Revista Traços nº 41 / Ano 5 - Julho 2020

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41 ano 5 – julho/2020


ENTRE PARA O TIME DE

Embaixadores Traços! PARA ENFRENTAR O PERÍODO DE COMBATE À PANDEMIA DO NOVO CORONAVÍRUS, MAIS DO QUE NUNCA A TRAÇOS CONTA COM O APOIO DA COMUNIDADE PARCEIRA PARA A DISTRIBUIÇÃO DA REVISTA!

Enquanto durar o isolamento social e o fechamento dos estabelecimentos, que normalmente são os locais de venda dos exemplares da Traços e pontos de atuação dos Porta-Vozes da Cultura, as edições impressas serão vendidas exclusivamente para os Embaixadores Traços, que podem fazer compras coletivas para pequenos grupos. Restaurantes, bares e outros estabelecimentos de funcionamento via delivery também podem se tornar Embaixadores por meio da compra por consignação, oferecendo a Traços em seus cardápios ou outros espaços online.


loja@revistatracos.com

61 3033-4541

Saiba mais em: www.revistatracos.com/embaixadores


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3X4 ESPECIAL

Diretora Geral: Michelle Cano Diretor Executivo: Reinaldo Gomes Diretor de Redação: André Noblat Editora-Chefe: Fábia Pessoa

Na terceira edição da série Vidas em Quarentena, os Porta-Vozes da Cultura Leandra e Edmundo falam sobre como tem sido a rotina no isolamento — e agradecem o apoio dos leitores-amigos durante a quarentena.

Redator-Chefe: José Rezende Jr. Fotógrafa: Thaís Mallon Fotógrafo Convidado: Bento Viana

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Colunistas: Nelson Fernando Inocencio da Silva, Pedro Galas, Karen Winsk e Rhenan Soares

INSTANTES

As fotografias de Emanuelle Sena são um retrato das vivências da artista, que utiliza as lentes para registrar o cotidiano da comunidade onde vive, a beleza e a força da negritude e os afetos nos espaços urbanos.

Repórter: Maíra Valério Projeto Gráfico e Direção de Criação: Chica Magalhães e Tiago Palma (Griô Produções) Repórteres Estagiários: Rebeca Borges e richard de assis Revisora: Jaqueline Fernandes Coordenador de Comunicação: Rhenan Soares Coordenadora de Audiovisual: Rosana Teixeira Coordenadora Social/Institucional: Hellen Cris de Carvalho Vaz Supervisores de Pessoal: Nanda Picorelli, Matheus Rocha Lago e Stefano Felipe Silva Borges Coordenação Administrativa e Financeira: Associação Traços Gerente Administrativa: Nayara Souza Assistente Financeira: Graciete dos Santos Malta

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INSTRUMENTO DE VER

A pandemia adiou ou cancelou projetos, mas as artistas circenses do Instrumento de Ver contam com o apoio do público para voar em frente.

Mentor em Negócios Sociais: Guilherme Portanova Coordenador Corporativo Responsável pela Publicação: Fora da Caixa Ltda-ME Periodicidade: Mensal Tiragem: 3.000 exemplares Endereço: CLN 208 Bloco D Sala 211 – Asa Norte CEP 70853-540 – Brasília-DF Contatos Redação: redacao@revistatracos.com Institucional: tracos@revistatracos.com Comunicação:comunicacao@revistatracos.com Telefone: (61) 3033 4541 Siga nas Mídias Sociais: @RevistaTracos Leia online: medium.com/RevistaTracos Visite a página: revistatracos.com

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Os participantes do projeto Cartas Solidárias, ação da Universidade de Brasília, enviam cartas emocionantes de apoio aos profissionais que estão na linha de frente durante a pandemia.

Música em foto e vice-versa. A guitarra, o pandeiro e o som eletrônico e inovador do Duo Umbê. E a música cheia de brasilidades do Purpurina Anzol, com letras que registram experiências amorosas.

CARTAS PARA TITÃS

TOCA RAUL


41//20 Revista TRAÇOS

HOLOFOTE // 9

MOVIMENTE-SE // 10 CANVAS // 22

O Festival Latinidades – maior evento de mulheres negras da América Latina – chega à 13ª edição em 2020. Com o tema Utopias Negras, a iniciativa prestigia os passos de quem ultrapassou barreiras impostas pelo racismo, e projeta um futuro para os que estão por vir.

UNFPA // 70

FESTIVAL LATINIDADES

RASCUNHO // 39/50

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É OUTRA HISTORIA // 74

BUTECO // 72

Muito antes da atual explosão de discussões online sobre as questões raciais, a pianista e educadora musical Lydia Garcia já era uma das pioneiras do ativismo negro no DF. Aos 82 anos, a artista é nacionalmente reconhecida por sua militância — que tem educação e cultura como principais frentes de trabalho.

MORDA // 8

ENTREVISTA / LYDIA GARCIA

POUCAS E BOAS // 7

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CÓDIGO DE ÉTICA // 6

Ano 5 \\ julho 2020

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O uso de linguagem racista, sexista, homofóbica ou

1 ofensiva não é aceito no projeto Traços. Reportar

comportamentos preconceituosos é dever de todos. Respeitar o público ou qualquer colaborador da

2 Traços e seus parceiros, sem jamais agir de forma agressiva ou violenta.

Em hipótese nenhuma o Porta-Voz da Cultura poderá

3 oferecer a revista após ingerir bebida alcoólica ou estar sob o efeito de qualquer droga.

Porta-Vozes da Cultura não devem comercializar 4 Os a revista no ponto de venda de outros Porta-Vozes.

A Traços é uma publicação sobre arte e cultura, vendida nos espaços culturais e gastronômicos de Brasília pelas mãos dos Porta-Vozes da Cultura – pessoas que estavam em situação de rua ou em extrema vulnerabilidade financeira. Por meio da revista, o projeto contribui com a geração de renda e o ganho de autonomia dos Porta-Vozes, que ficam com 70% do valor de cada exemplar. Quando você lê a Traços, a #TraçosTransforma!

Ao se identificar como Porta-Voz da Cultura, com colete

5 e crachá da Traços, o Porta-Voz se compromete a não

pedir qualquer tipo de doação aos clientes, seja em seu nome ou em nome da Traços. É responsabilidade do Porta-Voz da Cultura informar

6 aos clientes sobre a data de publicação das edições que estão sendo oferecidas para a venda.

7

Os exemplares da revista somente podem ser vendidos pelo valor estipulado na capa, não importando o número da edição.

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Em nenhuma hipótese será permitido trabalhar com a venda da revista estando acompanhado por crianças.

Apenas os exemplares da Revista Traços podem ser

9 vendidos pelos Porta-Vozes da Cultura. Nenhum outro produto ou serviço deve ser oferecido.

O Porta-Voz da Cultura deve se apresentar

10 com uniforme e crachá de identificação em todas as atividades vinculadas ao projeto.

O Código de Ética estabelece algumas diretrizes que têm como objetivo orientar o trabalho dos Porta-Vozes da Cultura e dos colaboradores da Traços. Ao reportar casos que fujam das políticas de atuação, você colabora com o desempenho e o aperfeiçoamento do projeto.

Fone: 3033-4541 6


PO UCA S E B OA S André Noblat

andre@revistatracos.com

Resgate hoje o comunista que está dentro de você

Esse é o título de uma campanha mais que necessária para a humanidade nesse momento. Em recente audiência que debatia as ações econômicas de socorro à população afetada pela pandemia, o ministro Paulo Guedes explicou que leva cinco minutos para uma pessoa virar comunista/socialista. Basta praticar a solidariedade e ter um bom coração. “Nós nascemos com isso”, chegou a afirmar. Sim, ele disse isso mesmo. Mas se você acha que vou usar esse espaço para discordar de Paulo Guedes com seu raso entendimento sobre todos os fatores que sustentam a tese de Marx, desculpe te frustrar. Meu pai me ensinou, quando criança, a tentar tirar algo bom de tudo. Ouvirei o conselho do meu velho. Por isso afirmo: sigamos Paulo Guedes e sejamos todos comunistas, nem que só seja um pouquinho. Porque se nascemos solidários e com bom coração, como ele diz, muitos de nós esquecemos isso em algum dos nossos anos de vida. E se vivemos em comunidade, sim, é fundamental termos empatia e solidariedade. Então você pode ser liberal, mas não pode ser Paulo Guedes. Minimizar essas características é atestar que o ser humano falhou, é desistir do nosso e focar apenas no seu. É fazer aglomeração em plena pandemia. É ir a bares no Leblon sem máscaras e arriscar a vida das pessoas que trabalham nesses estabelecimentos. É não compartilhar, como nação, do sofrimento das pessoas que perderam familiares.

É doloroso mas necessário afirmar que a pandemia esfregou na nossa cara o quanto somos omissos quando nos permitimos viver em um mundo com tamanho abismo social. Em que uma maioria ainda silenciosa trabalha para manter os privilégios de uma minoria, em grande parte, insensível e cega para essa situação. A consequência disso está aí. Pretos e pobres morrem mais, de polícia e de covid. Há muito trabalho a ser feito para que essa realidade mude, mas ser solidário é um pilar necessário para que isso seja possível. Então, por favor, seja comunista. Seja um liberal melhor, defenda o estado mínimo com o mínimo de comunismo. Porque se não resgatarmos e abraçarmos nosso esquecido passado vermelho, estaremos condenados a não ter um futuro como sociedade.

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Comer é um ato político: é assim que Luciana Santos vê a comida na sua vida. É dessa forma que ela transmite os seus valores dentro do Café Oyá. “Comer é um reconhecimento de privilégios, de injustiças. A alimentação está extremamente ligada a todos os movimentos sociais”, explica Luciana. Luciana, em parceria com o marido, Guilherme Feitoza, idealizou o que é o Oyá hoje: café vegano cheio de axé, inspirado nos orixás e que se posiciona politicamente contra o capitalismo, a favor do feminismo e sempre apoiando os movimentos negro e LGBTQI+. Ela se inspirou na própria Oyá, orixá guerreira, para materializar o restaurante em Brasília. “Eu tenho uma visão, muitas vezes ainda não sei como fazer. Contudo, eu sei que aquilo vai acontecer. A minha mão vai lá, movimenta e as coisas acontecem”, conta. O Café também tem a fama de servir a melhor coxinha de jaca de Brasília, além de muitos pratos veganos que dão água na boca só de pensar. “Também sai muito o bolinho de feijão fradinho, vatapá (sem camarão) e vinagrete, um dos mais vendidos. É comida de Oyá. Para mim, o segredo tá no vatapá e nas rezas na hora de descascar o feijão”, diz, brincando. Mas o Café não é só feito de quitutes veganos deliciosos. Na verdade, ele é o resultado do empoderamento de Luciana e dos acasos do destino. A história teve início há sete anos: Luciana estava arrasada, em um casamento ruim, com um emprego desgastante e

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Foto: Thaís Mallon

HOLO FOTE

Foto: Joe Espíndola / Divulgação

Café Oyá

Por Marianna França

um filho pequeno para cuidar. “O que eu tinha estava sendo levado por aquilo que a sociedade espera da gente, casar, ter filhos e fazer dinheiro e mais dinheiro”, relembra, emocionada. Com a chegada do filho mais velho, Antônio, ela questionou o real sentido da vida. “Eu contava os dias para as férias e sempre tinha que deixar o meu filho largado na creche”, comenta. Luciana trabalhava em emprego público ganhando muito, mas estava infeliz. “Essas experiências fazem parte do que eu sou hoje. Mas eu lembro de pensar: ‘não consigo mais’”, diz. As mudanças só começaram a acontecer de verdade quando Luciana encontrou a sua religião, a umbanda. Um dia ela

acordou movida por uma força etérea e intuitiva. “Eu disse: ‘Chega, não vou mais trabalhar lá’”. Pediu demissão, vendeu o seu apartamento, o divórcio finalmente saiu e ela abriu o Café Oyá. Assim mesmo, sem nada planejado. “Vou te contar um segredo, eu só sabia fazer um quibe quando o Café Oyá abriu. Tinha algumas receitas, mas nada muito profissional. Mas eu tinha certeza que ia dar certo”, conta, rindo. O Café Oyá é a materialização do desejo de Luciana por um mundo melhor. E é exatamente por isso que ela não desvincula a política do ato de comer. Além de um cardápio vegano gostoso, o Oyá também promove eventos que fomentam a cultura e dão visibilidade a causas sociais. Mais informações: /cafeoya


FILME

My name is now ELIZABETE MARTINS CAMPOS

Mundo Novo MAHMUNDI

A carioca Marcela Vale, ou melhor, Mahmundi, deu um importante passo para a carreira com o lançamento de seu terceiro álbum de estúdio: Mundo Novo. O nome do disco parece fazer referência ao atual momento que o mundo está vivendo, mas, apesar de sugestivo, é apenas mera coincidência. Ele foi finalizado em fevereiro, pouco antes

Por Karen Winsk, designer e garimpadora de sons

Por Rhenan Soares, jornalista e produtor cultural

Carolina

LIVRO

MÚSICA

do isolamento social devido à pandemia do novo coronavírus. O álbum é pessoal, reflexo de muita terapia, e reúne um pouco de tudo que a cantora, compositora, multiinstrumentista e produtora musical já produziu e vem construindo nos últimos anos. Mundo Novo é um projeto colaborativo, com letras objetivas e arranjos instrumentais mais harmônicos substituindo as batidas eletrônicas e sintetizadores presentes em seus álbuns anteriores. Sem abrir mão da poesia, o disco desperta uma calmaria e afago no coração, necessários neste tempo de ansiedade e caos.

Nascida há 90 anos, em 22 de julho de 1930, Elza Soares tem uma história de vida que daria quantos filmes se resolvesse fazer. Eleita a cantora do milênio pela Rádio BBC Londres em 1999, a artista tem um ensaio dessa trajetória esboçado em My name is now, longa-metragem de estreia da mineira Elizabete Martins Campos, que recorre a várias experimentações para filmar uma Elza que se apresenta na poesia rasgada da própria voz. Casada pela primeira vez aos 12 anos de idade, Elza acumula grandes perdas ao longo da vida, incluindo a morte de quatro filhos, dois deles por desnutrição. Entre tantas tragédias, contudo, Elza inventou a própria sorte e deixa registrado, no filme, que é a “Nega Fênix”. Forte e sensível, o documentário é uma fresta para a vida de uma das maiores artistas negras do Brasil.

