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Revista Eletrônica do Programa de Pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero Volume nº 1, Ano 3 - Julho 11

Artigo

A evolução tecnológica e a interatividade no jornal Popular Karen Sica da Cunha*

Resumo Resumo Com os avanços tecnológicos, os jornais populares cederam à convergência midiática. Por mais que a maioria de seus leitores não tivesse total domínio da web, a inovação tornou-se uma necessidade para as grandes empresas. Foram criadas formas de interação entre o impresso e o online a fim de captar adeptos, sem que os leitores deixassem de lado a sistemática do cotidiano. Este artigo relata as transformações que os meios sofreram, sob a ótica de Castells, Jenkins e Noblat. Para isso, serão analisadas quinze páginas do jornal popular Diário Gaúcho, mais especificadamente a seção “Seu Problema é Nosso”, a fim de mostrar a conexão entre o online e o offline.

Palavras-chave Palavras-chave Convergência Midiática. Teorias da Comunicação de Massa. Jornalismo Popular. Diário Gaúcho.

Abstract Abstract With technological advances, the popular newspapers had to cede to the media convergence. Even though the majority of their readers didn’t master the Web, innovation has become a necessity for large businesses. Thus, they created forms of interaction between the newspapers and online media in order to attract readers, without letting them leave their systematic routine. Readers/internauts participate through the Internet in order to contribute with the news of printed newspaper, being them reader reporters. This article reports the changes that these means have undergone, as well as it examines how these changes affected Diário Gaúcho.

Keywords Keywords Convergence. Theories of Mass Communication. Popular Journalism. * Mestranda do Programa de Pós Graduação em Ciências da Comunicação da PUCRS (bolsista CAPES). E-mail: karenpoa@gmail.com

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Breve evolução das teorias de comunicação No passado, apenas a imprensa, o cinema, a televisão e o rádio eram consideradas mídias massivas. Essa visão mudou devido ao avanço tecnológico dos últimos anos. Hohlfeldt, Martino & França (2001) consideram a web como uma nova mídia. Castells (2000 e 2003), por sua vez, acredita que a rede de computadores se tornou um sistema de comunicação que abrange expressivas parcelas da população e, por este motivo, pode ser chamada de cultura de massa. O presente trabalho propõe analisar as transformações que os meios de comunicação impressos sofreram devido ao avanço tecnológico. Será feita uma análise de caso tendo como base o Diário Gaúcho, jornal popular do Grupo RBS, com circulação no Rio Grande do Sul, e o site1 do respectivo jornal, criado em setembro de 2009. Após o lançamento da versão online, foi necessário gerar diferentes formas de interação com leitores do impresso a fim de que eles interagissem com

1 O conteúdo do site do Diário Gaúcho pode ser acessado em: http:// www.diariogaucho. com.br

o meio online, mesmo sendo eles de classe “B”, “C” e “D”. A principal proposta deste artigo é mostrar como estas pessoas, que não estão totalmente acostumadas com as novas tecnologias e gostam de comprar o jornal diariamente nas bancas, estão se adaptando ao conteúdo disponível online. Pode-se dizer que este trabalho tem por objetivo analisar como a web entra na vida destes cidadãos e faz com que eles interajam com o impresso, sem que eles deixem de lado a sistemática do cotidiano. Ou seja, eles continuam saindo de casa todos os dias e comprando os jornais na ida para o trabalho em uma banca de rua. Porém, também acessam o conteúdo da publicação na web. Sabe-se que a ideia de emissor e receptor não é mais a mesma desde o surgimento destas novas tecnologias. Ao longo dos anos, as Teorias da Comunicação sofreram diversas mudanças. Embora as tecnologias tenham avançado, infelizmente grande parte da população ainda não tem acesso a estes meios. Vale analisar, então, os seguintes aspectos: a)Como pessoas que não estão acostumadas aos novos rumos da comunicação fazem para interagir com os meios? b) Como os meios se organizam para que estas pessoas contribuam com informação e façam parte do desenvolvimento da notícia?

