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M A R I O H E R M A N I / S T E P H A N D O I T S C H I N O F F / M A T A N Z A / A L E X M A S S O T T I / T H I A G O A LV E S

S K AT E

EDIÇÃO 249 / OUTUBRO

AMAIS TOUR A amizade, a volta, o novo PÁG. 38

JUAN MARTINEZ

RESISTÊNCIA ENTRE EIXOS

PÁG. 16

PÁG. 22

CANDY SESSIONS

ALEX CARDOSO

Nova produção underground brasileira, que vem direto das ruas nordestinas

Da cena baiana para Barcelona, ele continua fazendo a sua parte


ÍN DICE

TRIBO S K AT E

ANO 26 • OUTUBRO DE 2016 • NÚMERO 249

ESPECIAIS 16. Candy Sessions 22. Alex Cardoso 34. Thiago Alves 38. Tour Amais 50. Juan Martinez SEÇÕES Editorial......................................................................6 Zap............................................................................. 10 Casa Nova............................................................. 64 Traços e Rabiscos............................................. 68 Hot Stuff..................................................................72 Áudio (Matanza)..................................................74 Playlist (Alex Massotti)....................................76 Coluna Visual.......................................................78 Coluna Saúde...................................................... 80 Coluna 2020.......................................................... 81 Skateboarding Militant................................... 82

CAPA: Juan Martinez é um Uruguaio de alma e coração brasileiros. E foi seguindo os caminhos de seu skate que ele encontrou o direcionamento para fortalecer suas raízes e manter vivo o espírito livre que o skate oferece, rumo ao tão sonhado profissionalismo. Fs wallride, aos pés do monumento Pedro Ludovico, em Goiânia. FOTO: Camilo Neres


DWAYNE FAGUNDES CLICADO POR VINICIUS BRANCA

Os dois vãos que surgiram e deixaram de existir em um piscar de olhos, bem centro da capital São Paulo, renderam belas linhas e este hard heel flip representa muito bem o tamanho da encrenca que era manobrar ali. Uma bela foto, pra conferir de olhos bem abertos!

TRIBO SKATE • 5


E D ITOR IAL

JOVANI PROCHNOV

MICAEL DOS PASSOS, STRAIGHT LEG

A FONTE DA JUVENTUDE

A

lgumas das comemorações dos 25 anos da Tribo Skate

livres e numa brecha da programação em que skatistas atuais, como

foram em eventos da velha guarda, neste mês de se-

Pedro Barros, Sandro Dias (este teria idade para correr entre os grand

tembro. Em Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, os ska-

masters, mas como profissional atuante ainda não se rendeu à velha

tistas das antigas se encontraram mais uma vez, como

guarda), Leo Kakinho (outro pro master) e Leo Nego (amador). A cada

fazemos desde a criação do “Old School Skate Jam” em

encontro old school, mais skatistas parecem que vão bebendo da fonte

1999. Este ano a festa estava mais animada do que nunca, com a vinda

da juventude. Casos como o do James Bigo, Dadinho, Jorge Zunga, Ari

de tantos personagens de gerações que frequentaram os Campeonatos

Bason, Cris Mateus, Julio Feiox, Pedro Tibáu, são emblemáticos, pois

Brasileiros do Itaguará Country Club nos anos 80 ou vieram depois.

os caras andam melhor a cada ano que passa! É certo que o skate

Alguns dos personagens que correram desde as primeiras versões

é uma grande motivação para se manter ativo e se arriscando nos

do festival, em 1982, assistiram baterias de skatistas bem mais novos,

rolês e eventos como este fazem não um contraponto, mas sim um

que já são considerados “old school”, mas são “os novos velhos” que

complemento aos inúmeros campeonatos amadores e profissionais

vem surgindo, entre eles muitos ainda nem andavam de skate naquela

que acontecem aos montes no país. Vamos ampliando os horizontes,

época. Outros, que estavam lá assistindo, ainda crianças e que ficaram

unindo gerações e divindo bons momentos para celebrar o que a

nutrindo o sonho de um dia participar da brincadeira. Agora, quem

cultura do skate proporciona de bom para a saúde e longevidade.

ultrapassou os 35 anos de idade, pode entrar na primeira categoria entre as faixas determinadas – a master. Grupos de Porto Alegre, Novo Hamburgo, Belo Horizonte, representantes de São Paulo, Floripa, Rio de Janeiro, São Bernardo do Campo, Taubaté, Lorena, Jacareí, Curitiba… Uma visita internacional, a de um cara que criou manobras do skate vertical como o frontside rock’n’roll, Eddie Elguera. Prestes a completar 54 anos, o cara está andando como nunca, com muita base e um skate muito bonito. Andou conosco em vários horários dos treinamentos 6 • TRIBO SKATE

CESAR GYRÃO

Skatista desde 1975, fez fanzines, associações, correu campeonatos, atuou na Overall de 88 a 90 até comandar a criação da Tribo Skate em 1991


AQ U EC IMEN TO

S K AT E

ANO 26 • OUTUBRO DE 2016 • NÚMERO 249 DIRETOR-EXECUTIVO E PUBLISHER

Felipe Telles

DIRETORA DE CRIAÇÃO

Ana Notte

GERENTE DE CONTEÚDO

Renato Pezzotti EDITOR

Junior Lemos SITE

Sidney Arakaki

DIRETOR DE ARTE

Fernando Pires

EDITORA DE ARTE

Renata Montanhana

EDITOR DE FOTOGRAFIA

Ricardo Soares PRODUTORA

Carol Medeiros

CONSELHO EDITORIAL

Cesar Gyrão e Fabio Bolota REDAÇÃO

triboskate@triboskate.com.br COLABORARAM NESTA EDIÇÃO: TEXTO

Aguinaldo Melo, Camilo Neres, Edu Andrade, Fernando Gomes, Guto Jimenez, Sidney Arakaki e Thiago Pino. FOTO

Andre Calvão, Camilo Neres, Daniel Nunes, Fernando Gomes, Jovani Prochnov, Júlio Tio Verde, Khalid Chhiba, Leandro Moska, Martin Fehrer, Michel Almeida, Mike Blabac, Rafael Cruz, Raphael Kumbrevicius, Ricardo Soares, Sidney Arakaki, Vinícius Branca e Washington Teixeira. COMERCIAL

Fabio Bolota (fabio.bolota@nortemkt.com) Cezar Toledo (cezar.toledo@nortemkt.com) DISTRIBUIÇÃO: DINAP TELEFONES

Belo Horizonte: 31 4063-9044 Brasília: 61 4063-9986 Curitiba: 41 4063-9509 Florianópolis: 48 4052-9714 Porto Alegre: 51 4063-9023 Rio De Janeiro: 21 4063-9346 Salvador: 71 4062-9448 São Paulo: 11 3522-1008

CAIO PASTEL, BS GRIND SE CADA CANTO DA ROOSEVELT RECEBEU CARINHOSAMENTE MANOBRAS DOS SKATISTAS, ESTA LATERAL AGORA TAMBÉM FOI AGRACIADA COM O POP DO CAIO PASTEL! FOTO RAPHAEL KUMBREVICIUS

ASSINATURAS

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Endereço: R. Estela Borges Morato, 336 Limão – CEP 02722-000 – São Paulo – SP IMPRESSÃO:

Leograf

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A revista Tribo Skate é uma publicação mensal da Norte Marketing Esportivo

As opiniões dos artigos assinados nem sempre representam as da revista.


FOTOS: JÚLIO TIO VERDE

TRIBOSK ATE.CO M .BR

CAMPO GRANDE, RIO A LENDÁRIA PISTA DE SKATE DE CAMPO GRANDE, NA ZONA NORTE DO RIO DE JANEIRO, PASSOU POR UMA GRANDE REFORMA E FOI ABERTA AO PÚBLICO. INAUGURADA EM 1979, E CHAMADA PELOS LOCAIS DE PISTÃO, CAMPO GRANDE FOI UMA DAS PRIMEIRAS PISTAS DO BRASIL E FOI FREQUENTADA POR SKATISTAS DE TODAS AS PARTES DO MUNDO. NOMES COMO CHRISTIAN HOSOI, LUIZ COME RATO, ROBERTO HO-HO E CESINHA CHAVES SÃO PARTE DA HISTÓRIA QUE ANDOU OU CONTINUA FREQUENTANDO O PICO. A REFORMA MANTEVE O PROJETO ORIGINAL COM OS TRADICIONAIS BOWL, SNAKE E GANHOU OBSTÁCULOS MODERNOS. JUAREZ MASCARELLO fs grind

10•TRIBO SKATE


WHAT'S UP Informe-se e tenha argumentos para discutir nas redes sociais! Após três meses, a Skatenation reabriu em Campinas. A pista do skatista profissional Tulio Oliveira passou por uma grande reforma e está

EXCLUSIVA, COM FÁBIO CRISTIANO. O skatista FÁBIO CRISTIANO fala sobre a entrada na Plural Skateboards: “A minha motivação é uma parada muito louca, porque não é o skate. O skate me tira de uma coisa que me desmotiva. Entendeu? Então, é como se fosse uma fuga. Eu não tô satisfeito ainda com o que eu tô vendo na vida. Aí eu venho pro skate, pro skate ser um lugar seguro pra mim. Então, o skate sempre vai ser uma motivação pra mim. Ele não gera motivação, ele é minha motivação. Se eu faço, ele fica melhor, se eu não faço, eu fico no mundo externo. Ele é uma chave de conexão com meu interior.”

O aguardado vídeo “Ceremony”, da Blaze Supply, foi exibido em primeira mão em pleno Largo São Francisco, Centro de São Paulo. Dezenas de pessoas compareceram para prestigiar a première e saíram satisfeitos com o que assistiram.

VINICIUS BRANCA

SIDNEY ARAKAKI

pronta para receber sessões e eventos.

A Red Bull definiu os nomes dos 24 skatistas amadores finalistas do “Red Bull Skate Arcade”, que nesse ano acontece em Porto Alegre, RS, no mês de novembro. O paulista de São José dos Campos, João Pedro (JP) Oliveira liderou o ranking durante todas as etapas e chega ao IAPI como grande favorito. Outro brasileiro qualificado é o matogrossense Izael Miranda. Ele foi o vencedor da fase “Freestyle”, uma categoria bônus que os participantes podiam escolher qualquer manobra para gravar e enviar.

