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Estrada de Ferro Porto Alegre Canela

Estrada de Ferro Porto Alegre Canela

Serras Gaúchas perderam um tesouro turístico há 50 anos Texto de João Zuccaratto Jornalista especializado na divulgação do turismo baseado na cidade de Vitória, capital do Estado do Espírito Santo

Foto da primeira Estação Ferroviária de Porto Alegre. Idêntica à de São Leopoldo, eram prédios de madeira, ambos importados da Inglaterra em módulos pré-fabricados. O de São Leopoldo foi montado primeiro, em 1871. O da capital, próximo à inauguração da linha, em 1874. Havia uma dúvida quanto ao ponto em que seria instalada. Acabou ficando num terreno à beira do Rio Guaíba, situado na Rua Voluntários da Pátria, a atual Avenida Júlio de Castilhos, entre a Rua da Conceição e a atual Rua Doutor Barros Cassal. Ela foi demolida em 1910. Algumas de suas partes e uma das janelas foram usadas para ampliar a Estado de São Leopoldo. Os trens de passageiros pararam nesta estação de 1874 a 1910

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Turismoria: João Zuccaratto

Trilhos cruzavam esta reserva de m

Há pouco mais de meio século, as Serras Gaúchas perderem o que hoje em dia seria um grande atrativo de turistas para toda aquela região. Isto ocorreu em março de 1963, com o fim das operações do trecho da estrada de ferro que unia as cidades de Canela e Novo Hamburgo. Ele foi suprimido porque sua operação vinha mostrando não ser mais econômica há muito tempo.

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Chegava ao fim uma história iniciada lá pela metade do século XIX. Em 1866, a Assembleia da Província do Rio Grande do Sul abriu concorrência pública internacional para a construção de uma estrada de ferro capaz de escoar a então crescente produções agrícola e industrial do Vale dos Sinos. Um empreendimento que, pronto, teria quase 50 quilômetros de extensão.


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mata atrás do Gramado Palace Hotel O trecho da estrada de ferro que cruzava o terreno do hotel foi incorporado a uma pista na qual os hóspedes fazem passeios ou caminhadas. Devidamente sinalizado, identifica, também, uma caverna utilizada pelos trabalhadores para se proteger da chuva quando faziam serviços ao longo dos trilhos, naquele local

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Turismoria: João Zuccaratto

Grupo de investidores ingleses vence a concorrência para construir a ferrovia

O vencedor foi um grupo empresarial britânico representado no Brasil pelo investidor escocês John MacGinity. O projeto previa entregar uma linha férrea entre Porto Alegre e Novo Hamburgo, em duas etapas. Na primeira fase, que duraria três anos, ligaria Porto Alegre a São Leopoldo. Depois de mais dois anos de obras, chegaria ao então povoado de Novo Hamburgo. Entretanto, a aprovação do mesmo não foi fácil. Muitos, defendendo o bom transporte fluvial existente, viam na ferrovia uma séria concorrente, além de muito cara para os cofres públicos. A proposta dos ingleses estabelecia uma remuneração anual de 6% sobre os investimentos realizados. Se a operação da mesma não produzisse isto, o Governo completaria o valor. Era uma forma comum de se realizar grandes obras públicas na época. A construção da Estrada de Ferro Vitória Minas, entre o Estado do Espírito Santo ao de Minas Gerais, teve contrato semelhante. Durante a obra, e depois de iniciada a operação, a cada ano, sobre o total de capital aplicado era paga remuneração de 6%, com o Governo completando, se necessário. Detalhe: a Vitória Minas começou a ser feita pelo norte-americano Percival Farquhar, o mesmo empreendedor da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Outro detalhe: a atual Lei de Parceria Público e Privada, a PPP, segue mais ou menos o mesmo conceito. Vence a concorrência aquele mostrando menor preço e menor remuneração, onerando menos os cofres públicos. Outra vista da primeira Estação Ferroviária de Porto Alegre, que funcionou recbendo passageiros e cargas de 1874 a 1910, quando foi demolida

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Cartão-postal com a imagem da primeira Estação Ferroviária de Porto Alegre

Ferrovia sai do papel com os problemas que a levariam ao fim um século mais tarde A solução deste problema estendeu-se até 1871. Num primeiro momento, o deputado Gaspar Silveira Martins, defensor da iniciativa, sugeriu 5%. Mas, como a oposição continuava a achar excessivo, chegouse a um consenso: 7% ao ano e redução substancial no investimento. Isto deformou o projeto original, baixando a velocidade média dos trens e matando a rentabilidade. A ferrovia surgia trazendo os defeitos que a levariam ao fim um século depois. Ou seja: uma operação sempre muito próxima do prejuízo. Para os investidores, isto não era problema. O ganho deles estava sempre garantido. Os trabalhos são inaugurados oficialmente no dia 26 de novembro de 1871, na cidade de São Leopoldo e, a partir daí, os prazos são todos cumpridos.

