do MOFA. Entre as 26 presenças na cave da residência do coronel Marcelino Marques há caras novas: o major Melo Antunes e os tenentes-coronéis Garcia dos Santos e Costa Brás. O único com currículo nos combates da oposição democrática à ditadura, Ernesto Melo Antunes, fora recrutado dias antes por dois oficiais da Marinha, Almada Contreiras e Martins Guerreiro; intelectual autodidata, com três comissões em Angola, arrasta consigo o trauma de combater no “lado errado” da guerra. Garcia dos Santos é um engenheiro da arma de transmissões, de que é um grande especialista. Quanto a Manuel da Costa Braz, fora aliciado por Vítor Alves e Sanches Osório, colegas no curso de Estado-Maior. Com três comissões no lombo, tem 38 anos e pertence ao naipe dos militares mais velhos envolvidos no golpe. Além disso é dos que têm patente mais elevada, já que haverá apenas mais

Portugal e o mundo há 40 anos

SANDUÍCHES COM PREÇO LIVRE Podem ser de fiambre ou queijo, com ou sem manteiga, mas as sanduíches em pão de carcaça até 60 gramas deixam de estar submetidas à disciplina de preço e passam ao regime de homologação prévia. De acordo com esta, caberá aos industriais do sector propor o valor a aplicar. Até então (09/02), as sanduíches tinham de ser vendidas a vinte e cinco tostões em todo o país. MENINGITE ALARMA NORTE DO PAÍS Mais duas crianças foram internadas (14/03)no Hospital de São João, no Porto, devido à meningite. Já haviam falecido dois menores e vários estabelecimentos de ensino foram encerrados na região

norte. Tudo começou na zona de Gondomar, mas o diretorgeral de Saúde, Arnaldo Sampaio, desdramatiza a situação. “Apareceram vacinas promissoras, com um resultado muito satisfatório, mas que ainda não estão no mercado”, afirmava na altura. Desde então, a doença infetocontagiosa passou a fazer parte do plano nacional de vacinação e tornou-se uma patologia de declaração obrigatória às autoridades de saúde. Em 1974 foram registados 351 casos e, em 2012, os registos referem 76. SOLJENITSYNE EXPULSO DA UNIÃO SOVIÉTICA O prémio Nobel de Literatura de 1970, Alexander Soljenitsyne (na foto), chegou à República Federal Alemã (15/02), após ter sido expulso da União Soviética,

devido às suas críticas ao regime. O escritor fora preso na sua residência, nos arredores do Kremlin, em Moscovo, uma detenção criticada por intelectuais em todo o mundo. O autor de “O Arquipélago Gulag” denunciara os campos de trabalho forçado da URSS. TRIBUNAL ABSOLVE CHAMPALIMAUD O Tribunal absolveu António Champalimaud (na foto) no

polémico caso da Herança Sommer (06/04/1973), o mais demorado da justiça portuguesa no século XX. A decisão dos juízes foi unânime, ilibando o industrial das acusações de apropriação indevida de património que, desde 1957, o seu irmão Carlos lhe fazia relativamente a um lote de 10% do capital da Cimentos de Leiria, que pertenceram ao tio de ambos, Henrique Sommer. Este diferendo familiar fez com que António Champalimaud — que chegou a ser considerado o detentor da sétima maior fortuna da Europa — fugisse de Portugal, tendo-se

60 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CON TAGEM DECRES CENT E

A 5 de fevereiro de 1974, as ideias básicas do programa do MFA já estavam definidas: democracia, eleições e uma solução política para a guerra (eufemismo para o fim do conflito) e abertura de negociações

três ou quatro tenentes-coronéis entre os golpistas, e um único coronel (Vasco Gonçalves, o decano dos conspiradores). O texto de Moreira de Azevedo volta a ser discutido. “Toda a gente começou a bater no documento”, considerando que “estava muito aquém daquilo que se queria, muito voltado para as questões militares” — recorda Vasco Lourenço no livro de memórias (“Do Interior da Revolução”). Costa Braz é um dos mais cáusticos: “Fui, com o Melo Antunes, um dos críticos, fiz a síntese das principais intervenções, bem como a proposta de um novo alinhamento temático”. Para a elaboração de um novo documento, que sirva de base ao futuro programa, é eleita uma comissão de redação, formada por Melo Antunes, Costa Braz, Sousa e

Castro e pelo autor do texto chumbado. Para Costa Braz, “esta reunião foi um ponto de viragem do Movimento”. Desta comissão saem três textos — que Otelo publica no seu livro “Alvorada em Abril”.“Não houve grande consenso”, confirma Sousa e Castro. “Mas as ideias básicas já estavam definidas: democracia, eleições e uma solução política para a guerra, que era um eufemismo para o fim da guerra e abertura de negociações.” Os documentos são apresentados a uma reunião a 25 de fevereiro, à qual comparecem quadros da Força Aérea e capitães das várias escolas práticas, como Salgueiro Maia, de Cavalaria. Avança-se para a convocação de um plenário em Cascais, com o debate a

refugiado no México durante cinco anos. Com esta decisão, o industrial acaba por regressar a Portugal. DUQUESA DE CADAVAL NA LISTA DAS MAIS ELEGANTES DO MUNDO A lista (10/02) não é grande e inclui apelidos sonantes como Rothschild ou Wyatt, mas entre os 24 mais elegantes do mundo há uma referência a Portugal, com a escolha da duquesa de Cadaval. Uma das casas mais antigas da aristocracia nacional, o ducado remonta a 1648 e a D. Nuno Álvares Pereira de Melo, o primeiro duque de Cadaval. Claudine Marguerite Marianne Tritz recebeu o título ao tornar-se a segunda mulher de Jaime Álvares Pereira de Melo, 10º duque de Cadaval. CHRISTIANA MARTINS

AGENDA CULTURAL A publicação do primeiro e do segundo volume de “Poesia Toda”, de Herberto Helder, foi um dos mais importantes acontecimentos literários de pré-25 de Abril. A 2 de março de 1974, Maria Teresa Horta, então crítica no Expresso, dedicavalhe o texto principal da secção de Livros. E, sem papas na língua, descrevia-o como “um dos raros poetas portugueses independentes, capaz de compreender o que é escrever poesia em liberdade”. Os dois

polarizar-se em torno dos textos de Melo Antunes e de Costa Braz. Para os fundir, a comissão de redação trabalha a 3 de março, em casa do capitãopiloto-aviador Seabra, em Algés. À reunião juntam-se representantes da Marinha e da Força Aérea, que exprimem as suas condições e reservas. “A ideia era começar a catequizar o pessoal da Força Aérea, que estava muito renitente, com uma grande vinculação ao Kaúlza de Arriaga”, explica Sousa e Castro, para quem os paraquedistas “eram uns guerreiros, que queriam andar aos tiros”. A redação final, que exprime as posições do Exército, é entregue a Melo Antunes. “O Ernesto era bestialmente preguiçoso a escrever”, recorda Costa Braz. “Estava no curso do Estado-Maior, fora para exercícios no Algarve e nunca mais fazia o papel.” Assim que chega o manuscrito, é datilografado por Sousa e Castro. “Foi um documento decisivo”. Chama-se “O ‘Movimento’, as F.A. e a Nação”. Simultaneamente, Otelo, Vítor Alves e Hugo dos Santos avistam-se com um grupo de oficiais do Quadro Permanente oriundo de milicianos, para tentar esbater tensões e desconfianças. A iniciativa é coroada de êxito. No plenário de Cascais, a 5 de março, as duas categorias de oficiais já vão remar na mesma direção. ^

volumes publicados há pouco compreendiam todos os poemas de Herberto Helder escritos entre 1953 e 1971. Já nessa altura, o poeta retrabalhava os seus textos, introduzindo-lhe alterações de composição, assim como reorganizava conjuntos de poemas que muitas vezes acabavam por ser absorvidos por outros conjuntos. As qualidades de “operário e artífice” das palavras, retalhando-as com audácia, permitiam com mais facilidade a Herberto Helder escapar ao lápis azul da censura, que ao lêlo provavelmente se perdia nas suas ardilosas teias de imagens.

de fevereiro de 1974 era “Agosto de 1914”, da autoria de Aleksandr Soljenistsyne, célebre romancista russo, que neste livro relataria vividamente a história da sua família. Em segundo lugar no top encontrava-se a obra de Mário Henrique Leiria “Novos Contos do Gin-Tonic”, um clássico da literatura surrealista nacional. Estamos em plena Primavera Marcelista e nada aqui é já muito convencional, cada artista expressa-se como quer. ALEXANDRA CARITA

Muito apreciado pela crítica, a obra do poeta não constava, porém, do top de best-sellers (Herberto Helder nunca foi um autor para as massas). O livro mais vendido da última quinzena 25 Abril 40 anos | 61

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

À ESPERA DE ABRIL

2 2 FEVEREIRO

António de Spínola, de luvas e pingalim, passa revista a tropas africanas na Guiné. Foi em Bissau que trabalhou o seu famoso livro “Portugal e o Futuro», que apressou a queda da ditadura

O livro que anuncia o fim 62 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CON TAGEM DECRES CENT E

ARQUIVO “A CAPITAL/IP”

P

Avalizado por Costa Gomes, o superior hierárquico de Spínola, “Portugal e o Futuro” transformou-se numa bandeira. Assim que o leu, Marcello Caetano percebeu que o regime estava por um fio TEXTO JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA

ortugal vive hoje, sem dúvida, uma das horas mais graves, senão a mais grave, da sua História”. Assim começa, em tom dramático, quase trágico, o livro “Portugal e o Futuro”. Da autoria do general António de Spínola, chega às livrarias no dia 22 de fevereiro de 1974. A primeira edição, com a chancela da Arcádia — uma editora pertencente ao poderoso grupo CUF — é de 50 mil exemplares e esgota-se num ápice. O sucesso do livro dá a exata medida da saúde do regime. A ideia de o escrever nascera em Bissau, em outubro de 1972. Governador-geral da Guiné ainda nomeado por Salazar, Spínola entrara em rutura com Marcello Caetano sobre os caminhos a seguir sobre o fim da guerra. Na Guiné, ela arrastavase cada vez mais penosa, com a relação de forças a pender de forma crescente para o PAIGC. Caetano fechara todas as portas a qualquer solução política para o conflito: proibira Spínola de prosseguir as conversações com o Presidente do Senegal, Leopold Senghor, que se oferecera como intermediário, e vetara a hipótese de uma cimeira do general com Amílcar Cabral, o líder do PAIGC. “É preferível sair da Guiné por uma derrota militar com honra, do que por um acordo negociado com os terroristas”, sentenciara o chefe do Governo. Chocado com a crueza do argumento, Spínola decidira passar ao papel as suas reflexões políticas, caldeadas por 12 anos de uma guerra sem horizonte. Sucessivas versões, datilografadas pelo sargento José Gonçalves, são enviadas a alguns dos seus mais fiéis colaboradores. Sobretudo militares de carreira: Dias de Lima, Almeida Bruno, Carlos Morais, Firmino Miguel, Carlos Azeredo, Robin de Andrade, Carlos Fabião, mas também o miliciano António Ramos. Civis são sobretudo os dois consecutivos chefes de gabinete: João Diogo Nunes Barata e José Blanco. “Enviava-me fotocópias, pedindolhe que lhe desse a minha opinião”, recorda o primeiro; “guardei a primeira versão num dossiê com argolas”. De acordo com o biógrafo, Luís Nuno Rodrigues, o segundo é o autor do título, extraído de uma lista de uma dúzia de sugestões. Quanto ao conteúdo, inspira-se nos deputados da ala liberal, Francisco Sá Carneiro e José Pedro Pinto Leite, no ministro da Educação, Veiga Simão, e no presidente da Gulbenkian, Azeredo Perdigão. Alguns dos adversários e inimigos de 25 Abril 40 anos | 63

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

ARQUIVO EXPRESSO

O Presidente da República, Américo Tomás, condecora Spínola. Tomás foi contra a publicação do livro, a que nas suas memórias chamou “Portugal sem Futuro”

Spínola — como Costa Gomes e Vasco Lourenço — afiançam que não foi ele quem escreveu o livro. O principal redator teria sido o então major Jorge Pereira da Costa, que chefiara o Serviço de Informações Militares na Guiné, onde era conhecido pela alcunha de “Astérix”. Pereira da Costa escusou-se sempre a falar do assunto: “Isso pertence a uma fase da minha vida que não estou interessado em recordar”. Almeida Bruno, um spinolista de sempre, diz que o general “é quem escreveu, mas o Pereira da Costa foi realmente uma peça vital”. Com o manuscrito na bagagem, o homem do monóculo regressa de vez a Lisboa a 6 de agosto de 1973.

Condecorado com a “Torre e Espada”, Caetano não desconhece que é um dos generais mais prestigiados, que o semanário Expresso elege como “Político do Ano”. Na remodelação governamental de novembro, convida-o para ministro do Ultramar. Spínola rejeita — este e outros cargos para os quais é sondado. Até que, por sugestão de Costa Gomes, chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, é criado um lugar especial — o de vice-CEMFGA, número dois da hierarquia militar. A posse é a 14 de janeiro de 1974, com Spínola a avisar que as Forças Armadas não são a “guarda pretoriana do poder”.

A publicação do livro implica uma prévia autorização superior. Spínola tenta evitá-la, mas Marcello insiste com os regulamentos militares e oferece-se para ser ele próprio a ler o manuscrito, prometendo a “maior largueza de espírito”. Como solução de compromisso, o autor aceita sujeitar o livro à apreciação do superior hierárquico, o general Costa Gomes. Admitindo uma eventual proibição, trabalha na sombra — como dirá ao Expresso, na sua última entrevista — para que o livro fosse “inevitavelmente publicado, apesar da censura...” O parecer de Costa Gomes é favorável: “O general Spínola defende com muita lógica uma solução equilibrada”. Embaraçado com esta opinião, o ministro da Defesa, Silva Cunha, inclinase para a proibição — uma solução que o Presidente da República, Américo Tomás, lamenta que não tenha sido tomada. O chefe do Governo, porém, discorda, porque isso equivaleria a

Portugal e o mundo há 40 anos

PINOCHET PROÍBE ATIVIDADES POLÍTICAS O general que se tornou Presidente do Chile após o golpe militar de 11 de setembro de 1973 que derrubou Salvador Allende decidiu proibir todas as atividades políticas durante cinco anos. Augusto Pinochet (na foto) governou o Chile sob ditadura

até 1990, tendo-se tornado a seguir senador vitalício, cargo criado especificamente para si. Em 1973 terão morrido 70 dissidentes vítimas da violência do regime. O ditador acabaria por falecer em 2006, ironicamente considerado o dia internacional dos Direitos Humanos, tendo sido enterrado com honras militares. JORGE DE BRITO RECONDUZIDO NO BIP A assembleia-geral do Banco Intercontinental Português (BIP, 22/02) decidiu reconduzir o seu acionista Jorge Brito Pereira para a liderança da instituição financeira. Em

1974, Jorge de Brito viria a ser acusado de utilizar os depósitos dos clientes para os seus negócios pessoais. Acabaria por ser preso durante o PREC (13/12/1974), tendo estado preso ao longo de ano e meio. O BIP foi incorporado no Banco Pinto & Sotto Mayor, na altura nas mãos do Estado, como forma de saldar as dívidas assumidas pela

instituição. Jorge de Brito foi presidente do Benfica e constituiu ao longo da vida uma importante coleção de arte, com mais de três mil peças de pintura, desenhos, objetos e livros. Parte desta coleção foi negociada com a Fundação Gulbenkian, tendo outras obras importantes sido depositadas na Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva. Jorge de Brito faleceu em Lisboa em 2006. POSSE DO REITOR DA NOVA UNIVERSIDADE DO MINHO O ministro da Educação, José Veiga Simão (na foto da página seguinte), deu posse (17/02) ao

64 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CON TAGEM DECRES CENT E

afrontar os dois generais, que gozam de enorme popularidade junto dos jovens oficiais. Contrafeito, Silva Cunha autorização a publicação, “com a ressalva de não conhecer o texto”. Acabados de sair da tipografia, Spínola oferece os primeiros exemplares a Tomás e a Caetano. Presidente da República desde 1958, Tomás escreveu nas suas memórias (“As Últimas Décadas de Portugal”) que lhe bastou uma “primeira e rápida leitura” para o crismar “profeticamente” de “Portugal sem Futuro”. O exemplar de Caetano é acompanhado de uma dedicatória, como “testemunho da sua identificação com a política de ‘renovação na continuidade’ e ‘evolução sem revolução’ em boa hora anunciada ao país”. Só na noite de dia 20 é que Caetano tem ensejo de o folhear. Julgava que seria “apenas a exposição e defesa da tese federalista” para os territórios ultramarinos, que ele próprio defendera dez anos antes. O livro, porém, é muito mais do que isso. “Já não larguei a obra antes de chegar à última página, por alta madrugada”, confessa na obra “Depoimento”. “E ao fechar o livro tinha compreendido que o golpe de Estado militar, cuja marcha eu pressentia há meses, era agora inevitável”. OTELO: “UM LIVRO BOMBÁSTICO” O livro sai a 22. Convocados por Caetano, os dois generais apresentam-se em São Bento nessa manhã. “Marcello

reitor da recém-criada Universidade do Minho, Carlos Alberto Lloyd Braga. A instituição integra o grupo das “Novas Universidades”, responsáveis pela mudança do panorama do ensino superior em Portugal. As atividades académicas iniciar-se só no ano letivo de 1975/76. C. M.

Spínola ofereceu os dois primeiros exemplares do livro, acabados de sair da tipografia, a Tomás e a Caetano. A este o autor fez uma dedicatória, identificando-se com uma “evolução sem revolução” Caetano recebeu-nos friamente”, recorda Spínola, “com a declaração de que aquele momento era dos mais graves e dolorosos da sua vida”. Caetano dispõe-se a entregar-lhes o poder e que o reivindiquem junto do Presidente da República. Os militares, contudo, rejeitam a sugestão de conversações com Tomás, que lidera a ala mais cega do regime. À tarde, o jornal “República”, ligado à oposição, traz como manchete: “A vitória exclusivamente militar é inviável — escreve António Spínola no seu livro ‘Portugal e o Futuro’ hoje posto à venda”. Letras pretas em fundo branco, o livro ganha imediatamente a dimensão de best-seller. O embaixador dos EUA em Lisboa, Stuart Scott, relata para Washington que o livro atingira Portugal “como um verdadeiro relâmpago” e que constituíra uma “autonomeação” de Spínola “para a liderança nacional”. Muitos oficiais passam a designá-lo pelo nome de

AGENDA CULTURAL Com uma atividade muito intensa artisticamente, Lisboa mostra ainda trabalhos de pintura de Paula Rego, Nadir Afonso, Jorge Pinheiro, Cesariny, António Charrua e Joaquim Bravo. As exposições individuais também se multiplicam: “Edmundo Oliveira Silva e a sua

código de “a bíblia”. No “Alvorada em Abril”, Otelo chama-lhe “livro bombástico”. A conspiração ganha um alento reforçado. Ao preço de capa de cem escudos, a primeira edição, da responsabilidade de Paradela de Abreu, é de 50 mil exemplares. A campanha publicitária prevê um spot de oito segundos na RTP, que a Censura proíbe. Primeira vítima, Paradela é despedido da Arcádia em março. É substituído por Nelson de Matos, já depois do 25 de Abril. “Estreeime como editor com uma nova edição do ‘Portugal e o Futuro’. Fui a casa do irmão de Spínola, em Massamá, em maio, para introduzir várias emendas. Foi muito delicado comigo, não foi nada aquele general mandão...” As cinco edições do livro vendem 220 mil exemplares — número astronómico para uma obra de carácter político. Sem contar com as edições em sete línguas — incluindo o chinês. ^

paisagem abstrata na Galeria Ottolini; Ana Vieira e os seus quadros de poliéster tridimensionais na Galeria Judite Dacruz; e a pintura de Silva Palmeira na Galeria Opinião, completam a agenda cultural em português. Uma exposição de obras de artistas europeus representados no MoMA (Museum of Modern Art) de Nova Iorque, na Fundação Gulbenkian, marca o início do mês de fevereiro no mundo das artes da capital portuguesa. Peças de autores como Balthus, Chagall, De Chirico, Kandinsky, Klee, Modigliani, Malevich,

Brancusi, Picasso, Matisse, Tanguy ou Kokoschka entre muitos outros são pela primeira vez vistas em Portugal e revelam ao público uma nova visão de uma arte a que não estava habituado. Isto porque o fecho de portas a vozes dissonantes e a olhares alternativos aos valores mais conservadores mantinha Portugal fora do mundo. Ao mesmo tempo, numa curadoria de José Ernesto de Sousa, artistas como Costa Pinheiro, José Rodrigues, Alberto Carneiro, Álvaro Lapa, João Vieira e Eduardo Nery apresentam as suas “Ideias-Projeto”. A. C. 25 Abril 40 anos | 65

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

À ESPERA DE ABRIL

1 4 MARÇO

Generais prestam vassalagem

Caetano convocou os principais comandos militares a São Bento, para um juramento de fidelidade ao regime. Costa Gomes e Spínola recusaram juntar-se à ‘brigada do reumático’. Era a rutura final. No dia seguinte foram exonerados, o que ampliou a ira dos capitães TEXTO JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA

M

arcello Caetano aproveita os dias de Carnaval de 1974 para descansar e meditar no seu habitual refúgio no Buçaco. Chefe do Governo há mais de cinco anos, nunca tivera tantos problemas como agora, com a publicação do livro do general Spínola, “Portugal e o Futuro”. De regresso a Lisboa, a 28 de fevereiro pede uma audiência urgente ao Presidente da República. No livro “As Últimas Décadas de Portugal”, Américo Tomás relata que “o assunto tratado foi, quase que exclusivamente, a difusão inconveniente” do livro. O almirante é ríspido e critica “as fraquezas” com que o caso fora tratado, o que leva Caetano a pedir a

“exoneração” de presidente do Conselho e a formação de um novo governo. O chefe de Estado, porém, recusa. Caetano procura retomar a iniciativa e pede à Assembleia Nacional que aprove uma moção sobre política ultramarina, apoiando a conduta do Governo. Cuidadoso, dá indicações para que o texto a ser discutido pelos deputados não belisque o livro. Na tarde de 5 de março discursa em São Bento para refutar as teses federalistas do general, sem que, também ele, faça uma única referência ao livro ou ao autor. Ao invés, elogia uma coletânea dos seus próprios discursos, a que chamara “Razões da Presença de Portugal no Ultramar”, acrescentando: “Como eu

gostaria que muitos portugueses lessem essas páginas”. A sessão é transmitida em direto pela televisão. “O discurso teve larga repercussão no país e emocionou fortemente”, assinala Caetano no “Depoimento”, o livro de memórias editado no Brasil ainda em 1974. “A correspondência que todos os dias se recebia na Presidência do Conselho” atinge então “um dos seus números recorde com mais de noventa por cento de aplausos”. No debate da moção apenas um deputado se distancia: João Bosco Mota Amaral, que pugna por uma “autonomia progressiva e participada do ultramar” e que é fustigado por alguns dos seus pares da ala ultra. A moção manifesta o “apoio à política do Governo,

