Page 15

TRIBUNAINDEPENDENTE

MACEIÓ - QUARTA-FEIRA, 11 DE JANEIRO DE 2017 DIVERSÃO&ARTE 1

Filme brasileiro sobre Tiradentes está na competição do Festival de Berlim O Brasil foi selecionado para participar da competição oficial do Festival de Berlim de 2017 com o filme “Joaquim”, de Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”), sobre o herói Tiradentes vivido no longa por Julio Machado. O Festival se realiza entre 9 e 19 de fevereiro. O filme aborda o período em que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, toma consciência dos problemas sociais ao seu redor e da exploração da Coroa Portuguesa. Líder da Inconfidência Mineira e primeiro mártir da Independência do Brasil, Tiradentes, nasceu em Minas Gerais em 1746. Paul Verhoeven, diretor de um dos filmes mais falados do ano, “Elle”, presidirá o júri do Festival.

Longa Animais Noturnos brinca com a mente humana e mostra o quanto a nossa imaginação pode e é traiçoeira

Vidas imaculadas

B

aseado no livro Tony & Susan (1993), de Austin Wright, Animais Noturnos traz Tom Ford na direção depois de sete anos desde a sua estreia em Direito de Amar (2009), ainda mais exigente esteticamente e com uma trama que percorre mais labirintos e, talvez por isso, mais difícil de ser amarrada e concluída, gerando a brusca quebra que pontua o final da fita, sem, contudo, roubar-lhe o mérito de ser um grande filme. Sabendo do trabalho mundialmente reconhecido de Ford como estilista e de sua mostra, com Direito de Amar, de que sabia dirigir um filme fora dos padrões superficiais hollywoodianos, o espectador embarca em Animais Noturnos com pelo menos três coisas em mente. Primeiro, que o filme será visualmente soberbo; segundo, que haverá um grande trabalho dramatúrgico, com muita exigência do diretor para com a representação de seu elenco; e terceiro, que haverá críticas e mostras da sociedade onde vivemos, destacando a solidão, o medo e as pressões sociais. Embalados em um filme com três camadas narrativas, fica claro que, desta vez, o diretor e roteirista não queria servir à linearidade. Aqui, ele mexe com a percepção de tempo e espaço narrativos diante do espectador. Amy Adams interpreta Susan, dona de uma galeria de arte onde tudo começa. A abertura do filme é um choque, em todos os sentidos, uma espécie de “tomem!” do diretor para a plateia, que entre pedaços de América, plumas, paetês e deslocamento de um tipo de personagem dos filmes adolescentes de Hollywood, nos faz vez beleza e bizarrice em uma alegoria incômoda, pintada em vermelho e acompanhada de uma excelente trilha enquanto os créditos surgem. A apresentação

artística foi criada pelo próprio diretor, que também negociou com outros pintores e escultores para que expusessem suas obras, de modo que não existe fake art na galeria de Susan, e tudo o que vemos, da sensação, interpretação, título e contexto em que essas obras aparecem, está relacionado com alguma coisa do filme. Mas isso só percebemos depois. Ao reconstruir ideais de beleza na tela, Ford nos dá uma dica sobre o atalho de irá tomar para retratar as ‘vidas imaculadas’ de seus personagens. Todos ali são belos, bem vestidos, ricos e cultos, ostentando uma boa vida, cheia de vitórias e alegrias, admirando o socialmente não convencional, feio, bizarro, transformando o que tanto criticam e rejeitam em arte. A superficialidade e o fingimento são senhas para entrarmos na vida da protagonista, cujos problemas de comunicação com o esposo e o fato de não conseguir dormir somam-se ao mistério de um manuscrito que recebe de seu ex-esposo, Edward (Jake Gyllenhaal), um livro chamado Animais Noturnos, dedicado a ela. Como absolutamente tudo no filme irá mudar a partir do momento em que Susan começar a ler o livro, podemos entender facilmente os cerca de 20 minutos anteriores como um prólogo, onde as apresentações do cenário e dos personagens são feitas, onde suas vidas são fotografadas de forma metálica, sem contraste, com música ao piano, montagem fluída e sem cortes secos, figurinos impecáveis e composição mais simples – embora elegante – de todos os planos. Não há pressa, mas não há pausa. Então o livro também se torna um personagem, um portal pelo qual o prólogo atravessa e dá em um ambiente que possui três linhas: o presente, onde seguimos acompanhando Susan, sua dificuldade de dormir (o ex-esposo Edward a apelidara

