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A Herdeira do Mar

Ize Chi Kiohaan


A Herdeira do

Mar Ize Chi Kiohaan

Š2013 Todos os direitos reservados


©2013 by Ize Chi Kiohaan Todos os direitos reservados Projeto Gráfico: Ize Chi Kiohaan Vetorização de imagens: Willian Araújo Editoração: Ize Chi Kiohaan Capa: Ize Chi Kiohaan Texto de acordo com a Nova Ortografia.


Dedico este livro a meu marido, inspiração para cada cena romântica descrita. Ele é a prova de que o destino existe e que, há sim, alma gêmea neste mundo.


Agradecimentos A Deus, por ter me guiado nesse árduo caminho e me dado a coragem de me aventurar. Aos meus pais, por me apoiarem nessa empreitada; à Marina, minha eterna Estrela, pelos longos comentários e observações sobre cada capítulo; à Bruna Zózimo, amiga de todas as horas que possui o nome do vilão por acaso, mas que passa longe em semelhanças com ele; à Verônica Mesquita, que mesmo estudando para dezenas de provas arranjava tempo para ler meu humilde texto; aos amigos próximos, Gisele Alves, Iara Souza e Ivan Silva, simplesmente por existirem; e ao meu marido, com quem compartilho mais do que o amor: também sua amizade. À todos vocês: obrigada!


Sumário Prólogo ........................................................................................................... 11

Capítulo 1 – Uma novo começo ............................................................. 13

Capítulo 2 – Problemas com o mar ...................................................... 31 Capítulo 3 – Esclarecimentos ................................................................ 52

Capítulo 4 – Acostumando-se com a ideia ........................................ 66

Capítulo 5 – A essência da vida ............................................................. 80 Capítulo 6 – Vislumbres do passado ................................................... 94

Capítulo 7 – Conversa de Mulher ....................................................... 110 Capítulo 8 – Desgraças incontroláveis ............................................. 126

Capítulo 9 – A Maldição de Hades ...................................................... 141 Capítulo 10 – Guarda-costas ................................................................ 163

Capítulo 11 – Nadando com os tubarões ........................................ 181 Capítulo 12 – Flor branca ...................................................................... 203

Capítulo 13 – Um deslize intenso ...................................................... 218 Capítulo 14 – O monstro de Hawkesbury ....................................... 234

Capítulo 15 – O peso de uma tradição .............................................. 255

Capítulo 16 – Reabilitação .................................................................... 277 Capítulo 17 – Uma nova perspectiva ................................................ 291

Capítulo 18 – Consequências de uma tempestade ..................... 306 Capítulo 19 – Interlúdio ........................................................................ 332

Capítulo 20 – Memórias de um tritão .............................................. 345 Capítulo 21 – Voltando à rotina .......................................................... 396 9


Capítulo 22 – Dedicação ........................................................................ 413 Capítulo 23 – Provações ........................................................................ 435

Capítulo 24 – Os mensageiros do Rei ............................................... 454 Capítulo 25 – Um povo corrompido ................................................. 476

Capítulo 26 – O momento de nossas vidas ..................................... 492 Capítulo 27 – O preço de uma vida .................................................... 512

Capítulo 28 – A importância da amizade ........................................ 533 Epílogo ......................................................................................................... 549 Sobre a Autora............................................................................................ 555

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Prólogo

Cornualha, Reino Unido

Um pequeno grupo turístico escolar aproximou-se do Museu de St. Ives, localizado em uma península homônima. Era formado por crianças entre oito e dez anos, e dois professores as guiavam pelos corredores, apresentando as histórias e lendas locais, logo depois levando-as para um passeio pela baía, onde poderiam brincar na areia. Estavam proibidas de entrarem no mar, pois as ondas estavam fortes e não haviam salva-vidas por perto, e poucos momentos depois, todas se divertiam montando castelos e escrevendo seus nomes na areia. Uma das crianças, uma garotinha ruiva em seus oito anos de idade, parou o que estava fazendo, concentrando-se repentinamente no som das ondas que quebravam na baía. Podia ver alguma coisa brilhosa perto da água; ignorando o aviso dado por seus professores, caminhou até estar bem próxima, e agachou-se para pegar o objeto: uma concha. Ficou maravilhada com o que tinha nas mãos, pensando que nunca havia visto uma concha tão bela: era maior que seus dois punhos juntos, e possuía um brilho que nunca havia visto antes. 11


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Estava tão distraída que não ouviu os gritos ao seu redor. Quando deu por si, foi arrastada por uma onda para dentro do mar, onde em poucos segundos perdeu o ar que prendia nos pulmões. Não entendia o que estava acontecendo, ou mesmo o significado de se afogar. Sua consciência já estava se esvaindo, quando sentiu um braço a envolver, levando-a para a superfície e nadando de volta até a baía. Uma boca encostou na sua, assoprando forte, e logo começou a tossir água; mas quando finalmente abriu os olhos, não viu ninguém ao seu redor. Estava deitada na areia, na extremidade da praia, bem longe do grupo em que se encontrava. Nenhum dos professores soube explicar o que havia acontecido naquele dia, pois a garotinha jurava que havia sido salva por alguém, apesar de nenhuma pessoa ter entrado na água. Quando contou ao seu pai, alegando que possuía um anjo da guarda, ele entrou em desespero, pois sua esposa havia morrido afogada anos antes. Mudou-se pouco depois com a filha para outro país, e a menina não deixou de perceber que sempre moravam em lugares que não possuíam acesso ao mar. Na medida em que os anos passavam, uma ansiedade à tomava; precisava visitar o oceano, mas seu pai sempre procurou mantê-la longe. Porém, quando estava próximo de seu aniversário de dezoito anos, mudaramse para uma casa em zona litorânea, com vista para o mar. E essa menina, já quase uma mulher, sentia internamente que sua vida iria mudar para sempre.

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Capítulo 1 Um novo começo

O quarto trimestre começava no colégio Reddam House, uma instituição de ensino privada localizada em North Bondi, New South Wales, Austrália. Os alunos chegavam aos poucos, reencontrando seus amigos após o recesso, com um sentimento de saudosismo preenchendo os que cursavam seu último ano do ensino médio, pois não mais passariam por aquele momento no ano seguinte. Uma aluna encontrava-se sentada no pátio interno, tomando os primeiros raios de sol que atravessavam a claraboia, observando a animação presente no corpo estudantil e da qual não compartilhava. Era seu primeiro dia ali, apesar de também estar cursando seu último ano e já estarem em outubro. Ao ouvir um sinal tocando, ajeitou seu novo uniforme – composto por uma blusa social branca, saia e blazer na cor azul escuro, uma gravata listrada e sapatos pretos nos pés –, e olhou para o papel em sua mão, onde constava suas aulas e respectivas salas. Seu nome é Cordélia Dolphin, e havia acabado de ser transferida dos Estados Unidos. Sua aparência destoava dos alunos dali; enquanto 13


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a maioria possuía a pele curtida pelo sol e cabelos dourados, indicando que passavam muitas horas na praia, Cordélia tinha uma pele branca aveludada, mas nenhuma sarda no rosto fino e delicado. Seu cabelo era comprido e ondulado, em um vermelho escuro que destacava sua face, e suas medidas eram proporcionais ao corpo magro e estatura mediana. Poderia ser mais uma garota a caminhar pelos corredores, mas havia algo nela que chamava atenção dos passantes, algo que ninguém conseguia identificar. Talvez fossem os seus olhos acinzentados, que lhe davam uma aparência madura e séria para a idade; mas que, ao serem encarados, dava a impressão de estar de frente para uma força da natureza incontrolável, como uma tempestade. Ela evitava sorrir, fingindo que não percebia tantos pares de olhos em cima dela, mantendo uma expressão tranquila enquanto caminhava pelos corredores; nunca entendeu esse efeito que causava nas pessoas, mas desde que se entendia por gente, sempre fora assim. Cordélia nunca conheceu sua mãe, que morreu afogada quando ainda era um bebê. Vivia com seu pai, Henri Dolphin, um executivo de alto escalão que viajava pelo mundo realizando aquisições para a empresa em que trabalhava. Não possuía mais nenhum parente, e Henri levava sua filha para onde fosse, independente do país e da língua utilizada neste. Ao longo de sua vida, a garota já havia morado em diversos países, e era fluente em pelo menos quatro línguas; mas dessa vez seria diferente. Cansado de tantas mudanças, seu pai havia aceitado um cargo fixo de CEO na nova filial que estava sendo aberta em Sidney, Austrália. Ele e Cordélia mudaram-se na semana anterior para uma casa cedida pela empresa, na praia de Tamarama, à sete quilômetros da capital. Foi uma surpresa pra Cordélia; seu pai sempre procurou morar longe de zonas litorâneas, evitando lembrar-se do acidente que ocorreu com sua esposa. Mas não tinha como não gostar de sua nova moradia, localizada no pontal da praia, em um penhasco que dava vista para todo o oceano que se estendia à frente. Era uma casa moderna e já mobiliada, com duas suítes, uma sala enorme, cozinha, lavanderia e um escritório onde seu pai poderia realizar seus projetos. Infelizmente, Tamarama era apenas isso: uma praia. Todo o comércio localizava-se em municípios adjacentes, inclusive seu novo colégio, onde, para conseguir vaga, a empresa de Henri teve que realizar um pedido especial para que Cordélia pudesse concluir seu último ano. – Você gostará de lá – Henri comentou, quando arrumavam as bagagens na nova casa – dizem que é um dos melhores colégios do país, apesar de ser um tanto conservador. 14


Capítulo 1 | Um novo começo E Cordélia só entendeu aquela afirmação quando olhou seu novo uniforme, que mais parecia um terno; vinha de um colégio onde o vestuário era livre, e não estava acostumada a seguir regras. Mas queria ver seu pai feliz; era a primeira vez em que não teriam que pensar em realizar uma mudança, e a possibilidade de criarem raízes no país era grande. Não mais teria que se despedir ou manter contato com colegas por e-mail; poderia ter amizades de verdade e, quem sabe, até um namorado. Passaram o resto da semana arrumando a casa e passeando pelas adjacências, conhecendo melhor o local. Quando a semana recomeçou, Cordélia estava pronta para seu primeiro dia de aula no último bimestre. – Odeio ser a novata – ela desabafou, quando tomava café da manhã com seu pai – sempre me lançam olhares esquisitos quando entro no final do período letivo. Henri lhe deu um olhar compreensivo. – Você sabe que é mentira, filha – ele negou com a cabeça – você geralmente se torna popular em cada lugar que pisa. Cordélia deu um sorrisinho; era verdade. Havia algo nela que chamava a atenção, que conquistava às pessoas em volta. Nunca precisou se esforçar para nada; com um olhar e algumas palavras, conseguia de alguém tudo o que precisava. – Ainda assim, não gosto de ser sempre a novata – reiterou, dando um gole em seu copo de suco – ainda mais para um único bimestre. – Mas você irá para a faculdade ano que vem – seu pai comentou – e será tão nova quanto todos os alunos. – Meu histórico escolar parece uma salada, pai – ela respondeu ceticamente – não tenho certeza se conseguirei ingressar em uma universidade depois de ter passado por tantos colégios. – Suas notas sempre foram boas – ele deu os ombros – duvido que irão te negar por conta de um mero detalhe. Cordélia revirou os olhos; seu pai às vezes era positivo demais, mas talvez fosse hora de também ser. Terminou sua refeição e recusou a carona que ele ofereceu, preferindo descobrir o caminho sozinha, utilizando o transporte público. Seu aniversário de dezoito anos era no final do mês, e torcia para que seu pai finalmente lhe desse o carro com que tanto sonhava. Saiu de casa cedo, pegando um ônibus e indo em direção à North Bondi, onde o colégio Reddam House localizava-se, e esperou no pátio até que o sinal tocasse antes de dirigir-se para sua primeira aula. 15


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Ao entrar na sala, viu que vários alunos ainda se acomodavam, mas o professor já estava presente. Levou até ele seu papel de transferência para que assinasse, mas o mestre ficou encarando-a boquiaberto por um bom tempo antes de voltar à sua racionalidade. Cordélia possuía uma habilidade difícil de definir: era como se encantasse todos com o seu olhar. – Hum, pessoal, temos uma aluna nova esse bimestre – o professor falou, chamando a atenção da turma – err... senhorita Dolphin, se apresente, por favor. Cordélia deu seu melhor sorriso cordial, encarando a turma de alunos. – Me chamo Cordélia Dolphin, muito prazer – pronunciou, enquanto avaliava os estudantes e escolhia seu assento. Já estava acostumada com os olhares em cima dela; quando seu professor a liberou, sentou-se em uma cadeira vazia cujo seu vizinho parecia promissor: um rapaz loiro, de porte alto, com um sorriso gentil na face. – Meu nome é Josh – ele sussurrou, tão logo ela colocou sua mochila em cima da mesa – e você não parece ser daqui. Digo, do país. Ele pareceu repentinamente nervoso quando seus olhos se encontraram com os de Cordélia. – Vim transferida dos Estados Unidos – Cordélia respondeu no mesmo tom, controlando o riso causado pela reação dele – espero que me ajude com a matéria, pois não sei se estou atualizada com o ensino da Austrália. – Claro – ele respondeu prontamente, a animação visível em sua voz – será um prazer. O professor começou a aula e, apesar de o olhar de Cordélia estar fixado no quadro à sua frente, podia perceber as cabeças dos alunos virando-se para encará-la. Josh, sentado ao seu lado, não parava de olhá-la, e fazia um tremendo esforço para não rir. Agora que tinha uma residência fixa, poderia se dar ao luxo de pensar em um relacionamento, e o rapaz ao seu lado parecia um excelente candidato. Quando o sinal tocou, indicando o término da aula, Josh permaneceu em pé ao lado de sua mesa, esperando que guardasse seu material. – Eu posso te guiar até sua próxima sala – ele ofereceu, e Cordélia assentiu, dando um sorriso e deixando-o atônito por alguns segundos – mas, então... o que faz na Austrália? – Meu pai se tornou o CEO da filial de Sidney da empresa em que 16


Capítulo 1 | Um novo começo ele trabalha – Cordélia explicou, enquanto caminhavam – antes disso, viajávamos pelo mundo para fazer novas aquisições. – Então já morou em muito lugares? – Josh perguntou, sem evitar a curiosidade. – Pode-se dizer que sim – ela respondeu, dando uma risada. Josh havia parado de andar por um momento, observando-a maravilhado, como se tivesse sido encantado pelo som de seu riso. Olhou-o melhor, avaliando seu potencial; definitivamente era bonito: alto, com porte musculoso e ombros largos, possivelmente de nadador. O cabelo era de um loiro dourado, desfiado de uma forma disciplinada em sua cabeça; os olhos verdes pareciam sinceros, assim como o sorriso gentil que não deixava sua face. Um excelente candidato a namorado para uma garota que nunca tivera a chance de manter um relacionamento. Todas às vezes que Cordélia iniciava um namoro, acabava por se mudar em seguida, sendo obrigada a terminálo; chegou a tentar manter o relacionamento pela internet, mas nunca deu certo. Agora que construiria sua vida na Austrália, poderia se dar ao luxo de pensar em um rapaz por mais tempo. E Josh parecia perfeito para isso, embora estivesse um tanto nervoso na sua presença. Observou os olhares que ele recebeu das garotas que passavam pelos corredores, e como ele cumprimentava muitos estudantes pelo caminho, e não pôde deixar de comentar o fato. – Você parece bem popular – falou, vendo que um sorriso convencido surgiu na face dele. – Bom, não é nada demais – ele tentou não se gabar – mas sou o presidente do conselho estudantil esse ano, e também sou o capitão do time de polo aquático. – Nunca assisti uma partida desse esporte – Cordélia comentou de forma inocente – talvez você pudesse me chamar algum dia. O sorriso que surgiu na face do rapaz indicava que ele com certeza faria isso. Ao deixá-la na porta da sala de sua próxima aula, Josh respirou fundo. – Hum, você ainda não conhece muitas pessoas, então, se quiser... Podemos almoçar juntos – ele falou, sua voz saindo nervosa. – Adoraria – Cordélia respondeu, dando um sorriso sincero antes de se despedir. Parecia que sua vida finalmente daria certo. Não mais seria a novata, não mais teria que arrumar suas malas e viajar para outro continente; 17


