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ÓRGÃO MENSAL DE DIVULGAÇÃO ESPÍRITA - ARARAQUARA/SP - NOVEMBRO DE 2013 - ANO 1 - Nº 02 - 6000 EXEMPLARES - DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Cartas vivas Quando colocamos em prática os ensinamentos do Mestre Jesus, passamos a ser verdadeiras “cartas vivas”, errando cada vez menos e nos tornando cada vez mais cristãos.. Página 2

Perda de entes queridos

Educando o Espírito A educação deve ser trabalhada pelo lado moral, na arte de manejar o caráter.

O conhecimento da vida além túmulo colabora para que nossas emoções, em face da despedida do ser amado, sejam mais equilibradas. Página 3

“Bem-aventurados os mansos” Nossas atitudes, impensadas ou refletidas, determinam o rumo do nosso destino. Nesta vida ou além dela...

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Página 5

Dois critérios indispensáveis Apoiados, nos critérios do bom senso e do discernimento, não há o que temer... Página 8

Evoluir é a lei: sofrer é opção O sofrimento é inerente ao estado de imperfeição, mas atenua-se com o progresso e desaparece quando o Espírito vence a matéria. Página 9

O que caracteriza um estudo sério

Melindres O problema não está na contundência dos espinhos, mas em nossa suscetibilidade, que se exprime na facilidade em nos melindrarmos. Página 7

Em o Livro dos Espíritos, o codificador anunciou: “O que caracteriza um estudo sério é a continuidade”. Página 10

Extremos desastrosos O desapego aos bens terrenos consiste em saber servir-se deles em benefício dos outros e não apenas em benefício próprio. Página 11


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Araraquara, novembro de 2013

Cartas Vivas

Editorial Queridos amigos e irmãos de ideal. Foi com muita alegria que lançamos durante o Encontro Anual Cairbar Schutel 2013 o Jornal Tribuna Espírita. Na oportunidade, recebemos muitas manifestações de carinho, apoio, pessoas a nos dizer da alegria em conhecer e receber este periódico. Agradecemos a todos os e-mails, contatos, pessoas elogiando o conteúdo, a diagramação, a nos desejar sucesso. Manifestações que nos enchem de alegria, e são motivadoras para continuarmos esse trabalho tão gratificante. Em retribuição a todo este carinho, temos a grata satisfação de anunciar para esta segunda edição, o aumento de nossa tiragem, que passa a ser de 6 mil exemplares. E para que possamos melhorar ainda mais este periódico, pedimos a colaboração dos nossos amigos leitores, em nos enviar através do e-mail contato@tribunaespirita.org, suas sugestões, críticas construtivas, notícias das casas espíritas, pois todas as informações são importantes para continuidade deste trabalho. Agradecemos a todos por apoiarem esta iniciativa, e ao nosso PAI de infinita bondade, que abençoe a cada um de nós, com sua luz de fé, esperança e amor. Que JESUS nos abençoe agora e sempre. G.E.A.A – Grupo de Espíritas Anônimos de Araraquara

Quando colocamos em prática os ensinamentos do Mestre Jesus, passamos a ser verdadeiras “cartas vivas”, errando cada vez menos e nos tornando cada vez mais cristãos.

Cleber Dantas

cleberdantas@tribunaespirita.org

Ao reler o livro “Os Mensagei-

ros”, psicografado por Francisco Candido Xavier, pelo espírito de André Luiz editado pela FEB, no capítulo 3 diálogo entre Tobias e André Luiz chamou-me atenção os seguintes dizeres: “Preparam-se aqui numerosos companheiros para a difusão de esperanças e consolos, instruções e avisos, nos diversos setores da evolução planetária. Não me ref iro tão só a emissários invisíveis. Organizamos turmas compactas de aprendizes para a reencarnação. Médiuns e doutrinadores saem daqui às centenas, anualmente. Tarefeiros do conforto espiritual encaminham-se para os círculos carnais, em quantidade conside-

rável, habilitados pelo nosso centro de mensageiros. Saem milhares de mensageiros aptos para o serviço, mas são raros os que triunfam. Alguns conseguem execução parcial da tarefa, outros muitos fracassam de todo. Quando os mensageiros se esquecem do espírito missionário e da dedicação aos semelhantes, costumam transformar-se em instrumentos inúteis. Há médiuns e mediunidade, doutrinadores e doutrina, como existem a enxada e os trabalhadores. Pode a enxada ser excelente, mas se falta espírito de serviço no cultivador, o ganho da enxada será inevitavelmente a ferrugem. Assim acontece com as faculdades psíquicas e com os grandes conhecimentos. Não preparamos, pois, neste centro simples postalistas, mas espíritos que se transformem em cartas vivas de Jesus para a humanidade encarnada.” Todas essas informações chegaram até nós em 1944, com o decorrer de décadas ainda, vivenciamos tais falhas dentro de casas espíritas onde, dirigentes, doutrinadores e trabalhadores embutem nos ensinamentos Kardecistas seus “personalismos”, criando fiéis seguidores sem es-

tudo esclarecedor dos verdadeiros postulados da doutrina. Quando dizemos “cartas vivas de Jesus para a humanidade encarnada” não estamos dizendo que é exclusividade do espiritismo, Cairbar Schutel, no livro Parábolas e Ensinos de Jesus nos convoca a reforma íntima, verdadeiro mec anismo par a a evolução. Quando buscamos o melhoramento íntimo, colocamos em prática os ensinamentos do Mestre Jesus e assim passamos a ser verdadeiras “cartas vivas”, errando cada vez menos e nos tornando cada vez mais cristãos. r

