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REVISTA

T

ra mpo

Nยบ 001 | 2ยบ SEMESTRE 2017

UMA RE VISTA PRODU ZIDA PELOS A CADEM IC@ DE JOR NALISM S O DA FSG


TRAMPO

EDITORIAL //

EXPEDIENTE //

Centro Universitário da Serra Gaúcha Rua Os Dezoito do Forte, 2366, Caxias do Sul, RS Reitor Adriano Pistore Vice-reitor Fabio Dall Alba Pró-reitor de Graduação Marcos Paulo dos Reis Quadros Pró-reitora Acadêmica Delzimar da Costa Lima

Pensar, planejar e produzir coletivamente uma revista é sempre um grande desafio. No segundo semestre de 2017, a turma de Projeto Gráfico Editorial Digital do curso de Jornalismo da FSG encarou

Coordenadora do Centro Integrado de Comunicação Camila Cornutti Barbosa

essa tarefa interessante e trabalhosa e o resultado está aqui nestas páginas em formato de uma revista jornalística acadêmica. A Revista Trampo é resultado do esforço de um grupo que se encontrou durante o semestre para folhear revistas, para observar os elementos editoriais e gráficos de uma publicação, para ter contato

Coordenador do curso de Jornalismo

com as principais noções de jornalismo editorial, para conversar sobre texto de revista, para pensar

Felipe Gue Martini

nas pautas e produzir textos e fotos. Trampamos bastante para produzir jornalismo.

Estudantes

para ganhar a vida e de onde se retorna; ou o lugar que pode ser minha própria casa.

Trampo, gíria popular para “trabalho”, “ocupação”, “serviço”, “emprego”; o lugar para onde se vai Everton Mendes de Souza, Thiago Machado,

Essa publicação trata de diferentes formas de TRABALHO: atividade essencial da vida, razão de

Angela Nadin, Ezequiel Simonetto,

ser de muitas das nossas ações, um dos pontos centrais da nossa vivência/sobrevivência. A ideia foi

Marcia Falkemback, Pedro Guterres,

abordar alguns aspectos do mundo do trabalho, trazendo exemplos de ações e iniciativas. São tantas

Vanessa Pedroso, Adriano Padilha,

as possibilidades de cobertura. Por isso, escolhemos alguns olhares para trazer ao leitor, tendo em

Günther Schöler, Paula Larissa Brunetto,

mente sempre que optar por ângulos de um determinado assunto é também uma decisão arbitrária

Taine Mannerick Francisco e Bruna Toledo

que, ao mesmo tempo que prioriza certas perspectivas, silencia outras. Nossa intenção foi abordar o trabalho pensando principalmente nos jovens, entendendo que

Professora

as mudanças no mundo contemporâneo são processuais, mas também velozes. Compreendemos

Silvana Dalmaso

que novas formas de trabalho estão surgindo, que as tecnologias trouxeram outras oportunidades e ambientes para os jovens trabalharem. Em meio à crise econômica e a um Estado por vezes ineficiente,

Projeto gráfico e diagramação Alexander Konze

as pessoas inventam, inovam, criam, reagem. Aparecem novas profissões, novas ocupações, novas formas de atuar no mundo. Nesta edição, falamos de trabalhos que usam a internet e o meio digital, com entrevista sobre

A Trampo é uma revista experimental do

marketing digital e cases de jovens que trabalham com youtube, instagram e blogs. Abordamos as

curso de Jornalismo, produzida no segundo

startups, mostrando exemplos de empresas inovadoras criadas por jovens empreendedores. Tratamos

semestre de 2017 pelos alunos de Projeto

de trabalho em coworking, uma iniciativa coletiva que vem se expandindo no Brasil. Buscamos

Editorial Gráfico e Digital.

compreender a nova reforma trabalhista e o que ela modifica nas relações de emprego. Também trouxemos exemplos de pessoas que trabalham com cultura, essa área tão menosprezada por muitos governos, e conversamos com um jovem, que, a exemplo dos pais, planeja seu futuro no campo. Além disso, contamos um pouco da história de um jovem que deixou os estudos para trabalhar e um tempo depois resolveu retornar à escola. Há ainda crônica, ensaio fotográfico e textos sobre escolha profissional e coaching. Os personagens dessa nossa narrativa são jovens que estudam, trabalham, inovam, que procuraram oportunidades, que buscam ser felizes em suas atividades. Jovens corajosos, sem dúvida. Nosso agradecimento especial ao Alexander Konze, designer egresso da FSG, que de forma muito parceira e profissional, deu o formato de revista aos nossos textos, fazendo toda a diagramação dessa publicação. Na foto, os alunos de Projeto Gráfico Editorial Digital de 2017: Thiago, Pedro, Vanessa, Maya, Taine, Everton, Ezequiel, Paula e Günther. Somam-se se a eles, Adriano, Angela e Bruna.

Imagem da capa // Ilustração de Jorge Gularte

Boa leitura a todos! Silvana Dalmaso – professora Projeto Editorial Gráfico e Digital 2017/02


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A Reforma que beneficia os empregadores

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O que significa trabalho para você?

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Hoje marketing é tudo e tudo é marketing

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Profissão: Youtuber

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Usando o Instagram para estimular a leitura

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A geração Y no meio digital

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Trabalhadores da cultura

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A empreendedora

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As cores do Festival Enxame

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Coworking: você está convidado!

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Startups, evolução pela evolução

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A primeira ferramenta de trabalho é a educação

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O futuro nas mãos sujas de terra

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Coach: motivador, consultor, entusiasta? Tudo isso

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A escolha da profissão

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A arte como “contribuição”


LEGISLAÇÃO //

A Reforma que beneficia os empregadores Já está em vigor a legislação que vai impactar as relações trabalhistas, flexibilizando, inclusive, direitos básicos do trabalhador POR EVERTON MENDES DE SOUZA E THIAGO DA LUZ MACHADO FOTO PEXELS

Com a entrada em vigor da nova legislação trabalhista brasileira no dia 11 de novembro de 2017, todos os contratos de trabalho, novos e antigos, estão suscetíveis às mudanças aprovadas e sancionadas pela presidência no dia 13 de julho do mesmo ano. A nova legislação altera diversos pontos das regras gerais do trabalho que conhecíamos, entre eles, as férias, as horas extras, a jornada de trabalho, a rescisão contratual, as modalidades de contratação e o modo de contabilizar as horas trabalhadas. Para a advogada, especialista em Direito Tributário, Trabalhista e Previdenciário, Querli Polo Suzin, a reforma trabalhista, representada pela Lei 13.467/17, é considerada um retrocesso em termos de direitos trabalhistas que foram conquistados durante décadas. Ela ressalta que essa mudança na lei visa atender diversas reinvindicações antigas dos empregadores. Como por exemplo, o que for acordado entre empresas e sindicato terá força de lei para banco de horas, jornada de trabalho, participação nos lucros, entre outras ações. Entretanto, direitos como salário mínimo, FGTS, férias proporcionais e décimo terceiros, continuará valendo o que a legislação determina. “Do meu ponto de vista, a legislação trabalhista não comportava mudanças,pois o maior problema decorre da aplicação demasiadamente protecionista adotada

pela maioria dos juízes do trabalho”, afirmou. Para Querli, os empregadores são os principais beneficiados com a alteração da legislação trabalhista. Dentre os benefícios, ela destaca a possibilidade de terceirização para qualquer atividade e a limitação da responsabilidade do sócio retirante da sociedade e da empresa sucedida, nos casos de sucessão empresarial.“Acredito que pelo fato desta nova legislação não ter sido amplamente debatida com a sociedade, deverão ocorrer muitos equívocos acerca da sua aplicação. Até mesmo para os profissionais atuantes no direito do trabalho ficaram várias lacunas, principalmente acerca da interpretação do judiciário quanto à aplicabilidade e a constitucionalidade do novo texto”, alertou. No que tange às jornadas de trabalho, ela afirma que a jornada diária continua limitada a oito horas e 44 horas semanais. A inovação está na possibilidade do empregador contratar, mediante acordo individual de trabalho, diretamente com o empregado, em jornada de trabalho de 12/36. Neste caso, é preciso ressaltar que, ou o empregado trabalha com jornada 8h ou com jornada 12/36, não é possível mesclar as jornadas. Já na questão de como ficam as férias e décimo terceiro, não há alteração. “As férias poderão ser divididas em até três períodos, sendo que um deles não


pode ser menor que 14 dias corridos. Os outros não podem ser inferiores a cinco dias corridos cada um”. Questionada sobre o que a população jovem precisa fazer para se adaptar o mais rápido possível a essa nova realidade, Querli ressalta que a educação tem um papel fundamental neste processo. Com a certeza de que com o passar do tempo, as pessoas precisaram trabalhar mais do que atualmente. Mas nada disso irá adiantar se não existir planejamento. “Os cursos precisam contemplar na formação dos alunos, conhecimentos sobre orçamento familiar, planejamento financeiro, a fim de que se possa viver com qualidade de vida. Que possamos nos organizar para trabalhar, mas também ter momentos de lazer, nos planejar desde jovem

para nossa aposentadoria, e para que não tenhamos uma população superendividada”, alertou.

Sobre as reclamatórias trabalhistas Sobre como ficarão as ações judiciais em relação à nova legislação, Querli salienta que verificam-se importantes alterações, as quais ela entende que são justas para evitar a banalização das reclamatórias trabalhistas. Dentre as principais, ela destaca que os prazos processuais serão contados em dias úteis, ou seja, no primeiro dia útil após o conhecimento do fato. O benefício da justiça gratuita será concedido apenas para os trabalhadores que receberem salário

igual ou inferior a 40% do limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social (RGPS). Atualmente este valor é de R$ 2.212,52. “Ou à parte que comprovar insuficiência de recursos para pagamento das custas do processo. Anteriormente, apenas a mera declaração de insuficiência financeira era suficiente para gozar do benefício”, salientou. A parte que perder a ação, no objeto de perícia será responsável pelo pagamento dos honorários periciais, ainda que beneficiária da justiça gratuita. “A litigância de má-fé foi inserida na reforma. A multa varia entre 1 a 10% sobre o valor corrigido da causa, e pode ser aplicada à testemunha que intencionalmente alterar a verdade dos fatos ou omitir fatos essenciais ao julgamento da causa”, enfatizou.

Algumas mudanças da reforma trabalhista

diária. Ele terá direito a férias, FGTS, previdência e décimo terceiro salário proporcionais. No contrato, deverá estar definido o valor da hora de trabalho, que não pode ser inferior Tempo na empresa: a CLT considerava serviço ao salário-mínimo por hora ou à remuneração dos demais efetivo o período em que o empregado está à disposição do empregados que exerçam a mesma função. O empregado patrão, aguardando ou executando tarefas. Agora, algumas deverá ser convocado com, no mínimo, três dias corridos atividades dentro da empresa deixam de ser consideradas de antecedência. No período de inatividade, pode prestar parte da jornada de trabalho, como período para alimentação, serviços a outros contratantes. higiene pessoal, lazer, troca de uniforme e estudo. Trabalho remoto (home office): essa modalidade não era Descanso: o trabalhador que exercia jornada de 8 horas contemplada. Agora, tudo o que o trabalhador usar em casa diárias tinha direito a no mínimo uma hora e a será formalizado com o patrão via contrato, no máximo duas horas de intervalo intrajornada equipamentos e gastos com energia e “(...) pelo fato como para repouso ou alimentação. A indenização pelo internet. O controle da prestação de serviços desta nova intervalo suprimido, independentemente se parcial será feito por tarefa. legislação não ter ou total, era de uma hora extra. Como a nova Terceirização: era permitida apenas para legislação, o intervalo poderá ser negociado, desde sido amplamente atividades meio, como serviços de limpeza da que seja no mínimo de 30 minutos. debatida com a empresa. No início deste ano, entrou em vigor lei, Remuneração: a remuneração por produtividade sociedade, deverão sancionada pelo presidente Michel Temer, que não podia ser inferior à diária correspondente ao a terceirização em todas as atividades ocorrer muitos permite piso da categoria ou salário mínimo. Comissões, da empresa. Ela continua valendo para todas as equívocos” gratificações, percentagens, gorjetas e prêmios atividades da empresa. Haverá uma quarentena integravam os salários. Agora, o pagamento do piso de 18 meses impedindo que a empresa demita ou salário mínimo deixa de ser obrigatório no cálculo da o trabalhador efetivo para recontratá-lo como terceirizado. remuneração por produtividade. Além disso, trabalhadores e O texto prevê ainda que o terceirizado deverá ter as mesmas empresas poderão negociar todas as formas de remuneração, condições de trabalho dos efetivos, como atendimento em que não precisarão fazer parte do salário. ambulatório, alimentação, segurança, transporte, capacitação Transporte: o tempo de deslocamento para ir e vir ao e equipamentos adequados. trabalho era contabilizado como jornada de trabalho, desde Negociação: convenções e acordos coletivos poderiam que seja em transporte oferecido pela empresa. Com a estabelecer condições de trabalho diferentes das previstas mudança, esse o tempo despendido até o local de trabalho na legislação apenas se conferirem ao trabalhador um e o retorno, por qualquer meio de transporte (oferecido pela patamar superior mais favorável ao que estiver previsto na empresa, público ou particular) não será mais computado na lei. Agora, convenções e acordos coletivos poderão prevalecer jornada de trabalho. sobre a legislação. É o chamado “acordado sobre o legislado”. Trabalho intermitente (por período): a legislação não Sindicatos e empresas podem negociar condições de trabalho contemplava essa modalidade. Agora, o trabalhador poderá diferentes das previstas em lei. Não podem ser negociados os ser pago por período trabalhado, recebendo em horas ou direitos mínimos garantidos pelo artigo 7º da Constituição. 5