66 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


FOTOTECA

EM CON TAGEM DECRES CENT E

que vem sendo claramente definida e sustentada pelo sr. presidente do Conselho, em particular no que respeita à defesa e valorização do Ultramar”. A votação é unânime, o que só se torna possível devido ao abandono ostensivo do hemiciclo por parte do deputado açoriano. Nessa mesma noite, 194 oficiais das Forças Armadas reúnem-se em segredo no ateliê do arquiteto Braula Reis, em Cascais; aprovam um manifesto, que servirá de base ao futuro programa do MFA, e confirmam Costa Gomes e Spínola como chefes do movimento. Confortado pelo apoio unânime da Assembleia Nacional, a 7 de março Caetano recebe Spínola no seu gabinete. O tema único da conversa, algo azeda, é o livro, que o governante compara a “uma confissão de fraquezas patenteada ao inimigo”. Decidida a pôr termo à conspiração dos capitães, a hierarquia do Exército ordena a transferência compulsiva de alguns dos principais ativistas. O destino de Vasco Lourenço e Carlos Clemente é os Açores, enquanto Ribeiro da Silva irá para a

O chefe do Governo, Marcello Caetano, agradece o juramento da hierarquia militar. Costa Gomes, que recusara ser o porta-voz das Forças Armadas, foi substituído pelo general Paiva Brandão

Madeira e David Martelo para Bragança. Reunido de emergência, o movimento dispõe-se a impedir aquelas sanções. O capitão-tenente Almada Contreiras é encarregado de transmitir ao ministro da Marinha, almirante Pereira Crespo, que o movimento não aceita a transferência compulsiva dos quatro oficiais. Como protesto, é programada a convocação dos oficiais do movimento, para comparecerem em massa no Ministério do Exército, devidamente fardados, na manhã de dia 9. Perante as informações comunicadas ao ministro da Marinha, a hierarquia militar emite uma ordem de prevenção rigorosa para as Forças Armadas e de segurança para dia 9. Desde 1961, aquando da ‘abrilada’ — a

tentativa de golpe palaciano liderada pelo ministro da Defesa, general Botelho Moniz — que não era dada semelhante ordem. O estado de prevenção impede a saída dos oficiais das respetivas unidades e inviabiliza o projetado protesto. Vasco Lourenço e Ribeiro da Silva são detidos no próprio dia 9; enviados para o presídio militar da Trafaria, não tardam a embarcar para as ilhas, consumando-se a transferência compulsiva. Caetano volta ao Palácio de Belém a 11, para expor um projeto de remodelação governamental. Tomás está transfigurado e responsabiliza Caetano pela publicação do livro, acentuando que “ignorância ou inocência não são de admitir”. Ao contrário do que sempre acontecera, o Presidente faz reparos a todos os nomes submetidos. “Mal disposto e visivelmente descontente” — como o próprio reconhece —, Tomás exige a exoneração, “sem demora”, de Costa Gomes e Spínola dos cargos que desempenham, o que parece deixar Caetano “em pânico”; este concorda que a audiência “terminou num ambiente de certa tensão, como nunca sucedera”. 25 Abril 40 anos | 67

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


Quando Tomás regressa do almoço, depara com uma curta carta de Caetano, com um segundo pedido de demissão, desta feita por escrito. “A nossa conversa desta manhã radicou-me a convicção de que não devo continuar na chefia do Governo. Peço, pois, a Vossa Excelência o favor de promover a minha substituição.” O motivo invocado é o maldito livro. “Pelo erro cometido devo pagar”. Boquiaberto, o Presidente aconselhase com os ministros da Defesa e do Interior antes de convocar Caetano. A exoneração volta a ser rejeitada por Tomás: “Já é tarde para, qualquer de nós, abandonar o seu cargo — temos de ir até ao fim (ou seja, na realidade, vencer ou ser vencido)”. Caetano não ignora a popularidade dos dois generais junto dos escalões intermédios das Forças Armadas. Acredita que se os “conservar nos seus postos” evitará mais “pretextos para o recrudescimento da indisciplina”. Mas para tanto torna-se necessário que façam “qualquer coisa” que permita “ao governo mantê-los”. A 12, expõe aos ministros das pastas militares o seu plano: promover uma cerimónia em que o CEMGFA, Costa Gomes, acompanhado do seu vice, Spínola, e de todos os generais em serviço na metrópole, faça uma “declaração solene” em como as Forças Armadas não têm “política própria” e que se dispõem a “cumprir as diretivas traçadas pelos poderes

constituídos”. Garantida a vassalagem, “nada impediria que fossem mantidos nos seus lugares”. Cabe ao ministro da Defesa, Silva Cunha, convidar Costa Gomes. Segundo o biógrafo, Luís Nuno Rodrigues, este recusa-se “abruptamente a tomar parte nessa reunião”. A justificação é dada anos depois, em entrevista a Maria Manuela Cruzeiro: “A generalidade das Forças Armadas não concordava com aquela manifestação: elas eram contrárias à guerra, enquanto a manifestação era pela continuação da guerra”. Costa Gomes conta com a solidariedade de Spínola. A rutura está consumada. Temendo as consequências, o ministro da Educação multiplica-se em contactos com Caetano e Spínola. No livro “O 25 de Abril e o Ultramar”, Veiga Simão conta que teve quatro encontros com Caetano, a quem fez chegar “propostas” do general, e que sugeriu “o cancelamento” da vassalagem do generalato. Sem êxito. Mesmo assim, foi a pedido do ministro que, na véspera da cerimónia, Caetano “acedeu a receber os generais Spínola e Costa Gomes”. As audiências realizam-se a 13. O chefe do Governo avisa-os que a “nãocomparência” implica “a exoneração” de ambos. A “brigada do reumático” — como ficou popularmente conhecida — comparece no dia 14 na sala nobre do Palácio de São Bento. Presentes todos os

ARQUIVO “A CAPITAL/IP”

EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

Portugal e o mundo há 40 anos

NOVO LIVRO DE ENID BLYTON “O Circo Voltou” foi escrito em 1942 pela autora inglesa de romances juvenis Enid Blyton, mas demorou 32 anos a ser editado em Portugal. Chega (28/02) com a chancela da Livraria Clássica Editora e é o

último volume de uma trilogia sobre o universo circense. Os livros de Blyton, que escreveu cerca de 800 obras, traduzidas em mais de 90 línguas, e que faleceu em 1968, continuam a ser editados em Portugal. Entre os seus títulos mais célebres estão as séries “Os Cinco”, “Aventura”, “Clube dos Sete”, “As gémeas” e “Noddy”. Uma obra que que já vendeu mais de 600 milhões de cópias em todo mundo e garante um final feliz. VITÓRIA SURPRESA DO LABOUR O Partido Trabalhista, liderado por Harold Wilson, venceu (02/03)

inesperadamente as eleições na Grã-Bretanha e a derrota dos conservadores abre novas perspetivas parlamentares. Entre as surpresas destas eleições, surge também a candidatura de Vanessa Redgrave, pelo Partido Revolucionário Trotskista. A atriz, contudo, não chegou a ser eleita. J. PIMENTA COM FÉ NO FUTURO A assembleia-geral da Sociedade Industrial de Construções e Turismo J. Pimenta aprovou por unanimidade (04/03) as contas de 1973. A atividade do grupo abrange

restauração, arrendamento de apartamentos mobilados para habitação ou turismo e construção de imóveis para venda. O grupo diz ter capacidade para construir anualmente três mil casas e ter terrenos para mais dez mil habitações. Este otimismo empresarial chegou ao fim com a revolução de abril e, progressivamente, foi esquecido o refrão do anúncio publicitário, “pois, pois, J. Pimenta”. C. M.

68 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CON TAGEM DECRES CENT E

Caetano apresenta a Tomás um segundo pedido de demissão, desta vez por escrito. O motivo invocado é o maldito livro de Spínola. “Pelo erro cometido devo pagar”

Costa Gomes e Spínola: após o 14 de março, ficam claramente em rota cúmplice de colisão com Marcello Caetano

governantes militares e a generalidade dos comandantes de unidades, bem como da PSP, GNR, Guarda Fiscal e Legião Portuguesa, sem esquecer o diretor-geral da polícia política, a DGS. Costa Gomes e Spínola faltam à sessão, no que são acompanhados pelo secretário da Defesa Nacional, contraalmirante Tierno Bagulho. Também a extrema-direita falta à chamada, nas pessoas dos generais Kaúlza de Arriaga e Silvino Silvério Marques, bem como do irmão deste, brigadeiro Jaime Silvério Marques. O juramento de obediência é feito pelo mais antigo dos chefes dos EstadosMaiores, o general do Exército Paiva Brandão. O texto fora previamente submetido a Caetano. “Estamos unidos, firmes e cumpriremos o nosso dever sempre e onde quer que o exija o interesse nacional”. Caetano agradece: “Dou o maior valor às palavras que em vosso nome acabam de ser proferidas. O chefe do Governo escuta e aceita a vossa afirmação

AGENDA CULTURAL Acabado de nascer, o Teatro da Cornucópia leva à cena, no terraço do Capitólio, duas peças de Marivaux, “A Ilha dos Escravos” e “A Herança”, num só espetáculo encenado por Jorge Silva Melo, com cenografia de Luís Miguel Cintra. De um lado, um jogo de casais, do outro, um jogo de interesses económicos. De um lado, uma ilha

de lealdade e disciplina.” Aos jovens oficiais lembra que “ainda no princípio do século as marchas se faziam a pé”. “O país está seguro de que conta com as suas Forças Armadas” e “em todos os escalões destas não poderão restar dúvidas acerca da atitude dos seus comandos”. FALTA DE CORAGEM MORAL A cerimónia é transmitida em direto pela RTP. Spínola chamalhe “manifestação pública de subserviência”, que “destruiu irreversivelmente a coesão das Forças Armadas”. Otelo Saraiva de Carvalho assiste na sala de oficiais da Academia Militar ao que chama “encenação da farsa”. Sobre os principais ausentes escreve no “Alvorada em Abril”: “Há um género de papéis que gente de espinha direita se recusa a representar”. A 18 de março o Movimento dos Capitães reage com brutalidade, dizendo em comunicado que os generais da “brigada do reumático” “nada mais

imaginária no mar Egeu, do outro, os arredores de Paris do século XIX. Em palco, os protagonistas são Luís Miguel Cintra, Dalila Rocha e Orlando Costa. As peças do século XVIII (1725) fazem parte de uma obra considerada o expoente máximo da máscara e da mentira, onde a linguagem é o principal instrumento no qual se escondem as personagens. A subtileza e a complexidade psicológica são outras das ferramentas utilizadas pelo dramaturgo francês para puxar para a tona de água temas mais profundos da condição humana. Na mesma altura, meados de março de 1974, o Grupo

representavam do que a si próprios e à sua falta de coragem cívica e moral”. O passo seguinte é inevitável: a demissão de Costa Gomes e Spínola. Foi “um subterfúgio para fugir à execução frontal”, lamenta Américo Tomás. “Estava traçado o destino do país”, comenta Spínola. No seu livro “O Ultramar, a Nação e o ‘25 de Abril’”, o ex-ministro da Defesa, Joaquim da Silva Cunha, lembra: “Quando receberam as guias de marcha para se apresentarem no Ministério do Exército, ambos, cada um por sua vez, me procuraram no meu gabinete, afirmando compreenderem que, depois do que se passarwa, a decisão não poderia ser outra.” Caetano sublinha que aos dois exonerados “foram mantidas todas as prerrogativas que lhes cabiam como general de quatro estrelas". Para o lugar cimeiro das Forças Armadas é nomeado o general Joaquim Luz Cunha — ex-ministro de Exército, ex-comandante-chefe em Angola e que, semanas antes, estivera envolvido numa conspiração do setor mais ultra do regime, batizada de «kaulzada»… ^

de Campolide de Joaquim Benite e Virgílio Martinho, põe em cena “Filopópulas”, no Campolide Atlético Club. A peça manter-se-á em palco até abril com salas permanentemente esgotadas. “A Ceia”, uma criação coletiva do grupo A Comuna, é referenciado pelo Expresso com um espetáculo “fundamental” e a “não perder

por nenhum motivo”. Trata-se de uma recolha de textos de Brecht, Gil Vicente, Antero de Quental (na foto), da Bíblia, do Corão, de Vinicius de Morais e de Mário Dionísio, que João Mota encena de modo sublime e com muito sucesso numa sala alternativa na Av. Almirante Reis, “junto à Cervejaria Portugália”. Se tivermos em conta que o teatro era, como o cinema, completamente controlado pelos censores, que adotavam a política de que era mais fácil ao povo entender a sua mensagem do que aquela passada através de obras literárias, por exemplo, percebemos que os brandos costumes começam a tornar-se mais radicais. A. C. 25 Abril 40 anos | 69

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

À ESPERA DE ABRIL

1 6 MARÇO

O golpe fracassado das Caldas

A demissão de Costa Gomes e de Spínola provocou a revolta de algumas unidades militares. O quartel das Caldas, porém, foi o único a sair para a rua. Na primeira batalha, o Governo cantou vitória TEXTO JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA

É

a última remodelação governamental do regime nascido do 28 de maio de 1926. A reorganização fora adiada mais do que uma vez, devido às ondas de choque provocadas pelo livro de Spínola. Os novos ministros, secretários e subsecretários de Estado tomam finalmente posse a 15 de março. A cerimónia “foi concorridíssima”, recorda Marcello Caetano no seu “Depoimento”: “A assistência (...) acolheu-me com demorada e calorosa ovação. (...) Tudo parecia ir-se encaminhando para uma progressiva normalização.” Sensivelmente à mesma hora, Spínola almoça no Hotel Embaixador, em Lisboa, com o seu staff de oficiais, com

quem tecera na Guiné uma estreita cumplicidade. As informações recolhidas apontam para um ambiente “explosivo” em várias unidades, com muitas vozes dispostas a “uma reação militar” face à demissão do general do monóculo, mas também de Costa Gomes. Spínola procura atenuar os ímpetos coléricos, argumentando que o momento não é o mais “adequado”. Como antecipação à cerimónia de vassalagem a Caetano, chegara a ser agendado um golpe para 14. O respetivo plano de operações fora trabalhado pela comissão militar do movimento. O major Manuel Monge era um dos seus membros: “Chegámos a reunir em minha casa, em Algés, mas a maior parte das reuniões foi

em casa do Casanova Ferreira, que era o mais antigo, na Rua das Mercês, à Ajuda”. Casanova regressara dias antes de uma comissão na Guiné. “As reuniões já não resolvem nada. Vamos é prà porrada!” — argumentava, segundo relata o livro “O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril”. O plano, que incluía o lançamento de uma bomba de 250 kg sobre a Assembleia Nacional (sugerido pelo próprio Casanova), foi considerado “inexequível”. A exoneração dos dois generais, porém, faz extravasar o copo da paciência de numerosos oficiais mais ligados a Spínola. A 15, em algumas unidades há protestos mais ou menos espontâneos. No Centro de Instrução de Operações Especiais, em Lamego,

70 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CON TAGEM DECRES CENT E

GUSTAVO COELHO

Imagens do cerco e rendição do quartel das Caldas da Rainha, obtidas pelo soldado Gustavo Coelho. Incumbido de controlar o aeroporto de Lisboa, o RI5 foi o único a sair para a rua

a maioria dos oficiais insubordina-se e toma conta da unidade. A indignação estende-se ao Regimento de Infantaria 14, de Viseu. Em Santarém reúnem-se representantes de várias unidades, entre as quais a Escola Prática de Cavalaria e o Regimento de Infantaria 5 (RI5), das Caldas da Rainha. Aqui, é grande a impaciência, até porque três dos capitães entretanto detidos e transferidos para as ilhas (Vasco Lourenço, Ribeiro da Silva e Carlos Clemente) serviram na unidade. Em Lisboa, a Comissão Militar decide pôr em prática parte do plano que fora congelado. O capitão Armando Ramos é enviado para as Caldas, a cujo regimento é atribuída a missão de controlar o aeroporto de Lisboa, um ponto nevrálgico. Os revoltosos neutralizam facilmente o comando da unidade. O capitão Virgílio Varela é um dos líderes. Membro da coordenadora dos oficiais do Quadro Permanente oriundos de milicianos, Varela participara no plenário de 5 de março em Cascais, onde fizera um vibrante elogio de Spínola.

Às 2 da manhã, o capitão Ramos fala para uma trintena de graduados. Diz que Spínola está a ser convidado a chefiar as operações, que envolvem muitas outras unidades. A sublevação é descrita por Joana de Matos Tornada, no livro “Nas Vésperas da Democracia em Portugal”: “Sem ligações ou coordenação, mas bem apetrechada e com grande otimismo”, a coluna parte às 4h da manhã. “Constituída por 13 ou 14 viaturas (cada uma com quase 10 militares), era uma coluna especial ao integrar aproximadamente 10 oficiais e 100 soldados dispostos a mudar o país. Bem municiada com armas ligeiras, metralhadoras pesadas, morteiros, lançagranadas e muitas granadas de mão.” CAETANO E TOMÁS REFUGIAM-SE EM MONSANTO Detido no seu próprio gabinete, o comandante do RI5 consegue aceder ao seu telefone privativo, através do qual alerta o Quartel-General de Tomar, que, por seu turno, informa Lisboa da sublevação.

Marcello toma conhecimento do que se passa por um telefonema do ministro da Defesa. “Pelas três da madrugada (...), dirigi-me conforme estava combinado, para o Quartel General da 1ª Região Aérea”. É neste bunker de Monsanto que Caetano e Américo Tomás se refugiam durante o resto da noite, em contacto permanente com os ministros da Defesa e do Exército, que, a partir do Terreiro do Paço, dirigem as operações. Quanto a Spínola, passa a noite na sua residência, na rua Rafael Andrade, em Lisboa, guardada por oficiais da sua confiança, por sua vez vigiados por agentes da DGS. Às 4h o Governo decreta a prevenção rigorosa em todo o país. A coluna das Caldas aproxima-se, entretanto, de Lisboa. Pouco depois do Carregado e antes de entrar na autoestrada, cruza-se com uma força inimiga, da GNR, mas prossegue o seu caminho. A três quilómetros da portagem, com Lisboa à vista, os homens do RI5 são abordados por Manuel Monge e Casanova Ferreira, que haviam ido ao seu encontro no “mini” branco do segundo. As notícias são as piores: mais nenhuma 25 Abril 40 anos | 71

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

Virgílio Varela, um dos revoltosos do 16 de março FOTOGRAFIA DE JOSÉ VENTURA

unidade aderira ao golpe e a entrada Norte da cidade está barrada por forças fiéis ao Governo (Artilharia 1, Cavalaria 7, Caçadores 5, entre outras), pelo que não resta qualquer alternativa senão regressarem às Caldas. Monge e Casanova incorporam-se na coluna. “Eu ia vestido à civil, mas levava a farda num saco”, conta o agora general Monge. “Assim que chegámos, fardei-me. Os nossos camaradas ainda nos ofereceram a fuga, através de uma saída pelas traseiras, mas recusámos. Estávamos ali para o melhor e para o pior.” Cercado por forças fiéis ao regime, o quartel fica sem eletricidade, água e telefones. À Porta de Armas, reporta Joana Tornada, começam “a aparecer alguns jornalistas estrangeiros”. Comandante dos sitiantes, o brigadeiro Pedro Serrano dá ordem de rendição: “Tem um quarto de hora para abrir o portão, sob pena de haver sangue!” A resposta é dada por Casanova Ferreira: “Só recebemos ordens do nosso general Spínola!” Inevitável, a rendição é decidida coletivamente. Sob prisão, 68 oficiais são transportados para o Regimento de Artilharia Ligeira 1,

Portugal e o mundo há 40 anos

PESCADORES MORREM NA FIGUEIRA DA FOZ Luto e lágrimas marcaram a tragédia do naufrágio (01/03) que roubou a vida a três pescadores na Figueira da Foz, quando um barco virou em plena rebentação. Outros tripulantes tiveram de ser recolhidos por um barco dos bombeiros. Dezenas de pescadores assistiram ao afogamento dos colegas, em pleno dia, a 200 metros da praia e as mortes deveram-se ao facto de os profissionais do mar não saberem nadar, como explicou um dos sobreviventes. As mortes de pescadores na costa portuguesa continuam a acontecer e, no fim de 2013, num único naufrágio faleceram seis pessoas.

