Page 1


Estética e linguagem são indissociáveis na constituição de poemas visuais, assim como na história de Tomás Paoni, onde ambas caminham juntas. Desde nossa infância, sua intimidade com desenhos (herdada / fomentada pelo pai - 1000ton) se apresentou, entre outras formas, em jogatinas de “Imagem e Ação” , enquanto seu talento com as palavras era revelado através de cartas, maneira pela qual adorava presentear e encabular os amigos. Através do caráter lúdico e inocente deste livro, Tomás nos conduz a sua profunda sensibilidade. No modo peculiar com que brinca com as palavras, ora divertindo-se com seus diversos significados, ora fazendo inteligentes trocadilhos, sua complexidade de sentimentos é traduzida com clareza e coesão. Nesta obra, portanto, o leitor é intimado a desconstruir a visão da viciada estética social e concretizar a ótica do caos através da poética ótica do autor caótico. Pedro Braga


Uma janela aberta para o mundo: dessa janela, Tomás Paoni observa a vida lá fora e convida você a passear pelas páginas do seu livro, de mãos dadas com um voyeur apaixonado. Acompanhe o OLHO E A ÓTICA do autor no dia-a-dia, no corre-corre da vida, na lágrima que escorre. Viaje pela cidade, pela natureza, com a certeza de encontrar no caminho muito encanto e magia. Influenciado pela obra de Paulo Leminski e admirador da punjente beleza dos versos do Mestre Cartola, dentre vários outros poetas e artistas, Tomás alcança uma forma sutil de sensibilizar o leitor. Escrita com paixão, acima de tudo, ou desenhada com esmero, melhor dizendo, esta obra mistura imagens com textos, e o resultado da sua CAÓTICA POÉTICA é, no mínimo, instigante. Às vezes parece delírio, às vezes parece contraditório, mas busca sempre desnudar o segredo de tudo o que está sendo observado, concreto ou abstrato. A nova tecnologia torna-se um ingrediente agregador à obra de Tomás Paoni, funcionando como parceiro auxiliar, e não desagregador. Afinal, há que inovar, buscar a beleza, sem perder a ternura e a pureza. MILTON DE FARIA (1000TON) LER OU NÃO LER EIS A VISÃO VER OU NÃO VER EIS A QUESTÃO SER OU NÃO SER EIS O TESÃO


Tomás Paoni, 2007 © Produção

Tomás Paoni Co-produção

Milton de Faria Colaboração

Cláucio Sales - Edição Gráfica Pedro Braga e Cláudio Tammela - Produção Victor Mafra e Maíra Fróes - Fotografia

Agradeço a: Paulo Leminski, Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Hélio Oiticica, Torquato Neto, Chacal, Lobão, Fred 04, Chico Science, Pupilo, Tom Zé, Michel Melamed, Eliane Paoni, Luana Garcez, Dona Léa, 1000ton, Siça, Theo, Celso, Luís Sérgio, Pedro, Bruna Sichi, João Braga, Zé Carlos, Claudão, Carlos Galvão, Edmar Oliveira, Roberto Paoni, Sandra Chaves, Jampa, Martinha, Victor Mafra, Victor Fraga, Olavinho, Cícero, Ramon, Daniel, Duvale, Davy, Gabriel, Rodrigo Martins, Iara Fraga, Maíra Fróes, Janaína Bersot, Débora, Renatinha, Carol, Flora, Isabel, Maria Paula, Zoe, Rafael Vianna, Túlio, Lee Veloso, Leo Piuí, Marcos Siqueira, Felipe Machado, Eduardo Lyra, Cláucio Sales, Haroldo Duque, Haline Santiago, Carlos A. Gomes, Luana Muller, Laranjeiras, Lapa, Rio das Ostras e a todos os arquitetos e amantes da poesia concreta.