A Future Skateboards lançou o pro-model MIKE BLABAC

comemorativo de 40 anos de idade do

SLS 2016 O australiano Shane O’Neill e a norte-americana Lacey Baker são os campeões do Super Crown World Championship, competição que fechou a temporada 2016 da Street League Skateboarding. O evento aconteceu em Los Angeles, EUA, e teve a participação de quatro brasileiros. Luan Oliveira foi o único na divisão masculina, enquanto três brasileiras competiram na feminina, Monica Torres, Leticia Bufoni e Pamela Rosa.

skatista profissional Marcus Vinícius, também conhecido como rapper Kamau.

Tiago Lemos lançou uma parte de vídeo surpresa pela A Fonte, skateshop paulistana que o patrocina. A parceria entre o skatista e a loja é desde antes da fama mundial, e graças ao exemplo de Danilo "Daba" e Pablo Fontes, da AFNT, o brasileiro tinha peças para andar.

TRIBO SKATE•11


ZAP

LIN H A VE R M ELH A

MARIO HERMANI

ELE É UM CARA DAS LINHAS. ALÉM DE USAR SUA BOA LEITURA DOS LOCAIS SKATÁVEIS PARA DEIXAR SUA ASSINATURA COM MANOBRAS AQUI E ALI, PREPARASE PARA CONTRIBUIR COM SEUS TRAÇOS NO ESPAÇO URBANO, AO ESTUDAR ARQUITETURA. UM SKATISTA COM MUITA BASE E CONTEÚDO.

FOTOS ANDRE CALVÃO

(FERNANDO GOMES) Conte sobre os perrengues que rolaram nos dias que passou em Salvador. Qual a impressão que ficou dessa viagem? Salve guerreiros do Nordeste! Eu quero definir aqui os skaters do Nordeste como uns dos mais acolhedores, característica mais importante do skatelife, logo são os maiores free skate spirits que eu conheci. O calor é bruto mas o Diogo ter sido infectado com o vírus da dengue foi o perrengue mais inédito que passei. Ele não queria parar de trampar e em consequência estava prestes a ter uma dengue hemorrágica. Fiquei com medo porque o meninão é bastante teimoso.

tempos pra cá, como exemplo, tenho notado o desgaste no corpo do skatista, que é inevitável. No skate não existe um afastamento remunerado, e sim um desligamento por não produtividade. Mas isso para o lado do mercado de trabalho, porque hoje esse é o meu. A longo prazo, e pode ser até fictício da minha parte, a mentalidade deve evoluir; é preciso começar a enxergar quem está em prol do skate e quem não está, pois pra mim uma frase que já está defasada, tipo campanha política, mas que é bem verdadeira é a tal "feito por skatista". (BRUNO CAUÊ) Salve Marinho (risos)! Tem algum projeto social/

(CLEVERSON MANIGLIA) Depois de ter virado profissional, o que mudou

pessoal que una o skate e sua formação acadêmica?

na sua vida e o que acha que deve mudar no mercado nacional?

Salve, anti crys! Sim, tenho um projeto no papel ainda, de levar intervenções artísticas skatáveis em lugares com potencial de pico, o famoso DIY, com aparência estimulante não só aos olhos do skatista mas também do observador.

Essa tem dois campos de resposta, a curto e a longo prazo. Já passou da hora de ter uma organização que cuide de regulamentar as relações entre skatista e empresa. De uns 12 • TRIBO SKATE


OLLIE SHIFT

TRIBO SKATE • 13


ZAP

MARIO HERMANI

29 anos, 16 de skate Guarulhos, SP (Crail Trucks, Urgh, Moog Wheels e Vulk)

(DIEGO RAMOS) O que acha que falta nas pistas de skate do Brasil e o que poderia melhorar? Qual a importância de um skatista que vive do skate em se formar para algo fora do skate? O Brasil tem uma característica péssima na hora de aprovar os prestadores de serviços e fornecedores de material, que é a de escolher o orçamento mais barato; além de projeto ruim, a execução também será. Nos últimos cinco anos, têm acontecido boas novas pistas desenvolvidas a partir do diálogo entre setor público e o maior interessado, os skaters, e a execução do projeto por empresa especializada na construção de pistas de skate, como o caso da Chácara do Jockey. A minha opinião pessoal é que parem de construir "streetparks" e invistam o dinheiro na requalificação de praças e que só construam bowls e halfs, que são específicos dos praticantes. A apropriação de skatistas em espaços coletivos traz vida e segurança para os espaços. Sobre a segunda pergunta, não vejo Arquitetura e Urbanismo como um curso fora do skate porque pode-se criar meios de ocupação de espaços, assim como o projeto "Ruativa" faz (procurem o trabalho deles)!

(DIOGO GEMA) Qual foi a sensação de ter voltado o ss 360 lipslide no

corrimão do Américo, em Santo André, na época do primeiro Made In Brazil (2009), depois de muita insistência? (Risos) Essa história é dividida em quatro capítulos! Era fase final das filmagens para minha parte, um ano de esbanjar juventude, fomos quatro dias diferentes até que eu acertasse e rolou uma curiosidade: me questionaram uma vez, dizendo que se não acertou no primeiro dia teria que desencanar pois aquele momento já tinha passado e que não deveria forçar uma nova chance. Porém, o que me fortalece é a vontade de andar de skate todos os dias e também é essa questão de me desafiar a algo que você só para quando as pernas não aguentam mais. Senti como se estivesse vencido uma das maiores tarefas dadas por mim mesmo! Aquele foi o início de oito anos até hoje, dedicados à produção de vídeo partes e fotos. Com esse vídeo, enxerguei a importância de mostrar personalidade através do skate e não gritando, rasgando, quebrando shape ou usando roupinhas de butique. 14 • TRIBO SKATE

(CESAR GYRÃO) Como estudante de arquitetura e interessado no uso dos espaços urbanos, o que pode ser feito para que se possa manter o bowl ou criar uma pista no Ibira? Toda a área ambiental e urbana do Parque do Ibirapuera é patrimônio tombado desde 92, assim como o conjunto de obras do Niemeyer. Para a construção da obra, o Instituto teve que conseguir uma série de aprovações e, na legislação do patrimônio, qualquer item tombado deve ser conservado da forma como está no projeto. As liberações aconteceram com a premissa de que fosse temporário e que assim que a Bienal acabasse a obra seria demolida. Mas claro que as pessoas querem que fique; aliás já está lá, construída. Tratando-se de leis, tudo é possível aqui no Brasa, por isso acredito que com uma grande parcela das mídias falando sobre o assunto e alguém "importante" para comprar a briga, é um bom começo para buscar os meios de fazê-la ficar. Mas a minha opinião é que esse bowl, por mais bonito que seja, é uma esmola perto do que o Ibirapuera merece. Não tem o tamanho proporcional à história do skate no parque.


DOUBLE TAP POR @LEANDRO_MOSKA

O INSTA REVELA O QUE CADA UM VEM FAZENDO NO DIA A DIA E O PERFIL DO MOSKA MOSTRA QUE O CARA VIVE DA MELHOR FORMA! UM DIA ELE ESTÁ NA PRAIA, EM OUTRO FOTOGRAFA RENOMADOS SKATISTAS EM BARCELONA E EM OUTRO FAZ ENSAIOS DE MODA E COMPORTAMENTO COM MODELOS DAS MAIS DIVERSAS NACIONALIDADES.

1

2 SÃO SEBASTIÃO, LITORAL NORTE

3 FOTOGRAFANDO POR LAS CALLES

4 HERA COLL

5 LUIS APELÃO, BS TAILSLIDE

6 @TIAGOLEMOSKT, BCN FIRST TIME

PE R FIL

LEANDRO MOSKA Ele conheceu o skate antes da fotografia e um levou ao outro, naturalmente! Leandro Moska tem suas bases em Campo Limpo Paulista, em SP, mas frequentemente ele está cada dia em um lugar e neste instante deve estar explorando algum pico no Velho Continente. O Shock (apelido propagado por ele) é responsável pelas belas fotos de

skatistas brasileiros na Europa publicadas aqui recentemente e também em pautas que revelam os novos nomes da cena aqui no Brasil. E além de todo o trampo fora do skate que ilustra esta coluna, Moska também é dono da loja de skate C-Vida Skateshop e recentemente deu as boasvindas ao primeiro filho. TRIBO SKATE• 15


VÍDEO

CANDY

SESSIONs

16 • TRIBO SKATE


NOVA PRODUÇÃO UNDERGROUND BRASILEIRA VEM DAS RUAS NORDESTINAS E SURPREENDE PELA SINCERIDADE E NÍVEL DE MANOBRAS EXECUTADAS POR SKATISTAS QUE VOCÊ TALVEZ NÃO CONHEÇA AINDA, MAS QUE DEVE PRESTAR ATENÇÃO.

TEXTO E FOTOS FERNANDO GOMES

FELIPE OLIVEIRA

Na bota do high jump de Álvaro Koringa

TRIBO SKATE•17


VÍDEO

DIEGO PEREIRA Ss heelflip

18•TRIBO SKATE


VIRGÍLIO FERNANDES Fakie flip into bank

JÁ FAZ ALGUM TEMPO QUE OS SKATISTAS DO NORDESTE VÊM SE FAMILIARIZANDO COM A EXPRESSÃO CANDY SESSIONS, que dá nome ao vídeo idealizado pelo baiano nômade Álvaro Koringa. Para além de ser mais um vídeo de skate, o Candy Sessions representa o espírito faça-você-mesmo com que ele e a crew que faz parte do projeto conseguiram produzir um material que surpreende pela sinceridade em cada parte, em cada manobra, em cada take. Para capturar cerca de 40 minutos de muito skate, Koringa viajou (muitas vezes pegando carona em beira de estrada) pelos estados da Bahia, Alagoas, Paraíba e Pernambuco durante mais de dois anos, manobrando e filmando. O vídeo surgiu do incômodo com a escassez de iniciativas que deem visibilidade digna ao skate vivenciado nas ruas do Nordeste. Foi o que o levou a investir numa câmera, apertar o rec, dar o melhor de si nas sessões e incentivar seus amigos a fazerem o mesmo. “Sempre enxerguei um bom nível de skate em meus companheiros de sessão e percebi que precisava expor isso ao resto do mundo. Foi a partir disso que, com muito esforço, comecei a filmar esse vídeo que é gravado inteiramente no Nordeste”, conta Koringa. Além dele, os skatistas Pedro Victor, Andy Shady, Diego Pereira, Jânio Charada, Pedro Lima e outros nomes de talento fazem parte com tricks que compõem o vídeo. Em formato tradicional, o vídeo é separado por vídeo partes em que as trilhas parecem ter sido escolhidas cuidadosamente de acordo com a personalidade de cada um dos skatistas e uma parte de amigos que conta com nomes como Lehi Leite e Felipe Oliveira. O resultado é muita essência do skate se mostrando viva, retratos de sessões cheias de vivência e amizade, sem celebridades nem regras de mercado. Aliás, sem nenhum tipo de regra. Skate puro e sincero, inclusive sem medo de assumir uma estética tosca, o que pode causar certo estranhamento nos olhares mais acostumados com superproduções. A estética underground nessa produção é mais do que uma escolha, é talvez a única escolha. “Para mim, a tecnologia de alguns vídeos atuais está mostrando um skate mais imagem que essência e essa tendência de vitrinizar o skate está tirando justamente o verdadeiro sentido que ele tem pra mim: quebrar as vitrines”, afirma Koringa.