DESTRUÍDA PRAÇA DE TOUROS DE ALGÉS Inaugurada em 1895, a praça de touros de Algés, com capacidade para 7500 espectadores, pretendia concorrer com o Campo Pequeno, que iniciara atividades três anos antes. Apesar de ter sido, inclusive, cenário de filmes como “A Severa”, a praça não garantiu a sua sobrevivência e o objetivo de ultrapassar o Campo Pequeno nunca foi alcançado, pois, após vários anos de abandono e degradação que se iniciaram na década de 60, a praça foi demolida em 02/03/1974. ESCÂNDALO WATERGATE AFASTA NIXON O Presidente dos EUA, Richard Nixon, numa

mentir, omitir e esconder provas, não teve como evitar a resignação em agosto de 1974. A investigação que levou a este desfecho foi desenvolvida por “The Washington Post” e partia da invasão a um edifício denominado Watergate, onde funcionava a direção nacional do Partido Democrata, para instalar escutas clandestinas. reunião com empresários norte-americanos (07/03), reafirmou a sua inocência no caso Watergate, sublinhando que “um ano já chega”. Por três vezes repetiu que não se demitiria, mas, no verão, Nixon voltaria atrás e colocaria o seu cargo à disposição. Acusado de

CRESCEM AS EXPORTAÇÕES DE CALÇADO PORTUGUÊS As vendas de calçado português para o mercado internacional aumentaram 28% nos primeiros nove meses de 1973 (02/03), quando comparadas com o mesmo período do ano anterior. Regista-se com especial destaque

72 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CON TAGEM DECRES CENT E

“Reina a ordem em todo o país”, rejubila o Governo. No rescaldo do golpe são presos 33 oficiais, entre eles parte da ‘nata spinolista’ à entrada de Lisboa. A maioria fica detida na enfermaria, mas os seis cabecilhas seguem para a Casa de Reclusão da Trafaria. Juntam-se-lhes outros três capitães, bem como o tenente-coronel Almeida Bruno, um dos mais conhecidos oficiais spinolistas que a DGS procurara debalde em sua casa e que acabara por ser detido, ainda de noite, na Academia Militar. Muitos outros militares do RI 5 (sargentos, milicianos, cabos e aspirantes) são interrogados e transferidos para outras unidades — num total de 175. O mesmo sucede com os oficiais de Lamego. O que, a prazo, se revelará um erro de palmatória do Governo, que “em vez de apagar o fogo, soprou as brasas, espalhando-as por todo o lado...” — no dizer dos autores de “O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril”. O regime respira de alívio. “Nessa sublevação”, escreverá Américo Tomás, “parece terem participado, principalmente, os oficiais mais dedicados” a Spínola, “então ainda seus fanáticos admiradores”. Reunido de emergência no dia 17, o Governo faz um balanço reconfortante. “Todas as tropas haviam obedecido às ordens do Governo”,

o crescimento das exportações para a África do Sul. A economia nacional também alcançou uma evolução positiva, tendo crescido a um ritmo de 5% ao ano, entre 1965 e 1971, de acordo com uma publicação do Banco Mundial. Passados 40 anos, a economia portuguesa encontra-se sob intervenção do Fundo Monetário Internacional, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. E também as exportações de calçado voltam a evidenciar um comportamento otimista, com um crescimento de 4% no primeiro semestre de 2012, quando comparado com o mesmo período do ano anterior. C. M.

notará Marcello Caetano; “e o público tinhase mantido sereno, sem quaisquer mostras de nervosismo e menos ainda de aplauso do ato da rebeldia”. Um comunicado da Secretaria de Estado da Informação e Turismo chega aos jornais a meio da tarde. Num tom simultaneamente tranquilo e triunfalista garante que “reina a ordem em todo o país”. MALOGRO PARA OS REVOLTOSOS Conhecida por “Errecincada” (de RI5), a revolta das Caldas salda-se por um malogro. Para Otelo, “a aventura terminara com um balanço altamente negativo para nós”. Detidos ao todo 33 oficiais — entre os quais parte da ‘nata spinolista’, como Almeida Bruno, Manuel Monge, Casanova Ferreira, Armando Ramos, Farinha Ferreira, Virgílio Varela. Só serão libertados na tarde de 25 de abril de 1974. A 18, o vespertino “República” notícia o malogro do golpe na página... desportiva. Numa linguagem encriptada, para iludir o Exame Prévio, o jornalista Eugénio Alves reporta o que se passara no lead da notícia sobre a vitória do Sporting sobre o FC

AGENDA CULTURAL “A Flauta Mágica”, de Mozart, marca a Temporada de ópera do Teatro São Carlos. É a terceira produção apresentada em Lisboa em Fevereiro e cai no goto da crítica. “É uma diversão de longo fôlego da mais simples fruição, uma ação que se presta a especulações sentimentais, cómicas, dramáticas, moralistas e disfarçadamente políticas muito consistentes; e é acima de tudo um pretexto para um não acabar de variedades de estilo e de combinações vocais unificadas pelo estilo ímpar de Mozart”, escreve Francine Benoit, no Expresso de 16 de fevereiro de 1974. A obra passa ao crivo da censura e desperta o interesse do povo que acorre em massa a assistir ao

Porto, por 2-0: “Os muitos nortenhos que no fim de semana avançaram até Lisboa, sonhando com a vitória, acabaram por retirar, desiludidos pela derrota. (...) Mas, parafraseando o que em tempos disse um astuto comandante, perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra”. No mesmo dia, o movimento reage, através da circular 2/74, redigida por Otelo e Vítor Alves. Critica os camaradas “generosos e abnegados, sem dúvida, mas excessivamente impacientes, a tentar resolver a situação de modo imediato”. É o último documento público do movimento, que decide enveredar pela mais absoluta discrição e segredo. Os mesmos oficiais encontram-se no Café Londres com Melo Antunes. Desanimado, este considera “tudo liquidado”, mas compromete-se a redigir um programa político, na linha do manifesto aprovado no plenário de Cascais. A primeira versão é apresentada a 22, véspera do seu embarque para os Açores. Burilado e discutido com Spínola, é o Programa do Movimento das Forças Armadas, que será divulgado ao país na madrugada de 26 de abril de 1974. ^

espetáculo quando este passa à cena no Coliseu dos Recreios Na mesma data, a oferta cinematográfica é alargada. “Persona”, de Ingmar Bergman, está na sala Estúdio; “Perseguição Impiedosa”, de Arthur Pen, com Marlon Brando e Jane Fonda, um filme para maiores de 18 anos, está em exibição no Londres, que tem ainda

em cartaz “Por Favor Não Me Morda o Pescoço”, de Roman Polanski. O Apolo 70 exibe “Drácula 72”, de Alain Gibson; “Festival Tom & Jerry”, em cinemascope, um filme da Walt Disney, e ainda “Os Homens de Amanhã”, de Stanley Kramer, e o grande clássico de Orson Welles, “O Mundo a Seus Pés”. Já no que respeita às novidades literárias há a salientar “Cuba ou os Caminhos da Liberdade”, de Hugh Thomas, “Hitler e as Religiões da Suástica”, de JeanMichel Angebort, As Obras Completas de Alexandre Herculano e “Papillon”, de Henri Charrière. Obras de cariz político contrário ao do regime e moralmente reprováveis pela anterior cartilha dos censores. A. C. 25 Abril 40 anos | 73

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

À ESPERA DE ABRIL

1 7

Petróleo acelerou as mudanças

O mundo descobriu em 1973 uma nova guerra económica: o boicote árabe à exportação de crude para a Europa e os EUA. O embargo seria levantado no ano seguinte, mas em Portugal o choque petrolífero já fizera mossa, fragilizando mais o regime

ARQUIVO EXPRESSO

MARÇO

TEXTO CHRISTIANA MARTINS

U

ma notícia de “A Capital” revela o clima opressivo que se vivia em Portugal no início de março de 1974: cada automóvel particular tinha um limite máximo de vinte litros de combustível para abastecer. Estavam proibidos fornecimentos aos sábados, domingos e feriados, assim como para competições desportivas, “em terra, água ou ar”. Interdito estava também o enchimento de bidons ou outro vasilhame. Uma exceção era aberta para turistas — mas sem exceção para emigrantes e residentes no estrangeiro —, que por despacho do secretário de Estado da Indústria podiam abastecer os seus veículos aos fins de semana e feriados.

O diploma criava ainda “postos de abastecimento de gasolina para uso exclusivo dos veículos, nacionais ou estrangeiros, ao serviço dos turistas”. Na raiz deste estrangulamento da vida portuguesa estava a conjuntura internacional: o mundo conheceu então o primeiro “choque petrolífero” da História. Este surgiu em 1973, quando, numa retaliação pelo apoio norte-americano a Israel na guerra do Yom Kippur, estados árabes, funcionando em cartel, boicotaram a exportação de crude para países ocidentais. A 17 de março de 1974, no entanto, a situação viria a alterar-se, com o levantamento do embargo. A notícia foi manchete de “A Capital”: “O petróleo dos países árabes volta a correr para os

EUA, após decisão tomada ontem em Viena e recebida com uma sensação de alívio em todo o mundo ocidental”. Os portugueses respiraram melhor, mas as consequências da crise ainda se fariam sentir por muito tempo. A crise económica desencadeada pelo choque petrolífero redesenhou todo o panorama internacional, acentuando a importância da energia na geoestratégia. Em menos de três meses, os principais produtores de petróleo subiram o preço do crude de 2,90 dólares para 11,65 dólares o barril. Um sinal de alerta dado a todo o planeta, que durante 25 anos assistira impávido a um crescimento económico apoiado na multiplicação por cinco do consumo de petróleo.

74 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CON TAGEM DECRES CENT E

Encher o depósito tornou-se tarefa concorrida. Para poupar combustível, o truque dos portugueses era ir empurrando o carro até à bomba

Os alicerces da economia tremeram com o choque petrolífero de 1973. Nos EUA, a crise durou dois anos, com o Produto Interno Bruto (PIB) reduzido em 6% e a taxa de desemprego a aumentar para o dobro. A economia japonesa, pela primeira vez desde o fim da II Guerra, contraiu-se. O FIM DE UMA ERA A época a que o historiador inglês Eric Hobsbawm chamara a Era do Ouro, uma das fases de maior prosperidade económica da história mundial, chegara ao fim. Instabilidade e crise passam a ser conceitos banais do vocabulário dos analistas. Anos mais tarde, Henry Kissinger, estratego da política externa

norte-americana nas décadas de 60 e 70, no livro “Years of Upheaval”, revelava a sua surpresa: “Como uma transformação tão ampla e profunda pôde acontecer repentinamente? Olhada retrospetivamente, veem-se com nitidez as sementes e os sinais daquela mudança dramática. A revolução do petróleo, como tantas revoluções históricas, manteve um padrão. Era inevitável, mas a sua inevitabilidade só foi vista depois”. O mundo acordou surpreendido após o tempo de abundância, financiado pelo Plano Marshall, após a II Guerra Mundial. A euforia associada àquele período dificultara a tomada de decisões duras a favor da reconversão energética. Em 1960, a Esso reduziu o preço do barril e a gula dos consumidores abriu caminho ao surgimento de um cartel de vendedores. A OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) surgiu nesse ano, na Conferência de Bagdad, criada por cinco países: Arábia Saudita, Kwait, Irão, Iraque e Venezuela, que juntos tinham 53% da produção petrolífera mundial.

A viragem para a década de 1970 deu-se com cortes de produção no Irão, Líbia e Argélia. Todos os instrumentos eram válidos para negociar o aumento de preços. Afinal, sete em cada dez barris das reservas de petróleo então conhecidas (fora do países do bloco comunista) e dois terços do petróleo em que se baseava o crescimento económico, estavam em países islâmicos. Do outro lado, os grandes estados compradores, apoiantes de Israel. Seis de outubro de 1973 amanheceu sob a ordem do perdão: o calendário judaico marcava a comemoração do Yom Kippur, mas esta não foi a palavra de ordem naquele dia. O deserto do Sinai foi palco de uma invasão inesperada de egípcios e sírios. Moshe Dayan, chefe do Estado-Maior do Exército israelita, apoiou-se nas armas compradas aos EUA e no heroísmo dos seus soldados e, dez dias mais tarde, o exército de David cantou vitória. O problema é que não fora apenas esta a guerra que rebentara. Em resposta ao apoio acidental a Israel, os estados árabes produtores de 25 Abril 40 anos | 75

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CO NTAG E M DEC R E SC E N T E

SEGUE O CAMIÃO-TANQUE! Na carestia e na falta de combustíveis em Portugal, viveram-se situações caricatas. No início de 1974, alguns clientes foram para a porta das instalações das empresas de combustíveis, ficando à espera da saída do camião-tanque. Quando este se fazia à estrada, os condutores seguiam-no, para assim saberem quais as bombas de gasolina

CORBIS

petróleo reuniram-se em Viena de Áustria e aumentaram o preço do barril. A par disso, Síria, Egito e Tunísia decretaram um embargo aos países considerados hostis: EUA, Holanda e Portugal. Pressionado por Washington, o Governo de Lisboa permitira o uso da Base das Lajes, nos Açores, por aviões norte-americanos. A resposta árabe não tardou e Portugal figurou na lista de países a boicotar. Como se não bastasse a alta do preço, agora havia um veto. Manuel Boullosa — um dos responsáveis pelo desenvolvimento da indústria nacional de combustíveis, com a criação da Sonap, em conjunto com Manuel Queiroz Pereira — escreveu uma carta a Marcello Caetano, sublinhando “o princípio do fim da era do petróleo como fonte principal de energia”. E foi também Boullosa quem se esforçou por contornar o embargo, com as suas ligações aos países africanos de expressão portuguesa, por ter invocado junto dos árabes a existência de um milhão de muçulmanos em Moçambique.

Portugal e o mundo há 40 anos

“OS LUSÍADAS” CONTRA A DITADURA BRASILEIRA O jornalista brasileiro e diretor de “O Estado de São Paulo”, Júlio de Mesquita Neto, foi agraciado pela Federação Internacional dos Editores de Jornais com a Pena de Ouro da Liberdade, em reconhecimento pela

sua luta contra a ditadura militar. Como estratégia para contornar a censura, durante os anos de chumbo, Mesquita Neto publicava trechos de “Os Lusíadas” em lugar de artigos vetados. Morreria em 1996 para ser substituído pelo irmão Ruy na direção daquele que ficou conhecido como “O Estadão”, jornal que disse ser a sua vida. FRIO AMEAÇA HUMANIDADE A ameaça de uma nova era glacial pode trazer consequências desastrosas à espécie humana, alertam (10/03) os investigadores

do Instituto de Estudos sobre o Meio Ambiente, da Universidade de Wisconsin, nos EUA. As drásticas alterações nas condições climáticas afetam já todo o mundo e, segundo estes pesquisadores, deverão levar a cobertura do continente norte-americano por glaciares há muito desaparecidos da calota terrestre. Quatro décadas mais tarde, o receio generalizado é do aquecimento global. BRANDOA/FALAGUEIRA GANHAM URBANIZAÇÃO O secretário de Estado do Urbanismo e Habitação

aprovou o regulamento do Plano de Urbanização da Brandoa-Falagueira (14/03). Ficam fixados os índices de ocupação urbanística dos terrenos e a criação de espaços reservados a parques de estacionamento, habitações económicas e zonas verdes. Em 1962, com o elevado número de habitações irregulares naquele que era conhecido como o maior bairro clandestino da Europa, este projeto foi falado pela primeira vez. Quarenta anos mais tarde, a freguesia da Brandoa seria agregada à de Alfornelos para a criação da Encosta do Sol. C. M.

76 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


EM CON TAGEM DECRES CENT E

No início de 1974, os portugueses viviam pressionados pela falta de combustíveis. O choque petrolífero veio perturbar a sociedade e minou ainda mais as bases do regime, favorecendo o 25 de Abril

Guerra do Yom Kippur: o conflito israelo-árabe originou a primeira crise do petróelo

que eram abastecidas. Reza a crónica que alguns automobilistas terão ido parar à fronteira com Espanha. Num quadro em que a realidade por vezes se confundia com a ficção, corria até o rumor de haver quem armazenava combustível na banheira! Num depoimento para a “Visão História”, Francisco Sarsfield Cabral recorda quando ficou sete horas parado em Lisboa para abastecer o automóvel. O jornalista e economista de formação não tem dúvidas sobre a importância da crise petrolífera nos destinos políticos de Portugal. “Estou convencido de que os efeitos devastadores do primeiro choque petrolífero em Portugal perturbaram profundamente a nossa sociedade, contribuindo para o sucesso da revolução de abril. A economia portuguesa

tinha conhecido nos dez ou 12 anos anteriores, a maior expansão da nossa história. Ora, é sabido que as revoluções costumam acontecer, não quando a economia estagna ou cai, mas quando o seu crescimento suscita grandes expectativas de melhorias de nível de vida, expectativas que não podem ser satisfeitas, pelo menos integralmente (...) A brutal alta do crude em 1973/1974 terá, como me parece, contribuído para um ambiente propício à rutura do 25 de Abril. Em contrapartida, complicou muito a vida dos portugueses nos anos seguintes à revolução”. Marcello Caetano, no livro “Depoimento”, aborda este momento histórico. Explica que a 11 de março de 197 procurara o Presidente Américo

AGENDA CULTURAL A “Morte de um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, estreia a 16 de março, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, numa encenação de Artur Ramos e com Fernanda Borsatti, Rogério Paulo e António Montez nos papéis principais. Uma obra-prima do realismo psicológico, a peça, escrita em 1949 , relata o drama de Willy Loman que, desempregado, procura ajuda e vê os valores económicos sobreporem-se aos sociais, ao mesmo tempo que, ao ser descoberto pelo filho com uma amante, faz desencadear o conflito entre a

Tomás, com o objetivo de o chamar “à consciência” para as “graves questões a que era preciso prestar pronta atenção”. O crescimento da inflação, resultante da crise do petróleo, era uma das urgências a atalhar. Durante muito tempo, Portugal utilizara o saldo positivo da balança de pagamentos para conservar e aumentar as reservas de ouro e divisas, mas, explica o chefe de Governo, “as implicações do encarecimento da energia no custo de outros produtos eram inevitáveis”. Mal passasse o Carnaval, Caetano iria remodelar a área económica do Executivo, mas, explica, “o incidente da publicação do livro do general Spínola” suspendera a medida. Com o 25 de Abril, não teve tempo de a executar. ^

Ao mesmo tempo que a arte moderna invade Lisboa, a arte africana também é aplaudida na Galeria Buchholz numa mostra da autoria de Malangatana.

retirado do álbum “Planet Waves”, acabado de editar. O mundo via e ouvia os mesmos autores! A. C.

No cinema, Ingmar Bergman dá cartas com “Lágrimas e Suspiros”, e André Delvaux leva muita gente às salas para ver o seu “Amor Louco”, um filme que apesar de todo o seu sortilégio, escapa à crítica da censura. moral e a imoralidade. Tudo o que os bons costumes nacionais reprovavam, mas que escapam aos censores de Marcello Caetano.

Na musica, Bob Dylan, a 1 de abril chega ao lidera Top-ten dos discos da semana com o single ‘Tough Mama’ 25 Abril 40 anos | 77

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


“Uma gaivota voava, voava, asas de vento, coração de mar. Como ela, somos livres, somos livres de voar. Uma papoila crescia, crescia, grito vermelho num campo qualquer. Como ela somos livres, somos livres de crescer”

78 | 25 Abril 40 anos

Ermelinda Duarte “Somos livres (uma gaivota voava...)” © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


Adrenalina na revolução MAIS DO QUE A MAIORIA dos partidos que haveriam de tornar-se os pilares do regime, foram formações com menor expressão eleitoral, sobretudo de extrema-esquerda, que agitaram os primeiros tempos da democracia. Devido ao poder de mobilização para manifestações, a uma eficaz propaganda ou à forte implantação em sectores profissionais e estudantis. Muitas dessas forças políticas foram fruto de cisões em partidos existentes. Outras ainda derivaram da evolução do movimento comunista internacional. Ao tempo, sobretudo nesses dias de brasa, marxismo-leninismo, maoísmo ou trotskismo eram inimigos figadais (na doutrina e, muitas vezes, em batalhas campais). Não houve só desavenças, no entanto. A FUR (Frente de Unidade Revolucionária, onde o PCP esteve fugazmente) ainda reuniu diversos grupos, mas foi aventura sem futuro. Aqui se recupera numa parte da memória desses dias febris, quando a política se fazia sobretudo na rua, tomada por uma miríade de grupos e grupúsculos — hoje genericamente desaparecidos, com siglas e designações que se confundem na mente dos não iniciados. ^ PAULO PAIXÃO

25 Abril 40 anos | 79 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


CO NS T IT U I ÇÃO

80 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


JOSÉ GOMES CANOTILHO

CO N S T I T U I ÇÃO

TEXTO HENRIQUE MONTEIRO JOANA PEREIRA BASTOS FOTOGRAFIAS LUÍS FAUSTINO

O MEMORANDO É TOTALMENTE INCONSTITUCIONAL Sem pestenajar e perante uma simples pergunta, o constitucionalista responde tudo o que mudava e não mudava na atual Constituição. Haveria partes iguais, muito diferentes e, até, radicalmente diferentes

A

prendeu a fazer sentenças no Tribunal Militar de Viseu com um ilustre magistrado, Rui Vieira Miller Simões. Este juiz de toga (havia juízes militares) escrevia sentenças concisas e elegantes com uma caneta Bic de ponta fina. Meia página bastava para registar uma sentença. “Mais tarde voltei a encontrar o magistrado e a sua fala era outra: ‘Olhe, já não tenho letra fina nem escrevo decisões judiciais.’” Foi por histórias como esta que começou a nossa conversa com Gomes Canotilho, um dos maiores especialistas em constituições (desde logo a Constituição da República Portuguesa), professor catedrático de Direito jubilado em Coimbra, Prémio Pessoa em 2003, ex-militante do PCP e hoje sem partido. Em 1968, numa noite, teria de tomar a decisão mais solitária de sempre: ir para a guerra da Guiné ou desertar. Acabou por seguir para a “Guiné do general Spínola”. Não seria capaz de viver fora da sua pátria. Decisão emocional à procura de razões, confessa. Dois anos depois voltou, foi para Coimbra onde já tinha o lugar de

assistente e aí se manteve praticamente toda a vida, a dar aulas e a percorrer os sucessivos degraus de um académico. Passou pela Alemanha, como convém a um jurista e, além do mais, constitucionalista, e esse facto, juntamente com ter também lecionado em Macau e ter visitado diversos países, deu-lhe a visão da Europa e do mundo que muito o ajudam a explicar a atual crise. Mas é na Constituição da República (CRP) e nas polémicas à sua volta que se há de centrar esta conversa. Canotilho lembra que a CRP só não foi votada pelo CDS — “Na altura era tudo social-democrata, socialista e comunista”. E faz uma revelação: o projeto de Constituição do PCP foi feito em sua casa. “Eu, Lino Lima, Vital Moreira, Jorge Leite e um funcionário do partido. A minha mulher cozinhou para todos. Em dias apresentámos um projeto que não envergonhava ninguém no plano jurídico formal. Nesse projeto incorporava-se muito da ideologia do PCP e da pretendida evolução socialista que depois veio a ser muito contestado” (recorde-se que Lino Lima já faleceu e 25 Abril 40 anos | 81

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


CO NS T IT U I ÇÃO

que Jorge Leite, Vital Moreira e o próprio Canotilho abandonaram o PCP). Discutia-se se uma constituição deve abrir-se à discursividade emancipatória (“transição para o socialismo”, “aliança povo-militares”, “irreversibilidade das nacionalizações”). Na altura, um dos objetivos centrais defendidos era ocupar posições normativo-constitucionais que garantissem uma perspetiva socialista de governo e de sociedade. Um outro problema era o da positivação constitucional de direitos económicos, sociais e culturais. Recorde-se que a constituição recebe em larga medida disposições jusfundamentais de tratados e convenções internacionais (Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais, Normas da Organização Internacional do Trabalho). Aquela geração acreditava no Estado e nas suas funções e tarefas redistributivas. De certo modo, recebia o keynesianismo económico, o programatismo socializante e a socialidade de cariz social-democrata. Era um “dogma de justiça social” a existência de um sector público na saúde, na educação e na segurança social. Pode dizer-se que o PCP ganhou a “batalha da Constituição”? É necessário não subestimar o contributo do PS, do PSD e até do CDS, na definição e garantia exaustiva de direitos, liberdades, na garantia da propriedade privada, no recorte da autonomia regional e local, na institucionalização do Tribunal Constitucional. Mesmo na especificação de limites de revisão, as cláusulas de irrevisibilidade foram negociadas (pelos encarregados da redação final, Jorge Miranda e Vital Moreira). Em rigor, os diferendos e diferenças das forças políticas quanto à visão do Estado e da sociedade encontram-se normativamente sobrepostos (“consenso por sobreposição”).