SIRLENE BARBOSA E JOÃO PINHEIRO Ed. Veneta Com traços fortes e cenas duras, Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro, interpreta as palavras cruas e vivências ríspidas de Carolina Maria de Jesus em uma novela gráfica intensa. Sentimos o cheiro, o medo e a raiva que fazem parte do dia a dia dos poucos momentos retratados na história de Carolina Maria de Jesus, assim como o alento dos livros e poesias, a luta pelo bem-estar dos filhos e sua busca constante por uma vida melhor. O livro transita entre uma narrativa reencenando seus poemas e escritos e a documentação de sua trajetória como autora best-seller, do sucesso ao esquecimento. Negra, moradora da favela do Canindé, catadora de papel, Carolina fez história na literatura brasileira com seu livro Quarto de Despejo, lançado com a ajuda do jornalista Audálio Dantas, e depois continuou a publicar outros livros, peças teatrais e música. Por Tiago Palma, ilustrador, diretor de arte, músico e quadrinista

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Por Rebeca Borges Foto Bento Viana

O re tor no dos Dri ve-i ns ATIVIDADES CULTURAIS EM FORMATO DRIVE-IN SÃO ALTERNATIVA PARA SE DIVERTIR EM TEMPOS DE PANDEMIA

A história do Cine Drive-in de Brasília é repleta de altos e baixos. O espaço nasceu em 1973 e é administrado por Marta Fagundes desde 1989. O local já viveu diversas fases (do sucesso nos primeiros anos de funcionamento às ameaças de fechamento) e era o único aberto no país até pouco tempo atrás. Agora, o Drive-in enfrenta um novo desafio: a pandemia. Com a maior parte dos estabelecimentos fechados, o cinema ao ar livre passou a ser uma das únicas formas de consumir cultura fora de casa, já que os espectadores não precisam sair de seus carros para assistir aos filmes. O local chegou a fechar as portas por 40 dias no começo do distanciamento social. “Ficamos muito preocupados porque o Drive-in é muito independente, não tem nenhum patrocínio que ajude”, lembra Marta. Quando o espaço foi autorizado a abrir, o número de frequentadores dobrou: agora, o Drive-in tem recebido entre 2000 e 2500 carros por mês.

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Algumas medidas de distanciamento social foram aplicadas para garantir a segurança dos espectadores. A capacidade de veículos diminuiu: normalmente o espaço tem 400 vagas disponíveis, mas agora apenas 200 carros são permitidos no local, com distanciamento de uma vaga. Sachês de álcool em gel são distribuídos para os clientes, e o uso de máscaras é obrigatório. Marta conta que diversos empresários de todo o país têm entrado em contato com ela para pedir informações sobre o negócio. Além disso, o Drivein tem recebido muitas famílias felizes com a possibilidade de se divertir durante esse momento de tensão e instabilidade. É o caso de Pedro Campos, estudante de publicidade. Ele já frequentava o cinema antes da pandemia mas, com o início do isolamento social, passou a assistir filmes no Drive-in toda semana com a noiva. “Tem sido nossa fuga com a quarentena, já que a gente tá levando tudo muito a sério. O único momento que a gente sai por diversão é para assistir um filme no Drive-in. É uma experiência muito legal porque, diferente do cinema normal, a gente tem a nossa privacidade de poder levar o nosso lanche, conversar sobre o filme enquanto assiste – coisa que no cinema normal a gente não poderia”, afirma o estudante.

Apesar do sucesso que os drive-ins ganharam com a pandemia, a manutenção dos espaços continua sendo um desafio. Os gastos com as distribuidoras dos filmes e equipamentos são altos e difíceis de custear sem apoio de patrocinadores, e Marta ressalta que o assunto deve ser discutido nesse momento de criação de novas iniciativas do formato. “O Drive-in sempre foi esquecido no país e agora explodiu para todo lado. Acho que é uma forma de entretenimento bem legal. Já passei por situações muito difíceis, mas sempre acreditei nesse tipo de cinema porque ele oferece uma experiência diferente”, defende.

Conheça outras iniciativas drive-ins no Distrito Federal

Festival drive-in Aeroporto Localizado no estacionamento do Aeroporto Internacional de Brasília, o complexo conta com programação diversificada: são apresentações musicais, filmes e teatros para todos os gostos e idades. A programação é transmitida por meio de um painel de LED e o espaço tem capacidade para até 200 veículos. Saiba mais: /festivaldriveindf

Drive-in Taguatinga Shopping O Taguatinga Shopping inaugurou, em junho, um cinema drive-in com exibição de filmes clássicos, comédias para toda a família e produções para o público infantil. A tela do cinema fica no último andar do estacionamento do prédio, ao ar livre. Os veículos devem manter distância mínima de 2 metros. Saiba mais: /driveintgs

Arena Drive Multicultural Criado pela Arena BSB, o complexo fica no estacionamento do Ginásio Nilson Nelson, com capacidade para 177 veículos. A programação conta com filmes, shows e apresentações para públicos de todas as idades. Saiba mais: /arenadrive

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RE T E N S TA VI

Lydia Garcia

PIONEIRA DO ATIVISMO NEGRO NO DF

Debates virtuais e manifestações pelas ruas de diversos países, incluindo o Brasil, andam a ressaltar uma importante e necessária questão: #VidasNegrasImportam. Contudo, muito antes de existirem hashtags ou fóruns para discussões online, Lydia Garcia já estava atenta às situações específicas vivenciadas por pessoas negras. A pianista e educadora musical, hoje com 82 anos de idade, é uma das pioneiras no ativismo negro do Distrito Federal. Nascida no Rio de Janeiro, veio para Brasília assim que a cidade apareceu no mapa e, desde então, construiu uma sólida trajetória que alia resgates ancestrais a um constante diálogo com o tempo presente.

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Por Maíra Valério Fotos Bento Viana

Os resultados de sua militância, que tem educação e cultura como principais frentes de trabalho, são percebidos inclusive em sua própria família, um poderoso núcleo repleto de artistas e intelectuais de diversas áreas. O casamento com o artista plástico Willy Mello, falecido em 2012 e conhecido também como Olu Mello, gerou inúmeros aprendizados, parcerias e cinco filhos: Kenya, Mali, Luena e os gêmeos Ialê e Kwame. As sementes desses frutos alargaram o clã e trouxeram, para Lydia, mais 11 netos e dois bisnetos.


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Garcia Gang Sendo uma importante dinastia afro-brasileira, com uma identidade forte que mantém firme as raízes negras, a família Garcia decidiu aproveitar a força de seus próprios talentos e criou o Garcia Gang, que já se apresentou no Rio de Janeiro em um show especial em conjunto com a matriarca do clã. O produtor de hiphop Aori, neto mais velho de Lydia, impulsionou o projeto musical com outros netos da pianista e educadora: os também artistas Hodari, Ainá, Aisha e Yaminah, todos com atuação na música, na moda e na cultura em geral. Os Garcias contam ainda com vários outros talentos, como Mali, que é artesã e artista plástica, e Ialê, que trabalha com moda étnica. Os membros da família levaram a valorização da cultura negra como uma militância cotidiana também para outros continentes: Lydia tem um sobrinho na Dinamarca, o Dino, que é médico e mestre de capoeira, e divulga a prática em Copenhagen.

A pianista brinca que sua família é “cariocandanga”. Na capital fluminense foi onde ela se formou em música, respirou a vida cultural da cidade, conheceu o marido e começou a mergulhar nos estudos sobre a África e identidades negras. Em Brasília, no entanto, foi onde as raízes foram fincadas, a família constituída, os projetos consolidados e a militância ampliada por meio de aulas, pesquisas, congressos, eventos, reuniões informais e muito mais. Além disso, Lydia possui ainda um ateliê de moda étnica, o Bazafro, gosta de bordar, segue se articulando em grupos políticos que apoiam a população negra e, como todos nós, anda com muita saudade de uma aglomeração.

O começo de tudo Quando estudante de música, Lydia assistia o grupo de dança do multiartista Solano Trindade, militante do movimento negro e do Partido Comunista, ensaiar na Escola de Belas Artes, que é atualmente uma unidade do Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A Orquestra Afro-Brasileira do maestro Abigail Moura também estava no rol de espetáculos apreciados pela pianista, que desde criança mantém uma forte relação com a cultura. Seus pais incentivavam essa formação em piano, em música?

Lógico, eles que me levaram, né? Me formo com 17 pra 18 anos e faço um curso de especialização em iniciação musical, que foi o que me trouxe para esse trabalho de educação musical. E nesse 14

meio tempo começo a frequentar ali o [Theatro] Municipal [um dos mais importantes teatros brasileiros, localizado no centro do Rio]. Começo já a ter amizades com jovens, né? Namorar, essa coisa toda [risos]. E conheço o pai dos meus filhos. No Municipal?

Sim. E ele me leva pro Renascença Clube também [clube dedicado ao fomento das manifestações culturais da comunidade negra no Rio]. Essa é uma coisa importante na minha trajetória de vida. Conheço ele, conheço outros jovens…A gente fez uma modificação em alguns conceitos do Renascença Clube, trazendo aqueles jovens, mudando aquela coisa que era muito “senhorio”, muito “doutor Fulano, doutor Ciclano”. E saíamos, íamos às vezes para um filme, nos reuníamos. E lá [no Municipal] conheci o Willy, me casei e ele veio para Brasília para trabalhar com Oscar Niemeyer.

Brasília e o fortalecimento da militância negra Em 1960, Lydia se muda para a capital federal, acompanhando o companheiro Willy. E é em Brasília que ela começa também a trabalhar na rede pública de ensino e a ampliar o seu leque de atividades, além de construir um lar acolhedor onde fervilhavam reuniões com artistas, intelectuais e estudantes, sempre colocando no centro de debates questões relacionadas à identidade negra e africana.


Minha militância começa lá em 1956, no Rio de Janeiro, com os jovens negros se encontrando, começando a estudar um pouco as questões culturais. Aí venho para Brasília em 1960, ano em

que ganho minha primeira filha. Já vínhamos estudando a questão Black Power, nos Estados Unidos, a independência dos países africanos, que começa com Quênia. A gente já estava estudando essa questão da africanidade, né? Por isso minha filha mais velha se chama Kenya. Jomo Kennyata foi o negro que fez a independência do Quênia, que se libertou da Inglaterra. Então, em 1960, começa esse movimento das ações afirmativas, do movimento Black Power e nós, aqui em Brasília, éramos poucos negros. A gente tinha esse discurso, esse estudo, mas não tínhamos ainda essa discussão. A comunidade dessa área aqui [Plano Piloto] era pequena, embora fosse composta por pessoas bastante formadas. A gente tinha amizade com os arquitetos, com os engenheiros e tal, Oscar Niemeyer era um homem comunista.

Foto: Bento Viana

Quando começa sua militância?

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Foto: Bento Viana


Começo a dar essa identidade [africana] aos meus filhos. Minha filha Kenya, depois nasce outra, que se chama Mali, o Kwame, em homenagem ao país Gana [Kwame Nkrumah foi um líder político africano, um dos fundadores do pan-africanismo e encabeçou a independência ganesa], e assim vai. O que acontece de interessante? Hoje, se você colocar lá na Internet, vão aparecer muitos Kwames [no Brasil]. E já tive brigas até no cartório, pra fazer a certidão. Não queriam botar w nos nomes, y, entendeu? E aí a gente começa a fazer as reuniões aqui em casa, de poesia, de samba. Aqui em casa veio Nicolás Guillén, aquele poeta cubano… E a gente nunca deixou a questão da negritude, nós fomos uma das primeiras, senão a primeira, família a buscar essa identidade [africana] dos filhos através dos nomes. Willy era um homem muito inteligente, gostava muito de ler. A gente tinha essa questão da biblioteca, muita conversa aqui em casa. Não tinha, ainda, a Internet. Não tinha nada disso.

Como eram feitas as pesquisas de vocês?

Ele lia muito e começou a buscar o que era a independência dos países africanos, por isso que a gente era porta-voz, de arranjar nomes. As pessoas telefonavam, perguntavam: “Arranja um nome aí pra mim” [risos]. E também começaram a vir os estudantes [africanos] para a Universidade de Brasília (UnB), e a minha casa foi um espaço de acolhimento. Eles moravam lá na universidade, mas tinham o referencial dessa família, que era aqui. Tenho um amigo que diz que a minha casa foi a primeira embaixada africana [risos]. Final de semana eles vinham pra cá, faziam comida, a gente conversava. Em Brasília, então, já tinham encontros e reuniões voltados para questões negras, apesar do reduzido número de pessoas?

É, mas aí vem uma questão que não vou discutir muito: a ditadura. Tudo ficou mais difícil. Nós tivemos que nos recolher. Essa efervescência política teve que ficar pianinho. Nós, e outras famílias dessa quadra que moro até hoje, era uma quadra onde

Oscar Niemeyer morou, Athos Bulcão, e outros, a quadra 709 [sul], antiga quadra 24, nós, nesse período, com essa questão política do Brasil, tivemos alguns problemas. Foi uma quadra muito visada. Sabe como é, ficam de olho, né, nas pessoas. Tiveram também uns movimentos muito bonitos, que a gente trabalhava, movimento de criação de sindicatos. Os desenhistas faziam cartazes à mão, para colocar na rua, e outras pessoas das artes. Não tinha essa coisa da gráfica. Era tudo à mão. Mas a gente jogou muito livro fora, muito livro na beira do lago. A gente chegou a ir de madrugada. Eu não ia né, mas os homens iam, de carro, e jogavam, porque a polícia dizia que iria entrar nas casas.