ENQUETE //

O que significa trabalho para você? Fonte de renda, necessidade, ocupação, produção, realização de tarefas, satisfação pessoal, sacrifício, uma parte da vida. A ideia de “trabalho” muda conforme a sociedade, a cultura, o tempo. Cada indivíduo compreende o trabalho de uma forma distinta, mostrando o quanto polissêmica essa palavra pode ser. Conversamos com várias pessoas, a maioria jovens entre 17 e 30 anos e perguntamos a eles: “o que significa o trabalho para você?”. As respostas revelam perspectivas diferentes que nos fazem pensar sobre a centralidade do trabalho na nossa vida. “É onde “Trabalho pra mim é uma ocupação “É hábito você põe em que nem sempre é prazerosa, que nem diário do esforço, pratica o que sempre envolve dinheiro, como o trabalho perseverança por aprendeu na doméstico, é algo que exige sua dedicação, dias melhores e faculdade, e é um esforço com o objetivo de chegar a um que dá dignidade a assim entra meta, que nem sempre é dinheiro” quem labuta nessa no mundo Vitória, 17 anos, estudante vida pelo próprio dos negócios bem estar ou da ganhando família” dinheiro” “Realizar “Buscar Rodrigo, 25 Bruna, tarefas dadas um objetivo, anos, produtor 20 anos, a você, sendo ter uma fonte executivo estudante remunerado ou de renda, sem não, assim como trabalho não “Trabalho mais é uma de nossas as donas de casa” conseguimos principais atividades, pois exige de Liliane, 21 viver” nós um importante investimento de anos, auxiliar de Davi, energia e tempo para sua realização, garçom 25 anos, tendo como consequência de sua vendedor boa prestação a remuneração” Liliana, 19 anos, vendedora “É buscar através de “Trabalho é contribuir alguns esforços com seus conhecimentos e “Trabalho pra uma realização sua vontade para conseguir mim é onde tiro meu profissional e o melhor resultado sustento e ao mesmo pessoal” independente de que tempo consigo desafiar Vinícius, 21 empresa seja” o que a sociedade anos, DJ Mariana, 19 anos, impõe, pelo menos estudante em alguns aspectos como roupas, horários, “Qualquer “Trabalho é produzir diversas local e expectativas atividade atividades para gerar lucros, que sobre comportamento, realizada na nem sempre são financeiros” digamos assim rs” qual você atinge Patrick, 20 anos, Lilly, 26 anos, artista uma meta e que administrador de rua na maioria das vezes você é “Atemporalmente, trabalho é uma atividade que busca remunerado” suprir a necessidade de subsistência do ser humano. No mundo Erika, 28 capitalista, é uma forma de exploração que visa lucro e que para anos, dona de maximizar tal lucro, incute na sociedade a ideia de centralidade casa. do trabalho na vida” Ana Luíza, 23 anos, estudante de pós-graduação

“Na minha concepção trabalho em primeiro lugar é algo que possa te dar uma situação financeira estável para que você possa realizar seus desejos pessoais. Em segundo é um lugar onde você pode desenvolver suas habilidades e se realizar profissionalmente” Luiz Felipe, 19 anos, estudante “Uma necessidade diária de produzir algo que realmente gostamos e que nos deixa feliz e realizado” Alexander, 37 anos, designer gráfico

“De um ponto de vista geral, se a pessoa já começa a semana pensando no fim dela, se acorda de manhã pensando no fim do dia, se a pessoa está em uma empresa apenas para ganhar o pão de cada dia e pagar as contas, vivendo apenas um dia após o outro, podemos considerar este um emprego. Agora, se a pessoa inicia a semana disposta a fazer a diferença em seu convívio na empresa, se ela não faz apenas por fazer e se dedica naquilo, tendo projetos e sonhos em cima daquela proposta de vida, acordando todo dia querendo ser o melhor, então a pessoa tem um trabalho. Ou seja, gosta do que faz, e faz com gosto” Elias, 21 anos, jornalista

“Para mim, em primeiro lugar, trabalho é fonte de renda, mas também significa satisfação pessoal, crescimento e aprendizado constante” Ariane, 28 anos, professora


“Trabalho é a fonte de renda que necessitamos para sobreviver, mas não traz felicidade, preferia ser livre deste sistema” Giovane, 24 anos, gerente

“Trabalho é um meio de vida e quando a gente descobre o que quer fazer, passa a ser prazer e não trabalho” Bruno, 26 anos, metalúrgico

“Trabalho pra mim é onde consigo sustentar a minha família, e ganho uma retribuição da empresa por prestar meu serviço, e tenho carteira assinada”. José Claudio, 49, metálurgico. “É uma troca de aprendizado remunerado” Gabriela, 26 anos, webdesigner

“Para mim envolve tudo, faz parte do dia-a-dia, oportunidade de conversar com os outros, ter mais relacionamento com as pessoas. É a forma de ter uma renda, oportunidade de realizar meus sonhos” Graziele, 29 anos, analista televendas “É o que dignifica o homem” Sandra, 42 anos, analista de operações web

“Trabalho é uma fonte de renda, mas não é algo bom!” Eduardo, 21 anos, vendedor

“É uma atividade que a gente faz dentro de um cronograma” Nicolas, 23 anos, designer gráfico

“Emprego é uma relação formal de trabalho entre o trabalhador e a empresa, baseado em alguma lei específica, que pode ser a CLT no caso da iniciativa privada e das leis orgânicas se o emprego for “Trabalho “Trabalho público. Trabalho é a ação executada é essência, é uma pelo trabalhador, nem sempre mostra como atividade amparada por um emprego de que você é, realizada, carteira assinada. Pode ser de forma seus jeitos onde voluntário, terceirizado ou de forma e gostos. É indivíduos autônoma. Muitas vezes quem um tipo de se esforçam tem emprego não trabalha e quem identidade de para atingir trabalha não tem emprego. O ato pessoa” uma meta” de trabalhar não está intimamente Manuela Sahra, ligado ao vínculo trabalhista, mas de Oliveira, 23 anos, sim, de vários fatores condicionantes 19 anos, designer de decorrentes de fatores intrínsecos do estudante interiores. ser humano” Fernando, 53 anos, jornalista “É uma atividade que gera renda financeira. O ideal é que essa atividade tenha relação com nossos valores e princípios de vida para que além das questões financeiras traga satisfação pessoal” Graziela, 26 anos, analista de recursos humanos “É um lugar onde preciso ir para pagar minhas contas” Tamara, 24 anos, analista comercial “É algo (atividade) que tu faz, se sente bem em fazer e que te motiva a acordar todo dia e superar os desafios” Neimar, 30 anos, analista comercial

“É fazer algo que se goste” Miriam, 23 anos, assistente de redação

“É uma atividade de onde provém nosso sustento. Contudo, muito além deste conceito básico, é também a atividade que ocupa grande parte do nosso dia, sendo responsável pelo nosso desenvolvimento pessoal” Vânia, 37 anos, analista de recursos humanos

“Para mim, trabalho é algo que deve ser satisfatório. Que você acorde motivado e vá pra casa satisfeito com o que faz no final do dia. Claro que a remuneração e o reconhecimento profissional auxiliam ao que reflete esse conjunto” Suélen, 24 anos, auxiliar contábil e fiscal “Eu acredito que o trabalho é uma forma de nós sermos produtivos dentro de uma sociedade, por mais que talvez fosse prazeroso ficar dentro da caverna, ao redor do fogo, contando piada para os amigos, a gente precisa que algumas pessoas saiam para caçar, que outras pessoas se responsabilizem por manter o fogo aceso, outras vão cuidar das crianças, outros vão passar os ensinamentos que precisam ser passados.... Então, penso que cada um tem como seu trabalho aquilo que sente que é capaz e que está disposto a fazer pelo bem social” Ana Paula, 26 anos, psicóloga e professora

“É uma coisa que me proporciona aprendizado, crescimento profissional e financeiro” Débora, 27 anos, analista de internet “Trabalho é a forma de fazer o que tu gosta ganhando para isso” Felipe, 25 anos, vendedor “É o que a gente precisa fazer para viver na sociedade, comprar bens. Pode ser bom, mas pode ser ruim, pois nem sempre recebemos o salário merecido” Tatiane, 20 anos, assistente de conteúdo “Trabalho pra mim é onde tenho benefícios e ganho dinheiro para me sustentar”. Maria de Fátima, 51 anos, costureira

“Para mim trabalho significa a dignidade da pessoa humana. Não somente por garantir o sustento, mas por edificar um mundo melhor dentro daquilo que nos identificamos” Yuri, 33 anos, diagramador

“Trabalho pra mim é uma luta na qual gera um ciclo onde somos recompensados, ou seja, eu trabalho para eles e eles me recompensam, mas acredito que temos de escolher e estar bem realizados no trabalho que realizamos”. Karine, 21 anos, estagiária

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NEGÓCIOS //

Hoje o marketing é tudo e tudo é marketing Lidiane Campos, 26 anos, mercadóloga, esclarece qual o papel do Marketing para quem quer empreender no meio digital POR EZEQUIEL SIMONETTO FOTO SIDNEI RAVISON

Ninguém sabe ao certo aonde as reformas trabalhistas vão nos levar, e nem o que isso afeta a vida dos jovens que estão iniciando a vida profissional. Com as incertezas do mercado de trabalho brasileiro atual, é cada vez maior a busca por meios alternativos de fazer dinheiro, e um deles é, sem dúvidas, o digital. O jovem, por estar permanentemente conectado, encontra na internet um espaço mais livre e uma oportunidade para trabalhar com mais autonomia e protagonismo. Um estudo realizado pela Fundação Telefônica Vivo, em 2016, ouviu jovens de 15 a 29 anos, de todas as regiões e classes sociais, e descobriu que 49% dos jovens tem o desejo de abrir um negócio com o uso da internet, em até cinco anos. Outro dado interessante extraído da pesquisa foi o fato de que pelo menos 21% já empreendeu de alguma forma no meio digital. Sem dúvidas, o questionamento que não quer calar para quem se enquadra nesse perfil é: “por onde começar?”. Quando se quer empreender digitalmente, ou até mesmo ser um digital influencer , é indispensável o papel do Marketing. Para esclarecer sobre este tema, conversamos com uma profissional da área, a mercadóloga Lidiane Campos, que é mestranda em Marketing e diretora de sua própria empresa, a On.Lab. Lidiane possui uma história parecida com a de muitos jovens da atualidade. Começou cedo no mercado de trabalho; aos 16 anos já era estagiária e fazia serviços administrativos. Na mesma época, ao fazer um curso de administração, despertou sua paixão pelo Marketing quando o teve como uma das primeiras matérias. TRAMPO: Qual o papel do profissional do Marketing no meio digital hoje? Lidiane: Trazer uma visão de mercado para dentro das empresas, porque hoje o Marketing é tudo e tudo é Marketing. É um pouco ambicioso dizer isso, mas se você for analisar profundamente, o Marketing está em cada etapa que a empresa está executando. Em todos os processos, o Marketing precisa estar presente, avaliando e pensando no que o cliente precisa, então, na verdade, o profissional de Marketing está aí para adaptar os processos dos produtos e serviços da empresa para o mercado. Hoje temos uma série de empresas no mercado e todos os dias entram mais

e mais concorrentes, então cada uma acaba tendo demanda reduzida. Elas precisam se preparar para manter uma vantagem competitiva. Esse é o papel do profissional de Marketing, manter essa vantagem competitiva. Se eu sou uma empresa ou pessoa e tenho um serviço ou produto para oferecer, quais são as mídias que são utilizadas hoje em dia para ter um boost maior? É muito fácil para o profissional chegar e dizer “hoje a mídia mais utilizada é o Facebook, depois Instagram, YouTube, algo assim...”, mas, na verdade, eu digo que isso não pode ser feito como uma receita de bolo. Não existe isso...“Ah, o Facebook é o melhor canal”... Para quem? É essa a pergunta que você tem que fazer. Então, primeiro você tem que analisar a empresa, o tipo de negócio, o tipo de cliente, e onde está esse cliente. Então, com relação a esses dados, você vai ter uma noção de qual o melhor canal para se atuar. De repente, para mim o melhor é estar no Facebook, para você, é estar no Instagram. Depende muito. Para alguns é melhor nem estar nas redes sociais, e sim no e-commerce, ou trabalhar mais massivamente a mídia off-line, para depois introduzir uma online. Hoje há muitas empresas que não têm nem o básico no off-line, então como é que eu vou me divulgar online? Se os clientes vierem até mim, eles não vão ver nada daquilo que eu estou vendendo. Quando surgiu o marketing digital e quando ele começou a ficar mais forte? Podemos falar de marketing digital desde que a internet começou. As pessoas começaram a se comunicar, e foi um “boom”, foi algo muito forte. Efetivamente, ele iniciou com os websites, e num principio pensava-se “eu vou falar de mim, vou colocar meu endereço, meu telefone para que as pessoas me encontrem”. Só que isso evoluiu, começamos a colocar nossos produtos lá, surgiu o Google, foi uma onda de acontecimentos e foi muito rápido. No Brasil, a internet veio de 1995 para cá, então é muito recente. Até as pessoas e as empresas terem acesso, demorou bastante, era algo que se tinha muito por questões técnicas, usávamos os computadores e internet muito tecnicamente, depois ela veio a se difundir. Eu diria que a partir do final dos anos 90, início dos 2000, é que começamos a ter o uso mais efetivo do computador e internet para as empresas. De que forma curtidas, acessos e interações nas redes sociais se transformam em rendimento? No momento em que definimos, por exemplo:“o meu canal é o Facebook, eu inclusive conseguiria vender por ele”, criamse metas e métricas para a empresa. De que forma a gente mede isso? Depende. Se é uma empresa de produtos físicos mesmo, a gente vai criar metas de venda, e a primeira coisa é, você vai ver o aumento da lucratividade. Quando você vê isso acontecer, não pode simplesmente dirigir esse resultado “Ah, foi o Facebook”. Não, a gente precisa ter certeza de onde vem. Cria-se formas de identificar de onde esse público está vindo. Uma forma de identificar é quando a compra acontece pelo próprio canal. Outra forma é quando, na hora da compra, você questionar “De onde você veio? Por onde nos conheceu? Como chegou até nós?”, isso é muito importante. Tendo esses dados, você começa a perceber o resultado real. Hoje,


