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OPINIAO

TRIBUNAINDEPENDENTE

MACEIÓ - SEXTA-FEIRA, 17 DE MARÇO DE 2017

Opinião

Calote na previdência

C

aso seja aprovada, a reforma da Previdência Social pode significar o fim do direito à aposentadoria para muitos brasileiros, segundo especialistas. O argumento do governo, ao propor a emenda à Constituição Federal, é cobrir o chamado déficit da Previdência, estimado em R$ 149 bilhões de acordo com o Ministério da Fazenda. No entanto, ao propor maior contribuição dos trabalhadores, a reforma proposta não leva em consideração os mais de R$ 426 bilhões que grandes empresas devem à Previdência Social, segundo dados da Procuradoria Geral Nacional da Fazenda (PGNF). Esse montante, que representa mais do que três vezes o valor do déficit, é a soma das contribuições descontadas dos salários dos trabalhadores e recolhidas pelas empresas, mas que não são repassadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Estimativa da PGNF aponta que 3% das empresas devedoras correspondem por mais de 63% da dívida previdenciária. Entre elas, grandes companhias, como o banco Bradesco, a indústria de alimentos JBS e a mineradora Vale. Somente a Vale tem dívida apurada pela PGNF em R$ 276 milhões, mas essa é apenas uma parte dos débitos da empresa com o Estado brasileiro. A Vale lidera a lista de maiores devedores inscritos na dívida ativa da União. São R$ 41,9 bilhões, segundo lista divulgada pelo Ministério da Fazenda em 2015. Desse total, no entanto, R$ 32,8 bilhões estão suspensos por decisão judicial e R$ 8,27 bilhões estão inscritos em programas de parcelamento de débitos. A reforma da Previdência representa um processo de extermínio da população mais pobre e não produtiva. O governo acredita que eles passam a ser uma despesa e querem tirar o peso das costas.

BETÂNIA PEREIRA Membro do Centro de Estudos Astronômicos de Alagoas (CEAAL).

Mulheres das estrelas

Nesse mês de março, em que se comemora o mês da mulher, gostaria de narrar a história de duas mulheres fabulosas. A primeira, uma filósofa neoplatônica que viveu em Alexandria no antigo Egito, e a segunda uma astrofísica brasileira. Ambas possuem histórias excepcionais, das quais podemos tirar vários ensinamentos. Comecemos por Hypatia de Alexandria, que viveu no Século IV d. C. Hypatia, filha de Theon, um matemático e diretor da Escola de Alexandria que a educou para que seguisse seus passos. E assim, Hypatia tornou-se mais tarde uma proeminente filosofa, matemática, médica e astrônoma. Dava aulas a alunos de todas as partes do mundo conhecido. Apesar de ser da aristocracia pagã, em suas aulas existiam alunos cristãos. Foi através de um desses alunos, Sinésio de Cirene, bispo cristão, que tomamos conhecimento de sua existência. Segundo Sócrates Escolástico, Hypatia era uma mulher de grandes virtudes. Sabe-se que, ao contrário de outras mulheres, tinha per-

missão para falar em assembleias. Havia em Alexandria um bispo cristão que desprezava Hypatia, seu nome era Cirilo. Nutria entre os seus fiéis um ódio a filósofa e tudo que ela representava. Agia assim, em parte, porque queria destruir todo o conhecimento pagão do qual Hypatia era a detentora maior e em parte pela influência que a mesma tinha em relação a Orestes, prefeito de Alexandria e seu rival no poder. Em um dia de março de 415 d. C., ao deixar a escola em sua carruagem, foi atacada por um grupo de seguidores de Cirilo, brutalmente puxada pelos cabelos e arrastada até uma igreja chamada Cesarión, teve sua carne arrancada por pedras de cerâmicas e depois de esquartejada, foram seus restos mortais queimados em uma pira. Para alguns, seu assassinato foi o marco do início da “idade das trevas” para a ciência, que durou quase mil anos. A outra mulher, da qual escreveremos, felizmente está viva e é a cientista brasileira de maior destaque na atuali-

dade. A astrofísica Duília F. de Mello, carioca de nascimento, sempre quis ser cientista, dona de uma enorme curiosidade, queria explicações sobre as perguntas que nos afligem desde os primórdios da humanidade, quais sejam: quem sou, porque estou aqui, etc. Hoje Duília ou a mulher das estrelas, como gosta de ser chamada, trabalha na Nasa (a agencia espacial norte-americana) e recentemente fez uma descoberta que pode nos levar a conhecer o início do Universo. Trata-se de uma supernova (a explosão de uma estrela). Em 2014 ela foi escolhida como uma das dez mulheres que mudaram o Brasil no ranking elaborado pela Barnard College, da Universidade de Columbia, nos EUA. Duília quer incentivar outras pessoas a serem cientistas, mantém uma página na Internet para difusão científica e até escreveu um livro infantil. Como se pode ver, as mulheres fazem muito mais coisas do que checar os preços nas prateleiras de um supermercado.