A diversidade das teorias de comunicação de massa As Teorias da Comunicação são necessárias para que se possa entender o desenvolvimento da comunicação. Entre 1920 e 1930, enquanto as comunidades estavam se desfazendo, as sociedades estavam surgindo devido à industrialização. As pessoas não mantinham relações diretas e precisavam se comunicar através das mídias emergentes. Harold Lasswell foi o primeiro teórico a definir a estrutura e a função da Comunicação So-

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cial, através da Teoria Hipodérmica, conhecida também como Teoria da Bala Mágica. Ele estabeleceu os fundamentos do paradigma teórico: A comunicação constituiu um processo de cunho intencional, através do qual as pessoas procuram influenciar o comportamento das demais por meio da transmissão de mensagens para um determinado público (...). Do ponto de vista da estrutura, por conseguinte, a comunicação é toda ação pela qual um sujeito transmite idéias para seus semelhantes com determinado efeito, é toda ação que responde às perguntas: Quem? Diz o quê? Em que canal? Para quem? Com que efeito? (RÜDIGER, 1995).

Sob este ponto de vista, o emissor, pré-determinado, transmite a mensagem para o receptor, que é manipulado e indefeso. De acordo com De Fleur (DE FLEUR, 1993), essa teoria mecanicista unidirecional E-M-R estava completamente correta, pois as mensagens atingiam desejos interiores, emoções ou outros processos sobre os quais o emissor possuiria certo controle voluntário. Pode-se dizer que os indivíduos reagiam uniformemente, visto que havia poucos laços sociais que pudessem influenciar seus pensamentos. Tudo que a mídia dizia era absorvido como verdade absoluta. Porém, esta ideia de que a exposição da comunidade de massa gerava efeitos imediatos chegou ao final logo no início do século XX, mais precisamente após a I Guerra Mundial, em 1930. A pesquisa empírica em grande escala sobre o processo e efeitos da comunicação de massa foi encetada. As conclusões de tal pesquisa levantaram um quadro inconciliável com a Teoria da Bala Mágica (DE FLEUR, 1993). A Teoria Empírica entende que a mídia cumpre um papel limitado no jogo de influências das relações comunitárias. Ou seja, ela não é mais um instrumento de persuasão na vida social do indivíduo, apenas faz parte desta vida. Desta maneira, a Abordagem Empírica de Campo enfatiza a influência indireta que a mídia exerce sobre o público. Pode-se dizer que o alcance das mensagens midiáticas depende do contexto social em que elas estão inseridas, ficando sujeita aos demais processos comunicativos que se encontram presentes na vida social (RÜDIGER, 1995). Aquele paradigma teórico da comunicação, concebido por Lasswell, além de ter gerado inúmeros programas de pesquisa, foi revisado profundamente e renovado por Schramm, em 1950. As pesquisas de campo determinaram modificações no modelo inicial, não somente no entendimento do modo como a comunicação influencia os indivíduos, mas também no próprio conceito do processo da comunicação: Tornou-se patente que a comunicação não pode ser reduzida à ação do comunicador, compreende necessariamente a recepção da mensagem, que nem sempre corresponde à intenção do comunicador, sem prejuízo necessário para a comunicação. Passouse a considerar que a relação do comunicador com o receptor não é unilateral, deve ser vista também da perspectiva contrária, do receptor para o comunicador; que o

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comportamento deste último não ocorre independente do comportamento do primeiro, há um condicionamento recíproco entre comunicadores e receptores no processo de comunicação (RÜDIGER, 1995).

