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Canto Armorial ao Recife, capital do Reino do Nordeste: Ariano Suassuna I Eram sete as Coroas deste Reino, Sete as Torres sagradas da Cidade, Sete Arcanjos de bronze, fogo e cobre, Sete Clarins de calcedônia e jade, E o meu Reino-sagrado do Nordeste Luzia, do Recife à claridade. Eu velava na pedra do Arrecife E vi, nesse repente, uma Visagem: A esmeralda do Mar se alumiava E o Sertão lhe infundiu sua coragem. O rubi resplandece na turqueza: Mar e Sol, água e pedras da Pastagem. A Coroa-de-ferro de Canudos Resplende sobre a Torre-quadrejada. O Sertãp de Acauhan, da casa-forte, Na do Engenho Pombal, limpa e sagrada. Os clarins de Princesa e Piancó Reluzem na da torre-ameaçada. E a colina-sagrada da Batalha Brilha na Conceição-dos-Militares: As quilhas afundadas dos navios São púlpitos, Cariátides e altares. Estalam tiros secos de mosquetes, As Espadas rebrilham pelos ares. Duas torres iguais de Santo Antonio São as Pedras do Reino, as Encantadas, Incrustadas de prata e diamantes, Ungidas pelo Sangue e consagradas: Torres da Catedral dos sertanejos, Proibida, luzente e soterrada. O Castelo-roqueiro, em Cinco-Pontas, É a Casa da Pólvora também: Os Fortes do meu Reino, reluzindo, Pelas pontas da estrela se detém, Como, na esfera de-ouro do Brasil As moedas de Ourique e Santarém. Sim! Porque na Colina-consagrada


Onde o leão do Coelho pôs a pata (Ouro-Velho, Ouro Preto, Pombo Verde do Salvador, das águas e das arcas) se funde todo o Império do Brasil, o ouro das Minas e o torçal-de-prata. Por isso aqui, brilham também, fundidos, O clarim do Sertão e o dos Engenhos, A Lua-moura, a Estrela-da-Judéia, A Onça-negra, a Parda, o rubro Lenho, a corneta das Quinas e padrões encravados de estrelas e desenhos.

E por isso o Recife era a Esmeralda E a Muralha –de-pedra, a Vastidão:> Pedra-angular do Reino-esverdeado Rosa-vermelha e Bruna do Brasão, Porta-azul dos Engenhos e do Mar, Porta-rubra-e-castanha do Sertão. II Lá vem a frota-ibérica das Naus: Brancas velas, tosões, cruzes, bandeiras! São Cavalos-marinhos, Bois-azuis, Hipocampos-vermelhos de madeira Ferrados com a Cruz-de-Leopardo, Do Cachorro-de-Deus-e-da-Roseira! Vem nelas o assassino, o Mau-poeta, O Fidalgo-judeu blasfemador: Canta o Leão e as quinas-da-nobreza, Os castelos e o preço do Senhor, Voz dos autos, das trovas e sonetos Que, para nós, é o Sol-começador! Pois o Recife é um Cisne sacro e branco, Um Búzio desigual e retorcido Que se sentou na Pedra-cavernosa, De pérolas e aljôfar guarnecido, De Coral fino, crespo e marchetado, Depois de o Mar azul ter dividido. III E a Voz forja a Sereia-nordestina, A Anfitrite de penas-coloradas: As casas são Guaràzes-escarlates, São penas de Saíra recamadas;


Estrelas e topázios das Jandaias São cachos-de-ouro em Campo de esmeralda E as heráldicas Flores do meu Reino: O flamejante, ,o cravo, o girassol, A acácia-de-ouro, e a rainha , a Rosa, E a rosa da paixão-do´Rouxinol O emblema, a cruz-de-cristo, as chagas roxas, A lança, o sangue e espinhos do meu Sol! E assim moldou-se o sangue da Cidade,essa fêmea e pantera dos Bruxedos. Ela entreabre seu Manto e nos revela Seus encantos musgosos e secretos, Seu sangue macho-e-fêmea, seus contrastes, Seus embruxos, e filtros, e segredos. Sua tigre-bravura se admira, Seus encantos de F~emea se deseja, A finura da Faca e da coragem, A nobreza e a Faminta-malfazeja, Essa Gata de graça-florentina E o Sol dessa muralha-sertaneja. IV Canta, ó clarim do Teuto-sergipano, A onça-da-nobreza, a Desumana. Não te enganes: o cheiroi desse Mel (mesmo de prata, mesmo em Massangana) é forjado no sangue que bebeu a leoa-dos-nobres, a Tirana! Vai! Chama teu irmão desabusado, Teu irmão sertanejo e brasileiro, Lagarto alumiado pelo sol, Escorpião da Raça e do braseiro, Gila-do-sangue, Povo-coroado. Arauto-inicial do Romanceiro. Que o Nordeste é uma Onça E estão seus ombros Queimados pelo Sol e pelo sal: As garras de arrecifes, os Lajedos, São seus dentes-de-pedra e ossos-de-cal. A Liberdade e o sangue da Inumana Precisam de teu Gládio e do Punhal! V Quanto a ti, canta o Sol nosso e Castanho, Que esse Golfim de corpo bronzeado Que sai da espuma branca-e-azul do Mar