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sonhava em se estabilizar em algum lugar e construir sua família. Sabia que seu pai possuía o mesmo sonho, mas o acidente com sua mãe o fizera mudar de opinião. Suspirou involuntariamente; sempre desejou ter conhecido sua mãe, mas não conseguia se recordar de nada em relação a ela. Não possuía nem mesmo uma foto que pudesse observar, e era nova demais para guardar alguma lembrança antes de ela ter falecido. Sua atenção voltou para a aula, onde o professor a fez apresentarse novamente para a turma; os mesmos olhares continuaram a encarando quando voltou a se sentar e, apesar de já estar acostumada, não podia negar para si mesmo que aquela atenção incomodava-a um pouco. Nunca entendeu o que possuía; seu pai sempre disse que ela havia puxado sua mãe, sendo tão bela quanto, mas nunca pôde confirmar o fato, acreditando em sua palavra. De vez em quando ele contava algo sobre ela, como quando certa vez eles jantaram fora e ele cometeu a gafe de pedir peixe, sabendo que sua mãe era vegetariana. Mas além disso, não possuía nenhuma outra informação sobre ela: com o que trabalhava, qual idade tinha quando engravidou. E evitava perguntar; toda vez que surgia a palavra “mãe” na conversa, seu pai mudava de assunto drasticamente. Ele nunca namorou nenhuma outra mulher; à princípio, Cordélia achou que era por conta dela, já que ter uma filha poderia atrapalhar relacionamentos. Mas com o tempo, percebeu que seu pai nunca esqueceu sua mãe realmente, e seria incapaz de se apaixonar por outra mulher enquanto mantivesse sua mente fixa no passado. Torcia para que isso mudasse com sua ida para a universidade; talvez, ao ficar sozinho, Henri finalmente se interessasse por alguém. Mas nada comentava; havia coisas que só o tempo curaria, e se em quase dezoito anos seu pai ainda não se sentia pronto, não seria ela que conseguiria forçar. O sinal tocou, e Cordélia percebeu que não havia prestado atenção em uma única palavra dita pelo professor. Precisava se esforçar mais, se quisesse terminar o ano letivo com notas boas o suficiente para ingressar na faculdade; não tinha muitas dificuldades com o aprendizado, mas nem por isso podia ser negligente com seus estudos. Guardava seu caderno dentro da bolsa, quando notou alguém parado ao seu lado: uma garota. – Me chamo Nathalie – a garota se apresentou – seu nome é Cordélia, certo? Cordélia a avaliou; era uma moça bonita, com cabelos cor de ébano 18


Capítulo 1 | Um novo começo lisos em uma pele branca e bem cuidada. Estranhou a apresentação, uma vez que não estava acostumada a ser bem recebida pelo público feminino; na maioria das vezes, causava inveja em outras alunas. Mas havia uma primeira vez para tudo, e se pensava em criar raízes, poderia pensar também em ter uma amiga. – Prazer – estendeu a mão, cumprimentando-a – hum, sabe o caminho para o refeitório? – Claro, te acompanho até lá – Nathalie respondeu, de forma prestativa, enquanto caminhavam juntas. Mas mal haviam saído da sala, Josh apareceu com um sorriso animado. – Vejo que já conheceu a Nathy – ele falou diretamente com Cordélia, parecendo sem-graça. A ruiva olhou de um para o outro; estaria interferindo em algo? – Somos amigos de infância – Nathalie falou rapidamente – eu, ele e... Josh soltou um gemido, pois algo havia acertado sua cabeça. Um rapaz surgiu nas suas costas, abaixando a mão que havia usado para acertar o primeiro. – … E Dylan – Nathalie completou por entre os dentes – que poderia ser um pouco mais educado, por sinal. Observando o novo rapaz, Cordélia se deu conta de que ele e Josh eram parecidos fisicamente, mas Josh exalava um ar responsável, enquanto o amigo possuía um estilo brincalhão. – Você é a novata de que todos estão falando? – Dylan perguntou, estendendo a mão – prazer. Os quatro caminharam juntos até o refeitório, e Cordélia era o assunto da vez; todos queriam saber mais sobre ela. – Aonde está morando? – Josh perguntou. – Na praia de Tamarama – a ruiva respondeu – bem no pontal. – Nós surfamos lá de vez em quando – Josh comentou – eu e Dylan. – Você pode vir conosco na próxima ida à praia – Nathalie falou, animada – diminuímos um pouco por causa dos estudos, mas podemos marcar essa semana! – Anh... – Cordélia procurou uma desculpa – fica para uma próxima. Ainda preciso aprender a nadar. Os três a olharam surpresos. – Como alguém pode não saber nadar? – Dylan exclamou a pergunta em um tom indignado. 19


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– Eu posso te ensinar, se quiser – Josh se ofereceu no mesmo instante. – Tentador – Cordélia respondeu – mas prefiro deixar para depois. Digamos que... Eu não me dou muito bem com a água, e há um certo trauma na família a respeito. – Já se afogou? – Nathalie perguntou, aparentando preocupação. – Quando eu tinha oito anos – a ruiva confirmou – além disso, minha mãe... Bom, ela morreu afogada e, por conta disso, meu pai não gosta de me ver perto da água. – Sinto muito – Josh se desculpou. – Tudo bem – Cordélia deu os ombros – contem-me mais sobre vocês. Os três se conhecem desde pequenos? E o almoço passou em uma conversa divertida, onde Cordélia aprendeu um pouco mais sobre seus colegas. Os três realmente haviam crescido juntos, além de morarem bem próximos e terem estudado nos mesmos colégios; Josh e Dylan estavam no time de polo aquático e tinham como hobby o surfe, na maioria das vezes na praia de Bondi, mas revezando com a praia de Tamarama. Nathalie era menos esportiva, fazendo parte do grupo de teatro, onde treinava sua atuação visando a entrada em um bom curso de artes e performance na universidade. No todo, Cordélia gostou da companhia que arrumara. Quando se despediu naquele primeiro dia, marcou com Nathalie para passearem na tarde seguinte pelo centro de Bondi, onde adquiriria novas peças, já que seu vestuário pecava demais quando se tratava de roupas para praia. Ainda estava indecisa em relação ao que fazer com Josh; apesar de Nathalie ter dito que eram só amigos, não queria interferir entre eles, e não faria nada a respeito enquanto não confirmasse que seu futuro candidato a namorado era mesmo solteiro e livre de impedimentos. Retornou para casa, feliz que havia acertado o ponto de ônibus na primeira tentativa. Como ainda havia algumas horas até que seu pai chegasse, preparou o jantar cuidadosamente: deliciosas tiras de frango temperadas na manteiga com curry. Queria agradar seu pai nem que fosse pelo estômago, pois precisava prepará-lo para quando avisasse que, em algum momento, iria na praia com os amigos. Terminou o que fazia e guardou no forno, indo para a varanda da casa, que ficava na beira do penhasco, dando a visão da praia cheia em um final de tarde logo abaixo. Sentia uma ansiedade que não conseguia explicar quando observava 20


Capítulo 1 | Um novo começo o oceano. Era como se houvesse algo a chamando, apesar de ela saber que era um fato impossível de acontecer. Além do mais, ela realmente não sabia nadar, e seu histórico de afogamento não era exatamente animador. Mas não conseguia conter aquela sensação dentro dela, de que algo estava para acontecer, mas que precisava ser paciente. Suspirou. Nunca havia se sentido daquela forma antes, e talvez fosse a maresia lhe afetando. Vinha tendo problemas para dormir desde que se mudara, pois o som das ondas parecia alto demais em seu quarto, apesar de seu pai alegar que não era tão alto assim. Tomou um banho rápido e deu uma lida em alguns livros para o colégio, fazendo hora até que seu pai chegasse. Quando a chave tilintou na porta, correu para a sala, recepcionando-o ainda no portal. – Você está animada – Henri observou – gostou no colégio? – Bom... É realmente cheio de regras que eu odeio, mas conheci algumas pessoas legais. – Alguém com quem eu deva me preocupar? – ele perguntou de forma brincalhona, fazendo alusão à certa vez que Cordélia andou com amigos cheios de piercings e tatuagens. – Acho que não – ela respondeu rindo – mas tem um possível namorado no grupo. – Ah, como eu sinto falta dos seus dez anos, quando me pedia para comprar bonecas! – seu pai exclamou, rindo em seguida, enquanto sentava-se na mesa de jantar e Cordélia servia os pratos – tem futuro, pelo menos? – Ainda não o conheço muito bem, mas parece ser responsável – ela contou – é presidente do conselho estudantil. Seu pai assentiu, aprovando. – Espero que tudo dê certo para você, então – ele comentou. – E eu preciso do seu cartão de crédito emprestado – Cordélia falou com ar inocente – vou fazer algumas compras amanhã com uma colega, Nathalie. – Não seria melhor se você tivesse um cartão adicional, em vez de pegar emprestado o meu? – seu pai perguntou, levantando uma sobrancelha. – O limite de crédito seria muito baixo – ela replicou, dando um sorriso travesso – prefiro usar o seu. – Filhas – seu pai resmungou – deveria ser sinônimo de prejuízo financeiro. 21


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Gargalhando, continuaram conversando o resto do jantar, ao que Cordélia descobriu que seu pai estava muito satisfeito com seu novo posto de CEO; aparentemente, era tudo o que queria exercer na vida, em vez de passar meses em negociação e planejamento para a abertura de uma filial. Estava feliz; finalmente levava a vida com que sonhava com o pai. Ele era seu melhor amigo, que estava ao seu lado em todos os momentos; mesmo quando falava sobre garotos, ele escutava e procurava dar uma opinião sincera, sem deixar que seus julgamentos interferissem. Sempre procurou estar presente, para que ela nunca sentisse a falta da mãe; e, apesar de agradecê-lo por isso, ainda preferia ter conhecido sua progenitora. Dia seguinte foi ainda melhor do que o primeiro. Ao chegar no colégio, Cordélia foi recepcionada por outros alunos quando ainda estava no pátio, e pareciam interessados em conhecê-la melhor. Estava em um bate-papo animado com alguns quando avistou Josh; acenando para ele, despediu-se dos novos colegas e andou em sua direção, deixando-o com um ar orgulhoso ao ver que ela havia ido até ele. Se havia aprendido alguma coisa ao longo dos anos é que homens eram orgulhosos; gostavam de pensar que estavam no controle. Era só saber agir da forma correta – nem muito no ataque, e nem demasiadamente na defensiva – e seria fácil conquistá-lo. Podia ainda não ter confirmado sobre a situação dele com Nathalie, mas isso não a impediria de realizar algum avanço. – Gostando do colégio? – Josh perguntou, quando ela se aproximou – acho que já se entrosou facilmente. – Imagino que sim – Cordélia deu os ombros, olhando para o grupo que deixara para trás – mas ainda prefiro a primeira pessoa que conheci quando cheguei aqui. – E quem seria? – ele perguntou, sem conter a curiosidade. – Você – respondeu com um sorriso. Josh pareceu se estufar com a resposta, levantando os ombros, e Cordélia precisou controlar-se para não rir. O sinal tocou nesse meio tempo, e ambos caminharam em silêncio pelos corredores, um ao lado do outro. – Hum, eu estava pensando... – Josh falou, depois de alguns momentos – se você não gostaria de, hum, passear por aí. Algum dia. Comigo. Cordélia mordeu o lábio inferior. Tinha a impressão de que Josh não costumava ser tão tímido, mas ficava assim apenas ao lado dela. O que chegava a ser meigo, quando pensava a respeito. 22


Capítulo 1 | Um novo começo – Eu adoraria, já que ainda não conheço a cidade muito bem – ela respondeu – uma pena que já marquei com Nathalie hoje para fazermos algumas compras... O que acha de amanhã? Ela citara o nome de Nathalie de propósito, esperando ver a reação de Josh: se de repente mudasse de ideia, era indicativo de que era melhor não se envolver com ele. Mas, pelo contrário, mostrou-se ainda mais animado com a perspectiva de terem um encontro logo. – Cinema? – ele perguntou, como se tivesse medo de que Cordélia mudasse de ideia. – Está marcado – ela confirmou – é muito longe? – Eu tenho carro – ele procurou não se gabar – posso te buscar para irmos. – Me passe seu celular, e eu te mando meu endereço mais tarde. Para falar a verdade, eu ainda não sei de cabeça. Ele riu, mas anotou o número dela – já que adquirir um celular foi uma das primeiras coisas que Cordélia fez ao chegar na Austrália –, dando um toque em seguida para que ela tivesse seu número. Cordélia preferia daquela forma; não gostaria que Josh se acostumasse a ir na sua casa, já que queria manter um mínimo de privacidade, mas não queria sair em um encontro usando o uniforme escolar. Achava melhor que ele a visse com roupas cotidianas, que a deixavam muito mais bonita do que o terno azul que usava a maior parte do dia. E não perderia tempo apresentando-o para seu pai, a menos que se tornasse namorado oficial. O que envolvia dois fatores: primeiro, se os dois eram realmente compatíveis, o que só descobriria na medida que o conhecesse e, logicamente, o beijasse. O beijo era a definição de um relacionamento: se fosse ruim, ou se não tivesse nada especial, não havia como durar; mas se causasse arrepios, se o coração disparasse, estava no caminho certo. Só que era o segundo fator que a faria voltar atrás a qualquer momento: Nathalie. Precisava descobrir se ela e Josh possuíam algo, ou se estavam para ter, mas sua chegada interferiu. Não seria uma “destruidora de lares”; mesmo que os dois amigos não estivessem envolvidos naquele momento, poderiam demonstrar mútuo interesse, mas ela atrapalhava os planos. E não queria ter que passar por isso, não quando tinha consciência de que poderia conquistar qualquer garoto do colégio, se quisesse. Não era cheia de si; pelo contrário, sempre procurou passar despercebida, embora isso fosse quase impossível. Mas seu pai sempre 23