Há, ainda, a Teoria das Mídias, tratada por Parsons e posteriormente desenvolvida por N. Luhmann. Nela, a comunicação constitui o núcleo dos mecanismos de interação social, que faz com que as pessoas mantenham relações umas com as outras. Porém, estes teóricos acreditam que a comunicação não pode ser reduzida simplesmente à produção, transmissão e recepção de mensagens. Para eles, são as mídias que criam as condições necessárias para que haja comunicação entre os indivíduos (RÜDIGER, 1995). Ao se falar em mídias e novas tecnologias, torna-se necessário destacar Marshall McLuhan. Em 1960, este teórico anunciou uma revolução nas comunicações que, depois de dez anos, começou a se tornar motivo para a reconstrução da teoria da sociedade em termos de sociedade da informação. Diferente dos demais teóricos que privilegiavam a mensagem na análise dos processos comunicativos, McLuhan resumiu o pensamento central de sua teoria em uma frase: “o meio é a mensagem”. Para ele, os meios eletrônicos permitiram a expressão da comunicação através de vários sentidos (BOSI, 1981). Essa retomada da comunicação, supostamente mais próxima à expressão humana natural, em contraste com a linearidade, fragmentação e abstração necessária à escrita, levariam a vivências, através da mídia eletrônica, capazes de socializar comunidades distantes, criando uma “aldeia global” (BOSI, 1981). Em 1990, surge o termo cibercultura. A web chega com o intuito de integrar ainda mais as pessoas com o mundo ao seu redor. Pode-se dizer, ainda, que este pensamento revela um sentido formativo para o indivíduo. Além disso, a cibercultura é vista como a Era sujeita ao pensamento tecnológico – revolução na mídia, convergência midiática, interatividade entre os meios e os indivíduos (RÜDIGER, 2003). Na internet, exige-se maior atividade do receptor. Em alguns casos, o receptor torna-se emissor ou tem o poder de influenciar o comunicador no próprio instante da geração e transmissão da mensagem. Enquanto a comunicação tradicional pressupõe uma difusão totalmente unidirecional de um para muitos, a web gera outras formas de comunicação: um para um, muitos para um ou muitos para muitos (CASTELLS, 2003). No cenário contemporâneo de uma sociedade totalmente computadorizada, marcada pelas Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (NTIC), ocorrem diversas convergências nos mais variados campos. Estamos vivenciando o que Henry Jenkins (2008) chama de cultura da convergência, na qual não são apenas as relações entre as tecnologias existentes que se alteram, mas também as relações entre indústrias, mercados, gêneros, audiências e consumo dos meios. Há a

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reconfiguração do poder da mídia e o redesenho da estética e da economia. Para este autor, a convergência refere-se ao fluxo de conteúdos através de múltiplos suportes midiáticos. Jenkins acredita que este fenômeno ocorre devido à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer lugar em busca de entretenimento e diversão, além de informação (JENKINS, 2008). A convergência digital gera um profundo impacto nas novas formas de relacionamentos e cria novas possibilidades de pesquisa e aprendizagem. Além disso, surgem novos tipos de organizações e diferentes formas de trabalho (CASTELLS, 2003; TERÊNCIO & SOARES, 2003; SILVERSTONE, 2002). As relações entre os indivíduos e os meios se transformam e, por mais diferentes que eles sejam, ficam unidos por um meio e não conseguem viver separadamente (CASTELLS, 2003).

As transformações no jornal popular Diário Gaúcho Ao analisar estas transformações nos meios de comunicação, pode-se entender melhor como as diversas mídias se adaptaram a estas mudanças. O jornal popular Diário Gaúcho, criado em abril de 2000 pelo Grupo RBS, alcançou um grande público do Rio Grande do Sul desde o seu lançamento. Por ser muito barato e economicamente viável – no início custava R$ 0,25; atualmente, R$ 0,75 – o impresso conquistou leitores fiéis nos últimos dez anos. Vale salientar que o público-alvo do impresso se enquadra nas classes “B”, “C” e “D” e, em muitos casos, não está totalmente familiarizado com a internet. Noblat já dizia que a principal função do jornalista, desde o princípio, foi de repassar informações verdadeiras sobre os fatos cotidianos. Segundo o autor, “um jornal é, ou deveria ser, um espelho da consciência crítica de uma comunidade em determinado espaço de tempo”. Porém, o impresso, sendo ele popular ou não, não pode parar no tempo. Deve estar sempre se atualizando para continuar conquistando leitores, pois a informação e o mercado não podem parar. Pode-se dizer que cada vez se tem mais acesso à socialização através do virtual. Tudo isto é ocasionado pelo intenso espaço de fluxos informacionais gerados pelos meios de comunicação (CASTELLS, 1996). As informações podem ser acrescentadas a todo o momento de uma forma praticamente instantânea. Para acompanhar o crescimento destas novas tecnologias, os impressos também precisaram investir em melhorias e mudanças editoriais (NOBLAT, 2003). Tendo em vista essa nova realidade, a qual internet está em pleno crescimento entre os brasileiros, o Grupo RBS lançou o site do jornal Diário Gaúcho, em setembro de 2009. Embora o impresso seja destinado a um público de classes “B”, “C”, e “D”, que, muitas vezes, não tem acesso à web, a necessidade de modernização foi maior. O site do jornal traz as principais matérias veiculadas no impresso, mas também tem outros atrativos que chamam a atenção desse público que tem pouca familiaridade com o meio online.