há softwares que avaliam visitas, principalmente do que é pago, como as publicações. De que forma isso está dando retorno? Durante o processo é importante utilizar os softwares para adaptar a estratégia vigente, para melhorá-la, porque, não tem receita de bolo para direcionar o canal. Isso vai depender muito do público da empresa. Quando você consegue identificar o perfil daquele público, você vai direcionar uma estratégia, e aí pode ser que os primeiros resultados não estejam sendo tão efetivos como você imaginava, e você precisa ir avaliando e adequando alguns pontos. Para os jovens,o marketing digital oferece oportunidades no Brasil? Eu acredito que depende muito do ramo e da área de atuação, mas eu vejo sim que existem muitas oportunidades, todos os dias estão sendo lançadas novas plataformas e aplicativos. Muitos desses aplicativos e ferramentas vêm para nos ajudar. Cada dia, estamos vendo coisas novas sendo lançadas. Por exemplo, estou desempregado e com dificuldade de arrumar emprego, então o que posso fazer? A gente tem muitas formas de trabalho no meio digital, inclusive, trabalhos como freelancer, que podem ser feitos nesse meio tempo. É uma oportunidade de você se descobrir em outras áreas, que você de repente nem pensava em atuar. São oportunidades diferentes para quem tem a mente aberta. Só querer.

“Não existe receita de bolo, é preciso avaliar empresa a empresa e a solução é direcionada para o seu negócio”

Sobre o profissional do marketing digital e o digital influencer, você as considera novas profissões? Sim, não só novas profissões, mas a gente precisa desses profissionais. A carga de trabalho ficou tão grande que, deixar tudo isso com uma pessoa só é, inclusive, perigoso, na minha opinião. Porque aí você fica com uma visão muito fechada. Quando você começa a ter mais profissionais trabalhando numa equipe, você consegue ter mais visões diferentes, o que é mais importante, assim flui melhor. Claro que quando você não tem essas pessoas em uma equipe, aí pode complicar. Sabe quando a professora solicita um trabalho de faculdade, cada um faz a sua parte e depois juntam? Cria-se um monstro Frankenstein. Então, é preciso ter cuidado também para que haja comunicação entre as pessoas. Por exemplo, aquela que faz o marketing online a outra que faz o off-line. Tem que haver comunicação, tudo tem que estar dentro de um alinhamento estratégico, se não, não funciona, ou funciona no estilo Frankenstein. Sobre formação acadêmica, o que é necessário para quem quer trabalhar com marketing digital? A formação é necessária, com certeza, mas hoje temos muito acesso à informação, de modo que as pessoas têm condições e capacidade de buscar a teoria, sem ter a necessidade de estar dentro de uma Universidade. Por outro lado, a Universidade passa os conhecimentos de forma mais estruturada, com mais fácil entendimento. Acredito que o profissional que não tem uma formação não deixa de ser mais profissional, o problema são as pessoas que não têm essa busca pela teoria e se deixam levar por novas tendências. Eu diria que é preciso sim ter uma formação, não necessariamente graduação, hoje há muitos cursos técnicos que atendem, e aí buscar uma especialização. O mercado do Marketing é muito dinâmico, então o perfil do profissional não pode ser acomodado.Não pode parar apenas na graduação, tem que ser uma pessoa sedenta por conhecimento.

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YOUTUBE //

Profissão: Youtuber O canal do Boleiro faz sucesso misturando futebol e humor POR TAINE MANNERICK FRANCISCO FOTO YOUTUBE.COM

O jovem caxiense Fagner Lima da Silva, 27 anos, vem conquistando, com sucesso, a visibilidade no Youtube e ficando cada vez mais famoso. O “rei da bufada”, como é conhecido entre seus seguidores, fez da internet seu gramado, utilizando uma das maiores paixões nacionais, o futebol. A “bufada”, o gesto que ele faz quando comemora um gol, virou sua marca registrada. O canal do Boleiro no YouTube foi criado em 10 de setembro de 2016, com vídeos sobre o mundo do futebol e referências à vida de jogadores. Nos vídeos, o Boleiro é o personagem jogador de futebol que se envolve em situações bem engraçadas do mundo da bola. Atualmente seu canal tem mais de 76 mil inscritos, e o número de visualizações dos seus vídeos variam de 30 até 300 mil. De família simples, Fagner trabalhava como pintor e começou a gravar os vídeos de forma bem despretensiosa. “Tudo começou como brincadeira e hoje meus vídeos são vistos até na Europa, e a bufada, que é minha marca, já foi feita por jogadores renomados como o William da seleção brasileira, Davi Luiz e entre outros”. Hoje, ele vive do seu canal, de patrocinadores e participações em eventos. O Boleiro também usa outras plataformas de mídias sociais, como Facebook e Instagram, pois acredita que as redes sociais são formas de criar vínculos com as pessoas. Fagner conta que procura estar sempre no ambiente do futebol e entre amigos para poder ter novas ideias para alimentar o canal, fazendo um “laboratório experimental”. Em média, seu canal posta seis vídeos por mês, mas as outras redes sociais (Facebook e Instagram) estão sempre sendo alimentadas com conteúdos, para manter a interação com o público e também adquirir novos patrocinadores. O Boleiro edita seus próprios vídeos em casa e também conta com os amigos que participam das gravações. Sobre a rentabilidade do Youtube, o Boleiro destaca que é preciso paciência e muito trabalho. “A plataforma é muito rentável, mas leva algum tempo para poder dizer que vive

só disto. Muitas pessoas acham que trabalhar com blogs ou Youtube é apenas postar vídeos e esperar o dinheiro vir, porém há sempre um longo processo por trás”. Fagner conta que busca não ser apelativo nos seus conteúdos e procura sempre abordagens diferentes e criativas para conquistar mais públicos. O Boleiro é otimista e acredita que cada vez mais pessoas vão utilizar plataformas de mídia social digital como meio de trabalho. Fagner tem vários planos para o futuro; o principal é expandir-se para outras mídias, como a televisão, criar outros personagens, gerenciar outros canais, além de consolidar O Boleiro como um dos canais mais influentes do futebol.

Fagner Lima da Silva é o personagem cômico O Boleiro no Youtube


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Dicas do Boleiro para quem quer ter um canal no youtube

Público-alvo Nem todo mundo gosta de futebol ou acha interessante a vida de boleiros, por isso você deve se direcionar a um público certo.

Não parar no tempo Assim como a tecnologia avança, o blogueiro ou Youtuber devem avançar também, sempre estudando e procurando novidades.

Ter paciência Pé no chão Determinar prazos Não vai ser da Ser sempre o mais Ter sempre prazos e metas noite para o realista possível, ter a ajudam bastante para dia que você transparência com o o funcionamento deste terá grandes público é fundamental para trabalho, assim você acaba resultados; tudo o desenvolvimento de um desenvolvendo seu trabalho requer algum trabalho coerente e para de forma mais organizada e tempo. obter reconhecimento. pode medir seu desempenho.

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+ youtubers da serra Além do Boleiro, Caxias do Sul conta com mais youtubers de visibilidade nacional. O comediante Caciano Kuffel, que tem 34.922 inscritos em seu canal, trata, nos seus vídeos, da cultura gaúcha, música e situações engraçadas do cotidiano. Diogo Elzinga, que tem mais de 78 mil inscritos no seu canal, aborda, de uma forma bem descontraída, as características e curiosidades das cidades da região sul.

Diogo Elzinga

Caciano Kuffel

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Renata usa o canal para falar de literatura em inglĂŞs e seus acompanhamentos


REDES SOCIAIS //

Usando o Instagram para estimular a leitura Um livro, uma xícara, uma foto, um post no Instagram e o resultado? Quase mil curtidas e um estímulo para o hobby da estudante Renata Gerzson POR PAULA LARISSA BRUNETTO FOTOS ARQUIVO PESSOAL

A palavra CRISE já ficou saturada, a moda é CRIE, criar um novo modelo de trabalho, reinventar as formas de trabalhar.A juventude e a tecnologia estão muito relacionadas atualmente, resultando desta união a utilização de redes sociais como novas fontes de trabalho e renda, já que o mercado de trabalho dificulta ao máximo a inclusão dos jovens. Nesta incessante busca de novas ideias e novos métodos de trabalho na web, encontra-se a caxiense Renata Irion Gerzson, de 26 anos, uma instagrammer e blogueira de livros em inglês e demais objetos decorativos. Apaixonada e influenciada por Harry Potter, uma “Potterhead” como ela se autodenomina, a estudante de Publicidade, criou há cinco anos um perfil no Instagram uma das plataformas de mídia social mais acessadas, com aproximadamente 800 milhões de usuários no mundo. No seu canal @thereadingseason, ela divulga, através de indicações de livros e de objetos como xicaras, materiais de decoração e outros, a língua inglesa, e recebe em cada postagem mais de 1000 curtidas. A sua página é toda escrita em português, porém a sua paixão pela língua inglesa a faz querer apresentar aos seus seguidores uma nova forma de aprender inglês. Renata conta com 20,6 mil seguidores em seu insta, além do blog Thereadingseason.com, criado e alimentado por ela e por sua amiga Flavia. Renata passa cerca de 30 minutos do seu dia em frente às telas digitais alimentando as redes; além do Instagram, há também o Facebook e o Twitter. Como seu foco é voltado à divulgação de livros em inglês, de todos os gêneros, estes ocupam em torno de sete estantes espalhadas por sua casa, totalizando 1109 livros, muitos deles recebidos por meio de parcerias com editoras nacionais e internacionais. Estes livros são divulgados como dicas de leitura no blog, subdividido em três categorias, para quem tem um nível de inglês básico, intermediário e o avançado, “Assim os leitores podem acompanhar e desenvolver o seu inglês aos poucos”, comenta Renata. A forma desta divulgação é dinâmica e criativa; através de imagens e vídeos curtos, Renata posiciona um livro, uma xícara de um chá, acrescentando seus pés vestidos de uma meia colorida, ou um objeto de decoração, por exemplo. Na descrição do livro em destaque, ela faz uma

breve resenha crítica, mostrando os acompanhamentos que um bom livro deve ter, dependendo do estado físico e emocional do leitor. Conforme Renata, o segredo para manter os seguidores participativos nas redes sociais é fazer o que se gosta.“Sendo bem sincera, para ter uma página com resultados hoje você tem que fazer o que você gosta. Dar atenção para as pessoas que te procuram para conversar e não se importar os números”. “As redes sociais com E esta forma de trabalho é uma estão crescendo só tendência que aumenta, cada vez mais. assim o jovem obrigando a se reinventar, É preciso muito se diferenciar. “Atualmente mercado estudo de mercado, esse da web está tão mas com certeza saturado que para conseguir atuar em redes é uma forma de como emprego sociais e ter ela fixo é preciso ser trabalho que pode muito inovador. É possível, mas render bons frutos” bem mais difícil do que era cinco anos atrás”. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), os jovens, na faixa de 20 anos, são os mais afetados pelo fechamento de vagas de emprego. De 2015 para o mesmo período de 2016 a taxa de desemprego subiu 23,63%. Renata também percebe essas quedas. “Algo me diz que cada vez mais os jovens vão trabalhar em casa e empreender. Porque acho bem difícil que o jovem de hoje queira perder de vista os anos trabalhando para poder se aposentar, por exemplo”. A internet pode ser uma ótima opção de trabalho, uma aposta que vale a pena. “As redes sociais estão crescendo cada vez mais e várias outras ainda vão aparecer no futuro. É preciso muito estudo de mercado, saber o que está fazendo etc, mas com certeza é uma forma de trabalho que pode render bons frutos”.

Essa é estante da Renata em uma de suas postagens no canal, que tem mais de 20 mil seguidores.