TRIBO SKATE•19


VÍDEO

ÁLVARO KORINGA 50-50


PERF IL A M

C A M I N H O S A B E R T O S ! A SINA DE ALEX CARDOSO É SEGUIR A VIDA COM SEU SKATE, TÃO NATURAL QUANTO ACORDAR TODOS OS DIAS. DEPOIS DE CONTRIBUIR MUITO PARA A CENA BAIANA, ELE VIVE EM BARCELONA, MAS FAZ QUESTÃO DE CONTINUAR FAZENDO SUA PARTE.

TEXTO E FOTOS FERNANDO GOMES

22•TRIBO SKATE


FLIP

TO FAKIE

TRIBO SKATE•23


D

PERF IL A M

Dono de um skate técnico e de impacto, Alex é daqueles skatistas que não perdem pra chão ruim ou cansaço físico. A persistência é uma característica forte de sua personalidade e se reflete em seu skate, encarando gaps e bordas quantas vezes for necessário, assim como é em seu cotidiano e na busca pelos seus sonhos de vida. Nascido em Salvador, desenvolveu seu skate por diversas cidades do Brasil e atualmente reside em Barcelona, na Espanha. Durante a recente temporada que passou em sua terra natal, ele registrou algumas tricks e conversou com a Tribo Skate.

Qual a primeira imagem envolvendo skate que você guarda em sua memória? É do skate do meu irmão, Emerson Cardoso, que já andava. Ele saía pra trabalhar e deixava o skate em casa. Aquilo me despertou a curiosidade, só que meus pais não queriam me deixar andar. E me veio aquela coisa do “Por que meu irmão pode e eu não?”. Teve também aquela coisa de ser fã do irmão, de querer fazer o que o irmão mais velho faz. E no começo ele também não queria que eu pegasse o skate, tinha medo porque eu era muito pequeno e tal. O engraçado é que, como nossos pais não queriam deixar, eu e mais outros dois irmãos (Jeferson e Hidelberto) começamos a juntar dinheiro e compramos um skate que a gente dividia pros três.

Então você vem de uma família de skatistas. Inclusive, Emerson Cardoso é referência no skate nordestino, principalmente quando se fala de estilo. Como foi pra você crescer convivendo com isso? Isso sempre foi uma grande inspiração. Cresci vendo todo mundo falar bem de meu irmão, que ele tem o maior estilo, que é referência. E isso sempre foi um incentivo a mais pra mim. De ver que mesmo com todas as dificuldades que a gente tinha, o que ele fazia e faz não tem preço. Foi tudo de forma natural, de vê-lo sempre andando e pensar que eu também podia conseguir. A maior 24•TRIBO SKATE

CRESCI CRESCI VENDO VENDO TODO TODO MUNDO MUNDO FALAR FALAR BEM BEM DE DE MEU MEU IRMÃO, IRMÃO, QUE QUE ELE ELE TEM TEM OO MAIOR MAIOR ESTILO, ESTILO, QUE QUE ÉÉ REFERÊNCIA REFERÊNCIA


BS CROOKED

TRIBO SKATE•25


PERF IL A M

inspiração mesmo foi a partir dele. Hoje em dia ele tem família, mulher, filhos, trabalho, mas continua andando sempre. Só que ele é bem desencanado, faz o rolê dele só pra ele mesmo, tem outros compromissos.

E a sua rejeição ao futebol, de onde vem? Tem algum motivo especial ou é só porque você é ruim de bola mesmo? Você sabe, né? O começo já era com um skate dividido pra três. Tinha que trabalhar de segunda a sábado numa locadora de videogame pra ganhar cinco contos por semana e poder andar de skate no domingo. Aí chegava no domingo, no único pico próximo de casa que tinha pra andar, e tinha que disputar espaço com os caras do baba (futebol). Aí eu morria do coração, hahaha, e fui tomando raiva. Eu já não era bom de bola mesmo e os caras ainda atrapalhavam o rolê de skate na quadra.

Fale sobre a importância desse lugar onde a gente começou a andar de skate. Ali pra mim foi a escola. Foi onde tudo começou, onde andava com meus amigos e meus ídolos. Via caras como Ricardo Bocão, Totói, Sergio Cabeleira, Cara de Sapo (Fabrizio Santos), Cláudio Havengar, o saudoso Fran e vários outros que via andando e sempre me incentivavam. Devo muito respeito e hoje sou muito grato a essa galera, por ter me ensinado e me incentivado tanto. Eu estudava lá perto e filava muitas aulas pra ficar na quadra com os caras. Respeito máximo a toda essa galera que fez essa cena.

Eu sei que você tem muitas histórias de perrengues pra contar, inclusive em diversas cidades por onde já passou. Tem alguma que se destaca, que te marcou mais? Então, tem uma que depois desse dia foi que eu realmente vi que “se tá ruim, tá bom”. Foi numa cidade do interior do Ceará, chamada Tauá, onde rolou um campeonato pra skatistas convidados 26•TRIBO SKATE

SS FS FLIP


KHALID CHIBBA

DO DO NADA, NADA, OS OS CARAS CARAS DERAM DERAM AA VOLTA, VOLTA, COLOCARAM COLOCARAM UM UM BRUCUTU BRUCUTU NA NA CABEÇA CABEÇA EE VOLTARAM VOLTARAM ATIRANDO ATIRANDO EM EM NOSSA NOSSA DIREÇÃO DIREÇÃO

TRIBO SKATE•27


PERF IL A M

360 FLIP INTO BANK 28•TRIBO SKATE


SE SE VOCÊ VOCÊ ÉÉ SKATE SKATE MESMO, MESMO, AMA AMA OO BAGULHO, BAGULHO, VOCÊ VOCÊ NUNCA NUNCA VAI VAI DEIXAR DEIXAR DE DE ANDAR ANDAR POR POR CAUSA CAUSA DE DE MARCA MARCA NENHUMA NENHUMA

de diversos estados e eu fui representando a Bahia. Eu sempre ia muito ao Ceará e as sessões lá rolavam até altas horas da madrugada. Chegamos em Tauá e ficamos andando até umas 3h da manhã. Só que a gente não sabia que essa cidade era terra de pistoleiro. Daí, tava todo mundo morto de cansaço da viagem e da sessão, voltando andando pra pousada, e passaram dois caras numa moto. Do nada, os caras deram a volta, colocaram um brucutu na cabeça e voltaram atirando em nossa direção. Aí foi o desespero total; a gente saiu correndo, o Pedro Xexa tomou um tiro na perna e o Suênio Campos tomou um tiro na mão. A gente conseguiu correr até um matagal e ficou escondido lá. Nisso, os caras chegaram e ficaram procurando a gente e ameaçando “Pensaram que acabou? Tem muito mais bala aqui”. Os caras falando isso a alguns metros de mim, eu vendo tudo e nisso me veio o flash da vida, de agradecer a Deus por tudo que eu tinha vivido, de ter aproveitado a vida. Graças a Deus, eles não acharam a gente e desistiram. O Xexa foi Highlander, correu por muito tempo mesmo com um tiro na perna, e o Suênio acabou se perdendo da gente na correria. Saímos batendo nas casas, pedindo ajuda, e conseguimos ficar numa casa abandonada e a vizinha ligou pra Polícia. Só conseguimos encontrar o Suênio no hospital, que felizmente já tinha conseguido socorro. Depois desse dia, eu vi que “se tá ruim, tá bom”. Por mais dificuldades que eu passe, não vai ser hora de desistir! Levo isso sempre como inspiração pra continuar seguindo em frente.

Foi esse monte de perrengues na vida que te deixaram mestre na arte de “desenrolar”? Com certeza, né? (risos) É essa vivência do skate de ir a um lugar na cara e na coragem, confiando que vai dar certo. Os perrengues te aperfeiçoam. Já estava tão acostumado que muitas vezes eu chegava nos lugares e conseguia um apoio de rango, hospedagem. ConheTRIBO SKATE•29


PERF IL A M

cendo mais gente, mais histórias e até absorvendo mais cultura. Você vai evoluindo, ganhando experiência, passando por situações que te fazem aprender mais. Se torna um aprendizado pra vida mesmo, pro cotidiano, de aprender a se virar em qualquer situação. E tudo isso é pela vontade de andar de skate, evoluir, ir aos eventos, conhecer novos picos e pessoas. Isso contribuiu muito pra minha evolução.

Como foi sua primeira ida a Barcelona e o que te levou a decidir morar lá? Eu tinha passado uma temporada no Chile e, um tempo depois que voltei, o Fabio Anderson (Galo Cego, baiano que também mora em Barcelona), estava passando uns dias em Salvador e me colocou a maior pilha pra colar lá, me deu até um mapa pra casa dele. Isso deu uma animada pra eu fazer o corre de ir! Consegui um esquema de passagens mais baratas e comprei, planejando ficar um mês lá. Passou esse mês, que parecia um ano de tanta vivência que eu tive e tanta informação que absorvi, fui ficando e quando vi já estava lá há quatro meses e a grana acabando. E em Barcelona você pode se perder fácil. É muita festa, bebida barata e você tem que estar focado no objetivo que você tem. Decidi voltar e, algumas semanas antes, eu conheci minha esposa, que é italiana, estava de férias por lá e rolou uma sintonia grande entre a gente. Minha ideia era voltar pro Brasil, mas manter um esquema de colar em Barcelona pelo menos uma vez no ano e ficar alguns meses, como muitos skatistas fazem mesmo. Depois de um tempo, voltei pra Europa e decidimos morar em Barcelona. Foi bem complicado no começo, é difícil alugar uma casa lá, ainda mais que eu ainda estava ilegal. Mas depois que conseguimos, as coisas começaram a se encaixar e fluir legal. Vale muito a pena conhecer outros países, é um grande choque de cultura que faz você crescer bastante, você volta com outra cabeça, vê coisas que só 30•TRIBO SKATE

ALEX CARDOSO

De Salvador, mora em Barcelona 30 anos, 18 de skate Paradox Skateboard e Third Floor Hardware


SS FS TAIL

ama o bagulho, você nunca vai deixar de andar por causa de marca de filho da puta nenhum. Nem que seja pra ser aquele cara que trabalha a semana inteira e no tempo livre anda de skate. Você vai fazer o que tem que fazer, mas vai se manter no skate, com as amizades, com as sessões. Muitas marcas se aproveitam mesmo dos talentos e uma vez eu fiquei brisando aqui “vejo vários caras bons demais, andando pra marca grande e recebendo 150 contos. Por que a gente aceita isso? A gente sabe que está sendo usado mas por que aceita?” E minha conclusão é que isso é porque a gente ama muito o skate, por isso que muitos aceitam condições injustas só pra poder continuar andando. As marcas aproveitadoras sabem disso e se aproveitam. É tipo aqueles casais que você vê brigando sempre e mesmo assim continuam juntos. Então, se você tiver oportunidade de fazer outro corre, um curso, estudar, faça. Até mesmo porque se um dia você desencanar do mercado do skate, você vai ter outra opção que te possibilite continuar andando.