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tivera o cuidado de, ao educá-la, evitar que se tornasse mimada. E tinha consciência de que, com um único olhar, conquistava qualquer pessoa; por mais que não quisesse, não havia como evitar: era uma constatação dos fatos. Descobriria a verdade em algumas horas, quando saísse com Nathalie. Passou o dia pensando nas peças que precisava comprar: as praianas eram prioridade, mas com certeza compraria outras; colecionava acessórios de várias partes do mundo, e ainda não possuía nenhum da Austrália. E os sapatos... Amava sandálias, e com certeza compraria mais algumas. Seu pai estava certo: uma filha era sinônimo de prejuízo financeiro. Quando as aulas finalmente acabaram, ela e Nathalie pegaram um ônibus e foram para o shopping Westfield, em Bondi Junction, a apenas dez minutos do colégio. A tarde passou agradavelmente, com as duas entrando de loja em loja e realizando diversas aquisições. – Deveríamos ter trazidos os garotos para carregarem as sacolas – Nathalie comentou, quando fizeram uma pausa para um sorvete – mas não imaginei que iríamos comprar tanto. – Eu já sabia, por isso peguei o cartão do meu pai – Cordélia falou, fazendo a colega rir – mas já estou acostumada a voltar do shopping com as mãos cheias. Apesar da aparência delicada, Cordélia era muito mais forte do que as pessoas à sua volta imaginavam, conseguindo carregar tantas sacolas sem se esforçar. E muito mais letal do que poderiam pensar: quando fez doze anos, seu pai a matriculou em um curso de defesa pessoal, pois sabia que a beleza da filha poderia trazer atitudes indesejadas por parte dos homens. E, apesar de saber se defender, Cordélia nunca precisou: ninguém à sua volta parecia querer lhe fazer mal, ou, se desejasse, parecia guardar o pensamento para si. As duas sentaram-se em uma mesa na praça de alimentação para descansar e, apesar de a conversa estar fluindo muito bem até aquele momento, passando por assuntos triviais, Cordélia sabia que era hora de entrar no assunto que vinha esperando o dia inteiro para perguntar. Só não imaginou que Nathalie tomaria a iniciativa por ela. – Cordélia... – a morena começou – qual o seu interesse no Josh? A ruiva parou de tomar o sorvete, abaixando o braço e avaliando a situação. Como deveria responder? Optou pela honestidade. – Sendo sincera, ele me atrai – respondeu – e acredito que ele também esteja atraído por mim. Mas não quero interferir, se é isso que está perguntando. 24


Capítulo 1 | Um novo começo – Hum, não – Nathalie parecia escolher as palavras – na verdade, eu só queria confirmar isso. Cordélia, piscou, confusa. – Você me perdeu – falou. – É só que... Também sendo sincera, eu e o Josh namoramos ano passado – Nathalie contou – foi algo meio natural, já que fomos amigos a vida inteira. Mas... Não deu certo, sabe? Não tínhamos... Química. – Acho que entendo – Cordélia respondeu, franzindo o cenho – mas então por que a pergunta? – Eu segui em frente depois que terminamos – Nathalie explicou – mas Josh não. Durante o ano inteiro, ele ainda me lançava indiretas, indicando que gostaria de reatar. – E imagino que você já esteja com outra pessoa – Cordélia comentou de forma perspicaz, ao que a morena assentiu. – Sim, eu estou. Mas a minha amizade com Josh é importante para mim, e eu não queria causar um clima estranho. Daí, quando eu o vi deixando na porta da nossa sala ontem... – Você deduziu que, se ele se interessar por alguém, você estará livre para assumir seu relacionamento – Cordélia completou, já entendendo onde a garota queria chegar. – Isso mesmo – Nathalie respondeu com um fio de voz – acha que estou sendo muito mesquinha? – Acho que você está sendo uma mulher – Cordélia a consolou, dando um sorriso de incentivo – está correndo atrás do que deseja, procurando não magoar ninguém no caminho. Seu comentário fez Nathalie dar um pequeno sorriso, e Cordélia sabia que havia conquistado uma aliada, além de uma amiga. – Obrigada pela honestidade – Cordélia continuou – eu estava na dúvida se poderia seguir adiante com Josh, ou se havia algo entre vocês. – Posso garantir que não existe mais – Nathalie confirmou – e darei todo o apoio que precisar. – Bom, ele me chamou para ir ao cinema amanhã – Cordélia contou – o que acha? – Evite filmes tridimensionais – ela aconselhou – Josh se enjoa fácil, não me pergunte o motivo. A ruiva riu, e logo as duas voltaram a conversar animadamente. Despediram-se quando já anoitecia, e Cordélia pegou o ônibus errado, 25


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parando no final da rua Dellview. Retirou o blazer e a gravata, colocandoos em uma das sacolas que carregava; ainda não estava acostumada ao calor que fazia ali. Se já era daquela forma na primavera, não queria imaginar como seria o verão; provavelmente derreteria, e ainda precisaria de um protetor solar poderoso para manter a brancura de sua pele. Foi andando calmamente, aproveitando a brisa do anoitecer trazida pelo mar, observando a vista enquanto caminhava. Tinha a impressão de que não só Tamarama, mas a Austrália inteira era linda; haviam reservas florestais por todo lugar que olhasse, um misto de civilização com natureza difícil de encontrar pelo mundo. Já estava chegando ao cruzamento da avenida Gaerloch com Pacific, quando o avistou. Um rapaz. Sua pele era branca e aveludada, tal como a sua. Seu cabelo era negro e cortado curto, mas agitava-se rebeldemente com a brisa. Estava descalço e sem camisa, trajando apenas uma bermuda e deixando o peitoral musculoso e definido à mostra, sem um único pelo. Ele estava apoiado de costas na murada gradeada que circundava todo o perímetro do pontal, olhando para o lado, mas na verdade não parecia estar encarando nada em específico. Seu coração disparou com a visão, e sua respiração acelerou. Não sabia o motivo, mas algo naquele rapaz lhe chamava a atenção, além da beleza óbvia. E, como se adivinhasse sua presença, ele virou o rosto, encarando-a. E o tempo parou naquele instante. Mesmo à distância que se encontrava, conseguia ver seus olhos, de um azul tão profundo que era como se encarasse o próprio oceano. Uma força da natureza, o mar encarnado no seu olhar, chamando-a tal como o som das ondas quebrando abaixo de sua janela. Ofegou instantaneamente; quem era ele? Cordélia deu um passo em sua direção, depois outro. Não sabia o que estava fazendo, ou mesmo o que diria; mas seu corpo parecia agir por conta própria, pois não mais controlava suas pernas. Estava no meio da rua, ainda sem tirar os olhos dele, quando ouviu: um ônibus virava a esquina, vindo em sua direção. Seu rosto virou-se, encarando o transporte, mas acontecia rápido demais para que seu cérebro absorvesse e reagisse. Não sairia da frente à tempo. Fechou os olhos, esperando o choque certo, mas este veio de outra direção. Atônita, piscou diversas vezes, vendo que ainda estava intacta, mas todas suas sacolas estavam derrubadas na calçada que agora se encontrava. E seu rosto estava a milímetros de uma pele tão branca quanto a sua: o peitoral do rapaz. 26


Capítulo 1 | Um novo começo – Você está bem? – ouviu uma voz masculina perguntar. Primeiro, deliciou-se ao ouvir a voz; era grave, mas, ao mesmo tempo, melodiosa. Tomando coragem e engolindo em seco, Cordélia levantou o rosto, deparando-se com o próprio mar. Era a única forma de definir os olhos do rapaz: o oceano encarnado em suas íris. Ele era alto, pelo menos uma cabeça maior do que ela; seu rosto parecia ter sido desenhado à mão: o queixo retangular e todos os traços bem feitos e delicados, como se estivesse olhando para uma pintura realista. – Estou – conseguiu falar – eu... obrigada. Estava entre os braços dele. Ele a havia salvo. Tão rápido que nem havia conseguido reagir, ele correu em sua direção e arrastou-a para a calçada, antes que o ônibus a acertasse. Seus joelhos ainda estavam fracos, e tinha a impressão de que desabaria no chão, mas sabia que precisava se afastar dele. Deu um leve passo para trás, e ele a soltou, observando-a cuidadosamente; parecia confirmar se ela estava mesmo bem. Depois, enquanto ainda encontrava-se atônita, ele recolheu as sacolas, parando à sua frente com todas em uma só mão. – Acho que isso é seu – ele falou, estendendo para ela. Forçando seu corpo a responder, Cordélia pegou as sacolas, roçando seus dedos levemente nos dele, sentindo uma corrente de energia passar por seu corpo inteiro. Arrepios. Nunca sentira antes por ninguém. – Eu... – ela não sabia o que falar – ahn, obrigada de novo. Ele deu um sorriso estonteante, que a fez perder o chão sob os pés. – Deveria tomar mais cuidado, princesa. “princesa”. Cordélia piscou algumas vezes, desacostumada a ser chamada de uma forma tão... retrô. As mulheres costumavam ser chamadas assim em cantadas usadas no século passado, mas nunca ouvira uma única vez em toda a sua vida. E agora estava ali, sendo chamada daquele jeito por um rapaz que fazia seu coração disparar. E gostou de ser chamada assim. Não teve tempo de perguntar seu nome. Quando se deu conta, ele já havia lhe dados as costas e descido as escadas em direção à praia, deixando-a parada no mesmo lugar. Mas o que diria a ele? Acabara de ser salva; poderia lhe chamar para um jantar, agradecê-lo melhor. Não, era ridículo; o que seu pai diria quando visse um rapaz seminu sentado na mesa com eles? E, ao lembrar do pai, lembrou também que era melhor não contar sobre o ocorrido. Já era difícil assumir para si 27


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mesma que ficara tão atônita com a presença de alguém, e não queria que outros soubessem. Geralmente, era ela quem deixava as pessoas assim; não estava disposta a assumir uma fraqueza por um rapaz que nem mesmo sabia o nome. Será que o veria de novo? Pelos seus trajes, poderia dizer que era um frequentador da praia. Mas e se só estivesse de passagem? Suspirou, enquanto caminhava o pequeno trecho da avenida Gaerloch até sua casa; sua cabeça ainda estava nas nuvens quando passou pela porta e deparou-se com seu pai no sofá, lendo um livro. – Pelo visto você estourou o limite do meu cartão – Henri comentou, vendo todas as sacolas que ela carregava – me diga que ainda teremos dinheiro para comer no mês que vem. – Claro – ela respondeu, distraída, indo direto para seu quarto. Deixou as compras em cima da cama, entrando no banheiro e tomando um banho de forma automática. Precisava acordar. Seja o que for que aquele rapaz tinha, parecia tê-la enfeitiçado, pois seu cérebro não queria raciocinar. Era bobagem, não poderia ficar assim por alguém que ainda não conhecia; nem mesmo o havia beijado. Beijo. Sairia dia seguinte com Josh, e beijá-lo fazia parte dos seus planos. Mas duvidava que fosse ser tão bom; mal havia encostado naquele rapaz, e seu coração já havia disparado. Só podia imaginar a sensação de beijá-lo, e Josh seria uma comparação pobre a ele. Mas não poderia pensar assim; Josh estava ao seu alcance, e era um bom partido. Na conversa que tiveram durante o almoço do dia, deixou claro que tinha um futuro promissor, dedicando-se a estudar administração e tornar-se um grande executivo. Era inteligente, bonito e de boa família; então por que um rapaz desconhecido ocupava seus pensamentos? Sacudiu a cabeça enquanto secava o corpo com a toalha. O banho não havia adiantado; vestiu seu pijama e voltou para o quarto, onde começou a guardar todas as aquisições que fez. Estava tão concentrada naquilo que só foi desperta por uma batida na porta. Seu pai surgiu no batente, olhando-a preocupado. – Está tudo bem? – ele perguntou, sem esconder o que sentia. – Claro – Cordélia respondeu, e percebeu que precisava se esforçar mais se quisesse convencê-lo disso – estou bem, pai, mesmo. Eu e Nathalie tivemos uma tarde bem legal, e amanhã eu vou ao cinema com o Josh. – O “possível futuro namorado”? – seu pai perguntou, levantando uma sobrancelha. 28


Capítulo 1 | Um novo começo – Esse mesmo – Cordélia confirmou – mas só apresento ele se realmente namorarmos. – Espero que seja logo – seu pai falou – não gosto que você passe tanto tempo com pessoas que eu não conheço. No mesmo instante o rapaz desconhecido surgiu em sua mente. O que seu pai diria se soubesse que ela havia sido salva de um atropelamento justamente por alguém que ele não conhecia? Procurou disfarçar o que sentia, terminando de guardar a última peça no guarda-roupa; seu pai não poderia saber do ocorrido, de forma alguma. – Enfim, eu só estou um pouco cansada – falou – o dia foi muito cheio. – Eu trouxe comida chinesa para jantarmos – Henri comentou – mas imaginei que você já havia comido na rua e jantei antes que você chegasse. – Quanta consideração – Cordélia gracejou – mas está perdoado. Eu não estou mesmo com muita fome. Foi para a cozinha, colocando um pouco da comida em um prato e esquentando no micro-ondas. Mas em vez de sentar-se à mesa, caminhou até a varanda, comendo apoiada no corrimão e olhando a praia vazia abaixo. Era óbvio que o rapaz não estaria mais ali; se quisesse realmente vê-lo, deveria ter ido para a varanda na hora que chegou, e não tanto tempo depois. Puxou e soltou o ar pesadamente. Não podia tornar aquilo uma obsessão; estava claro que não o veria de novo, e não tinha motivos para pensar nele. Terminou de comer, lavando a louça na pia e indo para o quarto, procurando se concentrar em Josh; era com ele que sairia no dia seguinte. Mas mal pisou no cômodo, sentiu uma presença ali; e, com um choque, viu uma sombra por fora de sua janela. Assustada, correu até a cortina, puxando-a para o lado, e deparando-se com absolutamente nada. Era óbvio que não havia ninguém; sua janela ficava em cima de um conjunto de rochas que se estendia verticalmente até o mar. Era humanamente impossível que alguém conseguisse superar as ondas fortes e ainda tivesse forças para escalar uma altura tão grande. Soltou uma risada nervosa; deveria estar sofrendo de estresse pós-traumático, após quase ter sido atropelada. E agora imaginava coisas. Fechou a janela com força, sem utilizar o trinco, e jogou-se entre os lençóis pesadamente. Precisava de uma boa noite de sono, e logo estaria bem. Para sua surpresa, adormeceu sem despertar uma única 29


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vez com o som das ondas quebrando nas rochas; só acordou quando seu despertador tocou, e espreguiçou-se gostosamente. Podia sentir em seu sangue que aquele seria um bom dia como todos os outros. Uma brisa fresca tocou seu rosto e, ao olhar para o lado, seu coração parou com o susto: a janela estava aberta.

