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RED BLOSSOM TREE


PRÓLOGO Eu olhava para a tela do meu notebook. Um retângulo grande, branco e vazio, com um ponteiro preto piscando, esperando para que eu digitasse algo. Aquele irritante traço preto me chamava, e eu não sabia o que fazer com ele, quer dizer, o que ele faria comigo a partir de hoje. Meu pai foi quem me disse para escrever um blog, mas eu nunca contaria pra ele que eu teria acatado sua idéia, pois não o queria vigiando minha vida, ou melhor, minha nova vida. Nunca fui escritor, nunca nem pensei nisso como carreira, pois a matéria que eu menos gosto é Português, mas era o que eu podia fazer para matar um pouco a solidão e o tédio. OLÁ, escrevi como título. Me pareceu muito idiota, mas não tinha outra forma de me apresentar, então, eu comecei.


UM CAPÍTULO UM Hoje é domingo, dia 04 de março de 2007. Meu nome é Diego Fernandes, tenho 15 anos e esse é meu blog. No momento, está chovendo, mas não sei porque estou digitando isso. Bom, então, bem-vindos ao Red Blossom Tree. Porque esse nome? É minha música favorita, e acho que caiu bem. Não encontro uma frase, uma palavra sequer para descrever o começo desse ano. Começar de novo? Não. O começo de tudo? Pior. Mudança de ano sempre é assim, todo mundo acha que a vida nova começa no ano novo. Hipocrisia humana, sempre pensei. Como eu adoro essa palavra. Mas não é que, dessa vez, era mesmo o começo de uma vida nova, da minha vida nova. Ou o fim dela, que seja. Eu sou um típico adolescente problemático e rebelde que acha que o mundo gira em torno de si mesmo. Tenho cabeça vazia, vida vazia, e chata, tão chata que se escrevessem uma biografia dela, ninguém compraria. A não ser pelo meu pai bajulador, é claro, mas isso não é historia pra agora. E sou honesto, deu pra perceber. Esse sou eu, e espero continuar sendo, mesmo nesse novo colégio. Ensino Médio, pelo menos agora eu sou um pouco mais importante. Vou ter que encarar minha nova rotina nesse internato que chamam de Padre Antônio, minha nova instituição escolar, meu novo hospício. Apesar de sempre querer sair de minha antiga cidade, mesmo ela não ficando muito longe daqui, pensar em dormir fora é meio estranho. Pensar em não encontrar com meus poucos amigos por uns tempos também é. Mas pensar em “morar” sozinho, longe do agonizante convívio do meu pai, da minha irmã mais velha e do meu irmão peste mais novo, é maravilhoso. Prometo, isso ainda não é uma carta de suicídio. Ainda. É que, estava sem idéias para escrever, lamentando estar nesse lugar, depois de muitas palestras entediantes de apresentação de novos alunos. Sim, eu estou no hospício.


Meu quarto é legal, me lembra um pouco o meu antigo, inclusive a cama embutida em baixo da minha, pois eu dividia o quarto com meu irmão. Coloquei meu poster do Michael Jackson na parede, ao lado da cama, exatamente onde ficava no meu antigo quarto. Ficou legal. Minha ansiedade por conhecer meu colega de quarto foi grande. Rafael, não sei o sobrenome, também não importa. É, todo mundo conhece um Rafael, dos meus amigos da minha antiga vizinhança, dois tinham esse nome lamentavelmente comum. Pelo pouco que eu sei dele, ele repetiu o primeiro ano por problemas pessoais, e teve que sair da cidade por uns meses. Pelo menos ele conhece o prédio, e me mostrou onde ficam minhas aulas. Acho que vamos ser amigos. Que seja, que venha o amanhã, que venham as aulas entediantes, os veteranos mimados, que venha o Padre Antônio, meu alojamento pelos próximos três anos. Quem diria que eu me arrependeria de escrever isso um dia. Escrever, mesmo que seja pouco, me deixou cansado, então resolvi dormir. Eu queria, não significa que eu consegui. Então amanheceu. “Meu primeiro dia de aula”, pensei. PRIMEIRO DIA DE AULA O dia passou devagar hoje, não via a hora de vir escrever como tive um ótimo primeiro dia de aula. Professores se apresentando, turma tímida e calada. Até puxaram assunto comigo, mas eu nem lembro quem foi. Dia comum, tempo nublado, mas foi produtivo. Ainda bem que não tiveram aquelas rodinhas constrangedoras de apresentação. Mas o dia não importa, só queria mesmo dividir minha dor aqui um pouco e dormir, não consegui dormir direito noite passada. Então, até outro dia. Me perguntei muitas vezes antes de desligar o notebook “Porque eu escrevo isso?” Ninguém lia mesmo. Resolvi não excluir o Red Blossom Tree, dessa vez, então simplesmente fui dormir. Pena que não era tão simples assim. Rafael chegou, e acompanhado.


CAPÍTULO DOIS Eu levantei da cama, e ele nos apresentou: - Diego, Bruno. Bruno, Diego. Eu disse “Oi” num tom seco e agressivo e sentei de novo. O sujeito nem teve tempo de me dizer nada, pois estava acendendo um cigarro. Esquece o que eu disse sobre talvez ser amigo do Rafael. Eles estavam fumando, detesto cigarro e também, quem fuma. Resolvi atrasar um pouco o sono e fui para banheiro, tomei um banho, o mais demorado possível, e quando voltei, não estavam mais lá. Pelo menos tiveram o bom censo de ligar o ventilador pra tirar o cheiro daquela fumaça nojenta. Dormi. Acordei com um pouco de dor, não estava conseguindo dormir direito. Parecia que estavam dando uma festa no apartamento do lado, mas estava sonolento demais pra ver o que estava acontecendo. Cama vazia, Rafael não estava no quarto. “O que diabos alguém estaria fazendo num colégio de freiras as... Duas e poucas da madrugada?” Pensei. Vi a hora no meu celular, 3:17 da manhã. Não, o Padre Antônio não era um colégio de freiras. Eu dizia isso pelo nome. Era simplesmente um colégio com boas médias dos alunos, bons professores, normas que pareciam de um colégio militar e, ficava tão longe que precisava de um alojamento para os alunos. Mas mesmo assim, o que ele estaria fazendo há essa hora, não tendo nenhum bar em volta do alojamento, nenhuma boate, puteiro que seja, nada? - Não importa – falei, e voltei a dormir, ou tentar. No dia seguinte, por incrível que pareça, reconheci o ser que falou comigo na aula passada. Era uma garota, Méci. Não, esse não era o nome dela, também não me pergunte qual é. Ela se apresentou assim, e todo mundo a chamava por esse apelido. Na próxima vez vou prestar atenção no nome que ela responde na lista de presença. Méci tinha cabelos loiros enrolados na cintura, pele um pouco bronzeada, olhos verdes, bonita, simpática também. No final da aula que eu não sei de que era - o professor ficava enrolando (e cuspindo) falando sobre o colégio e suas normas - nós já éramos amigos.


Não precisei esperar a próxima aula, seu nome era Cynthia. Nome bonito, mas também não me pergunte porque diabos, "Méci". Não sei se fazer amigos tão rápido assim era bom, mas ter alguém com quem conversar no almoço era uma prioridade a ser cumprida. Próxima aula, Matemática. Apesar de odiar, sempre fui muito bom. Na verdade, nunca fui ruim nas matérias do colégio (eu não conto com Português para aumentar um pouco meu ego). Sempre estudei, mas também me divertia com meus amigos. Horas perdidas na Internet nunca me atrapalharam, juro. Ta bom, só as vezes. Colégio muito grande, com muitos alunos, cheio, mas pacato, final do almoço. Vinte minutos aguardavam a mim e a minha nova melhor amiga, sentados num banco em baixo de uma árvore, sem abrir a boca nem mesmo pra falar um “Ta frio hoje, né?”. Gosto de tempos frios. Estava até gostando ficar naquele silencio constrangedor quando a voz de Méci até me assustou, gritando “BRUUUUNO!!”. Olhei para frente, o amigo do Rafael estava passando por lá. Méci o chamou, eu o fitei, depois ignorei. Mas confesso, enquanto eles conversavam como se eu nem existia, não deu pra não reparar no corpo maravilhoso que aquele garoto tem. Não reparei ontem em como ele era bonito, cabelo bastante bagunçado, mas curto. Olhos escuros, bem escuros, mas profundos. Pele branca precisando ir à praia. Não muito alto, mas pela camisa dava pra perceber o corpo definido, mas magro, que aquele uniforme broxante vestia. Estava distraído demais pra perceber que eles pararam de conversar, e Bruno me olhava com olhos muito arregalados, como se eu fosse um fantasma. Sem perceber, ele já tinha me pego pelo braço e me levado para trás da arvore que fazia sombra para mim.

CAPÍTULO TRÊS


- O que você tá fazendo com ela? - Com quem? - eu falava, quase gritando, pelo modo que ele me prensava contra a árvore. - Com ela, porra! - ele apontou pra Méci. Por um segundo eu lembrei que ela ainda estava ali, atrás da arvore, ainda sentada, olhando para um grupo de pessoas que passavam distante da gente. - Eu estudo com ela, o que mais eu estaria fazendo? - respondi. - Se você ousar contar alguma coisa de ontem pra ela - ele gaguejou pra alguém, eu juro que vou atrás de você, ouviu? - ele falava num tom muito agressivo, mas baixo, como se ninguém pudesse ouvir. Parecia estar sussurrando no meu pescoço. Foi excitante, mas tudo que eu pensava era em evitar uma ereção em péssima hora. - Ontem o que? Do que você ta falando? - falei, quando ele me soltou, ofegante. Só aí pude perceber que eu era um pouco mais alto que ele. - O Rafael também tá de olho em você, entendeu? - ele disse, e saiu andando. Um andar gracioso, mesmo com raiva. Parecia estar se exibindo. Meu tipo ideal de homem confesso, mas um idiota completo. Voltei para Méci com a melhor cara que eu pode fazer de “não aconteceu nada”. Nunca consegui fazer caras parecidas, mas parece que ela acreditou. Ela se manteve sorridente até levantar e avisar que está na hora da aula. Não sabia o que tinha acontecido, mas o que quer que seja, Bruno não quer que ninguém saiba. As aulas passaram, a última, filosofia, até que foi um pouco interessante. Méci me apresentou um de seus amigos, Hugo, mas não nos falamos muito. Não parava de pensar no episodio que acontecera mais cedo. Decidi voltar correndo para o quarto e perguntar a Rafael o que estava acontecendo. E foi o que eu fiz, até entrar no quarto e vê-lo completamente nu. Aquele corpo alto perfeito, bem malhado (nunca gostei muito, mas o dele, meu Deus), saindo do banho. Nesse momento meus esforços de evitar uma ereção foram inúteis. Peguei meu notebook e coloquei na frente do volume que formava, pra tentar disfarçar ao máximo, e sentei na cama. E parece que consegui. Ele deu um simpático “Oi” com um sorriso perfeito e voltou ao banheiro. “Sempre me apaixono pelos héteros”, pensei.


MEDO Terça-feira, dia 06. Título auto-explicativo. Porque? Ontem conheci um amigo do meu colega de quarto, Rafael, aqui mesmo, na nossa cela. Hoje, conheci uma garota da minha sala, Cynthia, mas todo mundo a chama de Méci, não sei porque. Hoje no almoço, Méci viu Bruno, o colega com cheiro de cigarro do Rafael, e o chamou. Quando ele veio em direção à ela, me viu quase me bateu atrás da árvore. Porque? Dessa vez eu não sei responder, mas está acontecendo alguma coisa com ele, e Rafael tá envolvido. Medo. Enquanto escrevia, senti fazendo uma retrospectiva do dia. Achei isso, até um certo ponto, uma vantagem. Pensei que minhas postagens estavam ficando pequenas, mas não importava pois, como eu já disse, ninguém lê mesmo. Alguns minutos depois, quando minha euforia já estava calma, batem na porta e Rafael sai do banheiro para atender. Dois garotos que eu nunca tinha visto na vida. Estavam um pouco arrumados, mas o Rafael estava deslumbrante. Blusa azul - eu amo azul - calça um pouco apertada, seus ombros largos e sua altura proporcional eram excitantes. Ta bom, tudo é excitante pra mim. Mas não dizem que um homem gay pensa em sexo a cada 9 segundos? Imaginei-me agarrado com aquele corpo maravilhoso e suado, deitados na cama, quando a voz dele quebrou meu sonho. - A gente vai sair da cidade essa noite. Quer ir com a gente? Percebi que foi um convite por educação, por isso recusei. Mas os olhos dele brilhavam, quase querendo que eu fosse. Saíram pela porta e pensei ter desperdiçado o tempo que tive sozinho com ele, para perguntar o que tinha acontecido com Bruno. Enfim sozinho. Notebook, Internet, Queer as Folk, música, chocolate, ligar para os amigos. Coisas que alguém faz quando fica sozinho em casa. Já eram dez da noite. Estava completamente sem sono, mas tinha que descansar, eu acordaria cedo no dia seguinte. Mas essa noite não foi como eu esperava. Ter o Bruno batendo à


porta de noite, sem o Rafael no quarto, era completamente estranho. Abri.

CAPÍTULO QUATRO ERA... ERA! Ainda bem que meu pai não sabe que eu escrevo um blog. Hoje ainda é dia 06, quer dizer, é dia 07, pois já passou de meia-noite e já vai amanhecer. Eu só REALMENTE precisava desabafar um pouco. Minha intenção não é escrever um blog pornô, e sim o que acontece comigo e eu acho im portante escrever, então lá vai. Ontem, ainda dia 06, quando Rafael saiu para fora da cidade com uns amigos, Bruno quase quebrou a porta do meu quarto, supostamente procurando por ele. Eu abri, claro. "Ah, de novo não", eu pensei. “OK, estou feliz". Me entenderam, não é? Também, me perdoem, porque foi impossível não ficar ereto quando tinha o homem mais bonito (pra não falar do corpo) que você já viu abrindo a porta com uma força que dá medo e te pegando pela cintura, te agarrando, te beijando e te colocando na cama, apenas com uma frase: - O Rafael não vai gostar nada, mas eu vou primeiro. Ele tirou minha calça e começou a me chupar de um modo que eu nunca fui chupado antes. Diferente, mas muito bom. Ta bom, não foi diferente. Eu que nunca tinha sido chupado antes. Na verdade, nunca estive com outro homem, tirando as brincadeirinhas de médico enquanto eu era criança, algumas até com garotas (tenho nojo disso hoje em dia). A noite era quente, uma noite parecida com noites de verão que acabou de chover bastante e ficou abafado, mas mesmo assim, enquanto ele me tocava, parecia que eu estava completamente gelado, pois o calor da sua mão em todo meu corpo era delirante e confortante. O resto da noite eu não preciso descrever, afinal, todos vocês já sabem o que aconteceu. O único virgem aqui sou eu. ERA, era virgem. Adorei digitar isso! Depois de, como eu vou dizer isso, "tudo", eu estava com aquela sensação de, AI, DE NOVO, DE NOVO! como uma criança que tinha ido


pela primeira vez em uma montanha russa. Na verdade, eu era uma criança que tinha ido pela primeira vez em uma montanha russa. Mas mesmo com toda dormência, e com as partes, de novo: como eu vou dizer isso, "traseiras", ardendo, e com aquele calor tipo "jogue um sorvete em mim e me lambe", eu tive tempo de lembrar de perguntar a ele porque ele tinha agido de modo estranho mais cedo. Só que, justamente quando o silêncio já estava se tornando constrangedor e eu ia puxar um assunto, ele acendeu seu cigarro. Essa era a vantagem de ser mais alto (e um pouco mais forte, ainda bem): consegui empurrá-lo da cama para fora do quarto. Pena que eu percebi que ele estava nu e suas roupas ainda estavam dentro do quarto. Tive que abrir a porta e, com o maior sacrifício do mundo (mentira), rever aquela escultura feita de luxúria e com cheiro de esperma. Uma coisa levou a outra e quando eu me toquei, já estava de novo em uma posição não muito agradável, mas num momento muito agradável. Durante uma série de movimentos repetidos e gemidos estonteantes, lembrei de uma outra pergunta. "Porque isso? Sabe, ISSO TUDO assim, de repente?" era o que estava na minha cabeça, mas tive medo da resposta. Ai, estou muito eufórico, e preciso dormir depois disso. Prometo que volto. Resolvi o problema das postagens pequenas. Sentar num balde de gelo, era tudo o que eu queria quando acordei. Pensei, “Isso acontece com todo mundo?” e ignorei meus pensamentos. Me lembro da sensação, da penetração, de todo sexo em geral. Da dor absurda que foi na primeira vez, da dor prazerosa que foi em seguida e do prazer doloroso (devido a dormência) que terminou nossa noite juntos. Só não me lembro de quando eu tinha adormecido e, onde teria ido meu amante com cheiro de cigarro. Vesti minha roupa, quando senti uma estranha sensação de algo em minha barriga, como um creme grosso e espesso que tinha secado, formando casquinhas fáceis de tirar. Nem precisei pensar muito para descobrir o que era aquilo, nem para me tocar que eu precisava de um banho. Fui para o chuveiro, tomei o banho mais rápido (e mais necessário) da minha vida, pois estava quase atrasado para minha próxima aula, e


queria procurar meu fugitivo, pois mesmo sem saber de onde eu ia tirar coragem de olhar na cara dele, eu ainda tinha duas questões para solucionar. O quarto estava com cheiro de sexo, um cheiro que dá um cansaço, que dá vontade de deitar com seu parceiro e ficar agarrado pra sempre, mesmo sujos de “creme” . Um cheiro bom. Desci as escadas do alojamento correndo, só parei quando o monitor dos quartos masculinos me mandou parar gritando algo como “Não corra ou levará multa!”. Ignorei o que ele disse, por não ter entendido a parte da “multa”, mas diminuí o passo mesmo assim, principalmente porque lembrei do Rafael. Onde será que ele está? Lógico, ele já deve estar na sua aula, mas ele teria ido sem dormir? Porque, ele não voltou para o quarto. Ou será que ele voltou? Será que ele viu alguma coisa, e por isso o Bruno saiu? Ou o Bruno viu que amanheceu e foi para seu quarto se arrumar para suas aulas? Mas, nesse caso, porque ele não me acordou? Mais medo. Assim estava minha mente, mais embolada que meu cabelo depois de uma noite de sexo incansável. Andei até o prédio, para minha primeira aula do dia.