Depois dessas temporadas morando fora, o que você percebeu de mudança no cenário de Salvador?

via em filme. Tanto no skate como na vida em geral mesmo, é uma evolução impagável.

Você já tem uma carreira extensa no skate, com muitos feitos de respeito na rua e em eventos. Hoje, qual sua visão sobre o mercado do skate? Pro mercado somos um produto, nós skatistas que estamos no corre mesmo, inclusive com prazo de validade. Lógi-

co que existem as exceções, pois varia muito de skatista para skatista. Mas no geral, no momento em que o produto não traz mais o resultado esperado pela empresa, ele sai do mercado. Tem muito skatista também que vai na emoção, de entrar numa marca e achar que aquilo é tudo. Aí quando sai fica frustrado, até para de andar e fica na ideia de que o skate não deu nada, não trouxe retorno. Só que se você é skate mesmo,

Pô, de dois anos pra cá eu percebi que mudou muito pra melhor a visão da galera, que tá mais focada em filmar e fotografar na rua. Sem querer puxar saco, mas você foi um incentivador muito grande pra essa mudança. E eu fico bem feliz com isso, porque a gente fez as primeiras sessões juntos e eu ficava pesando “mano, você tem que ser o cara pra fazer esse trampo” e é muito bom hoje ver essa evolução no cenário. Por outro lado, me deixa triste que as picuinhas do mercado em Salvador ainda se mantêm desde antigamente. Isso é uma parada ruim que parece manter-se há muito tempo, desde que eu comecei a andar eu já via isso. Poderia ser uma cena muito mais forte se não houvesse essas picuinhas. TRIBO SKATE•31


PERF IL A M

NOLLIE HEELFLIP 360 32•TRIBO SKATE


TRIBO SKATE•33

WASHINGTON TEIXEIRA


DIY

por conta própria

PAI DE FAMÍLIA, SUB GERENTE DE LOJA DE SKATE EM HORÁRIO COMERCIAL, TEAM MANAGER E SKATISTA PROFISSIONAL EM TEMPO INTEGRAL, THIAGO ALVES TAMBÉM TEM PAIXÃO POR CONSTRUIR E ADAPTAR PICOS PARA ELE E SEUS AMIGOS MANOBRAREM. SÃO LUGARES QUE NÃO FORAM FEITOS PARA O SKATE E QUE NORMALMENTE MUITOS DIRIAM SER IMPOSSÍVEL FAZER ALGO. ACOMPANHAMOS UMA DESSAS MISSÕES, ESTA BATIZADA DE BORDA FIFONIKA!

FOTOS RAPHAEL KUMBREVICIUS

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A IDEIA COMEÇOU quando construíamos o último grande pico DIY que tivemos a honra de executar em Santo André. Brincava com o Daniel (mestre de obras da Shaped Né) que assim que terminássemos ali a primeira coisa que faríamos seria a missão da borda Fifonika. O skate é muito louco por causa disso,

andamos mentalmente na parada! O tempo de namoro foram vários fifãos voltados mentalmente e mais ou menos uns seis meses até concretizar a parada. E para isso acontecer, movimentamos mais de 15 pessoas. Uma missão que durou uns 40 dias. A borda era arredondada e extensa. Eu tinha noção que era meio doideira

arrumar tudo para andar ali, mas já tinha canalizado minhas energias para a manobra, iríamos até o final. Colei com o Dani sábado à noite, para fazer a quina da borda. Foi meio que escondido porque ela fica em uma avenida que liga o centro ao bairro e passam carros o tempo todo. Fizemos a milhão, com medo de tomar enqua-

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DIY dro. Voltamos cedo no domingo, pra os últimos retoques e faltava a massa plástica, tarefa nada fácil porque não tínhamos noção de quantidade. Acionei o Kumbrevicius e o Anticaglia, para o registro da missão. Tinha certeza de que os dois comprariam minha ideia. Eu via no rosto deles que acreditavam desacreditando, manja? Todos que ajudaram na missão estavam com essa cara. Mas tenho uma parada que é: Imaginou? É possível! Passamos a massa e ela não secava. Comecei a me cobrar. Passei o skate MATERIAL USADO NA MISSÃO → 1 saco de cimento → 6 massas plásticas → 5 tecos de madeira, pra fazer o caminho de entrada → 2 tocos de vela → E muita força de vontade da Shaped Né Crew AQUELE TALENTO: A borda era arredandada e extensa, em uma escada com 20 degraus. Haja massa plástica pra deixar o pico no jeito

na borda e a massa ficou toda no truck, mesmo assim passei vela, arrumei o caminho e falei: “É agora”. Estava na adrena, não aceitava ter feito toda a movimentação e desistir por causa da massa. O Daniel me perguntou: “Você vai mesmo assim?” Peguei o skate, bati forte na borda onde ia encaixar o fifão e caiu logo um teco. Nesse momento o Daniel começou a quebrar toda a borda, não estava feliz com o trampo que tinha feito e não ia deixar eu me jogar daquele jeito. Enfim, a missão ficou para outro dia, para preparar melhor o pico. Na outra semana já colamos para refazê-la, agora com uma massa 36 • TRIBO SKATE

mais forte e que não ia esfarelar nem ferrando. Ficou perfeita, cimento durinho e quina melhor que cantoneira. Domingo fizemos a mesma movimentação de antes: um ajeita a madeira no caminho, outro varre, um dá uma carpida na volta, outro passa vela. Levei até dois skates pois nada podia dar errado! Demorei umas quatro horas para tentar o primeiro fifão; sabia que se batesse o tail, tinha que correr até o final para ejetar. Fiquei treinando fifão 15 dias em tudo quanto é tipo de borda, estava fifando até de olhos fechados. Só que minha mente travou e o Miguel colou e disse: "Se não for hoje, desencana". Pensei

comigo: “Porra nenhuma; é hoje!” Passaram mais 50 minutos e nada, quando veio o Guriba de mansinho e disse para eu ficar tranquilo, mas que se fosse eu tinha menos de uma hora porque a luz estava caindo. Foi o acelero mais calmo e encorajador que tomei na vida! Assim que ele desceu, olhei a borda mais duas vezes e trepei na parada; o fifão correu até o final e arranquei pra voltar mas o skate desintegrou assim que encostou no chão. Explodiu mesmo de verdade. Nunca tinha visto isso. Comecei a gritar de tanta adrena, catei o outro skate e dá-lhe fifão. A parada corria demais, era muito gás e fiquei em todos até o final. Na quarta tentativa, trinquei o shape zerado. O tail estava mole mas eu não estava nem aí. Fui de novo e acertei a parada, foi muito bom! Uma mistura de alívio, adrena e paz; saí correndo que nem louco e gritando, o Guriba veio me abraçar e falei pra ele: “Foi você quem desceu a borda, irmão". Ela continua do jeito que deixei, quem estiver na disposição, a borda fica na rua Aracaré Jaçatuba, em Santo André, SP.


FS FIFTY NA BORDA FIFONIKA

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TOUR

A MAIS SEMPRE UM ALGO

A AMIZADE, A VOLTA, O NOVO. ESTE FOI O TRIPÉ DA TOUR QUE GEROU ESTA MATÉRIA, QUE ACABOU SE ESTENDENDO PARA MAIS UMA INVESTIDA AO DESTINO. QUE DESTINO? QUAL AMIZADE? QUE RETORNO FOI ESSE? O QUE É NOVO NESTA ÁREA? AS RESPOSTAS VOCÊ TERÁ NAS PRÓXIMAS LINHAS, ILUSTRADAS COM BONS MOMENTOS DA EQUIPE AMAIS.

TEXTO CESAR GYRÃO | FOTOS MICHEL ALMEIDA

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FLIP INTO BANK Fabio Gheraldini equilibra-se na mureta estreita e eleva muito seu skate para cair na transição e encarar o tranco de pedra portuguesa

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TO UR

O TIME Marcus Valente, Fabio Gheraldini, Guilherme Xelem, João Gabriel Jobim, Marcos Uematsu, Bruno Luques, Felipe Luques, Leo Gussi e Henrique Banana

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FS GRIND Henrique Migliano, 43 anos, de volta às sessions. O pro master se puxou ao máximo na madrugada na Praça Palmares

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TO UR

PAI E FILHO Marcus Valente, 39 anos, airwalk na pirâmide da Palmares. Seu filho Bruno Luques, noseslide na plaza do Morro Nova Cintra

Pai e filhos andam de skate juntos. Os amigos se aproximam. As sessões estimulam criar e realizar, além da diversão original da família. Marcus Valente, o pai, skatista de tantos anos é o cabeça da Amais, sonho que virou realidade em forma de marca há três anos. Como daqueles que dormia com o carrinho, aquela fissura de circular a cidade atrás dos picos e pistas todos os dias, desde a virada dos 8 para os 9 anos. Trinta anos depois, a Amais foi um selo para o trabalho e os produtos assinados. “Estão no sangue, o nosso tipo sanguíneo é o A+”, ressalta Marcus. O reencontro de Valente com Marcos Uematsu, amigo de longa data depois de vários anos em que este morou no Japão, foi o estopim para uma nova era de sessões de skate mais frequentes. Uma das pontas desta tour até Santos (o destino), foi justamente esta ami42•TRIBO SKATE

zade. Os caras estudaram na mesma escola em São Paulo e hoje dividem os sonhos do skate juntos novamente. Além de celebrar a amizade, esta viagem com a equipe dividida entre uma Jet Van, um carro e uma Van convencional, marcaria definitivamente o retorno ao skate do pro master da Amais, Henrique Migliano “Banana”. Depois de passar um sufoco terrível com um acidente com sua perna, Banana estava autorizado a voltar de leve às sessões. Mas, como conter um skatista com tanta bagagem no meio de uma tour intensa com skatistas mais jovens ávidos para triturar cada pedaço do caminho? Na sessão de madrugada na Praça Palmares, um dos mais clássicos skateparks de Santos, Henrique desbloqueou os medos e encarou o desafio. Na espécie de cradle do pico, lançou impiedosamente o eixo sobre a borda.