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PROJETO DIGITAL //

A geração Y no meio digital: uma jornada de aprendizado, autoconhecimento e experimentação O blogueiro de moda Gustav Braga, 23 anos, um representante da geração Millennials, compartilha como alia o seu projeto digital às atividades do cotidiano ENTREVISTA E FOTOS EZEQUIEL SIMONETTO

O blogueiro de moda Gustav Braga nasceu na cidade de Novo Hamburgo, e reside atualmente em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Com 23 anos de idade, ele faz parte da inquieta geração Y, e evidentemente carrega consigo as características dela.Além disso, possui uma trajetória semelhante aos jovens de sua idade. Começou a trabalhar cedo, com 16 anos de idade, através do programa Jovem Aprendiz. Naquela época, apesar de não se identificar muito com o que fazia, ele sucumbia à pressão social que defende o “tempo de firma”, isto é, que é necessário dedicar um período, às vezes até longo, a construir sua imagem profissional dentro de uma empresa. Por ser inquieto com relação a esse sistema, ele foi trocando e experimentando outras áreas. Aos 18 anos, trabalhou em uma editora e depois no setor de logística da Pepsi. O interesse pela moda surgiu através de experiência em seletivas para a carreira de modelo e, com o tempo, aliou-se à prática de vitrinista, que realizou por um período ao se mudar à capital. Nas horas vagas, ele lecionava inglês, ocupação que acabou tomando uma proporção maior e se tornando uma fonte de renda importante com o passar dos anos. Atualmente, além de professor, o rapaz alimenta o seu projeto digital que leva o seu nome, “Gustav Braga”, com conteúdos voltados à moda, e canta como atividade de lazer. A Revista Trampo entrevistou o Gustav para saber mais da sua história. TRAMPO: Hoje você tem o seu projeto digital “Gustav Braga” presente em três canais: Instagram, YouTube e Blog, que você utiliza para publicar looks e dicas de moda. O que levou você a empreender digitalmente? Gustav: Eu fiquei desempregado entre 2015 e 2016, passei um ano mais introspectivo pensando no que eu iria fazer da vida. Eu havia tido algumas experiências negativas no campo de trabalho, eu estava bem desiludido, porque eram padrões que estavam se repetindo na minha vida e eu não estava entendendo o porquê. Eu queria fazer algo muito diferente, foi aí que surgiu a ideia de fazer voluntariado. Eu queria trabalhar com o público da maturidade, da terceira idade, porque eu achava que eu podia extrair algo disso. Então, eu fiz um curso de nomadismo digital, de como viver de blog, e voluntariei uma manhã por semana em um lar de idosos. Nos outros dias, eu me dediquei ao desenvolvimento de um

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projeto digital, porque eu queria levar isso adiante. O projeto se chamava Humaníssimo, e através dele eu queria passar a imagem positiva do envelhecer e do ser velho também. Esse foi meu primeiro projeto, depois ele seguiu outras diretrizes, focou mais na questão do alcance da felicidade e, me dediquei a ele até o início deste ano, quando decidi me tornar blogueiro de moda. Depois do Humaníssimo, você passou a se dedicar ao “Gustav”. O foco dele é o trabalho com a moda. O que o levou a escolher exatamente isso? Dentro do Humaníssimo, eu já tentava inserir a Consultoria de Imagem. Como consultor de estilo, eu queria encontrar pessoas que estavam desiludidas e abandonadas consigo mesmo e trazer do interior delas características positivas para expressar isso na imagem externa delas. Estudei Relações Públicas na Faculdade, e tive a oportunidade de fazer um trabalho sobre Visagismo, que você estuda as diferentes formas do rosto, e truques para que ela tenha uma expressão melhor, ou até que passe uma imagem desejada.Ao apresentar o trabalho, eu discursei sobre técnicas de comunicação, e cheguei à conclusão de que eu não queria trabalhar a imagem de empresas, e sim de pessoas, eu só não sabia o nome disso. Quem faz imagem de empresas é o relações públicas, e quem faz imagem de pessoas é o consultor de imagem e o pessoal da área de personal style. Eu comecei a me aprofundar e pesquisar mais sobre o assunto, e a minha paixão pelo tema aumentou mais e mais. Eu tinha uma vontade imensa de ajudar as pessoas a expressarem a felicidade em sua imagem, o que incluía a moda também. Quais são os conteúdos abordados no blog? Lá eu falo sobre consultoria de imagem, marketing pessoal e moda. No Instagram, posto meus outfits, looks, meu dia a dia como influencer. Quanto ao YouTube, eu ainda estou estudando, pois eu sou uma pessoa híbrida, quero dizer, possuo multifacetas. Portanto, estou tentando segmentar bem e estudando estratégias, pois não se pode sair dando tiro para todos os lados sem antes se estruturar. Penso que todos os produtores de conteúdo digitais passam por essa fase na qual precisam decidir sobre o que realmente querem falar. Futuramente, eu vejo meu canal como: moda, música boa e até dicas de inglês. Acredito que exista uma forma


mercado? A minha mãe e a minha vó sempre me apoiaram, pois achavam o meu projeto grande, e que podia tocar muitas pessoas. A minha mãe sempre acreditou que eu pudesse viajar através desse projeto. Então, sim, eu penso que os pais devem apoiar os filhos que desejam empreender, mas sempre orientando sobre manter o projeto paralelo a outras atividades. Por exemplo, eu dou aula de inglês para cobrir as minhas despesas em curto prazo, e paralelo a isso, gerencio o meu projeto digital. Eu “O ideal para falo isso porque cheguei à conclusão quem começa no de que existe aquela glamourização meio digital é ter com relação ao nomadismo digital, e muita paciência até mesmo o meio digital em si. Quero e assertividade, dizer, faz-se parecer que é tudo fácil sabendo também demais, quando exige muito trabalho e investimento. Se você já tem uma base que vai cometer boa, fixa e um fundo financeiro como muitos erros” capital de giro inicial, é mais fácil de dar o pontapé inicial. Começar do zero é mais complicado.Até porque, no meio digital, investe-se muito, e a resposta vem em longo prazo, pois é uma construção gradual. Claro que é tudo muito relativo, e depende do que você vai fazer. Por exemplo, você faz sucesso quase que instantâneo porque lança um canal descontraído, de comédia, e acaba agradando mais às pessoas por ser engraçado. Não é impossível de acontecer, só é mais raro. Em qualquer rede social, você estará entretendo de alguma forma, e deve-se prestar atenção até nos detalhes,

de englobar tudo isso, porque tudo é comunicação. Visual, expressiva, verbal, não-verbal, musical, enfim. É possível comparar influenciadores bem sucedidos como Felipe Neto e Kéfera com os que estão começando hoje no meio digital? O que mudou nesse mercado nos últimos anos? Eu diria que não se aplica uma comparação aqui, pois ela pode ser um tiro no pé, uma frustração, para quem está começando agora. Sobre esses mais consolidados, eu acredito que a ferramenta não estava muito bem explorada ainda, e como eles foram os primeiros a chegar, eles simplesmente “aconteceram”. Hoje, é um pouco mais difícil. Acredito que podemos olhar para essas pessoas como uma oportunidade de estudar o case de sucesso delas. Por que caminhos elas percorreram? Quais foram os passos que deram? Isso pode ajudar na estruturação de passos básicos e fundamentais do Marketing em qualquer projeto: público e tipo de conteúdo. Às vezes, queremos produzir um ou mais conteúdos que gostamos e dar certo ao mesmo tempo, mas isso nem sempre funciona. Muitas vezes, nem curtimos aquilo que estamos falando, mas é necessário que eu me enquadre no campo de interesses do meu público, isto é, o que eles estão lendo, consumindo, buscando. Como foi o apoio da sua família quando você decidiu empreender no meio digital? Os familiares devem apoiar quem quer investir nesse


CULTURA //

Janaine Bagatini, 21 anos, fotógrafa

Abner Nodari, 21 anos, cantor

Ilustração de Bruna Nora, 23 anos

OS TRABALHADORES DA

CULTURA Desvalorização e discriminação dificultam o trabalho do artista, que precisa buscar uma segunda ocupação para garantir seu sustento POR MÁRCIA BASTIAN FALKENBACH

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Na manhã do dia 28 de outubro de 2017, um sábado, o bailarino Igor Medina realizava uma performance de dança e declamação poética, integrando a programação do 8º Caxias em Movimento, quando foi abordado pela Guarda Municipal e imobilizado com camisa de força e injeção de tranquilizante pelos socorristas do Samu sob a alegação de que o mesmo estaria em surto psicótico. Independente das versões da história e sem entrar no mérito da abordagem, na manhã da segunda-feira, dia 30, a foto de uma carta de leitor publicada pelo Jornal Pioneiro começou a circular pelas redes sociais devido ao seu teor extremamente agressivo. Dizia ela: “Parabéns à Guarda Municipal e ao Samu. Aquilo que aquele ‘maluco’ estava fazendo e que dizia ser arte, só um corretivo para ele aprender a se comportar como ser humano. Esse tipo de arte se combate com prisão, hospício e trabalho. Vai trabalhar, artista!”. O autor dessa carta – que terá sua identidade preservada – não está solitário em seu pensamento, tanto no âmbito da loucura e da ilicitude quanto no não reconhecimento da arte como um trabalho. Essas poucas linhas resumem um sentimento comum que contribui de forma definitiva para impedir que artistas possam encontrar sustento em sua arte, com algumas poucas exceções. Apesar de toda desinformação acerca da economia da cultura que leva a sociedade em geral julgar investimentos

em cultura como supérfluos, os números gerados pelas artes tanto de retorno econômico quanto de geração de emprego vão na contramão desse pensamento ultrapassado de que cultura não deve ser prioridade. Segundo o Conselho Municipal de Política Cultural de Caxias do Sul, a cada R$ 1,00 investido em cultura, os cofres públicos recebem de volta R$ 3,70 em arrecadação tributária. Tomando por parâmetro a lei municipal de incentivo à cultura – FINANCIARTE – a arte caxiense envolve mais ou menos 1.260 profissionais atuando diretamente nos 70 projetos aprovados anualmente, em média. Atendendo um público aproximado de 600 mil pessoas, o custo da promoção de cidadania através da cultura é inferior a R$ 4,00 per capita, e o lucro social promovido pelo acesso às artes é incalculável. A arte é um dos poucos aspectos da sociedade que ajudam a afastar o homem da barbárie e que contam a história das civilizações. Mesmo assim, seus agentes enfrentam forte discriminação, julgamento público e dificuldades de ordem social e financeira. A falta de reconhecimento e valorização dos profissionais da cultura é, sem dúvida, o maior obstáculo para a manutenção do trabalho artístico. Conversamos com seis artistas caxienses dos mais variados segmentos culturais para saber das dificuldades de se trabalhar com cultura.

Financiarte reduzido em 2017 Apesar das promessas de campanha do atual Prefeito Daniel Guerra e da divulgação de uma verba de mais de R$ 2 milhões no início de 2017, o Financiarte tem sido marcado por descumprimentos legais. Os problemas envolvendo a lei de fomento começaram com um atraso de aproximadamente dois meses para a abertura do edital. Depois de uma inscrição recorde de 184 projetos – a maior desde a criação do edital – houve também um recorde de inabilitações, com um total de 85 projetos inabilitados contra 28 em 2016 e 20 em 2015, por exemplo. A divulgação do resultado em 23 de novembro deixou a comunidade artística em estado de alerta, trazendo na lista um total de 18 contemplados nos sete segmentos, o que dá uma média de 2,5 projetos por segmento, um contraste imenso com os 71 projetos aprovados no ano anterior. A questão, entretanto, se torna ainda mais grave quando se considera que o edital é fruto da lei 6967 de 30 de julho de 2009, que determina em seu artigo 4º que o valor destinado ao incentivo cultural não poderá ser inferior a 1% da receita proveniente do ISSQN e IPTU. Segundo dados levantados pelo Conselho Municipal de Política Cultural, a arrecadação dos impostos citados gerariam uma verba de R$ 1,8 milhão se considerado o piso legal do edital e tomando por base a arrecadação somente até o mês de setembro, porém, o valor efetivamente destinado aos projetos recomendados foi de R$ 600 mil, ou seja, somente 30% do valor previsto em lei.


Respeitável público!

Aline Zilli, 35 anos, e Jonas Piccoli, 36, atores de teatro

Entrelinhas

Natalia Borges Polesso, 36 anos, escritora Depois de vencer o Prêmio Jabuti na categoria Contos no ano de 2016, Natalia se tornou uma das mais notáveis escritoras da história de Caxias do Sul. Colecionando outros prêmios de peso, como Açorianos e Ages, Natalia hoje colha frutos de uma vida inteira de estudos e aperfeiçoamentos na literatura. A ação da escrita é uma constante na vida da escritora há quase uma década, mas ainda antes Natalia já havia ingressado no curso de Letras justamente por amor aos livros. Doutora em Literatura e com pós-doutorado em andamento, a escritora sente na pele a gangorra financeira que é a vida de um artista, mesmo que viva das letras e das palavras, não é possível dizer que sua fonte de renda seja necessariamente sua arte. O motivo da percepção de que não é a literatura que a sustenta é que a venda de livros propriamente dita não permite a um escritor não ter outro aporte financeiro. No caso da Natalia, a vitória em um concurso com o peso do Jabuti rendeu convites para ministrar cursos e palestras que geram retorno financeiro, além do convite para escrever para jornais, mas ainda assim, Natalia oferece aulas de inglês e literatura e já trabalhou com revisão e leitura crítica. Mesmo que algumas oportunidades com retorno financeiro tenham acontecido pelo sucesso de seus livros, a necessidade de se manter em constante atividade para garantir seu sustento também tem a privado de muito tempo que poderia ser dedicado à produção de novas obras. A prioridade acaba sendo no aceite de ofertas remuneradas mesmo que isso atrase sua produção literária. Com a rotina instável e em constante busca de novas oportunidades, Natalia diz sentir falta de um tempo para si, para seu lazer, para sua literatura e suas leituras de diversão, mas sabe que é esse movimento constante que paga as contas no final do mês e, enquanto vivermos em uma realidade onde o autor recebe de 5% a 10% das vendas de seus próprios livros, essa é a melhor alternativa para, apesar de tudo, poder viver das letras.