CAPÍTULO CINCO Eu me distraía fácil nas aulas, o que não era difícil de acontecer. Só que dessa vez, por outro motivo, muitos motivos. Mesmo com minha mente parecendo que saía fumaça de tanta preocupação, durante o almoço foi inevitável não sentir aquilo: aquela sensação como se você tivesse acabado de ganhar na loteria, ou tivesse feito 18 anos, algo parecido, algo que te der poder e liberdade, e você poderia fazer o que bem entendesse. Eu estava sorrindo à toa. Era uma sensação boa, mas eu tinha que controlá-la, para que Méci não percebesse nada. A última coisa que eu queria é explicar o porque da minha felicidade.


Provavelmente não conseguiria inventar uma desculpa decente, e acabaria contando da minha noite intensa. Mas, mesmo com uma felicidade instantânea, eu sabia que, eram meus primeiros dias, e eu já estava com problemas. Ignorei a fome, e ignorei Méci gritando “Onde você vai?” por trás de mim. Saí andando, tentando me distrair um pouco, ficar sozinho, ouvir música, e até conhecer mais os outros prédios. Mas é claro que eu tinha um plano escondido. Eu precisava encontrar o Bruno, e mesmo com medo, também precisava encontrar Rafael. Minha agonia aumentava cada vez que eu olhava para o relógio: a última aula demorava para acabar. Não consegui encontrá-los no almoço, então teria que resolver isso no dormitório mesmo. “O Rafael não vai gostar nada, mas eu vou primeiro.” Só de pensar nessa frase, eu já ficava arrepiado, pra não falar que aconteciam outras coisas também. A aula acabou, “Graças...”, suspirei alto, e andei numa velocidade incrível de fora da sala, saindo do prédio, passando pelo pátio e pelas árvores até meu ninho de amor, quer dizer, meu quarto no dormitório. Nem me lembro de ter me despedido de Méci, amanhã eu peço desculpas a ela. Chegando lá, Rafael estava com muitos livros em cima da mesa, apesar de que ele não tinha cara de quem estudava, e pelo que sei, também não tinha cara de quem ligava para os estudos. - Seu pai ligou – a voz dele cortou minha concentração, enquanto eu observava aquela cena. - Ah, obrigado, ligo pra ele mais tarde. Você tá estudando? - Não é estudo, eu gosto de ler – ele puxou um livro da pilha em cima da mesa e me deu. “Gossip Girl”, confesso que eu quase ri. - Gossip Girl? Não é mais fácil assistir? - Já disse, eu gosto de ler – ele parecia com raiva. - Você tá bem? - perguntei. - Não – adoro pessoas secas. Um silêncio forte, e enquanto eu decidia se perguntava o porque do mau humor dele, ele já veio falando: - Eu disse para o Bruno que você era meu primeiro. - Como assim? - perguntei, dessa vez, muito assustado - Eu disse a ele, que eu queria transar com você primeiro. Tá certo


que ele podia, mas ele nem me pediu antes. As palavras dele me deixaram em choque, mas confesso que eu tava gostando de ouvir aquilo. - Então, você sabe? - Claro que eu sei - ele disse - a idéia foi minha. No dia que eu apresentei vocês dois, disse pra ele que você também era, e acertei, não é? Aí eu propus que nós ficássemos, mas eu primeiro. Estava tudo confuso na minha cabeça, e depois disso, eu só conseguia pronunciar "É..." e "Ah...". Então, lembrei de perguntar o porque do Bruno ter agido estranho comigo quando me viu com Méci. - Não reparou nada nos nomes não? Cynthia Méci, Bruno Méci, eles são irmãos - ele respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Descobri de onde vem o apelido de Méci - Nós transamos enquanto você tomava banho, e ele achou que você tivesse ouvido algo, e a irmã dele nunca pode saber. - Então, você também é - eu sei que foi idiota falar isso, mas eu ainda estava naquela fase só de "É...s" e "Ah...s" Ele me ignorou, foi a melhor coisa a se fazer mesmo. - Você não foi as aulas hoje, não é? - finalmente, eu disse. - Não, só cheguei agora de manhã da noite de ontem - outra pergunta respondida. Acho que minha mente foi parar em algum lugar que eu não sabia qual era. - Eles não se parecem em nada, pensei alto.

CAPÍTULO SEIS Batem na porta, quem mais podia ser? Mas não, não era o Bruno. Era a Méci. - Meninas não podem entrar no dormitório masculino sem serem acompanhadas pelos monitores - Rafael disse, após abrir a porta. - Oi Rafa - Méci disse - Você viu meu irm- ela parou de falar no meio da frase, olhando com olhos esbugalhados para mim. Eu já estava com medo quando ela disse: - Diego? Você tá nesse quarto? - É... - não acredito que os "É...s" e "Ah...s" voltaram - Ah, que legal, meu mais novo amigo junto com o melhor amigo do


meu irmão. Então... Eu pensei por um segundo, enquanto ela refazia a pergunta para Rafael, "Tenho que ligar para meu pai". - Não, não sei onde ele foi. Ele não foi para as aulas hoje? - Não, nem você, não é? - ela disse - Vou acabar me formando primeiro que você, Rafael Lima. O celular de Méci toca, "Keep bleeding, keep, keep bleeding love", uma música da Leona Lewis. - É ele - ela diz, e atende - Posso saber onde você se enfiou? "Agora eu não sei", pensei, "Mas noite passada, foi em mim". Silêncio. - Hmmm Mais silêncio. - Ta bom, beijo - desligou. - E? - Rafael perguntou - Ele pediu pra você buscá-lo no Centro - OK, to indo pra lá - ele pegou sua carteira e saiu - O que é o Centro? - perguntei pra Méci - Também não sei, só sei que é um lugar que ele e o Rafa freqüentam. Como assim, ela não sabe? Ignorei - Então, vou para o meu dormitório antes que eu seja pega. Até amanhã - ela disse. - Até - eu disse, ainda atordoado. Deitei na cama, ainda com meu uniforme, joguei os tênis no meio do quarto. Cada vez que parecia que eu resolvia alguma questão, aparecia outras. E não tinha nem uma semana que eu estava no hospício. Não lembro exatamente quando eu cochilei, mas acordei com mais batidas na porta, e uns gritos, um pouco baixos, da voz do Rafael do outro lado da porta dizendo "Me ajude aqui". Abri desesperado, e ele estava segurando Bruno no colo, aparentemente desmaiado. - O que houve? - perguntei. - Bêbado. Deixa ele aqui por hoje. Colocamos Bruno na cama do Rafael, quando eu disse: - Não devíamos dar um banho gelado nele, ou coisa parecida? - Boa idéia - ele confirmou. Tiramos os tênis do Bruno, e aproveitei para perguntar para o Rafael sobre o que era o Centro. A resposta dele, "Um dia te levamos lá" me deu a


certeza que era um lugar gay. Um pub, talvez? Mas não me lembro de nenhum bar em volta, sequer perto, do Padre Antônio. Bruno se mexeu um pouco enquanto tirávamos sua blusa, depois sua calça, e depois era inevitável não olhar para o volume, mesmo enquanto ele dormia, que tinha em sua cueca. - É assédio se eu tirar a cueca dele? - eu disse. - Não, né, só estamos ajudando. - E se eu, fizer algo a mais? - Não sei se é assédio, mas sei que ele não vai responder as suas espectativas, se você me entende - ele respondeu, me fazendo rir – além disso, ele não vai gostar nada nada de saber que não estava acordado para aproveitar você. Eu devo ter ficado vermelho, provavelmente. Levamos Bruno e seu corpo maravilhoso até o banheiro, ligamos o chuveiro e lá ele ficou, sentado com água caindo em suas setas perfeitas. - Agora? - eu disse. - Agora - ele disse - eu acho que eu posso posso responder as suas espectativas. O resto da noite, você já sabe. Mais dormência, mais gemidos estonteantes, mais baldes de gelo.

CAPÍTULO SETE Até esqueci do Bruno em baixo da água, ele deve sair de lá todo enrugado. Mas não era possível lembrar do Bruno com Rafael nu na minha frente. Também não era possível imaginar um corpo mais perfeito do que do Bruno, até encontrar com Rafael do jeito que ele nasceu. Ai, que casal. Acordar em seu peito duro, quente e suado foi uma sensação muito boa. Bruno dormiu na cama do Rafael, ainda pelado, e Rafael o levou para seu quarto, provavelmente ele não iria para suas aulas hoje de novo. Enquanto eu tomava um banho, Rafael volta, indo ao banheiro e me dando um beijo. Outra sensação boa. Saí do banho e ele estava pronto para ir para seu prédio, com um pacote de Club Social Recheado na mão e um biscoito quebrado na boca. Eu ri dessa cena. Parecia que ele estava atrasado, mas ainda faltava uma hora para o começo das primeiras aulas.


Ele mastigou, engoliu e me disse: - Hoje a noite vamos no Centro, ta bom? Não soube o que responder, fiquei tão vidrado no beijo que ele mandou no ar para mim enquanto fechava a porta que só consegui dizer um "Uhum". Minhas aulas foram interessantes, pela primeira vez me senti bem na classe. Conversei com outras pessoas que eu ainda não tinha falado, algumas muito simpáticas, mas não me pergunte o nome delas. Lembro do Hugo, amigo da Méci, agora sim eu vi que ele é um cara legal. Meu almoço foi interessante. Vi o Rafael passando longe numa árvore e, claro, nem sinal do Bruno. Almocei com meus novos amigos da classe, conversas interessantes, piadas inteligentes, até aquele momento. Fala sério, que adolescente nunca conversou de sexo? Mesmo os virgens, sempre falavam. Na verdade, os virgens eram os que mais falavam em sexo. Então, não sei como a conversa começou, mas de repente o diálogo já era esse: Garoto que eu não sei o nome: Ouvi dizer que na primeira vez pode machucar, até sangrar. Garota que eu não sei o nome 1: Mas meu namorado é gentil e romântico. Ele não deixou acontecer. Garota que eu não sei o nome 2: Sorte sua, nunca encontro alguém decente. Ou já namora, ou é viado. Não sei o que me irritou mais: ver crianças conversando como se tivessem 30 anos ou o uso da palavra "viado", penso que é muito ofensiva. Seja o que for, levantei da mesa e fui andando pra longe daquele círculo. Podiam até ser pessoas legais, mas não, obrigado, tem pessoas que não são suportáveis. Pude sentir os olhos de Méci me encarando, mesmo estando de costas, como se ela tivesse raios lasers prontos para me assar se eu não virasse e voltasse para o meio sociável, mal sabia ela que eu já estava bem assado. Continuei andando, mas diminuí um pouco a velocidade quando ouvi um barulho de cadeira arrastando: mais alguém tinha levantado. Os passos


na minha direção me fizeram acreditar que era Méci, mas senti a mão gelada de Hugo nas minhas cosas, dizendo: - Tudo bem, cara? - Tudo sim, relaxa. Continuamos andando, ele ao meu lado, até sentarmos em baixo de uma árvore, na grama recém molhada devido ao sereno. Hugo quebrou o silêncio: - Então, você é virgem? Sua voz interessada me fez pensar em algo do tipo "Colégio de gays, adorei" - Não - respondi. - Então, você transou com mulher ouO sinal toca. Fim do almoço, hora da próxima aula. Não respondi, principalmente porque ele não chegou a completar a pergunta. Mas não precisa ser um gênio para saber o que ele ia perguntar. Também não precisa ser um gênio para reparar que ele ficou me olhando durante a aula de Educação Física, pois eu estava sem blusa. Três homens em menos de uma semana. Hugo não era lá essas coisas, mas não tem problema, era sexo. Tá ótimo. Abri o armário de roupas do meu quarto: Duas calças idênticas do uniforme, uma calça de héterozinho larga que usava sempre e uma skinny preta. Decidi pela calça de héterozinho, pois não sabia pra que tipo de lugar eu estava indo. Também porque não é legal escolher roupas quando tem alguém te apressando do seu lado. "Vambora", Rafael dizia toda hora. "Já tá pronto?". Isso me irritava, mas eu gostava de quando ele dizia "Dane-se a roupa, eu vou tirá-la toda mesmo depois". - Tô pronto, vamos? - Finalmente - ele me deu um beijo e abriu a porta. Quase levei um susto, Bruno estava na porta, pronto pra bater. Ele disse um "Demorou, hein" e saiu andando na frente. Pelo menos ele estava sóbrio, ainda, né. Descemos as escadas, saímos do campus até umas ruas escuras que eu nunca andaria sozinho, e talvez nunca andaria acompanhado também. Paramos em frente a uma porta vermelha, que parecia roxa no escuro, no meio de umas latas de lixo, num beco típico de cena de


assassinato. Bruno tirou uma chave do bolso e abriu a porta. Um corredor escuro. Uns gemidos no fundo.

CAPÍTULO OITO E eu estava errado, não é que tinha um puteiro em volta do alojamento? O cheiro de mato queimado, sabem né, rondava todas as portas que se ramificavam de um enorme salão, no final do corredor. No salão, um homem gordo, alto, careca e com um bigode, com óculos escuros, estava atrás de um balcão completamente lotado de bebidas, escrito "CENTR" em cima. Não me pergunte onde foi parar o "O", mas se eu fosse deduzir, diria que estão usando a letra em uma das salas ramificadas do salão, pois o barulho que vinha delas era intenso. - Ah, puteiro, legal - foi a única coisa que saiu da minha boca. - Não é um puteiro, é uma casa de diversão - Rafael me corrigiu. - O que vai ser? - perguntou o tio do balcão. - Qualquer coisa que não tenha goza dentro - Bruno disse rindo, eu torci pra que ele estivesse brincando mesmo. - 3 Martínis, pronto - ele trouxe 3 copos com um líquido vermelho que me lembrava sangue. Rafael e Bruno viraram os copos, eu só bebi um gole, queimando a garganta. Eu era menor de idade, e eles dois também, Isso criou questões éticas na minha cabeça, mas as ignorei. Entramos na porta ao lado do balcão, era um quarto bonito, uma cama gigante, um micro-system tocando Celebration da Maddona, e outros acessórios, como um criado mudo, um abajur, ar condicionado, mas nada disso importava mais, porque Bruno e Rafael já estavam nus e me alisando. Bruno tirava minha calça enquanto eu usava minhas habilidades bucais no Rafael, o fazendo gritar de prazer. "Ai, eu sou bom", pensei. Mais novidades: o puteiro não era só um puteiro. Também era uma boate, que funcionava como um puteiro coletivo, com música alta. Até que era interessante, pra quem queria dançar, e ser chupado às vezes. Nós fomos pra lá depois de nossas práticas no quarto.