FS SMITH Guilherme Santiago dos Santos “Xelem”, o verdadeiro guia dos picos de rua. Cano chorado em São Vicente

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TO UR FS LIPSLIDE João Gabriel Jobim Ferreira, 22 anos, é outro monstro alado em todos os terrenos. Rolê noturno na segunda ida

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BS GRIND A estreia do pro Mario Marques, 31 anos, na Amais ficou para a segunda viagem à Baixada

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TO UR

BS BOARD Felipe Luques, 13 anos e muito domínio do skate. Pronto para detonar em qualquer sessão

A foto selecionada para esta pauta não deixa mentir. A terceira parte do tripé seria a entrada no time do profissional Mario Marques, 31 anos, cara que já foi duas vezes capa da Tribo Skate e que tem uma tremenda reputação na cena do street nacional. Ele estava entre os convidados de um evento da Vans na Chácara do Jockey e seguiu até Santos para constar sua entrada na equipe, tendo que retornar para São Paulo ao anoitecer. Com a necessidade de produzir mais imagens, Mario foi um dos motivos para uma volta da galera para Santos alguns dias depois, desta vez em carros. Bom, o tripé da matéria está esclarecido. Agora falta apresentar os demais membros da Amais. Bruno e Felipe Luques são filhos do Marcus Valente. Bruno tem 16 anos e tem mais afinidade com a rua, está o tempo todo colado nas redes sociais e estimulando os rolês dos amigos. Felipe, 13 anos, é muito 46•TRIBO SKATE


STALE FISH O videomaker largou a câmera e deixou a sua manobra registrada, atendendo a pedidos. Leonardo Gussi, pista do Emissário

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TO UR

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OLLIE As imediações do Emissário Submarino reservam cantos como este que Mario Marques batizou com seu nome

MARIO FOI UM DOS MOTIVOS PARA A VOLTA DA GALERA A SANTOS ALGUNS DIAS DEPOIS, DESTA VEZ EM CARROS

versátil. Antes mesmo de embarcar na van ele destroi a minirrampa da loja da família, a MPVS, ao lado do Guilherme Xelem, 16 anos. Este último foi uma espécie de guia nas andanças por Santos e São Vicente, chegando a nos levar numa pista coberta, a A Toca, no momento que o céu escureceu e mandou chuva. Xelem é criativo, domina todas as bases e não para. Inclusive soltando um funk pegajoso com seu aparelho de som nos trajetos entre uma sessão e outra. Além do skate criativo destes amadores de ponta, outro cara que vem com muita bagagem e explosão atende pelo nome de João Gabriel Jobim, 22 anos. Sim, no DNA da sua família tem música brasileira e seu skate é completo. A Amais conta também com dois caras mais experientes, criados no ABC Paulista e com uma ficha corrente expressiva. Fabio Gheraldini e Leonardo Gussi, ambos com 30 anos de idade. Gheraldini estica muito suas manobras de flip e tem recursos para explorar os obstáculos do jeito mais difícil. Nesta missão, Leo Gussi estava encarregado de captar as imagens para produzir os vídeos que você verá no triboskate.com.br e nos canais da Amais, mas ele também tem muita base e pedi para produzir uma imagem com ele andando no banks do Emissário, no Skatepark Público Alexandre Magno Abrão, o nome do saudoso Chorão. Fui convidado para participar da barca e os amigos pediram que levasse meu filho, o Branco. Nosso fotógrafo foi o Michel, um parceiro que me surpreendeu com seu trabalho, fazendo render tanto em tão pouco tempo. Para as imagens de drone, chamei o Jonca e estes dias foram uma prova que tantas cabeças e personagens de idades diferentes, unidos pelo skate e por outras afinidades, provocam sempre a sensação de que podemos algo a mais.

TRIBO SKATE•49


EN TRE V ISTA A M

RESISTÊNCIA ENTRE EIXOS

TEXTO E FOTOS CAMILO NERES

O OLHAR VOLTADO AO CENTRO PODE LIMITAR A VISÃO E O ALCANCE DE SUAS AÇÕES. JUAN MARTINEZ REFEZ A ROTA, FORTALECEU RAÍZES E VOLTOU PARA SUA CIDADE. RESISTINDO E EXISTINDO, ESTE SKATISTA MULTIFACETADO SEGUE PELAS MARGENS, CORRENDO ATRÁS PARA PODER ANDAR NA FRENTE.

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DROP, MANAUS

TRIBO SKATE•51


EN TRE V ISTA A M FS BOARDSLIDE, ANÁPOLIS

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EN TRE V ISTA A M

FS NOSEBLUNT, BRASÍLIA

VER OS SKATISTAS CRESCEREM E COMEÇAR A DIFERENCIAR UMA SKATE SHOP COMO A ROOTS DE OUTRAS LOJAS, É A TRANSFORMAÇÃO QUE NOS MOTIVA 54•TRIBO SKATE


O sonho de viver o skate intensamente te levou a morar um tempo em São Paulo. Qual aprendizado você tirou deste período? Viver em SP me possibilitou uma grande evolução pessoal; lá conheci pessoas que transformaram minha vida. O primeiro foi o Vitor (Sagaz) que, além de me recepcionar, me ajudou de diversas formas que foi desde arrumar emprego até meus primeiros patrocínios. Quando as coisas ficaram mais apertadas, foi ele quem me mostrou que voltar para Anápolis (GO) não seria um retrocesso e sim uma evolução. Depois teve a Bia, com quem casei e tivemos o João. Ela ter topado vir para o Goiás comigo foi o que me deu forças para iniciar esta outra jornada.

Jornada esta que consistiu em ter voltado para Anápolis e aberto a Roots, certo? Sim! Em São Paulo comecei a vivenciar algumas realidades que foram me deixando para baixo e desanimado. O Vitor percebeu isto e deu a ideia de abrirmos uma loja, para movimentar o skate aqui na cidade. Com o “crédito” dele, fomos em umas três marcas, entre elas a S.A.M do Bruno, que é nosso parceiro até os dias de hoje. Depois, entrei no ônibus de volta para o Goiás cheio de malas. Neste estilo sacoleiro, usando o que tínhamos em mãos, nasceu a Roots Skate Shop bem no meio da sala da minha mãe.

De quando você começou a loja muitas transformações aconteceram. Quais mudanças você destacaria? Manter no momento uma loja de skate aberta está muito complicado. Tivemos uma retraída que gerou diversas dificuldades e ao mesmo tempo aprendizados. Sinto que a cena aqui está mudando aos poucos, através de nossas ações e eventos. Ver os skatistas crescerem e começar a diferenciar uma skate shop como a Roots de outras lojas, que só enxergam o skate como oportunidade de ganhar dinheiro, é a transformação que nos motiva.

E a cena, como é estar entre cidades tão próximas e tão diferentes, como Brasília e Goiânia? Estar entre este eixo e suas diferentes culturas ajuda a ter uma visão mais ampla e isto é muito bom pois aprendemos com as duas. Espero que o skate aqui em Anápolis um dia evolua com isto, ao ponto de termos uma movimentação maior, uma cena própria e menos dependente. Passando, assim, de apenas uma cidade entre as capitais para algo que contribui ainda mais para o skate de nossa região.

Ainda falando de Centro-Oeste, e Campo Grande? Como foi a experiência de conhecer e registrar algumas manobras por lá?

NOLLIE BS TAIL SHOVIT, CAMPÃO

Compartilhar a sessão com a galera de lá foi algo muito marcante. Além de ter mais picos do que eu imaginava, fui muito bem recepcionado e tive a oportuniTRIBO SKATE•55


EN TRE V ISTA A M dade de presenciar uma vibração muito boa. Estar com pessoas que gostam de andar de skate de verdade, independente do “game”, é sempre motivador.

Agora, indo para o Amazonas. Fale um pouco sobre as visitas que costuma fazer à capital do Amazonas. Desde a abertura da Roots, estive com o Vitor em Manaus umas cinco ou seis vezes. Sinto que lá existe uma desigualdade social muito grande. Com os manauaras, vi que o skate nos pés de uma pessoa menos favorecida pode ser uma grande ferramenta de libertação. É realmente emocionante ver uma pessoa que teria diversos motivos para reclamar da vida, manobrando, cheia de paixão e com muito brilho nos olhos.

Suas movimentações e andanças como skatista de certa forma foram inversas ao que a maioria dos skatistas interioranos costumam fazer. O que você compartilharia com aqueles que enxergam só o eixo Sul-Sudeste como lugar de oportunidades? Depois de todas estas experiências, percebi que o nosso lugar é onde nos sentimos bem. Seja em um evento, em uma marca ou em uma cidade, temos que estar lá para nos sentirmos bem. Ao sentir isto, vemos que temos o poder de melhorar ainda mais as coisas ao nosso redor; isso está em nossas mãos. É através disto que conseguimos criar nossas próprias oportunidades.

Quais os feitos que mais marcaram em toda sua caminhada como skatista? Acho que para todo skatista, a primeira foto em uma revista é algo muito marcante. A minha primeira foi aqui na Tribo Skate, ela ficou entre as dez melhores fotos em um concurso de novos talentos da fotografia do skate, organizado pela revista. O outro momento foi a minha primeira tour em equipe! Fui para Buenos Aires, na Argentina, com o time da Viva para finalizar as filmagens do Gracias Hermanos, também quando produzimos as fotos para a matéria dele aqui na revista. Estar na estrada com muitas pessoas é sempre um momento de grande aprendizado. 56•TRIBO SKATE


COM OS MANAUARAS, VI QUE O SKATE NOS PÉS DE UMA PESSOA MENOS FAVORECIDA PODE SER UMA GRANDE FERRAMENTA DE LIBERTAÇÃO

WALLIE FS FIFTY REVERSE, CAMPO GRANDE

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EN TRE V ISTA A M

FS OLLIE, ANÁPOLIS

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Já que falou do Gracias, como foi o processo de sua participação neste vídeo? No Gracias tive uma parte conjunta com o restante do time! Filmei algumas na Argentina, o restante foi em lugares diferentes e com makers diferentes. Não tive como participar da edição, apenas passei as imagens que tinha para o Guillis e ele selecionou e montou a ordem das manobras. Fiquei surpreso e muito contente com o resultado final.