Errata

Na edição de nº 01 de Setembro de 2013 ao ser transcrito o artigo - WALLACE LEAL VALENTIM RODRIGUES, por ERNESTO LIA, em um dos parágrafos, não foram digitadas as palavras que estão abaixo em negrito: Com relação às artes plásticas, eu estava rumo ao profissionalismo, quando Wallace, que já vinha se entusiasmando com o meu trabalho, manifestava insistentemente seu desejo de ser retratado por mim.


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Araraquara, novembro de 2013

Perda de entes queridos O conhecimento da vida além túmulo colabora para que nossas emoções, em face da despedida do ser amado, sejam mais equilibradas.

Wellington Balbo

wellingtonbalbo@tribunaespirita.org

Trabalhando há algum tem-

po no tema: perda de entes queridos, emociono-me com freqüência porque é algo que toca a alma a partida de um ser amado sensibilizando a todos. Diante disso, dessa dor democrática que não libera ricos e pobres, brasileiros ou americanos, reflito na importância da serenidade... Vejo as pessoas pedindo saúde, paz, harmonia. Claro, todos queremos saúde, paz e harmonia, mas, na minha maneira de ver a vida, considero a serenidade como a conquista mais abençoada da criatura. A conquista da serenidade vale mais, isso em minha opinião, do que uma Copa do Mundo ou qualquer outro tesouro da Terra. Com serenidade transitamos por todas as estradas deste mundo sem perdermos o rumo, o norte de onde devemos chegar. Entretanto, voltando ao tema perda de entes queridos, quero trocar a palavra perda por partida, porque não perdemos ninguém, pode ser? Então vamos lá: partida de entes queridos, voltando a este tema, em O livro dos Espíritos Kardec aborda de forma muito serena a

questão e faz vários comentários. Em um dos comentários ele diz que devemos felicitar o ser que partiu porquanto se libertou de uma prisão, e que lamentar sua partida é mais egoísmo do que afeição. Muito natural que entendamos e felicitemos o ser que partiu por causa de doença de longo curso. Óbvio, livrou-se do peso do corpo disforme. Mas e a criança ou o jovem cheio de vida que vão embora de forma abrupta? Como felicitar-lhes? Ainda em O livro dos Espíritos Kardec faz interessante comparação. Diz o codificador que ao suportarmos as provações da vida com coragem ao deixarmos a prisão terrena iremos

O problema é, segundo os Espíritos, a dor incessante e com revolta. Esta dor com traços de indignação quanto aos desígnios superiores é que afeta profundamente os que partiram. Eles – os seres que se foram antes de nós – são sensíveis aos nossos pensamentos e sentimentos. Imagine como ficará uma mãe ao verificar que seu filho, após seu desenlace, perdeu a vontade de viver. Certamente que o sofrimento do filho a deixará acabrunhada, de baixo astral... Os Espíritos vão além e informam que esta dor indignada pode representar, quem sabe, obstáculo ao reencontro. Alguém poderá dizer: Mas como controlar as emoções?

ficar felizes com nosso comportamento, semelhante a um doente que se cura após tratamento de dolorosa moléstia. Muito interessante a forma de abordar o tema de Allan Kardec. Ele tem essa capacidade de ilustrar as questões para ficar de fácil assimilação. Claro que ficaremos tristes, abatidos pela partida do ente amado, até ai tudo normal. Qual o problema?

O conhecimento da vida além túmulo colabora para que nossas emoções, em face da despedida do ser amado, sejam mais equilibradas. É possível comunicar-se com os que partiram, afinal, eles não desapareceram no espaço, não viraram pó, apenas mudaram de residência. Este fato já é um alívio e ajuda a serenar os ânimos. Há, entretanto, os que dizem ser profanação evocar os que já foram.

E os Espíritos ensinam novamente que não pode haver profanação quando há recolhimento e sentimento sincero. Claro, podemos comunicar-nos com os que nos precederam na grande viagem. Outro ponto a ser abordado é: compreender que não podemos tudo nesta vida. Há coisas que não conseguimos controlar, que escapam a nossa vontade. Ai entra a resignação e a serenidade - olha ela ai de novo - para suportarmos com bravura e coragem as provas desta existência. Pode tombar o mundo, mas a serenidade nos manterá em pé. E como conquistar a serenidade? Ora, como se conquista todas as outras virtudes, ou seja, treinando para adquiri-la, trabalhando a intimidade, conhecendo-se, e estudando as leis que regem a vida. Quando temos a consciência de que Deus fez tudo certo e as coisas criadas por ELE estão em seu devido lugar é mais fácil comportar-se de forma equilibrada e esperar, claro, o momento do reencontro com os que partiram. Quanto mais pacientes e serenos formos, mais feliz será esse reencontro que, diga-se de passagem, por bondade divina pode ocorrer nos momentos de sono do corpo físico, quando parcialmente libertos da máquina orgânica passearemos pelos jardins de Deus... Com fé e esperança no futuro, quem sabe nesses passeios encontramos nossos amores que já tomaram o ônibus de regresso ao mundo espiritual... Vale a pena pensar nisso... r


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Araraquara, novembro de 2013

Educando o Espírito A educação deve ser trabalhada pelo lado moral, na arte de manejar o caráter.

