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ex-certos – Bibiana Veronica

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ex-certos – Bibiana Veronica

ex-certos extratos, passagens e fragmentos de vivências e momentos

Bibiana Veronica

1ª edição formato ebook 2012

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Li Leminski e borrei meu rímel. você consegue me amar assim mesmo? esparramada decapitada você consegue me amar? você consegue sobreviver a essa repetição? esparramada.

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pensamentos soltos indizĂ­veis desinteressantes particulares infinitos definidos pontuais voam voam voam se amontoam na cabeceira da cama esparramam pelo piso de madeira se fazem verbo voltam para dentro se limitam sufocam encolhem emudecem os sentidos dilaceram peitos dilaceram dilaceram

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não produzo à prestação, só a parcela

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você apareceu sem sentido algum naquele banheiro no meio da manhã. eu estava sozinha, não haveria de ser diferente. sempre a barba por fazer. roçou seu rosto no meu de leve, quase sem querer – como se o roçar de dois rostos em um banheiro pudesse ser sem querer.

senti meus sentidos se perderem no meio do seu hálito reticente. seus dedos na minha boca e sua mão arrebatando meus cabelos. fechei os olhos, mas quando os abri, estava sozinha contemplando o azulejo.

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respira inspira e ao expirar, não consegue conter o choro. -fraca. já pensou em apenas se deixar levar pelo vento, se deixar molhar pela chuva e esquecer de vez a gramática? eu tenho duvidas.

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sempre começo com um verbo. intransitivo, intransigente. só sei que acordei. depois daquela noite de sono que ninguém dormiu. tudo era transe. tudo queria virar solidão. é o que acontece nas noites de sono. que ninguém dorme. tudo está desmoronando. meu lábio rachando, cortado. a luz incandescendo meus olhos, incendiados. sem você tudo desmorona. sem você, tudo fica falso, opaco. sem você, não tem suspiro. sem você, as noites de sono somem, dá sono. me faz voltar aos erros, me (suspira!) corrói o estomago com uísque barato. tudo vira solidão, naquelas noites mal dormidas

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trovinha

sentimento não se explica, se lida não posso ver as palavras só senti-las.

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neblina

dava pra sentir nos ossos a névoa que encobria a estação. fazia tudo parecer tão triste, tão sombrio. como um bom fog. é assim tudo mesmo. enevoado, imerso na neblina. difícil de enxergar. tão denso que o banco, ali do lado, parece distante. sigo em pé, com dores nos joelhos por não enxergar ao redor. se ao menos eu tivesse o vento. se ao menos eu tivesse disposição. conseguiria fazer a neblina fugir de mim.

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doçura

a gente acabava nossas conversas com um "eu te amo". era uma coisa forte, saborosa, a gente acreditava. mesmo.

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e-mail (as cartas do tempo moderno) nada de novo. só que voltei a beber com a mesma freqüência anterior. um copo, dois. até cinco. uísque caro, é claro. comprei um livro em um bar. o transeunte ofereceu, custou dez reais. é do Heitor Cony. não sei quando vou ler. resolvi não me apaixonar por alguns meses, anos talvez. enjoei. como se enjoa de comer miojo todos os dias. o fardo tá pesando. meu fardo tá pesando. viu, larguei a mochila na porta da tua casa, para vc pegar quando voltar. são coisas suas. não quero mais. não quero vínculos. a mochila? fique com ela para você. presenteie quem precisa, se não quiser. ou jogue fora.

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tenho ouvido mais música. músicas que você não gosta. eu mudei. mudei e não sei se você vai gostar. acho que não vai. seu mundo era bem cômodo. seu mundo me era bonito mas era opaco. eu não conseguia brilhar junto. seu mundo ficou obsoleto pras minhas vontades. nada de novo. eu mudei, mas pra você sei que serei a mesma. nada de novo, mas meus cabelos estão mais curtos. estão de outra cor. meu coração está inerte. mas isso você já sabia. nada de novo, volte a sua rotina diária. não precisa retornar.

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cama/mesa/banho o cansaço toma conta do corpo inerte. o cabelo molhado destruindo o travesseiro de camomila.

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sem esquinas. sem chinela sem vergonha. um mundo de palpites pra dar. queria estar dormindo.

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estou fugindo dos seus rastros. e as vezes parece que estou fugindo de mim. tem tanto de mim na sua barba por fazer. um tanto de violência que você não conhece. estou fugindo de mim, ignorando meu instinto de sobrevivência. eu não preciso, eu quero. tanto tempo e não consigo deixar pra trás. a pomba me disse: o passado fica no passado. as cartas me disseram: o passado fica no passado. eu entendo: o passado não volta, o futuro não aconteceu. são apenas projeções. tanto tempo que não consigo deixar pra trás. estou fugindo de mim. e eu olho e digo que quero viver. dessa janela eu só vejo o parque. copas altas. a noite tem o barulho da noite. eu não preciso, eu quero. e não sei o que fazer com esse querer.