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Capítulo 2 Problemas com o mar

Cordélia respirou fundo, analisando sua oponente. Só precisava acertar mais um ponto e ganharia o set. Estava com a vantagem: era dela o saque. Respirando fundo, o juiz assoprou o apito. Jogando a bola para o alto, usou toda sua força na raquete para batê-la. A outra aluna não teve chance; a bola havia ido tão forte e tão certeira que parecia um corte, apesar de ser o saque; antes que ela pudesse se mover, a esfera acertou seu campo, fazendo os alunos que assistiam urrar. – Dois sets à zero para Dolphin – o juiz falou, apitando – vitória definida! Nathalie correu em direção à Cordélia, parabenizando-a, assim como alguns alunos. Era aula de educação física, e a maioria dos seniores havia decidido praticar tênis naquele bimestre, um esporte que Cordélia sempre gostara, e possuía talento para jogá-lo. Sorridente, a ruiva foi até sua garrafa d’água, entornando-a de uma vez; vinha consumindo mais água que o normal ultimamente, e culpava o calor da Austrália. Quando terminou, pegou uma nova garrafa e jogou no 31


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rosto, usando uma toalha em seguida para secar o excesso. Ignorou alguns alunos que a encaravam atônitos; parecia que sua habilidade de encantar pessoas estava ficando cada dia mais intensa, e o melhor que poderia fazer era fingir que não prestava atenção. Endireitou seu rabo-de-cavalo, depois olhou para o próprio uniforme; ainda estava arrumado. – O time de polo aquático está treinando, não é? – perguntou para Nathalie, ao seu lado. Sua amiga assentiu, dando um sorriso. Nas últimas três semanas, tornaram-se inseparáveis: faziam muitas matérias juntas, e ainda revezavam as casas para estudarem pela tarde. Foram andando até o ginásio fechado, onde umas piscina enorme se estendia no chão; o jogo estava em seu ápice, faltando poucos minutos para terminar. As duas observaram o passe que Dylan fez para Josh, e esse marcou um gol com destreza, pouco antes de o juiz apitar o término. O time comemorou, e Cordélia sabia que não precisava fazer nada; quase como se notasse sua presença, Josh a olhou, abrindo um sorriso de orelha à orelha. – Alunos não deveriam estar aqui – um professor se aproximou, dirigindo-se à Cordélia – esse treino é privado. Cordélia sorriu, encarando-o com seus olhos cinzas. No mesmo instante o professor ficou sem reação, gaguejando. – O jogo já terminou, professor – Cordélia falou, com sua voz mais gentil – tenho certeza de que não terá problema se nós incentivarmos seus jogadores. O professor engoliu em seco, assentindo e dando-lhes as costas, voltando para seu escritório. Nathalie deu uma pequena risada ao seu lado. – Inacreditável – ela comentou – você ainda precisa me contar o seu segredo. – Que segredo? – a ruiva perguntou, inocentemente. – Como você faz... Isso – Nathalie gesticulou em direção ao professor, antes que ele sumisse de vista – parece que você hipnotiza as pessoas, em especial os homens. – Não chega à tanto – Cordélia respondeu, rindo também – mas é tudo questão de confiança. Parou de falar, vendo que Josh saía de dentro da piscina e arrancava a touca que usava na cabeça. Observou-o se aproximar, usando apenas uma sunga e deixando todo o corpo maravilhoso que possuía à mostra; era uma das melhores coisas de se olhar em seu namorado. 32


Capítulo 2 | Problemas com o mar Três semanas. Havia cumprido seu plano de beijar Josh quando foram ao cinema, e ainda guardava com carinho a cena que se desenvolveu: ele estava nervoso, falando coisas sem sentido, e ela precisou tomar a iniciativa. – Josh – ela falou, fazendo-o se calar – cale a boca. E beijou-o. Era bom; os lábios dele eram macios, e o beijo era calmo e gentil. Mas não haviam... Faíscas. Nenhum arrepio pelo corpo, e seu coração permanecia com os batimentos normais. Mas a forma como ele a olhou após o beijo, quase como se a idolatrasse, a fez dá-lo uma chance. Poucos dias depois, ele pediu-a em namoro, e estavam juntos desde então. Cordélia se esforçava; na verdade, quando estava com Josh ao seu lado, nem mesmo precisava pensar no assunto. Conseguia se concentrar só nele, e em como ele era gentil com ela, como se tivesse medo de que ela evaporasse no ar a qualquer momento. Gostava de ser tratada assim, mas internamente, sabia que não era o suficiente. E quando estava sozinha e pensava a respeito, uma pessoa sempre vinha à sua mente: o rapaz que a salvara do atropelamento, e que nunca soube o nome. Não conseguiu esquecê-lo. Procurava deixar de lado, mas toda vez que seu pai comentava que precisavam comprar algo, ela oferecia-se na hora, indo a pé até o mercado ou padaria, apenas para observar as pessoas ao redor, desejando reencontrá-lo. Não saía de sua cabeça a ideia de que ele tinha algo a mais; não era como nenhum rapaz que tivesse conhecido. Repuxava sua memória, tentando lembrarse de cada detalhe: seu rosto passava maturidade, e ele deveria ser mais velho do que ela, talvez em seus vinte e poucos anos. E mesmo quando pensava que, para ele estar à toa em uma terça-feira à tarde não deveria ter a melhor das profissões, não conseguia se desmotivar. Queria reencontrá-lo, nem que fosse para agradecê-lo novamente – já que parecia não ter palavras em sua presença. Mas já havia perdido as esperanças, o que lhe motivava a se dedicar mais ainda ao seu namoro com Josh. Ele era o rapaz perfeito: futuro definido, dinheiro e nome de família, gentil com todos à sua volta. E dedicava especial atenção a ela: parecia ignorar qualquer coisa apenas para observá-la, fosse gesticulando algo simples, como apontar a vista, fosse até mesmo comendo sua refeição. Às vezes cansava-se de tanta atenção que lhe era dada, mas não o culpava; ela mesmo o incentivava à isso, como naquele instante. Havia ido em seu treino de polo aquático sem que ele pedisse, só para vê-lo abrir um sorriso com a surpresa. 33


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– Você está aqui – ele falou bobamente. – Sim, eu estou – Cordélia respondeu – preciso confessar que sinto uma certa necessidade em vê-lo usando apenas uma sunga. O rapaz riu, dividido entre sem-graça e lisonjeado, mas parecendo feliz com o comentário. Ele aproximou-se, passando a mão por sua cintura, envolvendo-a em um abraço. – E você fica linda usando o uniforme de tênis – ele replicou – uma pena que não tive a chance de vê-la jogar. – Eu venci – a ruiva declarou, fazendo-o olhá-la orgulhosamente – dois sets a zero. Ele inclinou-se, dando-lhe um beijo gentil. Era gostoso beijar Josh; como se aquele gesto lhe consolasse, dizendo que tudo na vida poderia dar certo, mesmo quando aparentemente estava errado. O beijo foi interrompido por um espirro de água que acertou os dois. – Délia, você não deveria deixar um rapaz te agarrar em público – Dylan falou, ainda dentro da piscina – principalmente quando ele está usando uma sunga. Os companheiros de time caíram na gargalhada, e Josh ficou extremamente sem-graça, enquanto olhava para o lado e concentrava seu pensamento em qualquer coisa para distrair-se. Cordélia segurou o riso também, assim como Nathalie; ambas eram mulheres, e tendiam a se esquecer das peculiaridades masculinas. – Obrigada pela sugestão, Dylan – a ruiva replicou – vou lembrarme na próxima visita. Gostava de como seus amigos agora lhe chamavam: Délia. Era um diminutivo carinhoso para seu nome e que seu pai usava de vez em quando, apesar de na maioria das vezes só chamá-la de “filha” ou “querida”. Estava feliz: a perspectiva de ter uma amizade que duraria mais de um mês a agradava de sobremaneira. – Acho melhor eu voltar para o treino – Josh comentou depois de alguns minutos – antes que o treinador tenha um ataque. – Nos vemos na saída? – Cordélia perguntou, sem tirar o sorriso do rosto. – Claro – ele respondeu, roçando seu nariz ao dela – só não entendo o porquê de você não me deixar levá-la de carro até sua casa. – Eu já expliquei – o tom de voz dela mudou, tornando-se monótono – se meu pai não ver que tenho necessidade de um carro, não me dará um. E eu venho esperando quase dezoito anos para isso. 34


Capítulo 2 | Problemas com o mar Ele riu. – E espera realizar esse sonho na sexta, não é? – ele perguntou, levantando uma sobrancelha. – Com certeza – ela afirmou – e ainda não acredito que vocês estão preparando um luau para comemorar meu aniversário. – Será divertido! – Josh exclamou, já afastando-se dela – eu, você, algumas pessoas desconhecidas e muita bebida. A noite promete, acredite! Rindo, Cordélia despediu-se dele, voltando com Nathalie para o campo de tênis, onde observaram os outros alunos treinarem. Seu aniversário de dezoito anos era na sexta, e desde que seus amigos souberam, vinham convencendo-a de que deveriam fazer algo para comemorar. A princípio, pensou em uma festa na sua casa, mas como estava em um lugar onde a maioria dos jovens gostava de praia, acabou aceitando a ideia de realizar um luau no sábado. A notícia se espalhou pelo colégio, e por todo lugar que passava, algum estudante cumprimentava Cordélia e prometia a presença na comemoração. – Estão tratando como se fosse o maior evento do ano – Nathalie comentou rindo, depois de mais um aluno cumprimentá-las – não fez nem um mês, e já virou a mais popular do Reddam. – Não é para tanto – Cordélia replicou, apesar de, internamente, pensar daquela forma – só estão animados com uma festa. Tenho certeza de que, se qualquer aluno fizesse isso, ainda estariam animados. – Eu não teria tanta certeza assim – Nathalie falou – acredite, todo mundo faz aniversário, Délia, mas poucas pessoas conseguem comemorar com estilo. – Que seja – Cordélia deu os ombros – você ainda está fugindo do assunto principal. Quando é que vai assumir o seu namoro? Nathalie ficou sem-graça na mesma hora. – Quando for a hora certa – respondeu e, vendo o olhar de descrente da ruiva, completou – estou com medo de que isso magoe o Josh. – Eu e ele estamos namorando há quase três semanas – Cordélia falou – não é possível que ele ainda sinta algo. – Não é bem isso... – Nathalie falou, parecendo confusa – mas quando ele souber... Pode se sentir traído, entende? Já que nunca contamos a ele. – Ele ficará feliz por você e Dylan – Cordélia tentou consolá-la – 35


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pode se sentir magoado no início, já que vocês estão juntos há meses e nunca contaram a ele, mas depois a felicidade superará. Sua amiga assentiu, preparando-se mentalmente para a hora em que contaria ao Josh que, apesar de o namoro deles não ter dado certo no ano anterior, ela e e Dylan resolveram tentar, e estavam juntos desde então. Cordélia tentava entender a situação, mas era difícil: Josh e Dylan eram parecidos fisicamente, apesar de a personalidade ser um tanto diferente. Enquanto o primeiro era mais responsável e, porque não, meigo, o segundo era mais brincalhão, um verdadeiro bon vivant. Nathalie não sentia nada além de amizade por Josh, mas por Dylan, apaixonou-se; como explicar isso para o primeiro? Cordélia procurava pensar de forma otimista; uma vez que namorava Josh, achava mais fácil de ele aceitar seus dois melhores amigos em um relacionamento, já que ele próprio agora tinha uma namorada e estava feliz. Mas... Até quando namorariam? Não conseguia definir. Não pensava em um namoro longo com ele, mas também não pensava em terminar tão cedo. Poderiam até mesmo ir para a mesma universidade, o que incentivaria a continuar a relação. Às vezes culpava-se por ser tão insatisfeita: nada a agradava por completo, nem mesmo um namorado que tinha tudo para ser o homem perfeito. O que procurava? Arrepios. Coração disparando com um único olhar. E aquele mesmo rapaz, que vira uma única vez há semanas, surgia em sua mente. Por que estava tão... Irritada? Acostumou-se a ter tudo o que queria, obviamente; nunca teve dificuldades para conquistar o apreço de alguém, ou para atingir um objetivo. E agora, deparava-se com o inusitado: alguém que causava nela o que costumava causar nos outros, e esse mesmo alguém havia sumido do mapa sem nem mesmo dizer um nome. Bufou enquanto trocava de roupa, pronta para voltar para casa. O único motivo para não tirá-lo da cabeça era porque era mimada demais, e não gostava de assumir. Se acostumou a ter o controle de tudo ao seu redor, e ao deparar-se com algo novo, lidava como se fosse um desafio. Queria encontrá-lo de novo para provar a si mesma que conseguiria manter uma conversa, que ele não tinha tanto poder sobre ela como havia deixado acontecer na primeira e única vez que o viu. – Já está pronta? – Nathalie perguntou, cortando o pensamento de Cordélia. – Sim – fechou o armário, colocando a mochila nas costas. Caminharam até o estacionamento, encontrando Josh e Dylan ao 36


Capítulo 2 | Problemas com o mar lado do carro do primeiro, um Jeep Grand Cherokee Laredo prateado, o automóvel perfeito para um rapaz que adorava se aventurar pelas trilhas e reservas florestais da Austrália. Ficaram por ali conversando, já que os treinos já haviam tomado a maior parte da tarde, e Cordélia só podia lamentar o quanto Josh às vezes podia ser tão lerdo: era impossível não notar os olhares que Nathalie e Dylan trocavam. Despediram-se, prometendo a tão sonhada ida à praia no dia seguinte, plena quinta-feira. – Ainda acho errado irmos no meio da semana – Nathalie comentou – quero dizer, com toda a pressão para mantermos nosso ATAR1... – Relaxa, Nathalie – Cordélia a acalmou – ninguém morrerá por um pouco de distração. E vocês ainda precisam me explicar como eu farei para pedir meu ingresso em uma universidade, pois não entendi direito. – Vamos deixar essa discussão de estudos para depois – Dylan pediu – no momento, só quero pensar nas ondas maravilhosas que estarão me esperando amanhã! Os amigos riram, concordando. Josh se despediu com um beijo carinhoso, antes que Cordélia saísse do colégio e pegasse o ônibus de volta para casa. Ela não estava tão animada com a ida à praia como seus amigos, mas não queria ser estraga prazeres; e como eles estavam sendo insistentes com a ideia, acabou cedendo uma única ida, antes que mudasse de opinião. Mal chegou, já foi direto tomar um banho, a fim de limpar seus pensamentos. O chuveiro parecia ter perdido o efeito que antes tinha, pois de nada adiantava; continuava pensando em quem não deveria pensar. Já haviam se passado três semanas; por que ainda pensava nele? Se sentia idiota. Colocou uma roupa simples – bermuda, camiseta e sandália rasteira – e deu uma olhada no quadro de aviso da cozinha; ela e seu pai concordaram que aquela era a melhor forma de se comunicarem, quando precisavam avisar algo urgente. A mensagem de seu pai dizia: “estamos sem açúcar”. Ótimo. Pegou o dinheiro que ele havia deixado no aparador e desceu a avenida Gaerloch até quase seu final, onde havia uma mercearia, comprando o que era necessário. Precisava ter uma conversa séria com seu pai sobre realizarem compras mensais e estocarem uma dispensa, a fim de 1

N.A.: Nota em um ranking usada para a admissão na maioria das universidades australianas, mas apenas para os estudantes que fizeram o 11º e 12º ano no país. Cordélia é uma aluna transferida do exterior, motivo pelo qual essa nota não se aplica a ela.

