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romance

kim frank

A produção do álbum já está quase terminada quando Pete e eu, uma noite, somos os últimos a ficar no estúdio. Estamos sentados na sala de controle com um copo, ou melhor dizendo, três garrafas de vinho, e ouvimos o último disco dos Stones de que Brian Jones participou: Let it bleed, com uma de minhas canções absolutamente preferidas, “You can’t always get what you want”. Além disso, tem no disco um cover da canção “Love in vain”, de ninguém menos que Robert Johnson, o primeiro membro não oficial do Clube dos 27. O álbum começa com a guitarra dura de Keith Richards e um coro redondo. Quando entra, então, a batida de “Gimme shelter”, a gente começa a percorrer o céu num Boeing 747 em direção ao sul. Brian Jones foi o guitarrista dos Rolling Stones. Mas as drogas, a maconha e seu consumo de álcool o tornaram, ao longo dos anos, cada vez mais em alguém em que não se podia confiar. Num dado momento, a banda originalmente fundada por ele não viu mais qualquer possibilidade fora se separar dele. Um mês depois, no dia 3 de julho de 1969, encontraram Jones morto na piscina de sua casa. Na 1


mesma data, dois anos mais tarde, encontraram Jim Morrison na banheira de sua casa. Jones havia passado a noite com sua namorada, Anna Wohlin, e um casal de amigos, o empreiteiro Frank Thorogood e Janet Lawson. Eles nadaram juntos, mas ambas as mulheres deixaram Jones e Thorogood sozinhos na piscina. Quando Thorogood voltou pra casa quinze minutos mais tarde, para pegar cigarros, Wohlin encontrou Brian Jones inconsciente no fundo da piscina. Quando eles juntos tiraram Jones de lá, ele ainda estava vivo, afirmou Wohlin, mas quando a ambulância chegou já era tarde demais. Ele tinha 27 anos. Sua morte repentina por afogamento foi tida como acidental. Mas, décadas depois, o caso foi retomado pela polícia, dessa vez com suspeita de assassinato. O empreiteiro Thorogood teria confessado a morte de Jones em seu leito de morte. Quando o disco termina, Pete se recosta contente em sua cadeira. “Sabe”, ele diz, “por isso eu faço meu trabalho com tanto prazer. Quer dizer, muitas vezes é tedioso, eu não deveria te contar isso, mas eu também gostaria de, um dia, colaborar com algo grandioso.” Essa é a primeira vez que eu vejo o tão introspectivo Pete falar tanto e de maneira tão engajada, e ele até mesmo continua. “Um dia eu quero fazer o som de um disco que sobreviva ao tempo. As pessoas como nós, duas décadas depois, vão ouvir e se inspirar. Ficarão felizes.” Eu aceno concordando com ele. Se ele soubesse como eu entendo ele. Algo que sobreviva à morte de alguém. Que seja maior do que a própria pessoa. Isso tornaria minimamente suportável o meu inexorável fim. 2


Nesta noite, os portões já estão fechados faz tempo, então uso uma passagem na cerca, que Lennart havia me mostrado, e começo a procurar por ele. Instintivamente eu me encaminho à sepultura onde fiz hora recentemente, durante um enterro. Quem sabe ele não tem que atender a uma encomenda ali. Mas ele não está lá. A lápide já está de pé, aparentemente não há muito tempo, afinal há ferramentas por todo lado. O cheiro de terra fresca entra em meu nariz. Então de repente eu ouço um choro. Um lamento errante que penetra o corpo e a alma. Quase inaudível em meio aos ruídos da noite e o barulho dos grilos. Parece vir da sepultura. Que bobagem. Eu não acredito em fantasmas. Então, de repente, ouço um grito, e uma garrafa que se espatifa numa árvore ali perto. Eu lenta e silenciosamente caminho em volta da sepultura e olho com cuidado para detrás da lápide. Lennart está recostado do outro lado. Aparentemente, completamente bêbado. 3


“Oi, Lennart, ainda consegui te encontrar.” Lennart não reage. Sua cabeça pende para baixo, como se seus músculos se negassem a fazer qualquer esforço. Eu me ajoelho a sua frente. Tento olhar em seus olhos. “Lennart... o que aconteceu? Tudo bem?” Eu já o vi muitas vezes completamente chapado, no entanto, essa visão agora me dá medo. Eu pego sua cabeça e o forço a olhar pra mim. Porém, seus olhos desviam, não têm condição de focar em mim. “Lennart! Ei... olha pra mim! O que acontece contigo?” Ele aponta para a lápide atrás dele. Eu solto sua cabeça e olho a lápide de frente. Lá está escrito: Lennart Pauls Deus o levou de nós com apenas 21 anos Você ficará para sempre em nossos corações E ainda as datas de nascimento e morte do falecido. “Eu entalhei minha própria lápide. Minha própria sepultura. Eu...” De início, eu mal entendo o que ele diz, mas depois começo a compreender. Eu me lembro do enterro: os vários jovens, em meio aos quais eu quase não chamava a atenção. O discurso sem emoção de um professor universitário qualquer, que tinha o trabalho do morto sobre sua mesa, junto a outros cinquenta. Ele teria sido um bom aluno. Amado por todos. Não era ousado, tampouco era monótono. Um bom rapaz. Deixou-nos muito cedo, e por aí vai. Toda 4