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Turismoria: João Zuccaratto

Estação Ferroviária de Canoas, quando da inauguração da estrada de ferro, em 1874

Estação Ferroviária de Sapucaia, também em 1874

Em 14 de abril de 1874, fica pronto o primeiro trecho: 33 quilômetros de extensão, compreendendo as estações de Porto Alegre, Canoas, Sapucaia e São Leopoldo. Em 1876, é vez de Novo Hamburgo. Como isto completava o traçado previsto no início, a empresa The Porto Alegre & New Hamburg Brazilian Railway deu por encerradas todas as obras em 8 de maio de 1877.

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Estação Ferroviária de São Leopoldo, final do trecho de 33 quilômetros da linha inaugurada em 14 de abril de 1874

Estação Ferroviária de Novo Hamburgo, ponto em que se completaram os 50 quilômetros iniciais da ferrovia, em 1876

O trecho até Novo Hamburgo fica pronto em três anos 7


Turismoria: João Zuccaratto

Estaçães Ferroviárias de Hamburgo Velho e Taquara, logo após a extensão da linha, em 1903

Linha alcança a cidade de Taquara, acrescentando mais 46 quilômetros de trilhos Operando comercialmente desde 1874, a linha férrea provocou profundas alterações ao longo de seu percurso. Encurtou distâncias, dinamizou a produção, ampliou o comércio... Um progresso importante para ser levado a outros pontos do Estado. Assim, depois de novo investimento no início do século XX, em 15 de agosto de 1903, ela chega até à cidade de Taquara. São mais 46 quilômetros, com as estações de Hamburgo Velho, Canudos, Campo Bom, Sapiranga, Amaral Ribeiro, Nova Palmeira, Campo Vicente e Parobé. A administração inglesa de três décadas foi sempre contestada por nacionalistas. Mais ou menos como agora, quanto às privatizações. E eles conseguem a encampação da ferrovia pelo Estado, em 6 de junho de 1905. Numa recaída de bom senso, ela volta a ser entregue à iniciativa privada, transferida à Compagnie Auxiliare des Chemins de Fer au Brésil, de capital belga. Isto dura até 1920, quando é incorporada pela Viação Férrea do Rio Grande do Sul, estatal criada para integrar e gerir todas as estradas de ferro em operação no Estado — o que se mostra um fracasso em pouco tempo.

Na página ao lado, a reprodução de uma apólice de investimento em ações ao portador da empresa belga Compagnie Auxiliare des Chemins de Fer au Brésil

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Turismoria: João Zuccaratto

Vencendo 800 metros de altitude, Gramado é alcançada pela estrada de ferro em 1922 É neste meio tempo que ela começa a fazer parte da história de Canela. E tudo graças ao esforço do empresário João Corrêa Ferreira da Silva. Um desbravador da região, ele financia o prolongamento da linha a partir de Taquara, até um descampado no meio da serra. Enfrentou dificuldades, sem conta, pois teve que levar os trilhos até 800 metros acima do nível do mar. O motivo da construção deste ramal era para buscar toda a madeira que havia em extração na região de São Francisco de Paula, Cambará do Sul, Bom Jesus e adjacências. O empreendimento tomou mais de uma década. Iniciado em 1913, em 1922 chegou à agora cidade de Gramado. E somente em 13 de agosto de 1924 ao local onde hoje está o Centro de Canela.

Estação Ferroviária de Gramado, prédio que é atualmente utilizado como a Estação Rodoviária da cidade. Esta foto é posterior a 1924, ano em que os trens de passageiros começaram a atender a região

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Foram necessários mais dois anos para a linha chegar onde é hoje o Centro de Canela A linha, de Porto Alegre até ali, tinha 150 quilômetros de extensão e 30 paradas. Seu ponto final era numa pequena estação, batizada com o sugestivo nome de Canella — com dois elles. O movimento de carga e de pessoas para ali se dirigindo levou à formação de um aglomerado de casas. Logo, este virou uma vila. Agora, é das cidades mais charmosas do País. Se os trilhos da estrada de ferro não tivessem sido arrancados, poderiam estar sendo utilizados em belíssimos passeios turísticos, nos moldes de outros, semelhantes, existentes no Brasil. Ali perto mesmo, há um, entre as cidades de Bento Gonçalves e Carlos Barbosa, passando por Garibaldi. Pena um patrimônio como este tenha sido jogado fora não faz tanto tempo. A Estação Ferroviária de Canela foi aberta em 1922, mas a data de inauguração oficial parece ser 14 de agosto de 1924, quando os trens de passageiros passaram a atender a região. Desativada em 1963, hoje o prédio pertence à Fundação Cultural do Município, abrigando a Casa do Artesão e o Centro de Informações Turísticas. Junto ao prédio, está estacionada uma locomotiva Double Ender, de bitola métrica, produzida na Bélgica entre 1908 e 1910

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Excetuando-se as imagens do Gramado Palace Hotel, que ocupa as páginas 2 e 3, e a da apólice da Compagnie Auxiliare des Chemins de Fer au Brésil, na página 9, todas as demais ilustrando este trabalho — assim como suas legendas e muitas informações compondo o texto — foram extraídas do blog “Porto Alegre antigo: o maior presente”, de autoria de um jornalista identificado apenas como James. Ele pode ser acessado pelo endereço eletrônico http://lealevalerosa.blogspot.com.br/2010/08/o-trem-em-portoalegre.html. Minha consulta foi feita dia 27.11.2013.

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