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Autor:Zalina Rolim

Um ninho de tico-tico

Um ninho de tico-tico Feito de arte e amor Achei no galho mais rico Da minha roseira em flor. Entre as flores encoberto Ninguém sabe que ele existe É preciso olhar de perto Para que a gente o aviste. É lá no fundo somente Três ovinhos, nada mais... E o ninho tão fofo esquenta Os três ovos tão iguais. Mas tive muito cuidado Não toquei com meus dedinhos Mamãe disse que é sagrado O ninho dos passarinhos.

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Autor:Márcio Adriano Moraes

pulso cortado veia aberta jorro notas agudas no piano já não branco tecla a prima suíte debussy estanco o sangue com dó e restituo minha faca solta lágrimas no vermelho sicário

poema premiado no 5º Concurso Literário de Suzano, SP

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Autor:Silvio Abreu Campos

Leitura nos ônibus de BH

Num desses finais de expedientes tensos, já se fazendo noite, dava-me por agraciado pelo providencial assento que surgira à minha frente dentro de um ônibus repleto de passageiros, que se acotovelavam apressados, ansiosos e aos encontrões à cata de acomodação, quando de repente, deparei com um folheto plastificado e atado à traseira da parte superior do banco à minha frente. A logomarca impressa, bem sugestiva:“Leitura para todos”, aposta sobre o mesmo, dava conta de tratar-se de um projeto em parceria com a universidade, para instar o passageiro à leitura, certamente que com duplicidade de perspectivas, ou seja: fomentar o hábito, tornando-o mais popular, e, de soslaio, suavizar, como um lenitivo, a impaciência daqueles transeuntes em chegarem logo em seus lares, enfim, verem-se logo livres daquelas circunstâncias de parca confortabilidade. Se não me falta a memória, tratava-se de um excerto da obra de Lima Barreto “O cemitério dos vivos”, cujos primeiros capítulos foram esboçados pelo autor – durante a sua permanência em um hospício - por volta de 1920, quando se recuperava de forte crise nervosa, dando azo ao livro que só viria a ser publicado décadas depois. Interessantíssimo o texto. O escriba perambulando pelas ruelas estreitas de uma necrópole, observa atento cada um dos objetos que o cercam, a conformação dos jazigos, destacando com mordacidade a inutilidade das celebrações personificadas naquele cenário, ante o nivelamento produzido pela morte que a todos iguala e delimita de forma inexorável a finitude da aventura humana. Os sepulcros ornados segundo a pretensão, disposição ou condição econômica dos entes do defunto, ou de outra feita, relegados ao esquecimento, não conseguiam esconder as diferenças, as desigualdades que os vivos insistem em perpetuar, não raro, com enaltecimentos estéreis para a matéria que, infensa a essas louvações, apenas se putrefaz no recôndito daqueles abrigos. Se você quiser opinar sobre os textos e o projeto, entre em contato conosco: (31) 3586-2511 www.letras.ufmg.br/atelaeotexto telatexto@gmail.com

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Autor:Silvio Abreu Campos

Em cada canto, era possível depreender a intenção, velada ou manifesta, de perpetuar o status, o renome que o morto galgara em vida, a diferenciá-lo da carência daqueles privados de tais atributos. Até o distanciamento entre as covas tornam-se, na lúcida visão do escriba enlouquecido, traços denotativos da hipocrisia, da arrogância, de chofre com a humildade ou a singeleza, marcada até pela distância entre outros túmulos. A pieguice dos dizeres ínsitos nos epitáfios, em tom laudatório, densos de agrados, lugares comuns, parecia, do mesmo modo, derramarem suspeitas sobre a autenticidade das declarações registradas naquelas lápides. O realismo dessas observações, rebuçadas pela nossa própria insensatez e tão cruamente revelada no texto, não privara o autor, no entanto, de num ímpeto de elevado humanismo devanear, induzido por uma fotografia incrustada em um túmulo, sobre a quimérica e estonteante beleza da moça cujos restos ali jaziam. Certo é que tendo apreciado a leitura, logo puxei conversa com uma senhora, aparentemente sisuda, assentada a meu lado, convidando-a a ler o texto na expectativa de, na sequência, produzir um colóquio sobre as reflexões ali postadas. Com generosidade propus a ela que tomasse o meu assento, numa troca para permitir-lhe maior comodidade, o que foi aceito, tendo a proposta rendido uma boa prosa, com minha parceira nessa empreitada se revelando pessoa afável e de boa prosa, experimentada na arte da vida e com observações aguçadas e inteligentes, hauridas de suas próprias experiências sobre o tema de fundo, numa conversa que se tornou cada vez mais prazerosa. Lembrei-lhe que algum filósofo, mais provavelmente Aristóteles, já havia dito que o homem, apesar das vaidades que o insuflam, não passa de um cadáver adiado, o que servira de contraponto para a conversação se resvalar até para algumas notas de humor, a ponto de termos reciprocamente lamentado o pequeno lapso temporal que esse inusitado encontro nos proporcionara, conforme permitia os nossos distintos trajetos. Com esse singelo registro quero reforçar a importância de iniciativas como essas. Mais que isso, destacar não só a capacidade de produzir leitores no futuro, mas também de produzir momentos como esse, imprescindíveis para melhorar a condição humana nas suas inter-relações e qualidade de vida. Parabéns. Se você quiser opinar sobre os textos e o projeto, entre em contato conosco: (31) 3586-2511 www.letras.ufmg.br/atelaeotexto telatexto@gmail.com