Cultura, educação e o ativismo cada vez mais aflorado Na capital, Lydia trabalhou algum tempo na Escola Parque, a partir de 1963, e depois foi para a Escola Normal de Brasília, onde ficou por aproximadamente 16 anos. Paralelamente ao trabalho de educadora, ela seguiu também se articulando em grupos de militância negra, e ajudou na realização de importantes eventos para a cidade, como a 1ª Semana de Estudos AfroBrasileiros, em 1980, e o 1º Festival Latino-Americano, em 1988, que trouxe para Brasília um Olodum que estava prestes a estourar para a fama, entre outros grupos voltados para música, dança, moda e afins.

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Há mais de três décadas, a pianista e educadora já discutia pautas ainda em debate nos tempos atuais, como as demandas específicas das mulheres negras não precisarem estar atreladas a um movimento de mulheres que universaliza vivências diversas, complexas e atravessadas não apenas pela temática de gênero, mas por questões raciais. Lydia foi, ainda, parte do extinto Centro de Estudos Afro-Brasileiros (CEAB), e se desdobrava em múltiplas formas de atuação. Recebeu prêmios, conheceu países diversos e chegou a viajar por quase todo o Brasil, a convite do Ministério da Educação (MEC), integrando uma equipe de professores que ensinavam outros professores a realizarem uma fusão de arte-educação que integrasse elementos como música, dança, teatro, literatura ou artes plásticas. Essa fusão era também desenvolvida em suas atividades na Escola Normal. Essa mistura de linguagens acontecia toda junto, em uma mesma atividade?

Trabalhávamos em grupo. Por exemplo, uma professora dizia: “Ah, eles estão lendo um livro tal, assim e assim, o que vocês podem fazer?” e a gente trazia o livro para o setor de artes e trabalhava a música, a sonorização dessa história; nas artes plásticas trabalhava o figurino, os cartazes, os desenhos que essa história contava; no teatro, interpretava, fazia cenas. Muito bonito. Participei de muitos conteúdos programáticos, de orientação, pra trazer a educação musical em uma esfera bem moderna, de criatividade. Fiquei 16 anos na Escola Normal e o nosso trabalho era muito criativo.

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Tanto formava público, por ensinar as diferentes etapas da arte, quanto formava artistas, pelo mesmo motivo, né?

Sim. Ah, muito artista passou na nossa mão. E essa passagem da Escola Parque para Escola Normal foi muito importante, aí a militância começa a ficar maior. Mas você sabe que militar não é emprego, né? Você não ganha nada, você só luta mesmo. Um aspecto muito interessante da sua trajetória é essa centralização da cultura e da educação como importantes ferramentas para a movimentação política e para agregar pessoas.

A Escola Normal de Brasília tinha três unidades: o jardim de infância, o ensino fundamental, onde eu atuava, e as normalistas, que estudavam para serem professoras. Nesse contexto todo, se você contar quantas professoras negras, professores negros, tinham… [faz um tom de lamento, indicando que quase nenhum]. E, muitas vezes, os professores iam lá, davam a aula deles e iam embora. Não se envolviam. E eu tinha sempre uma participação, colocando questões culturais, levando pessoas para falar, para se apresentar, porque a questão da negritude, ela tem que ser semeada nos seus vários aspectos, de arte, de tudo, né?

Temos, no país, uma lei sobre o ensino da cultura afro-brasileira em escolas, mas esse trabalho já estava em seu horizonte muito antes, não estava?

Tem um vídeo que chama “Elas Falam”, feito pela professora Renata Parreira, com o depoimento de seis professoras, das quais estou junto [o documentário de 2015 registra a memória de professoras negras do DF], e a gente já trabalhava a lei 10.639/03 [que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira em escolas] sem ela existir. A gente fez o Festival Latino-Americano e os grupos de capoeira se apresentaram, a gente ia pro Gama, pro Cruzeiro… E aí começam a surgir os congressos, congressos de história. A gente era convidada a falar sobre a historicidade negra dentro do ensino...


19 Foto: Bento Viana


Foto: Thaís Mallon

Frente de Mulheres Negras do Entorno e do DF

Como se sente vendo seus esforços de militante e educadora sendo recompensados, inclusive dentro da sua própria família, que é repleta de criatividade e ativismo?

Ah... Eu sou uma mulher normal, não tô nem no “novo normal”, sou normal [risos]. Me considero uma uma mulher como todas as outras. Choro, rio, danço, lavo louça, adoro viajar, adoro sambar. Ai, tô parada! Não tem nenhum pagode pra ir! [risos] E como tá sendo esse tempo de pandemia?

Tenho o dia muito cheio. Moro em uma [mesma] casa há muitos anos. É uma casa de cultura, com muita obra de arte. Não tenho lido quase nada, mas tenho visto muita live. Gosto de bordar e tenho um grupo de bordado, o Bordelando, com 70 20

mulheres, que é fruto de amizade. Já escrevemos livros e fizemos muitas exposições. É um grupo que não é étnico, é um grupo misto, né? É de mulheres aposentadas, professoras, tem advogada, tem dona de boutique, tem doméstica, e a gente se reúne toda segunda-feira, mas agora paramos. Não tem nem encontro online?

Não, não dá. O nosso grupo é dividido em sete subgrupos. Porque tem umas que já tem 15 anos que bordam, outras chegaram há 5 anos. Para reunir online acredito que é difícil, porque muitas não têm essa tarimba que eu tenho de ser essa semvergonha que não entende nada, mas fica online [risos]. Agora, um outro grupo que tenho também, a Frente de Mulheres Negras do DF e Entorno, tá crescendo muito e, nesse momento de pandemia, nos reunimos online.

Essa articulação política, criada em 2016, tem como objetivo o enfrentamento do racismo e do sexismo. O grupo surgiu logo após a Marcha das Mulheres Negras, que aconteceu em 2015. “Assim que acabou a marcha das mulheres negras, aquela grande marcha, as militantes que estavam um pouquinho afastadas do movimento negro, como eu e mais outras... A gente falou assim: ‘E agora? A gente vai ficar longe?’. Aí nós, aqui de Brasília, resolvemos nos reunir. Nós discutimos, nós participamos de debates na Câmara, nós estamos sempre de olho na mídia, nós estamos sempre em cada questão política”, explica Lydia. Nesse momento de pandemia, a frente tem recolhido dinheiro e doações para auxiliar famílias em situação de vulnerabilidade. SAIBA MAIS E APOIE: /frentedemulheresnegrasdf /frentedemulheresnegrasdf


Fotos: Bento Viana

Esse movimento já vem há muito tempo, vem com Abdias [Nascimento], com a Frente Negra Brasileira (FNB), com uma série de coisas. Agora, ele é como a sociedade, a sociedade se transforma, o movimento negro vai caminhando. Esse grande salto que o movimento negro deu foi pela possibilidade de estarmos estudando, de estarmos nas universidades, estarmos na área de tecnologia.

Fotos: Bento Viana

Estando esses anos todos acompanhando vários ciclos e demandas do movimento negro, qual a sua percepção sobre as mudanças que ocorreram? Muitas questões sobre negritude andam em bastante evidência.

Mas ainda sempre atrelados ao problema da branquitude que não nos oferece oportunidade, acha que estamos de mimimi e não nos respeita. Então o movimento negro cresceu à medida que algumas leis que

nós, da minha faixa, fizemos, que foi a cota, que foi a questão da luta das mulheres... O movimento negro, ele é político, ele é cultural, e enquanto eu estiver aqui, a chama vai estar acesa. 21


S A V N A

C

aqui você encontra novos e consagrados talentos das artes visuais da cidade

siga o artista

thiagodesenheiro

Thiago Fagundes é ilustrador e “desenheiro’’ há 12 anos. Trabalhou por 3 anos no Jornal de Brasília e desde 2010 é infografista no Correio Braziliense. Graduado em Comunicação Social/ Jornalismo pela Universidade Católica de Brasília (UCB), é no Instagram que o artista se sente mais à vontade para expressar sua opinião.

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Foto: Ester Cruz


Re ve re nciar o

passado para

tra nsformar o fu tu ro

Por MaĂ­ra ValĂŠrio e Rebeca Borges

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Fotos: Mídia Ninja

aqui porque “Chegamos até antes não as que vieram quilo que abriram mão da nçável: parecia inalca upar outros construir e oc dos que lugares, além minados pelo foram predeter pelo racismo patriarcado e êmico. Essas colonial sist ias negras, utopias, utop s ancestrais, são tecnologia mos, mais do às quais deve correr como que nunca, re de direção possibilidade para combater agora. Sonhar o absurdo.” nifesto (Trecho do ma nhe!, – Se puder, so s Utopias Negras de an rn Fe e quelin escrito por Ja dades) ni ti La do ão iç para a 13ª ed

“Nossos passos vêm de longe.” A frase ecoa um dos mantras do movimento de mulheres negras brasileiras e é a síntese de tudo o que o Festival Latinidades representa. Em 2020, o maior evento de mulheres negras da América Latina – que, ao longo dos anos, reuniu público indireto de 2 milhões de pessoas – chega à 13ª edição orgulhoso da trajetória construída, conectado com histórias de resistência. Avançando novos passos e ocupando outros espaços, o Latinidades 2020 tem como objetivo transformar um mundo que enfrenta não apenas a pandemia da covid-19, mas o boicote à utopia.

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O evento ocorre tradicionalmente no mês de julho, reunindo arte, cultura, formação técnica e política, incentivo ao empreendedorismo e ações de fortalecimento da identidade de mulheres negras. A escolha da data tem motivo: é que no dia 25 deste mês comemora-se o Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, criado em 1992 durante o 1o Encontro de Mulheres Negras da América Latina e Caribe, na República Dominicana. Idealizadora do Latinidades, a jornalista, produtora e gestora cultural Jaqueline Fernandes lembra que esse encontro na República Dominicana, há 28 anos, foi essencial para a existência das inúmeras ações voltadas para as mulheres negras na América Latina nos dias de hoje. “Todo mundo olha pra um evento como algo que acontece e passa, não deixa legado. E a gente sempre defendeu esse lugar estratégico da cultura e dos eventos de formação”, explica. “Hoje não é só o Latinidades, não é só o dia 25 de julho. É quase um mês da consciência negra, o Julho das Pretas tá em tudo quanto é lugar do Brasil. Essa primeira célula lá é que vem se movimentando e o Latinidades é parte disso, é muito mais que um festival. É uma plataforma de impulsionamento de trajetórias de mulheres negras. E ele parte do lugar da arte e da cultura, mas quer dar visibilidade para diferentes saberes”, acrescenta.


Portanto, é seguindo o legado de quem abriu portas e ultrapassou barreiras impostas pelo racismo que o Latinidades fez (e faz) a diferença no Distrito Federal, no Brasil e no mundo. O evento recebeu artistas de mais de 20 países, realizou cerca de 200 atividades formativas e apresentações artísticas, deu origem a cinco publicações e contou com personalidades como a ex-Pantera Negra Angela Davis, as escritoras Conceição Evaristo, Shirley Campbell, Paula Chiziane e as acadêmicas Sueli Carneiro e Patricia Hill Collins. Assim como Jaqueline faz questão de lembrar da luta de quem veio anteriormente, é importante ressaltar que, antes de ganhar tamanha proporção e conseguir transformar a vida de milhares de pessoas, o Latinidades surgiu de um incômodo: a falta de espaços para a disseminação da cultura negra em Brasília. “Sou uma mulher preta que nasceu em Planaltina e, quando olho, como artista e produtora, e não vejo espaço para a difusão da produção preta na cidade, preciso criar essa parada”, afirma.

“O Latinidades é um festiv al que coloca moda na pauta, que coloca música na pauta, entendeu? A gen te fala do feminismo, do machismo, da importância da mulher negra na TV, na medicina, no laboratório, sendo profes sora, na capa da revista, em todos os lug ares, porque nós, mulheres negras, pod emos estar em qualquer lugar. Lá, eu me achei, me libertei em mim e por mim , me senti importante, me senti reconh ecida com as minhas características físicas e psicológicas. O quanto que aprendi em cada festival que apresente i. Quantas rodas presenciei que são um livro pra mim, sabe? Só agradeço por ter estado naquele lugar, naquele mom ento, naquela hora. É o meu lugar, é o lugar que quero estar todos os anos. O Lat inidades é o meu horizonte pessoal e pro fissional.” Maria Paula de Andrade é jornalista, apresentadora, mestre de cerimônias, está sempre antenada no universo virtual e é mãe de três filhos. Sua relação com o Festival Latinidades tem alguns anos e ela já foi apresentadora em aproxima damente oito edições do evento.

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Foto: Isabela Alves

E assim o evento ganhou vida, cresceu e se desenvolveu. Ao longo dos anos, a equipe do festival realizou ações em diferentes espaços da cidade, como o Museu Nacional da República, o Parque da Cidade, o Estádio Mané Garrincha, a Rodoviária do Plano Piloto, o Mercado Sul de Taguatinga e a Penitenciária Feminina do DF. O Latinidades também ultrapassou limites geográficos, realizando uma edição em São Paulo, em 2019, e ações em outros países, como Cabo Verde e Cuba. Para o futuro, o plano é expandir o evento, fazendo edições em outros estados do Brasil. Sócia, coordenadora do projeto e parceira inseparável de Jaqueline desde a primeira edição, Chaia Dechen é responsável por 28

encantar ainda mais o público do festival com seu trabalho como designer gráfica e videomaker, tendo sido responsável pela identidade visual da maioria das edições. “O Latinidades é o projeto onde eu mais aprendi, em todas as dimensões da vida. Estive desde o início, quando tudo era ainda só um brilho nos nossos olhos. Vi o projeto engatinhar, cresci com ele e bati cabeça, em reverência, quando o percebi como entidade. Nesses 13 anos, o Latinidades me deixou com sede e me nutriu. Tirou de mim lágrimas, noites de sono. Repôs sonhos, amizades e lições que carregarei para toda vida. Latinidades é pura potência, uma escola, um templo, nossa casa”, revela emocionada.


um eu vi ez que ntrado, v a r i oce prime s te afr “Foi a ealmen ssas própria r l a v o n , s festi o a m eminis mas o para voltad negritude, f te s o a r , pautas mo, e não pa traz pra is branca : quais são mulher mídia a s s e mãe guntam que re per ades de ser p m e S . d e mulher l t u n r c ge difi ue se q s e m d e n c a esque as gr mãe é Mas se ra e, ser negra? muito potent positora neg m o é c e a t r r i e g m s ne per e, potent e. O evento dos muito conteú a nt e s t o o p e r o s b t o i e s u é m raz s ale ente f estudando, t undar g a e qu tá prof gente to rmos a que a a pode os. É um mis r a p e d c a i d f r í e a lib cient o com temas sucess plodir.” e sobre d s a i ex reir de car a de quem va a. d r a u g ucador van rte-ed

e a antora pação na é c na ocu ga, e r s o o L n a a t 5 a in 1 b t a a e h u T ag a d á cerc do Sul, em T cação Atua h i a n c u r o com al Me cultur do temas com da cidade. a, n nelist o i ã t ç u a c p s u mo pai lico. c di o o c e s e a úb dad ric perifé ou do Latini lam e como p s ip Partic sentações de re com ap

ENCONTROS QUE TRANSFORMAM Quem frequenta (ou já frequentou) o Latinidades sabe que a verdadeira potência do evento está justamente nos encontros que nascem ali. A cultura é um elemento chave que azeita o compartilhamento de experiências e a troca de ideias entre mulheres negras de diferentes realidades. Dessa mistura, surgem parcerias e amizades, conhecimentos são trocados e laços são estreitados. Contudo, a pandemia do novo coronavírus impede o abraço, a presença, a conversa olho no olho. A edição deste ano, que traz o tema Utopias Negras, pretendia ocupar o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Agora, a ideia é seguir se encontrando, mas virtualmente, em uma programação multilinguagem que visa honrar a trajetória de 13 anos do evento.

