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Domingo | 30 de dezembro de 2012

esportes

Tribuna do Norte | Natal | Rio Grande do Norte | 3

2014 COM A CARA DE 1950 OBRAS ATRASADAS,ESCOLHAS POLÍTICAS DE SEDES,AUMENTO NO CUSTO DOS ESTÁDIOS FORAM AS TÔNICAS DO BRASIL NA PREPARAÇÃO PARA SER SEDE DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL PELA PRIMEIRA VEZ.AGORA,EM SUA SEGUNDA EXPERIÊNCIA,O PAÍS REPETE ALGUNS ERROS DO PASSADO ARQUIVO

ão Paulo (Agência Estado) - Obras atrasadas, sedes escolhidas por motivos políticos e incertezas até o último momento. Essa poderia ser a história da Copa de 2014. Mas, na realidade, são acontecimentos que marcaram a outra Copa do Mundo que ocorreu no Brasil, a de 1950, símbolo do esforço de um país para se projetar pela primeira vez internacionalmente. Um levantamento realizado por quatro pesquisadores e jornalistas Beatriz Ferrugia, Diego Salgado, Gustavo Zucchi e Murilo Ximenes - revela como o Mundial de 1950 foi preparado, suas intrigas políticas e desafios. O futebol era outro. O Brasil certamente também era outro e a própria Fifa não era a megapotência que hoje controla o maior esporte do planeta. Há 60 anos, o Mundial contou com 13 seleções, após muitas delas desistirem ou esnobarem o torneio no Brasil. A Argentina, provavelmente a melhor seleção do mundo na década de 40, optou por não jogar aquela Copa. Segundo o levantamento, a Copa custou ao País menos de R$ 500 milhões, transformando para valores atuais. A conta do Mundial de 2014 ficará por volta de US$ 29 bilhões. Portanto, comparar o evento quase amador de 1950 e o superprofissional de 2014 não seria adequado. Marcada pela dramática derrota do Brasil na final contra o Uruguai, a parte inicial do Mundial de 1950 e sua própria preparação foram sendo esquecidas da memória coletiva. Mas o fato é que, mesmo com seis décadas de diferença, a pesquisa revela como os acontecimentos daquela época guardam inesperadas semelhanças com os desafios atuais. Assim como ocorreu para a Copa de 2014, em 1950 o Brasil praticamente não teve concorrente na disputa por sediar o Mundial. O País foi escolhido para ser o anfitrião da quarta Copa do Mundo em 1946, um ano depois da Segunda Guerra Mundial que havia deixado a Europa inteira de joelhos. A Fifa, assim como várias outras organizações esportivas, voltava a ter suas atividades regulares e buscava formas de retomar seus torneios. A última Copa havia ocorrido em 1938. A opção dos cartolas foi a de levar o Mundial para a América do Sul, longe das áreas destruídas pela guerra. Nenhum país europeu tinha condições financeiras e nem emocionais para sediar o evento. Mesmo em 1950, várias seleções europeias desistiram de participar da Copa, seja por falta de recursos ou por não ter retomado o futebol local ou por terem se aliado ao Nazismo. A própria Copa teria um ano de atraso. Em 1946, quando a Fifa anunciou que a Copa ocorreria no Brasil, a previsão era de que ela fosse em 1949. Mas, em setembro de 47, a entidade decidiu adiar o projeto para 50.

Nordeste teve disputa decidida por uma “trena”

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Em 1950,o estádio Maracanã recebeu jogos antes mesmo das obras estarem concluídas totalmente,uma semana antes da Copa ter início DIVULGAÇÃO

Em 2014, o Maracanã corre contra o tempo para entregar as obras de reforma em tempo para a disputa da Copa das Confederações