Marcus De Mario

marcusdemario@tribunaespirita.org

A Doutrina Espírita considera

que “só a educação poderá reformar os homens”, conforme a resposta dos Espíritos Superiores à pergunta de Allan Kardec, na questão 796 de O Livro dos Espíritos. E compreende que a educação não pode ser encarada apenas pelo seu lado instrucional, ou ilustração do intelecto, mas deve ser trabalhada pelo lado moral, na arte de manejar o caráter. O pensamento espírita é transformador tanto da filosofia da educação, quanto da práxis educacional. De sua filosofia imortalista da alma e divindade da vida, surge naturalmente uma pedagogia transcendente que leva em conta não apenas o existir terreno, mas o antes e o depois desse existir. Isso promove uma educação, ou seja, uma metodologia e uma didática que visa o crescimento potencial do homem rumo à perfeição, procurando equilibrar a inteligência com o sentimento, na realização não só do aprendizado das ciências, da leitura e da escrita, ou seja, não só na conquista dos saberes, mas igualmente no desenvolvimento do senso moral.

A educação do espírito Além de considerar a educação moral como legítima formadora do homem, o Espiritismo ainda vai mais além ao quebrar o materialismo com a comprovação da imortalidade da alma, lançando as bases da educação do espírito. Por esses motivos é que o Espiritismo, lançando seu olhar sobre as escolas, preconiza uma nova metodologia educacional em três pontos principais: 1 - Educação com amor – porque o amor deve ser a base de todo ensino, de toda aprendizagem, de

A conjugação de todos esses princípios na educação moral é o único caminho capaz de colocar o homem nos trilhos da bondade, reformando as instituições sociais, hoje tão atreladas ao egoísmo que deita raízes nos corações. Enquanto a família e a escola não entenderem a profundidade da educação moral, continuaremos no desfile dos desregramentos que temos assistido, quando, se aplicada, a educação moral estabelece a desejada felicidade, por formar homens de bem, objetivo do próprio Espiritismo. A reforma da filosofia

todo exemplo. O amor é a base, é a essência da educação. 2 - Educação com exemplo – porque as palavras podem até convencer, mas somente os exemplos arrastam, somente os exemplos têm força para provocar verdadeiras transformações. 3 - Educação com experiência própria – porque virtudes e valores não podem ser aprendidas somente pela teoria, devem ser praticadas.

que rege o sistema educacional vigente, com a absorção da educação moral, levará os currículos e métodos escolares ao verdadeiro fim superior da formação, e não da instrução. Formação do caráter através da aquisição de hábitos sadios de vivência com Deus, com o próximo e consigo mesmo, na prática do bem e do amor. Uma escola que executa seu trabalho baseada na educação

moral é legítima extensão, complemento mesmo da família, tornando-se um lar que abriga consciências reencarnadas reclamando diretriz segura para o uso da inteligência e o desabrochar das qualidades do sentimento. O Espiritismo, pois, fundamenta e indica a educação moral para renovação do ser humano e estabelecimento da era do espírito. Advertência sobre o futuro Não se pode negar a vasta e profunda contribuição que o Espiritismo oferece à educação, mas precisamos estar atentos para a advertência de Léon Denis, realizada no livro O Mundo Invisível e a Guerra: “É necessário que uma grande cor rente idealista e um poderoso sopro moral varram as sombras, as dúvidas, as incertezas que ainda existem sobre muitas inteligências e consciências, a f im de que a luz das verdades eternas aclare os cérebros, aqueça os corações, levando conforto aos que sofrem. A educação do povo precisa ser totalmente modif icada, para que todos possam ter a noção dos deveres sociais, o sentimento das responsabilidades individuais e coletivas e, principalmente, o conhecimento do objetivo real da vida, que é o progresso, o aperfeiçoamento da alma, o aumento de suas riquezas íntimas e ocultas.” Essa advertência foi escrita durante o período de 1914-1918, quando da primeira grande guerra mundial e mostra-se ainda bastante atual, ou seja, o tempo não foi ainda suficiente para despertarmos e colocarmos a filosofia espírita em plena realização na vida. Por que esperar mais tempo? r


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Araraquara, novembro de 2013

“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” – Mateus 5:5 Nossas atitudes, impensadas ou refletidas, determinam o rumo do nosso destino. Nesta vida ou além dela...

Sidney Francese Fernandes sidney@tribunaespirita.org

“-Quero processá-lo! Por ofensas morais, perdas e danos!” Quem havia irrompido a porta do conceituado escritório de advocacia fora Wagner, o popular “dinamite”.