“É importan te a gente desmistifi fronteiras car as geopolític as para ob nossa libe ter a ração cole tiva, se em e não acei poderar tar, nem re speitar, as fronteiras coloniais. Pensando em história co letiva de diáspora af nossa nas Améric ricana as, nossos an falavam pe lo menos ci cestrais nco idioma A África oc s. id inteiro, er ental, e o continen te a e é um es paço cosmop e transnac ional. O La olita tinidades importante é para a gent e ouvir a cultura e voz da da Antes de no intelectualidade ne gra. s preocupa rmos se o hegemônico poder pode nos ou vir e resp temos que eitar, nos ouvir e respeita primeiro. r Precisamos nos organi porque a ge zar, nte tem po der.” Tanya Saun ders é uma pe Estados Un idos e este squisadora dos ve no Lati como debate nidades dora. Ela é mestre em Desenvolvi mento Inte Política e rn acional pe Ford, Esco la Gerald la de Polí R. tica Sociologia pela Univer s Públicas, e PhD em sidade de Michigan.

A idealizadora do Latinidades ressalta que utopia não é uma coisa desnecessária, tampouco uma futilidade. “Pra muita gente, utopia é sinônimo de coisa inalcançável e a gente tá disputando a narrativa de que utopia é horizonte”, enfatiza. “A ideia é muito essa: como é que esse legado de utopias que a gente recebeu dos nossos mais velhos chega pra gente e como a gente consegue fazer um exercício de se projetar no futuro”, diz.

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Foto: Chaia Dechen

“Descobri no Latini dades que eu ia ser mãe. Foi extrem amente importante descobrir que eu es tava grávida no me io de todas aquelas mu lheres, por saber que tem mulher pret a no mundo inteiro pensando num mundo melhor para todas as crianças. O Lati nidades tem essa pluralidade de femi nismos negros, de possibilidades dess a discussão. Essa questão de escolher ou não ser mãe é muito importante na nossa comunidade. Vejo que às vezes o feminismo branco avançou tanto nest a direção das mulh eres serem iguais aos ho mens, que elas excl uem a maternidade dess e poder. Pensando numa perspectiva africa na, afro ameríndia, a gente vê que a noss a força está em de ixar outras pessoas para contribuírem para esse mundo, para qu e esse mundo tenha diálogos em divers as perspectivas.” Priscila Obaci é atr iz, dançarina e poe ta. É co-fundadora da Cap ulanas Companhia de Arte Negra (SP), realiz a a noite dos tambor es em São Paulo com o gru po Umojá e desenvolv eu uma metodologia de prá tica corporal para mães, pais e bebês. Partic ipou do Latinidades entre 2013 e 2019, como público e palestran te.

A realização coletiva desse exercício que envolve afeto, partilha e prospecção, homenageia em 2020 três ícones da cultura brasileira: a sambista Dona Dalva Damiana de Freitas, a cantora Elza Soares e a escritora Elisa Lucinda. “São mais de 60 atividades, e não é o suficiente, porque são muitas as nossas utopias, e muitas as nossas propostas para a construção de um mundo melhor”, reforça Jaqueline.

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“O fest ival é uma gra cultura nde fer l sob a ramenta égide d dos mai de resg a ances ores pi ate tralida lares m de noss de. É u atriarc o tempo m a i s conte , reuni e de vá mporâne ndo mul rias ge os heres f rações. de duas antásti Partici edições cas pei da do even e 2016] cobertu to pela . Mas f ra oi na e Cultne a mais dição d [2014 salutar e 2 0 e 14 que encontr agregad tive os incr ora exp íveis, eriênci exclusi como as a com vas com e ntrevis a ativi america tas sta e f na Ange ilósofa la Davi Guadalu afros , a can pe, Mal tora de ika Tir Elza So olien, ares e além da Mart nál acontec s divas ia. Ain eu um r da ness egistro um terr a ediçã audiovi eiro de o sual má candomb do Baob gico em l é: o ri á – á tual de rvore s cultura ímbolo plantio s afric fundame anas tr Oya Bag ntal da adicion an [ter s ais – reiro d ponto d no Ilê e cando e cultu Axé m blé e t ra do D Yalorix radicio F], sob á Mãe B n al o a comando iana e Salami, do Baba da da cida laô Ras de de A Foi uma aki beokuta excelen , na Ni te expe conjunt géria. riência o entre esse tr a Acerv Latinid abalho o Cultn ades.” e e o F estival

Dom Fil ó é eng enheiro videoma , DJ, p ker e f rodutor undador Soul Gr cultura da hist and Pri l, órica e x. Desd cenário quipe d e a déc cultura e som a d a de 19 l em pr negra e 60, bat ol da d , atual alha no ivulgaç mente, Cultura ão da c comanda Negra, ultura a C u ultne ma impo afro im – Acer rtante aginári vo da memória o. do univ erso


“O ano era 2014 e foi uma das primeiras vezes que visitei Brasília. As Blogueiras Negras entrevistaram Patricia Hill Collins, Ana Maria Gonçalves, Selma Dealdina e vimos ali o que significava ser parte de um legado dos movimentos de mulheres negras. Foi a primeira vez que ouvi Angela Davis num discurso tão poderoso sobre as lutas das mulheres negras no mundo: ela já falava ali de uma internacionalização, costurando as lutas por emancipação das mulheres e dos povos oprimidos do mundo inteiro. O Latinidades me permitiu entender o tamanho da gota que somos no oceano negro das mulheres da América Latina e Caribe.” Larissa Santiago

“Todas as edições até aqui foram históricas, todo o festival é. Porém, as duas últimas edições tiveram um quê de especial. Primeiro o festival veio para São Paulo, agora será 100% digital. A capacidade de realizar um evento dessa natureza num contexto extremamente desafiador, durante uma pandemia e com esse tema, mostra não apenas a capacidade intelectual das mulheres pretas. É uma importante declaração de que nada nos impedirá. Falar de sonho é central no momento em que vivemos e mais uma vez a gente está na cara do gol e sabendo muito bem o que fazer, quais os caminhos necessários para construir o dia depois de amanhã, o próximo ano, as próximas décadas.” Charô Nunes

Charô Nunes, Larissa Santiago e Viviane Rodrigues são coordenadoras do Blogueiras Negras, site colaborativo composto por equipe de mulheres negras que, desde 2012, publica conteúdos voltados para esse público, abordando temáticas que costumam ser invisibilizadas pela imprensa tradicional. Participaram do Latinidades como público e painelistas

“Na minha percepção, o dever da imprensa negra é contar outras histórias. É de reconhecer as mulheres negras, falar do protagonismo de suas lutas, falar o quanto foram (e são) incríveis e astutas para sobreviver à escravização e à opressão. Lembrar que somos nós, mulheres negras, que realmente temos um plano para construção de uma outra sociedade. Quando as mulheres negras alcançarem a igualdade, toda sociedade terá alcançado a igualdade.” Viviane Rodrigues

LATINIDADES EM NÚMEROS Público indireto:

2 milhões de pessoas Público direto:

300 mil pessoas 200 apresentações artísticas 200 atividades formativas

5 publicações

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Latinidades: trajetória Fotos: Tatiana Reis

2011: Com o tema Mulheres Negras no Mercado de Trabalho e dez mesas de debate, a edição deu origem à segunda publicação do festival. Shows ocorreram no Parque da Cidade, com apoio do Ipea, e ações foram realizadas na Penitenciária Feminina do DF 2008: Primeiro ano do Festival Latinidades, com dois debates e apresentações culturais em homenagem ao Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha 2009: O evento discute a mulher negra nos meios de comunicação, com uma tarde de debates e noite de shows 2010: O Latinidades teve o tema Censo e Políticas Públicas para Mulheres Negras e as discussões deram origem a uma publicação-referência. Foram realizadas ações na Penitenciária Feminina do DF e shows na Esplanada dos Ministérios, em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

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2012: A edição teve o tema Juventudes Negras e contou com shows, debates, lançamentos literários e feira de afro-negócios. O evento ocorreu durante 5 dias no Complexo Cultural da República e gerou uma publicação-referência, disponibilizada gratuitamente. Mais uma vez, a Penitenciária Feminina recebeu ações do festival

2013: Cerca de 50 mil pessoas participaram do festival no Complexo Cultural da República. Em 2013, o tema foi Arte e Cultura Negra, Memória Afrodescendente e Políticas Públicas. Além da Penitenciária Feminina, o Latinidades também realizou ações em Cuba. O tema gerou uma publicação-referência, disponibilizada gratuitamente 2014: Com sete dias de programação e com o tema Griôs da Diáspora Negra, o Latinidades reforçou seu alcance internacional, com convidadas de vários países e ações em Cabo Verde. O evento teve palestrantes como a ex- Pantera Negra Angela Davis, a socióloga estadunidense Patricia Hill Collins e as escritoras Shirley Campbell Barr (Costa Rica) e Paulina Chiziane (Moçambique)


Coletivo Jovem de Exp

ressão

Foto: Isis Maria

2015: O tema da edição foi Cinema Negro, com debates sobre protagonismo e representação das mulheres negras no cinema. O evento deu visibilidade para a produção audiovisual de mulheres brasileiras e de outros países 2016: Dessa vez, com o tema Comunicação, o Festival Latinidades ocorreu no Museu Nacional da República e teve ações na Rodoviária do Plano Piloto. A programação contou com debates, oficinas, shows de música e dança, sessões de cinema e lançamentos literários nacionais e internacionais 2017: Em 2017 o Latinidades teve duas edições: uma em julho e outra em novembro. As atividades ocorreram no Complexo Cultural da República, Setor Comercial Sul, Estádio Mané Garrincha e Mercado Sul, com o tema Horizontes de liberdade: Afrofuturismo nas asas de Sankofa

2019: Em 2019 o festival discutiu a memória e propriedade intelectual da população negra, reivindicando e visibilizando as contribuições desses povos para o desenvolvimento do mundo. Pela primeira vez, o Latinidades foi realizado em São Paulo

2020: Com o tema Utopias Negras, o Festival Latinidades pauta a necessidade de que pessoas negras tenham direito à memória e ao futuro e a garantia aos direitos humanos da comunidade LGBTQ+. Pela primeira vez, o evento ocorre de forma totalmente digital, debatendo a geração de renda para mulheres negras em meio à pandemia de coronavírus 33


Foto: Tatiana Reis

INSTITUTO AFROLATINAS O Instituto Afrolatinas nasceu, de modo orgânico, a partir de articulações relacionadas ao Latinidades. Hoje, atua como organização de mulheres negras, sem fins lucrativos, e tem sede no Varjão. A atuação do instituto abrange formação técnica, política, empreendedorismo, inovação, produção cultural e geração de renda para mulheres e meninas negras em atividades contínuas, para além dos limites temporais do festival. Uma das diversas iniciativas ganhando espaço na organização é o Serviço de Preta. 34

“É muito pra dar uma detonada nessa coisa de que serviço de preto é malfeito, desqualificado. Em 2015 a gente criou uma ação pra chamar mulheres negras para aprenderem no backstage do Latinidades e depois a gente certificava elas. Várias mulheres começaram no Serviço de Preta e hoje estão fazendo várias produções. Agora virou um projeto à parte”, comemora Jaqueline. “Todos os festivais de música, arte e cultura têm um ambiente de mercado. Com pitch, showcase. A grande ideia é artistas terem contatos com players e negociarem. O que a gente percebe estando nesses espaços há mais de 20 anos?

Quando as pessoas pretas chegam nele, geralmente não têm as ferramentas pra fazer um pitch. Todos os termos são em inglês, todas as coisas são inalcançáveis”, denuncia. Por isso, o Serviço de Preta tem o objetivo de ser um espaço de formação e capacitação para que mulheres negras possam participar de ambientes de mercado com segurança. “A gente vai oferecer vários cursos, mentorias, desde educação financeira até como elaborar um pitch, como fazer marketing digital, como levantar um projeto do zero”, conta Jaqueline.