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evitar a ida na rua por qualquer coisinha. Suspirou. Estava ficando de mau humor com muita frequência, e não podia deixar uma decepção abalá-la daquela forma. Não tinha porque estar decepcionada, e precisava se convencer disso. Mas toda a sua resolução foi por água abaixo quando já estava chegando em casa. Lá estava ele. Da mesma forma que antes, usando só uma bermuda e parecendo distraído, encostado na murada gradeada, olhando para o nada. A diferença é que agora estava a poucos metros de sua residência, próximo a um poste de luz e da escada que levava para a encosta de pedras que havia daquele lado. O que fazia ali? Será que era seu vizinho e não sabia? Da última vez que o vira já havia anoitecido, mas agora, o sol estava se pondo, deixando sua pele ligeiramente brilhosa com a iluminação natural. Tal como a sua própria. Seu coração disparou na mesma hora com a visão, e procurou controlar a respiração acelerada; era a chance que vinha esperando há dias, e não tinha porque perdê-la. Ele ainda não a havia notado. Conferiu sua própria vestimenta; poderia estar mais arrumada, mas não imaginou que iria esbarrar com ele na volta de uma ida à mercearia. Precisava ser confiante; não havia quem não se encantasse com sua pessoa, independente do que estivesse vestindo. Fez uma concha com a própria mão próximo à boca, vendo se seu hálito estava bom; depois, sentiu-se estúpida por agir daquela maneira. Era só um rapaz, pelos céus! Nunca se sentiu insegura na presença de ninguém, e não seria ele quem mudaria suas atitudes. Respirou fundo, tentando aparentar uma calma que não sentia enquanto caminhava em direção a ele. Estava há menos de um metro quando ele virou-se, encarando-a com aqueles olhos azuis que faziam seu chão sumir. – Hum, olá – Cordélia falou, tentando desesperadamente pensar em algo – lembra-se de mim? Você me salvou de um atropelamento... Interrompeu a própria fala; quando na vida começou uma conversa com “lembra-se de mim”? Não havia quem fosse capaz de esquecê-la. – Lembro – ele falou, sua voz soando melodiosa e máscula ao mesmo tempo – princesas não deveriam ser tão descuidadas. Cordélia engoliu em seco. Por que ser chamada de “princesa” por ele fazia seu coração acelerar ainda mais? Tentou passar confiança em sua fala seguinte. – Sabe, eu tenho um nome – ela deu um sorriso sedutor – apesar de não ter nada contra em ser chamada de “princesa”. 38


Capítulo 2 | Problemas com o mar Ele parecia estar se divertindo com algo enquanto a observava com uma expressão serena. – Eu sei – ele concordou, abrindo um sorriso – mas ainda prefiro lhe chamar de princesa, Cordélia. Por essa Cordélia não esperava; olhou-o confusa, piscando diversas vezes. – Como você...? – Sabe o significado do seu nome? – ele a interrompeu, ao que a ruiva negou lentamente com a cabeça – vem do latim, e significa “descendente do mar”. Atônita, Cordélia permaneceu muda, encarando-o. Havia passado três semanas pensando nele, mas não imaginava que ele soubesse seu nome, ou mesmo algo tão curioso quanto seu significado. Isso fazia dele um... perseguidor? Não, se ele a seguisse, com certeza teria notado sua presença. – É a segunda vez que te vejo – ela falou lentamente – e em nenhuma delas eu disse meu nome. Ele deu um sorriso misterioso, encarando a paisagem atrás de si, sem nada falar. – Gosta da vista? – ele perguntou, depois de alguns momentos em silêncio – acho interessante como a escuridão da noite parece se fundir com o mar quando o sol se põe. Ele mudara radicalmente de assunto. Cordélia mordeu o lábio inferior, aceitando o desafio implícito. Se ele não queria dizer algo por vontade própria, o incentivaria à isso. Retomando sua autoconfiança, deu dois passos, até estar bem próxima; estendeu a mão livre para o rosto dele, virando-o de frente para o seu delicadamente. Procurou ignorar os arrepios que percorreram seu corpo ao tocá-lo, ou mesmo como seu coração acelerou ao encarar seus olhos azuis, tão parecidos com o oceano nas suas costas. – Se eu gosto da vista? – não conseguiu evitar a diversão em sua própria voz – no momento, estou adorando-a. Ele pareceu controlar um sorriso, mantendo a mesma voz calma de antes. – Você não é muito sutil. – Nem um pouco – ela concordou, divertindo-se com a cena – gosto de fazer as coisas acontecerem. Delicadamente, ele levou a própria mão até a dela, segurando-a entre a sua e descendo-a. Cordélia sentiu seu corpo inteiro queimar com aquele mínimo toque. 39


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– Uma princesa deveria ser mais recatada – ele comentou, ainda segurando sua mão e sem afastar-se um único milímetro. – Que pena que eu não sou uma – Cordélia respondeu de forma provocante, aproximando seu rosto do dele – qual o seu nome? Ele inclinou-se ligeiramente, deixando seus rostos mais próximos do que antes. – Morgan – respondeu em um sussurro – o guerreiro dos mares. Alguns pensamentos passaram rapidamente pela mente de Cordélia: se o que ele disse era uma brincadeira, ou mesmo se esses significados que ele contava eram reais. Ela apagou qualquer coisa que pudesse pensar naquele instante, pois a boca dele estava a milímetros da sua. Um leve movimento para frente... Se ficasse na ponta dos pés, poderia beijá-lo. Mas quase como para lembrá-la de que já era comprometida, seu celular tocou no bolso da bermuda, cortando o clima de forma irreparável. Morgan soltou sua mão, afastando-se, enquanto ela pegava o aparelho e olhava o visor: Nathalie. Bufou de raiva, irritada por sua amiga estar ligando em uma hora tão imprópria; mas o que pretendia fazer? Namorava o Josh; não poderia sair beijando um estranho, mesmo que ele fosse extremamente irresistível. Olhou para frente, esperando vê-lo ali, mas tinha sumido. Avistou-o já longe, seguindo pelas pedras que rodeavam a baía, sem nem mesmo despedir-se. Pensou em gritá-lo, mas o celular permanecia tocando, deixando-a confusa sobre o que fazer. Acabou por atender a ligação, respirando fundo para não descontar sua frustração na amiga. – Délia, eu queria saber com que biquíni você vai amanhã – Nathalie falou, do outro lado da linha – para não corrermos o risco de usar um da mesma cor. – Hum, eu ainda não me decidi – Cordélia foi o mais evasiva possível; não estava em condições de ter uma conversa normal com a amiga – te retorno assim que escolher, tudo bem? – Ok, vou estar esperando! Desligou a ligação, dando um longo suspiro. O que estava fazendo...? Ou melhor, o que teria feito se seu celular não tivesse acordado-a? Podia ser muitas coisas, mas traidora não era uma delas; era namorada de Josh, e não beijaria outra pessoa enquanto estivesse em uma relação com ele. Mas quando se tratava dele... Morgan, o “guerreiro dos mares”. O que isso significava? Com certeza não era seu sobrenome. Mas, de alguma forma, parecia cair muito bem com ele. Suspirou. Só estava curiosa; ele despertava nela algo que nunca conheceu, como se possuísse a mesma habilidade que ela tinha de encantar as pessoas. 40


Capítulo 2 | Problemas com o mar Entrou em casa, preparando o jantar rapidamente e procurando concentrar-se em cada mínima tarefa que realizava. Ainda estava terminando quando seu pai chegou do trabalho, encontrando-a na cozinha. – Hum, estava com saudade de bife acebolado – Henri comentou ao entrar na cozinha e sentir o cheiro – ninguém faz esse prato igual a você. – Você só elogia minha habilidade culinária para que não tenha que cozinhar, pai – ela respondeu de forma brincalhona – viveria de fastfood se eu não fizesse a comida. Henri riu, indo para o quarto tomar um banho. Cordélia colocou os pratos na mesa e, ao terminar suas tarefas, sua mente voltou a divagar. Morgan. De alguma forma, parecia não se encaixar com aquela região, apesar de o estilo “garoto de praia” cair muito bem nele. E o que ele fazia da vida? Parecia viver ali, sem preocupações nenhuma, o que com certeza não era bom. Seu pai poderia não ser averso à ideia de possuir um namorado, mas tinha um princípio básico: precisava ter futuro. Quando apresentou Josh a ele, os dois homens tiveram uma longa conversa sobre carreiras a se seguir no ramo administrativo de empresas, e seu namorado ficou extremamente empolgado com a experiência de Henri. No final, seu pai aprovou Josh, dizendo para filha que era o melhor partido que poderia arranjar. Quase riu ao lembrar disso; estava há três semanas sem conseguir tirar um possível vagabundo da mente, só porque ele era irresistivelmente atraente. E o que a irritava ainda mais era saber que não conseguia deixar de pensar quando teria a chance de vê-lo de novo; morreria de ansiedade se esperasse mais três semanas. Não, não morreria. Não tinha motivos para desejar tanto revê-lo, até porque não pretendia fazer nada com ele. Mas... E se perdesse o controle? – Você está distraída – seu pai observou, voltando para a cozinha de banho tomado – que bicho te mordeu? Cordélia procurou disfarçar, dando um sorriso malicioso. – Estou imaginando o que o meu querido papai vai me dar de presente de aniversário – ela falou, sentando-se e começando a comer – espero, sinceramente, que tenha quatro rodas. Ele riu, mas nada comentou. Enquanto jantavam, conversaram sobre as notícias do dia e, ao término, Cordélia foi para o seu quarto. Ao preparar-se para dormir, fechou a janela, certificando-se de que o trinco estava bem preso. Desde a última vez que acordara e vira sua janela aberta tornara-se paranoica; só dormia com ela trancada, 41


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independente do calor que fizesse. Ela sabia que era exagero, pois era impossível uma pessoa chegar ali, mas não se importava; não contou a ninguém que imaginou um vulto do lado de fora e que, mesmo depois de ter fechado o vidro, acordou com este escancarado. Dormiu um sono leve, acordando durante a noite várias vezes. Vinha tendo sonhos e pesadelos intercalados nos últimos dias, mas ambos possuíam um ponto em comum: o mar. Sonhava que estava mergulhando, mas não precisava de equipamentos para respirar embaixo d’água; nessas horas era preenchida por uma sensação de liberdade que até então desconhecia. Mas o sonho transformava-se em pesadelo, e uma angústia a preenchia; ouvia vozes gritando, crianças chorando e o som de coisas sendo quebradas. Acordava nessas horas suando frio, desejando ardentemente abrir a janela, mas com medo de o fazê-lo. Acabava por ficar acordada o resto a madrugada, e já estava se acostumando a dormir pouco. Após mais uma vez ter acordado de um pesadelo, cedeu ao seu instinto, levantando-se vagarosamente e indo até a janela. Soltou o trinco e abriu-a ao máximo, fechando os olhos para aproveitar a sensação da brisa fresca da madrugada no rosto. Quando já estava mais calma, preparou-se para fechá-la, mas algo nos rochedos à sua frente chamou sua atenção. Havia um objeto brilhoso a alguns metros de sua janela, mas não conseguia identificar o que era na distância em que se encontrava. Curiosa, pulou o parapeito, caminhando com cuidado e olhando ao redor. Quando agachou-se para ver, instintivamente recuou, tropeçando nos próprios pés e caindo no chão. Levantou-se rapidamente, olhando novamente para o objeto. Definitivamente era uma concha. Mas seu coração estava disparado, e ela não tinha certeza do motivo: sentia que já havia visto aquela mesma concha em outro lugar. Era do tamanho de seu punho, e tinha uma beleza sem igual: na luz da lua, brilhava como se fosse feita de diamantes. Era a mesma concha que a fez se afogar quando tinha oito anos e morava na Cornualha, no Reino Unido. Mas era impossível ser a mesma concha; estava em outro continente! Com cuidado, pegou-a na mão, voltando rapidamente para dentro do quarto. Abaixou a janela e fechou o trinco. Quando percebeu que ainda segurava a concha, jogou-a na cama, como se tivesse recebido um choque. Ela estava enlouquecendo; devia estar imaginando aquela concha, como se seu subconsciente a relembrasse de seu quase afogamento quando mais nova, às vésperas de sua ida à praia. 42


Capítulo 2 | Problemas com o mar Respirou fundo, virando-se e indo para o banheiro. Tomou um banho gelado para se sentir melhor, demorando bastante tempo embaixo no chuveiro, esperando que suas alucinações passassem. Mas, ao voltar para o quarto, a concha ainda estava em cima da cama, no mesmo lugar que a deixou. Sentindo o sangue gelar, pegou o objeto e jogou dentro da gaveta do criado-mudo, fechando com força. Decidida a esquecer daquilo, direcionou seus pensamentos para os afazeres que possuía: indo para a cozinha, começou o preparo do café da manhã. Já vinha conversando com seu pai sobre ele deixá-la ir na praia, mas ainda não o avisara que iria justamente naquele dia. Por isso, caprichou no cardápio: fez omelete com bacon, panqueca de maçã, salada de frutas e suco de laranja. Quando Henri entrou na cozinha, olhou-a com desconfiança. – Você está mesma disposta a ganhar esse carro, não? – ele perguntou, enquanto se sentava – vem fazendo meus pratos favoritos desde semana passada. Cordélia riu, enquanto sentava-se na sua frente. – Esse com certeza é um dos motivos, mas... – deu um olhar de relance para seu pai – meus amigos vão hoje na praia, e pediram para que eu fosse também. Henri ficou calado por um tempo, enquanto comia; Cordélia o olhava ansiosa, mal tocando no conteúdo de seu prato. – Você quer mesmo ir? – ele perguntou com a voz séria. – Bom, eu gostaria – Cordélia deu os ombros – meus amigos estão se esforçando para me deixar à vontade desde que nos mudamos, e a única coisa que ainda não fiz foi ir na praia com eles. – Sim, mas você quer isso? – Henri perguntou novamente, dessa vez salientando a opinião que desejava ouvir. Cordélia parou por um momento. Se queria ir? Desde que se mudara, sentia uma ansiedade inexplicável ao olhar para o mar, como se alguém a estivesse chamando. Tinha sonhos e pesadelos envolvendo o oceano e, ao ver o olhar inquisitório de seu pai, achou melhor não contar nada daquilo. Não queria deixá-lo preocupado, principalmente com uma ida à praia com seus amigos. – Quero, sim, pai – ela respondeu – e sei que estarei segura com Josh e Dylan do meu lado, já que ambos são excelentes nadadores. Além disso, a praia de Bondi tem salva-vidas por toda a extensão. Acho que já está na hora de superar esse meu trauma, não é? 43


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Tentou falar a última frase brincando, mas seu pai permaneceu sério, olhando para a própria comida. Não sabia o que falar para convencê-lo de que não se afogaria novamente; afinal, quase dez aos haviam de passado desde o primeiro e único incidente. Era maior e mais forte, o que tornaria difícil ser levada por uma onda. Além disso, o mar era fraco na área onde seus amigos pretendia levá-la, o que deixava-a mais aliviada. – Nada de ruim vai me a acontecer, papai – Cordélia falou docemente, esticando a mão por sobre a mesa e tocando na dele – prometo que estarei segura e não me arriscarei em uma prancha de surfe. Seu último comentário fez seu pai dar um pequeno sorriso, e Cordélia sabia que o havia conquistado. – Está bem, você pode ir, mas tome cuidado – ele voltou a ficar sério – eu não posso perdê-la também. – Não vai me perder – Cordélia sacudiu a cabeça, sorrindo – afinal, quem faria a comida nessa casa? A conversa encerrou ali, e logo Cordélia já estava a caminho do colégio. Colocara seu biquíni dentro da mochila, assim como um vestido e uma sandália. Trocariam de roupa no vestiário do ginásio antes de saírem, e os quatro iriam no Jeep de Josh. Havia enviado uma mensagem para Nathalie antes de dormir avisando que usaria um biquíni na cor azul celeste, já que sua amiga estava preocupada de ambas usarem vestuário parecido. O dia acadêmico pareceu se arrastar com a ansiedade para o que viria em seguida. Quando todos finalmente estavam prontos e dentro do carro, Dylan deu um grito animado: – Praia, aí vamos nós! Rindo, os quatro foram brincando durante o curto percurso, estacionando bem próximo do pontal da praia de Bondi, por onde ficariam. Havia diversos rochedos ali, tal como em Tamarama, mas também diversas piscinas naturais localizadas entre as pedras. As ondas eram fracas naquele pedaço, tornando-se boa para o surfe apenas quando afastava-se da costa, indo em direção ao alto-mar. Josh retirou um guarda-sol do porta-malas do Jeep, levando consigo até a parte em que resolveram ficar, montando em seguida. Dylan levava nas mãos uma bola de vôlei que, segundo ele, serviria para aquecer os músculos. Nathalie e Cordélia estenderam cangas perto da barraca, deixando seus pertences ali, e logo os quatro estavam se divertido jogando uma versão de vôlei de praia sem rede. O sol estava ameno por ser meio da tarde, mas a temperatura estava alta. Quando 44