Outro bar lá dentro, outra dose de Martíni, outro gole queimando a garganta. Outros homens gostosos tirando a roupa, outros boquetes, outros amigos. Outros amigos? Legal, juro que aquele homem que passou ali, no canto, era o Rafael. Não o meu colega de quarto e parceiro de transas, mas o Rafael, meu amigo de vizinhança, bem ali. “Como assim?” Fiquei pensando nisso até que me puxaram, e mesmo estando com o corpo cansado, foi inevitável resistir aos corpos esculturais me rodeando. Quando me toquei, era sexta-feira de manhã, eu estava no meu quarto e não tinha falado com meu pai ainda, mas imaginei o que ele queria: - Como vão as coisas, chapa? - Tudo normal, pai. - Então, e as garotas? - Normal, pai. - Você vem pra cá nesse final de semana? - acertei. "Não pai, estou sendo chupado todo dia por dois deuses", deu vontade de falar. - Não pai, ainda tenho algumas coisas para resolver com meu horário novo e tudo mais... - OK, então, me ligue mais, tá bom? Não foi pra isso que eu te dei um celular, pra você ligar- tirei o telefone do ouvido, só ouvindo um zumbido e um bla bla bla, depois respondi um "Ta bom" e desliguei. Meu pai era um tipo bajulador, super protetor, que me irritava. Que pai não irrita o filho Provavelmente ele está pensando que eu dei a desculpa do horário para sair com alguma garota. Ta bom, era desculpa sim, mas era pra sair com homens. Se ele soubesse disso, me colocaria num psiquiatra, depois num hospício de verdade e depois provavelmente se mataria. Diria que foi erro da criação dele, ou por eu não ter tido criação suficiente da minha mãe, e muitas outras coisas. Eu tinha uma irmã de 25 anos na faculdade, ela se achava dona de tudo. E meu irmão, 6 anos, carinha legal, mas me irritava, porque eu não gostava de crianças. Quatro semanas se passaram desde minha primeira ida ao Centro.


Quatro semanas de sexo à três, bebidas deliberadas, noites viradas na boate do Centro. Quatro semanas de atualizações chatas, engraçadas e sexuais no Red Blossom Tree. Quatro semanas. Meu pai me ligava mais do que nunca, eu já estava a um bom tempo sem vê-los, e já estava ficando sem desculpas. Afinal, eu não estudava aos finais de semana. As aulas começaram a se tornar repetitivas, monótonas. Um passeio foi proposto pelo professor de Literatura, não lembro se era para um parque ou para um museu, gostei daquela idéia. Tinha 3 livros pra ler, comecei com "O Morro dos Ventos Uivantes". Eu teria uma avaliação surpresa desse livro daqui a 4 dias e ainda não sabia. Eu precisava de algo diferente, eu precisava de carne nova.

CAPÍTULO NOVE Sábado de tarde, passeio da classe. Fomos com nosso professor de Literatura a um museu no centro, não, não AQUELE Centro, o centro da cidade mesmo. Planetário, fósseis, coisas para crianças, até que foi divertido. Eu andava por todos os cantos com meus dois melhores amigos, Méci e Hugo, ríamos, nos perdíamos, contávamos histórias engraçadas e até quebrávamos réplicas de múmias na exposição do Egito. Eu me sentia como Harry Potter e seus fiéis amigos. Isso, um Harry Potter gay. - Durante a próxima semana não haverá aulas, já estão sabendo? Juliana, uma garota ruiva, sardenta e metida da minha classe disse - Vou aproveitar para esquiar com meus pais, e vocês? Faltou pouco para eu não mandar ela para um lugar agradável. - Temos planos - saí andando, ignorando-a. Era verdade, a semana seguinte seria de palestras sobre profissões, carreiras e essas coisas. Os veteranos tinham que assistir, mas nós novatos fomos dispensados desse tormento. Méci, Hugo e eu já havíamos conversado sobre isso: ela iria para casa dos pais ainda hoje a noite, eu iria para a casa do meu pai na segunda, e Hugo ficaria no alojamento, pois seus pais estavam viajando. Os pais de Hugo tem uma empresa, não sei de que, mas sei que eles gostam mais da


empresa do que do filho, por isso ele está no Padre Antônio. Eu pensei em chamar Hugo para ir comigo para minha cidade, mas ele deixou claro que quer ficar no alojamento, não sei pra que. As vezes ele gosta de ficar sozinho. De noite, no meu quarto, conversei com Rafael. Ele me propôs ir no Centro amanhã, já que eu vou ficar uma semana cercado de héteros. Mas eu tive uma idéia melhor: - Vá você pro Centro, e chupe muitos caras por mim. Já tenho planos pro domingo à noite. E não volte antes de amanhecer - eu disse. A cara de assustado do Rafael era impagável, mas mesmo assim ele me ouviu e silibou um "Arrã" que pareceu mais com um "Sim, senhor!". Adorei aquilo. Ele estava indo dormir e me observou pegar o telefone, e falar: - Hugo? Oi cara. Então, amanhã eu ainda vou estar no campus, que tal a gente passar na locadora, pegar uns filmes e você vem pra cá assistir? - agora Rafael fazia outra cara, de "Esses são seus planos, né?" - OK então, até amanha. Desliguei. - Que história é essa? - ele resmungou. - Vai dormir - assim acabou meu dia. Domingo de manhã, o Sol queimava meu rosto, isso era irritante. Banho, café da manhã, beijinho no Rafa, encontrar com Hugo. Fomos às locadoras, duas lojas pequenas, mas com filmes bons. Hugo estava animado, mesmo tendo esquecido de se despedir de Méci ontem. Eu também tinha esquecido, por isso mandei uma mensagem de texto hoje de manhã. Ele fazia piadas tipo "Que tal esse?" com "Titanic" ou "Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida" nas mãos. De vez em quando ele pegava algum pornô com uma mulher se esfregando num negão na capa, e dizia "Esse, com certeza" e eu tinha que ficar quieto, né. Ainda não sabia porque não tinha contado pra ele, mas estava com medo dele me mostrar mais uma capa de filme pornô hétero e eu gritar "EU GOSTO DE PAU, PORRA!". Mas mesmo assim, as vezes eu percebia alguns olhares estranhos vindo dele, isso me arrepiava. Meu gaydar funciona bem, e apita muito pra ele.


Acabamos escolhendo "A Chave Mestra" que eu já tinha visto, mas vale a pena ver de novo, e "Todo Poderoso 2", eu ainda não tinha assistido. Enrolei o máximo possível fora do alojamento, passando em cada Lojas Americanas pra olhar CDs e comprar algo para comer. Adoro essas lojas. Meus esforços de atrasar nossa sessão de cinema funcionaram: quando chegamos no meu quarto, Rafael já não estava mais lá. "Ainda bem", pensei. Pipoca no microondas, barras de chocolate em cima da cama, refrigerante suando no chão, ao lado de dois copos com gelo e um pacote de Doritos. Estávamos prontos. - Qual vamos ver primeiro? - Hugo perguntou. - Ah, não sei. Prefiro ver "Todo Poderoso 2" primeiro, pra depois ver o de terror, e você ficar com medo e me agarrar - dei uma gargalhada nervosa. Nós sempre fazíamos piadinhas desse tipo, mas quando eu fazia, não soava que era piada. - OK então - ele colocou o DVD. Minhas gargalhadas estéricas soavam alto demais, como se eu estivesse nervoso. Na verdade, não faltava muito para eu começar a suar frio, não sabia porque. Hugo ria mais de mim do que do filme. - Me deixa em paz - eu dizia toda hora, rindo sem parar, e fazia uma cara de constrangido. Foi agradável passar aquela noite com ele, pelo menos até o outro filme. Já tínhamos acabado com as barras de chocolate, os biscoitos, a pipoca, só restou um pouco de refrigerante quente. Colocamos o outro filme. Senti um tédio muito grande enquanto via "A Chave Mestra". Não sei se era por já ter visto, ou por ter me tocado do real motivo dessa sessão de cinema. Ops, descobri porque eu estava nervoso. Eu queria algo a mais, eu queria ele, eu gostava dele. Eu queria, e eu achava que ele quisesse também. Na verdade, eu tinha certeza. Então foi o que eu fiz.


CAPÍTULO DEZ Não resisti, e só sosseguei quando estava com minhas mãos entre sua coxa e o estava mordendo na nuca. Ele parecia, tenso. Na verdade, só percebi que ele estava suando quando eu beijei sua boca e ele levantou bruscamente, quase me empurrando para fora da janela. - O que é isso, cara? - ele estava quase gritando. OK, meu coração começou a disparar, comecei a gaguejar, tremer. O que eu tinha feito? - É... É... - nada saía da minha boca. - Qual foi, cara? Você é viado? A ênfase que ele deu na palavra "viado" me faria gritar com ele, se eu não estivesse paralisado por causa do nervosismo. - Hugo, cara- não consegui terminar de falar, ele já tinha batido a porta e saído. Ouvi uns passos fortes no corredor, ouvi também a voz do monitor do dormitório mandando não fazer barulho e, em um segundo, tudo estava calmo. O silêncio me irritava. O filme ainda passava, vozes vindo lá de fora, mas para mim, silêncio. Parecia que eu estava surdo. O que eu tinha feito? No que eu estava pensando? Porque eu fiz aquilo? Meu coração doía, eu sentei levemente no chão, me arrastando pela parede. “E todos aqueles sinais? Todas aquelas olhadas, todas aquelas conversas, não é possível que ele seja...” Não quis terminar a frase, mas sem querer, sussurrei. - Hétero. Tudo que eu queria era me esconder em um lugar escuro para que ninguém nunca me achasse mais. O jeito que ele me tratou, o jeito que ele falou, olhou pra mim, eu nunca senti isso antes, mas é horrível. Não sei quanto tempo passou enquanto eu estava esticado no chão e com o Rafael ao meu lado na cama. Provavelmente ele chegou, me viu caído e me colocou ao seu lado, mas não lembro disso ter acontecido.


A voz de Rafael parecia estar aumentando. Primeiro, de muito leve, pra depois um tom normal, mas que parecia ser um grito. - Diego? Hey, Diego? Fala cara, que foi? Diego? - ele repetia meu nome. Eu tinha esquecido de respirar, de piscar, de como falar. - Você está em choque cara, o que houve? - Eu... Hugo... - comecei a chorar. - Calma cara, vai passar - ele me abraçou. Alguns minutos depois eu já estava me sentindo bem, o que não era difícil de acontecer enquanto estivesse naquele peito quente. Expliquei pra ele o que tinha acontecido, ele até riu um pouco, e me falou coisas como "Isso é normal, sempre vai acontecer. Você ficou muito nervoso, foi sua primeira rejeição desse tipo..." e me contou até uma história de uma vez que ele foi pego chupando um cara no antigo colégio, que ele se sentiu exatamente como eu me senti agora. A conversa foi confortante, mas a sensação parece que nunca vai sair do eu coração, nunca mais. - Descansa, amanhã você vai se sentir melhor, e você tem uma viagem pela frente, lembra? - ele disse, me deu um beijo e me pôs na cama. Não consegui dormir, e quando cochilei, tive um pesadelo. Acordei com medo, mas não me lembrei com o que eu tinha sonhado. Eu me sentia perseguido, vigiado, estava paranóico. Finalmente, consegui dormir.

CAPÍTULO ONZE O ônibus pra minha cidade saiu de manhã. Foi uma viagem tranqüila, tirando os solavancos repentinos, por eu estar em um banco me cima da roda traseira. Ouvi Quietdrive toda a viagem, revesando às vezes para Michael Jackson e uns covers gravados por mim. Tentei esquecer do meu mico constrangedor na noite passada, da sensação que corroía meu coração, mas também não parava de pensar no que aconteceu. Achei que essa semana seria boa para sossegar as coisas, e depois, tentar reatar minha amizade com meu amigo ex-suposto-hétero. Já era de se esperar, meu pai estava esperando em um terreno


asfaltado que cabem 2 ônibus que chamam de rodoviária. Dei um abraço nele. Apesar de tudo, sentia falta do modo que ele cuidava de mim. Perguntei sobre Clarissa, minha irmã, e ele disse que ela estaria fora a semana inteira com problemas com a faculdade. Menos uma perturbação na minha cabeça. Em compensação, Henrique estava doente. A última coisa que eu queria era pegar uma virose de um garoto de 6 anos. Subi na traseira da bicicleta. Mais solavancos. Minha cidade parece uma versão de Paquetá sem a praia suja e a poluição. Ta bom, só sem a praia suja. Custa colocar um asfalto nas ruas? Minhas regiões de trás já não estavam muito boas, na bicicleta com esses buracos na rua então... que bom que eu vou descansar uma semana. Meu antigo quarto: também estava com saudades dele. Pena que não se parecia em nada com o que era antes. Kike se apossou de tudo. Pintou a parede, redecorou, colou fotos do Capitão América em todos os cantos, e escreveu "Kike" atrás da porta. Chamamos ele de Kike desde criança, também não me lembro porque. Depois que minha mãe morreu, em um acidente de carro, meu pai resolveu adorar o Henrique, para que nós tivéssemos mais um irmãozinho, mais uma companhia. Eu tinha 9 anos, e ele ainda era recém-nascido. Estranho que, mesmo com 9 anos, eu não consigo lembrar de muita coisa da minha mãe. Essa sensação é horrível. A semana passou rápida, andei de patins com meus amigos na única praça asfaltada da cidade, passamos em umas lojas de CDs, meu pai levou eu e Kike para passar dois dias na cidade vizinha, acampando e nadando em cachoeiras, gostei bastante dessa semana. Mas me sentia pronto pra voltar para o campus, para o alojamento, para meus corpos esculturais. Meu pai me deu um pouco de dinheiro, o que não era necessário, já que ninguém gastava nada no campus, além, é claro, da mensalidade do Padre Antônio, que ele já pagava. Fiz um lembrete mental: "comprar o Fearless quando eu voltar pro alojamento".


Quando eu vi, já era quinta feira à noite, meu ônibus para o alojamento sairia na sexta de tarde. Aproveitei para me despedir de meus amigos, foi quando aconteceu. Eu andava pelas ruas escuras de terra, iluminadas apenas por postes de luzes amarelas que doíam a vista. Ouvi um grito, meu nome, que mais parecia uma pergunta. - Diego? - disse a voz masculina. Virei pra trás, estava o Rafael do outro lado. O mesmo que eu imaginei ter encontrado no Centro. - Oi cara! - eu disse, sendo o mais simpático e sorridente possível. Cumprimentei sua mão estendida. - Então, você voltou, né? - Só de passagem, eu volto pro campus amanhã. E como andam as coisas por aqui? - Ah, mesmo de sempre. A Beth terminou o namoro, tem uma garota nova morando na rua H, o Thiago foi- não consegui prestar atenção em todas as informações sobre meus amigos que ele me deu. Foi aí que eu tive a idéia. - Sabe onde fica o Padre Antônio? - perguntei. - Sei sim, eu to sempre lá por perto - ele respondeu. Funcionou. - Por onde você anda por lá? Perto do alojamento não tem lugar nenhum pra ir - disse. Eu realmente acreditei que essa pergunta não daria em nada, mas ele pareceu nervoso para responder. - Minha tia mora lá do lado, não lembra? Tenho muitos amigos lá também. Droga, eu tinha esquecido dessa informação. Mas também... Era impossível ele sair daqui e viajar 2 horas de ônibus só para ir a um puteiro gay. Resolvi ser direto. - É mesmo, eu tinha esquecido. Mas lá é tão pacato quanto aqui, só tem um lugar bom pra ir, o Centro. - Você conhece, o Centro? - agora sim ele estava nervoso. Ele deu uma pausa nas palavras, como se não estivesse acreditando. - Conheço, porque? Você já foi lá? - Não, não, não, não, nã- definitivamente, ele estava nervoso. - Hmm, entendi. Então, quem sabe, a gente não se esbarra por lá, um dia desses, hein? - Ta bom, ta, ta, ta bom, ta.


Dei um sorriso tipo "Eu sei que você também é", adorei ver a expressão dele. Virei as costas e saí andando. Não era surpreendente que mais alguém da cidade fosse gay, afinal, não era tão pequena assim. Mas, as máscaras heterossexuais que todos vestiam eram ridículas. Eu gostava do Rafael, mas mesmo assim, confesso que senti um prazer em fazer isso. Sexta a noite, eu estava de volta ao alojamento. Abri a porta do meu quarto, Rafael e Bruno estavam transando. Me senti em um clipe da Britney Spears. Senti falta disso.

CAPÍTULO DOZE O Sol machucava meus olhos. Eu estava olhando pro céu, procurando respostas. Não se de quais perguntas, mas eu queria respostas. Porque eu me sentia sozinho? Talvez seja essa. Tá certo que meus amigos me evitaram a semana toda, porque Méci olhou meu boletim escolar e viu que meu aniversário estava chegando, e eles resolveram fazer uma festa. Mesmo sem Hugo, os planos foram fluindo: Ninguém falava comigo, Méci me ignorava nas aulas, Rafael só me dava 'Boa noite' no quarto, Bruno andava rápido quando me via e Hugo, ah, Hugo não falava comigo mesmo. Ta bom, os últimos meses foram pura rotina, mas isso não era tão ruim assim. O único lamento que eu tive foi de perder a amizade dele. Todo esse tempo não serviu de nada pra ele. Eu tentei pedir desculpas, um trilhão de vezes, e pediria agora de novo, se não soubesse que ele ignoraria e sairia andando, como fez das últimas vezes. Por uns segundos eu cheguei a acreditar que realmente todos passaram a me odiar, eu não sabia o porque e tinha medo de descobrir. Esse temor passou quando todos gritaram “Surpresa” no meu quarto, exceto, claro, Hugo. Foi estranho não tê-lo ali. Ta bom, era uma festa surpresa. E me ignoraram pra eu realmente achar que tinha algo errado. Me explicaram tudo, mas não me senti melhor ouvindo aquilo.