Transformar o trabalho nas artes em sua fonte de renda foi o que motivou o casal Aline e Jonas a transformar sua agência de publicidade em efetivamente um grupo de teatro profissional. Com 13 anos nas artes cênicas, o Grupo Ueba Produtos Notáveis é hoje um dos mais notáveis grupos de teatro de rua do país, já tendo representado o Brasil em festivais pela América Latina e Europa. Aline descobriu sua paixão pelo teatro junto ao parceiro Jonas, que já soma 20 anos de dedicação à arte. Embora hoje consigam tirar seu sustento do teatro, nem tudo são flores na vida dos dois atores; a dependência de editais públicos e da venda de peças corporativas a empresas já rendeu muitos meses no vermelho e muito pedido de socorro à família. Junto a isso há a necessidade de ser, além de artista, um vendedor do próprio trabalho, o que é sempre um desafio. Além dos palcos e das praças – por onde já passaram peças de todos os gêneros para todos os públicos – Aline e Jonas investiram também na convergência das artes transformando algumas de suas peças em livros na missão de formar, junto às escolas, novos entusiastas das artes. Apesar de toda a dedicação e da profissionalização do grupo, Aline comenta que a valorização do seu trabalho mesmo só é sentida pela reação do público porque a questão financeira é sempre um problema; “muitas situações desmotivam, como a forma que o artista é tratado nas relações comerciais, seja com o poder público ou particular. Muitos contratantes ou curadores pensam que podem colocar valor (financeiro) no seu trabalho. Propõem cachês inviáveis e não compatíveis com todo o estudo e doação que a arte exige daqueles que se dedicam a ela.”, reforça. Mas a paixão pelo teatro supera todas as adversidades e faz com que o casal seja ativista da causa cultural frente ao momento delicado de censura e perseguição que começa a se desenhar no país. Reconhecem as dificuldades da carreira artística e, mesmo já podendo viver – mesmo que sem luxos – da arte que executam, sabem que são uma exceção entre milhares de artistas obrigados à jornada dupla entre sua arte e outra carreira que pague as contas. Apesar do momento delicado em que vive a cultura, Aline e Jonas não se arrependem do investimento no teatro e não têm nenhuma intenção de voltar atrás.


Por trás da lente

Janaine Bagatini, 21 anos, fotógrafa Janaine descobriu a paixão pela fotografia ainda na infância, quando ajudava a avó a organizar seus álbuns. Da fascinação ao trabalho bastou o acesso a uma câmera, que aconteceu aos 15 anos. Com um estilo e uma assinatura própria, Janaine se sente desanimada com a forma como o mercado trata o seu trabalho; “Hoje em dia ainda existem muitas pessoas que acreditam que fotografar é ‘só apertar um botão’”, relata ela, reforçando que essa mentalidade leva o trabalho em fotografia a ser desvalorizado inclusive monetariamente. Mesmo buscando aperfeiçoamento contínuo e colecionando um vasto acervo de seu trabalho – predominantemente retratos, a estudante de jornalismo não tem na fotografia sua fonte de renda. A noção de que “qualquer um faz” reforçada pelas câmeras cada vez mais potentes nos smartphones é o principal impeditivo para transformar sua paixão em uma carreira viável. Janaine relata que a indisposição do cliente a pagar um valor justo pelo trabalho leva muitos fotógrafos a baixarem os preços e desvalorizar toda a categoria, o que prejudica de forma ainda mais definitiva os jovens profissionais ainda não consolidados no mercado. Obrigada a ter outro trabalho como fonte de renda, Janaine acredita que o trabalho de fotografia como se conhece hoje está com os dias contados e que uma nova categoria já está surgindo: o profissional de fotografia que alia foto e vídeo, já popularizado através das redes sociais. Mas apesar de tudo, Janaine é otimista. Acredita que o mercado tem levado a um reconhecimento maior da fotografia como experimento de imagem através do retorno da fotografia analógica, arte que a interessa.

Desenhando

Bruna Nora, 23 anos, ilustradora Os primeiros traços, para além dos desenhos tradicionais infantis, vieram aos 13 anos. Mesmo com o amor pela ilustração – seu principal hobby de adolescência – Bruna só se reconheceu artista aos 19 anos. Atuando há anos no ramo publicitário junto aos pais donos de agência, Bruna usa a ilustração como “bico” porque a renda obtida com a sua arte não é o bastante para garantir seu sustento. Ao longo de sua experiência lutando para atuar integralmente com sua arte, Bruna já se deparou com diferentes situações de desvalorização, desde aquele que acredita que o artista merece remuneração mas não remunera por não priorizar a arte dentro de sua capacidade financeira até aquele que, independente das necessidades do artista, quer consumir sua arte sem pagar por isso. Segundo a visão de Bruna, a carreira artística “é 8 ou 80”, existe uma maioria que “passa anos desenvolvendo teu trabalho na miséria”, alguns conseguem perseverar e efetivamente ganham dinheiro com arte, mas é um caminho longo e geralmente muito sofrido, o que faz com que muitos artistas acabem desistindo no caminho.

Mas para além de todas as dificuldades de um artista, Bruna ainda relata o problema do machismo que cerca o universo de histórias em quadrinhos – sua especialidade – onde o trabalho das mulheres é considerado “menos arte” do que o dos homens e a recepção ao trabalho feminino é, em geral, cercado de muito preconceito e agressões gratuitas. A Bruna tem uma página no Facebook em que divulga seus desenhos e ilustrações.

Ação

Pedro Nora, 30 anos, cineasta Apesar de preferir a alcunha de “contador de histórias” em vez de “artista”, Pedro é inegavelmente um trabalhador das artes. Com 10 anos de carreira e formação em cinema, seu receio com o uso do termo “artista” gira em torno do preconceito que se tem contra esses profissionais e os estereótipos construídos sobre eles como “vagabundos”, “degenerados” e aproveitadores do dinheiro dos impostos do cidadão de bem. Mesmo sendo profissional em uma das artes mais consumidas do planeta – o cinema – Pedro não se sente valorizado. Além das dificuldades de ser um cineasta longe dos holofotes e das páginas de revistas de celebridades, um dos maiores obstáculos sentidos na sua rotina de trabalho é a cultura local que acredita no trabalho como uma rotina de horas pré-determinadas e um salário fixo no final do mês, coisa que se difere em demasia do trabalho artístico. Como a maioria dos seus colegas, o trabalho com cinema não é sua fonte de renda e a necessidade de um emprego formal prejudica sua produção, em especial considerando que Pedro é pai de família, o que reduz sua possibilidade de correr riscos em nome de sua paixão pelo cinema.

Solta a voz

Abner Nodari, 21 anos, cantor Apresentado ao canto aos sete anos, alguns anos depois de ingressar nos estudos de piano, Abner faz questão de esclarecer as diferenças entre um cantor e um vocalista, apontando o cantor como o artista já sob os holofotes e o vocalista como o artista em processo de domínio da técnica, o que, em teoria, tornaria todo profissional de canto um vocalista antes de ser um cantor. Apesar de estar trilhando um bom caminho sobre os palcos, inclusive abrindo shows de artistas de renome, a renda que Abner garante através da música não é como cantor, mas como professor de canto. Ele acredita que todo artista se adapta à realidade em nome da própria sobrevivência, encontrando alternativas para exercer sua arte mesmo que não diretamente, como é o caso de seu trabalho como professor de canto. Mas nem um trabalho como docente o poupa de comentários como “você só faz isso ou trabalha também?”. Embora seja um julgamento potencialmente frustrante a um artista que se desdobra para garantir a própria renda, Abner considera que sua verdadeira profissão é justamente como professor, atividade que o garante renda sem que precise abrir mão da música.

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A arte muda o mundo e o artista é o início de tudo percebê-lo e valorizá-lo assim. Entretanto o torna único o fato de ser dotado de uma sensibilidade que talvez não encontremos em outros profissionais. Além disso, é um profissional que desenvolve diversas habilidades pois a produção e a distribuição de sua obra depende, quase sempre, do seu trabalho. Felizmente hoje o artista tem possibilidades de cercar-se de profissionais que atendam e façam a gestão de suas carreiras, como o empresário e o produtor.

“O artista é um profissional, de fato e devemos percebê-lo e valorizá-lo assim. Entretanto o torna único o fato de ser dotado de uma sensibilidade que talvez não encontremos em outros profissionais.”

Caliandra Paniz Troian tem 32 anos, é gestora cultural e presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Caxias do Sul, entidade que representa os interesses dos artistas locais junto ao poder público. TRAMPO: O que te impulsionou a trabalhar com cultura? Caliandra: Desde a infância acompanhei o trabalho de meu pai no ramo do entretenimento, que sempre me encantou. Quando em 2003 entrei para o curso de Relações Públicas, passei a me envolver efetivamente através de estágios e estudos voltados à área da cultura pelo poder que ela tem de transformar pessoas e vidas. E aqui estou, há 14 anos desenvolvendo minhas habilidades em produção e gestão cultural. Vivemos em uma cidade industrial onde o valor do trabalho é medido muito mais pelo esforço braçal do que pelo resultado em si. Na sua opinião, essa percepção afasta os jovens dos trabalhos artísticos? Em termos. A sociedade mudou, evoluiu, o mercado de trabalho e as formas de trabalho também. Uma vez que a economia criativa passou a ser valorizada pela sociedade como uma nova forma de relação comercial, os jovens passaram a identificar-se com profissões desta cadeia. Hoje estão muito mais próximos da produção cultural e de profissões criativas do que na época da minha adolescência, por exemplo. Para você, um artista é um profissional como outro qualquer? Sim e Não. O artista é um profissional, de fato e devemos

É possível viver de arte e cultura em Caxias do Sul? É possível, embora não seja fácil.

Quais as maiores dificuldades que você enfrenta perante a classe artística e o poder público? O entendimento por parte do poder público da importância da manutenção das políticas culturais, manutenção dos investimentos do município nos programas e ações, e a continuidade daquilo que vem sendo construído por todos aqueles que produzem arte e cultura, independente de gestão. E o envolvimento da classe artística na elaboração, implementação, controle e avaliação das políticas públicas de cultura no município. Qual a importância da arte e da cultura para a economia de um município? A produção cultural movimenta a chamada cadeia produtiva da cultura, que agrega diversos profissionais e empresas, especialmente no setor de serviços. Estes, quando contratados, geram riquezas aos cofres públicos em forma de impostos, além de gerar postos de trabalho temporários ou permanentes. Os profissionais contratados investem seus ganhos em outras coisas como alimentação, moradia, vestuário, lazer, tecnologias. E assim, através deste ciclo, contribui-se para o desenvolvimento da economia. Existe uma perspectiva, uma “luz no fim do túnel” para o jovem artista? Com certeza. As possibilidades são muito mais amplas do que há alguns anos. Que conselho você daria a um jovem artista que deseja fazer de sua arte a sua profissão e seu sustento? Experimente, estude, especialize-se. Busque compreender sobre todo o processo, a parte do todo, de gestão a marketing. Foque muito na sua produção artística mas não deixe de focar na construção da sua imagem, seu posicionamento no mercado cultural. Cerque-se de bons profissionais, divulgue seu trabalho. Forme público e fidelize-o. Tenha foco e persistência. A arte muda o mundo e o artista é o início de tudo.


CRÔNICA //

A EMPREENDEDORA Eu tinha 8 anos quando me dei conta que minha mesada não daria conta dos livros que eu pretendia comprar na feira do livro da escola. Nessa época meu pai trabalhava como representante comercial de uma fábrica de calçados masculinos e eu gostava de procurar no escritório dele coisas com as quais eu poderia brincar. Foi numa dessas que encontre uma caixa de canetas guardada em um armário. Como já esboçava minhas primeiras histórias e já era alfabetizada,tinha o conhecimento que as canetas existiam porque eram justamente as canetas que eu usava na escola, o que eu não sabia era que meu pai tinha uma caixa delas. Basicamente uma trombeta de recepção ao paraíso. Na verdade o que eu não sabia era que ele recebia caixas e caixas para distribuir entre os clientes e que, daquela vez, a fábrica mandou a mais. Pedi de presente. No auge de minha cara de pau infantil, pedi que meu pai me desse uma caixa com 20 canetas de presente. Claro, estamos falando de um causo de quase 30 anos atrás, então não lembro o que exatamente ele respondeu, ou se ele me fez qualquer pergunta. Sequer me lembro que meu pedido já tinha a intenção de fazer o que eu fiz no dia seguinte, só sei que fiz: levei a caixa para a escola e vendi aos meus colegas. “Vivemos a era do Sim, todos estávamos na negócio familiar, faixa dos 7, 8 anos e eu montei uma das profissões banquinha na minha classe no recreio nobres, dos para vender canetas. Elas não eram bonitas, eram concursos públicos como opção de lisas, cinzas com a marca do calçado que meu pai vendia estampada. carreira” Sequer eram realmente boas, mas em 10 minutos eu tinha vendido tudo. A professora teve lá sua pequena crise de pânico, como explicar aos pais que suas crianças voltaram pra casa com muita fome porque trocaram o lanche por uma caneta feia sendo vendida dentro da escola para um bando de criança sem noção do valor do dinheiro? Depois que terminou o recreio e fiquei de bolso cheio junto a uma caixa vazia, a professora deu uma breve e superficial explicação de economia, não lembro o que ela disse, mas lembro que me senti meio idiota de não ter conversado com um adulto antes de inventar um preço, porque eu tinha vendido barato, bem barato. De qualquer forma, as 20 canetas me garantiram um ou dois livros a mais na feira da escola e foram meu primeiro ato empreendedor – certamente o mais bem-sucedido até hoje. Depois desse fato, nunca mais tivemos, em sala de aula, qualquer incentivo ao empreendedorismo – e não teríamos tido nenhum se eu não tivesse vendido canetas

Craig McCracken

POR MAYA FALKS

no recreio. Fui aluna de escola particular onde éramos incentivados às carreiras mais “nobres” que dessem mais status e o máximo que chegávamos perto do negócio próprio era o incentivo a manter vivo o negócio da família. Nada nosso, nada inovador. Vivemos a era do negócio familiar, das profissões nobres, dos concursos públicos como opção de carreira. Hoje vivemos a era do “e agora?”.As próprias reformas trabalhistas nos empurram a um abismo, a um limbo profissional em um tempo em que os empregos tradicionais estão em vias de extinção. Não estamos prontos pra isso, não fomos preparados pra isso, ou pelo menos não todos nós. Pela primeira vez na história os papéis se invertem; já não somos mais nós – os mais velhos – que ensinamos os jovens sobre a vida, agora são eles que nos ensinarão a sobreviver aos novos tempos.