No presente momento, a ótica da gente tem recebido, quase que somente, apáticos estéticos. As lentes sem ética da mídia demente têm registrado apenas atônitos instantes. As imagens dos fatos atuais nos remetem cada vez mais ao trágico, ao decadente. O olhar poético popular está viciado, míope, doente. O caos, se já não se instala, é iminente. Assim como a tática da literatura chamada poesia concreta, gosto muito de uma técnica chamada fotografia, que consiste em transformar cenas presentes, histéricas ou estáticas, em quadros históricos. O formato de um poema ilustra seu conteúdo assim como uma foto retrata seu tema. Charges e pinturas são outras que me encantam. Tanto que aqui, atreladas ao concreto, também programo encontros. Caótica Poética, portanto, promove um diálogo descontraído entre estas diversas formas de linguagem, que, formatando novos pontos de vista e mistas e densas montagens, comunicam-se acerca de um assunto central: a ótica poética do caos e sua ferramenta fundamental...


“É a mão, olho,

preciso compreender que assim como o tem seu devaneio e sua poesia”.

Bachelard


PREVISÃO 47. Conjuntivite 48. Lav’ OLHO 46. O Pi olha

49. mOLHO 50. Olhos de Raio-X ♥

45. O Percevejo e o Vaga-lume 51. Não Sente 52. BOX 44. Bem-te-vi

53. O Olho do Lago ♥♥ 54. Vôo ♥♥♥

42. Outono 41. Olho n´água

55. Olhas 7. s/ título*

40. Óculos Escuros 8. Revendo o rever** 39. Arco-íris dos olhos

9. Olho por Olho*** 10. Ojo

38. Passa

11. Uninverso

36. Ocular****

12. Espectroscópio 21. Cego

34. ErÓTICA

22. Braile

28. Supervisão Conjugal 30. Lupa lá!

23. Estrábico

27. Olhos nus

24. Daltônico

26. Te ver 25. SOBre os olhos

* Autor desconhecido ** Durvalino Filho – Poema gráfico extraído do livro Caçadores de Prosódias – Projeto Petrônio Portella, Fundação Cultural do Piauí - 2ª Edição / 1994. *** Augusto de Campos / 1964. **** Tom Zé – Capa do álbum “Sobre Todos os Olhos” – Continental / 1973. ♥ Vincent Van Gogh - Skull with Burning Cigarette (Caveira fumando cigarro). Óleo sobre lona (32,0 x 24,5 cm) / 1885. ♥♥ Tom Zé – Letra da canção O Olho do Lago, do álbum “Com Defeito de Fabricação” – Luaka bop / 1998. ♥♥♥ Arnaldo Antunes – Poema gráfico extraído do livro “Tudos” – Ed. Iluminuras / 1990. Texto sampleado e adaptado pelo autor deste livro. ! A capa deste livro foi baseada no poema visual “Código” de Augusto de Campos / 1973. ! Frase introdução – Bachelard ! Figura introdução – Hugo Mundi Jr. ! Contra-capa – Dito do dito popular


V R

V

E R

Durvalino Filho


Augusto de Campos


N OSREV VISÍVEL UN


ESPEC TROSC PIO


ÓÓ CC UU LL OO SS:: ENXERGAM PERTO E LONGE, MAIOR E MENOR. BB II NN Ó Ó CC UU LL OO SS::

ENXERGAM O LONGE, PERTO. BEM MELHOR. OO LL HH OO SS:: ENXERGAM

À E

FRENTE DOS DOS,

LA BEM

OU

MAL.


OO LL HH OO SS MM ÁÁ GG II CC OO SS:: ENX E RGAM N T R E

À FRENTE,

E

RR EE TT RR OO VV II SS O O RR EE SS:: ENXERGAM O ATRÁS, REFLETIDO... NORMAL. PP EE RR II SS CC Ó Ó PP II OO SS:: ACIMA

ENXERGAM LA T

E POR TODOS OS OS,

D O

CC II CC LL O O PP EE SS::

T

A

L.

..


ENXERGAM CA OLHO, ANORMAL. CC AA LL EE II DD O O SS CC ÓÓ PP II OO SS::

ENXERGAM GRANDES RANDES OS PEQUENOS PERTO

G O I R D N A , SENSACIONAL.