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eu já estava cansada de ter você em meus sonhos todos os dias, seja puxando meu cabelo, seja cuspindo na minha cara. já estava de saco cheio de ler e reler todas aquelas afirmações que vinham sorrateiras ao meu encontro, mas no final eram apenas enxurradas de palavras. estou olhando pra frente agora e não tenho medo de dar um passo para trás, se isso couber no que sinto. não tenho mais medo de pensar que você não merece cada suor. como a torneira pingando durante a noite que não me deixa dormir. assim como você chegou, você vai embora. eu sempre pensei que existia muito tempo entre nós, mas as palavras são torpes. não me dizem respeito, não me entregam nem me censuram. nada disso me pertence, meu mundo está repleto de reticências e o seu cheio de certezas. eu me alimento disso.

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home.sick

cada noite que passaria encaracolando meu cabelo com os dedos. eu sinto falta delas, mesmo elas nunca tendo existido.

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e então todas as músicas que quis compartilhar com você estou ouvindo sozinha. e então a voz que quis soltar pra você, me abraça no chuveiro. minha mão ficou estendida por tanto tempo e você estava olhando só pra baixo do buraco. eu sei como é. mas é pretensão dizer que entendo. a vida em preto e branco. nunca poderíamos nos encontrar se nossas vidas são em preto em branco. se eu não emano cor. se você não emana cor.

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as vezes a cabeça balança sem motivo, como se fosse desgrudar do pescoço e rolar pelo chão. e se rolar, quero olhar pra cima com desdém e dizer: tenta viver agora. porque você me subestima. me coloca à prova. a prova de puta merda. minha cabeça balança sem motivo e eu tenho muito medo que ela caia desse suporte imbecil que eu fiz pra ela. um cabelo preto que nunca será ruivo. um monte de baboseiras jogadas e enfurnadas nesse mundo de sinapses. eu te subestimo. te coloco a prova de merda, uma puta grosseria ainda está por vir.

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tenho medo mesmo, e essa é uma palavra recorrente. a falta de foco é um sentimento recorrente. a ansiedade não me permite. cada vez que a cabeça balança - eu desconheço o motivo - os gatos se colocam aos meus pés esperando pelo pior. rola a cabeça, guilhotina. tola cabeça, revolução.

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Sono.

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promessas Um dia ela acordou com aquela vontade imensa de se apaixonar novamente. e queria escolher a dedo. alguém que fosse especial (como se uma paixão por si só já não fosse sinônimo de especialidade). ah, mas como era tola. paixão assim, não acontece todo dia. ele veio tão devagar, sutilmente. Ela nem percebeu. como era boba. [...] O olhar nem foi fulminante. foi assim, de canto de olho, com a vodca na mão. [...] - promete que nunca mais vai me deixar? [...] E andando de bar em bar, um copo de pinga. talvez a paixão não tivesse sido tão boa assim.

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crash um tranco e jogou meu corpo para o outro lado. [i wish ...] tudo preso, entulhado. tudo alvoroçado. mesmo o que era doce. combinei de ser assim. combinei que não queria uma situação enfadonha, moribunda. um tranco e aquela situação se libertou do marasmo. estou acordada.

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causa "não sei se por ineficiencia. mas o que se tem na mão eventualmente se perde por simples descaso."

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seus erros, seus acertos isso era o que importava.

talvez nunca tivesse feito sentido. não pra nós.

meus erros e meus acertos, hoje, apenas me dizem respeito. eu nunca soube enfrentar a felicidade. nunca soube lidar com o sorriso. só com olhos injetados. com aquilo que era impreciso.

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com o que era incoerente. só e tão somente quando eu estava pensando em começos, você já via o final. perto ou longe. e me deixou aqui, sozinha. na plataforma. com um casaco seu na mão. e eu nem pude correr para devolver. a condução já havia saído. me deixou aqui, sozinha. sentada naqueles bancos especiais.

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sentindo aquela náusea já costumeira. só para fazer por merecer. o que você acha que é certo, menti. disse que não era importante e que poderia ir embora, não ia ligar. trataria de esquecer do seu cabelo fininho, que eu tanto reclamava, que eu não conseguia pegar. me escorria pelas mãos.

você me escorreu pelas mãos.

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foi buscar um maço de cigarros e nunca mais voltou. ou seria cerveja? não prestei atenção. deixei você cair no chão, não me preocupei em colar qualquer caco. se recompõe sozinho.

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sozinho. uma mãe relapsa que deixa o filho brincar perto da escada. menti. e não foi só para você.

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a ida pode ser pior que a despedida mais uma fase terminada, mais uma. ou interrompida. assim eu saio. não me ligue, não vou atender.

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Ainda Vazio

corri porque ele estava lá. sem se mover, só me olhando. só o olhar era impulsivo, eu tinha vontades. me dava vontades. então corri, com gosto, passadas largas. mas ele estava sempre atrás de mim. cansei de correr. um bafo quente no meu pescoço, o suficiente para minha perna tremer. para fazer meu mundo girar.

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ele enxerga em preto e branco como os cachorros que ficam perambulando pela praça esperando alguma migalha um afago

e nem consegue distinguir aquela pessoa em vermelho vibrante bem na sua frente daquela já amarelada pelo tempo

são todos iguais para ele.