Dr. Garcia bem conhecia a origem do apelido. Devia-se ao explosivo comportamento do seu cliente. Não era má pessoa. Mas, que não fosse contrariado... Dr. Garcia também conhecia a parte contrária. Wagner estava furioso com o mecânico Pradão, que também não era um exemplo de docilidade e cortesia. “-Você tem razão, Wagner! Vamos processar o Pradão. Tragame seus documentos e amanhã entrarei com a petição. Mas, antes quero um favor seu!” – Solicitou Dr. Garcia. “-Não me venha com suas conversas Dr. Garcia. Você está querendo-me enrolar. - Você vai

ou não vai processar o Pradão?” – Perguntou Wagner. “-Sim! – Respondeu Dr. Garcia. “-Mas, antes você vai-me prometer uma coisa.” “-O quê?” – Respondeu “dinamite”. “-Vá até o Pradão e diga o seguinte:” “-Pradão. Fui grosso com você. Desculpe-me! Mas, só me responda uma coisa: Você vai ou não vai consertar o meu carro?” “-Mas, Dr. Garcia. O Pradão não fez o serviço direito e eu ainda tenho que lhe pedir desculpas?” “-É a minha condição para aceitar o seu caso, Wagner. - Depois disso volte aqui. Se o Pradão mes-

mo assim recusar-se a indenizá-lo, eu o processarei.” O velho “dinamite” teve que manter seu estopim apagado. E, segundo posterior narrativa do próprio Pradão, Wagner fez tudo direitinho. “-Ele quebrou minhas pernas, doutor. Nunca pensei que ele aparecesse para me pedir desculpas! - Minha resposta foi: Claro que sim “dinamite”! Fique sossegado. Suas peças já foram até compradas. Talvez as outras estivessem com defeito. Mas, agora tudo vai dar certo!” Mais tarde Wagner volta ao escritório do Dr. Garcia: “-Mas, você é malandro mesmo, hein doutor? – Você já sabia que o Pradão iria consertar o meu carro!” “-Não sabia – afirmou Garcia. Pradão só reconsiderou por causa da sua atitude. Você, Wagner, consertou a situação.” Abraçaram-se e riram às escâncaras. --------------------------------Mansuetude não significa fraqueza. Nem autoritarismo representa superioridade. Quando conseguimos entender a essência da mensagem evangélica e temos coragem para aplicá-la em nosso dia a dia, controlando nossas tendências agressivas, a vida fica menos complicada. Essa “coragem evangélica” conserta situações, apazigua ânimos e reconstrói relações. A partir daí sim, habilitamo-nos à divina seleção dos que efetivamente herdarão a terra. Nossas atitudes, impensadas ou refletidas, determinarão o rumo do nosso destino. Nesta vida ou além dela... r


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Estudando Kardec Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada pôde fazer alguma coisa. PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS

1. Que é Deus?

“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.” 2. Que se deve entender por infinito? “O que não tem começo nem fim: o desconhecido; tudo o que é desconhecido é infinito.” 3. Poder-se-ia dizer que Deus é o infinito? “Definição incompleta. Pobreza da linguagem humana, insuficiente para definir o que está acima da linguagem dos homens.” Deus é infinito em suas perfeições, mas o infinito é uma abstração. Dizer que Deus é o infinito é tomar o atributo de uma coisa pela coisa mesma, é definir uma coisa que não está conhecida por uma outra que não o está mais do que a primeira.

4. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? “Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.” Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O Universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada pôde fazer alguma coisa. 5. Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem em si, da existência de Deus? “A de que Deus existe; pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma base? É ainda uma conseqüência do princípio — não há efeito sem causa.” 6. O sentimento íntimo que temos da existência de Deus não poderia ser fruto da educação, resultado de idéias adquiridas? “Se assim fosse, por que existiria nos vossos selvagens esse sentimento?”

Se o sentimento da existência de um ser supremo fosse tão somente produto de um ensino, não seria universal e não existiria senão nos que houvessem podido receber esse ensino, conforme se dá com as noções científicas. 7. Poder-se-ia achar nas propriedades íntimas da matéria a causa primária da formação das coisas? “Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades? É indispensável sempre uma causa primária.” Atribuir a formação primária das coisas às propriedades íntimas da matéria seria tomar o efeito pela causa, porquanto essas propriedades são, também elas, um efeito que há de ter uma causa. 8. Que se deve pensar da opinião dos que atribuem a formação primária a uma combinação fortuita da matéria, ou, por outra, ao acaso? “Outro absurdo! Que homem de bom-senso pode considerar o acaso um ser inteligente? E, demais, que é o acaso? Nada.” A harmonia existente no mecanismo do Universo patenteia combinações e desígnios determinados e, por isso mesmo, revela um poder inteligente. Atribuir a formação primária ao acaso é insensatez, pois que o acaso é cego e não pode pro-

duzir os efeitos que a inteligência produz. Um acaso inteligente já não seria acaso. 9. Em que é que, na causa primária, se revela uma inteligência suprema e superior a todas as inteligências? “Tendes um provérbio que diz: Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a obra e procurai o autor. O orgulho é que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada admite acima de si. Por isso é que ele se denomina a si mesmo de espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!” Do poder de uma inteligência se julga pelas suas obras. Não podendo nenhum ser humano criar o que a Natureza produz, a causa primária é, conseguintemente, uma inteligência superior à Humanidade. Quaisquer que sejam os prodígios que a inteligência humana tenha operado, ela própria tem uma causa e, quanto maior for o que opere, tanto maior há de ser a causa primária. Aquela inteligência superior é que é a causa primária de todas as coisas, seja qual for o nome que lhe deem. r Extraído de O Livro dos Espíritos - Tradução Dr. Guillon Ribeiro – Editado pela Federação Espírita Brasileira.