(esse sangue-estanhoso do Sagrado) é o mesmo da Batalha, ali gravada nesse painel castanho e esbraseado! Canta as Flechas no campo de Ouro-verde, As bandeiras, a espada do Latino. Não cantaste a Onça-negra veludosa, Nem a Parda-castanha (meu destino), Mas o urucu-vermelho, as áureas-penas, Como escudos, brasões e Paladinos! Tu viste teus fidalgos em Castelos, E Peri com a cor de sua Dama. Viste a Loura-fidalga (azule ouro) E a Morena-bastarda em sua cama. Teu Gato-pardo é nosso Cavaleiro, A corneta-de-tíbia é nossa Fama. Passa o Capitão-mor das Oiticicas Com seu Gibão dourado de d]fidalgo. É falso? É sertanejo o Cavaleiro: Vem outro e mostra a fome, o Gibão-pardo! Que é preciso, tambpém, nesta Insensata, Cantar a prata e o Sonho do sonhado! VI Tu, Clarim-sertanejo do meu sangue, Canta os Campos, de sangue já laivados, A arena-rubra, a terra-bem-fadada, Sol dos pulsos-de-ferro venerados, Que, em perpétua Aliança, reluziram O Reino, o território-consagrado. E a Rota da cruzada-sertaneja, Teu Reino de Acauhan, o gado-crioulo Com seus tipos de Raça e de nobreza, Na Malhada-da-Onça, cor-de-ouro, Onde o Sol e o brasido das Estrelas São esporas-do-céu – Gibão de couro! VII Soa o quinto Clarim, Cunha de foto, E a pedra, o Espinho, ruge em sua Fala. A faca. A lazarina de Canudos, No Pajeú-da-raiva, cresce e estala. O foto é um tabocal se incendiando Ao som das Ladainhas e das balas. E a Catedral – o antro, o doido templo, Reduto, fortaleza e Santuário,


De fachada sem módulos e regras, Vasto, retangular, desafrontado, Cortado e esburacado de troneiras, O brutal Hipogeu desenterrado! VIII Junto a ti (cunha, fogo, pedra e ferro), Junto a ti(que és mortal e ensolarado), Sopra o Clarim-augusto-dos engenhos, O noturno Duende enferrujado: Canta as asas do Corvo e canta a Morte, O Sangue e as coisas podres do Paudarco. As canas, o homem-sem-conchego-nobre, O musgo-verde, os Bois, o lodo-insonte, As lagartixas-dos-esconderijos, O doido Sol-ignívomo da Ponte... E a Máquina-do-mundo quiema tudo Na sua pele-de-rinoceronte! Se ele cantou o mel de meus Engenhos, Pressentiu meu Sertão com seus segredos: Os Rifles pipocando o som das quedas De mil lajedos sobre mil lajedos E os Capitães-de-couro se matando Nas pontas escarpadas dos Rochedos! Ouço na Voz-noturna desse Engenho Os jambeiros verdosos do Paudarco Chovendo roxa-púrpura no chão Do Recife do signo-estrelado, E o Dono dos escudos-da-bandeira No Cais-da-aurora canta seu passado. IX Ó paudarco, flor- de –ouro! O Corredor, Com seu búzio-de-sonho, sonha e passa: No açafrão, nos vestidos das meninas, No cheiro de jasmins que ali perpassa, Na argamassa do Tempo impiedoso, Pedra e cal dos bueiros sem fumaça! Salvou, assim, o verde de seu Reino E o Pajeú-de-pedra do Sertão: Gemem os Catolés, estrala a bala, E passa, doido, El_Rei Sebastião, Suja de sangue e pó a real Fronte, Mas vivo no chapéu do Capitão! E o búzio-decadente troa a Raça


E forja o Cavaleiro-destroçado, E de esporas-quebradas, mas sem freio Na burra que é castanha e que é sem rabo! E eu bebo o Mel cheiroso dos Engenhos No Pombal que é meu Reino-conquistado! X E todo o Reino canta nesse nome, Pela Dama-de-sangue-coroado: O Sínople, os Pescoços-de-serpente, A Banda-sanguinosa do Enforcado; Quatro Laivos-de-sangue que meu Sangue Tinha visto nos campos do Sagrado! Ela era leve, e tinha os olhos Como o paudarco-âmbar da Acauhan, E os ouros das acácias do Recife Nos cabelos do sol-pela-manhã: Olhos-andrades, crespos, cor-de-ouro, Boca, vermelha flor de flamboiã! E, misturando tudo, o mel do Engenho Mais o mel das abelhas do Sertão. Cana-caiana doce, olhos-estranjas, Tão bonita, tão boa e tão do chão! Era, mesmo, a Leoa-coroada, Flecha em meu sangue, anel da solidão! E eu vi que minha Dama era o Recife, O engenho e o sertão do meu Sagrado. Os clarins já se calam e as Coroas Fulgiam pelo Reino-do-Escampado. O sol comia o cobre do horizonte: Terminava a viagem do sonhado! Soltou-se a Onça-negra da estrelada E o meu Recife, ali, na escuridão, Era, agora, o Fortim-iluminado, O baluarte, a Nau, o bastião, Colocado entre o Reino-azul do mar E o meu Reino-castanho do Sertão!


Canto armorial ao recife ariano suassuna