Realmente, tinha algo errado, só que eles não sabiam. E eu não podia contar pra eles. Na verdade, não queria. Bolo, refrigerante, batata frita. Adoro batata frita. Depois me vendaram e me carregaram pro centro. Já tinha um bom tempo que eu não aparecia por lá. Esse sim foi um bom modo de comemorar meus 16 anos, não desprezando o que eles fizeram por mim no quarto, mas o Centro, suas batidas altas e gemidos nostálgicos era tudo que eu estava precisando. Isso, e o Hugo. E o Sol machucava meus olhos. E eu estava olhando pro céu, procurando respostas. E eu me sentia sozinho. Era segunda-feira, eu estava deitado na grama entre as árvores do Padre Antônio, pensando na minha noite, pensando nas minhas provas, pensando na semana que viria, até fazerem sombra em cima de mim. “Vai ficar queimado, se continuar aí” disse uma voz bonita, mas eu estava distraído demais que nem percebi se era masculina ou feminina. Abri os olhos, manchas vermelhas me fizeram piscar uma centena de vezes. Fiquei em pé. Era normal entrar alunos novos no Padre Antônio, mas no segundo semestre, pra mim era estranho. Ta bom, podia ser qualquer um, afinal, esse colégio é enorme. Mas esse garoto tinha um ar de novato, um medo nos olhos. Eu sabia disso porque, eu também tinha isso. Levantei rápido. - Nunca te vi por aqui – eu disse, sendo tão simpático que até eu me surpreendi. - Hoje é meu primeiro dia, prazer, Igor – ele esticou a mão, se apresentando. - Diego – eu disse, apertando sua mão. - Então, pode me ajudar? - Claro, ah, bem-vindo a hospício – eu disse, o fazendo mostrar seus dentes escondidos por um aparelho. E assim começou minha amizade com Igor. Descobri que não foi coincidência ele me encontrar esticado na grama, Méci tinha mandado que ele falasse comigo, depois que o Diretor e um dos meus professores


pediram a ela que apresentasse a ele todo o colégio, afinal, ela era a representante de classe, e ele estaria na nossa classe. Em apenas dois dias, eu e Igor já éramos amigos. Não desgrudávamos de Méci também. Agora éramos nós três. Nunca vi Igor como um substituto do Hugo, mas às vezes parecia que era isso que ele era. Conversei com o Rafael sobre Igor. A conversa começou com ele me sacaneando para eu não fazer o mesmo que fiz com Hugo. Isso ainda me irritava. Como ele podia ser tão intolerante? Eu queria contar de mim para Igor, para que eu não começasse nossa amizade escondendo nada, e eu realmente queria que nossa amizade desse certo, mas Rafael me fez pensar o contrário, me fazendo prometer que não contaria, para não ter risco nenhum de Méci descobrir. Sinceramente, eu não sei como ela ainda não percebeu nada. Era disso que eu estava precisando, de um amigo. Eu já tinha amigos, mas nenhum como Hugo era. Só amigo. Hétero ou homo, tanto faz. Estraguei minha amizade com ele com aquela idiotice. Eu preciso de pessoas que sejam só amigas também, todos precisam. Tenho que aprender a controlar meus impulsos selvagens gays, e tenho que aprender, que, por mais que eu queira, nem todo mundo é gay. Mas, se bem que seria legal, não é? Pensando melhor, em um mundo totalmente gay, eu seria hétero. Viva as diferenças.

CAPÍTULO TREZE FESTINHA Ta bom, todo mundo já foi em uma. Mas eu não as suporto. Estou falando de mulher. Brincadeira, mas é quase isso. Festa hétero. Eu sei que o Igor não sabe de mim, por mais que eu queira contar, mas ele não podia planejar um lugar melhor, não? Cinema, shopping, Centro... Ah, o Centro... Mal gosto, festa sem graça, mulheres...


Pior do que estar num ambiente como esse, é ter que fingir que esse é seu lugar ideal. E era exatamente o que eu estava fazendo. O amigo do Igor, dono da festa, ficou de me apresentar uma amiga. “Só se for para eu perguntar onde ela compra a maquiagem dela”, pensei. Eu não sou afeminado, todo mundo sabe disso. Pelo menos até colocarem o The Beyoncé Experience Live. Enfim, tirando os contras, e foram muitos, a noite foi boa. Consegui fingir que eu era um desses “pegadores de mulher” facilmente, afinal, faço isso todo dia nas aulas mesmo. Eu me diverti com Igor até em um lugar desses. Realmente, nossa amizade estava dando certo. Será que continuaria assim se ele, soubesse? Me deixo essa pergunta aqui, hoje. Quarto, Rafael rindo da minha cara quando eu contei para ele de onde Igor me levara, eu tacando uma almofada na cara dele, luzes apagadas. Eu não sabia que estava tão cansado assim. Eu só precisava de uma coisa pra tornar minha noite realmente boa, e foi quando Rafael disse: - Centro amanhã, OK? Perfeito. Agora sim eu estava feliz. Feliz até demais, provavelmente eu demoraria para dormir depois disso. O dia seguinte foi abafado, até demais. Os ventiladores da sala não foram suficientes para ajudar na ventilação, nem para amenizar o fogo que eu estava sentindo para que o dia acabasse logo. Lá fora estava fresco, com muitos ventos. Ventos demais, na verdade. Provavelmente viria alguma daquelas tempestades de verão, mas na primavera. E eu estava certo. Mas nem aquela chuva que criou inúmeras poças de lama nos campos do Padre Antônio me impediriam de ir ao Centro hoje. E foi tudo tão bom quanto eu imaginava: caras gostosos, música boa, um tal de Marcus me dando seu telefone, nem tivemos tempo de ir ao quarto. Quer dizer, Bruno foi para um quarto, mas não vi com quem. “QueNS”, me lembrou Rafael. Era mais de um. No meio da noite eu passei a me sentir enjoado, não sabia porque. Queria saia daquele lugar por uns instantes, para respirar ar que não esteja com substâncias voando entre os raios de luzes, descansar um pouco, afinal, eu estava sozinho mesmo.


Bruno não voltou do quarto. Rafael estava se agarrando com outro cara. OK, vou descansar. - Diego, esse é o Rafael – Rafael me disse enquanto eu estava sentado em um canto – coincidência, não é? E eu levanto a cabeça: ele não tinha mais pra onde correr. Apertei as mãos do meu antigo amigo com o mesmo nome do meu pseudo namorado. - Oi, cara – eu disse. Ele não pronunciou uma palavra. Também, não teve tempo, pois lá estavam os dois, indo para o quarto. E eu ria por dentro. E eu ri ainda mais quando chegamos ao dormitório masculino, e Rafael me contou: - Cara, sabe, lá no quarto, com o Rafael... Ele não sabia como dizer, e eu já estava rindo. - Ele não, funcionou. Ta bom, ele não gozou – dessa vez ele quase gritou, me fazendo rir mais. - Cara- eu o interrompi. - Eu faço alguma coisa de errado? Ele parecia estar preocupado, ou parecia que não tava gostando. O que eu fiz de errado, cara? - Nunca tinha visto Rafael inseguro. Era engraçado. - Cara, posso falar? - ele fez um gesto de “Desculpa” com as mãos, me deixando falar – o Rafael é um amigo meu, de muito tempo atrás, da minha cidade. Por isso ele ficou daquele jeito. Da última vez que eu voltei pra lá, eu encontrei com ele, e falei de ter visto alguém parecido com ele no Centro, e ele ficou nervoso mas disfarçou. Dessa vez ele não teve como escapar. Ai, eu adorei essa noite! - Mas você não transou. - Não seja por isso – e eu já estava em cima do Rafael, tirando as roupas dele com um tigre faminto que não comia há semanas, depois de ter encurralado meu antigo amigo como um tigre encurralando sua zebra indefesa. Eu até soltei um “Rraww”, ignorando a cara que Rafael fez pra mim depois desse rugido. Tá certo que soou mais como a Mulher Gato, mas não faz diferença. Que venham mais noites como essa.


CAPÍTULO QUATORZE O telefone toca incansavelmente enquanto eu corro de uma abelha muito grande, dentro de uma sala branca, com o Rafael gritando “Por aqui, por aqui!” na porta de outra sala. Eu entro na sala, lembro de ver o Bruno, mas acordo, com aquele barulho irritante me fazendo querer chingar quem quer que fosse. Atendi. Não esperava voltar pra minha cidade tão cedo. Não esperava ficar por aqui um tempo. Não esperava ter que rever todos os meus familiares de uma vez só. Não esperava muitas coisas. Também não esperava que meu pequeno irmão não existisse mais. É claro, todos nós sabíamos: a um ano, Kike vinha lutando contra um câncer, isso, um câncer, mesmo com apenas sete anos recém feitos. Inoperável e incurável, esse era o destino dele, mas ninguém queria acreditar. Meu pai não tocava no assunto, a não ser nas muitas vezes que Kike se sentia mal, sem ar, e meu pai tinha que levá-lo às pressas ao hospital de câncer na cidade vizinha. Isso acontecia com freqüência antigamente, e é claro que depois que eu fui para o Padre Antônio, continuou acontecendo. Chegou uma época que meu pai propôs que nos mudássemos para a cidade vizinha, mas isso era impossível, pois lá só vendiam mansões e casas iguais a castelos, e nós tivemos até que vender o carro para pagar o tratamento de Kike. Tratamento inútil. Não, não inútil. Deu a ele mais um ano de vida, mais um ano de sofrimento, mas de felicidade. Meu pai tentava, e conseguia, fazer todos os dias felizes, mesmo com ele morrendo por dentro. Mais um ano de vida. Muito pouco, mas até demais para quem possui esse destino. Porém, Kike não foi o único a morrer. Meu pai foi com ele, minha irmã foi com ele, minha tia que, mesmo morando longe, sempre estava presente, também foi com ele. E eu, depois de muitos choros e consolos da família, eu fui para o Padre Antônio. Eu sei, eu deveria ficar em casa. Sim, eu devia, mas não queria. Eu


queria fugir, eu queria ficar longe de tudo e de todos. Eu queria... Eu queria ir com o Henrique. Não da maneira que meus parentes foram, mas realmente ir com ele. Se possível, no lugar dele. Quando eu era criança e me machucava, meus pais sempre me falavam que chorar era bom, mas não chorar muito. Que nós tínhamos um tubinho nos olhos com lágrimas, e que não podíamos gastar esse tubinho todo de uma vez. Assim eu sempre parei de chorar. Dessa vez, eu tive certeza que meus tubinhos secaram. Durante os próximos dois meses eu não sei onde eu estive. Mesmo. Eu não sei o que eu falei, com quem eu falei, por onde eu andei, o que eu comi, nada. Eu tinha lembranças de aulas, e depois ir pra casa dormir. Me lembro da voz do Rafael falando comigo a noite, mas também me lembro da minha boca tão pesada que eu não conseguia abri-la. Até aquela noite. Faltava apenas 1 mês para o fim do ano letivo, eu não tinha voltado para minha cidade desde a morte do Kike, eu até mal falava com meu pai, apesar dele me ligar insistidamente quase todos os dias. Quase não, todos os dias. Faltava apenas 1 mês para o fim do ano letivo e minhas notas eram as piores possíveis, fazendo os professores convocarem reuniões para falar sobre meu “caso especial”. Algumas eu até participava, mas também não me lembro do que era dito nem do que eu dizia nessas reuniões. Faltava apenas 1 mês para o fim do ano letivo e eu estava dormindo. Na verdade, de olhos fechados, sonolento, mas acordado. Foi quando eu ouvi. Eu não vi nada, também não quis, também não ouvi tudo, mas o que eu ouvi dava pra saber do que Bruno e Rafael conversavam: Batidas na porta – barulhos que eu não identifiquei – barulho de passos – mais barulhos, cochichos – a voz do Rafael cita algo como “O que vamos fazer com ele?” - a voz do Bruno fala algo incompreensível para quem está sonolento, mas entendi a palavra “Centro” - a voz do Rafael nega com um poderoso “Não”, alto e claro até pra mim – mais cochichos – Bruno diz algo como “Ele não fala com minha irmã mais”, isso até que doeu de ouvir, eu tinha esquecido da Méci, e do Igor também – Rafael fala mais alguma coisa, que eu só entendi “Hugo” no meio –


silêncio – barulhos que pareciam pipocas estourando, ou os dedos de Rafael incansáveis batucando a mesa – mais barulhos, incompreensíveis – a voz de Rafael quebra o silêncio dizendo, num tom bastante compreensível, “Desisto”. Faltava apenas 1 mês para o fim do ano letivo. Aquela palavra, não sei o porque, me deu um calor interno. Uma coisa quente, que não me deixava ficar parado, então comecei a me mexer incansavelmente entre os lençóis. Eu sentia os olhares preocupados de Rafael e Bruno, mas a dormência em todo meu corpo me dizia para ignorálos. “Desisto”. Quem desiste? Meus amigos desistem da minha amizade? Rafael desiste de querer me ver bem? Eu desisto de viver? Acertou quem optou pela terceira opção. Faltava apenas 1 mês para o fim do ano letivo, e eu corri, desesperadamente, para me recompor. Melhorar minhas notas, eu não queria ficar reprovado. Refazer minhas amizades, eu não queria ficar sozinho. Ligar para o meu pai, eu não queria que ele pensasse que ele perdeu dois filhos. Eu corri, e corri, e corri mais um pouco, até o ponto que eu não falava mais com Rafael, mas dessa vez, por estar estudando para as provas finais. De vez em quando eu observava seu olhar mirado em mim, com um sorriso que eu não identificava se era “Estou orgulhoso de você ter ficado bem e estar ai estudando e tentando se recompor” ou se era “Estou com inveja porque você vai passar de ano e eu não, de novo”. Provavelmente eram as duas coisas, mas é claro que ele estava mais feliz por me ver bem, por me ver estudando, por me ver conversado e rindo com meus colegas de classe, por me ver comendo bem, por me ver viver minha vida. De vez em quando ele me chamava para ir ao Centro, mas sabe, eu não sentia vontade disso mais. É claro, sentia falta de sexo, mas não no Centro, não com as pessoas do Centro, nem mesmo com Bruno e Rafael. Não sei o porque, mas eu até que estava me sentindo bem desse modo. Um ano indo ao Centro me fez ver que eu não queria isso para o


resto da vida. Mas me fez perguntar porque Bruno e Rafael não viram isso também, e freqüentam o Centro a muito mais tempo que eu. Putas, isso sim. Eles eram umas putas, eles queriam a tudo e a todos. Eu ainda queria a tudo, mas não a todos. Eu queria uma só pessoa. Eu queria um namorado. Ta bom, eu tinha dois. Mas eu trocaria meus dois namorados de corpos perfeitos por um de barriguinha. Eu trocaria noites de sexo por um simples “Eu te amo”. Eu trocaria o Centro por uma vida ao lado de quem eu amo. Eu trocaria minha felicidade para fazer meu namorado feliz.

CAPÍTULO QUINZE Ai, como eu queria que Rafael estivesse no quarto. Não, como eu queria que Bruno estivesse no campus. Melhor ainda, como eu queria ter a chave do Centro. Ta bom, aquele papo de não freqüentar o Centro mais não deu certo. O que eu podia fazer? Eu estava odiando as férias: era Natal e todo mundo foi comemorar com suas famílias. Meu pai ofereceu trezentas vezes me dar muitos presentes, fazer todas as comidas que eu gosto, até me ameaçou de me botar de castigo, como se ele me controlasse, enquanto eu estivesse no Padre Antônio. Mas ele sabia porque eu não queria voltar pra casa. E eu sabia que não queria deixá-lo sozinho, por mais que minha irmã estivesse lá. O Padre Antônio teria várias festividades para os estudantes que ficassem nos alojamentos: festas, ceias, passeios à praia na virada de ano, seria interessante. Mas eu estava sozinho. Méci e Bruno se foram, Igor se foi, até Rafael se foi e, por mais que eu conhecesse mais gente no campus, não queria ficar com mais ninguém esse mês.


