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TRIBUNAINDEPENDENTE

MACEIÓ - TERÇA-FEIRA, 10 DE JANEIRO DE 2017 DIVERSÃO&ARTE 1

Surge a primeira música póstuma de David Bowie Há um ano, David Bowie nos presenteava com o enigmático disco ★, lançado de surpresa no dia de seu aniversário de 69 anos. A obra, saudada como seu melhor disco em décadas, foi decifrada dois dias depois, numa segunda, quando sua morte, que acontecera no domingo seguinte ao lançamento do disco, foi tornada pública. Exatamente um ano depois, surge online a primeira obra póstuma de David Bowie, um igualmente enigmático EP chamado de No Plan, com três músicas que ficaram de fora do último CD. Além da faixa-título, ainda há “Lazarus”, uma das faixas mais fortes de seu disco de despedida, e as canções inéditas “Killing A Little Time” e “When I Met You”. As quatro faixas fazem parte do musical “Lazarus”, peça que David Bowie escreveu e viu estrear em seu último ano de vida. São as últimas gravações que Bowie fez antes de morrer.

Quando todos os personagens são coadjuvantes

O

ponto de partida desta ficção científica é interessantíssimo. A bordo de uma espaçonave transportando seres humanos para a vida em outro planeta, um homem e uma mulher acordam no meio do percurso, e ainda têm 90 anos para viverem – e morrerem – durante o trajeto. Como duas pessoas podem ocupar as suas vidas inteiras isoladas da sociedade? De que maneira vão tentar interagir com a Terra? O que teria tornado nosso planeta menos interessante que outros do sistema solar? Quais pessoas têm condições de pagar por esta viagem, e o que buscam no novo destino? É uma pena que Passageiros não responda satisfatoriamente a nenhuma dessas perguntas. Para um filme com 120 minutos e apenas dois personagens em cena, é impressionante a dificuldade em desenvolver a psicologia de cada um deles. Sabemos que Jim (Chris Pratt) trabalha como mecânico, e Aurora (Jennifer Lawrence) como escritora. Não conhecemos muito bem os seus gostos, o seu passado,

a sua relação com a Terra e com amigos, familiares ou amantes. Por esta razão, fica difícil se identificar com eles e torcer pela resolução do problema. Quando Sandra Bullock ficava perdida no espaço em Gravidade, quando Baymax se distanciava numa outra dimensão em Operação Big Hero e quando Tom Hanks se separava do amigo Wilson em Náufrago, nós sofríamos por eles. Mas quando Jim parte sem rumo pelo espaço, a única preocupação é que a narrativa termine por falta de personagens. Os distribuidores deste projeto devem ter percebido a ausência de um grande conflito, lançando então a dúvida essencial sobre o motivo pelo qual teriam acordado tão cedo. Seria uma sabotagem proposital dos capitães da nave? Nada disso. O motivo é explicado desde o início, de modo banal, anticlimático. As perversas implicações éticas desta revelação são abandonadas em prol de uma fábula amorosa: um homem belo e gentil encontra uma moça bela e gentil e ambos se apaixonam, até porque não sobra muita coisa para fazer

Sci-fi romântico, o longa Passageiros não consegue desfazer a impressão de ser uma paródia de si mesmo

em 90 anos de clausura. A trama sugere que o amor é mais forte que a ética, e os fins justificam os meios. Se o aspecto humano é mal resolvido, pelo menos as imagens e a concepção futurista poderiam impressionar. No entanto, o imaginário tecnológico apresentado pelo diretor Morten Tyldum em Passageiros é bastante pobre: a função touch screen das telas é suficiente para conseguir de tudo, desde alimentos frescos até uma complexa cirurgia cardíaca. Ao mesmo tempo, um e-mail demora quinze anos para chegar à Terra, e uma árvore pode ser plantada no chão de aço de uma espaçonave a prova de meteoros. A concepção dos avanços humanos é tão desigual que levou alguns espectadores às gargalhadas durante a sessão exibida à imprensa. As cenas parecem ter sido concebidas individualmente, de acordo com a necessidade do momento: quando Jim e Aurora se encontram num impasse, o roteiro simplesmente introduz um terceiro ser humano, responsável por entregar uma informação valiosa antes de desaparecer. Mais acessório do

que isso, impossível. Por fim, o resultado revela um roteiro apressado, que necessitaria de mais tratamentos antes de chegar à tela, além de uma mistura mal resolvida de gêneros. Para um blockbuster de ficção científica, a narrativa é lenta e carente de tensão. Para um romance entre dois atores queridinhos de Hollywood, falta um real motivo para se atraírem, além da solidão, e uma resposta plausível à Síndrome de Estocolmo retratada na trama. Para uma comédia, falta o trabalho do tempo, a velocidade dos diálogos e das cenas. Para um drama, falta desenvolver as questões da sociedade ao redor, da correspondência com as pessoas na Terra, dos elementos de que Jim e Aurora abriram mão para esta viagem. Chris Pratt e Jennifer Lawrence se esforçam para tornar o projeto plausível – ela, especialmente, se sai muito bem – mas de nada adianta quando Tyldum está mais interessado em resolver questões de engenharia do que aprofundar o relacionamento entre os únicos dois seres humanos em cena.

Edição número 2813 - 10 de janeiro de 2017  

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