de “animal noturno” por isso), o atual esposo e todo o glamour para exibição; o passado, com as lembranças de Susan sobre o tempo em que passou ao lado de Edward; e a ficção dentro da ficção, o livro Animais Noturnos, que é um suspense psicológico, violento e amedrontador onde uma família é parada no meio de uma rodovia por um grupo de jovens criminosos e são psicologicamente atormentados por eles. Esse encontro noturno com a escória do Texas terá desdobramentos que farão evoluir a trama do livro e, no caminho inverso (notem a inteligência do roteiro), terá reflexos na nata de Los Angeles, afetando a percepção de Susan, trazendo lembranças – ou criando? –, deixando-a tensa, imersa em um estágio de medo e, principalmente, de culpa. No sentido mais simples de olhar para essas três camadas do roteiro, é fácil perceber que Animais Noturnos é um filme diferente de tudo o que vimos nas últimas décadas. Ele é inovador em termos de construção narrativa e bastante exigente quanto ao significado do que exibe. Depois que a ficção interna se estabelece, há um ritmo de montagem profundamente orgânico, tornando a linha de ação entre esses Universos uma das coisas mais interessantes de se ver, principalmente entre a trama do livro e o “mundo real” de Susan. Nessa passagem, o espectador também é brindado com contrastes fotográficos admiráveis de Seamus McGarvey, que vão desde tons térreos e amarelo do livro, emulando o western dos finais sem glória (Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia); o espaço urbano do passado, cheio de identidade visual despercebida, até que sejam utilizadas como parte de algo maior, truque que McGarvey já aplicara tão bem em Precisamos Falar Sobre o Kevin; e o presente que se torna

levemente mais escuro, marcado por sombras, azuis e com planos cada vez mais pessoais, focando em Susan e suas atividades como empresária, onde vemos traços de constante perturbação. Cenas de grande impacto estilístico, tanto na fotografia quanto na direção de arte, a exemplo da reunião em uma sala inteiramente preta e branca, ou a sala de Susan, com uma enorme parede vermelha em frente à mesa, são meios de deslocar a personagem para lugares saturados que não conseguem mudar o que ela está sentindo nem pelo exagero. Amy Adams está excelente no papel, sem gritos, gestos exagerados, explosões de humor e maneirismos teatrais. Quase impassível, ela interpreta uma mulher assustada, algoz no passado e agora vítima de uma vingança (ou estaria ela imaginando tudo isso?). Jake Gyllenhaal, que interpreta dois papéis em diferentes momentos de evolução dramática, é outra grande performance do filme, talvez sendo vítima da forma como o roteiro constrói sua parte final, mas não menos brilhante na maneira como assume a dor, mostrando para si mesmo que não era fraco ou covarde. o ambiente do livro, ainda temos duas ótimas presenças, a primeira, de Michael Shannon e a segunda, de Aaron Taylor-Johnson, no melhor papel de sua carreira. Todos esses também são animais, mas com características diferentes, adaptando-se de maneira mais fácil a situações moralmente questionáveis, o que indica o seu grau de selvageria e também o outro lado das interpretações que o título do filme nos sugere, a forma como tratamos e entendemos os personagens. O longo processo de preparação até a catarse nós dá uma falsa impressão daquilo que Tom Ford arquitetava para essas personas. O anticlímax não é desavisado, porém. Ele é milimetricamente proporcional ao grau de patetismo de Susan, mas derivando de uma torrente tão intensa de fatos, decepciona um pouco, assim como o desfecho de Tony (também Gyllenhaal) no livro, ou “o fim da linha” para o relacionamento da dupla no passado, o ponto mais frágil desses proto-epílogos. Ao mesmo tempo, imaginamos que outro cenário possível haveria para a luta contra o terror psicológico, contra as vontades alheias que controlam e ditam as vontades individuais (planos dos pais que não combinam com o projeto ou estilo de vida dos filhos), contra o desejo de mostrar, falar, produzir e ser visto e reconhecido. O mundo da farsa criadora e o triste e intragável mundo real, como nos é sugerido no início da obra, se mesclam e, em seguida, se repelem. Animais Noturnos é uma jornada por percepções, fases da vida, relacionamentos e sentimentos. O roteiro nos faz duvidar, alterar nossas opiniões sobre este ou aquele personagem, rever conceitos para poder julgar melhor uma ou outra situação. Tom Ford não está brincando de ser diretor. Ele está pavimentando, com muito sucesso, o seu caminho para o hall dos grandes de sua geração. Animais Noturnos é uma prova disso

Edição número 2814 - 11 de janeiro de 2017  

tribunaindependenteediçãodigitaltribunahoje

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you