µ

Mas a opinião pública não era mais radicalizada do que a Assembleia Constituinte? A aguda radicalização a pretexto dos esquemas organizativo-políticos transporta epifenómenos de mobilização social. “Descobri nos meus arquivos uma proposta redigida por mim, sugerindo a criação de uma ‘assembleia popular’ e de uma ‘assembleia das forças armadas’ (bicameralismo revolucionário)”. OS MEMORANDOS DA TROIKA SÃO UMA REVISÃO CLANDESTINA Mas a ideologia mais exacerbadamente “ideológica” é a do projeto de revisão constitucional fracassado de Passos Coelho, privatizar o que falta privatizar, esconder a partilha do bolo orçamental fazendo entrar no sector público (agora não apenas estadual) a educação, a saúde e o ensino privado. Os três memorandos da troika constituem, por si só, uma revisão radical e clandestina, sustenta. Afirma ter aprendido alguma coisa com o passar dos anos: que nada é irreversível e que os frutos das conquistas sociais nunca estão maduros. Mas há um limite à subversão do Estado de direito democrático-constitucional encoberta pelos apócrifos estados de necessidade (financeiros, políticos). O consenso reclamado passa pelo povo. Para rever a constituição é preciso povo. O consenso não pode nem deve transmutar-se em legitimações de “governo de técnicos” ou de “entidades neutrais”. Mas se fosse Gomes Canotilho a ter a incumbência de, neste momento, fazer a constituição, ela seria muito diferente? Vamos por partes. Comecemos pelo preâmbulo. No preâmbulo — de valor simbólico — subsiste a narrativa de transição para o socialismo. Não vale a pena que um registo simbólico se converta em foco de contestabilidade. Deixaria imperturbado o catálogo de direitos porque, mesmo no contexto da globalização, ele

Comecemos pelo preâmbulo. No preâmbulo — de valor simbólico — persiste a narrativa de transição para o socialismo. Não vale a pena que um valor simbólico se transforme em foco de contestabilidade

condensa os bens e os valores mais elevados de uma sociedade (dignidade, liberdade, igualdade, solidariedade e justiça). Mas há um ponto em que “reatualizou” as convicções. Sabem qual é? E, sem esperar pela resposta, que “aliás, não sabemos”, Canotilho dispara: manteria a contestada normativização jusfundamental dos direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores. Num tempo em que as troikas censuram “convenções coletivas de trabalho” e “portarias de extensão”, em que se procuram individualizar contratos bilaterais de trabalho, devemos tomar a sério o carácter inovador da Constituição quanto ao sentido jusfundamental de organizações sociais. Numa sociedade de diferenciação funcional onde germinam “matrizes comunicativas anónimas” (o termo é de um sociólogo, Gunther Teubner) como “os mercados”, “a comunicação social”, “as empresas de notação”, os “conglomerados de devassa comunicativa” (dos serviços de informação às memórias de registo privado), os cidadãos têm de enfrentar forças totalizantes geradoras da “banalização do bem” (peço emprestada a ideia de Tony Judt). Pode explicar melhor, perguntamos-lhe. E Canotilho tenta: como se controlam, se legitimam, se julgam essas organizações e matrizes comunicativas? Quem controla os mercados, quem controla a devassa comunicativa, quem manda nos offshores? Num mundo de matrizes excludentes ficamos desarmados e estamos isolados. O mesmo se passa com um país: um país orgulhosamente só, é um país impotente e desarmado. Isto obriga-nos a reforçar a sociedade civil organizada no mundo do trabalho e no mundo empresarial produtivo. Daí a nossa crença na UE e a discordância relativamente aos que não compreenderam as lógicas da globalização e da queda do muro de Berlim. NORMAS PARA LIMITAR O ESTADO TAXADOR Continuamos com a revisão. Que outros arranjos encontraria? Na parte económica, muitas das normas, depois da adesão à União Europeia, sofreram uma “redução eidética”. Em termos mais simples: foram colocadas “entre parêntesis”. Evitaria, por isso, algumas irritações sistémicas retirando as normas referentes a “constituição industrial”, “constituição do comércio” e “constituição agrária”. De qualquer modo, e contra os ventos dominantes, reforçaria o sector público dos serviços essenciais. Não é com a Constituição que se faz uma revolução,

82 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


CO N S T I T U I ÇÃO

mas a lei constitucional tende a revelar a identidade de um povo. Que emendas proporia em sede de constituição financeira e fiscal? Esse é um dos temas mais politicamente intensos. Perante a derrogação sistemática desta Constituição, colocaria normas mais claras sobre os limites do “Estado tributário expropriativo” (sobretudo dos rendimentos do trabalho) e do “Estado taxador” discricionariamente impositivo de contribuições extraordinárias, onde se combina o pior de dois mundos (impostos e taxas insuportáveis e insustentáveis). E quanto à organização do poder político? Para Canotilho o equilíbrio de poderes recortado na Constituição é razoável. Mesmo tendo em conta que o regime é caracterizado como semipresidencialista (e ele prefere designá-lo como “parlamentar quanto à forma de governo”). É o governo e não o Presidente da República que deve governar. Mas há campos político-constitucionais que mereciam explicitações constitucionais. Desde logo, o dos “poderes presidenciais” no âmbito da defesa nacional e das relações externas. A guerra do Iraque revela a irredutibilidade das interpretações do Presidente (na altura Jorge Sampaio) e do governo (de Durão Barroso). Não se podia nem devia

José Gomes Canotilho, numas escadarias da Fundação Gulbenkian

circunscrever a um “exercício semântico” de leitura da Constituição. Estava em causa o envio de tropas (de forças militarizadas da GNR) para o teatro de operações e o comandante-chefe das Forças Armadas era o Presidente da República. Registe-se também a indispensabilidade da compreensão parlamentar da forma de governo. Falta, porém, desambiguar o sentido dos poderes do Presidente na demissão do governo. “Creio que existe confusão, alimentada pelo texto constitucional, entre dissolução do

Parlamento quando está em causa o regular funcionamento das instituições e demissão do primeiro-ministro quando o problema é o do regular funcionamento do governo”. Jorge Sampaio (e já outros presidentes antes dele, como Ramalho Eanes e Mário Soares) “fez uma “interpretação do regular funcionamento do governo (demissão de Santana Lopes com dissolução da Assembleia da República) que não foi a minha”. Qual era a sua? Canotilho entendia que Sampaio podia nomear outro primeiro-ministro do PSD que tivesse assento na AR (por exemplo, Manuela Ferreira Leite). Chegou a escrever isto numa exposição a Sampaio. Mas o Presidente pode demitir o primeiro-ministro sem usar a bomba atómica da dissolução? O “regular funcionamento do governo não tem de passar pela dissolução da AR”. Canotilho insiste que a demissão do executivo por perturbação real do “regular funcionamento do governo” carece de clarificação em sede de revisão constitucional. E, quanto ao sistema eleitoral? No sistema eleitoral, Canotilho é defensor do sistema alemão (sistema de lista e de círculos uninominais), não lhe repugnando um círculo nacional para otimização dos “restos 25 Abril 40 anos | 83

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


CO NS T IT U I ÇÃO

µ

Coloca-se um problema ideológico muito intenso: quais são os serviços que devem ser do Estado? Já não é os CTT, os transportes ou a EDP. Agora a questão coloca-se na Saúde, na Educação, na própria Segurança Social

eleitorais”. Mas continua a não defender uma cláusula limitativa da conversão de votos em mandatos. “Não se devem evitar novas forças com assento parlamentar.” E na parte de organização dos tribunais. Talvez se imponha uma referência ao sistema de interjurisdicionalidade, ou seja, de vários tribunais, nacionais, supranacionais, internacionais a exercerem funções de jurisditio (Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, Tribunal de Justiça da União Europeia, Tribunais Arbitrais). Talvez seja necessário “precisar a autonomia e independência do Ministério Público, bem como a sobreposição da função de defensor da legalidade democrática e de defensor da legalidade e de advogado do Estado” e a criação de um Conselho Superior de Justiça. E sobre o Tribunal Constitucional? Sobre o TC haveria muito a dizer. A maioria dos políticos, dos jornalistas, dos juristas, até, não sabe para que serve, como funciona, diz Canotilho. Há discussões acesas porque, no início do séc. XX, na Áustria, é criado um tribunal constitucional já não para julgar casos concretos, como nos EUA, mas para fazer fiscalização abstrata dos atos administrativos. Da ideia de legislador negativo inerente a esta fiscalização resvalou-se para a discussão sobre o defensor da constituição, entendido como instância neutra. Com Hitler e o seu poder totalitário, esta questão perde-se, mas volta à agenda depois da guerra, com o TC alemão e o italiano. Os tribunais constitucionais fiscalizam não a política mas a constitucionalidade de atos político-jurídicos. “Veja a mais recente sentença do Tribunal Constitucional alemão, que, dizendo haver fortes indícios de inconstitucionalidade nas propostas financeiras e bancárias, já salienta o reenvio para o Tribunal de Justiça da UE”, mas reservando para ele, subtilmente (como fez na sentenças sobre o Tratado de Maastricht e sobre

o Tratado de Lisboa), a última palavra sobre os limites da integração. Qual o grande problema, então? Canotilho não tem dúvidas: “É que quem ler os três documentos do memorando de entendimento, verifica que eles violam a nossa Constituição.” Em muitos princípios básicos, desde o princípio da igualdade, da igualdade perante os encargos públicos, da equidade, da não retroatividade, da proteção, da segurança, da confiança e dos direitos sociais. Depois, coloca-se um problema ideológico muito intenso: quais os serviços que devem ser do Estado e os que não devem? É que já não é os CTT, os transportes ou a EDP. Agora a questão coloca-se na Saúde, na Educação e na própria Segurança Social. “Esta é a verdadeira batalha — o “PREC social-privatizador” que estava no projeto de Constituição de Passos Coelho. Mas a Constituição deve ser uma arma de luta ideológica ou deve dar hipóteses a qualquer modelo? “Não é crime uma Constituição postular um sistema de ensino público, de saúde e de segurança social, deixando aberta a possibilidade de desenvolvimento de sistemas privados de modelos convencionados.” “UM TRATADO DA RAZÃO CÍNICA” Voltamos aos memorandos. Diz Canotilho que os memorandos de entendimento são uma revolução no país. Não é só a justa causa de despedimentos; ou as questões de perda de rendimentos, nas pensões e nos seus efeitos retroativos. É em quase tudo! “Parece um tratado da razão cínica”. Como dizia Tony Judt, quando hoje se fala de convergência e de igualdade tem sido sempre para menos salários e menos direitos. Isso não exclui a revisão das políticas públicas e da sustentabilidade económico-financeira. “Claro que depois há outra visão: vale a pena colocar o problema das taxas moderadoras? Vale! Vale a pena discutir

se o sistema de pensões deve ter um teto máximo.” Mas há também a geração que não tem reforma nenhuma. “É o problema geracional e dramático. Todos nós temos filhos e netos e quase todos nós somos convocados a ajudá-los. A proteção da família consagrada na Constituição — e bem! desestrutura-se com as arritmias económico-sociais e com políticas cegas a verdadeiros direitos públicos dos agregados familiares (impostos, proteção social, creches)”. A globalização e a europeização vieram também mostrar a importância relativa das constituições no âmbito da socialidade estatal e constitucional. Mas vale a pena salvar o sistema social europeu. Na Alemanha, o SPD impôs um salário mínimo que Merkel não queria e obrigou a reduzir a idade de reforma de 67 para 63 anos. No plano político, pode dizer-se “e nem sei se devo dizer, que os partidos de esquerda não estavam preparados para a globalização. Para a direita é mais fácil, com a aceitação dos mercados, das regulações e desregulações, da inobservância de instrumentos de regulação de trabalho”. E Canotilho insiste: “A ideia de austeridade pode ser positiva se bem doseada e compreendida. Um país endividado não tem autonomia, nem independência e afasta os investidores. Tudo isto é verdade! Mas tem de haver espaço para o Estado social. E a social-democracia, o personalismo cristão, o liberalismo social são tão próximos entre si, e tão afastados dos modelos chineses ou indianos, indonésios ou filipinos, do Bangladesh ou da Tailândia, que nos custa a compreender como é que se pode apoucar a Europa social. A Europa é o lugar mais estimulante do mundo para viver” e para desenvolver uma sólida emancipação individual e social. “Há que ter um otimismo racional”, conclui Canotilho. ^

84 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ABA NOES NO RE GIME Os atentados iam sacudindo os alicerces da ditadura, os militares já consideravam a guerra colonial uma causa perdida e entre oficiais intermédios germinava a revolta 25 Abril 40 anos | 85 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ABAN ÕES NO REG I M E

NO TEMPO DA AÇÃO DIRETA A última década e meia da ditadura foi agitada por um rosário de operações audaciosas de uma oposição rebelde. Registo desses prólogos do 25 de Abril TEXTO FREDERICO CARVALHO

O

que faz cair um regime? Muitas coisas combinadas. Nos tempos em que nada era certo, houve sempre quem recusasse a espera perfilada de medo. Salazar tremeu no pós-2ª Guerra Mundial e

apanhou um susto em 1958, com as multidões da campanha de Humberto Delgado. Num e noutro caso, mostrou que não sairia a bem. Na sombra, a lição foi aprendida. A ação direta contra a ditadura renasceu com um novo tipo de operações

audaciosas, que a PIDE foi incapaz de matar no ovo. A imprensa internacional tratou como novela de aventuras os 13 dias de sequestro do luxuoso paquete “Santa Maria”, em janeiro de 1961, por um comando

de 25 exilados portugueses e espanhóis liderados pelo capitão Henrique Galvão. Este, dissidente do salazarismo, proclamou ter mandato de Humberto Delgado. O “Santa Maria” foi tomado no mar das Caraíbas, depois de largar da Venezuela, e acabou por rumar ao Recife, no Brasil, após ser rebatizado “Santa Liberdade”. Com mediação dos EUA do recém-eleito John Kennedy, que recusou qualificar a operação como pirataria, o navio foi entregue às autoridades brasileiras, que deram asilo político aos ocupantes. Ainda antes de o ano findar, novamente com comando de Galvão, um grupo armado chefiado por Hermínio da Palma Inácio tomou um avião da TAP que voava de Casablanca para Lisboa.

86 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


A BA NÕ ES NO REGI ME

O desvio do “Santa Maria” tornou Henrique Galvão uma figura na imprensa internacional. Nesta página, o hoje coronel Varela Gomes, numa imagem de 2005 FOTOGRAFIA DE RUI OCHÔA

Sobrevoando a baixa altitude Lisboa, a margem Sul do Tejo, Beja e o Algarve, largou milhares de panfletos contra a ditadura, regressando depois a Marrocos: novas manchetes na imprensa mundial. Camilo Mortágua esteve em ambas as ações, depois de ser emigrante na Venezuela. Continua hoje a não regatear elogios à audácia de Galvão, embora se tenha desiludido com a politiquice do exílio português no Brasil: “O dia em que Galvão se convenceu

que seria apoiado pelo Departamento de Estado norte-americano como alternativa a Salazar foi o dia da nossa separação. Ficámos convencidos de que não continuaria com a ação direta.” Palma Inácio, Camilo e mais três ou quatro decidem, em 1966, partir para Paris e daí lançar-se em novas aventuras. DE BEJA ÀS BOMBAS Antes, na madrugada de 1 de janeiro de 1962, mais uma operação temerária tirara o sono a Salazar: a tentativa de ocupação do quartel de Beja, que os conspiradores esperavam ser detonador para o levantamento do sul do país por Humberto Delgado, entrado clandestinamente em Portugal. O capitão João Varela Gomes, hoje coronel,

que assumiu à última hora o comando militar de uma operação que sabia estar muito precariamente montada, continua a considerar que “no ambiente de 1961, aquilo não era assim tão desajustado. Em 1958, o Delgado, com a sua presença, tinha levantado multidões. Mas Beja foi uma descoordenação. É o fracasso a que foram condenados todos os movimentos juntando civis e militares. É uma mistura que não dá”. Dezenas de revoltosos civis foram chefiados por Manuel Serra, enviado de Delgado mas que perdera o contacto com o general. Muitos anos depois, Serra desabafaria: “Se houvesse telemóveis naquele tempo...” Passariam anos até nova bofetada na ditadura. Em maio de 1967, Palma Inácio e os seus assaltaram em pleno

dia o Banco de Portugal na Figueira da Foz. Fugiram numa avioneta e passaram a fronteira a pé, com 30 milhões de escudos, fortuna enorme, para financiar a revolução. “Éramos um grupo de aprendizes de feiticeiro”, recorda Camilo Mortágua: “Fugimos com os sacos de dinheiro às costas mas estávamos borrados de medo, achávamos que toda a gente estava a ver.” A reivindicar o assalto surgiu uma nova sigla — LUAR, Liga de Unidade e Ação Revolucionária. A LUAR acabaria por ser abalada por um fiasco, uma ocupação guerrilheira da Covilhã, em 1968, que findaria ainda antes de começar, com a captura de Palma Inácio e restantes conjurados. Mortágua, que não participou 25 Abril 40 anos | 87

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ABAN ÕES NO REG I M E

Das onze sabotagens da ARA, a mais audaciosa foi na base militar de Tancos, em 1971, com a destruição de 13 helicópteros e aviões e danos noutros. Em maio de 1973, anunciou uma “pausa temporária” para favorecer a luta política aberta. “Houve debate na direção do PCP e não deve ter sido pequeno, eu estava em Moscovo e chegaram-me os ecos”, conta Coutinho. “Mas se não se desse o 25 de Abril se calhar

Camilo Mortágua, antigo operacional da LUAR, numa rua de Alvito (Alentejo), onde reside FOTOGRAFIA DE TIAGO MIRANDA

Em baixo, estado do quartel-mestre-general, em Lisboa, após o atentado das Brigadas Revolucionárias

ARQUIVO “A CAPITAL/IP”

nessa aventura, elogia ainda hoje “os carregadores de piano da revolução” e declara “fidelidade absoluta” à memória do seu audaz amigo: “Quando penso no Palma lembro-me da personagem do romance ‘Cabra-Cega’, de Roger Vaillant, o Marat, pseudónimo da resistência: conseguir uma mulher vale quase tudo, às vezes comprometem-se coisas.” E chegou o derradeiro lustro, com uma novidade: as ações armadas do PCP. Depois de anos de preparação e inércias, na madrugada de 26 de outubro de 1970 duas cargas explosivas abriram um rombo no navio “Cunene”, transporte usual para a guerra colonial, acostado em Lisboa. “O nome ARA (Ação Revolucionária Armada) nasceu só nessa noite, quando foi preciso fazer um comunicado”, conta o então jornalista Carlos Coutinho, que foi o principal operacional.

a ARA reaparecia, e até com um fôlego um bocadinho mais alargado.” Também nesses anos entraram em ação as Brigadas Revolucionárias, nascidas da dissidência com o PCP e tendo apoios em núcleos católicos anticolonialistas. Capitaneadas por Carlos Antunes e Isabel do Carmo, as Brigadas estrearam-se em 7 de novembro de 1971 com uma bomba nas instalações da NATO na Fonte da Telha. As suas bombas atingiram instalações militares, o Ministério das Corporações e, até, o quartel-general português, em Bissau, e o quartel-mestre-general, em Lisboa. Foi sua a derradeira ação direta contra a ditadura: uma carga no casco do navio “Niassa”, que largava para a Guiné carregado de tropas. Foi no dia 9 de abril de 1974.

88 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


A BA NÕ ES NO REGI ME

Carlos Coutinho, autor de alguns dos mais espetaculares atentados da ARA, o braço armado do PCP FOTOGRAFIA DE TIAGO MIRANDA

Aos homens e mulheres que arriscaram tudo nestas operações tornou-se usual chamar heróis românticos, uma espécie de rótulo de consolação aplicado aos inconformados que perseguem objetivos acima das suas forças. E como se veem eles, a décadas de distância? NEM SANTOS, NEM HERÓIS Camilo Mortágua é o mais cáustico: “Romântico? A palavra justa é ingénuo. No meu caso, tem a ver com uma coisa mais intuída que digerida e assumida. Mitificar esta atividade de revolucionário é um disparate. Mantermos a capacidade de nos rirmos das nossas insuficiências é fundamental. Não há santos nem heróis.” Varela Gomes recorre a uma imagem: “Estamos à beira do rio e cai uma criança à água. Toda a gente fica ai, ai! Até que há um louco que se atira à água e às vezes até morre a tentar. Se queres salvar a criança não ficas na margem a filosofar.” Mas ele próprio não enjeita a filosofia, citando Hannah Arendt sobre a “desoladora contingência” do homem que ao lançar-se na ação como afirmação da sua liberdade nunca pode dominar todas as consequências dos seus atos, pois o futuro é sempre imprevisível. Carlos Coutinho tem a resposta racionalizada: “Tenho a noção do herói das epopeias clássicas, depois os cristãos substituíram o herói pelo santo, e aqui não há uma coisa nem outra. Há pessoas que numa dada

Para Carlos Coutinho, num contexto como o da ditadura, “as pessoas ou são honestas consigo próprias, e arranjam coragem; ou não são, e passam a ser cúmplices da situação”

circunstância ou são honestas consigo próprias, e arranjam coragem suficiente; ou não são, e passam a ser cúmplices da situação. Cúmplice, não queria ser. Sabia que corria riscos grandes, por exemplo em Tancos, mas entrei. Quando acabava, já podia regressar à minha humanidade e aí até tremia. Isto é ser herói? Não, é ser consequente.” ^ 25 Abril 40 anos | 89

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


“Um e dois e três era uma vez um soldadinho. De chumbo não era, como era o soldadinho? (...) Soldadinho lindo és também filho do povo e contigo vamos construir um mundo novo” José Mário Branco “Ronda do soldadinho”

90 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


O movimento que um dia foi de todos

© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C.

APÓS 1974, os portugueses tiveram de se familiarizar com muitas novas siglas, umas efémeras, outras duradouras. A primeira delas, e a mais perene, irrompeu logo no dia 25 de abril, quando os comunicados na rádio anunciavam o Movimento das Forças Armadas (MFA). Num primeiro momento, o MFA e os homens que lhe deram corpo surgiram como os primeiros heróis românticos da nova era. Haviam libertado o país das amarras de uma ditadura que durara quase meio século, sem terem precisado de disparar um tiro. No imediato, em todos os quadrantes foi prestado tributo ao movimento dos capitães. A participação dos militares nas campanhas de dinamização culturais levou a revolução ao país profundo. E o papel central do MFA na cena política ficou consagrado na fórmula, defendida pelo PCP acima de todos, “aliança Povo — MFA”. O carácter consensual do movimento durou algum tempo... Até as coisas terem começado a aquecer politicamente (tanto entre civis como entre a tropa).^ PAULO PAIXÃO

25 Abril 40 anos | 91 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ABAN ÕES NO REG I M E

MELO GOMES “Na Guiné, os soldados viviam em condições infra-humanas”

LUÍS ARAÚJO “Tornou-se claro que era uma guerra impossível de vencer”

RAMALHO EANES “O poder tentou sistematicamente soterrar a realidade”

VALENÇA PINTO “Era um pesadíssimo sacrifício de vida sem sentido”

CRÓNICAS DE UMA GUERRA PERDIDA Os militares portugueses que passaram pela guerra colonial — e fizeram o 25 de Abril — perceberam que aquele era um conflito impossível de ganhar, portanto, inútil. Combateram 13 anos à espera de uma solução do poder político, que este se recusou a encontrar

O

hoje almirante Melo Gomes, ex-chefe de Estado-Maior da Armada, foi o último militar português a deixar a Guiné-Bissau, a 15 de outubro de 1974, finalizando a maior operação de retirada anfíbia de que há memória na Armada portuguesa: 2500 homens, com armas e equipamentos, numa única noite. Foi na Guiné que cumpriu como 1º tenente a primeira e única Comissão em África e foi lá que se tornou um dos três elementos da Comissão Coordenadora na Guiné do Movimento das Forças Armadas (MFA). Quando chegou a Bissau,

em maio de 1973, depois de cinco anos de “missões de luxo” ao serviço da NATO, já o PAIGC usava os temidos mísseis Strella, que retiraram o domínio do ar às forças portuguesas. Foi recebido por um camarada com uma risada: “Vens cá para a entrega disto!” Não demorou a perceber porquê. “Condições infra-humanas”, foi como qualificou a situação em que se encontravam no terreno as tropas portuguesas no último ano da guerra colonial. A declaração unilateral de independência haveria de ser no mês de setembro seguinte.

