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Lugar comum Florentina Esteves Falar do aquecimento global, derretimento das geleiras polares, gases poluentes, devastação de áreas verdes, finitude das águas, poluição da atmosfera, de tão repetido já se tornou lugar comum. Não nos preocupa? Claro que sim. E tudo faríamos para combater suas causas e efeitos. Como? Talvez inspirando estas novas gerações com o relato de como era e como se vivia naquele Acre da nossa geração. Dizem-me alguns amigos que eu sou saudosista. Até reconheço. Mas como transmitir aqueles bons momentos que vivemos que não seja relembrando-os? E isso não é apanágio só da minha idade. Encontrei ontem num almoço um rapaz, filho de contemporâneos meus, que, para minha surpresa, brindou-me com a recitação do “vira-virou”, que publiquei algumas semanas atrás. E o que levou a isso? Nada mais nada menos que a emoção que o possui de ver relembrados os tempos das chatinhas e chatões, das contraias no banzeiro, e da Judia: de Rio Branco de antigamente. E como me apraz falar daqueles tempos, lembro (voltando a nosso tema), das friagens que, pontualmente, nos chegavam na sua época certa. Era para valer. Desentocavam agasalhos e cobertores, enfeita-se a cidade com as moçoilas nos seus casacos elegantes, as pessoas contentavam um ar de bem estar, e o vento que balançava as folhas das árvores ensaiavam o seu balé romântico. Lembro que o frio era tão intenso que acendíamos o fogareiro a carvão ou lenha e o rodeávamos, tiritando de frio. Lá por seis ou oito graus. Verdade. Não estou exagerando. Passada aquela friagem, não demorava chegava outra. Enquanto isso, os percevejos empestavam o ambiente. Cheiro inconfundível. E o rio? No seu tempo certo ganhava volume. E lá vinham os balseiros, atrapalhando o navegar dos chatões ou chatinhas, gaiolas ou lanchas. Mas pitoresco, estimulante, sinal de mais e mais água. Até que... alagação! Pronto. A cidade era só festa, tirando, é claro, os ribeirinhos, que viam dizimadas suas plantações. As águas invadiam ruas e quintais, dando um ar veneziano à cidade. As crianças (eu inclusive) improvisavam barcos com as enormes bacias da “Ruber Reserve” (Banco da Borracha, hoje da Amazônia), e toca a traquinar, a navegar. As catraias – as catraias também participavam da euforia geral, levando muito mais tempo e pitoresco para atravessar de um lado para o outro. Havia a do “seu” Neco, do Chicão, do José de Lima que cobravam por mês para atravessar os estudantes, e – claro – o jabuti (que já cantei em prosa e verso) de graça, não se pagava. E as chuvas? Era pra valer. Daqueles cujo “pingo enchia uma frasqueira”. Não era essa chuvinha mirrada de hoje, que mal toca música em meu telhado de zinco. E à noite? Céu cheio de estrelas, à noite ouvia-se tudo que era de pios e cantos de sapos, grilos, cigarra, coruja, incontáveis manifestações da natureza. E, não havendo ronco de carros, era nossa canção de ninar. Depois veio a Malásio nos tomar a primazia da borracha, e Dantinha a abrir nossas portas para o agronegócio e desmatamento. Com ele todas as conseqüências de agressão ao meio ambiente. E aqui estamos a lamentar o paraíso perdido. Que possamos recuperar nossas matas, ao invés de comemorar que “só” desmatou menos quilômetros quadrados que antes. Que cada um faça sua parte, e não caiamos no lugar comum.

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