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ENSAIO //

No início do mês de novembro aconteceu a primeira edição do Festival Enxame. Um festival que só ocorreu graças ao trabalho de diversos coletivos da serra gaúcha. O evento contou com a presença de bandas incríveis de vários cantos do país; também ocorreram debates, bazares, tudo isso no meio da natureza do Cheiro de Mato Eco Camping. Mesmo em um 04 de novembro chuvoso e nublado, típico clima caxiense, a estreia do Festival Enxame marcou a vida de muitos e com certeza este foi o primeiro de tantos que podem vir por ai. Confira alguns registros analógicos do evento As fotografias foram produzidas com dois tipos distintos de câmeras, uma totalmente manual, a Praktica MTL3, que começou a ser produzida em 1978, e outra ainda analógica porém de uma geração mais recente (final dos anos 90), a Canon Rabel Gii, totalmente automática. Em ambas as câmeras foram usados filmes Kodak colorplus ISO 200.


AS CORES DO

#FestivalEnxame TEXTO E FOTOS ANGELA NADIN

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COWORKING //

: g n i k o!

r d a o d i v w n o co

C cê está vo

são smoenta i m a in es ia e dbalho apr m o n ra to ia, auidade de t m o n o al ELS ão, eecssa mod ç e PEX a r g ASIL e e R t B u n A I tos q S OC FOTO pon LEDO A TO N U R B POR ENTREVISTA E FOTOS EZEQUIEL SIMONETTO

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Se com o avanço tecnológico as máquinas vêm substituindo a mão de obra de muitos trabalhadores, outras tantas profissões também acabam surgindo de modo a ampliar as possibilidades de atuação, seja por necessidade do mercado ou mesmo do próprio profissional que precisa sobreviver de alguma forma. Para garantir a permanência dentro deste círculo vicioso proporcionado pela globalização, não basta apenas executar as atividades com êxito, é preciso também garantir as condições de trabalho que compensem em todos os aspectos aquele que abre mão de direitos trabalhistas para avançar enquanto empreendedor, mesmo que micro. De acordo com as estatísticas do Portal do Empreendedor, hoje, cerca de sete milhões de profissionais atuam como microempreendedores individuais no Brasil, os tais “MEIs”. No RS, são mais de 400 mil. Os números refletem uma mudança no perfil das relações trabalhistas, já que eram empreendedores informais, antes de se registrarem desta forma, conforme o Perfil do Microempreendedor Individual 2017, realizada pelo Sebrae. A mesma pesquisa revela, com base em estudo apresentado pelo IBGE em 2014, que “como a maioria dos MEI não têm empregados, a quase totalidade dos MEI seria classificada como conta própria pelo IBGE.

Ao mesmo tempo, aqueles trabalhadores por conta própria que não têm CNPJ e nem sócios seriam candidatos a virarem MEI”, o que sugere uma situação de aumento constante deste público. Neste sentido, melhorar as condições de trabalho é algo que se almeja para o sucesso profissional. Desta forma, empreendedores que buscam economia, profissionais variados e interados no desempenho dos serviços, além de dinamismo e autonomia, têm aderido a outro modelo de trabalho diferente do convencional. É sob esse contexto que o modelo coworking se desenvolve, introduzindo um ambiente colaborativo aos novos profissionais do mercado. Muitos daqueles que antes se limitavam ao espaço de casa, passaram a ampliar o leque de contatos, serviços e também apostaram em ambientes mais completos e econômicos, sem grandes riscos, como o financeiro. O site do Neoworking, escritório compartilhado criado por empreendedores para empreendedores, conforme definição da própria página, explica a atividade como “um novo modelo de trabalho que tem o objetivo de incentivar a troca de idéias, compartilhamento, networking e colaboração entre diferentes profissionais que podem ser de diferentes áreas.


Tudo isso presencialmente e realizado em um escritório físico”. A iniciativa, baseada no compartilhamento e troca de idéias, surgiu em 2005 nos Estados Unidos, e chegou ao Brasil em 2008, com um escritório localizado em São Paulo. Ainda de acordo com as informações do Neoworking, a ideia, que vem crescendo, já apresenta centenas de escritórios como este que iniciou os trabalhos, o que sugere um formato que veio para ficar.

Há seis meses uma Oca em nossa aldeia “Inovação em empreendedorismo. Geração de novos negócios dentro de um ambiente. Oferece estrutura completa para que os negócios se desenvolvam.” Esta é a definição de coworking pelo co-fundador da OCA Brasil, com sede há quatro meses em Caxias, Danillo Sciumbata. Com origem em São Paulo, em 2015, o modelo voltado tanto para profissionais liberais, autônomos ou vinculados a multinacionais, se instalou também na Serra. De lá vieram parcerias, elemento valioso nos projetos de negócios. Já aqui, além de ações na comunidade, já que isso é bastante valorizado pelos criadores, a OCA também fez parcerias com entidades de cunho assistencial e de fomento de empresas por meio de programas fixos que estimulam contato, como a Associação Criança Feliz e a Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias (CIC). Com 60% de lotação do espaço por empresas de referência, como da matriz industrial da cidade, o modelo é muito novo para o estado, como um todo, tanto em termos de tamanho e alcance, quanto infraestrutura, conforme Sciumbata. Como coworking, ele explica, o lugar oferece desde salas

de trabalho utilizadas de forma fixa ou rotativa, auditórios, academia, cafeteria, entre outras áreas. Sobre as atividades que fazem parte deste núcleo, se encontram serviços de gestão de negócios, consultora, desenvolvimento de recursos humanos, direito, engenharias, arquitetura, entre outros. Por conta disso, é possível observar o constante nascimento de projetos,alguns fluindo,outros nãos,o que chama a atenção para outras experiências notadas pelo empresário neste meio, de “efeito manada”. Pois, para ele, “há uma visão equivocada do conceito. Trata-se de uma comunidade empreendedora. Não é aluguel de mesa ou de sala, é uma transformação do modo de trabalhar”. O bairrismo é bastante grande, na observação de Danillo. As pessoas são desconfiadas, mas quando se identificam, isso é deixado de lado. O que justifica toda a disposição “Coworking é a atitude empreendedora que compartilha depositada por ele para a mudança recursos em função de um de cultura nos propósito final” ambientes que é, afirma, talvez “o maior desafio no sul”, já que crença, valores e princípios são mais difíceis de alterar. Outro fator que motiva tudo isso também pode ser a forma orgânica com que as marcas, serviços, parcerias e ideias se fundem e transformam, pois isso é coworking, “a atitude empreendedora que compartilha recursos em função de um proposito final”. Quando questionado sobre o papel que o estado e algumas organizações podem ter no fomento a este novo modelo de trabalho, Danillo, que reconhece a importância do estímulo, mas também da autonomia, não pensa muito para responder: “Nasce no sonho das pessoas!”


STARTUPS //

STARTUPS evolução pela evolução

Novas empresas de baixo investimento trazem soluções para problemas cotidianos. POR GÜNTHER SCHÖLER ILUSTRAÇÃO CALIXTO BENTO

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Depois da Revolução Industrial o mundo se tornou mais mecanizado. Como exemplo, as pessoas não mais costuravam roupas nas fábricas, mas sim operavam as máquinas que exerciam essa função. Novos métodos trouxeram novos problemas e mais tecnologia era necessária para atender às necessidades presentes. Dessa forma opera o mundo até os dias atuais, tempo em que novas soluções precisam ser eficientes e funcionais. Assim surgem as Startups, empresas low-budget e com soluções que visam resolver problemas e trazer novidades para o mercado e o mundo.

A doutora em Administração, Uiara Gonçalves de Menezes, define este modelo de empresa como ideias ou projetos que não precisam estar constituídos juridicamente, bastando que uma pessoa ou grupo tenha um projeto que possa ser replicado para um grande público. “Esses grupos, esses projetos, vem com alguma coisa completamente nova para o mercado. Algo que o mercado ainda não está acostumado a ver”. Algumas são tão inovadoras que dão certo mercado e chegam a valer $62,5 bilhões de dólares, como a norte-


americana Uber que revolucionou o transporte privado e tornou-se multinacional e adorada pelo público. Outro caso é da também norte-americana Airnbnb que permite aos usuários locar um quarto de sua casa para que uma pessoa fique por tempo determinado. Criado aqui no “Esses projetos trazem Brasil, o Easy Taxi permite coisas completamente ao usuário solicitar a acompanhar novas, algo que o em tempo real o mercado ainda não está deslocamento do veículo; a empresa acostumado a ver” conta com mais de 700 mil taxistas filiados. Uiara é integrante de uma associação chamada “Acelera Serra”, que busca fomentar o ecossistema de empreendedorismo de startups na região da Serra Gaúcha. Com esta experiência, ela afirma que, muitas vezes, quando um projeto, mesmo sendo muito bom, acaba falindo ou “quebrando”, a situação rumou a este ponto por forças alheias ao criador da startup. Por isso, é importante não desistir, mas sim, aprender com

o fato e buscar voltar ao cenário de forma mais assertiva para atingir o objetivo principal. Ela explica ainda que o modelo startup de negócios é arriscado devido à quantidade de barreiras que o empreendedor/criador encontrará em sua trajetória, desde falta de espaço no mercado e aceitação do público-alvo até barreiras jurídicas que o país poderá impor ao projeto. Como exemplo, o já mencionado Uber que poderá sofrer limitações no Brasil caso a PLC 28/2017 seja aprovada no Senado. “Aqui na região da serra têm surgido startups, temos um grupo de pessoas que busca trazer esses projetos à tona. É o governo, as instituições de classe como Sebrai, CIC e CDL. Instituições de ensino têm de estar presentes pois existem muitos estudantes envolvidos, muito conhecimento proveniente da universidade”. Como professora do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), Uiara compreende que a instituição de ensino deve dar suporte aos alunos que criam startups pois do meio acadêmico saem grandes projetos e com incentivo a pesquisas e trabalho, o cenário da Serra gaúcha evoluiria.

Startup é uma forma inicial de abrir uma empresa e colocá-la em funcionamento, visando o rápido retorno financeiro. Um modelo de negócios que prevê rápido crescimento e custos baixos. A brasileira Nubank é um exemplo de startup de sucesso do setor financeiro e tecnológico. Em 2016, o Sebrae mapeou no Rio Grande do Sul mais de 150 Startups digitais, sendo que 75% das pessoas que trabalham nas Startups tem até 35 anos de idade e 67% das empresas possuem até dois anos de existência. A maioria delas está situada na região metropolitana de Porto Alegre.

Contra o desperdício A empresa “Piipee” cria aparelho para economizar água no banheiro POR ADRIANO PADILHA

A “Startup Piipee” foi criada em 2010, por Ezequiel Vedana da Rosa, 29 anos, de Bento Gonçalves, com o intuito de criar um aparelho para reduzir o consumo de água nos vasos sanitários. Foi produzido um mecanismo de baixo custo, mas com eficiência e alta qualidade, podendo ser acoplado em qualquer banheiro. Após seis meses de estudos e testes, no dia dois de novembro de 2015 o produto “Piipee” começou a ser comercializado no Brasil e no exterior, através do seu site oficial contendo informações sobre o produto e uma loja virtual. Neste momento a empresa já contava com aproximadamente dez mil itens encomendados em préordem. Com tudo isso ocorrendo de forma muito rápida, foi possível perceber o quanto a iniciativa foi bem-sucedida. As entregas dos produtos estavam programadas para início de janeiro de 2016, assim, havia tempo de receber o pagamento antecipado, quitando as despesas com os fornecedores, e ainda sobrando verbas para a produção

de mais aparelhos, consequentemente mantendo a sustentação da empresa. Rosa conta que a maior dificuldade desde o início da criação do projeto foi a questão financeira. A falta de incentivos foi uma barreira, o que exigiu um rigoroso controle do departamento financeiro sobre o fluxo do caixa. Hoje a empresa conta com três funcionários na equipe, sendo que todos possuem contratos via CLT (modalidade baseada na Consolidação das Leis Trabalhistas), ou seja, a empresa opera de forma simples, com o contratado tendo direito a receber o 13º salário, férias remuneradas, FGTS e Seguro desemprego no caso de demissão involuntária. O produto “Piipee” funciona de forma simples e rápida. Após usar o vaso sanitário, a pessoa não deve acionar a descarga, mas sim o Piipee. O mecanismo libera uma solução biodegradável com agentes físico-químicos que removem o odor, alterando a coloração e higienizando o banheiro, sem o uso de água.