Anne Caroline Quiangela Escritora, roteirista de quadrinhos e mestra em literatura

Conheça as mulheres que compõem o Instituto Afrolatinas:

Aline Maia Socióloga e mestra em Antropologia

Bruna Cristina Jaquetto Pereira Doutora em Sociologia, especialista em temáticas de gênero, raça e interseccionalidade Dalva Santos Gestora em inovação social e mestra em Sociologia

Débora Carvalho (DJ Donna) DJ há 20 anos e residente no Festival Latinidades

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Ludymilla Chagas Produtora cultural e tradutora

Lorena Monique (Neggata) Pesquisadora formada em Ciências Sociais e criadora de conteúdo digital

Jaqueline Fernandes Jornalista, pesquisadora, produtora e gestora cultural

Uila Cardoso Psicóloga com atuação na clínica das relações raciais

Moara Ribeiro Cantora, compositora e produtora cultural

SAIBA MAIS afrolatinas.com.br

/festivallatinidades /afrolatinas

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Wemmia Anita Sócia- fundadora do RAIX, marca de vestuário que busca valorizar a cultura periférica do DF


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Recorte e cole seu Lambe


Giova nna Cia nel l i Por Marianna França Giovana Cianelli gosta de ilustrar os seus trabalhos usando traços fortes e cores vibrantes. A artista visual é muito influenciada pelos movimentos de contracultura e psicodelia, e isso se expande por todas as suas camadas identitárias: o jeito de se vestir, o gosto musical e até as ideologias políticas pessoais. Atualmente a artista vive entre São Paulo e Rio de Janeiro, e atende principalmente ao mercado editorial, ilustrando livros

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e capas. Participante do Lambe Aqui, Giovanna vê muita potência política nas ações do projeto do Motim voltadas em colar lambes pela cidade. “É muito importante a gente se posicionar e espalhar essas coisas por aí. Fiquei muito feliz quando me chamaram para participar. Inicialmente fiquei pensando sobre coisas contra o presidente. Mas cheguei à conclusão de que falar sobre ele era dar mais espaço. Então eu quis trazer a

imagem da Marielle para continuar essa palavra de resistência, de força e de lembrança da pessoa que ela foi e que continua deixando sementes maravilhosas por aí”, explica. Giovanna considera importante ocupar a cidade com pensamentos, arte e com aquilo que ela acredita. O ato é como um respiro e um afago no meio da atribulada vida urbana. /giovannacianelli


RAS ESPECIAL C U NHO

Poemas da Quarentena

#3

29.05.2020 – 2

Meia hora 00:30 E o tempo agora é outro O relógio marca a hora Que tempos atrás falava depressa E então o abraço demora 00:25 As mãos trocam o café Para folhear as promessas Deixadas no caderno De palavras confessas 00:20 Elas entrelaçam os dedos Que consolam a ausência E falam da falta Que fará a vivência

Como é que se pode sonhar em dias medonhos em que falta o ar um mundo sem segregação? Como é que se pode seguir

VIDA

em frente sabendo que há tantos corpos negros num caixão?

00:15 Pois o que se esvai na morte É o controle que ninguém tem, Nanda Fer Pimenta Que faz chorar E que se transforma em lembrança de alguém 00:10 Mas o quão imprevisível é a vida? Dela nada podem esperar Um dia no mundo No outro, o próprio lar 00:05 Percebem, o peso do ontem Cheio de rancor E o amanhã que é ansiedade Não vale fazer o hoje ser repleto de dor

Laeticia Monteiro

Como é que se pode medir em números o desespero de partir com um joelho a te prender no chão?

E o tempo não mais regresso Agora é para a frente Reunindo de novo essa gente Pra falar com quem vive o presente

nasci vida , so vim de vid u vida a, respiro vida quero ser vida quero viv er em vid a VIDA uma palav ra às vezes a tão curta e fácil de té gasta n pronuncia a boca, d r fala e tanto q ue se VIDA mais o qu e é viver em vida viver o ho je é uma luta! tem crian ça que só quer desc infelizmen er na rua te, talvez não haja v NECROP olta OLÍTICA e aí já sab emos que não tem d tem ende ireito a vid reço e co r! a! tem um v éu branco sobre nós seria apen as um véu ? ou mais u m corpo n egro cobe véu, que rto pelo v uns cham éu am de ec outros ch onomia amam de o B outros ch rasil não p amam de ode parar alg A que po nto estam o inevitável os é tudo re al, não é m chegando, entira, pa piada de rece piad mal gosto a , cantar bo ssa nova, rir do palh aço e ach ar desnec VIDA essário fa lar de eu só que ria ser vid a, viver vid a, eu sou vida.

Ilustração: Tiago Palma

Izabela Brettas

Como é que se pode pôr em palavras o tamanho de uma dor que GRITA de exaustão?

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Mul h e re s

que voam co m os pássaros Por José Rezende Jr. Fotos João Saenger

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“A arte enquanto modo de vida é essa corda bamba, pode parecer loucura ou extravagância caminhar em um fio, mas não podemos esquecer que a outra opção é estar no chão e, às vezes, esse chão pode ser areia movediça.” (trecho de uma das cartas do correio elegante que o coletivo Instrumento de Ver envia por e-mail ao público durante a pandemia) Avenida Central, Vila Planalto, rua da padaria, ao lado do salão de beleza. A fachada colorida contrasta com o cinza que o silêncio ecoa. O que antes era o ruidoso riso de gente feliz treinando ou aprendendo a voar, e o farfalhar das asas das mulheres voadoras em acrobacias aéreas de tirar o fôlego, agora é só o som metálico produzido pela artista circense Julia Henning no instante em que ela, solitária, gira a chave e abre o galpão vazio. Em outros tempos esse seria um treino coletivo, e Julia teria a companhia de suas três parceiras de itinerário pelos ares (Maíra Moraes, Beatrice Martins e Bela Levi), mas a pandemia cobra solidão, e apenas uma delas pode ocupar o galpão de cada vez.

Sem medo das quedas provocadas pela pandemia, as intrépidas circenses do Instrumento de Ver contam com o apoio do respeitável público para seguir em frente e para o alto

Julia olha os aparelhos suspensos no teto e antevê o voo, mas o momento exige os pés bem firmes no chão – ainda que o chão seja às vezes areia movediça – e ela então esfrega o piso, as maçanetas, as cadeiras, as torneiras, o trapézio e tudo o que há no mundo com litros de água sanitária, e depois espera que o tempo se encarregue de secar.

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O combate ao vírus invisível e feroz dura quase tanto quanto o próprio treino – este, por sinal, adaptado à pandemia: há que se domar os instintos, não voar tão alto, minimizar os riscos, evitar as manobras aéreas mais perigosas e, mais do que nunca, temer a queda, porque em caso de acidente não haverá ninguém para prestar socorro.

Celebração da vida Difícil medir a altura do tombo. A pandemia atingiu o Instrumento de Ver num dos melhores momentos de sua história. Depois de quase duas décadas encantando plateias com espetáculos como Meu chapéu é o céu, O que me toca é meu também e Porumtriz (aplaudidos por mais de 16 mil pessoas de 70 diferentes cidades brasileiras), e ajudando a formar uma nova geração de artistas de circo por meio de cursos e oficinas, e participando de mostras e festivais pelo Brasil e o mundo afora, era a hora de voar ainda mais alto. Não fosse o vírus, o coletivo estaria agora na França, numa residência artística de dois meses para, em 2021, realizar o sonhado tour francês com o espetáculo 23 fragmentos desses últimos dias. Como se não bastasse, Julia, Maíra, Beatrice e Bela viram também cancelados o musical Brasília, veja você, homenagem de Oswaldo Montenegro aos 60 anos da cidade, no qual o Instrumento de Ver teria papel central, e o espetáculo ÓTIMOMÁXIMO, que seria encenado a convite do CCBB. 42

“Estávamos com um monte de projetos. De repente não tem mais nada, não tem dinheiro, foi tudo cancelado. Imagina isso na cabeça de uma pessoa. Ficamos todas bem baqueadas no início”, Julia conta. “Mas em momento nenhum a gente parou nesse discurso de ‘ai, tadinha da gente’. Pelo contrário. Um dos papeis da arte, talvez o principal, é produzir sentido. Então a gente continua produzindo outros sentidos, outros mundos, criando possibilidades de futuro. Quando a pandemia passar, vamos continuar de onde paramos. A gente tá superviva, se reconstruindo, entendendo a arte como celebração da vida.” O mais importante e bonito é que o Instrumento de Ver nunca esteve sozinho na celebração da vida. Sem dinheiro, sem contrato, sem patrocínio, sem editais à vista, Maíra, Julia, Beatrice e Bela recorreram à parceria, carinhosamente tecida ao longo do tempo ­com o público. O pedido de apoio veio em forma de um texto publicado nas redes sociais do coletivo, logo no início da pandemia:


“Nossa arte é o nosso ofício, esse é o nosso ganha pão. Infelizmente, em tempos de confinamento, o setor cultural foi o primeiro a ser paralisado. Nossa galpoa está fechada, o aluguel vence na quarta. Nossas apresentações foram canceladas. Nossas viagens adiadas. Assim como muitos de vocês, não temos perspectivas para os próximos meses. Mas temos muito: temos vocês, temos essa rede costurada com amor e preciosismo, nesses nossos 18 anos de coletivo. Preparem-se para estar conosco nesses próximos dias.” O chapéu virtual deu certo: graças às doações e rifas, o coletivo conseguiu pagar os aluguéis de abril, maio e junho do galpão da Vila Planalto, a sede própria do coletivo, carinhosamente conhecida como galpoa. [O mês de julho ainda está em aberto; caso o querido leitor e a estimada leitora queiram apoiar, os dados bancários encontram-se no pé deste texto.] E mesmo em tempos de tanta escassez, o Instrumento de Ver se uniu a outras companhias do Distrito Federal para criar a Rede Circo Brasília, fundo de assistência a artistas circenses que se encontram em situação de vulnerabilidade social. De tudo o que arrecada com a generosidade de seu público, o coletivo generosamente doa 25% para esse fundo.

Foto: João Saenger

“Quando a gente tá nos piores momentos, é o nosso público que nos abraça e nos resgata”, agradece Maíra Moraes.

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Salto mortal Um dos abraços mais estreitos do público veio no final de 2017, em meio a outra crise. Mais uma vez sem dinheiro, sem contrato, sem patrocínio e sem editais à vista, Beatrice, Bela, Maíra e Julia enfrentavam outro obstáculo: a ausência de espaços culturais públicos em Brasília, a maioria fechados por tempo indeterminado, para reformas intermináveis. E os que estavam abertos eram pequenos demais para tantos sonhos e coisas. “O que existia já não cabia a gente”, disseram à época. Em vez de recuar, optaram pelo passo à frente. Mais que um passo à frente, um salto mortal, como elas mesmas definiram, e alugaram um galpão na Vila Planalto. Era um sonho antigo: a sede própria, onde abrigar treinos, ensaios, cursos, oficinas, espetáculos, tudo o que já não cabia em lugar nenhum. O único problema: não havia dinheiro para a reforma e o banco negou o crédito, como é da natureza dos bancos. A solução foi buscar financiamento colaborativo, via Catarse, para confirmar o que sempre souberam: o salto mortal tinha rede de proteção e afeto. Em pouco tempo a campanha ultrapassou a meta inicial de R$ 38.100 e arrecadou R$ 45.819. E foi assim, com o abraço apertado do público, que o galpão descolorido virou a galpoa e ganhou ares e cores de espaço multiuso aberto à diversidade de artes e gentes.

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“Agora, nessa pandemia, tá acontecendo bem isso de novo. A galpoa tá sendo subsidiada pelo público, inclusive por gente que nunca pisou lá”, Maíra conta. “Viver de arte é muito frágil no nosso país, estamos ameaçados de extinção a todo instante. Nesse momento tão difícil, é emocionante contar com o apoio de pessoas que acreditam na nossa potência mesmo no momento de fragilidade, que acredita na nossa força de querer mudar o mundo a partir da arte.”

As veias abertas do circo Ver o Instrumento em ação é como dissecar o circo e enxergar as engrenagens expostas, pulsando. Não há separação entre artistas e público. Bela, Julia, Maíra e Beatrice recebem os pagantes na entrada, depois entram em cena, depois vendem pipoca no intervalo, depois voltam às acrobacias, e no fim da função são elas que varrem o chão e guardam o cenário. “Mesmo não vindo da tradição do circo clássico, itinerante, a gente se construiu nesse lugar, na força do imaginário do circo”, define Maíra. “Tudo acontece na frente do público, em tempo real. A gente corre risco de vida aqui e agora. Quem for ver o Instrumento não vai ver personagens, vai ver a gente, esses nossos corpos circenses, vai ver a emoção que as acrobacias aéreas trazem, mas também o humor, a brincadeira, a descontração, num tête-à-tête com o público.”


“O Instrumento de Ver é um casamento artístico”, define Beatrice Martins. “E este é um momento que a gente tem ajudado umas às outras. Às vezes uma tá mais pra cima, outra mais pra baixo... A gente se encontra e se entende nesse lugar. Estamos aí, atentas, questionando e sentindo na pele o que tá acontecendo nesse mundo, tudo reverberando no nosso corpo.”

E o Instrumento de Ver vai agregando outros artistas ao longo da caminhada, formando um coletivo dilatado que se junta para um determinado espetáculo e, depois, cada qual se desgarra para cuidar de seus próprios projetos, a exemplo de Raquel Karro, que dirigiu os espetáculos Porumtriz e O que me toca é meu também, Leo Sykes, diretor de O meu chapéu é o céu, a francesa Maroussia Diaz Verbèke, diretora de 23 fragmentos para esses últimas dias, o suíço-brasileiro Leon Volet, em cena no mesmo 23 fragmentos..., o Coletivo Antônia, parceiro em Bubuia, espetáculo voltado para a primeira infância, e a companhia de dança dançapequena, parceira em Vin\co.

E antes que se fechem as cortinas, o Instrumento de Ver se despede do respeitável público leitor da Traços com um número solo de Julia Henning. Um gran finale, no qual a artista circense explica para que, afinal, serve uma trapezista: “Para voar sem asas, para enganar a morte, para nos tirar do chão, para fecharmos os olhos no momento mais arriscado, para não nos esquecermos do risco da vida, para nos reconhecermos enquanto seres humanos, para ver coisas que os outros não veem, para ver o mundo de cabeça pra baixo, para inverter a lógica, para recriar o mundo.”

Para saber mais: www.instrumentodever.com Para apoiar o coletivo: Banco 260 Nu Pagamentos SA agência 0001, conta 78926220-7 Instrumento de Ver CNPJ: 30.478.794/0001-64

Fotos: João Saenger

Maíra, Bela, Beatrice e Julia formam a base do coletivo, que conta também com três parceiros fixos: o videomaker Cícero Fraga, que dialoga artisticamente na área do audiovisual, a designer Bruna Daibert, responsável pelas artes de divulgação dos projetos, e o fotógrafo João Saenger, que conta a história do Instrumento de Ver para além dos espetáculos e é o autor das fotos que ilustram esta reportagem.