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Autor:

Parágrafo décimo quinto da "Carta da Terra"

15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração. a. Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e protegê-los de sofrimentos. b. Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento extremo, prolongado ou evitável. c. Evitar ou eliminar ao máximo possível a captura ou a destruição de espécies não visadas.

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Autor: J. Estanislau Filho

GÊNESE DA ÁGUA A água que sai da torneira vem da caixa d'água A água da caixa-d'água vem da estação de tratamento d'água Que vem da represa que vem dos rios A água dos rios vem do fundo da terra Que vem dos mares que vem dos lagos dos rios das nuvens do fundo da terra Se não fosse a flora Se não fosse a fauna Não teríamos água Não teríamos torneiras Não teríamos caixas-d'água Estação de tratamento d'água Represas Lagos Rios Não teríamos o fundo da terra Não teríamos lágrimas Nem flora nem fauna Teríamos o nada.

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Autor:Ítalo Chesley

Ensaios

Vou tentar descrever em algumas linhas, outras linhas de vida que são em suas medidas indescritíveis. Entrei pela porta da frente e dei algumas voltas. Estava com uma sacola de pães numa mão e na outra duas garrafas que pagaria naquele caixa. Fui dando meus passos certos quando a vi e troquei minhas certezas por outra dúvida. Esta última muito mais doce, no entanto, muito menos possível. Vasculhei em minha mente todas as regras de cordialidade que minha mãe me ensinava quando criança. Busquei todas as fórmulas físicas, químicas, filosóficas e sociológicas que aprendi na escola, por fim, resumi tudo em oito letras e um espaço entre a terceira e a quarta: Boa tarde! Ela levantou seus olhos escuros preguiçosamente como a responder, mas nada disse. Eu balbuciava em silêncio as minhas suposições para o silêncio escandaloso que me incomodava tanto. Toda a cortesia e educação só me deixavam o silêncio por herança. Injusto! *** Ela abaixou seus olhos, fez o que lhe convinha fazer pra que eu me retirasse dali. Enquanto isso, eu já varria todas as possibilidades de respostas que a assistiam, e planejava a minha réplica. Simultaneamente, media cada detalhe do seu rosto: olhos, boca, faces, testa...tudo! Ela terminou e disse obrigada. Eu, depois de tanto ensaiar, respondi com silêncio. Está tudo igual. Agora sim nós podemos começar. E eu prometo fazer ao menos metade do que ensaiei, e cumprir ao menos metade do que prometi.