Depois deste viria o Obrigado Cabra, certo? Como ficou isto? Aí caímos no que tinha falado anteriormente, sobre o momento e as

dificuldades que estamos passando no mercado brasileiro. A Viva está se reinventando e se adequando à nova realidade e com isto o ‘Obrigado Cabra’ ficou em stand-by para um segundo momento. Mas não estamos parados! Inclusive meu amigo Zé, de Goiânia, está trabalhando em um vídeo com as imagens das manobras desta entrevista, que deve sair em breve.

Além desta produção de que falou, o que mais podemos esperar do Juan skatista, empresário e pai de família? Mano, difícil falar sobre o dia de amanhã, ainda mais nesta luta para conciliar tantas funções ao mesmo tempo. Estou passando por um momento de muitos erros para chegar nos acertos; estou tendo que aprender bastante com esta fase. Espero me fortalecer com isto e seguir em frente nas minhas escolhas, só que com mais sabedoria.

Agora fica o espaço aberto para você falar!

JUAN MARTINEZ

De Montevidéu, Uruguai, mora em Anápolis,GO 30 anos, 16 de skate Viva Rodas, Diet Skateboards e Roots Skateshop

O skate me ensinou muitas coisas boas, inclusive enxergar que a nossa sede de acertar nas escolhas como skatista, pode nos tornar muito egoístas. Com isto, tenho visto cada vez mais que no mundo não sou só eu e meu skate. Hoje vejo que para algo ser bom para o meu skate, antes tem que ser bom para todos que acreditam em mim e estão a minha volta, principalmente família e amigos. Gostaria de agradecer a Deus pela minha vida e pela oportunidade de poder trabalhar com o skate, com pessoas que gosto e admiro. A revista Tribo Skate e Junior Lemos, pela oportunidade. A você, Camilo, por ter acreditado e corrido junto comigo pela materialização desta entrevista. Minha família e minha mãe, que sempre me apoiou de todas as formas e que muitas vezes, sem dinheiro, se endividou para que não faltassem peças ou tênis em minhas sessões de skate. O Vitor e a Bia, pelas grandes transformações que me proporcionaram em minha vida, os amigos e todos que me ajudaram direta ou indiretamente. tudo isto só foi possível graças a vocês. Meu muito Obrigado! TRIBO SKATE•59


EN TRE V ISTA A M

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WALLIE, ANÁPOLIS

TRIBO SKATE•61


C A SA NOVA FS AIR

PEDRO GABRIEL KISS BRANDÃO ‘PG’ 14 ANOS, 10 DE SKATE RIO DE JANEIRO, RJ FOTOS JULIO TIO VERDE Skate e roupas atuais: Shape Santa Cruz, rodas Bones, rolamentos Swiss Bones e eixos Thunder, Camiseta e boné Homegrown, bermuda Hurley e tênis Nike. O que não suporta mais ver no skate: Os posers. Manobra que ainda pretende acertar: Mctwist. Principal rede social que usa: Insta (@pedrogabrielsk8r) Maior dificuldade em ser skatista na sua área: Falta de vibe no rolé. Skatista profissional em quem se espelha: Pedro Barros. Marca fora do skate que gostaria de ter patrô: McDonald’s. Atual melhor equipe de skate brasileira: Lay Back Beer. Amador que gostaria de ver pro: Augusto Akio ‘Japinha’. (Apoio: Homegrown e 021 Club do Skateboard)

"O SKATE NUNCA MORRE"


CÉLIO KODAI 23 ANOS, 7 DE SKATE SÃO LUÍS DO MARANHÃO, MA FOTOS FERNANDO GOMES

Skate e roupas atuais: Shape Plural, rodas Triangular, rolamentos SKF, calça e camiseta de brechó, tênis Chuck Taylor (Converse). O que não suporta mais ver no skate: Ego. Manobra que ainda pretende acertar: fakie heel chinês. Principal rede social que usa: Insta (@macacoseco). Maior dificuldade em ser skatista na sua área: Informações chegam atrasadas e distorcidas, o que cria uma ilusão na cabeça da galera. Skatista profissional em quem se espelha: Daniel Marques. Marca fora do skate que gostaria de ter patrô: Fly Emirates. Atual melhor equipe de skate brasileira: Plural. Amador que gostaria de ver pro: Felipe Oliveira. (Apoio: Look DatShit)

"VAI DAR CERTO"

SS FS HEELFLIP


C A SA NOVA

JOÃO LUCAS ALVES ‘XUXU’

25 ANOS, 8 DE SKATE DE PORTO ALEGRE, MORA EM CACHOEIRINHA, RS FOTOS DANIEL NUNES

Skate e roupas atuais: Shape e rolamentos Hondar, trucks Thunder, rodas Honey Pot, tênis Freeday, boné, calça e camiseta Wats. O que não suporta mais ver no skate: Gente falsa. Manobra que ainda pretende acertar: Nolie flip bs noseblunt. Principal rede social que usa: Insta (@xuxu_skt) Maior dificuldade em ser skatista na sua área: Ter que sair de minha cidade pra poder andar de skate. Skatista profissional em quem se espelha: Luan Oliveira. Marca fora do skate que gostaria de ter patrô: GoPro. Atual melhor equipe de skate brasileira: Öus. Amador que gostaria de ver pro: Diogo da Silva. (Apoio: Wats, Hondar, Freeday, Street Brands Skateshop)

BS NOSEBLUNT

"O SKATE MUDOU MINHA VIDA"


A RT E POR R E VO L B AC K

DIVERSIDADE De elementos religiosos e a identidade intervenções

PER F I L D O A RT ISTA

S TEPH AN DOIT SCHI N OFF DA ADOLESCÊNCIA SKATE PUNK PARA A ARTE CONTEMPORÂNEA MUNDIAL, O ARTISTA PLÁSTICO AUTODIDATA STEPHAN DOITSCHINOFF É UM DOS MAIORES TALENTOS NACIONAIS DA ATUALIDADE, COM CONVITES PARA EXPOSIÇÕES AO REDOR DO MUNDO. ESTE PAULISTANO TEM INFLUÊNCIAS QUE VÃO DA ARTE SACRA A ASPECTOS URBANOS, FAZENDO TAMBÉM DE SUA ARTE UMA CRÍTICA À SOCIEDADE, INCORPORANDO SIMBOLOGIAS RELIGIOSAS E MILITARES.

TEXTO EDU REVOLBACK X FOTOS JUNIOR LEMOS Como surgiu o interesse pela arte? Desde pequeno desenhava bastante mas queria ser músico. Não fazia muita ideia que era possível alguém se tornar artista, ou viver disso! Minha família era bem conservadora e a gente, minhas irmãs e eu, não tínhamos muito acesso. Não conhecia galerias e os museus pareciam uma realidade muito distante e foi através da música que eu vislumbrei um caminho.

E o seu envolvimento com música e skate? Quando criança, ficava o dia todo na rua! A da minha casa era uma ladeira e um dos passatempos preferidos era construir e andar de carrinho de rolimã, ou jogar taco na rua de cima. Na adolescência o rolimã evoluiu pro 68 • TRIBO SKATE

skate e montei uma banda, que era basicamente punk cru e tosco. Todos os membros andavam de skate. Nessa época também comecei a trabalhar na equipe do (cenógrafo) Zé Carratu e ainda bem jovem participei de sua equipe pintando a cenografia de grandes shows como Black Sabbath, Suicidal, Cypress Hill e vários festivais dos anos 90, como o Monsters of Rock, Hollywood Rock.

Você já trabalhou com bandas de rock, fazendo a arte. Quais trabalhos destacaria? No Brasil, Dominatrix, Polara e Sepultura. No exterior já trabalhei com o Saves the Day, o Buraka Som Sistema e o Hot Rod Circuit; e mais recentemente o Cavalera Conspiracy.

militares, urbanos caracteriza forte das pintuas e do artista

Pra quem não o conhece de longas datas, nem sabe que você começou fazendo street art, com colagens de lambes, adesivos, tags e etc. Nos diga como foi este início? Desde adolescente eu já fazia algumas coisas principalmente stencil, mas nessa época era algo mais ligado ao punk/hardcore do que um trabalho autoral. Daí me distanciei das ruas por alguns anos, por voltei de 2002 quando montei o coletivo FACA com o Carlinhos (Polara, Againe). Foi uma mudança importante, nessa época comecei a aprender a trabalhar em coletivo, explorar novas técnicas e pintar em grande escala.

Hoje, a sua arte é admirada pelos quatro cantos do mundo e seus trabalhos expostos em grandes galerias. Analisando esta bonita trajetória, quais lugares você destacaria e as principais emoções vividas? Alguns projetos foram muito importantes pra minha vida e pro meu crescimento! Projetos que pude colaborar e aprender com as pessoas envolvidas. Talvez alguns dos mais relevantes pra mim foram a ‘De Dentro pra Fora’ no MASP (São Paulo) em 2009, o ‘Brilho do Sol’ (Lisboa) em 2011 e ‘Jurema Preta’ (Tokyo) 2013, entre tantos outros.

→ CONHEÇA MAIS:

DOITSCHINOFF.COM


CAVEIRAS Também estão presentes nas obras de Stephan, em pinturas e máscaras

ALGUMAS de suas obras que estão nas paredes de seu atliê

EDU ANDRADE, AKA REVOLBACK

Vegetariano, vocalista da banda Questions e um dos mais conceituados artistas urbanos da cena brasileira TRIBO SKATE • 69


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ÁUDIO

E NTR EVISTA

MATANZA

DUAS DÉCADAS EM 10 PERGUNTAS TEXTO GUTO JIMENEZ

// FOTO RAFAEL CRUZ

A BANDA COMPLETA DUAS DÉCADAS DE SEU ROCK AGRESSIVO COM LETRAS CRIATIVAS, QUE EXALTAM OS ANTI-HERÓIS EM ENREDOS PRA LÁ DE INCOMUNS. QUASE UMA INSTITUIÇÃO NO CENÁRIO INDEPENDENTE, COMPLETARAM MAIS UMA RODADA DO ”MATANZA FEST”, O SEU PRÓPRIO FESTIVAL, QUE PERCORREU DIVERSAS CIDADES DO PAÍS NOS ÚLTIMOS MESES. RÁPIDO E MORDAZ, TAL QUAL AS MÚSICAS DA BANDA... TOMA!