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desencontro

você não estava presente. não sei quando esteve. um dia percebi que nunca soube quem você era. comida mal comida, noite mal dormida. os lençóis não lhe abraçavam a noite. desconfio obrigação. tanto tempo ali, dividindo a cama, o almoço, os carinhos, as contas.

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o dia hoje começou mais tarde que o habitual. uma hora mais tarde, já passa do meio dia e eu ainda estou deitada. não sei se chove, se faz calor ou se faz frio. nenhuma listinha para cumprir no dia. se eu ao menos conseguisse cumprir as anteriores.

abro as janelas e o calor não me envolve. a brisa não me refresca.

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estou parada e parece que nada me move. depois de uma hora percebo que meus óculos estão imundos, mas limpá-los não fará o mundo mais bonito.

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inverdades

Ele naquela casa. Casa toda amarela, chão de tacos. A conversa fluía sem preconceitos, sem reservas. Edgar Allan Poe, Dostoiévski, O Corvo, Kung Fu, Smirnoff, Absolut, Buchannan's, mentiras, verdades, sexo. E na conversa, aquele olhar malicioso, como quem quer despir. o horror, o medo, a varíola, peste, filhos, carros grandes e espaçosos, sexo. E no sofá, ele já tem a mão no cabelo dela. Ela sorri, daquele jeito que ele gosta, como se conhecessem há anos. Caso pensado, talvez. Beijou ele sem culpa, com aquele gosto de errado. De mentira maldita. Pegou no sono fácil, como a muito tempo não o fazia.

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rua do sumidouro s/n

cada dia uma piada nova. disse a mãe que precisava aprender a digitar direito, para tornar o trabalho mais ágil. queria que o trabalho sumisse por uns dias. assim como os amigos sumiram sem deixar pistas. o problema é que não sei precisar qual foi o dia em que me decepcionei com todos ao meu redor e resolvi enfrentar a loucura. bater a cabeça na parede nunca foi meu forte (embora a cada dia me sinta mais propensa a qualquer coisa).

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meu mundo

um passo em falso e eu caí. no esquecimento. um passo que não foi planejado, milimetricamente. eu cansei de sofrer as conseqüências dos meus atos. eu desisti desse mundo. eu desisti. e agora estou sozinha. neste mundo as palavras têm o significado que eu quero.

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preto e branco

nuvem

direito e esquerdo

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Era uma nuvem sentinela Aquela Que passava todos os dias De manhã, mesmo formato A vigiar Cada dia, todos iguais Todos postos de noite à mesa Sem realização alguma Uma nuvem sentinela Que certifica a mesmice Aquela De todos os dias de manhã Esperando pela coisa certa Aquela nuvem.

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mais do que nunca desconfio obrigação. mais do que comum não prestar atenção. dar ouvidos a seu umbigo apenas, fingir que se interessa. eu ouvia uma música todos os dias e você sempre perguntava de quem era. e eu não percebi essa distância. de quem é a responsabilidade? eu me sentia intensa mas não consigo determinar a verdade. apenas um caso comum de gente que não se encontra, gente que passa despercebida. e você não percebe.

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e você acha, você sente, você insiste. que tudo é amor. apenas sumiu estava lá, sentado na calçada, com o maço nas mãos e nenhum motivo. sem porquês, sem conseqüências ou causas. apenas sumiu. um dia ele perdeu a noção do tempo, nem sabe se bateu a cabeça ou se alucinou. apenas sumiu.

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medo tinha medo de aprender. medo de mostrar. medo de que tudo subisse bem alto na sua cabeça e tomasse conta de tudo. tinha medos. medos involuntários. e medos inconscientes. estava de saco cheio de não poder escolher. mas tinha um puta medo do porvir. estava de saco cheio. rasgou um saco de batatas e se enfiou dentro. o medo a paralisava.

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final

e a melhor solução de causa e efeito é você sendo o rei ou a rainha do meu mundo infinito do meu reino abstrato meu continente afastado.

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um livro sem agradecimentos é praticamente uma utopia. ele não existe sozinho. um mundo ao redor, o meu, o seu, fazem parte de todo esse trabalho. em especial quero agradecer ao bruno nobru, que diagramou, compilou, fez todo esse trabalho sofrido mas, disse ele, com muito gosto. uma pessoa antiga na minha vida, mas ao mesmo tempo tão desconhecida. e, claro, isso não é uma crítica, na verdade é um elogio, pois, mesmo distante, estava sempre presente. minha linda capa concebida com carinho (espero eu) pelo querido Roney Stones que, já na primeira prévia me apaixonei. e as essas pessoas especiais ao meu redor – e lá vai o clichè – que sabem que são. só isso.

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ex-certos, escritos por Bibiana Veronica entre 2007 a 2011 contato aliceloide@gmail.com www.bibianaveronica.blogspot.com.br

arte da capa por Roney Stones compilado e editado por bruno nobru

2012

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ex-certos

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ex-certos, Bibiana Veronica  

extratos, passagens e fragmentos de vivências e momentos | por Bibiana Veronica | 1ª edição formato ebook 2012

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