SEDES Mas nem o adiamento serviu de alívio para a organização brasileira. Se poucos eram os países que tinham condições de realizar um Mundial, dentro do Brasil a disputa foi acirrada entre as cidades para que fossem escolhidas como sede. Não havia um número predeterminado de cidades e, para chamar a atenção da Fifa e de autoridades no Rio, políticos por todo o País começaram a promover jogos de futebol. Mesmo tendo quatro anos para se preparar, o Brasil só começaria a definir as sedes um ano antes da Copa e em praticamente todas as cidades os atrasos nas obras marcaram a preparação. Numa vistoria ao Pacaembu, os delegados da Fifa indicaram, apenas 23 dias antes do início do Mundial de 1950, que o estádio paulista não estava totalmente dentro dos padrões internacionais. O então inspetor da entidade, o italiano Ottorino Barassi, pediu uma ampliação do gramado e a criação de um local para a imprensa. Mesmo a escolha das sedes se transformaria em uma novela que

chegaria às vésperas do evento. Ao final de inúmeros debates, a decisão foi a de realizar o Mundial no Rio, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba. Outras duas cidades - Porto Alegre e Recife - acabariam sendo incluídas na programação faltando semanas para o evento. No caso da capital gaúcha, interesses pessoais de alguns políticos garantiram a inclusão de último momento na agenda da Fifa. O presidente da CBD (antecessora da CBF) na época, Rivadávia Meyer, fazia há meses uma forte pressão sobre políticos gaúchos para conseguir dinheiro público para colocar um dos estádios de Porto Alegre em condições para receber o evento. Mas, para sediar jogos do Mundial, o Estádio dos Eucaliptos precisaria ter 35 mil lugares - 15 mil a mais que a capacidade naquele momento. Também precisaria de uma dimensão mínima de 106m x 89m para o campo, além da construção de túneis para vestiários e novos alambrados. Já era janeiro de 1950 e o governo do Estado se recusava a abrir os cofres.

Foi quando o prefeito da cidade, Ildo Meneghetti, um torcedor fanático do Inter e com interesses de garantir a seu time um estádio melhor, liberou 500 mil cruzeiros - o equivalente a R$ 715 mil hoje para a obra. Em um decreto, alegou que ampliar o estádio era “uma das necessidades mais clamorosas” de Porto Alegre. Outro argumento: a Copa iria projetar a cidade internacionalmente. O estádio seria inaugurado oito dias antes da Copa começar. Mas a passagem do Mundial pela cidade não seria nada do que o político havia prometido e os 15 mil lugares extras jamais foram usados, pois os jogos não conseguiram atrair grande público. O acordo com a CBD era de que, com a reforma, Porto Alegre receberia três jogos da Copa. Antes mesmo de começar o evento, um dos jogos seria cancelado. A França se recusou a viajar ao Brasil, alegando que a tabela era inaceitável. Pela programação, a seleção francesa jogaria em Porto Alegre e, quatro dias depois, no Recife. Assim, a capital gaúcha ficou com apenas dois jogos, um com

3,5 mil pagantes - 10% do estádio - e outro com 11 mil. Uma frustração similar seria registrada em Curitiba. A arena havia sido construída aos poucos e pelos próprios funcionários de uma empresa ferroviária. Durante anos, os trabalhadores, loucos pelo esporte, paravam os trens que passavam pela região e pediam sobras do material que carregavam. Essas madeiras, metais e pedras acabariam sendo usados para erguer o estádio. Com a decisão de ter a Copa no Brasil, o governo do Paraná deu 300 mil cruzeiros (R$ 430 mil atuais) para permitir que o estádio do Ferroviário fosse ampliado para 30 mil pessoas, uma exigência da Fifa mesmo numa cidade que na época tinha uma população de 180 mil pessoas. Segundo a pesquisa, os dois jogos do Mundial disputados na capital paranaense foram um fracasso de público. Na partida Espanha x Estados Unidos, apenas nove mil pessoas acompanharam o jogo. Na segunda - Suécia x Paraguai -, não havia sequer oito mil pessoas na arquibancada. ALEX RÉGIS