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Autor:Beatriz

Benzeção perigosa Eu e a Lígia estudávamos no Galileu, ali na Floriano Peixoto, a Carmela no Colégio Nossa Senhora. Não sei por que, a Carmela ia várias vezes pro Galileu. Talvez, ela tenha estudado lá também e não me lembre. Bem... as três vivíamos com o coração partido por paixões não correspondidas. Lá no colégio, trabalhava um rapaz, o Zé, com quem fizemos amizade. O fato é que, através dele, ficamos sabendo de um pai de santo que poderia nos ajudar. E lá fomos nós... Lígia, eu e Carmela. Pegamos um ônibus e andamos pra danar, até que chegamos num descampado, onde não se via alma nenhuma. Num casebre, havia um cômodo onde um pai de santo fazia "benzição". A Carmela entrou no tal quartinho e, daí a pouco, saiu de lá horrorizada. – "Tá cheio de capetinhas lá dentro!" Lembro que entrei também e o quartinho era realmente um caos, vela pra todo lado, parafina queimada, cheiro de pinga e incenso. Quando saímos do quarto, foi feito um círculo de pólvora, em volta de nós, e o cara tacou fogo. Não bastasse o medo que passamos, saímos de lá com os corações tão destroçados como antes. Alguns dias depois, pouquíssimos, vimos na TV: Preso um Pai de Santo Estuprador!!! Não é que era o tal cara. Mas houve um outro lance também engraçadíssimo. Eu e Lígia fomos num benzedor, um "preto velho". Esse, acho que era gente boa. Quando foi benzer a Lígia, ele, de costas pra ela, batia a mão direita no ombro esquerdo dela e vice-versa, e dizia: " tá cum Deus, cum Deus tá, tá cum Deus, cum Deus tá”. A Lígia teve um acesso de riso que não parava. Começaram a sair lágrimas dos olhos dela. As lágrimas escorriam pelo rosto e caíam da ponta do nariz. A cena foi tão hilária, que o próprio benzedor não resistiu e também teve um acesso de riso.

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Autor:Anderson Tadeu

Amor perfeito

Maria, eu amaria, apreciaria, entenderia Contigo ficaria Teus lábios, meu peito em alegria Mãos abençoadas, força não se acaba Linda naquela sala Rodopio na areia da praia Teus braços, sonhos intactos, força no que faço Quero fogo, quero paixão, nosso espaço Lembra na tua casa, sonho bate asas Nossos olhos, nossas falas Somos um só na mesma estrada Seduz-me se estou cativo, olhos verdes, almas em batismo Distraia-me com teu lirismo Personalidade forte, teu sentido

Chão que me falta, sinto-me seguro se estou em tua volta Não há revolta Teu beijo, minha escolta Homem e mulher, corpo e alma que se tocam

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Autor:Bilá Bernardes

Leituras

Escuto o silêncio Pássaros gorjeiam Carros transitam Ouço meu coração Alguém mexe na cozinha Ouço meus pensamentos Um cão late ao longe Ouço o meu interior E escrevo - me inscrevo E me aprendo

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Autor:Sheila Neumayr

Panis et laboris Se agora é assim Dentro em pouco é assado, cozido, fresco, ou então refogado. Temperado, sovado, enrolado, fervido, dormido, espremido, servido, comido. Desejado, digerido, ressecado, talhado, semeado, crescido, colhido a centavo. Chorado, louvado, esperado, fundido, pensado, prensado, amassado, mordido. Escolhido, lavado picado, ralado. Levado, enlevado. Engolido. Se você quiser opinar sobre os textos e o projeto, entre em contato conosco: (31) 3586-2511 www.letras.ufmg.br/atelaeotexto telatexto@gmail.com

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Autor:Affonso Romando de Sant'Anna

SOBRE OS TELHADOS DO IRÃ

Sobre os telhados da noite, no Irã ecoa a voz agônica dos que querem se expressar.

Não é a ladainha dos Moezins e suas preces monótonas -conformadas

é o canto verde rasgando o negro manto dos aiatolás como se do alto das casas fosse possível antecipar -o parto de luz que sangra na madrugada.

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Autor:Machado de Assis

UM APÓLOGO Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha: - Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo? - Deixe-me, senhora. - Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça. - Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros. - Mas você é orgulhosa. - Decerto que sou. - Mas por quê? - É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu? - Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu? - Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados... - Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando... - Também os batedores vão adiante do imperador. - Você é imperador? - Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto... continua... Se você quiser opinar sobre os textos e o projeto, entre em contato conosco: (31) 3586-2511 www.letras.ufmg.br/atelaeotexto telatexto@gmail.com

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Autor:Machado de Assis

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana - para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha: - Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima. A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile. Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestirse, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe: - Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá. Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: - Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: - Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária! Se você quiser opinar sobre os textos e o projeto, entre em contato conosco: (31) 3586-2511 www.letras.ufmg.br/atelaeotexto telatexto@gmail.com

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Autor: Augusto dos Anjos

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão - esta pantera Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!