O general Luís Araújo, chefe de Estado-Maior das FA até 6 de fevereiro último, tem uma recordação semelhante do tempo em que fez a guerra. Coube-lhe Moçambique, entre outubro de 1972 e outubro de 1974. Era também tenente e foi destacado para uma terra de guerra, Moeda, no Norte. No meio do acampamento, cercado de arame farpado, o poste do estandarte e um cartaz, à laia de boas-vindas: “Aqui trabalha-se, luta-se e morre-se...” O desenho de uma caveira e duas tíbias cruzadas diziam o resto. “Era um jovem piloto aviador de 22 anos, fui para lá imbuído

do espírito de defesa da pátria, mas ao fim de três meses estava a defender-me a mim e aos meus subordinados”, explicou. “A guerra é um ato de sobrevivência em que é herói quem faz o inimigo morrer pela pátria dele.” Em 1973, também a Frelimo já estreara os Strella e voar era um feito de perícia contra a morte, entre o disparo dos mísseis e as rajadas das kalashnikovs. Percebeu cedo, entre conversas e os panfletos semiclandestinos que abundavam, que aquela guerra era impossível de vencer: “Era a terra deles, as nossas linhas de comando estavam a milhares de quilómetros, as deles eram logo ali.”

ARQUIVO EXPRESSO

TEXTO LUÍSA MEIRELES

92 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


A BA NÕ ES NO REGI ME

ESPÍRITO SANTO “Em 1974, a guerra estava contida, mas até quando?”

PINA MONTEIRO “A Escola Prática de Infantaria era uma máquina de fazer oficiais”

ADRIANO MOREIRA “A Salazar não lhe ocorreu que a mudança pudesse vir de baixo” Spínola numa ação no mato, acompanhado por três dos seus homens: Almeida Bruno (de G3), João Marcelino e Alves Morgado

25 Abril 40 anos | 93 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


Ramalho Eanes, ex-Presidente da República, fez cinco comissões e passou pelos três teatros de guerra colonial, e ainda esteve na Índia e em Macau. Em 1973, já conspirava contra o regime e há vários anos que tinha a noção que o tempo da guerra se esgotara e que os políticos não o tinham aproveitado para encontrar uma saída. Em junho, tinha sido um dos militares do quadro a dar abertamente o nome numa concorrida petição contra o Congresso dos Combatentes, uma frustrada iniciativa do Governo para demonstrar o indemonstrável: que as FA apoiavam a solução da guerra para as colónias. Em dezembro desse ano, em vésperas de partir para a derradeira comissão, com o MFA já consolidado e decidido a derrubar o regime, o então major de 38 anos foi recebido por Marcello Caetano, que o tentou convencer do que ele tinha por inconcebível: que havia que continuar a guerra. Contudo, o que o chocou

verdadeiramente foi perceber que o chefe de um Governo que só nesse ano mobilizara mais de 149 mil homens para a guerra (o maior número de que havia memória), não tinha a menor ideia que um militar da sua idade já tinha mais de dez anos de combate efetivo. A GUERRA PELA GUERRA “O poder usou a guerra pela guerra e tentou sistematicamente ‘soterrar’ a realidade”, disse o general ao Expresso. Os homens da sua geração começaram por ver a guerra como “um desígnio nacional”, a defesa de um império, de um Portugal transcontinental e multirracial. A defesa do ultramar era a defesa da pátria — e esta a da República. Homens como Eanes fizeram a Escola do Exército já marcada pelo início da reorganização promovida pela NATO, nos anos 50, mas a eclosão da guerra, em 1961, lançou-os de chofre noutra

As coisas foram-se complicando no campo de batalha, à medida que o ‘inimigo’ se dotou de melhores meios

Com o avanço da guerra, os militares percebem que seriam responsabilizados pela derrota

realidade: a das guerras revolucionárias e subversivas, em cujo combate o Exército havia de se tornar perito. Nesse mesmo ano, foi criado o Centro de Instrução de Operações Especiais, em Lamego, e a doutrina que foi sendo elaborada será ainda, mais de 20 anos depois, uma mais-valia insubstituível nas “missões de paz” que as FA são chamadas a cumprir. “Quando fazem a guerra, as FA fazem o que devem, mas essa consciência muda quando se apercebem que o poder político não faz um esforço para lhe pôr fim”, disse Eanes, explicando o processo de germinação do 25 de Abril. “Em África, à medida que o ‘inimigo’ se dotou de mais e melhores meios, os militares perceberam que se arriscavam a uma derrota e que poderiam ser responsabilizados por isso, tal como acontecera em Goa, em 1961”, quando as forças ali estacionadas, sem

94 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ARQUIVO EXPRESSO

A BA NÕ ES NO REGI ME

homens nem meios, foram obrigadas a render-se e os seus comandantes punidos pelo poder político. A lição havia sido assimilada. O argumento da falta de resposta do poder político é recorrente. Às vésperas do 25 de Abril, num prodígio de gestão de meios escassos versus recursos humanos e equipamentos, os militares tinham conseguido manter uma guerra de 13 anos, em três distantes “teatros de operações” — o “maior esforço militar da nossa história”, como escreveu o general Abel Cabral Couto. E barata, diga-se de passagem, numa espécie de “rotos contra os maltrapilhos”, como assinalou o general Valença Pinto, que fez duas comissões em Angola. Na Guiné, nos idos de 1973, a guerra estava dada como perdida, com largas zonas de território de acesso interdito, controlada em Angola e mais ou menos estabilizada em Moçambique.

“A guerra estava contida, mas até quando?” indagou o general Espírito Santo, que fez duas comissões, em Moçambique e Angola. Não seria por acaso que foi o núcleo de combatentes que passou pela Guiné (entre eles Spínola ou Ramalho Eanes) quem primeiro se deu conta da impossibilidade de levar por diante a guerra. A estratégia do “inimigo” era a da “manobra de lassidão”, de desgaste contínuo das forças, do ponto de vista material e moral, no terreno mas também na retaguarda, e estava a dar resultado. Sem homens, o regime fazia cada vez mais apelo aos milicianos. Só nos primeiros cinco anos de guerra, os alferes milicianos passaram de 2300 para 10 mil, mais do dobro dos do quadro permanente, num cenário que se agrava com o tempo. Pina Monteiro, o atual CEMGFA (o primeiro que não fez a guerra, mas participou no 25 de Abril) tem isso bem claro. A Escola Prática de Infantaria, onde foi colocado em 1973/74, era “uma máquina de fazer oficiais” à pressa, “de aviário”, como lhes chamavam. Nos níveis mais baixos, a instrução dos recrutas era rápida e “contaminada” pelos relatos de quem a fazia. O PONTAPÉ DE SAÍDA No terreno, a presença dos milicianos era mais do que evidente. O tipo de guerra (“de quadrícula”, ocupação do território) dava relevo às companhias, cerca de 100 homens comandados por um capitão. A título de exemplo, em 1973, no Leste de Angola, havia 68 companhias nos quatro distritos, organizadas em 12 batalhões. Só três eram comandadas por um capitão do quadro. Haviam de ser pois estes os obreiros da revolução que chegou — quem mais? Eram os capitães que estavam no terreno e muitos com muitos

anos de guerra às costas. “A degradação da preparação, associada à flexibilização do recrutamento e, entre os oficiais, o sentimento de desagregação do regime, gerava uma desmotivação completa”, disse Valença Pinto. “Era um pesadíssimo sacrifício de vida sem sentido. Tornarase evidente que a guerra não tinha solução militar, portanto, era inútil, o regime estava num beco sem saída.” Daí à constatação da inutilidade do regime foi um pequeno passo. Paradoxalmente, é o regime que acaba por propiciar o “pontapé de saída”, com o seu célebre decreto-lei de julho de 1973, que permite a equiparação dos oficiais milicianos aos do quadro. Se o catalisador da revolta foi, pois, a luta dos “puros” contra os “espúrios” (os milicianos), portanto, corporativa, rapidamente evoluiu para

O 25 de Abril foi fruto da degradação militar, do cansaço geral e do atrevimento dos oficiais de baixo escalão

o objetivo de pôr fim ao regime, com a organização do MFA a firmar-se, num país em erupção política, exausto e exaurido, e um regime esgotado e isolado internacionalmente. O livro que Spínola lança em fevereiro em 1974 (“Portugal e o Futuro”) é uma antevisão do fim do regime. Ele e Costa Gomes (respetivamente vice-chefe e chefe de Estado-Maior-General das FA) haveriam de ser demitidos logo em março, porque se recusarem a apresentar-se na cerimónia do “beija-mão”ao poder dos oficiais — generais, conhecida como a ‘Brigada do Reumático’. Era o estertor do regime. O esforço da guerra consumia 17% do orçamento em 1973, mas eram apenas 3,2% do PIB. Portugal conseguiu aguentar a guerra porque crescia a cerca de 6% ao ano. Mas em 1973 tudo desaba com a crise do petróleo e das bolsas. No fundo, como disse Espírito Santo, “o 25 de Abril foi fruto da degradação do aparelho militar, do cansaço geral e do atrevimento dos oficiais de baixo escalão”. No momentochave, a hierarquia, tão acarinhada pelo regime, olhou para trás e ninguém a seguiu. Foi a revolução. “A Salazar não lhe ocorreu que a mudança pudesse vir de baixo”, disse Adriano Moreira. O Estado Novo acabava como começara — pela poupança e às mãos do Exército. O que veio depois foi a maior transformação de uma instituição em Portugal. Nas fileiras das FA, sobretudo no Exército, onde assentou o maior esforço da guerra, chegaram a estar 236 mil homens. Hoje, mal chegam aos 32 mil homens. “Até os dinossauros para sobreviver tiveram de se transformar em lagartixas”, rematou a rir Espírito Santo. ^ 25 Abril 40 anos | 95

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


TIAGO MIRANDA

ABAN ÕES NO REG I M E

O PODER DOS CAPITÃES Numa reunião com 400 militares, em setembro de 1973, na Guiné, os oficiais deram o primeiro sinal público da sua insatisfação. A revolta não parou de aumentar e em novembro já se fala em golpe militar. A 5 dezembro, na Costa da Caparica, nasce o 25 de Abril TEXTO CESÁRIO BORGA

I

nício dos anos 70 do século XX, algures na região de Farim, GuinéBissau. Uma mulher pede arroz à porta da companhia ali aquartelada. O soldado que a atende não sabe como atuar e chama o comandante da companhia. O capitão diz à mulher que deve ser o chefe de posto e não ele a resolver o problema, mas o chefe de posto não está... “E agora?”, pergunta. “Agora”, responde a mulher, “é o capitão e Alá quem resolvem.” O comandante da companhia era o então capitão Vasco Lourenço. A história ocorreu em 1970/71 e espelha o essencial da estrutura operacional do exército em

África, imposta por 13 anos de guerra. Nela, o capitão transforma-se na referência para as populações que vivem no território guardado pela companhia e no timoneiro dos soldados com quem partilha, dia e noite, os imponderáveis de uma imprevisível guerra de guerrilhas. Uma vivência que fez destes homens os quadros-chave das forças terrestres e os comandantes operacionais decisivos das Forças Armadas. Organizado em regimentos, comandados por coronéis e generais, o Exército, ao instalar-se em África, é obrigado a pulverizar-se em batalhões e estes em

companhias, separadas entre si por dezenas de quilómetros. No essencial uma companhia contava com cerca de 100 soldados, quatro ou cinco alferes, quase sempre milicianos e outros tantos sargentos. No topo o capitão, comandante da companhia, é o responsável pela execução operacional, a adaptação de planos, os combates e as suas consequências, humanas e militares, a sorte dos seus homens, a segurança das populações civis. Enfim, o primeiro fazedor da guerra, o homem com poder. Nesta posição aprofunda o sentido crítico e, com o tempo, acha-se no direito de ser

escutado pelos superiores, de apontar fragilidades e apresentar propostas. A 18 de abril de 1974, capitães, majores e tenentes, delegados das regiões militares do Movimento dos Capitães, decidem em Lisboa que o golpe se fará entre 22 e 29 de abril. Nesse dia, aqueles homens, oficialmente quadros intermédios das Forças Armadas, já nada têm a ver com os quase anónimos oficiais que circulavam nos regimentos no início dos anos 60. CONTESTAÇÃO AOS ULTRAS DO REGIME Em junho de 1973, a partir da Guiné, beneficiando da

96 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


A BA NÕ ES NO REGI ME

DR

capitão vai, pouco a pouco, evoluindo, passa a incorporar tenentes e majores.

Aspeto atual da Casa do Povo de Óbidos e fachada do monte alentejano, em Alcáçovas, locais de duas das mais importantes reuniões do MFA

abertura facilitada pelo general Spínola, 400 oficiais contestam o congresso dos combatentes, dominados pelos ultras do regime. À cabeça dos contestatários aparecem os nomes de Ramalho Eanes e Firmino Miguel. O movimento instala-se no continente de forma organizada, e, com outros líderes, desencadeia a oposição aos decretos que visavam a promoção de milicianos ao quadro permanente através de cursos de formação profissional. A 9 de setembro, próximo de Alcáçovas, 136 oficiais reúnem-se para aprofundar a contestação àqueles diplomas. Entretanto, o conceito de

GOLPE NO HORIZONTE A contestação aos decretos evoluirá, nos meses seguintes, para a ideia do recurso à força, com o objetivo de derrubar o regime. Quando a operação armada se decide, os capitães sentem-se capazes de a planificar, coordenar, executar sem o recurso a complexas máquinas de Estado-Maior. Não é de estranhar que nas vésperas do golpe as opiniões oscilassem entre o entusiasmo e o ceticismo. Otelo Saraiva de Carvalho falava de 80% de êxito e Vítor Alves de 20%. 24 de novembro de 1973 é o dia em que pela primeira vez se discute a possibilidade de um golpe militar. Na reunião realizada numa casa que ficava paredes-meias com a colónia balnear infantil de “O Século”, em São Pedro do Estoril, as palavras inesperadas de um dos raros tenentes-coronéis que começavam a aparecer soa como um trovão e influencia o rumo dos acontecimentos. O tenente-coronel Ataíde Banazol exorta as dezenas de oficiais presentes a abandonarem a “guerra dos papéis” e a porem em marcha um golpe de Estado. Apresentou um plano. Estava a formar um batalhão em Évora. Dentro de semanas partiria para África. Propunha-se ocupar de imediato a cidade, formar uma junta militar e incentivar à sublevação as unidades de todo o país. A proposta foi rejeitada, mas a reunião seguinte, realizada em Óbidos, a 1 de dezembro, já colocava a intervenção armada no topo da agenda. Em 5 de dezembro, na Costa da Caparica, nasce o 25 de Abril. Aí se opta pelo golpe militar, mas acompanhado por um programa político. Uma decisão crucial que vai libertar

No posto de comando do MFA, na Pontinha, aparece um tenente-coronel disposto a aderir à revolução. O major Sanches Osório manda-o para a cozinha arranjar uma refeição quente para todo o pessoal

o 25 de Abril da dependência das ideias deste ou daquele general e permitir ao movimento dos capitães lidar com a sublevação das Caldas da Rainha, em 16 de março. Encontros posteriores, em Lisboa e em Cascais, consolidam as decisões tomadas na Costa da Caparica, e os principais líderes da operação são agora conhecidos da generalidade dos oficiais comprometidos com o movimento: Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho, Melo Antunes, Vítor Alves, Hugo dos Santos, Fisher Lopes Pires, entre muitos outros. Eram, porém, nesse tempo, gente anónima

e de pouca importância aos olhos dos generais e governantes que se esgotavam nos paços de São Bento em cerimónias de mútua lealdade. Podemos imaginar a cara de horror dessas personagens se, na noite de 24 de abril, antes de irem dormir, alguém lhes contasse que, no dia seguinte de manhã, ao acordarem, as Forças Armadas e o país eram governados por capitães. É no decorrer dessa noite em que o país se deita com a ditadura e acorda com a liberdade, e ao longo do dia 25 de abril, que se sucedem cenas espelhando essa nova realidade. ADESÕES ‘IN EXTREMIS’ O capitão Candeias Valente contava que na Cova da Moura foram aparecendo alguns coronéis a oferecerem-se timidamente para colaborar, e dois deles ficaram sob o seu comando. O major Sanches Osório descreve como no posto de comando da Pontinha lhe apareceu um tenente-coronel disposto a aderir à revolução. O major manda-o para a cozinha arranjar uma refeição quente para todo o pessoal. “Depois, adianta, apresenta-se no posto de comando e diz: a refeição está pronta precisam de mais alguma coisa?”, conta Sanches Osório, citado no livro “A Hora da Liberdade”, de Joana Pontes, Rodrigo de Sousa Castro e Aniceto Afonso. Na Pontinha já se encontravam presos, entre outros, Marcello Caetano e o almirante Henrique Tenreiro. A essa hora, quem entrasse no posto de comando do MFA quando a vitória já estava garantida e, curioso, indagasse pelas pilhas de mapas de estado-maior, complexos sistemas de comunicações, deparava-se com a simplicidade dos aparelhos de rádio e, pendurado na parede, um único mapa; o das estradas do Automóvel Clube de Portugal. ^ 25 Abril 40 anos | 97

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ABAN ÕES NO REG I M E

Natércia Salgueiro Maia, numa das suas raras fotografias (em casa, em Santarém, em 1993) FOTOGRAFIA DE RUI OCHÔA

NATÉRCIA SALGUEIRO MAIA

COMO EU VIVI O 25 DE ABRIL Quarenta anos depois, a viúva do capitão Salgueiro Maia — que à frente dos seus homens da Escola Prática de Cavalaria marchou de Santarém para Lisboa — mantém na memória a noite que mudou o rumo do país. Sabia desde cedo quais eram os planos do marido, cujas reuniões já vinham dos tempos da Guiné, entre 71 e 73. “Os militares tinham noção que tinham de ser eles a tomar uma atitude e quando as pessoas se reúnem, começa-se a pensar em conjunto e estas decisões acontecem.” Quando Salgueiro Maia regressou a Portugal, em outubro de 73, Natércia nunca se opôs, pelo contrário: na privacidade do lar ouviu e apoiou o marido nos preparativos da revolução. “Nunca fomos inconscientes, sabíamos que havia riscos. Mas o otimismo era grande, não púnhamos a hipótese de algo correr mal.” Por isso mesmo nunca planearam o que Natércia, com 31 anos na altura, deveria fazer caso o golpe de Estado falhasse. “Apenas sabia que devia continuar a minha vida normalmente para não levantar suspeitas. No dia 25, mesmo ouvindo pela rádio que as coisas tinham avançado, arranjei-me e saí de casa para dar aulas como se nada tivesse acontecido.” No dia anterior, a professora de matemática viu o marido sair de casa com um pacote de lenços no bolso, por causa da sinusite, e com uma caixa de cigarrilhas. Não foram precisas palavras.

µ

Vi o meu marido passar na nossa rua, em Santarém, com a coluna da Escola Prática de Cavalaria através dos buraquinhos da persiana. Sabia que andavam pides a controlar o nosso prédio e não podíamos dar nas vistas

“Ele nunca fumava, a não ser em dias de festa. Interpretei aquilo como um sinal de que iam avançar e de que tudo iria correr bem. Nunca precisámos de falar muito para compreendermos o que o outro queria dizer.” Natércia sabia o significado das músicas que deveriam passar na rádio a partir das cinco para a meia-noite. A única pessoa com quem partilhava o segredo era com o primo que estava a passar uma temporada com o casal. Mas, mesmo com ele, naquela noite trocou apenas olhares sem nunca proferir uma palavra sobre a revolução. “Vi o meu marido passar na nossa rua com a coluna da Escola Prática através dos buraquinhos da persiana. Sabia que andavam pides a controlar o nosso prédio e não podíamos dar nas vistas.” O telefone de casa tocou uma primeira vez e uma pessoa não identificada perguntou se as tropas já tinham saído de Santarém. Natércia fez-se de desentendida e desligou. O telefone continuou a tocar e, por prevenção, nunca mais o atendeu. Até que a adrenalina a levou à exaustão. “Estava psicologicamente tão cansada que acabei por passar pelas brasas. Quando acordei ouvi dizer que precisavam de médicos e fiquei zangada comigo própria. Tudo podia ter acontecido e eu não sabia.” Os comunicados na rádio tranquilizaram-na. Mas só quando viu na televisão as imagens do marido no Largo do Carmo é que ficou mais calma. E sem esconder um sorriso de quem conhecia bem o capitão, Natércia disse para si mesma: “Lá tinha de estar ele no sítio de maior confusão!” Só sossegou totalmente quando o abraçou em Lisboa, com “uma lágrima no canto do olho”, num misto de orgulho e de amor. E ainda hoje enaltece-o pelo bom senso no dia da revolução. “Naquele dia a maior virtude foi ter conseguido resolver tudo de forma pacífica. Curiosamente, nós cá em casa nunca gostámos muito de grandes alaridos e confusões.” A calma vivida em casa de Salgueiro Maia foi levada para as ruas de Lisboa nesse dia, que se encheram de cravos e olhares de esperança. O capitão tornou-se um herói, mas para Natércia ele será sempre o “eterno namorado”. ^ PAULA COSME PINTO

98 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


A BA NÕ ES NO REGI ME

UMA SURPRESA PARA OS JORNALISTAS DE FORA A imprensa internacional foi incapaz de antecipar o 25 de Abril. Houve mesmo quem saísse de Portugal nas vésperas do golpe militar... Mas passada a estranheza, a atração de correspondentes e enviados estrangeiros pela Revolução dos Cravos foi incondicional TEXTO MARGARIDA MOTA