LL UU PP AA SS::

ENXERGAM GRANDES

.

OS PEQUENOS PERTO


MM II CC RR O O SS CC ÓÓ PP II OO SS::

ENXERGAM GRANDES OS PEQUENOS PERTO AINDA MAIS CORRETOS.

LL UU NN EE TT AA SS::

ENXERGAM PERTO OS GRANDES LONGE. TT EE LL EE SS CC Ó Ó PP II OO SS::

ENXERGAM PERTO OS

GRANDES AINDA MAIS

.

DISTANTES


O PPIIOORR EGO ÉÉ AAQQUUEELLEE QQUUEE SSÓÓ SSEE VVÊÊ.


O MMUUNNDDOO ÉÉ VOYEUR,


O AAMMOORR ÉÉ CEGO,


E VOCÊ?


olhar olheirado olheiral olheiras olheirento olheiro olheirudo olhento olhete olhiagudo olhibranco olhimanco olhinegro olhinho olhipreto olhirridente olhitoiro olhitouro olhizaino olhizarco olho olho-cozido olho-d´água olho-d´água-borgense olho-d´ágüense olho-de-boi olho-de-boneca olho-de-cabra olho-de-cabra-miúdo olho-de-cão olho-de-céu olho-de-fogo olho-de-gato olho-de-matar-pinto olho-de-mosquito olho-de-peixe olho-de-perdiz olho-de-pombo olho-de-santa-luzia olho-de-sarapiranga olho-de-sapo olho-de-seca-pimenta olho-de-sogra olho-de-tigre olho-de-vidro olho-grande olho-grandense olhômetro olho-roxo olho-vermelho olhudo

cego


BAILE DE PONTOS PONTA DOS DEDOS BRAILE


^

z E r e v e S g ~ e s T r a b a o z a R o l h o o l h i z A i n o z a m B a i o m I r o l h o C a l h o p e t O


T O N I C O TROCA AS CORES. ~ O FAZ VER DE PERTO NAO

VER MELHOR. NUM SEMA´FORO, DE LONGE, O VEJO BEM MAL

^

. . . DOWN

T O N I C O


Me

De ver te Di ver te


NÓS OLHOS NOS OLHOS NUS


SUPERVISÃ CONJUGAL


PRE

VEJO QUE A DI

VISÃO

SE APROXIMA.

FARTO, ME AFASTO DA TUA RÉ - TINA . VIVO NO BREU , É MINHA SINA.

AGORA CHEGA! SE ENXERGA... ... VAI VER SE EU TÔ NA ESQUINA!


A visão Tele VENDE TAPA-OLHO PRA AMAR AR R O rabo-de-olho Da População


A Solidテ」o Olha pela Fe c ha dur A rachadura duma bela nacテグ


A OPOSIÇÃO E X P A N D E AS PUPÍLAS DO POVO CONTRA

O O

O LH -GRANDE DA SITUAÇÃO


TERRA DA Bunda

B B b World

Wide

Web

ERA DA TELA . . . ESPIO PELA FECHADURA ELETRONICA A erotica ´ POR UM FIO ...

CyBERBALELA


a bundaéoculardoolhodocu,a b undaéoculardoolhodocu,ab u ndaéoculardoolhodocu,abu n daéoculardoolhodocu,abun d aéoculardoolhodocu,abund a éocu lardoolhodocu,abunda é oculardoolhodocu,abundaé o culardoolhodocu,abundaéo c ulardoolhodocu,abundaéoc u lardoolhodocu,abundaéocu l ardoolhodocu,abundaéocul a rdoolhodocu,abundaéocula r doolhodocu,abundaéocular


Feito a soma de sol e chuva, choro de rir: arco-Ă­ris dos olhos.


De dia, os Ăłculos escuros nos curam da fotofobia. O brilho do sol nĂŁo fica preto como no negativo (negroativo) da fotografia, Mas sua luz, um pouco apaga, atravĂŠs das lentes que esmaecem as cores quentes da harmonia em alvorada.