STARTUPS //

Preservação ambiental por startup Jovem empreendedor gaúcho cria roupas ecológicas TEXTO E FOTOS GÜNTHER SCHÖLER

Dessa necessidade de reinventar o mundo e buscar soluções para problemas da contemporaneidade, surge a Levi Thai, uma startup de São Sebastião do Caí, criada em 2017, que produz roupas de material ecológico com o objetivo de preservar o meio ambiente. O estudante de engenharia elétrica Gabriel Laux dos Santos, 21 anos (foto), criador da empresa, conta que “quando tinha 14 anos, queria ter uma marca de roupas, mas não era levado a sério devido à idade”. A ideia ficou adormecida até ele estudar no colégio Liberato de Novo Hamburgo onde teve contato com voluntariados e questões sociais que o inspiraram a criar um projeto de roupas ecológicas e sustentáveis. Para colocar a ideia em prática, Gabriel conta que começou a “correr atrás, dar a cara a tapa. Pesquisar sobre tecidos, pegar amostras com empresas, procurar costureiras etc.” A Levi Thai é formalmente uma empresa (possui CNPJ); os tecidos são comprados diretamente das fábricas. Mesmo já inserida no mercado, e possuir coleções, a marca ainda é recebida com receio devido à questão ecológica trazer uma ideia de baixa qualidade no produto, o que é um pensamento errôneo, visto que o material utilizado é o mesmo das roupas comuns, apenas a matéria-prima para confecção é obtida de maneira ecologicamente correta (poliéster de pet reciclado e o algodão 100% orgânico). Devido ao formato startup de baixo investimento, a empresa hoje tem apenas um único funcionário fixo, que é o próprio Gabriel, e a sua produção toda é terceirizada.A marca não está presente em lojas físicas, apenas no e-commerce e em exposições, porém, para um futuro, não é descartada a ideia da Levi Thai abrir um ponto fixo que funcionará como coworking com outras startups. Mas este plano ainda

Gabriel, 21 anos, criador da startup Levi Thai, que vende roupas ecológicas é incerto, já que tudo depende de resultados nas vendas e aumento de poder financeiro a longo prazo. A empresa comercializou 72 unidades na pré-venda (momento onde houve maior divulgação da marca), mas Gabriel soma hoje mais de 140 peças de roupas vendidas. A marca conta hoje com camisetas, baby looks, moletons, biquínis e bodies - as peças de praia, se decompõem depois de oito anos em aterros; já as feitas com material convencional levam mais de 40 anos). Para cada produto vendido mais R$2,00, Gabriel faz o plantio de uma árvore em nome da empresa.


Os negócios voltados a soluções em tecnologia A Startup iMake, de Porto Alegre, desenvolve softwares e apps POR ADRIANO PADILHA FOTO ARQUIVO PESSOAL

Os amigos William Schons, 27 anos, e Mailor Jorge Mesquita, 21 anos, se divertiam fazendo manutenção de computadores e servidores. Em 2014, quando se deram por conta que havia muito mercado para explorar na área de desenvolvimento de sites, criaram a Startup iMake, em Porto Alegre. Após algum tempo e muitos estudos, começaram a desenvolver também aplicativos e lojas virtuais. A iMake Tecnologia fundiu-se com a SH Marketing Digital, empresa desenvolvida por outro amigo de William, Fabiano Hirtz, 30 anos, que sempre trabalhou com marketing e design, criando vídeos, logos e campanhas de divulgação. Com a necessidade de divulgar textos bem escritos e mais profissionais, a empresa também conta com um jornalista freelancer, além de possuir o seu próprio departamento contábil. Juntando forças e competências, a iMake é uma Startup que atende o cliente, oferecendo soluções completas e com diversidade de serviços. Segundo Schons, os quatro funcionários da iMake recebem salários iguais, sendo um acordo implantado desde o início do projeto. Com isso, todos possuem um contrato interno que

funciona como uma triangulação, com um cálculo baseado no quanto a empresa vendeu, ignorando a porcentagem de cada um, e o valor do pró-labore é variável conforme o faturamento do mês. Desde o início, o mais difícil para o projeto conseguir avançar foi a questão financeira.A pequena empresa começou dentro de uma garagem, com apenas um computador e um gasto de R$130,00 em panfletos, batendo de porta em porta, oferecendo a prestação de seus serviços. Schons conta que trabalhou em diversas empresas com carteira assinada, mas nunca conseguiu se adequar a nenhuma delas, por isso resolveu criar o seu próprio negócio para começar a ganhar dinheiro rápido e de uma forma que lhe trazia mais satisfação. “Eu já tinha trabalhado em 18 lugares de carteira assinada. Não conseguia trabalhar para os outros. O Jorge também não conseguia então nós dois unimos forças e conforme o tempo, o universo trouxe pessoas para ajudar”, conta. A iMake Tecnologia está situada na Rua Moura Azevedo, nº 593 Sala 206, Bairro São Geraldo, Porto Alegre (RS).

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EDUCAÇÃO //

A primeira ferramenta de trabalho é a educação Aluno da EJA, Ezequiel, 17 anos, enfrenta rotina diária de trabalho e escola para terminar o ensino básico POR PEDRO GUTERRES E VANESSA PEDROSO FOTOS PEDRO GUTERRES

Já se passava das 21h quando chegamos ao corredor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Freire, localizada no bairro Mariani, em Caxias do Sul (RS). Assim como os narradores desta história, alguns dos jovens distribuídos entre as duas últimas salas de aula do prédio principal mantêm uma rotina de dupla jornada: estudam à noite, pois durante o dia precisam dar duro para conquistar o tão falado “lugar ao sol”. Mas o que a escola tem a ver com o mercado de trabalho? Tudo! Essa foi a resposta do então diretor da Paulo Freire, Marcos Roberto da Silva, professor de história e geografia, à frente da instituição há seis anos. Segundo ele, o reflexo das dificuldades que os jovens que estudam e trabalham passam, têm origem ainda no ensino fundamental, falando especificamente sobre estudantes de áreas periféricas, cujo histórico aponta várias situações precárias e também de descaso e falta de incentivo. Entre as dificuldades estão os métodos tradicionais de ensino, a falta de suporte por parte dos familiares, o contato com a criminalidade e o baixo investimento por parte dos governos, independentemente das siglas partidárias. Se durante o dia a Paulo Freire conta com crianças correndo na hora do recreio, o intervalo no período noturno tem uma imagem diferente. Os alunos do EJA – Escola para Jovens e Adultos – frequentam a classe com o objetivo de concluir o ensino fundamental e na maioria dos casos, tentar recuperar um tempo que anteriormente foi desperdiçado ou ocupado por outras atividades. O intervalo é usado para descansar e conversar com os amigos. De acordo com o diretor, os alunos que estudam à noite e trabalham durante o dia têm um perfil diferenciado:“O aluno que precisa trabalhar o dia todo e à noite vem para a escola, apesar do cansaço, é muito mais focado. Ele vem com intenção de realmente aprender e concluir os estudos”. Ele explica: “Mas isso não quer dizer que aquele aluno que só estuda não é esforçado, não podemos generalizar. O que acontece com o aluno do EJA, na maioria das vezes, é o seguinte: eles saíram da escola muito cedo, abandonaram os estudos e de uma hora para outra precisaram rumar para o mercado de trabalho. E o que acontece? São recusados, perdem oportunidades por causa da falta ou pouca escolaridade. Aí é que eles passam a entender o significado e importância de estudar e acabam retornando para a escola”.

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Caso de Ezequiel Souza Lima, 17, que cursa a última série do ensino fundamental. Trabalhando desde os 14, de forma irregular, em uma companhia de obras de Caxias, ele abandou a escola aos 15 anos e passou a enfrentar uma série de obstáculos.“Eu saí da escola, porque naquela época o cara só quer festa, sair. Era festa todo dia. Não dava muita bola pra estudar. Depois o cara vê o que é sofrer...” Questionamos então, mas o que é sofrer? Ele relata... “Eu fui procurar um serviço, lá junto com meu irmão. Comecei como ajudante de encanador e daí eu queria subir de cargo, mas eu não conseguia ler os mapas, escrever direito os nomes das ruas. Por isso que voltei pra escola. Agora o cara sofre, né? O cara tem que sair cedo... volta cansadão, só toma um banho correndo e vem pra escola. Todo dia é assim. De segunda a segunda”. Prestes a completar 18 anos, ele compartilha o espaço da sala de aula com os primos mais novos e outros colegas menores de idade. Conforme o estudante, eles não se esforçam. “Nossa! Eles chegam muito tranquilão na escola... Eu falo pros meus primo... Entra por um ouvido sai por outro...”. O que conta Ezequiel vai ao encontro dos depoimentos do diretor, que lamenta a evasão e a dificuldade de manter os alunos em sala de aula. Conforme Marcos, o ensino brasileiro, de forma geral, segue com uma grande defasagem; estagnado ante as evoluções tecnológicas, devido à baixa renda investida nas escolas. Tudo isso se soma aos obstáculos impostos pelo entorno social. “Se a gente não educar, tem a droga, violência o roubo... E tudo se torna mais atrativo que a educação, e volto a dizer, infelizmente, quem cai nestas situações, só se dá conta mais tarde, depois de sofrer na pele as consequências.”. Entre tantas dificuldades, o diretor explica que a principal missão da sua escola é tentar fazer com que os alunos cheguem ao ensino médio alfabetizados. Salienta que, sem este grau de formação, os jovens acabam perdendo perspectivas de evolução no mercado de trabalho, se tornando assim, escravos de uma condição frágil em relação à empregabilidade. Quanto às etapas que os discentes seguem após a Paulo Freire, Marcos relata que uma minoria termina o nível médio. Pelos cálculos dele, apenas 5% do total chega à faculdade, e destes, só 2% concluem a graduação. O diretor torce por uma mudança de quadro, mas alerta: “A única ferramenta de poder nesse atual modelo de país é a educação”.


“Abandonaram os estudos e de uma hora para outra precisaram rumar para o mercado de trabalho. E o que acontece? São recusados, perdem oportunidades por causa da falta ou pouca escolaridade.” O diretor da escola, Marcos Paulo da Silva, (foto ao lado) acredita no potencial transformador da educação

Ezequiel, 17 anos, trabalha desde os 14 e está na EJA para terminar o ensino fundamental


AGRICULTURA //

O futuro nas mãos sujas de terra Giovane gosta do trabalho no meio rural. Filho de agricultores, ele obtém seu sustento com a produção de hortifruti TEXTO E FOTOS ANGELA NADIN


Cultura: substantivo feminino, forma ou etapa evolutiva região de Vila Oliva, interior de Caxias do Sul. Ele destaca que das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais; o esforço é grande mas a recompensa é boa. “No campo, eu civilização, costumes mantidos e repassados de gerações sei que no final do ano vou ter meu dinheiro garantido se eu em gerações, plantio de alimentos. Acredita-se que o trabalhar bem.” Além de cumprir uma carga horária de cerca ato de cultivar foi um passo essencial no de oito horas diárias, Giovane vem ao meio urbano desenvolvimento da humanidade. No período “Trabalho no campo e todas as semanas expor seus produtos no modelo neolítico o homem passou da caça e da pesca para de feira diferenciado oferecido pelo município, o plantar seu alimento, surgindo assim a agricultura, penso que o campo é a chamado “Ponto de Safra” que movimenta cerca tendo o trigo e a cevada como primeiras culturas. melhor forma de viver. de 90 mil sacolas de hortifrúti por edição; é ali A prática de cultivar se mantém viva até hoje, com Sinto que terei sucesso, que ele garante sua renda. O município também uma ampla variedade de cultivos e maquinário oferece outras feiras como as chamadas “Feiras como meus pais.” tecnológico para maior produção. O que antes se do Agricultor” e Centrais de Abastecimento do Rio fazia por sobrevivência, se tornou uma fonte de renda. Grande do Sul, como a Ceasa. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia Giovani lembra também da dificuldade em encontrar e Estatísticas (IBGE) realizada em 2010 (o último censo trabalho na zona urbana. “Amigos meus foram pra cidade e demográfico realizado pelo instituto), o número de jovens agora estão querendo voltar porque estão desempregados.” agricultores de 15 a 24 anos era de cerca de 5 milhões, o Conforme pesquisa do IBGE 2015, um a cada quatro jovens,

O fruto cultivado sai das hortas do interior de Caxias para as feiras da cidade

equivalente a 16% da população total de jovens do país que chegava a 51 milhões na época. Com o aumento da possibilidade do acesso ao ensino superior, os jovens nascidos no meio rural têm a chance de aprimorar seu conhecimento cursando as diversas variedades de graduação (Agronomia, Biologia, Veterinária, Engenharia Química, cursos técnicos, etc), relacionadas ao meio em que vivem, trazendo conhecimento à família e à propriedade. Enquanto muitos se preocupam em sair do campo e trabalhar em escritórios ou indústrias, outros procuram adquirir formação acadêmica para continuar na agropecuária. Giovane Sieleski, 20 anos, é filho e neto de agricultores que há décadas vivem da produção de hortifrutigranjeiros na

de 16 a 24 anos, está desempregado. O Governo Federal oferece incentivo por meio de programas como Pronaf Jovem, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, com financiamento para projetos específicos de interesse de jovens, de 16 a 25 anos, que tenham concluído ou estejam cursando em escolas técnicas agrícolas de nível médio ou que tenham participado de curso de formação profissional. O programa repassa até 16,5 mil por financiado. Giovane, aos vinte anos, já tem uma família formada, com um filho e esposa. Ele acredita que o meio rural é o seu lugar. “Eu tenho 20 anos, trabalho no campo e penso que o campo é a melhor forma de viver. Sinto que terei sucesso, como meus pais.”