Arena das Dunas encerra ano com 50% das obras Apesar de ter sofrido com três greves de operários durante o ano, a Arena das Dunas vai fechar 2012 com 50% das obras concluídas, segundo balanço divulgado pelo governo do Rio Grande do Norte. O estádio em Natal é um dos 12 que estão sendo construídos ou reformados no Brasil para receber a Copa do Mundo de 2014. Atualmente, cerca de 1.600 operários estão trabalhando em três turnos nas obras da Arena das Dunas. Com isso, o anel in-

ferior das arquibancadas está praticamente finalizado e o superior começa a ser montado. E a previsão de entrega do estádio continua mantida para dezembro de 2013, dentro do limite imposto pela Fifa. Com investimento de R$ 417 milhões, sendo R$ 396,5 milhões de financiamento federal, a Arena das Dunas terá capacidade para 42 mil pessoas, sendo que 10 mil lugares serão de assentos móveis, exclusivos para a realização

da Copa. Durante o Mundial, o estádio em Natal receberá quatro jogos, todos da primeira fase. Por enquanto, dois dos 12 estádios já foram inaugurados: Castelão, em Fortaleza, e Mineirão, em Belo Horizonte - ambos agora em dezembro. Os demais serão entregues ao longo de 2013, sendo quatro deles ainda no primeiro semestre (Rio, Brasília, Recife e Salvador), por serem sede da Copa das Confederações em junho.

A Arena das Dunas conseguiu um bom avanço nos últimos meses

Uma das disputas mais acirradas ocorreu no Nordeste. Faltando 39 dias para a abertura do Mundial, o Brasil ainda não sabia qual seria a sede dos jogos na região. Fortaleza, Recife e Salvador disputavam a vaga. Num espelho perfeito do que era o processo de seleção dos organizadores da Copa, um dos enviados mediu o campo da Ilha do Retiro com sua própria trena. Dias depois, indicou que Recife seria a vencedora para sediar os jogos. Mas os desafios estavam apenas começando. Para estar pronto para o Mundial, 20 dias depois de ser confirmado, os sócios do time do Sport se mobilizaram para reformar o estádio. Superada essa dificuldade, veio a ducha de água fria. A seleção da Suíça se recusou a jogar no calor nordestino, Portugal abandonou a ideia da Copa e a França se negou a viajar ao Brasil. A capital pernambucana ficaria com apenas um jogo, entre Chile e Estados Unidos. Mas o confronto ainda seria marcado pela queda de energia do estádio, o que impediu que a partida fosse transmitida pelas rádios ao restante do Brasil e do mundo. MARACANÃ A partir de fotos da época, documentos e relatos, a pesquisa ainda revela como uma disputa política particular seria travada nas obras do Maracanã. Carlos Lacerda, líder da oposição, e o prefeito do Rio, Mendes de Morais, travaram uma batalha na determinação do local, cada qual lutando para ser o pai da obra. A história do Maracanã começa em 1941. Um certo Oscar Niemeyer chegou a apresentar dois projetos para o estádio, ambos recusados. Naquele momento, brigas políticas enterraram a ideia de um estádio para a capital. Foi só mesmo em 1946, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa, que o projeto se transformaria realidade. O prefeito insistia em erguer o estádio ao lado do rio Maracanã, enquanto Lacerda o queria em Jacarepaguá. O prefeito acabou prevalecendo. O Maracanã seria chamado de “Estádio Mendes de Morais”. Mas a briga teve seu preço. O Maracanã não seria entregue nem no prazo e nem no orçamento estimados originalmente. Apesar de a construção ter sido iniciada em 1948, a pesquisa encontrou fotos do jogo de inauguração ocorrido apenas uma semana antes da Copa e que mostravam a presença ainda de andaimes nas arquibancadas no dia 16 de junho de 1950, entre a seleção paulista e a seleção carioca. A concretagem não tinha sido concluída. Oito dias depois, a Copa seria aberta no mesmo estádio, o maior da história até então. Para aquele jogo entre Brasil e México, as estruturas de apoio já haviam sido retiradas e o Exército foi convocado para ajudar a limpar a área. Mas, ao chegarem ao estádio, os torcedores se depararam com barro, lama e material de construção espalhado pelo local. Pilar de um projeto de autoafirmação da capacidade de um país, o Maracanã custou o equivalente hoje a R$ 215 milhões. Após a dramática derrota do Brasil na final, o busto de Mendes de Morais que havia sido colocado na entrada do estádio foi destruído pelos torcedores. E o local deixou de levar o nome do prefeito.

Tribuna do Norte - 30/12/2012  
Tribuna do Norte - 30/12/2012  
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