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Escola Secundária c/ 3º Ciclo Henrique Medina

Metas Curriculares de Português Ensino Básico 3º Ciclo

CADERNO DE APOIO POESIA

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Biblioteca Escolar


VIDA E OBRA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013) BIOGRAFIA Nascido em Faro em 1924 — faria 89 anos a 17 de Outubro —, António Ramos Rosa frequentou ali o liceu, mas, por razões de saúde, não terminaria os estudos secundários. Uma escassez de estudos formais que a sua avidez de leitor não tardou a compensar largamente. Trabalhou algum tempo como empregado de escritório — experiência que inspirou o célebre Poema de Um Funcionário Cansado, incluído no seu livro de estreia —, ao mesmo tempo que dava explicações de português, inglês e francês e traduzia autores estrangeiros, primeiro para a Europa-América e depois para outras editoras. Envolveu-se, logo após o final da segunda guerra, na oposição ao salazarismo, militando no MUD Juvenil e participando em manifestações. Nos anos 50 ajudou a fundar e coordenou várias revistas literárias, incluindo Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia, nas quais colaborou com textos de crítica literária e poemas. Embora publicasse poemas em revistas desde o início dos anos 50, o seu primeiro livro só saiu em 1958, aos 34 anos. Mas a partir desta estreia algo tardia, nunca mais deixará de editar poesia a um ritmo impressionante. Se O Grito Claro é ainda aproximável do neo-realismo, mesmo que já com tonalidades muito peculiares, a escrita de Ramos Rosa não tarda a destacar-se quer deste movimento, quer das inevitáveis influências do surrealismo, enveredando pelo caminho de uma poesia mais elementar, deliberadamente ancorada, sobretudo nos livros iniciais, numa certa rarefacção vocabular. Uma característica que, a par da própria extensão da obra, terá ajudado a gerar o equívoco de que esta seria uma poesia monocórdica. Nada mais falso. Sem detrimento da sua consistência enquanto obra, e mesmo essa talvez mais resultante da fidelidade a um percurso do que propriamente da reincidência de tópicos obsessivos (que também existe), a poesia de Ramos Rosa não só tem ciclos muito marcados como é mais variada, do ponto de vista formal e discursivo, do que se poderia pensar. Bastante indiscutível é a importância de António Ramos Rosa, quer como poeta quer como crítico, para a evolução da poesia portuguesa (e do gosto dos respectivos leitores) ao longo dos anos 60 e no início da década seguinte. Na atenção à materialidade do texto, numa dimensão política que dispensava a explicitude do neo-realismo, no rigor construtivo, até numa certa contaminação filosófica, a poesia de Ramos Rosa tinha, nos anos 60, afinidades bastante óbvias com poetas como Carlos de Oliveira ou Gastão Cruz. No entanto, foi-se tornando nela cada vez mais insistente a procura de uma espécie de voz original que pudesse cantar o mundo ao mesmo tempo que o criava. E se durante algum tempo a sua poesia ainda inclui explicitamente, como um dos seus tópicos, o fracasso desse impossível retorno à origem, vai depois tornarse, cada vez mais, um hino reconciliado e extasiado com a diversidade exultante do real, uma música que destaca a sensualidade das formas — de uma mulher, de uma planta, de um curso de água, do flanco de um cavalo, mas também das próprias palavras — ao mesmo tempo que ela própria contribui para erotizar o mundo.

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POEMAS INDICADOS NAS METAS CURRICULARES DO ENSINO BÁSICO

“Não posso adiar o amor” Não posso adiar o amor para outro século não posso ainda que o grito sufoque na garganta ainda que o ódio estale e crepite e arda sob as montanhas cinzentas e montanhas cinzentas Não posso adiar este braço que é uma arma de dois gumes amor e ódio Não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas e a aurora indecisa demore não posso adiar para outro século a minha vida nem o meu amor nem o meu grito de libertação Não posso adiar o coração

“Para um amigo tenho sempre” Para um amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo de algibeira. Mas esse relógio não marca o tempo inútil. São restos de tabaco e de ternura rápida. É um arco-íris de sombra, quente e trémulo. É um copo de vinho com o meu sangue e o sol. In Viagem através duma Nebulosa

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Proposta de Análise do poema

“Não posso adiar o amor” O poema seleccionado tem como título “Não posso adiar o amor” e o seu autor é António Ramos Rosa. Do ponto de vista formal, o poema não apresenta uma estrutura estrófica e métrica regular. Análise interna O tema deste poema é certamente o amor. Nele fala-se de um amor inadiável e o modo como influencia a vida do poeta. A ideia de que o amor é inadiável, apresentada desde logo no título, está presente ao longo de todo o poema e é bem visível na construção anafórica do poema, em que o 1º verso de cada estrofe repete a expressão “não posso adiar”. Desta forma o sujeito poético afirma a sua incapacidade de negar o amor, uma vez que o amor surge no poema como sinónimo de vida e de liberdade. Outro aspecto a salientar no poema é a existência de duas forças opostas, sendo elas o amor e o ódio. Vários são os elementos negativos que vão surgindo ao longo do poema: o grito que sufoca a garganta; o ódio que estala; sob montanhas cinzentas; a noite que pesa séculos sobre as costas, como se nunca acabasse; “a aurora indecisa” que demora a chegar, como se a esperança de um novo dia nunca se concretizasse. A todos estes elementos, o sujeito poético contrapõe o amor como se fosse um abraço, “uma faca de dois gumes”, que pudesse conciliar, ou melhor, fazer uma ponte, uma ligação entre o amor e o ódio. O sujeito poético termina afirmando a sua incapacidade de adiar o amor, ou seja, a vida, reclamando uma existência em que a liberdade esteja no centro da sua vida “não posso adiar para outro século a minha/ vida/ nem o meu amor/ nem o meu grito de libertação” Por fim, o poema apresenta como desfecho um monóstico em que o sujeito poético sintetiza a expressão dos seus sentimentos afirmando somente “não posso adiar o coração”. FONTE: http://escrever-com-alma-8.blogspot.pt/2010/02/nao-posso-adiar-o-amo-ramos-rosa.html

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Vida e obra de antónio ramos rosa