Um mês sozinho. Era bom, mas muito solitário. Eu precisava de companhia. Eu precisava de sexo. Eu precisava de muitas coisas. Eu precisava de chocolate. Desci as escadas e caminhei lentamente até a Lojas Americanas mais perto. Comprei chocolate para o mês inteiro. Estava pensando em fazer um estoque, quando parei e vi um dos inspetores de corredor do Padre Antônio pendurando um cartaz no mural no portão principal. Eu não conseguia ler, mas ainda bem, parei e esperei aquele sujeito estranho terminar de pregar e sair do meu campo de visão. Foi a primeira notícia boa do mês: Baile de Natal, dia 24, às 20h, com todas as filiais participando, apenas para estudantes. Entendi porque o baile ia ser aqui. Essa era a maior filial do Padre Antônio em todo o país. Me empolguei com aquilo, por mais que eu estivesse completamente sozinho, eu quis ir ao baile. E eu contava os dias. E eu escolhia a roupa. E eu me arrumei. E eu esperei dar 20h. E eu fui. Eu realmente estava animado. Há uma semana eu não via o rosto de ninguém, quer dizer, teve um “acampamento” entre as árvores há duas noites atrás, mas eu não quis ir. Eu falava com meu pai frequentemente, mas dessa vez, eu realmente falava. Não sei se fazia isso para compensar o fato de não estar com ele, mas nossas conversas eram interessantes, tirando a parte das garotas, como sempre. Adoro o Natal. Me sinto confortável. Também, com esse salão, essa decoração, essas comidas, essas pessoas, era impossível não estar confortável. O Padre Antônio possuía muitas filiais pelo estado, mas mesmo assim, não parecia ter mais do que mil pessoas no baile. Até achei que era muito, quer dizer, eu esperava mais vazio. Logo encontrei com Gabriel, um dos meus colegas de classe. Dei um “Oi” de longe e continuei andando até a máquina de refrigerante. Gabriel era gente boa, mas nunca fomos muito amigos. Ele era o único da classe,


além de mim, claro, que havia ficado no alojamento para os feriados. Isso era o que eu achava, mas eu estava errado. Eu abastecia meu copo de vidro de refrigerante quando o vi. Entre os pufs, deitado em um com forma de estrela azul, Hugo. O que ele estava fazendo ali? É claro, era previsível que ele fosse ficar no alojamento, com os pais que ele tem. Mas eu não pensei nisso. Por um instante eu não me senti sozinho mais. Me senti, mais confortável do que a noite de Natal me fazia ficar, mas forcei minha mente a pensar “Não, você ainda está sozinho”. Ele me olhou, e parece que ele também estava procurando um amigo. Era noite de Natal, se for para reatar nossa amizade, seria hoje. Mas desisti dessa idéia quando meu homofóbico virou a cara. Ignorei. Não podia ficar vivendo em função dele. Continuei andando, até encostar em uma pilastra, ficar lá por uns 2 minutos e Gabriel me chamar pra sentar na mesa com os amigos dele. Por aquele instante eu desejei ter sido mais amigo dele. Mesa cheia, muitas pessoas. Era gente demais para um novato conhecer, incluindo pessoas de vários outros colégios. Gabriel tinha mesmo uma áurea de amigo, pena que só percebi isso agora. Lembrete mental: virar amigo do Gabriel a partir de hoje, eu realmente comecei a gostar dele.

CAPÍTULO DEZESSEIS Muitas pessoas novas me encaravam, não me pergunte porque. Ta bom, eu também encarava todo mundo, principalmente os garotos mais gatos que eu nunca imaginei ver. Me socializei com todo mundo na mesa do Gabriel. A maioria veio do Padre Antônio na cidade de Vassouras, que fica a duas horas do meu alojamento, pessoas muito bonitas também. Essa união entre todos os colégios me fez bem, me animou. E me fez querer estudar no Padre Antônio de Vassouras. Como os garotos eram bonitos. O resto da noite foi extremamente divertido, como eu queria que


Rafael, Bruno, Méci e Igor estivessem aqui comigo, para partilhar da felicidade que eu estava sentindo. Dancei bastante, até com garotas, mas adorei. Conversei bastante, com todo mundo, inclusive com pessoas que nem o Gabriel conhecia. Comi bastante, a ceia estava muito boa. Bebi bastante, nada alcoólico, claro, mas a última coisa que eu queria era ficar bêbado e esquecer dessa noite ótima que eu estava tendo. Valeu a pena, foi um dos melhores Natais que eu já tive. Só não foi melhor do que o que eu ganhei um Patinete e um jogo Cara a Cara, há anos atrás. Já eram mais de 3h da manhã, não tinha percebido que o tempo estava passando tão rápido. Estava tocando Boys Like Girls, “Me, You And My Medication”, enquanto eu dançava agarrado com Victória, uma das amigas de Gabriel. Não me sentiria confortável em fazer isso em qualquer outra oportunidade, mas naquela noite, estava sendo ótimo. Foi a melhor noite hétero da minha vida. Até aquele momento. Não que a noite tenha estragado, mas pelo menos, não era mais hétero. - O nome dele é Fernando, ele também é gay e não para de olhar pra você. Vai lá falar com ele – Victória disse. - O, o, o, qu, quê? - eu gaguejava. - Eu percebi seus olhares para os garotos da mesa. Acertei, não é? Tenho experiência nisso, meu irmão mais novo também é. Não se preocupe, não falo nada pro Gabriel se ele não souber, e desiste, todos os outros são héteros. - M, m, ma, ma, mas – eu ainda gaguejava. - Mas o Fernando, ai, que desperdício. Pra mim, não para você. Então aproveite que você pode e vai lá falar com ele por mim – ela me empurrou na direção de um garoto. O garoto. Lindo. Imenso. Muito grande mesmo. Deus, como ele era alto. E como ele era lindo. Como o cabelo dele deixava o rosto com uma feição de criança, e que quando ele sorria parecia que iluminava o salão mais do que as luzes de Natal no centro da pista de dança. E como a postura dele era perfeita, como sua silhueta ficava encantadora em uma blusa vermelha que exibia seus ombros largos e


destacava sua pele avermelhada entre as bochechas. Como ele era lindo. E eu nunca teria qualquer chance com ele. É claro, um dia, talvez bêbados, até aconteceria. Mas assim, naturalmente, nunca. E o que eu queria também? Ele não era o tipo de homem que eu gostava. Ta bom, eu gosto de qualquer tipo de homem, mas sempre tem uns que atraem mais que outros, nesse caso, uns mais baixinhos. E eu tinha os dois corpos mais perfeitos do mundo me esperando a qualquer momento, a qualquer hora, no meu próprio quarto. Do que eu precisava mais? Mas esse sujeito de dois metros de altura, de ombros de um nadador profissional, de coxas de um atleta olímpico, tinha algo a mais. Não sei o que, mas tinha. E lá estava eu, andando na direção dele. Eu não queria ir, mas minhas pernas estavam sendo empurradas pela pressão que o olhar de Victória fazia atrás de mim. Felizmente consegui desviar de sua direção, andando para a máquina de refrigerantes. Não queria ver a cara de frustração de Victória, mas naquele momento, senti o melhor dos aromas, o melhor dos perfumes, que era perfeito demais para ser natural, e delicado demais para ser posto num frasco fabricado pelas mãos humanas. Um cheiro que provocaria um ataque cardíaco em corações que se apaixonam rápido. Infelizmente, eu era um desses. Continuei andando, peguei um copo, enchi de algum líquido que eu não prestava atenção em qual era e voltei para a mesa, evitando passar perto de Victória, para que ela não me fizesse ir lá de novo. Ela veio atrás de mim, sentou do meu lado e apertou minha mão em baixo da mesa que quebraria meus dedos se eu não fosse mais forte que ela. Na verdade, acho que quebrou um. Depois de alguns minutos, tudo parecia estar sossegado. O tempo parecia que voltou a contar, a noite parecia que voltou a esfriar. Tudo estava normal, e eu não estava conseguindo esquecer Fernando graças aos anúncios no meu ouvido de Victória de cinco em cinco minutos, me dizendo “Ele tá olhando pra você”, “Ele não para de te encarar”. Provavelmente o pessoal da mesa estava achando que eu e ela ficaríamos juntos depois dessa noite. Eram 4 horas da manhã, hora de ir dormir. Não estava com sono, mas


resolvi me despedir de todos e ir para meu quarto. O salão já não estava tão cheio, as comidas já acabavam, as músicas já não estavam tão agradáveis. Era melhor eu me retirar antes que algo estrague minha noite. “Adorei ter conhecido todos eles”, eu pensava enquanto andava para atravessar o estacionamento até o dormitório. “Mal posso esperar para contar para Bruno, Méci, Raf-” meus pensamentos foram interrompidos pela cena: Um poste com uma luz branca forte iluminava um carro conversível vermelho, entre os ônibus dos outros colégios. Uma noite escura, com muitas estrelas e nuvens no céu, sem lua. Um vento frio, bem fraco, mas que fazia arrepiar qualquer um. Atrás do estacionamento, árvores e mais árvores e entre elas, o escuro e preto vazio da noite, e uns raios de luzes que iluminavam apenas as pontas das flores vermelhas de uma das árvore. E ele. Fernando encostado no conversível vermelho que provavelmente pertencia a algum dos professores, olhando para o céu nostálgico que parecia estar caindo com a aproximação das estrelas e das nuvens que se moviam constantemente devido ao vento. E depois daquela cena, depois de me ver andando na direção do carro vermelho, depois de ouvir uma voz que me fez ficar tonto dizer um “Oi” num tom grave, forte e alto, a única coisa que importou foi sentir aquele beijo, o beijo mais perfeito, mais atordoante, mais assustador, mais apaixonante que uma pessoa pode sentir na vida. Eu esquecia de respirar. Provavelmente uma das estrelas realmente tinha caído, e eu a queria agarrar com todas as forças do mundo. Um beijo.


DOIS CAPÍTULO UM 19 de janeiro de 2008 Eu não acreditava no quanto minha vida havia mudado. Eu não acreditava que eu ia começar o segundo ano do Ensino Médio, que já havia passado um ano no Padre Antônio, que eu estava na mesma série que meu companheiro de quarto Rafael, isso me fazia rir. E eu não acreditava que eu tinha tanto amor assim para dar para uma pessoa só, até conhecer Fernando. Eu não sabia, e não tinha fé, que tudo ia dar certo. Que nós nos víssemos, nos beijássemos, e que apenas uma semana depois, nós já estávamos saindo para os mesmos lugares, nos conhecendo melhor, e eu estava descobrindo que ele era a pessoa ideal para ficar comigo, que era de alguém como ele que eu estava precisando. Um namorado. Eu não acreditava que eu ia pedi-lo em namoro um mês depois daquela noite perfeita de Natal, quando um beijo atordoante e viciante me fez ouvir sinos, ver duendes e fadas, e eu nunca me sentira tão bem, mas eu sabia que ele aceitaria meu pedido e viraria meu namorado, pois todos os sentimentos estavam sendo recíprocos, e eu não acreditava também que isso estava acontecendo. Minha vida estava essa bagunça, e eu nunca estive tão feliz. Eu não acreditava no quanto minha vida havia mudado.


Estávamos quase no final de janeiro, e em dois dias, Bruno e Méci voltariam de suas férias. Rafael já estava no campus, e não tive notícias de quando Igor retornaria. De vez em quando, quase sempre, na verdade, Rafael dormia no quarto de um de seus amigos no alojamento, para que Fernando dormisse comigo no nosso quarto. Gabriel se tornara um dos meus melhores amigos também, eu tinha certeza que Méci e Igor iriam se sentir como eu me sinto quando o conhecessem melhor. Mas Gabriel era diferente, pois eu ignorei os avisos de Rafael e contei de minha vida oculta pra ele, inclusive de meu novo namorado. E para a minha felicidade e a surpresa de Rafael, Gabriel me deu todo o apoio possível, e até se tornou muito mais meu amigo depois disso. Eu queria fazer o mesmo com Igor e Méci também, até seria mais justo, mas pensando bem, não daria muito certo. Com Igor sim, mas com Méci, acho que não. Eu não acreditava no quanto minha vida havia mudado. E eu não acreditava no quanto eu estava feliz, até aquela noite. Depois de uma tarde repleta de pizzas em uma nova pizzaria que abriu ao lado do Padre Antônio, com Rafael, Gabriel e meu pedaço de estrela caído do céu, eu e Fernando fomos para nosso quarto. Eu o abracei mais uma vez, feliz por estar ali com ele, até que seu tom de voz na frase “Preciso conversar com você” interrompeu meu momento feliz. Um choque de realidade caiu em mim quando ele me explicou, que em alguns dias ele teria que voltar para seu colégio. O Padre Antônio de Vassouras, que fica a duas horas do meu alojamento. Outro choque, mas dessa vez, de desespero. O que seria do namoro, assim? Eu estava inseguro, namorando um cara que eu daria minha vida, mas que eu conhecia a um pouco mais de um mês. Com ele morando a duas horas de distância de mim, o que impediria que ele conhecesse outro cara e terminasse comigo? Não daria certo, e nós não nos veríamos durante a semana, muito mal nos finais de semana. Eu não sabia mais de nada, só sabia que eu queria muito que desse certo, e moveria montanhas para fazer dar certo. Foi uma coincidência infeliz a maioria dos estudantes ter voltado de


sua férias no mesmo dia que os estudantes das outras filiais foram embora, levando meu coração em um daqueles ônibus azuis. Na verdade, não foi uma coincidência, afinal, os estudantes precisavam voltar para suas rotinas, e os estudantes que voltariam, precisavam de seus quartos disponíveis, incluindo Méci e Bruno. Como eu senti falta deles. O resto dos dias foram repetitivos, mas adoráveis. Eu praticamente vivia duas vidas, matando a saudade que eu sentira de Méci e de Igor, e desabafando com Rafael, Bruno e Gabriel sobre meu namoro e minhas inseguranças. Bruno me pareceu que não ficou muito feliz com as últimas novidades, e me disse que quer conhecer Fernando o mais rápido possível – Não adianta, você não vai transar com você – eu disse a ele. –

CAPÚTULO DOIS Eu nunca estive tão seguro de minhas amizades na minha vida, mas não era segurança suficiente. Tá certo, Méci e Igor, como eu já suspeitava, também se tornaram grandes amigos do Gabriel, meu cupido. Eu devia muito a ele. Claro, se não fosse por ele, eu teria ficado sozinho no Baile, ano passado, não teria conhecido todas as pessoas incríveis que eu conheci, incluindo aquela garota de cabelos pretos desbotados chamada Victória que abriu meus olhos para a perfeição em carne, osso e dois metros. Como teria ficado minha vida agora, se isso não tivesse acontecido? Não era hora de pensar nisso, eu estava muito feliz que nossa amizade estava dando muito certo, de nós quatro. Mas eu ainda precisava daquela pontinha de segurança que faltava. A partir daí, a possibilidade de contar minha vida para Igor e Méci não saiu da minha cabeça. Fui conversar com Rafael sobre minha vontade, e de novo, ele me convenceu a não fazer isso. No meio da conversa, meu celular toca. Meu pai. Provavelmente ele me mataria por não ligar pra ele com a freqüência que ele me liga. - Você devia vê-lo – disse Rafael, quando desliguei o celular. - Devia, não é? Eu tava pensando nisso também. - Você tem duas semanas para o começo das aulas, fica por lá um


pouco. - Acho que vou fazer isso. - E aproveita pra pensar no que a gente conversou. Imagina se seu pai souber. Pelo pouco que você me falou dele, não daria muito certo. Seria a mesma coisa com Bruno, e eu acho que comigo também. Não respondi, peguei o celular e liguei de volta para meu pai. - Pai, posso passar uma semana aí? E foi o que eu fiz, peguei um ônibus no dia seguinte e fiquei seis dias com meu pai. Só nós dois. Na verdade, minha irmã estava lá, mas nós ignorávamos a presença dela para nossos “planos de homem”. Realmente, Rafael estava certo sobre contar para Méci. Não daria certo. Mas não havia motivo para não contar para Igor. Minha cabeça não estava ficando muito boa. Estava pensando demais nos poucos problemas que tinha, estava ansioso para as aulas e estava com saudade de Fernando. Eu tinha que resolver tudo, e rápido. A primeira semana de aulas começou. Muitos novatos, muitos deles eram muito bonitos. Eu me perguntava se teria entrado muitos garotos bonitos também no hospício do Fernando, mas é claro que a resposta era “sim”. Eu precisava ver meu namorado o mais cedo possível, para acabar com toda saudade que eu estava sentindo, e aproveitar para cometer uns assassinatos em qualquer novato bonitinho que ousar olhar para ele. Decidi. Nesse final de semana, irei para lá. Eu precisava disso. Duas viagens em duas semanas. Legal. Avisei ao Fernando, que disse que tudo bem em ir esse final de semana, que por sorte ele não tinha ainda um colega de quarto, e que também estava louco para me apresentar para seus amigos. Ele queria apresentar o motivo de sua felicidade para seus amigos. Eu amei ouvir essa frase. Seria minha primeira vez em Vassouras, e eu estava muito ansioso para isso. Nós só nos falávamos por telefone, e eu cheguei a um ponto de pedir dinheiro emprestado para Rafael, pois eu já até havia quebrado meu cofre de porquinho, que não tinha muito dinheiro, para comprar cartões telefônicos para falar sempre que possível com Fernando. Era mais barato e mais econômico que colocar crédito no celular.