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O FUNDAMENTAL É O RESPEITO QUE TEMOS UNS PELOS OUTROS DENTRO DA BANDA 20 anos na estrada é algo pra poucas bandas boas. Vocês tinham ideia de que chegariam tão longe? MARCO DONIDA Na verdade nós nunca pensamos muito nisso porque acima de tudo está o nosso amor pela música, amor pelo que fazemos e o compromisso com todos que estão conosco nessa batalha. Mas acho que o fundamental é o respeito que temos uns pelos outros dentro da banda.

E as influências, continuam sendo Johnny Cash e punk rock? O que mais foi incorporado à lista? MARCO DONIDA De fato a banda partiu da combinação de Johnny Cash com The Exploited, mas a lista de influências desde o início foi enorme. Bota aí muito Motörhead, muito thrash metal, Irish, psychobilly, Mano Negra... Ouvimos muita coisa e tudo acaba, de alguma forma, acrescentando algo à nossa música.

Desde o início da carreira, o Matanza vem trabalhando com o produtor Rafael Ramos. Qual é a maior influência dele na sonoridade da banda? MARCO DONIDA O Rafael, antes de ser um grande produtor, é um grande amigo. Sempre tivemos uma ótima relação, de total liberdade criativa. Ele entende nossas ideias, nossas referências, como também as nossas limitações e sempre nos ajudou a atingir o nosso melhor. Considero todos os álbuns do Matanza muito bem produzidos, com excelente sonoridade e devemos isso a ele.

Vocês produzem um belo esporro sonoro e fazem shows memoráveis, atingindo um público que cada vez aumenta mais. Seria essa a fórmula pra uma banda independente atingir o reconhecimento do grande público? MARCO DONIDA Não acho que exista fórmula, mas trabalho honesto, realizado com máximo esforço e dedicação. O público que uma banda possui é consequência direta disso. Não se pode enganar as pessoas por muito tempo com perfumarias, músicas pagas na rádio ou ações de marketing mirabolantes. O que faz com que elas comprem seu álbum e compareçam no seu show é o seu conteúdo. Tudo o que temos devemos ao nosso público, então o mínimo que podemos fazer é sermos honestos e trabalhar muito para apresentar o melhor material que for possível.

As letras são um caso à parte, são tão bem elaboradas que chegam a ser quase visuais. Já pensaram em fazer um roteiro pra um filme ou pra uma animação? MARCO DONIDA As nossas letras têm mesmo um elemento narrativo forte, mas não acredito que elas funcionem tão

bem em outro formato. Pode ser que venhamos a investir em algo assim no futuro, mas por enquanto, não.

A banda foi a primeira a lançar um dual disk no Brasil, o “To Hell With Johnny Cash”. Como isso marcou a trajetória de vocês? MARCO DONIDA Sinceramente? Pra nós, não fez a menor diferença (risos)!

Atualmente, o Matanza tem uma linha de produtos que varia das inevitáveis camisetas até cervejas artesanais, pimentas e decks de skate. O que mais vocês pretendem lançar no mercado? MARCO DONIDA Sabemos que o merchandise é algo muito importante, tanto na divulgação como também fonte de renda, mas o que nos move a fazer qualquer coisa nesse sentido são as parcerias. Podemos vender até tamancos do Matanza desde que haja, entre nós e quem os produz, amizade e confiança. É claro que no material obrigatório como camisetas, por exemplo, procuramos sempre os melhores fornecedores, mas a regra ainda se aplica. Se não houver parceria, não tem negócio.

O Matanza já participou de tributos aos Secos & Molhados e aos Beatles. Algum outro artista que vocês gostariam de homenagear? MARCO DONIDA Nós entendemos que só vale fazer um tributo a um artista se a sua versão acrescentar algo à original, se a sua leitura levar essa música pra algum outro lugar. Por isso consideramos o nosso tributo ao Cash um projeto muito bem sucedido. Partindo desse princípio, temos um leque de opções bastante reduzido porque não nos atrevemos a mexer em músicas que consideramos perfeitas, como as do Slayer ou do Motörhead, por exemplo. Mas, pra não deixar de responder à sua pergunta, seria ótimo de participar de um tributo ao Freddy Fender!

Eu soube que vocês irão fazer uma turnê pela Costa Leste dos EUA e Europa. O que vocês esperam dessa viagem? MARCO DONIDA É mesmo? Quando será isso? Vou adorar sair do país! (risos)

O que podemos esperar do Matanza no futuro? Dá pra revelar algum plano secreto diabólico pós “Pior Cenário Possível”? MARCO DONIDA Um novo DVD. Estamos trabalhando nessa ideia pra 2017. Vamos ver o que acontece...

→ OUÇA: MATANZA.COM.BR TRIBO SKATE • 75


PL A YLIST OLLIE TO FS CROOKED

ALEX MASSOTTI

FOTO MARTIN FEHRER

SS OLLIE

ESTE BRASILEIRO PERCORRE O MUNDO COM SEU SKATE E AS 10 MÚSICAS MAIS ESCUTADAS POR ELE REFLETEM MUITO BEM SEU REFINADO GOSTO MUSICAL, IGUAL AO QUE TEM PRA MANOBRAR.

Pink Floyd, Wish You Were Here Pink Floyd, Breathe Animal Collective, My Girls Don Cesão, Obrigahh EDG, Pensamento Afetado BB King & Friends, Thrill is Gone Led Zeppelin, Whole Lotta Love Lightin’ Hopkins, Baby Please Dont Go A$ap Ferg ft. Future, New Level La Adictiva, Después de Ti, ¿Quién?

Escuta som andando de skate? X Sim Não Ouve música quando? Quase sempre nas viagens e nos momentos de relax. Usa algum fone especial para isso? Sim X Não Fones normais mesmo.

Alex Massotti (Imperial Motion, adidas Skateboarding, OJ Wheels, Krux Trucks, Bones Bearings, Glassy, Subspace Skateshop, 3rd Floor Hardware e Stance Socks) 76

•TRIBO SKATE

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CO LUNA V ISUAL

V I VÃO, V I V E N DO E MANOBR ANDO Aos 41 anos, Frederico Sillmamm - mais conhecido nas ruas como Fred Muriçoca - é hoje talvez o único skatista profissional da Bahia a se manter em atividade intensa pelas ruas. Manobrando, buscando picos, filmando, evoluindo, narrando eventos. Em algum momento você vai encontrá-lo e provavelmente será saudado com um “Salve, legal!”, sua marca registrada, sempre acompanhado da boa energia de quem parece sempre estar com muita vontade de manobrar. Acredito que se trata de um daqueles casos em que a história de vida se confunde com a do skate. Ele simplesmente ignora os padrões que a idade poderia lhe impor e segue orgulhoso de ter o skate como estilo de vida. É difícil imaginar Fred longe desse universo e a paixão dele é fonte de motivação para quem convive com essa energia que se mantém com o passar do tempo. Não sei se existe alguma explicação para isso, mas é notável que a longevidade em cima do skate parece vir crescendo nos últimos anos e, seja você um coroa competindo entre os masters ou um moleque de 10 anos pedindo dica pra aprender a dar ollie, é inspirador demais ver skatistas que se destacaram nos anos 90 em atividade intensa até hoje. Lendas vivas como Adelmo Jr, Fabio Cristiano, Biano Bianchin e muitos outros continuam manobrando muito, inspirados e inspirando outros skatistas. Isso sem citar skatistas gringos que já passaram dos 40 e recentemente soltaram vídeo partes muito cabreiras. Existem também os que, mesmo não atuando mais como profissionais, continuam no mercado como profissionais do skate ou ainda aqueles que desencanaram desse tal mercado mas continuam vivendo o skate com muita vontade em seus cotidianos. Eles não precisaram aumentar o tamanho dos seus shapes, nem passar a usar rodas mais macias. Em Salvador, acontece atualmente um movimento bom demais de presenciar, que é a volta de skatistas mais velhos que tinham se afastado das sessões. Muitos deles hoje são pais de família, cheios de obrigações e cobranças da vida, mas que não perderam a sensibilidade do prazer e a diversão que conhecemos muito bem. Para nós, skatistas, manobrar tem a ver com sentir-se vivo. A cada manobra que aprendemos ou sessão que fazemos é como se afirmássemos ao tempo que, independente da passagem veloz dele, da idade e suas sequelas físicas, estamos vivões e vivendo em cima de nossos skates, flipando na contramão dos padrões. Afinal, parafraseando o músico Marcello Gugu, idade é só um número e skatistas geralmente odeiam matemática.

FERNANDO GOMES: Vivedor do skate

soteropolitano, é fotógrafo e jornalista

78 • TRIBO SKATE

FREDERICO SILLMAMM, FLIP


TRIBO SKATE • 79


CO LUNA SK A T E S AÚ DE

T H I AGO PI NO

#SKATESALVA Há mais ou menos 10 anos, durante a campanha de lançamento

como a obesidade infantil, além de outros problemas de saúde,

do vídeo Duotone, o Fernando Granja subiu um trailer na net

o skate é uma fonte de desenvolvimento motor e saúde como

falando que o skate poderia salvar a vida de uma criança que

as antigas “brincadeiras de rua”, além da integração social, pois

cantava uma música de apologia ao crime, o que me chamou

apesar do skate ser uma atividade “individual” é uma forma de

muito a atenção naquele momento e me fez refletir sobre como

fazer amizades, afinal andar de skate com os amigos é muito

o skate tem uma importância muito maior do que normalmente

mais divertido. Através dele, trabalhamos todo o corpo e a

nós conseguimos ver.

mente, e entre as valências físicas que desenvolvemos temos

A mensagem que o vídeo passa foi comprovada com o

a coordenação motora, equilíbrio, propriocepção, balanço,

tempo, como podemos ver através do trabalho realizado pelo

lateralidade, força, resistência cardiorrespiratória e muscular,

Sandro Testinha, na ONG Social Skate, do Vina com a Next

flexibilidade, potência, velocidade, agilidade, precisão e

Up Foundation, lá nos EUA, o pessoal da Ademafia, que com

consciência corporal, além de queimarmos calorias, fazermos

muito humor e atitude vem ajudando várias pessoas, além de

novas amizades e interagimos com o espaço de uma forma

muitos outros casos como o do skatista Anderson Stevie, que

única e divertida.

através do skate deu a volta por cima e deixou o crime para

Hoje o skate pode ser a saída para a prevenção de muitas

trás, e muitos outros bons exemplos pelo mundo afora. O skate

doenças causadas pelo sedentarismo e uma forma de

é uma ferramenta muito importante para o desenvolvimento

controlar doenças já existentes, como o diabetes e problemas

pessoal e social de crianças, adolescentes, adultos e idosos, e

com a pressão arterial, pois é uma atividade física das mais

transcende rótulos com uma vasta gama de benefícios para o

completas e quando aplicado com parâmetros adequados,

corpo e a mente.