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Melindres O problema não está na contundência dos espinhos, mas em nossa suscetibilidade, que se exprime na facilidade em nos melindrarmos.

Richard Simonetti

richardsimonetti@tribunaespirita.org

Indagado sobre problemas

de relacionamento humano, disse Chico Xavier: Existem pessoas que se sentem ofendidas, magoadas por qualquer coisa: à mais leve contrariedade, se sentem humilhadas... Ora, nós não viemos a este mundo para nos banhar em águas de rosas... Somos Espíritos altamente endividados - dentro de nós o passado ainda fala mais alto... Não podemos ser tão suscetíveis assim... Com a sabedoria de sempre, há todo um tratado de bem viver em suas singelas expressões. Muitos problemas seriam evitados se as pessoas se dessem ao trabalho de cogitar dos objetivos da existência. Não somos fruto do acaso, a partir do encontro de um óvulo com espermatozoide vencedor.

Vivíamos antes do berço. Viveremos após o túmulo. Transitamos pela Terra pilotando o corpo, máquina frágil que precisa ser alimentada e cuidada. A todo momento apresenta desajustes e dores que exigem cuidados e, não raro, nos oprimem. E convivemos com pessoas que guardam limitações semelhantes, sob a regência do egoísmo, esse vilão das almas, a sustentar as dores e confusões do Mundo. *** Estimaríamos, no relacionamento humano, banhar-nos em rosas, guardando inefável tranquilidade e inalterável bem-estar. Ocorre que isso nunca acontece em plenitude, porquanto há sempre espinhos que nos ferem a sensibilidade, impostos pela convivência com desafetos da Terra e do Além. O problema, amigo leitor, não está na contundência dos espinhos, mas, como afirma Chico, em nossa suscetibilidade, que se exprime na facilidade em nos melindrarmos. É como uma alergia. Há pessoas que podem comer quilos de queijo, sem problema algum. Outras ficam com o rosto deformado pelo inchaço, ingerindo mínima porção. O melindre é a alergia da alma.

Um mínimo de contrariedade e eis o estrago feito, promovendo transtornos em nosso ânimo. Para vencer a alergia física há uma terapia de dessensibilização, com o suporte medicamentoso a ser aplicado com critério e perseverança. Para vencer a alergia espiritual, que tanto nos perturba e aborrece, é preciso arejar a alma, com o exercício perseverante da humildade. Alguém alegará: – Como pode ser a humildade o remédio para o melindre se é justamente por sermos humilhados que nos sentimos melindrados? Quem assim questiona está confundindo humildade com humilhação. A humilhação é a sensação de rebaixamento, de discriminação. Julgamos que alguém nos boicotou, diminuiu ou menosprezou… A humildade é a consciência de nossas próprias limitações, que nos induz a não nos julgarmos melhor do que ninguém. É simples entender. Se sou humilde, nunca me sentirei humilhado. Se me sinto humilhado, humilde não sou. ***

Proclama Jesus (Lucas, 17:21): …o Reino de Deus está dentro de vós. Isso significa que entrar no Reino é realizá-lo em nossa própria consciência, em inefável tranquilidade interior. Jesus nos indica como fazê-lo, em O Sermão da Montanha (Mateus, 5:3): Bem-aventurados os humildes, porque deles é o Reino de Deus. Olhe aí, amigo leitor, mais uma vez a humildade! É muito mais do que um remédio para a alergia da Alma! É o passaporte para estados de beatitude na consciência, o Reino em nós, sem as escuras nuvens de indesejável suscetibilidade. r


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Dois critérios indispensáveis Apoiados, nos critérios do bom senso e do discernimento, não há o que temer...

Orson Peter Carrara orson@tribunaespirita.org

Sabemos todos, pelo estudo

da Escala Espírita, apresentada por Kardec em O Livro dos Espíritos (questão 100), que os espíritos pertencem a diferentes estágios de moralidade e intelecto, estágios estes alcançados pelo próprio esforço e pela força do progresso que é lei para todos. O entendimento prévio da importante classificação apresentada pelo Codifi cador evita possíveis decepções quanto às manifestações, fenômenos e pseudo-orientações apresentadas no intercâmbio com os encarnados. Uma vez sabedores dessas diferenças, estaremos prevenidos contra tentativas de mistificação e fraude por eles arquitetadas. E igualmente estaremos portando um bom nível de discernimento na recepção de orientações que surjam através de médiuns. Na Revista Espírita, de julho de 1859, no P ronunciamento do Encerramento do ano social 1858-1859, feito por Kardec na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, dentre os vários assuntos focados, destacamos trecho de máxima importância para