Capítulo 2 | Problemas com o mar todos já estavam suados o suficiente, Josh puxou Cordélia pela mão, levando-a em direção a água. – O mar é nosso amigo – ele falou brincando – não vai machucá-la, prometo. – Você vai me resgatar se algo acontecer? – ela perguntou em resposta, levantando uma sobrancelha – é isso ou enfrentará a ira do meu pai. Ele riu, abraçando-a. – Eu não deixarei que nada aconteça com você – falou, dando-lhe um leve beijo – agora largue de ser covarde e venha comigo. Cordélia obedeceu, sentindo internamente a mesma ansiedade que vinha perturbando-a desde que se mudara para a Austrália. E se estivesse errada? E se não fosse corajosa o suficiente, e se ao leve encostar da água fosse preenchida pela sensação de afogamento...? Respirou fundo, apertando firmemente a mão de Josh, na medida em que se aproximavam da borda. Quando a onda respaldou na areia, deslizando até seus pés, prendeu a respiração, fechando os olhos. E o que sentiu foi maravilhoso. A sensação da água na sua pele era extasiante. Não sabia definir, mas era diferente de tomar um banho; era como se o mar tivesse uma energia própria, e estivesse ali, transferindo para ela naquele momento. Será que todas as pessoas se sentiam assim? – Viu? – a voz de Josh cortou seu encanto, fazendo-a abrir os olhos – eu disse que não lhe faria mal. Que tal nos aproximarmos um pouquinho mais? Cordélia olhou ao redor, vendo que Nathalie e Dylan já estavam além das ondas, acenando para eles. Sentiu-se sem-graça de ter deixado transparecer suas emoções daquela forma; não gostava que ninguém soubesse seus pontos fracos, e agora aquele definitivamente era um deles: o mar. Ainda segurando firmemente a mão de Josh, mas muito mais relaxada do que antes, avançou por entre as ondas até o casal de amigos. – Superou o seu medo? – Dylan perguntou, dando uma piscadela. – Acho que sim – Cordélia respondeu sorrindo – agora só falta dar um mergulho. Seus amigos riram, e Josh prontamente atendeu seu pedido: pegou-a no colo, mergulhando com ela e emergindo em seguida. Cordélia tentou tirar o cabelo que cobria o rosto como uma cortina, e seu namorado mergulhou-a de novo para que endireitasse. 45


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– Meu cabelo fica igual palha quando estou na praia – Nathalie criticou ao seu lado – e o seu parece tão sedoso como sempre! – A vida não é justa – Josh respondeu pela namorada – Cordélia parece ser a prova disso em todos os sentidos. – Não é justo que eu esteja com você? – a ruiva perguntou, fazendo biquinho. Aproximou seu rosto do dele, olhando-o com intensidade por alguns momentos e esperando uma resposta. Só então percebeu que ele olhava-a deslumbrado. – Eu... o que? – ele gaguejou, acordando de seu transe. Dylan gargalhou, espirrando água nele. – Pare de sonhar acordado e mostre que é homem! – falou rindo, afastando-se com pressa enquanto Josh ia atrás dele. – Volte aqui, seu...! Nathalie sacudiu a cabeça em sinal de derrota. – Crianças... – olhou para Cordélia – você está bem? Cordélia a encarou, repentinamente assustada. Podia jurar que havia ouvido alguma coisa na água; não conseguia identificar, mas era quase um rosnado. Nathalie parecia não ter ouvido; olhou em volta, vendo pessoas se divertindo. Devia estar imaginando, tal como a concha que encontrara em frente à sua janela, embora ela parecesse bem real. Já estava voltando a se acalmar, quando acidentalmente olhou para cima do rochedo ao seu lado, e o que viu fez seu coração parar. Morgan. Era impossível não reconhecê-lo, com sua pele pálida e cabelos negros brilhando no sol. O que estava fazendo ali? Talvez a estivesse perseguindo, afinal. E por que esse pensamento não a incomodava nem um pouco? Havia algo errado. Ele percebeu seu olhar, pois retornou-o, e ambos se encaram em silêncio à distância. Diferente das duas vezes que o viu anteriormente, sua expressão passava longe da tranquilidade: ele estava apreensivo com alguma coisa. – Délia? – Nathalie a chamou – o que houve? Olhou para a amiga e, antes que tivesse tempo de abrir a boca para responder, uma sirene tocou. As duas ficaram confusas por um momento, olhando em volta, até que viram outras pessoas começarem a correr para sair da água. – Alerta de tubarão! – alguém gritou. 46


Capítulo 2 | Problemas com o mar E foi o caos. A água pareceu agitar-se mais com a correria, e Cordélia levou um momento para entender o que estava acontecendo. Um tubarão, ali, na praia de Bondi. Havia pesquisado sobre incidentes do tipo tão logo se mudou, e sabia que era algo pouco usual. Dois ataques haviam acontecido dois anos atrás, mas antes disso, o hiato havia sido de oitenta anos. Não podia acreditar que era tão azarada a ponto de ocorrer um ataque na primeira vez que visitava a praia em quase dez anos. – Precisamos sair daqui! – Nathalie a chamou para a realidade, sua voz demonstrando desespero enquanto a puxava por entre as ondas. Olhou em volta, vendo que Dylan e Josh já estavam mais à frente, perto da borda. Ela e Nathalie já estavam se aproximando dos dois, quando sentiu uma leve alteração na água: uma onda quebrou nas duas, mas ao invés de empurrá-la, sentiu um puxão para trás. Antes que se desse conta, soltou a mão da amiga, deixando que ela fosse na frente, ouvindo o som estranho mais uma vez: um rosnado. O tubarão. Ela estava ouvindo o tubarão. Virou-se, tentando ver a que distância o animal estava, e não teve tempo de pensar: uma onda bateu em seu corpo mais uma vez e, como se tivesse sido fisgada por um anzol, foi puxada para dentro da água com força. Não teve tempo de prender a respiração. Algo a arrastava com velocidade para longe da costa, mantendo-a mergulhada no oceano. Começou a sentir um aperto no peito pela falta de ar, a sensação de afogamento sendo relembrada da pior forma possível. Ela ia morrer. Na primeira vez que acontecera, era nova demais para ter consciência do fato, mas agora sabia. Ia morrer afogada, e iria virar comida de tubarão. Mas por que isso estava acontecendo com ela? Sua mente repassava a todo vapor os acontecimentos das últimas semanas: a mudança, seu primeiro beijo em Josh, suas compras com Nathalie, sua promessa para o pai de que ficaria em segurança. E, inexplicavelmente, pensava em Morgan. Estranho pensar em um desconhecido na medida em que perdia a consciência, sentindo o próprio corpo enfraquecer. O rosnado se intensificou. Ah, era hora de virar comida. Desejava ao menos já estar morta quando esse momento chegasse, mas não se pode escolher o próprio destino. Isso era o que seu pai costumava lhe dizer, pelo menos. Esvaziou sua mente, e a última pessoa em que pensou foi sua mãe: finalmente a conheceria, mesmo que fosse no céu. Não era religiosa, e não tinha certeza se acreditava nesse tipo de coisa, mas o conforto 47


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de pensar que poderia conhecê-la era o suficiente para que morresse com tranquilidade. Algo envolveu sua cintura. A boca do tubarão. Estranhou não sentir dor, mas deveria ter perdido o resto dos seus sentidos. Mal percebeu que seu corpo estava sendo puxado para cima, só dando-se conta quando emergiu. Podia sentir o ar fresco encostando em seu rosto, mas ele recusava-se a entrar em seus pulmões. Algo encostou em sua boca e assoprou; fez isso mais duas vezes, antes que sentisse uma ânsia de vomitar, cuspindo uma boa quantidade de água. Sua garganta ardia. Tomando coragem, sentindo seu corpo voltar a responder, abriu os olhos. E deparou-se novamente com o oceano a encarando. – Morgan...? – tentou perguntar, mas sua voz mal saiu. – Sshh – ele a silenciou – você ainda não está recuperada. Mas sentia-se melhor, e sua mente voltara a funcionar; olhou em volta, percebendo que ainda permaneciam no oceano, mas não via sinal da costa: estavam em alto-mar. Como era possível que tivesse sido arrastada para tão longe? Olhou para a pessoa que a segurava entre os braços em um aperto forte, mantendo ambos flutuando na água, e sentiu o coração disparar. Ele a salvara mais uma vez. Estava com o rosto a centímetros de distância, encarando-a preocupado, mas era ele. Se não estivesse tão mal, teria rido ao lembrar-se de como se apresentou: “Morgan, o guerreiro dos mares”. Parecia realmente servir bem a ele. Mas ao lembrar-se disso, entrou em desespero novamente. – O tubarão! – tentou falar, sua garganta ardendo com o esforço – tem um tubarão aqui... – Eu já cuidei dele – Morgan respondeu com um sorriso – não se preocupe com isso. Olhou-o incrédula, achando que sua mente estava lhe pregando peças e não havia entendido direito o que ele falara. Mas sua expressão estava relaxada novamente, parecendo que ele falava a verdade. Não era possível uma pessoa lutar com um tubarão e ainda salvar outra de um afogamento! Seu rosto deveria estar demonstrando o que pensava, pois o sorriso dele aumentou. – Você entenderá amanhã, princesa. – O que? – ela remexeu-se, ajeitando seu corpo ao dele inconscientemente – o que tem amanhã? – Seu aniversário – ele respondeu em um sussurro, como se confessasse um segredo. 48


Capítulo 2 | Problemas com o mar Cordélia arregalou os olhos, surpresa com a revelação. Não só ele sabia seu nome, como sua data de nascimento. Quem era ele, afinal? Não teve tempo de perguntar; ele apertou-a com mais força contra o peitoral musculoso, olhando para o horizonte. – Preciso te levar de volta – ele falou sem olhá-la – segure-se firme. Sem soltar os braços ao seu redor, Morgan nadou em linha reta em uma velocidade sobrehumana. Cordélia não conseguia falar, e mal conseguia absorver o que acontecia; ele nadava velozmente usando apenas os pés dentro da água, inclinando o corpo levemente para frente enquanto a carregava. Aquilo não estava acontecendo, precisava se convencer disso. Era tudo um sonho, e logo acordaria para ir para o colégio. Só a sua mente era capaz de imaginar que havia sido salva de um afogamento pelo cara que ela não tirava da mente desde que o vira pela primeira vez; definitivamente era um sonho. Mas a costa que avistava não parecia imaginação, assim como a multidão que preenchia a areia. Morgan parou ainda distante, girando-a em seus braços e passando-a para trás, de forma que ele ficasse com os braços livres enquanto ela envolvia seu pescoço. Voltou a nadar em seguida, desta vez da forma que estava acostumada a ver as pessoas nadarem: dando braçadas na água. Quando os pés dele tocaram o chão, pôde ouvir pessoas exclamando; mas Cordélia ignorou o que acontecia, pois Morgan novamente a girou, carregando-a no colo na parte rasa enquanto andava por entre as ondas fracas. Pessoas rodearam os dois, mas Cordélia não conseguia pensar; sentia-se como uma princesa, resgatada pelo príncipe encantado e sendo carregada por entre uma multidão. – Délia! – ouviu Nathalie gritar, enquanto empurrava pessoas para se aproximar. Ela trazia uma garrafa de água na mão, algo que Cordélia ansiava desesperadamente. Morgan colocou-a no chão, mas suas pernas fraquejaram; ele a fez apoiar o braço em seu ombro para que conseguisse manter o equilíbrio. Esticando o braço livre, Cordélia puxou a garrafa da mão da amiga, tão logo ela aproximou-se o suficiente. Deu longos goles, esvaziando o conteúdo quase imediatamente; seu corpo precisava daquilo, pois em instantes sentiu-se melhor. Só então concentrou sua atenção ao que acontecia: pessoas que não conhecia falavam com ela, perguntando se estava bem; outras diziam que ela precisava ver um médico com urgência; mas a maioria parabenizava Morgan, que mantinha-se calado e alheio a tudo, uma expressão inelegível em sua face. 49


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Josh e Dylan se aproximaram; Josh fez menção de abraçá-la, parando abruptamente ao olhar para Morgan, como se a presença dele o intimidasse. Mas foi uma terceira pessoa que passou pela multidão que fez os olhos de Cordélia lacrimejarem. – Pai! Soltou-se de Morgan, os braços de seu pai a envolvendo em um abraço apertado. Não fazia ideia de como ele havia chegado ali, ou mesmo de como havia sido avisado; não se importava. Seu pai era a pessoa mais importante para ela, e só de imaginar o sofrimento dele ao pensar que sua filha havia morrido afogada fazia seu coração doer. – Nunca mais faça isso comigo – seu pai murmurou, a voz embargada – nunca mais me assuste desse jeito! – Eu não vou – Cordélia respondeu, controlando as lágrimas que faziam força para sair. As pessoas ao redor aplaudiam, mas Cordélia só queria saber de sair dali. Queria ir para casa com seu pai, longe dos curiosos. Estava decidida a contar a ele tudo o que vinha acontecendo desde que se mudaram; e só então tomariam uma decisão sobre o que fazer. Estava cansada de esconder algo dele, de não contar a ninguém que estava ficando louca. Henri soltou o abraço, olhando para a filha por um momento. Seu olhar levantou-se, parando atrás dela, e Cordélia virou-se, vendo o que seu pai observava. Morgan ainda estava ali, o mesmo olhar indecifrável, sem dizer uma palavra. Pensou em como apresentá-lo: seu salvador, herói ou príncipe encantado? Mas não só para sua surpresa, como também para a de seus amigos que observavam, seu pai acenou em reconhecimento, dando um sorriso. – Faz muito tempo que não nos vemos, Morgan. O rapaz assentiu com a cabeça, mantendo a expressão séria. – Henri – ele respondeu – dezoito anos se passaram. – Eu sei – um sorriso triste tomou sua face – chegou a hora, huh? Morgan não respondeu, apenas assentiu novamente. Cordélia observava a cena confusa, os olhos piscando, enquanto olhava de um para outro. Seu pai conhecia o seu misterioso salvador, que aparentemente vinha a seguindo nos últimos dias? Antes que pudesse perguntar, seu pai olhou em volta, vendo que havia muitas pessoas, e dirigiu-se a ela. – Hum, acho que você não se lembra dele – de repente, Henri pareceu sem-graça – este é o Morgan. Ele é... Hã, sobrinho da sua mãe. 50


Capítulo 2 | Problemas com o mar Cordélia não saberia definir a quantidade de emoções que sentiu naquele momento, e nem qual se destacava mais em sua expressão; provavelmente o choque. Olhou para Morgan, que lhe deu um sorriso de tirar o fôlego; sem absorver aquela história, sentiu seu coração disparar. Ele era seu primo?! – Vamos sair daqui – seu pai falou rapidamente, pegando-a pelo braço. Começaram a andar, mas Henri virou-se uma última vez – nos vemos mais tarde, certo? Morgan assentiu, e Henri continuou o trajeto por entre as pessoas, antes que Cordélia tivesse a chance de falar algo. Não teve tempo de se despedir de seus amigos, pois seu pai a arrastava apressado até onde o carro estava estacionado, só parando para pegar a mochila da filha que estava na mão de Nathalie. Naquele instante, viu uma van de um canal de televisão parando a alguns metros. – Vamos para casa, por favor – ela murmurou, assustada que pudessem entrevistá-la por quase ter se afogado; não queria aparecer na televisão por um motivo tão estúpido. Henri deu a partida, permanecendo em silêncio enquanto dirigia para Tamarama. Cordélia estava cheia de perguntas, mas as principais eram sobre Morgan; como ela nunca o havia conhecido em toda a vida? Seu pai havia lhe dito que não possuíam parentes, e ela sempre acreditara nisso. – Então... – tentou começar – quer dizer que eu tenho um primo? Seu pai não respondeu imediatamente. Estacionou o carro na porta de casa, desligando o motor e dando um longo suspiro. – Morgan não é seu primo – ele respondeu. Cordélia o olhou confusa. – Mas você disse... – Eu precisei dizer, pois tem certas coisas que as pessoas de fora não precisam saber – ele falou, a cortando – está na hora de termos uma conversa que eu vim adiando por dezoito anos. Assentindo fracamente, Cordélia o acompanhou quando saiu do carro. Ao longe, viu o sol se pondo, e sabia que a noite não terminaria tão cedo; não enquanto não tivesse todas as suas perguntas respondidas.