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Foi necessário criar novas formas de interatividade. Antes, os leitores enviavam cartas com problemas dos seus bairros, por exemplo. Após o surgimento do Diário Gaúcho online, criou-se uma seção intitulada “Pede-se Providência” com o intuito de gerar um novo mecanismo de conectividade entre o internauta e o jornal. Neste caso, o indivíduo envia, através de um formulário online, uma reclamação, com foto, sobre um problema recorrente no seu bairro.

FIGURA 1: Matéria publicada no site do Diário Gaúcho que explica como funciona a seção “Pede-se Providência”. Há um link para o formulário de participação do internauta. Além disso, todas as fotos enviadas são recebidas e inseridas em uma galeria de fotos com todos os problemas de bairro.

Todas as fotos enviadas são encaminhadas para o responsável pela editoria de geral do Diário Gaúcho impresso, que avalia as informações e, conforme o critério editorial, publica a notícia enviada pelo internauta na seção “Seu Problema é Nosso”. Para entender melhor este caso específico, no qual há total interatividade entre o indivíduo e o jornal impresso e o jornal internet, é necessário fazer um estudo de caso de algumas publicações. Sendo assim, neste artigo, serão analisadas as edições da primeira quinzena do mês de março de 2010. Vale salientar que essa seção não tem

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um dia específico da semana para ser publicada.

A interatividade gerada pela internet No dia 1º de março de 2010, por exemplo, além da matéria principal da página 06, intitulada Campinho sem tela perturba a vizinhança, destacam-se duas retrancas importantes: a) Preocupação com a dengue, na qual uma internauta enviou uma foto com diversos pneus jogados no bairro São Geraldo, em Porto Alegre; b) Falta de calçamento, referente a uma nota enviada por um funcionário público sobre as más condições de uma comunidade no bairro Partenon, em Porto Alegre.

Já no dia 2 de março, um morador do bairro Nonoai, em Porto Alegre, divulga uma foto com uma árvore morta, que pode cair em cima de sua casa. Além disso, um internauta reclama sobre

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a lotação dos vagões do Trensurb nos horários de pico e envia uma imagem da situação que passa todos os dias ao ir para o trabalho.

O buraco nas ruas foi o assunto do dia 4 de março, na seção “Seu Problema é Nosso”. Um internauta reclamou sobre uma cratera que acumulou água parada, em Gravataí. Para completar a matéria, foi publicada outra nota, na qual um cidadão fotografou a situação caótica de uma bocade-lobo próximo à Estação Mercado do Trensurb, na Capital.

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No dia 8 de março, com medo de transmissão de doenças, internautas relataram problemas com esgotos entupidos na Capital. As imagens foram publicadas no jornal, com o mesmo texto enviado pelos leitores no site do Diário Gaúcho.

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Um dos assuntos abordados por internautas no dia 11 de março foi sobre a situação de uma rede elétrica em Gravataí, que se encostava a algumas árvores no local. Na mesma página, foi publicada uma nota sobre o acúmulo de lixo na entrada da Vila Nazaré, em Porto Alegre, também enviada por um internauta do site.

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No dia 15 de março, o “Seu Problema é Nosso” trata sobre uma rua que está sem luz em Canoas, há mais de um ano. Além disso, moradores de Guaíba aproveitaram o espaço no jornal para reclamar sobre o estado de conservação de uma via. Um internauta enviou uma foto com mais uma cratera nas ruas de Porto Alegre.