Quarta-feira de tarde, o Sol estava forte, e queimava minha pele. Eu estava sentado em baixo de uma árvore com Igor. Méci estava em uma reunião de representantes de classe, eu e Igor ríamos disso. Nós não sabíamos onde Gabriel estava, mas era até melhor que ele não estivesse ali, para o que eu ai fazer. - Igor – eu disse. - Oi. - Eu sou gay. Na minha cabeça, “O que? Eu falei isso mesmo? O que eu tava pensando? Porque eu”- Igor me interrompeu. - Sério? - ele disse, e eu não consegui falar nada – você não parece. - Você, não tá, o que? - eu disse, desacreditando. - Cara, se você é gay, legal. Continuo gostando de você do mesmo jeito. A indiferença de Igor me fez querer falar um “Eu te amo, cara”. Mas depois da minha revelação, ele entenderia essa frase mal. Eu me sentia constrangido. Eu não devia ter feito aquilo, mas era o que eu queria. - Ainda somos amigos? - eu disse. Me senti um idiota perguntando aquilo. Ele virou na minha direção, olhou pra mim e me disse: - Você quer ficar comigo? - Não! - eu disse, surpreso. - Ótimo, porque eu sou hétero. Ainda somos amigos por eu ser hétero? - Somos, claro – eu não entendia onde ele queria chegar. - Então, ainda somos amigos por você ser gay. Dessa vez o “Eu te amo” quase saiu, e depois de umas risadas eu contei pra ele de minha aventura no Natal, de meu namoro e de tudo mais. Igor me deu muito apoio. Ele até disse “Vai lá, protege seu homem” quando eu contei de meus planos de ir para Vassouras no fim de semana. Eu ri com o que ele disse. - Cara, não conta pra Méci, ta bom? E o Gabriel também sabe. - Não conto, mas acho que você devia contar. - Não posso – eu disse. Ele não precisou perguntar “Porque?”, eu já respondi. - O irmão dela, e o Rafael, também são. Ela não pode saber, e eu me sinto mal com isso, eu precisava contar pra você.


- Entendi, mas ainda acho que é pior se vocês esconderem. - Vou tentar resolver – disse. Silêncio. - Di – Igor me chamou. - Oi. - Dói?

CAPÍTULO TRÊS E eu não via a hora de chegar sexta feira. Meu último tempo das aulas era de Português. Professor novo, certamente ele iria conhecer a turma, se apresentar, falar que não quer celulares tocando e tudo mais. Eu podia dispensar isso, e foi o que fiz. Não fui ao último tempo e ignorei a mensagem de texto que Méci me mandou perguntando “Onde você tá? Tem aula de PTG agora. Vem pra cá.” O tempo era agradável, o Sol havia aparecido de manhã, mas lá pelas quatro da tarde ele se foi, sendo substituído por nuvens brancas, claras e com aparência fofa. Sem riscos de chuva, mas nenhuma pontinha do céu limpo e azul de antes estava visível agora. E o vento forte e gelado me lembrava inverno, mas estávamos em pleno verão. O tempo perfeito pra mim. Mas eu estava errado, e qualquer um erraria também. Conforme eu andava em direção à rodoviária, senti os primeiros pingos de chuva, muito finos, sendo arrastados pelo vento frio que modelava minha pele. Senti falta do abraço de Fernando nessa hora. Não precisei esperar muito pelo ônibus para Vassouras. Em dez minutos ele chegou, os passageiros embarcaram e eu já estava com meu notebook ligado, afinal, a viagem seria longa. O tempo, dessa vez, escurecia devagar, até chegar num tom “azul vai anoitecer”, e eu me distraía na Internet, até ver os reflexos das gotas de chuva mais grossas em minha janela. Fechei o notebook, olhei fixamente para cada pedacinho de mato que passava como um borrão verde. Paisagens de colinas me fascinam, principalmente as com chuva. Uma enorme plantação e a chuva intensa me chamaram a atenção. Não havia nada ali, provavelmente as sementes tinham sido plantadas


recentemente. Aquela imagem ficou na minha cabeça, me fazendo sentir algo diferente, que eu senti poucas vezes na minha vida. Um sentimento aconchegante, nostálgico, perfeito, como se o tempo tivesse parado e eu estava tão confortável que não queria que ele voltasse a andar. Voltei para meu notebook, mas só para ouvir músicas, o que não foi uma boa idéia, pois a ansiedade e a aflição por Fernando só aumentavam cada vez mais. Eu ainda tinha muito mais de uma hora de viagem. Mas até que não demorou tanto. Não percebi mais o tempo passar quando eu finalmente consegui me distrair nos joguinhos viciantes da Internet. E o ônibus parou. Meu coração acelerou, pois não sei porque eu estava tão paranóico assim. “O ônibus quebrou”, foi a primeira coisa que veio na minha cabeça. Mas não. Consegui ler uma placa gigante escrito “Rodoviária de Vassouras”. O lugar não era nada como eu havia imaginado, a Rodoviária era moderna demais para meus pensamentos. E eu havia chegado, e não sabia pra que direção olhar, muito menos pra onde andar. Eu devia ter pedido para Fernando me buscar. Erro meu. Felizmente, aquele quase aeroporto só havia uma saída, que foi pra onde eu andei. Uma rua bonita terminava em uma praça cercada por casas coloniais aconchegantes. “Será que eu saí do país? Só falta neve para eu ter certeza disso” eu pensava. Não foi difícil encontrar os alojamentos do Padre Antônio de Vassouras, quer dizer, não foi difícil depois que eu parei para perguntar a uma recepcionista bonita de um restaurante. Tirei um papel amassado com o telefone do quarto de Fernando do bolso. Liguei de um orelhão ao lado da entrada do alojamento, que estava tão gelado que senti um nervoso na orelha. Realmente, estava muito frio. Muito mesmo, e eu estava adorando. Mas a sensação gelada saiu das minhas veias quando eu ouvi aquela voz intensa responder a chamada com um “Alô?”, me esquentando e me fazendo tremer e arrepiar. - Tô do lado da entrada, me busca? - eu disse. - Ah – ele suspirou. Mas um suspiro feliz, contente e aflito, provavelmente por eu estar sozinho em um lugar que eu não conhecia – tô descendo.


Eu não havia reparado a escadaria enorme em frente ao alojamento, até que encontrei Fernando descendo os degraus com uma calça jeans azul e um casaco roxo, que também destacava seus ombros. Na verdade, acho que qualquer coisa destaca seus ombros. Ele abriu o portão de grades antigo que dava para a rua e sorriu, como eu nunca tinha visto antes, e como eu queria ver sempre. Eu o abracei, encostando minha cabeça no seu peito duro e aconchegante, cruzando meus braços entre sua cintura fina. - Você está gelado – ele disse. - Não tem importância, não to com muito frio. - E você fala isso vestindo só uma camiseta. Ta bom, vamos entrar antes que você congele – a preocupação dele era linda, me dava mais vontade e agarrá-lo. Subimos as escadas, e me surpreendi com a semelhança dos quartos para meu alojamento. Parecia tudo padronizado, chão e paredes de madeira, um quadro, o banheiro, a janela, tudo. A única real diferença, na verdade, era um beliche, onde no meu quarto havia duas camas. - Olha ali – ele me mostrava através da janela – aquele é meu colégio. - Não parece nada com o meu. Nem com o que eu havia imaginado. - É bonito, não é? - Parece um presídio – eu disse. Fernando riu, tirou seu IPod do bolso do casaco, colocou em uma base com caixas de som em cima da mesa e colocou uma música para tocar. Além de ser lindo, ele tinha um gosto excelente. Tocava “Best of Me” do Sum 41 enquanto ele me pegava pela cintura, me beijava e me jogava na pequena cama. Aquele beijo. Aquela sensação. Aquele cheiro. Aquele calor. Era disso que eu estava precisando.

CAPÍTULO QUATRO Estava escuro, eu não enxergava nada além de uma luz fraca fora do alojamento, entrado levemente no quarto pela janela, mas eu estava gostando da escuridão. Estava abraçado com Fernando, isso me fazia feliz. Sua pele, o calor do seu corpo, sua respiração, tudo, era perfeito demais. Eu estava quase caindo da cama, mas não estava me importando com isso. A voz dele quebrou todo o silêncio, puxando algum assunto.


Começamos a conversar, muitas coisas que não dizemos antes, incluindo família, planos para o futuro e ex namorados. Contei pra ele que não tinha nenhum ex namorado, ele era meu primeiro. Contei também do Centro e, pra minha surpresa, ele já conhecia. Senti uma ponta de ciúmes nesse momento. Acabei contando de todas as minhas experiências no ano passado, tirando uns detalhes irrelevantes. - Pode falar que você ta de saco cheio de me ouvir. – eu me interrompi e disse. - Sua voz é linda, eu adoro ouvir você, e a empolgação de quando você fala da sua vida. Eu estava vermelho nesse momento. Um ponto para a escuridão. - Para a minha sorte, eu acabei. Fala de você agora. - Ta bom – ele se sentou, e eu sentei na frente dele, segurado sua mão – Meu primeiro cara foi ano passado também. O nome dele é Sérgio, ele era do terceiro ano e eu do segundo, então ele saiu do colégio esse ano e a gente nunca mais se falou. Ele era um bom amigo. Depois disso, eu passei a freqüentar outros lugares, e fiquei com mais três caras, incluindo um do seu colégio. - Meu colégio? - interrompi. - Vou explicar. Eu estudei todo meu Ensino Fundamental com a Rebeca, que estuda no seu colégio agora, e conheci um cara através dela. Namorei com ele apenas um mês, no final de outubro, começo de novembro. Me apaixonei por ele, mesmo, e muito rápido. Ele era um calouro e eu me sentia nas mãos dele. Foi bom, nos primeiros dias. Depois de uma semana, eu percebi que ele não gostava de mim, e eu estava amando ele. No final de novembro, ele terminou comigo, e eu nunca me senti tão mal na minha vida. Eu tinha faltado minhas aulas para ir para o seu colégio. Comecei a fumar, e por muito pouco eu não repito de ano – aquela história estava me trazendo lembranças e sensações não muito boas. O cigarro, mas tudo bem, ele já parou. E, onde eu estive durante novembro que nunca encontrei com ele no meu colégio? Ah é, lembrei. Eu não encontrava nem meus próprios amigos durante esse tempo. Então ele continuou – e eu não tinha superado o Hugo até aquele baile de Natal, sabe? Por muito, muito pouco eu faltei o Baile, porque não queria encontrar com- meus ouvidos continuaram ouvindo o que ele dizia, mas minha cabeça só fazia uma pergunta. Foi quando eu interrompi o que ele dizia. - Hugo?


- É o nome dele, calouro, moreno, cabelo preto arrepiado, conhece? Não podia ser. Eu levantei da cama com uma velocidade e uma agressividade que deve ter assustado Fernando, e felizmente meu notebook estava ligado. Procurei desesperadamente alguma foto, qualquer foto. Eu precisava tirar isso da minha cabeça. Mas já era tarde demais, principalmente quando eu achei uma foto minha e da Méci que tinha o Hugo no fundo, e Fernando confirmou que era ele, e eu entrei em um estado, quase de choque. Era impossível. Na verdade, era muito possível. Mas como era possível? Meu namorado é ex do meu ex amigo, que é hétero. Não, realmente era impossível. Eu não acreditava na cara que Fernando fazia enquanto eu contava minha história pra ele, e também não acreditava na hipocrisia de Hugo naquele dia, e que eu cheguei a ficar muito mal por ele também. Um calor diferente subiu da minha barriga, para meu peito, até minha cabeça. Essa sensação eu certamente nunca tinha sentido. Era uma mistura de raiva com desentendimento. Eu estava furioso e incrédulo, e isso me dava ânsia de vômito. Eu só pensava que eu já fiquei triste por não ter a amizade de Hugo, e eu já cheguei a sofrer por alguém desse tipo, que fez meu namorado sofrer de um modo que ele nunca mereceu, e que era hipócrita o suficiente a ponto de nem mesmo olhar na minha cara de novo. Definitivamente, essa noite estava ficando agonizante. Pedi para Fernando colocar seu casaco, e eu coloquei o meu. Descemos, eu precisava andar e pensar melhor em tudo mais. Ficamos algumas horas sentados nos bancos ao lado do alojamento, um lugar muito agradável. Eu ainda estava pensando em toda aquela história, e percebi que estávamos calados a muito tempo. - Aqui também é verão? - eu perguntei. - É – ele riu – não parece, não é? - Tá muito frio para ser verão. Quero vir pra cá no inverno. De novo, silêncio. Comecei a me irritar com isso. - Olha, eu não queria que isso atrapalhasse em nada com a gente, sabe? Eu gosto tanto de você, não quero que nada mude, eu só quero ficar perto de você. Pela cara que Fernando fez, ele deve ter pensado que eu achei que ele


ainda tinha sentimentos pelo Hugo ou algo do tipo. Devo ter me interpretado mal. - Diego, escuta. Eu amo você. Tudo que aconteceu comigo antes de te conhecer morreu, na verdade, eu não existia antes de te conhecer. Eu não sabia o que eu fazia, e eu errei em querer qualquer coisa com ele. Ele é um idiota, e ter acontecido isso com você é só uma infeliz coincidência. Não sei o que eu fiz de bom na vida para ter você comigo, mas eu sei que nada vai me tirar isso. Eu ainda não havia visto Fernando chorando, até aquela lágrima que contornou seu rosto. Eu sorri, maravilhado com o que ele tinha dito. - Você deve estar me achando um idiota, não é? Chorando desse jeito, eu sou muito “manteiga derretida” - ele disse. - Você é perfeito. Perfeito pra mim. Eu o beijei, e ficamos um tempo ali encostados, no frio, e no silêncio, que agora era agradável. - Eu podia saber que você existia naquela época, não é. Perdemos tanto tempo – Fernando disse. - Temos tanto tempo pela frente, e eu vou aproveitar cada segundo do seu lado. - Eu te amo. - Eu também te amo.

CAPÍTULO CINCO As semanas no Padre Antônio estavam interessantes, o que era difícil de acontecer. Percebi que era bom não ter aquele medo de colégio novo, e confesso, era bom ver esse medo no rosto dos novatos. Os veteranos do ano passado aproveitaram isso comigo, eu tenho o direito de aproveitar isso com os novos alunos, não é? Mas não era só isso que me deixava sorridente. Os finais de semana passados com Fernando eram um atrativo para minha felicidade, além disso, o começo do ano letivo é o período ideal para garantir boas notas e passar de ano com facilidade. Tudo estava muito certo, tudo estava dando certo, certo até demais, mas eu não ligava. Os dias eram claros, mas o Sol não me incomodava. Os professores novos eram perturbadores, mas não tiravam minha satisfação. Realmente,


algo devia estar errado, pois estava tudo certo. Uma das melhores sensações que eu tive nesses primeiros dois meses foi de dizer “Não, eu namoro” para muitos novatos gays, alguns até muito bonitos. Me sentir querido, desejado, era muito bom, mas dizer que eu era feliz com meu namoro era melhor ainda. Conforme os dias passavam, todos os medos, dúvidas, e as questões para serem resolvidas em relação ao meu namoro foram acabando. Eu posso decretar que realmente acabaram naquela tarde de sexta feira: - Vou ficar uma semana sem aulas, quer dizer, você também vai, não é? - Até com chiados, a voz de Fernando era irresistível. - É, vou, mas ainda não entendi porque – respondi. - É aquele recesso que estavam falando semana passada, sobre reformas no sistema escolar e blá blá blá, o que importa é que nós temos uma semana para nós. - Não, não temos. Eu tenho pai, você esqueceu? - Eu havia falado com meu pai mais cedo – Vou viajar durante essa semana com ele, nós vamos acampar em uma cidade perto da nossa. Tem um Camping lindo que nós sempre vamos. Queria que você fosse com a gente. - Com o sogro? - ele riu – Só se ele for me matar, né, afinal, ele deve achar que eu que fiz voc- a unidade do cartão telefônico acaba. Ótimo, eu não tinha outro. Eu iria viajar no dia seguinte, e não iria falar mais com Fernando por hoje, talvez, por muito tempo. Pelo menos um “Eu te amo”, é claro que ele já sabia disso, mas não custa relembrar, não é? Voltei para o quarto, onde Rafael estava ouvindo Lily Allen muito alto. - Não vai com o Bruno? – eu disse. - O que? - Nada – continuei andando até o banheiro. Bruno havia ido ao Centro, pra variar. Tirei minha roupa, entrei no chuveiro. Eu precisava daquele banho, aqueles jatos de água fortes na minha pele, massageando qualquer coisa ruim e fazendo descer pelo ralo. Talvez seja por isso que os dias tem estado tão bons. A música havia abaixado um pouco, mas não achei significante, até que Rafael abre a porta do banheiro para falar “Seu pai no telefone”. E ele


me viu nu. Ta bom, não era novidade, mas mesmo assim, foi constrangedor, principalmente a parte que eu não consegui evitar uma ereção por ele estar ali, sem blusa, comigo pelado ao seu lado. - Pede pra ele ligar daqui a pouco, avisa que eu to tomando banho – eu pedi, constrangido. Ele saiu, fechou a porta rindo de mim. Ótimo, isso era tudo que eu precisava. Meu tesão pelo Rafael voltou. Ignorei esse pensamento. Saí do banho, olhando Rafael de cara feia. Me vesti, o telefone tocou. - Alô? - eu perguntei, mesmo sabendo que era. - Filho, ta tudo certo pra amanhã? - Tá sim, me busca às 11 horas, tá bom? Acho que essa conversa durou pelo menos 20 minutos, entre os vários questionários que meu pai fazia para saber sobre minha vida, e como estava a escola. De novo, eu não fazia idéia do que ele falava. Na verdade, a parte mais interessante foi o “Até amanhã” que ele disse no final. Meu sono de noite foi muito pesado, mas mesmo assim, acordei de madrugada com uma mensagem de Fernando: “web from Fernando: nao deu pra flar, mas eu te amo e nao esquece disso. boa viagem e se divirta, e nao olhe p os homens gostosos porque eu estarei te vigiando.” Eu ri, e dormi muito melhor depois disso. Meu pai estava me esperando na Rodoviária, conforme planejado. Eu havia acabado de sair de um ônibus e já ia pegar outro, para o acampamento. Depois de alguns abraços e mais questionários, sentei em um banco, comendo um salgado de uma lanchonete de rodoviária enquanto meu pai ia comprar as passagens. Um homem senta ao meu lado. Alto, loiro, barba, olhos verdes, rosto modelado, lindo. Aparentava uns 35 anos. Dois minutos depois, ele levanta e busca uma mulher que saía de um ônibus, quando eu derrubei o que restava do meu salgado no chão ao ouvir uma voz grossa no meu ouvido.