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Capítulo 3 Esclarecimentos

Os ponteiros do relógio de parede da cozinha pareciam mover-se lentamente. Pelo que deveria ser a milésima vez, Cordélia suspirou; desde que chegaram da praia de Bondi seu pai não falara uma única palavra. Achou que ele precisava de um tempo para organizar a mente após quase ter perdido a própria filha, por isso, tomou um banho lento para limpar-se da água do mar e preparou o jantar demoradamente, cozinhando um ensopado e preparando uma salada. Comeram em silêncio, e agora estavam ali: Henri olhava para um ponto vazio além do balcão, e Cordélia encarava o relógio em formato de peixe; lembrou-se de quando o compraram: era o segundo dia que estavam na Austrália, e todo aquele clima tropical fez os dois adquirirem enfeites para casa naquele estilo. Mas agora nada daquilo parecia ter importância; queria respostas, e queria logo. – Como você soube... – ela começou – bom, como chegou na praia? Silêncio. Olhou novamente para o relógio: já passava das onze da noite. Seu pai parecia estar esperando alguma coisa, e temia que entrassem madrugada à dentro daquela forma. 52


Capítulo 3 | Esclarecimentos – Sua amiga me ligou – ele falou, ainda sem olhá-la – estava chorando desesperada, pedindo que eu fosse para lá. Não me pergunte como ela conseguiu meu telefone, só sei que dirigi feito louco até Bondi. – Desculpe por isso – sussurrou – você deve ter ficado muito mal. – No começo sim – ele confessou – mas tive esperanças de que você voltaria sã e salva. Cordélia mordeu o lábio inferior, pensando em como realizar sua próxima pergunta. Mas seu pai continuou falando, como se aquele tivesse sido o gatilho para que começasse. – Eu devo ser o pai mais sortudo do mundo – ele falou com voz amarga – minha filha vem sendo protegida durante dezoito anos e, ainda assim, eu me desespero quando penso que ela está em perigo. – Do que você está falando...? – Cordélia sussurrou a pergunta. – Morgan – ele resumiu em uma palavra – ele vem a protegendo durante toda a vida, e eu já devia ter aprendido a confiar nele a essa altura. Cordélia o olhou confusa, sem compreender do que falava. Só havia conhecido Morgan a menos de um mês, e seu pai não sabia do fato; então, ao que se referia? Ouviram um som vindo da sala, e prontamente seu pai se levantou. Cordélia assustou-se no mesmo momento, pensando tratar-se de ladrões, mas Henri parecia calmo enquanto caminhava até o cômodo. Seguiu-o de perto, e novamente surpreendeu-se: Morgan estava parado próximo à porta da varanda com uma expressão tranquila, como se fosse a situação mais normal do mundo ele estar ali. – O que... – Cordélia tentou falar, mas seu pai se adiantou. – Que bom que você chegou – Henri parecia aliviado – eu não sei por onde começar. – Ainda não contou a ela? – Morgan perguntou, levantando uma sobrancelha. – Alguém pode me explicar o que está acontecendo? – Cordélia perguntou quase gritando, começando a se irritar com todo aquele mistério. Henri e Morgan trocaram um olhar cúmplice; o rapaz então direcionou-se a ela. – Que horas são? – perguntou. Surpresa com a pergunta, Cordélia voltou para a cozinha, olhando no relógio da parede. Retornou para a sala respondendo. 53


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– Quinze para meia-noite. – Vamos dar uma volta – Morgan falou, andando até a porta. Parou, vendo que Cordélia ainda estava no mesmo lugar – você não vem? Atônita, a garota olhou para o pai, que parecia conformado com a situação; ele assentiu levemente com a cabeça para que ela acompanhasse Morgan. – Vá com ele – falou – e depois poderemos conversar melhor. Sabendo que correria o risco de ficar sem respostas se não obedecesse, Cordélia andou a passos largos pela sala, passando pelo portal em direção à rua. A noite estava fresca, com uma leve brisa no ar compensando o calor do dia. Morgan estava logo atrás, e deixou que ele passasse sua frente, guiando o caminho. Os dois caminharam pela Avenida Gaerloch em silêncio, descendo as escadas que levavam aos rochedos que beiravam o mar. Quando pararam, em cima de uma pedra alta, Cordélia olhou para a rua, vendo que a iluminação era tão fraca que, mesmo que algum morador estivesse na janela olhando, não seria capaz de vê-los. Olhou atentamente para Morgan; parecia calmo e um tanto satisfeito, como se estivesse aguardando aquele momento chegar. Seu coração disparava loucamente por estar ao seu lado, mas procurou se controlar, pois queria respostas para as perguntas que tinha em mente. – Quem, afinal, é você? – disparou, sem conseguir se conter. Recebeu um sorriso misterioso em resposta. – Paciência é uma virtude – ele respondeu, calando-se por alguns instantes antes de perguntar – o que você sabe sobre a sua mãe? Cordélia piscou confusa, pega de surpresa pela pergunta. – Diga-me você, já que parece saber tanto da minha vida – respondeu de forma defensiva. Não gostava de ser lembrada que sabia muito pouco sobre a própria mãe; seu pai evitava tocar no assunto toda vez que tentava descobrir mais. Morgan não pareceu notar seu humor, pois sorriu calmamente. – O nome dela era Corália, a “Donzela dos Mares” – ele citou respeitosamente, sua voz séria e solene – filha do Rei Tritão e Princesa de Atlântida. Levou alguns momentos para que Cordélia absorvesse o que ele dizia. E, quando o fez, ficou mais confusa ainda. – Nunca se perguntou por que você é tão atraente para os homens? – 54


Capítulo 3 | Esclarecimentos Morgan continuou, aproximando-se dela – por que você consegue tudo facilmente com um único olhar, um único pedido? Ele parou a centímetros de distância, olhando-a intensamente. Cordélia prendeu a respiração, seus batimentos cardíacos aumentando; a proximidade de Morgan deixava-a sem reação, mas tentou desesperadamente pensar em algo para responder. – Hã... Por que eu tenho sorte? – respondeu em um fio de voz. Morgan negou lentamente com a cabeça, sem quebrar o contato visual. Inclinou o rosto, quase encostando seus lábios aos dela. – Não – ele sussurrou – Você é muito mais especial do que pensa, Cordélia. As mãos dele envolveram sua cintura, e Cordélia sentiu seu corpo inteiro arrepiar-se com o toque. – Está na hora de você descobrir quem é de verdade – ele completou. Antes que tivesse a chance de se mover, Morgan a pegou no colo e pulou no mar logo abaixo deles. Pega de surpresa, Cordélia não reagiu, sentindo o choque ao entrar em contato com a água morna, ainda envolvida pelos braços dele. Tentou se soltar, mas ele a manteve presa enquanto afundavam cada vez mais, até atingirem o solo; não imaginou que a profundidade naquela área fosse tão grande, mas não estava conseguindo pensar. Teria prestado atenção ao fato de que, mesmo sendo de noite, visualizava Morgan perfeitamente embaixo d’água, se seu desespero não estivesse aumentando por estar ficando sem ar. Mas Morgan parecia calmo; um sorriso divertido estava em seu rosto enquanto a observava. Não podia acreditar que a pessoa que a salvara estava agora tentando afogá-la; e seu pai confiara nele! Queria dizer tudo aquilo, acusá-lo de tê-la enganado, mas o ar se esvaía de seus pulmões com velocidade. Quando não mais conseguiu aguentar, abriu a boca, pronta para a própria morte. Só que, diferente do que pensou, não sentiu a sensação de afogamento. Surpresa, olhou para Morgan, cujo sorriso aumentara; via seus dentes resplandecendo, assim como seus olhos, brilhando em uma tonalidade mais clara que o mar naquele momento. – Não tenha medo, princesa – Morgan falou e, para a surpresa de Cordélia, conseguia ouvi-lo com clareza – isso é o que você é. Ele soltou-a, deixando que encostasse os pés no solo. Cordélia boiou no mesmo lugar, os olhos arregalados de medo, enquanto observava-o melhor; havia alguma coisa em seu pescoço que antes não reparara: 55


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parecia uma mancha, em ambos os lados. Mas o que fez seu coração parar com o susto foi perceber suas pernas: da bainha de sua bermuda para baixo a pele dele estava acinzentada, parecendo coberta de escamas; seus pés haviam sumido, e no lugar, parecia um acessório típico usado por mergulhadores, os chamados “pés-de-pato”. Se antes tinha dúvida de que estava enlouquecendo, agora confirmava de que seu estado mental estava abalado. E, para incrementar mais ainda sua alucinação, sentiu as próprias pernas começarem a aquecer. Olhou para baixo, vendo sua pele brilhar e transmutar-se: da cintura para baixo, sua roupa sumiu; estava com uma cauda de peixe enorme, coberta por escamas de uma tonalidade azul escura, mas que parecia cintilar em um azul mais claro dependendo da intensidade da luz. Tentou mover os próprios pés, acreditando que a cauda era uma alucinação; mas ao invés, sua barbatana se mexeu, fazendo-a girar no mesmo lugar. Começou a se desesperar: se aquilo era um sonho, a melhor hora para para acordar era aquela. Mas Morgan pareceu ignorar seus anseios, pois deu uma risada enquanto a observava. – Vai se acostumar a mover-se com ela – ele comentou – acho que essa é uma boa hora para explicações, certo? Cordélia o encarou, muda. Quando tentou falar, surpreendeu-se por conseguir, sua voz saindo límpida embaixo d’água. – O que... O que você fez comigo? – gaguejou, fazendo-o rir. – Eu não fiz nada, princesa – ele explicou – essa é a sua verdadeira forma. A garota permaneceu o encarando, tentando absorver toda aquela loucura. – Minha verdadeira.... – murmurou para si mesma, a ficha finalmente caindo – você só pode estar brincando! Morgan gargalhou. Ele definitivamente parecia estar se divertido com tudo aquilo, contrastando com o desespero da garota. – Você é uma sereia, Cordélia, a Descendente do Mar – ele falou com o mesmo tom solene de antes – e não só isso, mas também a Princesa Herdeira do trono de Atlântida e futura governante dos mares. Cordélia achou que ia desmaiar. Por que ainda não acordara? Aquele sonho estava se estendendo demais! Como se estivesse refutando sua teoria, Morgan aproximou-se, segurando sua mão, fazendo com que seu coração disparasse loucamente. Para ter aquela reação, Morgan só podia ser real; jamais conseguiria reproduzir a sensação que ele lhe causava em um sonho. 56


Capítulo 3 | Esclarecimentos Com a proximidade dele, Cordélia observou melhor o que antes pensava ser manchas em seu pescoço; eram na verdade pequenas membranas esburacadas, por onde a água entrava e saía. Levou a mão livre ao próprio pescoço, tateando e sentindo o mesmo na própria pele. – São suas guelras – Morgan respondeu antes que perguntasse – vão aparecer junto das suas barbatanas quando estiver no mar. Tudo aquilo era demais para Cordélia; fechou os olhos e retraiu o corpo, como se estivesse tentando se defender de algo. Queria desesperadamente sair dali e visitar um hospital psiquiátrico. Morgan a olhou com cautela, esperando por alguma reação. Ao ver que ela não mais se movia, envolveu seu corpo, nadando até a superfície carregando-a. Quando emergiram, Cordélia puxou o ar, tendo certeza de que seus pulmões estavam funcionando novamente. Olhou assustada para Morgan, mas suas guelras haviam desaparecido. Ele a pegou no colo sem dificuldade e, em um impulso, pulou até uma das rochas, saindo completamente do mar. Cordélia piscou algumas vezes, tentando entender como ele havia feito aquilo; estavam boiando na água e não havia lugar para dar impulso para um salto. Mas aquela era apenas mais uma das peças que sua mente lhe pregava, obviamente. Olhou para a própria cauda, vendo-a brilhar e transmutar-se em suas pernas, a bermuda voltando a aparecer. Flexionou os pés para ter certeza de que conseguiria andar novamente; depois, olhou para baixo, esperando ver as barbatanas de Morgan, mas suas pernas estavam humanas novamente. – O seu corpo reagirá naturalmente à água do mar – Morgan explicou enquanto a colocava em pé – com o tempo, você terá controle da sua transformação, e poderá ter sua cauda em água doce, ou suas pernas quando estiver no oceano. Cordélia não se afastou, mantendo-se entre os braços dele, sentindo seu coração acelerar novamente. Era ridículo que ainda estivesse atraída por ele depois do que acabara de ver; mas pensando bem, ela própria tinha barbatanas minutos antes. Fechou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar; se estava mesmo imaginando tudo aquilo, então, não havia mal em descobrir até onde aquela história iria. – Melhor? – Morgan perguntou, vendo-a silenciosa – achei que a essa altura você estaria me bombardeando de perguntas. Cordélia o encarou em silêncio e, lentamente afastou-se, sentando em uma das pedras longe da água. Morgan fez o mesmo, esperando 57


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pacientemente que ela começasse. Quando havia organizado sua mente o suficiente, Cordélia fez sua primeira pergunta. – O que é você? – Eu sou um tritão – ele respondeu prontamente – toda a espécie masculina do povo do mar é designada assim, enquanto as fêmeas são chamadas de sereias. – O que é... “o povo do mar”? – Cordélia aproveitou a deixa para descobrir o máximo possível. Para essa pergunta, Morgan calou-se por alguns instantes, formulando uma resposta. – Os humanos possuem lendas sobre a própria origem, certo? – ele começou – nós também possuímos. Já ouviu falar em Zeus e Poseidon? Cordélia assentiu. – São deuses gregos. – Isso. Zeus era o deus dos trovões e governava o céu, enquanto Poseidon era o deus dos mares e governava os oceanos. Ambos eram irmãos e estavam sempre em divergência sobre as escolhas que deveriam ser feitas. A principal foi quando Zeus resolveu dar uma centelha de seu raio para a raça humana, que foi chamada de “racionalidade”. Ela era necessária para que os humanos se tornassem seres pensantes e pudessem dominar as outras espécies, uma vez que não possuíam um habitat reservado para eles. Morgan fez uma pausa, tendo certeza de que Cordélia estava acompanhando. A garota absorvia sua fala, cada vez mais interessada pelo que ele contava; sempre sentiu uma atração pela mitologia grega, e lembrava vagamente de já ter lido algo similar. – Pois bem, isso não agradou Poseidon, pois os domínios de Zeus estavam avançando do ar para a terra. Além disso, os humanos idolatravam o deus dos trovões por este ter provido a tão necessária sabedoria. Enfurecido, Poseidon afundou a cidade de Atlântida que, à época, era a civilização mais avançada que existia, talvez mais do que qualquer uma que existe nos dias atuais. Inspirado pelo irmão, Poseidon concedeu parte de seus poderes aos habitantes para que eles fossem capazes de viver embaixo d’água. – Metade peixe, metade humano – Cordélia sussurrou, entendendo onde aquela história ia chegar. – Isso mesmo – Morgan assentiu – e assim foi criado o povo do mar. Mas para não interferir diretamente em sua evolução, Poseidon achou justo se retirar da vivência, indo morar no monte Olimpo com 58