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CARREIRA //

Para André, o processo de coaching auxilia as pessoas no planejamento de carreira, na mudança comportamental e na busca de resultados

COACH: MOTIVADOR, CONSULTOR, ENTUSIASTA?

TUDO ISSO O professor André Hübler explica como o coaching pode auxiliar as pessoas a planejarem melhor suas vidas FOTO SILVANA DALMASO

André Nogueira Hübler, 34 anos, é formado em Publicidade, mestre em Comunicação Social e professor universitário. Mas ele não é só isso. Há quatro anos, André vem trabalhando como coach e terapeuta na empresa SPIND Mente e Alma, em Caxias do Sul. Para se aperfeiçoar cada vez mais, fez cursos de Coaching de Vida e Carreira, Executive Coaching, Cura Quântica, Florais de Bach, Aromaterapia, Cura Quântica, Reiki, Apometria, Hipnometria, entre outros. O interesse pelo coaching surgiu da vontade de auxiliar os outros a encontrarem-se consigo mesmos. “Na época eu gerenciava uma equipe de seis pessoas, coordenava curso de graduação e fazia mestrado, e ainda tinhas muitos sonhos para serem realizados e precisava de uma metodologia que me levasse a isso. Foi quando conheci o processo e me

encantei com ele.” O setor não para de crescer no Brasil.Conforme a Federação Internacional de Coach, o mercado de coaching cresceu mais de 300% nos últimos quatro anos. Em 2012, havia sete mil coaches brasileiros; esse número saltou para 25 mil em 2015 e continua em expansão. A Trampo conversou com o André sobre essa nova profissão que vem atraindo tantas pessoas. TRAMPO: O que faz um coach? André: O Coach é responsável pela mudança comportamental, clareza mental para planejamento e plano de ação do cliente. Ele é ao mesmo tempo motivador, consultor e entusiasta da meta do cliente.


É preciso ter algum tipo de formação para atuar como coaching? Não é preciso ter uma formação específica, mas a formação no processo de coaching. Essa é uma metodologia específica e bastante pragmática e é preciso apropriar-se dela, como qualquer outra formação livre. Ainda no Brasil o reconhecimento da profissão, exigindo um curso superior ou técnico ainda não existe, o que acaba sendo um diferencial para Coaches mais preparados. Há tipos diferentes de coaching, com atendimentos especializados? A metodologia é a mesma, o que muda é o foco de captação dos clientes de coaching. Hoje existem no mercado pessoas se intitulando Coaches, mas sem o domínio do método, sem conhecimento aprofundado e também sem produzir resultados. A formação do Coach e da metodologia não tem nichos como saúde, vida, resultados, etc, o que muda é o foco que o profissional dá para captar seus cliente. O coaching pode ser considerada uma nova profissão ou ele é um novo nome para uma outra atividade que já existia. A metodologia não é de ontem, mas é bastante atual. O Coach concorre com o consultor, o terapeuta, o professor e tantos outros profissionais que trabalham com mudança comportamental e busca de resultados. Como metodologia não é um novo nome para algo que já existia, como utilidade social é completar a diversas profissões tradicionais. Isso faz com que psicólogos, comunicólogos, consultores e outros tantos profissionais busquem se apropriar dessa metodologia. Como podemos perceber que precisamos consultar um coaching e não um psicólogo ou outro profissional Quando você busca um Coach você está buscando resultados e está disposto a mudar seu comportamento para alcançar isso. Quando você busca os demais profissionais você tem necessidades diferentes como entender ou superar um trauma, conhecer uma área, melhorar uma capacidade específica. O Coach, enquanto metodologia, vem do cocheiro, que conduzia a carruagem de um ponto ao outro, esse é o trabalho que realizamos, conduzir o cliente de um ponto a outro com segurança, construindo novos comportamentos e habilidades. Como um coaching pode auxiliar jovens que estão em conflito em relação à escolha profissional e ao trabalho? Dentro da metodologia de Coaching existem ferramentas e práticas pragmáticas que levam o sujeito a ação, experimentando mentalmente e na realidade aquilo que precisa para sua identificação com o potencial de trabalho futuro. Ter um Coach capaz e bem treinado lhe auxiliando num período de escolha como este, permite que todas as suas ansiedades e necessidades encontrem respostas na escolha da profissão certa, isso evita que os caminhos precisem ser mudados muitas vezes até se acertar. O trabalho do Coach é conduzir o cliente rapidamente a resposta mais assertiva para ele.

Você usa as redes sociais para este trabalho de coaching? Uso as redes sociais para divulgação do meu trabalho e da minha empresa de Desenvolvimento Humano. É um espaço de trocas e de publicização. É como a praça pública de algum tempo atrás, você vai para contar para a sociedade o que está acontecendo, mas a sessão e as necessidades do cliente você trabalha a quatro paredes. É possível realizar o trabalho à distância com os recurso de videoconferência como o Skype ou até mesmo a vídeo chamada do whatsapp, mas sempre um a um e com a ética e o sigilo profissional que a metodologia pede. Como professor, você tem contato com jovens que trabalham e estudam. O que diria para eles em relação a melhor forma de conciliar essas duas atividades sem prejudicar uma das duas. Use uma para a outra. Encontre formas de gerar sincronia entre esses dois tempos. Eu por exemplo atuo como Coach, Terapeuta, Consultor e Professor e preciso alinhar esses quatro rótulos, sabendo como tirar e “Quando você colocar cada um deles. Para fazer isso com busca um Coach mais habilidade preciso manter você está buscando sincronicidade entre os assuntos, resultados e está preciso ter elementos que perpassem entre disposto a mudar meu caso são as todos eles, no minhas grandes seu comportamento áreas de interesse para alcançar isso” criatividade comunicação, e espiritualidade. Cada um deve achar as suas, e ir organizando nas caixinhas da mente de acordo com esses assuntos. Agora, quando você trabalha em áreas que não permitem fazer essa conexão, o ideal é começar a se preparar para realizar a migração focando em seu portfólio, ou até mesmo investindo na aplicabilidade daquilo que você estudou no seu trabalho diário. As coisas precisam conversar ou precisamos fazê-las conversar. Tudo na vida é investimento e tem preços, seja o tempo ou financeiro mesmo. Você escolhe como quer investir esse tempo em que está fazendo mais de uma função ao mesmo tempo e como vai dar sincronicidade a elas, se deixar acontecer naturalmente pode ser que a sincronicidade nunca venha e você se frustre em duas áreas diferentes da sua vida e daí vai precisar de uma terceira para descontar. Não tem mágica, é preciso ajustar a mente para fazer isso de forma cada vez mais natural.

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EDUCAÇÃO //

A ESCOLHA DA PROFISSÃO Autoconhecimento e busca de informação são ações essenciais para definir o futuro trabalho POR SILVANA DALMASO FOTO MARCO ZEMINHANI / DIVULGAÇÃO, FSG

O Agito é uma atividade da FSG que visa atrair estudantes para conhecer a instituição No início de outubro de 2017, o Centro Universitário da Serra Gaúcha realizou o “Agito FSG”, uma iniciativa da instituição para atrair estudantes do ensino médio de Caxias e região que estão em dúvida quanto à escolha profissional. Durante uma semana, os estudantes puderam visitar os laboratórios, salas e demais ambientes de ensino da FSG e conversar com professores e graduandos para saber mais sobre os cursos e o mercado de trabalho. Procurar informar-se e conhecer as universidades são ações importantes para os jovens que não sabem ou não têm certeza da área em que desejam trabalhar. Pensando nisso, a Revista Trampo conversou com a psicóloga, mestre em Educação e coordenadora do curso de Psicologia da FSG, Ana Claudia Baratieri Zampieri, para saber um pouco mais sobre esse momento da escolha profissional e também sobre as formas de se encarar o trabalho. Trampo: Os jovens se deparam com o momento da escolha profissional muito cedo, aos 16, 17 anos.

Para alguns, fazer essa escolha traz certo sofrimento e angústia. Qual a melhor forma de lidar com isso? Ana Claudia - A melhor maneira de fazer uma escolha acertada é se conhecer. Quanto mais o jovem conhecer suas habilidades e competências, o que gosta de fazer, o que não gosta de fazer, mais próximo de um processo tranquilo ele vais estar. Como os jovens podem se autoconhecer para assim escolher uma profissão e um trabalho? Além de fazer uma autorreflexão, principalmente sobre seus pontos fortes e o que devem desenvolver, o que gostam ou não de fazer, buscar informações sobre seu comportamento com familiares e amigos, pode ajudar. Muitos pais querem que seus filhos sigam suas profissões. Como os jovens podem conquistar autonomia de escolha profissional sem entrar em conflito familiar? Costumo dizer que tanto podem ajudar muito como


atrapalhar muito também...Ajudar, no sentido de contribuir com o autoconhecimento de seus filhos, apresentando informações sobre o seu comportamento, personalidade... Atrapalhar quando impõem o seu desejo, não permitindo que o jovem possa fazer a sua escolha. Hoje podemos dizer que não existe mais o “emprego para a vida toda”.As pessoas se permitem arriscar,mudar de emprego, criar negócios e trabalhar no que desejam. Mas são decisões difíceis, que precisam de apoio. Lidar com os medos e inseguranças de uma escolha arriscada é melhor que ficar em um trabalho seguro, mas sem satisfação? Certamente desenvolver competências como resiliência e capacidade de lidar com a frustração são essenciais para adaptar-se aos desafios do mercado atual. A escolha profissional não pode e não deve ser encarada como algo para a vida toda, pois isso traz um incremento de ansiedade desnecessária a esse momento. Ela deve ser encarada como muito importante e por isso merece toda a atenção e cuidado, mas sem a carga da “eternidade”. O trabalho frequentemente não é associado a algo bom, prazeroso, mas a uma obrigação que se cumpre, um meio para se viver os reais prazeres da vida. É possível

Estudantes de ensino médio visitaram laboratórios e instalações da FSG para obter mais informações dos cursos

lidar com isso de forma saudável? O trabalho é também fonte de realização pessoal. É uma forma de se colocar no mundo e representa um papel muito importante na própria constituição da nossa identidade. Não precisa ser encarado com pesar ou carga e sim como algo que faz parte da nossa vida e que permite a realização de sonhos, metas e objetivos...No trabalho e pelo trabalho nós também aprendemos, convivemos e nos colocamos na sociedade.

“A escolha profissional não pode e não deve ser encarada como algo para a vida toda, pois isso traz um incremento de ansiedade desnecessária a esse momento”

Há uma diferença entre trabalho e emprego, principalmente entre os universitários que trabalham e estudam. A Faculdade representa um futuro trabalho, mas muitas vezes não se relaciona com o emprego desses jovens. Qual a melhor forma de se lidar com essa dualidade, às vezes conflitiva? Entender que este emprego ajudará a realizar um sonho, que muitas vezes está associado à escolha da profissão futura e pensar nesse momento como provisório, mas importante, focando no futuro, pode ser uma saída...

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ARTE //

A arte como “contribuição”

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m abril de 2017, o artista Jorge Gularte, mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), publicou no seu perfil no Facebook desenhos feitos na sua carteira de trabalho, como os que ilustram essa contracapa. Chamada de “arte como contribuição”, fazendo alusão à contribuição previdenciária que todo trabalhador com carteira assinada faz, Jorge dizia nas postagens que a carteira já estava meio sem função, então passou a utilizá-la como Sketch Book.

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Alguns desenhos da série são autobiográficos, mostrando ele mesmo, Jorge, no trabalho, como o que retrata o garçom na churrascaria, emprego que obteve durante a faculdade de Artes Visuais, em 2009, em Santa Maria, cidade onde reside atualmente. Os retratos, que viraram tema de suas pesquisas acadêmicas, também já foram fonte de renda para o artista, que os vendia na rua e em bares. São desenhos que nos instigam a pensar no quanto trabalhamos em diversas atividades, sem vínculos empregatícios, enquanto a carteira de trabalho fica guardada, nova, com as páginas intactas pedindo um rabisco qualquer.


Revista Trampo FSG  

A Trampo é uma revista experimental produzida pelos alunos de Projeto Editorial Gráfico e Digital do curso de Jornalismo do Centro Universit...

Revista Trampo FSG  

A Trampo é uma revista experimental produzida pelos alunos de Projeto Editorial Gráfico e Digital do curso de Jornalismo do Centro Universit...

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