- Eu pedi pra não olhar para os homens gostosos. Eu falei que estaria vigiando.

CAPÍTULO SEIS - O que você tá fazendo aqui? - Eu quase gritei, e a minha vontade era de agarrar Fernando e nunca mais soltar, mas meu pai estava a menos de 20 metros de mim. - Você veio acampar, eu também vim. Não posso? - ele disse mostrando seu sorriso de dentes perfeitos. - Mas- ele não me deixou completar a frase. - Nós não terminamos a conversa, então eu não sabia de nada sobre sua viagem. Entrei na Internet, na hora que te mandei aquela mensagem, procurei por locais de Camping ao lado de sua cidade. Ainda bem, só tinha um. Descobri que o primeiro ônibus pra lá saía daqui às 9 da manhã, o segundo, às 11:30, então, acordei às 5 da manhã e vim pra cá. Cheguei 8 horas, porque não sabia qual ônibus você ia pegar, então, te esperei chegar. Eu to com minha mala, minha barraca e dinheiro aqui – eu estava de boca aberta, mas ele não me deixou falar novamente – agora diz par seu pai que eu estudo no seu colégio e você me encontrou aqui por acaso, e eu também estou indo acampar. Eu só percebi que ele havia planejado tudo, arriscada e detalhadamente, quando vi meu pai andando em minha direção com as passagens na mão. Eu ainda estava sem fala, mas consegui seguir o planejado. Apresentei os dois e fui com Fernando comprar sua passagem. E nós três pegamos o ônibus, eu, pai e meu namorado. Fernando não tinha como garantir isso, mas se pelo menos ele tivesse me contado sobre seus planos maquiavélicos, eu o asseguraria que meu pai iria acreditar na história fielmente, e foi o que aconteceu. Minha sorte nunca foi boa, mas estava ficando incrível nessas últimas semanas: As poltronas, minha e do meu pai, eram juntas, e a do Fernando, logo atrás da nossa. E a grande sorte foi de que ele estava sozinho, com o banco do lado vazio, praticamente me convidando para sentar. No meio da viagem, tive muitas e muitas conversas com meu pai, algumas até Fernando participava, mesmo não estando à vista dele, como,


por exemplo, “Ele é mesmo bom aluno lá?”. Eu sentia que Fernando iria me sacanear muito por isso depois. Depois de sessões de atualizações paternas, levantei e peguei meu notebook na mochila no bagageiro em cima das poltronas, só para dar alguma desculpa, e falei um simples “Já volto” para meu detetive particular e sentei ao lado do Fernando. Abri o notebook, sem real motivo para fazê-lo, mas entrei na Internet e tive uma idéia: CONVERSAS DE ÔNIBUS Tudo que será digitado é a real expressão de um casal de namorados que não pode falar o que realmente sente porque o pai de um deles está sentado logo em frente. Fernando me olhava e depois olhava para a tela, sem entender nada, apenas acompanhando cada letrinha nova que eu digitava. Di diz: Eu te amo. Tô o dia inteiro querendo te falar isso. Ele finalmente entendeu. F diz: Aw, que lindo. Eu também te amo, meu amor. Di diz: Você quase me matou do coração na rodoviária. Não faz mais isso. Mentira, faz sim, eu adorei. F diz: O prazer é toooooooodo meu, meu amor. Di constrangido diz: Desculpa pelo meu pai, mas é você que não deveria estar aqui, né. F em choque diz: Quer que eu vá embora? Di sedutor diz: Só se for para me levar para algum Motel. F diz: você é criança para essas coisas. Di diz: Ah é? Então também sou criança para fazer o que eu estava planejando fazer na sua barraca de Camping. F arrependido diz: Posso saber o que era? Di diz: deixa que eu te mostro. No momento, coloquei minha mão em baixo de sua mochila, que estava em seu colo, e sussurrei em seu ouvido “Espero que não seja seu celular”. Ele riu, e assim, fizemos nossa primeira atualização no Red Blossom Tree juntos.

CAPÍTULO SETE


RECAPITULANDO A semana já está acabando, nós estamos agora num restaurante de um hotel perto do Camping para almoçar, e a bateria do notebook acabou, só pude recarregar aqui, então, vamos nos atualizar: Tudo aqui é lindo. Tá certo que eu já conhecia muito bem, mas eu digo que é lindo porque é a primeira vez que eu venho com Fernando, e ele deixa qualquer coisa linda. Na verdade, essa é a primeira vez que nós viajamos juntos, não que eu não conte as idas para Vassouras uma viagem, porque sim, são. Minha última atualização no blog provavelmente não faça sentido para muitas pessoas, quero dizer, só faz sentido para mim e para meu namorado, mas fiquei muito feliz em fazê-la. Nunca pensei que atualizar minha vida em um lugar onde provavelmente ninguém lê seria tão viciante e me deixaria tão bem. Voltando sobre a semana, ah, muito sexo. Frequentemente (eu quis dizer “todo dia”) eu durmo na barraca do Fernando, e depois me enfio na outra barraca que ele arma. Eu realmente acho que esse blog é pornô, mas isso a gente discute depois. Pescamos, coisa que eu não fazia a muito tempo e meu mais novo pescador nunca fez, Foi ótimo. As praias são lindas também, mas eu não sou muito fã de praias, pois o Sol e a água salgada me deixam vermelho e ardendo, quer dizer, me deixaram na primeira noite. Foi lindo ver Fernando cuidando de mim e me passando hidratante. Então, nós optamos mais pelas cachoeiras, onde tem árvores para tampar um pouco os raios solares, onde não tem areia desagradável entrando em lugares que só Fernando conhece e onde a água é doce, fazendo com que eu não me queime (de novo, eu quis dizer “arda”) tanto assim, e que o sexo em baixo d'água seja mais agradável. Olha eu digitando sobre sexo de novo, definitivamente, blog pornô. Um caranguejo que eu não sei de onde saiu mordeu o dedo mindinho do pé de Fernando, fomos parar no pequeno posto de saúde perto do Camping. Meu desastroso namorado escorregou e caiu de costas no chão enquanto descíamos de uma trilha, nesse episódio ele cortou o a mão e de novo, posto de saúde. Na terceira vez, ele tomou um choque tentando ligar o ventilador de dentro da barraca, eu até cheguei a perguntar se ele fazia aquilo de propósito para que eu o leve ao hospital e ele dê em cima dos médicos.


Para o meu lamento, eu disse que sim e assim, comecei a bater nele sem a intenção de machucar, mas sem querer tirei o curativo recém feito do corte na mão, e lá estávamos de novo, no posto de saúde para fazer outro. Nessa noite, enquanto voltávamos do posto, meu pai votou para a barraca e e eu e Fernando sentamos em uma praça perto de uma praia, no pequeno centro que aquela cidade tinha. O Camping não ficava muito longe, então, nós conseguímos voltar tranqüilamente. Enquanto ríamos e aproveitávamos o silêncio, observávamos um pássaro, lutando para voar contra os ventos fortes. Aquela cena nunca vai sair da minha cabeça. A única parte com luz, tirando os postes fracos da praça, era um parque de diversões que ficava ali do lado, com uma roda gigante que fazia jus ao nome muito bem colorida e iluminada. E foi naquela cena, que Fernando tirou algo do bolso e me mostrou: Um anel. Nós namorávamos, mas nenhum dos dois tinha comprado um anel, ou realmente pedido, com direito a colocar o anel no dedo e tudo, e foi exatamente o que aconteceu. Só faltou ele ajoelhar, mas com a sorte dele, ele podia se machucar de novo. Ele me disse que pretendia fazer isso em cima da roda gigante, que ele sabe que eu tenho muito medo, mas os ventos fortes forçaram os donos do parque a interditar a roda naquela noite, então ele fez ali mesmo, o que não fez a cena ser desmerecida, muito pelo contrário, foi inesquecível. Então ele pediu, declarando meu nome inteiro e tudo mais. Fiz um drama até aceitar, claro, mas acabei com a aliança no dedo, e ele colocou uma também. Ela é linda, completamente de aço, mas com um detalhe em ouro gravado dentro, escrito “Always”. Voltamos a olhar o pássaro valente, que tinha conseguido penetrar as barreiras do vento, pousando em segurança. Voltamos pra casa. No meio do caminho eu pedi à ele para tirar a sua aliança, que só eu ficaria com a minha. Ele me perguntou, e entendeu que era para o meu pai não reparar nada, e ordenei que ele colocasse de volta quando voltássemos para nossos colégios, para todo mundo saber que ele é meu, e só meu, sempre. Sempre. Então, esses foram os detalhes mais importantes até agora. Nosso ônibus para minha cidade sai daqui a dois dias, e ainda temos dois dias para aproveitar um ao outro, e o sargento heterossexual também, claro. Falando nele, ele já está me perguntando o que tanto eu escrevo aqui,


ainda bem que a comida vai demorar para vir. Acabei de dizer a ele que estou mandando uns e-mails para o pessoal do colégio, e ele acreditou. Tomara que não esteja pensando em garota, mas é claro que ele está pensando isso, até Fernando entendeu, pelo olhar dele. Então, até outro dia, blogueiros.

CAPÍTULO OITO Eu sentia falta do meu namorado. Na verdade, eu sentia falta de sexo, com ele ou sem ele, preferencialmente com outras pessoas. Eu não sou tão promíscuo assim, mas é inevitável não pensar em como é corpo de um cara quando você encontra na rua, ou pior, é inevitável não pensar no que você faria com o corpo de tal cara que você vê, ou até mesmo de uma foto na Internet. Não sou promíscuo, só tenho os hormônios hiperativos. Naquela noite, Rafael havia ido ao Centro, eu estava sozinho no quarto. Enquanto tomava banho, comecei a sentir que eu estava ficando excitado, afinal, havia 3 semanas que eu não via Fernando. Me masturbar nunca foi um hábito, mas dessa vez era necessidade. O problema eram as figuras na minha cabeça. Atores, modelos, conhecidos do Padre Antônio, caras que eu não conheço mas já vi fotos na Internet, tudo mais. Isso pra mim era normal, mas, a imagem de Fernando nunca vinha na minha cabeça. Quer dizer, se viesse, teria o mesmo efeito, mas eu não queria que viesse. E eu gozei pensando em outros caras, e isso me fez sentir mal depois, enquanto deitava na cama. Isso seria traição ou algo do tipo? Sabe, eu amava meu namorado, mais até do que minha vida, mas eu posso tê-lo quando eu quiser, ou pelo menos quando eu me dispor a enfrentar duas horas em um ônibus. Acabei dormindo, acordei de manhã com o Sol no meu rosto. Olhei para o lado, Rafael estava deitado, nu, com seu corpo escultural suado e vulnerável, e essa cena não me excitou nem um pouco. Ainda bem. Quer dizer, se fosse qualquer outra pessoa, me excitaria, mas Rafael agora era a última pessoa que me excitava no mundo. Eu queria ter uma conversa com Fernando na próxima vez que fosse lá, mas não sabia por onde começar, e na verdade, o que falar. Então resolvi conversar com a pessoa mais sexualmente hiperativa que eu conheço. Bruno. Sempre. Ele me dizia coisas que meu namoro irá sempre mudar, que o sexo também vai e os dois vão sentir falta se outras pessoas. Quando ele falava


em ménage, eu quase podia sentir que ele estava se oferecendo. Tentei ignorar esses pensamentos. Ménage não tinha passado pela minha cabeça, na verdade, era uma idéia que eu não acataria, até que virasse necessidade, como agora. - Mas pode estar muito cedo. - Eu sei, mas mesmo assim, não quero correr o risco. - Risco dele te trair? - Não, isso não. Sabe, meu namoro, quero dizer, meu namoro a única coisa que eu sou seguro no mundo. Seguro de que dá certo, e sempre vai dar. Mas eu também sei que só vamos conseguir isso se os dois se adaptarem as necessidades atuais, e todas as outras que virão. - Eu concordo com você, mas, só tenho mais uma coisa pra te dizer: Foi quando ele disse. Aquela frase. A princípio eu achei que aquela frase que Bruno me disse fazia sentido, mas eu não acreditava nela. Não acreditava que algo daquele tipo podia acontecer. Eu era muito seguro sobre Fernando, sobre a situação, até sobre mim mesmo. Não pensei que essa segurança toda poderia ser um defeito. Eu não acreditava, ou não queria aceitar, que aquela frase poderia estar certa. E eu não queria pensar nisso, e eu não pensei, eu só liguei para Fernando e o convidei para vir para o Centro ao invés de eu ir para Vassouras dessa vez. Enquanto eu o buscava em seu ônibus, conversamos, discordamos e concordamos, até brigamos, nos beijamos e ficamos decididos do que íamos fazer. E fizemos, e de certo ponto, não me arrependo. Valeu a pena ter ido ao Centro, ter conhecido muitos caras, até ter ficado com outras pessoas. Mas a parte do sexo, além de ter sido incrível, foi familiar. Marcus, um garoto que certa vez me havia dado seu telefone, topou ir ao quarto com a gente, e, de novo, não me arrependo. Ta certo que, muitas vezes, eu praticamente olhava, e não participei inteiramente como os dois, mas tive meus momentos. Pela última vez, não me arrependo. E eu estava com medo de repetir isso tantas vezes, para tentar me convencer que é verdade. E, aquela frase, depois disso tudo, me assustava. “Seu namoro nunca mais vai ser o mesmo depois disso”, a voz de Bruno não saia mais da minha cabeça.


CAPÍTULO NOVE - Aí – eu continuei falando – nós estávamos conversando, e decidimos, juntos, que dos meus amigos, o único que nós ficaríamos seria você. Gabriel ria. - Eu falei pra ele que você é hétero e tudo mais, ele aceitou minha posição, mas não quis aceitar sua heterossexualidade – eu ria junto com ele, - Ele ta achando que eu sou gay? - Gabriel disse, e, por incrível que pareça, ele ria mais ainda, não se mostrando nem um pouco desconfortável com tudo isso - Não, isso não, é que ele realmente quer, e não vai acreditar até ouvir você mesmo dizer não. A intenção de estar ali, na hora do almoço, conversando com Gabriel, não era de convertê-lo para o lado colorido da força. Esse assunto acabou aparecendo, e eu comentei de uma conversa que tive com Fernando há algumas semanas. Mesmo sendo algo que, acho eu, era desagradável para ele conversar, nós estávamos nos divertindo com isso tudo. - Eu nunca me pensei como bissexual, mas não é algo que eu nunca faria. Não pude evitar a surpresa, as batidas do coração aceleradas e o tom de voz que aumentou repentinamente. Ah, e é claro, a euforia. - Então, você faria? - Eu estava com medo de ficar excitado, mas meus esforços pareciam frustrados. - Eu gosto do seu namorado, você é meu melhor amigo, porque não?

