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Nome: Tuane Eggers Curso: Jornalismo Disciplina: Técnicas de Reportagem Professor: Leonel José de Oliveira

Quem tem medo de escuro? Quando o assunto é a escuridão, o famoso ditado que afirma “o que os olhos não veem o coração não sente” não faz sentido algum. Nada se vê, mas muito se sente - e mais ainda se imagina. No medo do desconhecido percebem-se receios primitivos do ser humano. Até mesmo infantis. Quem nunca teve medo do escuro? As ruas costumam ser vazias à noite. Nesse período, o silêncio impera sobre as cidades. Qualquer ruído é percebido imediatamente. E qualquer coisa pode acontecer a partir dele. É exatamente aí que o coração acelera e que os pensamentos fluem como nunca. Nesse momento, o cérebro costuma arquitetar as piores situações possíveis. Conforme a psicóloga Suzana Schwertner, um dos grandes medos que surgem com o escuro é o de perder o controle. Por nada se ver, fantasmas estão livres para serem criados pela imaginação. “E o que seria a nossa imaginação se não um imenso buraco negro que vem a ser respingado com nossas tintas multicoloridas?”, questiona a professora, considerando que esses devaneios podem criar tanto uma bela paisagem, quanto uma horrenda criatura. Sair de casa durante a penumbra da noite, para muitas pessoas, significa mesmo se aventurar. Por atuar como uma espécie de filtro dos fatos, a mídia pode ter efeitos decisivos sobre o medo geral da sociedade. Conforme o professor Flávio Meurer, doutor em Comunicação e Informação, ela contribui para a formação de uma ideia comum. “Fatos extraordinários e relativos à violência e morte têm forte apelo, talvez porque mexam com algo profundo do ser humano”, explica. As pessoas percebem isso como sinal de que, se há tanta violência na mídia, deve haver muita violência na realidade, que se acentua à noite. Então, uma espécie de círculo vicioso se forma.


Em contraponto a esse medo constante, algumas ações têm tornado os espaços públicos menos vazios no período noturno. Em Porto Alegre, por exemplo, no dia 1º de junho, um grupo de jovens experimentou trocar a cômoda companhia do computador e da televisão pela ocupação do Parque Farroupilha, mais conhecido como Parque da Redenção. Durante o dia, o local é palco de passeios de bicicleta, brincadeiras, caminhadas, malabares e tantas outras atividades. Porém, o abandono toma conta do parque quando o céu começa a escurecer. São raras as iluminações voltadas aos pedestres, por exemplo. Naquela noite de inverno, o ambiente que costumava ser escuro e vazio foi tomado por luzes, músicas e conversas de centenas de pessoas. Bastões fosforescentes, velas e adereços iluminaram o local por algumas horas e aqueceram aquela animada manifestação. A proposta foi chamar a atenção das autoridades para a falta de iluminação adequada. Se alguma atitude realmente será tomada por parte do governo, ainda não se sabe. A certeza é de que aquela noite devolveu às pessoas um espaço que nunca deveria ter deixado de ser delas. Tememos os monstros da escuridão, de maneira geral, porque nossos medos são universais. Eles mudam com as experiências, mas existem aqueles que são passados na carga de informações de nosso DNA. E quando não são devidamente superados na infância, os medos acompanham as pessoas em sua fase adulta na forma de fobias. Entretanto, o escuro também representa uma entrega a um potencial de novas imagens: o sono. Momento individual, solitário e intransferível. O que a mente cria a partir dos sonhos pode ser amedrontador, com pesadelos de angústia e terrores noturnos. Uma intensa falta de controle. Conforme a piscóloga Suzana, todos os maiores medos de infância moram no escuro. “O túnel do terror é escuro, a cova dos mortos-vivos é escura, o vampiro só vive na noite e transforma-se em pó durante o dia”, conta. Em uma pesquisa recente, realizada por Suzana com alunos de Ensino Médio e de Ensino Superior, ela coleciona algumas manias e hábitos cotidianos. É curioso descobrir que são inúmeras as manias relacionadas ao momento anterior ao mergulho no inconsciente. Por exemplo, algumas pessoas só dormem com determinado travesseiro; outras, quando totalmente cobertas;


algumas, somente se estiverem com o pé de fora; outras precisam de meias para conseguir dormir. Uma aluna afirmou que só dormia, quando criança, segurando o nariz de sua irmã. Conforme Suzana, isso pode apontar a necessidade de todos em sentir um certo grau de segurança ao se aproximar de um momento importante do dia, que inevitavelmente acontece no escuro. Sentir medo é humano e necessário, mas deixa de ser normal quando passa a ser desproporcional ao perigo que a situação oferece. Lidar com nossas assombrações é um delicado processo de aprendizagem.


Quem tem medo de escuro?