Para Bela Levi, as acrobacias aéreas são apenas a ponta desse caloroso iceberg chamado Instrumento de Ver. “A gente tem que aprender eletricidade, tem que aprender hidráulica, tem que saber ler e interpretar edital, escrever projeto, fazer planilha financeira... São muitas coisas envolvidas, antes de você entrar em cena ou dar aula de acrobacias pra alguém. Cansa, mas é a realização de um sonho sonhado junto. É a certeza de que não estou sozinha nesse barco utópico que é viver da arte.”

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#3

Por José Rezende Jr. Fotos Thaís Mallon

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Fotos: Thaí

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chê, brei do cro m le e m Até que do a ia começa Bessa, v a h u e , e il qu nada fác a Rachel nder com , que estava me tina não tá qualquer re ro p a a h in “M ra a Potira tá sendo p te, lá no do Inspir como não ileiro. No início atuitamen i em r g o d n a s ra ensin eu entre cidadão b dor, pela falta dos Café. Aí to a s ram, r e e n p r s E e a s no Instag foi de u tinh la e e e u m q o c is de ocia contato um grupo am vínculos s a o meu u r e o e iz u il q b o e ias o e ela m s me fizer todos os d stível: ver o públic tesãs. Ela r a s u a b ig m m o , a rima: tas maior c matéria-p e ntrar artis d o c s n e e õ , ç e a s do s... e eu brasilien galera da bantes, lã r a a , s b , o s a ig . lh m a lt ma Trabalho clientes, a z muita fa rochetar. fe c e a i m e c o e s u s não sou ee com Traços... I ue ainda m, porqu é rq b o p m r, ta a o g ir ndiz, deva E o dinhe omprometida com uma apre ó s u o s , c ã a artes ancho, usa do estava tod faço, desm me dado ito, por ca u d e ré o c tã e tô n d u e s e tem ue cartõe O crochê icultura q . c .. is o p ç e fa , d o re muito lh projeto do meu fi rapêutico te io o ít s n r o n to i e re fazendo inas. Fiqu itis de M m r e u grande. S B . io m e íc lá no in a d a r e . p s s a e lternativ meio des mo, sem a u r m e s , o chã

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Além disso, as artesãs fizeram uma vaquinha solidária que me aliviou financeiramente. E continuam ajudando, doando seus trabalhos artísticos pra eu fazer minhas rifas. Consegui organizar contas, pude até ajudar meus peixes, comprei ração pra eles, que são pouquinhos, porque o projeto é pequeno. A solidariedade dessas mulheres artesãs é que me tem feito vencer a pandemia e a crise financeira.

“MINHA ROTINA HOJE É ESSA: FICO EM CASA, LEIO UM LIVRO, FAÇO CROCHÊ. E AJUDO UMA VIZINHA IDOSA QUANDO ELA PRECISA IR NA FARMÁCIA OU NO MERCADO. TAMBÉM AJUDO NA LIMPEZA DA CASA DELA E CUIDO DO JARDIM. UMA ACOLHE A OUTRA”

A Traços também ajuda financeiramente [com os recursos arrecadados graças à venda da edição online e da revista impressa] e com cestas básicas. Boto máscara, pego uma bisnaga de álcool gel e vou ao escritório buscar minha cesta básica, que eu divido com meu filho, minha nora e minhas duas netas que moram em Buritis de Minas. Porque eu sou uma só e eles são quatro, né? Minha rotina hoje é essa: fico em casa, leio um livro, faço crochê. E ajudo uma vizinha idosa quando ela precisa ir na farmácia ou no mercado. Também ajudo na limpeza da casa dela e cuido do jardim. Uma acolhe a outra.”

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RAS C U ESPECIAL NHO

Poemas da Quarentena

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O OUTRO

Sandra Araújo

Quintessência

Eu sinto no ir e vir fluir constante Fugindo às grades do binário esquema Quebrando internamente esse sistema Eu busco em mim a essência gigante

Viver tempos de pandemias cruas Botar a humanidade assim à prova No horror de não sair sequer às ruas Descer sem funeral à fria cova

Perco controle não sei de mais nada O que era certo agora é do avesso Enquanto me explico enlouqueço E da sabedoria faço espada

Sem tempo de palavras que registrem Os passos e amores de quem zarpa E assim fazermos ritos que amenizem A dor de quem mais fica mas não larga

Quatro astros dançam suas revoluções Retrógrados definem fim de era Dos peixes são finitas emoções Que venham os aquários da quimera

O vírus deste tempo é de outra lavra Evem trazendo um novo despertar Olha pra dentro e entende a tua essência Já não temos mais tempo pra esperar

A nova etapa ciclo revelada Nos traz inteligências coletivas Atualiza tecnologias Cabeça esteja bem preparada Em 20 o bicho pega sem demora Dizem que em 26 repete o troco Planetas que explicam o sufoco Arquétipos revelam teoremas Se tá tudo escrito nas estrelas Se temos essas bússolas astrais Hemos de tomar rédeas dos sistemas E registrar pra elites dos esquemas Que aqui a ditadura é nunca mais

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Não fossem os caixões enfileirados na Itália, seria ainda mais esfuziante esta tarde de quarta-feira, em que tiro do forno um bolo para o lanche dos meus filhos. Não fossem equipes médicas, na Espanha, fazendo a última ligação por vídeo para os parentes dos que não vão resistir, seria mais alegre a sala de aula on line em que encontro meus alunos. Não fossem as empregadas domésticas dentro de ônibus lotados indo para o trabalho na casa de patrões que fazem home-office, seria um bálsamo para minha alma o tempo livre para praticar yoga. Não fosse o entregador circulando por horas e horas sem a devida proteção, seria um luxo a minha dispensa do trabalho para me salvar do contágio. Não fosse o catador de lixo encontrando máscaras mal descartadas, seria uma bênção o padre passar com o Santíssimo na frente da minha janela. Se não fosse o outro, quem seria eu diante do imponderável vírus invisível?

Vinícius Borba

Esquece teus excessos de riqueza Tua ostentação e aparências O tempo disso agora é passado A nova era exige consciência Que o medo nunca mais seja teu guia Nem mesmo tens controle sobre nada Falta de fé te descontrola a vida Ganância acabou com tua jornada

Solta a tua corda da existência Não tens mais como controlar mais nada Respira fundo e sinta a boa nova Concentra e vem viver a quintessência


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Recorte e cole seu Lambe


S têvz (Estêvão Vieira)

Por Marianna França A frase “Pelo fim da política da morte. Brasil 2020. Salve-se quem puder”, junto com uma caveira rabiscada, foi a escolhida por Stêvz para ilustrar o lambe feito para o projeto Lambe Aqui, do Motim. A sentença é curta, representa a situação atual e é extremamente impactante em tempos de pandemia no Brasil, o segundo país com maior número de mortes causadas pelo novo coronavírus.

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“O pôster foi pensado com essa brincadeira de tipografia de máquina de escrever, que é uma coisa burocrática, de formulário, números, uma coisa desumanizadora. E para ser meio feio mesmo. Tem uma caveira meio malfeita, um negócio para chamar atenção na rua. E aí pensei na cor verde, para remeter ao dinheiro e ao exército. Aquela coisa feia na parede é meio um grito que tá ali”, explica Stêvz.

Stêvz é designer, cartunista e músico. Atualmente o artista mora em São Paulo. Ele começou a publicar seu trabalho de forma independente em 2006. Foi um dos fundadores da editora Beleléu, no Rio de Janeiro, e desde 2014 lança discos e zines mensalmente pelo selo Chupa Manga Records. /quadrupede


EMANUELLE SENA

TA

S N I S E NT

Por richard de assis

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Reclusa em casa, no Paranoá, Emanuelle Sena viu o mundo ficar estranho, impor mudanças e despertar angústias e incertezas. Agora, os dias parecem ter mais horas, mas eles passam muito rápido; mal começam e já findam. O outro mundo, o de dentro, o qual só Emanuelle acessa, também se transformou, de certa forma: a impossibilidade de circular por aí chegou acompanhada, também, da impossibilidade de criar com liberdade, o que é uma grande angústia para quem é acostumada, como ela, a andar pela cidade com a câmera na mão, atenta a anônimos e à vida acontecendo. Emanuelle Sena tem 26 anos e, atualmente, trabalha como fotógrafa na Assessoria de Comunicação da Administração Regional do Plano Piloto. Contudo, antes de trabalho, a fotografia sempre fora válvula de escape e respiro para ela. “Sempre gostei de arte, e sempre fui muito observadora”, conta. “Na escola, era bastante tímida, ainda sou. Quando a gente é assim, sobra mais tempo para observar as coisas”, ri. Ela recorda que foi por volta dos 14 anos que ela pegou em uma câmera pela primeira vez – uma Kodak digital compacta, na época, a câmera da família. A mãe, que é cabeleireira, pediu para que Emanuelle fizesse algumas fotos para ajudar na divulgação do salão, e ela assim o fez. Desde então, não largou mais o equipamento. “Comecei a fotografar minha família e cenas da minha casa”, recorda.

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Na hora de cursar uma graduação, Emanuelle percebeu a possibilidade de transformar o hobby em profissão – afinal, se é para fazer algo por tantas horas, que seja algo de que se gosta. Não titubeou: ingressou no curso de Fotografia do Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB), formando-se em 2015.


Para Emanuelle, a fotografia é uma tradução de quem está por detrás das lentes, uma espécie de espelho que reflete as subjetividades de quem está fotografando. Seus registros são isso: a beleza caótica e possível no cotidiano da cidade; o dia a dia em sua comunidade; a beleza e a força da negritude estampada no sorriso de amigos estimados; os afetos e as minúcias dos espaços urbanos; sombras dançando nas cenas; inúmeros registros de desconhecidos a caminho do trabalho, dentro do ônibus, no metrô ou na rodoviária; nada está desassociado das vivências de Emanuelle. É a realidade crua como ela é, mas vestida com sensibilidade e poesia.

“Minha fotografia é o que eu vivo e é onde estou. Não fujo disso”, afirma.

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Foto selecionada pelo Festival Foto de Quebrada



Recentemente, Emanuelle participou do Festival Foto de Quebrada, concurso fotográfico organizado pelo Departamento Urbano de Comunicação e Arte, o coletivo DUCA, do Jovem de Expressão, em Ceilândia. O objetivo do projeto, realizado com fomento do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, era exaltar a percepção e a narrativa de artistas periféricos sobre a cidade, além de fortalecer e valorizar a estética das quebradas. O concurso recebeu cerca de 900 fotos, de 190 artistas inscritos, de diversas regiões do Distrito Federal e Entorno. Desses, 30 foram selecionados para a Mostra Principal – adiada devido à pandemia – , entre eles, Emanuelle Sena. A foto selecionada mostra uma criança agachada, preparando uma pipa para fazê-la levantar voo. “Aqui no Paranoá, perto de casa, tem uma molecada que gosta de soltar pipa, e sempre achei isso muito bonito. Um dia, fui lá e fiquei quietinha no canto observando, até que apareceu esse menino preparando a pipa. Conversei com ele e pedi para fotografá-lo”, relembra. Estar entre os selecionados foi uma surpresa agradável e muito significativa para Emanuelle. “Quando eu soube que eu tinha sido uma das 30 pessoas finalistas, fiquei muito feliz. É o lugar onde eu moro e de onde vim, é a periferia, e poder representá-la foi muito gratificante”, conclui. Siga o trabalho de Emanuelle Sena: instagram.com/manuasena

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s a t r a C titãs a r pa s de assi chard Por ri haís Mallon T Fotos:

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B n U a rP o j e t o d n s a g en s e m a h l a e esp o h n i r a c , o i o e r t de ap n e e d a d e i solidar ona is que i s s i f o r p os e d a h n i l a n o o a estã e t a b m o c e d f r en t e s u r í v a n o r o c o v o n


Tinha sido u m difícil dia de trabalho p Alexandre G ara o médico arcia e sua eq uipe. Na centr atendimento al de do Samu (Ser viço de Aten Móvel de Urg d imento ência), acumu lavam-se cham hospitais soli adas de citando transp orte urgente com covid-1 d e pacientes 9, em estado grave, que nec de leitos com es sitavam ventilação m ecânica em o hospitalar. N u tr o centro a corrida con tra o tempo, quem tem pri co m o decidir oridade no tr aslado, se o se possui oito vi rv iç o só aturas de sup orte avançad muito menor o, quantidade que a de pacie ntes graves? O fazer quando que essa decisão p recisa ser tom momento, to ad a a todo dos os dias, h á meses?

Alex andre Garc ia

Ao chegar em casa depois d e um desses ex exaustivos, o pedientes médico se su rp re endeu ao abri pequeno enve ro lope azul que havia recebid no trabalho. “C o m ais cedo aro profission al do Samu, ac apenas uma fr ho que ase diz tudo: muito obrigad que vocês vêm o p or tudo fazendo. Eu acho o trabal muito lindo” h o de vocês , dizia a carta, escrita por um Por um mom a criança. ento, a nuvem de angústia e que o tinha ac impotência ompanhado ao longo de tod dissipou, e o o o dia se médico se se ntiu abraçado. Pediatra e m ajor médico d o Corpo de B Militar do D ombeiros istrito Federal (CBMDF), h ano e meio à á quase um frente da direç ão do Samu, é um dos mu A lexandre itos profissio nais que rece últimos meses b eram, nos , palavras de apoio e recon pelo trabalho hecimento fundamental que estão des em meio à pan envolvendo demia. A ação faz parte do Cartas Solidár projeto ias, iniciativa do Subcomit Mental e Ap ê de Saúde oio Psicossoci al, que integra Gestor do Pla o Comitê no de Contin gência em Saú covid-19 (Co de da es), da Univer sidade de Bra sília (UnB).