nossas reflexões: “(...) saibam, pois, que tomamos toda opinião manifestada por um Espírito por uma opinião individual; que não a aceitamos senão depois de tê-la submetido ao controle da lógica e dos meios de investigação que a própria ciência espírita nos fornece, meios que todos vós conheceis. (...)”. Obser vemos a curiosa observação de Kardec: “controle da lógica e dos meios de investigação que a própria ciência espír ita nos fornece ”. A lógica sugere e solicita que tudo que venhamos receber dos espíritos, por via mediúnica, seja submetido à avaliação do raciocínio, do bom senso. Se fugir disso, que seja rejeitado.E claro que isso também vale para o que venha dos encarnados. Como or ienta Erasto: “(...) Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos velhos provérbios. Não admitais, portanto, senão o que seja, aos vossos olhos, de manifesta evidência. Desde que uma opinião nova venha a ser expendida, por pouco que vos pareça duvidosa, fazei-a passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e o bom-senso reprovarem. Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea. (...) (capítulo XX, item 230 de O Livro dos Médiuns). Sob o ponto de vista da investigação, eis aí um critério que qualquer estudioso espírita pode efetuar com tranquilidade: basta observar atentamente o que

ocorre à nossa volta ou venha dos espíritos. A investigação, sugerida pela Ciência Espírita, é exatamente submeter todos os fenômenos e ocorrências mediúnicas (e até mesmo anímicas, acrescentamos) ao critério dos fundamentos e princípios apresentados pelo Espiritismo. Estão coerentes? Ferem os fundamentos doutrinários? Sem esquecer que, simultaneamente, podemos também efetuar pesquisa, através

de anotações, acompanhamentos e métodos de experimentação. Apoiados, pois, nos critérios do bom senso e do discernimento, não há o que temer, desde que nos desarmemos da negação simplesmente por negação, das implicâncias e preferências de ordem pessoal e nos coloquemos no neutro terreno de quem quer conhecer e aprender, descobrir e investigar pelo prazer de aprimorar o conhecimento. r


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Evoluir é a lei: sofrer é opção O sofrimento é inerente ao estado de imperfeição, mas atenua-se com o progresso e desaparece quando o Espírito vence a matéria.

As adversidades da vida não podem ser consideradas maiores que as oportunidades. Sim, por que

perdoar, entender, tolerar, enfim, nos esforçarmos ao máximo para nos aproximarmos da vivência dos ensinamentos de Jesus. Na questão 132 de “O Livro dos Espíritos”, obra básica da codificação espírita, os espíritos disseram a Allan Kardec, que a encarnação é nos dada com a finalidade de alcançarmos a perfeição. Para uns, é expiação, para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm os indivíduos de sofrer todas as vicissitudes da existência corporal. Na questão 133-a, ensinam que as aflições da vida são, muitas vezes, a consequência da imperfeição do

mas atenua-se com o progresso e desaparece quando o Espírito vence a matéria. O sofrimento é um meio poderoso de educação para as almas, pois desenvolve a sensibilidade, que já é por si mesma, uma conquista do ser imortal que somos. Sob suas múltiplas formas, é o remédio supremo para as imperfeições e as enfermidades da alma. Da mesma forma que as doenças orgânicas são o resultado de nossos excessos, como a gula, por exemplo, as experiências morais que nos atingem são resultantes do orgulho e do egoísmo, as duas chagas da humanidade. Cedo ou

dendo que as supostas adversidades desaparecerão na medida em que as enfrentarmos com altivez, sem lamentações e com sabedoria, pois Deus, que é Amor, não nos criou para o sofrimento, mas sim para a felicidade. No livro Um modo de entender – uma nova forma de viver, de Francisco do Espírito Santo Neto, ditado por Hammed, encontramos uma belíssima mensagem, lição 12, com o título “Sofrimento”, que exemplifica bem as considerações que estamos fazendo quando diz: “Eu não sou sofredor. Eu estou sofredor”. Ser e estar são angulações diferenciadas

se as entendermos como motivos de crescimento espiritual deixam de ser problemas e passam a ser soluções. Muitas vezes questionamos a justiça Divina quando nos sentimos prejudicados nos nossos interesses, pessoais esquecendo que tudo que nos acontece tem um fim útil e providencial. Estamos neste mundo com objetivos estabelecidos pelo Criador de atingirmos a condição de sermos criaturas capazes de amar, servir,

Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Assim sendo, se sofremos não é porque Deus nos abandonou, mas sim por termos nos afastado do caminho do bem, único capaz de nos levar à felicidade. Não devemos pois acusar Deus ou lamentarmos diante da dor, pois ela é fruto das nossas ações equivocadas e devemos aceitá-la com resignação. O sofrimento é inerente ao estado de imperfeição,

tarde, essas faltas recaem sobre nós como verdadeiras lições a serem aprendidas a fim de não retornarmos aos mesmos erros. Quando nos preocuparmos mais com a nossa espiritualidade do que com a materialidade, certamente nos aproximaremos mais da perfectibilidade a que estamos destinados, sendo mais felizes, ainda que vicissitudes, ou seja, alterações ou instabilidades surjam em nossos caminhos, compreen-

que influenciam sobremaneira o psiquismo na estrutura da alma em evolução. Sofrer é, portanto, um sintoma que indica que a causa sou eu mesmo, por isso devo renovar-me… Renovar é a meta. “Você é arquiteto do seu destino.” Buscar em nós mesmos as forças para esta renovação é o desafio a ser vencido. Condições e capacidades para tal todos nós possuímos. Fazer a opção certa só depende da nossa vontade! r

Valentim Fernandes

valentim@tribunaespirita.org


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Araraquara, novembro de 2013

O que caracteriza um estudo sério Em O Livro dos Espíritos, o codificador anunciou: “O que caracteriza um estudo sério é a continuidade”.