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Eu chorava de tanto rir no meu quarto, enquanto recebia os parabéns de Bruno e Rafael por ter convertido um heterossexual, e enquanto eles me sacaneavam por isso. Não sei se era bom ou ruim, mas era engraçado. Entre todos os risos, entre todos os papos, entre todas as declarações de inveja de Rafael pela minha noite anterior, algo sempre me chamava atenção. Os olhos de Bruno estavam negros e brilhantes, não combinavam


nada com sua feição feliz e sorridente. Eles pareciam sempre direcionados aos meus e, como se quisessem me dizer algo. Não parecia, nem um pouco, que Bruno fazia isso de propósito mas, eu sabia o que era, e não queria acreditar. No final de semana seguinte, tomei meu rumo em direção à cidade que parecia ficar fora do país, mas ela estava diferente dessa vez. Não estava frio, isso me surpreendia. Enquanto passeava no fim de tarde com Fernando, Gabriel acabou sendo citado na conversa, quer dizer, ele realmente quis citá-lo. - Eu disse que ele não era hétero. - Mas gay ele nunca foi, ou a ex namorada dele vai adorar saber isso. Nós ríamos. - Bissexual é o suficiente para mim – Fernando disse. - Pra você? O amigo é meu. - Mas eu que vou aproveitar. Nós ríamos ainda mais. Sentamos em uns bancos que rodeavam uma linda praça, com um campo de futebol ao meio. - Você não pretende fazer isso de novo, não é? - Eu disse. - Não sei, mas não vejo porque não. - Então vou te perguntar exatamente o contrário: Porque sim? - Ah, eu sinto um “affairzinho” por ele – ele demonstrou as aspas e tudo. - Nossa, a algumas semanas atrás nem muito amigos vocês eram – eu não queria soar surpreso, mas não consegui. - Não é nada, é que ele é, fofo, só isso. - Você nunca me chamou de fofo – agora eu estava voltando a rir. Meu coração estava diferente, algo estava muito errado com ele, e eu me sentia mal por ver que Fernando não estava do mesmo jeito, pelo contrário, estava muito feliz, e pior, por ele não perceber como eu estava. - O que você tem? - Mesmo com o barulho ensurdecedor de música alta, me assustei com a voz de Bruno atrás de mim. - Ah, oi. Não sei, mas estou desconfortável – ele entendeu o que eu disse, ou melhor, sobre o que eu disse. - Mas isso é normal, não é? - Ele apontou para o canto, onde Fernando beijava Gabriel com um calor que não tinha nem comigo.


- É, mas estou arrependido de trazer ele pra essa festa. - Gabriel ou Fernando? - Fernando, claro, Gabriel viria de qualquer jeito, e Fernando não sai de seu quarto sem mim. Não achei que faria mal sair um pouco, e não está fazendo. - É não está fazendo mal a ele mesmo. Mas e a você? Não respondi sua pergunta, e mudei de assunto. - Estou começando a duvidar da bissexualidade do Gabriel. - E eu estou surpreso de quão rápido ele virou gay. Tudo estava normal de novo, eu, meu namorado e minha segurança, e haviam se passado dois meses desde aquela festa. Dois meses sem sentir aquele aperto no coração de novo, sem ver Fernando beijando outro cara, pelo menos não com toda aquela paixão. Dois meses felizes, até saber que Gabriel nos havia convidado para uma outra festa. - Mas você não quer ir? É só falar. - Não, não é que eu não queira ir. É só que, me surpreendi por ele ter convidado você, ao invés de mim. - Eu já disse, ele falou comigo, mas chamou a nós dois. - Mas ele podia ter falado comigo, ele me vê todos os dias. Porque ele te ligou? - Ele queria conversar, a gente conversa bastante no telefone, você sabe disso. - Isso não me incomoda, eu já disse. Mas mesmo assim... - Tem alguma coisa acontecendo que eu não saiba? Pensei em mentir, ou pelo menos não contar, mas o “Sim” acabou saindo, como se estivesse preso a muito tempo. - Então me conta, o que é? Eu realmente não queria estragar nossa noite, então tentei ser o mais delicado possível. - Naquela festa, a uns meses atrás, eu me senti muito mal em ver vocês dois ficando juntos. - Mas a gente sempre ficou junto, você sabe, você tava no meio. - Exatamente, eu tava no meio, dessa vez eu não estava. - Mas, você nunca se incomodou com isso, e você deixou, também. - Eu sei, eu não me arrependo, mas só não quero que aconteça de novo. - Você tá me proibindo de ficar com ele de novo? - A voz dele soava


desespero e espanto. - Acho que “proibir” é uma palavra muito forte, mas, em quase um ano de namoro, eu posso te pedir pra não fazer mais, não é? Ele não respondeu. Isso me assustou. O intuito do namoro é ter alguém, do seu lado, e exclusividade. Naquele momento, pensei onde eu poderia ter perdido o controle e porque o intuito do nosso namoro soava agora como controlar quem são as outras pessoas que a gente fica, como se nós dois sozinhos não fossemos o suficiente mais. - Eu te amo, você sabe disso. Eu não fico mais com ele, se você quiser. Não fico mais com ninguém, se você quiser também. Você sabe que é só você, e sempre será – A voz dele me lembrou porque eu havia começado a namorar. Aquela noite de Natal, o beijo mais incrível da minha vida e, como eu o amava, mais do que tudo. - Eu andei pensando. Nós podíamos fazer um trato: A gente pode ficar com alguém que o outro deixar, mas nada sexual, pelo menos não sozinhos, claro. - Prossiga. - E assim, acho que vai melhorar nossa situação, mas... só uma vez, cada pessoa. Nada mais que isso. - Entendi, e concordo. - E o Gabriel já conta como mais de uma vez então, nem pensar. Ele pareceu relutante em responder, e seu “tá bom” pareceu exclusivamente para me agradar, mesmo assim, sorri.

CAPÍTULO DEZ Sabe quando você tem raiva de uma pessoa, tem vontade de pegar alguma coisa e tacar nela, e fica com raiva de si mesmo porque pode machucá-la? Era exatamente o que eu estava sentindo. Eu estava triste, segurando muito para não chorar, mas não conseguia ficar triste com ele. Eu estava triste por estar brigando com ele. Vou explicar. Não é sempre que eu me desloco de meu alojamento, enfrento uma viagem de duas horas e passo um dia com Fernando, e justamente quando eu faço o que pra mim não é nenhum sacrifício, ele resolve ter uma crise porque eu quis conversar sobre o que havia acontecido na festa. Nós tínhamos um trato, ele descumpriu, e fez pior, e


não queria ouvir sobre isso. Peguei o ônibus, cheguei em casa ele me ligou pedindo desculpas. Não foi o suficiente. Continuamos brigados. Rafael percebeu quando eu quase quebrei o celular colocando com muita força em cima da mesa. - O que houve? - Ele perguntou. Eu estava com ódio, mas não com ele, então, tentei me acalmar um pouco para respondê-lo da melhor maneira possível. Esforços em vão. - Lembra daquela maldita festa que aquele puto do Gabriel nos chamou para ir? - Eu gritava. Ele concordou com a cabeça, olhos assustados. - Então, aquele puto do Fernando fez um trato comigo, de não ficar mais com o Gabriel, porque eu estava começando a me sentir mal com isso. Então, o que aconteceu? Eu não precisava completar mais nada, ele havia entendido tudo. - Mas ele fez pior. Na festa, ele quis ficar com uns dois garotos, e uma garota também. Eu deixei, não havia porque negar, e também, foi antes dele beijar o Gabriel. Então, ele ficou com todas essas pessoas, e sabe quantos, quantos beijos ele me deu? - dessa vez eu gritava muito mais alto, e lágrimas tristes e com raiva escorriam em meu rosto. Não esperei Rafael responder – NENHUM! Ele foi para a festa COMIGO, ficou com TREZENTAS PESSOAS lá e NÃO FICOU COM O PRÓPRIO NAMORADO. Rafael me mandou sentar ao seu lado na cama, e me acalmou um pouco. Eu chorava, muito mais forte. - Ele te pediu desculpas, não foi? - Finalmente, ele disse. - Pediu. - E você não aceitou não é? - Não. - Olha, eu sei o que você tá sentindo, mas se ele se desculpar, aceite. Não tem porque estragar o namoro porque um de vocês errou uma vez. Ele é o melhor namorado que eu já vi, e muita gente quer algo sequer parecido. E você tem. Sabe, eu até estava pensando esses dias, ter um namorado seria legal também, mas só se fosse um namoro tipo Di e Nando – aquela frase me fez parar de soluçar, e respirar bem fundo. Ela me trouxe uma paz interior. Rafael estava certo. Ele continuou – Antes de ver vocês, eu não acreditava mesmo que seria possível amar alguém com tanta intensidade,


que seria possível se abdicar a ficar com outras pessoas, e continuar feliz, apesar de vocês terem errado um pouco nesse ponto. Mas o que eu quero dizer é que, você tem um homem para o resto da sua vida, e ele fará coisas piores, você também fará. Essa foi só a primeira grande briga, e convenhamos, quase um ano juntos, ela teria que vir. Mas se vocês, principalmente você, não passarem por cima disso, não deveriam ficar juntos mais. Parei e pensei em uma vida sem Fernando. Não pensei, não consegui. Ela não existia. - Liga de volta pra ele, não precisa ser agora, mas também não demore muito. Ceda um pouco também e peça desculpas por gritar com ele no telefone. Diga que quer esquecer isso tudo, ele vai entender, e não vai fazer de novo. Recupera seu namoro, porque eu nem sempre vou estar aqui para ajudar, e você não deve terminar algo por uma briga. Ele falou como se estivesse morrendo, e como se eu estivesse pensando em terminar com ele depois disso. Mas aí eu entendi o que ele quis dizer. Se eu realmente quisesse ficar para o resto da vida com Fernando, em cetos momentos, eu não terei Rafael ou alguém como ele e, sobre terminar, eu poderia não estar pensando nisso, mas Fernando, talvez sim. Então foi o que eu fiz. Liguei para ele, tentei resolver o assunto e, mesmo chorando e soluçando, conseguimos resolver e nos prometemos que vamos ficar bem.

….....................

Duas semanas se passaram desde nossa primeira briga. Hoje eu ria daquilo tudo, mas ainda me sentia um pouco mal em pensar que nossa primeira briga havia acontecido por causa de outro cara. Mas eu pensava “nós vamos sobreviver”, foi a promessa que fizemos ao telefone. Eu me sentia bem, até aquela noite. Era domingo, estava tarde, Bruno havia batido na porta do meu


quarto. Ele me disse que não queria falar aquilo, mas eu precisava saber. Eu me assustei. Foi quando ele me contou, que viu Fernando hoje, beijando Gabriel no ponto de ônibus em frente ao campus. “Ele não me viu, mas eu tenho certeza do que vi, e não sei direito o que aconteceu nem porque aconteceu, mas aconteceu”. Suas palavras me levaram a algum lugar que eu não conhecia. Um lugar no meio do ódio e da loucura. Um lugar escuro. Eu chorava, chorava por ouvir aquilo, chorava por ter gritado com Bruno, que me ajudou muito quando eu precisava, chorava por ter batido a porta na cara dele, incrédulo com o que ele me disse, chorava por pensar naquela cena que Bruno havia me descrito. Eu não queria acreditar, afinal, era domingo à noite, Fernando teria aulas pela manhã. Ele não poderia estar aqui. Eu não queria acreditar, pensava que Bruno viu errado ou alguém que parece com ele. Eu não queria acreditar, mas em alguma parte desse lugar no meio do ódio e da loucura, molhado por lágrimas, eu acreditava. Liguei para Fernando, ele não atendia seu celular, e fiquei a semana inteira tentando, mas ele não respondia. Nas aulas, eu não olhava na cara de Gabriel, e ele também não vinha para falar comigo, como se tudo que Bruno havia me tito fosse verdade e ele soubesse que eu sei. Igor e Méci me perguntavam o que havia acontecido, eu não respondia. Eu não falava com bruno, e saía andando em todas as suas tentativas de se reconciliar comigo. Eu ignorava Rafael quando ele tocava em qualquer assunto que me lembrasse isso tudo. Eu estava morrendo por dentro.

CAPÍTULO ONZE Eu estava morrendo por dentro. Eu já estava morto. Nada mais podia me reviver, mesmo se Fernando viesse falar comigo. Eu não entendia o porque daquele silêncio. Resolvi ligar para um dos dois, e, se eu não fosse esclarecer tudo, pelo menos eu ia desabafar um pouco. Isso quer dizer chingar até não


poder mais Fernando não atendia o celular, Gabriel também não. Tentei inúmeras vezes para qualquer um dos dois, até que Gabriel atendeu com um “O que que é?”. Nunca o vi tão ignorante como dessa vez. Os barulhos da ligação me irritavam, mais parecia que ele estava no meio de uma multidão, ou de um lugar com muitos carros, ou até mesmo no meio de um aeroporto. - Fernando está com você? - Ele não precisou responder, eu já ouvi a voz dele – Deixa eu falar com ele – disse. Depois de pouquíssimo tempo de silêncio, Fernando atendeu. - Oi – o tom dele era frio, mas muito preocupado, como se realmente estivesse fazendo algo errado. - Onde você está? - Tentei ignorar o tom dele e me concentrar no que importa: meu namoro. - Eu não posso falar agora, mas eu te ligo assim que puder, ta bom? - Porque você está com o Gabriel? Não tive respostas, o celular ficou um silêncio sombrio e gelado, assim como meu cérebro e todos os meus sentidos. Eu não pensava mais. Não raciocinava, não respirava, nem sei pra que eu tinha cérebro. Parecia que o Diego era simplesmente um coração, e nesse coração, havia um enorme buraco negro, escuro, frio, sem fundo. Um lugar que você sabe que está dentro, sabe até mesmo o que ele é, mas não sabe como sair, nem mesmo tentar, e por mais que você queira, não tem onde se segurar nem apoiar, para tentar sobreviver. Não tem outra forma de descrever esse sentimento. Nunca achei que amar, amar excessivamente, causaria dor física. Mas era só fazer as contas, a dor era sentimental, que doía na alma, que doía no corpo. É claro que eu estava me precipitando, mas ali, sentado no chão, eu não tinha mais nada pra fazer, nem mesmo motivação para mexer um músculo. No momento eu queria ficar sozinho, mas acompanhado. Queria ficar quieto em um canto, mas saber que tem alguém do meu lado. A companhia de Rafael seria perfeita, mas Bruno entrando na porta não me agradou. Provavelmente ele iria me encher de mais supostas mentiras e, agora eu poderia acreditar nelas. Mas Bruno me pegou pelos braços, não disse uma palavra. Seus


movimentos eram firmes e decididos, eu nunca o havia visto com essa posição. Ele me segurou, com uma força que provavelmente esteve escondida e guardada dentro dele todo esse tempo, me deitou na cama e sentou, apoiando minha cabeça em seu colo. Meus olhos se mantiveram fechados, e eu também não os queria abrir, mas o cheiro de Bruno, um cheiro indescritível, um cheiro que transmitia segurança e a mais pura amizade, me fizeram chorar, e chorar muito. Suas mãos apoiadas em mim pareciam um fósforo em um refrigerador, e eu, com um medo imenso do fósforo apagar, me segurei a essa sensação de calor, como se fosse a única coisa possível onde eu poderia me segurar para sair do buraco negro, e eu não me perdoaria nunca se eu não tentasse. E no meio de um turbilhão de sensações e lágrimas, eu adormeci em seu colo. Não tive palavras para descrever o dia seguinte. Rafael, Igor e Bruno estavam no quarto comigo. Estava em todos os noticiários da televisão, e em um jornal jogado em cima da mesa. Um ônibus havia capotado, matando 48 pessoas, entre elas, meu ex melhor amigo e, agora, meu ex namorado. Ele se dirigia até uma cidade ao Sul do país, não me lembro do nome. No meio da viagem, começou uma chuva, a pista ficou escorregadia e o motorista perdeu o controle, arremessando o ônibus em uma ponte, levando minha vida através das águas. Os rostos de meus amigos estavam sem expressão. Nenhum deles emitia nenhuma palavra, nenhum som, nenhum ruído. Ou eu estava completamente surdo, porque eu também não ouvia nenhuma palavra da repórter na televisão, publicando o caso. Ele havia morrido, de uma maneira que quase me fez desmaiar, provavelmente viajando com Gabriel. E junto com o ônibus, ele levou, além de meu coração, minhas perguntas. Ele realmente estava me traindo? Bruno estava certo? Eles estavam realmente viajando juntos? Ele pensou em mim? Ele amava Gabriel? Ele me amava? Eu nunca saberia a verdade, e eu nunca vou querer saber. Ele se foi, e me deixou, além de especulações, um nada. Um nada,


um lugar lindo, mas com uma sensação vazia. Um lugar diferente de todos onde minha mente me permitiu ir, com campos floridos; árvores enormes, que você não conseguia ver o topo; um Sol bonito iluminando as enormes colinas. Um riacho no meio, com um pequeno barco para duas pessoas. Uma roda gigante completamente iluminada apesar do dia ser de Sol, sendo um contraste naquela cena. Uma barraca de acampamento no meio, com algo dentro que eu não queria descobrir o que era. Um lugar maravilhoso, e eu olhava para aquilo tudo e odiava. Entre um campo verde e um canteiro de rosas, um banco de concreto, para duas pessoas, vazio. Aquele lugar me pertencia, mas eu tinha duas sensações. Ou faltava alguém ali, ou esse alguém deu esse lugar maravilhoso para outra pessoa. Eu daria a minha vida para sair de lá.


TRĂŠS em maio


Red Blossom Tree  

Rascunhos de Red Blossom Tree e a vida de Diego no Padre Antônio.

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