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Após serem publicadas no jornal impresso, espera-se que todas as reclamações sejam lidas pelos órgãos responsáveis. Na maioria dos casos, as solicitações são atendidas prontamente. Como é o caso da reclamação de um internauta sobre o acúmulo de pneus no bairro São Geraldo, publica-

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da no dia 1º de março. Neste exemplo, a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre respondeu à reclamação da internauta e disse que o problema estava sendo solucionado. Outro que teve o pedido atendido foi o morador da Cohab, que reclamou, no dia 11 de março, sobre os galhos que ameaçavam cair sobre a fiação elétrica. No dia seguinte à nota publicada, a empresa responsável, no caso a Rio Grande Energia (RGE), tomou as providências e fez a poda dos galhos no local. As demais reclamações não obtiveram respostas durante o período analisado. Independente de o pedido ter sido atendido pelos órgãos competentes de cada região, o que importa, neste caso, é analisar a forma pela qual o internauta do site do Diário Gaúcho está conectado com o jornal impresso. Quem envia a mensagem/reportagem para o jornalista é o leitor/ internauta. Este internauta quer mostrar o quanto ele se preocupa com a sociedade e quer fazer algo para melhorar os problemas que vê a sua volta. Assim, ele acaba por se tornar o emissor de determinada mensagem e, ao mesmo tempo, ele também é o receptor ao comprar o jornal.

Conclusao Ao contrário do paradigma inicial da comunicação de massa, no qual o emissor apenas transmite uma mensagem para o receptor (BOSI, 1981), na internet os papéis se invertem e o receptor torna-se, ao mesmo tempo, emissor de determinada mensagem. Este receptor precisa ser ativo para poder participar do meio e poder contribuir para o funcionamento eficaz do mesmo (CASTELLS, 2003). Após analisar o caso específico do Diário Gaúcho, levando sempre em consideração que o público-alvo do jornal é de classe “B”, “C” e “D”, pode-se dizer que há o que Henry Jenkins chama de convergência midiática. Os meios se relacionam e as mídias se unem em prol de um objetivo: conquistar os públicos e gerar maior interatividade entre os meios e os leitores/internautas (JENKINS, 2008). Neste caso, a interatividade torna-se necessária para que este leitor/internauta sinta vontade de participar do produto final. Ou seja, os indivíduos desejam exercer sua cidadania e, para isso, utilizam a internet e, conseqüentemente, o jornal como meio de disseminação do problema. Desta forma, há satisfação para o leitor e o sentimento de que seus pedidos foram atendidos e, em alguns casos, solucionados, conforme foi analisado anteriormente. Além dos meios de comunicação, o pensamento das pessoas também se transformou, devido ao desenvolvimento das novas tecnologias. Enquanto antes não se imaginava um site para um jornal popular, hoje em dia este meio de comunicação é necessário para dar continuidade ao jornal impresso. Vale ressaltar que um completa o outro. Mas qual será o motivo de tanta mudança de pensamento? Por que o site do jornal Diário Gaúcho se tornou tão fundamental? Ainda não se sabe o principal motivo, mas pode-se afirmar que os cidadãos, independente

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das classes sociais, querem interagir. Eles sentem necessidade de mostrar que têm conhecimentos e que podem contribuir com informações relevantes para o jornal e para as notícias disponíveis na internet. As pessoas gostam de se ver na mídia, querem estar nos meios de comunicação. Além de participar, eles querem estar nos meios de comunicação. Essa necessidade de aparecer e, ao mesmo tempo, ajudar, é a questão que deve ser analisada e levada em consideração neste e nos demais estudos sobre o tema. Conforme citado anteriormente, a web chega com o intuito de integrar ainda mais as pessoas com o mundo ao redor (RÜDIGER, 2003). É exatamente isso que ficou comprovado a partir deste estudo. Especificamente no caso pesquisado neste artigo, os cidadãos sentem-se inconformados com a realidade em que vivem, com o bairro deteriorado, com o buraco que pode prejudicar os moradores da região. A vontade de resolver estes problemas diários faz com que estes indivíduos superem seus limites e tentem entender ainda mais a funcionalidade da web. Sendo assim, pode-se dizer que estamos vivenciando um momento em que as pessoas dependem dos meios, assim como o meio das pessoas. Melhor que isso: os indivíduos sentem a necessidade de participar ativamente deste meio, seja ele qual for. Para isso, eles utilizam a tecnologia a fim de aproveitar a rapidez que ela proporciona. O intenso fluxo informacional gera o que Castells (1996) chama de socialização através da internet. Ao mesmo tempo em que as pessoas interagem com os meios, elas também mantém relações diversas com outros cidadãos, embora, muitas vezes, à distância. O resultado adquirido através da web é satisfatório sob o ponto de vista da comunicação, visto que a mensagem do emissor chega ao receptor, ainda que com ruídos, e o emissor transmite a mensagem para mais receptores. O ciclo não para. Sempre existe um receptor com sede de emissor no mundo da comunicação de massa.