Capítulo 3 | Esclarecimentos os outros deuses. Mas antes, ele tratou de ter um filho com a habitante mais bela de Atlântida, chamada Anfitrite, a fim de perpetuar seu sangue divino por seus descendentes. Dessa união nasceu Tritão, que foi considerado o deus dos abismos oceânicos durante muitos séculos. – Então quando você se referiu ao “rei Tritão”... – Cordélia tentou formular – estava se referindo ao filho de Poseidon? Morgan negou com a cabeça. – Não. O título “rei Tritão” é dado ao descendente que sobe ao trono e exerce o poder de governar o mar, perpetuando a linhagem divina de Poseidon para comandar o nosso povo – ele fez uma pausa, escolhendo as palavras – o último rei Tritão que tivemos gerou uma filha, Princesa Corália, a Donzela dos Mares. – Minha... mãe... – Cordélia murmurou, incrédula. – E essa Princesa teve uma filha... você – ele completou cuidadosamente – a futura herdeira do trono de Atlântida, última Descendente Real com o sangue de Poseidon correndo nas veias. Cordélia apoiou a cabeça sobre os joelhos dobrados, tentando raciocinar. Se o que Morgan dizia era verdade – e até aquele momento estava parecendo que sim, apesar de suas desconfianças –, significava que ela própria era uma princesa. Dezenas de perguntas inundaram sua mente com aquela constatação: o que fazia ali? Por que nunca soube sobre o povo do mar? Onde estava sua mãe, seu avô ou outros familiares? E, com um baque, analisou a expressão dita por Morgan: “última descendente”. O que havia acontecido? Sua expressão deveria tê-la denunciado, pois Morgan lhe deu um sorriso consolador. – Você terá muito tempo para ouvir as respostas que procura, princesa – ele falou – eu não irei a lugar algum. E, por hora, acho que seria bom que descansasse, já que muitas coisas foram ditas, mas poucas foram absorvidas. Ele estava certo; Cordélia estava sentindo que sua mente iria explodir se continuasse recebendo tanta informação de uma vez. Mas não se conteve em realizar outra pergunta. – Por que você? Digo, por que não outra sereia ou tritão está aqui comigo, me explicando todas essas coisas? Um brilho orgulhoso surgiu no olhar do rapaz. – Eu sou seu guardião, princesa. Fui designado para guiá-la e protegê-la desde o dia em que nasceu – ele abriu um sorriso – e antes que pergunte, eu sempre estive por perto para executar minha função, mas nunca deixei que me percebesse. 59


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Cordélia engoliu em seco, sentindo seu coração disparar com o que ouvira. Se estava pensando corretamente, significava que Morgan a vira crescer, de criança até o momento atual. Um sentimento de vergonha preencheu-a por completo ao imaginar quantas situações embaraçosas ele já deveria ter visto-a passar. – Você... Por que só agora? – não conseguiu deixar de perguntar. – Há um motivo para que tenha vivido com os humanos desde que nasceu, princesa, mas contarei quando estiver mais calma – ele falou pacientemente – e você não podia saber sobre mim ou sobre o que era antes que completasse dezoito anos e pudesse tomar sua forma de sereia. Caso contrário, acharia que eu era um louco. – Ainda acho que eu estou enlouquecendo – Cordélia falou ironicamente enquanto se levantava. Sem conseguir se conter, disparou o que vinha passando em sua mente – você deixou que eu flertasse com você! Ele piscou algumas vezes, olhando-a confuso enquanto punha-se de pé. – Como? – Você... Você... Caramba, poderia ter me dito antes que era meu guardião! Estou me sentindo idiota por ter flertado com um tritão. Ele pareceu fazer força para não rir. – Foi divertido – diante do olhar enfezado de Cordélia, ele completou – eu lhe disse que princesas deveriam ser mais recatadas. – Eu não sabia dessa história de princesa! – ela se defendeu – aliás, nem sei se já engoli tudo isso. – Vá dormir – ele sugeriu – quando acordar, se sentirá melhor e Henri poderá conversar com você. Cordélia o olhou atônita. – Meu pai... – murmurou chocada – o quanto ele sabe disso tudo? Morgan pensou por um momento. – Ele sabia que sua mãe era uma sereia – o rapaz confirmou – e, apesar de não ter muitas informações relevantes sobre o nosso povo, ele ainda tem algumas coisas para lhe contar, que a própria Princesa Corália informou. A garota deixou o olhar se perder na noite. Seu pai sabia todo aquele tempo que, em algum momento, ela teria barbatanas. Porque manteve escondido? Por que nunca contou nada sobre sua mãe, sobre ela ser uma sereia? 60


Capítulo 3 | Esclarecimentos – Ele precisou manter segredo para protegê-la – Morgan falou, como se adivinhasse seus pensamentos – não o julgue por isso. Antes, entenda suas razões e analise com cuidado tudo o que ele lhe contar. Cordélia o olhou especulativamente, enquanto caminhavam de volta para casa, lado a lado. – Quantos anos você tem? – ela perguntou, deixando a curiosidade tomá-la. Um sorriso divertido tomou a face do rapaz. – Por que quer saber? – Estou curiosa – ela explicou – você parece novo, mas fala como um velho. Ele gargalhou. – Há muitas coisas sobre o povo do mar que você ainda aprenderá, mas uma delas é que nossa vida é bem longa – ele contou – a média é trezentos anos. Cordélia parou de andar. – Tre... Trezentos anos? – gaguejou, assustada. – Sim. E nós nos desenvolvemos diferente dos humanos. Nossa aparência não muda com frequência depois que atingimos a idade adulta, só alterando-se a cada cinquenta anos. – Ca-ram-ba – Cordélia soletrou, sacudindo a cabeça – mas você não respondeu minha pergunta inicial. Quantos anos você tem? Ainda sorrindo divertido, ele aproximou-se, inclinando o rosto para sussurrar em seu ouvido. Os lábios dele roçaram ligeiramente na orelha de Cordélia, causando arrepios pelo corpo inteiro. Após um silêncio cheio de expectativa, sussurrou suavemente: – Vinte e quatro. Ao afastar o rosto, ele deu uma piscadela, e Cordélia percebeu que ele vinha brincando com ela. – Seu bobo – ela murmurou sem-graça, fazendo-o gargalhar – você não é muito mais velho do que eu. – Mas cresci de forma diferente de você – ele falou, parando quando chegaram em frente à porta – depois lhe conto sobre como uma criança-peixe se desenvolve. Apesar da curiosidade levantada pelo termo “criança-peixe”, Cordélia sentiu seus olhos pesarem quando colocou a mão na maçaneta. Não adiantava prolongar a conversa, pois logo seu cérebro se desligaria sozinho. Virou-se para Morgan, que estava parado observando-a. 61


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– Vai entrar? – perguntou inocentemente; onde ele vinha dormindo? Ele negou, sem tirar a expressão de divertimento da face. – Minha casa é o mar, princesa. E logo você se dará conta de que também é a sua – ele inclinou-se novamente, aproximando seus rostos e, no último momento, desviando para sussurrar em sua orelha – boa noite, princesa. Sentindo arrepios outra vez, com o coração acelerando, Cordélia se viu incapaz de responder. Assentiu fracamente com a cabeça, entrando em seguida e encostando a porta atrás de si. Apoiou as costas na madeira, fechando os olhos e respirando fundo. Mesmo com tudo que ele contara, mesmo tendo-o visto com barbatanas, ainda sentia a mesma atração de quando o vira pela primeira vez, três semanas antes. E ainda desejava ardentemente beijá-lo. Mas não podia. Aquela história inteira de ser sereia talvez fosse verdade, mas não mudava o fato de que tinha uma vida como humana, e um namorado para comprovar. Pensou por um momento no que seus amigos diriam se a vissem com barbatanas; provavelmente eles se internariam em um hospício. Quase riu com o pensamento, mas logo entristeceu-se; jamais poderia contar sobre aquilo para ninguém. Agora entendia seu pai ter apresentado Morgan na praia como sendo seu primo; se nem ela própria havia entendido o papel dele como guardião, imagine outras pessoas. Seu pai. Olhou em volta, andando pelo corredor até a sala à sua procura, e encontrou-o dormindo no sofá; deveria ter cansado de esperar e acabou adormecendo ali. Observou-o carinhosamente por alguns momentos; se seu pai havia mantido segredo durante todos aqueles anos, deveria ter um bom motivo por trás. Eles nunca mentiam um para o outro, mesmo que a verdade fosse difícil de ser ouvida. Morgan tinha razão, ela precisava conversar com Henri antes de se enraivecer por ele não ter contado nada antes. Andou de forma automática para o quarto, entrando no banheiro e tomando um banho para limpar a água do mar. Vestiu um blusão velho de dormir, que já estava curto para sua altura; como ninguém nunca a via de pijama além de seu pai, tendia a ignorar aquela parte de seu vestuário de uma possível lista de renovação. Pendurou as roupas molhadas no cabide de toalha, percebendo que aquela era uma comprovação de que não sonhara: ela era uma sereia. Parou em frente ao espelho, observando a própria imagem. Sempre se considerou bonita; usava como comparação imagens de atrizes e modelos que via em revistas e, apesar de não ser tão alta e magricela 62


Capítulo 3 | Esclarecimentos como as que apareciam na mídia, sabia que era bela fisicamente para uma jovem de estatura mediana. Seu rosto sempre chamara a atenção de todos à sua volta, principalmente por conta de seus olhos grandes, como de uma boneca, em uma cor que considerava especial. Às vezes tinha momentos narcisistas em que passava incontáveis minutos olhando o próprio reflexo, tentando encontrar um defeito aparente: mas não possuía. Seu nariz era pequeno e delicado, formando um ângulo perfeito com o resto do rosto fino e sem nenhuma marca; nunca nem mesmo teve uma espinha, um milagre após passar pela adolescência. Sua pele era branca leitosa, dando uma aparência aveludada e, apesar da falta de melanina e do cabelo ruivo, não possuía uma única sarda. Humanos não tinham uma aparência tão perfeita. Humanos possuíam defeitos. Mas em seus momentos narcisistas, ignorava tudo isso, consideram-se diferente das pessoas normais, mas de uma forma boa. E agora, entendia o motivo de não ser como os outros: era uma sereia. Conhecia poucas lendas a respeito desses seres: muitas eram sobre homens – marinheiros na maioria – que se encantavam por elas e perdiam a vida no mar buscando-as. Mas nunca imaginou que fosse real; pior, nunca imaginou que ela própria seria uma. E podia muito bem entender a parte do encantamento exercido no sexo oposto: não só já experimentara, como utilizava com frequência essa habilidade. Pelo menos agora tinha certeza que não era como as pessoas normais. Mas por que era assim? Pensou em tudo o que Morgan lhe contara sobre a origem do povo do mar. Por um momento, cogitou se não era atraente por possuir o sangue do deus Poseidon no corpo, mas logo descartou a ideia; todas as sereias exerciam esse tipo de atração, mas não vinham de uma linhagem divina. Era tão estranho pensar em si mesma como uma princesa e possuidora do sangue de um deus... Mesmo que não fosse verdade, que fosse apenas uma lenda, era divertido pensar a respeito. Principalmente porque não descartava completamente a veracidade da história: se as sereias existiam, por que não os deuses gregos? Quantas outras lendas no mundo poderiam ser verdade? E acreditava que todos os habitantes do mar seriam atraentes como ela; não só pelas lendas sobre sereias, mas também por causa de Morgan, claro. Ele era lindo: podia ainda não ter passado muito tempo ao lado dele, mas nos poucos momentos que tiveram juntos, não conseguiu visualizar um único defeito em sua aparência. Seu rosto era másculo, mas a pele era branca aveludada como a sua, passando certa delicadeza; seus olhos eram de um azul tão profundo como o oceano, 63


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e não se cansava de encará-lo apenas para se perder naquele mar que carregava em suas órbitas; o nariz reto e perfeito, a boca carnuda e rosada, que desejava tão incessantemente beijar... Sacudiu a cabeça, desesperada para afastar aquele pensamento. Podia se sentir atraída, algo que, pensando agora, era perfeitamente normal. Afinal, se sereias eram capazes de atrair homens, tritões deveriam ser capazes de atrair mulheres. Mas, ao sentar-se na cama, deu-se conta de que ela própria não era humana, mas uma sereia; logo, não deveria se sentir tão atraída por sua beleza. Talvez fosse a falta de costume de ter alguém tão perfeito por perto; com o tempo e, de repente, com a vivência junto a outros seres do mar, perderia o encanto que sentia por ele. Convenceu-se de que logo passaria. Estava encantada por ele nas últimas três semanas por nunca ter visto ninguém como ela, nada mais. Tinha um belo namorado humano a quem poderia dedicar sua afeição, e não precisava de confusões envolvendo seu guardião. Olhou para o teto, pensando no que aquilo significava: qual era sua verdadeira função? Segundo o próprio Morgan, era guiá-la e protegê-la; mas do que precisava ser protegida? De um afogamento...? Ficou confusa por um momento. Se ela era uma sereia, como quase se afogou na tarde anterior? E por que quando Morgan jogou-a no mar surgiram guelras e barbatanas que nunca apareceram antes? Procurou relembrar cada trecho da conversa que tiveram; ele comentou algo sobre ela completar dezoito anos e tomar sua forma de sereia. Talvez fosse isso; enquanto não fizesse aniversário, não saberia nadar. Já havia passado da meia-noite quando Morgan a levou para a água; mas se fosse mesmo questão de completar exatamente dezoito anos, teria que se levar em conta a hora em que nasceu, e mais todos os anos bissextos e as horas que sobravam... Sua cabeça girou. Estava pensando demais, e precisava dormir. Já era meio da madrugada e estava convencida a não ir para o colégio; comemoraria seu aniversário com os amigos no sábado, e não via necessidade de assistir aulas quando tinha tantas dúvidas a tirar sobre seu novo status de sereia. Além disso, teria um dia cheio pela frente, onde conversaria com seu pai – que lhe devia muitas explicações – e novamente com Morgan, de quem não extraíra nem metade das respostas que procurava. E toda vez que pensava no rapaz, seu rosto vinha à mente, como se para assombrá-la. Precisava parar com aquela obsessão, pois não era nada saudável. Se ele era seu guardião, significava que estaria sempre por perto, principalmente agora, quando tinha tanto o que aprender 64


Capítulo 3 | Esclarecimentos sobre as próprias origens. Evitava confusões amorosas, especialmente com alguém que interagiria com ela e seu pai; não precisava de mais problemas. Havia sido estupidez flertar com ele descaradamente antes, mas não cometeria o mesmo erro outra vez; antes não sabia sobre quem ele era, mas agora que estava ciente, precisava cortar o mal pela raiz. Não tinha por que se sentir atraída por um rapaz que a viu crescer... Morgan provavelmente a via como uma irmã, o que era um péssimo sinal caso se interessasse de verdade por ele. Tinha o Josh, um namorado que era completamente louco por ela; e era bom ter alguém se dedicando tanto a agradá-la como ele. Mas ao fechar os olhos para dormir, foi a imagem de Morgan que preencheu novamente sua cabeça; foi a lembrança de seu toque quando envolveu-a entre seus braços que relaxou seu corpo; foi o arrepio causado pela sua boca sussurrando em seu ouvido que a fez dormir tranquilamente pela primeira vez desde que se mudara, esquecendo toda a confusão que sua vida agora se tornara.

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A herdeira do mar, ize chi kiohaan  

Sinopse: Cordélia Dolphin é uma adolescente quase normal: ela e seu pai já moraram em diversos países por conta do trabalho dele, e dessa ve...

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