Cláudio Bueno da Silva

claudiobueno@tribunaespirita.org

Parece óbvio dizer-se que os espíritas precisam estudar sempre. Mas essa recomendação é necessária, pois o conteúdo espírita é muito amplo e rico e demanda tempo para ser compreendido. Além disso, novas pessoas adentram o centro espírita a cada dia e muitas delas irão se tornar, mais cedo ou mais tarde, colaboradoras e até dirigentes do mesmo, devendo assumir com conhecimento de causa suas responsabilidades perante a doutrina. Estudando a teoria estarão se preparando para a boa prática.

Ainda que Allan Kardec não tivesse alertado sobre a questão do estudo constante para os espíritas, o bom senso por si só, lhes teria indicado a necessidade dele para o conhecimento da doutrina. Mas o fato é que Kardec alertou sim e, logo na Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, de O Livro dos Espíritos, o codificador anunciou: “O que caracteriza um estudo sério é a continuidade”. E todos nós espíritas sabemos o quanto é sério o Espiritismo. Quem não conhece ou conhece pouco a doutrina, não deverá assumir responsabilidades para as quais não está apto, pois corre o risco de transmitir conceitos e ideias pessoais, ou até exóticas, apanhadas alhures, como sendo Espiritismo. Há muitas tarefas na casa espírita e não faltará serviço ao bom trabalhador enquanto se prepara doutrinariamente.

Por isso a recomendação do estudo feita pelos órgãos coordenadores do mo vimento aos dirigentes é importante no sentido de que não deixem de estimular essa prática, principalmente no que se refere aos livros de Allan Kardec, o codificador, como forma de se conhecer bem o Espiritismo.

o aprendizado é mais produtivo e mais fiel aos princípios doutrinários e, tanto frequentadores quanto trabalhadores aprimoram seus recursos pessoais e ampliam as boas condições de atendimento aos que procuram a instituição. Criando essa oportunidade para todos no centro espírita, o dirigente consciente das suas

Para tanto, a melhor forma de se alcançar esse objetivo são os cursos. A experiência tem demonstrado que quando se estuda em grupo, dentro da casa espírita, através de cursos regulares sobre Espiritismo,

funções, estará ajudando na propagação correta da Doutrina Espírita e ao mesmo tempo, colaborando para que a instituição atenda a sua finalidade de instruir e consolar pessoas. r

Evangelização de bebês Veja a gravação de uma ofi-

cina de Evangelização de bebês até dois meses de idade. Ela ocorreu em Araraquara-SP durante a 3a. edição do Encontro Cairbar Schutel, promovido pelo Instituto Cairbar Schutel. Pesquise pelo google, na internet, da seguinte forma: EAC 2013 - Cintia Vieira - Evange-

lizando Bebês - (são 5 partes de alguns minutos cada). Cíntia V ieira Soares, de Goiania-GO, autora do livro com o mesmo nome, conduziu a oficina com grande êxito e comoveu o público com a atenção que despertou nos bebês. Cíntia é graduada em Música, mestre em Educação (ambas pela UFG – Universidade Fe-

deral de Goiás) e diretora da escola “Música e Bebê” na mesma cidade. Integra a equipe da FEEGO (Federação Espírita do Estado de Goiás). Sugerimos baixar os vídeos e exibir para educadores espíritas. Ideal que os pais estejam presentes. Acesse também: www.institutocairbarschutel.org


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Araraquara, novembro de 2013

Extremos desastrosos O desapego aos bens terrenos consiste em saber servir-se deles em benefício dos outros e não apenas em benefício próprio.

Rogério Coelho

rogeriocoelho@tribunaespirita.org

“O avarento entesoura como se fosse viver eternamente, o pródigo dissipa como se estivesse à beira do túmulo”. - Aristóteles Há que se preservar tanto da sórdida avareza quanto da destrambelhada prodigalidade. O posicionamento intermediário entre esses dois desastrosos extremos é o ideal. “(...) Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me”. (Mt., 19:16 a 24.) O pobre moço rico se foi todo tristonho, pois tendo muitos haveres e igual apego a eles não foi capaz da renúncia sugerida pelo Mestre. Mas, na verdade - naquele momento - Jesus falava para todos nós que ainda hoje não reunimos os qualificativos de Seus verdadeiros e fiéis seguidores, vez que, distraídos com o “canto de sereia” das atrações chãs e interesses puramente hedonistas e subalternos, seguimos com os pés atolados no charco terrestre, embora vez por outra lancemos os olhos na direção do Infinito de Luz que se nos antoja. Passamos a vida “ampliando os celeiros” repletando-os com os excessos de desmedida e soez

