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artigo

EM JERUSALÉM Hans Magnus Enzensberger

No meio do caminho tem essa pedra estúpida que todos cobiçam Deus sabe por quê.

Parece antiga e, a cada peregrino que passa por ela, que a toca, beija, bate nela a testa sangrenta, fica mais ensebada.

Maria Amélia Moscon

Diretora executiva da Agostinho de Cultura

Bloqueia o trânsito, carretas, cargas e guardas, não há, porém, como tirá-la do caminho. Faz muito que está onde está, uma eternidade. É sagrada. Ninguém sabe para que serve. Bonita ela não é. mas mesmo alguém como eu a quem não faz falta tropeça nela.

E POR AQUI TAMBÉM

H

ans Magnus Enzensberger é poeta, ensaísta, tradutor, editor e escritor. Alemão, nascido em 1929, estudou literatura, línguas e filosofia nas universidades da Alemanha e de Paris. Para além de um grande poeta e ensaísta, Ensensberger é um inconformado diante dos acontecimentos cotidianos. Os fatos, de maneira geral, lhe provocam reações e lhe exige manifestação. Não é possível, para o poeta, ficar impassível diante dos acontecimentos. Ultimamente, tenho observado alguns acontecimentos que tem me trazido um agradável desconforto. Isso mesmo: um agradável desconforto, pois sempre fico satisfeita quando algo me provoca reflexões, me tira da confortável zona do não pensar e me instiga a um olhar aproximado. A demanda das pessoas por espaços de lazer, mas não um lazer qualquer e, sim, um lazer significativo, é a razão do meu agradável desconforto. Na busca por significar também esse meu olhar estou a pensar: se a pós-modernidade ou a era pós-industrial é uma época onde tudo é efêmero e passageiro, por que a busca por atividades de lazer significativas, se o homem contemporâneo é produto, condição e meio desta dinâmica? Bem, refletindo um pouco mais posso considerar que para sentir-se integrado o homem contemporâneo, trabalha todos os dias, suporta o tumulto das ruas, corre contra o relógio, expõe-se à poluição,

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aguenta o cansaço, enfim... cotidianamente, suporta grande carga, seja voluntaria ou compulsoriamente. Contrapondo esse pensar com o de Jost Kripendorf, em Sociologia do Turismo, dizendo que o homem em busca de seu equilíbrio vive o ciclo da reconstituição, ou seja, o homem de todos os dias se torna turista para logo após voltar a ser o homem de todos os dias; posso considerar que neste processo de busca de equilíbrio, também o homem pós-industrial tem se apropriado tanto da atividade turística, quanto da atividade de lazer buscando seu próprio equilíbrio. Olhando de outro lado, na busca de resposta para o meu desconforto, e sabendo que, em tese, o mercado é o agente regulador da oferta e da demanda e se há, como pode ser verificada, especialmente em nossa região, uma ampliação da oferta, é porque há demanda pelos mesmos. Essa demanda pode refletir essa busca do “homem de todos os dias” pelo seu equilíbrio que não pode aguardar os períodos de férias ou finais de semana prolongados para sua realização. Nesse aspecto pode ser justificado tanto a demanda pelos espaços de lazer quanto o aumento da oferta desses espaços de lazer, especialmente os de lazer urbano. Já em relação a significação das atividades de lazer, penso que ainda estamos mais para Ensensberger: até mesmo alguém como eu que não sabe para que serve, ainda tropeça nela.

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