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A proposta d o projeto, ativ o desde abril, solidariedade é enviar men para quem ex sagens de erce trabalho frente da bat s essenciais n alha contra o a linha de n ovo coronavír dos Santos, co us. Segundo ordenadora d Jo senaide a Coordenaç de Redes par ão de Articula a Prevenção ção e Promoção d dirigente da a Saúde (CoR iniciativa, em edes) e um momento medo e ansied repleto de in ade como o p certezas, resente, é im profissionais prescindível q saibam que n ue esses ão estão sozi reconhece a re n hos e que a co levância das m unidade at iv “As cartas so idades desem lidárias prom penhadas po o r ve eles. m encontros, entre quem as por meio das escreve e quem p alavras, vontade de d as recebe. Ess izer a esses p as cartas parte rofissionais: ‘c m juntos. Valori da onte comigo, zo o seu trab estamos alho’”, explica a professora. A chamada é divulgada per iodicamente acadêmica. A para a comun s cartas cheg idade am por e-mail e, por um crivo só depois de de revisão, sã passarem o d istribuídas ao definidos pel a equipe – es s lugares previ sa amente entrega é feit algum represe a presencialm ntante do pro en jeto, ou via ete por melhor logísti mail, a depen ca. der da A princípio, a ideia era qu e as cartas fo por estudante ssem escritas s. Contudo, o somente projeto se exp a adesão, tam andiu e acabo bém, de técn u tendo ic o s, Universidade. docentes e pes Matheus Vil quisadores da an ova, graduan foi uma das p do do curso d essoas que vi e Letras, ram na inicia reforçar essa tiva uma opo rede solidária rt u nidade de . “Estava muit de fazer algu o angustiado ma coisa; de e desejoso demonstrar so transmitir um lidariedade. M abraço por m as como eio de palavra “(...) O trabal s?”, pondera ho, a coragem o estudante. e a dedicação esperança no de vocês têm meu e no cora mantido a ção de muito em um trech s pelo mundo” o da carta. Par , escreveu a ele, o afeto q o reconfortou ue foi enviad , de alguma fo o ta rma. mbém Um detalhe fu ndamental ap ontado por F professora e lávia Mazitel colaboradora li, do projeto, d homenagens iz re speito ao fato não serem dir ecionadas som das e demais pro ente às equip fissionais de es médicas saúde, mas ta pesquisadore mbém aos ges s, técnicos ad tores, ministrativos equipes de lim e terceirizado peza, seguran s das ça e serviços comumente in gerais da red visibilizados, e hospitalar, mas igualmen te primordiais .

Josenaide dos Santos

Siga no Instagram e saiba mais sobre esse e outros projetos: @promoprev.unb (Grupo Promoção e Prevenção em Saúde da UnB) @dasu_unb (Diretoria de Atenção à Saúde da Comunidade Universitária)

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n aís Mallo Fotos: Th

F lávia Mazitelli

Matheus Vilanova

a de frente, se m estão na linh bé m ta e qu s úde não fazem “S ão pessoa ofissionais de sa pr os , lá m re mbém os eles não estive imo que nós ta ss tí an rt po im o papel deles. É z a docente. valorizemos”, di no dia a dia, stamos ocultos E e. nt ca ifi at gr servidores a foi o conhecem os “Receber a cart nã as m , as ur at as vi o uma xandre. “Q uand e as pessoas veem le A a ilh rt pa , to, temos ás disso” de agradecimen a que estão por tr rt ca a um er a escrev berão valorizar criança se dispõe no futuro, elas sa e, qu de da va ntinuar”, conta. a esperança reno nos motiva a co so is e e, úd sa , porque, às os servidores da oas é importante ss pe s sa es e br falar que el so “O olhar sensív de alguém para os am is ec pr e , cia da mos nte tem consciên vezes, enfraquece ge “A . us he at sar de flete M o passando. Ape tã vai dar certo”, re es s ai on si is of esses pr de afeto em um dificuldade que leva um pouco a el , va ti hando lia pa a gustiado e trabal an ser uma medid o tã do un m e tá todo ve ser a mola a momento em qu tom empático de “O li. el it az M a que estão nas tanto”, consider que elas saibam m bo É s. oa ss pe ma Josenaide. fortalecer essas meditações”, afir e s õe aç or s, za nossas re trega de cerca de ão realizou a en aç a te o, lh ju de nal da Asa Nor Até o início Hospital Regio no s as te íd en bu ci ri pa st 200 cartas, di no tratamento de ia nc rê fe lia re sí ra de B e de io (Hran) – unidad pital Universitár os H no –, F ia D ar nal de Santa M com covid-19 no Hospital Regio no u, PS) de m Sa no ), (HUB Psicossocial (CA ão nç te A de o tregar, entr e também no C organiza para en se s ia ár lid So s nários arta ltadores e funcio Taguatinga. O C pu se s ao o oi ap gens de am, direta e também, mensa sperança, que lid E seus da po am C as que perderam íli m do cemitério fa s da to lu m a dor e o vírus. diariamente, co ra o novo corona nt co a lh ta ba entes queridos na 63


“(...) Tendo em vista que, “Meu o i vai aproximadamente, 50% dos para v toda a ocê, q a famíli minha da homens área o ue lim n d e e pa s m e uitos rão at paterna são vigilantes, passar endido s i ão s. Par lencio e eu acompanho a lida a você sament e e q , s u p e, torna aço pr desses guerreiros, não todo o óprio q p u a e r a a rrisca ser us poderia deixar de prestar ado; sua sa sua fa ú d e e a mília essa homenagem a você d p e a ra faz próxim er o b o. (.. que é um(a) herói(na) da em ao .) Se você c cuida, ontinu vida real. (...) Você p o a rque rá sen especi do mui al e i está nos mostrando que t o m p ortant isso p e quan assar. honra a sua farda, que do tud ” o sua profissão vai além de Carta à equi pe de cuidar de um patrimônio. limpez a pelas É, também, zelar vidas e oferecer segurança, mesmo estando sob ros riscos. Parabéns pelo seu em verdadei r e s r o p . a d ga comprometimento!” de pandemia o t “Muito obri n e m o m e er nte ess a possa faz t heróis dura r a c Carta aos vigilantes a s s e te o que nha de fren i l a n (...) Esper m a t u e ês, que l 9, sintam-s 1 com que voc d i v o c a , contra pensamentos s no combate o n o ã t s e Vocês ção.” acolhidos. da a popula o t e d s e õ ç ora corações e s de saúde

ofissionai Carta aos pr

“Todos os dias, voc ê se leva para pres nta tar um se r v iço muito delicado. Você é re sponsável encaminha por dar mento ao sepultame alguém qu n t o de e é amado por outro (...) Sua a lguém! missão nã o tem sid nos últim o fácil os meses, quando pe tantas pe r demos ssoas par a um víru invisível s . Acredit o que voc cansado, ê esteja apreensiv o com sua com a de saúde e sua famíl ia – afin também é al, você um profis sional da frente do linha de enfrentam ento à co Você é mu v id-19. ito impor tante par (...) Rog a nós! o para qu e fiquem Daqui de bem. casa, man damos chu amor para v inhas de você!”

Carta à e quipe do cemitério

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carta “(...) Esta eu imenso simboliza m e abraçar. desejo de t aiba que Quero que s ro do mundo i e h n i d m u h nen o gratificar e d z a p a c é , em realizar seu empenho o tão nobre, de maneira Parabéns e seu ofício. r tudo!” obrigada po

s de saúde

ofissionai Carta aos pr


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Recorte e cole seu Lambe


Rafael Corrêa Por Marianna França

Com apenas dez anos de idade, Rafael Corrêa já tinha certeza de que seria cartunista quando crescesse, pois sempre teve necessidade de se expressar contando histórias. “E quando fiz os meus primeiros quadrinhos vi que desenhando eu conseguiria isso”, conta. Nos quadrinhos feitos na infância, Rafael contava histórias de uma turminha de amigos, inspirado nos seus próprios amiguinhos da época.

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Já crescido, tornou-se exatamente o que almejava quando criança: cartunista e autor de vários personagens, como o Arthur, o Arteiro, sobre o qual tem livros publicados. Em 2010 ele foi diagnosticado com esclerose múltipla e, desde julho de 2015, mantém um site contando, em forma de quadrinhos autobiográficos, sua experiência com a doença, transformando dor em arte.

Rafael vê a sua participação no Lambe Aqui como um ato de resistência. “Em momentos de autoritarismo e ataques à nossa liberdade e à democracia, eles, os fascistas, tentam a todo custo calar a arte, pois sabem da potência transformadora que ela tem. E o meu desenho tenta expressar isso, a arte como uma arma capaz de abalar estruturas”, explica. /rafael_correa_cartum


T R OC A U A L

Duo Umbê

Por Rebeca Borges Fotos Thaís Mallon

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Foto: Thaís Mallon

Por trás das telas dos computadores, participando da conversa virtual que deu origem a esta matéria, estavam a percussionista Larissa Umaytá e o guitarrista, cantor e compositor Rodrigo Bezerra, os integrantes do Duo Umbê. A admiração entre os artistas e a saudade de dividir palcos juntos foram percebidas rapidamente, quando Umaytá cumprimentou o amigo com um “E aí, potência!” e um largo sorriso. Rodrigo também não poupou elogios à parceira de trabalho durante todo o batepapo. A verdade é que o Duo Umbê nasceu do carinho que os amigos têm um pelo outro e da vontade de experimentar novos formatos musicais. Em 2019, Rodrigo convidou Larissa para gravar algumas composições que ele tinha feito. Ela no pandeiro, ele na guitarra. Assim nasceu o primeiro disco do duo, De lá do Plano Alto, lançado em setembro do ano passado, com oito faixas instrumentais. O resultado do trabalho é a mistura entre o som dos dois instrumentos e detalhes eletrônicos. “Minha intenção foi criar cores, paletas diferentes a partir dos efeitos que a gente podia introduzir na mixagem, criar climas diferentes com cada parte. Esse som flerta com o pensamento de um DJ”, explica Rodrigo. A utilização dos elementos eletrônicos também trouxe um desafio: como reproduzir esses sons ao vivo? A solução foi conectar pedais de guitarra ao pandeiro durante os shows, trazendo ainda mais inovação para o trabalho.

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Em casa e com saudade dos palcos, Larissa e Rodrigo enfrentam o mix de sentimentos típicos da quarentena: medo, ansiedade, insegurança. Nesse cenário, o duo também reflete sobre o papel dos artistas, Segundo os artistas, o trabalho do que têm se esforçado para Duo Umbê tem um som brasileiro, sobreviver e encontrar novas “mas sem ufanismos”. A ideia formas de executar seus projetos é utilizar elementos da música durante a pandemia. E eles fazem nacional de um jeito que não soe questão de deixar mensagens caricato, com muita liberdade para positivas: “Que a gente passe por criar e experimentar. isso da melhor forma possível. Que a gente se fortaleça com os “Apesar de ter estudado nossos, seja com arte, cultura, academicamente, grande parte música ”, afirma Larissa. E Rodrigo do que aprendi foi na rua, ouvindo completa com uma frase do meus companheiros. De ouvir como escritor Ferreira Gullar: “A Arte um instrumento conversa com o existe porque a vida não basta”. outro. Essa bagagem de vivência, de rua e da prática do samba, do choro, do bumba-meu-boi, me deu muito mais segurança e influenciou muito nessa linguagem que a gente traz”, conta Larissa. Os planos do Duo Umbê para 2020 eram grandes: os artistas pretendiam fazer uma turnê de apresentações em embaixadas de diversos países. Mas a pandemia mudou o curso das coisas.


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Fotos: ThaĂ­s Mallon


Casamento infantil no Brasil: reverter a situação é necessário e urgente Lançado no fim de junho pelo Fundo de População da ONU, relatório sobre a Situação da População Mundial chama atenção para a desigualdade de gênero e aponta que 26% das meninas se casam antes dos 18 anos no Brasil.

O relatório global sobre a Situação da População Mundial destaca a desigualdade de gênero e as práticas nocivas contra mulheres e meninas, como a mutilação genital feminina, a preferência por filhos do sexo masculino e o casamento infantil. A média mundial de casamentos infantis é de 20%, uma a cada cinco meninas. Na América Latina, a média é de 25% e no Brasil esse índice é ainda mais alarmante, alcançando 26% das meninas. Juntamente com a África subsaariana e a Ásia, as três regiões lideram o número de casos de casamento infantil no mundo. De acordo com o documento 650 milhões de meninas vivas hoje se casaram antes dos 18 anos.

Ilustração: Tiago Palma

Meninas, e não meninos, são as principais vítimas dos casamentos precoces. Valores patriarcais, como a necessidade de preservar a virgindade de meninas, sua capacidade de reprodução e de contribuir com o trabalho doméstico, influenciam essa realidade e são apresentados entre as razões que tornam essa prática uma triste realidade ao redor do mundo. O estudo também indica uma relação entre pobreza e acesso à educação, uma vez que meninas com apenas o ensino primário têm duas vezes mais chances de se casar ou viver em união conjugal do que as com ensino médio ou superior. 70


“Entre os fatores que contribuem para isso está a desigualdade de gênero, que leva à violência contra mulheres e meninas; as desigualdades socioeconômicas e o baixo nível de escolaridade. Nos países e regiões onde o nível de pobreza é maior, é mais fácil encontrar famílias cujas meninas se casam cedo por diversos motivos: para garantir o sustento, próprio ou de sua família, e até mesmo por não vislumbrarem outras oportunidades na vida, como chances de estudar e ter um bom trabalho”, explica Astrid Bant, representante do UNFPA no Brasil, sobre o quadro alarmante. O casamento e a união precoce ainda são vistos no Brasil como uma forma de controlar a sexualidade das meninas, para que não engravidem fora do casamento. Uma das consequências do casamento infantil é a gravidez e o parto precoce. Sem estar prontas fisicamente, emocionalmente, intelectualmente ou financeiramente para assumirem a maternidade tão cedo, é mais provável que essas meninas morram devido a complicações na gravidez e no parto, e que seus primeiros filhos sejam natimortos ou que morram no primeiro mês de vida. “Por isso é tão importante empoderar as meninas e discutir a desigualdade de gênero no âmbito familiar e social, mas, acima de tudo, é importante trabalhar para abrir os olhos da sociedade para diminuir essa desigualdade”, complementa Astrid.