A

revolução portuguesa apanhou o mundo de surpresa e Werner Herzog em contrapé. O jornalista suíço, com escritório em Madrid, viera até Portugal por alturas do levantamento das Caldas da Rainha de 16 de março. Convencido de que nada aconteceria a curto prazo, regressou à capital espanhola a 22 de abril, ignorando alertas de que algo poderia estar iminente... “Tinha falado com um militar que me disse para esperar algum tempo e não voltar já para Madrid. Chamava-se António Reis. Eu pensava que ele era um romântico sonhador e não acreditei. Quando ouvi as notícias no dia 25 percebi que ele sabia de tudo”, recorda. “Talvez tenha sido melhor assim... Teria sido terrível eu saber o que ia acontecer sem poder dizer a ninguém.” Werner apanhou o último comboio do dia 25 para Portugal, onde chegou na manhã de 26. Para poupar dinheiro — trabalhava em regime freelance —, hospedou-se em pensões baratas na Avenida da Liberdade onde, em

condições precárias, ia dando resposta às crescentes solicitações da imprensa estrangeira. Chegou a trabalhar simultaneamente para dois jornais suíços (“Tagesanzeiger” e “Basler Zeitung”) e dois alemães (“Frankfurter Rundschau” e “Stuttgarter Zeitung”). A Revolução dos Cravos colocara Portugal na primeira página dos jornais como nenhum acontecimento antes. Nos dias seguintes, reabertas as fronteiras, afluíram a Lisboa repórteres de todo o mundo. “Chegaram bastantes, mas poucos estavam preparados para entender o que se passava”, diz. “Lembro-me de um jornalista da televisão suíça que tentava seguir os acontecimentos e saber quem era quem. Fomos para a Estação de Santa Apolónia, onde uma multidão ouvia um discurso. ‘Quem é aquele? Quem é aquele?’, perguntou-me. ‘Chamase Mário Soares. E acaba de regressar do exílio em Paris’...” Visto do exterior, o Portugal de inícios de 1974 denotava nervosismo. O golpe frustrado das Caldas era a prova de que algo mexia, mas a possibilidade de uma revolução estava longe

Werner Herzog, com uma foto em que o jornalista está junto dos protagonistas da história. Em baixo, José Rebelo, que em 1974 estava em Paris, no “Le Monde” FOTOGRAFIAS DE WERNER HERZOG E ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

25 Abril 40 anos | 99 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ABAN ÕES NO REG I M E

das expectativas. “O ‘Le Monde’ não atribuiu grande importância ao 16 de março”, recorda José Rebelo, exilado em Paris e então membro da administração do diário francês, do qual viria a ser correspondente em Portugal entre 1975 e 1991. “Pensou que era uma escaramuça entre militares. De tal forma que enviou a Portugal um jovem estagiário, o Dominique Pouchin.” Como era vespertino, o “Le Monde” noticiou o 25 de Abril na edição que saiu para as bancas à uma da tarde. Os tanques nas ruas e a ausência de violência — “o carácter romântico da revolução”, como diz José Rebelo — foi crucial para o sucesso mediático dos acontecimentos. “Não sei se houve outro facto na história do ‘Le Monde’ que tenha justificado um tão grande número de artigos sobre Portugal...” O jornal chegou a ter enviados especiais em Lisboa, Porto, Açores e em Angola. QUARTÉIS-GENERAIS NOS HOTÉIS Em Lisboa, os jornalistas estrangeiros tinham tendência a agrupar-se por hotéis. “Os franceses ficavam no Mundial, os ingleses iam mais para o Tivoli e os americanos para o Sheraton”, recorda. “Depois constituíamos autênticas redações. No sétimo andar do Hotel Mundial, havia jornalistas do ‘Le Monde’, do ‘Nouvel Observateur’, de revistas de direita, como ‘Le Point’ ou ‘L’Express’, ou do ‘L’Humanité’, órgão do Partido Comunista francês. Trabalhávamos ali, jantávamos todos juntos, partilhávamos o que víamos e rentabilizávamos ao máximo os contactos uns dos outros.” Entre a legião de enviados, José Rebelo recorda um da agência Nova China: “Vinha

no jornalismo que haveria de torná-la, a partir de janeiro de 1975, correspondente em Portugal da Associated Press, que funcionava num escritório apertado da Praça da Alegria, por cima do Maxime. O laboratório fotográfico era a casa de banho. Nos dias agitados após a revolução, Emma trabalhou também como guia-intérprete de repórteres que chegavam, alguns acabados de cobrir a guerra no Vietname, como o fotógrafo alemão Horst Faas, premiado com um Pulitzer. “Um dia, fui com um jornalista americano, que também tinha estado no Vietname, para a zona do RALIS. Os tropas estavam armados com G3 e o povo gritava: ‘Armas para o povo! Armas para o povo!’ Nós estávamos na frente da manifestação. A dada altura, ao ouvir-nos falar inglês, alguém gritou: ‘Está aqui a CIA!’ Ficámos um pouco aflitos. Comecei a pensar como é que podíamos sair dali. Ele disse: ‘É assim: agachas-te e começas a recuar de costas por baixo dos braços deles.’ E assim saímos dali. Eram épocas de grande desafio.” com cozinheiro e tudo.” O facto de Portugal pertencer à NATO e, sobretudo, o futuro de Angola atraía especialmente jornalistas do Leste. Emma Gilbert recorda o dia em que foi recrutada para ir traduzir para inglês o anúncio de formação do I Governo Provisório, feito por Sanches Osório, porta-voz da Junta de Salvação Nacional. “Eu não quero exagerar, mas havia, à vontade, uns 500 jornalistas” naquela sala do Palácio Foz, sede do Secretariado Nacional de Informação. Nascida em Portugal e de nacionalidade dinamarquesa, Emma era fluente em inglês. Conhecedora da realidade local, foi logo contratada pela agência sul-africana Argus, a primeira etapa de uma carreira

Emma Gilbert, nascida em Portugal e de nacionalidade dinamarquesa. Sandy Sloop, com uma foto em que surge em cima de uma chaimite FOTOGRAFIAS DE JOSÉ VENTURA E NUNO BOTELHO

CARA CANSADA DE TANTO SORRIR Quarenta anos depois, Sandy Sloop não tem dúvidas que o 25 de abril de 1974 foi, “talvez, o dia mais importante” da sua vida. Este norte-americano nascido no Brasil — que, entre 1977 e 1990, foi o correspondente em Lisboa da agência United Press International — chegara a Portugal em 1971 “a caminho de África”, o seu principal interesse, mas também com o objetivo de estudar português e “descobrir o que era a ditadura”. Soube da revolução de madrugada e correu logo para a rua, “para participar na história que se fazia”. “Escrevi um postal para a família para ter pretexto para

100 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


A BA NÕ ES NO REGI ME

andar na rua.” Percorreu Lisboa de lambreta: tentou, sem sucesso, chegar ao aeroporto; no Rossio, viu uma esquadra da NATO partir ao longe e assistiu à passagem da coluna de Salgueiro Maia a caminho do Quartel do Carmo — saudada por cravos vermelhos e flores de todos os tipos. No Largo do Carmo, Sandy assistiu aos acontecimentos em cima de um chaimite. Quando voltou para casa, já de madrugada, “sentia os músculos da cara cansados de tanto sorrir”. Pouco depois da revolução, foi contactado pela embaixada dos EUA e aceitou acompanhar, durante uma semana, dois jornalistas norte-americanos (do “Baltimore Sun” e do “Chicago Tribune”) e um australiano (do “The Age”, de Melbourne), profissionais batidos, com experiência de histórias quentes, como parecia ser o caso “pelo que significava para Portugal, mas também em termos africanos.” “No nosso primeiro almoço, levei-os ao Bonjardim, o rei dos frangos, junto ao Rossio. Um deles perguntou-me: ‘Você que mora cá, como é que reage a isto tudo?’. Eu disse: ‘Bem, para mim, isto é uma espécie de orgasmo coletivo’. Ele comentou: ‘É uma expressão muito forte, mas eu trabalho para um jornal de família... Tenho a impressão que não vou poder citá-lo’.” Sandy refere que os três eram “praticamente analfabetos” em relação a Portugal. Durante décadas, além do caso do “Santa Maria” e do início das guerras em África, muito pouco tinha acontecido no país que tivesse chamado a atenção da imprensa estrangeira. “Havia muito poucos jornalistas estrangeiros acreditados em Lisboa antes de 25 de abril. Estariam provavelmente em Madrid ou em Paris e ficavam com um olho cá.”

Chegados a Portugal na década de 60, a norteamericana Martha de la Cal e o marido, o fotógrafo inglês Peter Collins, eram exceção. Pela mão de Martha, a revolução portuguesa chegou à revista “Time”, com uma ilustração de Spínola a fazer a capa da edição de 6 de maio de 1974. Falecida em 2011, a jornalista recordou, numa entrevista de 2008, o desconhecimento do mundo em relação a Portugal. “Eu mandava muitíssimo material para a redação central em Nova Iorque, onde havia jornalistas muito bem pagos só para escrever. Depois a ‘Time’ enviava-me o que eles escreviam para eu fazer correções. A primeira coisa que me mandaram no dia 25 de abril dizia: ‘Desde Fernando

Capa da “Time” de 6 de maio de 1974 (com reportagem de Martha de la Cal) e Ramón Font, o catalão que se perdeu de amores por Lisboa em 1974 FOTOGRAFIA DE ALBERTO FRIAS

Nos EUA, na redação da “Time”, julgava-se que Portugal era Espanha. E mesmo entre nuestros hermanos havia uma grande ignorância sobre a situação do lado de cá da fronteira

e Isabel de Espanha que não…’ Eu mandei de volta a dizer: ‘Não! Estamos em Portugal! Não é Espanha!’ Sabia-se muito pouco sobre o país.” Mesmo em Espanha, Portugal era uma realidade desconhecida. “Conhecíamos Fátima, Eusébio, Amália e o vinho do Porto. Ninguém pensava ir a Portugal”, recorda Ramón Font, o catalão que viria a ser correspondente em Lisboa da agência EFE, da Radio Nacional de Espanha e da TVE. “Eu conhecia o livro de Spínola (‘Portugal e o Futuro’) e, porque estava politizado, sabia quem era Mário Soares e Álvaro Cunhal.” EXCURSÃO POLÍTICA A trabalhar numa rádio de Barcelona, fez-se à estrada decidido a “saber o que era a liberdade. Com um grupo de amigos do jornalismo, do cinema, do ensino, fizemos uma excursão política a Portugal, durante uma semana”. Marcou-o muito a visita ao jornal “República”, onde se impressionou com a figura de Raul Rego. “Eu não sei quanto tempo aqueles jornalistas dedicavam ao seu trabalho, porque passavam horas a receber colegas estrangeiros e nunca diziam ‘não posso’. Estavam sempre disponíveis para explicar as coisas seriamente.” Ramón Font diz que o golpe das Caldas colocara-o “de prevenção”. Ainda assim, não deixou de se sentir surpreendido quando soube da revolução. “O 25 de Abril foi uma surpresa para toda a gente, sobretudo pelo seu estilo e ausência de violência. Foi o que me fascinou. Lembrome de uma conversa, muitos anos depois, com o dono do restaurante Tavares em que lhe disse: ‘Deixe de se queixar! Os tanques passaram em frente a este restaurante, um símbolo do antigamente, e ninguém partiu os vidros’. Ele disse: ‘É verdade, desculpe!’” ^ 25 Abril 40 anos | 101

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


PROTAG ONIS TAS

Em momentos mais banais ou singulares da vida de alguns portugueses estão bem vincados traços marcantes do 25 de Abril. Não só desse dia propriamente dito mas também do estado do país no fim da ditadura ou da euforia revolucionária. Histórias de protagonistas que espelham bem a atmosfera de um tempo português

Fernanda Matos

Festa de anos em Caxias, a 25 de Abril Veio de França para celebrar o aniversário do namorado que estava na prisão. O reencontro, adiado por 24 horas, acabaria na cervejaria Trindade TEXTO PAULA COSME PINTO FOTOGRAFIA NUNO FOX

F

ernanda Matos vinha no comboio Paris-Lisboa na noite de 23 de abril de 1974 quando foi intercetada pela PIDE. Foi a primeira e única vez que tal lhe aconteceu, embora tivesse passado os quatro anos anteriores a ajudar amigos a passarem a fronteira para fugir da guerra colonial. Nessa noite Fernanda fez-se de “desentendida” em todas as perguntas sobre os camaradas da LUAR (Liga de Unidade e Ação Revolucionária) com quem partilhava os seus dias em Paris. “Tinha medo de ser presa à chegada a Portugal, mas estava fora de questão revelar fosse o que fosse.” Chegou a Lisboa no dia 24 para visitar o namorado que estava preso em Caxias e que faria anos no dia seguinte. Mas mal sabia que a celebração

daquele aniversário de Luís Filipe Guerra ficaria para a história da vida de ambos. “Ele fazia parte do grupo do Palma Inácio que foi preso ao tentar raptar o Silva Pais [diretor da PIDE]. Havia um pide infiltrado no grupo e acabaram por ser apanhados num café antes de iniciarem a operação.” Fernanda não via o namorado desde novembro, altura em que fora preso, mas este conseguira que ela tivesse autorização para a visitar no dia do seu aniversário. UMA ATMOSFERA ÚNICA “No dia 25 preparei-me para o visitar, só que a estrada para Caxias estava cortada. Os militares não nos disseram o que estava a passar-se, mas ao voltarmos para o centro de Lisboa percebemos. Estava instalado um ambiente de

102 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


PROTAGO NI S TA S

Fernanda Matos, no Parque das Nações, em Lisboa

Quando os amigos começaram a ser enviados para a guerra, tratou de os ajudar a saltar a fronteira

gente maluca, as pessoas falavam umas com as outras, esfusiantes, sem medo. Nunca mais vivi uma atmosfera assim”, lembra Fernanda, que acabou por só conseguir voltar a ver o namorado no dia 26. “Passámos a noite à porta da prisão, lado a lado com muitas figuras políticas. Depois de muita pressão lá os deixaram sair e foi uma saída triunfal, as fotos correram o mundo. Acabámos todos a beber cerveja na Trindade, foi um dia de festa que fica marcado para sempre”, conta hoje a técnica oficial de contas, de 64 anos. Fernanda não voltou para Paris, nem casou com o namorado. “Das mulheres esperava-se apenas que casassem e tivessem filhos, mas eu tinha outros horizontes.” A verdade é que Fernanda era

uma mulher muito diferente das portuguesas da época. Aos 18 anos foi “ver mundo num inter-rail”. Depois, entrou na faculdade, onde encontrou “uma juventude muito crítica e politizada”. Na cantina da Faculdade de Medicina ousava ver filmes proibidos pela censura. “Enquanto uns viam, outros faziam vigilância.” E juntava-se regularmente com amigos em cafés para ler jornais e discutir política. “Éramos provocatórios. Lembro-me de irmos ao café A Mexicana e percebermos que havia lá um pide. Falávamos ainda mais alto quando o víamos e chegámos a pôr-lhe papéis no carro a chamar-lhe ‘assassino’ e pidesco’”. A “adrenalina da idade ajudava”, mas era a revolta que sentia desde que o irmão

mais velho fora enviado para a guerra colonial que a corroía por dentro. AFINAL, PARIS PODE ESPERAR Quando os amigos mais chegados começaram a ser sinalizados como contestatários e enviados para a guerra como castigo, Fernanda não teve dúvidas: “Era meu dever ajudálos no meio daquela injustiça.” Num Citroën 2 CV levava-os até ao Gerês, onde passavam a fronteira para Espanha. “Ainda não havia sistemas informáticos, portanto era mais fácil fugir ao controlo da polícia.” De seguida, os amigos apanhavam autocarros para França, destino que Fernanda também acabou por ter. Foi para Paris por vontade própria, para estudar

sociologia, e lá conheceu “muitas mentes livres, pensadoras”. Juntou-se aos revolucionários da LUAR, distribuía o jornal da Liga aos nossos emigrantes “para os fazer pensar no que se passava no país” e ajudava quem precisasse de passaportes falsos para escapar ao regime. Quando embarcou no comboio para Lisboa para visitar o namorado na prisão, trazia na bagagem aqueles tempos de “liberdade de pensamento e de expressão”. Tempos que guarda bem vivos até hoje. “Tirei um bilhete de ida e volta mas acabei por ficar com ele como recordação. Vou a Paris todos os anos, mas depois da revolução achei que ainda valia a pena acreditar em Portugal. O meu lugar era aqui outra vez.” ^ 25 Abril 40 anos | 103

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


PROTAG ONIS TAS

Figueira Mendes, na sala onde há quatro décadas fez julgamentos (na mesa, peça de damasco vermelho com o pavilhão real usado pela Câmara de Grândola)

Figueira Mendes

O autarca que foi juiz Poucas semanas após o 25 de Abril, os portugueses experimentaram as primeiras eleições livres, de braço no ar. Foram as escolhas da comissões administrativas que governaram as câmaras TEXTO PAULO PAIXÃO FOTOGRAFIA ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

104 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


PROTAGO NI S TA S

A

votação teve lugar no campo de futebol. Figueira Mendes, o homem que conduziu os destinos do município de Grândola nos primeiros passos da democracia — e voltou ao cargo quase quatro décadas depois, nas autárquicas de setembro passado —, recorda aquele momento. “Foi em maio de 1974. Todos os membros da comissão administrativa foram eleitos por braço no ar. Depois, entre eles, é que me designaram presidente”, diz. Logo a 25 de Abril de 1974 foram demitidos o Governo e os governadores civis. Aos poucos, entre os presidentes de câmara (cargos de nomeação durante o Estado Novo), uns saem pelo seu pé, outros são afastados. “A quase totalidade pediu a demissão ou foi exonerada automaticamente”, explica Maria Antónia Pires de Almeida, investigadora e autora da obra “O Poder Local do Estado Novo à Democracia.” “As populações mobilizaram-se e pela primeira vez a ação popular teve resultados práticos na organização do poder político”, afirma a historiadora. “Nos concelhos do Alentejo isso foi muito frequente”, devido ao papel do PCP, que “assumiu a liderança local”, acrescenta. À frente da comissão administrativa de Grândola, Figueira Mendes herda os poderes antes nas mãos dos presidentes de câmara. E entre essas competências figurava, ocasionalmente, a de juiz, nas “faltas ou impedimentos” do magistrado. RETRATOS DE OUTRO TEMPO Pelo estatuto judiciário vigente em 1974, o juiz de direito era substituído pelos conservadores do registo predial e do registo civil. Mas na ausência destes, ou

tratando-se de uma mulher, avançava “o presidente da câmara municipal do concelho sede da respetiva comarca ou quem as suas vezes fizer”. Ainda por cima, Grândola não tinha comarca, com sede em Alcácer do Sal desde a reforma judiciária feita após o fim da I República. Fischer Sá Nogueira, juiz conselheiro jubilado, lembra-se desses caminhos alentejanos, calcorreados na segunda metade da década de 50, quando era um jovem delegado do procurador da República. “Todas as semanas, deslocava-me um dia de Alcácer a Grândola, acompanhando o juiz.” Eram outros tempos, recorda. “A função de juiz só podia ser

administrativas, condutores apanhados sem carta, por exemplo”. As chamadas “contravenções” (hoje designadas contraordenações), esclarece Sá Nogueira. Figueira Mendes, hoje com 71 anos, recorda-se, particularmente, de um julgamento, em que aplicou “pena suspensa de coima” a um conterrâneo, “apanhado pela GNR a conduzir sem documentação”. Tratava-se da sanção mais leve — a alternativa era a multa. “Mas como é que eu, um revolucionário, o poderia condenar?”,interrogase, bem disposto. Embora suave, o veredicto fez mossa na relação entre os dois grandolenses, pois o prevaricador queria a

da comissão administrativa de Grândola espelha bem isso. Há um licenciado em direito, é verdade... Mas lá estão um operário metalúrgico, um industrial de serralharia, um operário corticeiro, um encarregado de fábrica, um comerciante e um empregado de escritório. TRIBUTO A ZECA AFONSO As primeiras deliberações refletem a atmosfera desses tempos. Logo na primeira reunião, a 15 de julho de 1974 (três dias depois da posse, dada pelo “secretário” do Governo Civil, “servindo de governador”), é assumida a designação de “comissão democrática administrativa” — quando a lei apenas consagrava,

A um conterrâneo, apanhado pela GNR a conduzir sem carta, aplicou uma pena suspensa. O prevaricador, que queria a absolvição a todo o custo, esteve uma dúzia de anos sem lhe falar exercida por homens. Era uma sociedade em que o patriarca mandava”. No segundo semestre de 1974, quando a “vila morena” fervia politicamente, Figueira Mendes fez “uma meia dúzia de julgamentos”. Foram realizados numa sala por onde passa muita da história local. Foi os primeiros Paços do Concelho; depois, serviu de cadeia no rés do chão e de tribunal no primeiro piso, juntando ainda o notário e o registo civil. Mais tarde, tornou-se sede do PCP, estando na origem de um braço de ferro com a câmara (do socialista Carlos Beato), que procederia ao despejo, acabando tudo em tribunal. Voltou à posse da autarquia, sendo agora galeria de exposição. Um observatório da canção de intervenção está no horizonte. O autarca julgou casos simples, de “pequenas infrações

absolvição a todo o custo. Como retaliação, “esteve uma dúzia de anos sem me falar”, diz o antigo autarca-juiz. A RENOVAÇÃO DAS ELITES LOCAIS A função judiciária foi exceção no dia a dia. Ajuda, no entanto, a caracterizar a sociedade e as instituições portuguesas no início da democracia. Em 1974, a eleição das autoridades locais foi uma pedrada no charco. “As comissões administrativas mudaram completamente os grupos que estavam no poder. Até então, o típico presidente de câmara era um notável local, que num meio rural costumava ser um latifundiário”, explica Maria Antónia Pires de Almeida. Com a Revolução dos Cravos, tudo mudou. O “Diário da República” com a nomeação

secamente, a formulação de “comissão administrativa”. Uma definição reafirmada, aliás, na reunião de 20 de dezembro de 1974. Então, é decidido não sujeitar ao Governo Civil o plano de atividades e bases para o orçamento de 1975, por se tratar de uma “disposição legal de orientação e sabor fascista que a todos os títulos se impõe sanear nas suas mais profundas raízes”. Pelo meio, e menos de dois meses após o fim da ditadura, os eleitos agem em sintonia com a notoriedade da sua terra. Pelo facto de ‘Grândola, Vila Morena’ ter “servido de senha” ao 25 de Abril e de o povo ter aceitado a canção como “um hino” e um “símbolo da liberdade”, os membros da comissão administrativa, por unanimidade, atribuem a José Afonso o título de “cidadão honorário de Grândola”. ^ 25 Abril 40 anos | 105

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


PROTAG ONIS TAS PR OTAGO NIS TA S

Manuel Madeira Piçarra

Um diretor de jornais entre a Censura e o PREC O fundador do “Diário do Sul” teve de haver-se com a Censura. No PREC, viu o jornal de Évora ocupado e ficou preso em Caxias 37 dias, dividindo a cela com banqueiros ou o duque de Palmela TEXTO PAULO PAIXÃO FOTOGRAFIA ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

106 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


PROTAGO NI S TA S

Manuel Madeira Piçarra na redação do “Diário do Sul”, jornal que dirige desde 1969

Na ditadura, um artigo “muito duro” sobre a União Nacional levou-o ao Tribunal da Boa Hora. No Verão Quente esteve detido pelos militares