ambição. Insensatez! De que nos servirão tais acúmulos materiais se já no dia seguinte não estivermos mais aqui? Se por um lado a sovinice é deplorável, segundo Lacordaire1, “(...) esbanjar a riqueza não é demonstrar desprendimento dos bens terrenos: é descaso e indiferença. Depositário desses bens, não tem o homem o direito de dilapidá-los, como não tem o de confiscá-los em seu proveito. Prodigalidade não é generosidade: é, frequentemente, uma modalidade do egoísmo. Um que despenda a mancheia o ouro de que disponha, para satisfazer a uma fantasia, talvez não dê um centavo para prestar um serviço. O desapego aos bens terrenos consiste em apreciá-los no seu justo valor, em saber servir-se deles em benefício dos outros e não apenas em benefício próprio, em não sacrificar por eles os interesses da vida futura, em perdê-los sem murmurar, caso apraza a Deus retirá-los. Quando Deus vos desferir um golpe, não esqueçais nunca que, ao lado da mais rude prova, coloca sempre uma consolação. Ponderai, sobretudo, que há bens infinitamente mais preciosos do que os da Terra e essa ideia vos ajudará a desprender-vos destes últimos. O pouco apreço que se ligue a uma coisa faz que menos sensível seja a sua perda. O homem que se aferra aos bens terrenos é como a criança que somente vê o momento que passa. O que deles se desprende é como o adulto que vê as coisas mais importantes, por compreender estas proféticas palavras do Meigo Rabi: “O meu reino não é deste mundo”.

A ninguém ordena o Senhor que se despoje do que possua, condenando-se a uma voluntária mendicidade, porquanto o que tal fizesse tornar-se-ia em carga para a sociedade. Proceder assim fora compreender mal o desprendimento dos bens terrenos. Fora egoísmo de outro gênero, porque seria o indivíduo eximir-se da responsabilidade que a riqueza faz pesar sobre aquele que a possui. Deus a concede a quem bem Lhe parece, a fim de que a administre em proveito de todos. O rico tem, pois, uma missão, que ele pode embelezar e tornar proveitosa a si mesmo. Rejeitar a riqueza, quando Deus a outorga, é renunciar aos benefícios do bem que se pode fazer, gerindo-a com critério, isto é, sabendo prescindir dela quando não a tem ou empregá-la utilmente quando a possui, e igualmente sabendo sacrificá-la quando necessário. Esse deve ser o procedimento da criatura de acordo com os desígnios do Senhor”, tal a conduta ideal Segundo Cheverus2, quando Jesus disse: “Amai-vos uns aos outros”, Ele nos estava oferecendo a instrução acerca do melhor emprego que podemos dar aos nossos talentos, sejam eles quais forem, uma vez que aquele que se acha animado do amor ao próximo tem aí traçada a sua linha de proceder. Completa o Espírito Amigo2: “(...) Na caridade está para as riquezas, o emprego que mais apraz a Deus. Não nos referimos, é claro, a essa caridade fria e egoísta, que consiste em a criatura espalhar ao seu derredor o supérfluo de uma existência dourada. Referimo-nos à caridade plena de amor, que procura a desgraça e a ergue, sem a humilhar. Rico!... Dá do

que te sobra; faze mais: Dá um pouco do que te é necessário, porquanto o de que necessitas ainda é supérfluo. Mas, dá com sabedoria. Não repilas o que se queixa, com receio de que te engane; vá às origens do mal: Alivia primeiro; em seguida, informa-te, e vê se o trabalho, os conselhos, mesmo a afeição não serão mais eficazes do que a tua esmola”. Difunde em torno de ti, como os socorros materiais, o amor de Deus, o amor do trabalho, o amor do próximo. Coloca tuas riquezas sobre uma base que nunca lhes faltará e que te trará grandes lucros: a das boas obras. Também a riqueza da inteligência deves utilizá-la como a do ouro. Derrama em tomo de ti os tesouros da instrução; derrama sobre teus irmãos os tesouros do teu amor e eles frutificarão”. Bom será prestarmos bastante atenção nas seguintes palavras de Fénelon3, pois nelas se encontra a diretriz de segurança para a conquista da felicidade própria e alheia: “Sendo o homem o depositário, o administrador dos bens que Deus lhe pôs nas mãos, contas severas lhe serão pedidas do emprego que lhes haja ele dado, em virtude do seu livre-arbítrio. O mau uso consiste em aplicá-los exclusivamente na sua satisfação pessoal; bom é o uso, ao contrário, todas as vezes que deles resulta um bem qualquer para outrem”. r 1 . K A R D E C , A l l a n . O Eva n g e lho Seg. o Espiritismo. 125.ed. Rio: FEB, 2006, cap. XVI, item 14, § 9º. 2 . K A R D E C , A l l a n . O Eva n g e lho Seg. o Espiritismo. 125.ed. Rio: FEB, 2006, cap. XVI, item 11, § 2º. 3 . K A R D E C , A l l a n . O Eva n g e lho Seg. o Espiritismo. 125.ed. Rio: FEB, 2006, cap. XVI, item 13.


Araraquara, novembro de 2013

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Tribuna espirita nov 2013  

Jornal Tribuna Espirita - 02 - Novembro de 2013

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