Solução para o problema O valor para eliminar o casamento infantil é de aproximadamente US$ 3,4 bilhões por ano (US$ 34 bilhões em uma década). Esse custo compreende ações comunitárias junto a governos, investimento em educação e empoderamento de meninas, assim como proteção em casos de abuso. O papel dos governos é fundamental, uma vez que, para ajudar a erradicar a prática, é preciso estabelecer leis que proíbam definitivamente o casamento antes dos 18 anos, garantir a aplicabilidade dessas leis e manter registros de nascimentos e uniões atualizados, permitindo que os dados sobre uniões e a idade dos envolvidos sejam verificados. A sociedade civil deve pressionar para que mudanças efetivas aconteçam, uma vez que o casamento infantil também é um reflexo de normas e padrões fixos de gênero.

Pandemia pode agravar quadro Programas de erradicação das uniões precoces e de empoderamento de meninas podem ser impactados pela covid-19, seja com corte financeiro de recursos, interrupção de atividades em campo, ou mesmo o adiamento de iniciativas que estavam programadas. A estimativa é que essas interrupções causadas pela pandemia resultem em 13 milhões de casamentos precoces adicionais entre 2020 e 2030. “A pandemia tende a ter um efeito amplificador de desigualdades, pois afeta com maior impacto pessoas que já estão em situação de maior vulnerabilidade. A melhor forma de minimizar o impacto é garantir que o Estado continue fornecendo atenção a esses grupos populacionais, com continuidade do fornecimento gratuito de métodos contraceptivos e consultas ginecológicas, mesmo durante a emergência de saúde. Também é fundamental que as mulheres saibam como exercer seus direitos e onde encontrar apoio, se for necessário, mantendo os canais de atendimento abertos e divulgando-os, para que elas possam acessar os serviços de saúde sem medo de contrair a covid-19”, reforça Astrid.

Situação da População Mundial O relatório sobre a Situação da População Mundial é elaborado todos os anos e faz um panorama sobre vários indicadores de desenvolvimento social e de saúde em todo o mundo. O objetivo é analisar como os países estão progredindo em relação às metas previstas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a agenda mundial proposta pela ONU, que visa alcançar até 2030 um mundo sem pobreza, mais igualitário e justo para todos e todas. Parte do trabalho do UNFPA está em influenciar os tomadores de decisão a respeito desses assuntos, pressionando por mudanças pontuais e também estruturais, assim como fomentando iniciativas bem-sucedidas no empoderamento e realização profissional de mulheres, de forma que elas não tenham seus direitos violados e possam exercer seu pleno potencial, sem estarem expostas à violência de gênero. “A repetição de práticas discriminatórias e nocivas contra mulheres e meninas, ancoradas em desigualdades de gênero, é uma infeliz realidade. A melhor forma de combater essa prática é oferecendo oportunidades, tornando acessíveis conhecimento e informações, inclusive sobre saúde sexual e reprodutiva. O empoderamento de meninas é fundamental, de forma que elas consigam enxergar outras possibilidades na vida, desde que essas possibilidades estejam ao alcance e possam ser atingidas”, conclui Astrid 71


Ilustração: Tiago Palma

BU TE CO

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PAULO LANNES


Em seu ronco leve, a matrona sentia-se tranquila, não podia esperar o sucedido. Ao toque de três segundos após um ar quente, que remexeu as cortinas mofadas da janela sempre aberta, três trombetas soaram diante do rosto da velha senhora. Pulando no imenso susto, aos menos cinco bobes escorreram pelos cabelos grisalhos e vieram atingir o chão. Ela bateu a cabeça no encosto da cama, seu coração palpitava. Não conseguia entender o que acontecera.

Insone A fraca luz do pequeno abajur rendado não era suficiente para iluminar os ornamentos do quarto. Pequenos santos que pareciam ter sidos pintados à mão em altares carregados de folhas d’ouro desgastado estavam distribuídos em uma mesa de pés curvos com tampo de mármore rachado. Ela estava disposta ao lado direito da cama de dossel, que aparenta ser mais antiquada do que antiga. No lado esquerdo, um grandioso armário de madeira enegrecida pelo tempo, com fechaduras feitas para chaves de ferro sempre tiradas quando a velha dona saia de casa. O que há dentro dele é algo que a história insiste em não contar.

Com os olhos bem abertos pelo quarto, tentava captar a textura de tudo que estava diante de si. Mas o estrondo de um órgão fez seu coração tremer de tal forma que a visão turvou, ficando mais escura que antes. Com as mãos no grosso crucifixo de madeira que carrega ao pescoço, tentava sobreviver àquelas vibrações que pareciam vir de dentro dela. Suava, o largo vestido escuro – não se sabe qual era a cor original dele – já estava empapado. Sentia seu corpo esfriando e os bicos dos seios caídos realçados no pano gasto. Poderia ter gostado da sensação, há muito não pensava neles, mas era impossível. Em seguida, milhares de vozes começaram a brotar do chão em escalas agudas altas demais para seus tímpanos. Com as mãos postas nos ouvidos, tentava gritar mais alto a cada sombra que parecia se fazer presente. Não havia percebido, mas o abajur já havia apagado há muito tempo. Desorientada, ela empurrava o fino lençol com os pés para escapar de onde estava, como que aquela cama fosse sua inimiga. Estatelou-se no chão sem qualquer sentido de defesa própria. Não tirou o próprio rosto da mira do chão e, por isso, sentiu algo quente e viscoso empapar os lábios. As mãos continuavam nos ouvidos, os olhos continuavam turvos. A multidão invisível parecia cercá-la alterando os tons das vozes, indo do mais agudo ao mais grave em poucos instantes. Cornetas e órgãos voltaram a tocar no mesmo instante. Ela sentia a loucura. E ela não queria enlouquecer. Aquilo tinha que acabar. Escapou abaixo depois da tentativa de segurar a cortina no lado de fora do quarto. Ainda atravessava o terceiro andar quando a folha d’ouro começou a brilhar um dourado bastante opaco. Era o reflexo da fraca luz do pequeno abajur rendado, que voltou a acender em meio ao silêncio daquele ambiente abafado.

Jornalista de formação, Paulo Lannes guarda consigo as histórias que acompanhou enquanto trabalhou como repórter de cultura, de comportamento e de política. Também é bacharel em História da Arte e mestre em Literatura pela Universidade de Brasília. Atualmente, faz doutorado em ambas as áreas de estudos e publica seus textos na página de Instagram literário @lendoarte.

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É OU TRA HISTÓR IA

Ilustração: Tiago Palma

Ilustração: Tiago Palma

Nelson Fernando Inocencio da Silva

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O tempo que a sociedade brasileira desperdiçou durante quase todo o século XX tentando convencer a si mesma de que era livre de preconceitos e, em decorrência disso, acolhedora, tem nos custado muito nos dias atuais. A fatura chegou e a conta não vai sair barata. As fantasias de Brasil que aprendemos a celebrar resistiram por décadas a fio, pois as estratégias de persuasão em prol desta falácia, desenvolvidas pelas elites econômicas, políticas e culturais lograram êxito invisibilizando iniquidades absurdas. No que se refere às relações raciais as questões não se tornaram menos significativas, pelo contrário. O sedutor elogio à mestiçagem embalou este país por longo período, apesar de não explicar certas contradições. O fato de termos um percentual expressivo da população portador de heranças ameríndias, africanas, europeias e asiáticas pode permitir interpretações equivocadas. É um sofisma, por exemplo, acreditar que, em função desses contatos inter-raciais, passamos a nos constituir como sociedade mais fraterna, diferenciada de quaisquer outras no planeta. Este, aliás, foi um dos principais ingredientes que alimentou o mito da democracia racial, fenômeno fundamental para o encobrimento das discrepâncias entre negros e brancos. Embora abalado por pesquisas acadêmicas desde os anos 50, os efeitos nocivos deste mito continuaram a causar danos gravíssimos à população afro-brasileira. Diante de um legado destes torna-se indefensável o argumento de que esta sociedade, como um todo, se mostra avessa ao racismo e a outras intolerâncias. É chegada a hora de fazer uma grande catarse, mostrando os sentimentos absurdos que perduram em nosso meio social. Ocasião mais oportuna talvez não exista, no momento em que a combalida democracia exige posicionamentos abertos dos segmentos que a defendem. Pois bem, a defesa da democracia não pode coexistir com silêncios, omissões, indiferenças das parcelas privilegiadas que sabem muito bem as razões pelas quais continuam a se manter nessas condições. Assumir um posicionamento a favor da democracia, deixando-se tomar pela mudez diante do que há de mais perverso e estarrecedor, chega a ser bizarro. Faz-se necessário destacarmos que esta defesa deve ser incondicional. Assim sendo, a questão racial, entre outras, não poderá mais ser tratada como assunto marginal É possível que a recente onda global desencadeada pelos protestos nos Estados Unidos após a execução pública de George Floyd provoque a sociedade

brasileira que, guardadas as devidas proporções, também alimenta a violência racial. Haja vista os casos das crianças e jovens negros como Miguel, Agatha, João Pedro e da mulher negra Claudia, que teve seu corpo arrastado por uma viatura policial nas ruas do Rio de Janeiro anos atrás. Trágicos episódios, os quais se conectam à milhares de outros acontecimentos fatais, fomentados pelo racismo que persiste e coloca em xeque a democracia. Após conseguirmos avançar, ainda que tardiamente, na discussão sobre a dívida histórica do Estado brasileiro para com a população negra, chegamos às ações afirmativas na transição do século XX para o século XXI. Todavia, as conquistas no âmbito legal não influenciaram substancialmente uma mudança de comportamento da sociedade em larga escala. Ao contrário, determinados segmentos se lançaram a uma oposição ferrenha, procurando desqualificar o propósito de tais políticas públicas. Seus argumentos se pautavam na meritocracia, ignorando os distintos caminhos trilhados pelos diferentes povos que formaram a nação. Para brasileiras e brasileiros realmente comprometidos com a democracia existem demandas enormes. Quanto às relações raciais o desafio está lançado. Nas palavras da filósofa e ativista afro-estadunidense Angela Davis: “Não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”. O slogan vem sendo divulgado com frequência e seu raio de alcance parece amplo, embora nem sempre acompanhado da devida discussão, fator de risco capaz de esvaziá-lo, no que tange ao seu conteúdo relevante. Contudo, ainda que considerando as perdas resultantes dos modismos ideológicos, é importante entender o contexto no qual estamos inseridos. Saber a exata diferença entre não concordar com práticas insufladas por discursos de ódio, mantendo a neutralidade diante das evidências e assumir posturas proativas que demonstrem indignação frente a tais violências, passou a ser algo imprescindível para indivíduos e coletivos atentos às seduções do autoritarismo. Afinal, ele não respeita raça, classe, sexo, entre outras categorias sociais. O silêncio diante de manifestações de racismo, ainda que aparentemente inofensivas, acaba sendo cúmplice daquilo que há de mais nefasto. Ledo engano de quem acredita na sobrevivência da democracia menosprezando um problema crônico que parecia existir apenas nas mentes supostamente delirantes de ativistas do movimento negro. Aviso aos navegantes: o que pensavam não era ficção! 75


Pu rpu ri na Impregnada de purpurina e com amores de carnaval ainda ressoando bonito no peito, Letícia Fialho chegou à ressaca da folia de 2019 com um punhado de canções recém-nascidas. Em um ensaio de pós-carnaval no quintal de casa, a cantora, compositora e instrumentista brasiliense tocou as composições para o amigo e também instrumentista Rodrigo Zolet, que juntou a sanfona à voz e às cordas fluidas do violão de Letícia. Pronto: o Purpurina Anzol estava no mundo e, lançado em agosto, a desfilar pela vida. “É brilho que encanta, fisga e tira o fôlego”, define a cantora. 76


TOC A RAU L

A nzol

Por richard de assis Fotos: Thaís Mallon

Formado por quatro faixas – Peixe Solto, Pedaço, A Luz do Sol e Telhado –, íntima e sutilmente costuradas umas às outras, o EP é descrito pela dupla como uma mistura de brasilidades: influências do forró, do xote, da música goiana e do choro brincam e se reinventam, construindo uma atmosfera pacata, bucólica, nostálgica e quase onírica. As letras das músicas registram vivências e abstrações delicadas da compositora, o que proporciona experiências estéticas e sensoriais por meio da ressignificação das palavras, como a feita com o nome do “miniálbum”. 77


Foto: Thaís Mallon

Quem se dispõe a escutar Purpurina Anzol, certamente, se recordará de algum amor. Aliás, é isso que o eu lírico das canções parece comemorar a todo tempo: a sorte – ou a lembrança – de um amor tranquilo. “Na verdade, acho que escrevi amores bem ‘intranquilos’ [risos]”, pontua Letícia. “Mas acho que essa intenção de sorte chega mesmo ao ouvido, porque, tranquilo ou não esse amor, acho que sorte é poder vivê-lo e contar essas histórias, sejam elas boas ou ruins, felizes ou tristes”, reflete. O protagonismo que a sanfona assumiu no trabalho foi uma preferência particularmente difícil, mas igualmente acertada do duo, sendo o único instrumento a acompanhar o violão. “Pensamos em usar a sanfona de uma forma não muito usual, dando a ela um pouco mais de espaço na construção dos fraseados e também da harmonia”, explica Zolet.

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Em quase um ano, Purpurina Anzol passeou e espalhou brilho pela cidade, fisgando o ouvido e o coração de quem se dispõe a escutá-lo de peito e alma abertos. O trabalho colaborativo entre os dois amigos deu tão certo, que eles prometem mantê-lo para, vez ou outra, surgirem com alguma isca nova. A próxima já está à vista: o lançamento de Marinheiro, single inédito, está previsto para o segundo semestre deste ano. Paralelo a isso, Letícia Fialho se prepara para lançar, também este ano, Carta de Fogo, EP no qual a artista se propõe a tocar diversos instrumentos.


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(33T), Rubens Santana Fernandes (1), Rubem Leão dos Santos (72), Vitor Matheus Paes Feitosa (69).

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julho/2020

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