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dossier

Máquinas ilegais

Poupança arriscada Os preços de compra e das atualizações obrigatórias levam a que algumas oficinas optem pela ilegalidade. Mas esta é uma poupança arriscada, não apenas pelas coimas, mas pela menor fiabilidade e problemas de segurança que os fabricantes reclamam para estas soluções. TEXTO ANDREIA AMARAL E JOSÉ MACÁRIO

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pirataria é um problema global, a que o aftermarket, infelizmente, não escapa. Oriundas, em grande parte, de países asiáticos, e muitas vezes comercializadas online sem nenhum tipo de regulação, são várias as máquinas e softwares piratas à distância de um clique e que vão encontrando o seu caminho para as oficinas portuguesas. Os fabricantes avisam o mercado para os potenciais perigos da utilização deste tipo de material, que pode comprometer a integridade do automóvel durante o diagnóstico e traduzir-se em mais visitas à oficina ou, na pior das hipóteses, em riscos para a segurança dos ocupantes. Além dos riscos potenciais para a segurança, Cláudio Kossack, da Würth, não tem problemas na catalogação deste tipo de soluções: “Deveremos chamar as coisas pelos nomes e esses equipamentos mais não são do que cópias ilegais.” Desta feita, para o Diretor de Vendas Regional da marca, este tipo de soluções não é compatível com as necessidades do mercado, uma vez que não estão capacitadas para responder eficazmente a todas as situações, quer tal aconteça por falta de atualização, quer seja por falta de acompanhamento técnico. Apesar das falhas de fiabilidade, do risco associado de coimas por falta de licenciamento e da inexistência de formação

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TURBO OFICINA

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JUNHO 2016

e/ou apoio técnico a estas marcas, o recurso a este tipo de equipamentos é frequente, como diz à TURBO OFICINA Paulo Neves, do departamento Técnico e de Formação do Stand Asla, para quem esta questão constitui, efetivamente, um problema, pois afeta as vendas e o mercado de equipamentos de diagnóstico. Reconhecendo a questão, Pedro de Jesus, responsável máximo da Cometil, afirma que todos procuram soluções baratas, mas adverte para o facto de que a realização de um diagnóstico fiável implica, muitas vezes, o acesso a vários equipamentos e a consulta de sistemas de informação técnica e de partilha de conhecimentos, condições que um equipamento isolado e ilegal não consegue garantir. Mas o gestor da Cometil reconhece também nestas situações uma oportunidade de negócio: “Felizmente, este tipo de vendas traz-nos outras oportunidades, porque o Cliente continua a deparar-se com problemas para os quais a compra que fez não lhe trouxe solução, o que na maioria dos casos reforça o valor do serviço integrado que é obtido quando nos adquirem um determinado equipamento.” Oportunidade semelhante vê Hugo Ribeiro, diretor comercial da Prioridinamic, ainda que lamente o facto de as empresas, quando não compram o produto certo, aos representantes indicados, denegrirem a imagem das marcas

sem motivo válido. Depois, como diz o próprio, “mais cedo ou mais tarde, acabam por recorrer aos representantes oficiais. Mas aí já perderam muito tempo… e dinheiro”. (I)LEGALIDADES É exatamente por causa do dinheiro que as oficinas recorrem a este expediente para se manterem no ativo. No périplo que a TURBO OFICINA fez por várias oficinas da região da Grande Lisboa, uma aceitou, sob anonimato, revelar as razões que levaram a correr estes riscos: “sei que posso ter problemas em caso de inspeção porque o software é pirata, mas nem todas as oficinas têm poder económico para estar a gastar, anualmente, 500 ou 600 euros para comprar a chave de desbloqueio e atualização do equipamento. Este valor é um ordenado de um colaborador, por exemplo.” O elevado preço de compra (€6000, na altura) e das atualizações (cerca de €600/ano) foi um dos fatores que levaram “André” (nome fictício) a recorrer à pirataria para garantir uma ferramenta que o próprio considera fundamental para o funcionamento da oficina. Mas o mais importante na tomada de decisão foi, para “André”, o que ele apelida de “um claro aproveitamento por parte dos importadores” da dependência das oficinas relativamente a estas ferramentas. No seu caso, a opção pela via pirata aconteceu em 2014. “André” afirma que as atualizações da