ÁGUA AMEBA HOMEM HOMEM-AMEBA PLANETA TERRA SEM EIRA NEM BEIRA FONTE BERRO D’ÁGUA MANANCIAIS NÃO TÊM MAIS PLANETA TERRA SEM EIRA NEM BEIRA CHUVA LÁGRIMAS OLHOS MAREJADOS CHOVER NO MOLHADO PLANETA TERRA SEM EIRA NEM BEIRA OLHO D’ÁGUA ÁGUA NO OLHO NATUREZA CHORA CACHOEIRA PLANETA TERRA SEM EIRA NEM BEIRA


Meus pais agem pra que eu mude de paisagem. Disfarรงo, me faรงo de mudo mas mudo. ร€ primeira vista nenhuma miragem. O novo me parece com tudo que jรก vi. Bustos amarelos me cantam imagem: Bem-te-vi,, bem-te-vi!


...e, incerto que brilha, minha vida grava.

Na cortina de retratos, persistente, o parasita ainda vaga lume olha pra ele, focaliza o resto...

Certa mente prende o negativo duma recente foto, um rosto.

O pirilampo voa atento enquanto um percevejo pousa sobre a cort_ic, a.


o

piolho,

pelo

o

pi

olha

Ela olha pra cima.


Ela olha pra cima. Minha rima quer falar com a sua. sua. Pra minha baga, piscadela. piscadela. Persiana bege flagra: – Ana?! Congela Congela o olho na minha retina. Cortina dela cisca: – Tina?! Comê Comê-la à primeira vista à beira da viela: – Camila?! Debaixo da porta, acho um convite dela: – Conjuntivite junta vida pela janela?

Aparecida


QUEIMA

CHAMA

CONJUN

t i v i t e

g

o

p i n g a

t

a


Um rubro envolve meuS olhos, choro. ´ Pingo colirio nas bordas, descolore. Descubro no alvo que o molho vermelho ainda e s c o r r e ...por dentro, no canto do peito.


E QUE EU SAÍSSE QUANDO BEM ENTENDESSE

ONDE ENTRASSE SÓ QUEM EU QUISESSE

QUEM DERA TIVESSE UM MUNDO SÓ MEU

IN VEJO O OUT ISTA

RA I O – X

COM OLHOS DE


x um round ponto pow!

contra a a soc!

um round ponto tum!

gongo luva peso corta vase

soa pega leve super lina

alto pesado entorta cílio estanca

mais pál corpo pé na

um pebra vem de lona

assalto pisca abaixo galinha cisca

ringue caixa olho do

de sem sem córner:

batalha tampa córnea toalha

OxO


NO LAGO DE LADO DE OLHO NO LODO ´ LAGRIMA

DO OLHO NO LODO NO LADO DO LAGO AFUNDA

PROFUNDA LAMA OLHO LODO LADO LAGO LAMA

Tom Zé


Qual o olho que vê melhor?

– O que voa.


Puseram sonífero nas turbinas do Supersônico. Agora mudo, não voa mais... Riscaram um fósforo nas cortinas do Megacênico. O mundo agora o vê por detrás... Ultracínicos nos queimam a língua. Retardam uns com extrema velocidade, enquanto revelam outros ultrajando vaidade...

Foto: Maíra Fróes

Enfim, para bons fins, necessito rapidamente de um novo canal de linguagem. Afinal, com que ‘Caras’ vou olhar pros meus filhos para lhes dizer que, realmente, nem tudo que se vê nessa vida é verdade?


“EM TERRA DE OLHO QUEM TEM UM CEGO . . . ERREI!”

tomaspaoni@hotmail.com www.blogtomas.zip.net www.booklink.com.br

Caótica Poética 2007  

Estética e linguagem são indissociáveis na constituição de poemas visuais, assim como na história de Tomás Paoni, onde ambas caminham juntas...