aquela merda de que são lembrados os que sobreviveram para transformar em heróis os que morreram. E eu me lembro de algo insólito. Os amigos cantam, num coro abafado, Nevermind, do Nirvana. Supostamente a canção favorita de Lennart. Lennart, o morto. E agora Lennart, o vivo, tem justo que inscrever essa lápide. Ele também tem Pauls por sobrenome. Ele também tem 21 anos agora. “Minha própria sepultura. Mas eu não estou deitado aí. Ainda não. Merda, eu inscrevi a lápide da minha própria sepultura. Eu já estou morto, então? Isso é uma piada? Merda, eu quero acordar!” Eu me ajoelho novamente diante dele. “Cara, você está acordado! Escute bem: isso é apenas uma coincidência. Não é você quem está morto aí. Eu estive no enterro.” “Coincidência...” Ele me olha com os olhos inchados e vermelhos, cheios de raiva. “Você não acredita de verdade numa merda dessas, cara!” E ele tem razão. Provavelmente, ninguém pode entendê-lo tão bem quanto eu, compreender tão bem o seu horror. Ele inscreveu seu próprio nome numa lápide. Merda. “Acabou, meu amigo. Eu não vou ficar mais muito tempo nesse mundo. Eu vou dar uma viajada.” Lennart tira uma pequena cápsula de seu pacote de tabaco e a engole. “Você vem comigo?” Ele segura outra pílula azul-claro diante da minha boca. Por algum motivo, eu abro meus lábios, e ele coloca a pílula sobre a minha língua. Daí ele me oferece uma garrafa de uísque já quase vazia. “O que foi isso?”, eu pergunto, depois de engolir a cápsula como que controlado remotamente. Ela parece imensa em minha garganta. Como se eu estivesse engolindo uma pedra. 5


“MDMA. MDMA puro.” Eu não entendo sequer uma palavra. Mas já imaginava que não se tratava de açúcar. “O MDMA te deixa bem perto da felicidade”, Lennart rima. Aos poucos ele fica mais alegre. Ele se levanta cambaleante e anda em torno da sepultura. Ele tira o pau da calça e mija na lápide recém-talhada. “Olhe bem pra isso, seu velho vagabundo!”, ele grita para o céu. “Seu cego de merda aí em cima. Seu punheteiro mentiroso. Abra seus olhos cansados! Eu tô mijando na minha própria sepultura! E eu cago em você e sua criação divina!” Lennart põe seu pau de volta na calça e se senta. Eu me sento de cócoras ao seu lado. Ele se acalma lentamente, se inclina pra trás, olha as árvores, respira fundo e de maneira uniforme.

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Pego de novo o telefone. Daí ligo pro número da minha mãe. Pro meu espanto ela atende logo o celular. Tento soar tranquilo. Ela não deve se preocupar. “Oi, mãe.” “E aí, meu querido, está aproveitando seu tempo livre?” “Bem, sabe o que é, estou me sentindo de certo modo...sozinho.” Ela faz uma pausa considerável. “Mãe, tem algo comigo.” “Mika, que declaração mais vaga. É algo físico ou psíquico?” “Acho que algo não está em ordem com meu coração.” “Com seu... Mika, agora estou ficando preocupada. O que aconteceu?” “Então, ele... ele simplesmente parou, depois começou a acelerar.” “Meu querido, você usou drogas?” “Não, mãe. Simplesmente aconteceu. Eu estava sentado bem calminho, tinha acabado de me levantar.” “E agora, como você está se sentindo?” 7


“Eu tenho medo.” “Ok, então. Eu vou ligar imediatamente para o hospital. Marieann deve estar trabalhando. Pegue um táxi, vá direto para lá e me ligue assim que saírem os resultados, ok?” “Vou fazer isso.” “Bom, meu filho, você sabe, eu estou nesse congresso e tenho de ir agora.” “Sim, tudo bem.” “Se cuide, eu te amo.” Ela diz isso toda vez. Exatamente as mesmas palavras, o mesmo tom. Ela reproduz como se fosse uma mensagem gravada. “Eu também”, sigo a regra. O táxi chega depois dos prometidos cinco minutos. Está tocando uma besteira dançante qualquer no rádio. Uma marcha em compasso de quatro tempos, sobre a qual uma voz feminina horrível canta repetidamente o mesmo verso: “Live your dream!” O resto da letra é bem previsível. Quer me convencer de que eu posso tudo, contanto que eu queira. Provavelmente quem está cantando na verdade é uma cantora negra gorda, enquanto que no palco quem se apresenta é uma dançarina contratada, que mostra como pode mover seus lábios, algo que ela também deve fazer vez ou outra quando passa a noite com seu chefe na gravadora, para que não seja simplesmente substituída. Ele chama isso de reunião de marketing. Deveria pensar em sua xoxota misteriosa em uma calcinha gostosa – live your dream! – mas seu mantra monótono me deixa nervoso.

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"27", de Kim Frank