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Autor: Ricardo Paolinelli di Persio

poemasmeus 81132

a trama do ninho em chamas, árvore mais discreta do cerrado, quase sem ver-se do chão, cor de terra despercebida, apagadinha na rasteiridão; lá, nela, entre o fogo lento e a lua, que é estrela de espera, brotam-se diminutas flores saídas da casca dura; o céu nem percebeu, o sol castiga e apura, mas é de cada pétala ínfima que nasce e brilha cada nossa espera mútua.

contato com o autor: paolinelli2005@hotmail.com Se você quiser opinar sobre os textos e o projeto, entre em contato conosco: (31) 3586-2511 www.letras.ufmg.br/atelaeotexto telatexto@gmail.com

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Autor: Jonas Pinheiro Barbosa

806 5:30. Puta que pariu! Fim de semana já passou e agora é encarar essa segunda-feira braba... Tudo o que eu queria na vida era ter muito dinheiro, só para poder levantar tarde e não trabalhar na segunda-feira. Mário, vem tomar café! Não vai dar tempo, Mariza, embrulha minha marmita que já tô de saída... Hoje perco aquele maldito ônibus... 5:43 Bom dia motô!(...) Esse cara nunca responde! Deixa eu ver quanto ainda tenho de crédito... 5:45 segunda-feira 74,36. Ainda dá para muitos dias... Preciso repor as passagens que gastei no fim de semana, desta vez o Francisco não vai adiantar vale nenhum... Bom dia, Mário! Bom dia? Pegar esse busão a essas horas é bom dia, Zecão? Senta aqui. Não, não, obrigada, vou em pé mesmo, pode ficar sentado... Ela não foi lá ontem não... Rua Cruz de Malta. Aulas de Kung-Fu toda quarta feira às 19:00h. Dance, Dance, Dance, a dança te faz acreditar. Dance, dance, dance... Já dancei muito nesta vida viu?! Tá pensativo hoje, Mário? Verinha... Cadê o Jorge? Tá pra Araxá... Sacolão Preço Justo. Laranja 0,99... Tá barato! Atrasei ontem, Luzia... Cheguei na igreja já era oito e meia! Temos peixe. Eu acredito é na rapaziada que segue em frente e segura o rojão. Você viu quem foi eliminada ontem? É, mas eu não queria que ela saísse agora não... Ela falava demais... Então... Aposto que estão falando mal dos outros... Igreja Pentecostal Comunhão com Deus. Fé. É disso que eu preciso. Preciso ter mais fé...Vou passar na casa de mãe hoje. Paparapaparapaparapapara. Booooooooooooooooooooooom diaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa viiiiiiiiiiiiiiiiiiiiidaaaaaaaaaaaa! Cento e sete. PUC Minas. Hoje vai dar até para pegar o de 6:10. Graças a Deus! 5:56. Se você quiser opinar sobre os textos e o projeto, entre em contato conosco: (31) 3586-2511 www.letras.ufmg.br/atelaeotexto telatexto@gmail.com

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Autor: Cruz e Souza

Piedade O coração de todo o ser humano Foi concebido para ter piedade, Para olhar e sentir com caridade Ficar mais doce o eterno desengano. Para da vida em cada rude oceano Arrojar, através da imensidade, Tábuas de salvação, de suavidade, De consolo e de afeto soberano. Sim! Que não ter um coração profundo É os olhos fechar à dor do mundo, ficar inútil nos amargos trilhos. É como se o meu ser compadecido Não tivesse um soluço comovido Para sentir e para amar meus filhos! Se você quiser opinar sobre os textos e o projeto, entre em contato conosco: (31) 3586-2511 www.letras.ufmg.br/atelaeotexto telatexto@gmail.com

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Autor: Olavo Bilac

MATER

Tu, grande Mãe!... do amor de teus filhos escrava, Para teus filhos és, no caminho da vida, Como a faixa de luz que o povo hebreu guiava À longe Terra Prometida. Jorra de teu olhar um rio luminoso. Pois, para batizar essas almas em flor, Deixas cascatear desse olhar carinhoso Todo o Jordão do teu amor. E espalham tanto brilho as asas infinitas Que expandes sobre os teus, carinhosas e belas, Que o seu grande dano sobe, quando as agitas, E vai perder-se entre as estrelas. E eles, pelos degraus da luz ampla e sagrada, Fogem da humana dor, fogem do humano pé, E, à procura de Deus, vão subindo essa escada, Que é como a escada de Jacó.

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Autor: Fernando Pessoa

Autopsicografia

O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama o coração.

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Leitura para todos txts 2009