pode salvar vidas. Além de servir como a “fonte da juventude” para muitos adultos que assim como eu se esquecem de todos

O SKATE PODE SER A SAÍDA PARA A PREVENÇÃO DE MUITAS DOENÇAS CAUSADAS PELO SEDENTARISMO

os problemas quando sobem em cima de um skate para se divertir com os amigos. Recentemente passei pela experiência mais fascinante da minha vida, que foi a de me tornar pai, e hoje consigo ver com mais clareza a importância deste vídeo de skate de 10 anos atrás. Entre tantas opções de presentes, o primeiro que dei para os meus filhos foi um skate, pois sei que através deste "brinquedo" eles poderão se divertir, aprender e evoluir na parte física, mental, social e intelectual, como nenhum outro

O skate hoje pode ser considerado um esporte, uma atividade física, um estilo de vida, contracultura, ferramenta de inclusão

brinquedo poderia fazer. O skate pode salvar, mudar, transformar e principalmente

social, arte, uma porta de entrada para a moda, arquitetura,

melhorar vidas, como fez com a minha, de muitos amigos e

design, marketing, música, fotografia, vídeo, comunicação e uma

conhecidos, e tenho certeza que vai fazer com a dos meus

grande fonte de cultura e informação, ou até uma forma de nos

filhos, Valentina e Pietro.

conectarmos com nós mesmos, como explicou muito bem o ídolo Fabio Cristiano na sua entrevista para o site Tribo Skate, falando sobre sua entrada na Plural. Para uma geração de crianças dominada por elevadores, controle remoto, vídeo game e outros aparatos eletrônicos, que contribuem bastante para o desenvolvimento de doenças 80 • TRIBO SKATE

THIAGO ZANONI: Skatista, pai de gêmeos, educador físico, idealizador do Skate Saúde e fisioterapeuta especialista em fisiologia do esporte e do exercício


CO LU NA A G UI NAL D O M E LO

TÓ Q UI O 2020

ESPORTE, ARTE E UMA GRANDE CONTRADIÇÃO Nos últimos meses, diversos skatistas expressaram sua indignação pela entrada do skate nas Olímpiadas. "O skate não é um esporte,"

que não existe o lado arte neles. Eles só querem manobrar. Não que não exista arte nas manobras. Mas competição é

diziam eles. Mas não é bem isso que diz o dicionário. Nele, a

o momento em que o skate se aproxima do que conhecemos

palavra esporte tem muito a ver com o skate. Afinal, ele é uma

como esporte. É a hora em que as pessoas comuns conseguem

atividade física regular em que nos divertimos e mantemos a saúde.

entender o skate. Ou pelo menos, aquela representação de skate.

Assim como a curta definição do dicionário, o ato de pisar na lixa e pegar embalo pode ser a sua maneira de andar de skate ou

Todos estamos errados

apenas uma forma de atingir o gás para jogar a manobra. Você

Esporte? Arte? Estilo de Vida? Não importa o rótulo que você

pode vê-lo do jeito que você quiser. Definir o skate é entrar em

tente enquadrá-lo, ele nunca irá funcionar, pois sempre aparecerá

contradições. "Toda vez que eu tentei colocá-lo numa caixinha, fui

um garoto usando o skate de uma forma que nunca ninguém

surpreendido", disse Fábio Luiz, skatista e produtor musical. Fábio

havia pensado que ele poderia ser usado. Esse é o momento em

Luiz decidiu seguir o caminho da música, levando toda a bagagem

que todos os seus preconceitos irão por água abaixo.

do skate consigo. "O espírito do ‘faça você mesmo’ a concentração e esse lance de aceitar desafios sem reclamar muito," definiu. Isso poderia ser considerado um estilo de vida, definição

Os que falam que o skate não é esporte estão errados, pois eles estão se esquecendo da galera que compete em eventos de alto nível, que usa o skate para ficar em forma. Não existe nenhum

escolhida por Fabinho Pires, 38 anos, dos quais 31 com os pés na

demérito nisso. Eles são parte deste grande mosaico. Já os que o

lixa. Radicado na Finlândia, Fabinho se divide entre as sessões

rotulam como esporte, estão se equivocando profundamente, pois

na rua e seus trabalhos em um ateliê, como artista plástico. Para

também estão fechando os olhos para todos que fazem do skate

Fabinho, o skate é uma forma de expressão," digamos que até

uma arte, alguns deles, mesmo não estando com os pés sobre a lixa.

artística". Ele ressalta importância da originalidade e do estilo

É curioso ver algo tão simples como um "pedaço de pau, com dois exios e quatro com rodas" possa ter se tornado algo

É CURIOSO VER QUE ALGO TÃO SIMPLES POSSA TER SE TORNADO ALGO TÃO COMPLEXO

tão complexo, tão transformador. Essa transformação só existe porque nós interagimos com ele. "O skate o levará a fazer novas amizades, a aprender sobre novas culturas, ter uma relação com a arquitetura," explica Fabinho. Mas para ele, o mais importante é ele ser uma ferramenta para atingir a satisfação própria. Inúmeros skatistas que se tornaram artistas plásticos tiveram como primeira tela a lixa do skate. Esses skatistas levaram o skate para os museus e influenciaram a arte. As marcas, em busca de uma identidade própria, influenciaram a moda. O lado audiovisual

que são muito mais importantes para um skatista do que a

do skate moldou o gosto musical de muitos skatistas que, ao

preocupação em superar o próximo. "Este é o intuito maior que a

se tornarem músicos, mudaram a música. O skate influenciou o

maioria dos esportes impõe," compara.

cinema. É um grande ciclo.

Apesar das definições artísticas, não podemos esquecer

Que tal a partir de agora não ver o skate como um esporte,

o lado esporte do skate. Da legião de skatistas que não

como uma arte ou como um estilo de vida. E, ao invés disso, vê-lo

necessariamente estão engajados com o mundo das artes e da

somente como um instrumento para a sua felicidade.

música, mas simplesmente andam de skate. Tive a oportunidade de acompanhar de perto skatistas como Nyjah Huston, Ryan Sheckler e Chaz Ortiz, em competições como Street League, X Games e Maloof Money Cup. Posso dizer, sem sombra de dúvidas,

AGUINALDO MELO: Jornalista, skatista e alguns outros istas;

é apaixonado por esportes de ação e curioso pela vida

TRIBO SKATE• 81


CO LUNA GUTO J IMEN E Z

SK A TE BOA RD I NG M I LI TANT

ALTOS E BAIXOS Depois que você começa a andar de skate, um hábito se repete

está sempre presente em nossas rotinas. Todas as vezes que

em seu dia a dia: o de cair e se levantar pra tentar de novo.

queremos progredir, temos de nos preparar pra enfrentarmos

Não existe skatista que não caia, já que a lei da gravidade vale

um período nada bem sucedido antes do sucesso, que pode ir

pra todos. O velho bordão “do chão não passa” infelizmente

de uma sessão até mesmo chegando a algumas semanas. O

tem contornos bem doloridos às vezes, fazendo com que até

tempo entre o início das tentativas até o acerto vai depender

desejássemos que passasse do chão pra cairmos sobre uma

da técnica, da frequência e da intensidade de quem anda, não

superfície que castigasse menos os nossos corpos...

existe uma fórmula pra se conseguir determinar isso.

A obstinação é um fato, assim como ter que conviver diariamente com os extremos do sucesso e fracasso.

Sempre que ensinava ou quando incentivo alguém a andar de skate, deixo bem claro que aprender a cair é tão importante

Todas as vezes que se acerta uma manobra, é como se

quanto aprender a se equilibrar e que aquele objeto é algo pro

você tivesse acabado de passar por um teste pra sua própria

qual você deve se concentrar antes de botar os pés sobre ele.

habilidade – e o melhor, um teste formulado e executado por

Um fato é consumado: aquilo que fazemos e amamos é uma

você e mais ninguém. Quando você executa o movimento com

atividade de risco. Se alguém resolve pegar num carrinho ou

o seu skate e, junto com a correta movimentação do corpo,

num long sem a devida atenção e não se ligar naquilo que tiver

consegue se dar bem, sua adrenalina sobe do mesmo jeito

fazendo, vai encontrar o chão rapidinho, seja no terreno que

que a temperatura da sessão. Desde sempre, nós costumamos

for. Por isso mesmo, é bom deixar claro que é divertido sim,

festejar o sucesso alheio como se fosse o nosso próprio êxito.

mas que precisa se ligar enquanto estiver dando um rolé. Caso

Sim, é claro que as observações feitas pela galera da sessão

contrário, as consequências podem ser bastante dolorosas e deixar lembranças bem desagradáveis.

NÓS COSTUMAMOS FESTEJAR O SUCESSO ALHEIO COMO SE FOSSE O NOSSO PRÓPRIO ÊXITO

Talvez essa coisa da “teimosia boa”, aliada ao convívio frequente com os extremos, seja um dos melhores fatos de ser skatista. Conhecer e ampliar os seus limites, jamais desistir fácil, tentar até conseguir, cair e se levantar de novo. Parece até um monte de frases desses livros de autoajuda, não é mesmo? O melhor é que tudo é real em nossas vidas, pois lidamos com isso todas as vezes que pegamos nossos skates pra uma sessão em qualquer pico que seja. A distância entre os extremos do sucesso e fracasso é muito curta em nosso universo, por isso que precisamos conviver com ambos numa boa. Sabemos que,

vão ajudar caso você esteja fazendo algo errado sem perceber,

quando formos bem sucedidos, todas as tentativas terão sido

mas a execução sempre é somente sua. Às vezes você precisa

por uma boa causa, não importa o tempo que se leve pra atingir

adiantar ou atrasar mais o corpo ou a base pra poder acertar

o objetivo. Acima de tudo, conseguimos provar pra nós mesmos

uma manobra, às vezes é um detalhe que passa despercebido,

que estávamos certos ao tentar em primeiro lugar.

que te impede de acertá-la; seja como for, você é o único responsável por sua coordenação motora e habilidade física.

A pior derrota é não tentar – e isso é algo que quem anda de skate desconhece totalmente.

Quando a sua mente conecta tudo certinho com o resto do corpo, não tem como haver erro! Na verdade, tem sim. Como comentei um pouco acima, o fracasso é um estágio passado por todos os que andam de skate em algum momento de suas vidas, isso quando não 82 • TRIBO SKATE

GUTO JIMENEZ: Carioca que está no Planeta Terra

desde 1962 e sobre o skate desde 1975


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Revista Tribo Skate #249