ANDRÉ MACHADO Diretor do Sindicato dos Bancários de Curitiba

Sem aposentadoria

RUBENS MÁRIO Professor e Administrador de empresas

Um grito da dependência Aconteceu na última quartafeira, a primeira, pretensa, grande, manifestação nacional em desfavor do governo Temer, ou, das suas descabidas reformas na previdência social. Foi um grito convocado pelas redes sociais na tentativa de evitar a consumação do crime mais brutal contra a sociedade brasileira, em todos os tempos. Sem o apoio das grandes redes de televisão, mormente, da rede globo, o evento, comparando -o com outros já presenciados no país, foi um fracasso. Infelizmente, a classe média, outrora, formada pelos estudantes secundaristas, e, universitários, que apenas estudavam, de verdade, juntos aos profissionais liberais, tinha um poder de luta avassalador! Lembro nos anos 60 e 70, do grêmio estudantil do Colégio Estadual de Alagoas, e da Uesa (União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas), com uma grande força política, temidos e respeitados pelo governo. Aos poucos, os governos, de forma ardilosa, trataram de minar essas forças, valendo-se de um planejamento estratégico muito bem arquitetado. Primeiro, comandou a continuada expulsão do homem, do campo, o que provocou o seu êxodo para as capitais, causando um criminoso inchaço populacional. O próximo passo da covarde embos-

cada, foi a destruição da poderosa e temida por eles, escola pública básica, que era o alicerce para os pobres adquirirem uma base sólida de conhecimentos e chegarem à Universidade federal. As famílias, outrora, organizadas e coesas, desestabilizaram-se! Citando como exemplo, a nossa pequenina Maceió, nos anos 70 éramos apenas 263 mil pessoas, hoje, já passamos de 1 milhão. Esse excedente populacional sobrevive nos grotões, à margem da sociedade, a mercê de esmolas, sem acesso a quaisquer tipos de direitos mentidos na nossa falsa Constituição Federal. Todos os governos à que fomos submetidos, principalmente, aqueles denunciados no intervalo temporal citado nesse texto, têm ou tiveram a consciência da importância da educação pública básica para o desenvolvimento de uma geração de seres humanos autônomos e independentes, capazes de manifestar suas ideologias. Logo, trataram de destruí-la. O que vimos nessa manifestação convocada pelas redes sociais - contundentemente usadas pelos mais pobres - contra uma das maiores crueldades da história, que vitimará uma geração inteira de trabalhadores e suas famílias, foi a participação de, apenas, cerca de 2% da população, da cidade, pas-

mem! Quando, aproximadamente, 92% de uma população ignora uma causa crucial para a sua sobrevivência social e humana, chegamos a uma conclusão óbvia e ululante, de que estamos perdidos! Os autores desse projeto de desgraça social, têm a certeza de que as suas atrocidades jamais serão repelidas pelo conjunto da sociedade, hoje, totalmente, despolitizada, e incapacitada pela falta de educação, de julgar quaisquer desmandos praticados por eles. Juntando-se a isso a impunidade oficial praticada pelos órgãos que compõem o nosso judiciário, formamos um Estado acéfalo, eivado de corrupção ativa e passiva! Exemplos de tudo isso, são os inúmeros processos de corrupção que tramitam durante dezenas de anos nos nossos tribunais superiores, e, nesses decursos, os réus se elegem e reelegem para cargos legislativos e executivos, numa verdadeira afronta à toda sociedade organizada. Infelizmente, acredito, que, de forma irreversível, estamos, totalmente, dependentes das grandes redes de televisão apoiadas pelos governos, que, diante da nossa oportuna ignorância, nos determinam quando devemos reclamar de alguma coisa. Esse foi apenas um grito da dependência!

Toda grande mentira é contada a partir de uma meia verdade. A meia verdade que o governo Temer (PMDB) usa para fazer propaganda da tal “Reforma da Previdência” é que os mais pobres, que ganham até um salário mínimo, cerca de 63% dos brasileiros, serão beneficiados porque contribuirão somente por 25 anos ao INSS para se aposentar. Será que isso é verdade? Pela nova regra, de fato, trabalhadores que receberão o piso poderão se aposentar com 25 anos de contribuição. Mas, com um único detalhe, somente se atingirem a idade mínima de 65 anos. Isso muda tudo. No mundo real, 44% dos brasileiros ocupados começaram a trabalhar antes mesmo dos 14 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A maioria destes, conclui apenas o ensino fundamental e trabalha em atividades desgastantes. Mesmo que a nova regra permita que possam contribuir por apenas 25

Presidente José Paulo Gabriel dos Santos

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anos, trabalharão, na prática, mais de 50 anos para ter direito a se aposentar. Veja como a nova regra é muito pior aos mais pobres: uma mulher que iniciou sua vida de trabalho antes dos 14 anos, por exemplo, tem condições de se aposentar nas regras atuais aos 46 anos, contribuindo por 30 anos ao INSS. Já pela nova proposta apresentada pelo governo terá que trabalhar 19 anos a mais. Isso mesmo, quase duas décadas a mais. Não há benefício nenhum nessa proposta. Alguém consegue imaginar o que representará 19 anos de trabalho a mais na vida de uma mulher que ganha um salário mínimo, em uma função penosa e ainda exercendo jornada dupla, tendo em vista o trabalho doméstico? O que será dessa mulher aos 60 anos, nesse mercado excludente com os mais velhos, se for demitida depois de idosa e não ter sua aposentadoria? Ou, caso consiga o milagre de continuar empregada, o

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que representará para a sua saúde ficar trabalhando até os 65 anos? A expectativa de vida na periferia de Curitiba, por exemplo, é de 69 anos, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de 2010. Essa média reduzirá consideravelmente caso essas pessoas tenham que trabalhar até a exaustão e depois de idosas. É desumano. Se aprovada essa reforma, os mais pobres não somente serão duramente prejudicados, como a maioria nem sequer viverá para se aposentar. Temer disse na última semana que apenas “quem ganha mais” está reclamando. Mas o povo não é bobo. A luta contra esse ataque ao direito à aposentadoria unifica os trabalhadores porque não há setor algum que sairá ileso, mesmo que o ilegítimo presidente diga o contrário. É justamente isso que assusta o governo e o Congresso.

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Edição número 2859 - 17 de março de 2017  

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