N

uma vitrina do arquivo do “Diário do Sul”, Manuel Madeira Piçarra guarda com esmero cartões trocados com figuras que marcaram a política e as letras nacionais. Lá estão os cumprimentos de Salazar, Craveiro Lopes, Ferreira de Castro, Mário Soares, Vergílio Ferreira (o escritor, que lhe “pegou a doença dos jornais”, foi seu professor no Liceu de Évora) ou Marcelo Rebelo de Sousa. O portefólio não espelha qualquer vínculo políticopartidário do ainda rebelde homem de 83 anos (faz amanhã 84). No fascismo, a Censura olhou-o de viés, como “anarquista”; no PREC (Processo Revolucionário em Curso), era tido por “fascista”. De permeio, na Primavera Marcelista, resistiu ao canto da sereia para engrossar as fileiras do Estado Novo. A correspondência de Piçarra, as histórias que desfia ou até a coleção de máquinas de escrever, com verdadeiras relíquias, apenas atestam a sua longevidade. “Sou o único diretor de jornal que vem do tempo do salazarismo”, conta a sorrir. Só no “Diário do Sul” o papel é desempenhado desde 1969. Mas, já antes, em meados da centúria (1951), estava ao leme da revista literária “Horizonte” (pela qual, além de Vergílio,

passaram Régio, Namora e Lima de Freitas, entre outros). Começou aí o jogo do gato e do rato de Piçarra com o lápis azul. A partir de 1959, envolvese no “Jornal de Évora”, um trissemanário cujo êxito o fez sonhar com um diário. Mas o Estado Novo nutria por ele “embirração”, por ser do “reviralho”. NAMORADO PELO MARCELISMO Um artigo “muito duro sobre os representantes da União Nacional” levou-o ao Tribunal da Boa Hora, em Lisboa. Com tal conta-corrente não admira que o pedido para criar o diário tenha chumbado três dezenas de vezes. A luz verde só acendeu com Marcelo Caetano no poder, graças aos bons ofícios de um novo governador civil de Évora (José Castelo Branco). A democracia não chegou sem que Piçarra tenha resistido a assédios para integrar a Ala Liberal na Assembleia Nacional e, a poucos meses do 25 de Abril, “organizar politicamente o Alentejo”, com a missão de cooptar novos líderes locais. Depois de 1974, o “Diário do Sul” foi atravessado pelas tensões desse tempo (e a planície alentejana, dominada pelo PCP, era particularmente explosiva). A 13 de março de 1975, acabara de fracassar

o golpe spinolista, Piçarra viu o jornal ocupado. “Eram militantes comunistas, de terras à volta de Évora”, diz, ressalvando que o PCP nunca reconheceu tal facto. “Fui assaltado um mês antes do ‘República’”, reivindica a primazia, em tom de ironia. O assenhoreamento durou pouco. Dois dias volvidos, recuperou o jornal. Mas foi sol de pouca dura: ao fim 48 horas, nova investida. A promessa ouvida na manhã de 17 de março, no quartel-general da Região Militar Sul, de que tudo seria resolvido na mesma tarde, tem desfecho de sinal oposto. Atraído à caserna, Piçarra sente nas costas os canos de duas armas e ouve ordem de prisão dos militares. Segue-se a viagem de Évora a Caxias, “no Mercedes preto do segundo comandante”. No forte onde a ditadura mantivera a ferros muitos presos políticos, são agora aglomerados centenas de detidos no clima revolucionário. “O chefe dos guardas pediu aos militares o meu mandado de detenção, mas estes nada tinham.” PERSEGUIDO NO PREC Após horas de espera, é mandado para uma divisão (a “Sala 1, 2º Direito”, título do livro em que depois relataria os dias de custódia. Partilha

a cela com gente famosa que só conhecia de nome: José Roquette, Manuel Ricardo Espírito Santo, Quirino Mealha (presidente do Banco Borges), Luís Holstein (duque de Palmela) e Francisco Spínola (irmão do general). “Estive lá 37 dias, mas ninguém me perguntou nada. Uma noite, ao jantar, chamam por mim, para me libertarem. Mas eu não queria sair sem ser ouvido, para evitar que voltassem a colocar-me lá dentro. Escrevi isso mesmo num papel enviado ao comandante do forte. Na mesma folha, ele respondeu de seguida, mandando-me abandonar a prisão urgentemente, pois era comandante do forte e não carcereiro.” De novo em Évora, Piçarra assiste de fora à publicação do “Diário do Sul” até novembro de 1975, quando os ocupantes editaram o último número. O jornal estava “semidestruído”. Pretenderam devolver-lho logo, mas recusou, por querer um ressarcimento e garantias. Nunca recebeu um tostão. “Ninguém nos irá indemnizar”, concluiu então. Caxias, uma “experiência rara”, não “deixou marcas nem rancores”. Foi em frente. “Ponho uma pedra de cem toneladas sobre tudo.” A publicação do “Diário do Sul” é retomada em julho de 1977. ^ 25 Abril 40 anos | 107

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


Internacionalismo proletário

© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C.

DESDE O PRIMEIRO MOMENTO, o processo democrático português foi inspirador para o mundo — e ao mesmo tempo foi recetivo a mensagens vindas de outros contextos revolucionários. Por um lado, com um discurso sobre as ainda colónias africanas que lutavam pela independência — e do lado de cá toma-se partido por determinado movimento do lado de lá — e na celebração da amizade com os povos de Leste ou latino-americanos. Neste quadrante, foi um impulso e uma esperança para quem, no Brasil, lutava contra a ditadura militar. Pelo outro lado, a evolução do processo português foi feita com a incorporação de muitas referências estrangeiras (o caso mais marcante foi o Chile, com a exaltação da figura de Allende na resistência a Pinochet). ^ PAULO PAIXÃO

108 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


“Sei que há léguas a nos separar Tanto mar, tanto mar Sei, também, que é preciso, pá Navegar, navegar Lá faz primavera, pá Cá estou doente Manda urgentemente Algum cheirinho de alecrim”

© ARQ. DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL DA U. C.

Chico Buarque de Hollanda “Tanto Mar”

25 Abril 40 anos | 109 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


25 Abril 40 anos | 110 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ARTUR SANTOS SILVA “NÃO ACREDITAVA QUE CONSEGUÍSSEMOS AVANÇAR TANTO EM 40 ANOS” ENTREVISTA HENRIQUE MONTEIRO JOANA PEREIRA BASTOS FOTOGRAFIAS NUNO BOTELHO

25 Abril 40 anos | 111 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT R EVIS TA

ARTUR SANTOS SILVA

Artur Santos Silva fotografado no seu gabinete, na Fundação Calouste Gulbenkian

O

presidente da Fundação Calouste Gulbenkian e antigo diretor do primeiro banco privado português viveu com euforia o 25 de Abril, mas confessa ter tido medo durante o PREC. Hoje, teme que estejam em risco as maiores conquistas da democracia, como o Serviço Nacional de Saúde ou a expansão do sistema de ensino. Aos 72 anos, Artur Santos Silva não poupa críticas ao “ataque massivo às pensões”, que diz ameaçar a confiança no Estado. Mas, apesar da crise profunda que se vive, acredita que o país será estudado lá fora como exemplo de uma recuperação de sucesso.

Para si, o 25 de Abril foi uma surpresa ou tinha a perceção que a mudança estava iminente? Com o fim de Salazar houve alguma esperança de que o regime se abrisse e de que se iniciasse uma reforma, mas isso não aconteceu. O meu sentimento era o de que, em 1973-74, o regime estava perto do fim. A consciência de que a Guerra Colonial só podia ter uma saída política e uma maior liberalização da economia vieram reforçar as contradições… Havia uma enorme especulação na área imobiliária e no mercado de ações e, no final de 1973, a crise do petróleo veio alterar radicalmente a envolvente externa. Também no plano internacional se sentia uma pressão, estava a sentir-se uma pressão adicional para uma mudança. Porém, quando o golpe militar de 16 de março falhou, pensei que o regime fosse apertar mais o controlo, nomeadamente sobre as Forças Armadas.

O país democrático que idealizava é parecido com o que temos hoje? A evolução que o nosso país teve no plano social foi muito superior ao que esperava. Acreditava que uma sociedade aberta e democrática nos ia trazer muito, mas estava consciente das limitações que existiam a um progresso rápido, nomeadamente o baixo nível de qualificação da população, as desigualdades, as assimetrias regionais, a inexistência de uma ampla classe média, uma agricultura manifestamente ineficiente, etc... Nunca pensei que com as qualificações dos nossos recursos humanos conseguíssemos avançar tanto. Isto, também, só foi possível porque houve uma solidariedade europeia, que nos proporcionou meios financeiros muito significativos. Como viveu o período do PREC? Em relação ao 25 de Abril, os primeiros momentos foram da maior euforia.

Depois, consciencializei-me de tudo o que estava em causa para que a mudança política se consolidasse. Mais tarde, muito me preocupou o curso dos acontecimentos. A radicalização foi crescente, e isso foi-se sentindo ao nível do poder político-militar, do movimento sindical, dos media, da universidade. Que consequências teve esse período? Com o 11 de março há uma aceleração da radicalização. A primeira onda de choque das nacionalizações foi nos sectores da banca e seguros, a que se seguiram as mais importantes empresas de outras áreas da economia. Foi um erro enorme. A irracionalidade na gestão dos bancos revelou-se em especial na gestão dos riscos de crédito, que passou a ser essencialmente política. As empresas apresentavam mensalmente listagens com montantes de salários e pagamentos a fornecedores

112 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT REVI S TA

a efetuar e que eram prontamente financiados. Com a decisão de nacionalizações sem qualquer critério económico destruíram-se centros de racionalidade que demoram muito tempo a criar. Para terem lugar as eleições para a Assembleia Constituinte, os partidos foram obrigados a celebrar um pacto com o MFA, comprometendose a consagrar na futura Constituição o princípio da irreversibilidade das nacionalizações, quer de empresas, quer da propriedade na zona da reforma agrária. Houve também muitas prisões e perseguições realizadas da forma mais arbitrária, que geraram grande pânico. Teve medo? Tive. Estava então convencido de que podíamos ter uma situação anarquizante, com todos os riscos inerentes, ou um novo regime totalitário, mas de esquerda, com a complacência do poder militar.

No Porto isso sentiu-se como em Lisboa? No Norte, as nacionalizações só abrangeram uma unidade de pasta de papel, uma empresa de cervejas, dois bancos e algumas companhias de seguros. Mas houve uma forma disfarçada de nacionalizações, que foi a intervenção do Estado na gestão de empresas, o que criou a maior insegurança e incerteza. Lembrome de um caso singular e paradigmático, o da Têxtil Manuel Gonçalves, mas houve muitos outros. Havia a esperança de que as eleições para a Constituinte conduzissem a uma clarificação. Pelo contrário, assistiu-se a uma forte aceleração da radicalização. Mário Soares foi impedido de falar no 1º de Maio, a que se seguem duas grandes manifestações nas ruas de Lisboa contra o ilegítimo controlo do jornal socialista “A República” e da Rádio Renascença. Depois, em julho, um impressionante comício do PS no

Estádio das Antas, a contestar o poder político-militar estabelecido e a falta de liberdades, a que se seguiu, em Lisboa, o da Fonte Luminosa. Foram esses movimentos de rua que deram mais força aos militares moderados. Quando Vasco Gonçalves deixa de ser primeiro-ministro, há um período de umas semanas até ver quem lhe sucede e depois forma-se o VI Governo Provisório, liderado pelo almirante Pinheiro de Azevedo e no qual o dr. Salgado Zenha é ministro das Finanças e que me convida para secretário de Estado do Tesouro. A partir da clarificação político-militar resultante dos acontecimentos de 25 de novembro, o país entrou num quadro de normalização democrática muito positivo, como se nada de radical tivesse acontecido antes. Com dois pilares do regime anterior, as Forças Armadas e a Igreja Católica, a aderirem totalmente à democracia e a contribuírem para a sua consolidação. 25 Abril 40 anos | 113

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT R EVIS TA

Na sua opinião, qual é o maior sucesso deste Portugal pós-25 de Abril? Apesar de sermos uma sociedade muito desigual em qualificações e rendimentos, mostrámos uma excecional coesão. O caso mais significativo foi o da chegada e integração dos retornados das ex-colónias. O país teve um aumento de população na ordem das 700 mil pessoas, muitas delas em idade ativa, que em geral chegaram sem quaisquer haveres para começarem uma nova vida. Criou-se, então, um fundo para apoiar o lançamento de novas iniciativas empresariais, que conseguiu resultados espetaculares. Outro grande sucesso foi a criação do Estado social. Praticamente não tínhamos saúde pública, evidenciando, por exemplo, dos piores indicadores entre os países da OCDE ao nível da mortalidade infantil, quando hoje, em mortalidade infantil, apresentamos os mais favoráveis resultados à escala mundial. O pilar do Estado social em que fomos mais bem sucedidos é sem dúvida o da saúde. Na educação também fizemos um progresso extraordinário. No final dos anos 60, só 1% da população tinha estudos superiores e só havia cerca de 30 mil estudantes universitários. Hoje temos 400 mil. Também a Segurança Social veio gradualmente a cobrir toda a população. Outro aspeto muito importante é a forma como o nosso país se adaptou rapidamente às regras do mercado comum no período de transição, bem como, a seguir, na aceleração do movimento de integração europeia, como a criação do mercado único. Por outro lado, os fundos europeus permitiram modernizar muitas das nossas incipientes infraestruturas. Mas essa não foi uma oportunidade perdida? Muita gente diz que só se pensou no cimento, mas a verdade é que o país não tinha infraestruturas essenciais — cerca de 50% das casas sem abastecimento de água, saneamento básico e energia elétrica, uma rede de estradas que não aproximava o litoral do interior, um sistema de telecomunicações arcaico. A modernização dos serviços de educação (escolas e universidades) e de saúde, tudo isso foi feito essencialmente com os fundos europeus. Assim como a modernização da nossa indústria e da nossa agricultura. Muita gente diz que a agricultura portuguesa foi destruída, mas isso não é verdade. O salto que a agricultura deu em eficiência é impressionante. Há 20 anos tínhamos 80 mil produtores de leite, que produziam um

µ

É impressionante constatar que, de 1984 até ao final dos anos 90, o PIB per capita, em paridade de poder de compra, tivesse passado de cerca de 55% para perto de 80%. Só que, quando olhamos para 40 anos, somos muito influenciados pelos tempos mais recentes. Com a adesão ao euro, o país teve uma ideia artificial de abundância

milhão de toneladas. Hoje, com menos de um décimo dos produtores, produzimos dois milhões. O sector que mais exporta hoje é o agroalimentar, ou seja, as indústrias que estão a jusante da agricultura. Cometeram-se muitos erros em relação à floresta, mas em muitos domínios, como a horticultura, a fruticultura, o vinho ou o azeite, por exemplo, houve um salto extraordinário. É verdade que agora, olhando para trás, vemos que podíamos ter investido mais na qualificação. Mas tivemos de abrir o sistema de ensino a todos, e esse processo não se fez da maneira mais planeada. É impressionante constatar que, de 1984 até ao final dos anos 90, o PIB per capita, em paridade de poder de compra, tivesse passado de cerca de 55% para perto

de 80%. Só que, quando olhamos para 40 anos, somos muito influenciados pelos tempos mais recentes, em especial a partir do início do século. Com a adesão ao euro, o país teve uma ideia artificial de abundância, não tanto pelo lado do rendimento, mas pelo aumento do consumo, através do crédito. Muito fomentado pela banca… Sobretudo ao nível do crédito à habitação. A procura de habitação própria dinamizou a indústria da construção civil e a criação de emprego. Porém, de 2000 até aos nossos dias, o crescimento acumulado foi apenas de 3%, só comparável ao modesto crescimento da Itália. Este resultado é muito dececionante, sem esquecer que, neste mesmo período, o endividamento externo duplicou, tal como o endividamento público. Depois de 2008-2009 fomos vítimas do impacto da crise e não beneficiámos de adequadas respostas nas políticas europeias. Fui um forte adepto da entrada no euro. Hoje não tenho dúvidas de que a falta de supervisão a nível macroeconómico permitiu a geração de resultados muito negativos. Mas nem pensar em sair do euro. Nem neste momento? Isso teria consequências devastadoras. Mas a verdade é que o euro exigia um elevado grau de competitividade das economias que nele participassem para poderem integrar uma moeda única. Nós preenchíamos todos os requisitos exigidos, nomeadamente o ratio de dívida pública em relação ao PIB, abaixo de 60%, bem como um défice público em relação ao PIB, inferior a 3%. Porém, em termos externos, o crescente desequilíbrio da balança corrente evidenciava a falta de competitividade da nossa economia. Ter uma moeda própria é ter um instrumento importante para corrigir alguns aspetos da falta de competitividade externa. Como disse, faltou uma supervisão sobre as nossas políticas financeiras, de maneira a que não descarrilássemos. Isso não foi feito pela UE. Fomos recebendo avisos, mas não houve uma efetiva supervisão. Até porque os dois países mais importantes da zona euro, a França e a Alemanha, disseram unilateralmente em 2002 que não iam respeitar o limite do défice público. Com a crise aberta pela falência da Lehman Brothers, assistimos na Europa a uma situação muito séria do sector financeiro. Muitos bancos — em especial da Alemanha, Reino Unido, Irlanda, Holanda e, também em menor escala, da França — tinham feito

114 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


ENT REVI S TA

investimentos massivos em produtos tóxicos, o que exigiu em muitos casos recapitalização, a ser feita pelo Estado e que deu lugar, de facto, à nacionalização de muitos deles. A partir de 2008, defendeuse que a Europa devia ter uma política económica e financeira expansionista e que não devíamos preocupar-nos com os limites do défice e da dívida pública. Os Estados deviam injetar dinheiro na economia, aumentar os investimentos públicos, etc… Aliás, em 2007 e 2008 conseguimos um resultado muito positivo, reduzindo o défice público de 2005 para 2007 de 6% para cerca de 3%. Porém, em 2009 e 2010, as contas públicas derrapam e o défice público veio a ultrapassar 10% em 2010. E chegados aqui? Olhando para trás, acho que o nosso grande erro foi o de não termos interiorizado as consequências de estarmos numa moeda única, ainda por cima sem adequado acompanhamento da execução de políticas macro e sem um banco central com funções típicas. O BCE tem funções muito limitadas. Em geral, um banco central tem três objetivos: defender o valor da moeda, promover o crescimento económico e o emprego. Nós temos um banco central que só tem uma preocupação — o controlo dos preços, para que não haja uma inflação acima dos 2%. Ora, como se está a ver, muito mais grave do que uma inflação é uma deflação. Há pouco, quando falava nas principais conquistas do pós-25 de Abril, falava no Estado social. Acha que está a ser posto em causa? Está a ser posta em causa a confiança no Estado pela forma arbitrária, afetando direitos adquiridos a beneficiários de sistemas de pensões. O estudo da reforma das pensões é uma das principais prioridades e constitui uma área em que é altamente desejável que haja um consenso partidário. Mesmo que não seja possível, como eu desejava, um consenso mais amplo, há três áreas em que esse entendimento é imprescindível: o financiamento do nosso sistema de pensões, a normalização das relações com os nossos melhores (da universidade à ciência) e a modernização do nosso sistema de justiça. Quando era ministro, Vieira da Silva fez uma reforma do sistema de pensões que foi considerada exemplar. Na altura fomos apontados como o país da

União Europeia com o sistema de pensões mais sustentável. O que aconteceu, então? O aumento do desemprego e a ausência de crescimento económico vieram pôr tudo em causa. O Estado viu as suas receitas fiscais (IVA, IRC, IRS) reduzirem-se, ao mesmo tempo que passou a ter muito mais custos com as prestações sociais. Só com a economia a crescer, estimulada pelo aumento do investimento privado, poderemos inverter o ciclo em que estamos. Os fundos europeus que vamos ter no próximo quadro têm de ser predominantemente orientados para a modernização e renovação do nosso sistema produtivo, bem como para concluir a requalificação das nossas escolas. Tudo devemos fazer para não pôr em causa os alicerces do Estado social. A saúde e a educação públicas estão em risco? É fundamental não sacrificar o que se conseguiu na saúde nas duas últimas décadas, mas é natural que se estruture um novo sistema de financiamento. Pessoalmente, acho desejável que as pessoas paguem em função do seu rendimento. Dir-se-á que já pagam os impostos em função do rendimento. Entendo, pois, que

µ

Temos de saber mostrar que a democracia é compatível com o rigor nas políticas financeiras (...) A política de finanças públicas tem de ser rigorosa

quem não pode pagar nada deverá pagar e quem pode deve pagar mais. Em relação à educação, compreendo que no Básico e Secundário haja uma dimensão mínima das unidades de ensino. Por outro lado, tem de haver um grande esforço de formação permanente dos professores, sendo montado um estimulante e racional sistema de avaliação. O nosso país tem de continuar a apostar numa melhoria do sistema de educação, mas os cortes têm de ter o seu critério bem explicitado. Por outro lado, estou muito preocupado com o esvaziamento dos quadros de topo da Administração Central do Estado, pois precisamos de pessoas de altíssima qualidade na Administração Pública. Hoje em dia, as pessoas que trabalham nas direções-gerais não têm um longo período à sua frente para realizarem um projeto sólido. É muito importante que tenham remunerações compatíveis, independência e tempo para fazer obra. Está confiante na recuperação do país? Em 1979-80, com quatro governos, Portugal conseguiu num ano e meio anular um desequilíbrio externo de 10% do PIB, a partir do acordo que fizemos com o Fundo Monetário Internacional. Fomos então um case study de sucesso das políticas de estabilização do FMI. Em 1983-85 tínhamos o maior desequilíbrio externo da história da OCDE — 14% do PIB — e em dois anos e meio conseguimos atingir uma situação de equilíbrio, com medidas que assentaram sobretudo nos instrumentos de política monetária — taxa de juro, taxa de câmbio e enquadramento ao crescimento do crédito. E fomos mais uma vez um caso de sucesso a enfrentar um sério desequilíbrio externo. Agora, pela terceira vez em menos de 35 anos, precisámos de recorrer a uma ajuda externa de capitais públicos. Temos de saber mostrar que a democracia é compatível com o rigor nas políticas financeiras. O nosso país não pode continuar a deteriorar o seu endividamento perante o exterior. A política de finanças públicas tem de ser rigorosa. Finalmente, precisamos de requalificar as nossas instituições. Devolver a maior dignidade ao exercício de funções públicas — Governo, Parlamento, poder local —, aumentar a eficácia da Administração Central, dignificar a justiça, gerir melhor o território — da qualidade urbanística das cidades ao melhor aproveitamento dos nossos recursos naturais, da floresta à agricultura e ao mar. ^ 25 Abril 40 anos | 115

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


CONTO

116 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


DIÁRIO SECRETO DE MA NUEL MAL AQUIAS

ANA MARIA MAGALHÃES E ISABEL ALÇADA ILUSTRAÇÕES

GONÇALO VIANA

Apresentação de

MANUEL MALAQUIAS Aos olhos das crianças que nasceram e cresceram em democracia a celebração dos 40 anos do 25 de Abril dificilmente se reveste de significado. Para que valorizem esse acontecimento histórico, é indispensável disponibilizar elementos que ajudem a formar ideias acerca de uma época que em absoluto desconhecem, ou percecionam como estranha e distante. A personagem a que demos o nome de Manuel Malaquias foi imaginada para servir de ligação entre o passado e o presente.