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Referencial teórico BOSI, Ecléa. Comunicação de Massa: o Dado e o Problema. In Cultura de Massa e Cultura Popular, Leituras de Operárias. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1981. pp. 29-62. CASTELLS, Manuel. O Poder da Identidade. São Paulo: Paz e Terra, 2000. 530 p. CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. 243 p. DE FLEUR, Melvin Lawrence, BALL-ROKEACH, Sandra. Teorias da Comunicação de Massa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. 214 p. GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 1991. 159p. HOHLFELDT, Antônio, MARTINO, L. C., FRANÇA, V. V. (orgs.) Teorias da Comunicação: Conceitos, Escolas e Tendências. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2009. 380 p. MCLUHAN, Marshall. Os Meios de Comunicação como extensões do homem. São Paulo: Editora Cultrix, 1964. 407 p. NOBLAT, Ricardo. A arte de fazer um jornal diário. São Paulo: Contexto, 2003. 174 p. RÜDIGER, Francisco Ricardo. Comunicação e teoria social moderna: introdução aos fundamentos conceituais da publicística. Porto Alegre: Fênix, 1995. 102 p. RÜDIGER, Francisco Ricardo. Introdução às teorias da cibercultura: perspectivas do pensamento tecnológico contemporâneo. Porto Alegre: Sulina, 2003. 151 p. SILVERSTONE, Roger. Por que Estudar a Mídia? São Paulo: Loyola, 2002. 302 p. TERÊNCIO & SOARES. A Internet Como Ferramenta Para o Desenvolvimento da Identidade Profissional. Psicologia em Estudo, v. 8, n.2, 2003. pp.139-145.

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Expediente CoMtempo

Revista Eletrônica do Programa de Pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero São Paulo, v.3, n.1, jun. 2011/nov. 2011

A revista CoMtempo é uma publicação científica semestral em formato eletrônico do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da Faculdade Cásper Líbero. Lançada em novembro de 2009, tem como principal finalidade divulgar a produção acadêmica inédita dos mestrandos e recém mestres de todos os Programas de Pós-graduação em Comunicação do Brasil. Presidente da Fundação Cásper Líbero Paulo Camarda Diretora da Faculdade Cásper Líbero Tereza Cristina Vitali Vice-Diretor da Faculdade Cásper Líbero Welington Andrade Coordenador da Pós-Graduação Dimas Antônio Künsch Editor Walter Teixeira Lima Junior Comissão Editorial Carlos Costa (Faculdade Cásper Líbero) * Luis Mauro de Sá Martino (Faculdade Cásper Líbero) * Maria Goreti Frizzarini (Faculdade Cásper Líbero) *Liráucio Girardi Junior (Faculdade Cásper Líbero) * Walter Teixeira Lima Júnior (Faculdade Cásper Líbero) Conselho Editorial Ângela Cristina Salgueiro Marques (Universidade Federal de Minas Gerais) * Carlos Roberto da Costa (Faculdade Cásper Líbero) * José Eugenio de Oliveira Menezes (Faculdade Cásper Líbero) * Luis Mauro Sá Martino (Faculdade Cásper Líbero) *Marcia Perencin Tondato (Escola Superior de Propaganda e Marketing) * Maria Goretti Frizzarini (Faculdade Cásper Líbero) * Walter Teixeira Lima Junior (Faculdade Cásper Líbero) * Roberto Oliveira (Universidade de Marília) * Bruno Lima Rocha (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) * Gerson Luiz Martins (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) * Roberto Chiachiri (Faculdade Cásper Líbero) * Patrícia de Melo Bandeira (Fundação Joaquim Nabuco) * Dulcília Buitoni (Faculdade Cásper Líbero) * Claudio Novaes (Faculdade Cásper Líbero) * Macelle Khouri Santos (Universidade do Estado da Bahia). Assistente editorial Guilherme Carvalho Santini* Renata Barranco* Tel. (11) 3170-5969 | 3170-5841 * comtempo@facasper.com.br Projeto Gráfico e Logotipo

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Walter Teixeira Lima Junior Editoração eletrônica

Walter Teixeira Lima Junior Correspondência

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