Em 1974, Manuel, no início da adolescência, vive em Lisboa com a família, frequenta o liceu, tem amigos e paixonetas. Os pais formam um casal típico da época: ele mais ativo e informado, ela mais discreta e protetora. A irmã, já na universidade, participa nas lutas estudantis. O tio preferido, o tio Luís, solteirão de ideias progressistas, mantém contacto com movimentos da oposição. É ele quem, na sequência da vigília de protesto da capela do Rato, toma a iniciativa de sensibilizar Manuel para a necessidade de prestar atenção e de se informar sobre

o que verdadeiramente se passa em Portugal. Então Manuel, abalado pelas revelações do tio, inicia um diário secreto na madrugada do dia 1 de janeiro de 1973, onde, ao longo de ano e meio, irá registando factos que o impressionam, opiniões contraditórias, descobertas inesperadas, múltiplas surpresas. As páginas deste diário permitem ao jovem leitor de hoje acompanhar os últimos dias da ditadura e as peripécias da revolução dos cravos, através das vivências de alguém que, com a mesma idade, presenciou os acontecimentos.

25 Abril 40 anos | 117 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


CONTO

Diário Secreto 1º REGISTO Lisboa, 1 de janeiro de 1973

S

ão 5 horas da manhã e não consigo dormir. Esta noite, para mim, não foi só passagem de ano, foi passagem a outra etapa da vida. Consegui que a família me deixasse ficar em Lisboa para ir a uma festa e depois dormir em casa do tio Luís. Tudo por causa da filha do cônsul do Brasil que me pôs a cabeça a andar à roda desde o dia em que se apresentou à turma, separando um pouco as sílabas do nome: “Sou a Têrê-sa”. A festa não me desiludiu. Depois das doze badaladas houve beijos de boasfestas, apanhei um da Teresa e fiquei de cara a arder. Saí convencido de que tão cedo não me podia acontecer mais nada de extraordinário, afinal enganei-me. As revelações que me iam projetar noutra fase seriam obra do tio Luís. Encontrei-o no Largo do Rato com ar transtornado. Arrastou-me para dentro de casa e só lá dentro falou: — Fui preso! — Porquê? — Não cometi nenhum crime. Prenderam-me a mim e a todos os que estavam a rezar pela paz na capela do Rato. Tremiam-lhe as bochechas, faíscavamlhe os olhos azuis, eu não sabia o que dizer. Achava estranhíssimo que o tio passasse a

de MANUEL MALAQUIAS noite de fim de ano a rezar e ainda mais estranho que alguém pudesse ser preso por causa disso. — Parece-te normal? — Não! — Claro que não. Só num país atrasado, num país onde não há liberdade, acontece uma coisa destas. Foi incrível. A polícia apareceu em força. Vinham armados, traziam cães, bloquearam a rua, trataram-nos como se fossemos bandidos, levaram-nos para a esquadra. — Para quê? — Para nos identificarem. Alguns seguiram para a prisão de Caxias. A outros, como eu, soltaram-nos. Mas ficaram com a lista completa das pessoas que se juntaram... — A rezar pela paz? Respondeu com um sorriso ambíguo. — Neste caso, rezar pela paz significou protestar contra a guerra colonial. Sabíamos que a reunião nos punha em perigo, mas não podemos continuar de braços cruzados. Está tudo farto de ver os filhos irem morrer em Angola, em Moçambique, na Guiné. A guerra é injusta, uma teimosia deste governo de ditadura. Quem se atreve a discordar fica marcado, é perseguido, pode ser preso e torturado.

— Pela PIDE? — Sim. O nome mudou para DGS, mas é a mesma coisa, polícia política. Existe para espiar e prender quem se opõe à ditadura. Calou-se, eu fiquei a pensar. O que acabava de ouvir não era novidade absoluta, mas tinha-me passado ao lado. A minha vida decorria sem sobressalto no circuito casa-escola-amigos. Ninguém me falava de política, já surpreendera adultos a comentar questões relacionadas com a PIDE, sem lhes prestar atenção. O tio Luís acabava de pôr ponto final no meu alheamento. Queria saber mais e ele retomou o assunto. — Nos países civilizados as pessoas são livres de debaterem ideias e formarem partidos políticos. Há eleições a sério, quem ganhar, ganhou. É a democracia. Em democracia há liberdade e a liberdade é um direito do ser humano. Acenei que sim. — É preciso lutar para que o país mude. Provavelmente nunca pensaste nestas coisas, és muito novo. E nunca sai nada nos jornais, na rádio ou na televisão, porque os tipos da censura cortam as notícias que consideram revolucionárias ou inconvenientes. Aposto que amanhã impedem a divulgação do que se passou na capela do Rato. Vocês crescem

118 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


DIÁRIO SECRETO DE MA NUEL MAL AQUIAS

de olhos fechados, isto não pode continuar! De repente percebi que já não estava só de acordo com ele, estava conquistado para uma causa. Não queria continuar na ignorância, nem viver num país atrasado. Mas que fazer? O tio apontou-me o caminho: — Acorda, Manel! Informa-te. Quando discutirmos em família, faz perguntas, compara opiniões para adquirires ideias próprias. O país há de dar uma volta. Não sei se ainda cá estarei para ver, mas tu sim. Não disse mais nada, eu saí da sala com a sua mensagem a ressoar dentro da cabeça. Já decidira informar-me. Mas quando fiquei sozinho, voltei a sentir a emoção do beijo de boas-festas que me deixara em brasa. E dividi-me entre o desejo de um dia ajudar o país a dar uma volta e o desejo secreto de que chegue o dia em que eu e a Teresa havemos de sair para dar uma volta. Neste estado de espírito, quem é que consegue dormir?

2º REGISTO Lisboa, 6 de janeiro de 1973

À

hora do almoço fui à papelaria onde costumo comprar canetas à senhora Clementina. Encontrei-a empoleirada num escadote a massacrar a parede com marteladas que espalhavam nuvens de caliça. Quando o prego se imobilizou, retirou da prateleira uma fotografia emoldurada e pendurou-a com gestos carinhosos. Depois olhou para mim, ainda de cima do escadote. — É o meu sobrinho preferido. Foi chamado para Angola, está no mato. Nunca me teria lembrado de ir perguntar à senhora Clementina o que pensava da guerra em África, para colecionar opiniões, conforme recomendara o tio Luís. Mas já agora, como vinha a propósito, aproveitei. — Ele está em zona de combate? — Está. — Sacudiu a caliça dos cabelos e desceu do escadote. — A gente aflige-se, mas temos que defender o que é nosso. Angola é nossa. Quando os terroristas desataram a matar gente, o Salazar mandou logo a tropa para os meter na ordem. — Pelos vistos não conseguiu, já morreu há vários anos e a guerra continua em Angola, em Moçambique, na Guiné. — Mas há de acabar.

— Acha? — Claro, Manel. Os nossos soldados são os melhores do mundo. Então andas a estudar e não sabes isso? Eu só fiz a 3ª classe e sei. — Só andou na escola três anos? — No meu tempo era assim. Os rapazes iam à escola quatro anos e as raparigas três. Quem não tivesse dinheiro para continuar, procurava trabalho. Voltou a olhar a moldura e suspirou. — O Salazar faz muita falta. Queixavam-se de que governava o país com mão de ferro, mas se ainda cá estivesse, já a guerra tinha acabado. Em vez de comentar, comprei uma caneta e saí a pensar no que diria o tio Luís sobre aquela opinião que recolhera por acaso. Aos sábados janta connosco, vi-o nessa noite. Esperei para falarmos porque chegou entusiasmadíssimo com o primeiro número de um jornal chamado Expresso. Mostrou-o ao meu pai, discutiram notícias e artigos, quase todos escritos por pessoas que ambos conhecem. Ao folheá-lo deparei com

assuntos que contradizem o que o tio Luís me explicou na passagem do ano. Segundo ele, vivemos em ditadura, não há partidos políticos, nem eleições e o governo prende as pessoas que se lhe opõem. Ora na primeira página do Expresso fala-se sobre eleições. E na segunda sobre um Congresso da Oposição Democrática. Fiquei impaciente por perguntar “Tio, afinal como é?” Mas esperei porque se a família ouvisse punhase a dar palpites e não me apetecia. O tio achou graça. Esclareceu as minhas dúvidas. — É verdade que o governo persegue e prende os opositores. Quem é considerado perigoso devido às suas ideias, ou está preso ou fugiu para o estrangeiro. Quanto a partidos políticos, são proibidos. Existe um, organizado há muito, o partido comunista, mas os comunistas ou estão na cadeia, ou fugiram, ou vivem por aí escondidos, na clandestinidade. Há outros movimentos, e sei que lá fora um grupo prepara em segredo a formação de um partido socialista.

“O meu tio Luís mostrou o Expresso ao meu pai: discutiram notícias e artigos”

25 Abril 40 anos | 119 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


CONTO

“Sei que os estudantes universitários chamam gorilas aos homenzarrões que o governo mandou para as faculdades”

— E as eleições? — São aldrabadas. Aceitam listas de opositores sem partido, mas falseiam os resultados e ganham sempre os apoiantes do governo. Quando o Salazar ficou inválido, em 1968, e foi substituído pelo Marcelo Caetano, acreditou-se que o país ia evoluir para a democracia. Afinal só houve mudanças ligeiras. Nas eleições de 1969, incluíram nas listas do governo 30 homens que defendem progresso sem revolução. Chamam-lhes Ala Liberal. Mas tudo o que propõem é reprovado pelos outros deputados. — Então ficamos na mesma? — Como a lesma. Mas os da Ala Liberal não desistem, por isso fundaram este jornal. Vão ter de fintar a censura para informar as pessoas. — Não sei é se as pessoas querem… Contei-lhe o que se passara na papelaria e ele deu-me um conselho. — Não fiques pelas aparências, Manel. Julgas que recolheste uma informação e recolheste outra. A senhora Clementina

não tem espírito crítico por ser ignorante. Manter as pessoas na ignorância foi uma aposta da ditadura. Povo sem instrução é fácil de iludir e de controlar. Sozinhos à mesa, olhámos a mousse de chocolate que sobrara do jantar. E em silêncio rapámos a taça. Gosto imenso do tio Luís.

3º REGISTO Lisboa, 11 de maio de 1973

A

minha irmã mais velha apareceu em casa a sangrar da testa, com as meias e a camisola rotas, num estado miserável. Atrás vinha o namorado cheio de nódoas negras na cara. A mãe ficou em estado de choque e só gaguejava: — O que foi? O que foi? — Foram os gorilas, mãe, os gorilas! No ano anterior, aquela cena talvez me fizesse pensar em gorilas enfurecidos, escapados do jardim zoológico ou de algum circo, mas agora já estou bem mais

informado sobre o que se passa no país. Sei que os estudantes universitários chamam gorilas aos homenzarrões que o governo mandou para as faculdades, com a missão de os vigiarem, de impedirem reuniões e protestos, de castigarem ou prenderem quem se atrever a não cumprir ordens. Afinal a presença deles, em vez de atemorizar excitou os ânimos e, ultimamente, tem havido conflitos quase todos os dias. A mãe sempre pediu à Rita que não se metesse em política e ela durante algum tempo pareceu pouco interessada. Mas desde que namora o Gil e sobretudo depois de ter ido passar férias a Inglaterra onde conheceu e conversou muito com estudantes ingleses e de outras nacionalidades mudou completamente de atitude. Quando regressou, tornou-se muito ativa e faz gala em pertencer à associação de estudantes da Faculdade de Letras, que por sinal está proibida. Pelos vistos nem esta sova que lhe deram os gorilas, surtiu o menor efeito. Vai continuar a envolverse nos movimentos de contestação. Isso mesmo repetiu várias vezes. — Se eles pensam que nos dominam à força de pancadaria, estão muito enganados. Em vez de se ir lavar e desinfetar pôsse a reviver os acontecimentos numa fúria arrebatadora. — Isto é uma vergonha! Não admira que no estrangeiro façam troça de nós. A mãe nem imagina o que eu ouvi em Inglaterra. — Sim, mas agora acalma-te. — Acalmar? Onde é que já se viu matulões descerebrados a guardar estudantes universitários? Nós temos direito às nossas opiniões e a poder divulgá-las. Somos estudantes, não somos carneiros! A mãe fitava-a estarrecida. O Gil também não tirava os olhos dela, num êxtase apaixonado. Naquele momento ocorreu-me uma expressão que as circunstâncias tornavam inoportuna “contemplava-a com olhos de carneiro mal morto”. Tive de fazer um esforço para não rir. Rita não se apercebeu e continuou a barafustar. — Os tipos bateram na malta a torto e a direito. Até um professor apanhou pauladas! — E afinal porquê? — Pouco importa o “porquê”. Desta vez estávamos a discutir as formas de avaliação, mas isso não interessa, podíamos estar a discutir outra coisa qualquer. Eles atacam cegamente a

120 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


DIÁRIO SECRETO DE MA NUEL MAL AQUIAS

pretexto de que estão proibidas reuniões em que participem mais de quatro pessoas. Acha normal, mãe? Nos países civilizados as pessoas reúnem-se quando querem, discutem o que entendem, dizem e escrevem o que pensam. Aqui ideias novas são para calar e engolir. Tentam enfiar-nos rolhas pela boca abaixo. E ai do rapaz que se manifeste contra a guerra, esse vai mais depressa parar à tropa e a zona de combate. Quem reclamar contra o governo é logo rotulado de comunista quer seja quer não. E todos sabemos qual é o destino dos comunistas. Parece-lhe que isto pode continuar eternamente? — Não há nada que dure eternamente, minha filha. Havemos de viver num país livre. Talvez a Rita não esperasse aquela resposta. Eu não esperava. A frase, o tom, a expressão foi uma surpresa que nos emudeceu. De repente tornou-se claro para ambos e certamente também para o Gil que até a nossa mãe, sempre tão discreta, também deseja mudanças e gostaria que não tardassem. Talvez se mantenha passiva e evite certo tipo de assuntos por medo. Talvez faça as recomendações que nos faz por se sentir na obrigação de proteger os filhos. Mas anseia pela liberdade. Não há de ser a única pessoa que tem esperado em silêncio e vai dar largas à alegria quando chegar a hora. Suponho que todas essas pessoas estejam impacientes. Um país livre, viver em liberdade. Eu próprio começo a impacientar-me.

e famoso, partilha as opiniões ingénuas da senhora Clementina da papelaria que só estudou até à 3ª classe. E gritava-as com tais ímpetos, que ficou escarlate e com as veias da testa quase a rebentar. — Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor são terras tão portuguesas como o Minho ou o Algarve. Portugal é um país uno e indivisível. Dizer o contrário é negar a nossa História, de que tanto nos orgulhamos. É trair os navegadores que desembarcaram nas costas de África, na Ásia, na Oceânia há mais de quinhentos anos. Fomos nós que demos mundos ao mundo. O pai respondeu-lhe num tom brando, mas bastante irónico. — Ó Ricardo, respira fundo que ainda te engasgas de tanto patriotismo. Ninguém quer negar a História ou desvalorizar os feitos dos grandes heróis que se atreveram por mares nunca dantes navegados. Mas não podemos cristalizar, virados para o passado. Temos de resolver os problemas do presente e preparar o futuro. — Precisamente. Muitas famílias portuguesas se fixaram nas terras do ultramar. Qual será o futuro delas se as abandonarmos?

— Não se trata de abandonar, trata-se de negociar. — Negociar com terroristas? — Acho que chegou a altura de banirmos a palavra terrorista. Nós temos de nos entender com os movimentos de libertação que lutam pela independência da sua terra. E quanto mais depressa o fizermos, melhor para todos. Agradou-me a serenidade do meu pai e a maneira inteligente de defender os seus pontos de vista. — Os outros países europeus que também ocuparam territórios em África e na Ásia perceberam bem mais cedo que a era do colonialismo chegou ao fim. Olha lá a França, a Inglaterra, a Holanda, a Bélgica, umas vezes a bem, outras nem tanto, nas últimas décadas foram reconhecendo a independência das suas colónias. — Nós não temos colónias, temos províncias ultramarinas! — Achas que esse disparate ainda convence alguém? — Claro! E a prova está no congresso que os próprios militares organizaram no Porto. Não querem entregar aquelas terras riquíssimas aos países estrangeiros que as cobiçam. Porque o verdadeiro

“Estalou uma discussão violentíssima. Não me espantou que falassem da guerra, ultimamente quase todas as discussões vão lá parar”

4º REGISTO Lisboa, 22 de julho de 1973

A

os domingos à tarde é costume aparecerem amigos dos meus pais para lanchar e jogar às cartas. Hoje, ia o jogo a meio, quando estalou uma discussão violentíssima, o que não é nada habitual. Fiquei curioso e como não percebia o que diziam, resolvi entrar discretamente e sentar-me num canto a ouvi-los. Não me espantou que falassem da guerra, ultimamente quase todas as discussões vão lá parar. Espantou-me sim e muito que o doutor Ricardo defendesse encarniçadamente o envio de tropas para África. O tio Luís tinha-me dito que só pessoas ignorantes se deixam iludir por estas decisões do governo, mas afinal não é bem assim. Pelos vistos, o doutor Ricardo, advogado 25 Abril 40 anos | 121 © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


CONTO

problema é esse, cobiça! Mas os militares não se vergam, querem combater. — Estás a esquecer os que não foram ao congresso. Tu, Ricardo, e os que pensam como tu, neste momento pertencem a uma minoria. A população cansou-se. O mundo está contra nós. A própria Igreja se distancia e pede outras soluções. E digo-te mais. Os oficiais de carreira ficaram furiosos por ter saído aquele decreto que abre portas da carreira militar aos oficiais milicianos que não fizeram o curso como eles fizeram. Há grande descontentamento nas forças armadas. Se queres que te diga, não me admirava que qualquer dia tomassem a iniciativa de derrubar o governo e de pôr ponto final neste regime político apodrecido. — Estás louco? — Olha que não, Ricardo. Pressinto que não tardaremos a assistir a uma revolução e o palco vai ser Lisboa. Aquelas palavras excitaram-me. Eu já tinha visto muitas vezes, na televisão ou no cinema, revoluções noutras partes do mundo. Conforme a época, a luta era com espadas, aos tiros, a lançar bombas. Mas agora, ao vivo e aqui à porta, como seria? Saí da sala e esforcei-me ao máximo por imaginar uma revolução em Lisboa. Por muitas voltas que desse à cabeça, não consegui imaginar nada de jeito.

5º REGISTO Lisboa, 3 de novembro de 1973

N

ão há nada melhor do que estar com os amigos num café. Hoje reunimos um grande grupo a contar anedotas, a rir, a falar disto e daquilo. Mas para mim, bom mesmo, foi quando ficámos só eu, o Jorge e a Teresa. No princípio do ano estive apaixonado por ela. Por alturas da Páscoa quem não a largava era o Jorge. Discutimos o assunto francamente, concordámos que, além de gira e simpática, nos atrai por ser brasileira e ter aquela maneira muito própria de falar. Faltou descobrir se algum de nós lhe interessa, a dúvida impediu avanços, lá se passou o verão, desde que recomeçaram as aulas andamos sempre os três. Por agora, somos amigos inseparáveis. O Jorge é filho de um jornalista, costuma partilhar connosco informações confidenciais, quando ficámos sozinhos fez sinal para unirmos as cabeças. Não me pareceu necessário segredar porque os outros tinham-se ido embora e só

“Hoje, no café, reunimos um grupo de amigos. Rimos, mas também falámos da Guiné” restavam dois empregados entretidos a arrumar a loiça por trás do balcão. Ainda assim o Jorge preferiu falar em surdina. — Sabem que a Guiné declarou independência há mais de um mês? A Teresa já tinha ouvido qualquer coisa, o que não admira porque é filha do cônsul do Brasil. Eu não fazia a mínima ideia e fiquei confuso pois nesse caso a guerra devia ter acabado e não acabou. — Pois não — explicou o Jorge ainda mais baixo — o meu pai disse que os guineenses têm uma parte do território controlado e decidiram não esperar mais. Apesar da luta nas outras zonas, declararam que são um país independente. O meu pai também me disse que o governador que lá está, o general Spínola, quis convencer o governo português a entrar em negociações porque já percebeu que não consegue vencê-los pelas armas. — E então? — O nosso governo recusou e insiste em continuar com a luta. Só que vários países do mundo já reconheceram a independência da Guiné e ontem a assembleia geral da ONU também reconheceu. Um amigo nosso, que vive em Nova Iorque, telefonou a contar e a barafustar. Diz que Portugal está mal visto e cada vez mais isolado, que devíamos ter vergonha. Quem é que gosta de ter vergonha do seu país? Ninguém. Senti um desconforto tremendo. — Porque será que o governo teima em não negociar? Ao menos com a Guiné... — Bom — lembrou o Jorge — Se negociar com a Guiné, Angola e Moçambique exigem tratamento igual e adeus colónias! A Teresa mantinha-se calada. Olhava para um, olhava para outro, a certa altura interrompeu-nos.

— Vocês ainda não perceberam como é que tudo isto vai acabar? Eu sei muito bem. Parecia segura e nós desconfiámos. Teria resolvido armar em engraçada? Ou em adivinha capaz de ler o futuro nas estrelas? Afinal o que nos disse fazia todo o sentido. — O Brasil também foi em tempos uma colónia portuguesa. Um dia declarou a independência. E depois? Depois, nada. Passou a ser um parceiro, um país amigo. É o que vai acontecer às outras colónias. O meu pai diz sempre que não se pode travar a marcha da história e que esta guerra é inútil. Não sei quando, mas todas as colónias portuguesas se vão tornar países independentes. Sorria, os lábios deixavam à mostra dentes realmente lindos, nenhum de nós duvidou que ela estava certa, que tinha razão. Fui para casa a pé, sozinho e pensativo. Se a solução era tão óbvia, por que motivo os governantes não a aceitavam? — A guerra começou em 1961, já estamos em 1973. Quanto terá o país gasto em armas, munições, navios para levar as tropas, jipes para as deslocações no mato? Quantos soldados terão ido para África durante estes anos de guerra sem fim? Quantos terão morrido? As perguntas que me assaltavam a mente ficavam todas sem resposta e incomodavam-me brutalmente. — Ainda não tenho idade. Mas se isto continua, um dia chega a minha vez. Não é por medo, mas não quero participar numa guerra inútil e já estar morto quando todos se puserem aos abraços a festejar a paz entre países amigos. ^

122 | 25 Abril 40 anos © Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)

BPI é Marca de Confiança na Banca em 2014. O BPI foi reconhecido como Marca de Confiança na Banca*, depois de 13 anos em que um outro Banco foi

BPI

40%

2014 20%

2013

2º Banco

27%

2014

sempre o distinguido. O nível de confiança do BPI subiu de 20% para 40%, registando a única subida de todo o sistema financeiro português. O BPI agradece este voto de confiança e tudo fará para continuar

33%

2013

3º Banco

2014

9%

a merecê-lo. 2013

13%

* Estudo organizado pelas Selecções do Reader's Digest há 14 anos em 10 países.

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1767027 - shyznogud@gmail.com - 85.245.179.5 (12-04-14 10:48)


Expresso 25 de abril 40 anos volume 1  

Expresso: 25 de Abril 40 anos. Lisboa : Expresso 2014. 124p. Númeroe special publica do conjuntamente com o nº 2163 do jornal "Expresso" de...

Advertisement
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you